O protestantismo no Brasil e suas encruzilhadas

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O protestantismo no Brasil e suas encruzilhadas

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1. ANTONIO GOUVA MENDONA O protestantismo no Brasil e suas encruzilhadas ANTONIO GOUVA MENDONA professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie. 2. O ttulo deste artigo exige desde logo um esclarecimento preliminar sob pena de cair na confuso reinante quando se trata de estudar o campo religioso brasileiro sob qualquer ponto de vista. Nunca se viu uma diversidade religiosa to grande como a que se nota atualmente no Brasil. Para complicar mais ainda, a dinmica interna desse campo, que demonstra intensa itinerncia entre grupos religiosos, assim como as variaes numricas indicadas no ltimo censo (2000) apontam para a necessidade de se buscar conceitos mais atuais e capazes de estabelecer distncias e aproximaes entre os diversos gru- pos que disputam o espao religioso. Estamosdiantedoconceitodeprotestantismo brasileiro, usado sem maiores preocupaes pe- losprimeirosestudiososdoassunto.Entreeles,o respeitvel historiador francs mile G. Lonard que, estando no Brasil por dois anos (1948-49) como professor contratado pela Faculdade de A utopia s trabalha em prol do presente a ser alcanado, e assim o presente, sendo a ausncia dedistanciamento intencionadapara o m, estar, no nal,borrifadopor todososintervalos utpicos (Ernst Bloch, O Princpio Esperana). 3. REVISTA USP, So Paulo, n.67, p. 48-67, setembro/novembro 200550 Filosoa, Cincias e Letras da Univer- sidade de So Paulo, fez observaes e pesquisas que lhe permitiram publicar o seu O Protestantismo Brasileiro, hoje j na terceira edio (2002). Lonard, que publicou na Frana outros trabalhos sobre o protestantismo no Brasil, tambm autor da monumental obra Histoire Gnrale du Protestantisme, em trs volumes, a partir de 1961. No ltimo volume aparecem no- tas a respeito do Brasil. De certo modo, o conceitodeprotestantismobrasileiroganha legitimidade com Lonard para expressar o cristianismono-catliconoBrasil,embora j fosse usado por outros antes dele. Em 1973, com a publicao do livro Catlicos, Protestantes, Espritas por Cn- dido Procpio F. de Camargo, o conceito, includo entre duas outras religies (cat- licos e espritas), assume carter distintivo. Note-se aqui que os prprios protestantes, desde o incio de sua presena no Brasil, ainda no sculo XIX, preferiam o conceito evanglico.Bastamdoisexemplos:opri- meirojornalprotestantepublicadonoBrasil, que circulou de 1864 a 1892, chamou-se ImprensaEvanglica,comotambmaCon- federao Evanglica do Brasil, fundada em 1934 e extinta nos primeiros anos da dcada de 60 do sculo passado. Desde os primeiros tempos os cristos no-catlicos no Brasil se identicam como evanglicos, alis a auto-identicao oriunda mesmo desde os primrdios da Reforma conforme atestaohistoriadorMartinN.Dreher(1999, pp. 216 e segs.) (1). No fosse a diversidade confusa do campo religioso brasileiro, o conceito evanglico, hoje usado de modo universal pelos no-evanglicos, como a Igreja Catlica e a mdia, caberia perfeita- mente ao grupo cristo oriundo da Reforma do sculo XVI. Mas no cabe. O conceito traz consigo enorme confuso, a no ser para aqueles que, mesmo trabalhando com categorias cientcas, insistem em colocar sob a mesma categoria todos os grupos cristos no-catlicos. Assim, pergunta-se: o que mesmo isso que se chama protestantismo brasileiro? o mesmo que evanglico? e no . O conceito evanglico aplica-se parte dos cristos no-catlicos e no se aplica de maneiraadequadaaovastogrupodosassim chamados pentecostais e neopentecostais. claro que deixa de lado tambm todas as igrejas crists no romanas como as cha- madas em geral por orientais ou ortodoxas. Assim, quando se fala em protestantismo brasileiro vem logo tona a necessidade de definir, estabelecer o conceito com clareza. O que protestantismo e o que protestantismo brasileiro? Ainda, o que um protestante? O QUE PROTESTANTISMO? O protestantismo um dos trs prin- cipais ramos do cristianismo ao lado do catolicismo romano e das igrejas orientais ou ortodoxas. Essa categorizao, muito ampla e abrangente, a adotada por J. L. Dunstan (1980, p. 7). Justamente por sua amplitude, a categorizao desse autor deixa logo em aberto um problema: onde colocar o anglicanismo, hoje estendido por todo o mundo como uma comunidade que extrapola o Reino Unido? A Igreja da Inglaterra resulta, sem dvida, da Reforma Religiosa, mas, como se diz com freqn- cia, cou a meio caminho entre Roma e as igrejas protestantes, tanto luteranas como calvinistas. De fato, a ala propriamente dita anglicana recusa o ttulo de protestante. Desse modo, seria melhor estabelecer qua- tro categorias de igrejas crists mundiais: romana,ortodoxasouorientais,anglicanae protestantes. Embora a ala chamada Evan- glicadaIgrejaAnglicanasejasignicativa por se aproximar bastante dos protestantes em geral, creio no se justicar uma outra categoria, vez que o anglicanismo, apesar disso, mantm sua unidade. Interessa-nos agora a Reforma propria- mente dita. Em outro lugar (Mendona & Velasques Filho, 2002, , cap. 1) propus a diviso da Reforma em trs ramos: angli- cano, luterano e calvinista, ou reformado propriamente dito. Feita aquela ressalva quanto ao anglicanismo, os protestantes propriamente ditos so os luteranos e cal- 1 Como nos chama a ateno esse autor, no confundir com os evanglicos de vertente inglesa mais moderna que de- signam a ala conservadora do protestantismo contemporneo equeestosendoidenticados atualmente pelo neologismo evangelical. 4. REVISTA USP, So Paulo, n.67, p. 48-67, setembro/novembro 2005 51 vinistas que se espalham pelo mundo em numerosa diversicao, particularmente estes ltimos. Ento, protestantes seriam aquelas igrejas que se originaram da Refor- maouque,emborasurgidasposteriormente, guardamosprincpiosgeraisdomovimento. Essas igrejas compem a grande famlia da Reforma: luteranas, presbiterianas, meto- distas, congregacionais e batistas. Estas ltimas, as batistas, tambm resistem ao conceitodeprotestantesporrazesdeordem histrica, embora mantenham os princpios da Reforma. Creio no ser, por isso, neces- srio criar para elas uma categoria parte. Sointegrantesdoprotestantismochamado tradicional ou histrico, tanto sob o ponto de vista teolgico como eclesiolgico. Esses cinco ramos ou famlias da Reforma multiplicam-se em numerosos sub-ramos, recebendo os mais diferentes nomes, mas que, ao guardar os princpios fundantes, podem ser includos no universo do protestantismo propriamente dito. O QUE PROTESTANTISMO BRASILEIRO? Talvez a pergunta mais adequada seja esta: podemos falar em protestantismo brasileiro? Ou seria melhor falar em pro- testantismonoBrasilprecisamentequando a referncia recai sobre as igrejas acima mencionadas? Embora seja certo que as re- ligiesuniversais,comosoasprotestantes, sempre assimilam ou mantm traos das culturas locais, como me permitido falar em catolicismo brasileiro, por exemplo, o protestantismoquechegouaoBrasiljamais seidenticou com a culturabrasileira.Con- tinua sendo um protestantismo norte-ame- ricano com suas matrizes denominacionais e dependncia teolgica. Por isso, prero falar em protestantismo no Brasil e no emprotestantismobrasileiro.Omesmovale para o que talvez fosse exceo, isto , o luteranismo.Apesar de proceder de verten- tesgeogrcaseculturaisdiferentes,ambos os luteranismos brasileiros vinculam-se ao centro mesmo da Reforma Luterana, isto , a Europa alem. Por essas razes, quando se fala em protestantismo brasileiro, creio que se deve entender por protestantismo no Brasil. O QUE UM PROTESTANTE, O QUE SER PROTESTANTE? O grande e maior princpio da Reforma o da liberdade e est explcito no talvez menor dos livros de Martim Lutero (2) e mesmo de toda a literatura reformada. Diz Lutero que o cristo senhor livre sobre todas