ENZIO E. DE ALMEIDA FILHO - O cativeiro ideolgico do naturalismo filosfico

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    24-May-2015

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1. www.scb.org.br SCB: 2.4.2 O NATURALISMO METODOLGICO E O CATIVEIRO IDEOLGICO DO NATURALISMO FILOSFICO Introduo Ao longo da histria da cincia h registros da busca in- cessante do ser humano para compreender o universo, a si mesmo e como dominar a natureza. Entre as muitas conquis- tas conseguidas pelo esprito humano est a sistematizao desses conhecimentos. Algumas dessas buscas so consideradas como antigas e no-cientcas como os povos antigos sumrios, babilnios, chineses e indianos, os gregos com os seus lsofos Demcrito (460-370 a.C., o porta-voz do naturalismo), Epicuro (341-270 a.C.), e at um lsofo poeta romano como Lucrcio (99-55 a.C.), e outras tidas como modernas e cientcas porque inuenciadas pela viso de cincia revolucionria de Francis Bacon (1561-1626) no sculo XVII. A padronizao de como se obter conhecimento atende pelo nome de mtodo cientco. Embora no haja consenso do que seja o mtodo cientco, o forma- to bsico deste mtodo acei- to irrestritamente : 1. A observao do fenmeno e o registro dos fatos. Os fe- nmenos so todos os eventos que ocorrem na natureza; e os fatos so as descries daquilo que observado. 2. A formulao de leis fsicas a partir da generalizao dos fenmenos. As leis fsicas so as maneiras como a natureza se comporta baseado naquilo que foi observado no passado. 3. O desenvolvimento de uma teoria que usada para pre- dizer novos fenmenos. A teoria uma declarao geral que explica os fatos. Uma teoria pode levar a novas con- cluses ou a descoberta de um fenmeno. Os desenvol- vimentos de uma teoria freqentemente resultam numa mudana de paradigma isto , considerar ou pensar sobre um problema cientco de um modo totalmente novo. (1) Todavia, nem todas essas caractersticas do mtodo cient- co so aplicveis em todas as reas do conhecimento huma- no. Destacar aqui este aspecto demarcacionista neste trabalho seminal se faz mais do que necessrio, pois cada cincia tem seus processos epistemolgicos exclusivos delimitados estri- tamente pelo seu objeto de pesquisa. O mtodo cientco condio sine qua non para se atin- gir todo e qualquer conhecimento cientco. Como construo humana de descrio da realidade, ele est sujeito tambm aos aspectos scio-culturais da poca. Haveria ento a possibili- Formado em Letras pela Universidade Federal do Amazo- nas, Coordenador do NBDI Ncleo Brasileiro de Design Inteligente (Campinas, SP), ps-darwinista via Popper, Kuhn, Feyerabend e as evidncias de design intencional empiricamente detectadas na natureza. Palestra baseada nas obras dos tericos do Design Inteligente: William A. Dembski e Michael J. Behe. O terico que arma que a cincia tudo o que h e o que no estiver nos livros de cincia no tem valor um idelogo com uma doutrina prpria, distorcida e peculiar. Para ele, a cincia no mais um setor da iniciativa cognitiva, mas uma viso de mundo que inclui tudo. Essa no uma doutrina da cincia, e sim, de cienticismo. Adotar essa instncia no celebrar a cincia, e sim, distorc-la. Nicholas Rescher, in The Limits of Science Enzio E. de Almeida Filho Revista Criacionista n 74 eta romano como utras tidas como ue inuenciadas cionria de no sculo mo se obter ome bora a 11 2.Wissenschaftstheorie2.TeoriaCientfica 2. www.scb.org.br dade deste mtodo ser contaminado? Uma viso de mundo como o naturalismo poderia inuenci-lo na sua execuo e defesa em detrimento de outras vises de mundo? Sendo o mtodo cientco a ferramenta epistmica utili- zada em todos os saberes, aqui denominado de naturalismo metodolgico, implicaria inexoravelmente a adoo da ideo- logia do naturalismo losco? Se no implicar, o que isso signica? Estaria o naturalismo metodolgico numa espcie de cativeiro ideolgico do naturalismo losco? O que seria esse cativeiro ideolgico? Seria uma distoro da cincia con- forme Nicholas Rescher? (2) I. O naturalismo uma doutrina metafsica O naturalismo, segundo o dicionrio Aurlio, a doutrina se- gundo a qual todo o conjunto de fenmenos pode ser reduzido, por um encadeamento mecnico, a fatos do mundo concreto material sem a interveno de nenhuma causa transcendente.