Com outros olhos: um estudo das representaes da "cegueira" e/ou "deficincia visual"

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    19-Dec-2014

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  • 1. UN,IVERSIDADE,..,DE SO PAULO PROGRAMA DE POS-GRADUAAO EM ANTROPOLOGIA SOCIAL ANDREA DE MORAES CAVALHEIRO Com outros olhos um estudo das representaes da cegueira e/ou deficincia visual

2. ANDREA DE MORAES CAVALHEIRO Com outros olhos um estudo das representaes da cegueira e/ou deficincia visual Dissertao apresentada ao Programa de Ps-Graduao em Antropologia Social da Faculdade de Filosofia, Letras e Cincias Humanas da Universidade de So Paulo para a obteno do ttulo de Mestre em Antropologia. (O exemplar original encontra-se disponvel no Centro de Apoio Pesquisa Histrica da referida Faculdade e na Biblioteca Digital de Teses e Dissertaes da USP). rea de concentrao: Antropologia Social Orientadora: Prof. Dr. Sylvia Caiuby Novaes VERSO CORRIGIDA So Paulo 2012 3. Autorizo a reproduo e divulgao total ou parcial deste trabalho, por qualquer meio convencional ou eletrnico, para fins de estudo e pesquisa, desde que citada a fonte. Catalogao da Publicao Servio de Biblioteca e Documentao Faculdade de Filosofia, Letras e Cincias Humanas da Universidade de So Paulo 4. CAVALHEIRO, Andrea de Moraes. Com outros olhos: um estudo das representaes da cegueira e/ou deficincia visual. Dissertao apresentada ao Programa de Ps- Graduao em Antropologia Social da Faculdade de Filosofia, Letras e Cincias Humanas da Universidade de So Paulo para a obteno do ttulo de Mestre em Antropologia. Orientadora: Prof. Dr. Sylvia Caiuby Novaes Aprovado em: Banca examinadora Prof.(a) Dr.(a) Instituio: Assinatura: Prof.(a) Dr.(a) Instituio: Assinatura: Prof.(a) Dr.(a) Instituio: Assinatura: 5. s minhas avs, Elza e Ivone, e ao meu av Horcio (in memorian), por terem me criado, serem grandes referenciais e portos seguros. Nunca vou conseguir agradecer a altura. 6. Agradecimentos minha orientadora, Sylvia Caiuby Novaes, por abrir as portas da Antropologia e por acreditar neste trabalho. Muito obrigada pelo apoio, incentivo e ensinamentos imprescindveis. FAPESP pela bolsa concedida. Aos colegas do LISA/USP, principalmente Francirosy Ferreira, pelas discusses, aconselhamentos e amizade. Aos pesquisadores do NAU/USP, especialmente ao professor Jos Guilherme Magnani pelas contribuies em meu exame de qualificao; ao Csar Augusto de Assis Silva, coordenador do Grupo de Estudos Surdos e da Deficincia, pela amizade e imensa colaborao no amadurecimento terico- metodolgico deste trabalho; e por fim, Cibele Barbalho Assnsio, pelas discusses e apontamentos. professora Paula Montero pelas contribuies em meu exame de qualificao e por ter mudado a minha forma de olhar o mundo. Aos colegas do PPGAS/USP, que me acompanharam nessa empreitada, sobretudo ao Andr Drago Andrade, Carlos Gutierrez, Fbio Mallart, Giancarlo Machado, Rafael Adriano Marques, Rosenilton Oliveira e Samantha Gaspar. Magdalena Gutierrez e Camila Guerreiro por compartilharem os primeiros passos na Antropologia e no Trabalho de Campo. Aos meus amigos da Histria e do Departamento do Patrimnio Histrico, David Sampaio, Felipe Dias Carrilho, 7. Fernanda Menezes, Helenice Diamante, Laura Souza, Marina Galvanese e Maurcio Rodrigues, afinal, os cargos passam, a amizade fica, obrigada por permanecerem. Em especial Maria Lcia Perrone de Faro Passos, Malu, querida chefe, professora, conselheira e amiga, obrigada pela considerao, histrias e lies preciosas. famlia Berro, pela convivncia nos ltimos nove anos, em especfico Ruth e Julia pela amizade e carinho. direo e coordenao do Instituto de Cegos Padre Chico, Irm Helena Mariano, Ana Maria Pires e Anna Maria Miceli, obrigada pelo acolhimento e concesso para realizar esta pesquisa. A todos os professores, tcnicos e funcionrios do Instituto Padre Chico que admiro pela competncia, dedicao e unio. Especialmente Isabel Bertevelli pela amizade e por viabilizar esta pesquisa de muitas formas. Adriana Nascimento, Vanessa Vesterman e Rafael Silva pela oportunidade e confiana. s minhas professoras de braile, Irm Apoline Camargo e Irm e Madalena Marques, pelos ensinamentos. Aos alunos e familiares do Instituto Padre Chico, pelos sorrisos, abraos e amizade, vocs moram no meu corao. coordenao da LARAMARA, Eliana Ormelezi, Ceclia Maria Oka e Erica Cristina Takahashi da Silva por possibilitarem a realizao deste trabalho e pelo dilogo. Agradeo a todos os especialistas e funcionrios da LARAMARA, que admiro pelo empenho e entusiasmo, em particular Regina Versoa, Elisa de Oliveira, Ana Carolina Loschiavo e Silverlei Vieira. 8. Aos alunos e familiares que convivi na LARAMARA, pela amizade, risadas e alegria. Sobretudo ao Alexandre, Jovana, Eduardo, Erica e Marines Almeida. Aos amigos do Movimento Livre, Erici Honrio, Fbio dos Santos, Irene Pereira, Rosaura Louzzano, Regina Clia Ribeiro, Ricardo de Melo, William Rodrigues e Wilma Teixeira. Principalmente Marly Solanowski pelos ensinamentos e debate do meu relatrio de qualificao; e ao Renato Tadeu Barbato pela amizade e discusses. s minhas grandes amigas de infncia, Ana Helena Tokutake, Ana Julia Kiss, Juliana de Faria, Luciana Kaori Shintani e Regiane Ishii, com quem compartilhei minha juventude, minhas utopias, minhas decepes e meu crescimento. Vocs so HUGES. Ao tio Lus Claudio, tia Mrcia e ao primo Mrcio Cavalheiro, pelo carinho e preocupao. Aos meus pais, Mauro e Tais Cavalheiro, pelo amor e educao, por apoiarem minhas escolhas e pelo mecenato. Em particular, minha me, pelos exaustivos turnos de reviso de texto. Por fim, agradeo ao Luiz Gustavo Berro, meu companheiro, pelo apoio nos momentos de desespero; pela compreenso, interesse e incentivo; por ser meu descanso e aconchego. Muito obrigada, com todo o meu amor. 9. Resumo CAVALHEIRO, A. M. Com outros olhos: um estudo das representaes da cegueira e/ou deficincia visual. 2012. 185 f. Dissertao (Mestrado) Programa de Ps-Graduao em Antropologia Social, Faculdade de Filosofia, Letras e Cincias Humanas, Universidade de So Paulo. So Paulo, 2012. Esta dissertao tem como principal objeto de estudo as interaes sociais, que envolvem performances chamadas de cegueira, deficincia visual, baixa viso, vidncia e correlativos. O objetivo desta pesquisa descrever tais performances em termos de acionamentos de categorias de nomeao, sinais distintivos e atributos qualificativos. Pretende-se refletir sobre os processos de negociao e incorporao das mesmas na constituio do eu dos atores. Entre os pressupostos terico-metodolgicos, optou-se por uma aproximao com aspectos do modelo teatral de Goffman e da teoria da significao de Bourdieu. Para a construo dos dados, realizou-se observao participante principalmente em institutos especializados. Palavras-chave: Cegueira. Deficincia Visual. Baixa Viso. Interao Social. Performance. Incorporao. 10. Abstract CAVALHEIRO, A. M. With other eyes: a study of representations of the "blindness" and / or "visual disability". 2012. 185 f. Dissertao (Mestrado) Programa de Ps-Graduao em Antropologia Social, Faculdade de Filosofia, Letras e Cincias Humanas, Universidade de So Paulo. So Paulo, 2012. This dissertation focus on the performances of "visual disability", "blindness", "low vision" and seeing, through social interactions. Its main objective is to describe and to analyze these performances as the use of the nomination categories, distinctive signs and qualifying attributes. Furthermore, I present the processes of embodiment of these representations and its importance for the constitution of the actors "self". The theoretical and methodological assumptions rely on aspects of Goffmans dramaturgical perspective and Bourdieus theory of meaning. The data were developed through participant observation at specialized institutes. Keywords: Visual Disability. Blindness. Low Vision. Social Interaction. Performance. Embodiment. 11. Sumrio Introduo .....................................................................11 1. Classificao de personagens: categorias de nomeao....33 2. Identificao de diferenas: sinais distintivos ..................58 3. Caracterizao de mscaras: atributos qualificativos ..... 100 4. Negociao de representaes: rendimentos simblicos . 140 5. Construo do eu: processos de incorporao ............ 156 Consideraes finais ...................................................... 170 Referncias bibliogrficas ............................................... 179 12. 11 Introduo Nesta introduo exponho: o objeto de pesquisa, os objetivos, os pressupostos terico-metodolgicos que norteiam a investigao e o percurso levado para estabelec-los. Tambm apresento o campo emprico e aspectos da construo e anlise dos dados. Por ltimo, forneo o resumo de cada captulo. O principal objeto desta dissertao so as interaes face a face que envolvem performances nomeadas, entre outros termos, por cegueira, deficincia visual, baixa viso e vidncia. A interao face a face pode ser definida como uma negociao de representaes entre atores, uns sobre os outros, quando em presena fsica imediata, orientando-se pelo reconhecimento da atuao alheia, em suas categorias, atributos e sinais, atravs de imputaes condescendentes. Nesta negociao cada ator solicita que seja levado a srio pelos demais, acreditando em sua performance (GOFFMAN, 2009). Neste estudo, as performances so o acionamento de representaes estereotipadas, como sinais e atributos, ligados a um padro de ao pr-estabelecido, que distinguem e qualificam os atores subsidiando a classificao. Quanto s representaes, partindo de Durkheim (1978) e Bourdieu (2004), estas so consideradas como construes 13. 12 simblicas, que configuram maneiras de agir, pensar e sentir; e so constitudas e solidificadas historicamente de acordo com contextos especficos. O objetivo desta dissertao descrever e analisar as performances chamadas, entre outros termos, de cegueira, deficincia visual, baixa viso e vidncia. Refiro-me especificamente aos acionamentos prticos de representaes como: categorias de nomeao, sinais distintivos e atributos qualificativos. Em seguida, pretendo refletir sobre os possveis rendimentos simblicos envolvidos nas negociaes destas representaes. Por fim, estudo os processos de incorporao das mesmas na constituio do eu dos atores. Entre os pressupostos terico-metodolgicos, opto por uma aproximao com aspectos da abordagem interacionista goffmaniana. Parto do modelo teatral do autor e o adapto empiria e problemtica especfica desta pesquisa. Abaixo apresento tal modelo e, em seguida, indico os ajustes necessrios. O modelo teatral desenvolvido prioritariamente na obra A representao do eu na vida cotidiana (2009), publicada em 1959. Trata-se de um conjunto de metforas relativas dramaturgia, que constituem uma teoria explicativa para as situaes interativas1 . A seguir exponho seus principais elementos e dinmica. 1 um aspecto importante do conjunto dos face a face que, por eles e s por eles, podemos atribuir uma configurao e um cenrio dramtico a coisas que, de outro modo, no seriam perceptveis aos nossos sentidos. (GOFFMAN, 1999, p.215). 14. 13 O primeiro elemento a ser especificado a cena, trata- se da estrutura de ocasio, o tempo e o espao nos quais se realizam a interao (NUNES, 2005, p.86). O ator o agente social do modelo, ele estabelece a interao ao negociar representaes com outros atores. Goffman enfatiza a agncia possvel do ator ao considerar que suas negociaes no esto garantidas previamente pelas constries estruturais que as pressionam. O ator depende de seu corpo enquanto condio de entrada na interao face a face. Nela, o corpo est em situao vulnervel, expe-se ao risco de ferir-se, sendo obrigado a leva-la a srio. Alm disso, o corpo veculo de transmisso e recepo de sinais, cuja identificao influi na previso da interao. [...] por definio s podemos participar em situaes sociais se levarmos os nossos corpos e os seus adornos, e este equipamento vulnervel aos objetos que os outros trazem com seus corpos (GOFFMAN, 1999, p.199). A mscara dos atores so as representaes do eu, as concepes formadas sobre si, num confronto com o reconhecimento alheio. Trata-se de um carter adquirido que se torna internalizado, cristalizando-se como uma segunda natureza. Em certo sentido, e na medida em que esta mscara representa a concepo que formamos de ns mesmos o papel que nos 15. 14 esforamos por chegar a viver -, esta mascara nosso mais verdadeiro eu, aquilo que gostaramos de ser. Ao final a concepo que temos de nosso papel torna-se uma segunda natureza e parte integral de nossa personalidade. Entramos no mundo como indivduos, adquirimos um carter e nos tornamos pessoas. (PARK, 1950, p.249. Apud.: GOFFMAN, 2009, p.27). Os atores desempenham papis, que so padres de ao guiados principalmente por categorias, sinais e atributos pr-definidos (NUNES, 2005, p.54). Os papis so relacionais dependem daqueles desempenhados pelos demais atores em cena, o papel que um indivduo desempenha talhado de acordo com os papis desempenhados pelos outros presentes (GOFFMAN, 2009, p.9). A fachada so os sinais acionados pelos atores durante suas atuaes para a classificao dos mesmos e para a previso da interao. A fachada dada a partir de sinais estereotipados atrelados a um papel. Um papel estabelecido geralmente possui uma fachada determinada, que deve ser mantida acionando-se seus sinais caractersticos, por exemplo: a fachada de mdico implica geralmente em vestir-se de jaleco branco, possuir expresso segura, etc. Quando um ator assume um papel social estabelecido, geralmente verifica que uma determinada fachada j foi estabelecida para esse papel. (GOFFMAN, 2009, p.34). 16. 15 A partir da leitura dos sinais dos demais atores, das interaes passadas e de outras informaes obtidas, o ator prev como se dar a interao, construindo afirmativas chamadas de expectativas. Contudo, o desfecho da interao permanece imprevisvel. O desfecho da interao depende do reconhecimento e da imputao de representaes em relao s expectativas criadas pelas partes. Se os acionamentos corresponderem s expectativas, os atores recebem um tratamento adequado e o desfecho da interao satisfatrio. Mas, se os acionamentos no correspondem s expectativas, o desfecho da interao pode envolver algum embarao ou desapontamento. De maneira geral, no modelo teatral a interao realizada numa cena, travada entre atores mascarados, que desempenham papis relacionais com suas fachadas caractersticas. Cada um deles espera que suas representaes sejam reconhecidas recebendo um tratamento adequado. Para Goffman, a interao constitui uma ordem especfica um domnio autnomo e particular de atividade, pois os elementos contidos neste domnio esto mais intimamente ligados entre si que a elementos situados no exterior da ordem (GOFFMAN, 1999, p.195), sendo sua configurao irredutvel a outras ordens sociais. Acima procurei sistematizar de forma simplificada aspectos do modelo teatral. Para proceder tal sistematizao houve um enrijecimento devido minimizao dos exemplos empricos, que ancoram o mesmo. Tambm necessrio frisar que outros conceitos conexos no foram abordados, 17. 16 como os de bastidor, plateia, equipe, etc., pois os considero menos relevantes para a presente pesquisa. Optei pela abordagem e modelo acima descritos por alguns fatores. O primeiro deles refere-se a no essencializao Goffman aborda papis talhados de modo relacional, que s existem na medida em que so atuados e identificados na interao. Deste modo, no h uma essncia anterior s prticas e para alm da aparncia das performances. Outro fator refere-se questo da agncia. Antes de adotar tal teoria, abordava a construo do deficiente visual, cego, ceguinho, etc. muito mais como uma imposio por tcnicos e familiares, do que uma negociao situacional entre as partes, que envolveria tambm auto-reconhecimento e negao. Assim, considero que a interao permite ampliar os pontos de vista, dando conta de resistncias e contrariedades. Neste mesmo vis, tambm aprecio a teoria da ao interacionista, na qual a agncia do ator enfatizada mesmo considerando as constries estruturais que a limita. Na interao, a negociao no est definida previamente por tais constries, h uma margem de indefinio, que possibilita agncia para o ator. O ltimo fator o rendimento na anlise dos dados construdos. Das abordagens tentadas durante a pesquisa, essa foi que me permitiu relacionar a maior quantidade de dados. Talvez isso se deva, em parte, pela prpria condio dos dados, que so relativos microinteraes, presenciadas em observao participante. 18. 17 Considerando que todo modelo criado a partir de problemticas e empirias especficas, o deslocamento e emprstimo de seus conceitos para outro contexto exigem uma adaptao, toro e, no limite, uma reinveno. A seguir explicito alguns comentrios a este respeito. Quanto problemtica, Goffman est interessado em analisar a prpria ordem da interao, sua operao, regularidades, etc. J a presente pesquisa procura analisar as performances negociadas na interao. Desta forma, a interao no um objetivo, mas um instrumental para decodificar a prtica dos atores. Tendo em vista estes diferentes interesses, descartei alguns conceitos do modelo teatral, no emprego propriamente o papel e a fachada. Mas, os decomponho em categorias, atributos e sinais, como elementos negociados na interao. Decompus a fachada em seus sinais, analisando-os um a um durante acionamentos prticos. De modo semelhante, esmiucei o papel em categorias e atributos, analisando-os um a um. Tais decomposies foram necessrias para especificar de modo mais palpvel os elementos das negociaes interativas. Ao descartar alguns conceitos e priorizar aspectos abordados de modo marginal na teoria do autor, tais como: as categorias, os atributos e os sinais, fui obrigada a forjar definies e teorizaes aos mesmos. Tal tarefa foi empreendida a partir do confronto entre indicaes esparsas de Goffman e meu universo emprico. 19. 18 Por conta da diferena de problemtica, adotei outros autores para colaborar na construo de uma teoria da significao capaz de analisar as representaes em questo. A teoria elaborada prope dar sentido as representaes acionadas nas performances analisando-as em trs aspectos: no contexto interativo ou no conjunto das demais representaes acionadas e identificadas; nas contraposies possveis entre os termos propostos; e nas conexes histricas s quais tais representaes podem se remeter. Esta proposta fundamenta-se na combinao e adequao da abordagem dos autores abaixo: A partir de Bourdieu, suponho que as representaes em si so vazias, sendo que seu sentido reside na relao com o contexto: Compreender no reconhecer um sentido invariante, mas apreender a singularidade de uma forma que s existe num contexto particular. Produto da neutralizao das relaes sociais prticas nas quais ela funciona, a palavra - em todo caso, a do dicionrio - no tem nenhuma existncia social: na prtica, ela s existe submersa nas situaes, a tal ponto que a identidade da forma atravs da variao das situaes pode passar despercebida (BOURDIEU, 1983, p.159). Neste estudo, o contexto considerado como a prpria interao, ou seja, as demais representaes que so acionadas e identificadas pelos atores em suas negociaes. 20. 19 Deste modo, adoto apenas alguns aspectos muito circunscritos da teoria de Bourdieu, no pretendo, por exemplo, abordar as lutas simblicas, que pautam as relaes de poder num campo de agentes posicionados por meio de capitais e disposies de habitus. Lygia Sigaud (1978), baseada em Bourdieu, procura entender como a ideologia anti-patro repercute sobre a legitimidade e a reproduo do sistema da plantation aucareira pernambucana, no incio da dcada de 1970. Neste trabalho, me interessa o modo como a autora apresenta as representaes empregadas pelos agentes, agrupando-as de acordo com semelhanas e descontinuidades identificadas, compondo feixes de contraposies possveis. Quanto aos aspectos histricos, pretendo apresentar alguns fragmentos de discursos, de diferentes temporalidades, fornecendo indicaes sobre a emergncia das representaes em anlise. Desta forma, espero evidenciar contingncias e arbitrariedades destas representaes, construdas enquanto naturezas a partir de reiteraes e acumulaes discursivas. (FOUCAULT, 2008). Ressalvo que a presente pesquisa no priorizou analisar coletivos de enunciados, seus sistemas de relaes, suas recorrncias e suas transformaes ao longo do tempo. Apresento apenas poucos enunciados dispersos, que procuram pontuar minimamente as representaes como construes forjadas em contextos especficos. Alm da teoria da significao, tambm adoto Bourdieu de modo muito preciso no quarto captulo e nas Consideraes 21. 20 Finais. No quarto captulo fao uma aproximao com o conceito de capital para considerar possveis rendimentos envolvidos nas negociaes interativas. Nas Consideraes Finais, menciono o autor para refletir sobre a instituio e solidificao da cegueira, deficincia visual, baixa viso, vidncia, etc. como naturezas autoevidentes. Contudo, considero que as relaes entre Goffman e Bourdieu so muito mais intensas do que pode expor esta pesquisa. Por exemplo: apesar de Bourdieu no abordar a interao face a face propriamente, possvel sugerir que as lutas simblicas tambm se travam nesta e que os capitais podem ser institudos a partir de imputaes e reconhecimentos dados interativamente. Tambm acredito que as disposies relativas ao habitus so institudas e incorporadas na interao. Deste modo, a interao pode ser uma janela para olhar a prtica dos agentes e suas disputas. Por hora, apresento o campo emprico deste estudo e os procedimentos metodolgicos. A maior parte dos dados foi construda a partir das minhas experincias de campo, obtidas por meio de observao participante, tendo em vista interaes vividas ou presenciadas por mim. Tal mtodo justifica-se por permitir acesso privilegiado s interaes com suas negociaes, manejo corporal, etc. Quanto ao meu campo emprico, a seguir descrevo-o de acordo com o percurso de minha insero e as posies que ocupei. Tambm ressalto as alteraes realizadas no enfoque 22. 21 da pesquisa devido s prprias possibilidades do campo e aos aprimoramentos tericos. Fui a campo pela primeira vez em maro de 2008, no meu ltimo ano de graduao em Histria, procurando montar um projeto de mestrado na rea de conhecimento que j havia me seduzido a Antropologia. Neste primeiro momento, cogitei questes mais ligadas percepo sensorial e visualidade. At ento nunca havia tido nenhum contato mais aprofundado com tal universo, que surgiu um pouco por acaso. Logo de incio supus que os institutos especializados podiam ser uma porta de entrada privilegiada. A primeira instituio procurada foi o Instituto de Cegos Padre Chico2 . Fiz uma visita padro para os interessados em conhecer o local no meu grupo havia alunos de Psicologia, jornalistas e dois funcionrios da Secretaria Municipal do Trabalho que buscavam parceria para divulgao de vagas de emprego. Circulamos um pouco pelo local, passamos brevemente por uma da sala de aula e ouvimos a histria do instituto. Aps a visita expliquei o intuito da minha pesquisa para a responsvel e apresentei uma pequena proposta de trabalho. Dias depois, informaram que no seria possvel me atender e recomendaram que procurasse a LARAMARA instituio com melhores condies para o meu trabalho. 2 Escola especial de ensino fundamental, fundado em 1927, pela iniciativa de oftalmologistas, figures paulistanos e da Companhia das Filhas da Caridade de So Vicente de Paulo, que recebeu a direo do instituto (INSTITUTO DE CEGOS PADRE CHICO, 2009). 23. 22 Na semana seguinte fui conhecer a Fundao Dorina Nowill3 . Tratava-se de uma visita com o mesmo formato e intuito da descrita acima. Novamente disseram-me que no seria possvel realizar minha pesquisa observando e participando de atendimentos e que eu deveria procurar a LARAMARA, instituio que possuiria maior estrutura e receberia pesquisas. Assim sendo, procurei a LARAMARA Associao Brasileira de Assistncia ao Deficiente Visual, ONG criada em 1991 por um empresrio paulistano. Passei por outra visita semelhante s demais, mas no final da mesma o responsvel me apresentou para a coordenao, que me solicitou um currculo. Eu havia cogitado colaborar como voluntria nas aulas de Braille, Orientao e Mobilidade, Artes ou Projeto de Vida. Alegando a necessidade da professora, decidiram me alocar como assistente do ateli de Artes Plsticas, do grupo de adultos. Desta forma obtive a minha primeira insero no campo, em abril de 2008. As oficinas eram semanais, com cerca de dez alunos. Alm delas, no perdia a oportunidade de participar de todos os eventos extras, como: palestras, passeios, festas, saraus, etc. Considero que este primeiro momento foi importante por proporcionar um decisivo estranhamento inicial. Fui a 3 Instituio fundada em 1947, por Dorina Gouva Nowill, cega aos 17 anos devido a uma patologia ocular. A instituio produz livros em braile e em udio e promove programas de habilitao e reabilitao (FUNDAO DORINA NOWILL PARA CEGOS, 2009). 24. 23 campo buscando compreender a percepo do cego, com uma viso um tanto ingnua e essencializada. Neste contato meus preconceitos tambm emergiram e paulatinamente foram se despindo para que outros problemas de pesquisa viessem tona. Entre os especialistas da LARAMARA, conheci a professora de Musicografia Braile, que tambm lecionava no Padre Chico. Ofereci-me para ser sua assistente e foi assim que obtive minha insero naquele colgio, em maio de 2008. No Padre Chico, passei a acompanhar as aulas de Musicografia Braille e Artes entre os cerca de 50 alunos do 4 ao 9 ano, s segundas, quartas e quintas-feiras. Atravs de um dos alunos da oficina de artes da LARAMARA fui convidada a participar do Movimento Livre, movimento poltico em prol da incluso e acessibilidade do deficiente visual. O grupo foi formado em 2008, por cerca de dez deficientes visuais e eu, que sou considerada a nica vidente. Deste modo, tambm ocupo a posio de militante. Alm do prprio campo, a participao nos debates do Grupo de Estudos Surdos e da Deficincia do Ncleo de Antropologia Urbana da USP e as disciplinas de ps-graduao sugeriam outras abordagens possveis, incluindo um alargamento do trabalho emprico para alm dos institutos, visando uma compreenso mais ampla do que se passava ali. Decidi, ento, expandir o circuito etnografado, frequentando tambm vrios eventos que ocorriam pela cidade, tais como os da Secretaria dos Direitos da Pessoa com Deficincia do governo do Estado de So Paulo e as reunies e do Grupo 25. 24 Retina So Paulo4 . Ainda dirigi maiores atenes aos discursos mdicos e jurdicos. No segundo semestre de 2009 resolvi levar a cabo a remodelao da problemtica do projeto, deixando a percepo e focando na incorporao da cegueira. Com isso, tambm decidi mudar a minha insero nos institutos, circulando internamente por outras reas. Em 2010, deixei as aulas de artes do Padre Chico para passar a acompanhar a turma de alfabetizao do primeiro ano do Ensino Fundamental, supondo que o braile seria um artifcio importante no processo de domesticao do corpo. Tal turma possua treze alunos com, em mdia, oito anos de idade. Neste mesmo intuito, tambm comecei a acompanhar as aulas de Educao Fsica, entre os cerca de cinquenta alunos das turmas do preparatrio ao quarto ano. Na LARAMARA deixei os cursos dos adultos, que seriam mais genricos (Artes, Teatro, Dana, Yoga, etc.), para acompanhar as turmas de crianas em seus cursos mais voltados para a deficincia visual (Braille, Orientao e Mobilidade, Atividades de Vida Autnoma e Social, etc.), que so ministrados de forma integrada em grupos divididos por faixas etrias. Nesta instituio, passei a frequentar os encontros semanais de um grupo de oito jovens de em mdia treze anos, acompanhados de seus familiares, que tambm 4 Rede de pacientes com doenas degenerativas da retina, que em parceria com uma mdica geneticista da UNIFESP, fornecem as ltimas novidades das pesquisas mdicas aos seus membros. Os mdicos, em troca, possuem um amplo cadastro de pacientes que so contatados para as pesquisas. 