Apostila ergonomia parte 1

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    15-Apr-2017

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  • SS UU MM RR II OO

    Apresentao . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 02

    1. Histrico da Ergonomia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 04

    2. Histrico da NR 17 e Comentrios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 16

    3. Noes Fundamentais de Estudo Ergonmico do Trabalho . . . . . . . . . . . . . . 39

    4. Anlise Ergonmica do Trabalho sob a tica da Fiscalizao . . . . . . . . . . . . 50

    ANEXO I - O Corte Manual da Cana-de-acar . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

    61

  • 2

    AA PP RR EE SS EE NN TT AA OO

    Lys Esther RochaAuditora Fiscal do Trabalho

    Mdica do Trabalho DRT/SP

    A elaborao desta apostila teve como objetivo subsidiar as reunies de

    treinamento sobre a Aplicao Prtica da Norma Regulamentadora NR 17-Ergonomia para

    auditores fiscais do trabalho, em sade e segurana no trabalho, e fornecer material de

    consulta para o exerccio de suas atividades.

    Neste sentido buscou-se reunir documentos de diferentes reas e "correntes"

    da ergonomia, sem uma discusso aprofundada de cada uma. Esta opo baseou-se no prin-

    cpio de que deveria ser fornecido o maior volume de informaes aos auditores e que du-

    rante o curso os principais aspectos seriam debatidos.

    No volume I esto contidos Histrico da Ergonomia, Histrico da NR 17 e

    Comentrios, Noes Fundamentais de Estudo Ergonmico do Trabalho com uma Experi-

    ncia de Fiscalizao, e um anexo sobre O Corte Manual da Cana-de-acar. Aqui so defi-

    nidos o processo e as fases de uma interveno nas empresas, assim como situaes prticas

    referentes colheita de cana-de-acar.

    Do segundo volume, constam dados sobre os Distrbios Osteomusculares re-

    lacionados ao trabalho, selecionados porque representam a doena do trabalho de maior no-

    tificao junto Previdncia Social, alm de Lombalgia, Fadiga, Autropometria, Biomec-

    nica, Concepo de Posto de Trabalho, assim como Ferramentas e Monitores de Vdeo, pela

    larga utilizao destes equipamentos.

  • 3

    Esclarecemos que o engenheiro Cludio Cezar Peres traduziu e adaptou para o

    portugus o documento Pantallas de Visualizacion, elaborado pelo INSHT Instituto Na-

    cional de Seguridad y Higiene en el Trabajo, da Espanha.

    Os captulos do Volume I foram preparados por Maria Cristina Gonzaga, pes-

    quisadora da Fundacentro, Carlos Alberto Diniz Silva, ex-auditor fiscal do trabalho da

    DRT/SP, Lvia Santos Arueira, auditora fiscal do trabalho da DRT/RJ e Paulo Antonio Bar-

    ros Oliveira, auditor fiscal do trabalho da DRT/RS, cada um deles com suas prprias refe-

    rncias bibliogrficas.

    Os textos do volume II foram preparados pelos auditores fiscais do trabalho

    Rosemary Dutra Leo, da DRT/SC e Cludio Cezar Peres, da DRT/RS, que, em seu final,

    relacionaram referncias bibliogrficas nacionais e estrangeiras que devem ser consultadas

    para o aprofundamento no tema.

  • 4

    1. H i s t r i c o d a E r g o n o m i a

    Carlos Alberto Diniz SilvaMdico do Trabalho e Ergonomista

    Ex-agente de inspeo do MTE

    A ergonomia nasce da constatao de que o Homem no uma mquina como

    as outras, diferentemente do que props Descartes e La Mettrie no sculo XVII pois:

    ele no um dispositivo mecnico;

    ele no transforma energia como uma mquina a vapor;

    seu olho no funciona como uma clula fotoeltrica;

    seu ouvido no sensvel aos sons apenas como um microfone e um am-plificador;

    sua memria no funciona como a de um computador;

    os riscos a que est submetido no trabalho no so anlogos aos de umdispositivo tcnico, apesar de termos anlogos aplicados ao Homem e

    mquina: fadiga, desgaste, envelhecimento, polias, vlvulas, juntas, bom-

    bas, tubos.

    E quando que se comeou a pensar que o homem era uma mquina como as

    outras? At o sculo XV o homem, na tradio crist, ocupava o centro do universo. Tinha

    sido criado imagem e semelhana de Deus e seu corpo sempre foi objeto de respeito. A

    dissecao de cadveres era rigorosamente proibida pela Igreja Catlica. Todo o restante do

    universo tinha sido criado especificamente para seu uso e gozo.

    Com a demonstrao, por Galileu, de que a terra no era mais o centro do uni-

    verso, a verdade revelada perde sua importncia. Um intenso ceticismo toma conta de todos

    os pensadores pois tinha ficado patente que os nossos sentidos podem nos enganar. Afinal,

    nossos sentidos sempre nos indicaram de que era o sol que se movia ao redor da terra. E

    nem mesmo a nossa razo foi capaz de corrigir este erro. Logo, lana-se uma dvida sobre

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    os sentidos e a razo. Descartes leva esta dvida a extremos: doravante tudo tem que ser

    submetido a uma verificao j que estava perdida a f na tradio.

    Se por um lado o homem sofre um intenso golpe no seu narcisismo, por outro

    isto permite que seu corpo seja estudado como um objeto qualquer como os vrios outros

    que compem a natureza s que animado por uma alma.

    Com o desenvolvimento de engenhos mecnicos que se propem a ajudar os

    homens no seu trabalho, quase inevitvel que o funcionamento do corpo humano seja es-

    tudado do ponto de vista mecnico e mais tarde o modelo da mquina a vapor torna-se o

    paradigma predominante. O homem concebido como um engenho mecnico transforma-

    dor de energia.

    Se Descartes propunha explicar o homem como uma mquina animada por

    uma alma, mais tarde La Mettrie (um ateu convicto) faz um esforo grandioso e se prope a

    explic-lo mesmo sem o recurso a uma alma.

    Dentro da Ergonomia h duas correntes:

    a corrente produtivista que procura a adaptao dos meios de trabalho aohomem; e

    a corrente higienista mais interessada no conhecimento dos riscos e elimi-nao de suas causas.

    Antes da 2 Guerra Mundial, sempre houve os que procuravam adaptar os

    meios de trabalho ao homem:

    os prprios usurios: desde a pr-histria havia uma busca incessante porinstrumentos que pudessem melhorar o desempenho humano, como os

    machados de pedra, os estiletes etc.;

  • 6

    os mdicos e os higienistas: interessados nas conseqncias do trabalhosobre a sade;

    os engenheiros e organizadores do trabalho cuja questo central era: qual aquantidade de trabalho mecnico que se pode esperar de um homem?

    J os pesquisadores de laboratrios se dividiam em :

    fsicos e fisiologistas que tentavam medir o custo energtico do trabalho, orendimento etc.

    psiclogos mais interessados na avaliao das capacidades e aptides sen-

    soriomotoras e cognitivas, porm visando uma seleo. O objetivo era en-

    contrar um homem certo para uma condio de trabalho previamente esta-

    belecida.

    At o fim do sculo XVIII, privilegiava-se os estudos e pesquisas privilegia-

    vam de campo. Depois passou-se aos estudos de laboratrio pois havia a pretenso de mai-

    or rigor nas mensuraes pois a cincia nascente adotava o modelo matemtico como sendo

    o mais correto. O universo havia sido geometrizado e matematizado.

    OS ESTUDOS DOS MDICOS E HIGIENISTAS

    Na Antigidade (Imprio Romano) j eram conhecidos os problemas na colu-

    na nos carregadores de pedra, as clicas pelo chumbo nos mineiros e a intoxicao pelo

    mercrio.

    A Idade Mdia conheceu um grande interesse pelos fatores ambientais. Fato-

    res como o calor, a umidade, as poeiras e os agentes txicos eram correlacionados com o

    estado de sade. Os males do sedentarismo entre os tabelies tambm eram comentados.

  • 7

    No Renascimento, Ramazzini estuda as doenas venreas nas parteiras, as l-

    ceras de pernas e os desmaios nos mineiros provocados pelo calor, a ruptura de vasos na

    garganta de cantores e os distrbios visuais nos ourives.

    J no sculo XIX, Patissier se volta para o saturnismo e a silicose e insiste na

    proteo individual. Preconiza o uso de bexigas animais para proteo respiratria e de

    culos para proteo contra corpos estranhos. Ele recomenda aos ourives levantar a cabea

    de vez em quando e olhar para o infinito como modo de evitar a fadiga visual. Tambm

    preconiza proteo nos moinhos e concebe mquinas para diminuir o esforo fsico, como

    as mquinas de lavar.

    A marca deste perodo a de fraco desenvolvimento dos meios de mensurao

    mas, em contrapartida, havia uma observao fina do trabalho e interrogatrio sobre doen-

    as e atividade laboral. Ramazzini pede aos colegas para perguntar: Qual o trabalho do

    paciente?

    Em 1832, Villerm encarregado de elaborar um relatrio sobre as condies

    de vida da classe operria. Ele vai a campo e estuda os postos de trabalho. Interessa-se pelos

    horrios, salrios por produo, alojamento e alimentao. Estuda a mortalidade segundo as

    classes sociais e profisses.

    Villerm age, no plano tcnico, recomendando dispositivo de proteo de cor-

    reias de transmisso. J no plano regulamentador e legislativo sua atuao vai se estende

    proteo do trabalho infantil, limitando a idade para comear a trabalhar. Primeiro a 8 anos,

    mais tarde a 12. A jornada de trabalho tambm fica reduzida a dez horas ao dia.

    Ele tambm institui a reparao dos danos causados pelos acidentes de traba-

    lho ao fazer promulgar a lei que garante a gratuidade do tratamento dos acidentados e tam-

    bm que obriga os empregadores a indenizar monetariamente os que sofreram danos sua

    integridade fsica.

  • 8

    De suma importncia, a criao por Villerm da inspeo do trabalho entre

    1874 e 1892.

    At Villerm, o interesse era restrito insalubridade. Ele vai alm. Verifica

    que o trabalho forado, as condies dos alojamentos, a qualidade da alimentao e o sal-

    rio abaixo das necessidades reais exerciam grande influncia sobre o mau estado de sade.

    Ou seja, em alguns casos a falta de alimentao e as ms condies de vida extraprofissional

    eram mais responsveis pelo estado de sade que a nocividade derivada das condies de

    trabalho propriamente ditas.

    Assim, Villerm alarga o campo da patologia profissional e inclui nesta o

    conceito de fadiga e envelhecimento precoce.

    At 1851, todos compartilham das idias de Villerm. Depois, h uma ruptura:

    os mdicos higienistas comeam a negar as influncias das condies de trabalho industrial

    sobre a sade, baseados em argumentos estatsticos ingleses mal interpretados. Estes mos-

    travam que a esperana de vida variava de acordo com a profisso mais que com o meio

    ecolgico. O efeito do ambiente urbano era ilusrio: era devido concentrao urbana das

    ms condies de trabalho. Os franceses se aproveitaram dos dados que indicavam maior

    esperana de vida para os membros da sociedade de seguros composta, sobretudo, de pe-

    quenos burgueses, empregados ou autnomos. Da, conclurem que a riqueza no determi-

    nava a esperana de vida mas sim quando o ganho apenas do necessrio.

    OS ENGENHEIROS, OS FSICOS E OS FISIOLOGISTAS

    At o fim do sculo XIX, s se reconhece o trabalho fsico. O homem visto

    como um sistema de transformao de energia e nenhuma importncia dada aos aspectos

    cognitivos.

    Vaucanson (metade do sculo XVIII) projeta autmatos que encanta, inclusi-

    ve, os reis. Jacquard: aprimora os autmatos de Vaucanson, principalmente na indstria

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    txtil onde trabalhou quando menino. Seu objetivo era suprimir os postos mais penosos.

    Lavoisier (fim do sculo XVIII) faz estudos calorimtricos e metablicos, estabelecendo

    relaes entre a alimentao ingerida e a quantidade de calor despendida. Marey o primei-

    ro a fazer registro sistemticos dos movimentos humanos e descobre que a freqncia do

    pulso cardaco aumenta quando se exerce um esforo fsico.

    Portanto, at o incio do sculo XX, o trabalhador visto como um sistema

    transformador de energia. Os riscos do trabalho so conhecidos mas as aes para limit-los

    so modestas. Um exemplo disto o saturnismo. Esta patologia conhecida h 25 sculos

    mas s em 1904 a proibio do carbonato de chumbo debatida no parlamento francs. Os

    proprietrios de empresas de pintura dizem que os empregados se intoxicam por falta de uso

    de EPI. Clemenceau, que era mdico, defende a proibio argumentando que impossvel

    trabalhar evitando o contato com o chumbo. O decreto s proibia o contato da mo na massa

    de pintura. Ora, analisando a atividade, Clemenceau constatou que os pintores tinham tinta

    at abaixo dos punhos, regio no protegida pelas luvas. Logo, as luvas de cano curto no

    protegiam eficazmente. O decreto proibia tambm o lixamento e o polimento a seco de su-

    perfcies pintadas. Ora, lixamento e polimento por via mida sete vezes mais caro que pelo

    mtodo a seco. Da, como obrigar os empresrios a utilizar o meio mais caro? Alm disso,

    os inspetores do trabalho s podiam punir os empresrios se constatassem a operao no

    momento em que era realizada. Testemunhos retrospectivos no valiam para lavrar a infra-

    o. Logo, havia necessidade de um batalho de fiscais inspecionando toda obra em fase de

    pintura.

    O SCULO XX

    Jules Amar e Frmont simulam atividades profissionais em laboratrio. Im-

    bert e Lahy fazem estudos de campo.

    Jules Amar estuda, na Arglia, as aes da luz sobre os seres humanos. Pro-

    testa contra a explorao sem limites da energia humana. Mas emite opinies racistas afir-

    mando que os marroquinos eram mais rpidos e produtivos que os rabes. Ele redige o livro

    O motor humano, obra em que faz contraponto a Taylor e seus Princpios de Organiza-

  • 10

    o Cientfica do Trabalho. Ele defende uma filosofia baseada em um modo energtico: o

    trabalho o exerccio de uma fora para vencer uma resistncia. E tem uma preocupao

    produtivista com uma vertente social. Um exerccio indisciplinado acompanha-se de nume-

    rosas contraes sem efeito o que faz aumentar a fadiga. A fadiga prejudicial sade indi-

    vidual e coletividade.

    Jules Amar age sobre as condies de trabalho. Ele prope que os baixinhos

    sejam elevados at altura das mquinas. Posiciona instrumentos esquerda para os ca-

    nhotos e preconiza temperaturas ambientais mais adequadas execuo das tarefas.