as coisas e no est sujeito a ningum, mas completa: um cristo um servo prestativo em todas as coisas e est sujeito a todos. Essa aparente contradio se resolve assim: o cristo livre para fazer e no fazer ou, ainda, o cristo no est debaixo de nenhuma mediao e se refere diretamente a Deus pela f, instrumento de sua salvao. A salvao individual e sua vida religiosa pautada exclusivamente pela Bblia cuja leitura direta e tambm no mediada. Como pontica Dunstan, o homem o centro de sua religio. Em suma, o protestante o homem que se sente liberto por Cristo, segue exclusi- vamente a Bblia como nica regra de f e prtica, cultiva uma tica racional de desempenho para contribuir para a glria de Deus e vive moralmente segundo os 10 mandamentos e os padres da moral burguesa vitoriana. A converso, que no perodo do Grande Despertamento (3) era mais propriamente uma reconsagrao vida devota, reajustava o indivduo ao modelo burgus vitoriano acompanhado da tica do trabalho apropriada ideologia do progresso. A preguia, a ociosidade e a falta de objetividade na vida, assim como desregramentos sexuais e desorganizao familiar, eram pecados graves para os vi- torianos (4). O protestantismo, principal- mente o calvinismo posterior, privilegiou as relaes sociais e econmico-polticas no sentido horizontal, buscando pr de 2 Da Liberdade Crist, escrito em 1520 (Lutero, 2004). Ver tambm: Altmann, 1994. 3 Grande Despertamento ou Grandes Avivamentos desig- nam movimentos esparsos de renascimento de vitalidade religiosa que ocorreram na Amrica do Norte a partir dos primeiros anos do sculo XIX. 4 Quantoaissomuitointeressan- te ver: Gay, 2000 e 2005. 5. REVISTA USP, So Paulo, n.67, p. 48-67, setembro/novembro 200552 lado todo tipo de dependncia piramidal ou vertical. Em suma, uma desconana permanente de monarquias absolutas em favor de repblicas democrticas. Isso ga- nhou muita fora aps a independncia das colnias norte-americanas e da expanso protestante durante o sculo XIX (5). Nonecessrioquenosalonguemosna discusso a respeito da chamada ideologia norte-americanaprotestantedainter-relao ntima entre evangelizar e civilizar. Outros autores j trataram dessa questo. Contu- do, oportuno lembrar que essa ideologia no exclusiva do protestantismo porque o mesmo papel que os Estados Unidos se propunham,eaindasepropem,deexpandir o seu prprio modelo civilizatrio, isto , o reino de Deus terreno, j empolgava, na oratria de Antonio Vieira, o velho Por- tugal seiscentista. No obstante, h que se estabelecer as diferenas entre os dois modelos: o reino de Deus por Portugal era um reino caracterizado pelo modelo de cristandade,verticalemonrquico,aopasso queonorte-americanoera,e,democrtico republicano, horizontal e contratual. Em suma, o protestante um indivduo que professa uma religio individual, de conscincia, que se inspira na interpretao direta e pessoal da Bblia, pauta suas aes na tica racional do trabalho e na moral burguesa vitoriana. Sua racionalidade pro- cura manter a distncia a interferncia do extraordinrionocotidiano,assimcomosua individualidadeosituanoslimitesmnimos do poder sacerdotal ou eclesistico. uma religio quase secularizada e se aproxima, mesmo quando institucionalizada, de uma religio civil. As igrejas so comunidades de f e aprendizado religioso mtuo. A disciplina, que se prende mais a questes de tica, principalmente de moral, tende a se tornar elstica na medida em que, no gradiente seita-igreja, a comunidade se aproxima mais desta. Este o modelo, por que no dizer tipo ideal,doprotestantehistricooutradicional, ao qual se aplica bem, como j foi dito, o conceito de evanglico, mas que implica diculdadesquandogeneralizadoparatodos os cristos no-catlicos. Este artigo trata exclusivamente do grupo de protestantes ou evanglicos que abrange aquelas igrejas j mencionadas, tanto as do chamado protestantismo de misso ou converso, quanto as do pro- testantismo de imigrao. Propomo-nos a analisar, dentro dos limites impostos, as idas e vindas desse tipo de protestantismo no Brasil em suas relaes histricas e dialeticamente relacionais com o universo polticobrasileiroeinternacionalduranteos cerca de 180 anos de sua presena no pas. Tomaremoscomopontodeintersecohis- trica a chamada Conferncia do Nordeste, realizada no Recife (PE), em 1962, ltimo momento de convergncia identitria desse protestantismo antes do seu isolacionismo denominacional. No sero levadas em conta as questes e crises internas que, por vezes, agitaram as igrejas, mas exclusiva- mente como elas reagiram ao impacto dos momentos histricos externos. Propomos a seguinte periodizao: de 1824 a 1916, perodo de implantao do protestantismo no Brasil; de 1916 a 1952, desenvolvimento do projeto de coopera- o ou pan-protestantismo e a chegada de um bando de teologias novas; de 1952 a 1962, crise poltica e religiosa, ensaio de politizao do protestantismo e impacto do pentecostalismo; de 1962 a 1983, perodo de represso no interior do protestantismo, darevoluoneopentecostal,fortalecimento do denominacionismo e o isolacionismo das igrejas. PERODO DE IMPLANTAO: DE 1824 A 1916 At o nal do sculo XIX todas as de- nominaes protestantes tradicionais ou histricas estavam estabelecidas no Brasil, sendo a ltima a Igreja Protestante Episco- pal, mais adiante conhecida simplesmente por Igreja Episcopal. Dada sua origem anglicana, hoje se chama Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (6). No sistema de classicao ainda adotado, os episcopais 5 Bastaria, neste ponto, assinalar o testemunho da missionria educadora metodista Martha Watts(1881-1908),fundadora do Colgio Piracicabano, em carta de abril de 1890, logo aps a proclamao da Repblica: O Brasil est indo para frente, e devemos seguir com ele, carregando a religio do Evangelho [] (Mesquita, 2001, p. 90). 6 Ver o artigo de Calvani, O Anglicanismo no Brasil, neste Dossi. 6. REVISTA USP, So Paulo, n.67, p. 48-67, setembro/novembro 2005 53 anglicanos so includos entre as igrejas do chamado protestantismo de misso ou conversoqueenglobacongregacionais(7), presbiterianos, metodistas e batistas. Toda- via,nosepodedeixardeladoofatodeque, na verdadeira origem, os episcopais angli- canos ligam-se tradio do anglicanismo precocemente instalado no Brasil ainda no perodo que antecedeu ao Imprio, isto , aps os tratados feitos com a Inglaterra por D. Joo VI em 1810 (Aliana e Amizade e Comrcio e Navegao). A partir de 1820, os ingleses passaram a realizar cultos no templo construdo no Rio de Janeiro e, mais tarde, em outras partes do Brasil, notada- mente em So Paulo, pelos empregados da Estrada de Ferro que se construa entre Santos e Jundia (Ribeiro, 1973). Assim considerados, os ingleses angli- canos constituem o primeiro grupo do cha- madoprotestantismodeimigrao,embora com a ressalva j feita de que eles mesmos no se consideram protestantes (seria me- lhor coloc-los no conceito generalizante de no-catlicos). Outro grupo importante, completamente esquecido no sistema de classicao, o composto pelos chama- dos confederados norte-americanos que se estabeleceram principalmente em Santa Brbara (SP)logoapsaGuerraCivil.Esses imigrantes, principalmente procedentes do Sul dos Estados Unidos, eram compostos por protestantes de praticamente todas as denominaesnorte-americanas.Fundaram a cidade de Americana e construram sua igrejacomum.Emboraelesmesmosnoob- jetivassem a propagaodesuafreligiosa, de modo indireto contriburam para isso, principalmente porque provocaram a vinda de pastores para atend-los que acabaram, alguns, por exercer atividade missionria entre brasileiros. Entre eles, presbiterianos do Sul dos Estados Unidos que se estabele- ceram em Campinas (SP), metodistas que ampliaram suas atividades para alm dos limitesdoterritrioconfederadoebatistas que acabaram fundando sua primeira igreja emSalvador(BA)recebendocomoprimeiro membro um ex-padre brasileiro. curioso que a ao