26. 25 participam. Tais encontros me proporcionaram um contato com os pais que antes no possua. Em maro de 2010, surgiu a oportunidade de fazer aulas de braile com uma das religiosas do Instituto Padre Chico. Esta atividade foi muito interessante, pois pude experimentar a alfabetizao das crianas junto com o meu prprio aprendizado de braile usamos a mesma cartilha e tivemos vrias dificuldades semelhantes. Deste modo, o trabalho de campo foi realizado principalmente entre maro de 2008 e dezembro de 2010, quando frequentei o campo pelo menos trs vezes por semana. Neste perodo constru vnculos, familiarizei-me com os discursos, desmistifiquei pr-noes e ajustei os focos para desenvolver a organizao e a anlise final dos dados construdos. Durante o trabalho de campo fiz registros escritos e fotogrficos, descrevendo em detalhes a experincia vivida. Estes compem um documento em Word com mais de 500 pginas; e o montante fotogrfico de mais de 6.000 imagens digitais. Tambm reuni duas caixas-arquivo com materiais, como: folhetos, revistas, CDs, objetos, etc. Iniciei a elaborao do relatrio de Qualificao em Agosto de 2010. Para tanto, analisei as primeiras cinquenta pginas do meu caderno de campo. Constru fichas temticas, tais como: circulao/rede; trajetrias; dados institucionais; disciplinas corporais; fotografia; posies e papis ocupados por mim; posies e papis de deficiente visual/cego/ceguinho/cegueta; entre outras. Em seguida 27. 26 aprofundei a anlise da ltima ficha citada, transformando seus dados em problemas de pesquisa. Tal ficha temtica rendeu trs fichas-problemas: a incorporao da cegueira e/ou deficincia visual; jogando com categorias, atributos e sinais; e normatizao do corpo. As duas primeiras problemticas formaram a base do captulo apresentado no relatrio. A anlise final da massa dos dados de campo foi realizada entre janeiro e maro de 2011. Prossegui organizao dos dados a partir das fichas feitas para a Qualificao. As fichas temticas, em sua verso final, so: 1) Incorporao de categorias, atributos e sinais da cegueira e/ou deficincia visual; 2) Incorporao de tcnicas corporais; 3) Incorporao de habilidade (skills); 4) Jogando com categorias, atributos e sinais; 5) Normatizao do corpo; 6) A ordem da interao; 7) Sociabilidade; 8) Capitais e posies; 9) Circulao e rede; 10) Trajetrias; 11) Dados institucionais; 12) Outros marcadores; 13) Fotografia; 14) Posies e papis ocupados por mim; 15) Dados histricos acionados em campo. 28. 27 Aps organizar todo o material escrito nestas fichas, foi necessrio organizar os dados dentro de cada uma das fichas. Contudo, algumas fichas ficaram enormes, a primeira delas possua 121 pginas, pois acabei duplicando alguns dados que cabiam em vrias fichas. Ao organizar e analisar a primeira ficha Incorporao de categorias, atributos e sinais da cegueira e/ou deficincia visual, percebi que ela por si s era bastante rica. Tal ficha serviu de base para os captulos 1, 2, 3 e 5 desta dissertao. A ficha 4 Jogando com categorias, atributos e sinais o substrato do quarto captulo. Tambm usei alguns dados da ficha 2 Incorporao de tcnicas corporais quando descrevo o braile e a bengala no segundo captulo. Infelizmente, no consegui analisar e aproveitar todas as fichas, por conta do tempo, espero faz-lo em estudos futuros. Com relao ao material fotogrfico e fsico, iniciei sua organizao, mas no conclu a tempo. Especificamente quanto s fotografias, espero analis-las no mbito do Projeto Temtico A experincia do filme na Antropologia (Processo FAPESP No. 09/528880-9R), que participo. Iniciei propriamente a escrita da dissertao em abril de 2011. Parti das fichas que j estavam organizadas internamente por problemas a serem desenvolvidos. Mesmo assim, me afoguei nos dados, pois queria aproveitar todos. Contudo, isto era impossvel, tive de selecionar apenas os mais emblemticos. Depois desta limpeza, fui escrevendo conforme a ordem das questes das fichas, que serviram de estrutura para a dissertao. 29. 28 Concluindo os aspectos metodolgicos exponho um breve comentrio acerca da fotografia na pesquisa. Utilizei a fotografia como mtodo para a construo e expresso de dados e ainda como artefato criador de relaes, contextos e posies no campo. A construo de dados atravs da fotografia uma mtodo consolidado na Antropologia. De meados do sculo XIX at 1920, a fotografia foi utilizada principalmente com propsitos classificatrios para registrar tipos humanos. Nos anos 1930 destacam-se os trabalhos de Margaret Mead e Gregory Bateson, que conduziram um esforo de operacionalizar o uso da fotografia, procurando registrar aspectos visveis do comportamento humano que julgavam em desaparecimento. Aps tais incurses houve um esmaecimento do uso da fotografia na pesquisa antropolgica, visto a mudana de foco da temtica ligada arte e cultura material para a organizao social. Apenas no fim do sculo XX, a imagem voltou a ser problematizada mais sistematicamente pela disciplina (CAIUBY NOVAES, 2009, p.46). Nesta pesquisa utilizo a fotografia como um apoio observao de campo. Ela opera como um ver seletivo, que conduz a um primeiro recorte para a construo dos dados: um dos primeiros passos na expresso mais apurada da evidncia que transforma circunstncias comuns em dados para a elaborao na anlise de pesquisa (COLLIER, 1973, p.7). Especificamente, a fotografia me auxilia a reconstruir a sequncia temporal dos eventos pela ordem de suas tomadas, 30. 29 registrando etapas de processos; e a captar aspectos corporais ou do cenrio que so pouco verbalizados (gestos, posturas, vestimentas, organizao do espao, etc.). A cmera e seu produto, a fotografia, tambm possibilitam criar contextos, relaes e posies. Abaixo especifico tais possibilidades. Com relao aos contextos, em campo a cmera provoca situaes como: a correo da postura dos alunos pelos professores e familiares, expondo as disciplinas corporais, o padro de corpo e uma imagem que se quer construir. Ela tambm evidencia tenses entre os atores, a partir do que deve ou no ser registrado. Quanto s relaes, a fotografia pode gerar favores, trocas e reciprocidade. Em vrios casos, colegas, alunos e professores pedem-me para registrar eventos e enviar-lhes as fotos. Os mesmos tambm fotografam e enviam-me suas imagens. Algumas das minhas fotos foram utilizadas para compor material institucional e comercializadas para arrecadar fundos para a instituio. A cmera confere-me a posio de fotgrafa. Tal posio possibilita: acessos privilegiados a palcos, bastidores, etc.; circular em momentos que os atores deveriam permanecer parados ou sentados; aproximar-se mais dos protagonistas para a tomada da imagem, entre outros. Durante a dissertao exponho algumas imagens que se relacionam com o texto. Para Wolff (2004) a imagem possui quatro defeitos em relao ao texto, mas neles residem as 31. 30 suas potencialidades. Trata-se da inviabilidade de expressar o conceito, a negao, a dvida e o tempo. A impossibilidade de conceituar implica em no raciocinar, comparar, induzir, deduzir; ela no pode sobretudo explicar nada (WOLFF, 2004, p.26). Por outro lado, o que ela pode mostrar nada pode diz-lo; a escrita tem dificuldade para descrever o indivduo naquilo que ele tem de nico, tal pessoa, tal paisagem, tal ato, tal acontecimento; so necessrias longas descries incompletas e inexatas (WOLFF, 2004, p.26). O segundo defeito-potncia da imagem a inexistncia da negao: ignorando a negao, ela ignora o debate, a dialtica, a discusso, a oposio de opinies, o verdadeiro e o falso (WOLFF, 2004, p.26). Contudo, se a imagem no expressa a negao, ela expe a afirmao de modo arrebatador: o isto a imagem de um cachimbo um cachimbo; eis ento sua fora: ela pura afirmao (WOLFF, 2004, p.27). O terceiro defeito-potncia dado pela dificuldade de expressar a duvida: s conhece um modo gramatical: o indicativo. Ela ignora as nuances do subjuntivo ou do condicional. , ponto, tudo. Jamais um se nem um talvez (WOLFF, 2004, p.27). Com isso ela d um sentimento de realidade que a linguagem no d (WOLFF, 2004, p.27). O ltimo defeito-potncia a ausncia do passado e do futuro, ela tambm s conhece um tempo, o presente [...], ela ignora pretrito e futuro. Ela no pode representar o 32. 31 tempo, e isto o que faz sua fora mgica, religiosa (WOLFF, 2004, p.28). Tendo em vista as potencialidades e limitaes destas duas linguagens, procuro explorar o texto em sua dimenso conceitual, argumentativa e temporal; e utilizo as imagens para descrever situaes, ambientes e corpos, em seus detalhes e particularidades. Por fim, resumo cada um dos cinco captulos desta dissertao. Ressalto que os trs primeiros formam um bloco, desenvolvendo algumas representaes acionadas nas performances nomeadas de cegueira, deficincia visual, baixa viso, vidncia, entre outros termos. Os dois captulos seguintes partem destas representaes para analisar suas negociaes interativas. O primeiro captulo aborda as categorias de nomeao, que so a maneira pela qual os atores representam seus personagens e os dos outros, classificando-se por meio delas e instituindo fronteiras. Procurei analisar o uso das categorias mais recorrentes em campo, tais como: cego, ceguinho, deficiente visual, baixa viso, vidente, etc.; atentando para seus aspectos histricos, suas contraposies e acionamentos em contextos especficos. O segundo captulo aborda os sinais, equipamento expressivo reconhecido e exposto principalmente para distinguir os atores na interao e gerar expectativas. Descrevo sinais como: bengala branca, co-guia, culos escuros, etc. Tambm pontuo aspectos das tcnicas corporais envolvidas no manejo de alguns equipamentos e prticas sinalizadoras. 33. 32 O terceiro captulo analisa alguns atributos acionados nestas performances. Trata-se de cristalizaes ou esteretipos qualificativos, tais como: a incapacidade, dependncia, desgraa, enfermidade, entre outros. O quarto captulo expe como os atores negociam as representaes abordadas nos trs captulos precedentes, indicando possveis rendimentos simblicos, que podem contribuir na reproduo das representaes em questo. O quinto captulo versa sobre a incorporao das representaes apontadas nos trs primeiros captulos. Neste estudo, a incorporao o reacionamento das representaes, a partir de acionamentos anteriores, que geraram um reconhecimento ntimo, atingindo as instncias do eu dos atores. Demonstro como, em grande parte, a incorporao dada em situaes cotidianas mnimas, por meio de pequenas imputaes e testes solidificados atravs da repetio. As consideraes finais procuram amarrar os argumentos dos captulos anteriores atravs de questes transversais mais gerais, que se afastam das microssituaes interativas. Tambm me permito um breve comentrio pessoal sobre a experincia desta pesquisa. 34. 33 1. Classificao de personagens: categorias de nomeao Neste captulo pretendo apresentar um dos modos de representao acionado nas performances da chamada cegueira, deficincia visual, baixa viso, vidncia, entre outros termos. Trata-se das categorias de nomeao. Tais categorias nomeiam padres de ao pr- estabelecidos e suas performances especficas. Os padres de ao correspondem a representaes estereotipadas, como atributos e sinais determinados, que so acionados pelos atores em suas performances. Nesta situao, as categorias so usadas pelos atores para representar seus personagens e os dos outros, classificando-se por meio delas e instituindo distines. As categorias escolhidas para este estudo so as mais utilizadas, segundo pude observar em campo. Deste modo, o trabalho de campo o guia norteador da anlise. Contudo, tal anlise no se pretende exaustiva, dando conta da totalidade das categorias empregadas. Reparei que algumas categorias podem ser intercambiveis, em alguns contextos, e outras dificilmente. De modo geral, as categorias no intercambiveis correspondem a performances distintas dos atores. 35. classificao de um ator como cego envolve o 34 Em campo, h pelo menos trs diferentes performances, que possuem diversas categorias para nome-las, abordarei neste captulo dezesseis delas. Observe o quadro a seguir: Tabela 1 Categorias de nomeao em anlise. - Cego, ceguinho, cegueta; - Anormal; - Deficiente visual, DV, portador de deficincia visual, pessoa com deficincia visual. - Vidente; - Normal; - No-deficiente. - Cego. - Meio-cego, semicego; - Baixa-viso, BV. As trs diferentes performances correspondem s trs colunas de fundo cinza. Deste modo, a primeira performance nomeada pela categoria cego; a segunda, pelas categorias baixa-viso, BV, meio-cego, semicego; e a terceira, pelas categorias vidente, normal e no-deficiente. Como sugere a tabela, as categorias da segunda linha: cego, baixa viso, BV, meio-cego e semicego, podem ser englobadas por uma classificao comum, que abarca e nomeia ambas as performances. Esta classificao englobante refere-se primeira clula da tabela, a nica de fundo branco. Tal configurao detalhada ao longo do captulo. Cada uma das trs performances possui, entre outros fatores, atributos e sinais especficos que so reconhecidos e imputados para haver classificao. Por exemplo, a 36. identificar justamente o que, neste nvel de 35 reconhecimento e a imputao de sinais como: bengala branca, co guia, culos escuros, etc.; e de atributos como: incapacidade, dependncia, fragilidade, etc. Tais sinais e atributos so descritos e analisados nos prximos captulos. As categorias dentro da mesma clula da tabela podem ser intercambiveis por corresponderem a uma mesma performance e podem ser contrapostas s categorias e performances da coluna ao lado. Por exemplo, a categoria cego pode ser intercambivel por deficiente visual, DV, etc. e pode se opor a vidente, normal e no deficiente. Algumas categorias e suas oposies possuem profundidades histricas semelhantes, tendo se constitudo concomitantemente. Tal correlao est exposta na tabela atravs de uma correspondncia horizontal entre os termos, sendo elas: cego versus vidente; normal versus anormal; deficiente versus no deficiente. Contudo, dentre as categorias de uma mesma coluna h situaes onde estas no so intercambiveis, apesar de remeterem a mesma performance. Como pondera Sigaud (1978), tais situaes referem-se a contextos especficos e a disputas pela nominao. A anlise a ser feita deve partir do princpio de que a pluralidade de termos no simplesmente questo de sinonmia embora ela exista e que se o trabalhador precisa de um certo nmero de termos para se classificar a si prprio e os outros porque esses termos possuem valores diferentes [...]. O importante 37. 36 anlise, no intercambivel e, portanto especfico e apontar para os contextos de sua utilizao (SIGAUD, 1978, p.8-9). No final deste captulo, desenvolvo algumas disputas e tipifico alguns contextos onde categorias que nomeiam a mesma performance no so intercambiveis. Por hora, analiso cada categoria do quadro acima atentando para trs aspectos: suas contraposies possveis; as conexes histricas s quais podem se remeter; e o contexto interativo ou os demais sentidos acionados. Tal proposta foi fundamentada na Introduo desta dissertao. As primeiras categorias da tabela so cego e as suas variaes ceguinho e cegueta , que podem ser acionadas, em campo, contrapondo-se vidente ou s demais categorias da coluna oposta. Historicamente a categoria cego possui longa durao, sendo acionada desde a Idade Antiga. Sua etimologia remete ao latim caecu (WEISZFLOG, 2007), encontrado, por exemplo, na comdia de Plauto (Sarsina, cerca de 230 a.C. - 180 a.C.)5 , na poesia de Horcio (Vensia, 65 a.C. - Roma, 8 a.C.)6 , na 5 Caeca amore est [cega de amor]. PLAUTUS, Titus Maccius. Miles Gloriosus. [S.l.]: IntraText Edition, ulogos, 2007. Disponvel em: http://www.intratext.com/IXT/LAT0549/. Acessado em: Set.2011. 6 Caecus iter monstrare vult [O cego quer mostrar o caminho]. HORCIO FLACO, Quinto. Epistulae. In: KOCHER, Henerik. Dicionrio de expresses e frases latinas. Disponvel em: http://www.hkocher.info/minha_pagina/dicionario/v04.htm. Acessado em: Set.2011. 38. 37 tragdia de Sneca (Corduba, 4 a.C. - Roma, 65 d.C.)7 e na bblia8 . De modo semelhante, a categoria vidente provm do latim homnimo (WEISZFLOG, 2007) e pode ser encontrada em contraposio ao termo cego, por exemplo, no sculo XIII, nas parbolas do Directorium humanae vitae alias parabolae antiquorum sapientum, compiladas por Joo de Cpua (Roma, 1262/1278 - ?)9 e tambm na Summa contra gentiles, de So Toms de Aquino (Roccasecca, 1225 - Fossanova, 1274)10 . 7 Caeca est temeritas quae petit casum ducem [ cega a audcia que busca o acaso como guia]. SNECA, Lcio Aneu. Agammnon. Estudo de Jos Eduardo dos Santos Lohner. So Paulo: Globo, 2009. 8 potest ccus ccum ducere nonne ambo in foveam cadent [Pode um cego guiar outro cego. Ser que eles no cairo ambos no fosso.] BBLIA. Vulgata Latina. Evangelium secundum Lucam, cap. 6, ver. 39. Disponvel em: http://www.bibliacatolica.com.br/09/49/6.php. Acessada em: out.2011. 9 Sicut duo homines, quorum unus est caecus, alter vero videns; et cum ambularent pariter per viam, ambo ceciderunt in foveam [Enquanto os dois homens, um deles cego, o outro vidente; e quando eles foram de igual modo pelo caminho, ambos caram no poo]. IOHANNES DE CAPUA. Directorium humanae vitae alias parabolae antiquorum sapientum. In: BIBLIOTHECA AUGUSTANA. Disponvel em: http://www.hs- augsburg.de/~Harsch/Chronologia/Lspost13/IohannesCapua/cap_dip l.html. Acessado em: set.2011. 10 et si est videns et caecum, quod sit videns et non videns [e se vidente e cego, para ver e no ver]. TOMS DE AQUINO. Summa contra gentiles seu liber de veritate catholicae fidei contra errores infidelium. Liber secundus. BIBLIOTHECA AUGUSTANA. Disponvel em: http://www.hs- 39. 38 Entre os exemplos mencionados, alguns deles so atribudos a agentes posteriormente considerados como autores consagrados nos campos religioso, filosfico e artstico. Assim, possvel supor que tais campos podem ter contribudo para reproduzir o uso de tais categorias. Alm disso, elas tambm so encontradas em discursos pedaggicos, mdicos e estatais (KOESTLER, 2004) , prevalecendo predominante nos mesmos at o sculo XX. Quanto ao meu trabalho de campo, segue um exemplo relativo ao emprego das categorias em questo e da contraposio citada: [Funcionrio de um instituto especializado criticando escolas especiais, na visita de apresentao do instituto] Se uma criana vidente v a cega colocando o dedinho no nariz, ela vai falar; se todos so cegos ningum vai corrigir. Neste trecho, que remete a um contexto de visitao, o ator distingue as crianas em cegas e videntes com relao correo de uma etiqueta. Dentre as categorias listadas, as prximas solidificadas referem-se ao par de oposio normal e anormal. Segundo Foucault (2009), o normal se estabelece desde o sculo XVIII, como meio de classificar e hierarquizar, sustentando homogeneidades e determinando os desviantes ou anormais. augsburg.de/~Harsch/Chronologia/Lspost13/ThomasAquinas/tho_scg 2.html. Acessado em set. 2011. 40. 39 Aparece, atravs das disciplinas, o poder da Norma. Nova lei da sociedade moderna? Digamos antes que desde o sculo XVIII ele veio unir-se a outros poderes obrigando-os a novas delimitaes; [...] a regulamentao um dos grandes instrumentos de poder no fim da era clssica. As marcas que significavam status, privilgios, filiaes, tendem a ser substitudas ou pelo menos acrescidas de um conjunto de graus de normalidade, que so sinais de filiao a um corpo social homogneo, mas que tm em si mesmos um papel de classificao, de hierarquizao e de distribuio de lugares. Em certo sentido, o poder de regulamentao obriga homogeneidade; mas individualiza, permitindo medir os desvios, determinar os nveis, fixar as especialidades e tornar teis as diferenas, ajustando-as umas s outras (FOUCAULT, 2009, p.176-177). Kim (2011, p.17), baseado em Davis (2010, p. 3-19), indica que o normal cristaliza-se com a estatstica, no sculo XIX. A estatstica elege critrios de medio e determina o normal por uma maioria representada atravs da rea central de um grfico em formato de sino; e o anormal, atravs das extremidades do grfico. A cegueira corresponde apenas a uma forma de desvio ou anormalidade. Apesar da amplitude e falta de especificidade das categorias normal e anormal, decidi mant-las na anlise por serem muito empregadas em campo. A seguir, alguns exemplos: 41. 40 [Instituto especializado] Como no ia ter reunio, perguntei para o Vincius [professor de informtica] se eu poderia assistir a sua aula. Ele disse que sim, que bacana conhecer os recursos [de informtica]. Entramos na sala, ele me colocou num computador e os alunos foram chegando. No incio da aula, o professor me apresentou, disse meu nome e que era voluntria de outro setor, a uma aluna perguntou ento, voc normal?. O professor interveio: no liga, no, a Mara fala engraado assim. Respondi a pergunta, meio sem jeito, dizendo que sou.... [Instituto especializado] Antes da aula sentei l na frente [no hall] e conversei com a Lola, moa simptica, BV [baixa viso], amiga do Antnio, uma hora ela perguntou voc normal?. Nos dois exemplos, em contextos de coleguismo, os atores acionaram a categoria normal, questionando voc normal?, para classificar um interlocutor desconhecido no cenrio de um instituto especializado. No sculo XX, outras categorias de nomeao estabilizaram-se, tais como: invlidos, incapacitados, defeituosos, deficientes, etc. (SASSAKI, 2006). Isto ocorreu principalmente nos ps-guerras, em virtude do contingente de corpos lesionados, objetos de prticas estatais-mdico- pedaggicas. Dos termos citados, excetuando deficiente, os demais praticamente no aparecem em meu trabalho de campo. 42. 41 Na dcada de 1970, configuraram-se nos Estados Unidos e Europa movimentos sociais de luta por direitos, tributrios tambm de processos associativos primrios produzidos principalmente na Igreja Catlica e na clnica, que se traduziram em grupos de ajuda mtua e posteriormente numa rede de associaes11 . Tal movimento foi encabeado principalmente pelos chamados Estudos da Deficincia, que requalificaram a categoria deficincia, contrapondo-a s demais categorias e principalmente aos discursos considerados patologizantes. Grande parte destes enunciados prope que o lcus da deficincia passe do corpo doente para a relao da pessoa com o contexto social (MELLO, 2009, p.27-28). A categoria deficiente pretende renomear cegos, surdos-mudos, aleijados e retardados, unificando-os enquanto deficientes e particularizando-os em deficincias especficas: visual, auditiva, fsica e intelectual. A seguir um exemplo do uso destas categorias em meu trabalho de campo: [Instituto especializado] A professora distribuiu bonequinhos de EVA [placa de borracha] com diferentes posturas, lembrando aqueles do [artista] Keith Haring, e pediu para os alunos acharem o par idntico. Um dos bonequinhos estava quebrado, sem um brao, a a Fernanda disse aleijado, ento Joana replicou coitado. A professora repreendeu no aleijado, deficiente fsico. 11 Informao verbal fornecida por Csar Augusto Assis Silva, em sua arguio na defesa da presente dissertao, em 17 jan.2012. 43. 42 Neste exemplo, num contexto pedaggico, a repreenso da professora, denota que a categoria deficiente fsico impe- se sobre a de aleijado, devendo substitu-la. A partir de 1980, a categoria pessoa deficiente solidifica-se vinculando nominalmente a deficincia pessoa. Nesse caso, a pessoa torna-se o locus da deficincia que a adjetiva. O ano de 1981 foi nomeado pela ONU como Ano Internacional das Pessoas Deficientes. Conforme indica Mauss (2007, p.387), a categoria pessoa est relacionada deteno de direitos na idade clssica: o cidado romano tem direito ao nomen, ao praenomen e ao cognomen, que sua gens lhe atribui; diferentemente do escravo, que no era considerado pessoa e, portanto, no possua direitos. J com o cristianismo acionou-se a unidade da pessoa perante Deus. Por fim, nos sculos XVII e XVIII, a formao do pensamento poltico e filosfico colocou a questo da conscincia individual. Neste caso, a reverberao relativa luta pelos direitos dos movimentos sociais coerente com o deslocamento da categoria deficincia para as instncias da pessoa. A pessoa, enquanto tal, detentora de direitos, por exemplo: de locomover-se, reivindicado pelos deficientes fsicos; de comunicar-se, pelos deficientes auditivos, entre outros. Alm dos direitos, a deficincia tambm colocada como um atributo individualizante da pessoa, conforme o relato abaixo: [Perfil publicado em uma rede social virtual] Talvez esse seja s mais um perfil do Orkut 44. 43 que voc est acessando, mas s voc continuar lendo e ver que no bem assim. Cada pessoa, por mais parecida que seja, no fundo, l no fundo, tem uma coisa que a torna totalmente diferente. E justamente essa coisa, que faz toda diferena. Sou deficiente visual desde os cinco anos de idade, perdi a viso devido a glaucoma congnito e catarata, mas isso nunca me impediu de ser feliz. Nos pases de lngua portuguesa houve a variao da categoria deficiente vinculada ao termo portador pessoa portadora de deficincia , que chegou a ganhar normatividade jurdica. Contudo, o termo portador foi questionado pelos movimentos sociais por aludir a carregador, argumentando-se que no se portaria uma deficincia como uma carteira de identidade, a qual se abandona a qualquer momento (MELLO, 2009, p.51). Tal termo foi substitudo oficialmente pela categoria pessoa com deficincia, em 2008, quando o congresso ratificou a Conveno sobre os Direitos das Pessoas com Deficincia da ONU. As categorias anteriormente mencionadas, deficiente e pessoa deficiente, tambm deixaram de ser consideradas como as mais adequadas pelos movimentos sociais com a cristalizao do termo pessoa com deficincia. Argumentou- se que aqueles termos tomariam a parte pelo todo, sugerindo que a pessoa inteira deficiente (MELLO, 2009, p.51). Contudo, noto que h predileo pelo termo oficial pessoa com deficincia visual principalmente em situaes 45. 44 formais, como discursos institucionais; j que em muitas outras situaes, as demais categorias so amplamente acionadas. Em contraposio categoria deficiente e suas variaes, estabelece-se a no-deficiente, que tem como referencial positivo a deficincia, definindo seu oposto pela negao. Tal operao entre os polos positivo e negativo reversa ao do par normal e anormal, onde a referncia a normalidade e sua ausncia determina o anormal. Abaixo um exemplo do emprego daquele termo: Sexualmente falando, a satisfao de 7,14% dos pesquisados exclusiva com pessoas com deficincia, enquanto 28,47% deles afirmam relacionar-se satisfatoriamente tambm com no deficientes. A maioria (64,29%) no soube responder, j que nunca teve a oportunidade de manter uma relao sexual com uma pessoa com deficincia. (CRESPO, 2006). No trecho acima, extrado do texto Devotee: Atrao por Pessoas com Deficincia, relativo a uma palestra proferida na X Conferncia Mundial da Rehabilitation International, publicada pelo site Bengala Legal (CRESPO, 2006), o termo no deficiente contraposto a pessoa com deficincia no contexto da apresentao de uma pesquisa acadmica. De acordo com a tabela apresentada, as prximas categorias a serem tratadas so meio-cego e semicego. A referncia mais antiga que encontrei remete dcada de 1920, 46. 