    Atua tambm sobre a seleo de pessoal. Ele defende a seleo, porm, sem

    eliminar ningum, diferentemente de Taylor. Na sua obra O motor humano, ele modera os

    princpios da diviso do trabalho ao propor que deve haver coordenao entre todas as ins-

    tncias e condena a diviso extrema das tarefas, principalmente, a concepo dos meios e da

    organizao do trabalho divorciados da execuo. Como sabemos, este divrcio est na ori-

    gem de toda a inadaptao industrial que at hoje ainda no conseguimos superar. Ele tam-

    bm prope o rodzio para evitar o enfraquecimento das faculdades no utilizadas.

    O melhor de Jules Amar que fez estudos muito precisos e bem analticos, le-

    vando em conta a postura, os gestos, a velocidade dos gestos, as pausas como, por exemplo,

    na tarefa de lixamento de metais. O que no o impediu de emitir opinies racistas.

    Frmont interessa-se, sobretudo, pelas ferramentas. o primeiro a levar em

    conta a variao interindividual, rejeitando, ento, os valores limites e os valores mdios. A

    variao interindividual quer dizer que os indivduos so diferentes uns dos outros em suas

    medidas antropomtricas, capacidades, comportamentos e funcionamento psquico. Logo,

    os limites para o trabalho humano to almejado pelos fisiologistas revelam-se impossveis

    de serem estabelecidos pois o que seria aceitvel para um ser humano no o seria para o ou-

    tro. Hoje sabemos bem da impossibilidade de os vrios segmentos corporais de um mesmo

    indivduo estarem todos na medida mdia. Ou seja, se algum se situa na mdia de altura os

    outros segmentos corporais no necessariamente estaro na mdia.

  • 11

    Lahy interessa-se pela psicologia experimental. Ele estuda datilgrafos, con-

    dutores de trem e linotipistas. Ele retoma as idias de Jules Amar sobre o desperdcio do

    capital humano mas desemboca apenas na seleo de pessoal e na orientao vocacional.

    Imbert faz estudos sobre a fadiga em catadores de mariscos e estivadores. Ele

    observa que os catadores de mariscos para depositar sua carga preferem caminhar privilegi-

    ando os locais em que a areia est mais compactada e no apenas caminhar em linha reta at

    o ponto para descarga. Ou seja, numa linguagem mais moderna, eles adotam um modo ope-

    ratrio que se revela menos fatigante. Faz tambm uma correlao entre freqncia de aci-

    dentes em estivadores e quantidade de horas trabalhadas. Sua explicao a de que era a

    fadiga a responsvel pelo aumento da freqncia.

    Em resumo, este perodo marcado pela representao energtica do trabalho

    humano e pelo desenvolvimento da experimentao em laboratrio e estudos de campo com

    a pretenso de rigor cientfico. H tambm uma interveno nos problemas sociais e polti-

    cos em nome da cincia. Porm, Jules Amar defende a melhoria da raa humana.

    Em 1930 criado o INETOP (Instituto Nacional de Estudos do Trabalho e

    Orientao Profissional). Este Instituto publica a revista O trabalho humano em 1933,

    tendo como subttulo: conhecimento sobre o homem tendo em vista a utilizao judiciosa

    de sua atividade. A revista tinha como campo de estudos a fisiologia e a psicologia na ten-

    tativa de entender o funcionamento do motor humano.

    Um artigo do primeiro nmero fala da seleo de pilotos de avio a partir de

    critrios fisiolgicos e psicolgicos. Faz uma anlise da atividade a partir das aptides para

    a percepo visual, para a ateno, para a resistncia s emoes. Mas continua com o enfo-

    que seletivo e as contribuies para a modificao do trabalho so modestas.

    Permanece assim at 1963 quando comea a publicar os primeiros trabalhos

    de ergonomia: estudos do funcionamento do homem como o trabalho fsico, por exemplo. A

  • 12

    perspectiva ainda a de estabelecimento de normas, de limites e de transformao dos mei-

    os de trabalho.

    Em 1963 criada a SELF (Sociedade de Ergonomia de Lngua Francesa).

    O termo ergonomia havia sido cunhado em 1857 pelo polons Jastrzebowski

    mas tinha cado em esquecimento. retomado em 1949 pelo ingls Murrel para reunir os

    conhecimentos (psicolgicos e fisiolgicos) teis concepo dos meios de trabalho.

    A Ergonomia Francesa comporta duas correntes. Uma experimentalista: prati-

    cada por fisiologistas como Scherrer, Monod e Bouisset cujos resultados dos estudos de bi-

    omecnica servem para contestar os sucessores de Taylor, tais como Gilbreth e Barnes. Es-

    tes adotavam apenas o critrio tempo e faziam observaes em populaes muito restritas.

    Scherrer, Monod e Bouisset opem a isso, os critrios energticos. Estes fazem tambm as

    medies antropomtricas.

    A outra corrente privilegia os estudos de campo. Seus representantes so Fa-

    verge, Leplat, Wisner e Metz.

    Trabalham na trilha aberta por Lahy e Pacaud, dois observadores atentos da

    atividade profissional e que a descrevem em termos de comportamento. Estes dois pesqui-

    sadores fizeram uma verdadeira revoluo na interpretao de resultados de testes em labo-

    ratrio com condutores de trem. Havia um consenso de que medida que se envelhece as

    respostas a testes de percepo visual tendiam a ser mais lentas, o que era interpretado como

    sinal de enfraquecimento das funes cerebrais. Ora, estes pesquisadores verificaram que as

    respostas mais lentas dos condutores mais velhos eram devidas precauo que tomavam

    antes de decidir por uma ao, privilegiando a segurana. Durante sua vida profissional,

    aprenderam que no podem dar partida no veculo apenas porque o semforo est verde.

    preciso verificar antes se h pedestres em frente ao veculo, entre outras coisas. Uma pessoa

    mais jovem toma decises mais rapidamente mas no necessariamente as mais acertadas e

    seguras. Ou seja, um idoso experiente leva em conta vrios fatores antes de tomar uma deci-

  • 13

    so mesmo quando se trata de acionar um pedal quando se acende uma luz verde em labo-

    ratrio.

    Faverge era matemtico. Ele comea estudando o valor preditivo dos testes

    psicotcnicos. Depois, presta ateno atividade humana e fornece as primeiras bases para a

    anlise ergonmica do trabalho. Muito humilde, ele dizia que No encontramos nada [de

    novo]. Contentamo-nos de fazer aparecer o que estava na sombra. A principal contribuio

    de Faverge foi a de descrever o trabalho humano em termos de comportamento, o que abriu

    as portas para a transformao dos meios de trabalho e de formao. Seus antecessores des-

    creviam o trabalho em termos de aptides e desembocavam sempre nos testes para seleo.

    ORIENTAES DA ERGONOMIA FRANCESA

    Como os estudos sobre a fadiga no foram capazes de desembocar em efetiva

    melhoria das condies de trabalho, a ergonomia francofnica opta pela noo de carga de

    trabalho. Privilegia os estudos de campo que enfocam a anlise global da atividade. Esta

    categoria tem se revelado bastante eficaz na orientao das transformaes pois agora leva-

    se em conta tambm as estratgias adotadas pelos trabalhadores na resoluo de problemas

    colocados pelas exigncias contraditrias das tarefas. A anlise da atividade tambm apro-

    xima os analistas dos reais problemas enfrentados no cotidiano. Esta abordagem distingue a

    ergonomia francofnica da anglofnica ou dos Human Factors que decompe a atividade

    profissional em elementos especficos estudados separadamente, tomando por critrio o de-

    sempenho.

    O Laboratrio de Fisiologia do Trabalho do Conservatrio Nacional de Artes e

    Ofcios (CNAM) tem se pautado por:

    realizar pesquisas oriundas de demandas sociais;

    realizar pesquisas com estudos de campo;

    privilegiar a anlise da atividade;

    avaliar a carga de trabalho;

    exigir a participao dos trabalhadores na pesquisa;

  • 14

    colocar em evidncia a variabilidade da populao: A que homem o tra-balho deve ser adaptado? o ttulo de uma de suas publicaes;

    estudar o envelhecimento desfazendo antigos mitos;

    estabelecer as conseqncias do trabalho sobre a sade;

    ressaltar a importncia dos horrios de trabalho, como o trabalho em turnose suas repercusses sobre a sade;

    evidenciar que os trabalhadores devem resolver problemas outros queaqueles colocados pelos experimentadores em laboratrio;

    contribuies para a concepo de novos meios de trabalho e no mera-mente a correo dos j existentes.

  • 15

    BB II BB LL II OO GG RR AA FF II AA

    LAVILLE, Antoine. Histoire et gographie de lergonomie fraaise. Paris, 1988.(mmeo)

  • 16

    2. H i s t r i c o d a N R 1 7

    Carlos Alberto Diniz SilvaMdico do Trabalho e Ergonomista

    Ex-agente de inspeo do MTE

    Em 1987, diante dos numerosos casos de Leses por Esforos Repetitivos, os

    diretores da rea de sade do Sindicato dos Empregados em Empresa de Processamento de

    Dados no Estado de So Paulo fizeram contato com a DRT/SP buscando recursos para pre-

    venir as referidas leses.

    Foi constituda uma equipe composta de agentes fiscais do MTE (mdicos e

    engenheiros) e representantes sindicais. Vrias empresas foram fiscalizadas e em todas foi

    constatada a presena de fatores que sabidamente contribuam para o aparecimento das

    L.E.R.: o pagamento de prmios de produo, a ausncia de pausas, a prtica de horas-

    extras e a dupla jornada de trabalho, entre outros.

    Exceto nos aspectos referentes ao iluminamento, ao rudo e temperatura, a

    legislao em vigor no disponha de nenhuma norma regulamentadora em que se pudesse

    apoiar para obrigar a mudanas na situao das empresas, notadamente a forma como era

    organizada a produo, com todos os estmulos possveis acelerao da cadncia de tra-

    balho.

    A Associao de Profissionais de Processamento de Dados (APPD Nacional)

    havia elaborado um projeto de norma que estabelecia limites cadncia de trabalho e proi-

    bia o pagamento de prmios de produtividade, bem como, estabelecia critrios de conforto

    para os trabalhadores de sua base que incluam o mobilirio, a ambincia trmica, a ambin-

    cia luminosa e o nvel de rudo. Este projeto foi encaminhado ento Secretaria de Segu-

    rana e Medicina do Trabalho com o pedido de que fosse transformado em norma. Ele ficou

    tramitando na Secretaria durante longo tempo pois o secretrio no concordava com a idia

  • 17

    de se criar uma norma que abrangesse apenas o setor de processamento de dados. Se assim o

    fizesse, argumentava, dentro em breve todos os setores produtivos reclamariam uma norma

    especfica.

    Em 1988 e 1989, O Ministrio do Trabalho convocou toda a sociedade civil

    para que organizasse seminrios e debates onde se pudessem colher sugestes para a melho-

    ria das Normas Regulamentadoras em geral. Nesses seminrios chegaram vrias sugestes

    de alterao da NR-17 mas eram propostas de alteraes pontuais conservando a estrutura

    geral da norma em vigor. No havia nenhuma proposta concreta que fosse ao mago da

    questo: uma certa possibilidade de se controlar a cadncia e o ritmo do processo produtivo.

    Em meados de 1989, a SSMT pediu equipe de fiscalizao das empresas de

    processamento de dados da DRT/SP que elaborasse uma nova redao da NR-17 que inclu-

    sse as sugestes coletadas, bem como, a proposta, j pronta, de regulamentao nas empre-

    sas de processamento de dados enviada pela APPD Nacional. Foi dado um prazo de 10 dias

    para a elaborao da proposta.

    Embora no dispusesse de estudos sistemticos de ergonomia em outros seto-

    res produtivos alm daquele em processamento de dados, a equipe considerou que no se

    poderia perder a oportunidade de fazer avanar a legislao. Procurou-se, ento, colocar

    itens que abrangessem o mais possvel as diversas situaes de trabalho sem a preocupao

    com o detalhamento. Um maior ajuste poderia ser feito mais tarde, aps a concentrao de

    estudos em setores especficos. Abaixo desses itens abrangentes, colocou-se o detalhamento

    no que se refere ao trabalho com entrada eletrnica de dados, pois este j estava pronto e

    gozava de um relativo consenso.

    s vsperas do trmino do governo Sarney, a Ministra do Trabalho Dorotha

    Werneck assinou a Portaria que mandava conjuntamente para publicao a nova NR-17 e a

    NR-5 (CIPA). Houve, inclusive, uma solenidade no momento da assinatura em So Paulo

    com a presena de entidades representativas de trabalhadores. Infelizmente, a nova NR 5

    contrariava fortemente os interesses das classes patronais e a Portaria no foi publicada por

  • 18

    interferncia do Sr. Saulo Ramos que a retirou da Imprensa Oficial no ltimo dia do gover-

    no Sarney.

    Em junho de 1990, por interferncia do Presidente do SINDPD/SP, conseguiu-

    se que o Ministro do Trabalho Antnio Rogrio Magri assinasse a Portaria que dava nova

    redao NR 17: a mesma que quase foi publicada. Acreditava que era uma regulamentao

    especfica para processamento de dados sem se dar conta de sua abrangncia.

    Aps a sua publicao, a classe patronal, principalmente FIESP e FEBRA-

    BAN, se deu conta das possibilidades abertas pela nova redao e que as alteraes no se

    limitavam rea de processamento de dados. Foi pedida imediatamente uma discusso para

    alterar seu contedo. A equipe de fiscalizao em ergonomia enfrentou um batalho de ad-

    vogados e outros representantes da FIESP e FEBRABAN nos debates. Felizmente, a reda-

    o havia sido baseada em slidos argumentos e conseguiu-se convencer a oposio em

    quase todos os aspectos.

    A nova proposta foi encaminhada SSST e publicada em 23/11/90 com alte-

    raes que comprometeram em parte a sua aplicao prtica. Nunca se soube ao certo quais

    foram os responsveis pelas alteraes. importante citar este fato pois os interessados em

    alterao da legislao devem estar cientes que mesmo propostas bem elaboradas e cheias

    de boas intenes passam por sucessivos controles dentro da burocracia estatal e nunca

    garantido que saiam publicadas tal qual foram redigidas.

    CC OO MM EE NN TT RR II OO SS SS OO BB RR EE AA NN RR 11 77

    Carlos Alberto Diniz Silva

    Mdico do Trabalho e Ergonomista

    Ex-agente da Inspeo do MTE

  • 19

    Nesta parte faremos algumas consideraes sobre os itens principais da NR-17

    que tm gerado dvidas.

    Os interessados em maiores detalhes podero consultar as normas francesas:

    Association Franaise de Normalisation - AFNOR, Ergonomie. 1986.

    A seguir faremos comentrios sobre os diversos subitens da NR-17 que pos-

    sam ajudar os Auditores Fiscais do Trabalho na sua prtica de trabalho.

    17.1. - Esta Norma Regulamentadora visa estabelecer parmetros que permi-

    tam a adaptao das condies de trabalho s caractersticas psicofisiolgicas

    dos trabalhadores, de modo a proporcionar um mximo de conforto, segurana

    e desempenho eficiente.