civilizatria que asmisses protestantespretendiamrealizar no Brasil acabou sendo mais expressiva atravs de quem no tinha diretamente essa inteno. De fato, signicativa a contri- buio dos confederados que emigraram para a regio de Santa Brbara, tanto para a agricultura como para a indstria. H j expressiva literatura a respeito que merece ser levada em conta quando se estuda imi- grao e religio no Brasil. Deixamos para a Bibliograa a relao dos livros que tratam do assunto. Mas tambm curioso o fato de queathojedescendentesdaquelesconfede- rados ainda se renem quatro vezes por ano nas cercanias da hoje Santa Brbara dOeste (SP)pararelembrarosvelhostempos.Numa pequenacapela,pertodeumantigocemitrio, em meio a um canavial, cantam os velhos hinos dos avivamentos religiosos do sculo XIX, ouvem o sermo de costume e parti- cipam de um jantar com os pratos tpicos do Velho Sul dos Estados Unidos. Assim narram, pitorescamente, os autores do mais recente livro publicado sobre a presena dessesimigrantesnorte-americanosnoBrasil (Dawsey e outros, 2005, p. 37). Assim, ao lado dos imigrantes protes- tantes alemes que comearam a chegar ao Brasil em 1824 e os anglicanos ingleses queosantecederam,necessriocolocaros confederadosnorte-americanosque,apesar de no terem criado uma igreja prpria, contriburam para a presena protestante no Brasil. Ainda, a respeito do protestan- tismo de imigrao, oportuno mencionar os grupos que vieram j no sculo XX e que ainda mantm cultos segundo suas tradies denominacionais: reformados hngaros, holandeses, franceses e suos, batistas russos e letes, e os recentes pres- biterianos chineses e coreanos. So grupos que j merecem estudos parte. Mas voltemos ao perodo histrico em questoamdetentarmospontuarosistema de ideais religiosos que o caracterizaria. Neste ponto, o pensamento bsico deve ser procurado no grupo do chamado protestan- tismo de misso ou converso, pois que foi este que se inseriu, na medida do possvel, na sociedade brasileira e esteve mais perto, emboracomprudncia,dasinstnciaspolti- cas.Osimigrantesalemes,nointeressados 7 Asigrejascongregacionaische- garam ao Brasil em 1858 com omissionrioRobertReidKalley. Os congregacionais originam- se principalmente da Esccia, quando grupos aderentes da Reforma calvinista lutavam pela separao entre igreja e estado (no-conformistas ou independentes). Ver: Cardoso, 2001. 7. REVISTA USP, So Paulo, n.67, p. 48-67, setembro/novembro 200554 empropagaraf,limitaram-seinicialmente prtica da piedade e do culto. A no ser os congregacionais proce- dentes da misso de um escocs, todos os demais protestantes de misso originaram- se do protestantismo norte-americano. Como j tentamos demonstrar em outro trabalho (Mendona, 1995, parte, cap.1), o movimento religioso norte-americano ocorrido no sculo XIX conhecido por Grande Despertamento produzira um sis- tema teolgico mais ou menos uniforme que se superpunha s particularidades de- nominacionais. Resumidamente, esse sis- tema consistia em dois pontos principais: o princpio da converso, que se apoiava na regenerao, ou novo nascimento, que tinha como resultado a salvao individual (Graham, 1973, cap. 11), e a devoo tica do trabalho assim como disciplina moral. Duas alavancas para a ideologia do progresso, como j foi dito. Mas h ainda outro fator de ordem teo- lgicaque,emboracontraditrionointerior do protestantismo, veio marcar fortemente o protestantismo no Brasil. A controvrsia a respeito da abolio do sistema escravista abalara as igrejas americanas e provocara cises no interior de algumas delas, levan- do-as a se dividir entre norte e sul. Surgiu, assim, entre os conservadores, a idia de no comprometer a igreja com a questo escravista. A soluo foi racionalizar a escravido atravs de uma doutrina nova que cou conhecida por Teologia da Igreja Espiritual.Combasenopreceitobblicodai a Csar o que de Csar e a Deus o que de Deus, a Teologia da Igreja Espiritual insistiaemqueigrejaimportavamasques- tes espirituais e as materiais e polticas ao Estado (Mendona, 1995, p. 59). Buscando espao na sociedade brasilei- ra,oprotestantismo,emboracriticandocom insistncia a religio ocial, manteve-se o quanto possvel afastado de questes de ordem social e poltica, sendo parcos os pronunciamentos a respeito da abolio da escravido. Parece ter contribudo para isso a composio do corpo missionrio que punha lado a lado nortistas e sulistas. Por isso, causou mal-estar entre eles um folheto publicado por um pastor presbi- teriano brasileiro contrrio escravido (Pereira, 1886). O fato que a doutrina da Igreja Espiritual permaneceu distintiva no protestantismo no Brasil distanciando-o sempre das atividades polticas e sociais. Era muito comum entre os protestantes a expresso: o crente no deve se meter em poltica. Parece tambm ter contribudo bastante para essa atitude o pr-milena- rismo que se instalou nele, expresso num messianismo de espera que tornava o el protestante indiferente diante das coisas deste mundo (Mendona, 2001) . Nesseperodo,osentimentonacionalista que envolvia alguns dos mais inuentes pensadores e polticos brasileiros, como EduardoPrado(1860-1901),principalmen- teemAIlusoAmericana(1893),provocou velados conitos entre os protestantes de origem missionria norte-americana. Em- bora velados nos princpios, os conitos se tornaram evidentes entre os presbiterianos, particularmente em dois momentos. O primeiro foi a extino da Imprensa Evan- glica, em 1892. Fundado em 1864, esse jornal,quecirculoudurantevinteeoitoanos, alcanandoinclusiveouniversocatlico,foi encerrado por ordem das misses presbite- rianas que, alm de fech-lo, negaram aos brasileiros o direito de fundar outro com o mesmo nome. Sob a camuagem de desen- contros com a maonaria, o nacionalismo tambm provocou o primeiro cisma entre protestantes no Brasil que deu origem, em 1903, Igreja Presbiteriana Independente do Brasil sob o signo do antimaonismo. O protestantismo, valendo-se das di- culdades que enfrentava a Igreja Catlica por causa de fatores como o regalismo e o galicanismo, que buscavam o afastamento cada vez maior da centralidade vaticana, assim como de conitos com a maonaria, teve, em nmeros absolutos, crescimento signicativo. Os presbiterianos foram os que avanaram mais at os vinte anos sub- seqentes Proclamao da Repblica, quandocomearamaperderparaosbatistas. Ganharam espao tambm na atividade educacional em que investiram bastante, o que causou tambm diculdades nointerior 8. REVISTA USP, So Paulo, n.67, p. 48-67, setembro/novembro 2005 55 dasprpriasigrejas.Paramuitosprotestantes, a prioridade era converter pessoas ao pro- testantismo e promover o crescimento das igrejas; para outros, era necessrio educar para civilizar, causa que era bvia na men- talidade missionria norte-americana. Um protestantismo entusiasta e em desenvolvi- mento,masjcomcrisesinternas,caracteriza esseprimeiroperodo.Crisesprincipalmente geradas por mentalidades diferentes e com prioridades divergentes. PROJETO DE COOPERAO E UNIONISMO: DE 1916 A 1952 Momento histrico importante para o protestantismo no Brasil e na Amrica Latina foi o Congresso da Obra Crist na Amrica Latina, realizado na Zona do Canal do Panam, em fevereiro de 1916. Esse congresso, conhecido simplesmente por Congresso do Panam, foi uma reao Conferncia Missionria de Edimburgo, Esccia, realizada em 1910. Essa confern- cia,inuenciadapelaamplitudecolonialista da Inglaterra, rmou o princpio de que as misses s deveriam ter como objetivo o mundo no-cristo, o que exclua as reas ocupadas pela Igreja Catlica e punha em xeque todo o arcabouo missionrio pro- testante na Amrica Latina. Mas a histria, muitas vezes irnica, pregou mais uma vez uma de suas peas. O Panam, que pretendia rmar o princpio de que era necessrio fazer misso tambm nos pases catlicos por razes de ordem teolgica, no contava com outras razes, estas de carter mais forte porque geradas no