45 quando o Sindicato dos Jardineiros Cegos de Londres, fundado em 1900 e filiado ao Instituto Nacional para Cegos, mudou seu nome para Sindicato para Promoo da Jardinagem entre os Cegos e os Parcialmente Cegos (LAGN; ROSENTHAL; SEIDMAN, 1999, p.4). Contudo, essa distino e demarcao entre cegos e parcialmente cegos parece constituir uma exceo com relao nomeao de instituies, pois de modo geral os parcialmente cegos eram abarcados por instituies denominadas para cegos 12 . A diferenciao entre cegos e meio-cegos ou semicegos dada em termos de performance, por exemplo: estes geralmente so identificados pelo uso de culos de grau e aqueles no; aqueles geralmente utilizam bengala ou co- guia e estes no, etc. Detalho as performances dos personagens nos prximos captulos. Contudo, apesar das diferenas, os ditos meio-cegos e semicegos foram englobados em instituies para cegos e tambm no havia tcnicas e especialistas solidamente estabelecidos para os mesmos. Abaixo apresento um exemplo, do meu trabalho de campo, referente diferenciao entre cego e semicego e a contraposio de ambos perante a categoria normal: 12 Conforme pode se verificar atravs dos nomes das diversas instituies citadas em: GOODRICH, Gregory L; ARDITI, Ariel. An Interactive History the low vision time line. In.: STUEN, Cynthia; ARDITI, Ariel; HOROWITZ, Amy; LAGN, Mary Ann; ROSENTHAL, Bruce; SEIDMAN, Rose. Vision rehabilitation: assessment, intervention, and outcomes. New York: Swetz & ZEITLINGER, 1999. 47. 46 [Visita de uma turma de alunos de um instituto especializado biblioteca braile de um centro cultural municipal] O funcionrio que nos atendia prosseguiu a conversa falando: muita gente me pergunta como faz para acompanhar o ensino normal, mais quem estudou em escola especial. Digo que bom que voc se integre com as pessoas. Voc tem que se tornar um cara normal. No comeo das aulas comum que queiram saber como a sua vida de cego ou semicego. Por fim, as ltimas categorias do quadro so baixa viso e sua sigla BV, que se solidificaram provavelmente na dcada de 1970, sobrepondo-se s categorias anteriormente preponderantes meio-cego e semicego , bem como possvel indistino e englobamento pela categoria mais abrangente cego. Por exemplo, o relato abaixo aponta tal indistino e a inexistncia do termo baixa viso na dcada 1960, no mbito de um instituto especializado: [Festa junina de um instituto especializado] Sr. Horcio [ex-aluno] falou quando eu estudei aqui [na dcada de 1960] no tinha essa coisa de cego e baixa viso, era tudo cego, no mximo meio-cego. Nos exemplos abaixo, de meu caderno de campo, a categoria baixa viso diferenciada de cego, tambm sendo contraposta a normal: [Em uma das minhas primeiras visitas a um instituto especializado] Cheguei, tinha que 48. 47 esperar a coordenadora, ento fui sentar no hall, onde havia alguns alunos, pedi licena para passar entre as cadeiras e a mesa e o aluno perguntou quem ?, me apresentei e puxei um papo, eles eram alunos do curso de teatro. Perguntaram se eu tinha baixa viso, disse que uso culos para astigmatismo de trs graus e meio, ento todos disseram aaaah, isso no nada. Normal., perguntei qual era o limite, mas no entenderam a pergunta, um deles disse todo mundo aqui baixa viso, ele cego, prosseguiu com trs graus e meio voc l jornal, no l? A gente no. [Sala de aula, instituto especializado] Os quadros no fundo da sala caram, Gilson veio me dizer que foi a Fernanda e a Janana, mas elas disseram que no. A ele disse de modo irnico eu vi, Janana retrucou ento o que voc est fazendo aqui?, Gilson respondeu a Fernanda no cega e est aqui; Janana, meio brava, defendeu a amiga dizendo ela baixa viso!. Por fim, mais manso, Gilson disse brincadeira Janana.... Sobre o primeiro trecho acima, em contexto de coleguismo, a fronteira instituda entre baixa viso e normal dada atravs da possibilidade de leitura do jornal. O segundo exemplo, num contexto de discusso entre colegas, aborda-se a legitimidade de estar em um instituto especializado. Gilson situa o instituto como local de cego e Janana acrescenta que alunos baixa viso tambm so 49. 48 legtimos. Deste modo, possvel verificar a distino e a contraposio entre as categorias cego e baixa viso. Como sugere a tabela apresentada, as categorias da segunda linha: cego, baixa viso, BV, meio-cego e semicego, que nomeiam duas performances distintas, podem ser englobadas por uma classificao comum, relativa primeira clula da tabela. Esta classificao corresponde e nomeia ambas as performances atravs de seus termos. A seguir detalho aspectos deste englobamento. Mencionei anteriormente que at por volta da segunda metade do sculo XX havia uma pouca distino performativa e institucionalizada entre os ditos cegos e meio-cegos ou semicegos, que permitia tambm o abarcamento destes termos por aquele, ou seja, o meio-cego podia ser classificado de modo geral como cego. Os prprios termos meio-cego e semicego so tributrios da categoria cego e sugerem uma distino parcial. Contudo, posteriormente houve uma maior institucionalizao de distines entre cego e meio-cegos ou semicegos e outra categoria despontuou baixa viso. Apesar de desconhecer instituies pedaggicas ou associaes especficas de ou para baixa viso, estabilizaram-se alguns setores mdicos como a ortptica, algumas tcnicas como a escrita ampliada e algumas tecnologias, como os ampliadores. Alm disso, a terminologia desvincula-se do termo cego, atrelando-se a uma reduo da viso, que passa a ser o referencial nominal. 50. 49 A categoria baixa viso solidificou-se concomitantemente a cristalizao do termo deficiente visual, sendo que este apresentou ainda uma pretenso estrategicamente aglutinadora daquela categoria, bem como da categoria historicamente anterior, cego. Nesta conformao, cego contraposto a baixa viso, mas ambos esto contidos ou podem ser deficientes visuais. Abaixo indico um exemplo onde a categoria deficiente visual engloba a diferenciao entre cego e baixa viso: Figura 1 Site da ONG Grupo Terra. Exemplo do uso da categoria visual englobando cego e baixa viso. 51. 50 Na imagem acima, do site de uma ONG do circuito que organiza atividades de lazer, a pergunta voc uma pessoa com deficincia visual? tem como resposta sim, sou cego e sim, tenho baixa viso, situando, portanto, as categorias cego e baixa viso enquanto pessoa com deficincia visual. Ainda nesta situao relativa a passeios, a necessidade de guia tambm um divisor, pela ausncia de opo pressupe-se que cego necessariamente precisa de guia e baixa viso poderia tanto precisar quanto no precisar. Com relao s outras deficincias, noto que essa pretenso englobante no ocorreu, por exemplo: os termos retardado e aleijado foram rechaados pelos movimentos sociais como categorias de nomeao, excludos das categorias oficias e no foram incorporados como subdivises internas das categorias deficiente intelectual e deficiente fsico. J o termo surdo tambm no foi englobado pelo termo deficiente auditivo, mas foi reapropriado para forjar a surdez enquanto particularidade etno-lingustica13 . Por hora exponho algumas diferenas e incongruncias entre categorias que podem ser intercambiveis por remeterem a uma performance similar. Refiro-me s categorias que compartilham a mesma clula da tabela apresentada. Abaixo explicito disputas e tipifico contextos onde tais categorias no so equivalentes. 13 Para detalhes ver: ASSIS SILVA, Csar Augusto. Entre a deficincia e a cultura: anlise etnogrfica de atividades missionrias com surdos. So Paulo: USP, PPGAS/FFLCH, 2010. 52. 51 De modo exemplar, aponto o embate entre deficiente visual e cego, incluindo seus termos derivados, enquanto categorias englobantes de nomeao que abarcam as performances nomeadas pelas categorias cego, baixa viso, BV, meio-cego e semicego. Conforme j explicitado, a categoria deficiente visual e suas derivadas solidificaram-se principalmente atravs dos discursos dos movimentos sociais pelos direitos a partir da dcada de 1970, suplantando cego enquanto categoria oficial do estado. A seguir um exemplo: Devero ser instaladas sees nas vilas e povoados, assim como nos estabelecimentos de internao coletiva, inclusive para cegos e nos leprosrios onde haja, pelo menos, 50 (cinqenta) eleitores. (BRASIL, 1965) As urnas eletrnicas, instaladas em sees especiais para eleitores com deficincia visual, contero dispositivo que lhes permita conferir o voto assinalado, sem prejuzo do sigilo do sufrgio. (BRASIL, 2004). O primeiro trecho, extrado do Cdigo Eleitoral de 1965, utiliza apenas o termo cego, que aparece outras dez vezes neste documento. Contudo, em alteraes feitas posteriormente, como indica o segundo trecho referente Resoluo n 21.633 de 2004, do Tribunal Superior Eleitoral, a categoria preponderante deficiente visual. A categoria deficiente visual e suas derivadas tambm so preferencialmente empregadas entre as instituies 53. 52 especializadas, que nasceram no bojo dos movimentos sociais. O prprio nome destas instituies exemplifica tal situao: a LARAMARA - Associao Brasileira do Deficiente Visual, que foi fundada neste contexto, durante a dcada de 1990, utiliza a categoria referida; j o Instituto de Cegos Padre Chico, inaugurado em 1929, e a Fundao Dorina Nowill para Cegos, constituda em 1946, utilizam o termo historicamente anterior. Quanto ao trabalho de campo, noto que a categoria deficiente visual e suas derivadas so preponderantes nos discursos que remetem luta pelos direitos: [Reunio entre representantes de instituies especializadas] Jonas [diretor de um movimento poltico] disse: sentimos a necessidade de criar esse movimento porque achamos que o deficiente visual tem que ser mais ativo, procurar fazer as coisas acontecer. Sabemos nossas necessidades, num trabalho em comum com vocs, em tantas reas que vocs j desenvolvem, acredito que o papel do deficiente visual falta pr-ao; O movimento vem para contribuir com todos vocs, estar nas entidades, junto ao poder pblico e exigir direitos. Ns, como deficientes visuais, agentes principais dessa luta, ns temos que estar juntos, contribuir para que isso acontea. Se resolvesse o problema do deficiente criar entidades, no estaramos nessa, para a incluso sair do papel. (grifos nossos). 54. 53 No trecho acima, entre parceiros institucionais, o ator utilizou a categoria deficiente visual relacionando-a a exigncia de direitos e a luta poltica. A categoria deficiente visual e suas derivadas so acionadas como politicamente corretas perante a categoria cego e suas derivadas, que so postas como inadequadas, retrgradas e depreciativas. Neste sentido, pode haver algum constrangimento em utilizar estes termos, conforme denotam os exemplos abaixo: [Aguardando amigos no metr para irmos a uma festa] Anselmo falou que podia deixar que ele ia dirigindo e perguntou voc nunca viu ceguinho dirigir?, falei que vi na TV, me referia ao programa Myth Busters, ele falou com software, eu falei no, era ceguinho mesmo. A o Jos disse em tom marcado e prolongado ceeeeeeguiiiinhoooo?. Tomei uma chamada, respondi que s estava usando aquele termo, porque era o que j tinha sido dito e ele falou algo como ah bom. [Instituto especializado, antes da aula] Leonardo disse que no gosta do termo cego, disse que acha pejorativo, Priscila concordou, falam seu cego [como xingamento], Leonardo disse que prefere deficiente visual. No primeiro trecho, num contexto de coleguismo, o ator foi repreendido por usar o termo ceguinho, considerado inapropriado. 55. 54 No segundo trecho, num contexto de coleguismo, o termo cego colocado como pejorativo e como um xingamento seu cego, motivo da predileo pela categoria deficiente visual. Contudo, o termo cego e seus derivados so preponderantes em diversas situaes, tais como em contextos onde os atores acionam representaes e disposies religiosas. Isso ocorre possivelmente em virtude da relao histrica desta categoria com o campo religioso, brevemente mencionada no incio deste captulo. A seguir, apresento um exemplo do meu caderno de campo: [Reunio entre representantes de instituies especializadas] Elias: eu falo cego, tem gente que acha rude. Deficiente todo mundo , ningum tem todos os sentidos funcionando 100%, eficiente s Deus. Neste trecho, entre parceiros institucionais, o ator afirmou predileo pela categoria cego, restabelecendo a igualdade de todos perante Deus, o que pode relacionar-se ao universalismo catlico. A categoria cego tambm preponderante em situaes de mendicncia e de solicitao de ajuda ou favor, conforme exemplifica o trecho abaixo: Estava parada no farol para cruzar a avenida, veio um homem cego segurando bengala, acompanhado por uma mulher vidente, pedir esmola. Ambos usavam camisetas escritas com sou cego, mas voc que no me v. 56. 55 No exemplo acima, num contexto de mendicncia, a categoria usada na camiseta dos pedintes era cego, referindo-se a uma invisibilidade social. Os contextos ofensivos ou afetivos so outras situaes onde a categoria cego e suas variantes tambm parecem predominantemente acionadas. A seguir alguns exemplos: [Instituto especializado, antes de comear o atendimento] A me do Thiago contou que essa semana, na escola, chamaram ele de ceguinho, deram murro na barriga dele. [Instituto especializado, oficina de Orientao e Mobilidade] Professor: aqui vamos chamar de ceguinho, mas de uma forma muito carinhosa. Figura 2 Publicao em rede social virtual. Exemplo do uso da categoria cego e variaes em contexto de proximidade. 57. 56 No primeiro exemplo, referente a um contexto pedaggico, a me do aluno aciona a categoria ceguinho atrelando-a a agresso fsica. No segundo exemplo, num contexto pedaggico, o professor indica a utilizao da categoria ceguinho expressando carinho. No ltimo exemplo, no contexto de uma rede social virtual, a mensagem publicada utiliza a categoria deficincia de forma impessoal. Contudo, j o primeiro comentador aciona a categoria cego em ingls, precedido por uma variao do termo amigo, denotando a proximidade entre os atores. O ltimo comentrio utiliza a categoria cegueta relacionando-a a um vnculo afetivo, apaixonar-se. Ainda sobre a utilizao das categorias deficiente visual e cego, segue um exemplo sobre a comparao dos termos: [Instituto especializado] Henrique falou que concorda com Geraldo Magela [humorista cego] pessoa com deficincia visual parece bandido, sou cego e pronto. A, Jonas falou tem gente que no gosta sou cego, Mrcia prosseguiu de se admitir como cego. No trecho acima, num contexto de coleguismo, a categoria cego remete aceitao sou cego e pronto, se admitir como cego. Em contraposio, pessoa com deficincia visual colocada quase como um eufemismo, uma polidez. A meno bandidagem pode relacionar-se ao fato de pessoa com deficincia visual ser a principal categoria 58. 57 burocrtico-estatal, como aquelas empregadas para relatar ocorrncias policiais. Assim, a categoria deficiente visual considerada oficial, polida, sendo empregada em contextos institucionais e impessoais. J a categoria cego considerada ofensiva ou afetiva, sendo utilizada em vrios contextos religiosos, de caridade, ajuda ou mendicncia. De maneira geral, este captulo procurou abordar dezesseis das principais categorias de nomeao relativas a trs diferentes performances, apontando aspectos histricos, suas contraposies e acionamentos em contextos especficos. Conforme explicitado, tais categorias nomeiam performances e personagens, sendo acionadas, dentre as possibilidades disponveis, levando em conta a imagem que se tem de si e a que se imputa ao outro em determinado momento. Nos captulos seguintes detalho aspectos das trs diferentes performances citadas, abordando, em especfico, seus sinais distintivos e seus atributos qualificativos. Estes tambm foram organizados em funo das categorias acima expostas. 59. 58 2. Identificao de diferenas: sinais distintivos Neste captulo prossigo apresentando as representaes das performances nomeadas de cegueira, deficincia visual, baixa viso, vidncia, entre outros termos, abordando seus sinais distintivos. A partir das proposies de Goffman (2009), considero os sinais como equipamento expressivo, que pode ser reconhecido e exposto na interao, compondo as performances dos atores, muitas das quais ligadas a um padro de ao pr-estabelecido. Como consequncia, os sinais distinguem os atores, subsidiando a classificao e a criao de expectativas. Os sinais se encontram em dois principais suportes: no cenrio e no corpo. O cenrio integra os elementos que mobliam e decoram o palco, local onde se passa o ato da interao. Do mesmo modo, os corpos dos atores tambm possuem adornos simblicos. Tais elementos podem ser expostos e reconhecidos, conformando sentidos interao. Assim como as categorias, os sinais tambm so vazios e arbitrrios, exigindo analis-los no contexto interativo das demais representaes em jogo. Alm disso, os sinais so frequentemente acionados em conjunto, de forma relacional e cruzada um sinal pode confirmar, complementar ou contradizer o outro, em uma dada situao. Observo tambm 60. 59 que h sinais mais ou menos conclusivos, que necessitam ou no da confirmao por outros sinais no corpo e no cenrio. Logo, quanto mais sinais num mesmo direcionamento, mais conclusivos so os seus sentidos. Ressalto que o levantamento realizado no se pretende exaustivo ou compondo uma totalidade, mas corresponde eleio dos sinais considerados mais relevantes, conforme pude apreender em campo. A tabela abaixo est organizada em funo da diferenciao dos sinais relativos s trs diferentes performances nomeadas pelas vrias categorias analisadas no captulo anterior. Tabela 2 Sinais em anlise. Cego e derivados; anormal; deficiente visual e derivados Vidente; normal; no-deficienteCego Baixa-viso, BV, meio-cego, semicego Bengala branca Co-guia Escrita braile Olhos anormais culos escuros - Escrita em tinta ou em vidente ampliada Olhos anormais culos de grau grossos Lupas - Escrita em tinta ou em vidente Olhos normais - 61. 60 Por hora, desenvolvo os sinais listados a partir das suas correspondncias horizontais. Os primeiros sinais, das trs colunas, referem-se locomoo. Iniciando pela coluna da esquerda, a bengala branca seria um dos sinais mais conclusivos da cegueira, dispensando outros sinais para identific-la. Alm disso, este sinal reconhecido por atores de modo geral, como senso comum, sendo acionado, inclusive, no smbolo internacional de pessoas com deficincia visual da Associao Brasileira de Normas Tcnicas: Figura 3 - Smbolo internacional de pessoas com deficincia visual. (ABNT, NBR 9050, 2004, p.19) A bengala branca pode ser identificada de modo visual, ttil ou auditivo. Visualmente, a sua cor branca e seu formato fino e comprido so aparentes a vrios metros de distncia. De forma ttil, para alm do formato, percebe-se o elstico e a empunhadura emborrachada. De modo auditivo, h o som correspondente a sua abertura, onde as partes articuladas se encaixam e a sua ponta toca o cho; e, o som relativo ao uso na locomoo, onde a bengala batida ou deslizada de um lado para o outro no solo, conforme o andar do ator. A seguir, alguns exemplos onde a bengala acionada como sinal para cego e deficiente: 62. 61 [Reunio de um movimento poltico] Ebert contou que foi muito mal tratado no Rei do Mate [lanchonete] do Shopping X. Disse que chegou l com a Ju [sua namorada] e com a Ruth [uma amiga], pediram cardpio em braile, porque lei. A a atendente trouxe o normal, ele at passou para Ju ver se no era ele que estava sem sensibilidade e falou p, a mulher viu que eram cegos, a Ju e a Ruth estavam de bengala. Ento chamou a atendente e meio reclamou algo como isso que voc me d?, a Ruth at disse voc sabe o que braile?. Apesar de achar ruim, porque vai formando fila atrs, ele foi perguntando: voc tem caf com leite? e ela dizia s tem, no falava o preo, tamanho e nem nada. Finalmente fez o pedido e falou para ela levar na mesa. Foram se sentar, a mesa estava toda suja, a Ju tateou e se sujou. Demorou, mas o lanche chegou; a atendente entregou e saiu, nem explicou o que era o que; eles trocaram as bebidas e a Ju quando foi pegar o copo de po de queijo, derrubou quase metade no cho; foi um desastre total, concluiu. [Conversa por telefone com um amigo] A gente que no usa bengala, [as pessoas] pensam que normal. No banco tenho que mostrar a carteirinha, seno eles vm falar que fila de idoso e deficiente. No primeiro trecho, referente a um contexto comercial, o ator cita a bengala como o artefato responsvel por sinalizar que os atores eram cegos, conforme indica a frase: p, a 63. 62 mulher viu que eram cegos, a Ju e a Ruth estavam de bengala. Apesar do suposto reconhecimento da cegueira atravs deste sinal, o ator julgou que a atendente no lhe ofereceu tratamento adequado, frustrando suas expectativas e culminando num desfecho desastroso. No segundo trecho, tambm referente a um contexto comercial, o ator menciona que a ausncia da bengala impede sua identificao enquanto deficiente, sendo necessrio um atestado oficial, a carteirinha. Desta forma, o ator aponta a bengala como um fator decisivo para performar a deficincia, no contexto citado. Como mencionado, este sinal vincula-se locomoo. No caso, a bengala no fundamenta o ato de andar propriamente, mas institui uma locomoo segura, antecipando obstculos para que o ator previna-se, conforme indica o exemplo abaixo: [Curso de tcnicas da bengala] Professor: a bengala te d segurana. Voc sempre est um passo antes do obstculo e pode desviar, descer um degrau com cuidado. Alm da locomoo, a bengala tida como tendo 1001 utilidades: [Domingo, caminhada num parque com amigos] Reinaldo usou a bengala para medir a profundidade da lagoa. A, Elza aproveitou para puxar um saquinho plstico que caiu na gua. Tais falou bengala 1001 utilidades. Tambm notei que o Reinaldo usava a 64. 63 bengala de cajado na parte ngreme do percurso. [Instituto especializado, momentos antes da aula] Lia contou que o Juliano deu uma bengalada na perna dela [aps uma discusso], mostrou-me o vergo. [Instituto especializado, antes de dar o sinal] George trouxe aquela sua bengala, que abre diferente. Eu fui mexer, mas no conseguia abrir. Ele mostrou como abria e disse que seu professor de informtica falou que tambm d para jogar bilhar. No primeiro trecho, num contexto de lazer, a bengala aparece como medidor de profundidade, vara para pegar objetos e cajado. No segundo trecho, no contexto de uma briga, tal equipamento acionado como arma. Por fim, no terceiro trecho, num contexto de coleguismo, ela citada como instrumento de jogo. Estes trechos exemplificam algumas prticas possveis, em diferentes situaes. O uso da bengala prescrito por tcnicos autorizados em institutos especializados, que possuem legitimidade e domnio sobre esse saber. A disciplina institucional que confere normatizao das tcnicas corporais necessrias intitula-se Orientao e Mobilidade, comumente chamada pela sigla O.M. [Conversando com um amigo pelo telefone] Perguntei se no era bom usar bengala nessas situaes onde as pessoas no o identificam como deficiente. Ele disse que foi fazer O.M., 65. 64 mas que o professor do curso disse que ele no precisava de bengala. [Oficina de Orientao e Mobilidade, num instituto especializado] Professor: o ideal comear o mais cedo possvel, acabei de receber uma bengalinha de 60 cm. Mobilidade para criana pequena da mesma forma quando a criana pega o giz para desenhar, vai movimentar mais o ombro do que a mo, o estgio natural psicomotor; a bengala tambm vai virar brinquedo. No curso de 3 meses, mas de 5 anos, a criana com a bengalinha vai demorar 6 anos para adquirir a tcnica adequada para andar sozinha. A maturidade tambm necessria para saber que tem que pedir ajuda na rua. No primeiro trecho, num contexto de coleguismo, o ator indica que o tcnico do instituto o responsvel pela prescrio ou no da bengala, em funo da necessidade avaliada por ele. No segundo exemplo, num contexto pedaggico, o especialista fornece algumas explicaes tcnicas direcionadas criana pequena, como o tamanho da bengala, a durao do treinamento, idade adequada para comear, etc. A seguir exponho alguns trechos de uma srie de aulas do curso de Orientao e Mobilidade que pude acompanhar. As aulas eram individuais e, no caso, consistiam basicamente em andar pelas ruas prximas ao instituto. 66. 65 Cssia [professora]: voc pe a bengala para direita e o p direito, bengala para esquerda e p esquerdo, mas no pode robotizar. Cssia falou pra mim ela est tensa e imitou os movimentos da Tati com punhos fechados, braos meio tensionados e cara amarrada. Cassia para Tati: Abre um pouquinho mais; para mim explicou: a abertura da bengala tem que ser um pouco maior que a largura dos ombros, pra pegar tudo [a abertura refere-se ao quanto bengala deve se movimentar horizontalmente, para a direita e para a esquerda]. Cssia disse que h dois tipos de ponteiras de bengalas: a roller e a fixa; roller percebe mais, a fixa era mais antigamente. Tatiana argumentou que teve uma bengala roller, que quebrou, ento voltou para essa e acha melhor. Mas a professora discordou: essa a mais difcil, a outra s desliza, no corre o risco de bengala alta, cansa menos e detecta mais. E depois relativizou h 5 anos no existia a roller, uns gostam, outros no, j se adaptaram com a outra, que nem carro automtico e carro manual. Cssia para mim: O cego tem que ficar sempre no lado oposto da rua. Tentar ficar do lado oposto, no para grudar na parede; pode ter cachorro que late no porto e te pega. 67. 66 Cssia desviou a Tati de um coc de cachorro, que provavelmente ia pisar. Alguns passos frente, Tati no pisou num outro coc por um triz, Cssia disse o anjo da guarda sopra. Cssia: Para saber que est na esquina tem o barulho do carro que agora vem na sua frente; a densidade do ar; muda a direo do vento; e a referncia da parede, em boa parte dos casos, tem ngulo. Mas podem pensar que a guia um degrau, por isso tem que prestar muita ateno. As situaes acima, em contextos pedaggicos, detalham tcnicas corporais e disciplinares na utilizao da bengala: posturas, manuseio, posicionamento no espao, etc. Tais tcnicas solidificam uma performance, que tambm reconhecida e exposta na interao. Caso a bengala no seja empregada conforme o esperado, pode gerar contradies e problemas interativos. Ainda quanto bengala, a relao com a mesma pode manifestar dimenses de afetividade e intimidade, conforme os exemplos abaixo: [Instituto especializado, grupo de pr- adolescentes] Thiago contou que ficou sem bengala essa semana, porque ela quebrou, disse foi ruim ficar sem a minha Gabizinha. [Saindo de um instituto especializado] Perguntei do co-guia, Henrique disse que foi numa palestra e disseram que custa uns 400 reais por ms; mais limpar coc e ver se no 68. 67 t faltando comida. Disse que prefere sua Tina [referindo-se bengala]. Ambos os exemplos indicam uma personificao feminina da bengala. No primeiro trecho, o uso do diminutivo, minha Gabizinha, pode remeter afetividade. No segundo exemplo, Tina corresponde no s a um nome, mas a um apelido, o que denota intimidade. Tais personificaes foram acionadas em situaes ligadas perda ou substituio da bengala, foi ruim ficar sem ficar sem a bengala constitui uma exceo. Assim, possvel supor que tal afetividade e intimidade provm justamente do uso constante e do vnculo construdo com esse instrumento. O prximo sinal a ser detalhado o co-guia. Tal como a bengala, este sinal: vincula-se locomoo; dispensa outros sinais na identificao do ator enquanto cego ou demais classificaes; conclusivo por si s; e reconhecido de modo geral, como um senso comum. O co-guia pode ser identificado visualmente por sua silhueta, possuindo bastante visibilidade, se comparado maioria dos outros sinais. Tambm reconhecido sonoramente pelo som de sua respirao e andar. De modo ttil, os pelos, a temperatura morna e o formato so peculiares. Diferentemente da bengala, ele no pode ser guardado e dificilmente camuflado. A seguir um exemplo onde o co-guia acionado como sinal para a identificao e classificao de uma boneca enquanto cega ou demais termos correlativos: 69. 