    A palavra parmetros criou uma falsa expectativa de que seriam fornecidos

    valores precisos normatizando toda e qualquer situao de trabalho. Apenas para entrada

    eletrnica de dados que h referncia a nmeros precisos. Vale, no entanto, a mxima de

    que os A.F.T. possam reunir dados dos estudos realizados no Brasil e no exterior e que se

    sirvam deles para proporcionar um mximo de conforto, segurana e desempenho eficiente.

    17.1.1. - As condies de trabalho incluem aspectos relacionados ao levanta-

    mento, transporte e descarga de materiais, ao mobilirio, aos equipamentos e

    s condies ambientais do posto de trabalho e prpria organizao dos tra-

    balho.

    A incluso da organizao do trabalho dentro do que se entende por condies

    de trabalho e passvel de atuao o avano mais significativo da nova redao. At ento,

    a organizao do trabalho era considerada intocvel e passvel de ser modificada apenas por

    iniciativa da empresa, muito embora os estudos comprovassem o papel decisivo desempe-

  • 20

    nhado por ela na gnese de numerosos comprometimentos sade do trabalhador que no

    se limitam s L.E.R.

    17.1.2. - Para avaliar a adaptao das condies de trabalho s caractersticas

    psicofisiolgicas dos trabalhadores, cabe ao empregador realizar a anlise er-

    gonmica do trabalho, devendo a mesma abordar, no mnimo, as condies de

    trabalho conforme estabelecido nesta Norma Regulamentadora.

    Este o subitem que mais tem sido mal interpretado. Ele foi colocado para ser

    usado quando o A.F.T. tivesse dificuldade para entender situaes complexas em que fosse

    necessria a presena de um ergonomista. Evidentemente, nesse caso os gastos com a anli-

    se devem ser cobertos pelo empregador. Tem-se pedido anlise ergonmicas de uma forma

    rotineira e protocolar. Nem mesmo h clareza por parte dos A.F.T. de qual a demanda para

    a anlise. Pede-se anlise ergonmica de toda a empresa. No se enfoca nenhum problema

    especfico. Isto s tem dado margem a que se faam anlises grosseiras e superficiais que

    em nada contribuem para a melhoria das condies de trabalho. Notificar uma empresa para

    que realize anlise ergonmica sem mencionar o(s) setor(es) nem o porqu do pedido,

    apenas denota incompetncia e ignorncia. Sempre que o A.F.T. solicitar uma anlise ele

    deve colocar bem claramente qual o problema que ele quer resolver e pelo qual est pe-

    dindo ajuda a um ergonomista. No h muitos profissionais ergonomistas competentes no

    Brasil. Evidentemente, pedir anlise ergonmica sem estar ciente da viabilidade da presena

    de um ergonomista srio no resolve os problemas dos trabalhadores. Serve apenas para que

    o A.F.T. fique com a sensao de dever cumprido. Infelizmente, tm-se pedido anlises er-

    gonmicas como se pedem laudos de insalubridade.

    A maioria das situaes de trabalho colocam problemas ergonmicos facil-

    mente detectados pelo A.F.T. que no demandam a opinio de ergonomistas. Por exemplo,

    o trabalho contnuo na posio em p pode ser mudado sem se recorrer ao ergonomista.

    Para no permanecer apenas no superficial, o A.F.T. pode eleger uma situao

    mais complexa para ser objeto de estudo mais acurado. Na DRT/SP ao lado do trabalho ro-

  • 21

    tineiro de fiscalizao e importante para a obteno da produo mensal exigida, sempre

    foram constitudas equipes que estudavam problemas mais abrangentes, cuja soluo pode-

    ria beneficiar grande nmero de trabalhadores. S assim conseguamos dar sentido ao nosso

    trabalho. Estudos bem feitos podem e devem ser divulgados para que o saber seja compar-

    tilhado por outros colegas.

    17.2. - Levantamento, transporte e descarga individual de materiais.

    A proposta encaminhada SSST inclua um quadro estabelecendo a carga

    mxima para levantamento levando-se em conta a idade (trabalhador adulto jovem e adoles-

    cente aprendiz), o sexo e a freqncia do trabalho (raramente ou freqentemente). Como os

    valores desse quadro contrariavam o disposto na C.L.T. ele foi eliminado. Lembramos que

    uma Norma Regulamentadora no pode contrariar a Lei maior que a C.L.T. Toda proposta

    de melhoria no que se refere a esse subitem deve passar pela mudana da C.L.T. mediante

    aprovao no Congresso.

    A Consolidao das Leis do Trabalho, no seu Captulo V, Seo XIV, artigo

    198, estabelece como sendo de 60 Kg o peso mximo que um empregado pode remover

    individualmente.

    Na sua redao anterior, a NR 17 admitia o transporte e descarga individual de

    peso mximo de 60 kg. Para o levantamento individual estabelecia 40 kg.

    Foi proposta a alterao destes limites na nova redao. O quadro sugerido

    chegou a figurar na minuta NR 17, mas como contrariava a CLT, foi retirado antes da sua

    publicao. Por isso, na nova redao no h nenhuma referncia a pesos mximos.

    Reproduzimos abaixo o quadro proposto que poder ser usado como refern-

    cia.

  • 22

    Cargas para levantamento (em Kg)

    Adultos jovensAdolescentes

    aprendizes

    Homem Mulher Homem Mulher

    Raramente 50 20 20 15

    Freqentemente 18 12 11-16 7-11Fonte: GRANDJEAN (1980)

    Na prtica essa dificuldade pode ser contornada atravs do subitem 17.2.2. Se

    o A.F.T. constatar acometimentos sade e segurana (por exemplo, lombalgias) em de-

    terminado local onde h levantamento de cargas, mesmo quando respeitados os limites pre-

    conizados pela C.L.T., ele poder exigir modificaes. O subitem bem claro:

    17.2.2. - No dever ser exigido nem admitido o transporte manual de cargas,

    por um trabalhador, cujo peso seja suscetvel de comprometer sua sade ou

    sua segurana.

    questo apenas de se dar ao trabalho de compilar os dados referentes mor-

    bidade dos trabalhadores que comprovem o acometimento a sua sade: lombalgias, hrnias

    de disco, qualquer comprometimento da coluna vertebral causado por superesforo.

    A norma francesa NF X 35-106 (AFNOR) trata, em detalhes, dos limites de

    esforos recomendados no trabalho. No s de levantamento e carregamento de cargas ,mas

    tambm o recomendado para os membros superiores: empurrar, puxar etc. Do mesmo modo,

    o esforo mximo a ser exercido sobre pedais em vrias posturas :sentada, em p etc.

    17.3. - Mobilirio dos postos de trabalho

  • 23

    O mobilirio deve ser concebido com regulagens que permitam ao trabalhador

    adapt-lo s suas caractersticas antropomtricas (altura, peso, comprimento das pernas

    etc.). Deve permitir tambm a alternncia de posturas (sentado, em p etc.), pois no existe

    nenhuma postura fixa que seja confortvel.

    Entre a populao trabalhadora h indivduos muito pequenos e muito gran-

    des. difcil conceber um mobilirio que satisfaa a esses extremos. O recomendvel que

    o mobilirio permita uma regulagem que atenda a, pelo menos, 90% da populao em geral.

    Para dados antropomtricos da populao brasileira ver FERREIRA (1988).

    No recomendvel para as dimenses dos postos de trabalho sejam adapta-

    das somente populao que esteja empregada, pois quando se pretende modificar os postos

    de trabalho visando uma melhor adaptao, no se deve basear apenas nas medidas antro-

    pomtricas da populao que j esteja ocupando os postos, mas sim basear-se em dados de

    toda a populao brasileira. Isto porque os trabalhadores atuais podem j ter sofrido uma

    seleo, formal ou informal, e terem permanecido apenas aqueles que melhor se adaptaram

    e, portanto, no serem representativos de todos que podero, no futuro, ocupar estes postos.

    As regulagens dos planos de trabalho permitem tambm uma adaptao tare-

    fa. Por exemplo: onde h necessidade de grande necessidade pelos membros superiores, um

    plano mais baixo permite que a fora seja exercida com o antebrao em extenso que a

    posio onde se consegue maior fora. Por outro lado, se h grande necessidade de controle

    visual da tarefa (por exemplo, costurar) um plano mais elevado aproxima dos olhos o deta-

    lhe a ser visualizado.

    Concluindo, o mobilirio deve ser adaptado s caractersticas antropomtricas

    da populao e tambm natureza da tarefa.

    17.3.1. - Sempre que o trabalho puder ser executado na posio sentada, o

    posto de trabalho deve ser planejado ou adaptado para esta posio.

  • 24

    Este subitem foi mal redigido. Na verdade, os postos de trabalho devem ser

    projetados de modo a permitir aos trabalhadores a alternncia de postura. Toda postura fixa

    ao ser mantida por longo perodo desconfortvel, mesmo a sentada.

    17.3.2 - Para trabalho manual sentado ou que tenha de ser feito de p, as ban-

    cadas, mesas, escrivaninhas e os painis devem proporcionar ao trabalhador

    condies de boa postura, visualizao e operao e devem atender aos se-

    guintes requisitos mnimos:

    a) ter altura e caractersticas da superfcie de trabalho compatveis com o tipode atividade, com a distncia requerida dos olhos ao campo de trabalho e

    com a altura do assento;

    b) ter rea de trabalho de fcil alcance e visualizao pelo trabalhador;

    c) ter caractersticas dimensionais que possibilitem posicionamento e movi-

    mentao adequados dos segmentos corporais.

    Este subitem com suas alneas permite que o A.F.T. possa exigir qualquer tipo

    de mobilirio. A nica dificuldade ter que fazer um estudo antropomtrico dos trabalhado-

    res e uma anlise das exigncias da tarefa para que o mobilirio seja o mais confortvel pos-

    svel. Seria impossvel detalhar as caractersticas de todo o mobilirio encontrado nos seto-

    res produtivos. A consulta a manuais especializados em mobilirio ou a consultoria a uma

    ergonomista podem ser de grande valia mas o A.F.T. tem grandes possibilidades de melho-

    rar o conforto dos trabalhadores desde que disponha a perder um pouco mais de tempo para

    estudar a situao.

    O mesmo pode-se dizer dos subitens 17.3.2.1, 17.3.3, 17.3.4 e 17.3.5.

    17.4. - Equipamentos dos postos de trabalho

  • 25

    Os seres humanos sempre procuraram adaptar suas ferramentas s suas neces-

    sidades. Nas situaes industriais modernas, com a diviso entre planejamento e execuo, o

    trabalhador quase no tem oportunidade de influir nas decises de compra de equipamen-

    tos. Fatores como o preo podem decidir as escolhas. Isso leva a inadaptaes, aumenta a

    carga de trabalho. Uma m escolha pode penalizar os trabalhadores durante anos. Alguns

    conseguem modificar seus equipamentos adaptando-os s tarefas. Mas esta capacidade

    limitada.

    A opinio dos trabalhadores antes da compra tem mostrado um bom resultado

    em nossa prtica de trabalho. Algumas empresas colocam algumas opes para teste.

    Pode-se notar que, quando o usurio tem influncia na escolha, os fabricantes

    dos equipamentos investem mais em pesquisas para aperfeio-los. Citamos, como exem-

    plo, as cadeiras de odontlogos e os veculos automotores.

    A norma francesa X 35-105 (AFNOR) d uma boa indicao de caractersticas

    a serem respeitadas nos comandos de mquinas.

    17.4.1. - Todos os equipamentos que compem um posto de trabalho devem

    ser adequados s caractersticas psicofisiolgicas dos trabalhadores e nature-

    za do trabalho a ser executado.

    Adequados natureza do trabalho significa que os equipamentos devem fa-

    cilitar a execuo da tarefa especfica. O martelo o equipamento mais adequado natureza

    do trabalho de pregar. Uma cadeira pode ser confortvel para assistir televiso mas ser bas-

    tante inconveniente a uma secretria que deve ter acesso alternadamente ao arquivo, ao mi-

    crocomputador e ao telefone para realizar sua tarefa. Logo, a cadeira deve ser adequada

    natureza do trabalho da secretria: ter rodzios, encosto, ser estofada, permitir regulagens,

    ter apoio para os braos etc. No h uma cadeira ergonmica para todo e qualquer tipo de

    tarefa.

  • 26

    A mesma observao do subitem anterior se aplica a este subitem. Ele permite

    qualquer mudana nos equipamentos desde que o A.F.T. fundamente seu pedido aps uma

    observao da natureza do trabalho (exigncias da tarefa) e as caractersticas dos trabalha-

    dores. Por exemplo, se um painel de controle colocado em posio excessivamente alta

    para a altura do trabalhador, pode-se exigir que o painel seja colocado na altura dos olhos,

    facilitando a leitura dos dados. Um comando que exija excessiva abduo do membro supe-

    rior e elevao do ombro pode ser mudado de modo a permitir ao membro superior que

    volte posio neutra entre um acionamento e outro.

    17.5. - Condies Ambientais

    Apesar da redundncia, insistimos que no se trata de caracterizar insalubrida-

    de.

    17.5.2.a. - Condio Acstica - Os nveis de rudo devem ser entendidos aqui

    no como aqueles passveis de provocar leses ao aparelho auditivo, mas

    como a perturbao que podem causar ao bom desempenho da tarefa. Muitas

    vezes, equipamentos ruidosos so colocados em ambientes onde so necessa-

    riamente obrigatrios. Apenas isolando as impressoras em locais outros que

    no as salas de digitao, temos conseguido melhorar as condies acsticas

    destes ambientes.

    17.5.2 b, c, e d. - Condio Trmica - A NR 17 faz uma meno especial aos

    locais de trabalho onde so executadas atividades que exijam solicitao inte-

    lectual e ateno constantes. Isto porque nestes ambientes preponderavam bai-

    xas temperaturas, correntes de ar e baixa umidade relativa, condies exigidas

    para o bom funcionamento de computadores. Ora, a NR 15, no seu Anexo n 3

    , faz referncia a limites de tolerncia para exposio ao calor, no sendo um

    bom guia quando o que se procura conforto.

  • 27

    Para maiores detalhes sobre o assunto, consultar as normas de ergonomia NF

    X34-201 a 35-204 da Association Francaise de Normalisation AFNOR (1986).

    17.5.3. - Condies de iluminao - A NR 17 remete Norma Brasileira (NBR

    5413), que trata apenas das iluminncias recomendadas nos ambientes de tra-

    balho. O iluminamento adequado no depende s da quantidade de lux que

    incide no plano de trabalho. Depende tambm da refletncia dos materiais, das

    dimenses do detalhe a ser observado ou detectado, do contraste com o fundo

    etc. Ater-se apenas aos valores preconizados nas tabelas sem levar em conta as

    exigncias da tarefa pode levar a projetos de iluminamento totalmente inefica-

    zes. A situao mais desejada seria aquela em que , alm do iluminamento ge-

    ral, o trabalhador dispusesse de fontes luminosas individuais nas quais pudesse

    regular a intensidade.

    17.6. - Organizao do trabalho

    Organizar, no sentido comum, colocar uma certa ordem num conjunto de

    recursos diversos para fazer deles um instrumento ou uma ferramenta a servio de uma

    vontade que busca a realizao de um projeto. Em toda organizao aparecem conjunta-

    mente os problemas de cooperao e hierarquia.