(3) A denio do Aurlio ontolgico-metodolgica, mas o naturalismo tambm uma Weltanschauung, uma cosmoviso particular que arma o que denitivamente real e irreal.Anatureza seria denitivamente real. Anatureza consiste de partculas fundamentais que consti- tuem a matria e a energia. As leis naturais governam o com- portamento de como essas partculas se comportam. Assim, a natureza seria denitivamente tudo o que existe um sistema permanentemente fechado de causas e efeitos de partculas, cordas, campos que no podem ser inuenciados por qualquer coisa fora desse sistema. Essa doutrina metafsica d prioridade cincia natural como sendo o nico modo de se descrever a realidade porque tudo o que conhecido da natureza, que no seja por observa- o direta, produzido pela investigao cientca. O naturalismo como viso de mundo privilegia muito a cincia como a nossa nica fonte de conhecimento mais con- vel. Tudo o que conitar com esse conhecimento conside- rado como efetivamente falso e inexistente. (4) O naturalismo se apresenta em pelo menos quatro carac- tersticas: antiteleolgico, metodolgico, anti-sobrenatural e pragmtico. Somente as duas ltimas so compatveis com a teoria do Design Inteligente, e apenas a ltima compatvel com as tradies religiosas monotestas (judasmo, cristianis- mo e islamismo). (5) II. O naturalismo metodolgico a epistemolo- gia das cincias naturais As cincias naturais so disciplinas terico-empricas que tm muitas denies. Razo? No existe consenso entre os cientistas sobre cada aspecto do mtodo cientco. O lsofo de cincia Del Ratzsch dene como seria este tipo de cincias naturais (qumica, fsica, biologia, geologia e outros ramos de cincias chamadas de cincias exatas ou naturais): Uma cincia natural uma disciplina terica explanatria que aborda objetivamente os fenmenos naturais dentro das limitaes gerais de que (1) as suas teorias devem ser racionalmente conectveis aos fenmenos empricos geralmente especicveis e que (2) normalmente no sa da esfera natural dos concei- tos empregados na sua explicao. (6) O naturalismo metodolgico (7) o mtodo epistemol- gico por excelncia adotado pelos cientistas no fazer cincia normal na busca das respostas s questes o qu (quais so os fatos dentro de algum domnio de estudo) e como (os padres regulares que so empiricamente detectveis na na- tureza, e explicar seus mecanismos naturais) (8) encontradas na natureza, considerando-se o fato que as cincias naturais devem se limitar a explicaes naturalistas e evitar escrupulo- samente atribuir qualquer signicado cientco inteligncia, teleologia ou ao design real. (9) Del Ratzsch lista cinco razes principais porque desta am- pla aceitao do naturalismo metodolgico, embora discorde de que elas resistam a um exame crtico: 1. A crena de que o naturalismo metodolgico exigido pela prpria denio de cincia, 2. A crena de que as teorias as teorias relativas ao sobrenatu- ral no podem ter contedos empricos estveis e testveis, 3. A crena de que tais teorias tm sido completo fracassos cientcos, 4. A crena de que todas tais teorias so verses de teorias do Deus das lacunas e que tais teorias so cienticamente inaceitveis, e 5. A crena de que permitir o uso de teorias de design iria ero- dir a cincia ao estimular a preguia cientca. (10) A forma mais predominante de naturalismo aceita consciente e inconscientemente o naturalismo antiteleolgico que no admite quaisquer princpios teleolgicos fundamentais operando na nature- za, a no ser as leis naturais inquebrveis caracterizadas pelo acaso e necessidade. (11) Jacques Monod no seu livro famoso Chance and Necessity armou este princpio fundamental para a cincia: A pedra fundamental do mtodo cientco o postula- do que a natureza objetiva. Em outras palavras, a negao sistemtica que verdadeiroconhecimento possa ser obtido interpretando-se os fenmenos em termos de causas nais isto dizer, de propsito.