Relatorio sobre Encontro Nuestra amrica em Fortaleza Ceara 2007

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    14-Jul-2015

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Saludos libertrios desde Fortaleza.Por Carlo Romani,J era quinta-feira 24 de outubro e eu ainda no havia me decidido a visitar o palco do que eu julgava seriam os monlogos da I Conferncia Internacional Vozes de Nuestra Amrica iniciada na segunda anterior. Tinha motivos para estar com um p, ou o corpo inteiro, atrs desse encontro da Amrica Latina e do Caribe. Organizado pela Escola Nacional Florestan Fernandes, o brao educativo universitrio do MST, justamente sua ala marxista mais bolchevista aquela que, como fazem todos os leninistas, quando o Partido a que esto vinculados assume o poder poltico e controla o Estado, abandonam a luta revolucionria e caminham para se estabelecerem como burocracia governativa.

Mas, a mim, no restava alternativa como compromisso profissional, afinal agora sou professor visitante da UFC, a Universidade que deu o apoio local para a realizao do evento, em ir ao encontro para mostrar a cara: Oi gente, que bonito est o Congresso. Nos centros menores, torna-se ainda mais explcita essa necessidade das pessoas lotadas nos equipamentos pblicos de fazerem esse jogo cnico do convvio, da saudao e do consenso forado: a deturpao cotidiana da poltica no local de trabalho. Muito bem, vamos a uma breve amostra dos convidados e seus temas revolucionrios.Deixei passar em branco o velho nhenhenhm antiimperialista de Ana Cecea da ala mexicana da CLACSO; tambm declinei do convite do embaixador da Venezuela para visitar o que chamam de neo-bolivarismo chavista; tambm me recusei a enfrentar o bronco Stdile agora governista; infelizmente, perdi a exposio matutina dos piqueteros, do argentino Solana e do uruguaio Zibechi (afinal, o primeiro compromisso do professor com seus alunos); tampouco considerei a Atualidade do pensamento de Guevara um tema to atual; assim como a atualidade da teoria da dependncia formulada nos anos sessenta por Rui Marini; menosprezei os sandinistas h vinte anos no governo da Nicargua; Gilmar Mauro querendo falar pela Via Campesina no d; Ops, Resistncia dos Movimentos Populares e Urbanos, parece interessante, quem fala: Camile Chalmers do Haiti (no sei nada sobre o Haiti) e Ruben Valencia, APPO/Oaxaca/Mxico. Demorou, essa!Quinta-feira, 24 de outubro de 2007 quatro e meia da tarde me dirijo ao velho e majestoso Cine So Luiz que escapou de virar templo pentecostal para narcotizar a angstia da massa inerte e desesperada e foi transformado em Centro Cultural do SESC (o complexo de culpa do capitalismo s vezes d suas contrapartidas em troca de menos impostos). Confesso que tinha os dois ps atrs, quem sero esses convidados das redes populares marxistas latino-americanas? O haitiano no apareceu, no sei os motivos, falta de dinheiro, fala francs, ningum entende, mas, mesmo o portugus, quem que entende? Restava ouvir a apresentao do mexicano.O cinema enorme, com galeria, tapete vermelho e tudo mais. O palco alto distancia a platia dos oradores. Feita a apresentao, Rben convidado por uma moa, a hostess do MST, a vir mesa. Aplausos. A mesma moa, animadora de auditrio, convida os companheiros do Piau a se manifestarem com seu grito de guerra e saudao, t muito fraco, no t ouvindo, ahaahaahaahauuuuuuuuuhuuuuu, onde esto os companheiros da Amaznia, aqui hehehehehehe, um casal evolui no carimb, abaixo o imperialismo na Amaznia, a Amaznia nossa, do Lula, minha, tua e eu que no sabia. Punhos cerrados, brao estendido, poder popular, Rben, do alto levanta seu punho direito a la black power e corresponde: delrio, s faltava o compaeros, venceremos!!!!!!No estou gostando, mas vamos ver o que ele tem a dizer. Antes da palestra, Rben prope exibir um documentrio sobre o movimento popular que ocorreu no ano passado em Oaxaca como desdobramento represso de um grupo de professores do ensino fundamental que estava em greve. Comea o filme, a cobertura independente da Rdio Plantn, as imagens do governador feitas pela Televisa dizendo que no haver aumento salarial. Fim de maio de 2006, os professores iniciam a paralisao, ocupam as escolas, formam o que eles chamam de planto. Em 14 de junho o movimento que estava sob controle das instncias mais centralizadoras do sindicato muda bruscamente de curso.O estopim da revolta popular generalizada subseqente foi uma m avaliao tida pelo governo de Ruiz sobre o movimento popular em Oaxaca. O governador ordenou a desocupao violenta das escolas e a represso causou uma reao inesperada na populao, pelo menos para o governo. No partiu dos organizadores da greve a reao, mas dos movimentos populares urbanos, dos grupos libertrios, das comunas, dos povos indgenas organizados nos povoados. Surge a APPO e o lema de ordem passa a ser Fuera Ulises Ruiz. Uma simples greve de professores na cidade de Oaxaca transforma-se num levante popular que toma conta de todo o estado para depor o governo e instalar uma Assemblia Popular Permanente em seu lugar. Logo ganha repercusso internacional. Jornalistas de todo o mundo vo cobrir as manifestaes da Assemblia que deliberam como um governo paralelo em Oaxaca. Os zapatistas, apesar de manterem a independncia das lutas dos povos do vizinho estado de Chiapas, ingressam na luta ampliando nacionalmente a articulao entre os povos indgenas. A APPO entra na Cidade do Mxico, cerca o Ministrio da Educao, o Palcio do Governo, enfrenta a Polcia Nacional motorizada nas ruas. O governo federal percebe que o movimento corre o risco de ultrapassar as fronteiras de Oaxaca. Os autonomistas da APPO tecem crticas aos zapatistas entendendo que o levante poderia ter se estendido a todo o sul do Mxico.O documentrio avana rapidamente, o original tem uma hora e meia de durao, o tempo para a palestra restrito, o vdeo condensado em meia hora. Estamos em outubro, no h sinal de refluxo do movimento em Oaxaca. O governo federal articula junto com a Televisa e a TV Azteca, as poderosas mexicanas, a organizao de um movimento de reao da classe mdia a partir da Cidade do Mxico. Passeatas dizem Si para Ruiz, estamos com o governo. Era a retomada da legitimao poltica artificialmente requerida para um ordenamento mais incisivo contra os rebeldes.