    Mas, qualquer que seja a forma que a hierarquia assuma, e qualquer que seja o

    meio pelo qual a cooperao se realize, elas no so puramente violentas e arbitrrias. A

    organizao, seus objetivos, seus procedimentos, concernem, segundo modalidades prpri-

    as, s diferentes categorias de atores que dela participam. Ou, para dizer a mesma coisa em

    outros termos, uma das condies de sobrevivncia, bem como da eficcia da organizao,

    sua capacidade de motivar seus participantes (BOUDON &BOURRICAUD, 1993:408).

    A organizao do trabalho pode ser caracterizada pelas modalidades de repar-

    tir as funes entre os operadores e as mquinas : o problema da diviso do trabalho (LE-

  • 28

    PLAT & CUNY, 1977:60). Ela define quem faz o qu, como e em que tempo. a diviso

    dos homens e das tarefas.

    Tentou-se organizar o trabalho cientificamente. A Organizao Cientfica do

    Trabalho dividiu rigidamente a concepo do trabalho da sua execuo. Alguns poucos con-

    cebem e planejam e outros executam. Projetam-se tarefas fragmentadas sem levar em conta

    que os homens preferem iniciar e finalizar a fabricao de um produto, entender o que esto

    fazendo, criar novos processos, ferramentas mais adequadas etc.

    Em outras palavras, a Organizao Cientfica do Trabalho impondo uma hie-

    rarquia rgida no conseguiu a necessria cooperao dos trabalhadores. Com a introduo

    das linhas de montagem tentou-se assegurar a produo impondo o tempo de execuo, mas

    no se conseguiu a motivao dos trabalhadores como sublinhado acima. Breve tornou-se

    necessria a introduo de prmios de produtividade em tarefas fragmentadas. Um recurso

    eficiente a curto prazo, mas de efeitos danosos ao longo do tempo.

    O taylorismo, prescrevendo tarefas a serem executadas em tempos rgidos e

    invariveis para todos, pressupe uma estabilidade dos homens, das mquinas, das matrias

    primas, estabilidade que no existe na prtica. As avaliaes para estabelecimento dos tem-

    pos e movimentos (como se deve executar a tarefa e em quanto tempo, tambm denominada

    cronoanlise) so realizadas em trabalhadores cujas capacidades no so representativas das

    reais capacidades da populao trabalhadora em geral.

    Por exemplo, essas avaliaes so feitas durante um intervalo de tempo muito

    curto e em trabalhadores com um timo grau de aprendizado. Isto por si s j induz ao esta-

    belecimento de altas cotas de produo. Cotas difceis de serem atingidas, j que a atividade

    humana sofre flutuaes ao longo do tempo: ao longo do dia, da semana e mesmo ao longo

    da vida laboral. Um mesmo ritmo no pode ser tolerado igualmente durante toda a jornada

    de trabalho. Alm da variao fisiolgica circadiana, h de se levar em conta a fadiga acu-

    mulada que pode tornar penoso, no fim da jornada, um ritmo suportvel no seu incio.

  • 29

    Durante a cronoanlise , os trabalhadores, sabendo-se em observao , esfor-

    am-se para atingir o mximo de rendimento de que so capazes. Rendimento que seria im-

    possvel de ser mantido ao longo da jornada, da semana, com o passar dos anos.

    Quando o ritmo estabelecido sobre uma populao demasiadamente jovem,

    ele se torna insuportvel medida que se envelhece, razo pela qual certos locais de traba-

    lho so povoados apenas por jovens. Os que vo permanecendo adoecem e, aos poucos, vo

    sendo excludos, sendo demitidos ou pedindo demisso quando a carga de trabalho se torna

    insuportvel.

    O ser humano para executar um trabalho pode proceder de maneiras diferentes

    dependendo do tempo de que dispe, dos instrumentos de que se utiliza, das condies am-

    bientais, de sua experincia prvia e do modo como remunerado, entre outras variveis.

    Por outro lado, vrios homens para produzir a mesma pea podem proceder de

    maneiras diferentes, mesmo se mantidos os mesmos instrumentos e o mesmo ambiente de

    trabalho, devido s diferenas individuais.

    Tradicionalmente, a Organizao Cientfica do Trabalho tenta no levar em

    considerao essas variaes individuais, mas todos sabemos que um trabalhador mais idoso

    e experiente executa suas atividades de modo diferente daquele de um jovem relativamente

    inexperiente.

    Alm disso, o estado dos instrumentos de trabalho varia ao longo do tempo

    (uma serra circular torna-se menos afiada, por exemplo), modificando tambm o modo ope-

    ratrio e influindo na carga de trabalho.

    A anlise da organizao, portanto , algo complexo, no sendo possvel fixar

    , de antemo um roteiro aplicvel a todas as situaes. O mtodo como o qu analisar vo

    sendo estabelecidos paulatinamente, envolvendo os trabalhadores e dependem , em muito,

    da demanda que motivou a anlise.

  • 30

    Em primeiro lugar, no necessariamente o relatrio final da anlise ergonmi-

    ca deve estar restrito a estes tpicos. Eles servem de orientao que deve permear toda a

    anlise. Dependendo da situao, vo-se priorizar alguns em particular. Mas o conheci-

    mento de todos importante para se avaliar a carga de trabalho, j que esta carga vai variar

    em funo de como o trabalho organizado. A carga no a mesma se exige que o traba-

    lhador fabrique uma pea por minuto obrigatoriamente ou se ele pode fabricar 480 peas ao

    longo de oito horas de um trabalho. Neste ltimo caso, a liberdade para acelerar ou desace-

    lerar a cadncia alm de adequ-la ao seu prprio ritmo biolgico, possibilita ao trabalhador

    contornar os incidentes sem diminuir a produo.

    As Normas de Produo

    So todas as normas que o trabalhador deve seguir para realizar a tarefa. Aqui

    se incluem desde o horrio de trabalho at a qualidade desejada do produto (um erro acar-

    reta conseqncias graves), passando pela utilizao obrigatria do mobilirio e dos equi-

    pamentos disponveis.

    Mas nem sempre tudo previsto. Mesmo as normas de qualidade podem no

    ser claras, assim como os meios de atingi-las, fato que leva o trabalhador a um estado cons-

    tante de incerteza. Este estado pode ser agravado quando as exigncias de qualidade se so-

    mam quelas de quantidade.

    O Modo Operatrio

    o modo como as atividades ou operaes devem ser executadas para se dis-

    tinguir o resultado final desejado.

    Ele pode ser prescrito (ditado pela empresa) ou real (o modo particular adota-

    do pelo trabalhador para fazer face s variaes dos instrumentos, da matria-prima, do seu

    prprio corpo e das suas motivaes).

  • 31

    Uma anlise ergonmica coloca em evidncia os vrios modos operatrios

    possveis (prescritos e reais), legitimando os mais confortveis, e propondo mudanas nos

    meios e equipamentos que possam melhorar o conforto e a segurana. Ou seja, aumentar os

    graus de liberdade na realizao da tarefa.

    Aumentar os graus de liberdade na realizao da tarefa significa permitir que

    haja vrios modos operatrios possveis e que possam ser adotados em situaes diferentes

    (inclusive aquelas resultantes de variaes do estado corporal interno). Por exemplo, ter a

    possibilidade de executar a tarefa em p quando j se cansou de ficar sentado (o grifo nos-

    so).

    A Exigncia de Tempo

    Expressa o quanto deve ser produzido em um determinado tempo , sob impo-

    sio. Uma expresso equivalente seria a presso do tempo (o grifo nosso).

    Toda atividade humana se desenvolve dentro de um quadro temporal: em um

    momento dado (horrios), durante um certo tempo (durao da jornada), com uma certa ra-

    pidez, em uma certa freqncia e com uma certa regularidade (velocidade, cadncia, ritmo)

    (DANIELLOU et alli, 1989).

    A capacidade produtiva (rendimento) de um mesmo indivduo pode variar ao

    longo do tempo (ao longo de um mesmo dia, semana, ms, ano e ao longo dos anos = (vari-

    ao intra-individual), assim como variar entre um indivduo e outro (variao interindivi-

    dual ).

    Limites mnimos fixados pela empresa podem superar a capacidade de um ou

    vrios trabalhadores colocando em risco sua sade.

  • 32

    O ideal em qualquer situao que no haja exigncias estritas de tempo,

    confiando-se em que cada trabalhador produzir sem entrar em esgotamento (fsico) ou es-

    tresse emocional. Isto evidentemente est bem distante do observado na prtica e os traba-

    lhadores tm desenvolvido luta para que as exigncias de tempo sejam mais flexveis.

    A Determinao do Contedo de Tempo

    o que faz o trabalhador em determinado tempo. Quanto tempo olha, quanto

    tempo leva para verificar erros ou tomar decises.

    A Organizao Cientfica do Trabalho procura tambm determinar rigida-

    mente o modo de emprego do tempo. A anlise pode revelar quanto tempo se leva na execu-

    o de atividades no-prescritas, mas importantes na realizao da tarefa e que podem ser

    desconhecidas das prprias gerncias. Tal o caso dos numerosos incidentes que podem

    ocorrer durante uma jornada, que demandam um certo tempo para sua resoluo e que so

    levados em conta quando se faz o clculo dos tempos e movimentos.

    O Ritmo de Trabalho

    Aqui devemos fazer uma distino entre o ritmo e a cadncia. A cadncia tm

    um aspecto quantitativo, o ritmo qualitativo. A cadncia refere-se velocidade dos movi-

    mentos que se repetem em uma dada unidade de tempo. O ritmo a maneira como as ca-

    dncias so ajustadas ou arranjadas: livre (pelo indivduo) ou imposto(linha de montagem)

    (TEIGER, 1985).

    O ritmo de trabalho pode ser imposto pela mquina (no caso de uma linha de

    montagem, com operaes que devem, s vezes, ser executadas em menos de um minuto),

    ou ser gerenciado pelo trabalhador ao longo de um dia, mas que deve ter uma produo xis

    no final dele, ou pode ser influenciado pelo modo de remunerao (salrio baseado no n-

    mero de toques ou peas produzidas) que teoricamente um ritmo livre, mas que induz o

    trabalhador a uma auto-acelerao que no mais respeita sua percepo de fadiga.

  • 33

    H trabalhos que devem ser necessariamente executados em tempo previa-

    mente determinado (os cheques devem ser compensados at as seis horas, por exemplo), o

    que por si s constitui uma presso temporal com sobrecarga de trabalho em determinados

    horrios.

    O Contedo das Tarefas

    O contedo das tarefas determina o modo como o trabalhador percebe seu tra-

    balho: montono ou estimulante.

    Pode ser estimulante se envolve uma certa criatividade, se h uma certa varie-

    dade de atividades e se elas solicitam o interesse do trabalhador.

    Nem sempre uma variedade muito grande de tarefas necessariamente esti-

    mulante. Por exemplo, quando se requer grande memorizao e treinamento.

    A maior ou menor riqueza do contedo das tarefas passa tambm pela avalia-

    o do trabalhador e depende das suas aspiraes na vida, bem como das suas motivaes

    para o trabalho.

    Em sntese, a anlise ergonmica procura colocar em evidncia os fatores que

    possam levar a uma sub ou sobrecarga de trabalho (fsica ou cognitiva) e suas conseqentes

    repercusses sobre a sade, estabelecendo quais so os pontos crticos que devem ser modi-

    ficados.

    Insistimos que uma anlise deve levar em conta a expresso do(s) trabalha-

    dor(es) sobre suas condies de trabalho e que para transform-las positivamente, preciso

    agir quase sempre sobre a organizao do trabalho (GUERIN, 1985:74).

  • 34

    17.6.3. - Nas atividades que exijam sobrecarga muscular esttica ou dinmica

    do pescoo, ombros, dorso e membros superiores e inferiores, e a partir da

    anlise ergonmica do trabalho, deve ser observado o seguinte:

    a) todo e qualquer sistema de avaliao de desempenho para efeito deremunerao e vantagens de qualquer espcie deve levar em conside-

    rao as repercusses sobre a sade dos trabalhadores;

    Este subitem com suas alneas tem um alcance considervel mas a maioria das

    pessoas no consegue aplic-lo. Ele muito claro. Se h casos de L.E.R. em qualquer parte

    do corpo (pescoo, ombros, dorso e membros superiores e inferiores), o que indica sobre-

    carga muscular esttica ou dinmica, no pode haver avaliao do desempenho individual.

    Se a avaliao individual significa sempre que o trabalhador vai ser premiado se atingir ou

    ultrapassar o patamar desejado ou punido caso no o atinja. As avaliaes so importantes

    no processo produtivo desde que sejam coletivas. As avaliaes individuais provocam es-

    tresse no trabalhador e so patognicas por si mesmas, quer dizer, mesmo que no haja pre-

    miao para quem produza mais. Alis, se h avaliao individual, h alguma inteno

    oculta, nem que seja demitir os mais lentos. Logo, uma premiao est sempre implcita

    nem que seja a manuteno do emprego.

    Se conseguirmos fazer valer este direito ao trabalhador, estaremos contribuin-

    do enormemente na preveno das L.E.R. Muitos sindicalistas tm queixado da falta de de-

    talhamento da NR-17 para seus setores especficos. Nossa opinio que, embora as corre-

    es de mobilirio e equipamentos tenha alguma influncia na preveno da L.E.R., o in-

    centivo produo via prmios, vantagens financeiras ou qualquer outra o fator que mais

    contribui. Logo, correes de mobilirio e equipamentos so ineficazes se se continua a

    presso por aumento da cadncia. O desafio que os atores sociais (A.F.T., representantes

    dos trabalhadores e os prprios trabalhadores) consigam abolir os famigerados incentivos

    produo. Depois pode-se tentar o resto.

  • 35

    Na verdade, quando se reclama da falta de detalhamento o que percebemos

    que as pessoas querem tudo pronto para no perder tempo com estudos mais acurados. Por

    mais que se queira, uma norma no consegue detalhar todos os casos particulares. Para se

    conseguir mudanas tais como a abolio de prmios de produo imprescindvel que se

    estude bem a situao pois a slida argumentao a arma mais poderosa na hora da nego-

    ciao. mais valiosa que o que possa estar escrito numa norma.

    As queixas e os lamentos denotam apenas uma certa preguia de reunir dados

    para uma argumentao convincente.

    b) devem ser includas pausas para descanso;

    outra queixa constante de que apenas o trabalho com entrada eletrnica de

    dados foi contemplado com as pausas quantificadas. Geralmente nos outros setores produti-

    vos tenta-se implantar o mesmo sistema de pausas. Isto tem que ser visto com muito cuida-

    do pois cada tarefa tem a sua particularidade. Nas linhas de montagem, por exemplo, a

    queixa mais comum que o tempo alocado realizao da tarefa muito reduzido e quando

    h incidentes o trabalhador s consegue realiz-la com grande esforo e agilidade. Isto faz

    com que ele esteja sempre ansioso com a possibilidade de no conseguir realizar bem a tare-

    fa. Nesse caso, seria muito mais til um aumento no tempo do ciclo destinado tarefa que

    uma pausa de dez minutos a cada cinqenta minutos trabalhados. Outro exemplo: fechar um

    caixa de supermercado tarefa complicada pois h uma fila de espera em frente ao caixa,

    deve-se chamar um fiscal de caixa etc. No pode haver um substituto do caixa na sua ausn-

    cia por causa do manuseio do dinheiro. Colocar um substituto implica em fazer acerto de

    caixa. Da ser impraticvel uma pausa a cada cinqenta minutos trabalhados. Diante de

    tanta medidas a serem tomadas, prefere-se pausas maiores e menos freqentes.