mbito poltico internacional, e acabou provocando um impasse dentro do prprio protestantismo latino-americano. A polti- ca do pan-americanismo, provocada pelo presidente norte-americano James Monroe (1817-25), no desejava desagradar os pases latino-americanos, todos catlicos, alguns ainda mantendo a ligao Igreja- Estado. Assim, a pauta do congresso, toda preparadanosEstadosUnidos,praticamente manteve a poltica de Edimburgo ao decidir pelaprudnciaemrelaoIgrejaCatlica. A mensagem nal do congresso recomen- dou que a ao missionria deveria buscar reas no atendidas pela Igreja Catlica, principalmente entre os ndios. O pastor e educador presbiteriano bra- sileiro Erasmo Braga (1877-1932), consi- derado um dos pioneiros do movimento ecumnico, foi encarregado de resumir e publicar o pensamento ocial do congres- so, isto , o movimento pela unidade dos cristos latino-americanos, o que fez em seguida escrevendo a obra emblemtica doeventoPanamericanismo,AspectoReli- gioso, publicada em Nova York (1916) em portugus e espanhol. A idia de unidade dos cristos, aqui entendida como unidade dos protestantes, foi posta em ao pela organizao, em 1917, da Comisso Bra- sileira de Cooperao. Fizeram parte da comisso presbiterianos, presbiterianos independentes,metodistas,congregacionais eepiscopais,eoobjetivoeraproduzirlitera- tura religiosa em portugus, uma imprensa e livraria no Rio de Janeiro, uma revista da famlia, uma universidade protestante e um orfanato (Pierson, s/d). Esse ambicioso projeto, com fundos que excediam um milho de dlares, era inteiramentesubsidiadopelasigrejasnorte- americanas. Parte do projeto foi realizada, principalmente a partir da fundao da Confederao Evanglica do Brasil, em 1934, embora j houvesse fracassado o Se- minrioUnidodoRiodeJaneiro(1918-33), talvez o que viria ser semente da sonhada UniversidadeProtestante.Sempreempauta a disputa entre brasileiros e missionrios norte-americanos. Contudo, sob a tutela da confederao, foram publicados vrios textosdeinstruoreligiosa,principalmente revistasparaasescolasdominicaismediante trabalho exaustivo do educador Erasmo Braga. Buscava-se a unidade dentro da diversidade do protestantismo. Defato,durantemuitosanosfoipossvel participar de cultos e escolas dominicais da maioria das igrejas no Brasil portando a mesma verso da Bblia, o mesmo livro de hinos e a mesma revista de escola domini- 9. REVISTA USP, So Paulo, n.67, p. 48-67, setembro/novembro 200556 cal. Outro sonho era chegar a unir em uma s todas as igrejas protestantes no Brasil. O grande defensor desse sonho em viglia foi o auxiliar de Erasmo Braga, o pastor presbiteriano independente Epaminondas MelodoAmaral(1893-1962),queescreveu o livro clssico do chamado unionismo, O Magno Problema (1934), em que, entre outras coisas, critica o protestantismo bra- sileiro por ter copiado o modelo norte-ame- ricano com suas inmeras denominaes. O unionismo, como a educao teolgica comum, fracassou. No obstante, a reunio das igrejas protestantes na Confederao Evanglica chegou a dar alguns resulta- dos, ao menos na representatividade dos protestantes em algumas instituies bra- sileiras, como aconteceu com a nomeao de capeles para servir ao Exrcito durante a Segunda Guerra Mundial. O perodo, com a cooperao e muitas das idias do unionismo, promoveu a aproximao entre as igrejas no Brasil. Sobrelevando as diferenas teolgicas, as igrejas passaram a desenvolver programas evangelsticos visando ao prprio cresci- mento a partir de uma mensagem religiosa unicada em torno da converso individual e mudana de vida, muito semelhantes ao Grande Despertamento havido nos Estados Unidos no sculo anterior. Substitua-se o sermo tradicional, ou a usual homilia, pela conferncia religiosa. Um car- ter mais secular envolvia as reunies de culto. Para essas conferncias as igrejas envolviam os grandes pregadores da poca, mais pelos dotes oratrios do que por suas tradies denominacionais. Alguns nomes estrangeiros como Edwin Orr e Stanley Jones percorreram as igrejas fazendo con- ferncias. Destacaram-se brasileiros como os batistas Rubens Lopes e Rafael Gioia Martins, os presbiterianos Miguel Rizzo Jr. e Jos Borges dos Santos Jr. e os metodistas Almir dos Santos e Natanael Inocncio do Nascimento. Reproduo 10. REVISTA USP, So Paulo, n.67, p. 48-67, setembro/novembro 2005 57 Dentreessesclssicospregadoresbrasi- leiros, herdeiros do melhor plpito cristo, um deles merece destaque porque se dife- rencia dos demais quanto direo de sua pregao:enquantoosoutrosseguiamatra- dio do Despertamento, que procurava trazer convertidos para o interior da igreja, Rizzo empenhava-se em levar a f religiosa queles que normalmente relutavam em entrar num templo protestante. Para isso, usava espaos no sagrados como teatros e sales de conferncias em geral. Fundou tambmoInstitutodeCulturaReligiosaque publicou revistas com o mesmo objetivo. Suaproduoliterrio-religiosavisavacha- mar a ateno para o Jesus varo-modelo e no teologizado, muito semelhante ao descrito pelos telogos do protestantismo liberal que preconizavam o seguir a Je- sus como essncia do ser cristo. No injusto pensar que o ideal de Rizzo seria, embora com muita antecipao no Brasil, o de um cristianismo anterior religio. Essa hiptese,paraserdemonstrada,demandaria um estudo mais aprofundado de sua obra, mas no deixa de ser atraente. A tolerncia, e mesmo respeito, para com o catolicismo latino-americano por parte do Congresso do Panam gerou forte reao por parte de alguns lderes brasilei- ros, ambos presbiterianos. Eduardo Carlos Pereira, respeitado gramtico e pastor da ento recm-criada Igreja Presbiteriana Independente, e lvaro Reis, notvel ora- dor sacro e pastor da Igreja Presbiteriana no Rio, encabearam sria oposio ala mais aberta do congresso, cujo principal representante foi o tambm brasileiro e presbiteriano Erasmo Braga. Eduardo Carlos Pereira, cuja moo contrria poltica do pan-americanismo religioso sequer entrara na pauta do con- gresso, publicou em 1920 o livro mais polmico contra a Igreja Catlica: O Pro- blema Religioso da Amrica Latina, com o subttulo Estudo Dogmtico Histrico. Erudito, crtico e por vezes muito cido, Pereira conclui o livro grafando em desta- que:foradeRoma,dentrodocristianismo. Falecendo em 1923, Pereira por pouco no viu a volumosa e tambm erudita, assim comocida,rplicadojesutaLeonelFranca publicada no mesmo ano: AIgreja, a Refor- ma e a Civilizao. Adouta polmica durou alguns anos tendo, de um lado, Franca, e de outro, vrios oponentes que assumiram o lugar de Pereira, todos presbiterianos. Pastores de outras denominaes tambm ajudaram a incrementar o debate atravs de artigosemrevistasejornais.Oconitoentre a religio hegemnica e o protestantismo emergente, de incio limitado disputa por is e territrio, agora guindara o plano da erudio histrica e teolgica No interior das denominaes, dois outros eventos histricos ocorreram nesse perodo, ambos tendo como motivo as relaes entre nacionais e missionrios es- trangeiros.Em1925,osbatistasbrasileiros, atravs do movimento conhecido como QuestoRadical,obtiveramparcialauto- nomia na gesto de fundos, movimento que prosseguiusemprenadireodaautonomia completa e de maneira complicada, dado o princpio batista da autonomia absoluta das igrejas locais. Por esse princpio, acordos de cpula, sejam atravs de comisses ou convenes,noasobrigamnecessariamen- te (Pereira, 1982, cap. 12; Reily, 2003, pp. 182 e segs.). Ainda dentro do contexto do movimentonacionalista,aIgrejaMetodista do Brasil obteve sua autonomia em 1930 (Josgrilberg, 1998). No podemos encerrar esse perodo, muito rico em mudanas no protestantismo mundial, especialmente no norte-ameri- cano, sem mencionar, embora em traos largos, algumas de suas repercusses no Brasil. Um desses movimentos foi o do Evangelho Social, que se liga diretamente ao pastor batista norte-americano Walter Rauschenbusch (1861-1918). Ligado