68 Figura 4 Boneca "cega" com co-guia. A boneca acima foi comercializada em um estande da Reatech 2011 Feira Internacional de Tecnologias em Reabilitao, Incluso e Acessibilidade14 . Trata-se da 14 Para maiores informaes sobre a feira consultar: ASSENSIO, C.; ASSIS SILVA, C.; CAVALHEIRO, A. M.; MENDONCA, T.; ZAVARIZE, L. Etnografia coletiva da X Reatech: Feira Internacional de Tecnologias 70. 69 representao de uma menina ruiva, de vestido florido, que pode ser reconhecida como cega atravs dos sinais co- guia e culos escuros. Alm disso, o cenrio da feira especializada agrega sentido. Assim como a bengala, o co-guia vincula-se locomoo segura. Por conta desta paridade pode haver algumas disputas, como denotam os exemplos abaixo: [Durante a aula de Orientao e Mobilidade] Tati comentou sobre o co-guia: no tenho segurana que o animal vai me levar para o lado certo. [Reunio do Conselho Estadual da Pessoa com Deficincia] Conversando com Cludio sobre seu co-guia, ele disse que o co melhor que a bengala, porque com a bengala voc no est protegido da cintura para cima, contra os obstculos areos, tipo orelho e caixa de correio. No primeiro trecho, num contexto pedaggico, o ator defende a bengala argumentando que o condutor animal no transmite segurana. J o segundo trecho, num contexto de coleguismo, o ator expe vantagens do co-guia quanto proteo perante obstculos areos do percurso. em Reabilitao, Incluso e Acessibilidade. Ponto.Urbe (USP), v. 8, p. 6, 2011. Disponvel em: http://www.pontourbe.net/edicao8- etnograficas/181-etnografia-coletiva-da-x-reatech-feira-internacional- de-tecnologias-em-reabilitacao-inclusao-e-acessibilidade. Acessado em: set.2011. 71. 70 Conforme indica o trecho abaixo, o co-guia no considerado um cachorro um animal , mas um instrumento. Por isso, ele pode estar presente em circunstncias onde cachorros geralmente so impedidos: [Visita monitorada ao Zoolgico, com os alunos de um instituto especializado] Uma aluna veio contar professora: tinha um cachorro no banheiro. A professora respondeu perguntando um cachorro ou um co-guia?. No caso, era um cachorro mesmo. Tal situao foi regulamentada pela Lei n 11.126, de 27 de Junho de 2005, parcialmente transcrita abaixo: assegurado pessoa portadora de deficincia visual usuria de co-guia o direito de ingressar e permanecer com o animal nos veculos e nos estabelecimentos pblicos e privados de uso coletivo, desde que observadas as condies impostas por esta Lei. (BRASIL, 2005). O trecho acima autoriza a presena do co-guia em locais onde cachorros no necessariamente so permitidos. O termo usurio tambm situa o co-guia como um instrumento de uso. H instituies especializadas que dominam a seleo e a normatizao dos ces-guia e seus usurios. Tais instituies, em geral, so filantrpicas pr-requisito para filiarem-se Federao Internacional das Escolas de Ces Guias, que alm de congregar tais instituies, confere 72. 71 reconhecimento e legitimidade a cada uma delas. Os ces tambm costumam ser fornecidos gratuitamente aos usurios: A ACGC (Associao Co-Guia de Cego) no comercializa ces-guia. Somos uma entidade filantrpica. Nossos ces-guia so fornecidos gratuitamente aos deficientes visuais, h mais de 20 anos. As despesas dos nossos ces so custeadas por doaes e parcerias, por pessoas fsicas ou jurdicas, que so intitulados carinhosamente de: "padrinhos ou madrinhas. Esses valores so efetuados atravs de cotas de patrocnio ou doaes. Nunca comercializamos ces-guia, pois, nossa misso a ampliao da incluso social atravs de ces-guia ofertados gratuitamente aos usurios. (ASSOCIAO CO-GUIA DE CEGO, 2011). Algumas raas caninas so consideradas mais apropriadas para serem ces-guia. A seguir, alguns exemplos a este respeito: Dentre as raas caninas a mais utilizada para o servio de guia, o Retriever do Labrador e o Golden Retriever se destacam por apresentar um bom carter, e capacidade de se adaptarem s diversas situaes, fiis, inteligentes e de natureza amigvel, mas principalmente pela docilidade, sem qualquer trao de agressividade ou timidez exagerada. (PROJETO CO-GUIA DE CEGO, 2011). 73. 72 [Instituto especializado] Thiago contou que ganhou um rottweiler. Rolou um burburinho geral entre as mes nossa, um rottweiler!. Ento, Camila [pedagoga] falou eles costumam ganhar um labrador. Fabola [me do Thiago] disse que eles tinham um pitbull que morreu filhote picado por uma cobra, mas era um amor de cachorro. O primeiro trecho, extrado do site institucional do Programa Co-Guia de Cego do Governo Federal, expe as raas caninas indicadas para serem ces-guia de acordo principalmente com seu carter, que pode ser resumido em: fidelidade, inteligncia e docilidade. O segundo trecho, extrado do meu caderno de campo, referente a um contexto de coleguismo, indica o labrador como raa usual e o rottweiler, como no usual. Para adquirir um co-guia no Brasil o interessado cadastra-se nas instituies e aguarda, por vezes, anos, para ser chamado. Tambm possvel cadastrar-se em instituies americanas, que so mais numerosas e produzem mais ces- guias do que as brasileiras. Contudo, necessrio pagar pelas passagens. Quanto normatizao do co-guia e do dono, seguem trechos do discurso institucional de uma das escolas especializadas: A formao de um Co-Guia tem incio com um rigoroso processo de seleo gentica e comportamental. Depois de selecionado, prximo aos trs meses, o co inicia a fase de 74. 73 socializao, que se estende at, aproximadamente, o animal completar um ano de idade. Esta fase pode ser conduzida pelo treinador ou por uma famlia voluntria, que cuida do animal no seu primeiro ano de vida. Durante este processo o co aprende a conviver em ambiente social, urinar e defecar apenas em locais apropriados e alguns comandos bsicos para o convvio. Terminada a primeira fase, inicia-se o treinamento especfico, com durao aproximada de sete meses, podendo se estender caso necessrio. Nos primeiros seis meses, o co aprende a desviar de obstculos, perceber o movimento do trnsito, identificar objetos, encontrar a entrada e sada de diferentes locais, entre diversas outras atividades. No ltimo ms realizado o treinamento para transformar a dupla composta pelo co-guia e seu usurio em um time que interagir com a mais perfeita harmonia. O tempo total de treinamento de aproximadamente 16 meses, podendo se estender at 21 meses. Depois de treinados, os ces-guias identificam o movimento do trnsito, desviam de buracos, encontram as entradas e sadas de diferentes locais, localizam banheiros, escadas, elevadores, escadas rolantes, cadeiras, desviam de obstculos altos, evitando que pessoas com deficincia visual batam com a cabea, entre outros feitos incrveis. (CO- GUIA BRASIL, 2011). Durante o trabalho de campo considero que no tive muito contato com ces-guias se comparado s bengalas. Nos 75. 74 institutos especializados que frequentei poucos ces-guias figuraram e nenhum dos meus principais interlocutores os possua. De modo geral, a dificuldade de obt-los e seus custos elevados podem ser alguns dos fatores que contribuem para tal escassez. Ainda quanto locomoo, as outras colunas da correspondncia horizontal da tabela apresentam um trao. Neste caso, no identifiquei sinais especficos que singularizem baixa viso e vidente. Pelo contrrio, a ausncia da bengala e do co-guia sugere que o ator no cego, podendo distingui-lo enquanto vidente, baixa viso e correlativos. A prxima correspondncia horizontal da tabela refere- se escrita. Iniciando pela coluna da esquerda, o braile tambm um dos sinais que pode dispensar outros na classificao enquanto cego ou termos correlativos. Este sinal relativamente generalizado e reconhecido como senso comum. O braile identificado enquanto sinal, quando o ator demonstra possuir materiais assim redigidos, seus equipamentos, bem como atravs da performance de escrita e leitura. Contudo, h atores tidos por videntes e baixa viso que apresentam materiais e performance do braile, tratam-se geralmente de especialistas, familiares ou amigos prximos. Neste caso, a presena e a ausncia de outros sinais elencados no quadro anterior podem determinar a classificao. Especificamente quanto performance da leitura possvel 76. 75 apontar uma diferena: no conheci, em campo, nenhum ator classificado como vidente que lesse o braile com as mos, lia- se apenas com os olhos. O braile considerado um sistema de escrita ttil formado pela combinao de seis pontos, que compe todas as letras, nmeros e caracteres do alfabeto. Quanto aos seus instrumentos, a reglete, em geral, uma prancheta de madeira com uma rgua de metal, que possui quatro linhas; cada linha contm 28 celinhas, aberturas que correspondem a cada caractere; esta rgua funciona como uma espcie de molde para fazer os pontos. Na reglete escreve-se da direita para esquerda, de forma espelhada a que se l, pois os furos so feitos no verso da folha, numa espcie de baixo-relevo. Diferente da escrita em tinta, onde as letras so desenhadas, as letras em braile so furadas. Os furos do braile na reglete so feitos com o puno, instrumento com ponta de metal abaulada, fina e comprida. J a mquina braile assemelha-se a uma mquina de escrever, contudo possui apenas nove botes, que correspondem aos seis pontos da do braile, o espao, o pula linha e o volta celinha. Pressionam-se os botes e um mecanismo fura o papel. Escreve-se da esquerda para direita, do mesmo modo que se l. Abaixo apresento algumas imagens destes equipamentos em uso: 77. 76 Figura 5 Aluno segurando a rgua aberta da reglete com a mo esquerda e o puno com a mo direita Figura 6 Aluna escrevendo na mquina braile 78. 77 Tais equipamentos e seu manuseio podem ser identificados de modo visual, auditivo e ttil. Visualmente, conforme descrito acima com auxilio de imagens, esses materiais possuem formatos especficos; tambm se destacam as folhas em branco com pontos em relevo; j a leitura do braile marcada pela visualizao dos dedos, que percorrem linearmente o papel ou outra superfcie. De modo ttil, alm dos formatos citados, os equipamentos possuem texturas caractersticas referentes aos seus materiais madeira, metal e plstico. Auditivamente identificam-se, principalmente, os equipamentos em uso, que possuem sons particulares, conforme indicam os exemplos abaixo: [Estudo de braile na reglete, em casa] Tem vezes que furo forte, parece que estouro os furinhos do papel e faz mais barulho ainda. [Instituto especializado] Subimos para a sala [a professora e eu]. Os alunos estavam terminando os exerccios de matemtica, estava aquela barulheira de regletes e mquina. A professora falou vamos parar com esse TAC, TAC, TAC?. Por hora, exponho um exemplo onde o braile identificado como sinal relativo cegueira: [Sala de aula da turma do 1 ano, instituto especializado] Perguntei para Daniela [estagiria de Pedagogia], se ela achava que [os alunos da sala] sabiam que ela era cega. Ela disse que na outra sala sim [refere-se 79. 78 turma do 2 ano, onde assistiu s aulas na semana anterior], porque l ouviram a mquina e a bengala. No exemplo acima, referente a um contexto pedaggico, o barulho caracterstico da escrita na mquina braile foi elencado como sinal determinante para a classificao da atriz como cega, assim como o barulho da bengala. O braile enquanto tcnica corporal disciplinar molda os corpos atravs de treinamentos repetitivos envolvidos em sua escrita e leitura. Tal disciplina conduzida por tcnicos autorizados e ofertada nos institutos especializados. Em alguns institutos o braile um curso especfico ministrado como complementao educacional ou em um programa de reabilitao, que o aluno frequenta, em geral, algumas vezes por semana; j nas escolas especiais o braile dado diariamente na prpria alfabetizao dos alunos. Acompanhei, por um ano, a turma de alfabetizao do primeiro ano de uma escola especial e tambm realizei aulas semanais, particulares, no mesmo instituto. A seguir forneo alguns dados breves sobre essas experincias. [1 de Maro de 2010, minha primeira aula de braile] A professora disse que usaremos uma cartilha: Quando voc aprendeu a ler e a escrever no foi com a cartilha? Aqui voc analfabeta em braile, vai aprender que nem criana com a cartilha. Primeiro ela pegou a reglete, colocou a folha e falou eu pego no puno assim [mo fechada com o dedo apoiando], veja como voc acha melhor. A 80. 79 ela me deu uma folha com o desenho do alfabeto braile. Em seguida, explicou a clula braile, que composta por os seis pontos, distribudos em duas fileiras, sendo que cada ponto corresponde a um nmero de 1 a 6. A, explicou que para ler a clula braile, os pontos ficam em ordem, 1, 2, 3, 4, 5 e 6; mas para escrever na reglete, a ordem seria 4, 5, 6, 1, 2, 3. Ento, pediu para eu furar os seis pontos da celinha, preenchendo as quatro linhas da reglete. Disse que eu ia achar pesado, fazer fora no comeo, mas depois acostumava, de fato chega quase a doer o brao, tem que fazer uma pequena fora fsica. [9 de Maro de 2010 estudo do braile, em casa] Peguei para estudar. Primeiro coloquei a folha um pouquinho torta na reglete, arrumei. A, eu no estava conseguindo travar a rgua. Comecei a escrever e no furava direito, acabei furando demais a folha, acho que porque eu estava meio girando o puno e no pressionando. Uma hora travou melhor a rgua e parecia que os buraquinhos da celinha ficaram mais ntidos. [...] Droga, ainda no sei apagar. Tambm me atrapalho com essa histria de ser espelhado. Vrias vezes coloco o sinal de maiscula com os pontos 1 e 3 e no 2 e 4. [...] Estou lendo, quando o ponto no est bem feito confundo que letra . [10 de Maro de 2010 sala de aula da turma de alfabetizao] Diego tentou colocar o papel na mquina, primeiro colocou na horizontal ao invs de na vertical, bvio que o papel no entrava. A fui ajudar, ele levantou a trava e 81. 80 girou o rolo at travar, s que para o lado errado, eu tambm no sabia. Chamamos a professora, agora entendi que tem que girar para frente e no para trs. [11 de Abril de 2010 estudo do braile, em casa] Estou bem mais rpida hoje. Acho que meus pontos tambm esto mais bonitos, definidos. Estou esquecendo bem menos dos espaos, ainda no esqueci nenhum. [...] Saco! Confundi o e com i, furei errado. [...] Fui ler, de olhos fechados, quando cheguei ao fim da linha descobri, porque deixam uma mo no comeo da linha, perdi total a noo de onde era a prxima linha, o quanto para baixo. [...] No tenho mais problemas com a trava da rgua, peguei a manha, tem que mover um pouquinho para cima ou para baixo para ela achar bem o buraco do encaixe. [5 de Maio de 2010 sala de aula da turma de alfabetizao] Fiquei um pouco com o Ricardinho, ele estava errando vrias coisas, primeiro que a rgua da reglete no estava fixando bem, um pouco como a minha, a os pontos saiam fracos. Alm disso, ele tambm errava os pontos de algumas letras, do u, ele achava que era 1, 2, 3 e 6, corrigi [ 1, 3 e 6]. [25 de Maio de 2010 estudo do braile, em casa] Nossa, est bem automtico escrever, acho que estou escrevendo melhor que lendo. [...] Eu leio muito mal mesmo, pareo as criancinhas que penam para reconhecer as 82. 81 letras. ridculo que no consigo ler!!! Fico gaguejando: aaa-ze-i-te. [...] Outra coisa, aprender braile no como aprender uma lngua nova, no francs eu leio o que est escrito, mas no sei a pronncia e o significado da palavra; no braile bizarro, porque eu no entendo a letra, no consigo ler, mesmo sendo a mesma lngua. Tenho que juntar a forma e o contedo da letra na cabea, alfabetizao sim. [5 de Maio de 2010 na sala de aula da turma de alfabetizao] Rafael queria ler a ficha de leitura, fui l com ele. Rafael ia lendo letra por letra e juntava as slabas, quando no juntava eu perguntava que que d?; e, por fim, dizia a palavra. [14 de Junho de 2010 aula de braile] Antes de sair, a professora me deu uma folha, disse que fez para mim, para eu decifrar. para decifrar mesmo, o braile quase um hierglifo, essas letras em formato diferente. L fui eu gaguejar. [16 de Junho de 2010 - no intervalo da aula da turma de alfabetizao] Falei para a professora acho que no fim do ano eles vo ler tudo, ela disse algo como Voc acha? Tomara, mas no sei no; respondi no comeo do ano no sabiam nem as letras!; a professora replicou mesmo, que eu me esqueo. [13 de setembro de 2010 aula de braile] Fiz lio na mquina, at que saiu, errei pouco. Li 83. 82 bem melhor tambm! E olha que nem estudei essa semana! A professora disse viu como voc est rpida! Se fosse na reglete a gente ainda estava no primeiro pargrafo. Falei para a professora que o braile da mquina fica bem melhor, os pontos saem mais bem formados. Ela disse que meu braile da reglete estava bom tambm. Os exemplos acima remetem a contextos pedaggicos e situam o braile como uma tcnica corporal, incorporada de modo processual. Escolhi alguns trechos emblemticos, em ordem cronolgica, procurando reconstruir um pouco tal dimenso temporal. Contudo, evidente que o processo no to linear e acabado, permanecendo em constante solidificao, rarefao, esquecimento, etc. Os trechos tambm indicam algumas dificuldades comuns entre os atores, como a de transformar aqueles pontinhos arbitrrios em um sinal de uma letra para compor uma palavra. Alm disso, os exemplos evidenciam o esforo, a repetio, a dor e o treino como dimenses do processo de incorporao do braile enquanto tcnica corporal. Tal tcnica ainda conforma uma atuao, que reconhecida e exposta na interao a performance do braile faz parte da sinalizao. Ainda quanto escrita, desenvolvo, a seguir, de acordo com a correspondncia horizontal, os sinais listados nas outras colunas. Na coluna da direita, a escrita em tinta ou em vidente identificada como sinal relativo s categorias vidente e similares. Tais sinais remetem aos materiais redigidos deste 84. 83 modo, aos equipamentos de escrita e a sua performance. Assim como o braile, tratam-se de sinais conclusivos por si s e reconhecidos de modo geral. Comparando os dois sistemas de escrita citados em termos formais, o braile apresenta-se atravs do baixo-relevo e a escrita em tinta atravs do depsito ordenado de pigmentos; o braile envolve o ato de furar e a escrita em tinta, o de desenhar, conforme indica o exemplo abaixo: [Instituto especializado] David contornou sua mo com o giz no papel, mas ficava contornando vrias vezes, a a professora falou que uma vez basta. Tentei explicar que para quem enxerga ruim quando se risca um monte de coisas uma em cima da outra. No sei se entendeu. Por fim, David falou vou desenhar meu nome e escreveu em vidente, grande, bem no centro. No exemplo acima, num contexto pedaggico, no por acaso o ator falou vou desenhar meu nome, com relao escrita em vidente. Neste formato, tal escrita corresponde ao desenho de letras, possuindo os mesmos princpios formais do desenho que fez de sua prpria mo. A escrita em braile tambm apresenta menor variao de tamanhos e formatos do que em tinta. Quanto ao tamanho, no braile encontrei duas possibilidades o padro e outro pouco menor, usado em etiquetas de farmcia. O tamanho do caractere braile padro e a organizao da escrita na superfcie fazem com que, por exemplo, o Minidicionrio Aurlio da 85. 84 Lngua Portuguesa (FERREIRA, s.d.) possua vinte e quatro volumes e ocupe quase uma parede inteira do instituto observado; enquanto, em vidente, o mesmo livro cabe na palma de uma mo. Isso ocorre, pois o tamanho dos caracteres em vidente pode variar de poucos milmetros a muitos centmetros, a depender da dimenso da superfcie. Quanto ao formato, a escrita em vidente oferece muitos tipos intitulados fontes tipogrficas e grande variao quanto caligrafia. J no braile o formato nico e apresenta pequenas variaes dadas pelas superfcies, equipamentos utilizados e seu manejo, que podem deixar os pontos mais ou menos cheios, definidos, furados, estourados, etc. A seguir apresento detalhes sobre a percepo da escrita em tinta ou em vidente a partir de um exemplo de campo: [Instituto especializado, sala de aula da turma de alfabetizao] Bia: Andrea, me ensina a fazer o b em vidente?, respondi que ia pegar uma folha, mas ela disse no seu caderninho. A eu fiz o formato da letra com o lpis sobre a palma de sua mo, para sentir. Depois, mostrei como pega o lpis com o indicador e o polegar embaixo e fiz o b com a sua mo duas vezes no caderninho. Ento, ela foi passar a mo sobre o papel e disse algo como no tem. A peguei um pedao de E.V.A. [folha emborrachada] para fazer em relevo, mas a professora a chamou e ela foi fazer outra coisa. 86. 85 O trecho acima, num contexto pedaggico, indica que a letra escrita em vidente corresponde a no tem, uma escrita vazia, sem forma e nem contedo para a aluna. Este exemplo evidencia que o resultado da escrita em tinta preponderantemente visual, mas tambm pode ser minimamente ttil se riscado com fora sobre o papel ou com algum recurso como o E.V.A. (material emborrachado). O ato de escrever tambm pode ser um pouco sonoro o lpis riscando a superfcie produz um leve som que pode ser apreendido. Quanto sinalizao e classificao do vidente ou correlativo a partir da escrita em tinta, apresento a seguir um exemplo: [Instituto especializado] Estvamos na quadra aguardando, Ricardinho [8 anos] falou primeiro que a Amanda [assistente de classe] era baixa viso, depois falou que ela era assim, normal. Perguntei como ele sabia. Ele disse que ela l uma outra coisa l. Eu falei tinta?, ele respondeu , isso. No trecho acima, num contexto de coleguismo, a assistente de classe foi identificada como normal por no ler braile, mas sim uma outra coisa l, e escrita em tinta, que sinaliza tal normalidade. Este exemplo evidencia que a escrita em tinta dos normais contrape-se implicitamente a escrita em braile dos anormais. Finalizando os sinais referentes escrita, na coluna do meio da tabela anterior, a escrita em tinta ou em vidente 87. 86 ampliada, seus equipamentos e performances so identificadas como sinais atrelados s categorias baixa viso e similares. A escrita em vidente ou em tinta ampliada possui seu formato similar descrita acima, contudo o tamanho dos caracteres ampliado segundo uma padronizao especfica. De modo geral, os saberes oftalmolgico, ortptico e pedaggico estabelecem tais padres e determinam a escolha do sistema de escrita dos seus pacientes e alunos por meio de testes. Conforme indica o trecho abaixo, a padro de fonte tipogrfica para baixa viso Arial, tamanho 24. [Instituto especializado, sala de aula] A professora chamou Marcos para ver se ele consegue ler bem o material que preparou em tipos ampliados. O menino leu. Ento ela disse para mim: o padro para baixa viso Arial 24. Se no der, braile. Alm dos caracteres ampliados, h outros equipamentos especficos, tais como os cadernos de pauta ampliada, ou seja, com espaamento maior entre as linhas; e os lpis 6B, que so considerados mais fortes, proporcionando maior contraste. A seguir exponho uma fotografia de uma aluna utilizando estes equipamentos. 88. 87 Figura 7 Aluna com rosto prximo ao caderno de pauta ampliada, escrevendo com lpis 6B. Quanto performance da escrita, de modo geral, os alunos tidos por baixa viso so identificados por aproximarem mais seus rostos da superfcie de escrita. Tal esteretipo tambm pode ser identificado na imagem acima, onde a aluna est com o rosto encostado no caderno onde escreve. A seguir um exemplo onde tais materiais so acionados na identificao e classificao dos atores enquanto baixa viso: [Instituto especializado, sala de aula] Entrou uma funcionria com uma visita, era uma me e seu filho que queriam conhecer o instituto, para talvez realizar matrcula no ano que vem. A funcionria apresentou-os para a turma e falou que os alunos que estavam de mquina 89. 88 e reglete eram cegos e aqueles com materiais ampliados eram baixa viso. Ento mostrou para me as folhas com linhas maiores e o lpis 6B, da Luciana, que mais forte. No trecho acima, num contexto de apresentao, o ator tomou os materiais ampliados como sendo sinalizadores dos alunos baixa viso; bem como, os materiais em braile como, sinalizadores dos alunos cegos. O prximo feixe de sinais abordado relativo terceira correspondncia da tabela e refere-se ao padro dos olhos. As duas colunas ligadas s categorias deficiente visual e derivadas apresentam como seus sinais olhos anormais. Os olhos anormais so aqueles considerados deformados, esbranquiados, saltados, murchos, etc. Estes sinalizam uma anormalidade no padro de corpo esperado. No identifiquei diferenciao clara entre cego e baixa viso neste quesito. A no ser com relao aos olhos fechados e s prteses onde, em ambos os casos, o ator identificado como cego. As prteses pressupem a extrao dos olhos e os olhos fechados a no necessidade de abri-los. Por exemplo, na imagem abaixo, a aluna est de olhos fechados, sinal que pode compor a fachada da cegueira juntamente com a categoria cegos estampada em sua camiseta. 90. 89 Figura 8 Aluna de olhos fechados J os olhos normais podem sinalizar a vidncia. Estes so identificados enquanto padro corporal de referncia, no apresentando as caractersticas dos olhos anormais citados acima. 91. 90 Por hora, apresento a quarta correspondncia horizontal da tabela anterior: os sinais relativos a equipamentos pticos. Iniciando pela coluna da esquerda, os culos escuros, apesar de ser um sinal reconhecido por atores de modo geral, pouco conclusivo por si s, necessitando de outros sinais para a identificao e classificao da cegueira. Seu reconhecimento dado de modo visual, pelo seu formato e lente de cor escura; e de modo ttil, pelo formato e textura, mas sem diferenciao quanto cor da lente. A seguir, um exemplo onde os culos escuros foram acionados na sinalizao: [Passeio com alunos de um instituto especializado Biblioteca Braille do Centro Cultural So Paulo] Pri estava me contando que, esses dias, na sua escola: s porque uso culos [escuros] a pessoa me xingou de cega, fiquei triste, cega eu no sou. No exemplo acima, num contexto pedaggico, a atriz identifica que sua classificao enquanto cega foi determinada pelo uso dos culos escuros. Em seguida, tal classificao negada cega eu no sou, provavelmente em virtude de a aluna ser classificada e classificar-se, em muitas situaes, como baixa viso. Contudo, apesar do no reconhecimento, tal exemplo ainda indica que os culos escuros remetem categoria cega. Enquanto equipamento ptico, os culos escuros relacionam-se reduo de ofuscamentos: 92. 