Fim de outubro, a Polcia Nacional ocupa Oaxaca. Tropas militares terrestres, brucutus, tanques, helicpteros. Tem incio o desalojamento dos professores feito como sempre, de madrugada, com violenta represso. Os populares tomam as ruas, so montadas barricadas, as mes indgenas formam a linha de frente desarmada. Os grupos anarquistas e zapatistas urbanos mostram suas caras, ou melhor, escondem-nas com os j clssicos lenos e mostram a fora da resistncia: choque corporal, pedras, revide das bombas de gs, mais uma intifada. A represso recrudesce, tiros na multido vm do alto, so os helicpteros que procuram desbaratar a resistncia nas calles. A polcia embaixo na rua parte pra cima, tiros so disparados horizontalmente. Um loiro grandalho de bermuda com uma cmera na mo tomba entre o povo. Imagens mostram a populao carregando seu corpo ensangentado. O compa Brad Will, nosso conhecido, est l morto congelado na tela. Um arrepio gelado passa pelo meu corpo. O filme prossegue, agora entendo, parte das imagens anteriores eram do Brad. Nos dias seguintes a represso segue aumentando, finalmente a resistncia rompida, os professores so retirados das escolas. Inicia-se a perseguio. Rben fala de trezentos mortos, muitos desaparecidos, mas a APPO continua organizada. As mulheres, as mes dos estudantes so as maiores interessadas, seguem frente das assemblias. O movimento foi temporariamente derrotado, mas a revolta, a vontade da transformao social est latente na populao. A organizao autonomista. As lutas mantm a tradio do comunismo indgena de outrora. So os ecos dos Pueblo, dos Navajo, dos Zapoteca, de todo o Yucatan, da pr-colombiana Oaxaca. O comunismo indgena autonomista e libertrio.Rben esclarece alguns pontos do filme em sua fala. Primeiro um histrico sobre o Mxico ps PRI e aps o advento do EZLN. Depois a questo pontual de Oaxaca: Fuera Ruiz. A criao da APPO. Mas, o que, quem exatamente a APPO? Rben titubeante no que ele pensa ser uma platia majoritariamente marxista. H todas as correntes, cita os stalinistas, o Partido, os camponeses, faz mdia com a Via Campesina, at os sociais democratas. Mas h os povos indgenas, os pueblos, so mais de 400 no estado de Oaxaca a participarem, os grupos autnomos, os professores independentes, as mes independentes. De repente a pluralidade cresce, toma conta de sua fala, faz mais sentido com aquilo que o documentrio havia mostrado. A questo da tomada do poder do governo no est colocada so buscas para a formao de contra-poderes. Mas e o governo, a APPO quer tomar o poder e mudar o governo? Parece que no. O que lhes importa a manuteno da Assemblia, porque permanente, so as deliberaes nos bairros, diretamente com os participantes. Ento o fato de fato no fora Ruiz, fora governo. Rben fala das propostas. Ampliao da democracia. Como? Democracia participativa ou democracia direta, um debate dentro da APPO. A representao parlamentar j no o foco de discusso. Os pueblos no querem ter representantes na instncia estabelecida do poder. Querem que o poder desa at os bairros, esteja nas escolas, surja das calles, e as decises sejam deliberadas pela populao. O nvel da discusso poltica em Oaxaca o mais avanado em matria de autonomia popular que h atualmente no mundo.