ao protestantismo liberal, Rauschenbusch, apsestudosnaAlemanha,desenvolveuseu ministriopastoralentreimigrantesalemes numa das reas mais pobres de Nova York, e entrou num debate sobre os direitos das classes trabalhadoras. Convencido de que o pecado era tanto social como individual, talvez mais social, Rauschenbusch aban- donou, como os liberais, toda teologia metafsica em favor de uma teologia de- 11. REVISTA USP, So Paulo, n.67, p. 48-67, setembro/novembro 200558 dicada ao reino de Deus neste mundo em lugar de uma meta ultraterrena. Traos do marxismo, sem dvida, esto presentes no pensamento do Evangelho Social quando, de modo mais direto, o protestantismo passa a pensar tambm nas relaes entre os indivduos. O Evangelho Social, enquanto corrente teolgica, foi bloqueado no Brasil. Contu- do, um dos seus projetos relativos ao reino de Deus, chamado nos Estados Unidos de settlementhouses,oucentrossociais,surgiu nas igrejas locais maiores visando ajudar as pessoas de seus bairros atravs de servios sociais, recreao, bibliotecas, orfanatos, creches, hospitais e assim por diante. Al- gumas dessas instituies sobreviveram aos seus idealizadores e suas idias. Hoje, o Evangelho Social visto como grande heresia, pois o reino de Deus voltou a ser visto como algo para alm da histria. O clssico livro do Evangelho Social foi Nos Passos de Jesus (In His Steps), de Charles M. Sheldon, escrito em 1896. Consta ser um dos livros mais lidos no mundo e labora em torno da pergunta: em cada ao como agiria Jesus? Se o Evangelho Social foi uma das ex- presses diretas do liberalismo teolgico protestante,ofundamentalismosurgiucomo uma reao tambm direta acolhida que o liberalismo dava aos preceitos e mto- dos da cincia moderna, principalmente inuncia crescente do evolucionismo. O ponto de partida do fundamentalismo foi dado na clebre Conferncia Bblica de Nigara, em 1878. Em poucas palavras, o fundamentalismo se dene pela defesa da ortodoxia protestante a respeito da Bblia como infalvel e acima de qualquer rein- terpretao que parta da cincia moderna, principalmente do evolucionismo. O fun- damentalismo institucionalizou-se como movimento internacional aps a Segunda Guerra Mundial com a fundao do Con- selho Internacional de Igrejas Crists, em 1948, em Amsterd, sob a liderana do pastor presbiteriano norte-americano Carl McIntire (1906-2002). Voltando-se princi- palmente contra o movimento ecumnico, que tambm se institucionalizava, o ICCC (International Council of Christian Chur- ches), pela voz de seu fundador, chamado pelos seus adversrios de apstolo da discrdia, promoveu crises internas nas igrejas. As brasileiras, mormente as pres- biterianas, no caram imunes pregao de McIntire, que esteve no Brasil ao menos duasvezes,eacabouinuindonacriaode umaFederaodeIgrejasFundamentalistas que publicou durante bom tempo um jornal intitulado O Presbiteriano Bblico. O curioso que na mesma semana e na mesma cidade de Amsterd fundava-se o ConselhoMundialdeIgrejas(WCCWorld Council of Churches), fruto de longa expe- rincia de convvio entre cristos de vrias tradies e denominaes. Esse convvio, sem dvida sob a inspirao do liberalismo da chamada Escola da Histria das Reli- gies, s aguardou o trmino da guerra para Reproduo 12. REVISTA USP, So Paulo, n.67, p. 48-67, setembro/novembro 2005 59 8 Wasp: white, anglo-saxon and protestant. ganharcorpoeinstitucionalizar-se.Umdos grandes inspiradores do movimento ecu- mnico foi o arcebispo luterano da Sucia Nathan Sderblom (1866-1931), professor de histria da religio em Upsala. Sder- blom conseguiu ultrapassar sua formao evanglica avivalista ao encontrar-se com a teologia liberal protestante e, no seu ideal de unio dos cristos, ultrapassou ambas as correntes.Defato,omovimentoecumnico, ento institucionalizado, pretendia estar acimadas divises tantoeclesisticascomo teolgicas dos cristos ao rmar-se sobre osprincpiosessenciaisdocristianismoque pudessem ser aceitos por todos. Nesse ponto, estava armado todo o cenrio confuso e contraditrio do protes- tantismo no Brasil.Vrias alternativas, ver- dadeiras encruzilhadas, se lhe ofereceriam a partir dos anos seguintes. PERODO DE 1952 A 1962: A CHEGADA DE UM BANDO DE TEOLOGIAS NOVAS Entre as diversas encruzilhadas do protestantismo no Brasil, esse perodo de dez anos representa de fato a grande e de- cisiva encruzilhada desse protestantismo, o momento decisivo em que ele poderia ter assumido a realidade brasileira e passado a participar da histria do pas. Fatores his- tricos, muitos de natureza internacional, interromperam o processo, que culmina em 1962 com a Conferncia do Nordeste e tem seu melanclico m nos anos 70. No perodo anterior, que transcorre em suamaiorpartenaEraVargas,caracterizado pelo movimento unionista, o nacionalismo protestante girou em torno de movimentos de autonomia administrativa das igrejas, mas no abriu caminhos para a autonomia cultural ou, melhor dizendo, para que seu rosto se voltasse para o lado brasileiro. Exemplo disso foi a literatura destinada educao religiosa, unicada e usada pe- las igrejas participantes da Confederao Evanglica. No obstante ter a redao do material cado sob a responsabilidade de pastores brasileiros, como o competente educador Erasmo Braga, o modelo vinha dos Estados Unidos e era aqui traduzido e adaptado. Era incongruente com a reali- dade brasileira porque retratava o padro burgus da cultura norte-americana. As crianas,principalmente,viameaprendiam na igreja coisas que pouco ou nada tinham a ver com suas vidas, embora as casas dos protestantes, em geral de classe mdia ou em ascenso, ostentassem traos sensveis de algo prximo ao wasp (8). Joo do Rio (1976, p. 87) parece ter sido o primeiro a observar e registrar em suas deliciosas cr- nicas esse trao curioso do protestantismo ainda incipiente no Brasil. Autonomia po- ltica (poder), mas no cultural, era o que, de fato, as igrejas ostentavam. Vargas,depostoem1945,logoapsom daguerra,deixaraumaheranamescladade alguns avanos, como as leis trabalhistas, o incio da industrializao, bem como um atraso poltico que ameaava o pas com a volta das mazelas da Primeira Repblica. Embora a Constituio de 1946 fosse re- conhecida como boa, grandes mudanas sociais exigiam reformas econmicas e polticasdebase.Novaconscinciapoltica brota entre intelectuais e jovens estudantes que passam a clamar pelas chamadas ento reformas de base. O nacionalismo volta com muita fora e exige um desenvolvi- mento econmico e social autnomo. A in- dustrializaoeoconseqentecrescimento das cidades geram tenses entre as classes mdias rurais e urbanas, ao mesmo tempo em que fazem aumentar a pobreza nas pe- riferias das grandes cidades. Esse cenrio, propcio para uma profunda revoluo so- cial, iria afetar muito de perto, parece que pelaprimeiravezemnossahistria,oquadro religioso incluindo o protestantismo. O protestantismo, j em sua terceira gerao no Brasil, formara em seu seio uma juventude burguesa intelectualizada pelo acesso s universidades que foram surgindo no perodo anterior. Treinados para liderana em suas igrejas, esses jo- vens comearam a ter logo parte ativa nos 13. REVISTA USP, So Paulo, n.67, p. 48-67, setembro/novembro 200560 quadros estudantis que formavam os cen- tros acadmicos nas escolas superiores e, assim, passaram a ver a realidade sob outro ngulo,oumelhor,voltariamsuasfacespara o mundo real. Perceberam o quanto suas igrejas estavam alheias ao que se passava fora de suas portas. Passaram a falar outra lngua e se abriu um vazio entre eles e as lideranas eclesisticas. nesse cenrio que surge o bando de teologias novas (9) que atinge primeiro o Seminrio Presbiteriano do Sul, em Cam- pinas (SP), e se alastra por outros em pouco tempo.Ao mesmo tempo em que uma nova realidade histrico-social se abria para os jovens leigos das igrejas, aragens frescas do pensamento teolgico passaram a entrar pelas janelas dos