(12) Quando o cientista tenta descrever como que dois eletrodos car- regadosseparamogsoxignioeohidrognioquandocolocadosna gua, a hiptese Deus simplesmente desnecessria e completa- mente inadequada. Por qu? Porque sendo o universo fsico o objeto apropriadodoestudocientco,onicomtodoapropriadoparaesse estudo o naturalismo metodolgico. (13) II. O naturalismo losco (metafsico) uma ideologia materialista O naturalismo losco ou naturalismo metafsico uma posio losca e ideologia materialistas j encontra- das em autores gregos antigos como Demcrito (c. 460-370 a.C.), Epicuro (c. 341-270 a.C.), e o poeta romano Lucrcio (c. 95-52 a.C.): a natureza tudo o que existe, no existe o sobrenatural. Revista Criacionista n 74 22 2.TeoriaCientfica 3. www.scb.org.br O naturalismo losco a convico de que a natureza um sistema fechado de causas e efeitos que no pode ser afetado por qualquer fator externo. Uma doutrina de que o mundo natural tudo o que existe. Deus, anjos, milagres no existem. (14) A esfera natural a nica realidade que existe e a cincia o nico acesso para as estruturas e princpios fundamentais que denem e gover- nam aquela realidade. (15) Ele derivado de uma epistemologia um modo de conhecer chamado de naturalismo metodolgico permeando no somente na cincia natural contempornea, mas tambm em todas as cincias humanas e sociais. Por que o naturalismo losco atra tanto aos cientistas? Porque d cincia um monoplio virtual na produo de conhecimento, as- segurando aos cientistas de que, em princpio, no existem questes importantes que estejam alm da investigao cientca.Alm disso, dicilmente o cientista diz que no sabe. Esse posicionamento seria uma preferncia prossional compreensvel ou o modo objetiva- mente vlidode se conheceromundo?(16) Exemplo dessa preferncia pelo naturalismo losco confun- dido como sendo a prpria cincia visto na declarao feita por RichardLewontin: Nstomamosoladodacinciaapesardopatentedis- paratedealgunsdeseusconstrutos,apesardesuafalhaem cumprir muitas de suas promessas extravagantes de sade evida,apesardatolernciadacomunidadecientcadees- trias da carochinha no comprovadas, porque ns temos um compromisso anterior, um compromisso com o mate- rialismo.Noqueosmtodoseasinstituiesdecinciade algum modo nos obriguem a aceitar uma explicao mate- rialdomundofenomenal,mas,aocontrrio,quenssomos forados pela nossa delidade a priori a causas materiais para criar um aparato de investigao e uma srie de con- ceitosqueproduzemmatria,noimportaquodesprovido de intuio, no importa quo misticador para o no ini- ciado.Almdisso,aquelematerialismoabsoluto,poisns no podemos permitir um p divino na porta. (17) IV. O naturalismo metodolgico no cativeiro ideolgico do naturalismo losco Pelas suas caractersticas de como chegar ao conhecimen- to, o naturalismo metodolgico epistemologia no deveria ser inuenciado pelo naturalismo losco posicionamento ideolgico. O fazer cincia como se o naturalismo losco fosse verdade leva o naturalismo metodolgico acorrentado para o cativeiro ideolgico do naturalismo losco. A histria da cincia registra as muitas concepes do co- nhecimento cientco e suas implicaes para a cincia e a sociedade desde o incio da Revoluo Cientca (1600) at o presente. A idia passada para o pblico leigo de que o ritmo acelerado de descobertas, invenes e insights inesperados so- bre a natureza durante este perodo garantem as bases seguras da investigao cientca. Steven L. Goldman, professor da Universidade Lehigh, pensa que isso est longe de ser verdade, e destaca os seguin- tes casos: 1. O mtodo cientco: Nos anos 1600s, o lsofo ingls Fran- cis Bacon deniu o mtodo cientco na sua forma clssi- ca: o uso do raciocnio indutivo para tirar concluses de uma exaustiva coleo de fatos. Contudo, no fazer cincia normal, nenhum cientista estritamente baconiano. Usar sempre a induo pode levar a lugar nenhum. 2. Um debate acalorado: Por volta dos anos 1800s o de- bate sobre a questo da natureza do calor foi resolvido a favor da teoria que o calor movimento e no uma subs- tncia expelida durante a combusto. O fsico-matemtico francs Joseph Fourier escreveu uma srie de equaes que descreviam exatamente como que o calor se comporta no importa o que ele realmenteseja. Fourier armou que isso no era uma questo cientca de jeito nenhum. 3. As mudanas paradigmticas: A publicao do livro A Estrutura das Revolues Cientcas de Thomas Kuhn em 1962 precipitou uma mudana radical nas atitudes em relao ao conhecimento cientco, instigada pelo insight de Kuhn de que a cincia no um empreendimento to- talmente racional, e que suas teorias bem estabelecidas (os paradigmas) so destronados num processo revolucionrio ilgico. 