    A durao da pausa depende da correlao de foras entre os empregadores e

    os empregados, seus representantes e os A.F.T. Quanto mais estiverem munidos de dados

    que comprovem o agravo sade mais eles podero exigir pausas mais adequadas aos tra-

    balhadores e natureza do trabalho. impossvel uma frmula geral que seja conveniente a

  • 36

    todos. Infelizmente, teremos que continuar a fazer estudos, reunir um saber coletivo e reali-

    zar negociaes.

    Limites de uma norma

    A NR 17, como todas as normas, no consegue oferecer solues para todas as

    situaes encontradas na prtica. Deve-se v-la apenas como uma referncia. A soluo dos

    problemas s possvel pelo esforo conjunto de todos os interessados.

  • 37

    RR EE FF EE RR NN CC II AA SS BB II BB LL II OO GG RR FF II CC AA SS

    ASSOCIATION FRANAISE DE NORMALISATION AFNOR, Ergonomie. 2.ed.

    Paris, 1986.211.$300 francos franceses, Endereo: Tour Europe CEDEX 792080

    PARIS La Dfense. Fone: 42.91.55.55.

    GRANDJEAN, E. Fitting the task to the Man: an Ergonomic Approach. London,

    Taylor & Francis, 1980.

    FERREIRA, Diva M.P. (coord.). Pesquisa Antropomtrica e Biomecnica dos Operrios

    da Indstria de Transformao (vols. I e II). Rio de Janeiro, Instituto Nacional de

    Tecnologia, 1988, 128 p. e 86 p.

    BOUDON, Bernard & BOURRICAUD, Francois. Dicionrio Crtico de Sociologia. So

    Paulo, tica,1993.

    LEPLAT, Jacques & CUNY, Xavier. Introduction Psychologie du Travail. Paris, PUF,

    1977.

    DANNIELLOU, Franois et alii. Fico e Realidade do Trabalho Operrio. Rev. Bras.S.

    Ocup. . 17 (68):7-13, out./dez. 1989.

    TEIGER, Catherine. Le travail sous Contrainte de temps. In: CASSOU, Bernard et alii

    (dir.). Les Risques du Travail: pour ne pas Perdre sa Vie la Gagner. l` ed. Paris, La

    Dcouverte, 1995.

    GUERIN, franois et alii. Comprendre le travail pour le transformer : la Pratique de

    l`Ergonomie. Montrouge, ANACT, 1991,233 p.

  • 38

    3. N o e s F u n d a m e n t a i s d e E s t u d o E r g o n m i c o

    d o T r a b a l h o

    Lvia Santos ArueiraAuditora Fiscal do Trabalho DRT/RJ

    Segundo Vidal, a Ao Ergonmica a sistemtica que viabiliza a conduo

    adequada ao projeto ergonmico na empresa, assegurando seus resultados eficazes.

    Figura 1 : Fases e Produtos da Ao Ergonmica (Vidal, 1997)

    O sistema de produo composto de mquinas, ferramentas, operadores e

    forma que sero utilizados com objetivo de produzir um bem ou servio - Organizao do

    Trabalho.

    A Organizao do Trabalho pode ser caracterizada pelas modalidades de re-

    partir as funes entre os operadores e as mquinas: o problema da diviso do trabalho

    (LEPLAT & CUNY, 1977:60). Ela define quem faz o qu, como, em que tempo, quem ope-

    Instruoda

    demanda

    AnliseErgonmica

    doTrabalho

    Implantaoe

    Acompanhamento

    ContratoCaderno

    deEncargos

    Projeto

    Especificaesde

    mudanas

  • 39

    ra, quem supervisiona, quem o responsvel. A Organizao do trabalho projeta uma situa-

    o a partir de dados supostamente conhecidos e no variveis, com o objetivo de alcanar

    um determinado fim. ela que determina em quanto tempo uma tarefa deve ser realizada, e

    o quanto ser repetida, ou seja a cadncia e o ritmo da produo. A cadncia refere-se a ve-

    locidade dos movimentos que se repetem em uma dada unidade de tempo. O ritmo a ma-

    neira como as cadncias so ajustadas ou arranjadas : livre (pelo indivduo) ou imposto (

    pela linha de montagem) (TEIGER, 1985:89). O ritmo de trabalho diretamente influencia-

    do pela forma de remunerao do trabalhador, se esta fixa ou varivel em funo do volu-

    me de trabalho produzido.

    A Organizao do Trabalho define tambm o Modo Operatrio, que a forma

    como devem ser realizadas as tarefas - trabalho prescrito - para se alcanar a meta projetada.

    Quando uma operao realizada, no se pode afirmar que apenas o trabalho prescrito ser

    realizado - tarefa - pois o operador realizar outras operaes de forma a adaptar o trabalho

    prescrito s suas caractersticas e habilidades pessoas, que no foram sequer imaginadas

    quando no projeto destas tarefas, estas adaptaes so conhecidas como atividade.

    Entendemos como Ao Ergonmica o processo necessrio para transformar

    um posto e a situao de trabalho, em nossa sociedade. Este processo pode ser dividido em

    quatro fases :

    1. Instruo da Demanda

    2. Anlise Ergonmica do Trabalho

    3. Projeto Ergonmico

    4. Implementao

    Demanda a origem da necessidade reconhecida pela empresa de realizar uma

    interveno ergonmica para correo de uma disfuno ou na implantao de novas tec-

    nologias.

    A demanda pode ser classificada, a partir de quem solicitou a ajuda, em seis

    origens distintas de demandas de acordo com sua natureza, segundo Shanavaz, 1991, Gurin

  • 40

    et. al., 1991 e de Cerqueira, 1992: (i) demandas do interior das empresas :da alta direo, da

    mdia gerncia, dos trabalhadores diretos, e (ii) demandas externas s empresas: das entida-

    des sindicais ou representativas, de organismos pblicos diversos e de estudantes universit-

    rios.

    O Auditor Fiscal do Trabalho pode ser a origem de uma demanda ao identifi-

    car alguns indcios ou indicadores de possveis problemas ergonmicos em um determinado

    posto ou setor de trabalho. Alguns requisitos que podem indicar a necessidade de elaborao

    de um Estudo Ergonmico:

    a) trabalho que exija um grande esforo fsico;

    b) trabalho que exija posturas rgidas ou fixas ( s sentado, ou s em p );

    c) introduo de novas tecnologias ou mudanas no processo de produo;

    d) alta taxa de absentesmo;

    e) alto ndice de rotatividade da mo de obra (GRPS, Rais, etc.);

    f) freqncia e gravidade de acidentes de trabalho (CAT);

    g) presena macia de jovens;

    h) queixas de dores musculares (PCMSO, Controle de atendimento mdico da

    empresa, etc.);

    i) pagamento de prmios de produtividade (Contra cheques);

    j) conflitos freqentes com os empregados;

    k) trabalho exigindo movimentos repetitivos;

    l) trabalhos em turnos;

    m) trabalhos exigindo grande preciso e qualidade;

    n) situaes outras detectadas pelos Mapas de Riscos, PPRA e outros instru-

    mentos de avaliao.

    O AFT ao solicitar o Estudo Ergonmico do Trabalho de determinada situao

    deve definir claramente a origem desta exigncia, ou seja, qual o problema que deseja ver

    resolvido.

  • 41

    Estudo Ergonmico do Trabalho um processo de negociao, cooperao e

    construo conjunta, que envolve todos os aspectos relacionados com aquela situao de

    trabalho em foco, aspectos que no desenho da tarefa no foram considerados.

    A primeira etapa do Estudo ergonmico denominada de Instruo ou Anlise

    da Demanda. Segundo Vidal : a anlise da demanda o que torna a anlise ergonmica es-

    pecifica em relao aos demais mtodos da engenharia de produo no que tange ao mape-

    amento, formulao e negociao de problemas sobre os quais intervir, a nvel de um pro-

    cessos de trabalho. Sua importncia mais significativa esta em trs aspectos conclusivos :

    a anlise da demanda que vai conduzir todo o processo posterior da ana-lise ergonmica do trabalho, em termos de foco de estudo e categorias

    analticas a privilegiar. Vrios so os exemplos, mas prefiro me limitar ao

    caso descrito por Ferreira L. et al. onde o estudo de posturas solicitado foi

    finalmente encaminhado para uma reorganizao das tarefas de caixa do

    supermercado, vinculando-as com embaladores e verificadores de preos;

    pela anlise da demanda se definem os contornos do prprio e pertinenteno que tange s transformaes possveis na situao. Num dos estudos

    clssicos sobre ergonomia contempornea, Wisner e al.(1972) chamado a

    intervir acerca de problemas da coluna de operadores de plataforma de

    petrleo origem de uma alta rotatividade, verifica que a carga fsica se

    caracterizava como entre leve e moderada (fatos tambm verificados no

    Brasil por Silveira, 1994), e que as modificaes at necessrias agiriam

    sobre outros aspectos cuja impactao sobre a rotatividade seria muito pe-

    quena; a analise da demanda desde logo orientou para o processo de for-

    mao e de progresso de carreira, que necessitaria ser revisto (o que infe-

    lizmente tambm persiste no Brasil);

    Finalmente a anlise da demanda permite mapear expectativas o que per-

  • 42

    mite cercear modismos e outros desvios da interveno, precavendo ao

    engenheiro de produo de ser o profissional da soluo geral procura do

    problema especfico permitindo-o de ser o contrrio: o profissional da so-

    luo especfica que pode at vir a ser estendida para situaes anlogas.

    Num estudo sobre condutores de trem, de demanda sindical, os maquinis-

    tas reclamavam do dispositivo homem morto, que devia ser acionado a

    cada 45 segundos e engendraria uma forte carga mental. Um estudo preli-

    minar j apontava que a carga mental do dispositivo no parecia ser o pro-

    blema central. Em contrapartida questes de sustentao de viglia e de

    angstias diversas apareciam nos primeiros contatos o que foi inicialmente

    abordado do ponto de vista psiquitrico, sobre a personalidade dos con-

    dutores, o que apesar de interessante, no respondia a uma demanda de

    natureza sindical, dado seu carter pouco operacional. Finalmente foram

    as questes de durao e qualidade de sono (Foret e Lantin, 1972) que

    surgiram como ponto a trabalhar e isto acabou permitindo a formulao de

    uma srie de melhorias no trabalho, desde horrios at a poltica de aloja-

    mentos da Companhia Ferroviria.

    Seja respondendo a um convite, a uma injuno social ou se propondo a estu-

    dar uma realidade de trabalho, devemos ter em conta que intervir numa situao mobiliza a

    todos, demandantes, interessados, envolvidos, comprometidos e intervenientes. A anlise da

    demanda nada mais que tomar conscincia disto e da imbricao de vidas, desejos e inte-

    resses em jogo, explicita ou implicitamente, subjacentes ou sobrejacentes, que existem

    numa interveno sobre processos de trabalho.

    A Instruo ou Anlise da demanda implica em contato com as pessoas envol-

    vidas e conhecimento de procedimentos diversos da empresa, atravs de entrevistas com a

    direo da empresa, gerncia, superviso e com os operrios envolvidos no processo ou se-

    tor foco do Estudo Ergonmico e de suas interfaces, visitas aos postos de trabalho e a servi-

    os da empresa como o servio social, mdico, recursos humanos e outros. A Anlise da

    Demanda deve explicitar todos os fatores envolvidos com a demanda.

  • 43

    Muitas vezes a Demanda apresenta objetivos contraditrios ou conclui-se que,

    para o estudo ergonmico e formulao do projeto, ser preciso deslocar o foco do trabalho

    para um outro setor ou incluir novas situaes de trabalho; a isto chamamos de Reformula-

    o da Demanda.

    A Anlise da Demanda deve delimitar o campo de estudo, priorizando, arti-

    culando e evidenciando novos problemas, bem como identificar as pontos de vistas dos ato-

    res envolvidos devendo de serem levantados, no mnimo uma descrio da empresa e das

    pessoas com que foram feitos os primeiros contatos; problemas e resultados positivos apre-

    sentados pela empresa , neste primeiro contato; se existem propostas ou indicao de locais

    para o estudo, e as concluses do grupo sobre esta etapa.

    Com a demanda reformulada, ou instruda, temos a Demanda Ergonmica,

    que ser o foco da Anlise Ergonmica do Trabalho.

    A Anlise Ergonmica do Trabalho um processo contnuo de negociao e

    construo coletiva do projeto Ergonmico, em que as etapas vo sendo paulatinamente

    cumpridas.

    A AET para ser melhor entendida pode ser dividida em cinco fases:

    I - Estudos Preliminares

    II - Escolha das Situaes Crticas

    III - Anlise Global

    IV Pr-diagnstico

    V - Diagnstico e Caderno de Encargos

  • 44

    I - Estudo Preliminar

    A metodologia determina que se entenda o funcionamento da empresa constar

    descrio da organizao da produo, a sua insero no mercado, suas metas para o futuro,

    um cenrio da populao de trabalhadores, constando de faixa etria, nvel educacional,

    forma de remunerao, o fluxo operacional, horrio de funcionamento, jornada, turnos,

    qualificao profissional exigida, organograma, enfim todas informaes que permitam a

    definio do perfil da empresa dentro do contexto social e poltico. O ltimo aspecto a se

    incluir a descrio do funcionamento global da unidade produtiva, devendo ser abordado

    Constituio e anlise da demanda :

    Anlise global das atividades

    Diagnstico ergonmico

    Caderno de Encargos Ergonmico

    Estudos preliminares

    Escolha de processos chave

    Pr-diagnstico

    MODELAGENS

    Restituio e validao

    Contrato de Interveno Ergonmica

    INTERAES

    Especificaes para Comissio-namento de Equipamentos e

    Mtodos

  • 45

    as questes econmicas ( posio no mercado, momento comercial), social ( panorama da

    populao de trabalhadores com dados sobre a sade, polticas sociais j implantadas ou em

    implantao etc.) legislativas ( questes que dizem respeito ao zoneamento urbano, gerncia

    ambiental, regulamentaes, etc.) geogrficas ( clima, deslocamento de pessoal e material,

    etc.) tcnicas ( etapas tcnicas do processo produtivo, metas quantitativos da produo, etc )

    e ambiental ( lay out, rudos, vibraes, iluminamento, existncia de poeiras, ventilao na-

    tural e forada, etc.).