seminrios. A histria do ensino de teologia nos seminrios brasileiros, talvez com exceo dos de tradio luterana europia, mostra- va uma prtica repetitiva de segunda mo com base em manuais clssicos de teologia metafsica. Frmulas frias e distantes. Nos seminrios presbiterianos, por exemplo, circulavam os manuais de A. B. Berkhof, de 1933, e o deA. H. Strong, de 1907, o que deveria ocorrer tambm em outros. Em 1952, chega ao Brasil e foi para o Seminrio Presbiteriano do Sul, em 1953 o missionrio norte-americano Richard Shaull (1919-2002) para assumir um pos- to no corpo de professores. Ento com 33 anos de idade, Shaull j se envolvera com o movimentoestudantilatravsdaFederao Mundial de Estudantes Cristos (Fumec) em sua 1a Conferncia Latino-Americana, realizada em So Paulo, em 1952.AFumec dedicava-se evangelizao de jovens universitrios e ao estudo da Bblia em profundidadeecujafdeveriaexpressar-se no meio das lutas sociais (Shaull, 2003, p. 94).Encontra-secomopastorpresbiteriano Jorge Csar Mota, que dirigia a incipiente UnioCristdeEstudantesdoBrasil(Uceb), e vai, durante os anos seguintes, exercer forte inuncia nesse organismo. Shaull, como ele mesmo diz em suas memrias, acreditava na potencialidade desse mo- vimento como resposta nova gerao de protestantes ansiosos para aprofundar sua f e encontrar seu caminho no mundo. Shaull foi alm, dialogando com a UNE (Unio Nacional de Estudantes) e com as UEEs (Faria, 2002, p. 105). Estavaaalideranaintelectualeprtica que os jovens protestantes brasileiros de- sejavam. Quanto ao pensamento teolgico, Shaull introduziu seus alunos no mundo ento desconhecido da teologia europia, pensamento produzido no turbilho da guerra e do ps-guerra. O principal nome que surge no cenrio seria o do reformado Karl Barth (1886-1968), tido como o maior telogo do sculo XX. Sua obra, conhecida por teologia dialtica ou teologia da Pa- lavra de Deus, posteriormente englobada sob o ttulo mais geral de neo-ortodoxia, apontava para a ao contnua de Deus na histria e com a qual o homem devia colaborar. A leitura de Barth, notvel por sua oposio ao nazismo, representava, no ps-guerra, um apelo aos cristos para que superassemoconformismoeavanassemna direo da construo de um mundo justo. Mais ou menos na mesma linha, passaram a circularoutrostelogoscomoEmilBrunner (1889-1966) e Rudolf Bultmann (1884- 1976).Oquedespertoumaispaixoentreos estudantesdeteologianoBrasilfoiDietrich Bonhoeffer (1906-1945), enforcado pelos nazistas em um campo de concentrao nos ltimosdiasdaguerra.Bonhoeffer,emsuas famosas cartas escritas da priso, reetia sobre a possibilidade de ser cristo num mundo secularizado, superando a religio e mesmo a igreja. Esse pensamento iria avanar pela dcada seguinte com o ttulo genrico de Teologia Radical. RichardShaull,almdelevarachamada teologia moderna para o ambiente em que atuava, ele mesmo passou a pr em prtica uma teologia da ao e no estilo aberto e ecumnico. Shaull aponta para a natureza dinmica de Deus e para o fato de que sua atividade na histria estava prosseguindo rumo a um alvo. Essa postura de Shaull foi logo vista como uma crtica e um desao s igrejas para que sassem da inrcia e do conformismo e tomassem parte e responsa- bilidade diante de um mundo em mudana. Passou a ser incmodo. 9 Referncia expresso um bando de idias novas usada por Joo Cruz Costa em Con- tribuio Histria das Idias no Brasil. 14. REVISTA USP, So Paulo, n.67, p. 48-67, setembro/novembro 2005 61 A inuncia de Shaull sobre estudantes universitrios e alunos de seminrios deu como resultado um distanciamento entre a juventude das igrejas, insatisfeita com a maneira como elas se comportavam perante ochamadoestadorevolucionriodoBrasil, easautoridadesquereceavamsubverter-sea disciplinaeclesistica.Mas,mesmoassim,o Setor de Responsabilidade Social da Igreja, rgo da Confederao Evanglica, pros- seguia em suas atividades, principalmente sob a inuncia da Segunda Assemblia do Conselho Mundial de Igrejas realizada em Evanston, Estados Unidos, em 1954. AConfernciadeEvanstonpraticamen- te acirrou a crise nas igrejas brasileiras, principalmente porque participaram dela representantes das igrejas russas, o que serviu para que o Conselho Mundial de Igrejas fosse acusado de estar se abrindo paraocomunismo.Desabrochavaoconito entre o fundamentalismo representando pelo Conselho Internacional de Igrejas Crists e o ecumenismo representado pelo Conselho Mundial de Igrejas, com intensos reflexos nas igrejas brasileiras. Mesmo assim, o Setor de Responsabilidade Social da Igreja realizou trs reunies de estudos que antecederam a Conferncia do Nordes- te, em 1962. Em suma, o perodo mostra progressiva politizao da juventude das igrejas protestantes. Outro impacto que as igrejas sofreram no perodo considerado foi a exploso pentecostal no incio dos anos 50. A in- dustrializao e o crescimento das cidades decorrente da migrao campo-cidade provocaram, ao mesmo tempo, desajustes sociais, bem como certo descompromisso dos migrantes em relao s suas igrejas de origem. A migrao geogrca trouxe consigo uma migrao religiosa em busca de religies mais prticas e que tivessem a ver com o cotidiano das pessoas. Aexplosopentecostaltevecomoponto de partida o movimento de tendas de cura divina promovido pela chamada Cruzada Nacional de Evangelizao que alcanou o pas todo. Foi um movimento religioso tipicamente urbano que comeou em So Paulo em 1953. A cruzada era um brao da Igreja do Evangelho Quadrangular, igreja pentecostal originada no Sul dos Estados Unidos e que sustentava quatro princpios: salvao da alma, batismo com o Esprito Santo,curadivinaesegundavindadeCristo. V-sequeerammantidasdoutrinascomuns aocristianismoprotestante,comoasalvao individualeopr-milenarismo,assimcomo o batismo dos pentecostais tradicionais. A novidade era a nova nfase na cura divina. Aoladodacuradivina,comocomplemento, vinha o exorcismo de demnios. O histo- riador desse movimento, ele mesmo um dos seus pastores (Rosa, 1977, Introduo), queixa-sedodesequilbrodosquatropilares provocado pela nfase exagerada na cura divina. Todavia, para uma populao de um lado insatisfeita com a falta de atrativo em suas igrejas e, de outro, necessitada de apoio para o desamparo social em que vi- via, a cura divina, entendida no seu sentido mais amplo, constitua de fato a principal atrao simblica. Acruzadaatingiuasigrejastradicionais, bemcomoaspentecostaisclssicas.Muitos pastores e leigos dessas igrejas, inuencia- dos pela nova prtica religiosa, vieram a fundar vrias igrejas no mesmo estilo. Na verdade, a Cruzada Nacional de Evangeli- zao foi a origem do neopentecostais. O perodo se fecha com as igrejas tradi- cionais situadas perante trs vias opostas a elas mesmas e entre si: o pentecostalismo de cura divina, o fundamentalismo e o ecumenismo incipiente. PERODO DE REPRESSO E ISOLACIONISMO DAS IGREJAS: 1962 A 1983 Mesmo j com diculdades internas e externas por causa de reaes das cpulas das igrejas contra o avano da autonomia de setores leigos dentro da Confederao Evanglica, o Setor de Responsabilidade Social da Igreja caminhou na direo da realizao da sua quarta reunio de estudos 15. REVISTA USP, So Paulo, n.67, p. 48-67, setembro/novembro 200562 queviriaaserconhecidaporConfernciado Nordeste.Aorganizaodessaconferncia, decisiva quanto aos rumos do protestantis- mo no Brasil, contou com a forte liderana do leigo presbiteriano Waldo Csar e a ins- pirao sempre presente de Richard Shaull, que j no era mais professor no Seminrio Presbiteriano do Sul. A Conferncia do Nordeste, que teve como tema Cristo e o Processo Revolu- cionrio Brasileiro, realizada de 22 a 29 de julho de 1962 na cidade do Recife, j incorporava a crtica ao modelo econmi- co-poltico desenvolvimentista da dcada anterior. Para os mentores da conferncia, o Brasil estava dentro de um processo revolucionrio diante do qual as igrejas no poderiam se omitir. Por