91 [Instituto especializado, grupo de crianas de zero a trs anos] Lia albina, usa oclinhos escuros, sua me falou para a turma que com os culos enxerga bem melhor, usa direto, em casa, em todo lugar. [Saindo de um instituto especializado, indo para o metr] Henrique colocou seus culos escuros e disse que a claridade atrapalha, perguntei se no era esttico, ele disse que no, que usava mais pela claridade, tem que ajudar seus 5% de viso. Nos exemplos acima, num contexto pedaggico e de coleguismo, os culos escuros so acionados para enxergar melhor, reduzindo a claridade, tanto em cenrios internos institucional e domstico , quanto em cenrio externo na rua. Os culos escuros ainda so acionados para esconder olhos anormais, a ausncia destes ou a presena de prteses e extensores oculares explicitado anteriormente. Neste sentido, os culos escuros podem operar como uma estratgia de proteo da interao, pois tais anomalias tambm podem afetar algumas interaes causando estranhamento. [Instituto especializado, sala de aula, 5 ano] Na nossa mesa, as meninas comearam a falar de quando eram pequenas, Janana disse que no tem olho, a ela ergueu o culos e me mostrou sua prtese. A Elena disse que tambm tinha, ergueu os culos e mostrou, explicou que tem prtese no olho direito e um 93. 92 expansor no esquerdo, falou que fica como um cristalzinho para fora. Contou que usa o expansor, porque a prtese ficava toda hora caindo. Eu nunca tinha visto Janana sem culos escuros, ela vem com eles todos os dias e nunca os tira. Elena tambm vem de culos todos os dias. No exemplo acima, num contexto de coleguismo, os culos escuros encobrem a ausncia dos olhos, as prteses e expansores oculares. Alm disso, o trecho sugere que tais equipamentos possuem um uso continuo em tal contexto, provavelmente para manter uma atuao estvel. J uma das alunas da turma do primeiro ano, apesar de chegar de culos escuros, brinca com eles, tira e pe e deixa- os jogados pelo cho. Deste modo, a menina no os utiliza como conforme o esteretipo, envolvendo uma atuao a ser manejada. Ainda quanto aos equipamentos pticos e oculares, a coluna do meio da tabela anterior indica que os culos de grau de lentes grossas tambm podem ser reconhecidos como sinais da baixa viso e correlativos. Neste caso, quanto maior a espessura da lente, mais conclusiva pode ser a sua sinalizao. Contudo, este equipamento exige, em geral, outros sinais para determinar tal classificao. Na Figura 7 [p.87], deste captulo, possvel identificar o esteretipo em questo: a aluna est usando culos com lentes grossas, que podem compor a fachada da baixa viso, promovendo tal classificao. 94. 93 A seguir um exemplo onde os culos grossos foram relacionados como sinal: [instituto especializado, antes da aula] Henrique perguntou se o Mrio era deficiente, eu disse que usava culos grossos, mas no era, a irm dele que . Renato disse que achava o oposto, que ele era deficiente e que a irm vinha busc-lo. Eu tambm achei que o Mrio era baixa viso, porque tinha culos bem grossos, mas ele me falou que no . No trecho acima, num contexto de coleguismo, discute- se sobre a classificao de um ator e os culos de grau grossos so acionados como um sinal da baixa viso. Contudo, apesar do sinal e do cenrio, as expectativas dos atores foram frustradas. Enquanto recursos pticos, os culos de grau so utilizados para corrigir e aumentar a viso tida como abaixo do padro normal. Abaixo apresento um exemplo: [Instituto especializado, conversa de corredor] A pedagoga perguntou para a me do Joo sobre os culos, se est usando. Ela disse que s na escola, porque a diretora obriga. Ele acha que atrapalha. A pedagoga, com feio de espanto, pergunta nem pra ler???. A me responde ele disse que no adianta nada. No trecho acima, num contexto institucional, a insistncia e espanto da pedagoga denotam a sua expectativa 95. 94 de que os culos de grau devem ser usados para melhorar a viso, ao menos na leitura. Continuando com os recursos pticos, um dos principais sinais da baixa viso so as lupas. H lupas de diversos tipos: telelupas, barras ou rguas de aumento, lupas manuais, etc. Assim como os culos, estas so utilizadas para aumentar a viso tida como abaixo do padro normal. Em geral, elas so prescritas por oftalmologistas e exigem um treinamento disciplinar conduzido pelos ortoptistas. [Instituto especializado, reunio entre professores das escolas regulares com os tcnicos do instituto especializado] A professora da Eduarda disse que tinha uma dvida sobre o uso da telelupa: quando eu peo pra ela fazer leitura, ela cola o olho no livro e no usa a lupa, eu que lembro. A pedagoga, especialista do instituto, respondeu a telelupa para ela ver a lousa, a que ela tem que usar. Para perto a rgua. Lupa para viso distncia, rgua para perto. Ento, a Edna [me da Eduarda] falou ela fez curso aqui uma vez com a lupa e a rgua, mas no fez mais, ela ganhou a rgua da prefeitura, a telelupa foi da doutora Teresa [mdica do instituto] e fez treinamento com a Valria [ortoptista do instituto]. Ela disse que teria que voltar outra vez. A pedagoga quis explicar a todos: o processo assim, passa pelo oftalmo que manda para a Valria testar as telelupas. Cada criana tem lupa com a medida certa. O professor de educao fsica [especialista do instituto] prosseguiu 96. 95 perguntando em casa, ela usa a lupa?. A me respondeu: sim, no nibus, peo para ela ver, mas tenho que chamar ateno, no se acostumou ainda. Neste trecho, dado num contexto de reunio, explicita- se os usos corretos de dois equipamentos: a telelupa, usada para observar coisas distantes, como a lousa e o nibus; e a rgua de aumento, usada para observar coisas prximas, como os livros. A ortoptista citada, no exemplo, como a especialista responsvel por testar os equipamentos prescritos pela oftalmologista e conduzir o treinamento, a normatizao do uso. No caso, tal treinamento ocorreu em uma nica sesso e a aluna deveria agendar as demais. As lupas podem ser expostas no somente no momento de sua utilizao, mas algumas delas possuem cordes para pendurar no pescoo, como um adorno corporal que sinaliza a baixa viso. Contudo, estas tambm podem ser escondidas no bolso, mochilas, etc., dependendo da situao. A seguir, um exemplo onde a lupa acionada enquanto sinal da baixa viso: [Instituto especializado] Cleide [funcionria] estava me falando de um professor baixa viso que eu no conhecia. Ento disse olha ele ali, o de telelupa [no pescoo]. No trecho acima, num contexto de coleguismo, a telelupa pendurada no pescoo do ator foi acionada para reconhecer um ator baixa viso. 97. 96 Quanto aos sinais de equipamentos ticos referentes s categorias vidente e correlativas, a coluna direta da tabela apresenta um trao. Neste caso, no identifiquei sinais especficos que distingam o vidente. Pelo contrrio, a ausncia de equipamentos pticos e oculares, tais como culos grossos, lupas, prteses, etc., sugere que o ator no deficiente visual, podendo classific-lo enquanto vidente. Por fim, explano brevemente como a ausncia de sinais, sua ambiguidade, contrariedade ou no apreenso podem gerar conflitos de categorizao e de expectativas que desarranjam a interao. Abaixo desenvolvo tais situaes. [Instituto especializado] Estavam falando da Violeta, a eu perguntei se ela tinha baixa viso. Vinicius disse que sim e completou nem d para perceber, n?, BV estranho. [Teatro com a turma de um instituto especializado] A me do menininho perguntou para Dinha se ela ia ao instituto. Ela disse que sim, que tem baixa viso e ningum acredita. A a me disse mas voc tem um percentual bom de viso, n?, Dinha respondeu que sim e prosseguiu "vou escrever aqui [no peito ou no meio da camisa] deficiente visual. Ela contou que foi pedir o fone de udio-descrio aqui no teatro e disseram que era s para deficiente, eu sou deficiente!, disse para a moa, que ento forneceu o fone. 98. 97 No primeiro exemplo, num contexto de coleguismo, a estranheza vinculada baixa viso refere-se sua no identificao provavelmente relacionada ausncia de sinais como: lupas, culos grossos e material ampliado, etc. No segundo trecho, num contexto de coleguismo, a atriz contou que no foi reconhecida como deficiente perante a atendente do teatro, sendo abrigada a imputar-se como tal. Neste caso, o no reconhecimento se deve, possivelmente, ausncia de sinais da atriz, visto sua soluo em escrever no peito deficiente visual. Os trechos apontam que a ausncia de sinais, no caso, da baixa viso, pode levar ao no reconhecimento e consequentemente ao tratamento fora do esperado, quebrando as expectativas dos atores e causando mal estar na interao. J a situao abaixo denota que no basta expor sinais e ser reconhecido, mas necessrio permanecer com uma atuao condizente aos sinais expostos para no ocasionar ambiguidades ou contrariedades que promovam quebras de expectativas e problemas interativos. [Conversa telefnica com um colega] Leonardo falou que um colega lhe contou que ia atravessar a rua e estava vindo uma menina bonita para lhe ajudar. Mas apareceu um cara e falou pode deixar eu atravesso ele, a ele quase falou no!, s que iam dizer voc enxerga?. No trecho acima, num contexto de caridade, o ator foi reconhecido como cego ou termos correlativos, tendo em 99. 98 vista a oferta de ajuda para atravessar a rua. Contudo, se ele demonstrasse enxergar a menina bonita, ele no estaria atuando conforme os sinais expostos, como indica a frase iam dizer voc enxerga?, o que poderia quebrar as expectativas e colocar a interao em risco. O ltimo trecho, a seguir, um exemplo extremo de falta de entendimento na interao ocasionado no pela ausncia ou ambiguidade de sinais, mas pela no apreenso deles. [Saindo do instituto especializado, horrio de rush] Estvamos na avenida indo para o bar, eu guiava o Juliano que permanecia de bengala, a uma moa que vinha apressada em nossa direo esbarrou nele, disse caralho! e continuou andando. A a Pri gritou ele cego, idiota!, ento ela pediu desculpas, mas o Juliano xingou vagabunda!. A eu disse para ele que ela pediu desculpas, ele falou que no tinha ouvido. O trecho acima, num contexto de passagem, os sinais de Juliano, como a bengala, parecem ter escapado identificao da moa que andava apressada. Tal ausncia de identificao provocou troca de ofensas e um desfecho desfavorvel da interao. De maneira geral, o carter de desordem dos exemplos citados reafirma as proposies prvias, denotando a correspondncia entre as categorias de nomeao e os sinais que as materializam nos corpos e nos cenrios. 100. 99 Enfim, pontuo brevemente outras distines possveis que alguns equipamentos analisados neste captulo podem instituir para alm das diferenciaes correspondentes as performances em questo. Uma delas seria em termos de classe, por exemplo, na sala de aula os alunos que possuem mquina braile so implicitamente considerados mais ricos, do que aqueles que possuem reglete a mquina braile custa cerca de trs mil reais, enquanto a reglete custa cinquenta reais. Outra fronteira possvel remete gerao, conforme indica um dos exemplos anteriores, a bengala roller tida como de jovem e a bengala de ponta fixa, de velho. Deste modo, os equipamentos citados ainda sinalizam e distinguem outras fronteiras. Conforme apresentado inicialmente, este captulo procurou analisar os principais sinais das performances nomeadas de cegueira, vidncia, baixa viso, entre outros termos, apontando suas contraposies e usos que distinguem e identificam personagens. 101. 100 3. Caracterizao de mscaras: atributos qualificativos Neste captulo apresento o ltimo tipo de representao em anlise: os atributos. Assim como os sinais e as categorias, estes tambm compem as performances nomeadas de cegueira, deficincia visual, baixa viso, vidncia, entre outros termos. Os atributos so predicados estereotipados vinculados a padres de ao pr-estabelecidos. O acionamento de representaes que remetam a tais predicados pode gerar a consequente qualificao ou adjetivao dos atores. Tais atributos, assim como as categorias e os sinais, surgiram em contextos particulares, em disputas simblicas especficas e solidificaram-se historicamente. Essa solidificao momentnea e d-se aps acmulos de interaes durante o tempo, onde os atributos so reproduzidos e alterados conforme as readequaes a outros contextos. Estes atributos podem ser imputados de modo verbal, utilizando-se de categorias; ou no verbal, utilizando-se de gestos, expresses faciais e outras prticas, conforme a situao. Eles ainda so acionados de forma explcita, por meio de categorias e sinais diretamente relacionveis; ou podem permanecer implcitos, sendo apreendidos aps recorrncias e comparaes. 102. 101 Tambm h atributos mais ou menos cristalizados. Os mais cristalizados so os mais recorrentemente acionados, que se reproduzem em mais contextos, tornando-se mais naturalizados e parte do senso comum. Os menos cristalizados esto envolvidos em mais controvrsias, so mais negados nas interaes, menos reproduzidos e naturalizados. Assim como as categorias, os atributos operam de modo relacional. Tambm podem possuir ocorrncia conjunta no mesmo enunciado, onde alguns deles servem de subsdio aos outros, legitimando e fortalecendo-os. No esquema abaixo os atributos esto organizados basicamente em duas colunas que refletem a oposio entre as performances nomeadas pelas categorias cego e vidente, sendo que estas duas categorias resumem e representam suas demais equivalentes. No caso, cego, representa tambm: ceguinho, cegueta, deficiente visual, D.V., etc.; e vidente representa: normal e no deficiente. A categoria baixa viso, que representa tambm os termos BV, semicego e meio-cego, est localizada especificamente no meio da oposio citada. Tal condio tratada no final do captulo. Contudo, gostaria de frisar que as relaes e o espelhamento no so to rgidos, ntidos, acabados e exatos como o diagrama faz parecer, trata-se de uma generalizao de certo modo pedaggica, um exagero, para possibilitar maior compreenso. Alm disso, os atributos elencados no se pretendem exaustivos ou compondo uma totalidade. Estes apenas 103. 102 correspondem ao que pude apreender no campo, aps um acmulo de interaes. Tabela 3 Atributos em anlise. Cego Baixa Viso Vidente Enfermidade fsica Enfermidade mental Indefensabilidade Incapacidade Dependncia Infantilidade Desgraa Sensibilidade Clarividncia Sade fsica Sade mental Defensabilidade Capacidade Independncia Maturidade Graa Insensibilidade Obscurantismo Os atributos de enfermidade fsica relativa ao cego e de sade fsica relativa ao vidente, provavelmente possuem conexes histricas com a medicalizao dos sculos XVIII e XIX, onde a cegueira, assim como outros fenmenos, passou a ser vista como decorrncia de doenas. O saber mdico e seus especialistas so uma das vertentes de reproduo desta concepo. Estes especialistas figuram inclusive nos institutos especializados etnografados, possuindo consultrios. Quando a enfermidade acionada, o contexto tambm se torna necessariamente mdico, por tratar-se de representaes deste campo. A enfermidade est em jogo quando o ator , explicitamente ou implicitamente, qualificado como doente. A 104. 103 doena tida como uma desordem do corpo padro, que no se comporta conforme o esperado. Nesta situao, o corpo reconhecido com sinais de anormalidade vinculados doena: os sintomas. Entre estes sinais situam-se os olhos anormais, especificados no ltimo captulo. De modo geral, a cegueira no considerada propriamente uma doena, mas decorrncia ou resultado desta. Uma mesma doena pode causar vrios fenmenos, por exemplo: a sndrome de Usher pode gerar a cegueira e a surdez. De todo modo, os atores identificados como cegos podem ser reconhecidos como doentes a partir de sua cegueira, ou seja, se so cegos porque foram ou so doentes. Abaixo segue um exemplo, onde a pergunta o que ele tem? solicita as causas mdicas da cegueira: [Instituto especializado. Intervalo] A fisioterapeuta perguntou professora apontando para um aluno que estava a sua frente ele fez outra cirurgia?. A professora respondeu no, que no cresce, achei que ele tinha vlvula, mas no tem. A fisioterapeuta perguntou o que ele tem?. A professora respondeu bem baixinho cncer. A fisioterapeuta prosseguiu como o Jos? Fez cirurgia?. A professora replicou no, o Jos fez cirurgia e tirou tudo, como a Fbia, est estacionado. Neste exemplo, num contexto de coleguismo, dado numa conversa informal, a enfermidade acionada a partir de algumas representaes como a do cncer, que geraria 105. 104 intervenes cirrgicas para a sua cura ou controle. Tal doena seria a causa da cegueira do aluno em questo. Especificamente quanto ao cncer a professora falou baixinho provavelmente pelo estigma decorrente do mesmo, atrelado ao risco de morte. A enfermidade acionada no apenas quando se aborda diretamente as doenas, mas tambm outras representaes mdicas como exames e consultas, que implicitamente indicam que o ator pode ser ou doente. Seguem alguns exemplos: [Instituto especializado] O professor perguntou ao Joo por que ele faltou semana passada. Sua me respondeu que teve consulta; teve que fazer exame de sangue, porque a resistncia dele baixa; e tambm foi no psiclogo. [Instituto especializado, antes da aula] Kevin me disse que no veio segunda, porque teve mdico. Perguntei de qu, disse que da vista, colocou eletrodos, a tinha uma luzinha. Perguntei o que o mdico disse, ele respondeu imitando a voz de mdico me, no vai dar para melhorar nada. [Instituto especializado] A professora me explicou que o David no veio, porque foi fazer cirurgia para limpar a vlvula, tem que fazer de tempos em tempos. O primeiro trecho, num contexto pedaggico, a consulta e os exames podem qualificar implicitamente o ator como 106. 105 doente. Alm disso, a baixa resistncia tambm pode ser tida como decorrncia da mesma doena causadora da cegueira, mas que no foi especificada no exemplo. O segundo trecho, num contexto de coleguismo, descreve exames e o veredito do mdico me, no vai dar para melhorar nada, supondo que o corpo no est num padro satisfatrio dado em decorrncia de uma doena no especificada. O ltimo trecho aborda o processo cirrgico peridico para a manuteno de uma vlvula. Este trecho refere-se a um corpo que sofre uma interveno decorrente de uma doena causadora da desordem corporal. Nos trs exemplos ao se acionar representaes mdicas tambm se imputa a enfermidade aos atores, qualificando-os implicitamente como doentes. Alm das consultas e exames a enfermidade tambm est em jogo quando se aborda os medicamentos. Por exemplo: [Instituto especializado] Entramos na sala, Henrique pediu para que eu pegasse seu colrio que ele tinha colocado num cantinho da pia, pois mais fresco do que deixar no bolso, em contato com o seu corpo, disse. Ele perguntou se eu no poderia pingar no olho dele e contou que sua me tem para de pingar. Era s no olho esquerdo. Ele disse que esse colrio para o glaucoma, ele ajeita a presso do olho e que normalmente o nosso corpo produz esse lquido. A eu perguntei por que no colocava no outro olho. Respondeu 107. Ronaldo ontem no estava bem, dor de cabea, o problema que ele tem com a 106 que os mdicos h anos no conseguem medir a presso do olho direito. Marcia, que tambm estava na sala, falou que esse colrio para quem tem glaucoma sagrado. [Fim de semana na casa de amigos] De noite Juliano tomou remdio, daquele tipo que espirra dentro do nariz. Ele disse que custa R$200,00, mas que ganha do governo. O Anselmo tambm toma esse, acho que porque tiveram a mesma doena, tumor no crebro. O primeiro trecho, num contexto de coleguismo, o remdio aparece como regulador de um descontrole corporal, no caso, relativo presso do olho. No segundo trecho, dado num contexto de coleguismo, o remdio acionado vinculado doena: tumor no crebro. Os exemplos tambm denotam que o remdio impe outras regulaes sobre o corpo: horrios de administrao rgidos; carregar o medicamento; operar sua administrao. Em ambos os trechos, ao se acionar o remdio, implicitamente imputa-se a enfermidade aos atores, situando corpos em tratamento decorrente de uma desordem corporal. A enfermidade ainda vincula-se ao maior risco ou a iminncia de morte, que assolaria os enfermos das doenas causadoras da cegueira. Abaixo seguem alguns exemplos: [Instituto especializado] A professora perguntou sobre o Ronaldo, se algum sabia porque ele faltou. Tomas respondeu o 108. decorrncia de uma doena que no prontamente identificvel perante outros atores pode implicar numa 107 vlvula. Logo em seguida o Ronaldo chegou, disse que estava mal, gripe. A professora prosseguiu ento voc vai sobreviver, no vai morrer no. [Instituto especializado] Cheguei entrada e vi a Rose e a Elisa [mes de duas alunas], subi com elas. A Elisa foi contando que a Pri [sua filha] ficou internada por dois dias, na semana passada, estava vomitando e com dor de cabea. Eu logo perguntei virose?. Ela respondeu os mdico no sabem, a fez tomo[grafia da cabea] e no deu nada. No primeiro trecho, num contexto pedaggico, a enfermidade acionada na frase o problema que ele tem com a vlvula. O sinal relativo anormalidade do corpo foi a dor de cabea. Contudo, quebrando as expectativas, o aluno explica que estava gripado. A ironia da professora ento voc vai sobreviver, no vai morrer no, indica, pela negao, que o aluno estaria mais propenso a morrer, se o problema fosse a vlvula. No segundo exemplo, em contexto de coleguismo, a tomografia e a internao denotam a expectativa de que os sinais reconhecidos a dor de cabea e o vmito fossem relativos doena causadora da cegueira e de que houvesse uma gravidade, risco de morte iminente. A expectativa foi frustrada, como denota a frase no deu nada. Alm do risco de morte, a cegueira enquanto 109. 18 expectativa de contgio. O contgio acionado principalmente em situaes que envolvam o contato corporal. A seguir alguns exemplos: [Instituto especializado] Estvamos subindo para sala e a professora disse que toma muito cuidado no contato [fsico] com os alunos, concluiu dizendo a gente no sabe o que eles tm. [Oficina num instituto especializado] Deram vendas para os videntes, uma professora falou esperem, vou buscar os lencinhos e distribuiu dois lencinhos de papel para cada um e disse que era para colocar com a venda, entre a venda e os olhos. Algum que estava atrs de mim disse ah que bom, assim protege, outra participante respondeu no precisa lavar toda vez. No primeiro trecho, num contexto de coleguismo, a frase a gente no sabe o que eles tm refere-se a um desconhecimento das doenas dos alunos. Esse desconhecimento pode representar a possibilidade de haver doenas contagiosas. Neste caso, para evitar a suspeita de contgio, o cuidado acionado. Este se d em termos de restrio do contato corporal. O segundo trecho, num contexto pedaggico, tambm aborda implicitamente o contgio a partir da proteo do contato corporal com relao ao desconhecido. No caso, o leno de papel protege o contato direto dos olhos com a venda, que foi usada sobre outros olhos desconhecidos. 110. 19 A obra Ensaio sobre a cegueira (1995) de Jos Saramago trata de uma epidemia de cegueira contagiosa. Tal obra reflete e reproduz as representaes sobre esta questo. A enfermidade tambm se relaciona fragilidade intrnseca. A doena reconhecida por debilitar o corpo, que se torna fraco e no pode chegar prximo aos seus limites, esforando-se ou traumatizando-se. Neste sentido, o cego tambm pode ser considerado frgil por ser doente: [Instituto especializado, antes da aula] Alguns alunos me perguntaram por que faltei na quarta-feira. Eu falei a verdade, a droga do despertador. Ricardinho disse que tambm faltou, porque ficou internado, a comeou a contar: minha me perguntou se queria comida, eu disse que sim e a quando ela voltou eu estava no cho, tinha apagado, mas ouvia tudo. A foi para o posto e eles no me deixaram voltar, mandaram de ambulncia para o So Lucas [hospital] e eles mandaram eu ficar l. A eu pedia pra Deus pra eles me soltarem e para eu ficar bem; Era para eu ficar trs dias, a passou outro dia, nem precisou tirar gadiografia [ele falou meio errado]. Eu perguntei de onde era a radiografia, se da cabea. Ele disse no, foto l. A eu sa. Prossegui perguntando Deus te atendeu, n?, ele respondeu , mas no posso fazer Educao Fsica. [Instituto especializado, reunio dos professores com os pais] A Edna [me de uma aluna] disse na Educao Fsica achei que ia 111. 110 estranhar, porque no fez ano passado. Ela foi com medo, mas foi se soltando. S no pode bater a cabea. No primeiro exemplo, a enfermidade evidenciada pela internao e exames; e a interdio quanto realizao das aulas de Educao Fsica implicitamente denota que seu corpo considerado debilitado, no podendo ser extenuado. J no segundo exemplo, a me indica que a filha no pode bater a cabea. Tal proibio relativa a um traumatismo especfico pode denotar que esta parte do corpo seria debilitada, devendo ser protegida. O medo acionado tambm se relaciona a essas imputaes de fragilidade e proteo. As representaes mdicas so to acionadas, que se tornam disponveis para serem empregadas mesmo em contextos absolutamente diversos: [Instituto especializado, sala de aula, quarta srie] Marcos estava falando sobre luthier, que faz instrumentos musicais, porque na aula estvamos construindo um chocalho, quando ele pegou o arroz para colocar no potinho disse agora, ns fazemos um transplante simples. [Feira de Tecnologia voltada s deficincias, apresentao de um instituto especializado] Estava conversando com o Daniel sobre futebol, ele disse que seu time estava perdendo na rodada anterior, mas que j se reabilitou. 112. 111 No primeiro trecho, dado num contexto pedaggico, o aluno acionou a categoria mdica de transplante para construir um chocalho. O segundo trecho, num contexto de coleguismo, o ator acionou a categoria reabilitao para tratar do desempenho de um time de futebol. Quanto sade do vidente, esta acionada de modo relacional enfermidade do cego. Assim, o vidente saudvel quando se acionam representaes mdicas onde o cego doente. Entre os exemplos acima, isso aparece na frase a gente no sabe o que eles tm, que expe nitidamente a fronteira ns e eles, no caso, eles tm alguma doena, so doentes, e ns somos saudveis. Nestes contextos, o vidente o padro de normalidade, possui um corpo dentro do esperado. Inclusive a categoria vidente pode ser intercambivel por normal, como foi especificado em capitulo anterior. Outro par de atributos seria a enfermidade mental relativa ao cego e a sade mental relativa ao vidente. A enfermidade mental acionada quando o ator identificado com abalos emocionais ou transtornos psicolgicos. Esses abalos so reconhecidos atravs de comportamentos e traos de personalidade fora do padro esperado. A cegueira tida como uma das causas que desencadeia tais abalos e transtornos. De maneira geral, os cegos podem ser classificados de modo estereotipado como parafuso solto, depressivos, etc., em virtude da cegueira. 113. 112 A seguir alguns exemplos onde a enfermidade mental acionada, a partir do reconhecimento de comportamentos anormais em diferentes situaes: [Instituto especializado] A professora falou que teve problemas com uma aluna, que ela ficava ligando na casa dela e contando mentiras para seus familiares. Ento, a outra professora disse eles tm tudo um parafuso solto. [Instituto especializado, reunio com pais] A professora passou para os comentrios sobre o caso do Joo h trs anos foi quando comeou perder viso, restrio do campo. Ele sentiu muito, porque tinha vida normal. A gente v na cara do Joo que ele meio depressivo. No voc perdeu a viso e vamo que vamo. A gente tem que conseguir uma terapia para ele o mais rpido. Imagina voc aquilo que voc enxergava, no enxerga mais e est entrando na adolescncia. Ele est emocionalmente abalado, precisa de uma terapia. No primeiro trecho, num contexto de coleguismo, a enfermidade mental imputada pela frase eles tm tudo parafuso solto. O comportamento anormal identificado seria contar mentiras em situaes inapropriadas. No segundo trecho, em contexto pedaggico, a enfermidade mental imputada pela professora ao afirmar que o aluno meio depressivo e emocionalmente abalado, pois perdeu a viso e deixou de ter uma vida normal. Os 114. 