4. A rebelio ps-moderna: O ataque ps-moderno cincia como um modo privilegiado de investigao foi notcia na ltima dcada do sculo XX. A credibilidade do movimen- to denhou em 1996, quando uma publicao ps-moderna publicou inadvertidamente um artigo fraudulento do fsico Alan Sokal, dando a entender que a teoria fsica era social- mente construda. Depois Sokal exps publicamente o seu artigo como uma pardia. (18) Embora ns ainda chamemos o sistema solar de astro- nomia copernicana, no existe efetivamente nenhuma se- melhana entre a astronomia de hoje e a teoria dos cus de Coprnico de 1543. Isso tambm verdade de outras teorias, como a teoria atmica da matria. Todas as teorias cient- cas esto num estado de reviso incessante, o que levanta a questo fundamental: o que realmente a realidade? Ela somente o resultado de causas materiais? No existem causas inteligentes? Concluso parcial Alio que a Histria da Cincia parece estar ensinando que as teorias que hoje aceitamos como sendo verdadeiras provavel- mente sero derrubadas assim como foram derrubadas as teorias que elas substituram. Quais so os mnimos critrios que denem uma hiptese como cientca? O design inteligente qualicaria?A teoria do design inteligente uma teoria teleolgica que arma que certos eventos encontrados no universo so melhor explicados por causas inteligentes que so empiricamente detectadas. A incerteza sobre o verdadeiro status do conhecimento cientco e da objetividade do empreendimento cientco le- vou a uma ampla investida crtica da cincia na ltima parte do sculo XX por socilogos, lsofos, e historiadores da ci- ncia, muitos ligados ao movimento do ps-modernismo. Paul Feyerabend, lsofo da cincia, reconheceu, como todos deveriam reconhecer, que a cincia anal de contas fun- ciona e apenas um tipo de conhecimento. No o conheci- mento absoluto que muitos cientistas e lsofos tm armado historicamente que . Revista Criacionista n 74 33 2.Wissenschaftstheorie2.TeoriaCientfica 4. www.scb.org.br A cincia somente ir se libertar do cativeiro do natura- lismo losco quando acolher novamente a teleologia como episteme cientca e que o design empiricamente detectado na natureza. Os cientistas devem to-somente seguir as evi- dncias aonde elas forem dar. Referncias: ( 1) P. Barnes-Svarney, The New York Public Library Science Desk Reference, p. 2. (2) N. Rescher, The Limits of Science. (3) Aurlio, p. 451. (4) P. E. Johnson, Reason in the Balance, pp. 37-8. (5) W. A. Dembski, The Design Revolution, p. 169. (6) D. L. Ratzsch, Science and its Limits, p. 13. (7) O historiador de cincia Ronald Numbers arma que a expresso naturalismo metodolgico foi cunhada pelo lsofo Paul deVries numa palestra e depois no arti- go Naturalism in the Natural Sciences, in Christian Scholars Review (1986) 15:388-96. (8) J. P. Moreland e W. L. Craig, Filosoa Crist, p. 443. (9) W. A. Dembski, No Free Lunch, p. 328. (10) D. L. Ratzsch, Science and its Limits, p. 122. (11) W. A. Dembski, The Design Revolution, p. 169. (12) J. Monod, Chance and Necessity, New York, Vintage, 1972, p.21. (13) J. P. Moreland e W. L. Craig, Filosoa e Cosmoviso Crist, p. 442. (14) Ibid., p. 442. (15) D. L. Ratzsch, Science and its Limits, p. 180. (16) P. E. Johnson, Darwin on Trial, pp. 123-24. (17) R. Lewontin, Billions and Billions of Demons, resenha do livro The Demon-Haunted World: Science as a Cand- le in the Dark, de Carl Sagan, in The New York Review of Books, (January 9, 1997):31. nfase no original. (18) S. L. Goldman, Science in the 20th Century: A Social-In- tellectual Survey. Curso em DVD que pode ser adquirido no website: http://www.teach12.com/teach12.asp Bibliograa: AURLIO, Novo Dicionrio Bsico da Lngua Portugusa FO- LHA/AURLIO. So Paulo,Nova Fronteira, 1995. BARNEY-SVARNEY, P. The New York Public Library Scien- ce Desk Reference. New York, 1995. DEMBSKI, W. A. Intelligent Design: The Bridge Between Science and Theology. Downers Grove, InterVar- sity, 1999. _____. No Free Lunch: Why Specied Complexity Cannot be Purchased Without Intelligence. Lanham, Row- man & Littleeld, 2002. _____. The Design Revolution: Answering the Thoughest Questions About Intelligent Design. Downers Gro- ve, InterVarsity, 2004. JOHNSON, P. E. Darwin on Trial. 2a. ed. 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