isso, a agenda da conferncia contava com dois aspectos complementares: de um lado, uma anlise de conjuntura que seria processada por socilogos e economistas neutros, isto , que nada tinham a ver com as igrejas e, de outro, propostas teolgicas no sentido de chamar a ateno das igrejas para o seu papel na situao histrica pela qual o pas passava. H, pelo menos, dois documentos im- portantessobreessaconferncia.Umdeles, escrito porWaldo Csar (1962a), secretrio executivo do Setor de Responsabilidade Social da Igreja, da Confederao Evan- glica do Brasil, um dirio, uma crnica leve mas cheia de informaes sobre os bastidores da conferncia, seus conitos e aproximaes, enm, a dinmica interna de um encontro de tantas personalidades e tendncias diferentes. O outro a publica- o ocial do evento com o mesmo ttulo e que traz os textos das conferncias e os relatrios dos diferentes grupos de estudos (Csar, 1962b). Na Introduo a esse vo- lume, escrita por Waldo Csar, aparece em poucas linhas, e in totum, o projeto utpico que animava o setor jovem e politizado das igrejasprotestantesnoBrasil:AConfern- cia do Nordeste foi, antes de tudo, grande esforo neste sentido: levar a Igreja a falar a linguagem da poca em que vivemos e a encontrar-se com a sociedade brasileira (Csar, 1962b, p. xi). A representao da conferncia avizi- nhava-se, pela sua composio, da utopia unionista dos criadores da Confederao Evanglica. Todas as igrejas histricas do protestantismo nacional estavam represen- tadas. Duas utopias: a acima, expressa por Waldo Csar, e a unio protestante em torno dela. Veremos, mais adiante, que as foras ideolgicas, que iriam logo se desencadear, seriam mais fortes e venceriam. Quem de- nunciouissoalgunsanosadiantefoiojovem Rubem Alves, um dos presentes na confe- rncia, ao publicar um artigo que se tornou muito conhecido nas dcadas seguintes. O artigo trazia o ttulo O Protestantismo Latino-americano: sua Funo Ideolgica e suas Possibilidades Utpicas. Esse artigo, publicadoemingls(Alves,1970),em1970, imediatamentecomeouacircular,traduzido emimeografado,nosseminriosbrasileiros. Bem mais tarde saiu numa coletnea do prprio Rubem Alves (1982). As anlises de conjuntura, cujo espao era tomado pelas questes sociais provo- cadas pela industrializao e pela crise do campesinato, foram feitas por Gilberto Freyre, Celso Furtado, Paulo Singer e Jua- rez Rubem Brando Lopes. A chamada responsabilidade das igrejas diante do estado revolucionrio cou a cargo de pastores envolvidos com as novas teolo- gias, como o luterano Ernst Schlieper, o metodistaAlmir dos Santos, os presbiteria- nos Joaquim Beato, Joo Dias de Arajo e Sebastio Gomes Moreira, e os episcopais anglicanos Edmund Knox Sherrill (bispo) e Curt Kleemann. A Conferncia do Nordeste, com re- percusso nacional e internacional, causou grande impacto dentro das igrejas. A situa- o agravou-se com a chegada de novo bandodeteologiasnovas,aintensicao do conito entre fundamentalismo e ecu- menismo e o golpe militar de 64. A dcada de 60 foi uma poca revolu- cionria com o impacto das novas tecnolo- gias e conseqentes mudanas sociais e o surgimento do tema esperana nos vrios setores da vida intelectual. Na losoa o tema aparece em Ernst Bloch (1855-1977) com O Princpio Esperana (1959), s 16. REVISTA USP, So Paulo, n.67, p. 48-67, setembro/novembro 2005 63 agora publicado em portugus, e na teolo- gia surge Jrgen Moltmann (1926-) com sua monumental Teologia da Esperana, primeira edio em 1968. Em portugus acaba de sair a 3a edio. Em 1969, o telogo presbiteriano brasileiro, um dos participantesdaconferncia,RubemAlves, publica sua tese de doutorado nos Estados Unidos intitulada A Theology of Human Hope. Essa obra s saiu em portugus em 1987 com o ttulo Da Esperana depois de ter sido publicada antes em outras lnguas. Vale considerar que o tema perpassa com igual intensidade o universo intelectual catlico como, por exemplo, em J. B. Metz, que, passando pelo tema da secularizao e por uma teologia do mundo, chega a uma teologia poltica. Nem mesmo a sociologia cou alheia ao movimento porque Henri Desroche(1914-1994)publicou Sociologie de LEsprance, em 1973. A traduo em portugus saiu em 1985. Duas outras correntes, paralelas por sinal, empolgam esse perodo. O telogo norte-americano Harvey Cox (The Secular City, 1965-66) trabalha o tema da relao entre a urbanizao e a secularizao, enquanto dois outros, tambm norte-ame- ricanos, William Hamilton e Thomas J. J. Altizer, levantam a bandeira da teologia radical, tambm chamada teologia da morte de Deus. Entram tambm por essa via Gabriel Vahanian (The Death of God, 1961) e o bispo anglicano que causou sen- sao com Honest to God, 1963. Por sua vez,otelogocatlicoRobertAdolfschega ao extremo da crtica igreja acusando-a de ser tmulo de Deus. Em resumo, a massa da produo teolgica desse perodo, tanto protestante como catlica, procura mostrar que num mundo secularizado e aberto a mudanas,vezquedestrudopelaguerra,era necessrio buscar novas formas de religio ou at mesmo superar a religio.Ateologia radical, ou da morte de Deus, por certo no era atia, mas tinha implcita a idia de que o Deus da tradio havia morrido na cul- tura. As igrejas o haviam enterrado com suasfrmulasantiquadaseemperradas.Era Nietzsche chamado lia com o clebre dilogo entre Zaratustra e o velho papa fora de servio, fora de servio porque sua instituio havia acabado. Estavam em jogo estrutura e poder das igrejas. 17. REVISTA USP, So Paulo, n.67, p. 48-67, setembro/novembro 200564 NaAmricaLatinadoisacontecimentos iriam centralizar o grande debate em torno da situao social, econmica e poltica. A ideologia desenvolvimentista seria ques- tionada pela tese da dependncia elaborada por Fernando Henrique Cardoso e Enzo Faletto (Dependncia e Desenvolvimento na Amrica Latina, 1965-67). A teoria se completava com a obra de Celso Furtado, j citada, sobre as origens do subdesenvol- vimento. Nesse ponto, tanto alguns setores das igrejas protestantes quanto da Igreja Catlicaavanarammaisoumenosnames- ma direo, isto , no sentido de envolver as igrejas na luta pela conquista de uma sociedade mais justa diante de um cenrio aberto a profundas mudanas. Assim, no cenrio protestante surge, em 1961, a Junta Latino-Americana Igreja e Sociedadecomomdepromoverconsultas sobre a responsabilidade social das igrejas evanglicas na Amrica Latina. Isal, como passou a ser conhecida, passou a publicar, em Montevidu, a revista Cristianismo y Sociedad,quetevelargacirculaoemtoda a Amrica Latina. Essa revista, que servia de elo entre os protestantes da esquerda teolgica latino-americana, migrou por vrios pases at se extinguir melancolica- mente . Muitos brasileiros participaram de Isal,entreeles,comatuaosaliente,Rubem Alves. Richard Shaull, mesmo no sendo latino-americano,foiumdosseusprincipais nomes. No cenrio catlico, o aggiorna- mento proposto pelo Conclio Vaticano II iria culminar na Segunda Conferncia do Episcopado Latino-Americano, em Me- dellin, Colmbia, 1968, com a declarao da opo preferencial pelos pobres, ponto de partida para a Teologia da Libertao quesedesenvolverianadcadaseguinte.Os maisconhecidosnomesbrasileirosinseridos nessa corrente teolgica foram os catlicos Leonardo Boff e Hugo Assmann. Do lado protestante, ao menos nos seus incios, o nome de RubemAlves seria arrolado como um dos seus precursores. Mais tarde ele se afastaria tomando outros caminhos, princi- palmente quanto ao mtodo e linguagem da teologia (Cervantes-Ortiz, s/d). O protestantismo latino-americano, particularmente o brasileiro, mal chegou aosumbraisdaTeologiadaLibertao.Mas mesmo a simples aproximao dela atravs do movimento de Isal foi suciente para o endurecimento das igrejas e o incio de um processo de represso, especialmente pela identicao que as alas conservadoras das igrejas faziam entre ecumenismo e comu- nismo e a presso fundamentalista tanto