113 comportamentos anormais que levaram imputao no foram bem especificados, h apenas uma indicao referente expresso facial como denota a frase A gente v na cara do Joo que ele meio depressivo. A professora recomenda uma terapia atendimento psicolgico. O saber psicolgico e seus especialistas so uma das vertentes de reproduo desta concepo. Esses especialistas figuram nos institutos especializados, oferecendo atendimentos. Ao acionar estas representaes, o contexto torna-se tambm psicolgico, por tratar-se de representaes deste campo. Abaixo segue a fala de um especialista: [Instituto especializado, oficina ministrada por um psiclogo] No beb, a viso est arcaica, s v borres. A partir dos 6 meses que consegue identificar a me 30 cm. Para Winnicott essa apario da criao e do olhar da me formam grandes traos de personalidade na criana. Ele diz que os deficientes visuais usam outros recursos e ponto. O Freud nem isso, no fala nada. Essa funo de espelho pode ser um caminho importante para entender a personalidade. Quem no v muito mais fcil ter devaneios, fica sozinho no espao, precisa da me que tem que dar aporte para essa criana para que ela se sinta existindo. [...] Esse movimento [mostrou balanando o corpo para frente e para trs] no psicose, autismo, criana cega assim, tm maneirismos. Qual relao ela tem com mundo externo? Tem a questo poltica de taxar por autista, psictico j no tem gente trabalhando com 115. 114 deficiente visual. [...] A criana quando nasce tem evoluo psicomotora rolar, engatinhar, movimentos de pescoo isso adquirido pela viso, cai o brinquedo, ela olha; e tambm cultural. Deficiente visual no tem nada disso, se o brinquedo escapa da mo dele, ele desapareceu, mgico. Demora muito mais para ele adquirir [esses conhecimentos], por isso a necessidade da Estimulao Precoce, para ensinar a evoluo que deveria ter feito no estgio normal. Tem tambm os aspectos sociais, a perda de socializao, do desenvolvimento cultural, intelectual. Esse mais ou menos o deficiente visual que vamos estar falando. No estamos preocupados com aspectos pedaggicos aqui, mas sim quais as tcnicas necessrias para integrar essa criana sociedade. Neste trecho, em contexto pedaggico, o especialista aborda algumas anomalias que a cegueira pode gerar. Tais como: m formao dos traos de personalidade; demora na evoluo psicomotora; perda em socializao, desenvolvimento cultural e intelectual. O termo evoluo vinculado a estgios normais, que a cegueira prejudica. A Estimulao Precoce, atendimento voltado a bebs, oferecido nos institutos especializados, procuraria regularizar tal demora na evoluo. De modo similar sade fsica, a sade mental do vidente acionada de modo relacional enfermidade mental do cego. Assim, o vidente pode ser considerado saudvel ou lcido quando se acionam representaes onde o cego identificado, por exemplo, como emocionalmente abalado. 116. 115 Entre os trechos acima, a frase eles tm tudo um parafuso solto expe a diferenciao ns e eles, no caso, eles tm parafuso solto e, em contraposio, ns temos parafuso firme. Nestes contextos, o vidente o padro de normalidade, possui comportamento e personalidade dentro do esperado. Ambos os atributos desenvolvidos at aqui operam com enfermidade e sade a partir da identificao de regularidades e desvios dos padres constitudos como normais pelos saberes em causa. O prximo par de atributos a ser tratado a indefensabilidade relativa ao cego e a defensabilidade relativa ao vidente. O primeiro atributo est em jogo quando o cego implicitamente ou explicitamente considerado indefeso perante os perigos do entorno, como obstculos, sendo mais suscetvel a se ferir, por no perceb-los. Tal atributo pode possuir conexes que remetem bblia, como na parbola do cego "Pode um cego guiar outro cego? No cairo os dois num buraco? (BBLIA, 2011. Lucas, captulo 6, versculo 39). Este trecho situa-se entre uma srie de prescries e advertncias que Jesus faz numa proclamao a seus discpulos, entre elas esto Se algum vos bater numa face, oferecei-lhe tambm a outra (versculo 29); No julgueis, e no sereis julgados (versculo 37); Ai de vs, se todos vos elogiam, porque era assim que os vossos antepassados tratavam os falsos profetas (versculo 26). Em relao ao prprio texto, o cego que guia parece referir-se ao profeta e o cego guiado ao discpulo. A cegueira poderia ser 117. 116 uma falsa profecia, que leva ambos a carem no buraco. Para alm do sentido metafrico da parbola, h a expectativa de que cegos so mais suscetveis a carem ou ferirem-se em obstculos do entorno. Apesar deste estudo no poder avaliar os contextos em que esta representao especfica foi forjada e acionada, ou seja, as interaes entre os agentes, com suas posies e interesses. possvel supor que o campo religioso colabora na reproduo e atualizao deste atributo. A parbola do cego tambm foi representada pelo pintor flamengo Pieter Bruegel, em 1568, reproduzida abaixo: Figura 9 BRUEGEL, Pieter. Parabola dei ciechi. 1568. 1 original de arte, tmpera sobre tela; 85,5 x 154 cm. Museo Nazionale di Capodimonte, Npoles. Na imagem h seis cegos, que podem ser identificados por alguns sinais. Entre eles, a bengala de madeira, a qual todos seguram. Contudo, este equipamento no est sendo utilizado para rastrear o cho, pois esto apoiados uns nos ombros dos outros ou segurando a bengala do da frente. Outro 118. 117 sinal referente aos olhos, na pintura figuram cavidades oculares profundas, ausncia de olhos, olhos fechados e olhos esbugalhados. O cenrio uma vila com igreja. Quanto s vestimentas, usam chapus, capas, crucifixos, cantis, bolsas, etc. O primeiro cego, que puxa a fila, aparece cado de costas; o segundo est desiquilibrado e caindo; o terceiro est na iminncia de cair; e os outros trs permanecem caminhando. A ausncia de sinais relativos a ferimentos, como sangue, hematomas e fraturas, pode denotar que no se machucaram com gravidade. Esta pintura tambm representa cegos como suscetveis a cair, sendo indefesos aos obstculos, no caso, uma vala. As caneleiras usadas pelo terceiro cego tambm podem denotar tal indefensabilidade, por ser um recurso para proteo do corpo. De modo semelhante ao campo religioso, este estudo no pretende avaliar o contexto especfico em que esta representao foi forjada e os contextos em que foi acionada posteriormente. Entretanto plausvel supor que o campo artstico tambm pode ter contribudo para a reproduo e atualizao desta representao da cegueira. Em meu trabalho de campo, esta representao aparece como senso comum, sendo reconhecida e imputada de modo geral. A indefensabilidade acionada geralmente em contextos identificados como perigosos ou potencialmente perigosos, aos quais se supe que no seriam percebidos. A seguir alguns exemplos: 119. 118 [Instituto especializado] As funcionrias estavam limpando com jato de gua a entrada do prdio e os alunos estavam indo naquela direo. Quando os professores viram a situao, saram correndo e berraram afobados: Cuidaaaado!!! gua!. [Instituto especializado] Diego estava sentado no cho balanando [seu corpo para frente e para trs], quando a professora falou para de balanar, que eu e a Andrea j estamos ficando tontas e se tiver alguma coisa na sua frente voc pode bater a cabea. No primeiro trecho, num contexto pedaggico, o cho molhado foi identificado como perigoso e gerou uma reao desesperada dos professores para proteger os alunos tidos como indefesos. Neste caso, a imputao da indefensabilidade dada implicitamente atravs da prpria reao dos professores e pelo alerta de cuidado. No segundo trecho, em contexto pedaggico, balanar colocado como potencialmente perigoso, referindo-se ao risco de bater a cabea. Nesse caso, a professora implicitamente imputou que o aluno suscetvel a ferir-se por no perceber o risco que corre. Os exemplos abaixo tambm acionam a indefensabilidade mencionando-se um perigo em especfico a corrida, que pode suscitar colises e quedas. Sua proibio imputada como uma medida de precauo. 120. 119 [Instituto especializado] Estava no corredor com a professora, a vieram alguns alunos correndo, ela disse: "no corre, que voc ainda vai bater na pilastra. [Indo para o aniversrio de uma amiga em um restaurante] Ao atravessar a avenida Anselmo grita para Lia: no corre, j viu ceguinho correr?. Lia respondeu: eu corro!. [Instituto especializado, sala de aula] A professora falou para o Gilson buscar o Alan: "corre l e busca ele, a se tocou do que havia dito e acrescentou mas sem correr!". No primeiro exemplo, num contexto pedaggico, a professora imputou a proibio de correr, que implicitamente denota a indefensabilidade perante situaes perigosas como bater na pilastra. O segundo trecho, num contexto de coleguismo, no cenrio de uma avenida, o ator imputa a interdio da corrida no corre! e justifica atravs do esteretipo ceguinho no corre. A amiga negou as imputaes, contradizendo-as com a frase eu corro!. O ltimo trecho, num contexto pedaggico, tambm aborda a proibio da corrida de um modo quase cmico em virtude da contradio corre l, mas sem correr. Neste trecho tal proibio tambm aciona implicitamente a indefensabilidade. Alm da restrio da corrida, outras medidas de precauo podem ser tomadas em nome da indefensabilidade. A seguir, um exemplo: 121. 120 [Instituto especializado, saguo] Estvamos conversando sobre shopping centers, Lia falou acham deficiente visual tapado. Perguntei por que, o Leo respondeu acham que pode acontecer alguma coisa com voc e o Henrique explicou voc tem que dizer a loja que voc vai e os seguranas te levam. Perguntei: se voc quiser tomar sorvete, o cara fica do lado esperando?. Lia contou que no Shopping Y d para dispensar o segurana, Henrique falou que no Shopping W tentou, mas no deu. O Anselmo disse que coisa de segurana chato e que tem que pedir para falar com o superior. Neste trecho, que se refere a um contexto de lazer, no cenrio de um shopping, a frase acham que pode acontecer alguma coisa com voc refere-se suscetibilidade de ferir-se, imputando a indefensabilidade. O acompanhamento do segurana seria uma precauo acionada. J na frase acham deficiente visual tapado h a negao e desqualificao deste atributo, que se relaciona enfermidade mental. Com relao defensabilidade do vidente, de modo relacional, nos trechos acima o vidente figura como o defensor, aquele que percebe o perigo, d o alerta ou toma medidas de precauo para proteger ou defender o cego, que tido como indefeso. O par de atributos seguinte a incapacidade do cego em relao capacidade do vidente. O cego qualificado como incapaz quando se reconhece que ele no consegue praticar um ato previsto, por no possuir as capacidades tidas 122. 121 como necessrias, tais como: saberes, tcnicas, instrumentos, etc. Nestas situaes, um ator considerado capacitado pode oferecer ajuda, procurando capacitar estabelecer os requisitos necessrios ; ou praticando a ao prevista pelo ator incapaz, do modo total ou parcial. Abaixo seguem algumas situaes onde a incapacidade imputada atravs da impossibilidade de conseguir, respectivamente, ler e servir-se: [Sada de um instituto especializado] A me do Marcos contou que a psicloga do instituto X falou que o Marcos era autista e nunca ia conseguir ler. Ele chegava l e ela no estava, dava s um copo plstico para ele brincar, desestimulava, ele no gostava de ir. Prosseguiu dizendo ele no autista, que teve uma cirurgia traumtica de transplante de crnea quando era bem pequeno. Imagina se no ia conseguir ler? o melhor aluno da sala hoje. [Casa de uma amiga] Fomos almoar, a empregada serviu os DVs, para mim [nica vidente da turma] ela disse algo como voc consegue se servir, n?. No primeiro trecho, num contexto de coleguismo, a me explicita que a psicloga avaliou que seu filho nunca conseguiria ler, mesmo antes de qualquer tentativa, sendo, portanto, incapaz de alfabetizar-se. A me tambm nega a classificao de autista, remetendo a outras representaes 123. 122 ligadas s enfermidades como o trauma decorrente de uma cirurgia de transplante de crnea. No segundo trecho, a incapacidade acionada na frase voc consegue se servir, n? dirigida apenas a um dos atores, comparativamente imputando que os demais no conseguiriam, sendo incapazes de antemo. J nos exemplos abaixo se aciona a incapacidade atravs da imputao da necessidade de ajuda. Quando a ajuda solicitada ou oferecida a outro ator, a incapacidade pode ser acionada para justific-la. [Instituto especializado] As professoras estavam falando sobre a entrada dos alunos na escola: mas aqui no uma escola normal, no s deixar o aluno na portaria e pronto, tem que ajudar a subir. [Instituto especializado, Festa Junina. Eu estava trabalhando na barraca da pesca] Vieram barraca para pescar: o pai, a me e seu filho, que aluno do instituto. A me ia ajudar o filho na pescaria, eu disse que no precisava. Ento, a criana pescou o peixe e o pai ficou mais feliz que a criana voc conseguiu!!!. No primeiro trecho, num contexto de coleguismo, a professora indica a necessidade de ajudar os alunos a subirem at a sala de aula por serem considerados implicitamente como anormais e, deste modo, incapazes de subirem sozinhos. 124. 123 No segundo exemplo, num contexto ldico, a me oferece ajuda pressupondo que seu filho no conseguiria realizar a pescaria. O pai, ao surpreender-se com o sucesso do filho, demonstra implicitamente sua expectativa de que a criana seria incapaz de pescar. Com relao capacidade do vidente, de modo relacional, nos trechos acima o vidente figura como aquele que possui os pr-requisitos necessrios para conseguir praticar as aes as quais os cegos no conseguiriam. De modo geral, o vidente tambm aquele que oferece ajuda, capacitando ou desempenhando a tarefa pelo ator incapaz. O quinto par de atributos da tabela refere-se dependncia do cego em relao independncia do vidente. O cego tido como dependente quando se identifica que o mesmo precisa de outro ator para praticar uma ao prevista, seja por sua incapacidade, enfermidade, indefensabilidade, etc. A dependncia tambm pode ser acionada atravs da ajuda. A ajuda implica, necessariamente, numa dependncia, momentnea ou recorrente, do outro ator. A seguir alguns exemplos: [Instituto especializado] Mrcia falou que a Odila est se sentindo excluda, porque depende da irm para se locomover. Disse que sabe bem o que isso, que depende do seu marido. Ele estava sentado um pouco afastado, mas ouviu, olhei para ele e ele balanou a cabea em sinal de positivo. 125. 124 [Instituto especializado, hall de entrada] Cheguei, estava o Cludio e a Mrcia, eu fiz a besteira de perguntar para a Mrcia se ele estava na cola dela hoje, ele disse que estava infelizmente, ela disse que no consegue liberar ele, mas vai conseguir. [Instituto especializado, visita de apresentao do instituto] O professor estava falando sobre empregabilidade, falou que se a empresa pega um cego que seja, por acaso, preguioso, dependente... Ento, eles generalizam todo cego dependente e preguioso e ficam com receio de contratar outros. No primeiro trecho, num contexto de coleguismo, a dependncia acionada explicitamente ao afirmar-se depender de outro ator, no caso, a irm, para se locomover. O ator tambm imputa a si mesmo a dependncia do marido para a locomoo. Neste caso, a dependncia acionada pela prpria categoria depender. No segundo trecho, num contexto de coleguismo, implicitamente aciona-se a dependncia do outro ator na frase no consegue liberar ele, a dependncia figura como um aprisionamento do ator, de modo no desejvel como denota o termo infelizmente. O mote da dependncia pode referir-se a um acompanhamento cotidiano, como denota a expresso na cola de algum. No terceiro trecho, num contexto apresentao dos servios do instituto, o ator indica a construo de generalizaes pelas empresas todo cego dependente e 126. 125 preguioso a partir de casos particulares. Contudo, no por acaso o ator acionou a dependncia do cego como um exemplo de esteretipo. Nos prximos exemplos a imputao da dependncia mais implcita, a impossibilidade do cego de praticar uma ao sozinho, impe a dependncia do outro ator. [Instituto especializado] A turma saiu da sala e a Laura ficou parada na porta. Uma funcionria estava passando e falou algo assim, a Laura l na porta, ela no vem, tem medo de andar sozinha. Gritei para ela vem Lau! s ir reto, a funcionria tambm falou no tem nada na frente, s vir, mas ela ficou parada. A a professora, que saia da sala, deu o brao e a trouxe. A funcionria disse tambm, sempre tem algum para traz-la. [Instituto especializado] Joyce disse que queria ir ao banheiro, mas no consegue ir sozinha. Perguntei se fez O.M. [curso de Orientao e Mobilidade], respondeu que no, por isso no consegue e porque sempre est com algum. No primeiro trecho, num contexto pedaggico, a dependncia acionada atravs da impossibilidade do ator de locomover-se sozinho, situada na frase tem medo de andar sozinha e de modo no verbal pela ao da professora ao trazer a aluna. Houve uma tentativa de fazer a menina andar sozinha, mas esta se resultou frustrada. 127. 126 No segundo trecho, num contexto de coleguismo, a dependncia acionada na frase no consegue ir sozinha, que tambm se refere necessidade de outro ator para a locomoo. O ator justifica tal dependncia por no ter feito o curso que confere a tcnica necessria para tanto e pelo acompanhamento contnuo de outros atores. Quanto independncia do vidente, esta acionada de modo relacional dependncia do cego. Assim, o vidente pode ser considerado independente quando est em jogo representaes onde o cego dependente. O vidente o ator do qual o cego depende, aquele que o acompanha e presta ajuda. O prximo par de atributos a ser desenvolvido a infantilidade do cego e a maturidade do vidente. A infantilidade est em jogo quando o ator qualificado como criana ou recebe tratamento assim condizente. possvel supor algumas relaes entre as representaes da infncia e da cegueira, estas seriam dadas pelo compartilhamento de alguns atributos tanto o cego quanto a criana podem ser qualificados como incapazes, dependentes e indefesos. A seguir alguns exemplos: [Instituto especializado] Tais [professora] disse que a Virgnia trata os alunos como se fossem crianas, eles no so crianas, se faltarem eu vou conversar com eles, no dar castigo. [Instituto especializado, visita de apresentao do instituto] O professor prosseguiu a questo 128. 127 da empregabilidade, ele disse que se falam para um chefe de departamento de uma empresa: ah, vai entrar um cego aqui, ento o cara j fica desesperado, nem dorme a noite, acha que vai ter que ser bab, ajudar no banheiro, fazer o trabalho dobrado. [Avenida Paulista com amigos] Entramos no metr, veio um funcionrio, perguntou se eu estava com eles, disse que sim, mas que cada um ia descer numa estao. A perguntou as estaes e disse que ele os levava. Ento, pediu para eles fazerem fila indiana e colocar um a mo no ombro do outro. Afff, foi meio constrangedor, como eles no se movimentaram para formar a fila, o funcionrio foi pegando eles e colocando um atrs do outro. A Rita no tinha colocado a mo no ombro do da frente, ento, o funcionrio veio pegou sua mo e colocou. O funcionrio foi puxando a fila, mas no deu certo, logo eles estavam todos de braos dados, mais ou menos, um do lado do outro. No primeiro trecho, num contexto de coleguismo, a infantilidade acionada atravs de sua negao, que denota a prpria presena do que se nega: eles no so crianas. A infantilidade relacionada ausncia do dilogo e presena do castigo. No segundo trecho, num contexto de apresentao dos servios do instituto, a infantilidade acionada na frase acha que vai ter que ser bab. Na metfora empregada, o chefe 129. 128 corresponde bab e o cego criana, que precisa de ajuda para realizar atividades triviais. No terceiro trecho, num contexto de prestao de servio, no cenrio do metr, a fila indiana ou trenzinho, com as mos nos ombros, solicitada pelo funcionrio pode remeter a representaes ligadas infncia, imputando implicitamente a infantilidade. Conforma indica Foucault (2009, p.141), a fila uma forma disciplinar para coordenao dos movimentos e controle no espao escolar: A ordenao por fileiras, no sculo XVIII, comea a definir a grande forma de repartio dos indivduos na ordem escolar: filas de alunos na sala, nos corredores, nos ptios; []. Movimento perptuo onde os indivduos substituem uns aos outros, num espao escondido por intervalos alinhados. Sobre a maturidade do vidente, de modo relacional, nos trechos acima o vidente figura como aquele que toma conta ou cuida, impondo a disciplina, como a figura da bab citada. Outro par de atributos a desgraa do cego e a graa do vidente. A desgraa est em jogo quando o ator , explicita ou implicitamente, qualificado como coitado, digno de pena e d, em virtude da cegueira. A desgraa pode tambm se relacionar caridade, que uma das virtudes teologais catlicas, corresponde a amar o prximo e opera como base legitimadora do assistencialismo cristo. No excerto abaixo, Mauss (2007) situa a caridade 130. 129 como uma ddiva no retribuda diretamente, que inferioriza quem a aceitou e confere lucros simblicos indiretos ao doador. A desgraa identificada promove a ddiva caridade como uma recompensa que repe a assimetria. A ddiva no retribuda ainda torna inferior quem a aceitou, sobre tudo quando recebida sem esprito de reciprocidade [...]. A caridade ainda ofensiva para quem aceita, e todo o esforo de nossa moral tende a suprimir o patronato inconsciente e injurioso do rico esmoler (MAUSS, 2007, p.294). A seguir alguns exemplos extrados do meu caderno de campo: [Instituto especializado] A professora perguntou quando o braile veio para o Brasil?, no souberam responder. Ento ela disse que comeou no [colgio] Benjamin Constant e foi para outros lugares, A veio para So Paulo, a sociedade, as senhoras catlicas, a igreja pensaram coitadinhos, no tm escola. [Institutos especializado, Festa Junina, estava trabalhando na barraca do correio elegante] A barraca estava com movimento fraco at o locutor dizer que queria receber mensagem. A vieram umas trs pessoas para mandar para ele, entre elas uma senhora que disse tadinho, ele tambm cego. Ela queria mandar em tinta, a eu expliquei que teria de ser em braile para ele entender, ela aceitou. 131. 130 [Casa de shows com amigos] Enquanto aguardvamos o incio do show, falvamos que geralmente o primognito no tem problema, mas o segundo filho sim. A o Fred, que o filho do meio, entre dois irmos videntes, disse podia ter sido com a Vivian [irm mais nova]. Ento a Bruna falou ai coitada!. Por fim, o Juliano disse se Deus fez voc porque voc pode aguentar, talvez ela no conseguisse. No primeiro exemplo, num contexto pedaggico, a desgraa acionada, pela professora, atravs do termo coitadinhos, referindo-se implicitamente aos cegos de So Paulo, numa poca passada. Tal imputao foi atribuda a a sociedade, as senhoras catlicas, a igreja', marcando relao entre a desgraa e o domnio religioso catlico. A desgraa figura implicitamente como propulsora de uma caridade relativa criao de escola aos desprovidos, queles que no tm escola. No segundo trecho, num contexto festivo, a desgraa acionada pela senhora na frase tadinho, ele tambm cego, implicitamente indicando que apesar de locutor, o ator ainda digno de piedade por ser cego. O envio da mensagem tambm pode configurar caridade. No terceiro trecho, num contexto de coleguismo, a desgraa acionada na frase ai coitada, expressa em reao ao desejo do ator de que sua irm tivesse nascido cega em seu lugar. Apesar de a frase referir-se irm, comparativamente imputa a desgraa ao irmo. No trecho 132. 131 tambm figuram representaes religiosas, que so proferidas para justificar a ocorrncia da cegueira, encarada como um fardo a ser aguentado. A cegueira provoca comoo ou furor enquanto reaes imediatas da caridade, conforme expressam os exemplos abaixo: [Aniversrio de uma colega em uma churrascaria] Chegamos e pegamos uma mesa, o gerente j veio falar que fariam preo especial, no precisamos nem pedir! O Renato disse que normal, sempre assim, oferecem desconto. Como era sbado fizeram preo de durante a semana. [Aula de Orientao e Mobilidade] Estvamos andando pela rua, quando um moo veio correndo at ns e perguntou se queramos ajuda, que ele levava a gente com o carro da firma. A professora agradeceu e disse que no precisava. Depois ela disse para mim que isso acontece bastante. No primeiro trecho, dado num contexto comercial, a comoo pode referir-se a pronta atitude do gerente em dar um preo especial, por se tratar de um grupo de cegos. Tal desconto configura-se enquanto caridade por ser uma ddiva que no se pode retribuir diretamente. No segundo trecho, dado num contexto de passagem, a comoo pode referir-se corrida do moo para prontamente oferecer uma carona, por se tratar de um cego. A carona configura-se como caridade tambm por no ser retribuvel. 133. 132 A respeito da graa do vidente, esta acionada de modo relacional desgraa do cego. O vidente tido como agraciado e afortunado, sendo aquele que promove a caridade ao coitado do cego. Outro par de atributos a sensibilidade do cego e a insensibilidade do vidente. Este atributo refere-se possibilidade de percepo ligada aos sentidos. A sensibilidade imputada quando o cego considerado mais sensvel, por possuir audio, olfato e paladar mais desenvolvidos que os do vidente, em virtude da cegueira. A seguir, alguns exemplos: [Aula de Orientao e Mobilidade] A aluna disse que percebeu a esquina, porque agora a rua est subindo, com uma pequena inclinao. Eu no tinha reparado, a falei para a professora que demorei a perceber, ento ela falou: quem enxerga vira retardado, no percebe nada, disse que so detalhes sutis, como a direo do vento e o som do carro. Tambm falou a mulher chega com mais medo, mas depois se solta mais que o homem, tem mais sensibilidade. [Instituto especializado, sala de aula] A professora falou a humanidade est perdendo os [outros] sentidos, muito visual. [Instituto especializado, reunio com uma professora] Manuela falou "a deficincia limitao, mas no que a percepo seja falha. S conclumos que falho se acharmos que tudo tem que passar pela viso e se 134. 133 comparar com o vidente. Os canais de percepo deles so outros". [Quitanda perto do instituto especializado, comprando frutas para uma atividade] Vitor falou que no filme Co de briga tem um moo cego que sabia se o melo estava bom batendo nele e ouvindo seu som. O professor parece ter gostado da ideia e os dois comearam a bater nos meles. Tentaram alguns, mas acho que desistiram. No primeiro trecho, num contexto pedaggico, a professora aciona a insensibilidade do vidente e, de modo relacional, a sensibilidade do cego. O vidente no percebe nada, j o cego percebe sutilezas, que so utilizadas em sua locomoo, tais como a direo dos ventos e o som dos carros. A professora tambm aciona uma distino de gnero, a mulher cega inicialmente tem mais medo do que o homem cego, mas no decorrer do curso ela se solta mais por possuir maior sensibilidade. No segundo trecho, num contexto pedaggico, a professora aciona uma insensibilidade generalizada, relativa humanidade, atravs da perda dos outros sentidos pelo domnio da viso. No terceiro trecho, num contexto pedaggico, o ator indica que os cegos teriam outros canais de percepo, uma sensibilidade diferenciada, mas no a especifica. No ltimo trecho, num contexto comercial e de coleguismo, o filme citado indica a sensibilidade do cego por 135. 