    Esta fase tem o objetivo de entender a empresa no seu interior e o seu relacio-

    namento com o ambiente econmico e social em torno.

    II - Escolha de situaes caractersticas

    As empresas contam com vrios postos e situaes de trabalho diversas, e

    como no se pode analisar e resolver tudo, indica-se a escolha de situaes caractersticas ,

    que obedecidas critrios de escolha serem priorizadas e hierarquizadas. Estes critrios sur-

    giro em funo de dados recolhidos na Anlise da Demanda e do Estudo preliminares, o

    Prof. Mrio Vidal, indica alguns critrios genricos para indicao das situaes crticas :

    Critrio de queixas escolha de situao onde as queixas dos trabalhado-res so mais numerosas ou contundentes;

    Critrio de conseqncias escolha de locais onde as conseqncias deproblemas mais grave;

    Critrio de Centralidade escolha de um dispositivo cujo o funciona-mento dependem muitos postos de trabalho;

    Critrio da modernidade escolha de situaes onde a mudana a mdioe longo prazo na tecnologia se faz necessrio;

    Critrio de estabilidade escolha de uma situao que no seja fortuita,

  • 46

    efmera e que se mantenha ao longo do estudo;

    Critrio de acesso escolha de uma situao onde seja possvel a realiza-o do estudo.

    Qualquer que seja o Critrio escolhido, este deve ser discutido junto s pesso-

    as da empresa para escolha das situaes crticas.

    III - Anlises globais das atividades nas situaes caractersticas

    As fases anteriores nos permitem formular uma viso genrica da atividade,

    nesta fase estaremos identificando ou definindo algumas questes chaves para a prxima

    etapa: o pr diagnstico. Trataremos portanto de dados especficos sobre as questes rela-

    tivas ao trabalho, como o dispositivo de trabalho, a organizao do trabalho, variabilidades

    da atividade e sobre o meio ambiente de trabalho.

    A obteno destes dados se d por meio de dois instrumentos distintos e com-

    plementares:

    (a) Observaes abertas: observa-se o que acontece na situao de tra-

    balho;

    (b) Conversao-ao: onde os trabalhadores diretos ou prximos so en-

    trevistados de forma a fornecer detalhes sobre as ati-

    vidades.

    IV - Pr-diagnstico

    V - Diagnstico

    Aps estas fases, seremos capazes de formular um pr-diagnstico, com ind-

  • 47

    cios dos problemas a serem resolvidos e suas possveis solues. Para chegarmos ao dia-

    gnstico final, termos que construir um plano de observao, em que iremos aprofundar

    metodologia da Anlise Global, agora focando mais na situao escolhida (porqu as pesso-

    as se comportam daquela maneira), para tal necessrio elaborarmos um Plano de Observa-

    o, voltado para uma determinada situao, em um determinado horrio, etc., melhor defi-

    nida e delimitada, chegando a formulao de hipteses, que atravs das Observaes Siste-

    mticas e Validao, chegaremos ao Diagnstico do Modelo Operante. O Diagnstico tem

    como objetivo a representao da atividade de trabalho em uma dada situao, que apre-

    sente a real dificuldade da execuo, permitindo uma ao efetiva na disfuno.

    Concluda a Anlise Ergonmica do Trabalho, o resultado poder ser o Estu-

    do, o Relatrio ou o Laudo. O Laudo Ergonmico apenas aponta os principais elementos de

    dificuldade, direcionando para o Relatrio e o Estudo. O Relatrio apresenta descries

    sintticas e recomendaes. O Estudo uma memria tcnica da interveno sendo portanto

    mais extenso e completo, podendo ser construdo um Caderno de Encargos, onde as reco-

    mendaes se estruturam em um projeto de interveno, possibilitando a realizao das

    transformaes propostas.

  • 48

    RR EE FF EE RR NN CC II AA SS BB II BB LL II OO GG RR FF II CC AA SS

    FIALHO, F. E SANTOS, N. dos. Manual da anlise ergonmica no trabalho. Curitiba,

    Editora Gnesis, 1995.

    WISNER,A. A Inteligncia no Trabalho, So Paulo, FUNDACENTRO, 1994.

    ABRAHO, J. Ergonomia: modelo, mtodos e tcnicas, 1993.

    VIDAL, M. Roteiro de Anlise Ergonmica do Trabalho, no publicado, Rio de Janeiro,

    1998.

    VIDAL, M. C. , GOMES, J. e ETCHERNACHT, E. H.. Conceitos bsicos para uma en-

    genharia do trabalho. (Notas de Aula, Texto 2) Disciplina Engenharia do Trabalho,

    Curso de Engenharia de Produo, Rio de Janeiro, GENTE/COPPE,1995.

  • 49

    4. AA nn ll ii ss ee EE rr gg oo nn mm ii cc aa dd oo TT rr aa bb aa ll hh oo SS oo bb aa tt ii cc aa ddaa FF ii ss cc aa ll ii zz aa oo

    Paulo Antonio Barros OliveiraAuditor Fiscal do Trabalho

    DRT / RS

    Neste documento, procuramos, de forma sucinta, apresentar alguns tpicos

    da Anlise Ergonmica do Trabalho que, pela nossa experincia, consideramos mais fre-

    qentes no trabalho do Auditor-Fiscal do Trabalho que inspeciona uma empresa e, entre

    outras coisas, fiscaliza o cumprimento da NR 17.

    Anlise da Demanda

    A DEMANDA o ponto de partida da interveno ergonmica. Devem ser

    observadas tanto as demandas explcitas, ou pouco explcitas, como as implcitas. Embora

    elas possam ter diferentes origens (direo da empresa, sindicato, instituies ou organiza-

    es profissionais), em nossa prtica nos deparamos com casos em que a demanda quase

    que exclusivamente originada por nossas prprias notificaes. Na verdade, as empresas

    procuram atender, de forma administrativa e jurdica, a uma demanda gerada pela fiscali-

    zao, com a elaborao de um documento que eles denominam Laudo Ergonmico, e isso

    acaba por dar um perfil bem determinado ao estudo que ser feito.

    No recomendvel a solicitao de estudo ergonmico de toda uma em-

    presa, mas sim das situaes e/ou postos identificados como problemticos, ou que, pelo

    processo produtivo, so importantes para a compreenso do fenmeno que est sendo estu-

    dado.

    Importante: a DEMANDA pode e deve ser reformulada, construda e re-

    construda a partir da interao, entre outros, entre ergonomista/demanda, ergonomis-

    ta/Auditor-Fiscal e ergonomista/empresa/trabalhadores. Papel importante da inspeo do

    trabalho promover a participao dos trabalhadores e de seus representantes nesse proces-

  • 50

    so. a partir desse momento que parte importante do estudo comea a ser estruturado, e o

    papel da qualidade futura do estudo pode ser aqui definido.

    Reconhecida a origem da demanda, identificados os diferentes interesses

    envolvidos (particulares, coletivos, muitas vezes conflitivos), deve o estudo identificar e

    conhecer os objetivos e interesses do demandante com relao interveno ergonmica;

    conhecer a histria da demanda; hierarquizar/ articular/ evidenciar problemas existentes;

    melhor compreender os problemas existentes e sua manifestao concreta j em uma pri-

    meira visita. Outro aspecto a delimitao do campo de estudo (condicionado s imposi-

    es de prazo e complexidade dos problemas), a verificao do ponto de vista dos dife-

    rentes setores, e para isso deve o ergonomista demonstrar o seu cuidado em tentar perceber

    as fontes de conflitos (verificar condies de execuo do trabalho), a busca de informaes

    pertinentes e de ter permitido aos atores a compreenso de que ergonomia (e vice-versa).

    Somos de opinio de que o Auditor-Fiscal deve estar preparado para acei-

    tar, por exemplo, a reformulao de sua notificao, principalmente se ficar demonstrado

    que, no estudo da demanda, houve a participao de todos os atores sociais, e foram incor-

    porados os interesses dos diferentes operadores da atividade a ser analisada.

    O funcionamento da empresa deve ser perfeitamente identificado, como,

    por exemplo:

    1) o contexto econmico e comercial (mercado), consumidores, regula-

    mentao, clientes, concorrncia, posio da empresa nos mercados in-

    terno/externo;

    2) produtos: tipos, qualidade, materiais, exigncias dos clientes;

    3) histria e perspectivas futuras: poltica de desenvolvimento, origem, es-

    trutura administrativa, evoluo, poltica, estratgias;

    4) geo-economia: ambiente geogrfico, aprovisionamento de matria prima

    e de material de consumo, vias de acesso, mercado de mo-de-obra, cli-

    ma, localizao, qualidade do tecido e social industrial de suporte;

  • 51

    5) populao de trabalho: idade, evoluo da pirmide de idades, tempo de

    servio, formao, qualificao, tipos de contrato, experincia, tempo de

    casa, poltica de pessoal da empresa, categorias profissionais, nveis hie-

    rrquicos, absentesmo, horas extras, antropometria;

    6) sade coletiva: manifestaes mais freqentes, mais graves, declarados

    ou no;

    7) dimenso tcnica da produo: tecnologia, caractersticas das matrias

    primas, variaes sazonais da produo; produto: tipo, qualidade e mate-

    riais;

    8) organizao da produo: fluxogramas do processo, principais etapas e

    tarefas, lay-out, tecnologia, automao, metas produtivas, capacidade de

    produo, ndice de produtividade, % de refugo, % de utilizao da capa-

    cidade instalada, taxa de ocupao das mquinas, o vocabulrio do me-

    tier, observao das latas de lixo, modelos de gesto, gesto de esto-

    ques, gesto da qualidade;

    9) organizao do trabalho: horrios, turnos, cadncias, polticas de remu-

    nerao, reparties de tarefas, polivalncia, qualificaes, terceirizao,

    grau e forma de equipes, organograma;

    10) dimenso legislativa e regulamentos: ambiental, sanitria, civil e penal,

    condies de trabalho, propriedade industrial, insalubridade, periculosi-

    dade e penosidade;

    11) resduos: exigncias quanto aos rejeitos industriais, o que feito com o

    lixo, qualidade, processamento;

    O passo seguinte a DEFINIO DAS SITUAES DE TRABALHO A

    SEREM ESTUDADAS. A escolha da situao a analisar parte, necessariamente, da DE-

    MANDA, dos primeiros contatos com os operadores e das hipteses iniciais que j come-

    am a ser formuladas pelo ergonomista.

    Feito isso, hora das OBSERVAES GERAIS E PRELIMINARES.

    Neste momento o processo tcnico e as atividades da empresa so analisados (objetivos e

  • 52

    normas de avaliao e controle, descries do processo, divises de tarefas, entre outros).

    importante que sejam descritos os itens que foram observados, como foram realizadas as

    observaes livres, e se houve a identificao de incidentes e acidentes (como e em que

    quantidade, por exemplo), bem como a metodologia das entrevistas e da coleta das verbali-

    zaes dos trabalhadores.

    Deve o estudo identificar um PR-DIAGNSTICO, a partir do qual o tra-

    balho foi estruturado, onde as HIPTESES tenham sido detalhadas. Coerente com este pr-

    diagnstico e com as hipteses de trabalho, o PLANO DE OBSERVAO (variveis ob-

    servveis, pr-codificao, testes, tcnicas de registro utilizadas) dever estar perfeitamente

    explicitado no estudo. Em nosso meio so poucas as anlises ergonmicas cuja descrio

    contempla esta questo.

    Os passos seguintes so as OBSERVAES DETALHADAS. O estudo

    ergonmico deve conter, deve identificar, todas as OBSERVAES SISTEMTICAS rea-

    lizadas (coleta de dados, anlises, validao, anlises comparativas). Esta demonstrao de

    fundamental importncia, por exemplo, para quem analisa um estudo dessa ordem, de modo

    a permitir a compreenso, por quem l o documento, de qual a lgica e qual a estratgia do

    ergonomista.

    A seguir, selecionamos alguns elementos que podem fazer parte e que po-

    dem constituir essa parte do documento, de forma a descrever e dar maior visibilidade s

    tarefas executadas. Esta lista consta na literatura consultada e deve ser entendida como de

    carter exemplificativo.

    - Dados a serem levantados referentes ao homem

    Operador (ou operadores) que intervm no posto (ou postos) e seu

    papel no sistema de produo;

    Formao e qualificao profissional;

    Nmero de operadores trabalhando simultaneamente sobre cada posto

    e regras de diviso de tarefas (quem faz o qu?);

  • 53

    Nmero de operadores trabalhando sucessivamente sobre cada posto e

    regras de sucesso (horrios, modos de alternncia das equipes);

    Caractersticas da populao: idade, sexo, forma de admisso, remu-

    nerao, estabilidade no posto e na empresa, absentesmo, turn-over,

    sindicalizao, etc.

    - Dados referentes (s) mquina(s)

    Estrutura geral da mquina (ou mquinas);

    Dimenses caractersticas (croqui, foto, fluxograma de produo);

    rgos de comando da mquina;

    rgos de sinalizao;

    Princpios de funcionamento da mquina (mecnico, eltrico, hidru-

    lico, pneumtico, eletrnico, entre outros);

    Problemas aparentes na(s) mquina(s);

    Aspectos crticos evidentes na(s) mquina(s).

    - Dados referentes s aes

    As aes imprevistas ou no programadas;

    Os principais gestos de trabalho realizados pelo operador (ou operado-

    res);

    As principais posturas de trabalho assumidas pelo operador;

    Os principais deslocamentos realizados pelo operador;

    As principais ligaes sensrio-motoras;

    As grandes categorias de tratamentos de informao;

    As principais decises a serem tomadas pelo operador;

    As principais regulaes ao nvel: do homem, do posto, do sistema;

    As principais aes do operador sobre: a mquina, as entradas e as

    sadas.

  • 54

    - Dados referentes ao meio ambiente de trabalho

    O espao e os locais de trabalho (dados antropomtricos e biomecni-

    cos);

    O ambiente trmico (temperatura, umidade relativa do ar);

    O ambiente sonoro (presso sonora, freqncia de emisso do rudo,

    tempo de exposio ao rudo);

    O ambiente luminoso (nvel de iluminamento, luminncia, ofusca-

    mento);

    O ambiente vibratrio (intensidade, amplitude, freqncia);

    O ambiente toxicolgico (concentrao de partculas e gases txicos).

    Outro elemento importante do estudo ergonmico a AVALIAO DAS

    EXIGNCIAS DO TRABALHO, que podem ser de diferentes ordens. Salientamos que a

    lista a seguir apresentada no necessita de estar toda ela explicitada no estudo, mas serve

    como elemento de auxlio, e, conforme a demanda, os estudos iniciais e as hipteses sugeri-

    das, coerente com o problema que est sendo investigado, o relatrio apresentado dever

    trazer, claramente, quais as pertinentes ao caso, e detalhar aquelas que foram preocupao

    do tcnico.

    Exigncias Fsicas do Trabalho:

    - Referentes tarefa e situao:

    . Esforos Dinmicos: deslocamentos a p, transportes de cargas, utiliza-

    o de escadas, etc., considerando-se freqncia, durao, amplitude e

    expresso de fora exigida;

    . Esforos Estticos: postura exigida por uma determinada ativi-dade,

    considerando a partir de certas medidas no posto de trabalho, estimativas

    de durao da atividade e freqncia.

