Revista Iniciao Vol. 3 n1 Ano 2014

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    24-Jan-2015

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Iniciao Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica tem como objetivos principais: publicar artigos originais que apresentem resultados relevantes de pesquisas e desenvolvimentos realizados por alunos do ensino tcnico ou superior, propiciar debate entre autores e leitores para o desenvolvimento do conhecimento nas reas de pesquisa, alm de contribuir com a formao acadmica, cientfica e profissional de alunos de Iniciao Cientfica. Publicao Cientfica do Centro Universitrio Senac - ISSN 2179-474X Confira a nova edio Temtica de Comunicao, Arquitetura e Design que alm da seo artigos conta com as sees especiais: - Trajetria - Experincia (com vdeo gravado por alunos durante um intercmbio) - Internacional e Anlise. Acesse a edio na ntegra! http://www1.sp.senac.br/hotsites/blogs/revistainiciacao/?page_id=580

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  • 1. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design Vol. 3 no 1 janeiro de 2014, So Paulo: Centro Universitrio Senac ISSN 2179474 X 2014 todos os direitos reservados - reproduo total ou parcial permitida, desde que citada a fonte portal de revistas cientficas do Centro Universitrio Senac: http://www.revistas.sp.senac.br e-mail: revistaic@sp.senac.br Editorial Esta edio, dedicada a Comunicao, Arquitetura e Design, inaugura a nova fase da Revista Iniciao, agora com edies temticas que focam cinco grandes reas do conhecimento. No poderamos ter comeado de forma melhor. Tivemos um nmero recorde de submisses e artigos de altssima qualidade, os quais compem uma bela fotografia da atuao cientfica, tecnolgica e artstica de futuros comunicadores arquitetos e designers brasileiros. Se esses jovens j esto iniciando com esse pique, e com essa qualidade, muito gratificante imaginarmos o que eles podero fazer - e estou certo de que faro - para ajudar a levar o Brasil ao protagonismo mundial em inovao, tecnologia e economia criativa. Imagino que alguns dos textos aqui publicados tero importncia histrica quando seus autores se tornarem destacados representantes de suas reas de atuao. Ento, leitor, aproveite essa oportunidade de acompanhar, enquanto escrita, parte da histria da cincia, arte, tecnologia e inovao brasileiras. Com a Revista Iniciao o Centro Universitrio Senac propicia a estudantes de todo o Brasil, ou mesmo do exterior, e a seus orientadores, oportunidades de divulgao, em peridico cientfico, dos resultados de seus trabalhos. Alm de importante complementao aos programas de iniciao cientfica, uma vez que redigir e publicar artigos parte integrante da atividade cientfica, essa publicao deve servir de estmulo a outros jovens estudantes que podem se inspirar ao conhecer os trabalhos de colegas. Profissionais, professores e pesquisadores tambm podero aproveitar os artigos aqui publicados e at mesmo localizar aquele talento que procuravam. Por fim, a sociedade em geral, a qual investe e tambm se beneficia das pesquisas desses jovens, poder acompanhar um pouco do que acontece nos laboratrios de pesquisa brasileiros. Registro, e agradeo, a inestimvel atuao da Profa Dra Myrna de Arruda Nascimento, co-editora desta edio, que com meticuloso capricho revisou e selecionou os trabalhos aqui publicados, bem como equipe editorial, composta pela Anielly Martins Rosa e pelo Vincius Cabral e Silva, coordenados pela Profa Dra Luciana Mara Ribeiro Marino. Agradecemos tambm aos avaliadores ad-hoc, os quais dedicaram precioso tempo para revisar e recomendar ajustes nos artigos. Por fim parabenizo e agradeo queles que so a razo da existncia da revista: os autores. Boa leitura a todos. Romero Tori

2. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design Vol. 3 no 1 janeiro de 2014, So Paulo: Centro Universitrio Senac ISSN 2179474 X 2014 todos os direitos reservados - reproduo total ou parcial permitida, desde que citada a fonte portal de revistas cientficas do Centro Universitrio Senac: http://www.revistas.sp.senac.br e-mail: revistaic@sp.senac.br Apresentao do Dossi Nossa primeira experincia como edio temtica apresenta expressiva diversidade de artigos, representativos da dinmica e das fronteiras imprecisas que caracterizam as reas da Comunicao, da Arquitetura e do Design e suas potenciais interlocues, diante da ao do pensamento contemporneo. Da pesquisa que adota o perfil da cidade-fbrica como referncia para o desenvolvimento de uma microcoleo de vesturios, ou estudos para compreender a centenria implantao do sistema Cia City e o papel singular dos bairros-jardins como memria urbana da Cidade de So Paulo, at a discusso da audiodescrio como recurso capaz de promover a incluso de pessoas portadoras de deficincias visuais, possvel flagrar, no espao cientfico inaugurado por esta publicao, situaes sui generis que aproximam contextos raramente associados como, a moda e o urbanismo, a publicidade e a incluso, e ainda a produo de biografias no universo do livro infantil. Os artigos relacionados rea de Comunicao, em particular, revelam anseios e estudos destinados a investigar as novas mdias e seus novos parmetros. Explorando os recursos oriundos dos novos meios em cenrios especficos como aquele que envolve a produo independente na televiso e as cotas de contedo na TV por assinatura, recentemente sancionadas por lei; ou compreendendo a lgica de uma plataforma de servios web para potencializar a experincia que os beatlemanacos possuem com a banda, e mesmo mergulhando no estranhamento assumido por personagens de filmes como Edward mos de tesoura, ou discutindo a ideia de autoria dentro da obra do diretor, adotando como objeto de anlise a minissrie brasileira O Amor Segundo B. Schianberg, os leitores certamente encontraro neste segmento provocaes capazes de sugerir e esboar oportunidades de pesquisa e produo no meio audiovisual. As aproximaes entre Arquitetura e Design destacam pontos de convergncia e limites compartilhados entre estas reas, e tem como protagonistas as investigaes voltadas ao resgate de conceitos e raciocnios defendidos por autores emblemticos, reconhecidos como pioneiros pelas suas experincias com novos materiais, sistemas e/ou procedimentos inovadores. Deste grupo de artigos fazem parte as pesquisas sobre Buckminster Fller, Eva Zeisel e o casal Charles e Ray Eames, e a sugesto de aplicao dos procedimentos especulados em hipteses experimentais propostas pelos jovens pesquisadores. No mbito do desenvolvimento de produto para espaos de dimenses reduzidas, destacamos os trabalhos de concluso de curso que refletiram sobre a relao objeto X espao atravs das propostas para o Mobilirio Multifuncional de Descanso, e para a Estao de Trabalho para Profisionais de Projeto , atualmente em exposio no Museu da Casa Brasileira, selecionada na categoria estudante. Ainda nesta interlocuo entre experimentao e inovao, temos o artigo referente ao desenvolvimento do Sistema Delta, projetado para o fechamento de edifcios explorando conceitos de montagem, modulao e adaptabilidade (promovem iluminao, ventilao e flexibilizao compositiva), e o ensaio que discute A Mutao do Objeto como Item de 3. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design Vol. 3 no 1 janeiro de 2014, So Paulo: Centro Universitrio Senac ISSN 2179474 X 2014 todos os direitos reservados - reproduo total ou parcial permitida, desde que citada a fonte portal de revistas cientficas do Centro Universitrio Senac: http://www.revistas.sp.senac.br e-mail: revistaic@sp.senac.br Projeto, enfatizando as interferncias causadas por um objeto multifuncional quando inserido na trade homem + objeto + espao. Com contribuies de Universidades e Faculdades da Paraba, Pelotas, Juiz de Fora, Campina Grande, alm de So Paulo e Lisboa, esta edio temtica especial j se constitui tambm especial graas diversidade e natureza dos artigos recebidos, oportunidade que nos motivou a criar quatro sees especiais: Experincia, com relato de pesquisadores de Iniciao Cientfica em intercmbio internacional; Trajetria, com depoimento de jovem pesquisador que deu continuidade carreira acadmica depois de graduado; Internacional, com artigo de pesquisador portugus, em duplo programa de mestrado, nas Faculdades de Lund, Sucia (Design Urbano Sustentvel) e Leuven, Blgica (Filosofia), discutindo a metodologia de design enquanto estrutura fundamental caracterstica da produo criativa de um indivduo em particular; e, por fim, Anlise, seo em que o professor discute os trabalhos de seus orientandos, estabelecendo o necessrio dilogo entre estes e o projeto de pesquisa do prprio pesquisador-orientador. O espectro amplo, porm convidativo, para que se possa desfrutar deste material com olhares mltiplos e curiosos, sagazes e corajosos, como os dos leitores que desejamos ter. At nossa prxima edio, Myrna de Arruda Nascimento. 4. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014, So Paulo: Centro Universitrio Senac ISSN 2179474 X 2014 todos os direitos reservados - reproduo total ou parcial permitida, desde que citada a fonte portal de revistas cientficas do Centro Universitrio Senac: http://www.revistas.sp.senac.br e-mail: revistaic@sp.senac.br Estao de trabalho para profissionais de projeto Workstation for design professionals Karin Frey Weege, Valria Fialho Estudante do Centro Universitrio SENAC Bacharelado em Design Industrial Professora do Centro Universitrio SENAC karinfreyweege@hotmail.com, valeriafialho@gmail.com Resumo. Este trabalho tem como objetivo projetar uma mesa de trabalho para profissionais das reas de projeto, buscando atender suas necessidades de uso como a falta de espao na superfcie de apoio, organizao e armazenamento. Para o desenvolvimento deste trabalho, foram pesquisados o espao de trabalho, mesas de escritrio existentes, materiais e sistemas de ferragens concebendo um conceito para o projeto. Palavras-chave: mesa de trabalho, estao de trabalho, escrivaninha. Abstract. This work aims to design a desk for project professionals seeking to meet their needs for use as a lack of space on the surface of support, organization and storage. To develop this study, we investigated the workspace, existing office desks, materials and systems designing a concept for the project. Key words: desk, workstation, davenport, bureau. 5. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 2 1. Introduo A mesa de trabalho uma das peas de mobilirio mais importantes dentro de uma empresa e fundamental para a eficincia do trabalho, dando todo o suporte de organizao e superfcie necessria para diversas atividades funcionais. O tema deste trabalho de concluso de curso surgiu da constatao da existncia de dificuldades existentes na utilizao de mesas de trabalho nos escritrios de design e arquitetura, caracterizado pela atividade projetual e nos quais se faz necessria a presena de maiores superfcies de apoio e formas eficazes de armazenamento de materiais de trabalho. No livro The designers workspace: ultimate office design de Douglas B. Caywood so mostrados diversos escritrios de design e arquitetura de diferentes tamanhos. Caywood (2004) afirma que os escritrios de design normalmente possuem mesas acima do tamanho que considerado padro, ou seja, maior que os tamanhos de mesas de trabalho utilizadas em outros tipos de escritrio. The designers office typically includes oversized desk and layout space for drawings. The industry has changed in the last two decades from a manual drafting table to a computer station. With these changes, mobility has become priority for tables, carts, and seating to make the design space most versatile. (CAYWOOD, 2004, P. x) Nos escritrios so compradas mesas sob medida ou mesas fabricadas em grande escala. As mesas que so fabricadas em grande escala so as mesas que so utilizadas para diversos tipos de escritrio com superfcies de tamanho padro. Este trabalho tem como objetivo criar uma mesa de trabalho que seja funcional para o pblico de profissionais de projeto, atendendo s peculiaridades da atividade. 2. Evoluo do espao de trabalho Cludia Andrade (2007) fala do ambiente de trabalho, a partir do sculo XIX, afirmando que at o final daquele sculo o escritrio era formado de mesas de madeira escura onde os funcionrios se sentavam ao lado do seu superior. Todos os funcionrios do escritrio eram homens e seu nico material de trabalho era a caneta tinteiro. Forty (2007) comenta que algumas escrivaninhas possuam tampas corredias para maior privacidade. Outras escrivaninhas possuam tampos inclinados para apoiar livros, assim o funcionrio poderia trabalhar em p ou sentado porem dava ao funcionrio uma privacidade, pois seu trabalho era difcil de ser supervisionado, s poderia ser visto por cima de seus ombros. procura de maior eficincia no trabalho foi resolvido tirar a tampa corredia e os tampos inclinados. A partir do sculo XX, houve um aumento de funcionrios pelo crescimento das empresas e, com isso, foi necessrio criar um novo sistema de organizao nos escritrios. O sistema criado foi o Bullpen, mais conhecido por Taylorismo, criado por Taylor com a ideia de organizar o ambiente de trabalho como uma fbrica onde cada um fazia uma nica funo, uma pequena parte do trabalho como nas linhas de montagem de uma fbrica, para maior rapidez, extraindo o mximo da produtividade de seus empregados, explica Andrade (2007). Com a aplicao deste sistema, os supervisores foram separados de seus funcionrios ganhando salas fechadas nos andares mais altos dos escritrios e possuam mobilirios luxuosos, assim mostrando superioridade. 6. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 3 Forty (2007) afirma que com a adaptao do Taylorismo, cada funcionrio tinha uma tarefa. Com isso foram criados mobilirios que se adequassem a funo de cada funcionrio para que reduzisse a fadiga e tivessem fceis mudanas de posicionamento durante seu trabalho, assim melhorando seu desempenho. Complementando com Andrade (2007) que afirma que todas as partes do mobilirio eram estudadas de acordo com a funo do funcionrio assim como o nmero de gavetas, o acabamento e suas dimenses eram estudados. Porm, quanto maior o seu nvel hierrquico, o mobilirio era mais luxuoso com mais gavetas, maior dimenso mesmo sem a necessidade. Alm disto, com o aparecimento das mquinas de datilografia foram contratadas mulheres para sua operao deixando os homens nos cargos executivos. Adrian Forty (2007) acrescenta que especialistas acreditavam que a padronizao da moblia traria melhores resultados no trabalho. Ento a moblia foi padronizada. Porem, o a hierarquia dos trabalhadores era definida por suas escrivaninhas, assim, a escrivaninha dos escriturrios era menor que a dos executivos mesmo sabendo que o executivo no necessitava de uma mesa de um tamanho maior que a de um escriturrio. Em 1910, foram divididas em departamentos as funes dos funcionrios assim, voltando a ter mveis planejados para cada funo do escritrio. Em 1920 comearam a utilizar os estudos de postura nos escritrios, que j eram aplicados nas fbricas. Assim, foram projetadas cadeiras baseadas nas utilizadas nas fbricas. Elas eram ajustveis e feitas de ao com estofados, confortveis porem, com aparncia industrial trazendo a aparncia da indstria para dentro do escritrio. A escrivaninha o mvel mais usado no escritrio. O empregado est sentado a ela constantemente. O mais alto tipo de eficincia do trabalho em uma escrivaninha obtido quando o prprio mvel constitudo e arranjado de tal forma que no se torne um obstculo ao progresso do trabalho de uma pessoa, mas, ao contrrio, a ajude de todos os modos possveis. (SCHULZE, 1913, p. 62 apud FORTY, 2007, p. 173) Com a adaptao do novo sistema, mobilirios e divises hierrquicas, o taylorismo interfere tambm na arquitetura do espao de trabalho, comenta Andrade (2007). Depois da guerra, os alemes criaram o sistema de Landscape Office, ou seja, Escritrio Panormico onde a inteno era tirar todas as divisrias do escritrio para maior facilidade de comunicao entre as reas. Andrade (2007) conclui que com esse sistema, o escritrio tinha s vezes uma aparncia de caos. Havia tambm plantas e obras de arte para trazer para o escritrio um pouco de informalidade. Adrian Forty (2007) ressalta que, em grande parte dos escritrios, os mobilirios perderam o ar fabril e incorporaram o design contemporneo com mobilirios de alto padro e de aparncia de mobilirios domsticos, e era utilizado para atrair funcionrios para trabalhar naquela empresa. Os mobilirios eram feitos de madeira clara, para fugir da aparncia dos mobilirios pr-guerra, com estrutura de tubos metlicos e cadeiras com cores vivas. Andrade (2007) acrescenta que com a ideia de deixar o ambiente mais aberto para facilidade de fluxos, comearam a utilizar estaes de trabalho modular em L. Herman Miller, em 1960, desenvolve um sistema de mveis para escritrio chamado Action Office System que traziam junto com as mesas de trabalho, diferentes tipos e armrios, mveis autoportantes e biombos para dividir reas de trabalho. Assim fazendo surgir outro layout de escritrio chamado Open Plan, ou seja, Escritrio de Planta Livre. Oferecendo divisrias de diferentes tamanhos dando maior ou menor 7. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 4 privacidade, fazendo com que o funcionrio focasse mais no trabalho. As divisrias ajudaram nos problemas de acstica e as estaes de trabalho trouxeram solues para a necessidade de espao para as tecnologias da poca como o telefone e computadores. Os supervisores voltaram a ficar em salas fechadas, mas desta vez salas feitas com biombos. Cludia Andrade (2007) comenta que com o tempo, os sistemas de estao de trabalho foram evoluindo junto com a tecnologia e se adaptando com a necessidade das empresas. Entre elas a necessidade de mobilirios compactos e que servissem de suporte para todas as tecnologias novas e conectividades eltricas. Outras mudanas no mobilirio foram a favor do bem estar do funcionrio. Os mveis ganharam bordas arredondadas, alturas diferenciadas para monitor e teclado, regulagem e altura nas cadeiras, apoios para os ps, entre outros, com essa evoluo foi criado o Escritrio Aberto que o escritrio formado por estaes de trabalho com divisrias que no passam de 1,20 metros de altura. Outro modelo de sistema de organizao de um escritrio o Escritrio Fechado que o escritrio todo dividido por paredes ou divisrias que o tipo de escritrio onde se necessita maior concentrao no seu trabalho. Tambm existe o modelo Escritrio Aberto/Fechado que uma mistura dos dois onde, os que tm salas fechadas, so por diviso hierrquica ou pela atividade exercida. Outro modelo que Andrade (2007) comenta, o Escritrio Territorial (Universal Plan). Muitas organizaes utilizam-se de uma variao do Universal Plan que limita as estaes de trabalho a trs diferentes tamanhos. Um tamanho acomoda 80% ou mais dos profissionais da rea de suporte e funcionrios de baixo escalo. Outro acomoda 15% do total dos funcionrios e seria a estao destinada gerncia. Os 5% restantes, representando somente algumas poucas estaes, so destinados ao alto escalo da empresa, pessoas como o presidente e vice-presidentes. Esse esquema pode ser aplicado em diferentes tipos de indstrias e em organizaes dos mais diferentes tamanhos. (BECKER/STEELE, 1995, p.53 apud ANDRADE, 2007, p.63) Com as tecnologias como o fax, computador, laptop, celular e internet, comeou a ser possvel as pessoas trabalharem fora dos escritrios, assim criando os Escritrios No- Territoriais (Non territorial Offices) tambm chamados como Escritrios Alternativos (Alternative Officing) ou, como conhecido no Japo, Just-in-Time. Com a possibilidade de ter um escritrio virtual surge a oportunidade de trabalhar em casa, conhecido como Home Offices, em hotis, que so mais utilizados para reunies em suas salas reservadas (Hoteling), em Free Address, que consiste em baias de trabalho alugadas, outra alternativa seria o Red Carpet Club que uma mistura dos dois ltimos sistemas disponibilizando salas fechadas, lugares abertos, salas de reunies e tambm reas informais como cafeterias. De acordo com Mengatto (2012), as escrivaninhas residenciais no possuem espao suficiente para acomodao de materiais de escritrio alm dos aparatos que a tecnologia trouxe a mais como por exemplo: cabos, mouse, impressora, teclado, caixas de som, entre outros. 8. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 5 A tecnologia dos equipamentos de informtica substituiu a importncia dada escrivaninha. O espao de trabalho da antiga escrivaninha, que atendia a administrao da casa, comeou a competir com o espao de trabalho do computador, somado a este, perifricos e materiais de escritrio necessrios escrita, leitura e manuseio de materiais. (MENGATTO, 2012, p.6) Os materiais de trabalho sempre foram responsveis pela evoluo e mudana do formato da mesa de trabalho por causa de seu uso e armazenamento. Assim como podemos ver como o uso do computador influencia no desenho das escrivaninhas atuais. Outra observao de Mengatto (2012) de que as escrivaninhas esto ficando cada vez mais simples, sem suporte para materiais as deixando parecidas com as mesas de jantar e ficando indistinguveis pela falta da forma de acordo com a funo de seu uso. No lar, o design de escrivaninha tornou-se, em alguns casos, indistinguvel da mesa de jantar contempornea, contradizendo o princpio de gerar formas de mveis a partir de estudos do trabalho. (FORTY, 2007, P.195 apud MENGATTO, 2012, p.42) Nos ltimos anos, novos lanamentos j consideram, ou sugerem o trabalho em domiclio menos como tendncia, mas como realidade. Em edifcios, as plantas possibilitam a substituio de um quarto pelo home Office 1 (MENGATTO, 2012, p.17) 3. Referncias de projeto Como referncias para o projeto foram pesquisadas mesas de trabalho de diversas funes como: mesas para diretor, escrivaninhas de uso domstico, sistemas de mesas que podem ser montadas de diversas formas de acordo com a necessidade do usurio, mesas compactas e linhas que incluem mesa e gabinete. Em cada objeto foram pesquisados seus materiais, suas dimenses, preo e sistemas diferentes aplicados em cada. Com isso, podemos ter uma ideia melhor das que j existem no mercado, os materiais mais utilizados e sistemas criados para solucionar problemas como armazenamento de cabos, materiais de trabalho, documentos, livros e partes dos computadores como teclados, CPU entre outras coisas. Aps a pesquisa feita, podemos perceber que a maioria das mesas de trabalho possuem materiais como madeira compensada com acabamento em laminado para 1 Entre tantas denominaes para o trabalho distncia na moradia comum ouvir terminologias como, gabinete de trabalho, sala de trabalho, escritrio particular, bureau domstico, estdio, posto de trabalho, estao de trabalho, escritrio informatizado residencial, Workstation, free address e ainda as seguintes terminologias especificadas por Rizzatti (2008): home-office, teletrabalho, s.o.h.o. (small office, home office), escritrio domstico, escritrio virtual, trabalho fisicamente descentralizado, trabalho remoto, trabalho distncia, home based business, trabalho mvel, teleworking, telecomutao, trabalho em casa. (MENGATTO, 2012, p.17) 9. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 6 maior durabilidade do tampo, pernas de metal ou madeira e outras partes de madeira expostas como as laterais do tapo e gavetas muitas vezes com acabamento laqueado. Importante tambm observar que, grande parte das escrivaninhas possuem espaos para armazenamento de materiais s vezes em forma de gaveta, prateleiras ou at mesmo possuem um gabinete da mesma linha para ser adicionado e tambm possuem espao para o armazenamento de cabos e adaptadores de tomadas que ficam de baixo de um tampo em cima da prpria mesa ou ento gavetas ou cestos em baixo da mesma. Ao comparar as dimenses das mesas podemos perceber que a altura varia de 60,96cm a 83,82 cm, porm com a maioria delas com a altura de 75cm. A largura varia de 120cm a 250cm, com a maioria das mesas com largura de 150cm. Sua profundidade varia de 50cm a 110cm, com a maioria com tamanhos entre 60cm e 80cm. Com essas comparaes podemos ter conhecimento de um tamanho mdio utilizado nas mesas de trabalho. 4. Organizao e ergonomia Lyon (1994) diz que existem dois tipos de trabalho: um deles o do tipo que fala no telefone e o outro, o que no tem relgio distinguindo o grupo que tem horrio de trabalho do grupo dos escritores, os que visualizam as coisas e os inventores. Assim conclui que os que criam no tm horrio de trabalho, podem passar madrugadas trabalhando e para isso devem estar bem equipados. A ideia deste trabalho utilizar como pblico alvo designers e arquitetos que uma parte do grupo que Lyon (2004) chama de criadores, os que no tm horrio, os criadores que levam seu trabalho, nem que seja em pensamento, para casa. Pessoas que utilizam mais materiais de trabalho como, por exemplo, diferentes folhas de papel com tamanhos maiores, diferentes tipos de lpis, canetas, marcadores entre outros. Aps as pesquisas realizadas, foi comprovada a necessidade de locais de trabalho confortveis para o trabalho do pblico escolhido definindo conforto como rea com espao suficiente para a realizao do trabalho e organizao de seus materiais. Em questes ergonmicas, as nicas preocupaes so com a altura da mesa, apoio do brao na superfcie, pernas da mesa e profundidade para que caibam as pernas do usurio e gaveteiros que no atrapalhem movimentos de sentar e levantar. Tabela 1. Materiais e seus planos de uso/armazenamento Material Planos de uso Planos de uso Plano reto ou inclinado Papel (antes ou aps seu uso) Gavetas, pastas ou tubos Canetas/lpis Porta-lpis (plano reto) ou gavetas Luminria Plano reto Computador/mouse/teclado Plano reto Mesa Digitalizadora (Tablet) Plano reto ou inclinado Rguas Gavetas ou pastas 10. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 7 Figura 1. Recomendaes para o monitor e plano de trabalho. Figura 2. Recomendaes para o monitor e plano de trabalho. Figura 3. Recomendaes de medidas para planos de trabalho. 11. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 8 5. Desenvolvimento do projeto Definio da forma Durante o desenvolvimento do projeto so analisadas forma e funo do produto criado e evoluindo seu desenho de acordo com falhas encontradas nos projetos. Para que isso acontea, alm dos croquis so realizados modelos em escala dos croquis mais interessantes para teste de mecanismos, proporo e visualizao melhor do produto. Assim como tambm foram feitos modelos em 3D para visualizao com as medidas ideais do projeto. As funes estudadas e aplicadas no desenvolvimento do projeto at seu resultado final foram: espao suficiente para o trabalho, espao para armazenamento, conforto, adaptao da mesa ao usurio e adaptao da mesa ao ambiente de trabalho em relao ao seu espao (extenso e compactao ou adio e subtrao de mdulos em um sistema). Assim tentando aplicar a maior parte destas opes para o conforto do usurio em sua mesa de trabalho. Objetos verstiles, que renen distintas funciones en una sola pieza, muebles que se repliegan o que se expanden, cabinas y despachos transportables son algunas de las muestras de un cambio que refleja el flujo vital del individuo en relacin con su vida y con su trabajo (LINEA EDITORIAL, 2006, p.08) Os croquis das figuras 4 e 5 mostram ideias de um sistema de mesas a partir de trs peas o tampo, as pernas e gabinete podendo substituir as pernas pelo gabinete. A pasta de arquivamento nas laterais deles um acessrio colocado parte. O tampo da mesa tem como ideia a utilizao de madeira compensada e com acabamento laminado apenas na superfcie de cima do tampo assim, deixando as camadas do laminado mostra nas suas laterais, o mesmo acontece com o tampo do gabinete e sua prateleira. As gavetas do gabinete e da mesa no contm puxadores, no lugar deles, recortado uma das partes da gaveta assim, facilitando o manuseio e economizando material. Figura 4. Croqui mesa e gabinete. 12. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 9 Figura 5. Croqui sistema de mesa e gabinete com duas aplicaes. A figura 6 outra opo de aumentar a superfcie de trabalho atravs da porta do armrio aberta. Para aumenta l seria deslizada uma parte do tampo e abaixada a porta do armrio no vo criado. Apesar de esta opo conter locais de armazenamento, possvel analisar que o uso d armrio restrito pela necessidade de movimentao de seu tampo. Figura 6. Croqui da mesa armrio e tampo deslizante extensvel. Figura 7. Croqui da mesa extensvel. 13. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 10 Figura 8. Croqui com detalhes explicativos. Figura 9. Croqui mesa extensvel e inclinvel com pernas e armazenamento de cabos traseiro. Nos croquis das figuras 7, 8 e 9 h uma demonstrao de ideias de tampo para uma mesa onde um dos seus tampos ou os dois, como mostra na figura 7, se deslizam sobre trilhos e abaixo h uma superfcie de vidro jateado, com tamanho suficiente para suporte de uma folha de tamanho A2, que pudesse ser inclinada ou alinhada com 14. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 11 as outras superfcies aumentando a rea de trabalho. O vidro jateado seria uma aplicao de uma mesa de luz com uma iluminao abaixo dela que, teria a possibilidade de ser ligada e desligada. Outra caracterstica importante de adicionar o vidro a possibilidade de utiliza-lo como superfcie de corte ao uso do estilete. A outras duas superfcies teriam acabamentos diferenciados como madeira envernizada e madeira laqueada ou com aplicao de frmica. Nestes croquis ainda no foram apresentadas as pernas da mesa e de locais de armazenamento de materiais. O croqui da figura 9 um avano dos croquis anteriores trazendo com ele pernas em formato de cone e uma parte traseira dividida em trs partes onde podem ser retiradas para armazenamento de sistemas eltricos internos e ao serem fechadas contm duas sadas para cabos, uma em cada canto, assim tendo acesso tambm quando a mesa for estendida. Nesta ideia de projeto ainda h o problema de armazenamento dos materiais necessitando de um armrio ou gabinete. Partindo destes croquis, foi feito um modelo em escala papelo para observar o funcionamento desta pea. O modelo tinha problemas no apoio do tampo que abria e o seu tampo extra que encaixava para aumentar a superfcie dava muito trabalho manual ao usurio. A mesa de luz foi um objeto excludo do projeto por haverem verses mais versteis no mercado. Figura 10. Modelo com tampo fechado Figura 11. Modelo com tampo aberto A partir das falhas encontradas no croqui anterior, foi desenvolvido outro croqui com a ideia de ampliao de tampo atravs de rotao em um eixo. A mesa continha dois tampos, um abaixo do outro onde o tampo inferior gira em torno de um eixo na sua lateral. Assim, foi desenvolvido um modelo de teste sem escala para visualizao do sistema de eixo. Com o teste do modelo em papelo foi observado que o tampo que rotaciona necessitaria de pernas de apoio. Figura 12. Croqui mesa com dois tampos. Figura 13. Modelo em papelo semi- aberto. 15. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 12 Figura 14. Abertura do tampo. Figura 15. Modelo em papelo fechado. A partir destas falhas encontradas, outro croqui foi desenvolvido com pernas que se moviam junto com o tampo inferior da mesa. Junto com esta ideia foi desenvolvida a inclinao do tampo superior. Ento foi feito seu modelo em escala 1:10 para teste. Foi observado que com o tampo principal sendo inclinado por inteiro seria necessrio mudar de lugar objetos como computador, porta-lpis e todo material que estiver em uso antes de sua inclinao. Figura 16. Modelo em escala 1:10 com tampo inclinvel no tampo principal 16. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 13 Figura 17. Modelo em escala, Figura 18. Modelo em escala aberto. detalhamento inclinao. A mesa que se inclina foi transferida para a superfcie de baixo onde no seria possvel ser inclinada por inteira pelas mudanas de posio da mesa. Foram feitos alguns estudos de pernas e tambm um modelo teste com escala 1:10 e foi percebido que o tamanho total da mesa seria invivel para um espao de trabalho. A nica soluo para diminuir este tamanho seria diminuir o tamanho do tampo inclinvel o que resulta em um tampo inclinvel para folhas de tamanho A3 que no necessita deste. Outra opo seria voltar para a ideia do tampo principal inclinar. Figura 19. Modelo em 3D aberto. Foi resolvido deixar a mesa com um tamanho fixo j com o tamanho suficiente para o uso de seu publico alvo e nele, continua a ter uma parte inclinvel de tamanho suficiente para uma folha A1 e uma parte fixa para o apoio de objetos. 17. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 14 Desenvolvimento do modelo final: Figura 21. Estudo de pernas e superfcie Figura 20. Croqui estudo da mesa de tampo fixo. Figura 22. Estudo de pernas e superfcie Figura 23. Estudo de pernas e superfcie Figura 24. Estudo de pernas e superfcie 18. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 15 Figura 25. Modelo escolhido para definio do projeto. Detalhamento Com a rea de trabalho resolvida foi ento estudado locais de armazenamento de materiais. Com isso, foi decidido ter uma gaveta onde coubessem folhas de papel de tamanhos grandes e outros objetos. Alm da gaveta foram adicionados portas-treco em sacos de tecido de tamanhos diferentes, que podem ser retirados para sua limpeza, na parte de trs da mesa onde podem ser colocados materiais de trabalho desde canetas at livros e desenhos enrolados em canudos. Outro porta-treco desenvolvido foi o da lateral da mesa. O porta-treco feito de madeira com tecido que pode ser retirado da estrutura para sua lavagem. Este porta-treco tem como funo de ser suporte de pastas de desenho, canudos, folhas de papel, ser utilizado como lixo de papel ou ser desativado fechando-o rente a lateral da mesa. Os sistemas utilizados na mesa foram dobradias para o tampo inclinvel, haste de inclinao e porta-pasta. Nas gavetas a utilizao de trilhos. Materiais Toda a mesa e sua estrutura so de placas de madeira compensada de medidas: -3mm: Fundo das gavetas; -1cm: Gavetas e fechamento traseiro; -1,5 cm: Tampo da mesa, gavetas e porta pastas lateral; -2,5 cm: Estruturao do tampo; Obs.: Tampo com acabamento laminado/frmica. Pernas da mesa e vigas em madeira macia (Eucalipto): -5cm x 5cm: Pernas da mesa; -3cm x 3cm: Vigas estruturais nas pernas da mesa; Sacos na parte de trs da mesa e dos porta-pasta feitos em lona. Sacos do portas- pasta contm botes de presso para prend-los na estrutura da mesa e os sacos porta-treco com uma estrutura interna em madeira para encaixe no suporte. 19. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 16 A inclinao da prancheta e a abertura do porta treco so feitos atravs de uso de dobradias de piano. O suporte da inclinao da prancheta tambm utilizada uma dobradia comum de tamanho reduzido podendo ser tambm a de piano cortada em um tamanho menor. Figura 26. Modelo em escala 1:5 pronto sem portas-treco ainda em confeco. Figura 27. Modelo em desenho 3D. 20. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 17 Figura 28. Desenho 3D prancheta inclinada. Figura 29. Desenho 3D em uso com computador e prancheta inclinada. 6. Consideraes Finais No decorrer do trabalho foram desenvolvidas ideias que, atravs de testes, descobriu- se serem inviveis para sua concepo ou uso assim como mostrado no Captulo 5 - Desenvolvimento do projeto. Estes estudos foram indispensveis para o desenvolvimento do projeto final. O objetivo deste trabalho era criar uma mesa de trabalho que suprisse as necessidades de um profissional da rea de projeto. Entre essas necessidades esto: espao na superfcie de trabalho, espao para armazenamento e organizao do material de trabalho. Estes pontos parecem estar resolvidos no projeto definido, portanto, poderiam ser adicionadas ainda divisrias em uma das gavetas para maior organizao para uma melhoria no projeto. Outro ponto que precisaria ser estudado novamente para algumas modificaes para melhoria no projeto seriam suas dimenses; mesmo com grandes mudanas no desenvolvimento do projeto podemos observar que a mesa de trabalho ainda tem um tamanho significativamente grande. De acordo com a necessidade dos usurios poderiam ser criadas tambm mesas com reas de trabalho menores j que esta baseada em uma folha de papel A1. Uma mesa com dimenses baseadas em uma folha de papel A2 a A3 seriam mais viveis para um escritrio menor. Porm, o projeto chegou ao objetivo esperado com um resultado satisfatrio. 21. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 18 Referncias ANDRADE, Cludia Miranda Arajo de. A histria do ambiente de trabalho em edifcios de escritrios: Um sculo de transformaes. So Paulo: C4, 2007. CAYWOOD, Douglas B. The designers workspace: ultimate office design. Burlington: Architectural Press publications, 2004. FONTOURA, Ivens. Uma viso do design moveleiro latino-americano: dez edies, dezoito anos. Bento Gonalves: Salo design Mvelsul, 2006. FORTY, Adrian. Objetos de desejo Design e sociedade desde 1750. So Paulo: Cosac Naify, 2007. 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Croqui sistema de mesa e gabinete com duas aplicaes. Fonte: Autor prprio. Figura 06. Croqui da mesa armrio e tampo deslizante extensvel. Fonte: Autor prprio. Figura 07. Croqui da mesa extensvel. Fonte: Autor prprio. Figura 08. Croqui com detalhes explicativos. Fonte: Autor prprio. Figura 09. Croqui mesa extensvel e inclinvel com pernas e armazenamento de cabos traseiro. Fonte: Autor prprio. Figura 10. Modelo com tampo fechado. Fonte: Autor prprio 22. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 19 Figura 11. Modelo com tampo aberto. Fonte: Autor prprio. Figura 12. Croqui mesa com dois tampos. Fonte: Autor prprio. Figura 13. Modelo em papelo semi-aberto. Fonte: Autor prprio. Figura 14. Abertura do tampo. Fonte: Autor prprio. Figura 15. Modelo em papelo fechado. Fonte: Autor prprio. Figura 16. Modelo em escala 1:10 com tampo inclinvel no tampo principal. Fonte: Autor prprio. Figura 17. Modelo em escala, detalhamento da inclinao. Fonte: Autor prprio. Figura 18. Modelo em escala aberto. Fonte: Autor prprio. Figura 19. Modelo em 3D aberto. Fonte: Autor prprio. Figura 20. Croqui estudo da mesa de tampo fixo. Fonte: Autor prprio. Figura 21. Estudo de pernas e superfcie. Fonte: Autor prprio. Figura 22. Estudo de pernas e superfcie. Fonte: Autor prprio. Figura 23. Estudo de pernas e superfcie. Fonte: Autor prprio. Figura 24. Estudo de pernas e superfcie. Fonte: Autor prprio. Figura 25. Modelo escolhido para definio do projeto. Fonte: Autor prprio. Figura 26. Modelo em escala 1:5 pronto sem portas-treco ainda em confeco. Fonte: Autor prprio. Figura 27. Modelo em desenho 3D. Fonte: Autor prprio . Figura 28. Desenho 3D prancheta inclinada. Fonte: Autor prprio. Figura 29. Desenho 3D em uso com computador e prancheta inclinada. Fonte: Autor prprio. 23. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014, So Paulo: Centro Universitrio Senac ISSN 2179474 X 2014 todos os direitos reservados - reproduo total ou parcial permitida, desde que citada a fonte portal de revistas cientficas do Centro Universitrio Senac: http://www.revistas.sp.senac.br e-mail: revistaic@sp.senac.br A mutao do objeto como item de projeto The objects mutation as project item Alex Braga Tonda, Myrna de Arruda Nascimento Centro Universitrio SENAC Bacharelado em Design Industrial abtonda@gmail.com, myrnanas@gmail.com Resumo. Anlise e reflexo sobre a mutao dos objetos ao longo da histria da humanidade e as transformaes provocadas e/ou decorrentes destas mutaes, com reflexo nos comportamentos e aes humanas. A partir deste ponto, discutem-se as relaes que passam a ser estabelecidas a partir das novas informaes processadas e, adicionalmente, as interferncias causadas por um objeto multifuncional quando o mesmo inserido na trade homem + objeto + espao. Palavras-chave: design industrial, multifuncionalidade, mutao. Abstract. This article intends to analyze and discuss about the objects mutation during the design history, and about the changes that resulted from these mutations, which reflected in human beings behaviors and actions. How the objects mutation affects the relationship of man + space in the course of an era and how to face it like a project item when a multifunctional object is inserted in this relationship? Key words: industrial design, multifunctionality, mutation. 24. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 2 1. Introduo Estamos cercados por objetos que equipam o ambiente a nossa volta ao mesmo tempo em que nos tornam aptos a ambient-lo. Objetos que, inevitavelmente, carregam a histria do contexto cultural em que foram projetados e possibilitam que uma nova histria seja configurada a partir do momento em que seus conceitos so revisitados. Tal processo de reviso de conceitos, re-projeto, re-desenho, possibilita que a mutao dos objetos acontea em um continuum movimentado pela interpretao inconstante do homem diante de seu meio, que busca transform-lo, moldando-o de acordo com o esprito de determinada poca. Paralelamente reflexo a cerca da mutao dos objetos ao longo da histria da humanidade, a versatilidade dos objetos multifuncionais tambm um fenmeno curioso, e imprescindvel, que merece espao neste mesmo artigo. necessrio refletir sobre a contaminao dos objetos e as transformaes que eles provocam em virtude das distintas formas de ao/uso que so impostas aos mesmos pelo homem, sob o ponto de vista tecnolgico ou da sua interao com o ambiente. 25. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 3 2. A mutao do objeto A palavra mutao geralmente capaz de despertar inquietao dependendo do contexto em que empregada. Aliada cultura dos objetos, a primeira imagem a ser desenhada mentalmente pelo espectador quando se depara com o termo a de algum produto impregnado de articulaes e dispositivos mecnicos complexos, capazes de transformar o mesmo em outro. Porm, grande parte das mutaes significativas na histria do design discutidas neste artigo de natureza singela, frutos de belas sacadas de percepo. Momento em que o projetista abstrai sua noo de realidade e parece acessar dentro do raciocnio projetual uma nova dimenso, um diferente caminho para interpretar o objeto em foco e carente de redesenho. Caminho este acessado pelo processo de associao e experimentao. Michael Thonet associou ramos de flores a bastes de madeira em busca de suprir uma eventual limitao fsica do material. Se Thonet no analisasse e experimentasse a curvatura que ramos frescos, midos, proporcionam talvez nunca impregnasse de vapor os bastes de faia que configurariam, em 1859, a cadeira n14. Os bastes curvados reuniam diferentes funes estruturais da cadeira, assim, Thonet simplificou o processo de fabricao de uma cadeira convencional, tornando-o mais gil e econmico para a sua poca. (Munari, 2008) Figura 1. Esquerda para direita: cadeira Windsor (23 peas), cadeira Chiavari (16 peas) e a atomizao do conceito naquela poca, a cadeira n14 de Thonet (6 peas). A tcnica de vergar bastes de madeira no vapor, que resultou na tecnologia da curva estrutural, se originou dentro de um cenrio sustentado/ocupado por mquinas a vapor que configuravam a primeira revoluo industrial. Cenrio este que consequentemente influenciaria o projeto do arteso, posteriormente consagrado como projetista industrial aps analisar todas as variveis existentes dentro do respectivo contexto e desenhar um objeto capaz de suprir as necessidades da poca. Alm de apresentar um raciocnio projetual destinado ao aprimoramento da serializao de um objeto, o projeto tambm oferecia uma soluo em relao ao armazenamento do mesmo. Em um espao de um metro cbico 36 cadeiras podem ser armazenadas quando desmontadas em mdulos. 26. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 4 A mutao desencadeada por Thonet, e seu projeto disruptivo da cadeira n14, influenciou uma gerao de designers que beberam de sua fonte e perpetuaram a ideia no decurso da histria do design atravs do emprego de diferentes materiais. Figura 2. A herana de Michael Thonet. Uma nova linguagem visual criada e posteriormente desdobrada atravs dos projetos de Mart Stam (ao centro), Marcel Breuer ( direita) e outros. Com a chegada do poliuretano ao mercado, foi possvel que mais uma vez o conceito de estrutura de apoio para descanso fosse questionado e transformado por alguns projetistas, dadas as possibilidades que o material proporcionava. Certamente um dos casos mais curiosos dessa fase, que se destaca pela ousadia de seu conceito, o projeto Living Tower (1969) do arquiteto dinamarqus Verner Panton. Figura 3. A torre de convivncia de Verner Panton. 27. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 5 Assim como Thonet, Panton curvou as estruturas e transformou o velho sof da sala de estar em uma nova proposta para um futuro estilo de vida. Talvez to distante que parecesse deslocado no espao dentro de sua poca, porm atual e coeso com a presente oferta de metros quadrados oferecido nas grandes metrpoles. O mrito do projeto da torre de convivncia de Panton certamente no est relacionado agilidade de produo ou estoque, como o exemplo anterior de Thonet, mas o que justifica sua insero no contexto o discurso alinhavado pelo designer dinamarqus sobre uma diferente possibilidade de aproveitamento de espao, e de como integr-lo a um objeto, se analisarmos o seguinte desdobramento do projeto. Phantasy Landscape foi um ambiente projetado para a exposio Visiona II (1970), organizada pela companhia qumica alem Bayer, em que arquitetura e moblia se conectam atravs de uma estrutura de curvas sinuosas seccionada em camadas de cores contrastantes (Fiel, 2002). Figura 4. Phantasy Landscape, Verner Panton (1970). Organizao estrutural ousada e funcional. De volta ao aconchego intrauterino aps uma jornada de trabalho fora de casa, mas s para recarregar as baterias. Desdobrando as possibilidades de estilos de vida que so impulsionados pela tecnologia e pelos novos objetos que orbitam ao redor de tal eixo gravitacional, no uma tarefa complexa transportar tal cenrio futurista para a atualidade, a partir do momento em que vivemos dentro de um contexto totalmente voltado para manipulao da informao e teletransporte de dados. As mutaes disparadas pelos designers mencionados anteriormente elucidam as duas vertentes principais que este artigo apresenta para reflexo: experincias restritas ao campo industrial e mudana de paradigma comportamental/cultural, quando uma nova proposta de objeto inserida na relao homem e espao, possibilitando uma nova interpretao sobre um contexto. Embora existam duas vertentes a anlise busca incorpor-las sob a mesma tica, a mutao com foco na desmaterializao consciente dos objetos. Um universo digno de ateno, e carente de desmaterializao, o da gastronomia. Alm de ostentar uma rica e catica diversidade, tambm est impregnado de rituais clssicos esculpidos por diferentes culturas, o que o torna mais complexo, porm mais saboroso aos olhos de um projetista curioso e disposto a combinar elementos. 28. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 6 O projeto Pasta & Parmesan dos designers Peter Pinzke e Johan Bergstrm segue na mesma frequncia em busca da desmaterializao da cozinha e agrega duas funes correlatas ao projeto convencional de um pegador de macarro convertendo-o em uma ferramenta multifuncional. Graas astcia da dupla, ao interpretar as faces que compem o objeto, foi possvel adicionar um ralador de queijo no plano horizontal que liga as duas garras laterais e, atravs da configurao afunilada do corpo, foi possvel designar curva estrutural do utenslio a funo de dosador de espaguete e afins (Durand, 2008). Figura 5. A ferramenta multifuncional Pasta&Parmesan, Sagaform (2008). Figura 6. As trs funes designadas por Peter Pinzke e Johan Bergstrm para uma chapa de ao. A demanda por um objeto multifuncional destinado ao territrio da gastronomia no um fato atual. Tal fenmeno motivo de inquietao projetual desde os tempos mais remotos e o objeto que comprova o fato considerado como o primeiro canivete desenhado pela raa humana. 29. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 7 O utenslio multifuncional projetado durante o Imprio Romano foi totalmente pensado para ser uma ferramenta destinada alimentao. As seis funes, exercidas pela mesma empunhadura, eram calcadas em aes (julgadas na poca) bsicas que adaptavam o usurio da ferramenta a manipular, ou obter, seu alimento. Seja atravs da colher, para auxili-lo a sorver um lquido, da faca, para cortar um slido, ou ainda, atravs da esptula em forma de gancho, para extrair carne de crustceos. Inteiramente confeccionado em prata, possuindo apenas uma lmina de ferro, o suposto canivete media oito centmetros de largura por quinze centmetros de comprimento. Possua trs articulaes ao total, sendo duas delas responsveis pelas articulaes das pinas e da lmina, e uma destinada articulao do garfo, que possua na outra extremidade do cabo uma colher (DailyMail, 2010). Figura 7. Canivete Romano (200 d.C.), ferramenta essencial do humano em trnsito, daquela poca. Do primeiro canivete desenhado durante o Imprio Romano at o modelo mais tecnolgico desenvolvido pela contempornea Victorinox, aparentemente poucas coisas mudaram na essncia da ferramenta, ainda mais quando o contexto comparado ao atual cenrio da sociedade da informao, onde um smartphone apresenta-se como o melhor amigo do humano em trnsito (ou no). 30. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 8 Figura 8. iPhone 4, Apple (2010). O mundo na palma da mo. A manipulao da informao, a transformao da relao do homem com seu telefone e, posteriormente, seu ambiente. Com o andar da carruagem, e todo o arcabouo tecnolgico que sustenta o mesmo, o sucesso do smartphone sobriamente justificado, a partir do momento em que o aparelho, munido de aplicativos, da conta de abarcar mltiplas solues que permitem seu usurio interagir, de diferentes maneiras, com diferentes contextos ou ambientes. O advento do conceito smartphone uma das ltimas provas que comprova a supremacia da sociedade da informao. Aliado a uma linha de pensamento que preconiza pela desmaterializao dos objetos, em busca de racionalizar o entorno e simplificar o complexo estilo de vida humano, apresenta-se como um poderoso link para a futura mutao do espao. 3. A mutao do espao Figura 9. O conceito Living Kitchen de Michal Harboun (2010). A cermica eletrnica, a possibilidade de interao e, consequentemente, a cozinha (ou ambiente) mutante. O cenrio projetado pelo designer Michal Harboun tira proveito da dinmica digital e o aprimoramento da nanotecnologia com o objetivo de oferecer uma plataforma programvel ao residente de um habitculo futurstico. A tecnologia que sustenta a parede multifuncional de Harbourn est em fase de desenvolvimento e batizada de claytronics pela empresa multinacional de tecnologia Intel e pela universidade Carnegie Mellon, ambas norte-americanas. 31. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 9 O claytronics uma espcie de matria constituda de pequenos robs, denominados catom (claytronic atoms), capazes de serem eletronicamente instrudos e se interligarem eletrostaticamente entre si para formarem um objeto com o qual o ser humano possa interagir. (Riddel, 2011) Figura 10. Claytronics. O atual estgio dos tomos que iro constituir a cermica eletrnica. curioso observar que enquanto um advento tecnolgico parece impulsionar a raa humana em direo a um diferente estgio de evoluo as associaes estabelecidas pela mesma por vezes tornam a situao to complexa de maneira a permitir comparar a vida real com um roteiro de comdia pastelo. Afinal, por que no tirar proveito da nova corrente de design de servios e estabelecer uma rede capaz de suprir atividades domsticas, atomizando assim o conceito de lar a um espao intrauterino similar ao projeto de Panton? Ser que realmente vamos continuar sustentando o tradicional conceito de casa? Ou, a exemplo do grupo italiano Archizoom Associati, vamos viver em pequenos habitculos funcionais e integrar de vez nossos estilos de vida ao espao pblico quebrando o paradigma da arquitetura tradicional? Figura 11. Nakagin Capsule Tower, Kisho Kurokawa (Ginza, Tquio 1970-72). O estdio de design experimental Archizoom foi um dos responsveis pela divulgao do antidesign entre as dcadas de 60 e 70, e atravs de seus microambientes visionrios questionavam a tradio arquitetnica mais o humanismo imposto pela escola do modernismo (Byars, 2005). 32. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 10 O conceito de pequenos habitculos funcionais torna-se mais realista em comparao ideia de sustentar um ciborgue dentro de casa, como a parede impregnada de complexos micro-organismos apresentada anteriormente. E tal conceito parece ser potencializado quando aproximado do universo das grandes metrpoles 24horas, que num futuro prximo disponibilizaro de uma vasta rede de servios, das mais variadas espcies, transformando a atual imagem de cidade no conceito No-Stop City proposto pelo estdio Archizoom. A No-Stop City a cidade plataforma que possibilita o intercmbio entre espaos e produtos flexveis, possibilitando assim uma atividade intensa de construo e reconstruo da prpria cidade, que estaria em constante mutao (Moreno, 2013). 4. Consideraes Finais Em tal estgio de evoluo tecnolgica, ou a cada vez que um perodo de transio de estgios detectado, indispensvel refletir sobre os possveis desdobramentos que determinados produtos so capazes de ocasionar. E, antes mesmo de se pensar a mutao dos objetos, faz-se necessria a reflexo sobre a mutao do objeto homem em face de um projeto de vida, uma diferente possibilidade de interpretar e manipular o espao no qual estamos inseridos. O cenrio futurstico alinhavado por tericos de pocas passadas se descortina aos poucos enquanto vivemos nosso cotidiano em trnsito. Se pararmos para refletir que estamos vivendo de fato uma era sustentada por dados e que j possvel realizar teletransportes de objetos, mesmo estes sendo inocentemente interpretados como dados, chegamos concluso de que o meio nada mais do que fruto de uma interpretao do homem sobre um contexto. Interpretao de informao, dados, virtualmente teletransportados e materializados por impressoras 3D, mquinas de controle numrico computadorizado (CNC), entre outros, sem mencionar as informaes que so constantemente compartilhadas atravs da internet e que possibilitam um feedback em rede instantneo, capaz de desdobrar um assunto ou atestar a veracidade do mesmo. Porm, parece que a instantaneidade do mundo virtual, facilmente adotada e traduzida por alguns indivduos em seus respectivos cotidianos, no permitiu que o cio criativo defendido por Domenico de Masi (2000) fosse levado ao seu ltimo grau. Afinal, a humanidade est apta a produzir com menos esforos, porm a mesma, por vezes, parece angustiada em produzir em to pouco tempo que ocupa o resto que lhe sobra produzindo mais, informando mais. Se considerarmos pelo prisma da era da informao, do ato de informar, podemos facilmente assemelhar a raa humana a uma sociedade prolixa, que no se contenta em parar para raciocinar e atomizar seu contexto. Sociedade esta em que o dolce far niente se apresenta de forma angustiante e entediante, visto que estamos viciados a devorar e digerir dados de qualquer espcie. Seja no contexto virtual ou material. Por isso a mutao do objeto deve ser encarada como um item de projeto. Porque a humanidade, alm de ser uma raa que cria, uma raa capaz de questionar o entorno que habita. E quando a mesma est ocupada demais devido sua obsesso com a criao, deixa de questionar seu prprio ambiente e vira refm de uma ansiedade impulsionada por um universo tecnolgico libertador. O limitado deu forma ao ilimitado, mas chegou a hora de rastrear as variveis para que novos limites sejam traados. Afinal, produzir uma cadeira em trs minutos que ainda apresente uma silhueta clssica, para justifica-la enquanto cadeira, no parece atitude que revele um raciocnio sagaz, considerando que estamos vivendo o auge da era da informao e que somos dotados da competncia de informar e interpretar tambm com outros modelos. 33. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 11 Referncias BYARS, Mel. Enciclopdia do Design. So Leopoldo: Ed. Unisinos, 2005. Daily Mail. The Roman Army Knife: Or how the ingenuity of the Swiss was beaten by 1,800 years Disponvel em: http://www.dailymail.co.uk/news/article-1247230/The-Roman-Army-Knife- Or-ingenuity-Swiss-beaten-1-800-years.html. Acesso em: 3 fev. 2010. DURAND, Faith. Sagaforms All-In-One Pasta and Parmesan Tool. 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Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design Vol. 3 no 1 janeiro de 2014, So Paulo: Centro Universitrio Senac ISSN 2179474 X 2014 todos os direitos reservados - reproduo total ou parcial permitida, desde que citada a fonte portal de revistas cientficas do Centro Universitrio Senac: http://www.revistas.sp.senac.br e-mail: revistaic@sp.senac.br Mobilirio Multifuncional de Descanso para Habitaes com Dimenses Reduzidas Multifunctional Rest Furniture made for Housing with Small Dimensions Andressa de Souza Lima, Pablo Marcel de Arruda Torres, MSc. Universidade Federal de Campina Grande - UFCG Unidade Acadmica de Design - Bacharelado em Design andressa.souza00@gmail.com, pablo.marcel@gmail.com Resumo. O presente artigo objetiva demonstrar o processo de desenvolvimento de uma poltrona-cama, que possui as funes adicionais de estao de trabalho e mesa para refeies. O produto deveria se adequar aos ambientes com metragem reduzida, diferente de mveis j existentes, como os sofs-camas. A justificativa se baseia na necessidade de produzir e comercializar um mobilirio para descanso que se encaixe nos padres de moradia moderna, os ambientes compactos. O resultado foi um mobilirio compacto e multifuncional, feito em material nobre de madeira reflorestvel, que se adapta a diversas necessidades do usurio em seu ambiente de uso reduzido. Palavras-chave: poltrona-cama, multifuncionalidade, compacto, mobilirio. Abstract. This article aims to demonstrate the process of developing of an armchair- bed, which has the additional features of the workstation and dining table. The product should suit environments with reduced space, unlike existing furniture such as sofa-beds. The justification is based on the need to produce and sell furniture for rest that fits the standards of modern housing, compact environments. The result was a compact, multifunctional furniture, made in reforested wood, noble material, that adapts to different user needs in the reduced environment of use. Key words: chair-bed, multifunctionality, compact, furniture. 35. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 2 1. Introduo A indstria de mveis compe um dos setores tradicionais da economia brasileira, onde o design exerce papel cada vez mais importante na definio de diferenciais nos produtos fabricados, no s nos aspectos estticos como tambm naqueles relacionados funcionalidade do produto (BARROSO et al., 2007) e s estratgias empresariais e de construo de imagens corporativas. Segundo Bombossaro (2012), a principal fonte do design na indstria brasileira de mveis a unio de diversos modelos em um nico, cuja fonte de inspirao so produtos observados em revistas, catlogos de empresas concorrentes, feiras nacionais e internacionais. Montana (2002, p. 5) acredita que o designer pode desenvolver novos produtos com forte identidade e linguagem prprios, adaptados s novas necessidades e mercados, e complementa dizendo que a identidade de um produto surge do fator adaptao, pois aspectos como matria-prima, processos e mercado especfico de cada fbrica formam as caractersticas do mobilirio. A identidade surge medida que esses fatores se tornam pontos fortes. De acordo com Devides (2006), os mveis residenciais detm a maior parcela da produo moveleira no Brasil, correspondendo a 60% do faturamento total do setor moveleiro no Brasil. A incorporao de novos consumidores, principalmente dos extratos mais baixos da sociedade, cujo aumento da renda familiar e estabilidade no emprego possibilitaram o crescimento do poder de compra, permite que gastos com mveis se situem na faixa de 1% a 2% do oramento disponvel. A crescente oferta do crdito imobilirio tornou o sonho do imvel prprio mais acessvel. Hoje em dia a classe mdia o nicho do mercado que representa maior faturamento; sendo assim, construtoras e incorporadoras optaram por desenvolver marcas especficas para esse pblico. O alto custo do metro quadrado construdo tornou as habitaes cada vez menores, dessa forma mais acessveis para boa parte do pblico consumidor. Essa procura por ambientes reduzidos fez construtoras enxergarem um promissor nicho no mercado; sendo assim, pode-se construir mais apartamentos por edifcios e ainda resolve-se o problema da falta de espao para construir nas grandes cidades, o que ocasionou o fenmeno da verticalizao das moradias. Seguindo essa tendncia de espaos menores, o mobilirio teve que adaptar-se s necessidades do ambiente e diminuram de tamanho. Os mveis para esse tipo de moradia devem apresentar conceitos como praticidade e multifuncionalidade para o aproveitamento do pouco espao disponvel. Porm, o fator espao reduzido aliado falta de mveis adequados podem comprometer o uso dos espaos e objetos, restando ao morador a tarefa de reorganizar esses espaos conforme suas necessidades e condies (SOARES e NASCIMENTO, 2008, p. 71). O desenvolvimento desse projeto objetivou apresentar um novo modelo de mvel compacto e flexvel, que se adapte a pequenos espaos e proporcione ao pblico-alvo diferentes opes de uso, atravs de sistemas que facilitem a interao usurio- produto. 2. Anlise 2.1. Pblico-alvo A classe C virou tema de discusso para socilogos, economistas, publicitrios e marqueteiros durante a gesto do governo Lula, onde o termo se popularizou e tambm ficou conhecido por nova classe mdia (BRUM, 2011). O desenvolvimento da classe C um fenmeno observado desde 1992, mas sua expanso aconteceu de 36. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 3 maneira mais intensa a partir de 2003; desde ento, o contingente de pessoas que migram para essa classe sofre um crescimento progressivo, resultante do aumento da renda familiar brasileira nas classes mais baixas. Dados da pesquisa O Observador 2012 (Cetelem BGN, 2012) mostram que a classe C recebeu 2,7 milhes de pessoas em 2011, vindas das classes D e E. Atualmente, 103 milhes de pessoas fazem parte dessa classe social, enquanto que as classes D e E sofreram uma reduo de 47,948 milhes para 45,243 milhes de brasileiros. Em comparao a 2005, quando a pesquisa comeou a ser realizada, o salto da classe C de 20%. J as classes D e E tiveram encolhimento expressivo, passando de 51% em 2005 para 24% em 2011. O consumidor da classe C est mais exigente. Com mais escolaridade, informao e conscincia, ele quer produtos que valorizem o seu modo de vida. O preo um dos fatores decisivos no ato da compra. Esses consumidores tambm prezam pela qualidade, mesmo quando o oramento restrito, preferem pagar mais caro por algo de qualidade superior. Para Moura (2012) a classe C representa uma grande parte da pirmide social, e hoje deve ser vista no como um segmento, mas como o verdadeiro mercado brasileiro. Pesquisa realizada em 2011 pelo instituto Data Popular revelou que o mercado de mobilirio movimentou R$ 41,7 bilhes. Enquanto a populao pertencente aos estratos mais altos da sociedade busca personalizao da oferta, diferenciao por meio do consumo e no consolidam fidelidade s marcas, a populao emergente busca incluso e so mais fiis a marcas que comprovem uma relao custo-benefcio apropriada (MOURA, 2012). A classe C ainda a maior consumidora de mobilirio no pas. Segundo a pesquisa Cetelem BGN (2012), mveis e eletrodomsticos esto entre os itens que os brasileiros desejam adquirir neste ano, frente de lazer, viagem e telefonia celular. Para representar o pblico-alvo foram concebidos personagens - utilizando o mtodo de personas desenvolvido por Alan Cooper - cujos dados so baseados em pesquisas realizadas em territrio nacional. Nesse projeto sero utilizados dois tipos de pblico: um composto pelos solteiros (primrio) e outro por jovens casais (secundrio). Essa escolha se deu pelo fato de possurem caractersticas semelhantes como consumidores; assim o produto a ser desenvolvido atingiria uma parcela maior da populao de possveis usurios. 2.2. Produtos Concorrentes Foram analisados produtos concorrentes que possuem caractersticas que se assemelham ao mobilirio a ser desenvolvido (Figura 1). Dos produtos analisados, dois so produzidos por empresas nacionais e um por uma companhia internacional. A primeira caracterstica que se deve ressaltar uma relativa sensao de desconforto que eles transmitem, seja pela fragilidade de sua estrutura, dimenses do produto ou at densidade da espuma utilizada no revestimento. Apesar de serem produtos compactos e de fcil manuseio, as formas no so atraentes e eles se limitam a executar apenas as funes de sentar e deitar, apesar da diversidade de sistemas envolvidos nos trs mveis analisados. 37. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 4 Figura 1. Poltronas concorrentes analisadas como referncia para o novo produto 2.3. Ergonomia A Anlise da Tarefa ocorreu com dois usurios que representavam o pblico-alvo desse projeto. Devido falta de um produto semelhante ao que foi desenvolvido, fez- se uso de um sof-cama comum, disponvel no ambiente analisado. 38. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 5 Quanto realizao das tarefas, percebeu-se que os usurios executaram-na de formas semelhantes. O que difere a forma como um ou outro seguram as partes do sof, seja para conforto prprio, ou como no caso da usuria, devido ao peso da estrutura. Apesar de o produto ser de fcil uso e a sua transformao em cama no apresentar excesso de tarefas, em determinados momentos percebeu-se que os usurios executavam esse processo com dificuldades na posio do corpo e m postura, que demandava maior esforo dos membros superiores (Figura 2). Figura 2. Processo de desmontagem do sof A Anlise da Postura visa observar as posturas adotadas pelos usurios durante o uso do produto, com a finalidade de evitar problemas posturais devido a um mau desenho. Foram analisadas as posturas sentada e deitada, que so as de maior durao. Quando esto apenas sentados os usurios tpicos no apontaram nenhum tipo de problema referente postura quando do uso do produto (Figura 3), o mesmo acontecendo quando esto na posio deitados. J na execuo de tarefas como usar o notebook o usurio termina com fadiga nos membros superiores aps uso 39. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 6 prolongado, devido falta de um apoio para sua utilizao, forando-o a inclinar a cabea para baixo e assim visualizar melhor a tela (Figura 4). Figura 3. Usuria na posio sentada Figura 4. Usurio sentado utilizando o notebook 2.4. Tipologia Formal Os atributos formais determinam que um objeto alm de possuir atributos prticos e estticos tambm pode carregar significados, comunicando sua funo e os anseios dos usurios. Assim, tomando como base a metodologia do Modelo de Abordagem do Design para a Esttica (MADfAe) apresentado por Santos (2010), definiu-se certos atributos que devem ser aplicados no produto a ser desenvolvido e que levem o usurio a se identificar com o objeto por meio de seus atributos estticos e simblicos. Sobre os aspectos estticos associados forma, o produto deveria possuir uma forma equilibrada e horizontal, que uma caracterstica inerente a esse tipo de mobilirio. 40. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 7 Com relao ao tato, estabeleceram-se caractersticas como macio e aveludado, que proporcionam ao usurio maior bem-estar. Os atributos simblicos, que so aqueles referentes percepo, ou seja, como o usurio se identifica no produto, optou-se pelas caractersticas amigvel, jovem, forte e unissex, por estarem diretamente relacionadas ao pblico-alvo. O produto deve ser simples e inteligente, ou seja, seu uso deve ser facilmente assimilvel. O atributo de exclusividade ser uma propriedade que o far distinguir-se dos demais produtos que desempenham funo semelhante. Quanto ao estilo do produto, optou-se pelo contemporneo, que est mais adequado ao perfil do pblico-alvo. 3. Gerao de alternativas de soluo Nesta fase foram elaborados conceitos de acordo com as necessidades identificadas nas etapas anteriores de modo a atender as diretrizes do projeto. Nesta etapa foram utilizadas as tcnicas de Brainstorming gerao do maior nmero de ideias a fim de encontrar a melhor soluo para o problema proposto e croquis, desenhos rpidos para registro das ideias criativas que contou com a utilizao da tcnica de ponto de fuga e rendering. A seleo de alternativas ocorreu com base nas propostas que apresentavam a melhor soluo para os problemas apresentados: possibilidade de transformar o produto em cama e um suporte que exercesse a funo de mesa. Posteriormente os conceitos desenvolvidos passaram por uma anlise que verificou possibilidades de melhoria, surgindo assim variaes com a finalidade de identificar qual proposta seria mais adequada com cada conceito trabalhado. O conceito 1 (Figura 5) tem sua estrutura formada por uma base de madeira, formando um apoio para o encosto, onde est inserida uma mesa retrtil. O sistema funcional composto por uma extenso retrtil que desliza para fora do assento, transformando a poltrona em cama. Apesar do sistema funcional simplificado e das dimenses da mesa acomodarem o usurio com conforto durante o uso, um aspecto negativo desse conceito o gasto de material que esta estrutura requer, alm de possuir grande peso visual. Figura 5. Conceito 1 de mobilirio multifuncional 41. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 8 O conceito 2 (Figura 6) surgiu a partir da ideia do uso de pallets no mobilirio; portanto a forma seguiu a proposta de um mvel que transmitisse a sensao de robustez. Abaixo do estofado h um compartimento, que se abre atravs de uma porta basculante, onde o usurio poderia guardar objetos e uma mesa retrtil foi inserida no encosto. Para virar cama, a poltrona teria os dois apoios para braos rebatidos para os lados. Porm, o sistema funcional no a soluo mais eficiente para transformar a poltrona em cama e a porta basculante dificulta o acesso do usurio ao fundo do compartimento. Figura 6. Conceito 2 de mobilirio multifuncional O conceito 3 (Figura 7) seguiu a proposta de adicionar funes ao produto, mas buscando manter a simplicidade na soluo e no desenho. Nesse caso, foi inserido um aparador na parte posterior, que alm de servir como apoio para o encosto tambm permite que o usurio possa utiliz-lo como mesa quando necessrio, possuindo a funo de apoiar objetos decorativos e desempenhando o papel de delimitar o ambiente. H tambm uma bandeja articulada em material metlico, presente na lateral do apoio para braos. O sistema funcional consiste em um colcho dobrvel, bastando abri-lo e desliz-lo para transformar a poltrona em cama. Por ltimo, dentre os vrios conceitos e variaes desenvolvidos um deles foi selecionado e passou pela fase de refinamento e aperfeioamento de seu desenho. Para avaliao dos conceitos apresentados levou-se em considerao a simplicidade da soluo e as possibilidades de funes que o produto poderia exercer. Desta forma, o conceito 3 foi o escolhido por ter sido o melhor avaliado em relao aos critrios previamente estabelecidos. 42. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 9 Figura 7. Conceito 3 de mobilirio multifuncional O conceito escolhido ainda passou por uma etapa de refinamento at chegar proposta de produto final. Como apresentado na Figura 8, em um primeiro teste de refinamento o apoio para braos e bandeja foi substitudo por um simples, de madeira, enquanto o outro brao ganhou uma funo secundria, de suporte para jornais e revistas. J na segunda proposta de refinamento a ideia que a poltrona tambm tivesse a funo de mvel modular, que pudesse se tornar um sof de dois lugares e cama de casal. Para isso o apoio para braos em estofado foi substitudo por apenas um em madeira; essa alterao tornou o conjunto simples e mais harmonioso, sem reduzir sua funcionalidade. Na terceira proposta o aparador teve que ser reduzido para que o usurio tivesse conforto ao sentar para us-lo como mesa de apoio. Optou- se por aplicar essa mudana no apoio para brao, para que essas duas peas continuassem em concordncia. Figura 8. Propostas de refinamento do conceito escolhido 4. Resultado Final O conceito escolhido foi ento modelado em software 3D, representando virtualmente como o produto seria na realidade. O desenho apresenta uma configurao formal composta de formas geomtricas, com silhueta esguia, cuja simetria foi interrompida pelas peas de dimenses distintas do apoio para brao e aparador. H predominncia 43. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 10 de linhas retas e traos simples, formando um conjunto livre de excessos e funcional, que so tpicos do estilo contemporneo. Outras caractersticas deste estilo foram incorporadas ao produto, como moblia larga, baixa e espaosa. As prateleiras do aparador foram novamente modificadas (Figura 9) e foram fixadas um pouco abaixo em relao ao desenho original, bem como a segunda prateleira teve sua espessura reduzida. Assim, o mvel se adapta melhor s dimenses do usurio, resultando em maior conforto. Optou-se por aplicar essa mudana no apoio para brao para que as duas peas continuassem em concordncia quando juntas. Figura 9. Rendering do produto Como complemento dessa ideia foi desenvolvido um ba multifuncional, que proporciona ao usurio um local para guardar objetos, podendo ser alinhado ao lado da poltrona onde no h apoio para brao desenvolvendo assim essa funo. Tambm pode ser utilizado como um banco quando se fizer necessrio usar o aparador. Sua tampa se transforma em uma bandeja, devido presena de pernas articuladas. O ba tem a possibilidade de ser deslocado pelo ambiente com mais facilidade atravs de um conjunto de rodzios de silicone, que possuem uma trava que proporciona maior segurana e estabilidade. A poltrona se transforma em cama (Figura 10) em decorrncia do sistema funcional que consiste em um estrado que est ligado base da poltrona atravs de dobradias. Um estrado desliza pelo outro, por isso foi necessrio desenvolver trava para que ele no sasse totalmente. Esse problema foi solucionado ao inserir um pino de madeira com acabamento emborrachado no estrado. Ao deslocar uma parte do estrado o pino fica preso perna, freando essa pea (Figura 11). 44. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 11 Figura 10. Rendering da poltrona transformada em cama Figura 11. Trava evita que o estrado saia completamente As pesquisas realizadas sobre materiais indicadas nas diretrizes do projeto confirmaram que o uso da madeira macia na estrutura da poltrona era a melhor opo devido sua resistncia e valorizao. Desta forma, todo o produto constitudo por madeira de eucalipto, com acabamento natural por meio da aplicao de verniz natural ecolgico sem solventes (COV's), o que representa aspectos de sustentabilidade agregados ao mvel e assim valorizando-o ainda mais. 45. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 12 O estofado de espuma D33 de poliuretano flexvel isento de CFC possui a vantagem de poder ser desdobrado e se transformar em colcho. O revestimento do estofado ser em camura lisa, tecido que transmite conforto, suavidade e oferece praticidade na limpeza. Na Figura 12 o usurio para transformar a poltrona em chaise desdobra o estrado, que est fixado atravs de dobradias na base da poltrona. Figura 12. Transformao da poltrona em chaise longue Caso ele queira usar a poltrona na funo de cama, ele puxa o estrado, fazendo com que um deslize pelo outro, obtendo assim a extenso que possibilita o mobilirio virar cama. Para guardar o estrado ele realiza o mesmo movimento, empurrando um estrado para dentro do outro (Figura 13). Figura 13. Utilizao do mvel como cama e retorno funo de poltrona Para fazer refeies o usurio pode fazer uso da tampa do ba ou do aparador, que tambm tem a funo de estao de trabalho (Figura 14). Para aqueles que necessitam de um sof de dois lugares a poltrona tambm pode ser alinhada a outra poltrona do mesmo modelo, formando um conjunto de sofs, como tambm podem ser usadas separadamente, e compondo um ambiente mais amplo. Ao unir uma poltrona outra, o produto tem a possibilidade de se transformar em cama de casal (Figura 15). 46. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 13 Figura 14. Usurio utilizando a tampa do ba como bandeja e o aparador traseiro como apoio Figura 15. Configurao da poltrona como sof, estendida tambm cama de casal 5. Concluso O projeto descrito consiste em uma poltrona multifuncional que possui a vantagem de se transformar em espreguiadeira, cama, estao de trabalho, mesa para refeies e ainda atua como divisor de ambientes devido presena do aparador na parte posterior. Entre suas vantagens esto a economia de mobilirio no ambiente, visto que ele integra funes que outros desempenhariam, e o fato de ser um mvel compacto, tornando-o adaptvel para pequenos espaos. Outro fator positivo a possibilidade de modularidade que o produto proporciona, podendo formar uma cama de casal ou sof de dois lugares ao unir uma poltrona outra, possibilitando variadas configuraes do ambiente. O acrscimo do ba ao projeto veio agregar mais uma funo ao produto, pois nele o usurio alm de dispor de um local para acomodar objetos pode utilizar a tampa como bandeja e caso seja necessrio tem a possibilidade de us-lo como banquinho. Por fim, as opes de se utilizar madeira macia e materiais sustentveis, que geralmente possuem maior custo, podem fazer com que o projeto se eleve em termos de categorizao do mercado-alvo, se posicionando como uma opo para uma classe mdia com maior renda em relao ao pblico que foi determinado e analisado na fase de pesquisa do projeto. 47. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 14 Referncias BARROSO, Deise. V. et al. O setor de mveis na atualidade: uma anlise preliminar. Rio de Janeiro, 2007. BOMBASSARO, Luana. O design no setor de mveis. SEBRAE. Disponvel em: . Acesso em 15 mar 2012. BRUM, Eliane. Uma famlia no governo Lula. Revista poca. Disponvel em: . Acesso em 20 mar 2012. Cetelem BGN. O Observador Brasil 2012. v.7, p.1-100, 2011. DEVIDES, Maria Tereza Carvalho. Design, Projeto e Produto: o desenvolvimento de mveis nas indstrias do Plo Moveleiro de Arapongas, PR. Bauru, 2006. 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Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014, So Paulo: Centro Universitrio Senac ISSN 2179474 X 2014 todos os direitos reservados - reproduo total ou parcial permitida, desde que citada a fonte portal de revistas cientficas do Centro Universitrio Senac: http://www.revistas.sp.senac.br e-mail: revistaic@sp.senac.br A cidade-fbrica como agente fomentador de uma microcoleo de vesturio The factory town as a developer agent of a micro collection of clothing Camila Renata Carneiro Cavalcanti, Myrla Lopes Torres, Silvia Loch Universidade Federal da Paraba - UFPB Departamento de design - bacharelado em design milacarneiro@live.com, myrlaltorres@gmail.com, sil_loch@hotmail.com Resumo. Este artigo descreve as etapas projetuais do desenvolvimento de uma microcoleo de vesturio cuja referncia foi a histria e a cultura da cidade de Rio Tinto/PB. Atravs das pesquisas realizadas constatou-se que, aps o fechamento da companhia de tecidos, a tradio produtiva da cidade no mais explorada de forma expressiva em termos econmicos, nem parece ter sua memria resguardada e reconhecida dentro e fora do litoral norte. Notou-se tambm a falta de valorizao das potencialidades culturais e histricas de Rio Tinto, bem como a pouca ateno dada aos projetos de design de cunho social e a carncia de material de design direcionado cidade rio-tintense. Foi utilizado para este projeto um conjunto de metodologias, buscando-se o mtodo de acordo com a natureza de cada item. O embasamento terico deste artigo composto de temas como: design social, design de moda, histria de Rio Tinto e design e territrio. No que concerne s anlises, estas so apresentadas atravs de: marcadores de identidade, pblico alvo (por meio da tcnica de persona), concorrentes e tecidos da antiga fbrica da cidade. Na fase de anteprojeto utilizaram-se mtodos de design participativo e iniciou-se a etapa do processo de criao dos croquis, em que foram escolhidos dois vestidos para detalhamento tcnico. Palavras-chave: Rio Tinto, design de moda, design social, design participativo. Abstract. This article describes the development stages of a micro collection of clothing based on the history and culture of the Rio Tinto/PB city. Earlier Researches have confirmed that after the closure of the textile factory, the citys productivity is no longer explored in its economic sense and its memory is not recognized inside and outside the north coast. The cultural and historical potential of Rio Tinto city suffers with the lack of valorization of its social design projects, and design material. For this project we used a mix of methodologies seeking for the method according to the nature of each item. The theoretical foundation applied in this article consists of topics such as: social design, fashion design, history of Rio Tinto and territory and design. The analysis will be present through: identity markers, target audience (by the persona technique), competitor and fabrics of the old citys factory. In the pre- project stage, we used participatory design methods and we started the process of sketches creation, where were chosen two dresses for the technique detailing. Key words: Rio Tinto, fashion design, social design, participatory design. 49. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 2 1. INTRODUO O surgimento da cidade de Rio Tinto, como se conhece atualmente, advm da insero de uma fbrica de tecidos na regio e a criao de uma estrutura urbana que sustentasse o funcionamento dessa indstria. De acordo com Mariz (1939 apud VALE, 2008), "a construo da fbrica Rio Tinto com tecidos, estamparia [...] teve incio em 1917, sendo inaugurada festivamente em 1924". Ressalta-se ainda que nos tempos ureos da dcada de 1930 a cidade-fbrica recebeu o ttulo de "maior centro industrial de tecidos do Norte do Pas" (JORNAL A UNIO, 1933 apud VALE, 2008), alm da visita do presidente da poca Getlio Vargas, o qual encomendou a vestimenta da Marinha brasileira. Em contrapartida, a partir do final da dcada de 1960 a Companhia de Tecidos de Rio Tinto (CTRT) comeou a entrar em crise e se desfazer de suas terras e empregados. Em 1990 a CTRT foi desativada por completo. Segundo entrevista realizada com antigo funcionrio da fbrica, observa-se que o fechamento da Companhia de Tecido de Rio Tinto ocasionou problemas no s para a economia local, mas gerou em seus habitantes um sentimento de baixa autoestima. Sendo esta observada na falta de valorizao de suas potencialidades culturais e histricas. Baseado nesta falta de apreo e em pesquisas de campo constatou-se que a tradio produtiva da cidade no mais explorada de forma expressiva em termos econmicos, nem parece ter sua memria resguardada e reconhecida dentro e fora do litoral norte. Num contexto geral, observou-se tambm a crescente preocupao com a valorizao de identidades locais, as quais buscam exprimir atravs da criao de um produto as caractersticas marcantes de uma determinada regio. Tal preocupao pode ser visivelmente encontrada na bibliografia de Krucken (2009). Baseado nos expostos acima, este artigo buscou desenvolver uma microcoleo de vesturio com caractersticas simblicas e estticas de Rio Tinto sob a tica contempornea com o intuito de resgatar o contexto histrico e cultural da cidade. Pois se acredita no design como instrumento facilitador e modificador da qualidade e autoestima da cidade de Rio Tinto. Como afirma Frana (2005) um ponto de partida interessante "partir de referncias locais, do conhecimento da prpria cultura, que passa por uma percepo da tradio e atingir o global". Metodologia A estrutura metodolgica adotada neste artigo foi proposta por Bonsiepe (1984), e suas etapas projetuais podem ser descritas em: levantamento de dados, anlises, requisitos e parmetros, anteprojeto e projeto. O levantamento de dados teve como intuito coletar o mximo de informaes possveis a respeito dos temas centrais do projeto. Procurou-se obter dados sem censur-los, pois de acordo com Lbach (2001, p. 143), "todos os dados podem ser importantes para a base sobre a qual se construir a soluo". No que concerne a este levantamento, utilizou-se basicamente a pesquisa exploratria, pois segundo Lopes (2006, p. 226), nesta pesquisa faz-se o uso de pesquisa bibliogrfica, pesquisa documental, entrevistas e estudos de caso. A pesquisa bibliogrfica foi realizada com base em documentao indireta, ou seja, de materiais j elaborados como livros, artigos, catlogos, revistas e internet. Fez-se tambm o levantamento e estudo de caso de projetos de design sociais e participativos. Fizeram parte destes estudos os projetos da Associao das artess do pontal de Coruripe/AL (MACIEL), do Recicla jeans (ONG Florescer), do Instituto Faber-Ludens, e do Empreendimento solidrio unidas somos mais de Londrina (SANCHES E SILVA). 50. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 3 Na pesquisa documental buscou-se coletar fotografias antigas, amostras de tecidos da companhia e comunicaes informais com os nativos. Ou seja, quaisquer "materiais que ainda no receberam um tratamento analtico ou que podem ser reelaborados de acordo com os objetivos da pesquisa" (BEUREN, 2003 apud LOPES, 2006, p. 220). Por fim, realizou-se a pesquisa de campo a fim de obter registros fotogrficos da cidade de Rio Tinto/PB; visitaes a lojas de vesturio com carter regional, bem como entrevistas com proprietrias ou responsveis dessas lojas; e aplicao de questionrio com o pblico alvo. Aps o levantamento os dados foram ponderados atravs das anlises de: marcadores de identidade, pblico alvo, concorrentes e tecidos da antiga fbrica da cidade. Faz-se necessrio esclarecer que as metodologias consultadas nesta etapa foram as de Krucken (2009), Van Amstel (2007), Treptow (2007) e Seivewright (2009). Em seguida, traaram-se os requisitos e parmetros para nortear a etapa de anteprojeto, sendo esta caracterizada pela gerao de alternativas, pelo desenvolvimento do design participativo e pela escolha dos esboos. Por fim, deu-se incio a etapa de projeto atravs do detalhamento tcnico dos croquis escolhidos. 2. REFERENCIAL TERICO Design social Embora o termo design tenha se tornado algo comum atualmente, o seu significado "possui uma srie de incongruncias, apresenta inmeras manifestaes e carece de limites que lhe emprestem clareza e definio" (HESKETT, 2008, p. 9-10). Baseada nesta afirmao, a maioria das literaturas encontradas sobre design preocupa-se em iniciar o seu trabalho com a conceituao do que venha a ser este ofcio, pois se acredita "que esta recorrncia advenha do fato de que cada autor precise, de incio, explicitar a sua concepo da profisso e descrever os compromissos que esto implcitos na sua prtica profissional" (NIEMEYER, 2007, p. 23). Partindo desse pressuposto, o design pode ser entendido como: Uma atividade contempornea que nasceu da necessidade de estabelecer uma relao entre diferentes saberes e diferentes especializaes. Design o equacionamento simultneo de fatores sociais, antropolgicos, ecolgicos, ergonmicos, tecnolgicos e econmicos, na concepo de elementos e sistemas materiais necessrios vida, ao bem-estar e cultura do homem (NETO, 1981 apud NIEMEYER, 2007, p. 25). Apesar de todos os fatores explicitados acima estarem agregados ao design, ainda atribui-se a esta profisso um carter suprfluo, cuja qualificao est relacionada ao modo de vida capitalista da sociedade e das empresas, sendo estas orientadas para o consumo excessivo e para o lucro. Dijon de Moraes no livro "Entre mimese e mestiagem" (2006, p. 116), sintetiza algumas teorias anticonformistas do modelo capitalista, onde vale ressaltar a teoria de Ignacy Sachs, a qual afirma que "a sociedade industrial , hoje muito voltada para a produo de bens de posse, em detrimento do bem-estar, e o nvel de vida vem sendo medido apenas em funo do nvel de consumo". Sabe-se que o elevado nvel de consumo confere ao design a preocupao de desenvolver produtos que tenham como foco a indstria capitalista. Embora esta seja uma possibilidade de atuao do designer, importante salientar que este mercado 51. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 4 apenas umas das inmeras reas de ao deste profissional e, consequentemente, no deve ser tomada como um todo. Outra rea que merece ateno o design social, sendo seu objetivo primrio "a satisfao das necessidades humana" (MARGOLIN, 2004, p. 44). Lbach (2001, p. 201-03) afirmar que "o design social orientado para problemas sociais e tem como meta a melhoria das condies de vida de determinados grupos sociais. Portanto, o designer coloca o problema dos usurios no centro das atenes do projeto". De forma a complementar as definies de design social, Luz (2007 apud SILVA, 2009) argumentar que o projeto de produtos com nfase no social propicia a elevao da autoestima da sociedade. A preocupao do design com este assunto muito mais que um simples desenho de produto; projetar equipamentos que possam propiciar novas formas de ajudar, elevar a autoestima de quem necessita, propor felicidade e, muitas vezes, at salvar vidas, e ter uma preocupao diria para fazer o melhor (LUZ, 2007 apud SILVA, 2009, p. 24). Uma das formas de atuao do design social diz respeito s trocas produtivas de conhecimento entre uma comunidade e o designer, cuja relao "pode contribuir para o processo de renovao cultural" (CROCCO, 2000, p. 26) atravs do desenvolvimento de produtos com alto valor agregado. importante salientar que com a valorizao do "cidado e seu territrio, o design pode contribuir de forma significativa para a transformao pessoal e profissional dessas pessoas, alm de fortalecer o setor econmico do artesanato" (RIOS et al., 2010). O design social pode atuar tambm como difusor de cultura, arte e artesanato de uma regio atravs da inspirao de aspectos locais em prol do desenvolvimento de produtos e/ou servios. A valorizao destas tradies e aspectos naturais permite o aumento no valor agregado do artefato final, pois "procuramos objetos no somente teis, nem apenas belos, mas que tambm estejam carregados de outros significados - smbolos da memria de um lugar, de um grupo de pessoas" (LACERDA, 2007). No que concerne aos procedimentos metodolgicos, o design social poder apropria- se de mtodos de pesquisa de reas como a da antropologia social a fim de possibilitar a coleta de dados que condigam com a realidade, sendo o recurso mais utilizado a observao participante. Este recurso metodolgico pode ser entendido como: O processo pelo qual se mantm a presena do observador numa situao social com a finalidade de realizar uma investigao cientfica, de modo que o observador est face a face com os observados e, ao participar da vida deles no seu cenrio, colhem dados. (MALINOWSKI, 1990 apud DIAS; CORTES, 2007). Outro mtodo utilizado diz respeito ao design participativo, onde este pode ser compreendido como a valorizao da "participao de usurios durante o processo de desenvolvimento de produtos e servios" (INSTITUTO FABER-LUDENS, 2008). De acordo com Iida (2005, p. 65) nos projetos participativos o produto avaliado continuamente pelo pblico alvo, onde irregularidades so corrigidas ainda na etapa projetual. A "inteno fazer com que se tornem um parceiro como outros na equipe de design, projetando o produto em cooperao com os designers" (PREECE et al., 2005). 52. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 5 Segundo o Instituto Faber-Ludens (2008) o procedimento a ser adotado no design participativo ir depender da situao do projeto, no podendo assim generalizar uma metodologia projetual. Apesar deste detalhe, existem alguns elementos que so comuns no processo de design participativo, so eles, estudo etnogrfico, rituais de comprometimento, oficinas participativas, jogos organizacionais e prototipao. Design de moda Convergncia. Essa a expresso que alguns autores de livros e artigos concluram a respeito da afinidade entre moda e design. Conforme afirma Bastian (2008, p. 2) "a afinidade entre a moda e o design de produtos , como sabemos, bastante antiga". Entretanto, esta rea "passou a ser acolhida pelo design somente no incio do sculo XXI" (PIRES, 2008, p. 13), quando ocorreu a insero de disciplinas metodolgicas referentes ao campo do design na rea de moda a fim de promover subsdios no desenvolvimento de vesturios e acessrios e, consequentemente os cursos existentes passaram a ser nomeados de design de moda, ao invs de estilismo. (RYBALOWSKI, 2008). No artigo "consideraes ticas na pesquisa em design de moda" ratificam-se as informaes iniciais quando os autores falam que Atualmente, constata-se uma acentuada convergncia entre a moda e o design, com mltiplas interaes, seja na busca de referncias visuais ou estticas, ou na busca de metodologias que permitam sistematizar e integrar processos produtivos. O design, que em suas origens se associou racionalidade e funo, passou a buscar elementos inspiradores, como formas, cores e estampas no universo da moda. Por outro lado, a moda busca no design o embasamento metodolgico projetual, e/ou cientfico, visando se adequar s exigncias produtivas do mundo globalizado. Dessa unio surgem diversos aspectos que podem e devem ser analisados para um desenvolvimento progressivo no s da rea da moda, mas tambm do design em suas diversas especialidades. (CARNEIRO et al., 2010). Para Treptow (2007, p. 26), "a moda um fenmeno social de carter temporrio que descreve a aceitao e disseminao de um padro ou estilo, pelo mercado consumidor, at sua massificao e consequente obsolescncia como diferenciador social". Ressalta-se que este diferenciador est associado busca pela individualizao do homem atravs da aparncia, seja esta fsica ou simblica (relativa ao status). O fenmeno de moda serve ainda como mantenedor de tradies, histrias e smbolos, como observam Pereira et al. (2010, p.373) e Santos (2010, p.6). Embora o conceito embrionrio de moda seja vinculado a preceitos sociais e antropolgicos de forma abrangente, "falar em moda nos remete, na maioria das vezes, ao vesturio" (VATRAS, 2009, p.1). Calanca (2008, p. 16) observa ainda que A indumentria um fenmeno completo porque, alm de propiciar um discurso histrico, econmico, etnolgico e tecnolgico, tambm tem valncia de linguagem, na acepo de comunicao, isto , um sistema de signos por meio do qual os seres humanos delineiam a sua posio no mundo e sua relao com ele. 53. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 6 Rio Tinto O municpio rio-tintense localiza-se na mesorregio da zona da mata paraibana e na microrregio do litoral norte. Do mesmo modo faz limite ao norte com a Baa da Traio, Marcao e Mataraca; ao leste com o Oceano Atlntico; ao oeste com Mamanguape e ao sul com Santa Rita e Lucena. De acordo com dados do IBGE, no ano de 2010 sua populao contava com 22.947 habitantes. A histria de Rio Tinto tem incio no ano de 1917 quando Arthur Barbosa de Ges, a mando do coronel Frederico Joo Lundgren, enviado Mamanguape para conhecer terrenos, com o objetivo de ampliar suas instalaes txteis, como observam Panet (2002) e Fernandes (1971). O bairrismo mamanguapense, como narra Fernandes (1971, p. 26), fez com que as primeiras investidas na aquisio de terras obtivessem respostas negativas. Por isso, Arthur de Ges partiu rumo ao Rio Grande do Norte a fim de implantar a futura fbrica na cidade de Macaba, entretanto, devido a falta de iseno fiscal negada pelo governador potiguar, o senhor Arthur de Ges resolveu regressar Paraba. Uma vez em terras paraibanas, Ges buscou interveno direta do governador da poca Dr. Camilo de Holanda, onde exps suas pretenses de estabelecer uma fbrica de tecidos na regio, mas em troca deveriam ser concedidos 25 anos de iseno de imposto estadual. Aps a reivindicao ser aceita pelo presidente da Paraba, Arthur de Ges volta a Mamanguape e compra propriedade de nome "Trs Rios" do senhor Joo Primo, sendo esta a principal entrada para escoamento de materiais e meio de transporte. Arthur de Ges tentou comprar o Engenho Preguia pertencente ao coronel Alberto Csar de Albuquerque, entretanto s conseguiu concretizar a compra aps mediaes polticas por meio do lder da cidade de Mamanguape, Joo Rafael de Carvalho. Ressalta-se que o Engenho Preguia foi vendido por 23 contos de ris. "A antiga Vila da Preguia, aos olhos do observador leigo, no oferecia grande atrativo" (PANET, 2002, p. 26) devido suas terras serem tpicas da vegetao de mangue. Estas terras ainda foram "definidas pelo escrivo do Cartrio da cidade, Antnio Piaba, como bom negcio para botar dinheiro fora, s tem sezo, ndio e preguia" (GES, 1963 apud VALE, 2008). Segundo Ges (1963 apud PANET, 2002), "em 15 de fevereiro de 1918, Frederico Lundgren escrevia, de prprio punho, as primeiras instrues para a ocupao das terras". Ainda neste ano, deu-se incio a construo das casas dos operrios e da fbrica, simultaneamente. Com a instalao de uma olaria, que produzia tijolos vermelhos lacrados com o nome do empreendimento, as primeiras edificaes foram implantadas. As palhoas iniciais de apoio s instalaes foram substitudas por arruados de casas, a maioria de porta e janela, num total de 2.613, no perodo compreendido entre 1920/48. A farmcia, a igreja, o grupo escolar, feiras semanais, clubes recreativos e padaria foram construdos em 1923, o hospital e o barraco em 1940 e, em 1945, a cantina. A construo da fbrica, montagem das oficinas, casas de fora e instalao dos equipamentos deu-se entre 1923 e 1941 (GES, 1963 apud PANET, 2002). A fbrica de tecidos de Rio Tinto foi inaugurada com festividade no dia 27 de dezembro de 1924, "com a presena de autoridades, pessoas da terra e forasteiros. Foi um dos maiores acontecimentos dos ltimos anos no Estado" (MARIZ, 1939 apud VALE, 2008). Destaca-se ainda que a fbrica possua uma 54. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 7 Seo de tecelagem: - ocupando o seu edifcio uma rea de 7.200 m, comeando com 760 teares. Seo de fiao: ocupando o seu edifcio uma rea de 6.400 m com a seguinte maquinaria: 37 mquinas de cardas, 9 de esfriagem, 31 bancos grossos, intermedirios e finos, 45 mquinas de fiar, 5 urdieiras, 3 engomadeiras, e 13.000 fusos (FERNANDES, 1971, p. 32). Embora a Companhia de Tecidos de Rio Tinto (CTRT) fosse um empreendimento realmente grandioso, importante enfatizar a transplantao dos antigos teares de Manchester e Lancashire para as reas mais atrasadas do Brasil, pois estes maquinrios obsoletos eram adaptveis realidade industrial da regio (MELLO, 1977, p. 72). Com a chegada e instalao das famlias no territrio de Rio Tinto fez-se necessrio a prestao de servios por parte do Grupo Lundgren, em acordo com a concesso dos 25 anos de iseno de imposto estadual concedidas por Dr. Camilo de Holanda. Deste modo, enfatiza-se que durante o perodo de iseno os Lundgren seriam responsveis por prover os servios de sade, educao, segurana, lazer e outros populao. (MACEDO, 1988 apud VALE, 2008). Ressalta-se ainda que nos tempos ureos da dcada de 1930 a cidade-fbrica foi considerada pelo jornal A Unio (1933 apud VALE, 2008, p. 47), o maior centro industrial de tecidos do Norte do Pas devido ampliao de seus espaos e, consequentemente do aumento do nmero de moradores e operrios, chegando em 1932 a aproximadamente 14 mil habitantes. Ainda sobre a dcada de 1930, Rio Tinto recebeu com festividade o presidente da Repblica da poca, Getlio Vargas. De acordo com Fernandes (1971, p. 64) o encontro entre Vargas e Frederico Lundgren resultou no surgimento de empregos para duas mil famlias, alm da "fabricao da famosa Mescla Cruzador para vestir a Marinha brasileira". Faz-se necessrio advertir que no s de glria viveu a cidade-fbrica, tanto que em 1945, mais precisamente em 18 de agosto, ocorreu o episdio conhecido como "quebra-quebra". Fernandes (1971, p. 51-55) ir explicar de forma minuciosa o ocorrido, mas em suma, o acontecimento teve incio devido aos discursos antinazistas aps a Segunda Guerra Mundial proferidos por alguns caravaneiros que se postaram na calada do antigo Rio Tinto hotel a fim de chamar a ateno do operariado que saa de mais um turno de trabalho. Com a ateno estabelecida, os caravaneiros incitaram os trabalhadores a tomarem providncias no que concerne a expulso dos alemes que ocupavam os cargos de chefia da Companhia de Tecidos Rio Tinto e residiam na cidade. "A ELES AOS NAZISTAS! Acabem com todos os seus pertences, porque eles nada tm aqui; tudo pertence ao Brasil e aos brasileiros!" gritaram um dos caravaneiros de acordo com Fernandes (1971, p. 53). Com o ego inflamado, os operrios partiram rumo s residncias alems e saquearam os objetos de fcil conduo, jogaram em via pblica os pesados mveis das casas e, por fim atearam fogo nas casas. Findada as casas alems, tentou-se atear fogo na fbrica, entretanto os revoltosos foram impedidos pelo Exrcito brasileiro. Tendo em vista este impedimento, os operrios marcharam rumo ao palacete dos Lundgren, onde saquearam, quebraram e queimaram o que viam pela frente. No final da dcada de 1950, a Companhia de Tecidos Rio Tinto deu incio a atualizao de seu maquinrio devido constante modernizao das fbricas txteis do sul do pas. Para isso, a fbrica adquiriu mquinas mais modernas, concomitante a demisso de funcionrios (PANET, 2002, p. 37; VALE, 2008, p. 52). No decorrer dos anos de 1960 a fbrica modernizou-se cada vez mais atravs do benefcio 55. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 8 institudo pela SUDENE, sendo estas melhorias relativas compra de novos equipamentos e aperfeioamento nos galpes de trabalho, o que ocasionou a demisso de aproximadamente 3.236 operrios (PANET, 2002, p. 37). Com a juno das demisses em massa dos trabalhadores e a concorrncia com as indstrias txteis do Sul do Pas, o Grupo Lundgren se viu obrigado a se desfazer de suas terras e empregados, ocasionando paulatinamente a sua desativao. Como afirma Panet (2002, p. 38), "a Cia. negociou algumas casas, alguns prdios pblicos e comeou a vender suas terras, a maioria foi destinada s destilarias de lcool, que as usam no plantio da cana-de-acar, cultura tpica da regio desde os primrdios da sua ocupao". Segundo Vale (2008, p. 52-53) a Companhia de Tecidos Rio Tinto foi desativada por completo em 1990 e "atualmente, os Lundgren ainda so proprietrios de grande parte do patrimnio imobilirio da cidade, desde as casas da vila operria, prdios da fbrica, cinema, igreja e algumas propriedades de terras em torno de Rio Tinto". Devido s polticas de interiorizao da Universidade Federal da Paraba (UFPB), a Instituio de Ensino Superior instalou, desde 2006, o campus IV da UFPB, nas dependncias da fbrica. Design e valorizao de produtos e territrio Estimular o reconhecimento das qualidades e dos valores relacionados com um produto local [...] uma forma de contribuir para tornar visvel sociedade a histria por trs do produto. Contar essa 'histria' significa comunicar elementos culturais e sociais correspondentes ao produto, possibilitando ao consumidor avali-lo e apreci-lo devidamente. E significa desenvolver uma imagem favorvel do territrio em que o produto se origina (KRUCKEN, 2009, p. 22-23). A partir da afirmao acima se acredita que a aquisio de produtos locais permite o aumento do consumo responsvel e a rastreabilidade, ou seja, o consumidor reconhecer, de forma mais significativa, a procedncia do produto adquirido, alm de favorecer a preservao e divulgao do patrimnio cultural e imaterial da comunidade produtora. Segundo Krucken (2009, p. 51) o design configura-se como "facilitador do processo de inovao", alm de ser responsvel pelo fortalecimento de identidades locais e a consequente ampliao do valor agregado dos produtos. Atravs do trabalho do designer possvel: identificar e explorar de maneira sustentvel os recursos do territrio; projetar produtos e servios com alto valor agregado tendo como norte as competncias e riquezas culturais; fortalecer a imagem do territrio, de seus produtos e afins; colaborar com a inovao e aperfeioamento do design local, dentre outros. Embora no exista uma receita especfica para o desenvolvimento de projetos que valorizem os produtos locais, Krucken (2009, p. 98) ir enumerar oito aes que tem por objetivo promover os produtos e territrios, so elas: a) reconhecer as qualidades do produto e do territrio; b) ativar as competncias situadas no territrio; c) comunicar o produto e territrio; d) proteger a identidade local e o patrimnio material e imaterial; e) apoiar a produo local; f) promover sistemas de produo de consumo sustentveis; g) desenvolver novos produtos e servios que respeitem a vocao e valorizem o territrio; h) consolidar redes de territrio. 56. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 9 3. ANLISES Anlises sobre os marcadores de identidade de Rio Tinto Esta anlise baseou-se nos marcadores de identidade propostos por Krucken (2009), e por meio dela foi possvel observar os elementos como formas, cores, texturas e estilos. Elementos paisagsticos De acordo com a Companhia de desenvolvimento habitacional e urbano (2008, p.4), os elementos paisagsticos podem ser exemplificados como: "a vegetao, a terra, a morfologia do terreno, a gua, os equipamentos de lazer, o mobilirio urbano, a circulao, os passeios e a iluminao". Figura 1 - Exemplo de elementos paisagsticos de Rio Tinto Elementos do patrimnio imaterial O patrimnio imaterial pode ser entendido como "as prticas, representaes, expresses, conhecimentos e tcnicas - junto com os instrumentos, objetos, artefatos e lugares culturais que lhes so associados" (UNESCO, 2003, p. 4). O patrimnio imaterial diz respeito a qualquer expresso que uma comunidade, grupo ou indivduo reconhea como parte do seu patrimnio cultural. Esses saberes e prticas, geralmente, so transmitidos de gerao em gerao. Ainda de acordo com a UNESCO (2003, p. 4) o patrimnio imaterial pode ser percebido com mais eficcia nas festas e rituais, na expresso oral, nas tradies e nas tcnicas artesanais. No tocante ao patrimnio imaterial de Rio Tinto este diz respeito, principalmente, as festas que j se tornaram tradio na cidade, como: a festa da padroeira Santa Rita de Cssia, carnaval, So Joo, desfile de 7 de setembro, a vaquejada da independncia, a festa de emancipao da cidade e o Natal. Elementos do patrimnio material O patrimnio material pode ser entendido como o conjunto de bens culturais, que so classificados segundo sua natureza em: "arqueolgico, paisagstico e etnogrfico; histrico; belas artes; e das artes aplicadas" (IPHAN). Para esta anlise foram registradas apenas as construes arquitetnicas da cidade de Rio Tinto. 57. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 10 Figura 2 - Exemplo de elementos do patrimnio material Texturas De forma a destacar alguns elementos das arquiteturas de Rio Tinto, foram registradas texturas com o intuito de aumentar as possibilidades de utilizao na etapa de anteprojeto, sendo possvel notar a presena de vazados e de baixo-relevo. Figura 3 - Texturas encontradas na cidade de Rio Tinto Anlises sobre o pblico alvo Estabelecer um pblico alvo para produtos de moda, principalmente de vesturio, uma tarefa bastante complicada, uma vez que a roupa pode agradar a diferentes consumidores, independente da sua idade ou estilo. Aliando este pensamento ao tema proposto e ao carter participativo deste artigo, o pblico alvo principal deste projeto foram as universitrias da Universidade Federal da Paraba, campus IV, unidade Rio Tinto. Mas, de forma geral, o pblico composto tambm por mulheres que tenham interesse pela cultura e/ou histria da Paraba. 58. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 11 Para fins de estudo, o pblico alvo principal utilizou-se da tcnica de persona. Este mtodo consiste no agrupamento e apresentao de resultados da pesquisa atravs da criao de um personagem que represente uma parcela do pblico alvo. De acordo com Van Amstel (2007) "as personas se aproveitam do poder das narrativas para aumentar a ateno, a memorizao e a organizao dos dados coletados sobre os usurios". importante destacar que embora seja um usurio fictcio, no que tange ao nome, imagem e caractersticas fsicas, as demais caractersticas foram baseadas em informaes reais provindas do questionrio aplicado ou de observaes da rotina e conversas com este pblico. Anlises de concorrentes Concorrentes diretos A anlise de concorrentes diretos foi resultante da visitao a lojas de cunho regional da capital paraibana, Joo Pessoa. E de pesquisas no meio virtual com o objetivo de buscar mais informaes e concorrentes, devido a pouca contribuio dada pelas lojas pesquisadas in loco. Faz-se necessrio esclarecer que foram analisadas 12 roupas de quatro marcas diferentes do Estado, a saber, Natural Fashion, Coco Brasil, Francisca Viera e Capucho's. Concorrentes indiretos "No tocante moda, a concorrncia no se d apenas nos produtos de vesturio, mas acontece tambm de maneira indireta" (TREPTOW, 2007). Esses concorrentes indiretos podem ser encontrados nos mais variados segmentos e diz respeito aos produtos que poderiam ser consumidos pelo pblico alvo, ou seja, produtos que podem influenciar a no aquisio de vesturios. A partir dos resultados obtidos com a aplicao do questionrio e de observaes do pblico alvo, os concorrentes indiretos foram: compras de livros, de computadores portteis e viagens. Anlise dos tecidos da fbrica A anlise das amostras de tecido da fbrica foi resultante de uma pesquisa de campo realizada no escritrio da administrao do patrimnio dos Lundgren, sendo este localizado na Rua da Mangueira. A coleta de dados consistiu no registro fotogrfico das amostras cedidas gentilmente por uma das funcionrias do estabelecimento. Com esta anlise percebeu-se que as texturas mais utilizadas nos tecidos foram as padronagens xadrez e listrada. Entretanto, apesar de aparecer com uma frequncia menor cita-se tambm a estampa floral. Infelizmente no foi possvel identificar o tipo de tecido de todas as amostras, mas os materiais mais encontrados foram o 100% algodo, tricoline e a seda. Notou-se tambm a variedade de cores que a Companhia de Tecidos oferecia aos seus consumidores. Dentre as cores mais encontradas cita-se o azul, vermelho, branco e rosa. 59. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 12 Figura 4 - Amostras de tecidos da antiga fbrica 4. ANTEPROJETO Como apreendido no tpico "design social", o design participativo um importante instrumento de valorizao do consumidor e uma forma eficaz de diminuir os riscos e incertezas da confeco do produto final. Para esta etapa, adotou-se a estrutura metodolgica do Instituto Faber-Ludens, nos quais foram ressaltados apenas os elementos cabveis ao projeto. De forma a complementar, utilizaram-se diferentes mtodos de sites especializados como o community planning e o people and participation. Devido impossibilidade de encontros frequentes com o pblico alvo e, a compreenso da importncia de uma metodologia participativa em projetos de design optou-se pela utilizao de meios de comunicao virtuais em grande parte do processo. A internet, como afirma o site community planning (2011), permite que as pessoas se envolvam em projetos de maneira mais confortvel, uma vez que elas participaro de suas casas e/ou escritrios nos horrios que acharem mais convenientes. A priori, foram utilizadas no meio virtual a combinao de dois mtodos, o blog e a consulta online. O blog pode ser entendido como "dirios online ou de avisos, onde os indivduos ou organizaes podem fornecer comentrios e crticas sobre as notcias ou assuntos especficos" (PEOPLE PARTICIPATION). A criao do blog teve como objetivo primordial a insero do pblico alvo no processo de criao, bem como a divulgao da histria e cultura da cidade de Rio Tinto. Esta dinmica permitiu tambm o acompanhamento de todo o processo projetual por parte do pblico alvo. Esta etapa teve como marco inicial o envio de aproximadamente cinquenta convites para o e-mail pessoal das universitrias dos cursos da Universidade Federal da Paraba (UFPB) - campus IV, onde medida que as estudantes esboavam interesse em participar do projeto o acesso ao blog era liberado. De forma a obter resultados mais eficazes e participativos, agregou-se ao blog a consulta online, pois este mtodo faz uso do ambiente virtual para compreender as opinies e escolhas das usurias, alm de propor questes de forma mais visual e interativa. Esta consulta permite tambm que os feedbacks ocorram com mais agilidade. 60. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 13 No que concerne ao blog, a consulta online foi utilizada para estabelecer as peas que seriam confeccionadas, a paleta de cores, os tipos de decotes e os looks finais da microcoleo. Equipada de resultados provindos das anlises e de opinies do pblico alvo iniciou- se a gerao de alternativas, onde aps o seu desenvolvimento foram apresentados vinte esboos para o pblico atravs do mtodo de "catlogo de escolhas". Esta metodologia permite que as consumidoras tomem conhecimento da gama de opes disponveis e escolham, dentro de uma estrutura pr-estabelecida, os conceitos que mais lhe agradam. De acordo com o site community planning (2008), "as opes so apresentadas na forma de um menu simples feito to visual quanto possvel, atravs de fotografias ou simples desenhos. As escolhas podem ser avaliadas utilizando um sistema de pontos simples". importante explicar a substituio do blog por um grupo no facebook. Esta mudana foi necessria devido o enfraquecimento da participao do pblico alvo nas consultas online e a constatao da presena diria das consumidoras na referida mdia social. Tal mudana acarretou a volta da participao das usurias. A concepo dos conceitos foi apreendida pela autora atravs de um conjunto de metodologias utilizadas pela designer de moda Bell Meira, cujos mtodos foram ajustados com o intuito de adequar as tcnicas ao trabalho. Destaca-se ainda que o contato estabelecido com esta designer se deu atravs de comunicao pessoal. Para atingir os objetivos, o processo criativo foi dividido em trs fases, a saber: extrao das formas, obteno das silhuetas e desenvolvimento de esboos. A primeira etapa deste processo consistiu na extrao das formas com o auxlio do papel vegetal. importante destacar que estes contornos foram extrados das anlises de marcadores de identidade e dos antigos tecidos da Fbrica. Figura 5 - Extrao das formas no papel vegetal 61. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 14 Aps extrair as formas provenientes das anlises, iniciou-se a etapa de obteno das silhuetas, tambm no papel vegetal. Sendo desenvolvidas vinte silhuetas que consistiram no emprego das formas em cima da base do corpo do esboo. Destaca-se tambm que a combinao de diferentes formas em um nico look baseou-se apenas em testes de sobreposio a fim de obter um resultado harmnico. Ressalta-se ainda que por ser um exerccio livre no h problema das formas passarem do contorno do corpo, pois, o interessante deste transbordamento a possibilidade de enxergar qual foi a forma que serviu de base para o look. Figura 6 - Obteno das silhuetas. 62. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 15 A terceira fase culminou no desenvolvimento dos esboos, onde as silhuetas obtidas na etapa anterior passaram por um refinamento e deram vida as primeiras representaes bidimensionais da microcoleo. Tal aprimoramento se deu de forma bastante pessoal, onde os elementos que compunham as silhuetas foram interpretados sob o olhar da autora. Figura 7 - Desenvolvimento dos esboos 63. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 16 5. RESULTADOS As avaliaes dos conceitos foram feitas atravs da juno dos mtodos de consulta online e catlogo de escolhas. Destaca-se ainda que as opes foram apresentadas no blog e no grupo do facebook atravs dos esboos vetorizados, um breve resumo da pea e a silhueta que originou o esboo final. Para facilitar a visualizao e anlise do pblico alvo, os vinte esboos desenvolvidos foram divididos em cinco grupos contendo quatro esboos diferentes em cada. Nessa subdiviso buscou-se, ao mximo, deixar os grupos com peas balanceadas e diversificadas. De forma a obter uma viso global dos resultados proporcionados pelo catlogo de escolhas os votos foram elencados em forma de tabela. Esta formatao permitiu que fossem identificados as peas que seriam descartadas e as que fariam parte da microcoleo. Consequentemente, ao final da contagem, foram selecionados oitos croquis. Figura 8 - Croquis escolhidos para compor a microcoleo Embora os oito modelos acima faam parte da microcoleo de vesturio, enfatiza-se que apenas dois croquis foram escolhidos para confeco e detalhamento. Nestes croquis foram realizados testes e adequaes, modelagens, desenho tcnico, bem como um estudo de cores mais detalhado, sendo a cor final escolhida pelas prprias consumidoras, atravs da consulta online. Ressalta-se que aps os testes e adequaes, o decote do croqui azul (figura 9), foi modificado para facilitar a montagem e diminuir o tempo de execuo da pea, alm de permitir o aumento da movimentao dos braos e preservar ainda mais as caractersticas estticas e simblicas do referencial de Rio Tinto. 64. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 17 Figura 9 - Croqui 1 escolhido para confeco 65. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 18 Figura 10 - Croqui 2 escolhido para confeco 6. CONCLUSO Atravs da realizao deste artigo foi constatado o carter imprevisvel de projetos realizados com comunidades e pessoas, uma vez que foi necessrio alguns re- planejamentos e ajustes para que o objetivo geral pudesse ser atingido. Como por exemplo, a modificao da proposta inicial que consistia numa parceria com uma associao de costureiras da cidade de Rio Tinto. Diante da impossibilidade de 66. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 19 efetivar a referida parceria, o trabalho votou-se para a participao do pblico na etapa de anteprojeto. Outro ponto que merece destaque a valorizao do design participativo, em que foi ratificada a importncia da insero do pblico alvo em uma das etapas projetuais. Esta incluso no serve apenas para diminuir os riscos e incertezas de um produto, mas permite ao designer uma experincia altamente enriquecedora como profissional e pessoa, alm de manter o retorno das impresses do pblico sobre o projeto constantemente atualizado. No decorrer do trabalho chegamos concluso tambm de que a tcnica de persona no foi utilizada de forma eficaz devido a utilizao do design participativo. Mas ainda assim, seu carter de conciso para apresentar resultados foi satisfatrio, pois serviu quando necessrio para relembrar de forma breve as pesquisas realizadas com o pblico alvo, a fim de avaliar os croquis antes de serem apresentadas as consumidoras no blog e facebook. Por fim, podemos afirmar que este artigo atingiu os objetivos traados no incio do projeto. E atravs dele esperamos que o mesmo tenha contribudo para a propagao da histria e cultura da cidade-fbrica. 7. REFERNCIAS BASTIAN, Winnie. Moda e design: rumo ao hibridismo? 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Lucas Vinci de Pinho Andrade, Valria Santos Fialho Estudante do Centro Universitrio SENAC Bacharelado em Design com Habilitao em Design Industrial Prof. Dra. do Centro Universitrio SENAC lu.vinci@gmail.com, valeriafialho@gmail.com Resumo. Este trabalho de concluso de curso estuda os elementos modulares utilizados nos edifcios para a construo de anteparos, com especial destaque para os Cobogs. A partir deste estudo o trabalho pretende discutir questes relacionadas ao conforto trmico dos edifcios, ao uso apropriado de sistemas, materiais e formas, a utilizao de processos de fabricao inovadores e da experimentao como fio condutor do desenvolvimento de projeto. O resultado final desta pesquisa a proposio de um sistema modular de fechamento que possa ser comercializado e aplicado na arquitetura e na construo civil, considerando, como elementos fundamentais, a luz e a ventilao e explorando o efeito visual gerado pelo sistema. Palavras chave: cobog, design e modulo. Abstract. This course conclusion Project studies the modular elements used in buildings for the construction of shields, with a special highlight to the Cobogs (Latticework). From this study, the projects purpose is to discuss questions related to the termal comfort of buildings, the adequate use of systems, materials and shapes, the use of innovator fabrication processes, and the experiments, serving like focus to the projects development. The final result of this research is the proposition of a modular system of closing that can be commercialized and applied to architecture, as well as to civil construction, considering, as fundamental elements, light and ventilation, and exploring the visual effect received by the system. Key words: cobogs, design and module. 70. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 2 1. Introduo Aps uma breve pesquisa bibliogrfica sobre a insero e influncia de anteparos, sistemas de controle de luz e elementos vazados na histria da arquitetura, foi destacado o Cobog como objeto de estudo mais aprofundado. Neste trabalho sero estudados os sistemas de elementos construtivos geradores de conforto ambiental e suas aplicaes na arquitetura contempornea, lanando mo da especulao de formas, sistemas e materiais atuais para atualizar a maneira que o elemento vazado, hoje muitas vezes de cermica, aplicado. Aps estudos preliminares e do entendimento do estado da arte atual e da importncia deste sistema para a construo, pretendo propor um projeto que alie a ideia de conforto criao de um sistema diferenciado, que possa ser comercializado e aplicado na arquitetura, levando em considerao a luz e a ventilao como potenciais fenmenos para proporcionar bem-estar e comodidade. Portanto ser desenvolvido um sistema modular de fechamento para edifcios. O projeto visa inovao tecnolgica, pesquisa de materiais para construo civil e, ainda, a experimentao formal, explorando alm das propriedades de anteparo (conforto ambiental) o efeito visual a partir de estudos de geometria. Ao criar um produto com foco para o conforto ambiental e o efeito visual gerado aplicado arquitetura, alguns itens sero levados em considerao: A pea funciona como anteparo, filtro de luz e calor; A pea poder ter influncia de movimentos artsticos, porm ser projetada sem inteno de reproduzir estilos. O desenho tridimensional da pea poder surgir com o auxlio de estudos bidimensionais; Para simulao tridimensional ser utilizado o recurso de parametrizao em softwares de modelagem tridimensional; Interao com o meio para gerar efeitos visuais diferentes. Seja com o movimento do sol para gerar sombras ao longo do dia e modificar a percepo visual, seja pela reflexo do material utilizado, vento e etc. A forma da pea no tem inteno em ser reconhecvel ou figurativa. A superfcie poder ser aplicada no ramo da decorao. A pea ser projetada para fabricao em larga escala. 71. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 3 Mesmo sendo pensado inicialmente para como fechamento de edifcios, o sistema pode ser desenvolvido tambm para outras aplicaes, a partir da manipulao da escala e do uso de diversos tipos de materiais. Pretende desenvolver uma proposta diferenciada do que existe atualmente, com novas tecnologias. 2. Sobre os elementos vazados e anteparos Henrique E. Mindlin (1956) afirma que a arquitetura moderna recebe destaque nas dcadas de 40 e 50 j que foi um momento do sculo que provavelmente foi mais motivado pelas artes visuais. O momento no foi apenas marcado por simples adoes de estilos europeus, mas sim por um novo repertrio de obras de um grupo de profissionais com propostas alternativas esttica nascida no modernismo Internacional. No Brasil a arquitetura moderna revelava forte identidade e originalidade. A arquitetura moderna no Brasil passou a ser reconhecida mundialmente atravs do livro Brazil Builds, tambm da exposio que levou o mesmo nome do livro (realizada em 1943 em Nova York). Revistas europeias conceituadas comearam a disseminar os vrios caminhos que a arquitetura moderna passou a alcanar, como a do Brasil que tambm se diferenciava por ter sido adaptada aos ares tropicais do pas. O Brasil passava por um perodo, assim descrito por Mindlin (1956) de contradio e ambiguidade. Na era Vargas a Kubistchek mudanas significativas modificavam a maneira das pessoas entenderem o mundo, como: alteraes tecnolgicas (evoluo do rdio para televiso); Oportunidade para arquitetos na deciso da cidade que seria a nova capital do Brasil; Segunda guerra mundial; ditadura e conquistas democrticas e nas alteraes na qual a arquitetura e as artes passavam; Industrializao que incentivou a construo de prdios. No ps-guerra comea uma grande demanda de construo, crescimento e o povo otimista quanto ao desenvolvimento. Segundo Mindlin (1956), ao atravessar a dcada de 30, que foi marcada por bastante fora econmica, torna-se notvel um perodo de tentativa de modernizao. Lcio Costa assume a direo da escola de Belas Artes no Rio de Janeiro. Aps a revoluo de 1930, Mindlin (1956) refora a boa fase para o desenvolvimento do estilo moderno. Getlio Vargas pretendia gravar marcas e formas em seu governo e anunciava a prioridade na criao de palcios para sede dos ministrios e rgos pblicos da nova administrao. Naquele tempo o Brasil se mostrava uma grande oportunidade no meio da arquitetura atraindo profissionais de outros lugares do mundo, principalmente europeus que passavam por uma m fase de oportunidades no pas. Donat Agache; Le Corbusier e o italiano Marcello Piacentini se instalaram no Brasil e adquiriram seu espao no meio. Os modernistas, tendo Lcio Costa como idealizador e com consultoria de Le Corbusier executaram o projeto do Ministrio da Educao, que ocupou o lugar do primeiro arranha-cu do planeta, segundo Mindlin (1956). Aps o projeto o prestgio dos profissionais foi ainda maior, e os dois passaram a realizar a maioria das obras estatais. Mesmo com a influncia do governo para criao de obras estatais, o novo estilo passa a obter admirao e reconhecimento, suas formas ousadas passam a ocupar muitas revistas e jornais e a serem incorporadas ao cotidiano. O estilo conseguiu se adaptar bem s necessidades das residncias e aos conceitos de espao livre, 72. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 4 preocupao com a ventilao, calor e excesso de luz presentes no pas de clima Tropical. Figura 1: Lcio Costa, detalhe da faixada do edifcio Bristol (Rio de Janeiro, 1950). O edifcio Bristol um edifcio residencial que reflete bem a adaptao do estilo moderno para este tipo de construo. Em decorrncia do conforto e da proposta de transparncia sugerida pelo estilo, o prdio inserido dentro de uma reserva natural (parque Guinle) no centro do Rio de Janeiro, segundo Mindlin (1956), foi o primeiro prdio de apartamentos a receber prmio. Na faixada dos 3 edifcios que compem o condomnio, so dispostos brises e cobogos que sugerem a proposta modernista relacionada a praticidade, conforto e simplicidade. As linhas estruturais do prdio ficam expostas e os apartamentos com limites bem definidos tornam-se oportunidade de revelar a limpeza da forma do novo estilo. Figura 2: Desenhos a partir do grafismo de cobogos do edifcio Bristol Influenciados por Lcio Costa e pelo modernismo, diversos prdios comeam a esboar a arquitetura modernista brasileira utilizando os cobogos criados no Brasil. Hoje seu uso muito variado se d por conta de no mercado haver diversos tipos de elementos vazados e cobogos fabricados em materiais diferenciados. 73. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 5 Figuras 3 e 4: cobogos inspirados na trama de palha do arquiteto Ccero Ferraz da Cruz e Desenho a partir do cobog de Ccero Ferraz da Cruz. O projeto de Ccero Ferraz destaca-se pela sua geometria que reproduz os vazios de uma trama. A experincia no est desassociada a genialidade de inverter a relao da escala do homem e de um produto que muitas vezes s percebido desta maneira com o auxlio de objetos de ampliao, como uma fotografia macro. Figuras 5 e 6: Cobogos amarelos de cermica esmaltada projetados pela arquiteta Renata Pedrosa e desenhos a partir do Cobog. Renata Pedrosa criou o mdulo acima com dimenses quadradas que permite ser aplicado nas quatro posies. A pea cria uma irregularidade por conta de o quadrado vazado estar deslocado do centro. O mdulo possui um arredondamento sutil e mesmo utilizando materiais do cobog tradicional, transmite a simplicidade do movimento moderno, reforado por sua cor vibrante. Figuras 7 e 8: Galeria de arte da Casa Cor em Braslia (2008) Projeto Domo arquitetos e desenhos realizados a partir do projeto Domo arquitetos. 74. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 6 As peas possuem propostas diferentes desde os desenhos at seus materiais. Todas as peas podem ser aplicadas para decorao, porm algumas recebem um tratamento diferenciado para ressaltar este tipo de utilizao. A funo ventilao explorada em todas as peas. Algumas propostas tiram proveito da forma para direcionar o vento caso haja necessidade, como o caso da veneziana de concreto, bastante utilizada em garagens subterrneas. Outros elementos antigos que sofreram avanos e passaram a serem aplicados de uma forma diferenciada, so os Muxarabis e os Brises. Muxarabis um elemento prximo do Cobog em sua essncia, porm por influncia da arquitetura islmica, os Muxarabis segundo o Instituto Brasileiro de Estudos Islmicos, na cultura rabe foi uma forma encontrada para preservar a mulher islmica, que por entre trelias de madeira era possvel a mulher observar a rua sem que ela se expusesse. A idia de poder ver sem que a pessoa seja vista, foi de grande utilizao no Brasil tambm, durante a fase colonial. A soluo permite a ventilao, a iluminao, e diminui a luz solar incidindo de forma intensa, alm de sua aplicao decorativa, a arquiteta Lina Bo Bardi utilizou o elemento em alguns de seus trabalhos. Figuras 9 e 10: Sesc Pompia - SP (1977) por Lina Bo Bardi, revela espontaneidade nas aberturas propositais no concreto armado em que adapta o prdio da antiga fbrica de tambores para continuar funcionando como espao cultural e desenho e especulao criado a partir da observao da referncia. Na arquitetura atual cresce a demanda por sistemas inteligentes que adaptam a edificao ao meio na qual foi inserida, seja ela mecnica ou no. Afim de uma valorizao da cultura rabe foi feito um grande investimento para criar um visual de modernidade e a ideia de Muxarabis contemporneos. O prdio do Instituto Mundo rabe foi um projeto do final dos anos 1970, quando houve a necessidade de modernizar a imagem que os Franceses tinham do povo, da cultura rabe e do instituto, como afirma Philipe Cardinal (2010). 75. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 7 Figuras 11 e 12: Detalhe do mecanismo da edifcio que lembra aos diafragmas das cmeras fotogrficas. O projeto foi vencedor de um prmio em 1981 e desenho dos sistemas de diafragmas da pele do Instituto Mundo rabe. 3. Referncias de projetos As referncias pesquisadas para o projeto foram das mais variadas possveis j que no me propus a criar um Cobog e sim um sistema que possa servir como anteparo. Portanto, para acrescentar repertrio foram pesquisadas referncias que no necessariamente possuem aplicao na arquitetura, mas que possibilite a gerao de efeitos visuais em diferentes suportes. Cada referncia foi cuidadosamente especulada em termos de materiais, funes e composies obtidas. A partir da pesquisa de projetos e pensar possibilidades de caminhos a seguir notei que seria necessrio alm de existir referncias de materiais que hoje j esto sendo bastante aplicados em cobogos existentes, incluir tambm uma pesquisa de materiais (compsitos) diferentes que foram criados para outras aplicaes e que poderia se apresentar como uma alternativa de anteparo/ fechamento de edifcios. 4. Geometria e experimentao No Instituto para estudos avanados da Filadlfia, so lideradas aulas para experimentaes e sistemas geomtricos denominados Flutter Forms. O solido gerado a partir de papel diferenciado, pois alm do desenho, h a preocupao de faz-lo de maneira que possibilite a mutao formada a partir de estudos geomtricos. Nas primeiras aulas so estudadas formas simples de se obter estruturas em papel, cortes e as tcnicas necessrias. Depois que se tm mdulos, mesmo que simples, estes so aprimorados com noes matemticas e geomtricas. O grupo possui alguns trabalhos divulgados na internet com timos resultados e efeitos surpreendentes. A possibilidade de aplicao dos mdulos bastante ampla e acredito que este tipo de experimentao bastante vlida para o campo da construo civil, apesar da inteno ou no de aplicar os mdulos para outros fins que no sejam s de criar modelos em papel, no encontrei trabalhos que foram continuados neste sentido. 76. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 8 5. Consideraes sobre o projeto e primeiros estudos Figura 13: Construo geomtrica do primeiro estudo. A partir de estudos e observao de referncias, procurei desenvolver um mdulo bastante plstico no qual, com a experincia, pudesse identificar uma boa propriedade do mdulo para ser explorada. A dificuldade de experincias formais e este tipo de explorao tambm serviram como exerccio para que eu pudesse identificar a metodologia mais interessante a ser seguida. Procurei experimentar o mdulo em software 3d (Rhinoceros) e o modelo em papel. A metodologia escolhida ser semelhante a citada na experimentao acima. Recortes, dobras, e utilizao de alguns materiais fceis de realizar pequenos modelos de volume para, a partir da definio da forma, utilizar os softwares para detalhar o projeto e na realizao de maquetes quando houver necessidade de replicar o mdulo inmeras vezes. Desenvolvi o primeiro mdulo tirando proveito de uma geometria simples para comear a idealizar uma estrutura j pensando de como este mdulo pode se concretizar ao universo estudado. Pensando em sua aplicao; montagem; armazenamento e o material que o faria possvel. Figura 14: Duas vistas do primeiro mdulo realizado em papel carto a partir de dois tringulos equilteros. A geometria experimentada permite o fcil armazenamento como uma boa oportunidade a ser explorada e evidenciada. 77. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 9 Figura 15: A estrutura fechada de oito mdulos unidos. Figura 16: Exemplo de estrutura retrtil. Figura 16: Detalhes da estrutura proposta. O primeiro estudo gerou uma forma de geometria simples que sofre bastante alterao de seu desenho em decorrncias das influncias de luz. As sombras criam desenhos diferenciados e sua superfcie multifacetada propicia incidncias diferentes de tons nos planos, confundindo a referncia de posio das faces. Prosseguindo com a especulao de formas o segundo mdulo partiu da experimentao de uma geometria que possibilitasse mobilidade ao mdulo para que quando necessrio o mesmo pudesse sofrer deformao. O fechamento poderia ser projetado para uma utilizao mecnica ou simplesmente fixo com alguma juno que valorizasse a maleabilidade da forma. 78. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 10 Figura 18: Experimentao de uma geometria malevel. Figura 19: Terceiro experimento simplificando a forma anterior. A simplificao da forma no terceiro experimento gerou uma forma fixa sem movimento. Foi descartada logo do incio, pois sua forma possibilitou pouca composio e um mdulo a princpio fechado sem uma aplicao eficiente na passagem de luz. 79. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 11 Figura 20: Quarto mdulo. outra experimentao retrtil. O quarto mdulo ainda com poucas variaes de montagem partia de uma geometria mais complexa e bastante exagerada que no o tornava mais interessante em sua funo e possvel aplicao. Figura 21: Exemplificao da mutao do quinto mdulo. Figura 22: O sexto mdulo realizado. Acima, outro mdulo realizado trabalhando a partir de um plano. A forma e sua geometria possibilitam a alterao da pea. A pea multifacetada gera planos de luz e sombra que criam uma superfcie com maior variao em sua forma, mesmo quando esttica. Se for aprimorada a propriedade de movimento da pea poderiam ser utilizados recursos mecnicos. A geometria surgiu a partir de uma malha quadriculada. 80. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 12 Figuras 23 e 24: Stima e oitava experincia j pensando na simplificao e limpeza da forma para diminuir o volume desnecessrio da pea. Figura 25: Desenho da perspectiva de uma experincia de composio Figura 26: Modelagem realizada no software Rhinoceros. Primeira experincia de configurao da pea. 81. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 13 Figura 27: Quatro vistas frontais das possveis combinaes obtidos pela pea. O mdulo resultou em combinaes muito variadas e por se tratar de um mdulo com faces distintas, os desenhos criados apresentaram configuraes diferentes nos dois planos. A pea poderia ser fabricada a partir da dobra de alguma chapa. Porm o resultado gerado foi uma pea semelhante ao cobogos j existes no mercado. Figura 28: Perspectiva da mesma configurao. Faces com desenhos diferentes. 82. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 14 Figura 29: Mdulo assimtrico derivado de peas simples; desenhos e experimentos com diferentes propores e inclinaes. Figura 30: Modelagem da superfcie curvilnea obtida pela composio do mdulo. A sutil inclinao nas faces laterais da pea produzem curvas e um mdulo que possibilita bastante movimento na composio. A irregularidade e as faces que no so paralelas fazem o mdulo no se limitar apenas a um plano, produzindo uma experincia mais tridimensional. Este mdulo seria selecionado para dar continuidade ao projeto se a forma no se restringisse apenas a quatro composies. Porm aps esta experimentao comecei a reproduzir peas que partem de slidos ou formas geomtricas bsicas. Tendo em mente a necessidade de um sistema que no fosse apenas como um tijolo fixo, mas sim pensando em modularidade e formas que juntas venham a criar tridimensionalidade para diferentes aplicaes. Comecei a notar a necessidade da busca de formas bsicas para entender as possibilidades de composio e de como se comportam. 83. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 15 Figura 31: Sketches de alguns raciocnios e tentativas. Figura 32: Slidos realizados em papel. Tetraedros regulares e irregulares criados proporcionalmente a partir da mesma base. Ao buscar algum tipo de modulao, procurei experimentar uma armao que pudesse utilizar slidos cortados proporcionalmente recortados para rebater a luz e preencher os vazios quando fosse necessrio. 84. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 16 Figura 32: Detalhes do modelo realizado em papel e canudos. Detalhes da estrutura mencionada. Os volumes fixos na armao preenchem os vazios formando aberturas propositivas. Figura 33: Mais algumas especulaes do desenvolvimento. Figura 34: Raciocnios de fixao para criar um movimento na pea esttica. 85. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 17 6. O Projeto Figura 34: Apresentao da proposta Delta. Os primeiros estudos com tetraedros foram para entender a plasticidade da forma, testes de empilhamento e observar o crescimento que a geometria possibilita. Montei tetraedros de madeira em escala 1:5 para o primeiro estudo e obtive estes resultados: 86. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 18 Figura 35: Mdulos em madeira enfileirados e empilhamento com 15 mdulos. Figura 36: Outro ngulo do empilhamento com 15 mdulos e de 25 modulos. O mdulo cresceu desordenadamente, porm a pilha obtida continuou com pouca fluidez. O empilhamento de 25 mdulos venceu um vo maior do que 2 metros na escala. A experincia acrescentou tambm na identificao de quantidade de mdulos na base que para que conseguisse atingir um p direito convencional. Aps a primeira experincia com a forma, fiz alguns croquis de como esta estrutura poderia ser utilizada para filtrar a luz excessiva se aplicada na fachada de um prdio e como unir a forma de um jeito que o torne mais fluda e com movimento propositivo. 87. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 19 Figura 37: Croquis especulativos. Figura 38: Ilustrao realizada a partir da ideia. 88. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 20 Criar uma superfcie mais fluda utilizando foles para unir os tetraedros de maneira que a juno flexvel determinasse a direo do mdulo e tambm o fizesse voltar a face do tetraedro para o plano quando necessrio, facilitando sua aplicao. Figura 39: Primeiro fole realizado. O primeiro fole foi planificado e depois montado. Desta maneira o fole teria as faces abertas e foi necessrio testar a forma para que a superfcie ficasse completamente contnua. Aps o desenvolvimento dos foles a aplicao nos mdulos resultou em desenhos bem mais interessantes do que as composies com apenas mdulos. Figura 40: Primeiros modelos de foles e sua aplicao no tetraedro. 89. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 21 Aps algumas tentativas de direcionar o fole, percebi a necessidade de fechar algumas faces do tetraedro porque a face fechada atua como rebatedor de luz e tambm como barreira. Figura 41: Experimentos do fole e dos tetraedros compondo uma estrutura Figura 42: Aumentando o nmero de mdulos compondo de forma livre. 90. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 22 No desenvolvimento do projeto no determinei a utilizao do mdulo apenas de uma maneira ja que a forma surgiu tambm da tentativa de criar algo verstil e que se adeque a muitas superfcies. Porm, por se tratar de peas que se encaixam possvel tambm ser utilizado criando uma malha por exemplo na imagem abaixo. H um fole unindo dois mdulos e eles foram enfileirados criando um padro. Figura 43: Dois Tetraedros e um fole compondo um padro. Muitos padres possveis podem se formar a partir da idia de configurar um mdulo e replic-lo quantas vezes for necessrio. Aps testes formais, a necessidade de idealizar o mdulo em algum material e o tipo de encaixe fazia bastante diferena na hora de sua aplicao, por isso iniciei alguns testes de como as peas se encaixariam e qual material o faria possvel. Junto a testes de encaixe tambm realizei testes de mudana de escala para enxergar a geometria em dimenses diferentes da j trabalhada. 91. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 23 Figura 44: Detalhes do modelo de encaixe. O primeiro em escala 1:2 com o teste de utilizao do perfil quadrado; na segunda imagem um modelo em escala 1:8. Figura 45: Perspectiva explodida detalhando a juno dos tubos para formar o tetraedro e tambm a juno de at trs tetraedros. Figura 46: Desenho tcnico da pea de juno dos tubos do tetraedro. 92. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 24 Figura 47: Corte na braadeira. Figura 48: Desenho tcnico da braadeira de juno dos tubos do tetraedro. Figura 49: Desenho tcnico do tubo do tetraedro. Figura 50: Corte do tubo do tetraedro. 93. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 25 Figura 51: Anel de fechamento quando no h unio de mais tetraedros. Figura 52: Anel para unir dois Tetraedros. Figura 53: Pea para unir trs tetraedros. 94. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 26 Figura 54: Perspectiva de dois mdulos unidos. Figuras 55 e 56 : Detalhe da juno de dois mdulos com diferentes acabamentos de alumnio e simulao tridimensional da juno dos dois mdulos em alumnio. Figura 57: Perspectiva de dois mdulos crescendo desordenadamente. 95. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 27 Figura 58: Aplicao do mdulo em uma fachada. Figura 59: Estudo volumtrico do mdulo em escala 1:1. 7. Consideraes Finais Mais do que apenas um projeto, a experincia das etapas deste trabalho acrescentaram muito e foram de grande importncia nesta fase da minha vida. A experincia de fazer um projeto sozinho me despertou algumas dvidas, dificuldades e tambm a necessidade em trabalhar em algumas etapas de projeto que outras vezes no tive oportunidade de participar com tanta autonomia. O processo de trabalho foi bem diferenciado dos que j realizei durante esses quatro anos de faculdade. Durante o processo pude ter contato com outras referncias, palestras e projetos com foco na arquitetura que contriburam na pesquisa e no desenvolvimento. Houve dificuldade de realizar testes nessa estrutura j que precisei fazer muitos testes em escalas para entender o comportamento do volume. Gostaria de ter conseguido 96. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 28 fazer testes tambm em mdulos 1:1 pra poder desenvolver testes com materiais, resistncia e at o funcionamento. Para o detalhamento do projeto consegui resolver o mdulo de tetraedro, mas no consegui detalhar como seria o encaixe do fole na pea. Para o projeto tambm gostaria de alterar a escala e propor outras aplicaes para o mdulo. Todas as tentativas e estudos acrescentaram bastante para que pudesse entender o que cada pea poderia oferecer. A metodologia escolhida foi eficiente quanto ao desenvolvimento do pensamento de tirar proveito e adaptar em uma determinada instncia. Estou satisfeito com todo o processo e pretendo tambm aplicar e adaptar a experincia adquirida com este trabalho em meus futuros projetos. Referncias: AGKATHIDIS, Asterios. Digital Manufacturing In Design and Architecture. Branko Kolaverick : Canad, 2010. BRUAND, Yves. Arquitetura Contempornea no Brasil. So Paulo: Perspectiva, 1981. FILHO, Nestor Goulart Reis. O Quadro da Arquitetura no Brasil. So Paulo: Perspectiva, 1997. FORTY, Adrian. Objetos de desejo. So Paulo: Cosac Naify. MINDLIN, Henrique E. Arquitetura moderna no Brasil. So Paulo: Aeroplano,1999. Lista de imagens: Figura 1 ___________________________________________________________________p.4 Edficio Bristol Rio de Janeiro. Disponvel em: Acesso: 27 de Maio de 2011, as 01:38 h. Figura 2 ___________________________________________________________________p.4 Montagem de desenhos dos padres encontrados na fachada do Ed. Bristol. Acervo pessoal. Figura 3 ___________________________________________________________________p.5 Cobogs inspirados na trama de palha do arquiteto Ccero Ferraz da Cruz. Disponvel em: Acesso: 1 de Junho de 2011, as 18:05 h. Figura 4 ___________________________________________________________________p.5 Desenho a partir do Cobog de Ccero Ferraz da Cruz. Acervo pessoal. Figura 5 ___________________________________________________________________p.5 Cobogs amarelos de cermica esmaltada projetados pela arquiteta Renata Pedrosa. Disponvel em: Acesso: 1 de Junho de 2011, as 18:05 h. Figura 6 ___________________________________________________________________p.5 Desenho do Cobog da Renata Pedrosa. Acervo pessoal. 97. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 29 Figura 7 ___________________________________________________________________p.5 Galeria de arte da Casa Cor em Braslia (2008) Projeto Domo arquitetos. Disponvel em: Acesso: 1 de Junho de 2011, as 19:20 h. Figura 8 ___________________________________________________________________p.5 Desenhos realizados a partir do projeto Domo arquitetos. Acervo pessoal. Figura 9 ___________________________________________________________________p.6 Sesc Pompia - SP. Disponvel em: Acesso: 3 de Maio de 2011, as 14:52 h Figura 10 __________________________________________________________________p.6 Desenho e especulao criada a partir da observao da referncia. Acervo pessoal. Figura 11 __________________________________________________________________p.7 Detalhes do fechamento do edifcio Instituto do Mundo rabe em Paris. Disponvel em: http://arquitetogeek.wordpress.com/category/edificacoes/ Acesso: 12 de Maio de 2011, as 11:20h. Figura 12 __________________________________________________________________p.7 Desenho dos sistemas de diafragmas da pele do Instituto Mundo rabe. Acervo pessoal. Figura 13 a 59 __________________________________________________________p.8 a 27 Acervo pessoal. 98. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014, So Paulo: Centro Universitrio Senac ISSN 2179474 X 2014 todos os direitos reservados - reproduo total ou parcial permitida, desde que citada a fonte portal de revistas cientficas do Centro Universitrio Senac: http://www.revistas.sp.senac.br e-mail: revistaic@sp.senac.br Os livros biogrficos no universo infantil: um estudo de projeto grfico e ilustrao The biographical books in childrens universe: a study of graphic design and illustration Maria Stella de Oliveira Souza Braga, Celia Maria Escanfella Centro Universitrio Senac Campus Santo Amaro Linha de Pesquisa: Comunicao - Bacharelado em Design com Habilitao em Comunicao Visual mariastella.braga@gmail.com, celia.mescanfella@sp.senac.br Resumo. Pesquisa desenvolvida ao longo de um ano tendo como objetivo a anlise de obras biogrficas destinadas ao pblico infantil, como continuidade da pesquisa As ilustraes e o projeto grfico de edies da obra lobatiana Reinaes de Narizinho. Para tanto foi realizada uma reviso bibliogrfica sobre biografias e a anlise dos elementos grficos de diferentes obras biogrficas infantis com o concurso de conhecimentos adquiridos na pesquisa citada. A reviso bibliogrfica que subsidiou a anlise contempla estudos sobre biografia, literatura infantil e produo de livro infantil, produo grfica e ilustrao. Tal pesquisa procura entender como o texto literrio-biogrfico, em consonncia com ilustrao e projeto grfico, apresentado para os jovens leitores, e como a nova concepo sobre biografia pode ser contemplada ou aplicada na produo de biografias para crianas. Pretende-se, assim, construir conhecimentos necessrios para contribuir com o grupo de pesquisa Comunicao e Cultura Infantil: Lobato uma biografia, no qual este projeto se insere. Palavras-chave: biografia, design grfico, ilustrao, Monteiro Lobato. Abstract. Research developed over a year with the objective of analyzing biographical works aimed at children, as a continuation of the research "As ilustraes e o projeto grfico de edies da obra lobatiana Reinaes de Narizinho". Therefore was performed literature review and analysis about biographical books for children with the assistance of knowledge gained in the research cited. The literature review that supported the analysis includes studies on biography, children's literature and children's book production, graphic production and illustration. Such research seeks to understand how the biographical text, in line with illustration and graphic design, is presented to young readers, and how the new conception of biography may be considered or applied in the production of biographies for children. It is intended, therefore, to build expertise to contribute to the research group Comunicao e Cultura Infantil: Lobato uma biografia in which this project falls. Key words: biography, graphic design, illustration, Monteiro Lobato. 99. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 2 1. Introduo Esta pesquisa se fundamenta na nova concepo de biografias que consideram a complexidade e contradio humana, distanciando-se, portanto, do carter de pedagogia do exemplo ou modelo que a biografia apresentava at recentemente, e procura entender como o texto literrio-biogrfico, em consonncia com ilustrao e projeto grfico, tem sido apresentado para os jovens leitores, e como a nova concepo sobre biografia pode ser contemplada ou aplicada na construo de projetos grficos para crianas, mais especificamente, na produo de um livro biogrfico de Lobato, que um dos objetivos do grupo de pesquisa, no qual este projeto se insere. Neste sentido, estudou-se a construo da imagem do ser biografado em livros infantis por meio da anlise da relao entre ilustrao, projeto-grfico e texto em obras biogrficas destinadas ao pblico infantil. Aps a anlise das obras selecionadas foi feita uma reflexo sobre a atual concepo de biografia utilizada em livros infantis e definiram-se parmetros para a produo de uma biografia de Lobato para crianas. 2. Metodologia Esta pesquisa exigiu a reviso bibliogrfica sobre os temas: biografia adulta e infantil, ilustrao, relao texto-imagem, projeto grfico e Lobato e sua obra. Esta primeira fase forneceu subsdios para a posterior seleo e anlise dos livros biogrficos infantis, com o registro fotogrfico dos livros escolhidos e a sistematizao das informaes coletadas. Os objetos de pesquisa, ento, so livros biogrficos destinados ao pblico infantil. Para seleo e anlise desses livros foram considerados os seguintes aspectos: concepo de biografia utilizada, materialidade do livro, projeto grfico, ilustrao e relao imagem-texto. 3. Resultados e Discusso A seguir sero apresentados os principais aspectos da reviso bibliogrfica e da anlise dos livros biogrficos infantis. Biografia Aps o levantamento bibliogrfico sobre biografia infantil foi possvel compreender que o estudo da biografia se insere em mltiplas reas e, principalmente no caso infantil, a psicologia e a pedagogia so de extrema importncia e enorme influncia. Porm, podemos afirmar que, na perspectiva da produo, a biografia filiou-se, ao longo da histria, a um vis educativo, do qual tem se distanciado nas ltimas dcadas. Carino (1999) prope uma anlise da instrumentalidade educativa da biografia. Suas reflexes sobre esta caracterstica da produo adulta foram transpostas nesta pesquisa para a produo infantil, sendo de extrema importncia para que se possa refletir sobre esta produo atualmente. No se encontram na literatura educacional brasileira outros estudos sobre o ponto de vista por ele proposto. Os bigrafos raramente assumem seu papel na educao, ou pelo menos no apresentam esse papel de forma declarada e lcida. Nunca se biografa em vo, existem finalidades precisas que podem ser criticar, descobrir, exaltar, santificar, dessacralizar. Tais finalidades e intenes fazem com que os relatos de vidas transformem-se, intencionalmente ou no, numa pedagogia do exemplo. Neste caso, no se pode negar a fora educativa de um relato biogrfico. E o que significa 100. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 3 educao, se no a criao de modelos exemplares com base nos quais a atividade educativa determinar os tipos de homens que se deseja forjar? (CARINO, 1999). A biografia, ao trabalhar com cada vida em particular, destaca em cada uma delas caractersticas tpicas, que serviro pedagogia do exemplo. Imitadas, seguidas, integrando um modelo de conduta determinado pelo esprito da poca, serviro educao (CARINO, 1999). o individual em benefcio de um coletivo. Este modelo de biografia foi revisto teoricamente, na produo internacional, e se encontra praticamente superado na literatura adulta e infantil internacional, porm parece ser reforado em estudos de literatura infantil brasileira. preciso ressaltar que o modelo do heri, pelo menos na teoria, foi gradualmente superado: o biografado no mais apresentado como um heri, mas um homem de verdade, que diante de alguns desafios tem atitudes inspiradoras. No entanto, inegvel que as obras biogrficas tenham um carter educativo, como discutido por Carino (1999), da mesma forma que toda obra adulta. A qualidade das biografias escritas para crianas evoluiu consideravelmente nos ltimos 25 anos nos Estados Unidos. Tradicionalmente, as biografias eram escritas para dar a oportunidade para jovens leitores conhecerem vidas de pessoas que eles pudessem tomar como exemplo. Sendo assim, essas biografias ressaltavam apenas os aspectos positivos das vidas dos biografados. J as biografias recentes para crianas e jovens foram escritas sob um ponto de vista mais realista. Os autores apresentam os sujeitos como pessoas reais, aproximando-os do leitor (TAYLOR, 2003). Podemos ento refletir sobre a posio do sujeito nestes dois casos: no primeiro, um retrato raso e aparentemente perfeito pode gerar um distanciamento: a genialidade e auto-suficincia do sujeito so caractersticas difceis de serem assimiladas e copiadas pelas crianas. Dessa maneira, o sujeito se afasta delas e de sua realidade. No segundo caso, a biografia mais realista traz um homem que tem dvidas, possui um futuro incerto, deve fazer suas escolhas. Essas caractersticas o aproximam do mundo real e, consequentemente, da vida das crianas. Questes sobre a materialidade do livro biogrfico infantil tambm foram levantadas por pesquisadores norte-americanos. Ash e Barthelmess (2011) estudam, em seu artigo What makes a good picture book biography, aspectos importantes de livros biogrficos ilustrados. O que um livro biogrfico ilustrado? Um livro de figuras e uma biografia, a confluncia dos dois gneros, simultaneamente e simbioticamente, na construo de um ser e sua histria. Nos livros ilustrados, histria, estilo e o prprio virar de pginas so combinados. Nas biografias, pesquisas e textos representativos oferecem retratos informativos completos sobre personagens. Portanto, para se identificar um bom livro biogrfico ilustrado, devem-se procurar obras em que estejam presentes essas caractersticas (ASH e BARTHELMESS, 2011). Primeiramente, um livro ilustrado deve atrair os jovens leitores, falando para eles e com eles. A criana entende a leitura como uma brincadeira, e no como obrigao. Em um bom livro ilustrado, texto e ilustrao compartilham a construo da histria, com a arte geralmente adicionando detalhes no encontrados na narrativa textual. Este tipo de livro oferece ao ilustrador a oportunidade de complementar a narrativa com um imaginrio sofisticado, reforando o tempo e o espao da vida do biografado (ASH e BARTHELMESS, 2011). Infncia Escanfella (2006) refere-se aos estudos que tm como eixo o debate da criana como ator social, ou seja, como ser ativo na construo tanto da sociedade em geral como da cultura. Os principais aspectos desse paradigma so: a infncia como construo social, e no um dado natural; a infncia como categoria que estrutura a sociedade, 101. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 4 em uma teia complexa de relaes; e a concepo de infncia como ator social, que contribui para a construo de seu mundo e do mundo adulto, como criana cidad. Lobato, de certa forma, j se utilizava dessa concepo quando comeou a produzir seus livros infantis, na dcada de 20. Seu projeto era criar nas crianas o gosto pela leitura para que elas se tornassem um pblico leitor. Por meio de suas narrativas estimulava as crianas a questionar a veracidade das convenes impostas pelos adultos, trazendo vida conscincia infantil e desenvolvendo um sentimento de nacionalidade atuante nos pequenos leitores. Lobato, portanto, considerava a criana como um ser social completo que, assim como todos em uma sociedade, participa da vida social e produz cultura, e essa cultura que a coloca em contato direto com diferentes valores, absorvendo seus convencionalismos para a reflexo e contestao. Atravs da pluralidade de linguagens, a criana apresenta sua viso de mundo e a torna presente. Como membro de uma coletividade, faz parte da corrente da linguagem: sua constituio como sujeito-da-e-na-lngua se d na e atravs da linguagem. Neste dilogo com a sociedade, ela vai se posicionando, constituindo-se e sendo tambm constituidora de cultura. Sendo assim, as crianas produzem cultura na medida em que atribuem significados (LEITE, 2005). Relao entre Texto e Imagem Conforme Camargo (1998 apud OHASHI, 2011), a imagem isolada no possui funo de ilustrao. Essa funo ocorre apenas quando h uma relao semntica entre linguagem verbal e visual, ou seja, quando a imagem aparece em um texto com o qual se relaciona. importante enfatizar que enquanto o texto escrito narra uma histria por meio de imagens implcitas nas linhas e entrelinhas, a ilustrao complementa essa histria. O texto e a imagem, juntos, tm a funo de permitir ao leitor criar em sua mente sua prpria histria. Porm preciso levar em conta que o mesmo texto dado a diferentes ilustradores resultar sempre em solues diferentes. A imagem atraente leitura permite que o leitor identifique focos de interesse em diversos pontos (regies com maior ou menor nmero de detalhes), com uma distribuio de elementos capaz de guiar seus olhos em um movimento cclico, ou seja, os olhos percorrem toda a imagem retornando, no final, ao ponto de partida. Tal tipo de imagem captura por mais tempo a ateno do leitor e torna a leitura mais dinmica e interessante (BIAZETTO, 2008). Segundo Ribeiro (2008, p.127), o fundamento da ilustrao a metamorfose, ou seja, a transformao que se verifica na relao entre imagem e palavra durante a leitura de um texto. Os textos literrios, por possibilitarem diferentes leituras, no admitem somente uma forma de interpretao. A subjetividade, o uso de linguagem figurada, a ambiguidade e a plurissignificao geram um estranhamento que motiva a viso potica e particular da realidade. Cada pessoa ter uma leitura e uma interpretao diferente. O mesmo ocorrer com a ilustrao, que ser marcada pela subjetividade e pelo enfoque potico, abrindo portas ao universo da imaginao. O que desperta o interesse do olhar o indefinido, o que apenas sugerido e espera ser completado pela mente do leitor, ansiosa e cheia de expectativas. Neste caso a imagem est alm de ser meramente representativa, narrativa ou descritiva; autnoma, com vida e fala prprias. Projeto Grfico O projeto grfico de um livro define o corpo (matria) e a alma (jeito de ser) da obra. O corpo definido por sua forma, tamanho, cor, tato, ou seja, a forma como se apresenta. A alma o contedo do livro, o texto, a tipografia, a imagem e tudo o que compe seu interior (MORAES, 2008 p.45). Sendo assim, o projeto grfico de um livro 102. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 5 busca a disposio organizada dessas caractersticas, constituindo uma narrativa e um ritmo de leitura. Segundo o autor, fatores como escolha do papel, encadernao, tamanho, quantidade de texto por pgina, tipografia, entre outras caractersticas, so de grande importncia para a construo de um livro. o projeto grfico que indica a ordem e o ritmo da leitura, colabora na leitura simblica do livro e garante a unidade do impresso. A importncia da ilustrao no projeto grfico aumentou a partir do momento em que o ilustrador passou a participar da construo do mesmo (OHASHI, 2011). A qualidade de leitura de um livro depender da relao entre texto e ilustrao que ele apresenta. As duas linguagens permitiro a construo de uma narrativa se forem conectadas por um bom projeto grfico. Pode-se concluir, portanto, que dependendo do tipo de publicao, a escolha do projeto grfico adequada agrega valor obra e fundamental para sua compreenso. Monteiro Lobato Lobato foi um dos responsveis, segundo Azevedo, Camargos e Sacchetta (2001, p.130), pela mudana no padro grfico do livro brasileiro, por meio de uma programao visual sofisticada e tipografia elegante, atentando, ao mesmo tempo, para a reviso rigorosa da composio e provas finais. Seu objetivo era conquistar maior nmero de leitores atravs de livros que chamassem a ateno nas prateleiras. Para isso, contratou artistas para criarem capas diferentes das amarelas e tipogrficas do modelo francs, de modo que seus livros fossem mais atraentes aos olhos do consumidor. O Brasil de Lobato e de seus leitores contemporneos urbanizava-se s custas de um processo violento, que modificava todo o sistema antigo: o modelo de uma sociedade agrcola, provinciana e acanhada. No plano econmico era perceptvel o golpe que o capital urbano e industrial infligia ao antigo capital agrrio. No plano social, o mesmo movimento promovia o crescimento acelerado das cidades. No campo moral, um novo olhar sob os antigos costumes e valores. No plano esttico e cultural, o surgimento de novas linguagens como o cinema, e mudanas nas velhas linguagens como os contos, romances e poesias mexidos e remexidos pelos modernistas de 22. Esse era o cho onde se inscreviam as empreitadas de Lobato: o campo atropelado pela cidade e a cidade autofgica, ambos degradados e degradantes. Entre esses dois Brasis, a figura de Lobato (LAJOLO, 2002). Algumas biografias sobre Lobato para adultos j foram escritas, e consultadas pelo grupo de pesquisa, mas uma delas destaca-se: A Barca de Gleyre, um livro publicado pelo prprio Lobato contendo as cartas que trocou com o amigo Godofredo Rangel durante quase toda sua vida. Desta maneira, o livro configura-se como uma autobiografia atravs de cartas, mas vai alm disso: apresenta-se tambm como um registro da poca. As cartas so um gnero ancilar da biografia, como as memrias e o dirio. O prazer de sua leitura decorre, em boa medida, da franqueza com que so escritas e da natural intimidade de que se cercam (PEREIRA, 2009). Nas cartas entre Lobato e Rangel no diferente, permitindo, por meio da leitura, reconstruir os dois personagens, como se a letra fosse a nica forma de constituio do ser (LUCAS, 1982 apud PEREIRA, 2009). A vida dos dois retratada mesmo como uma viagem, implcita na metfora nutica que d nome obra. Anlise de livros biogrficos infantis Na segunda fase desta pesquisa, que consistiu na seleo e anlise de livros biogrficos infantis, dentre os inmeros ttulos lidos e analisados coletivamente pelo grupo de pesquisa, foram escolhidos trs ttulos que se destacaram para uma anlise 103. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 6 mais detida, dois em ingls e um em portugus: Looking at Lincoln, escrito e ilustrado por Maira Kalman; A River of Words: The Story of William Carlos Williams, escrito por Jen Bryant e ilustrado por Melissa Sweet; e Monteiro Lobato, escrito por Nereide Santa Rosa e ilustrado por Mica Ribeiro. A localizao desses livros (entre muitos outros) foi feita pelo grupo de pesquisa a fim de levantar obras que pudessem auxiliar na reflexo sobre a construo de um livro biogrfico para crianas. Os trs livros escolhidos destacam-se por seu projeto grfico e por sua proposta de narrativa e construo biogrfica do sujeito. Looking at Lincoln (Figura 1) Figura 1. Capa do livro Looking at Lincoln. Autora: Maira Kalman, Ilustraes: Maira Kalman, Editora: Nancy Paulsen Books New York, Nmero de pginas: 40, Ano: 2012, Preo: US$ 17,99 = mdia de R$36,00, Formato fechado: 23,5 x 28,5 x 1,0cm, Impresso: 4x4 cores, Tipo de capa: cartonada, encapada com papel couch brilhante (reinforced binding indicado no prprio livro), Sobrecapa: papel couch brilhante 150g, Lombada: quadrada, com cadernos costurados, Miolo: papel couch fosco 120g, Recomendao de faixa etria: no h uma recomendao explcita, mas, a partir da anlise, pode-se perceber que seria para crianas de 7 a 8 anos. Texto: Aps o convite leitura na 1 orelha, somos automaticamente levados estampa do discurso de Lincoln, um trabalho tipogrfico nas folhas de guarda do livro. Logo nesse convite a autora coloca o biografado como o responsvel por manter a unio 104. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 7 dos Estados Unidos, e coloca a questo: mas quem era ele, realmente?. Quem era o homem de cartola alta que hoje vemos nas notas de cinco dlares? Essa pergunta nortear todo o desenvolvimento do livro, que se baseia no mtodo de pesquisa, descoberta e reflexo para a obteno de informaes. A narradora infantil escreve em primeira pessoa, relatando seu dia e seus pensamentos: um dia, passeando pelo parque, viu um homem muito alto e magro que lhe lembrava algum. Aps o caf da manh, que pagou com um Lincoln e dois Washingtons, que finalmente se lembrou: o homem que havia visto se parecia exatamente com Abraham Lincoln! Nesse ponto ocorre a apresentao oficial do biografado. A partir de ento, o narrador-personagem vai a uma biblioteca em busca de informaes sobre esse personagem histrico. Ao longo da leitura, podemos perceber que o texto serifado indica fonte literria, ou seja, o livro que o narrador- personagem busca na biblioteca, por curiosidade, para aprender sobre Lincoln. J o texto manuscrito representa seus pensamentos e opinies acerca dos dados que vai descobrindo durante a pesquisa (Figura 2). Figura 2. Pgina dupla onde podemos notar o uso das tipografias serifada e manuscrita e tambm a ilustrao da personagem pesquisando um livro na biblioteca. A partir desse ponto o livro traz os resultados da pesquisa feita pela narradora, com a reproduo (em gouache) das fotografias que ela observa, trechos do livro consultado e tambm seus prprios questionamentos e opinies (uso da tipologia manuscrita e de diferentes cores para ressaltar palavras). O vocabulrio dos trechos culto, enquanto o vocabulrio da narradora coloquial, repleto de expresses populares e opinies prprias. Assim, o livro transforma-se no resultado da coleta de dados, a narradora pesquisando, descobrindo e, ao mesmo tempo, interferindo na histria, medida que a ressignifica, interpretando-a ao recont-la. 105. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 8 Grid: o projeto grfico desse livro no estruturado por um grid fixo: em cada pgina h um tipo de ilustrao, sendo evidente a integrao entre o texto e a imagem. Muitas vezes, a imagem cede lugar ao texto, que se encaixa em um local especfico reservado a ele, geralmente em cima da prpria imagem. Porm, como temos ilustraes diferentes em cada pgina, o texto tambm se realoca em outros locais. Quando o texto tem um espao fora do quadro da ilustrao, ou seja, quando a ilustrao no de pgina inteira, ele apresenta-se logo acima ou abaixo dela (Figura 3). Figura 3. Grid hierrquico e mutvel, variando conforme os elementos da pgina. Ilustrao: conforme informaes ao final do livro, a arte foi toda produzida em gouache: este aspecto aproxima a arte da criana, uma vez que uma tcnica de pintura comum na infncia. Alm disso, a ilustrao aparenta ter sido produzida por uma criana na maioria das vezes, principalmente por conta das cores bem fortes e da perspectiva distorcida das imagens. As ilustraes aparecem em pgina inteira (com sangria) ou em quadros sobre fundo colorido, predominando nelas a funo representativa, por imitarem a aparncia da realidade de forma objetiva (observada nos retratos das pessoas, que so reconhecveis; nas notas de dlar; na arma do assassino de Lincoln; entre outros) e a funo expressiva, principalmente pelo uso da 106. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 9 cor (nos tons vibrantes e rseos do parque das cerejeiras; nas cores pastis do Lincoln Memorial). Na ltima pgina, a narradora diz que Lincoln viver para sempre e que se voc for Washington, na primavera, voc poder andar pelas cerejeiras em flor e visit-lo, poder ir at seu memorial e olhar para seus belos olhos. Apenas olhe. Essa frase refora o ttulo do livro, e tambm o poder da imagem, o poder do olhar e do identificar-se na busca do outro. Isso se percebe claramente na capa do livro, na qual a personagem narradora est olhando para a esttua de Lincoln no Lincoln Memorial (cf. Figura 1). Essa imagem emblemtica por representar com eficincia o ttulo e o tema principal do livro: olhando para Lincoln. a descoberta do outro comeando pela contemplao de sua imagem. A River of Words: The Story of William Carlos Williams (Figura 4) Figura 4. Capa do livro A River of Words: The Story of William Carlos Williams. Autora: Jen Bryant, Ilustraes: Melissa Sweet, Editora: Eerdmans Books for Young Readers Cambridge, Nmero de pginas: 38, Ano: 2008, Preo: US$17,00 = mdia de R$35,00, Formato fechado: 24 x 26 x 1,0cm, Impresso: 4x4 cores, Tipo de capa: cartonada, encapada com papel couch fosco (reinforced binding indicado no prprio livro), Sobrecapa: papel couch fosco 150g, Lombada: quadrada, com cadernos costurados, Miolo: papel couch fosco 120g, Recomendao de faixa etria: para crianas de 7 anos ou mais (Ages 7 & up). Essa biografia ilustrada de William C. Williams mostra os eventos de sua infncia e juventude que o levaram a se tornar mdico e poeta. Sendo assim, so mostrados seus hbitos, gostos e aptides, inclusive sua educao na escola e em casa. O biografado possuiu duas carreiras simultneas: sempre foi poeta e, quando adulto, tambm exerceu a profisso de mdico. Nesse livro a faceta do poeta priorizada, por 107. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 10 isso o subttulo Um Rio de Palavras. E isso mesmo que o livro acaba sendo ao misturar a histria de vida de William C. Williams com seus poemas. Texto: o livro comea na folha de guarda, na qual os poemas do autor j so apresentados. Configuram-se, ao mesmo tempo, como parte integrante da estampa e tambm como uma preparao para conhecer seu autor. J a narrativa se inicia com uma citao de William C. Williams acompanhada de uma aquarela de seu retrato. A partir da sua histria de vida contada de forma linear, desde a infncia. Grid: como no livro analisado anteriormente, h a predominncia da ilustrao em relao ao texto, portanto, o texto divide espao com ela no grid. Geralmente, quando a ilustrao de pgina inteira, reservado um local com fundo claro para aplicao do texto. Quando a ilustrao no ocupa a pgina toda, o texto disposto na margem branca que pode estar acima ou abaixo da imagem. Portanto, podemos afirmar que o livro possui um grid hierrquico e mvel, mas respeitando sempre a legibilidade do texto (Figura 5). Outro aspecto importante que o texto, apesar de ser uma narrativa em prosa, tem suas linhas de forma organizada a fim de se assemelhar ao formato de uma poesia (em versos). Figura 5. Grid com largura varivel de colunas. Tipografia: so utilizadas duas tipografias principais que, segundo informaes contidas no prprio livro, so: John Doe, uma tipografia display serifada para ttulos que se assemelha aos tipos de uma mquina de escrever (com suas bordas de tinta irregulares, levemente falhadas e borradas), remetendo ao objeto de trabalho e 108. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 11 aparncia dos textos impressos de William C. Williams; e a Helvetica Neue, utilizada para texto corrido. Essa ltima segue algumas caractersticas indicadas em pesquisas tipogrficas para crianas: aparncia limpa, sem serifa, mas tambm sem ser infantilizada, tem traos regulares e sem contraste (como as letras-basto), e apresenta boa diferenciao entre as letras a, g, e o. Tambm sempre aplicada em fundos broncos ou claros. Ilustrao: as ilustraes de Melissa Sweet ocupam as pginas quase que por completo e so produzidas com um mix de tcnicas: aquarela, colagem, combinao de diferentes substratos (como capas de livros e folhas de cadernos, mapas, folhas quadriculadas, papelo, etiquetas, recortes e desenhos coloridos de letras, tecidos, pginas de livros e dicionrios, folhas de receiturio, selos metalizados, pginas de livros de anatomia) enfim, de materiais que em algum momento estiveram presentes na vida de William C. Williams. Para cada poca da vida do biografado existem diferentes tipos de fragmentos e grafismos que refletem seu mundo: I. Em sua infncia, vemos pedaos de livros, pginas de um Atlas do Mundo, boletins escolares, folhas pautadas, mapas de estrelas, pginas de livros sobre gramtica e pronncia (foco no aprendizado da escrita e sonoridade das palavras: conhec-las permite agrup-las de forma harmnica em poesias), cadernetas de folhas quadriculadas (os caderninhos que William recheou de palavras) (Figura 6). Figura 6. Ilustrao com elementos da infncia. II. Em sua juventude aparecem desenhos e retratos de famlia, recortes de letras de estilos diversos, molduras, capas de livros (Figura 7). 109. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 12 Figura 7. Ilustrao com elementos da juventude. III. Em sua fase adulta aparecem folhas de livros de medicina, folhas de receiturio do prprio doutor William, trechos de poemas datilografados (e no mais escritos mo como na infncia) e capas de livros (Figura 8). Figura 8. Ilustrao com elementos da fase adulta. 110. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 13 Acompanhando os recortes esto as pinturas e letras sobre as poesias e sobre William C. Williams. Os mesmos trechos das poesias se repetem de diferentes maneiras: datilografados, escritos mo, ilustrados: so as maneiras de se escrever e de se ler uma poesia. Ao desenhar o mundo de William nesse substrato profusamente trabalhado, busca-se mostrar que seu mundo eram os livros, as cadernetas e suas palavras. Desta forma, a ilustrao tem grande destaque narrativo. Alm da funo narrativa, algumas imagens utilizadas para composio de fundos, como mapas e diagramas do corpo humano, so destitudas de suas funes descritivas originais, para tornarem-se expressivas, ldicas e metalingusticas (uma vez que remetem s atividades realizadas pelo biografado). Alm disso, tambm possuem a funo ftica, na qual o suporte da imagem tem papel importante. Na capa do livro, vemos sobre um fundo colorido, a capa de um livro onde h a silhueta de um homem, preenchido por palavras e trechos de textos. Esse homem, complexo, poeta, feito de palavras e representado por elas remete justamente ao biografado, William Carlos Williams (cf. Figura 4). Monteiro Lobato coleo Crianas Famosas (Figura 9) Figura 9. Capa do livro Monteiro Lobato. Autora: Nereide S. Santa Rosa, Ilustraes: Mica Ribeiro, Editora: Callis Editora So Paulo, Nmero de pginas: 22, Ano: 2010, Formato fechado: 20,8 x 20,8cm, Impresso: 4x4 cores, Tipo de capa: papel couch fosco 300g, Lombada: canoa (com dois grampos), Miolo: papel offset 120g. Texto: relata a vida de Lobato a partir de seu nascimento, em 1882, em Taubat. A narrativa focada em sua infncia e em suas primeiras experincias, apontando tambm algumas de suas principais caractersticas de personalidade e hbitos. Alm disso, apresenta pessoas que fizeram parte da vida do autor, e que acabaram 111. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 14 servindo de inspirao para a criao dos personagens do Stio do Pica-Pau Amarelo. Apenas no final do livro contada resumidamente sua adolescncia e fase adulta, seguindo-se da criao da turma do Stio e de uma lista de cinco obras principais que escreveu. Grid: o grid desse livro composto por duas colunas, mas suas delimitaes nem sempre so seguidas risca. As ilustraes geralmente j possuem sua limitao, de forma que a pintura avana at formar uma borda quase regular. O elemento que tem o papel de agrupar a mancha de texto com a imagem um fio verde, em formato quadrado, que emoldura cada pgina. Porm esse fio muito grosso, destoando da leveza da ilustrao em aquarela e diminuindo os espaos brancos, limitando ainda mais as margens, que parecem menores (Figura 10). Figura 10. Grid de duas colunas que se dividem para texto e ilustrao. Observar como algumas vezes a borda da imagem ou o texto ultrapassam o respiro entre as colunas. Tipografia: utilizada uma tipografia com serifas pouco pronunciadas e desenho orgnico, com leve contraste entre suas hastes. A letra apresentada em tamanho maior se comparada aos outros livros (altura da letra de 3mm). A mancha de texto tambm consideravelmente maior, sendo indicada para uma criana em fase avanada de alfabetizao. As letras esto sempre em preto e aplicadas em fundo branco. Em nenhum dos casos h texto sobre cor ou imagem. Ilustrao: as ilustraes do livro foram produzidas em aquarela, o que pode remeter lembrana, ao passado, delicadeza da memria, uma vez que relatada principalmente a infncia de Lobato. So ilustraes predominantemente representativas, informando o que j foi dito no texto. Porm, seu estilo liberta a funo expressiva por conta da mistura harmoniosa das cores vibrantes com tons 112. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 15 pastis. A maioria delas possui contorno regular (geomtrico), feito pela prpria pintura (Figura 11); outras tm contorno irregular (Figura 12). Figura 11. Contorno regular da pintura (oval), delimitado pela cor de fundo da imagem. Figura 12. Contorno irregular das figuras, provocando quebras no texto fora das delimitaes do grid 113. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 16 Figura 13. Mancha de texto invadindo a ilustrao problema de diagramao. Sobre a capa do livro (cf. Figura 9), sua diagramao rgida por pertencer a uma coleo. Portanto, no to expressiva quanto s capas dos dois livros analisados anteriormente. Sua cor verde se repete nas molduras das pginas internas, criando uma identidade unificada para o prprio livro (por meio de cor e de forma) e tambm para a prpria coleo. Consideraes sobre os livros analisados No livro Monteiro Lobato, a infncia do autor contada sempre traando paralelos com sua fase adulta e com sua criao mais conhecida, o Stio do Pica-Pau Amarelo, isto , fatos que marcaram sua infncia so sempre ligados a aspectos de suas obras e personagens. Dessa maneira, o futuro do biografado j colocado como certo desde sua infncia, como se sua vida j tivesse sido programada para que seu futuro acontecesse dessa maneira. Isso prejudica a apreenso do personagem biografado como uma pessoa real e complexa, distanciando sua imagem da realidade. Os livros sobre Lincoln e William C. Williams se destacam por utilizarem a imagem como pilar para a construo do biografado. No primeiro caso, o prprio ttulo do livro j deixa esse aspecto explcito: olhando para Lincoln, indicando que a contemplao de sua imagem o ponto de partida para a compreenso de sua histria. No segundo livro, sobre William C. Williams, as ilustraes e composies so fragmentos que constroem os cenrios de suas fases de vida. Sendo assim, sem o auxlio da imagem, a apresentao desses dois personagens histricos no seria mltipla e fragmentada, fatores alcanados tambm pelo prprio tratamento literrio-biogrfico de suas histrias. So esses aspectos que acredito serem essenciais para a construo de uma biografia mais prxima da realidade e menos autoritria, desvencilhando a imagem do biografado de um modelo de conduta a ser seguido e expondo sua multiplicidade. 114. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 17 4. Consideraes Finais Aps a pesquisa bibliogrfica, o levantamento de questes acerca do tema biografia infantil e, posteriormente, a anlise dos livros escolhidos, percebeu-se que, oferecendo figuras de personalidades, as biografias infantis ilustradas mostram diferentes caminhos de sucessos pessoais. Dividindo o holofote da literatura, os ilustradores e escritores desses livros trabalham em conjunto para uma construo mais complexa e prxima do real de uma figura importante. Pretendemos construir a biografia de Lobato da mesma maneira: os fragmentos de um corpo sendo revelados atravs da linguagem textual e visual. O texto no ter como objetivo glorificar ou tomar a figura de Lobato como exemplo, tornando pblico aquilo que era privado, mas sim de revelar e dar realce a aspectos da linguagem que possam reconstruir - da maneira mais completa e real possvel sua imagem naturalmente fragmentada. Referncias ANDRADE, Maria Margarida de. 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Schianberg: the co-authoring relation between direction and acting Ana Lgia Carraro Guimares Centro Universitrio SENAC Bacharelado em Audiovisual (anacarraro.ac@gmail.com) Este artigo resulta do projeto de pesquisa O papel do digital nos limites entre realidade e fico sob o ponto de vista da atuao: O amor segundo B.Schianberg, desenvolvido sob a orientao da Profa.Ms. Nanci Rodrigues Barbosa Resumo. Este artigo tem como interesse estudar a coautoria que se estabelece entre diretor e atores em obras audiovisuais e como essa relao funciona. Primeiramente, tem-se a ideia de autoria dentro da obra do diretor e a partir disso, como essa autoria passada para os atores e o que faz um ator um autor. Para isso, foi estudada a obra O Amor Segundo B. Schianberg, minissrie dirigida por Beto Brant e atuada por Marina Previato e Gustavo Machado. Palavras-chave: coautoria, atuao, direo, autoria. Abstract. This article has the interest to study co-authoring established between director and actors in audiovisual works and how this relationship works. First, there is the idea of authorship in the directors work and, from this, how this authorship is passed to the actors and what makes an actor an author. To do so, the tv serie O Amo Segundo B. Schianberg, directed by Beto Brant and actuated by Marina Previato and Gustavo Machado, was studied. Key words: co-authoring, acting, directing, authorship. 1. Introduo A minissrie O Amor Segundo B. Schiangerb, de Beto Brant, foi escolhida como objeto de estudo para o processo de Iniciao Cientfica. A obra chama a ateno por sua esttica diferenciada (o uso de cmeras de segurana para captar as imagens) e pelo hibridismo, fazendo uso de cenas ficcionais e no ficcionais. Porm, entre a esttica e o hibridismo havia algo que se destacava: o trabalho de direo e atuao ali presentes, j que era essa relao diferenciada entre diretor e atores que dava sentido a esttica adotada e tornava o hibridismo to harmnico. A partir dessa relao estabelecida, diversas questes surgiram, como o modo de direo de atores adotada, a criao dos personagens, a interferncia dos atores na concepo da obra e o uso de situaes no ficcionais que se mesclavam com as ficcionais. Assim, foi-se estabelecido que existia ali uma relao de coautoria entre diretor e atores, e fazendo dela o tema deste artigo. Durante a dcada de 1950, os crticos da revista Cahiers du Cinma criaram a Poltica dos Autores, que compreendia a autoria dentro do cinema. O autor seria o diretor do filme, porm para isso, teria ele que possuir uma expresso pessoal dentro deste, uma viso criativa sobre tudo que envolva uma obra audiovisual, como a iluminao, composio de um plano, atuao, som. O que os crticos defendiam era um diretor que tambm fosse produtor e roteirista, criando uma unidade. 119. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 2 O ator, por sua vez, tambm possui um trabalho de autor dentro do cinema: ele criador fsico do personagem. Seu trabalho compreende a personificao de um personagem criado pelo roteirista, dando uma personalidade para a obra. Uma relao tradicional entre ator e diretor focada na encenao dentro do filme. A atuao pode ser entendida como um dos elementos mais importantes dentro de uma obra audiovisual, como explicita David Bordwell em Figuras Traadas na Luz: Em quase toda a histria do cinema, a encenao foi essencial para a construo de um filme. Desde o comeo do sculo XX, at os anos 1970, os diretores da indstria cinematogrfica em todos os continentes tinham de transformar roteiros em cenas, e essa tafera evolvia detalhar, momento a momento, as relaes dos personagens no espao. No sistema de estdio, a encenao era o fundamento do ofcio de diretor. Havia especialistas em iluminao e figurino, cenografia e montagem, mas o diretor era responsvel por dar forma s representaes dentro do espao-tempo da cena. (BORDWELL, 2005, p.25) Muitas vezes, essa relao diretor-ator no se encerra na encenao, e o ator ganha o papel de autor dentro da obra, criando uma relao de coautoria. Essa coautoria pode ser entendida de diversas formas, desde a contribuio do ator na realizao do roteiro at na mise-en-scne. Quando esse trabalho de coautoria criado, a relao diretor-ator deixa de ser tradicional, na qual o diretor a cabea criadora, e os atores os corpos representantes, e passa ser uma relao de criao em parceria. O ator ultrapassa o papel da atuao e passa a influenciar na concepo da obra como um todo, tendo um papel to importante quanto o do diretor. Seu trabalho passa a ser mais livre, j que ele possui mais autoridade na obra que est sendo realizada. Walmeri Ribeiro, em seu artigo O ator cocriador e suas contribuies no cinema brasileiro contemporneo, explicita esse trabalho no tradicional: Fruto de um projeto potico proposto pelo diretor, a insero do ator como cocriador da obra audiovisual implica em uma tica no tradicional de direo e criao, o que ocasiona rupturas e deslocamentos de uma prxis cinematogrfica hegemnica. (RIBEIRO, 2011, p.01) Um ator cocriador a mescla existente entre ator e obra, pois ele, sendo criador, tambm parte desta como ator. Segundo Patrick McGillligan, o ator se torna uma forma flmica, como componente da mise-en-scne, juntamente com a luz e os enquadramentos. Por vezes, a mise-en-scne fica dependente dele: os enquadramentos so realizados devido ao posicionamento do ator dentro de cena, a luz igualmente, os figurinos podem ser escolhidos ou palpitados por ele. Um ator-autor ganha tamanha liberdade dentro da obra que suas experincias pessoais podem ser trazidas para o personagem e se abre ento um grande espao para improvisao. Isto pode ser gerado a partir de experincias pessoais trazidas pelo ator para dentro de cena, e assim, tem-se um ator que no est totalmente emergido no personagem, mas dividido entre personagem e ator. Esses conceitos de coexistncia de ator e personagem no mesmo corpo so defendidos por Edgar Morin, Luis Miguel Cintra e Luc Moullet e se encontram explicitadas no projeto de Ps-Doutorado pela Universidade de So Paulo, O ator-autor no cinema brasileiro e no artigo O caipira o travesti. O programa gestual de um ator-autor: Matheus Nachtergaele, ambos de Pedro Maciel Guimares. Edgar Morin fala de uma no absoro do ator pelo personagem, denominando isso de osmose entre ator e personagem (GUIMARES, 2012, p. 09), na qual o ator engloba o personagem, mas no deixa de existir dentro de cena, chegando a influenciar neste. Ideia esta muito parecida com a do ator portugus Luis Miguel Cintra, na qual o ator no 120. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 3 engolido totalmente pelo personagem, tendo uma coexistncia no mesmo corpo. Por fim, Luc Moullet defende que a vida privada pode ser uma grande influncia na composio flmica, criando uma forte relao entre ator e personagem, tanto na criao como na execuo deste ltimo. Como exemplo de uma obra audiovisual que faz uso da relao de cocriao entre diretor e ator, tem-se O Amor Segundo B. Schianberg, uma minissrie dirigida por Beto Brant dentro do Projeto Direes III da TV Cultura, em parceria com o SESC TV e a Drama Filmes. A minissrie dividida em quatro captulos e foi exibida em 2009 pela TV Cultura, porm est disponvel no site da emissora dentro do Projeto Direes III. B. Schianberg personagem do livro Eu Receberia as Piores Notcias dos seus Lindos Lbios, de Maral Aquino. Na literatura, ele aparece como um psiquiatra e autor de um livro lido por Cauby, personagem principal da trama. Na minissrie, Schianberg, como um psiquiatra, decide fazer um estudo sobre as etapas de um relacionamento amoroso e a chegada do amor nessa relao. Para isso, ele faz um acordo com Gala (Marina Previato), uma videoartista: que ela convide um homem a fazer uma videoarte com ela e que, com isso, ele more por um perodo de tempo em seu apartamento. Para total observao de B. Schianberg e, logo, dos espectadores, foram espalhadas diversas cmeras pelo apartamento. O homem em questo Felix (Gustavo Machado), um ator. Gala o encontra durante uma apresentao da pea Navalha na Carne, em que ele atua. Felix concorda com a proposta de Gala e os dois comeam a morar na mesma casa. B. Schianberg no aparece fisicamente. Ele se torna presente por meio de uma narrao onde comenta as diferentes etapas do amor de acordo com as situaes apresentadas pelo casal e por meio de sua caligrafia em anotaes que aparecem sobrepostas s imagens, que ora servem para transcrever suas falas, ora as falas de Gala e Felix. Essa falta de aparncia fsica do psiquiatra faz com que ele ganhe um carter voyeurstico, j que ele est ali somente observando os dois se relacionando e, salvo Gala que encara as cmeras diversas vezes como se estivesse encarando o prprio B. Schainberg, Felix parece no desconfiar de nada. Para que a coautoria exista preciso que exista ento um autor. Beto Brant se encaixa na denominao de autor gerada pela Poltica dos Autores, assim como por definies criadas na literatura, como as de Michel Foucault e Roland Barthes, e aquela prpria stima arte, de Jean-Claude Bernadet. 2. O autor Beto Brant e sua trajetria filmogrfica O trabalho de Beto Brant como diretor de longas-metragens comeou com o cinema de Ps-retomada na dcada de 1990. So sete filmes que constituem sua filmografia [Os Matadores (1997), Ao Entre Amigos (1998), O Invasor (2002), Crime Delicado (2005), Co Sem Dono (2007), O Amor Segundo B. Schianberg (2010) e Eu Receberia as Piores Notcias dos seus Lindos Lbios (2011)]. possvel perceber a existncia de duas temticas de enfoque no trabalho de Brant. A primeira diz respeito aos trs primeiros filmes de sua carreira, tratando de temas direcionados crtica social, como o trfico existente na fronteira Brasil-Paraguai em Os Matadores. A segunda mais intimista, trata de relaes entre casais, contudo estes nunca so ditos como casais vindos de contos-de-fadas, com um final alegre e emocionante. As relaes so sempre difceis, conturbadas e intensas. Os modos de se realizar uma obra que se repetem constantemente, assim como as temticas dos filmes, traz ao trabalho de Beto Brant um carter de autoria. A ideia de autor aparece no texto de Roland Barthes, A Morte do Autor, no qual o autor nasce antes do livro, ele concebido num tempo anterior ao livro. O autor aquele que o alimenta, 121. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 4 que pensa, sofre e vive com ele. Diz tambm que ao se dar uma autoria a um texto dar-lhe um significado ltimo. Michel Foucault em O que um Autor, partindo tambm do pensamento de um autor originrio da literatura, associa autoria a um poder criador. Essa associao se d pela criao de um status de um ser de razo, criado pela funo-autor. Essa, por sua vez, pode ser entendida como o modo de funcionamento de um discurso dentro da sociedade. Pode-se tratar a autoria no cinema baseada na ideia de Poltica dos Autores, proposta pelos crticos da revista Cahiers du Cinma na dcada de 1950, que buscava uma expresso pessoal do cineasta dentro do filme e um realizador que fosse diretor, produtor e roteirista, criando uma unidade. Jean-Claude Bernardet, no captulo O Domnio Francs Anos 50 do livro O Autor no Cinema, fala da ideia de matriz, que constituda a partir da anlise de um conjunto de filmes do autor, e as repeties presentes neles so o que a delimitam. Essas repeties ajudam a formar o autor. Brant acaba criando essa unidade em muitos de seus filmes, j que ele dirige, roteiriza e a produo feita por sua produtora, a Drama Filmes. Em Eu Receberia as Piores Notcias dos seus Lindos Lbios, Lavnia, uma mulher casada com um pastor religioso, tem um caso com Cauby, um homem solteiro que chega a cidade onde aquela mora. Em Co Sem Dono, Marcela, uma jovem modelo que se envolve com Ciro, um jovem tradutor que passa por problemas financeiros e pessoais, descobre um cncer e durante todo o tratamento, some da vida daquele. E existe ainda a paixo obsessiva de Antnio, um crtico de arte, por Ins, uma mulher que possui uma perna amputada e modelo viva para um pintor, Campanela, cujos quadros retratam cenas de sexo, que causa a dvida do ato de um estupro em Crime Delicado. Outro aspecto importante nas obras de Brant o fato de os casais conviverem muito dentro de suas casas e apartamentos, principalmente no interior do quarto, seja por ser um relacionamento extraconjugal, como no caso de Lavnia e Cauby, ou por um incmodo gerado pelo mundo exterior como no caso de Ciro. O relacionamento, ento, passa a existir dentro das quatro paredes. Esse estilo enclausurado de se relacionar remete muito ao que acontece na minissrie, onde o exterior s visto na videoarte feita por Gala, que mostrada no final do ltimo episdio, porm ele est sempre presente sonoramente, com os sons de carros e pssaros que invadem o apartamento. O modo como os relacionamentos acontecem tambm segue uma linha. Eles comeam com as relaes sexuais muito presentes e fortes e com o tempo, o sexo perde um pouco a importncia e o sentimento amoroso vem tona. Isso fica muito evidente em Co Sem Dono, quando, logo no incio da relao de Ciro com Marcela, ela lhe pede que faa uma poesia para ela. Ciro s consegue falar sobre os atributos fsicos da moa e ela ento lhe pede para que ele olhe dentro de sua alma. Com tempo e a ida de Marcela para o lugar onde faria o tratamento contra o cncer, Ciro percebe que a atrao sexual foi deixada para trs, e que agora estava apaixonado. Isso mostrado na forma de um sofrimento intenso, onde o ttulo do filme se faz ideal: Ciro era como um co sem dono. O Amor Segundo B. Schienberg tenta mostrar essa mudana de sentimentos de um modo mais didtico, mostrando passo a passo e por meio de falas e anotaes do psiquiatra sobre o comportamento do casal, se referindo ao amor como uma doena. O sexo tambm um item presente em quase todos os filmes e na minissrie de Brant. O Invasor e Crime Delicado mostram o sexo um pouco de longe, de maneira rpida. Neste ltimo, o sexo ligado ao crime, estupro. A delicadeza usada por Brant em seus outros filmes para cenas onde o ato sexual consumado se transforma em uma cena fria, com poucos planos e sendo estes muito abertos, fazendo com que todo o ato quase 122. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 5 no seja visto. J em Eu Receberia as Piores Notcias dos seus Lindos Lbios, Co Sem Dono e O Amor Segundo B. Schianberg, o sexo mostrado de perto, mais explcito, a cmera passeia pela cena. O ato se torna algo delicado, bonito e natural. Uma das principais caractersticas de Brant seu gosto por fazer livros virarem filmes. Isso acontece em: O Invasor, Crime Delicado, Co Sem Dono, Eu Receberia as Piores Notcias dos seus Lindos Lbios e em O Amor Segundo B. Schianberg. E essa adaptao nunca feita somente por Brant, a maioria dos seus roteiros so escritos por ele, Maral Aquino e Renato Ciasca, alm da contribuio de outros roteiristas. Sua parceria com Maral Aquino tambm importante, j que muitas das adaptaes provm de livros do prprio Aquino, como o caso de O Invasor, O Amor Segundo B. Schianberg e Eu Reberia As Piores Notcias dos seus Lindos Lbios. Essas constantes adaptaes que tomam conta de sua filmografia contribuem para uma unidade do autor. Uma questo comum a Crime Delicado, Eu Receberia As Piores Notcias os Seus Lindos Lbios, O Amor Segundo B. Scianberg e Co Sem Dono a presena de outras artes dentro dos filmes. O teatro e as artes plsticas no primeiro, a fotografia no segundo, a videoarte e artes plsticas nos dois ltimos, respectivamente. Essa presena muito forte em todos os casos j que elas tm uma importncia grande dentro da trama. So os quadros e a relao de Ins e do pintor Campana, em Crime Delicado, que provocam o cime de Antonio levando suposta tentativa de estupro. As fotos de Lavnia tiradas por Cauby e que se espalham por toda a casa e se tornam a lembrana da relao dos dois. O quadro de Marcela pintado por Elomar, porteiro do prdio onde mora Ciro, em Co Sem Dono, que permanece em sua casa durante todo o relacionamento dos dois e s levado embora quando a moa se vai; sem contar que a pintura uma viso sobre Marcela diferente da de Ciro: ela uma luz. E em O Amor Segundo B. Schianberg, com a vdeoarte de Gala. A quebra da quarta parede tambm algo constante na obra de Brant. Em O Invasor, Ansio brinca com uma arma imaginria, vira para a cmera, encara-a, e assim encarando o espectador, atira. Em Crime Delicado, Campanela discursa sobre Ins com o espectador e o encara tambm, assumindo, por suas falas e pela esttica escolhida, como um documentrio dentro do prprio filme. Esse olhar dirigido cmera pode ser constatado tambm em O Amor Segundo B. Schianberg, no qual Gala chega at a brincar com a cmera. Nos filmes de Brant, o personagem que a cmera acompanha, podendo este ser o principal ou no, sempre o homem. o homem que sofre por amor, por dilemas pessoais e por seus prprios erros. o caso de Ciro, Cauby, Ivan e Antonio. Porm no possvel declarar que Felix seja o personagem principal na minissrie. Por muitas vezes possvel falar que na obra Gala ganha destaque e isso talvez se d pelo fato de tudo acontecer dentro do apartamento desta, de modo que ela, vivendo ali, entre em evidncia com mais facilidade que Felix. Contudo uma maior presena fsica em cena no interfere, necessariamente, na importncia do personagem dentro da trama. Ou seja, O Amor Segundo B. Schianberg possui dois personagens principais: Gala e Felix, e muitas vezes, um s: o casal. O que se pode observar na obra de Brant a liberdade dada aos atores. A improvisao aparenta ser algo recorrente em seus filmes, dando uma liberdade de criao maior aos atores. A liberdade criativa tambm se d por sua parceria com Renato Ciasca em alguns de seus filmes, assim como na roteirizao de seus filmes, que na maioria feita em duplas ou trios. O modo de fazer cinema de Brant se torna diferente do tradicional. De suas obras, a que mais se diferencia a minissrie. O Amor Segundo B. Schianberg, mesmo tendo muitos elementos em comum com os outros filmes, se diferencia pelo modo como foi produzido. As oito cmeras de segurana foram espalhadas pelo apartamento, porm a esttica de vigilncia, com planos plonge 123. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 6 e distantes, no foi adotada. Elas se mostram muito mais como um objetivo de observao voyeurstica de B. Schianberg, de querer ver tudo mais de perto e em ngulos que favorecessem as situaes que ali sucediam. As cmeras foram colocadas em lugares estratgicos; a do banheiro capta somente o que reflete no espelho, a do quarto se utiliza de planos mais fechados, como pedem as situaes que ali sucedem, j que so momentos de maior intimidade do casal, e a da sala mostra um plano aberto, lateral, que faz com o que o ambiente, com a ajuda dos mveis espalhados pelo local, parea um palco de teatro. Essa ideia de teatro muito utilizada no ambiente, j que ali que as brigas acontecem, como as danas e brincadeiras dos dois. A localizao das cmeras tambm foi muito importante para a desconstruo espacial do apartamento. praticamente impossvel, para quem assiste a minissrie, construir mentalmente a planta baixa do lugar. Essa desconstruo torna-se interessante visual e esteticamente. Outro diferencial foi o fato de a equipe se alojar no apartamento ao lado daquele onde acontecia as gravaes, durante as duas semanas que se sucederam. Tudo o que se passava no apartamento de Gala era acompanhado pela equipe. A edio das imagens era feita como em programas de televiso ao vivo, enquanto a ao acontecia. A estadia da equipe ao lado do apartamento era necessria, principalmente pelo modo de direo feito por Beto Brant. Ele decidiu interferir o mnimo possvel nas aes que aconteciam no apartamento ao lado, dirigindo Marina Previato e Gustavo Machado por meio de mensagens no celular e e-mails. A comunicao entre direo e atores se tornou estritamente virtual, salvo uma nica vez quando Gustavo Machado e Marina Previato discutiram e ele quis desistir da produo e Brant teve que intervir e convencer Machado a ficar. Esse estilo de direo tambm deixou uma dependncia maior da equipe para com eles, j que os planos escolhidos, a montagem e o roteiro dependiam da ao do casal dentro do apartamento. Como as cenas no eram marcadas e tudo acontecia no cmodo onde os atores estavam no exato momento, a mise-en-scne era feita em tempo real, pelos prprios atores e o roteiro era, muitas vezes, criado ali, por eles mesmos. Cabia direo e a equipe de montagem escolher quais planos seriam usados, mas at isso dependia da localizao das cmeras. 3. A Coautoria em O Amor Segundo B. Schianberg Ao analisar a direo de Beto Brant, o trabalho feito por Gustavo Machado e Marina Previato e a minissrie em si, possvel notar o uso de um trabalho de cocriao entre os atores e o diretor. O modo de direo escolhido por Brant, um estilo mais livre que abriu uma grande possibilidade para a improvisao e o uso de experincias pessoais dentro das cenas, permitiu que essa parceria fosse bem realizada. Os limites entre realidade e fico no estavam visivelmente traados. No possvel afirmar quais cenas foram dirigidas e quais foram improvisadas ou somente aconteceram. Esses limites invisveis se davam, tanto pela esttica usada, com as cmeras de segurana em lugares estratgicos e a qualidade da imagem gerada muito similar a um reality show, a voz de B. Schianberg e suas anotaes que ao mesmo tempo se faz aproximar de um filme de fico, mas ao mesmo tempo d obra um ar de objeto de estudo, como pelo trabalho de atuao feita pelos dois atores em conjunto com Beto Brant. Como no existia um roteiro tradicional, onde as cenas e falas tm lugar e tempo certo, ou elas tinham que ser criadas instantaneamente e com a colaborao de Beto Brant ou realmente aconteciam, ou seja, no eram cenas atuadas. 124. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 7 O segundo episdio fechado por um dilogo muito interessante que explicita esse uso de falas criadas a partir de experincias pessoais. Felix fala sobre o choro dentro atuao e Gala tenta chorar como ele a ensina. Ento lhe proposto um desafio: que ela v at o quarto e fique l por um tempo, buscando situaes que a faam chorar, depois que volte para onde ele est de um jeito muito triste. Ela volta do jeito que ele falou e Felix, ento, lhe fala que ela uma atriz e que viver todos os prantos e todos os risos... (MACHADO, Gustavo. 4447). Ela diz que est triste de verdade e que acha que no uma atriz. O dilogo dos dois metalingustico: conversam sobre atuao. Felix denomina ento Gala como uma atriz, que era o que Mariana Previato, antes uma videoartista, estava se tornando ao fazer a minissrie. O episdio termina com uma fala de B. Schianberg que acaba por exemplificar o processo de atuao, envolvendo uma no-atriz e improvisao, presente na minissrie: Talvez ela esteja dizendo que tambm sabe representar. Sabe portanto simular e dissimular a dor. Talvez ele, o ator, esteja vivendo de verdade o seu papel, o risco para ambos no perceber que toda representao contm sua prpria verdade. Nos ltimos quinze minutos do quarto episdio da minissrie h a videoarte Comeo em Ti; Termino, feito por Mariana Previato e/ou Gala durante os episdios. A videoarte tem Felix e Gustavo Machado como personagem principal, objeto de observao e pra quem o vdeo dedicado (ao final dele tem-se uma cartela com os dizeres Com amor, de Gala para Felix). Surge, nessa videoarte, um terceiro personagem: o personagem criado por Marina Previato/Gala para Gustavo Machado/Felix e a funo de diretora dada a Marina Previato fica evidente e Beto Brant perde seu posto de diretor dentro da videoarte. uma das poucas vezes que casal aparece interagindo com o mundo exterior, mas essa interao pouca e quase insignificante. Existe ento uma obra audiovisual dentro de outra e toda a feitura daquela mostrada durante as gravaes da ltima. As duas, contudo, se diferenciam explicitamente e h uma razo para isso: so realizadas por autores diferentes. No possvel falar que Beto Brant autor da videoarte no ltimo episdio, ele no interfere nela em momento algum, salvo a ideia de que se teria uma videoarte ao final da srie. Comeo em Ti; Termino exemplifica a ideia de criao e de coexistncia de ator e personagem num s corpo ao mesmo tempo. A minissrie no engloba somente as situaes de Felix e Gala dentro do apartamento; a ela diz respeito tambm videoarte. Esta no s o desfecho do enredo, finalizando ali a histria de Gala e Felix, mas tambm serve de justificativa para que o casal se forme, j que Gala o conhece quando lhe faz a proposta para participar da obra. H uma coexistncia de personagens e atores no mesmo corpo, como acontece durante toda a minissrie, mas se torna explcito aqui: possvel ver que quem grava e edita a vdeoarte Gala, mas ao mesmo tempo Mariana Previato; quem aparece nas imagens Felix, mas tambm Gustavo Machado e seu terceiro personagem criado para o vdeo. A ideia de coautoria tambm est presente na criao da mise-en-scne. A definio de mise-en-scne para os crticos da Cahiers du Cinma (ideia explicitada por David Bordwell), a de que ela compreende a interpretao, a iluminao, o enquadramento, os posicionamentos de cmera. As cmeras estavam colocadas nos lugares definidos por Beto Brant e a edio tambm era feita por ele, mas os enquadramentos e a iluminao eram definidos, principal e indiretamente, por Marina Previato e Gustavo Machado. Tudo dependia do posicionamento dos dois dentro do apartamento e, consequentemente, diante das cmeras. A mise-en-scne estava sendo, ento, criada enquanto as cenas aconteciam, sem que nada, que no fosse o posicionamento das cmeras, estivesse premeditado. Isso no faz com o que trabalho de direo fosse menosprezado, j que existia uma decupagem ali. possvel perceber que Brant tinha 125. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 8 um conceito na hora de editar as cenas e de escolher as cmeras e enquadramentos que seriam usados. As cenas de cotidiano, com os dois cozinhando, lavando a loua ou simplesmente ociosos eram compostas por planos abertos, principalmente planos gerais, americanos e mdios. As cenas de brigas ou de sexo do casal possuem planos bem fechados e essas ltimas possuem uma caracterstica interessante: os planos eram extremamente fechados e na maioria deles somente partes do corpo eram mostrados, havendo uma fragmentao do mesmo. Os planos fechados e a fragmentao trazem uma sensao de intimidade e de voyeurismo principalmente. Este est ligado ideia do olhar observador de B. Schianberg e so nessas cenas principalmente, salvo as que possuem a narrao do psiquiatra, que o espectador tem a sensao de que aquilo uma experincia e que o casal est sendo observado. Outro fator que traz tona a ideia de experimento so os momentos em que Gala encara a cmera conscientemente ou fala com ela. Alm disso, esses momentos tambm atuam como quebra da fico, que no est muito delineada durante toda minissrie. Por causa do modo de atuao muito realista e das situaes ali presentes, sendo essas encenadas ou no, o que se tem uma obra hbrida, com cenas roteirizadas e no roteirizadas, podendo cham-las de ficcionais e no ficcionais. difcil classific-las como cenas que tiveram um roteiro pr-estabelecido e cenas que foram criadas no momento em que estavam acontecendo. Esse hibridismo tambm uma evidncia da liberdade ali existente e essa liberdade coopera para que a coautoria exista. possvel concluir que a relao de cocriao s tem a acrescentar numa obra audiovisual, na qual o trabalho em equipe sempre prevalece, mas somente o diretor quem assina a autoria. Essa coautoria colabora ainda mais no cinema que preza pelo realismo, por causa da encenao com maior poder de criao. Referncias BARTHES, Roland. A Morte do Autor. In: _____. O Rumor da Lngua. So Paulo: Ed. Martins Fontes, 2004. BERNARDET, Jean-Claude. O Autor no Cinema. 1 Edio. Editora Brasiliente, So Paulo, 1992. BORDWELL, David. 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O Ator Cocriador e Suas Contribuies no Cinema Brasileiro Contemporneo. [S.I.: s.n.] Filmografia Dov Meneguetti. Filme. Produo de Boby Costa, direo de Beto Brant. Brasil, 1989. DVD, 12min. Som. Os Matadores. Filme. Produo de Beto Brant e Renato Buco, direo de Beto Brant, 1997. DVD, 90min. Som.Cor O Invasor. Filme. Produo de DramaFilmes, direo de Beto Brant. Brasil, 2002. DVD, 97min. Som. Cor. Crime Delicado. Filme. Produo de DramaFilmes, direo de Beto Brant. Brasil, 2005. DVD, 87min. Som. Cor. Co Sem Dono. Filme. Produo de DramaFIlmes, direo de Beto Brant. Brasil, 2007. DVD, 82min. Som. Cor. O Amor Segundo B. Schianberg. Srie de TV. Produo de DramaFilmes, TV Cultura e TV SESC, direo de Beto Brant. Brasil, 2009. Som. Cor. O Amor Segundo B. Schianberg. Filme. Produo de DramaFilmes, direo de Beto Brant. Brasil, 2010. DVD, 80min. Som. Cor. Eu Receberia as Piores Notcias dos seus Lindos Lbios. Filme. Produo de DramaFilmes, direo de Beto Brant e Renato Ciasca. Brasil, 2011. DVD, 100min. Som. Cor. 127. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design Vol. 3 no 1 janeiro de 2014, So Paulo: Centro Universitrio Senac ISSN 2179474 X 2014 todos os direitos reservados - reproduo total ou parcial permitida, desde que citada a fonte portal de revistas cientficas do Centro Universitrio Senac: http://www.revistas.sp.senac.br e-mail: revistaic@sp.senac.br ALL YOU NEED IS LOVE: O Design Thinking como suporte ao desenvolvimento de uma plataforma de servios ALL YOU NEED IS LOVE: Design Thinking as a support to the development of a service platform Taline Sabany Velasques, Tobias Tessman Mlling Universidade Federal de Pelotas Centro de Artes Bacharelado em Design Grfico talinesv@gmail.com, tmulling@gmail.com Resumo. Este artigo apresenta o desenvolvimento de uma plataforma de servios web com o propsito de potencializar a experincia que os fs de Beatles possuem com a banda, por meio do modelo de Design Thinking focado no ser humano. Prope a colaborao e interao dos usurios desde a concepo do projeto por intermdio de algumas tcnicas, tais como: entrevistas e desenvolvimento de mapas conceituais, at a etapa de experimentao, onde o projeto passa a prototipagem e devidas etapas de validao; diminuindo, assim, as chances de fracasso do produto final, em funo da importncia empregada na gerao dos insights levantados pelo pblico que utilizar o servio. Para que tal pesquisa fosse possibilitada, estudou-se o papel do designer frente a um projeto, bem como, as relaes de cibercultura e mobilidade, disseminao de informao, redes sociais e capital social, alm de realizar uma contextualizao da banda Beatles na poca (dcada de 1960) e atualmente, compreendendo assim, o sentimento que os fs carregam frente ao repertrio construdo pela banda mais de 50 anos depois de sua dissoluo. Palavras-chave: cibercultura, design thinking, interfaces, colaborao, smartphones. Abstract. This research presents the development of a web service platform in order to maximize the experience which Beatles fans have with the band, through the model of Design Thinking - focused in humans. Proposes collaboration and interaction between users from designing the project - through some techniques, such as interviews and development of conceptual maps to the experimentation phase, where the project goes to prototyping and validation steps due, decreasing the chances failure of the final product, depending on the scale used in the generation of insights raised by the public to use the service. To this research was made possible, we studied the role of the designer front of a project, as well as the relations of cyberculture and mobility, information dissemination, social networks and social capital, in addition to performing a contextualization of the Beatles band at the time (1960) and currently comprising thus the feeling that fans carry forward the repertoire built by the band more than 50 years after its dissolution. Key words: cyberculture, design thinking, interfaces, collaboration, smartphones. 128. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 2 1. Introduo Esta pesquisa tem por objetivo o desenvolvimento de uma plataforma de servios web, a partir do estudo e compreenso dos conceitos do Design Thinking. Como modelo de inovao, tem por finalidade a proposio de um servio com foco no ser humano, ou seja, que envolve seu usurio final desde o processo de concepo at sua finalizao, passando pela prototipao para os devidos testes. necessrio compreender, no entanto, que inovao est desligada de quaisquer conceitos de inveno e novidade. Brown (2010) declara em sua publicao sobre o assunto que quando um produto ou servio inovador ele causa impacto na vida das pessoas e transforma para sempre a forma de essas pessoas viverem e trabalharem. Em outras palavras, trata-se de valor percebido. Alega, ainda, que a fim de elevar certo servio/produto categoria de inovao, ou mesmo, para minimizar as chances de fracasso de um projeto, necessrio compreender verdadeiramente o usurio final, traz-lo para o processo de desenvolvimento em forma de cocriao e, ainda experimentar (por meio de prototipao) as solues propostas antes que seja tarde demais para fazer quaisquer modificaes (BROWN, 2010). Ou seja, envolver o usurio desde o momento de gerao de insights, isto , na gerao de ideias, de possibilidades. O que parece muito simples na teoria, no costuma ser aplicado na prtica e, comumente, sentencia diversos projetos ao insucesso antes mesmo de chegarem ao consumidor (usurio) final. comum associar a execuo do Design Thinking aos designers profissionais mais ligados concepo deste modelo de pensamento; porm, imprescindvel entender que o modelo no est vinculado a nenhuma profisso ou rea de atuao em especfico. Ao contrrio, assemelha-se, apenas, ao modo como os designers precisam enfrentar seus projetos e a resoluo dos problemas que lhes surgem durante suas jornadas de trabalho. A ideia simplificada, se pensarmos sob a lgica de que as habilidades desenvolvidas por estes profissionais podem e devem ser utilizadas para resoluo de problemas de ordem mais complexa; ainda, necessrio compreender que, independente da profisso ou rea de atuao, o modelo indicado para uso, pois apontado para resoluo de problemas de negcios que todos enfrentamos diariamente. O Design Thinking est embasado em trs pilares bsicos: empatia, colaborao e experimentao. Na fase inicial, o pesquisador/designer prope-se a conhecer o pblico-alvo seus gostos, costumes, comportamento etc; posteriormente, munido da maior quantidade de informaes possveis, inicia a fase de colaborao, por meio de equipes multidisciplinares com perfis colaborativos, de criao coletiva e envolvimento de profissionais de reas especficas, quantos forem necessrios, durante o desenvolvimento do projeto; por fim, abrange a etapa de experimentao, ou seja, a prototipagem do projeto que nesta pesquisa, contempla a proposio prtica do projeto. Ademais, este estudo debrua-se sobre conceitos de redes sociais e interao e visa uma melhor compreenso acerca do comportamento das pessoas/usurios com interesses afins. Prev, ainda, a interao entre estas e justifica-se por percorrer um campo de estudo terico que abrange o design como uma grande rea, independente de sua especializao (grfico, digital, produto e/ou outro). Esta , na verdade, a sua contribuio para o design, pois desenvolve uma pesquisa apoiada nos conceitos deste modelo, que possui limitado referencial terico, devido a sua recente definio e utilizao. Acerca do objeto de estudo, se faz necessria a compreenso de o que e quando surgiu o rock como gnero musical, para assim, posteriormente possibilitar a identificao e localizao do contexto histrico em que a banda The Beatles se insere, facilitando a percepo da relao que a mensagem por trs de suas msicas poder ter sobre os fs por meio de sua obra. 129. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 3 Para tornar possvel a percepo do contexto vivenciado atualmente, analisar-se-, ainda, conceitos ligados cibercultura e mobilidade. Lemos (2004) afirma que a sociedade atual vive um momento de plena integrao tecnolgica. Ou seja, vivemos em um perodo em que o cenrio mundial caracterizado pela relao entre o homem e as diversas tecnologias existentes. O exemplo mais ntido da cibercultura , justamente, a internet, pois as pessoas buscam cada vez mais uma interao que perpasse do meio fsico para o digital. Alm disso, possvel vislumbrar que no existe apenas o modelo linear de comunicao, to somente, utilizado em suma nas mdias ditas tradicionais. A forma de comunicao mudou; hoje, no somos apenas receptores de contedo, somos tambm geradores dele. Justamente em funo do cenrio de ubiquidade das tecnologias na cultura atual. A comunicao se estabelece nessa dinmica do mvel e do imvel. Comunicar deslocar. Toda mdia libera e cria constrangimentos no espao e no tempo. A comunicao implica movimento de informao e movimento social: sada de si no dilogo com o outro e fluxo de mensagens carregadas por diversos suportes. Para Tuan, human lives are dialectical movement between shelter and venture, attachment and freedom (1977; p. 54 apud LEMOS, 2009). Mobilidade, ento, alm de apenas compreender a utilizao massiva dos dispositivos mveis, trata da forma fluda de comunicao, do fluxo de informao que possvel acessar a qualquer momento, por meio de, praticamente, qualquer suporte. Sendo uma comunicao interpessoal fsica ou digital. Por fim, como resultado prtico desta pesquisa, foi projetada uma plataforma de servios visando a decodificao das mensagens por trs das canes dos quatro ingleses mundialmente conhecidos e agraciados na atualidade como se vivssemos ainda na dcada de 1960, como se fizssemos parte da mesma gerao que a banda. A proposta tem como propsito traduzir em experincia de interao, levando em considerao as novas tecnologias e o cenrio atual da crescente utilizao da internet, o principal legado deixado pelos Beatles. Como diferencial, acerca das tecnologias, esta pesquisa estuda a relao entre a interao desktop (pelo desenvolvimento da plataforma de servios web) e smartphone (a partir da utilizao de aplicativos para os dispositivos mveis, visando a alimentao do portal). A pertinncia deste estudo fundamenta-se em construir referencial terico para sistematizar recomendaes acerca de projetos que utilizem um foco no ser humano destinando-se produo de servios/produtos de design com uma maior eficcia e sucesso na aceitao do pblico. 2. Design Thinking A compreenso sobre o termo e todo o universo que o Design Thinking engloba, vem um pouco antes de sua constatao como modelo de inovao para negcios e servios. Sua existncia e difuso so consideradas recentes e derivam do que foi possvel reconhecer mais tarde: a necessidade de inovar. Por inovar entenda-se recriar modelos de negcios, produtos e servios e construir novos nichos de mercado focados em necessidades humanas no atendidas. Com um cenrio em que apenas 4% de novos produtos lanados [...] so bem-sucedidos (ADLER, 2011; p. 12), onde tanto grandes quanto micro empresas no estavam adequando-se a essa realidade de mercado, foi necessrio buscar uma diferenciao sobre a concorrncia cada vez mais avassaladora. Foi ento que, por meio de uma busca por novos caminhos em inovao de negcios e servios, surgiu o que atualmente conhecido como "Design Thinking, um modelo focado no ser humano e em suas necessidades, compreendendo, sobretudo, a multidisciplinaridade e colaborao como novos caminhos para a 130. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 4 inovao (ADLER, 2011). Atualmente existem algumas poucas e bem-sucedidas empresas de consultoria especializadas em atender clientes por intermdio deste modelo de pensamento, porm, compreender o que realmente significa na prtica, requer uma explanao acerca do profissional que, mais comumente, executa tarefas ligadas ao modelo: o designer. Muitas pessoas atribuem, erroneamente, ao designer o status de profissional que lida com tarefas no computador. O que acontece que ainda existe uma parte das pessoas que enxerga o design como uma rea responsvel apenas pelo embelezamento e esttica e com quase nenhuma importncia na gerao de valor de um produto, servio ou negcio. preciso, no entanto, desmitificar os significados e atribuies que tal profissional carrega em sua essncia. Flusser (2007) define da seguinte maneira: "A palavra design ocorre em um contexto de astcias e fraudes. O designer um conspirador malicioso que se dedica a engendrar armadilhas.". Na verdade, o profissional recebe este papel, pouco amigvel, dado por Flusser em funo de ser uma figura que percebe coisas que, em geral, as pessoas no tm a sensibilidade de enxergar; a forma como age e resolve problemas com aquilo que extrai do mundo ao seu redor o que possibilita caminhos para inovaes em projetos, servios, empresas etc. Na verdade, o designer possui um pensamento e uma forma de agir em seu dia-a- dia de trabalho semelhante ao preceito principal do Design Thinking: o foco em pessoas. O designer enxerga como um problema tudo aquilo que prejudica ou impede a experincia (emocional, cognitiva, esttica) e o bem-estar na vida das pessoas (considerando todos os aspectos da vida, como trabalho, lazer, relacionamentos, cultura etc.). Isso faz com que sua principal tarefa seja identificar problemas e gerar solues. (ADLER, 2011). Por possuir esse perfil, juntamente com uma postura pouco convencional, inquieta e criativa, o designer acaba sendo um dos profissionais capazes de identificar as necessidades das pessoas, a fim de criar e proporcionar aquilo que elas no sabiam que necessitavam e/ou desejavam. Este o papel da inovao e a est a utilidade do Design Thinking. H quem afirme que Design Thinking uma metodologia. Mas quando se fala em metodologia, logo as pessoas criam a expectativa de que vo aprender um passo a passo, uma receita de bolo. E no bem esse o caso. Mais do que uma metodologia, Design Thinking um novo jeito de pensar e abordar problemas. Um novo modelo mental. Numa traduo grosseira, Design Thinking significa o jeito de pensar do design. Design, nesse caso, aquilo que em portugus chamaramos de projeto centrado em pessoas, se tivssemos o hbito de falar portugus (ALT, PINHEIRO, 2011; p. 05). A premissa bsica no Design Thinking a proposio de servios focados no usurio, por meio de suas necessidades e desejos. A fim de buscar solues, apoia-se em trs pilares bsicos: a empatia, a colaborao e a experimentao. Na etapa de empatia, o designer dedica-se a aproximar-se de seu pblico-alvo com o propsito de conhec-lo. Ou seja, tenta identificar seus gostos, costumes, comportamento etc. Em um segundo momento existe a colaborao, que se refere ao comportamento colaborativo, a criao coletiva e ao envolvimento de equipes multidisciplinares durante o desenvolvimento do projeto. Esta equipe tratar de reunir aquilo que foi levantado durante a etapa de empatia para, por fim, chegar etapa de experimentao, ou seja, a prototipagem do projeto que se trata, em sua maioria, da parte prtica do projeto, onde o pblico consegue enxergar uma soluo, um projeto proposto, um servio, ou, at mesmo, uma pea grfica e/ou digital. Fugindo de denominaes como 131. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 5 metodologia, passo-a-passo, modus operandi, o Design Thinking tenta mostrar uma abordagem focada em solues inovadoras e clientes mais satisfeitos, possivelmente por menos chances de fracassos e porcentagem maior de servios bem-sucedidos lanados no mercado. O usurio final ficar com a impresso de que o servio e/ou produto foi desenvolvido sob medida. A vantagem do modelo que a empresa, designer ou profissional que esteja utilizando-o em uma determinada situao, identificar necessidades muitas vezes que ele prprio enfrenta, ento a partir do momento que projetar algo, pensar sob a tica de quem tambm enfrenta tal necessidade diariamente. Neste caso, o executor tambm usurio. imperativo salientar que tal modelo no de exclusivo uso dos designers, ele est, na verdade, desligado de quaisquer reas, pois compreende um modelo de pensamento. No entanto, est mais facilmente associado ao design porque compreende o modo de pensar e agir prprio destes profissionais, focando seu trabalho nas necessidades dos usurios. Entretanto, as grandes reas da comunicao como marketing, publicidade, branding, e at mesmo as da sade, como medicina, psicologia etc, podem utilizar este modelo que visa uma maior satisfao do usurio. (ALT, PINHEIRO, 2011). 3. Inovao e design A compreenso do Design Thinking no processo de gerao de ideias e solues e na proposio de servios inovadores demonstra que o modelo funciona, sobretudo, porque utiliza a premissa do duplo diamante, proposta pelo Conselho Britnico de Design1 , em que existe o estmulo da gerao de variadas ideias e propostas de solues, quantas forem possveis. As que forem mais bem elaboradas, sobrevivero, transformando-se em servios e/ou modelos de negcios reais. Todavia, preciso entender que inveno no possui a mesma denotao de inovao. Enquanto a primeira limita-se a definir algo novo, que no existia anteriormente no mercado, inovao consiste em atribuir significado real e diferente ao que j fora inventado e, muitas vezes, se mostra deveras conhecido pelo pblico-alvo. Inovar significa, ento, criar valor2 para algo j desenvolvido e pr-estabelecido como tal, ou seja, re-significar. Alt e Pinheiro afirmam que as inovaes so de fato a fora fundamental por trs do crescimento econmico. (SCHUMPETER, 1939 apud ALT, PINHEIRO, 2011). Segundo eles, mesmo que destruam valores previamente existentes levando algumas empresas ao fechamento, so capazes de fomentar a troca de tecnologias e/ou processos em detrimento de outros que estejam mais adaptados das pessoas e do mercado (ALT, PINHEIRO, 2011). A fim de agregar valor a determinado servio (negcio, produto etc), o Design Council percebeu que o processo de desenvolvimento do projeto, em grande parte das empresas, mostra-se dividido em duas partes: a expanso da compreenso acerca deste e o refinamento do conhecimento anteriormente adquirido, a fim de encontrar novas associaes e significados (isto inovao ou gerao de valor). Este processo de expandir e refinar foi nomeado pelo Conselho como duplo diamante. Um processo no linear, que possibilita o livre desenvolvimento, seja de natureza iterativa ou cclica. 1 Design Council, ou Conselho Britnico de Design, um rgo pblico situado no Reino Unido responsvel por fomentar o desenvolvimento da Gr-Bretanha por meio do Design. 2 No confundir valor com preo. Preo , simplesmente, o que se paga por determinado produto, servio ou quaisquer bens materiais que se possa possuir por interndio de troca por moeda. J o valor, por sua vez, trata-se do significado real que algo possui, muita vezes imaterial. 132. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 6 Figura 1 Esquema duplo diamante (Fonte: Livro Design Thinking Brasil) Basicamente, o duplo diamante divide-se em quatro etapas (Figura 1): descobrir, onde a equipe ir expandir o conhecimento sobre o projeto tentando reunir o maior nmero de informaes possveis (neste momento no existe preocupao com uma lgica no recolhimento de informaes, a triagem feita na etapa posterior); a etapa seguinte nomeada definir, onde ocorre a triagem do que foi levantado e a identificao de quais informaes so importantes para a etapa de desenvolvimento; ento, ocorre, novamente, a expanso das ideias criando quantas possibilidades forem necessrias; at que, finalmente, a chega-se etapa de entrega do resultado identificado como mais adequado para a soluo pretendida. 4. Colaborao e redes sociais Por perceber a importncia de envolver pessoas no processo de criao, desde a sua concepo, na gerao de ideias, at a sua finalizao, quando o servio e/ou produto , de fato, desenvolvido e, em funo do atual cenrio com a crescente popularizao e aumento na utilizao das redes sociais, que o Design Thinking vem tornando-se cada vez mais utilizado por empresas pois carrega em sua essncia a clareza de que se aproximando de seu pblico no incio do processo, diminui-se consideravelmente as chances de fracasso. A etapa de colaborao do Design Thinking, ocorre principalmente nas fases descobrir e desenvolver no projeto. Na primeira, pois o envolvimento com os usurios auxilia no levantamento de insights e na segunda porque levar em considerao a opinio do pblico-alvo contribui para a avaliao do que est sendo produzido, possibilitando um resultado final mais prximo daquilo que se pode considerar satisfatrio para o usurio. Equipes multidisciplinares trabalham juntas, em espaos compartilhados, ouvindo ideias, contando e propagando histrias, gerando valor para o seu produto (ou servio) em forma de criao como nunca antes havia sido pensado. Parte do resultado bem-sucedido projetado ao final da proposio e do desenvolvimento de algo novo sustenta-se no fato de que h pouco tempo existia uma realidade em que um determinado produto era desenvolvido pela empresa, de seu ponto de vista, do que esta julgava ser a necessidade e/ou desejo da populao e, simplesmente, o lanava no mercado. O consumidor por sua vez, simplesmente consumia alguma daquelas opes que lhe era ofertada. E, afinal, se existia mais de uma opo, bastava escolher, certo? Estas atenderiam ao pblico sem grandes problemas. Errado. Tanto que o cenrio presenciado vem mudando gradativamente. Da ltima dcada para o contexto atual, o consumidor vem ganhando voz e fora e, agora, parte importante do que chamamos de cocriao de valor (PRAHALAD et al., 2004 apud ALT, PINHEIRO, 2011). A insatisfao do pblico perante a oferta aliada s ferramentas tecnolgicas disponveis atualmente, mostra a influncia e o poder que as 133. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 7 pessoas possuem sobre as empresas; ignorar isso extremamente perigoso, quase como um atestado de fracasso, assinado antecipadamente. Outra mudana percebida trata da relao ao valor atribudo a um servio e/ou produto. A empresa no mais responsvel por dit-lo como uma regra que no pode ser alterada. O valor de um produto est diretamente ligado relevncia que este possui para o usurio. Antes de comprar um determinado produto comum perceber que as pessoas utilizam a internet e, sobretudo, os sites de redes sociais (especficas para cada nicho), para pesquisar qual a relao que outros usurios j experienciaram, seja com um produto ou com um servio. E nesse processo de colaborao e gerao de valor, as redes sociais3 atuam de maneira impactante. O chamado capital social tem poder de influenciar uma rede inteira, porque confiar, por assim dizer, em uma experincia prvia que outra pessoa teve com algo almejado, possui muito mais valor e impacto do que levar em considerao a imagem que a empresa deseja passar de seu produto. Conforme Recuero (2009; p. 45) defende: refere-se a um valor constitudo a partir das interaes entre os atores sociais. A difuso de informaes na internet funciona de tal forma que, quanto mais usurios testemunharem a favor e/ou contra, apenas contando suas experincias, maior ou menor valor ser atribudo a tal servio/produto. Existe uma interatividade e uma cumplicidade involuntria entre os usurios, que eles quase se sentem obrigados a opinar, testemunhar, expor suas ideias e experincias a fim de mostrar ao restante do pblico o que determinada empresa/servio/produto lhes reserva. Tudo isso em funo da rapidez com que se consegue propagar uma ideia na internet. O surgimento da Internet proporcionou que as pessoas pudessem difundir as informaes de forma mais rpida e mais interativa. Tal mudana criou novos canais e, ao mesmo tempo, uma pluralidade de novas informaes circulando nos grupos sociais. Juntamente com essa complexificao, o aparecimento de ferramentas de publicao pessoal, tais como os weblogs, fotologs, e mesmo o YouTube, por exemplo, deu fora e alcance para esses fluxos (Adar&Adamic, 2005), ampliando a caracterstica de difuso das redes sociais. (RECUERO, 2009; p. 116) A influncia que o capital social possui no processo de colaborao percebida a partir do momento que passamos a levar em considerao o que produzido nas redes sociais, segundo Recuero (2009), "constitudas de atores sociais4 , com interesses, percepes, sentimentos e perspectivas" (p. 117). Comum aos usurios inseridos em quaisquer redes que existam atualmente percebe-se uma clara conexo entre o que se pretende publicar e a percepo que os demais usurios (neste caso os amigos e/ou contatos) tero desta informao (RECUERO, 2009). Com este cenrio da crescente utilizao destas redes sociais e da mudana de comportamento por parte dos usurios nota-se a importncia dos feedbacks5 . Ao capital social atribui-se a percepo e a reao que os usurios possuem dentro das redes, seus valores, suas opinies, de que forma se posicionam etc. "Os atores so conscientes das impresses que desejam criar e dos valores e impresses que podem ser construdos nas redes sociais mediadas pelo computador". (RECUERO, 2009; p. 118). Em funo disto as redes sociais tornam-se elementos fundamentais no processo de colaborao. No basta a equipe ser multidisciplinar e tentar oferecer o que o usurio deseja, necessrio reconhecer a fora que as redes sociais exercem em nosso dia-a-dia e que os atores 3 Define-se como rede social o conjunto de dois elementos. Os atores sociais (os ns da rede, ou seja as pessoas) e suas conexes (laos sociais, interaes) Assim, seu foco encontra-se na estrutura social, em que no possvel segregar os atores de suas conexes (RECUERO, 2009). 4 Recuero (2009), refere-se atores como sendo o primeiro elemento de uma rede social, representados por todas as pessoas envolvidas em uma determinada rede. Ou seja, os usurios, todos ns. 5 Feedback um termo utilizado para denominar um retorno que o usurio demonstra sobre suas experincias, seja com empresas, produtos ou servios. a resposta do usurio. 134. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 8 sociais atuam como formadores de opinies e auxiliadores da gerao de valor de determinado produto ou servio. 5. Projeto de uma plataforma online a partir de tcnicas do Design Thinking Associadas ao Design Thinking como forma de facilitar e potencializar a maneira de empreender determinado servio com foco no ser humano , as tcnicas encontram- se distribudas entre as quatro etapas do duplo diamante. Ligia Fascioni (2012), em entrevista para o portal Ideia de Marketing, refere-se ao Design Thinking e suas tcnicas da seguinte maneira: O Design Thinking uma ferramenta de inovao; uma abordagem predominantemente de gesto, que se vale de tcnicas que os designers usam para resolver problemas.. Para utiliz-las, portanto, necessrio compreender a ideia principal do que se pretende desenvolver, a fim de identificar as mais adequadas em cada situao. Por conseguinte, foram escolhidas, para aplicao na plataforma proposta nesta pesquisa, desde o processo de descoberta at o de entrega, as que possibilitaram a identificao do pblico-alvo do servio (neste caso, os fs, admiradores e possveis fs da banda The Beatles) e, tambm, quelas que possibilitam extrair deste pblico informaes teis na seleo das funes desenvolvidas, bem como nas peas que acompanham a plataforma. 5.1.Etapa 01 - Descobrir Conforme mostra o processo do duplo diamante, na primeira parte do processo, faz-se uso da expanso das ideias, de maneira a levantar o maior nmero de insights possveis. Desta forma, se mostrou pertinente estudar, nesta primeira etapa, quatro tcnicas, aproximando-se dos usurios stakeholders. So elas (explicadas a seguir): Stakeholder maps, contextual interviews, costumer journey map e concept mapping. 5.1.1.Stakeholder maps Esta tcnica consiste na criao de um mapa visual ou, at mesmo fsico, entre vrios grupos stakeholders (quantos forem necessrios) para que, posteriormente, seja possvel identificar as interaes entre tais grupos, possibilitando, assim, uma melhor visualizao de quem e como ser afetada por determinado servio. Alm de uma viso geral dos envolvidos, permite, tambm, a identificao de possveis pontos fracos e em potencial para explorao. Quem est envolvido no processo? Com o que se preocupam? Qual a sua influncia? (LUMA INSTITUTE, 2012). So algumas das questes que esta tcnica aponta e levando estes aspectos em considerao possvel assegurar que as pessoas envolvidas e afetadas por determinado projeto, sero consideradas na etapa de desenvolvimento, quando o servio inicia seu desenvolvimento prtico. Para aplic-la necessrio definir uma lista de stakeholders do projeto em questo. Alm do uso de entrevistas, utilizam-se pesquisas documentadas, que objetivam identificar possveis grupos de interesse que o responsvel pelo projeto no incluiu por no ter identificado como tal. 135. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 9 Figura 2 Stakeholder map aplicada ao desenvolvimento da plataforma (Fonte: Autora) Para tanto e com base na escolha de quatro tcnicas identificadas como mais adequadas para esta pesquisa em questo, foram identificados queles que poderiam contribuir em nveis diferentes (fosse com ideias, conhecimento sobre a banda, insights para a etapa de produo, etc) para a construo da plataforma, ou seja, os stakeholders. Estes foram fragmentados em trs grupos: os beatlemanacos, os fs e os admiradores. Aps, foram escolhidas pessoas que se encaixassem em um dos trs grupos (figura 2) e, assim, pudessem participar da aplicao das tcnicas que envolviam os stakeholders. 5.1.2.Contextual interviews Trata-se de entrevistas realizadas no ambiente (ou contexto, de acordo com as especificidades de cada projeto) em que tal servio ocorre; possibilita a identificao mais clara e direta na viso de quem utilizar o servio dos pontos importantes a serem levados em considerao. As perguntas so preparadas previamente, a fim de gerar insights6 , de acordo com o desejado. uma tcnica importante, pois auxilia a equipe a perceber aspectos especficos, que, em geral, se perdem em um ambiente tradicional de trabalho. Geralmente documentada por gravao de udio e fotografias e, pode ainda, ser filmada. A primeira tcnica, de fato, aplicada plataforma, com o envolvimento dos usurios, foi a de entrevistas conceituais. Nela, foram aplicadas algumas perguntas especficas, que pudessem gerar o conceito da plataforma e, de maneira geral, como estas pessoas enxergavam Beatles e sua obra. As perguntas aplicadas foram as seguintes: 1) Beatlemanaco, f ou apenas admirador? 2) Quando pensas em Beatles (ou ouves suas canes) o que te vem em mente? 3) Sabes dizer como surgiu o interesse pela banda? 4) Consegues identificar um estilo em cada um dos Beatles? Se sim, descreva. 5) Qual o teu Beatle preferido? Por qu? 6) Qual o melhor e pior momento da carreira da banda? 7) Consegues identificar uma mensagem por trs das canes compostas? 6 Segundo o dicionrio Michaelis, Insight significa o poder de discernimento e compreenso das coisas, ou, ainda, o conhecimento intuitivo repentino para a soluo de um problema. 136. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 10 8) Qual a essncia que os Beatles (seja por intermdio de canes, ativismo etc) passam para ti? Dentre as perguntas que se mostraram mais teis, do ponto de vista de aproveitamento de respostas, estavam aquelas que questionavam a essncia e a mensagem principal da banda, alm do interesse pela banda. Por gostar muito de msica bsico conhecer Beatles. (Respondente 1, 2013). A essncia dos Beatles terem sido precursores em diversos aspectos dentro da msica, ento mesmo que a pessoa no goste, ela tem que respeitar porque eles influenciaram muita coisa. (Respondente 1, 2013). (A mensagem geral deles ) All you need is Love. (Respondente 3, 2013). (Como essncia) possvel ter uma obra maior que a obra fsica, no apenas pegar discos, msica. A obra dos Beatles um imaginrio que se constri a partir do que foi criado por eles. Entre uma msica e outra, existe um espao para que a pessoa consiga completar o raciocnio, a mensagem entre as msicas. possvel criar um conceito mltiplo que pode ser expresso por diversas tcnicas, construindo algo que transpassa a materialidade do design, para serem contempladas pelo olhar do espectador. (Respondente 3, 2013). (A mensagem geral deles ) A positividade, a prtica do bem acima de tudo - muitas msicas pregando o amor de forma geral. Revoluo pacfica, pelo ativismo, cartazes, etc. (Respondente 5, 2013). (A mensagem) Depende da fase, comeou como uma brincadeira (reis do iii), depois passaram revoluo. Tiveram uma evoluo conforme o perodo, contracultura, revolucionar a msica, etc. (Respondente 7, 2013). 5.1.3.Customer Journey Maps A Customer Jorney Map refere-se uma visualizao, em forma grfica, da experincia que um usurio percorre em determinado servio. Esta tcnica consiste em acompanhar o caminho traado passo-a-passo pelo usurio para executar uma tarefa pr-determinada. importante para identificar pontos de contato do projeto em que h interao com o sistema, possibilitando a criao de insights no desenvolvimento da prtica, alm de fornecer resultados fiis experincia do usurio, construdos a partir de sua perspectiva. Auxilia, ainda, a perceber o impacto que cada elemento possui para os usurios. 137. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 11 Figura 3 - Customer Journey Map aplicada plataforma (Fonte: Autora) Isto posto, aplicando plataforma, foi desenvolvida a jornada do usurio (figura 3), ou seja, os passos que levariam o usurio at a plataforma, seguido da experincia que ele teria ao acess-la e, por fim, as aes que fariam com que o processo retornasse primeira etapa, transformando-se em um ciclo que pudesse engajar o maior nmero de usurios. 5.1.4.Concept mapping Nesta tcnica possvel apresentar, em forma de diagrama de palavras, as relaes entre conceitos associados a determinado aspecto. Consiste em uma forma de organizar estes conceitos a fim de possibilitar a compreenso de algo. Torna-se til, principalmente, quando necessrio interligar diferentes tpicos em uma soluo sistemtica promovendo a visualizao rpida de seus pontos de interao. 138. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 12 Figura 4 - Concept map aplicada plataforma (Fonte: Autora) Figura 5 - Palavras recorrentes na aplicao da tcnica de mapa conceitual (Fonte: Autora) Nesta primeira etapa, tambm foi aplicada a tcnica chamada de mapa conceitual plataforma de servios. Nela, foram levantadas diversas palavras, com maior ou menor ligao ao universo da banda e, de forma a centralizar a informao foram apontadas as palavras Beatles e Amor (esta ltima, previamente identificada pelas entrevistas conceituais). Aps, foi solicitado que os stakeholders interligassem quelas que possussem conceitos aproximados (figura 4). Da aplicao desta tcnica foi possvel gerar, em forma de palavras, os principais conceitos ligados aos Beatles (figura 5). 5.2.Etapa 2 Definir Na segunda etapa, em que ocorre o fechamento do processo para que seja possvel filtrar os melhores resultados obtidos das tcnicas anteriores, foram estudadas duas tcnicas. So elas (explicadas a seguir): Service Blueprint e Personas. 139. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 13 5.2.1.Buy a feature Nesta etapa ocorre o estreitamento do processo a fim de definir, dos insights levantados, quais ideias sero efetivamente implementadas. Na primeira, a ideia da tcnica a de constatar funes/caractersticas essenciais na viso do usurio. Aqui, ele instigado a comprar apenas aquelas que considera essenciais, deixando de fora do projeto as que no teria dinheiro para adquirir, porm, no so demasiadamente necessrias. Ou seja, esta tcnica est intrinsecamente ligada diferenciao entre preo e valor (explicada anteriormente) e o usurio demonstra isto na prtica, listando os itens que, de fato, possuem valor para si. importante, pois define quais funes (e/ou caractersticas) o projeto dever contemplar na etapa de design visual, no desenvolvimento efetivo. Para a plataforma, foi apresentada uma lista com sete funcionalidades e foi solicitado aos stakeholders enumerassem de maneira crescente as que possuam maior o grau de importncia. Esta tcnica foi aplicada por e-mail, e os resultados entre 3 e 5, entraram na plataforma efetivamente. As funes listadas (sem nenhuma ordem de importncia, ainda) eram as seguintes: - Histria por intermdio de perguntas e envio de imagens: possibilidade de responder a uma sequncia de perguntas relacionadas gostos pessoais, utilizando-se de recursos como fotos, msicas (som e/ou letras) etc. Por fim, gera uma histria relacionada experincia com a banda; - Compartilhar histria (o resultado da ao anterior); - Perfil: nesta funo, tambm por meio de perguntas, o resultado possibilita a identificao com um dos quatro Beatles; - Compartilhar perfil (o resultado da ao anterior); - Galeria de imagens (capturadas por meio dos aplicativos instagram e share the love): esta opo permite a interao com a plataforma, sem necessitar o acesso via desktop; - Compartilhar imagens da galeria (pela opo de compartilhamento de ambos os aplicativos); - Personalizador de foto (share the love): nesta funo seria disponibilizado um determinado nmero de imagens e trechos de msicas para que fosse possvel personalizar e compartilhar em seu mural no facebook ou no mural de um amigo; O resultado desta tcnica possibilitou a definio do peso visual que cada funo teria no layout da plataforma; alm disto, foi possvel verificar que os usurios deram maior importncia para a histria e para o perfil; posteriormente para a galeria. Sendo que, em ambas as funes, foi salientada que a opo de compartilhamento deveria estar presente como forma de reforar as experincias ps-uso da plataforma. 5.2.2.Personas Consiste na identificao de perfil, apontando objetivos, necessidades e demais preferncias de stakeholders. Um grupo bem definido de personas auxiliar no desenvolvimento do projeto levando em considerao os desejos e anseios dos interessados no resultado final. imperativo, no entanto, levar em considerao que as personas no so esteretipos pr-concebidos; ao contrrio, so perfis identificados por intermdio de dados extrados de pesquisas reais realizadas em cuidadosos estudos. Esta uma tcnica mais conhecida e utilizada no apenas no modelo Design Thinking. Identificar personas auxilia a equipe responsvel pelo desenvolvimento de determinado projeto a visualizar quais as caractersticas seu pblico-alvo possui, facilitando assim, a tomada de decises na hora da prtica. 140. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 14 Figura 6 - Personas aplicada plataforma (Fonte: Autora) Colocada em prtica para a plataforma, foi definida pelos trs grupos stakeholders identificados no incio da pesquisa (figura 6) para a aplicao do processo desde sua concepo at as devidas etapas de validao. 5.3.Etapa 3 Desenvolver Na terceira etapa, em que ocorre de forma prtica, o desenvolvimento do projeto e, onde, novamente, ocorre a expanso das ideias, de maneira a levantar o maior nmero de possibilidades de soluo; foram estudadas quatro tcnicas. So elas (explicadas a seguir): Service Blueprint, schematic diagramming, service prototype e design visual. 5.3.1.Service Blueprint Na terceira etapa do processo de desenvolvimento ocorre, novamente, a abertura de ideias para gerao de solues. No entanto, nesta etapa acontece a produo do projeto de forma prtica. Semelhante ao processo de anlise de tarefas de um portal, a tcnica de Service Blueprint consiste em mapear os processos contidos no projeto. importante para especificar como o servio deve funcionar formando um diagrama de navegao de acordo com cada tarefa desempenhada desde o incio de uma experincia at o momento de finalizao (ALT, PINHEIRO, 2011). Utilizando esta tcnica possvel identificar reas essenciais, bem como aquelas com sobreposio de informaes ou, ainda, processos duplicados. Durante esta terceira fase, foi desenvolvido o Service Blueprint (Figura 7) aplicando plataforma e detalhando as tarefas antes mesmo de o usurio iniciar a sua experincia com o servio proposto. Em funo disto, foi possvel identificar quais pontos de contato mereciam uma ateno maior, por serem os que tratam de despertar no usurio o interesse pelo acesso e utilizao das ferramentas da plataforma e quais geravam resultados de maneira a engajar novos usurios. 141. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 15 Figura 7 - Service Blueprint aplicada plataforma (Fonte: Autora) 5.3.2.Schematic Diagramming Esta tcnica trata-se de definir a estrutura e os principais componentes de um sistema. Em Innovating for People (2012) o Instituto Luma a define como "raio-x do esqueleto de seu conceito". Ou seja, a estrutura do servio, do qual todos os componentes dependero e estaro interligados em suas funes e fluxo de funcionamento. Esta tcnica no foca em refinamento de funes, em vez disso ocupa-se de testar as melhores combinaes de caminhos e fluxos entre funes para determinar o sistema ideal. Pode ser utilizada para praticamente qualquer etapa do processo, desde a estruturao de layout, determinao de navegao, sequncia de passos, etc. Sobre a aplicao na plataforma, a tcnica no foi aplicada ao projeto em funo do limitado espao de tempo definido para a segunda etapa da pesquisa e, pelo entendimento, por parte da autora, de que as demais tcnicas do conta de demarcar os aspectos fundamentais da plataforma. 5.3.3.Service prototype Refere-se a uma simulao da experincia que o usurio final ter no servio e desenvolvida por meio dos wireframes do projeto. Os wireframes so utilizados no design de interfaces e tratam-se de uma sequncia de desenhos e esquemas que demonstram diretamente a arquitetura de informao que o objeto possui, seja ele uma interface, pgina web, modelo ou outras peas. Deve mostrar as funcionalidades do projeto, porm sem nenhuma preocupao, ainda, com o design visual. importante para organizar a forma de navegao e tambm para auxiliar no desenvolvimento e nas disposies dos elementos no projeto. 142. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 16 Figura 8 - esquerda, wireframe completo da plataforma; direita, detalhe de primeira pgina (fonte: Autora) Na plataforma, uma vez que a anlise de tarefas j estava definida, com as devidas funes do servio (por intermdio do envolvimento dos usurios em Buy a Feature), foi possvel desenvolver o wireframe nesta etapa, ou seja, foi definida a estrutura, hierarquia, blocos de textos, caixas com contedo, botes e forma de navegao em que o layout seria projetado posteriormente (Figura 8). Foi desenvolvido apenas um wireframe, de forma geral, uma vez que o site possui navegao vertical separando as sesses do menu por assunto. Esta estrutura utilizada na plataforma chamada de layout single-page7 . 5.3.4.Design Visual Aps a definio e os testes com o wireframe finalizado, chegada a etapa de produo do projeto, onde a direo de arte desenvolvida. Com os aspectos funcionais previamente definidos e testados, o caminho para o desenvolvimento visual facilitado e as chances de um servio bem sucedido tornam-se maiores, uma vez que o usurio foi envolvido em todas as etapas, desde o levantamento de insights e brainstorm8 , at os testes de funcionalidade. Na plataforma, foram definidos os detalhes visuais do projeto, tais como paleta de cores, tipografias (e tamanhos utilizados para hierarquizar informaes). Tambm foi estabelecida uma estrutura de trs colunas, sendo que na primeira, o menu com o box com informaes gerais (elementos com posio afixada no topo da pgina) se moveriam conforme a navegao por parte do usurio (figura 9). As demais colunas serviriam para contemplar o contedo de acordo com a estrutura definida. 7 Single-page o layout que possui uma largura fixa (geralmente adaptando-se diversas resolues de monitores, com todas as sesses (que fariam parte das internas do site) em uma mesma pgina, separadas por assunto, sequencialmente. 8Brainstorm, do ingls "brain" (crebro) e "storm" (tempestade), trata do conceito utilizado para definir a atividade, geralmente em grupo, de desenvolver, testar e explorar a capacidade criativa da equipe, a fim de determinar as melhores ideias para produo de um projeto. 143. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 17 Figura 9 - Detalhe do topo da plataforma, com menu e barra de infografia. (fonte: Autora) A plataforma apresenta duas formas de navegao: por meio do menu (conforme acima) ou pela rolagem da pgina, pela barra do navegador ou, mesmo, pelo mouse. Por ambas as opes, possvel retornar ao topo do site a qualquer momento, pois direita, na pgina, acompanha um boto de voltar que posiciona a plataforma no estado inicial de quando acessada pela primeira vez. Como principais funes e, com destaque privilegiado a fim de demonstrar clara e rapidamente a inteno do servio, esto a opo de produzir sua histria por intermdio de etapas pr-definidas pelo servio e, com mesmo peso visual, a de preencher uma srie de perguntas para descobrir qual Beatle o usurio assemelha- se (figura 10). Figura 10 - Detalhe das funes "Beatlestoria" e "Eu sou o..." (Fonte: Autora) 144. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 18 Figura 11 - Telas do aplicativo Share The Love (Fonte: Autora) Foi desenvolvido, ainda, um aplicativo (Figura 11) que funciona de forma semelhante aos aplicativos mais utilizados para captura de imagem. Nele, o usurio tem a possibilidade de tirar fotos e enviar, diretamente, para a galeria Share The Love, contemplada na plataforma. Alm do envio, possvel acompanhar as imagens que constam nesta galeria, enviadas por todos os usurios. O aplicativo possibilita a interao com o servio, mesmo que o usurio no esteja na frente de um computador; mais uma forma de aproximao com as pessoas. 5.4.Etapa 4 Entregar Por fim, na etapa final, onde ocorre a finalizao e entrega do servio (produto ou negcio) projetado, foram estudadas duas tcnicas de validao (nesta etapa, ocorre, novamente, o afunilamento das ideias, de forma a identificar a melhor soluo projetada). So elas (explicadas a seguir): Pesquisa qualitativa e quick reference guide. 5.4.1.Pesquisa qualitativa A pesquisa qualitativa possui um carter exploratrio medida que estimula os usurios a pensarem e responderem de maneira livre sobre determinado assunto. No prev um alto nmero de respostas, pois geralmente realizada com poucos entrevistados. Considerada subjetiva, esta pesquisa gera feedback sobre o servio desenvolvido e possibilita a percepo que o f possui ao acessar e utilizar a plataforma proposta. Na plataforma, foi realizada a pesquisa qualitativa com alguns dos stakeholders identificados no incio deste estudo. Sem muitas pr-definies e guias para navegao, foi solicitado que os usurios demonstrassem suas primeiras impresses ao se depararem com a plataforma; em termos de layout e, principalmente, de navegao. Apesar de subjetividade desta tcnica, os resultados gerais mostraram que os usurios expressaram sentimentos positivos em relao ao projeto desenvolvido. Algumas solicitaes como a melhora no contraste dos textos e disponibilizao em forma de cones (no topo da pgina) foram incorporadas ao projeto final. 145. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 19 5.4.2.Quick Reference Guide Trata-se de um documento que rene princpios fundamentais e demais aspectos relevantes da soluo desenvolvida. Pode ser entendido como um livro de regras tanto da parte funcional quanto visual e garante que a ideia original do projeto seja mantida. necessria para que, aqueles que no esto familiarizados com a ideia ou no participaram do processo desde o incio, possam obter informaes precisas para prosseguir com o projeto, caso seja necessrio, sem prejudic-lo. Alm de possibilitar ao pblico, que ainda no conhece o que acabara de ser desenvolvido, um melhor entendimento do funcionamento e do conceito da soluo adotada. a documentao do projeto. Por fim, na plataforma, de maneira a padronizar o projeto e garantir que seja preservada sua estrutura inicial e os testes realizados, foram desenvolvidos templates9 com as tcnicas estudadas e aplicadas. 6. Concluso Ao final desta pesquisa pde ser validada a utilizao do Design Thinking como ferramenta para o desenvolvimento de inovao, sobretudo, dentro da rea do design. Foi possvel perceber que o Design Thinking no segue uma sequncia linear de pensamento e execuo, uma vez que rene e agrega diversas tcnicas j estudadas e conhecidas dentro da rea do design; porm, o modelo possui uma semelhana com nossa realidade de cibercultura e mobilidade, o que refora sua utilidade como modelo de pensamento a ser aplicado em quantos mais projetos forem possveis. Foi possvel constatar, dos resultados obtidos pela consulta aos usurios stakeholders, que o modelo de Design Thinking agregou valor, no apenas ao produto final, mas ao processo de forma geral. Portanto, a documentao levantada a partir das tcnicas estudadas, tornou-se parte importante da pesquisa, uma vez que contribui com referencial terico para a rea do design e aponta caminhos para a utilizao do Design Thinking em outros projetos de design. Referncias ADLER, Isabel; LUCENA, Brenda; RUSSO, Beatriz; VIANA, Maurcio; VIANA, Yasmar. DESIGN THINKING Inovao em negcios. Rio de Janeiro: MJV Press, 2011. ALT, Luis; PINHEIRO, Tennyson. Design Thinking Brasil. Rio de Janeiro: Editora Campus, 2011. BROWN, Tim. Design Thinking: uma Metodologia Poderosa para Decretar o Fim das Velhas Ideias. Editora Elsevier. 2010. Consultoria Design Thinking by MJV. Disponvel em: Acesso em: 27/06/2013. DESIGN COUNCIL. Disponvel em: Acesso em: 14/04/2013. 9 Template um modelo padro de documento, adaptado para vrias mdias 146. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 20 Design for Service - Research, patterns and observation. Disponvel em: Acesso em: 27/06/2013. FLUSSER, Vilm. O mundo codificado: Por uma filosofia do design e da comunicao. So Paulo: Cosac Naify, 2007. LEMOS, Andr. Cultura da mobilidade. Porto Alegre: Revista FAMECOS. n. 40. 2009. p.28-35, 2004. LVY, Pierre. Cibercultura. So Paulo: Ed. 34, 1999. LUMA Institute. Disponvel em: . Acesso em: 10/06/2013. LUMA INSTITUTE. Innovating for People: Handbook of Human-Centered Design Methods. Luma Institute, 2012. OLIVEIRA, Larissa Barbosa. Design, moda e redes sociais: O consumo colaborativo como suporte ao desenvolvimento de um aplicativo mvel para o site Fashiolista. Trabalho de Concluso de Curso Universidade Federal de Pelotas, 2012. O que Design Thinking? Entrevista com Lgia Fascioni. Disponvel em: Acesso em: 10/06/2013. PINHEIRO, Mauro; SPYTZ, Rejane. Feira Moderna: O design de interao em Ambientes de ubiquidade computacional. Disponvel em: Acesso em: 20/06/2013. RECUERO, Raquel. Redes sociais na internet. Porto Alegre, Editora Meridional LTDA., 2009. SCHNEIDER, Jakob; STICKDORN, Marc. This is Service Design Thinking. New Jersey: John Wiley & Sons, Inc, 2011. 147. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design Vol. 3 no 1 janeiro de 2014, So Paulo: Centro Universitrio Senac ISSN 2179474 X 2014 todos os direitos reservados - reproduo total ou parcial permitida, desde que citada a fonte portal de revistas cientficas do Centro Universitrio Senac: http://www.revistas.sp.senac.br e-mail: revistaic@sp.senac.br Eva Zeisel: cermica de produo em massa Eva Zeisel: ceramic in mass production Tamylin Yukie Shimabukuro, Myrna de Arruda Nascimento - Senac Arquitetura e Design Tamy07@gmail.com, myrnanas@gmail.com Resumo. Este projeto de Iniciao Cientfica estudou a produo de Eva Zeisel, designer industrial, ceramista e a primeira mulher a tornar a produo da cermica contempornea numa produo de massa. Suas obras so orgnicas, muitas vezes feitas propondo um conjunto de peas concebido de maneira modular sugerindo que as mesmas possam resultar em melhor ocupao do espao, quando guardadas. Por meio deste trabalho busca-se compreender o papel da experimentao dentro do processo de relaes que se estabelece entre arte e tcnica, entendendo que o mtodo experimental, enquanto mtodo cientfico, promove processos cognitivos e pode amparar a produo de conhecimento sobre Design, tendo como referncia inicial, neste caso, a produo de Eva Zeisel.Com base nas imagens de produo desta designer foram feitos estudos para futuros objetos, preservando os princpios criativos por ela adotados. Palavras-chave: cermica, olaria, Eva Zeisel. Abstract. This Scientific Initiation project studied the production of Eva Zeisel, industrial designer, potter and the first woman to make the contemporary production of ceramics in mass production. Her works are organic, often made by proposing a set of pieces designed in a modular way suggesting that they may result in better use of space when stored.Through this work we tried to understand the role of experimentation in the process of relations established between art and technique, understanding that the experimental method, while a scientific method, promotes cognitive processes and may bolster the production of knowledge about design, having as a initial reference, in this case, the production of Eva Zeisel.Based on the images of this designer production for future studies, we made objects, preserving the creative principles adopted by it. Key words: ceramics, pottery, Eva Zeisel 148. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 2 1. Introduo Eva Zeisel foi uma designer industrial e ceramista com trabalhos importantes expostos em museus de arte. Para ela o design e a criao estavam bastante conectados com o seu modo de levar a vida e isso era expresso em suas obras e em seu modo de produo. Ela trabalhou com papel, madeira, plstico, fotografias, seu trabalho se caracteriza por ser feito manualmente, uma conexo emocional direta com o seu produto, algo bastante coerente com o trabalho que pode ser alcanado com a cermica. 2. Objetivo da pesquisa O projeto estudou os mtodos e conceitos de Eva Zeisel na produo de seus conjuntos de mesa, assim como o processo da cermica de forma geral, os diferentes tipos de argila e processos de produo. A pesquisa explorou os processos produtivos de Zeisel atravs da produo de modelos e sugeriu novos produtos que adotam o mesmo princpio conceitual desta designer. 3. Metodologia Os mtodos de pesquisa utilizados foram pesquisa terica, documental e emprica, enfatizando as atividades de laboratrio e a aquisio de conhecimento atravs da experimentao. A metodologia aplicada a essa pesquisa props as seguintes etapas: levantamento bibliogrfico; estudo de aspectos terico-conceituais relacionados a arte e tcnica; levantamento iconogrfico de exemplos que possibilitaram o estudo de conceitos e mtodos produtivos da designer; levantamento e estudo de fatores histrico/culturais relevantes para o desenvolvimento da obra da mesma; organizao dos exemplos selecionados em vista das abordagens tericas e dos parmetros de analise selecionados; redao de pressupostos tericos e dos critrios adotados para organizao e estudo do material levantado; elaborao de ensaios tendo em mente o estudo do material levantado e edio final da pesquisa. 4. Resultados e discusso A primeira pea realizada foi um saleiro, isto porque ao analisar as peas de Eva Zeisel, a maioria delas possui caracterstica de ser feita no torno, pois so simtricas e arredondadas, entretanto o saleiro apresenta uma forma mais semelhante a uma escultura. Para se trabalhar com o torno, deve-se ter uma intimidade com a modelagem e o trabalho com a argila, ao mesmo tempo em que se deve saber mexer no equipamento, controlar a sua velocidade, a quantidade de gua, o ponto da argila, e at mesmo os movimentos da mo e do corpo para se chegar forma idealizada. Ao se optar por uma escultura se trabalhou com as tcnicas de modelagem bsicas e de forma mais manual e direta, sentindo a pea e sem ter a interferncia de ter que dominar as tcnicas de uma ferramenta que possui o seu prprio ritmo. Esta escolha se aproximou aos conceitos de Eva, pois para ela o design um ato de generosidade e no uma ferramenta didtica (YOUNG, 2003). Everything I do is a direct creation of my hands, whether it is made in Wood, plaster, or Clay (Eva Zeisel) 149. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 3 Ao entender o processo e a forma do saleiro de Eva, iniciou-se a produo do mesmo formato, porm em maior proporo, com a finalidade de aprimorar os conhecimentos em modelagem com argila, reproduzir a forma de Zeisel, e construir uma luminria. A ideia da luminria surgiu ao conhecer o trabalho de fotografia de Eva Zeisel. Ela passou a fazer as fotografias de suas peas para os anncios que os vendedores utilizariam. Ela gostava de brincar com as sombras, para que as formas se destacassem e mostrasse a relao entre os objetos (YOUNG, 2003). I hardly ever photographed one thing alone"(Eva Zeisel) Como resultado obteve-se um saleiro de formato semelhante ao de Eva Zeisel, por no se ter o objeto original para reproduzir um modelo de estudo, portanto, no foi possvel ver o objeto por todos os ngulos e ter ideia das suas dimenses originais. Para se chegar a uma forma mais fiel seriam necessrias mais tentativas, e deixar a parte inferior do objeto um pouco menos arredondada. Alm disso, deveria ser feito mais de uma pea com pequenas variaes, para se formar um pequeno conjunto. Como efeito a ser explorado na apresentao tambm poderia ter usado o efeito da sombra na imagem fotografada. 5. Concluso A pesquisa foi importante, primeiramente, para se conhecer o vasto mundo da cermica, suas vrias possibilidades de uso e as muitas variaes de massas, tcnicas de modelagem, acabamentos e uso do material. Percebeu-se dificuldade em achar materiais que explicam sobre as tcnicas, as variedades de argila encontradas e o processo de transformao de maneira geral, sendo assim muito do conhecimento necessrio para a produo desta pesquisa foi adquirido por meio do curso particular e de maneira experimental, na base de tentativa e erro. Eva Zeisel foi uma mulher aparentemente adiantada para a sua poca, sendo independente, viajando sozinha mesmo sendo casada e com filhos. Renunciou ficar com sua famlia para frequentar fbricas de diferentes lugares fazendo a sua produo. Nem todas as peas concebidas por ela foram de fato produzidas, mas nem por isso ela deixou de pesquisar e criar. Ao observar seus objetos, observa-se que eles so bastante atuais, por terem formatos orgnicos, em sintonia com referncias naturais e espontneas, mesmo sendo feitos no sculo passado. Apesar de ser uma artista que trabalhou durante muitos anos e teve muitos objetos produzidos, mesmo tendo uma exposio no Moma Museum of Modern Art em seu currculo, no h muitas publicaes a seu respeito e constatei que poucas pessoas a conheciam. Ao realizar este trabalho pude tambm, alm de conhecer a artista, divulgar aspectos de suas obras significativos para o estudo do Design como rea de pesquisa e produo de conhecimento sobre iniciativas inovadoras, embora discretas. 150. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 4 Figura 1 e 2: Reproduo do saleiro de Eva Zeisel, j brunida, pronta para queima final. Referncias DESIGN LINES. A closer look: Eva Zeisel on design. Disponvel em: Acesso em: 15/06/2013. ZEISEL, Eva. On design: the magic language of things. London: overlook Duckworth, 2004. YOUNG, Lucie. Eva Zeisel. San Francisco: Chronicle Books LLC, 2003. 151. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design Vol. 3 no 1 janeiro de 2014, So Paulo: Centro Universitrio Senac ISSN 2179474 X 2014 todos os direitos reservados - reproduo total ou parcial permitida, desde que citada a fonte portal de revistas cientficas do Centro Universitrio Senac: http://www.revistas.sp.senac.br e-mail: revistaic@sp.senac.br O estudo do processo produtivo atravs de experimentaes para a produo em massa: a obra de Charles e Ray Eames. The study of the production process through trials for mass production: the work of Charles and Ray Eames. Mariana Hayashi Ikegami, Myrna de Arruda Nascimento. Centro Universitrio SENAC Bacharelado em Desenho Industrial Mariana.hikegami@gmail.com, Myrna.anascimento@sp.senac.br Resumo. Este projeto de Iniciao Cientfica estudou obra de dois autores, arquitetos e designers, Charles e Ray Eames, cuja produo inaugurou novos paradigmas para o mobilirio e para o projeto de espaos, assim caracterizando-se como profissionais inovadores. A produo destes arquitetos/designers apresenta uma srie de resultados decorrentes de experimentaes desenvolvidas sobre materiais especficos, tcnicas particulares, ou mesmo procedimentos criativos pouco convencionais. Atravs desta pesquisa foi possvel compreender o papel da experimentao nas relaes que estabeleceram entre material, forma e espacialidade, entendendo que o mtodo experimental uma forma de, cientificamente, alimentar processos cognitivos e amparar a produo de conhecimentos da pesquisa nas reas da Arquitetura e Design. Palavras-chave: arquitetura, design, Charles e Ray Eames, material e espacialidade. Abstract. This Scientific Initiation project studied the work of two authors, architects and designers, Charles and Ray Eames, whose production began offering new paradigms for the furniture and design spaces as well characterized as innovators. The production of these architects / designers presents a series of results arising from trials carried out on specific materials, particular techniques, or even unconventional creative procedures. Through this research it was possible to understand the role of experimentation in the relations established between material, form and spatiality, understanding that the experimental method is a way to scientifically feed cognitive processes and sustain the production of knowledge from research in the areas of Architecture and Design . Key words: architecture, design, Charles and Ray Eames, material and spatiality. 152. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 2 1. Introduo Este artigo relata e associa fatores histricos sobre a obra de um casal norte americano, Charles e Ray Eames, que atravs de novos mtodos de produo obtiveram resultados e ideias diferenciadas em relao s tendncias existentes por volta de 1940. Dados foram levantados, analisados e discutidos com a finalidade de compreender o processo criativo de produo aliado ao material, forma e espacialidade, com o intuito de transformar a pesquisa em um processo cognitivo atravs do experimentar, no caso, a madeira compensada, finalizando a pesquisa atravs de um objeto de estudo que representasse o que foi pesquisado e assimilado no seu decorrer. Podendo afirmar no final desta pesquisa que nada ocorre como se fosse predestinado a, mas sim, na decorrncia de fatores externos e internos que envolvem o mundo complexo que a cada dia existe a tentativa de simplific-lo. 2. Metodologia Os mtodos de pesquisa utilizados foram pesquisa terica sobre obras e autores que discutem iniciativas de projeto e produtos resultantes da experimentao, tomando como referncia a produo dos arquitetos-designers Charles e Ray Eames, e documental e emprica, com o intuito de promover a aquisio de conhecimento atravs da experimentao. A metodologia aplicada a essa pesquisa desenvolveu-se nas seguintes etapas: levantamento iconogrfico de exemplos atravs dos quais se estudaram e identificaram- se parmetros de anlise possveis sobre a obra de Charles e Ray Eames; organizao dos exemplos segundo critrios que priorizaram as tcnicas utilizadas, o tipo de material empregado, as solues estruturais experimentadas e o tipo de resultado formal obtido; redao dos pressupostos tericos adotados e dos critrios para organizao e estudo do material levantado; anlise, comparao e interpretao dos dados levantados pela pesquisa a partir dos critrios e dos exemplos selecionados; e, por fim, redao das concluses, edio final do material produzido e redao da pesquisa. 3. Objetivos Essa pesquisa objetivou estudar os conceitos que associam material, forma e espacialidade no mbito da produo de mobilirio, inserido no projeto de espaos dos arquitetos e designers Charles e Ray Eames. O objetivo de compreender o papel da experimentao, dentro do processo de relaes que se estabelecem entre material, forma e espacialidade, foi atingido, uma vez que foi atravs do mtodo experimental se discutiu processos cognitivos e a produo de conhecimento na rea do Design e da Arquitetura. A pesquisa inaugurou caminhos que geraram uma pea de mobilirio, a partir da compreenso do processo de criao e das experimentaes desenvolvidos pelos designers Charles e Ray Eames. 4. Resultados e discusso Inicialmente foi pesquisado duas obras: The Eames: The work of the office of Charles and Ray Eames (1989) e Charles and Ray Eames (2000) com a finalidade de definir as caractersticas marcantes e o processo de produo dos principais produtos do casal. Teve foco principalmente no processo de produo das cadeiras por representarem os objetos que mais foram explorados pelo casal em termos de inovao (diversos materiais foram testados por eles), nesta fase do trabalho houve uma organizao de 153. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 3 exemplos de produo dos profissionais documentados na forma de modelos ou produtos finalizados, em vrias publicaes, destacando distintos processos empregados pelos designers arquitetos Eames ao longo de seu trabalho. Figura 1. As cadeiras produzidas pelo casal Eames e os processos e/ou matrias distintos de cada uma delas. O casal Eames dava grande importncia para que a expresso da forma fosse direta e honesta, ou seja, direta, pois o design para eles era a pura expresso do propsito do objeto a ser elaborado sem possveis desvios, e honesta pelo fato do produto ser a pura expresso do processo de moldagem, sem estofados ou adornos. Kazam! Uma mquina desenvolvida pelo casal em 1941 que servia para grudar finas camadas de madeira uma a outra possibilitando moldar curvas em trs dimenses, inaugurando um momento muito profcuo na atividade profissional dos Eames. Feita a partir de tiras de madeiras aparafusadas para que pudessem resistir altas presses para a concepo da madeira compensada, durante o processo de moldar objetos, a mquina dava condies para que as finas camadas de madeiras fossem revestidas com cola e colocadas uma sobre a outra com o sentido das fibras alternadas, com a finalidade de dar a madeira mais estruturao no final do processo. Estas tiras eram postas contra um molde de gesso, localizado na base da mquina, e uma membrana inflvel era colocada sobre as camadas de madeira. Logo foi instalado pelo casal, um dispositivo que permitiu inflar a membrana com uma bomba de bicicleta, at os laminados serem pressionados contra o molde de gesso. Nesse dispositivo, elementos de calor foram incorporados no molde de cermica para a secagem da cola. O ar era bombeado dentro da membrana regularmente para manter o nvel de presso necessrio at a cola ficar definida. Quando a presso era liberada e o assento formado removido, eram executados acabamentos manuais simples como o corte, de acordo com a forma desejada, e o lixamento. 154. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 4 Figura 3 mquina Kazam aberta. O casal continuou a aperfeioar a mquina de moldar madeira laminada e entre 1941 e 1942 gerou a primeira escultura de madeira compensada, possibilitando a variao de camadas finas de madeira, alm de curvas mais complexas dentro do molde. Figura 3 Escultura com curvas compostas. Uma grande preocupao do casal, alm de respeitar as propriedades do material, era a questo de fazer objetos acessveis a todos, com um baixo custo e uma boa qualidade. 155. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 5 Uma caracterstica afinada com a conceituao da Bauhaus, que tinha como objetivo formar pessoas que soubessem explorar novos mtodos de produo, experimentar coisas novas, aliado tecnologia para resultar em um produto barato, mas ao mesmo tempo bem desenhado e produzido. A palavra design para o casal vem representar uma forma de ao e no um mero substantivo. Assim, a partir de 1945 vrias experimentaes em relao s cadeiras foram realizadas com os equipamentos desenvolvidos durante a guerra, utilizando tanto a madeira quanto o metal. Foi um perodo de experimentaes que serviu para um aperfeioamento da mquina Kazam, tornando-a mais eficiente em relao ao processo produtivo, tempo, alm de usufruir de novas tecnologias. Neste perodo, muitos designers passam as criar vrias possibilidades de produtos com o mesmo material, incentivando a importncia do experimentar, alm de uma simplicidade construtiva (fabricao) e montagem de produtos atravs de partes desmembradas. Projetar para o casal Eames aliar cincia com arte, projetar com brincar (jogar) e artesanal com industrial. Uma chave que define o trabalho da dupla. Madeira compensada Dentre os diversos materiais que o casal Eames utilizou, a madeira compensada foi a que apresentou, no meu ponto de vista, melhores condies a ser explorada em relao infraestrutura disponvel para a experimentao, e tambm h a questo da importncia do interessante contraste deste mundo sinttico que presenciamos nos dias atuais com a expresso natural que a madeira, os seus veios, podem causar. um processo que alia arte e tecnologia, que possibilita uma experincia de explorar o processo em si e melhorar a essncia em relao textura, fibra, imperfeies naturais, simplicidade e honestidade. O processo para obter a madeira compensada no algo novo, porque aproximadamente mil anos atrs os egpcios j utilizavam essa tcnica para produo de artefatos. Ela era e ainda continua sendo utilizada com a finalidade de otimizao de materiais raros e para fins decorativos, e deu continuidade ao seu aprimoramento com o desenvolvimento de equipamentos, como o cortador rotativo de laminados e placas hidrulicas quente de presso, e o desenvolvimento de colas e resinas. A madeira compensada composta por finas folhas de madeira e cola. O processo consiste em folhear, laminar a madeira e cruzar as fibras das folhas. Experimentaes As experincias para obter a madeira compensada, descritas em etapas, foram realizadas atravs de trocas de informaes tanto com o professor responsvel pela oficina do SENAC como com os tcnicos, que com seu amplo conhecimento em materiais relacionados madeira deram suporte (informaes) para a atividade de experimentao. 1 etapa: obteno de informaes relacionadas produo da placa de madeira compensada e a produo de uma pea atravs de referncias, como livros e vdeos da internet. Essa etapa ofereceu uma base em relao de como os moldes, macho e fmea, devem ser pensados na hora de projetar o produto, de tal forma que uma angulao de 2,5 (ou mais) seja um fator obrigatrio para que o objeto deste possa ser retirado. 2 etapa: coleta de informaes que deram suporte para o incio das experimentaes, informaes fornecidas pelos tcnicos, Loureno e Antnio, e pelo professor responsvel 156. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 6 pela oficina, Adriano. Eles explicaram que a madeira compensada recebe este nome pelo fato de que uma folha, quando sobreposta com as fibras perpendiculares uma a outra, existe uma compensao entre elas de forma que garante estabilidade e resistncia, evitando que a madeira fique curvada de forma no prevista, aps o processo. Explicaram tambm a existncia de dois tipos de folhas, a laminada e a descascada. A folha laminada serve para dar acabamento, so as folhas que ficam localizadas na parte exterior do compensado, na maioria dos casos. E a folha descascada mais utilizada na parte interna, representa estruturao do compensado, sua folha possui uma espessura maior do que as laminadas que so extremamente finas. 3 etapa: houve uma pesquisa na Rua do Gasmetro (So Paulo) para a compra das folhas de madeira, uma vez que o melhor lugar para este tipo de material. Foi encontrada a Madeireira Rume que apresentou uma realidade at ento confusa, pelo fato da existncia de vrias folhas de madeiras de diversas dimenses, cores e textura, e a falta de algum que pudesse oferecer alguma especificao dos materiais disponveis. Na madeireira havia vrios tipos de madeira laminada, importados e nacionais, porm em relao aos descascados somente dois foram encontrados, a folha de marfim e de pinho. 4 etapa: produo do compensado. Inicialmente as folhas de madeira foram cortadas 50 cm x 10 cm, tanto com as fibras na horizontal quanto na vertical, e placas de madeira foram encapadas com plstico, uma vez que a cola utilizada no gruda neste tipo de material, para servir como molde para fazer a placa de madeira compensada. Figura 4 Folhas de marfim cortadas na vertival e horizontal. 5 etapa: depois de realizar as placas de compensado elas foram posicionadas em uma compressora, que com o auxlio do software Dyna View foi possvel medir a fora de um apoio de trinta e dois milmetros de dimetro no centro da placa. Atravs desse software e da mquina foi possvel determinar aproximadamente o momento plstico e o momento de quebra da madeira, ou seja, momento plstico quando depois de 157. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 7 pressionada consegue voltar estrutura inicial sem danos, e momento de quebra quando a pea no consegue voltar estrutura inicial, comea a ficar curva. Figura 5 Compressora utilizada para medir a presso A partir da experincia, foi possvel selecionar o resultado mais prximo do fim do momento plstico de cada material, podendo calcular a presso exercida em cada elemento. Este procedimento teve a finalidade de criar uma tabela que serviu e serve como base para escolha apropriada do material dependendo da resistncia que o produto necessita. Tabela 1 - Resultados obtidos atravs dos ensaios Tipo de folha Quantidade Espessura - mm Fora - kg (apoio de 32 mm de dimetro) Presso kg/cm MARFIM 3 3.0 25.00 3.11 MARFIM 5 8.0 69.80 8.69 PINHO 5 4.0 39.60 9.93 PINHO 7 7.0 66.30 8.25 BTULA 5 2.8 7.46 0.92 CURUPICHA 5 2.5 6.00 0.74 CEREJEIRA 5 3.0 7.72 0.96 6 etapa: a partir das informaes assimiladas um estudo de formas foi realizado sem o intuito de determinar o que seria, mas sim analisar as possibilidades existentes de como obt-las. O estudo das possibilidades de formas foi realizado atravs de placas 158. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 8 de plstico que esquentadas com um soprador trmico deixava de ser uma simples placa para se tornar um volume. No fora realizado com a prpria madeira laminada pelo fato de que para criar o molde demoraria muito tempo fora a secagem da pea que seria de um dia para o outro. Figura 6 Modelo selecionado para ser utilizado como referncia para a pea a ser produzida com a madeira compensada. Aps o estudo, o modelo elaborado aparentemente com vrias tiras foi escolhido pelos aspectos que possibilitaria ser utilizado de formas diferentes dependendo de uma necessidade ou ponto de vista do usurio. 6 etapa: atravs do modelo de referncia foi projetado um mobilirio semelhante, porm com algumas modificaes tendo em mente alguns fatores que no possibilitariam a moldagem do objeto e questes estticas. Figura 7 Estudo do modelo. O modelo final resultou em um objeto de estudo com uma angulao de 3graus nas estruturas laterais, para que durante o processo a pea consiga sair do molde. As tiras que so curvadas na altura dos trinta centmetros so finalizadas com uma curva de dimetro de cinquenta centmetros finalizando junto com as tiras mais compridas, alm de dar um toque mais orgnico pea. 159. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 9 Figura 8 Imagem do objeto de estudo renderizado. O material escolhido para confeccionar a pea foi a folha de pinho com sete camadas, pois essa folha possui dimenses mais confortveis para a produo deste mobilirio sem ter a necessidade de criar emendas em todas as camadas, alm de ter uma resistncia adequada ao tipo de estruturao. Figura 9 Desenho tcnico do objeto de estudo. 160. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 10 5. Concluso A partir desta pesquisa possvel afirmar que as coisas no acontecem por acaso em um projeto ou na decorrncia de fatos histricos. Tudo o que acontece pelo fato de alguma necessidade em um todo. Uma necessidade que est em constante transformao. O casal Eames no foge dessa regra, pois se no fosse quebra da bolsa de Nova York, ou mesmo a existncia da guerra eles no teriam traado este percurso, talvez Charles nem chegasse a produzir mobilirios, muito menos participado de concursos. As cadeiras dos Eames so conhecidas como biomorfos, estruturas que possuem traos orgnicos, sinuosos sem remeter a uma criatura da natureza em especfico. Tal forma foi concebida com a finalidade de mostrar o confortvel sem a utilizao de adornos, um confortvel que denominamos de ergonomia nos dias atuais. J em relao ao processo de experimentao vlido mencionar que o aprendizado no est somente no crescimento individual e no conhecimento adquirido sobre a matria prima estudada, e sim, no ambiente em que a pesquisa insere o pesquisador, numa realidade desconhecida at ento, uma realidade que envolve pessoas, lugares e condies que compartilham novas informaes e vice versa. Referncias Bent plywood in 7 easy steps. Disponvel em: http://www.youtube.com/watch?v=TXAeLwJ8fcw Acesso em: 31 outubro 2012 BURDEK, Bernhard E.; CAMP, Freddy Van. Design: histria, teoria e prtica do design de produtos. So Paulo: Edgard Blcher, 2006. HANDLER, Kaitlin. Molded plastic chairs. Disponvel em: http://eamesdesigns.com/library- entry/molded-plastic-chairs/> Acesso em 28 novembro 2012 How to built na Eames shell chair. Disponvel em: http://www.youtube.com/watch?v=PIlTtXrgA0c&feature=related. Acesso em: 31 outubro 2012 How to make routing templates. Disponvel em: http://www.youtube.com/watch?v=C45Fff_F3f4 Acesso em: 28 novembro 2012 MORAES, Dijon de (Autor). Limites do design. 3. ed. rev. ampl. So Paulo: Studio Nobel, 2008. MUNARI, Bruno. A arte como ofcio. 4 ed. So Paulo: Editorial Presena,1993 NEUHART, John; NEUHART, Marilyu; EAMES, Ray. Eames design: the work of the Office of Charles and Ray Eames.New York: Harry N. Abrams, 1989. NGO, Dung; PFEIFFER, Eric. Bent ply. Prinenton architectural press, New York, 2003. STUNGO, Naomi. Frank Lloyd Wright. So Paulo: Cosac & Naify, 2000. STUNGO, Naomi; MACHADO, Luciano.Charles e Ray Eames. So Paulo: Cosac & Naify, 2001. 161. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 11 TAMBINI, Michael; MARTINS, Claudia Sant'Ana. O design do sculo. 2. ed. So Paulo: tica, 2004. Imagens Figura 1 - Acervo pessoal Figura 2 - NEUHART, John; NEUHART, Marilyu; EAMES, Ray. Eames design: the work of the Office of Charles and Ray Eames.New York: Harry N. Abrams, 1989. Pg.26 Figura 3 - NEUHART, John; NEUHART, Marilyu; EAMES, Ray. Eames design: the work of the Office of Charles and Ray Eames.New York: Harry N. Abrams, 1989. Pg.39 Figura 4 - Acervo pessoal Figura 5 - Acervo pessoal Figura 6 - Acervo pessoal Figura 7 - Acervo pessoal Figura 8 - Acervo pessoal Figura 9 - Acervo pessoal 162. 1 Iniciao Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica Vol. 3 n 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design Edward mos de tesoura: a construo do estranho num filme de Tim Burton. Edward Scissorhands: the construction of the weird in a Tim Burtons movie. Milena Aparecida Reinck de Azevedo Universidade Federal de Juiz de Fora UFJF Instituto de Artes e Design Bacharelado em Cinema e Audiovisual minareinck@hotmail.com Resumo O objetivo desse trabalho fazer uma anlise do personagem Edward de Edward mos de tesoura (1990, Tim Burton) quanto sua construo, estudando sua caracterizao como um personagem estranho tanto numa noo de dramaturgia como em seu trabalho de mise-en-scne, e como essa estranheza se d em seu universo social flmico. Para isso, usaremos alguns pontos relativos dramaturgia, alm de relacionar o trabalho do diretor num todo, seu traos especficos, suas temticas e suas referncias estilsticas. Palavras-chave: Construo de personagem, Tim Burton, Edward mos de tesoura. Abstract The aim of this study is to analyze the character Edward of Edward Scissorhands (1990, Tim Burton) as to its construction, studying its characterization as a character in both odd sense of drama in his work as mise-en-scne, and how that oddity occurs on your social filmic universe. For this, we use a few points concerning the dramaturgy, and relate the director's work as a whole, their specific traits, its themes and its stylistic references. Key-words: Character construction, Tim Burton, Edward scissorhands. 163. 2 Iniciao Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica Vol. 3 n 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 1. Introduo What appealed to me was the idea of trying to tell a fairy tale in the classic sense but making it feels like an examination of those themes. (WOODS, 2007, p. 59). A construo do personagem um fator de influncia para a narrativa flmica, cada personagem carrega consigo traos de uma histria de vida, seus medos e suas vontades se tornam conhecidos e sobretudo suas vontades - influenciam nos acontecimentos ao longo do filme. Ainda que no se coloque no roteiro e que no sejam explicitados no filme todas as informaes acerca do personagem, essas informaes so necessrias para um processo mais adequado de composio do mesmo em outros setores. Assim, diretor e outros membros de equipe tcnica, e principalmente o setor de preparao de ator, esto sempre cientes de todos os elementos essenciais que o personagem contm. Cabe ao diretor e sua equipe de preparao junto com o ator - moldar o personagem da melhor forma possvel para o filme, isso inclui pensar em acontecimentos pregressos ao filme que influenciaram o personagem, ou seja, seu histrico de aes anteriores ao filme que delinearam seu modo de pensar e agir. Vemos em Renata Pallottini: (...) personagem pessoa imaginria; para a sua construo, o autor rene e seleciona traos distintivos do ser ou de seres humano, traos que definam e delineiem um ser ficcional, adequado aos propsitos de seu criador. (Pallottini, 1989, p. 11) So essas aes que movem a narrativa, a partir das vontades dos personagens e da busca por alcanar seus objetivos que a narrativa evolui, criam-se conflitos, resolues, aes seguintes, desfecho. Essa concepo de construo de personagem, de desenvolvimento de interpretao do ator, vem de um modo de representao vindo do teatro do incio do sculo XX, do chamado Sistema Stanislavski, desenvolvido pelo teatrlogo russo Constantin Stanislavski. 164. 3 Iniciao Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica Vol. 3 n 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design Ao mesmo tempo emprico e pragmtico, Stanislavski inventa todo tipo de tcnicas de treinamento do ator. Todas tm um objetivo comum: eliminar o formalismo e a mecanizao da representao, romper com as rotinas, aniquilar os esteretipos. A seus olhos, no h interpretao digna desse nome seno irradiada por uma intensa vida interior. (ROUBINE, 2003, p. 117) Um sistema mais naturalista de representao, onde nenhum detalhe pode ser desprezado para a construo do personagem, tudo tem um potencial emocional a ser explorado, um poder de sugesto; o contato do ator com qualquer elemento que possa ser incorporado a essncia do personagem de fundamental importncia para que se construa uma memria afetiva do mesmo. Alm disso, o prprio ator pode contribuir para o processo de composio com suas experincias pessoais mais relevantes a situao do personagem. A isso Stanislavski chamava de reviver, oposto ao termo representar. Como vemos em Jean-Jacques Roubine: O reviver, em sua terminologia, a anttese do representar. O ator que "representa" se limita a utilizar formas batidas, convencionais dos esteretipos. O reviver, ao contrrio, o encontro de uma dada situao dramtica e do passado ntimo do ator. Este se apropria totalmente da situao proposta pelo autor articulando-a a uma experincia vivida idntica ou homloga. (ROUBINE, 2003, p. 118) Temos outra vertente, que assume uma postura de distanciamento dramtico, difundida por Bertold Bretch. Nesse caso, a construo de personagem feita pelo ator no precisa ser crvel, despertada no espectador a conscincia de que o ator apenas um ator, o que ele est fazendo naquele momento apenas um papel, tudo apenas uma pea. Desses caminhos para a construo dramtica o primeiro, o sistema de Stanislavski, mais difundido entre as produes cinematogrficas. O filme principal deste trabalho, Edward mos de tesoura de 1990 (105 min) dirigido por Tim Burton, faz uso desse sistema de construo de atuao para o personagem. No roteiro do filme no existem indicaes de caracterizao, o visual de Edward foi idealizado pelo prprio Tim Burton em desenhos feitos tempos antes das filmagens, e o trabalho de expresso do ator foi resultado de um processo conjunto entre diretor, preparao de ator e o prprio ator. 165. 4 Iniciao Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica Vol. 3 n 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design O personagem Edward o ponto central desse trabalho para entendermos o processo de construo de personagem e a caracterizao do ser estranho em determinado universo social flmico. Quando usamos o termo estranho nos referimos a um modo de ser do personagem assim como seu aspecto visual, sendo assim, Edward um personagem obviamente estranho, tanto por sua aparncia quanto por suas maneiras de convvio. Alm de ser estranho no ambiente social flmico, Edward tambm pode ser considerado estranho quanto dramaturgia, no modelo clssico. Pois a definio que se tem de protagonista nos diz que o protagonista aquele que faz a maior parte das aes na narrativa, atravs da sua caminhada rumo a seu(s) objetivo(s) que a narrativa evolui, tem seus pontos de virada e chega ao desfecho (BORDWELL, 2004). Mas, ao conhecermos Edward, j percebemos que ele no dotado de tais vontades que movem a histria, os acontecimentos se do sem que seja por vontade prpria do protagonista. Com essas informaes vamos analisar mais de perto as estranhezas de Edward que acabamos de comentar. Notas: O que me atraiu foi a ideia de tentar contar um conto de fadas, no sentido clssico, mas fazendo como uma anlise desses temas. ( WOODS, 2007, p. 59 traduo nossa). 166. 5 Iniciao Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica Vol. 3 n 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 2. Origens e percurso de Tim Burton Furthermore his work, the garden sculptures, hair styles, and so forth. Indicate that he's a highly imaginative. Psychologist to Officer Allen Edward mos de tesoura Fig. 1 - Tim Burton Timothy Willian Burton nasceu em agosto de 1958 nos Estados Unidos, mais precisamente em Burbank Califrnia, o primeiro de dois filhos. Burton descreve sua infncia como peculiar, imaginativa e perdida em seus prprios pensamentos. No era uma criana comunicativa, sempre teve grande dificuldade em se relacionar, em interagir, com outras pessoas; costumava fugir da realidade do cotidiano com os contos de Edgar Allan Poe e assistindo filmes de fico cientfica e de terror de baixo oramento, elementos que influenciam muito sua forma de criar e sua esttica. Estudou animao por trs anos no Instituto das Artes da Califrnia CAL Arts - com uma bolsa cedida por Walt Disney Studios, sendo logo contratado por eles como aprendiz de animao, no final da dcada de 1970. pertinente dizer que o instituto 167. 6 Iniciao Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica Vol. 3 n 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design pertencia aos Estdios Disney, era uma escola preparatria para futuros animadores da empresa. Entrou como animador, mas por no se encaixar no estilo Disney de ser foi logo trocado de funo, indo para o setor de criao, tendo total liberdade para desenhar; nesse tempo Tim Burton criou vrios de seus desenhos que viriam tona posteriormente fora da Disney como as ilustraes de Vincent (1982, 6min) mas, nenhum de seus conceitos chegaram a ser utilizados pela empresa; Burton fala que esse perodo era como trabalho fechado, ele podia criar o que quisesse, mas nunca seria de alcance para o pblico. Ainda assim, Burton diz que foi um momento interessante pela aproximao com pessoas que possuam interesses em comum, segundo ele prprio: Eu entrei no segundo ano do programa fundado pela Disney; eles estavam tentando ensinar todos aqueles vidos jovens recrutas a serem animadores. Era como estar no Exrcito; eu nunca estive no Exrcito, mas o programa da Disney provavelmente o mais prximo que irei chegar. Voc ensinado pelas pessoas da Disney, voc ensinado a filosofia Disney. Era uma espcie de atmosfera estranha, mas era a primeira vez que eu tinha estado com um grupo de pessoas com interesses similares. (BURTON and SALISBURY, 1995, p. 7 traduo MELO, 2011, p. 38) Um tempo depois, apoiado financeiramente pela Disney, dirigiu seu primeiro curta metragem de destaque Vincent (1982), como dito anteriormente, com seu conceito artstico j bem trabalhado desde seu incio na empresa, sendo o menino Vincent uma mistura de sua prpria infncia o universo de Edgar Allan Poe e dos filmes de horror - com o ator Vincent Price, figura muito admirada por Burton. Seu segundo curta metragem de destaque foi Frankenweenie (1984, 29min), tambm com seus conceitos j criados desde a Disney, a histria de um menino que ressuscita seu cachorro, que inclusive ganhou sua verso longa metragem em 2012, produzida e dirigida por Burton. Ainda com enredos pouco infantis, Tim Burton criou o poema e as ilustraes base para O Estranho Mundo de Jack (1993, 76min), onde atuou como produtor, um de seus maiores sucessos. Conciliou seu apego ao horror e sua habilidade para comdia em Os Fantasmas se Divertem (1987, 92min), tendo grande destaque e sendo chamado pra a superproduo Batman (1989, 126min) e, depois, para a continuao Batman O Retorno (1992, 126min). 168. 7 Iniciao Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica Vol. 3 n 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design Com a carreira em alta, antes de filmar o segundo filme do Batman, Burton filma um de seus projetos mais pessoais, Edward Mos de Tesoura (1990), com Johnny Depp, um de seus maiores colaboradores durante sua carreira. Tambm foi sucesso Marte ataca! (1996, 106min) e A Lenda do Cavaleiro sem Cabea (1999, 105min), esse tambm com Johnny Depp. At agora, muitas outras produes se incluem na lista de Burton, como o remake de A fantstica fbrica de chocolate (2005, 115min) e Sweeney Todd (2008, 116min), onde sua atuao varia como diretor ou produtor. Seu ultimo filme finalizado "Sombras da noite (2012, 113min), onde atuou como diretor. Com estilo prprio, desde seu primeiro curta-metragem, Burton conquistou seu espao em Hollywood com sucessos comerciais, com filmes que carregam seu trao pessoal. Seu estilo to peculiar que tem denominao prpria, sendo muitas vezes chamado de burtonesco ou burtoniano. Como diz Carla Marina Soares: Tem sido assim com a maioria das suas pelculas, transformando a sua filmografia num conjunto coeso, marcado por caractersticas que determinaram o nascimento de um novo termo: a expresso burtonesco, que se aplica a um conjunto de marcas estticas, mas tambm temticas e narrativas, (...) (SOARES, 2008, p. 5) Notas: Alm disso o seu trabalho, as esculturas de jardim, estilo de cabelo e assim por diante. Indicam que ele altamente imaginativo. Psiclogo para policial Allen Edward mos de tesoura (traduo nossa) 169. 8 Iniciao Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica Vol. 3 n 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 3. As criaes do diretor e seu estilo It seems clear that his awareness of what we call reality is radically underdeveloped. Psychologist to Officer Allen Edward mos de tesoura Burton sempre se interessou pelos contos de fadas, o tema sobrenatural que eles carregam, a magia, at mesmo o fundo moral que eles abordam, podemos perceber isso em seus filmes, inclusive em Edward mos de tesoura com a atmosfera do era uma vez, e a lio moral de tolerncia. Esses contos de fadas, com o tempo, passaram por um processo de higienizao, do qual a grande responsvel Disney, segundo o prprio diretor, para que fossem contos leves, limpos e sem a carga de violncia e medo que muitos continham originalmente, ainda assim, para Burton, so uma importante fonte de inspirao, os originais e sombrios, que exploram o medo e sobrenatural. Alm dos contos de fadas, o gtico uma fonte importantssima, tanto em tema como em esttica. O prprio diretor diz que nunca foi um amante da leitura, sendo assim seu contato com todo o universo gtico foi atravs de filmes que eram adaptaes de leituras como Frankenstein (1818, Mary Shelley), Drcula (1897, Bram Stoker), os contos de Edgar Allan Poe interpretados no cinema por seu dolo Vincent Price, alm dos filmes expressionistas dos anos 1920 como Nosferatu, uma sinfonia de horror (1922, F.W. Murnau, 94min), O gabinete do Dr. Caligari (1920, Robert Wiene, 78min). Junto a isso tambm colocamos os filmes ditos como B, de baixo oramento, de fico cientfica e terror, como do diretor Ed Wood. O gtico surgiu como um estilo predominante literrio, romntico, mas que se adaptou muito bem ao cinema, trabalhando os conflitos humanos, a solido, o medo. Ao longo das dcadas foi esquecido, trazido a tona por transformaes sociais, como nos diz Carla Marina Soares, Os crescentes paradoxos do sculo XX (por exemplo, entre isolamento e ausncia de privacidade, entre o conceito de aldeia global e a solido individual, entre o aumento da esperana de vida e a banalizao da morte, pela sua exposio regular nos meios de comunicao, entre outros) conduzem a uma relao confusa do homem consigo prprio e com o outro. O gtico 170. 9 Iniciao Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica Vol. 3 n 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design encontra, durante este sculo, razo e matria para o seu ressurgimento, expandindo-se, para abranger as vrias formas de expresso humana. (SOARES, 2008, p. 26) Desde o surgimento e aperfeioamento do cinema o gtico se faz presente tanto nas temticas da solido e dos conflitos internos quanto em uma atmosfera sombria, de horror. Edgar Allan Poe foi um nome importante para o gtico, trabalhando a questo do isolamento, da distoro da realidade, assim como o tema maior da morte. Juntando a atmosfera do conto de fadas com gtico, temos a o terreno no qual Tim Burton se fixou, influenciando-se tambm pelo expressionismo cinematogrfico alemo, como j dito, com releituras de contos e uma esttica do medo, como vemos na dissertao de Petra Melo: Marcos Arza (2004) faz uma reflexo a respeito do uso do expressionismo nos filmes do diretor norte-americano, para quem o emprego desta esttica tem dois objetivos primordiais: por um lado, como estilo decorativo e fotogrfico: as luzes e as sombras, a utilizao cenogrfica e certo exagero da maquiagem (Arza, 2004, p. 15) e, por outro, para refletir visualmente o conflito interior de seus heris, imersos em universos desenhados exclusivamente para eles. (ARZA, 2004, p. 17 retirado de MELO, 2011, p.67). Abordando agora mais especificamente os trabalhos do diretor, podemos dizer que boa parte, seno todo, do trabalho de Tim Burton gira em torno do outro, e as muitas avaliaes que se pode fazer dele. Esse outro costuma ser um esquisito (CORTEZ et al, 2006) s vezes de forma bvia, como Edward em Edward mos de tesoura, s vezes uma esquisitice mais sutil como Ichabod Crane em A lenda do cavaleiro sem cabea ou coletiva como o excntrico grupo de amigos em Ed Wood colocado num certo ambiente social. Apesar de certos exageros que podem se colocar no processo de construo de personagem (exageros comuns no estilo de Burton), tudo se concentra numa anlise que ns fazemos a respeito do outro em nossas situaes dirias, os julgamentos possveis. Explicando melhor essa estranheza, ela se d nos prprios personagens. Como j dito, Edward em Edward mos de tesoura o esquisito em uma representao bvia, tanto visualmente quanto por seu jeito, sendo colocado num ambiente tradicional como um ser totalmente avulso a tudo que os moradores da cidade estavam acostumados. 171. 