134 possuir uma audio qualificada que reconhece o estado do melo em seu interior. Com relao insensibilidade do vidente, esta citada explicitamente no primeiro exemplo e de modo geral no segundo. O vidente considerado com audio, tato e paladar menos desenvolvidos, por enxergar. O ltimo par de atributos a clarividncia do cego e o obscurantismo do vidente. Conforme indica Amaral (2003), desde a Antiguidade o cego considerado como aquele que v alm da aparncia enganadora, alcanando a essncia. Tal pode ser inferido a partir do personagem cego Tirsias, da tragdia dipo Rei, de Sfocles: Corifeu - Mas est a quem pode descobrir o criminoso! Afinal trazem o vidente iluminado! Se algum mortal tem acesso verdade, ele! dipo - Tirsias! Tu que tudo percebes, do mais claro ao mais denso dos mistrios, alto nos cus ou rasteiro na terra, tu hs de sentir, mesmo sem poder ver, a desgraa que assola a cidade (SOFOCLES, 1976, p.22). No exemplo acima, o cego colocado como um vidente iluminado, aquele que tem acesso verdade. Este mesmo princpio tambm figura na imagem abaixo, uma alegoria da Justia, representada como uma mulher que possui os olhos vendados para enxergar a verdade alm das aparncias: 136. 135 Figura 10 CESCHIATTI, Alfredo. Justia. 1961. 1 original de arte, granito; 330 x 148 x 40 cm. Supremo Tribunal Federal, Braslia. Foto por: Niels Newton Cauper de Lima. A seguir, indico alguns exemplos, referentes a este atributo, obtidos em meu trabalho de campo: [Apresentao do maestro Joo Carlos Martins num evento corporativo] Aps a sua apresentao, no fim do seu discurso, o maestro contou que doou seu primeiro cach para um instituto de cegos: para aqueles que no podem ver a luz material. [Missa com o Cardeal de So Paulo na capela de um instituto especializado] O Cardeal comentou a leitura sobre Nossa Senhora do Rosrio e disse Maria, que no era cega e os apstolos, que tambm no eram cegos, no conseguiam enxergar bem naquele momento, enxergar o mais importante. 137. 136 No primeiro exemplo, num contexto de apresentao, o maestro afirma que os cegos so aqueles que no podem ver uma luz em especfico a luz material. Deste modo, implicitamente, o ator indica que os cegos teriam acesso outra luz, no caso imaterial. O segundo exemplo, no contexto de um culto, o cardeal indica que Maria e os Apstolos no eram cegos, porm no enxergavam bem o que mais importante. Assim, os videntes enxergam mal ou enxergam o que menos importante; em contraposio, os cegos enxergam bem, o que importa. Na tabela apresentada no incio deste captulo, a categoria baixa viso est situada espacialmente entre as categorias cego e vidente. Em termos de atributos, no identifiquei atributos especficos a esta categoria. Contudo, os atores assim identificados parecem compartilhar de modo mais brando e flexvel tanto os atributos da cegueira, quanto os da vidncia. No caso, o ator baixa viso pode ser considerado um pouco: incapaz ou capaz, dependente ou independente, etc. A categoria equivalente meio-cego, analisada no primeiro captulo, pode relacionar-se tambm a este compartilhamento de atributos e a esta posio intermediria entre os dois polos citados. A seguir um exemplo: [Instituto especializado. Festa junina] Veio uma moa barraca [do Correio Elegante], ela disse que era baixa viso e tambm quis olhar as mensagens em braile. Perguntei se lia o braile com os olhos, respondeu que sim. 138. 137 Contou que l bem, vai para todo lado, consegue andar sozinha e que d para se defender mais ou menos. No exemplo acima, num contexto festivo, alguns dos atributos desenvolvidos neste captulo foram acionados. A frase consegue andar sozinha refere-se independncia, mas a necessidade de afirm-la pode supor que tal no seria evidente. A frase seguinte d para se defender mais ou menos remete a indefensabilidade, contudo termo o mais ou menos situa explicitamente a posio ambgua entre os polos com relao ao compartilhamento dos atributos. Dos nove pares de atributos mencionados apenas dois deles so, na maioria das situaes, positivados com relao ao cego e depreciativos com relao ao vidente. Estes seriam a sensibilidade e a clarividncia. Conforme j apontado, este trabalho no tem a pretenso de abarcar a totalidade dos atributos possveis, mas se escolheu aqueles mais recorrentes no trabalho de campo realizado. Por hora, exponho outra forma de imputao dos atributos, especialmente daqueles considerados depreciativos ao cego. Esta se refere surpresa ou exaltao quando se identifica atributos positivados do vidente no ator cego, denotando assim a expectativa contrria. Por exemplo, a surpresa ou exaltao quando o cego reconhecido como sadio, independente, capaz, etc., indica a expectativa de que fosse doente, dependente, incapaz, etc. Nessas interaes, o ator tratado como uma espcie de cego-heri. Contudo, tal 139. 138 herosmo imputa e reitera os atributos depreciativos do cego pela expectativa contrria. A seguir, um exemplo: [Voltando de um show com amigos] Falvamos de umas pessoas sem noo que fazem perguntas estpidas. Bruna disse que no banco uma senhora perguntou para sua colega como que ela fazia as coisas e a colega respondeu que era independente, trabalhava e tinha at uma filha. A a senhora ficou abismada, achou aquilo uma grande coisa. Bruna tambm falou das pessoas que falam coitados, o Juliano disse, so ignorantes, falamos que melhorou ultimamente, mas ainda falta muito. No exemplo acima, que remete a um contexto comercial, a reao abismada da senhora com relao cega que se afirma como independente, com trabalho e filho, implicitamente indica a expectativa contrria, de que ela fosse dependente, sem trabalho e incapaz de criar um filho. Alm da dependncia e da incapacidade, o exemplo refere-se ao atributo da desgraa, atravs do termo coitados, pontuando que tais imputaes so ignorncia. De modo geral, este captulo procurou abordar os atributos enquanto esteretipos solidificados historicamente, que qualificam o ator atravs da performance dos mesmos. Explicitei, entre outros pontos, que os atores classificados como cegos so qualificados, em muitas situaes, como: doentes, frgeis, depressivos, indefesos, incapazes, 140. 139 dependentes, infantis, coitados, sensveis, clarividentes, entre outros qualificativos no contemplados nesta pesquisa. Tambm possvel notar que os atributos podem ser interdependentes, por exemplo, a incapacidade parece justificar a dependncia; e a dependncia, a incapacidade e a indefensabilidade instituem a infantilidade. O presente captulo encerra a anlise das representaes propostas para esta dissertao. O prximo captulo aborda a negociao das mesmas conforme interesses especficos. J o ltimo captulo trata dos processos de incorporao destas representaes. 141. 140 4. Negociao de representaes: rendimentos simblicos Nos captulos anteriores expus categorias, sinais e atributos acionados em performances chamadas de cegueira, deficincia visual, baixa viso, vidncia, entre outros termos. Neste captulo, pretendo tratar como os atores negociam tais representaes, tendo em vista as expectativas criadas nas interaes. O desfecho de tais negociaes tambm pode envolver rendimentos simblicos e culminar na reproduo destas representaes. A seguir detalho tal conformao. As expectativas so previses de como se dar a interao, so criadas a partir da identificao das representaes dos atores envolvidos e de informaes obtidas anteriormente em interaes passadas ou por outros meios. A informao a respeito do individuo serve para definir a situao, tornando os outros capazes de conhecer antecipadamente o que ele esperar deles e o que dele podem esperar. Assim informados, sabero qual a melhor maneira de agir para dele obter uma resposta desejada (GOFFMAN, 2009, p.11). O desfecho da interao depende do reconhecimento e imputao de representaes em relao s expectativas 142. 141 estabelecidas pelas partes. Se tais acionamentos corresponderem s expectativas, os atores recebem um tratamento adequado e o desfecho da interao satisfatrio. Mas, se os acionamentos no correspondem s expectativas, o desfecho da interao pode envolver algum embarao ou desapontamento. Tambm possvel que numa mesma interao, certos atores tenham suas expectativas atendidas e outros no. Apesar das expectativas criadas, o desfecho da interao no est garantido de antemo e permanece imprevisvel. As expectativas de como se passar a interao tambm podem envolver interesses diretos, rendimentos especficos. Em geral, tratam-se de bens simblicos valorizados por conferir: prestgio, comodidades, riquezas, etc. Essa noo aproxima-se do conceito de capital de Bourdieu, que considera tais bens como produto de relaes anteriores de concorrncia, cuja distribuio desigual, posiciona os agentes no campo de poder, sendo seu instrumento de batalha ou moeda de jogo: [...] o campo do poder tambm um campo de lutas, e talvez, a esse titulo, comparado a um jogo: as disposies, ou seja, o conjunto das propriedades incorporadas, inclusive a elegncia, a naturalidade ou mesmo a beleza, e o capital sob suas diversas formas, econmica, cultural, social, constituem trunfos que vo comandar a maneira de jogar e o sucesso no jogo (BOURDIEU, 1996, p.24). 143. 142 O trecho acima menciona os capitais cultural, social e econmico. O capital cultural relaciona-se educao, ao investimento educativo e possui trs estados: o incorporado, enquanto conjunto de percepes; o objetivado, materializado em bens culturais; e o institucionalizado, conferido atravs de certides de competncia cultural, como o diploma (BOURDIEU, 2007, p.74). O capital social ligado s redes de relacionamentos e filiaes. O capital econmico refere-se s riquezas materiais. Alm dos capitais citados, o capital simblico remete honra, ao prestigio e ao status (BOURDIEU, 2008, p.59); e tambm h capitais especficos de acordo com campos particulares: Falar de capital especfico dizer que o capital vale em relao a um certo campo, portanto dentro dos limites deste campo, e que ele s convertvel em outra espcie de capital sob certas condies. (BOURDIEU, 2003, p.121). Conforme explicitado acima, os capitais valem de acordo com os campos onde circulam. O trecho ainda aborda a converso, que a principal propriedade dos capitais: estes podem ser reconvertidos uns nos outros. Apesar de Bourdieu no abordar a interao face a face propriamente, possvel sugerir que as lutas simblicas tambm se travam nesta e que os capitais podem ser institudos a partir de imputaes e reconhecimentos dados interativamente. Deste modo, pretendo apontar interaes com acionamento de representaes, que tambm sugerem 144. 143 rendimentos simblicos especficos. Contudo, tal anlise faz apenas de uma aproximao pontual entre capital e interao, no pretende constituir um campo de poder e posicionar os agentes no mesmo. Na interao, os rendimentos simblicos podem ser obtidos de modo implcito ou explcito, sendo reconhecidos e imputados pelo ator contracenante e/ou pela plateia. As mesmas representaes podem ser acionadas em diversas interaes para alar diferentes rendimentos. Neste captulo evidencio tais possibilidades. A seguir procuro fornecer exemplos de interaes onde a presena ou ausncia de rendimentos simblicos sejam bem evidentes. Inicialmente trato daquelas com desfechos satisfatrios, onde as expectativas devem ter sido atendidas. Na sequncia, exponho um exemplo relativo a uma interao mal sucedida, onde provavelmente as expectativas no se cumpriram. Quanto aos exemplos com desfechos satisfatrios, estes foram divididos em trs partes, conforme os rendimentos mais evidentes, sendo eles: prestgio, riqueza e comodidade, que correspondem aos principais identificados em campo. Abaixo aponto dois exemplos onde se acionam algumas representaes analisadas envolvendo rendimentos em termos de prestgio: [Caminho para o metr] Estvamos voltando [de um instituto], eu guiava o Pedro e o Carlos, um em cada brao. Uma hora, um senhor, parado em frente a uma casa, falou 145. 144 parabns, menina. Eu sorri para ele meio sem graa e continuei andando. Tambm notei que algumas pessoas olhavam e sorriam para mim. [Instituto especializado, Festa Junina] Na hora dos discursos, a me do Marcos falou no microfone que tinham que aproveitar essas instituies [especializadas que acabaram de apresentar seus trabalhos], porque infelizmente as pessoas acham que nossos filhos no podem fazer de tudo. Foi aplaudida. No primeiro exemplo, num contexto de deslocamento, um senhor provavelmente reconheceu sinais da cegueira dos atores guiados e conferiu uma gratificao verbal atriz condutora por guiar dois cegos, investindo-a de prestgio. Os outros sorrisos da plateia tambm podem conferir reconhecimentos semelhantes, de modo no verbal. O segundo exemplo, num contexto festivo, a afirmao infelizmente as pessoas acham que nossos filhos no podem fazer de tudo nega o atributo de incapacidade, sugerindo seu oposto, que os filhos so capazes. Nessa situao, o aplauso confere um reconhecimento coletivo da plateia, proporcionando rendimentos em termos de prestgio, que pode ser vinculado s representaes de uma me consciente e batalhadora. Os prximos dois exemplos apontam os rendimentos econmicos e simblicos como os mais evidentes: 146. 145 [Apresentao de alunos de um instituto especializado num evento corporativo] O lugar era bacana, auditrio grande e chique, ns estvamos passando o som no palco. Enquanto arrumvamos as coisas, a coordenadora do evento falou meio rindo para mim e para uma responsvel do instituto: tem que parecer que eles so bem coitadinhos para [as empresas associadas] darem dinheiro para a gente. [Avenida Paulista] Vi um homem cego pedindo esmola. Passei por ele e decidi voltar, falei que fazia pesquisa sobre deficincia visual e era voluntria em dois institutos, perguntei se ele os conhecia. Disse que sim. Eu tentei puxar um papo, apesar da situao no ser muito propcia, pois podia estar afastando as pessoas que lhe dariam esmola. Perguntei se ele sempre ficava por aqui. Disse que no, que mais agora perto do Natal e quando quer complementar sua renda. Perguntei se ganhava o benefcio, disse que sim. Perguntei se poderia tirar uma foto para minha pesquisa, ele esboou um sorriso e fez pose. 147. 146 Figura 11 Pedinte cego O primeiro exemplo, num contexto de prestao de servio, no caso, a contratao de uma apresentao musical, a coordenadora do evento acionou o atributo da desgraa, tem que parecer que eles so bem coitadinhos, visando 148. 147 rendimento econmico para [as empresas associadas] darem dinheiro para a gente. Em troca, tais empresas possivelmente recebem rendimento em termos de prestgio, relacionados solidariedade e responsabilidade social. Se assim for, ambas as partes tm suas expectativas alcanadas conferindo um desfecho satisfatrio interao. O segundo exemplo, num contexto de mendicncia, corresponde ao ltimo trecho escrito e imagem. O trecho agrega alguns dados contextuais imagem, tais como: detalhes sobre a sua produo tirada aps breve conversa e com o consentimento do retratado, que fez uma pose ou gestos para a cmera. Alm disso, o texto indica a periodicidade e a motivao da mendicncia: complementao de renda, em situaes especficas, como o Natal. A imagem possibilita apreender sinais do cenrio e do corpo dos atores. Quanto ao cenrio, a quantidade considervel de transeuntes e de equipamentos urbanos (metr, orelhes, piso ttil, calada larga), bem como a fachada das construes com letreiros, podem caracterizar o local como movimentado e comercial. Quanto ao corpo, o homem do primeiro plano est apoiando uma bengala aberta e usando culos escuros, sinais detalhados no segundo captulo; a sua postura de joelhos, com as mos postas e o prprio contexto de mendicncia remetem a representaes religiosas, um suplcio, e acionam implicitamente o atributo da desgraa, onde o ator qualificado como coitado ou digno de pena, que, conforme explicitamos anteriormente, tambm se vincula caridade. A frase do cartaz d uma ajuda para quem no 149. 148 pode trabalhar pode remeter ao atributo de incapacidade, no caso, de trabalhar. Com relao negociao simblica do exemplo, provavelmente o pedinte espera que as representaes da cegueira sejam reconhecidas pelos transeuntes para gerar rendimentos econmicos. J um suposto doador, estabelecido como aquele que agraciado e capaz de trabalhar, pode obter rendimentos em termos de prestgio ao ser considerado caridoso, bondoso ou piedoso, pelos que passam e sorriem, pelo prprio pedinte ou at por ele mesmo. Se assim se suceder, ambas as partes com suas representaes reconhecidas e suas expectativas atendidas, conforma-se uma interao com desfecho satisfatrio para os atores, com seus rendimentos distintos. O ltimo grupo de exemplos refere-se, principalmente, a rendimentos em termos de comodidade: [Churrasco com amigos] Joyce virou para mim e disse: voc sabe, em terra de cego, quem tem um olho escravo, busca uma gua pra mim?. Busquei, bvio. [Churrasco com amigos] Rita pediu para Joyce: vai l no mercadinho; Joyce: eu no, sou cega; Rita retrucou melhor, vo te dar tudo de graa, Joyce debochando aaaaah t. Ningum acabou indo. No primeiro exemplo, num contexto de coleguismo, a atriz acionou a categoria cego para alcanar uma comodidade obter um copo de gua. A representao foi reconhecida pelo 150. 149 outro ator ao executar a tarefa. A stira do ditado em terra de cego quem tem um olho rei denota que a cegueira, tida, muitas vezes, por subordinao, pode ser revertida para dominncia, em situaes como esta. No segundo exemplo, num contexto de coleguismo, as atrizes negociam sobre a realizao de uma tarefa indesejvel, ir ao mercadinho, ambas tentam convencer a outra a faz-lo em seu lugar. A autoimputao da categoria cega acionada como uma desculpa para no realizar a tarefa eu no, sou cega. A atriz contracenante implicitamente reconhece a imputao anterior ao acionar o atributo da desgraa: melhor, vo te dar tudo de graa. Com isto, ela procura convencer a outra de que ser cega uma vantagem, pois pode gerar rendimentos econmicos. Contudo, a primeira atriz nega a atribuio com deboche aaaaah t. Deste modo, as representaes acionadas envolvem possveis rendimentos econmicos e de comodidade. Acima indiquei interaes com desfechos aparentemente satisfatrios, onde as representaes acionadas foram reconhecidas. Abaixo aponto um exemplo de interao mal sucedida, onde as representaes no foram reconhecidas, causando tenses na interao. Neste caso, os possveis rendimentos tambm no foram efetivados. [Reunio com os pais num instituto especializado] Me do Vitor: ele acha que vai escola para fofocar e ver as meninas. Ele diz no sei fazer, porque eu no enxergo, demoro para copiar a lousa e a professora j 151. 150 apagou. Ele tem preguia de estudar, de ler, mas Playstation aprende... Me irrito, muito frustrante. A desculpa que usa que no tem telelupa, quando conseguir no sei qual vai ser a desculpa. O exemplo acima, relativo a um contexto familiar, refere-se a um filho que aciona a incapacidade de acompanhar aulas e a carncia de um equipamento para supostamente obter como rendimento comodidade e a complacncia da me. Contudo tais acionamentos no so reconhecidos por ela, que os considera como preguia e desculpa, j que o filho aprende videogame. Nesse caso, a interao no foi bem sucedida, o filho no obteve rendimentos e foi desmascarado pela me, que no reconheceu seus acionamentos e se sentiu irritada e frustrada. Alm das interaes com desfechos satisfatrios e insatisfatrios, que podem ou no envolver rendimentos simblicos. Tambm h interaes com desfechos surpreendentes que superam as expectativas. Abaixo, segue um exemplo: [Visita de uma turma de alunos de um instituto especializado biblioteca braile de um centro cultural] O funcionrio que nos atendeu estava dando alguns conselhos para os alunos: na faculdade a aula expositiva, o professor vai cantando. As pessoas que enxergam perdem, so menos atentas. A vivncia dele [do professor] no se encontra em livro. No primeiro trabalho todo mundo 152. 151 foge da gente, [pensam] esse cego vai ser chupim, s que eu tenho tudo no meu caderno. Eles no tm ou se tm distorcido. Depois correm atrs de ns. No exemplo acima, referente a um contexto de coleguismo, no cenrio de uma faculdade, o ator indica a expectativa dos seus colegas de que ele fosse chupim, ou seja, desfrutasse rendimento em comodidade ao obter nota conjunta sem trabalhar como os demais. Tal situao poderia gerar insatisfao para uma das partes, caso no reconheam, por exemplo, uma incapacidade ao ator. Contudo, a expectativa foi surpreendida, pois o ator possua informaes que os demais no possuam, colaborando para o trabalho. Nesta situao, o rendimento se deu em termos de prestgio por alcanarem uma nota melhor. Acima abordei os desfechos da interao e os possveis rendimentos, estimados ou no. A seguir aponto situaes especficas onde o acionamento das representaes parece variar em virtude do clculo, mais ou menos consciente, de rendimentos diretos. Tais acionamentos determinam a performance dos atores e podem inclusive abarcar contradies: [Feira Cultural Inclusiva, organizada pela prefeitura] A Lia veio contar que foram no estande de equoterapia, mas s os deficientes podiam andar a cavalo. A a Jlia [neta vidente de uma colega deficiente visual] falou 153. 152 assim para a atendente eu sou celga e conseguiu andar de cavalo, hehehe. [Instituto especializado] Estava conversando com a Michele: incluso nossa do dia a dia comea em casa, ensinar voc a ter autonomia de pegar seu copo e tomar, fazer uma comida. S que h dez minutos ela pediu para eu pegar o caf para ela, que estava ali do seu lado! No primeiro exemplo, dado num contexto de prestao de servio, um dos atores alterou momentaneamente a sua performance diante de uma atendente na expectativa de obter um servio que era proibido performance anterior. O ator que performava a vidncia acionou a cegueira atravs de uma autoimputao da categoria celga. Alm da categoria, o cenrio de uma feira relativa s deficincias pode ter colaborado no reconhecimento da atuao, j que o ator no apresentava sinais corporais da cegueira. possvel considerar que a atuao da cegueira foi reconhecida e gerou o rendimento esperado, pois a menina conseguiu andar a cavalo. No segundo exemplo, num contexto de coleguismo, o ator implicitamente acionou a dependncia, para obter um rendimento em termos de comodidade receber um caf. Contudo, algum tempo depois o ator nega a dependncia em sua fala, com relao a uma tarefa semelhante mencionada anteriormente: ter autonomia de pegar seu copo e tomar. Neste caso, o ator possivelmente procurava obter rendimentos 154. 153 em termos de prestgio, ao negar atributos tidos por desqualificativos. Este exemplo evidencia como o mesmo atributo pode ser afirmado e negado pelo mesmo ator em diferentes contextos interativos, a depender dos rendimentos envolvidos. De modo geral, os atores acionam as representaes de modo varivel, a partir das expetativas e, em certos casos, dos rendimentos. Se as expectativas forem alcanadas ou surpreendidas, as interaes tm desfechos satisfatrios; se as expectativas forem quebradas, o desfecho da interao insatisfatrio. Ambas as situaes podem ou no envolver rendimentos, calculados ou no. Contudo, no considero o rendimento como o nico determinante dos acionamentos das representaes h diversos outros fatores como, por exemplo, os valores morais. Entretanto, os rendimentos podem ajudar a explicar acionamentos aparentemente contraditrios, como o do ltimo exemplo. Alm desses fatores, acionam-se apenas as representaes que esto disposio, sendo que quanto mais incorporadas, repetidas e automatizadas, provavelmente mais acionadas. Em hiptese, razovel supor que a possibilidade de gerar rendimentos tambm pode colaborar na reproduo das representaes. No mbito da interao, a reproduo pode ser encarada enquanto um reacionamento das representaes, mesmo que com certas alteraes exigidas pelo confronto com um contexto especfico. Assim, cada vez que uma representao imputada reconhecida e proporciona 155. 154 rendimento, os vrios atores envolvidos podem apreender sua potencialidade. Uma representao rentvel provavelmente continuar a ser acionada. Contudo, cada vez que uma representao acionada necessrio que seja adaptada aos contextos, gerando a possibilidade de ser alterada e refeita na interao. J as imputaes contrrias, as negaes ou no reconhecimentos das representaes, ainda mais com a ausncia de rendimentos, podem alterar e frear a reproduo das mesmas. Para alm do mbito da interao, evidente que a reproduo das representaes est ligada a saberes e a instncias institucionalizadas. Nos captulos precedentes forneo alguns indcios desta configurao, por exemplo: o atributo da enfermidade est vinculado ao saber e ao campo da medicina e da psicologia; a desgraa est vinculada ao saber e ao campo religioso; o sinal do braile est vinculado ao saber e ao campo da pedagogia; a categoria deficiente visual est vinculada ao campo poltico; etc. Contudo, o investimento desta pesquisa deu-se no mbito interativo e tais proposies so apenas possveis conexes com outras dimenses a serem exploradas. Esse captulo procurou abordar a negociao interativa enquanto acionamentos de representaes e seus desfechos satisfatrio, insatisfatrio ou surpreendente. O mesmo ainda mostrou como as negociaes tambm podem envolver rendimentos, calculados ou no, que ajudam a determinar o que ser acionado. Tais rendimentos inclusive geram 156. 155 performances dispares ou contraditrias pelos atores. Por fim, explicitou-se como os mesmos rendimentos tambm colaboram na reproduo das representaes em questo. 157. 156 5. Construo do eu: processos de incorporao Nos trs captulos iniciais da dissertao, analisei algumas categorias, sinais e atributos relativos s performances chamadas de cegueira, deficincia visual, baixa viso, vidncia, entre outros termos. No captulo anterior indiquei como os acionamentos destas representaes podem compreender rendimentos simblicos. No presente captulo pretendo refletir como tais acionamentos envolvem a incorporao das representaes constituindo facetas do eu. Neste estudo, a incorporao o reacionamento de categorias, atributos e sinais, a partir de acionamentos anteriores, que geraram um reconhecimento ntimo, atingindo as instncias do eu dos atores. Deste modo, incorporar as representaes reconhecer-se nelas e passar a atu-las como parte de si. Tal incorporao tambm instvel, efmera e refeita na interao. A repetio destes acionamentos colabora na solidificao momentnea das representaes entre os atores envolvidos e na sua reproduo. Segundo Goffman (2009, p.27) as representaes do eu, tal como mscaras, so as concepes formadas sobre si que se tornam uma segunda natureza, internalizada no ator. Esclareo que incorporar no pressupe um ponto de virada ou um tornar-se do no ser ao passar a ser, pois a incorporao inacabada, sem ponto final, passvel de 158. 157 reformulao a cada interao. A incorporao tambm no se refere a uma aquisio de representaes de fora para dentro, j que estas so jogadas e reconstrudas pelas partes no prprio ato da interao. Com relao ao aspecto temporal, considero a incorporao como um processo: as negociaes interativas seriam cotidianamente travadas em atos mnimos, que repetidamente, ao longo do tempo, tomados em conjunto, na prtica das atuaes, com seus desfechos satisfatrios ou no, os atores incorporariam as representaes, acionando-as em outros contextos conforme suas expectativas. Assim, a repetio e a sucesso destes acionamentos provocam cristalizaes momentneas, sustentadas pelos prprios reacionamentos. Empiricamente tenho acesso apenas a fragmentos deste processo interativo negociado pelos atores. No presente estudo possvel descrever interaes especficas, dimensionando que estas constituem pontos nesta conformao. A seguir exponho alguns exemplos de interaes com imputaes de representaes, que remetem especificamente ao eu dos atores e possibilitam a sua reproduo e solidificao ao longo do tempo. [Instituo especializado] Deu o horrio do intervalo, a professora pediu para que pegassem o lanche, quando o Diego falou em tom alegre hoje o meu suco de morango!, ento Vini que estava ao seu lado disse como voc sabe? Voc cego. Diego retrucou com ar de esperteza a minha me me falou. 