    - Referentes ao organismo humano:

    . Posturas, Movimentos, Gastos Energticos.

  • 55

    Exigncias Sensoriais do Trabalho

    - Dados referentes s fontes de informao

    Levantamentos dos diferentes sinais teis ao operador (ou operado-

    res);

    Diferentes tipos de canais (visuais, auditivos, tteis, olfativos ou gus-

    tativos);

    Variedade de suportes (cor, grafismo, letras);

    Freqncia e repartio dos sinais;

    Intensidade dos sinais luminosos e sonoros;

    Dimenses dos sinais visuais (relao distncia-formato, p.ex.);

    Discriminao dos sinais de um mesmo tipo (sonoro, p.ex.);

    Riscos do efeito de mscara ou de interferncia de sinais;

    Disperso espacial das fontes;

    Exigncias de sinais de advertncia e de sistemas de interao;

    Importncia das diferenas de intensidade a serem percebidas.

    - Dados referentes aos rgos sensoriais

    Viso:. Campo visual do operador e localizao dos sinais;

    . Tempo disponvel para acomodao visual;

    . Riscos de ofuscamento;

    . Acuidade visual exigida pela tomada de informao;

    . Sensibilidade s diferenas de luminncias;

    . Rapidez de percepo de sinais visuais;

    . Sensibilidade s diferenas de cores;

    . Durao da solicitao do sistema visual.

    Audio:

  • 56

    . Acuidade auditiva exigida para recepo dos sinais sonoros;

    . Riscos de problemas de audio (notadamente em razo de intensi-

    dade sonora muito elevada, solicitando de forma intensa o sistema

    auditivo);

    . Sensibilidade s comunicaes verbais em meio barulhento;

    . Sensibilidade s diferenas de caracteres dos sons (freqncia, tim-

    bre, tempo de exposio).

    - Dados referentes aos dispositivos sinais-comandos

    Nmero e variedade de comandos das mquinas;

    Posio, distncia relativa dos sinais e dos comandos associados;

    Grau de preciso da ao do operador sobre o comando das mquinas;

    Intervalo entre o aparecimento do sinal e o incio da ao;

    Rapidez e freqncia das aes realizadas pelo operador;

    Grau de complexidade nos movimentos de diferentes comandos, ma-

    nobrados seqencialmente ou simultaneamente;

    Grau de realismo dos comandos;

    Disposio relativa dos comandos e cronologia de sua utilizao;

    Grau de correspondncia entre a forma dos comandos e suas finalida-

    des;

    Grau de coerncia no sentido dos diferentes movimentos de comandos

    com efeitos similares.

    - Dados referentes ao operador

    Exigncias antropomtricas: posio dos comandos em relao s zo-

    nas de alcance das mos e dos ps;

    Posturas ou gestos do operador susceptveis de impedir a recepo de

    um sinal;

    Membros do operador envolvidos pelos diferentes comandos da m-

    quina;

  • 57

    Aes simultneas das mos ou dos ps;

    Grau de encadeamento dos gestos sucessivos;

    Grau de conformidade dos deslocamentos dos comandos em relao

    aos esteretipos dos operadores;

    Grau de compatibilidade entre efeito de uma ao sobre um comando,

    percebido (ou imaginado) pelo operador, e a codificao utilizada

    (forma, dimenso, cor) deste comando.

    A ANLISE DA ATIVIDADE deve vir acompanhada de elementos que

    identifiquem as atividades gestuais, o contedo do trabalho, os tempos de cada um dos pe-

    rodos e componentes do trabalho, e o processo de trabalho que est sendo analisado, in-

    cluindo a, conforme o caso, cronometragens.

    Em nosso meio os processos cognitivos no tem sido estudados. Alguns elemen-

    tos que podero compor este item so:

    - Planificao do Pessoal do Trabalho:

    a) avaliao da tarefa;

    b) definio da tarefa;

    c) definio de procedimento.

    - Representao Mental da Atividade de Trabalho

    O DIAGNSTICO outro aspecto de relevante importncia. No deve se

    restringir a frases como a empresa cumpre com a NR 17, ou a empresa deve trocar seus

    mveis para outros mais ergonmicos, por exemplo. Essa uma caracterstica muito fre-

    qente dos diagnsticos ergonmicos que temos recebido. Devemos nos preocupar em

    promover estudos ergonmicos que diagnostiquem as condies de trabalho real na situa-

    o escolhida e explicitem bem este diagnstico. Este diagnstico deve ser composto por

    parte referente ao chamado DIAGNSTICO LOCAL, mas tambm deve estar articulado a

  • 58

    um DIAGNSTICO GLOBAL, onde este diagnstico local relacionado atividade e

    funcionamento da empresa, ou do grupo a que ela pertence, e aos determinantes scio-

    econmicos onde ela est inserida.

    Por ltimo, as RECOMENDAES, onde o analista deve propor a melho-

    ria dos resultados do trabalho, tanto no aspecto produo, mas principalmente no aspecto

    sade. Nas recomendaes so indicadas as transformaes e melhorias efetivas das condi-

    es de trabalho propostas, incluindo a, necessariamente, os aspectos relativos ao desen-

    volvimento pessoal dos trabalhadores, como a formao para as novas atividades, ou os no-

    vos postos de trabalho que estaro sendo implantados, por exemplo.

    RR EE FF EE RR NN CC II AA SS BB II BB LL II OO GG RR FF II CC AA SS

    BARREIRA, T. H. C. Um Enfoque Ergonmico para as Posturas de Trabalho. Revista

    Brasileira de Sade Ocupacional, 17(67): 61-71, jul. /set. 1989.

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    COUTO, H. A. Ergonomia Aplicada ao Trabalho: o manual tcnico da mquina hu-

    mana, 2 v. Belo Horizonte: Ergo Editora. 1995.

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    FIALHO, F. e SANTOS, N. dos. Manual de Anlise Ergonmica no Trabalho. Curitiba,

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    GRANDJEAN, E. Manual de Ergonomia: adaptando o trabalho ao homem. 4 ed. Porto

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    IIDA, I. Ergonomia: projeto e produo. So Paulo: Editora Edgard Blccher. 1997.

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    RIO, R. P. e PIRES, L.. Ergonomia: fundamentos da prtica ergonmica. Belo Hori-

    zonte, Editora Health. 1999.

    SANTOS N. et all. Antropotecnologia: Ergonomia dos sistemas de produo. Curitiba.

    Gnesis.

    VIDAL, M. C. e GOMES, J. O. Roteiro de anlise Ergonmica do Trabalho. (Notas de

    Aula, Texto 2), Disciplina de Engenharia do Trabalho, Curso de Engenharia de Produo,

    Rio de Janeiro, GENTE/COPPE/UFRJ. 1996

    WISNER, A.. Por Dentro do Trabalho - Ergonomia: Mtodo & Tcnica. So Paulo, Ed.

    FTD/Obor. 1987.

    __________. A Inteligncia no Trabalho. So Paulo, FUNDACENTRO. 1994.

  • 60

    AA NN EE XX OO II

    O C o r t e M a n u a l d a C a n a - d e - a c a r

    Maria Cristina GonzagaPesquisadora da Diviso de Ergonomia da FUNDACENTRO

    1. Introduo

    Este texto no pretende ser um manual sobre os aspectos ergonmicos da co-

    lheita de cana-de-acar, e sim a descrio de experincias e observaes que surgiram com

    estudos conduzidos pelo Setor de Ergonomia da FUNDACENTRO, sobre as atividades de

    corte manual de cana.

    Os dados que apresentamos constam de duas abordagens:

    a) Um estudo de Comunicaes de Acidentes de Trabalho, por solicitao do

    Ministrio Pblico do Estado de So Paulo, de cunho epidemiolgico des-

    critivo, que nos permitiu conhecer os principais tipos de acidentes ocorri-

    dos com os cortadores de cana, diagnstico essencial para se direcionar

    uma interveno que possa levar reduo dos mesmos. WISNER (1987)

    considera que todos os problemas ligados ao trabalho so de natureza

    probabilstica, isto , certos trabalhadores so atingidos em graus dife-

    rentes, outros no o so. Para perceber as causas de numerosos proble-

    mas ligados ao trabalho, uma abordagem epidemiolgica indispensvel

    a nvel da empresa ou, mais amplamente, do ramo industrial.

    b) A Anlise Coletiva do Trabalho, baseada na expresso dos trabalhadores,

    que alm de nos trazer informaes sobre as atividades do trabalho, nos

    leva ao que gera os sentimentos no trabalho, e nos permite compreender

    os sofrimentos e prazeres. Consideramos essa compreenso essencial para

  • 61

    dar base s intervenes de cunho ergonmico, afim de priorizar os as-

    pectos a serem modificados e de respeitar os aspectos a serem mantidos.

    Alertamos que no faremos propostas de solues por considerar que as mes-

    mas so resultado de uma construo, que depende de saberes que envolvem os trabalhado-

    res e as empresas, desde j ressaltando que no se tratam de solues puramente tcnicas.

    2. A importncia do setor lcool-aucareiro

    A produo de cana na safra 97/98 foi de 300.856.247.000 quilos, gerando

    14.778.687.000 quilos de acar e 15.161.864.000 litros de lcool (Jornal da Cana). Para

    esta produo, 328 usinas de acar e lcool geraram 602.000 empregos diretos, desde o

    plantio da cana sada de acar e lcool da usina.

    Se considerarmos que entre 10 a 20% do total de cana foi cortada mecanica-

    mente, podemos ter uma noo do custo humano que representou o corte manual, isto , os

    80% restantes, ou seja, 240.684.997.600 quilos!

    3. Os acidentes de trabalho, indicadores de disfuno do trabalho

    No estudo de Comunicaes de Acidentes de Trabalho (GONZAGA et al,

    1997), da regio de Catanduva, So Paulo, foram levantadas 1890 CAT registradas nos anos

    de 1995/96, sendo selecionadas 755, relacionadas a acidentes ocorridos com cortadores de

    cana (39,9%), e que apresentavam dados completos, conforme figura 1.

    No material analisado, 23 municpios tiveram registro de acidentes, referentes

    a 21 empresas do setor canavieiro.

  • 62

    Figura 1

    Distribuio das Cats segundo Grupos

    Bco/Ilegvel**12,2%

    Agroind12,2%

    Rural6,8%

    Urbano**28,9%

    Cortador39,9%

    **- No entraram no estudo

    3.1 Caractersticas da populao estudada

    Os acidentados so em sua maioria homens (85,1%). Com relao a faixa et-

    ria, 66% dos casos concentrava-se entre 20 e 40 anos, conforme figura 2. A anlise dos aci-

    dentes com faco demonstra que 12,7% so com menores de 18 anos.

    Figura 2

  • 63

    Distribuio das Cat's segundo Faixa Etria/Cortador

    41

    68

    187

    144

    100

    65 58

    28 30 217

    menos 18 18-19 20-24 25-29 30-34 35-39 40-44 45-49 50-54 55-59 60-650

    50

    100

    150

    200

    250

    3.2. Forma de contratao e variao salarial

    O sistema de contratao diria foi o mais comum no grupo de cortadores

    (51,5%), seguido do mensal (26,1%) e dos horistas (22,4%).

    Tabela 1 : Forma de contratao dos Cortadores

    Forma de Contrata-

    o N%

    Diarista 387 51,5

    Mensalista 196 26,1

    Horista 168 22,4

    Total* 751 100,0

    * Foram 4 sem informao

    Para os diaristas, a diria, em 76% dos casos, foi de R$6,17 e, 14,5% recebem

    R$6,91. Entre os mensalistas pudemos observar que 36,2% recebem R$228,3 e, 21,4% re-

    cebem R$185,1. A variao encontrada entre os salrios foi de R$147,9 a R$403,03. No

  • 64

    pagamento por hora houve uma variao de R$0,85 a R$1,02, sendo que em 38,7% dos ca-

    sos o valor foi de R$0,91. Estes baixos valores so coincidentes com os relatos e holerites

    dos cortadores, encontrados em nossa anlise coletiva.

    3.3 Os Acidentes de Trabalho

    A ocorrncia de acidentes est concentrada no perodo da safra da cana,

    conforme figura 3.

    Figura 3

    Distribuio das Cats segundo Ms de Ocorrncia

    Cortador

    2 0 1 0 1 2

    100 9690

    117

    58

    81

    1628

    3646

    64 64

    3 0 1 2

    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 110

    20

    40

    60

    80

    100

    120

    140

    1995 1996

    Safra de cana Safra de cana

    Entre os cortadores, o horrio onde houve uma concentrao de casos de aci-

    dentes foi entre 8 e 9 horas, ou seja, aps 2 a 3 horas do incio da jornada, conforme figura

    4.

    Figura 4

  • 65

    Distribuio das Cat's segundo Grupo e Horrio do Acidente

    0-01 2-03 4-05 6-07 8-09 10-11 12-13 14-15 16-17 18-19 20-21 22 e+0

    5

    10

    15

    20

    25

    30

    35Cortador

    AgroindstriaRural

    Na tabela 2, descrevemos os objetos causadores, distribudos segundo sua fre-

    qncia. O faco o objeto causador mais freqente, assim como em outros estudos, como

    o feito em Pernambuco (CENTRO JOSU DE CASTRO) , onde a porcentagem encontrada

    foi de 82,83% e o da FGV no Rio de Janeiro.

    Tabela 2 : Objeto Causador dos acidentes em Cortadores de canaObjeto Causador N %

    Faco 424 56,2Cana 184 24,5Colonio 25 3,3Buraco 23 3,0Queda 18 2,4Sulco de cana 30 4,0Toro 9 1,2Outros* 20 2,6Ilegvel 22 2,9Total 755 100

    * animal desconhecido, aranha, cisco de cana, corpo estranho, corte de cana, espinho, fagulha da cana, forte dor, leira de cana, madeira,palha de cana, pedao de cana, pedra, solo, soqueira de cana.

    Na tabela 3, podemos observar a distribuio dos acidentes, segundo as partes

    do corpo atingidas.

  • 66

    Tabela 3: As Partes do Corpo Atingidas nos acidentes com Cortadores

    Parte do Corpo N %Membro Superior 309 41,3

    Membros Inferiores 246 32,9

    Olhos 106 14,2

    Regio Dorsal 37 4,9

    Outros 38 5,0

    Ilegvel 12 1,6

    Total* 748 100,0

    O faco se destacou enquanto objeto causador atingindo os: dedos das mos

    (84,8%), perna (91,8%), mos (75%), p (62,8%) e dedos dos ps (97,1%). Os objetos cau-

    sadores que atingiram o brao se distriburam da seguinte forma: 35,1% dos registros foram

    ocasionados por faco, 20,8% por feixe de cana e 19,5% por cana.