internacomoexterna.Almdetudo,portrs estava j o perodo de represso do regime militar.Apresso fundamentalista externa, representada pela presena cada vez maior no Brasil das chamadas misses paraecle- sisticas, ou misses de f, assim como os clares ainda visveis do macarthismo provocaram o expurgo progressivo da ala chamada liberal ou modernista das igrejas representada por estudantes universitrios, seminaristas e jovens pastores. Em 1968, ao menos dois seminrios presbiterianos e um metodista foram fechados e seus alunos expulsos. Colaborou bastante, sem dvida, a generalizao do movimento de contracultura com seus reexos entre os estudantes brasileiros. H, pelo menos, trs trabalhos que retratam bem esse perodo de represso em algumas das igrejas protestantes brasi- leiras: de Joo Dias de Arajo, Inquisio sem Fogueiras (1976), de Rubem Alves, Protestantismo e Represso (1979), e um artigo bem elaborado e documentado de Leonildo Silveira Campos (2002). O conito tambm signicativo desse perodo aconteceu entre o ecumenismo, acirrado pela Assemblia do Conselho Mundial de Igrejas (CMI), em Nova Dlhi, ndia, e o Conselho Internacional de Igrejas Crists, expresso do fundamentalismo protestante. A Assemblia de Nova Dlhi, realizada entre 19 de novembro e 5 de dezembro de 1961, com a presena de 577 delegadosde197igrejasmembros,decidiu, entre outras coisas, pela aproximao de outrasreligies,compreendendo-asmelhor e, principalmente, por tomar conhecimen- to dos problemas econmicos e polticos decorrentes das rpidas mudanas sociais, particularmente do Terceiro Mundo.Area- o do Conselho Internacional de Igrejas 18. REVISTA USP, So Paulo, n.67, p. 48-67, setembro/novembro 2005 65 Crists foi imediata acusando o CMI de tentar aproximar-se da Igreja Catlica e de abrir espao para o comunismo. Algumasigrejasbrasileirasjsehaviam liado ao Conselho Mundial de Igrejas e colaboravamcomseusprojetosindiferentes ao conito. Outras, porm, principalmente as presbiterianas, dividiram-se interna- mente com grandes prejuzos pela perda de quadros, principalmente de intelectuais que tiveram de abandon-las procurando espaos nas universidades. Duas dessas igrejas assumiram posiodeeqidistncia entre as duas instituies internacionais em confronto a m de no entrar abertamente na disputa. Contudo, as evidncias futuras apontam para uma deciso no-ocial, de conscincia,emfavordaalamaisconserva- doraquerecusavaoecumenismoe,porisso, promoveu expurgos em seus quadros. O cenrio internacional desse perodo, quetinhaporprincipalpersonagemaGuerra Fria,ajudavaoblococapitalistaconservador a manter aceso nas igrejas o sentimento an- tiecumnico e anticomunista, que ganhava, sobovernizdeverdadesreligiosas,forosde guerra de dois mundos, particularmente com o Armagedon (10) escatologista no governo Reagan. Em dado momento, os teleevangelistas, como Jimmy Swagart por exemplo, alcanando vrios pases com suasmensagenstelevisivas,anunciavamo reino de Deus pela Amrica. Pregavam o Kingdom Now. O mpeto dos telee- vangelistas foi contido pelos escndalos promovidos por alguns deles, inclusive o prprioSwagart,ereveladospelaimprensa. Algumas organizaes chamadas misses de f, porque no faziam parte de igrejas ociais, estenderam braos conservadores para a Amrica Latina e ajudaram a arre- fecer os possveis mpetos renovadores da juventude protestante. Uma delas foi a Campus Crusade for Christ, fundada pelo norte-americano Bill Bright (1921-2003), cujo brao no Brasil se chamou Cruzada Estudantil e Prossional para Cristo. Ob- jetivava, como o prprio nome diz, atrair estudantes universitrios.Semelhanteseria a ABU (Aliana Bblica Universitria). Outras muito conhecidas como Palavra da Vida, Vencedores por Cristo e Jovens da Verdade tinham o mesmo objetivo de atrair a juventude, paradoxalmente, a das prprias igrejas. Talvez a maior expresso da direita po- ltica e religiosa tenha sido o IRD (Institute on Religion and Democracy), fundado em 1981 por Michael Novak e outros, a m de resistir linha progressista de organi- zaes crists como o National Council of Churches e sua ala ecumnica favorvel ao Conselho Mundial de Igrejas. Um dos seus membros fundadores, o pastor luterano Ri- chard J. Neuhaus, armou que o IRD tinha uma agenda poltica especca que era a Amrica Central e o combate Teologia da Libertao (11). No governo Reagan o IRD operava muito prximo do Departamento de Estado, em Washington. Um dos mais inuentes membros do IRD o conhecido socilogo Peter Berger (1923-), tambm telogo leigo. Outro, que se tornou conhecido no Brasil, foi o telogo catlico Michael Novak, j mencionado. Novak,emsuasconfernciasemSoPaulo, em meados dos anos 80, provocou reaes negativas. Num encontro com professores do curso de cincias da religio da Univer- sidade Metodista de So Paulo, ao criticar a Teologia da Libertao e a teoria da de- pendncia, provocou um debate acirrado que terminou em constrangimento. O IRD, pelo seu apoio intelectual e logstico aos contra na Amrica Central, foidenunciadoecombatidopelasesquerdas latino-americanas (Escurra, 1982). O chamado Movimento Evangelical, conservador e voltado para a converso pessoal, com sua presena subjacente, mas forte nas igrejas, vem colaborando para o quietismo que as isola do cenrio social. O smbolo do evangelicalismo atual o Pacto de Lausanne, rmado no grande Congresso Internacional de Evangelizao Mundial realizado naquela cidade sua em 1974. Dela participou o conhecido evange- lista Billy Graham. O ltimo e grande desao s igrejas protestantes histricas nesse perodo foi o avano do movimento carismtico no interior delas mesmas gerando divises 10 Nome de um campo de ba- talha proftico, onde os reis de toda a Terra se reuniro para uma batalha no grande dia do Deus Todo-poderoso (Apocalipse 16,16) (John D. Davis, Dicionrio da Bblia). 11 htttp://rightweb.irc-on-line. org/groupwatch/ird.php (12/9/2005). 19. REVISTA USP, So Paulo, n.67, p. 48-67, setembro/novembro 200566 que produziram as chamadas igrejas re- novadas. O neopentecostalismo, como se sabe, provocou verdadeira devastao nessas igrejas. CONSIDERAES FINAIS Atrajetriahistricadaschamadasigre- jasprotestantestradicionais,particularmen- teasoriundasdasmissesnorte-americanas, mostra um confronto permanente entre dependncia e autonomia. A autonomia poltica e administrativa foi sendo obtida ao longo do tempo, mas a nanceira ainda exerce forte ascendncia em alguns setores da vida dessas igrejas, o que no deixa de inuir na dependncia de idias e projetos. As aproximaes e distanciamentos peri- dicos entre utopias e ideologias, como lembrou Rubem Alves, sempre acabaram neutralizando o pensamento utpico e as levaram a uma espcie de recolhimento e indiferena pela realidade. Voltaram-se para o interior de si mesmas e construram nichos de salvao. As causas so mltiplas e no caberia levant-las exaustivamente neste ponto. Contudo, parece ser suciente apontar para duas, uma externa e outra interna.Aexterna a dependncia de matrizes de pensamento geradas em outro lugar ou, usando o j co- nhecido bordo, de idias fora do lugar.A interna a histrica represso da construo de um pensamento crtico que, comeando nos anos 40, vem exilando os intelectuais de modo a impedir que a autonomia vena a dependncia.Osquadros,enfraquecidospela ausnciadepensamentovigorosoelivre,mal ensaiam o debate em torno de novas idias. Contudo, a abertura legal para a criao de cursossuperioresdeteologiacomreconheci- mentoocial,inclusivepelasuniversidades, pode descortinar um horizonte novo para o pensamento losco-teolgico que venha a contaminar as igrejas e abrir aos poucos campo para a sua autonomia. BIBLIOGRAFIA ALTMANN, Walter. Lutero e Libertao. So Leopoldo, Sinodal, 1994. ALVES, Rubem. Latin American Protestantism: Utopia Becomes Ideology, in Jorge Lara-Braud (ed.). Our Claim on the Future. New York, Friendship Press, 1970. ________. 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