159. 158 [Instituto especializado, sala de aula] Diego pediu para desenhar no meu caderno [de campo]. Deixei e fui ver o que o Ricardinho queria. Quando voltei, o Fernando estava com o Diego e disse: s rabisqueira... Eu j tentei ensinar ele a desenhar, mas ele no consegue. No primeiro exemplo, num contexto de coleguismo, um colega aciona a categoria de nomeao cego, imputando-a explicitamente ao outro: voc cego. Nesta negociao, o outro ator no nega a imputao, mas parece reconhec-la implicitamente. Tal imputao dirige-se ao eu do ator e contribui para que ambas as partes absorvam e solidifiquem tal possibilidade de acionamento. No segundo exemplo, num contexto de coleguismo, o colega aciona o atributo da incapacidade na frase ele no consegue. Tal imputao pode ser incorporada como parte de si e acionada posteriormente. Estes exemplos expem situaes banais e cotidianas, mas nelas, as imputaes proferidas, se encenadas repetidas vezes, em diferentes contextos e roupagens, podem ser incorporadas pelos atores, que passam a reacion-las em outras situaes e ainda reconhecem-se intimamente nas mesmas, abrangendo as instncias do eu. Quanto s representaes que envolvem tcnicas corporais, elas so incorporadas conjuntamente e concomitante aos treinamentos. A seguir um trecho explicitando tal congruncia: 160. 159 [Passeio Biblioteca Braille do Centro Cultural So Paulo] Estvamos saindo do instituto, a professora perguntou se Miguel queria a bengala, acho que ele ficou meio sem jeito e aceitou, nunca havia usado antes. Ela foi buscar e entregou para o aluno. Prosseguimos o percurso at o metr. Fui ouvindo a conversa dos professores com Miguel, o Mauro falou que no precisava ter vergonha da bengala e continuou brincando d mais vergonha usar camisa do Corinthians, alm disso, [sem ela] voc pode se machucar. Miguel foi indo, os professores acompanhavam e iam explicando como rastrear, sobre o posicionamento da bengala, etc. Por fim concluram: voc est andando bem mais rpido que antes. Entramos na estao do metr, Mauro mostrou o piso ttil. J no vago havia duas moas nos assentos azuis reservados s pessoas com deficincia, elas logo se levantaram para ele sentar. S fizeram isso com ele, para as outras alunas, nada, afinal no pareciam deficientes visuais, j que estavam com suas mes e sem bengala. Miguel no quis sentar, mas as moas saram do assento do mesmo jeito e disseram para ns, acompanhantes, sentarmos. No exemplo acima, dado num contexto pedaggico, o ator est treinando o manejo da bengala enquanto tcnica corporal, supervisionado por especialistas. Mas, ao mesmo tempo, a bengala parece um sinal essencial para que desconhecidos identificassem o ator como pessoa com 161. 160 deficincia e cedessem os bancos. No caso, as outras duas alunas presentes, provavelmente, no pareciam deficientes, em grande medida, por no manejarem este equipamento. Tais imputaes, apesar de implcitas, podem ser apreendidas pelos atores, que incorporam estas representaes. Alguns acionamentos podem servir como testes ao eu os atores testam suas atuaes perante outros, balizando se so reconhecidos. Deste modo possvel readequar suas autorrepresentaes e futuras atuaes. A seguir exponho algumas atuaes que no foram reconhecidas, provavelmente por serem consideradas pouco convincentes, contudo, os atores podem computar como no so considerados e refazer seu eu: [Instituto especializado, sala de aula, 1 ano] Lu tambm ganhou o livro em braile e em tinta com tipos ampliados, a ela olhou para mim e disse em braile eu no consigo ler direito, ento respondi mas voc s l em vidente. Estava me testando. [Instituto especializado, sala de aula, 1 ano] Bia: sabia Andrea, que se voc me der um caderninho e um lpis igual ao seu eu fao minha lio nele? Que saia justa! Eu no sabia o que dizer, no queria afirmar que no escreveria em vidente e nem que o faria. Nem me lembro bem o que disse, acho que mudei de assunto, algo como vamos continuar a lio Biazinha. 162. 161 No primeiro exemplo, num contexto pedaggico, a aluna imputou a si o uso do braile, mas tal acionamento no foi reconhecido pelo outro ator. Este atribuiu quele a escrita em vidente. As imputaes e reconhecimentos citados podem balizar a incorporao de representaes pelo ator. No segundo exemplo, num contexto de coleguismo, o questionamento quanto possibilidade de fazer lio em vidente foi ignorado pelo outro ator. Contudo, tal situao tambm significativa, pois pode ser computada pelos atores presentes e considerada em acionamentos futuros. Tambm h interaes onde as representaes imputadas so rechaadas. Apesar disso, estas foram proferidas e podem ser internalizadas enquanto uma viso do outro sobre si. Negando ou reconhecendo as imputaes, o eu est permanentemente em risco nas interaes. [Instituto especializado] Na entrada, subindo a galeria, vi a Luciana irritada gritando que no era cega para o Nelson e o Caio que riam. [Instituto especializado] O professor contou que estava dando aula de Orientao e Mobilidade para o Thiago e quando iam sair do instituto, ele tacou a bengala no cho e disse que no queria continuar. O primeiro exemplo, num contexto de coleguismo, a menina nega reconhecer-se enquanto cega perante imputaes de colegas. Esta situao tambm indica como a incorporao das representaes uma negociao, por mais 163. 162 que as partes no tenham chegado a um acordo, ambas assimilaram os acionamentos alheios. No segundo exemplo, num contexto pedaggico, o aluno desprezou a bengala, quando iam sair do instituto. Tal situao pode remeter a uma negao da cegueira ao evitar o reconhecimento que a bengala pode proporcionar. Nas interaes, os atores, alm de correrem o risco de receber imputaes alheias que podem ser incorporadas para conformar o seu eu, tambm esto sujeitos a situaes onde se solicita ou induz o autorreconhecimento de representaes, como no exemplo abaixo: [Instituto especializado, sala de aula, 1 ano] Eles estavam brincando com lego, juntos. Fernando, no sei bem porque, falou para Diego voc no enxerga. A Luciana retrucou Fernando fica debochando. Ento Diego disse eu sou cego mesmo. A professora ouviu e falou: isso mesmo, tem que aceitar. Neste exemplo, num contexto de coleguismo, perante o deboche alegado pela colega, o ator imputou-se a categoria cego, afirmando-a para os demais e para si. Deste modo, conseguiu a aprovao da professora, isso mesmo tem que aceitar. O termo aceitao bastante acionado pelos atores em campo. Na maioria dos casos, a aceitao relaciona-se autoafirmao e requalificao das representaes enquanto constituintes do eu do ator. A aceitao contraposta a 164. 163 situaes de rejeio, discordncia ou crise. A seguir alguns exemplos: [Biblioteca Braile do Centro Cultural So Paulo, visita de um grupo de alunos de um instituto especializado] O funcionrio disse: voc no deve ter vergonha de dizer que no enxerga. Para que isso? Todo mundo tem limitao, voc tem que aceitar seu problema. [Instituto especializado, antes da aula] Estava conversando com a Lola sobre faculdade, ela disse que queria saber sobre bolsas de estudo e completou senti que parei no tempo depois que tive esse problema. A um senhor que estava sentado numa cadeira ao lado entrou na conversa e disse tem que se aceitar. O primeiro exemplo, num contexto de prestao de servio, o funcionrio d conselhos aos visitantes e imputa a aceitao do problema relativo cegueira, negando a vergonha. No segundo exemplo, num contexto de coleguismo, a aceitao foi imputada por um ator que acompanhava a interao. Neste caso, seu acionamento sobrepe-se ao lamento da colega quanto a estar parada no tempo devido ao problema da cegueira. O acionamento da aceitao implicitamente nega ou no reconhece tal lamento. Alm disso, o ator utilizou a aceitao de modo reflexivo, se aceitar, aceitar a si mesmo, no caso, infletindo nas representaes do eu. 165. 164 A aceitao tambm identificada como um processo, que parte da rejeio das representaes e culmina numa requalificao das mesmas. A seguir um exemplo: [Casa de shows com amigos] Bruna contou que seu irmo teve depresso que no aceitou perder a viso que ele trabalhava, tinha a vida dele, disse que ela mesma demorou cinco anos para aceitar. Falou que enxergar uma beno, mas a vida vale muito mais e d pra ser feliz sem, s que para isso precisa de aceitao, a vida to boa, eu posso tudo estou aqui no show aproveitando. No exemplo acima, num contexto de coleguismo, a atriz aborda a rejeio do seu irmo, devido, por exemplo, impossibilidade de trabalhar; e a sua prpria aceitao, que demorou cinco anos. No perodo citado, a atriz teria recomposto seu eu, deixando de acionar representaes ligadas a rejeio, requalificando-as e positivando-as: a vida to boa, eu posso tudo estou aqui no show aproveitando. Outro mecanismo que matiza a solidificao do eu na interao refere-se articulao de narrativas de vida, que so solicitadas e oferecidas perante outros atores. Sua repetio, mesmo que transformada a cada contexto, consolida as afirmaes das representaes do eu entre os envolvidos. Geralmente tais narrativas contam a histria da descoberta ou obteno da cegueira, deficincia visual, baixa viso e correlativos. Seguem alguns exemplos: 166. 165 [Bar, perto do instituto especializado] Anselmo contou que estava trabalhando na oficina e disse que olhava para uma parede branca e ofuscava demais, vou ver, estava com tumor [no crebro]. Contou que foi para o hospital, cortaram o cabelo dele com gilete, disse que foi na poca daquela novela que a moa estava com cncer, ele chorou muito. Fez a cirurgia, apagou por dois ou trs dias e voltou gritando me!, porque no queria deix-la sozinha. Disse que o olho que enxergava melhor antes o que enxerga pior agora. Ele disse que acha que teve o tumor, porque bateu muito a cabea quando pequeno, batidas fortes de estourar, mas o principal fator so os espritos, contou que esprita e que na casa dele ele ia dormir e sentia afundar a cama como se algum sentasse e sentia a respirao deles. Disse que vai receber alta logo mais e com dinheiro da indenizao da oficina quer comprar casa na praia para aproveitar a vida. [Instituto especializado] Daniela [ex-aluna] falou eu no te contei minha histria?. Ento disse que nasceu de seis meses e meio, porque seu irmo colocou um besouro na barriga de sua me, ela tomou um susto e eu nasci. Perguntei se foi por conta disso que ficou cega, ela disse que no se sabe ao certo, pode ter sido na incubadora. Concluiu dizendo: gosto de mim assim, no me imagino de outro jeito. 167. 166 No primeiro exemplo, num contexto de coleguismo, o ator contou uma narrativa sobre a instituio da cegueira em si. A narrativa comea no momento da percepo de uma anomalia no corpo, o ofuscamento; passa para a situao do hospital e da cirurgia; depois aborda as razes para tal ocorrncia; e termina no futuro, no plano de comprar uma casa na praia para aproveitar a vida. A construo e a encenao da narrativa exigem a reelaborao de suas representaes e reafirmam facetas do eu, para si e para os outros. No segundo exemplo, dado num contexto de coleguismo, apesar de no solicitado, a colega ofereceu contar sua histria, uma narrativa sobre seu nascimento, que se relaciona a obteno da cegueira. Contar a prpria histria culmina numa resolidificao sobre si, no caso positivado gosto de mim assim, no me imagino de outro jeito. De modo semelhante aos dilogos acima, as narrativas proferidas perante plateias, tambm podem configurar-se como interaes onde se solicita e se oferece representaes, que consolidam a imagem do eu. A seguir, um exemplo: [Sarau num centro cultural] Cleide foi recitar uma poesia de sua composio: Deus, estou perdendo a minha viso, perdi o emprego, a autonomia, estou perdendo a minha vida, o amor prprio. Minha viso, est tudo escuro, escuro... Escuro nada! Est claro e lmpido como a gua. Joyce, Joana, o fofo do Pedrinho, todos amigos, todos tem autonomia, dignidade. Voc no perdeu a vida 168. 167 no, voc ganhou amor no corao. Aplausos. No exemplo acima, no contexto de uma apresentao, a atriz recita uma poesia que aborda a instituio da cegueira enquanto uma perda sucessiva: da viso, do emprego, da autonomia, da vida e do amor prprio. Ento, a poesia apresenta uma guinada e nega as atribuies anteriores, imputando a autonomia, a dignidade e o amor no corao. Pelo contexto e por citar amigos presentes no local, a poesia possua a conotao de experincia pessoal, que aciona entendimentos subjetivos do ator. Tal exemplo guarda, de certo modo, semelhana com a questo da aceitao, onde h uma rejeio inicial e uma requalificao com a consolidao de um novo eu positivado. Neste caso, acionar tais representaes solidifica, para si e para a plateia, representaes do prprio ator. Para alm da ordem da interao, aponto, a seguir, algumas instncias e saberes, que tambm so identificados como representativos na construo do eu. De modo geral, os institutos especializados so tidos como os locais onde h a possibilidade de reconstruir o eu: [Esperando o show comear] Bruna tambm disse que perdeu a viso antes do seu irmo e que logo foi procurar o instituto e depois, tambm para ajudar o irmo a se aceitar, mas ele no quis ir. 169. 168 [Instituto especializado, na entrada] Lena disse que muito bom aqui, porque fala de coisas que no pode falar em casa, que seu marido no aceita [a cegueira de sua filha]. No primeiro exemplo, num contexto de coleguismo, o ator situa o instituto como a instncia que o ajuda a se aceitar. O segundo exemplo, num contexto de coleguismo, o ator indica o instituto especializado como o local onde possvel falar, no caso, sobre a cegueira, que proibido em casa. A psicologia e seus especialistas, os psiclogos, tambm so identificados como responsveis por resolver e resguardar as questes do eu, atravs da terapia. Conforme o exemplo abaixo: [Instituto especializado, reunio de fechamento de semestre com os pais] A professora falando para a me do Joo o Vitor [outro aluno] tambm no se aceitava, indiquei terapia e ele melhorou. Por fim, friso que a maioria das interaes abordadas nos exemplos deste captulo se passa em institutos especializados, porm as situaes relativas incorporao de representaes e a construo do eu podem ocorrer em cenrios e contextos variados, perante familiares, desconhecidos, etc. De modo geral, este captulo procurou apontar que a incorporao das representaes da cegueira, deficincia visual, baixa viso, vidncia, entre outras denominaes, e 170. 169 sua solidificao no eu, ocorre em situaes cotidianas, em pequenos testes, comparaes, aprovaes e reprovaes que implicitamente geram reconhecimento das mesmas pelos atores, que podem acion-las em outras interaes, consolidando uma mscara. 171. 170 Consideraes finais Este captulo procura alinhavar alguns argumentos apontados ao longo da dissertao, estabelecendo uma reflexo mais geral sobre a instituio e a cristalizao das performances chamadas de cegueira, deficincia visual, baixa viso, vidncia e correlativas. Por fim, permito-me um comentrio pessoal a respeito da experincia desta pesquisa e abordo algumas indicaes em termos polticos. No captulo anterior descrevi como os atores incorporam as representaes analisadas nos trs primeiros captulos. A incorporao refere-se instituio das representaes performadas como parte do eu. Tal incorporao se d de modo prtico, nas atuaes dos atores, manejando as categorias, expondo e reconhecendo os sinais e encenando os atributos. Partindo de Bourdieu (2004), possvel afirmar que o acionamento das representaes nas atuaes institui a existncia das representaes acionadas: Todas as vezes em que afirmaes existenciais (a Frana existe) so mascaradas sob enunciados predicativos (a Frana grande), somos expostos ao deslizamento ontolgico que faz com que se passe da existncia do nome existncia da coisa nomeada, deslizamento tanto mais provvel, e 172. 171 perigoso, na medida em que na prpria realidade os agentes sociais estejam lutando por aquilo que chamo de poder simblico do qual uma das manifestaes mais tpicas esse poder de nominao constituinte, que ao nomear faz existir. Eu atesto que voc professor ( o certificado de aptido), ou doente ( o atestado de doena). Ou, pior ainda, eu atesto que o proletrio existe, ou a nao occitnica. O socilogo pode ser tentado a entrar nesse jogo, a dar a ltima palavra na querela das palavras, dizendo o estado real das coisas. Se, como penso, o que lhe compete descrever a lgica das lutas a respeito das palavras, compreensvel que ele tenha problemas com as palavras que precisa empregar para falar dessas lutas (BOURDIEU, 2004, p.72-73). No trecho acima, Bourdieu expe que afirmaes existenciais so mascaradas por predicativos. Os atributos desenvolvidos no terceiro captulo, tais como: enfermidade, incapacidade, dependncia, etc., podem ser considerados como os predicativos citados pelo autor, assim ao falar-se coitadinho, cego, reafirma-se a existncia cegueira atravs de um enunciado predicativo, que aciona seu personagem e o atributo da desgraa. De modo geral, possvel considerar que os acionamentos das representaes da cegueira nas atuaes as fazem existir. No quarto captulo apresento um dos fatores que pode explicar tal acionamento: os rendimentos. Estes so bens simblicos, valorizados por conferir principalmente prestgio, 173. 172 comodidade e riqueza. Cada vez que uma representao imputada reconhecida e proporciona rendimento, os vrios atores envolvidos podem apreender sua potencialidade. Uma representao rentvel provavelmente continuar a ser acionada, reproduzindo-se. Em termos interativos, a reproduo justamente o reacionamento das representaes em outras negociaes. Contudo, quando uma representao acionada, necessrio que seja adaptada ao contexto, gerando a possibilidade de ser alterada na interao. Tal reproduo interativa colabora na solidificao das representaes: quanto mais acionadas, reiteradas em diferentes contextos, ao longo do tempo, mais cristalizadas elas se tornam e, assim, mais naturalizadas. Conforme indica Butler (2008), a respeito da questo do gnero, a cristalizao dada pela repetio sucessiva, que produz a aparncia de uma classe natural do ser: O gnero a estilizao repetida do corpo, um conjunto de atos repetidos no interior de uma estrutura reguladora altamente rgida, a qual se cristaliza no tempo para produzir a aparncia de uma substncia, de uma classe natural do ser (BUTLER, 2008, p.59). No senso comum ser cego, baixa viso, vidente ou correlato meramente uma contingncia de cunho biolgico- natural. Este tipo de argumento, que naturaliza a cegueira, a baixa viso e a vidncia, implica em consider-las como 174. 173 rgidas, imutveis e atemporais, pois a natureza no possui histria e nem agncia humana. Em resumo, esta reflexo pretende assinalar como o acionamento das representaes materializa e institui sua prpria existncia como real; e a reproduo destes acionamentos, em sucessivas camadas de interaes, cristaliza tal existncia como natural. Com isto, a presente dissertao procura justamente descontruir e desnaturalizar a cegueira, a baixa viso, a vidncia e correlatos apresentando-as como performances, ou seja, acionamentos de representaes forjadas em contextos especficos; e abordando os mecanismos que as instituem como naturezas autoevidentes. Por hora, gostaria de arriscar alguns comentrios pessoais um pequeno esboo de autoanlise ou um balano acerca da experincia desta pesquisa e do que incorporei em minhas interaes. Tambm me permito algumas proposies em termos polticos. Relendo meu dirio de campo, noto que levei mais de um ano para comear a perceber e relativizar as representaes analisadas nesta dissertao. A seguir um exemplo referente primeira visita que fiz em um dos institutos: [Instituto especializado, visita de apresentao do instituto para pblico externo] A recepcionista falou para eu aguardar l no outro prdio que o Caio, com quem marquei por e-mail, j descia. Fiquei olhando a loja de 175. 174 brinquedos adaptados e outras pessoas foram aparecendo no saguo. O Caio chegou [de bengala], ele cego! Nunca imaginei! Ele escreveu o e-mail direitinho, domina os cdigos visuais do computador e parece bem independente, afinal vai conduzir esse grupo de mais de dez pessoas! No exemplo acima, o espanto denota a expectativa de que o ator considerado cego fosse incapaz e dependente para lidar com recursos digitais e conduzir grupos. Conforme analisado no terceiro captulo a incapacidade e a dependncia so atributos forjados socialmente e no uma natureza intrnseca ao ser cego. Considero tais representaes como preconceituosas na medida em que so estereotipadas e desqualificativas. Esta dissertao espera possibilitar a identificao destes preconceitos para coloc-los em suspenso: deixando-se de acion-los, negando-os e descreditando rendimentos presumveis. Contudo, evidente que a margem de escolha das representaes pelos atores limitada e que h negociaes onde so impingidos a acionar algumas delas. Alm disso, tambm pode ser penoso no acionar representaes muito incorporadas e automatizadas. Outro comentrio pessoal refere-se questo do padro normal de corpo. Quando iniciei meu trabalho de campo, o que mais me chocou foi o contato com corpos anormais: olhos saltados ou esbranquiados, crnios deformados; alm das 176. 175 ms posturas, como andar duro, balanar o corpo para frente e para trs, etc. De modo geral, possvel afirmar que h representaes sobre o corpo reiteradas desde a Antiguidade e tidas como absolutamente naturais. Contudo, o corpo considerado normal, conforme explicitado no primeiro captulo, solidificou-se no sculo XIX, atravs dos discursos mdicos e estatsticos, principalmente, que elegeram critrios de medio e determinao do normal pela maioria. Tal esteretipo de corpo envolve, entre outros aspectos, a apreenso de uma totalidade em correto funcionamento, com posturas e movimentos especficos. As anomalias tambm podem operar como preconceitos desqualificando os atores. Em campo, aps a convivncia e a desnaturalizao das representaes do corpo normal, consegui relativizar meus esteretipos e, em muitos casos, nem noto mais tais anomalias. Incorporei outras possibilidades corporais e considero que normatividades mais plurais so desejveis para destituir preconceitos. Inicio o prximo comentrio com um trecho do livro Examined life: excursions with contemporary thinkers (TAYLOR, 2009). Trata-se de um dilogo entre a filsofa Judith Butler e a artista com deficincia fsica Sunaura Taylor: S. TAYLOR: I am just remembering, when I was little and I did walk, when I would walk places, I would be told that I walked like a monkey. And I think that for a lot disabled people, the violence and the sort of hatred 177. 176 exists a lot in this reminding of people that our bodies are going to age and are going to die (TAYLOR, 2009, p.205) Este comentrio refere-se ao meu baque perante o definhamento do corpo e a morte, que gerou a recomposio das minhas representaes a este respeito. Antes do trabalho de campo, tais acionamentos eram escassos em meu cotidiano. De modo geral, meus vinte e poucos anos pareciam garantir certa indestrutibilidade e uma longa distncia da morte. Contudo, durante a pesquisa me deparei, frequentemente, em interaes como: Ricardinho [8 anos] tem tumor estacionado no crebro, David [14 anos] ficou assim depois que caiu do telhado e estourou a cabea, fui dormir enxergando, acordei no vendo mais nada, era uma cirurgia simples, mas deu errado, etc. Ao longo do tempo incorporei estas situaes, inconscientemente, e ento tive alguns surtos de hipocondria, comecei a achar que iria morrer a qualquer segundo. Demorei meses para entender o que se passava. O contato tais acionamentos recomps minhas representaes sobre a questo: passei a encarar que estou morrendo, que meu corpo est perecendo, que sou completamente suscetvel a contingncias fatais, etc. Alm disso, tambm requalifiquei a morte, comecei a positiv-la: a nica coisa que acontece para todos, ainda bem que as pessoas morrem, j pensou certas figuras aqui eternamente?, etc. Em termos mais assertivos, considero que essa pesquisa pode contribuir para: quebrar preconceitos, avaliar implicaes 178. 177 dos pequenos acionamentos e flexibilizar o padro de corpo. A seguir explano minha frustrao acerca de algumas questes que essa pesquisa no colabora. Para tanto exponho um trecho do meu caderno de campo: [Jantar na casa de uma grande amiga de infncia, sua me teve um AVC Acidente Vascular Cerebral, recentemente e passou a utilizar uma cadeira de rodas para se locomover] Muito fcil estudar ou falar de deficincia quando se tem distanciamento, uma coisa estudar pessoas que ficaram cegas e eu nunca vi antes e outra ali com a me da Tati. Hoje doeu em mim, mesmo que eu relativize o drama da deficincia, isto no serve de nada. Relativizar uma compensao simblica muito pequena. Hoje no tive resposta, no tive palavras, queria falar algo que fizesse sentido para eles, mas o que eu falo faz mais sentido para a academia. Foi assim: na mesa, num clima amigvel, me perguntaram como estava indo a minha pesquisa e depois pediram para explic-la em detalhes. Assim que eu terminei a explicao a me da minha amiga disse meio cabisbaixa que se sentia um estorvo. Putz, aquilo foi direto no meu mago, porque sei tudo o que significa, tenho acompanhado as angstias da minha amiga, sei que choram todas as noites, que a Tati quem escova seus dentes, que gastou absolutamente todo o seu dinheiro com o tratamento e com a reforma da casa, etc., etc. A minha pesquisa no conseguiu dizer nada que rebatesse essa simples frase: eu me sinto um estorvo. 179. 178 A me da minha amiga encontra-se numa situao liminar, o seu eu est em suspenso, pois ainda tem a expectativa de voltar a andar e no precisar construir-se definitivamente enquanto deficiente fsica ou termos correlativos. A presente dissertao no acompanhou os primeiros momentos da constatao da deficincia, seu tratamento hospitalar, etc. Enfoquei situaes posteriores referida situao liminar, tendo em vista o trabalho e campo em institutos. O que esta pesquisa pode afirmar quele respeito que se trata de um processo: devagar as representaes do eu so reconstrudas, renegociadas e as angstias vo passando. Em suma, essa pesquisa props apresentar a cegueira, a baixa viso, a vidncia e correlatos como representaes institudas como reais e consolidadas como naturezas. Procurei demonstrar suas negociaes interativas e os processos de incorporao das mesmas na constituio do eu dos atores. Por fim, explicitei alguns comentrios pessoais sobre a experincia desta pesquisa, que me fez ver com outros olhos. 180. 179 Referncias AMARAL, Rita; COELHO, Antonio Carlos V. Nem Santos nem demnios: imagem social e auto-imagem dos deficientes fsicos em So Paulo. Urbanitas Revista Digital de Antropologia Urbana, ano I, vol. 1, 2003. Disponvel em: http://www.aguaforte.com/antropologia/deficientes.html. Acessado em: jul.2009. ASSENSIO, C.; ASSIS SILVA, C.; CAVALHEIRO, A. M.; MENDONCA, T.; ZAVARIZE, L. Etnografia coletiva da X Reatech: Feira Internacional de Tecnologias em Reabilitao, Incluso e Acessibilidade. Ponto.Urbe (USP), v. 8, p. 6, 2011. 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