    O buraco no solo foi responsvel por 20,6% dos acidentes que atingiram o

    p e 33,3% dos que atingiram o joelho. Os acidentes referentes aos olhos tiveram na pontei-

    ra de cana o principal objeto causador, 68,6% dos casos; j para a regio dorsal o destaque

    se deu para feixe de cana (48,6%) e cana (29,7%).

    No estudo da Fundao Getlio Vargas(83), encontramos dados semelhantes

    com relao as partes do corpo atingidas, como pode ser observado na tabela a seguir:

  • 67

    Tabela 4 Partes do corpo atingidas, FGV (1983)

    Parte do corpo %Olhos, cabea, pescoo 17,5Membros superiores 47,5Membros inferiores 33,9

    O grupo de ferimentos e leses dos membros inferiores, representa 30% dos

    casos. Se acrescentarmos a eles os ferimentos e leses no especificadas representa 18,4%

    podemos considerar que cerca de metade dos diagnsticos foram devidos a ferimentos e

    leses.

    No grupo das leses oculares esto compreendidos diagnsticos como cerati-

    tes, conjuntivites, corpo estranho, etc.

    O terceiro grupo que chama a ateno o das tendinites, tenossinovites,

    sinusites, bursites e epicondilites com 58 casos (7,6%).Estas afeces indicam que os

    cortadores de cana podem estar entrando no rol de trabalhadores sujeitos s Leses por

    Esforos Repetitivos ou LER/DORT.

    O grupo das lombalgias, representa 4,6% provavelmente relacionado s postu-

    ras de trabalho e movimentos do trabalho.

    No grupo de entorses, predomina os acidentes que atingem os membros in-

    feriores, relacionados aos problemas de buracos ou irregularidades no solo.

    As contuses e fraturas geralmente atingem os membros superiores. Houve

    um caso de fratura de costela e 6 contuses de trax registrados.

    Tabela 5: Distribuio dos LEMs segundo Diagnstico, Cortadores

  • 68

    Diagnstico N %Ferimentos e leses MI e MS 218 28,8

    Ferimentos e leses no especificadas 139 18,4

    Leses oculares 73 9,6

    Tendinites 58 7,6

    Lombalgias 35 4,6

    Entorses 34 4,5

    Contuses 31 4,1

    Fraturas 13 0,5

    Outros no especificados 29 3,8

    Ilegveis 125 16,6

    Total 755 100,0

    Situao semelhante foi observado no estudo da FGV (p.54), com referncias

    sobre o risco de desenvolver doenas relacionadas ao trabalho, como:

    a) leses articulares como tendinites e tenossinovites para o punho e cotovelo,

    em decorrncia de movimentao excessiva dos membros superiores;

    b) no corte da cana queimada, os trabalhadores ficam expostos a fuligem o que

    pode levar a doenas do aparelho respiratrio;

    4. As atividades do corte

    Na regio de Araraquara os cortadores cortam em mdia 8000 quilos de cana

    por dia, o que significa que muitos vo muito alm dessas medidas.

    O corte manual pode ser em cana crua ou queimada. A queima da cana im-

    portante no corte manual, pois o corte de cana crua dificulta o trabalho, em funo da pre-

    sena de espinhos, folhas pontiagudas, presena de animais peonhentos no campo etc .

    Os movimentos do corte:

  • 69

    a) O trabalhador pega de uma a trs canas com a mo esquerda;

    b) Flexiona o trax sobre o abdome;

    c) Com o faco seguro pela mo direita, d um corte na olhadura da cana;

    d) Com o faco seguro com a mo direita, d um ou mais golpes para cortar a

    cana, rente ao solo;

    e) Ergue-se, ao mesmo tempo que, com a mo esquerda, inclina a cana, bem

    rente ao cho;

    f) Levanta o membro superior direito;

    g) Dependendo da inclinao do solo, d o corte de olhadura por cima ou por

    baixo do feixe de cana;

    h) Isto feito, joga as canas cortadas com a mo esquerda a leira de cana, que

    fica sempre centrada em relao as linhas cortadas;

    i) Depende da limpeza da cana, o cortador d inmeros golpes para limpar

    toda a cana, seja enquanto ela est em p, ou quando j est na leira.

    A jornada longa; os trabalhadores saem de casa entre 5:00 e 6:00 horas e s

    retornam no final da tarde, levando consigo uma mochila ou sacola com a marmita, caf, as

    ferramentas de trabalho (lima, faco), que chega a pesar 6 quilos, mais o garrafo de gua.

    Os equipamentos de trabalho, normalmente so comprados pelos trabalhado-

    res, como reflete a fala de um trabalhador: "eu compro luvas, camisa, lima, faco, esforo

    contnuo para cortar a cana.

    Fatores que interferem no trabalho :

    a) O estado em que se encontra a cana tambm interfere no trabalho: a cana

    reta fcil de cortar e rende mais, a cana rolo aquela que passa do

    ponto de corte, ficando muito grande ca com o vento, se enrola e, s ve-

    zes se enraza;

  • 70

    b) O local onde se encontra o talho tambm interfere nas condies do

    corte, se estiver num terreno com declividade acentuada a cana cai com o

    excesso de vento e o prprio corte prejudicado;

    c) O nmero de ruas do eito tambm importante; no eito com 5 ruas por ser

    mais largo o trabalho facilitado pois possvel jogar as canas nas leiras,

    no eito com 6 a 7 ruas, o faco engancha e as distncias para amontoar as

    canas cortadas aumentam, exigindo o carregamento manual dos feixes de

    cana;

    d) Esta atividade tem exigncias tcnicas para tornar o produto disponvel

    para o processamento industrial. O corte basal deve ser feito o mais rente

    possvel do solo, j que nesta parte do colmo concentra-se o maior teor de

    sacarose; O perodo entre queima/corte e o processamento no deve ser

    muito longo, pois existe a alterao da sacarose; assim, as frentes de corte

    trabalham num tempo justo entre a demanda da usina e as exigncias da

    cana;

    e) Existem locais onde a cana no pode ser queimada, por exemplo prximo

    aos fios de alta tenso; neste caso o corte feito com a cana verde, ou cana

    na palha. O rendimento cai muito neste caso, e exige do cortador muito

    mais energia para a realizao do trabalho.

    5. O sofrimento no trabalho: a expresso dos trabalhadores

    Em primeiro lugar, as dores no corpo, as cibras, os acidentes, o emagreci-

    mento, o chegar em casa esgotado. Outro fator de cansao so as longas caminhadas que o

    cortador deve fazer. O tempo de percurso pode levar horas, at as frentes de trabalho. Den-

    tro do prprio canavial, eles percorrem longas distncias sob sol ou chuva.

  • 71

    Mas existem questes prioritrias: a primeira trata da forma de pagamento e da

    falta de transparncia em relao produo, que comentado num item da NR17.

    A outra, o controle que feito por uma intrincada rede hierrquica: empreitei-

    ro, turmeiro, monitor, medidor, fiscal, fiscal geral e o gerente. O controle se d desde a dis-

    tribuio do local de trabalho at o trabalho executado e os seus resultados.

    Todo este controle e poder so alimentados por uma srie de punies aos tra-

    balhadores, que vo desde as reprimendas e ameaas verbais at a demisso.

    6. Alguns itens da NR17

    Pergunta:Existe a adaptao das condies de trabalho s caractersticas psicofisiolgi-

    cas dos trabalhadores, de modo a proporcionar um mximo de conforto, segurana e desem-

    penho eficiente?

    Resposta: No. Porque?

    Item 17.2. Levantamento, transporte e descarga de cargas.

    Embora aparentemente este item no esteja contemplado no corte de cana,

    muitos trabalhadores cortam em torno de 18 toneladas de cana por dia, ou seja 18.000 qui-

    los, o que representa 600 sacas de 30 quilos de uma mercadoria qualquer!!! E sem diferena

    entre homens, mulheres e menores de idade. Alm do mais, esta carga tem que ser jogada ou

    carregada at as leiras, onde so organizadas para serem transportadas.

    Item 17.4. Equipamentos dos postos de trabalho.

  • 72

    O faco, podo o equipamento bsico do cortador, e a causa mais freqente

    de acidentes. E os cortadores se vem obrigados a improvisar para melhorar sua qualidade,

    emborrachando o cabo, colocando faixas de pneu de bicicleta. E o uso de luvas tambm no

    nada fcil, principalmente no aprendizado do trabalho, quando muitas vezes atrapalham a

    atividade de corte, mesmo sendo protetor de calos, bolhas e ferimentos.

    Item 17.6. Organizao do trabalho - normas de produo, no modo operat-

    rio, no ritmo de trabalho e no contedo das tarefas.

    No item 17.6.3. consta o seguinte: nas atividades que exijam sobrecarga mus-

    cular esttica ou dinmica do pescoo, ombros, dorso e membros superiores e inferiores, e a

    partir da anlise ergonmica do trabalho, deve ser observado o seguinte:

    a) Todo e qualquer sistema de avaliao de desempenho para efeito de remu-

    nerao e vantagens de qualquer espcie deve levar em considerao as

    repercusses sobre a sade do trabalhador.

    O pagamento de cana cortada se faz por meio de um complicado sistema de

    medidas, por produo. A medio estabelecida por metragem, mas seu pagamento feito

    por tonelagem.

    Teoricamente, quanto mais se corta mais se ganha. Entretanto, a forma como

    se mede a produo, complicada e incompreensvel aos cortadores, que trabalham espe-

    rando receber de acordo com sua produo. O problema saber como a empresa mede, pois

    no existe uma lgica simples e o cortador nunca sabe o quanto vai receber, embora saiba

    bem o quanto trabalhou. Assim, v-se obrigado a calcular constantemente, no intuito de ter

    algum controle sobre o que produziu. Isto torna a atividade mais penosa.

    Como ilustrao de ganho por dia, colocamos dados de holerite, referente a

    duas semanas de trabalho, na qual esto discriminados para cada dia e cada talho os metros

    cotados e os valores unitrios dos metros. Neste caso, o sistema utilizado era o metrinho,

  • 73

    cujo preo unitrio variou de R$0,004 a R$0,0175. A multiplicao do nmero de metros

    cortados pelo valor unitrio d o salrio em Reais ganho por dia.

    Dias da semana Metros cortados Salrios diri-os R$Preo unitrio por

    metro (R$)5 feira 650 07,83 0,012046 feira 1024 13,72 0,01339Sbado 420 04,06 0,00966Domingo - - -2 feira 442 03,90 0,008823 feira 1302 09,94 0,007634 feira 1525 08,02 0,005255 feira 1335 09,17 0,006866 feira 545 07,14 0,01310Sbado 288 03,77 0,01309Domingo - - -2 feira Faltou - -3 feira Faltou - -4 feira 365 06,39 0,017505 feira 540 07,99 0,01479

    b) Devem ser includas pausas para descanso

    Neste sistema de pagamento por produo, estas pausas nem so permitidas

    aos trabalhadores, que lutam contra o tempo, na tentativa de produzir o mximo. Mesmo

    sentindo cansao, emagrecendo, tendo cibras, dores no corpo, eles no se permitem fazer

    pausas de recuperao. Da o problema bsico estar na forma de pagamento.

    c) Quando do retorno do trabalho, aps qualquer tipo de afastamento igual ou

    superior a 15 (quinze) dias, a exigncia de produo dever permitir um

    retorno gradativo aos nveis de produo vigente na poca anterior ao afas-

    tamento. Este item nunca sequer pensado nesta forma de organizao do

    trabalho.

  • 74

    O item 17.5 referente s condies ambientais, no foram estabelecidas para

    as climticas. Entretanto o sol, o calor, as chuvas, os ventos, as poeiras levam ao descon-

    forto e tambm interferem na atividade; por exemplo, com a chuva o cabo do faco escor-

    rega, favorecendo a ocorrncia de acidentes, os escorreges em solo liso, o peso da cana

    mida, etc.

    No corte da cana queimada, h um fator agravante, em funo da exigncia da

    usina com relao a chegada no setor industrial da cana cortada no campo. Em funo desta

    exigncia, eles queimam a cana no talho ao lado dos cortadores, o corte feito no meio

    da cana quente, no meio da fumaa, da fuligem, da cinza, etc.

    Outras Normas Regulamentadoras:

    O fornecimento de Equipamento de Proteo Individual s fornecem (quan-

    do fornecem) na primeira vez, quando acaba (gasta, estraga, no existe reposio).

    A ausncia de condio de descanso, de almoo e higiene a gua, alimentos

    e tudo tem que ser levado pelo cortador, que pode se deslocar por longas distncias. O ser-

    vio sujo.

    Itens que no esto diretamente relacionados com as Normas:

    a) Consumo energtico excessivo, que aparece com o emagrecimento no de-

    correr da safra. Ou poderamos considerar a ingesto insuficiente de ali-

    mentos, que poderia ser complementada pela empresa.

    No estudo (GONZAGA et al, 1997), existe a indicao de que o horrio de

    maior concentrao de acidentes aps 2 a 3 horas de trabalho , isto nos reporta hiptese

    confirmada acima.

  • 75

    Salientamos MINETTI (1999) apud SOBOLL 1973, que estudando aspectos

    de produtividade nas empresas, observou que quando alm do desjejum, almoo e jantar,

    forem fornecidas duas merendas, ocorreu 10% do aumento de produo. Esta pesquisa

    mostrou ainda que o operador bem nutrido apresenta maior disposio fsica, assimilao

    de treinamento aplicado e ateno ao trabalho, o que resulta em menos horas parado, em

    virtude de diminuio de acidentes, alm do incremento da produo.

  • 76

    BB II BB LL II OO GG RR AA FF II AA

    CENTRO JOSU DE CASTRO DE ESTUDOS E PESQUISAS - Os trabalhadoresinvisveis-condio de vida e trabalho das crianas e adolescentes: RelatrioPreliminar, 1993.

    FERREIRA, Leda Leal. Anlise Coletiva do Trabalho, Revista Brasileira de Sade Ocu-pacional, So Paulo, v. 21, n. 78, p.8-19, 1993.

    FERREIRA, Leda Leal, GONZAGA, Maria Cristina, DONATELLI, Sandra et al, AnliseColetiva do trabalho dos cortadores de cana da regio de Araraquara, So Paulo,1997,FUNDACENTRO, 59 p.

    F.G.V Estudos de alternativas ergonmicas para a colheita na lavoura de cana-de-accar, Rio de Janeiro: FGV ISOP, 1983

    GONZAGA, Maria Cristina, FERREIRA, Leda Leal, BUSSACOS, Marco Antonio et al,Estudo das comunicaes de acidente de trabalho na regio de Catanduva 1995/1996, So Paulo, 1997.

    Jornal Cana. Fonte Consultada: www.jornalcana.com.br, 14/01/2000.

    MINETTI, Luciano Jos, SOUZA, Amaury Paulo de, FIEDLER, Nilton Csar et al, Condi-es alimentares de operadores de motosserra de uma empresa de corte florestal noBrasil, ABERGO, 1999.

    WISNER, Alain. Por dentro do trabalho, ergonomia: mtodo e tcnica. Trad. Flora Ma-ria Gomide Vezz. So Paulo, Ed. Obor, 1987.