Surgiu-me uma dvida. Ser que a platia acompanha a exposio? Creio que no, Rben fala em espanhol, no h traduo. O cine se esvazia. Onde est o lder, o megafone, os companheiros. Vinde at mim as criancinhas. Em Oaxaca no h mais criancinhas. A multido sozinha construiu o seu destino, no h Maom, s montanhas a serem removidas. Fim da apresentao. Jogo rpido, a moa da animao logo vem dizendo: s duas perguntas. Foi atropelada. Um grupo de pessoas se aproxima do palco. Parece que h anarquistas na platia. Cinco se dirigem imediatamente ao microfone. No h como evitar. Surgem as questes:

Como est a organizao da APPO aps a represso?

Um militante do MST quer saber sobre como se organizou a revolta e qual o comando que dirigiu o movimento.Um menino do CMI declama uma poesia pela memria de Brad. Arrepio-me inteiro. Penso no Giulius, j se passou um ano de seu assassinato.Um dos anarquistas do grupo de Campina Grande presente pergunta sobre quem so os grupos que tomaram a frente nos protestos, caracterize melhor.

Uma menina anarquista pergunta sobre qual a relao com os zapatistas, porque houve divergncias? E o papel das mulheres, foi fundamental?E a vontade de conhecer melhor o que ocorreu em Oaxaca toma conta das pessoas.

Eu enfatizo a importncia da descentralizao do comando e da autonomia no movimento como forma de haver uma rpida exploso popular. Pergunto: Rben qual a sua posio dentro da APPO?Fao parte dos coletivos autonomistas libertrios ligados ao movimento urbano. Aproximamo-nos em matria de compreenso do movimento dos pueblos, especialmente no desejo da construo de uma democracia direta e comunalista, ou seja, com as decises sobre a poltica realizadas em cada assemblia dos povoados indgenas de forma direta, atravs das discusses e da produo de consensos. Este j o caminho da deliberao em centenas de vilarejos mexicanos.

Penso que devamos olhar com mais ateno ao que vem ocorrendo nesse pas desde o zapatismo de 1994, um pas cuja maioria da populao de origem indgena e, talvez, percebamos que o anarquismo contemporneo, para alm de sua matriz europia, se encontre mais vivo do que nunca no desejo de autonomia, na insubmisso dos povos indgenas americanos, seja na herana imaterial dos que foram exterminados durante a conquista por que no se permitiram dominar, seja naqueles que resistiram de outra forma e sobrevivem at hoje. Retomemos a leitura de Flores Magn, para compreender o fundamento autonomista da revoluo Mexicana e tirar experincias produtivas para a realidade brasileira.Ao final da conferncia Rben concedeu uma entrevista ao CMI de Fortaleza. Aproveitei a oportunidade para pedir o texto integral de sua fala e quando ele disse-me que viria a So Paulo, convidei-o a fazer contato com o CAVE. Quem sabe, quando este relato estiver on-line, os santistas possam j ter a oportunidade de assistir o documentrio sobre Oaxaca e charlar com um compa autonomista mexicano.At outra.