10 Iniciao Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica Vol. 3 n 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design Ichabod Crane em A lenda do cavaleiro sem cabea (1999) carrega uma estranheza um pouco mais sutil. Nesse filme, que uma adaptao de um conto de Washington Irving do sculo XIX, Ichabod Crane (Johnny Depp) um policial descrente com a religio e com o conservadorismo da polcia da capital, criando seus prprios mtodos de investigao, aps embates com o maior comandante da polcia (Christopher Lee) enviado para Sleepy Hollow, um vilarejo com estranhos crimes, decapitaes com o desaparecimento da cabea. L, Ichabod Crane levado a testar no s suas inovaes no campo da investigao como tambm sua descrena tanto na religio quanto no sobrenatural, pois os habitantes do vilarejo acreditam que os crimes so cometidos por um misterioso cavaleiro sem cabea, ex-combatente de guerra (Christopher Walken). Alm do cavaleiro fantasma, tambm temos o envolvimento de Ichabod com a filha do homem mais poderoso da cidade, Katrina Van Tassel (Christina Ricci), que pratica exerccios ligados magia, ao sobrenatural. Nesse cenrio, a estranheza no se d pelo visual de forma bvia, mas se d por algumas aes do personagem, o espectador levado ao passado misterioso e doloroso de Crane que, em partes, justificam seu comportamento estranho na fase adulta, como a educao rgida e conservadora do pai opondo-se ao convvio com a me, um ser de leveza especial, tambm ligada a prticas de magia. O pai, sendo inclusive membro da igreja e um cristo fervoroso, executa a prpria mulher, me de Ichabod Crane, na dama de ferro por bruxaria, traumatizando o menino e o fazendo um adulto que no acredita nem em religio nem no sobrenatural. No caso de Crane a estranheza se d por fatores culturais dentro do universo social flmico, uma esquisitice mais sutil. No caso de Ed Wood (1994), temos o que podemos dizer ser uma estranheza coletiva, essa estranheza se trata de um grupo heterogneo de pessoas, onde cada membro do grupo possui sua estranheza especfica e, ao se unirem, essas estranhezas ganham uma maior visibilidade. Como j dito, Ed Wood foi inclusive uma influncia para Tim Burton com seus filmes trash, sendo o mais conhecido Plan 9 from outer space (1959). O filme no uma cinebiografia exata, at porque no se tem muitas informaes da vida do diretor, Tim Burton brinca um pouco com a imaginao, como na cena do encontro de Ed Wood com Orson Welles, seu grande dolo, fato que nunca foi tido como verdadeiro. Voltando a falar da estranheza, no caso temos um grupo de estranhos. Ed Wood interpretado por Johnny Depp - e seus amigos so pessoas margem da sociedade, por seus hbitos e/ou por sua aparncia, todos no grupo tem um gosto esttico meio estranho, comportamentos duvidosos, o prprio Ed Wood tem uma forma um tanto quanto estranha para a 172. 11 Iniciao Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica Vol. 3 n 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design sociedade da poca, sobretudo de se acalmar, um hobby no muito normal de se vestir como mulher, pegando as peas de roupas de suas namoradas inclusive. Talvez essa estranheza no chegue at ns de forma bvia justamente por esse agrupamento de pessoas com algo estranho em comum, no caso, todos se renem em prol da arte, buscando apoio financeiro de qualquer lado possvel at mesmo de dentistas, donos de frigorfico para a realizao dos filmes idealizados por Ed Wood. Esses filmes carregavam temticas que chocavam o ambiente social como o filme Glen or Glenda (1953, Ed Wood, 65min) com a temtica do travestimento e da transsexualidade aliadas a um excntrico gosto esttico e algumas precariedades de oramento. Alm de abordar os julgamentos e preconceitos com o outro num convvio social, Tim Burton tambm aborda de forma sutil outros aspectos da sociedade, o conservadorismo, a burocracia, a noo de normalidade, e outros elementos (MELO, 2011). Burton costuma usar em seus filmes um ambiente bem propcio para esse conservadorismo, esses preconceitos com o outro: o subrbio, cidades pequenas. Podemos perceber isso em Vincent, Edward mos de tesoura, Frankenweenie, por exemplo, e, nesses casos, o outro um ser que fugiu a uma ou mais normas da sociedade. Tim Burton fala que a presena do subrbio em seus filmes no algo a ser visto como negativo, para ele, um processo bem intuitivo de constituio do ambiente, visto que o prprio Burton cresceu no subrbio, carregando ento certas memrias que tomam lugar nos filmes. Because a lot of it is based on memories, not literal translations of growing up in a certain place. And its a very fascinating place, suburbia. It was very importante to me. It is a funny place, very strange and bizarre, but not totally negative. (WOODS, 2007, p. 61) A morte tambm uma temtica recorrente na obra de Tim Burton (CORTEZ et al, 2006). Seus personagens lidam com a morte de outros como Edward e seu criador em Edward mos de tesoura ou como Will Bloom (Billy Crudup) lidando com a morte de seu pai Edward Bloom (Ewan McGregor e Albert Finney) em Peixe grande e suas histrias maravilhosas ou o prprio protagonista morre como o casal Maitland em Os fantasmas se divertem - ou j inicia o filme na condio de morto como Emily (Helena Bonham Carter) em A noiva cadver (77min). 173. 12 Iniciao Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica Vol. 3 n 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design Tanto quanto nossa concepo sobre o outro, outro tema que permeia todo o trabalho de Tim Burton a solido, a sensao de isolamento, de incapacidade de interao com o mundo, com os meios sociais que nos cercam. Esse tema j aparece em Vincent, seu primeiro curta metragem de destaque e, assim como Edward mos de tesoura, um projeto pessoal. O curta teve origem num poema escrito por Tim Burton e, como j dito anteriormente, toda a concepo artstica tambm foi criada por ele, apoiado pela Disney. Vincent um menino que, assim como o prprio Burton, vive isoladamente em um mundo particular, lendo Edgar Allan Poe, assistindo filmes de terror e fingindo ser um de seus personagens, imitando o ator Vincent Price. Como nos diz Petra Melo: Sua marca registrada a capacidade de contar histrias com temas profundos e/ou melanclicos e violentos, mas de forma leve e atraente, com visual de traos gticos e expressionistas. Tais temas podem ser personificados nos prprios protagonistas dos filmes, principalmente no que se refere solido e ao isolamento, do sentimento de no pertencer a este mundo e procura pela sua identidade verdadeira. (MELO, 2011, p. 114) Falemos agora um pouco sobre a esttica burtonesca. Como j foi dito, esse termo denota especialmente o estilo peculiar que Tim Burton imprime em seus trabalhos. Vrios elementos visuais constituem seu trao pessoal, toda a mise-en-scne do filme trabalha para afirmar os sentimentos dos personagens, reforar visualmente seus conflitos internos. Podemos perceber boa parte das caractersticas burtonescas j no curta metragem Vincent. Voltando na questo da temtica, nele j temos o sentimento de isolamento, de desconexo com o mundo, a presena do sombrio, a temtica da morte. E temos tambm elementos visuais que marcam os trabalhos de Burton desde ento: o uso da luz para criar efeitos de sombras expressionistas, alm das sombras uma caracterizao fsica do personagem como recm-sado de um filme alemo dos anos 1920 (fig. 2) bastante recorrente no trabalho de Burton, alis - Vincent Price como uma importante figura no universo de Burton, assim como os contos de Edgar Allan Poe. 174. 13 Iniciao Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica Vol. 3 n 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design Fig. 2 - Vincent Malloy, do curta metragem Vincent. O biotipo fsico dos personagens de Tim Burton segue a linha expressionista alem. Uma coisa que podemos notar nos filmes de Burton o uso das cores mais fortes, saturadas e luminosas para a representao de um mundo que no o nosso que pode ser o mundo dos mortos ou um ambiente onrico e sim um lugar sem amarras sociais, sobretudo no mundo dos mortos, dominado pelo inconsciente onrico, como as lembranas, os sonhos (SOARES, 2008; e NABAIS, 2010). Outro elemento sempre presente a caveira. Ela est presente em muitos trabalhos de Burton, seja como um personagem secundrio, como em A noiva cadver com as caveiras cantantes, seja como protagonista, como em O estranho mundo de Jack. As espirais e as listras tambm so uma marca muito forte de Tim Burton (CORTEZ et al, 2006). Elas aparecem em praticamente todos os filmes. Desde a roupa de Vincent garoto em Vincent, passando pelos corredores do servio publico, pelo monstro da areia, e pela roupa de Beetlejuice em Os fantasmas se divertem, pelo figurino em Peixe grande e suas histrias maravilhosas e Sweeney Todd O barbeiro demonaco da rua Fleet, pelo cenrio de A fantstica fbrica de chocolates, e tambm pelo segundo videoclipe da banda The Killers, o Here with me. 175. 14 Iniciao Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica Vol. 3 n 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design Para finalizar, Tim Burton tambm gosta de fazer referncias de seus prprios trabalhos anteriores (MELO, 2011). Exemplificando, o sto em Sr. Todd mantm uma barbearia para matar seus clientes em Sweeney Todd tem uma arquitetura muito semelhante ao sto que Edward vive em Edward mos de tesoura; outro exemplo a rvore dos mortos onde o cavaleiro guarda as cabeas decepadas em A lenda do cavaleiro sem cabea (Fig. 3) e sua reapario quando Alice retorna a Wonderland em Alice no pas das maravilhas (Fig. 4); assim como a topiaria que Edward pratica exaustivamente e que tambm temos em Alice no pas das maravilhas. Ainda temos o personagem Victor, com sobrenome diferente, mas ainda assim o mesmo, em A noiva cadver e depois em Frankenweenie, e seu cachorro Sparky, tambm em ambos os filmes. Fig. 3 A rvore dos mortos em A lenda do cavaleiro sem cabea. Fig. 4 A chegada de Alice em Wonderland em Alice no pas das maravilhas. 176. 15 Iniciao Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica Vol. 3 n 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design Essas caractersticas temticas e visuais reunidas constituem o universo burtoniano que conhecemos. Personagens isolados, margem da sociedade, estranhos no aspecto fsico, no modo de agir, ou no no agir. Visuais fortemente explorados para a composio sombria de seus filmes, que afirmam a sensao de isolamento, afirmam um mundo onrico, que compem a histria tanto quanto o texto em si. Notas: Parece claro que sua percepo do que ns chamamos de realidade radicalmente subdesenvolvida. Psiclogo para oficial Allen Edward mos de tesoura (traduo nossa). Porque muito baseado em memrias, no tradues literais de ter crescido em um determinado lugar. E um lugar fascinante, o subrbio. Foi muito importante para mim. um lugar divertido, muito estranho e bizarro, mas no totalmente negativo. (WOODS, 2007, p. 61 traduo nossa) Prtica da escultura em arbustos. 177. 16 Iniciao Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica Vol. 3 n 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 4. Edward, o personagem no centro das atenes Theres a wonderful kind of sadness to him. Its not bad sadness; its just what, so far, life seems to be composed of. (WOODS, 2007, p. 61). Um de seus mais famosos filmes, Edward mos de tesoura foi lanado em 1990 com Johnny Depp, Wynona Rider, Vincent Price, Diane Wiest. O filme traz o personagem Edward como centro da histria, um ser que remete ao monstro de Frankenstein (originalmente publicado de forma annima por Mary Shelley em 1818) alm de remeter estilisticamente ao expressionismo alemo dos anos 1920. Criado por um cientista solitrio (Vincent Price) num castelo no alto da colina afastado da cidade, Edward uma mquina construda como homem. Seu criador morre antes de conseguir finaliz-lo dando-lhe mos humanas, Edward fica ento sozinho no castelo e com as tesouras no lugar das mos. descoberto acidentalmente por Peg (Diane Wiest), vendedora de cosmticos da marca Avon, e levado para morar com ela e sua famlia na cidade, onde Edward passa a conviver com os habitantes da cidade, e se apaixona por Kim (Wynona Rider), filha de Peg, que tambm se apaixona por ele, mas enfrentam inmeros obstculos para esse amor, sobretudo a condio no humana de Edward. Com Edward na cidade temos uma srie de acontecimentos e desventuras com a populao, muitas vezes fruto da inocncia de Edward, que passam por momentos que vo do amor, da curiosidade, ao medo e a repugnncia. Edward, alm da inocncia como em Frankenstein, se enquadra numa galeria de personagens com amores impossveis, A bela e fera, O fantasma da pera, um conto de fadas (MELO, 2011), mas no no sentido higinico dado pela Disney como o prprio Tim Burton fala de histrias inocentes, higinicas e sem profundidade, e sim no sentido do personagem ter certa profundidade, de carregar consigo um conflito interno, de estabelecer uma conexo com o espectador, alm de uma carga de violncia e uma atmosfera aterrorizante que era natural aos contos de fadas originais, como aqueles dos irmos Grimm. Essa questo do conto de fadas bastante presente no universo de Burton, seus filmes so releituras, adaptaes e apropriaes de conceitos trabalhados neles, alm do lado sombrio, do sobrenatural. 178. 17 Iniciao Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica Vol. 3 n 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design Em Edward mos de tesoura temos um agrupamento de caractersticas marcantes do diretor. A temtica do estranho e de ser percebido pelos outros como algo que no se de fato, as relaes humanas, a solido, o subrbio retratado de forma estereotipada, com suas casas de arquitetura praticamente iguais em tons pastis e as pessoas que sabem tudo da vida umas das outras e vivem segundo certas regras de convivncia; alm de certa comicidade em certas situaes, um pouco de humor negro inclusive com Edward e suas tesouras; e os elementos visuais bem marcados, a atmosfera sombria que temos junto com Edward em seu castelo que assim como Edward nos remete aos filmes expressionistas e contos de terror, e ainda uma aura melanclica que percorre o filme, como Petra Melo nos diz: interessante que Edward Mos de Tesoura consiga resumir praticamente todas as marcas registradas e obsesses de Tim Burton, da alienao no subrbio e dos cachorros como companheiros fiis at Vincent Price como uma figura paterna. Alm de tudo, os argumentos no filme a favor da compreenso e tolerncia, e da total condenao da estupidez da massa, nos parecem bem mais relevantes hoje do que na poca de seu lanamento. (MELO, 2011, p. 62) Como j dito anteriormente, esse filme tem um trao bastante pessoal do diretor, como diz Mathews e Smith, retirado da dissertao de Petra Melo: O personagem de Edward quase certo ter sido derivado a partir de emoes que Burton experimentou quando estava crescendo. Como ele mesmo admitiu, ele contm temas que eu posso relacionar a mim mais do que qualquer outro filme que fiz, com as tesouras, h algo sobre o tema de algum no ser capaz de tocar ou amar. Eu s queria um personagem assim visualmente, ele , internamente, externamente. uma representao visual do que existe por dentro... H algo nele que muito verdadeiro pra mim. Mais especificamente, Burton afirma que Edward mergulha em memrias pessoais e todos os tipos de temas emocionais, culturais e sociais que sempre me interessaram... A vida um misto de tudo: os bons, os maus, o escuro, o claro, o engraado e o triste. uma grande massa de emoes conflituosas e no nunca um nico caminho direto. (MATTHEWS and SMITH, 2002, p. 117 - traduo de MELO, 2011, p. 62). 179. 18 Iniciao Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica Vol. 3 n 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design Os desenhos originais foram feitos por ele quando mais novo (Fig. 5), assim como no curta Vincent (1982), o personagem principal reflete uma impossibilidade de Burton ainda criana - de lidar com o meio social em que se encontra inserido, dificuldade que se mostra pelo comportamento de Edward e tambm por seu visual, pois as tesouras simbolizam fisicamente essa dificuldade de convvio, dificuldade de aproximao com qualquer pessoa, como diz o prprio diretor, Its the inability to communicate, the inability to touch, being at odds with yourself. How you are perceived as opposed to what you are. (WOODS, 2007, p. 59). Alis, como j foi dito anteriormente, de toda a obra de Tim Burton Edward o estranho mais bvio e mais isolado, digo, um nico indivduo deslocado de um certo ambiente social. Interessante notar que, no filme, a estranheza no a caracterizao fsica de Edward alis, suas mos de tesoura so o que o tornam um ser especial e o que promove uma ascenso social na cidade e sim a sua biografia que desconhecida por todos os moradores da cidade. Sua existncia um mistrio local, que s o espectador chega a saber de alguns momentos atravs de flashes de memria, Edward tem um comportamento passivo incomum e sua falta de percepo de certo e errado acaba se tornando um problema. Fig. 5 Concepo artstica de Edward feita por Tim Burton. 180. 19 Iniciao Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica Vol. 3 n 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design Edward caracterizado de forma obviamente esquisita, tudo em sua construo visual diferente dos padres de aparncia da sociedade. Edward parece um personagem que acabou de escapar de um filme expressionista alemo dos anos 1920 assim como o j mencionado Vincent. Edward foi pensado a partir de um rob que seu criador (Vincent Price) possua, que fazia parte da linha de fabricao de biscoitos em formatos diversos. Foi a partir de um biscoito em formato de corao que surgiu a ideia de um rob homem, mas as mos ficaram faltando, enquanto isso Edward ficaria com as tesouras provisoriamente. Mas seu criador morre antes de termin-lo. Como j dito, as tesouras so a expresso fsica da dificuldade de aproximao, da dificuldade de contato, inclusive consigo, da a origem de todas as cicatrizes fsicas de Edward. Seu cabelo despenteado lhe d um ar de abandono, que reflete o abandono real, enquanto sendo criado pelo cientista Edward tinha seus cabelos arrumados e seu rosto no possua uma cicatriz, e essas coisas tambm mudam com a morte de seu tutor. O rosto um caso a parte. A pele quase translcida nos mostra que Edward quase no sai do castelo, muito menos a luz do dia, os olhos exageradamente fundos, marcados, e a boca comprimida nos passam uma sensao de sufocamento, afirmado tambm pela roupa, mas principalmente, seu rosto e a expresso fcil dada ao personagem externam o sentimento de agonia vivido por Edward, agonia pelo abandono, pelo medo, desamparo (Fig. 6). Quando descoberto por Peg, h o medo, um incmodo por parte dela, mas que logo se dissipa e d lugar a um sentimento materno de Peg por Edward, um sentimento de compaixo, compartilhado com o espectador. 181. 20 Iniciao Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica Vol. 3 n 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design Fig. 6 Edward (Johnny Depp) e Kim (Winona Ryder). Finalizando o aspecto fsico, temos as tesouras. Como j dito, elas representam fisicamente a impossibilidade de contato, mas, apesar disso, elas no so um empecilho, num primeiro momento, para que Edward seja integrado ao meio social da cidade, elas despertam compaixo, curiosidade, at mesmo certo fetiche, e o que o torna especial, como no prprio filme podemos ver, no trecho onde Edward e Peg vo a um programa de televiso. 182. 21 Iniciao Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica Vol. 3 n 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design WOMAN 3 But if you had regular hands you'd be like everyone else. EDWARD Yes, I know. TV HOST I think he'd like that. WOMAN 4 Then no one would think you're special. You wouldn't be on TV or anything. PEG No matter what, Edward will always special. Com o tempo as tesouras vo se mostrar como um problema para Edward em seu relacionamento com as outras pessoas, que passam a ver suas mos como um perigo iminente, isso acarretado tambm por seu comportamento na narrativa, que o leva a ser visto como um ser perigoso, no fim das contas. Feitos os comentrios sobre os aspectos visuais, passemos para a estranheza de Edward quanto narrativa. Para comear, Edward um personagem extremamente misterioso em seu universo flmico. Como j dito, o espectador chega a saber alguns pontos do passado de Edward e sua criao no castelo por alguns poucos e rpidos flashbacks, mas somente o espectador. Em seu ambiente social da cidade abaixo da colina do castelo ele um completo desconhecido, nem sua existncia era sabida at que a vendedora de cosmticos Peg resolvesse subir a colina do castelo para tentar vender seus produtos. Tanto que podemos perceber esse mistrio tanto no roteiro quanto no filme, aps a introduo como em um conto de fadas com o conhecido era uma vez os habitantes da cidade j so apresentados ao espectador enquanto que Edward permanece desconhecido, nem quando acontece seu encontro com Peg (aps treze minutos de filme) no temos uma apresentao daquele que nosso personagem protagonista. 183. 22 Iniciao Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica Vol. 3 n 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design O ponto que nos chama ateno em Edward sua lacuna no que tange as vontades de protagonista, que o leva a ao. Vemos que a ao a vontade humana que persegue seus objetivos, consciente do resultado final. (...) a ao de quem quer e faz. (PALLOTTINI, 1983, p. 16.), ento podemos nos perguntar: qual o desejo de Edward? Ele tem realmente algum desejo que o faz agir? Vemos tanto no roteiro quanto no filme que Edward pouco fala e pouco faz, e quando age costuma ser impulsionado por outra pessoa. Podemos nos questionar a respeito da topiaria praticada por Edward, seu trabalho em esculpir arbustos, que nos parece ser a nica atividade realmente executada por ele. Mas seria isso uma atividade consciente? Ou seria talvez algo ao qual Edward j tivesse sido treinado pelo inventor? Quanto a isso, no temos uma afirmativa clara. Ainda assim Edward movimenta a situao, Pallottini tambm fala que: (...) ao, no sentido dramtico, no sinnimo de ato fsico. Ao tudo aquilo que impulsiona a mquina do drama para a frente, tudo aquilo que muda a situao, produzindo, portanto, movimento. (PALLOTTINI, 1989, p. 71) Da podemos dizer que, a partir do momento que Edward se deixa agir pelas vontades de outros personagens ele est sim, levando a histria para frente, podemos perceber isso pelos pontos de virada, tambm golpe teatral, que o filme apresenta. Para o propsito de definio: O golpe teatral (plot point dos americanos, peripetia de Aristteles) uma brusca reviravolta que modifica a situao e a faz reativar-se de maneira imprevista: pode ser a introduo de um elemento ou de uma personagem novos, uma mudana de sorte, a revelao de um segredo ou uma ao que torna o sentido oposto ao esperado. (CHION, 1989, p. 197) Ao examinarmos os pontos de virada percebemos que Edward age por meio das vontades de outros personagens, sendo que em sua nica ao fsica voluntria temos o ponto de virada maior da narrativa. Logo no incio do filme temos uma ao involuntria de Edward. Aps se esconder de Peg, por medo, no consegue no ser percebido e Peg, tomada de um sentimento de compaixo por sua situao, o leva para morar com ela e sua famlia, essa a primeira 184. 23 Iniciao Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica Vol. 3 n 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design virada no filme e tem como partida uma ao involuntria de Edward. A partir da Edward toma contato com o mundo normal, sendo Peg me de uma famlia extremamente tradicional e a cidade o tpico ambiente de subrbio, aumentado pela excentricidade cenogrfica que Burton trabalha j comentada anteriormente e pela questo da curiosidade extrema com relao ao visitante, a novidade, Edward, a necessidade de apresent-lo formalmente cidade. A partir do momento que essa apresentao acontece Edward se torna um objeto de curiosidade e excitao e continua sua prtica de topiaria de forma intuitiva pelas casas da cidade, e depois passa essa prtica para os pelos dos cachorros dos moradores e at nos cabelos das donas de casa, mas tudo sem que Edward realmente planejasse fazer aquilo. Assim Edward vai parar num programa de entrevista, onde algum da plateia pergunta sobre abrir o prprio salo, nem mesmo no programa Edward responde por conta prpria sobre essa vontade e, quando percebemos, Joyce (Kathy Baker) a moradora mais curiosa e excitada com Edward j o est direcionando para onde ser o futuro estabelecimento, mas agindo como se tudo fosse por conta dela, Edward apenas acompanha. Joyce se aproveita da inocncia de Edward e tenta seduzi-lo, mas Edward, amedrontado, vai embora e deixa Joyce rancorosa, a partir da a vizinha assume um comportamento de distanciamento. Outro ponto importante que acarretar mudanas o instantneo encantamento de Edward por Kim, mediado apenas por uma fotografia, sendo um fator importante para a narrativa; depois Edward e Kim se encontram, de incio Kim no se adapta a convivncia com o diferente, mas isso muda com o tempo. Alm disso, Edward realmente se apaixona por Kim, mas nada faz em favor desse amor, podemos dizer at que, at ento, um amor platnico. Com o tempo isso muda um pouco e Kim comea a se afeioar por Edward, mas nada acontece, pois Kim namora Jim (Anthony Michael Hall), um cara extremamente possessivo e violento, que se aproveita tambm da inocncia de Edward e de sua devoo por Kim e o usa num plano para arrombar a porta da casa de seus pais e roubar produtos eletrnicos caros. Kim fica relutante em pedir, mas acaba se convencendo e vai at Edward que aceita fazer parte do plano. Acontece que o alarme no estava todo destravado e dispara quando Edward entra na casa, Jim arrasta Kim embora para a van, deixando Edward sozinho, que pego pela polcia, a a sorte de Edward comea a mudar, os moradores j comeam a sentir medo pelas aes estranhas de Edward, motivados tambm pela calnia de Joyce, que diz que foi Edward quem tentou seduzi-la. Chegamos ao ponto de virada onde a sorte de Edward muda por completo. Noite de Natal, a famlia de Peg prepara a festa e Edward est esculpido no gelo, fazendo nevar. 185. 24 Iniciao Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica Vol. 3 n 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design Acontece um incidente onde ele corta a mo de Kim enquanto Jim se aproximava que v tudo de forma distorcida (em parte por estar muito bbado tambm) e briga com ele, Edward sai andando confuso pela cidade, e Kim resolve terminar com tudo com Jim ali, que sai enfurecido e vai para a van. Edward continua andando amedrontando os moradores que chamam a polcia, deixando Edward com medo, ento ele decide voltar para casa de Peg. Acontece que o filho menor, Kevin (Robert Oliveri) estava na casa de um amigo voltando para sua casa, enquanto Jim e seu amigo esto bbados na van, que vai na direo de Kevin. Edward percebe o perigo e em sua nica ao realmente voluntria - salva Kevin, tirando-o da mira da van, mas os dois caem no cho e Edward se descontrola com as tesoura, dando pequenos cortes no rosto de Kevin que fica assustado. Ser ter conhecimento da ao prvia, os moradores se agrupam e entendem que Edward est tentando matar Kevin, enquanto isso Jim os alcana e comea uma briga com Edward, enfurecido por Kim ter terminado tudo com ele. A polcia chega, Edward escuta Kim gritando para que ele fuja e sai correndo e os moradores, j aterrorizados e raivosos, o perseguem at perto das colinas em direo ao castelo, enquanto o policia tenta apenas lev-lo de volta para o castelo em segurana, demonstrando certa preocupao com Edward e tambm tolerncia por sua condio. J no castelo, Kim segue Edward para se despedir e declarar seu amor, Jim a segue e continua sua briga com Edward, que reluta em revidar. Aps muitos golpes de Jim, Edward acaba revidando e Jim cai do sto do castelo, morto. J ciente de seu amor proibido, Kim tenta defender Edward forjando sua morte na briga com Jim, convencendo os moradores da cidade de que tudo est acabado. E enfim tudo volta ao normal, a cidade volta a ficar calma e sem a presena do estranho plido das tesouras, Edward volta a se isolar no castelo esculpindo nos arbustos e, agora tambm, no gelo, sendo isso a evidncia para Kim j idosa de que ele ainda est l, pois depois da noite de Natal onde Edward esculpiu no gelo, toda noite que neva, ela sente que ele est no castelo no alto da colina. De forma linear, vemos o estado de tranquilidade do incio do filme sendo agitado pela vinda de Edward para a cidade, com os conflitos e pontos de virada e a volta da tranquilidade no fim. Observando cada acontecimento marcante do filme, percebemos que Edward participa de forma ativa apenas no salvamento de Kevin, todos os outros acontecimentos, os pontos de virada, no so fruto de aes conscientes de Edward, mas de sua no ao, que o faz ser levado a cada ponto seguinte. Essa a estranheza de Edward tratando-se de dramaturgia, sua clara ausncia de vontades prprias, ausncia de um objetivo maior a ser atingido, pois, num modelo clssico por clssico 186. 25 Iniciao Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica Vol. 3 n 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design entende-se o modelo de cinema clssico hollywoodiano O filme hollywoodiano clssico apresenta indivduos definidos, empenhados em resolver um problema evidente ou atingir objetivos especficos. (...) O principal agente causal , portanto, o personagem. (BORDWELL, 2004, p. 278- 279). Ademais, os outros pontos de princpios narrativos so mantidos: a narrativa linear, a montagem que direciona o olhar do espectador, a presena do romance heterossexual, a estrutura montada sobre o trio: estado de calma -> agitao e conflitos -> resoluo de conflito. Notas: H um tipo maravilhoso de tristeza nele. No uma tristeza ruim, s o que, at agora, a vida parece ser composta por. (WOODS, 2007, p. 61 traduo nossa). a incapacidade de se comunicar, a incapacidade de tocar, estar em oposio consigo mesmo. Como voc percebido pelo oposto do que voc . (WOODS, 2007, p. 59 traduo nossa). MULHER 3 Mas se voc tivesse mos normais voc seria como todo mundo. EDWARD Sim, eu sei. APRESENTADOR DE TV Acho que ele gostaria disso. MULHER 4 Ento ningum pensaria que voc especial. Voc no estaria na tv ou qualquer coisas. PEG No importa, Edward ser sempre especial. (traduo nossa). 187. 26 Iniciao Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica Vol. 3 n 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 5. Concluso I burst out crying, myself, at Edward Scissorhands. From that moment on, i didnt care what anyone else thought and ive never felt that way about anything else ive directed. (WOODS, 2007, p. 9). Tim Burton um diretor inventivo, com um forte apelo visual, temticas sombrias e sobrenaturais, trazendo influncias do gtico, abordando, sobretudo nossa concepo sobre o outro no meio social. Vimos que esse outro geralmente um ser estranho, principalmente numa abordagem visual, um ser fora de padres estticos tradicionais, que pode apresentar um comportamento margem do comum tambm. Passamos por alguns personagens estranhos da galeria do diretor e suas caractersticas peculiares, seus estranhos isolados de um ambiente social como Ichabod Crane e tambm em certos agrupamentos de gente com gostos duvidosos em comum como Ed Wood e seus amigos. Tim Burton sempre tem em mos temticas como de isolamento, rejeio, a questo de que s vezes voc visto pelos outros de maneira totalmente equivocada ao que voc realmente , a intolerncia a que esse ser estranho submetido em certos ambientes sociais como no caso do cachorro Sparky em Frankenweenie e o prprio Edward. Vimos tambm recorrncias estticas no estilo do diretor, pensando inclusive que Tim Burton se utiliza do visual, sobretudo para afirmar sentimentos dos personagens e atmosferas que os cercam. Analisamos mais detalhadamente seu personagem, talvez, mais obviamente estranho, Edward. Discutimos suas estranhezas visuais, analisando referncias de estilo do diretor, e tambm suas estranhezas narrativas, tomando conceitos de dramaturgia para uma compreenso de como Edward move a narrativa, apesar de sua ausncia de vontades e aes. Utilizando o meio visual para afirmar sentimentos dos personagens, Tim Burton nos mostra Edward como um ser sufocado por seus medos que se reflete inclusive na roupa do personagem que nos passa uma sensao de enclausuramento e incapaz de qualquer contato com outras pessoas, at mesmo fsico, com as tesouras como smbolo maior dessa incapacidade. Edward carrega consigo, dentro da narrativa, o mistrio de sua existncia, sua histria completamente desconhecida dos moradores da cidade do 188. 27 Iniciao Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica Vol. 3 n 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design incio ao fim do filme; e at para ns, espectadores, nem tudo sobre Edward esclarecido, como por exemplo, sua atividade quase que intuitiva de esculpir em arbustos. Tambm percebemos que Edward consegue mover a narrativa justamente por essa ausncia de vontades e objetivos prprios de protagonista. Num modelo clssico, o protagonista aquele que carrega boa parte da ao dramtica, com objetivos definidos a serem alcanados, basicamente atravs das aes do protagonista em busca de seu objetivo que a narrativa evolui at chegar ao desfecho. Tanto no roteiro quanto no resultado final do filme percebemos que falta a Edward essa vontade prpria, falta um objetivo maior ao qual Edward percorra a narrativa buscando atingi-lo. Em cada ponto de virada Edward levado at aquela situao por vontades alheias que ele apenas segue, como se cada personagem secundrio se tornasse um pouco protagonista e movesse a narrativa at o fim, dando pequenos empurrezinhos para que Edward agisse. Edward age justamente pela no ao. Esculpindo em arbustos, enfrentando monstros em Wonderland, revivendo seu cachorro, fazendo filmes precrios e de gosto duvidoso, no fim percebemos que todos os personagens que vivem na mente de Tim Burton so estranhos incompreendidos, isolados, mas tambm criativos, que buscam encontrar seu lugar em meio a esses ambientes de excluso. Notas: Eu desatei a chorar, em Edward mos de tesoura. Daquele momento em diante, eu no liguei para o que os outros pensaram e nunca me senti daquele jeito sobre qualquer outra coisa que eu tenha dirigido. (WOODS, 2007, p.9 traduo nossa). 189. 28 Iniciao Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica Vol. 3 n 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 6. Anexos Filmografia de Tim Burton. Fonte: IMDB Internet Movie Database *Em alguns trabalhos no foram encontrados o tempo de durao. ANO TTULO FUNO 1971 The island of Doctor Agor (curta metragem*) Direo, roteiro 1979 Stalk of the celery monster (curta metragem, 2min) Direo, produo, roteiro, animao. 1979 Doctor of Doom (curta metragem) Direo, roteiro 1981 O co e a raposa (The fox and the hound, 83min) Animao - Direo Ted Berman, Richard Rich, Art Stevens 1982 Luau (curta metragem) Direo, produo, roteiro, animao. 1982 Hansel e Gretel (episdio para tv, 45min) Direo, argumento 1982 Tron Uma odisseia eletrnica (Tron, 96min) Animao Direo Steven Lisberger 1982 Vincent (curta metragem, 6min) Direo, roteiro, design. 1984 Frankenweenie (curta metragem, 29min) Direo, roteiro, storyboard. 1985 O caldeiro mgico (The black cauldron, 80min) Concepo artstica Direo Ted Berman, Richard Rich 1985 As grandes aventuras de Pee Wee (Pee Wees big adventure, 90min) Direo 1986 The Jar (episdio para tv, 30 min) Direo 1986 Aladdin and his wonderful lamp (episdio para tv, 44min) Direo 1987 Family dog (episdio para tv, 21min) Design de animao Direo Brad Bird 1988 Os fantasmas se divertem (Beetlejuice, 92min) Direo, argumento 190. 29 Iniciao Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica Vol. 3 n 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 1989 Batman (126min) Direo 1989- 91 Beetlejuice (srie para tv, 30min) Produo executiva Direo John Halfpenny, Larry Jacobs, John Van Bruggen, Alan Bunce, Rick Marshall, Robin Budd 1990 Edward mos de tesoura (Edward scissorhands, 105min) Direo, produo, argumento. 1992 Batman O retorno (Batman Returns, 126min) Direo, produo 1993 Vida de cachorro Show dog (episdio para tv, 30min) Produo executiva Direo Chris Buck, Clive A. Smith 1993 O estranho mundo de Jack (The nightmare before Christimas, 76min) Produo, argumento, personagens Direo Henry Selick 1994 Conversations with Vincet (vdeo documentrio, 60min) Direo, produo executiva. 1994 Um gaiato no navio (Cabin boy, 80min) Produo Direo Adam Resnick 1994 Ed Wood (127min) Direo, produo 1995 Batman Eternamente (Batman Forever, 121min) Produo Direo Joel Schumacher 1996 Marte ataca! (Mars attacks!, 106min) Direo, produo 1996 James e o pssego gigante (James and the giant peach, 79min) Produo Direo Henry Selick 1999 A lenda do cavaleiro sem cabea (Sleepy Hollow, 105min) Direo 2000 The world of stainboy (curta metragem, 5min) Direo, produo, argumento. 2000 Lost in Oz (filme para tv) Produo executiva Direo Michael Katleman 2001 Planeta dos macacos (Planet of the apes, 119min) Direo 2003 Peixe grande e suas histrias maravilhosas (Big Fish, 125min) Direo 2005 A fantstica fbrica de chocolate (Charlie and the chocolate factory, 115min) Direo 191. 30 Iniciao Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica Vol. 3 n 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 2005 A noiva cadver (Tim Burtons Corpse bride, 77min) Direo, produo, personagens. 2006 *Bones (videoclipe da banda The Killers, 3,47min) Direo 2007 Sweeney Todd O barbeiro demonaco da rua Fleet (Sweeney Todd: The demon barber of Fleet street, 116min) Direo 2009 9 A salvao (9, 79min) Produo Direo Shane Aker 2010 Alice no pas das maravilhas (Alice in Wonderland, 108min) Direo 2012 Sombras da noite (Dark shadows, 113min) Direo 2012 Frankenweenie (87min) Direo, produo, argumento. 2012 Abraham Lincoln Caador de vampiros (Abraham Lincoln: vampire Hunter, 105min) Produo Direo Timur Bekmambetov 2012 *Here with me (videoclipe da banda The Killers, 4,57min) Direo 2013- 14 Big eyes (filmando) Direo, produo 192. 31 Iniciao Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica Vol. 3 n 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 7. Referncias ALVES, Mariana de Souza; LEITE, Gabriela Figueiredo. SOBRE A POSSIBILIDADE DE OS FILMES COMERCIAIS APRESENTAREM CARACTERSTICAS DE FILMES DE ARTE A PARTIR DO TRABALHO DO DIRETOR TIM BURTON. Revista Anagrama Revista Interdisciplinar da Graduao, vol. 1, n. 3., Universidade de So Paulo, 2008. Disponvel em pdf em Acesso em 19/07/2013. AUMONT, Jacques; MARIE, Michel. Dicionrio terico e crtico de cinema. Campinas: Papirus Editora, 2003. AUMONT, Jacques; BERGALA, Alain; MARIE, Michel; VERNET, Marc. A esttica do filme. Campinas: Papirus Editora, 1995. BERGAN, Ronald. Guia ilustrado Zahar Cinema. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2007. BERGAN, Ronald. ...ismos para entender cinema. So Paulo: Globo, 2010 BONI, Mauricio de. Ed Wood: o pior diretor de todos os tempos. Matria disponvel on line em Acesso em 17/07/2013. BORDWELL, David. Cinema hollywoodiano, normas e princpios narrativos clssicos. 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Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design Propaganda Inclusiva: A audiodescrio na adaptao de anncios audiovisuais Inclusive Advertising: The audio description audiovisual adaptation Ads Eliene S da Silva, Eduardo Cardoso Braga Centro Universitrio SENAC Linha de pesquisa em Comunicao - Bacharelado em Publicidade e Propaganda contato.eliene@yahoo.com.br, eduardo.cbraga@sp.senac.br Resumo. O trabalho estuda a utilizao do recurso da audiodescrio, que promove a incluso de pessoas portadoras de deficincias visuais, na adaptao de propagandas audiovisuais brasileiras. Apresenta uma anlise qualitativa e quantitativa do material traduzido com audiodescrio presente na internet (Youtube) e ressalta a importncia da produo de uma comunicao de qualidade para pessoas portadoras de deficincias visuais e como certas aes podem promover maior independncia e produtividade para essas pessoas e melhorar a imagem das organizaes que se preocupam com essa vertente de incluso social. Palavras-chave: propaganda, audiodescrio, comunicao, responsabilidade social, incluso social, deficincia visual. Abstract. The work studies the use of audio description feature, which promotes the inclusion of people with visual impairments, on adaptation of Brazilian audiovisual advertisements. Presents a qualitative and quantitative analysis of the translated material to present audio description on the internet (Youtube) and highlights the importance of producing quality communication for people with visual impairments and how certain actions can promote greater independence and productivity for these people and improve the image organizations concerned with this aspect of social inclusion. Key words: advertising, audio description, communication, social responsibility, social inclusion, visual impairment. 197. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 2 1. Introduo O cenrio da propaganda no Brasil est muito diferente de tempos passados. Transcende de diversas formas suas simples prticas comerciais. Propaga-se muito mais do que produtos ou servios. Hoje, a propaganda tambm uma ferramenta que impulsiona ideias, agrega valores e proporciona experincias. Novos meios, canais e aes surgiram ao longo dos anos com a ajuda da tecnologia e ofereceram um novo leque de possiblidades para comunicar-se com pblicos distintos. Notam-se como resultado diversas solues inovadoras de agncias que esto cada vez mais criativas na hora de elaborar seus planos de comunicao. Existe, entretanto, uma ao bem mais simples e muitas vezes mais barata que ainda est muito ausente nesse novo panorama da comunicao publicitria: a acessibilidade. No Brasil, h mais de 6,5 milhes de pessoas com deficincia visual, sendo 582 mil cegas e 6 milhes com baixa viso, segundo dados do Censo 2010, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatstica (IBGE), divulgados pela Agncia Brasil em 11 de Outubro de 2012. Tornar acessvel tem como princpio ajudar a eliminar barreiras. Tornar uma propaganda acessvel quebrar uma barreira de comunicao e permitir o aumento da autonomia e independncia s pessoas portadoras de deficincia que apresentam dificuldades na execuo de suas atividades domsticas ou ocupacionais da vida diria por falta de informao ou problemas de comunicao com o resto do mundo. Alves (2012) ressalta a importncia da publicidade, bem como evidencia a audincia dos meios de comunicao, o que corrobora a necessidade de torn-la cada vez mais acessvel: Hoje adultos, homens e mulheres, assduos ouvintes dos meios de comunicao tradicionais, de suas notcias, editoriais, contos, campeonatos esportivos, copas do mundo, nascimentos e mortes, msica, crnicas, poesia, radionovelas, missas, cultos, novelas e, enfim, publicidade. Ouvintes dos acontecimentos do Brasil e do mundo narrados pelas testemunhas oculares da histria, formando gostos e subjetividades, ressignificando os tantos discursos da mdia (ALVES, 2012, p.1). Nota-se, a partir do texto de Alves (2012), a importncia dos meios de comunicao tradicionais para a vida cotidiana das pessoas. Os deficientes visuais tambm so parte integrante desse pblico, sendo assim, desde julho de 2011, as emissoras de TV brasileiras com sinal aberto e j licenciadas para transmitir com o sinal digital devem exibir pelo menos duas horas semanais de produes adaptadas para o pblico com alguma deficincia visual por meio da audiodescrio. As tecnologias de acesso que existem atualmente devem funcionar como um impulso para que empresas, de diversos setores, adaptem seus produtos, servios e principalmente sua comunicao para os pblicos que possuem algum tipo de deficincia. Tornar a propaganda acessvel acima de tudo uma oportunidade de maximizar a exposio do seu produto e/ou servio. Essa acessibilidade, no Brasil, amparada pelo Decreto n. 5.296/20041 regulamentador da Lei de Acessibilidade n 10.098 , o qual estabelece normas gerais 1 Decreto n 5.296, de 2 de dezembro de 2004. Disponvel em: . Acessado em: 7 de dezembro de 2012. 198. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 3 e critrios bsicos para a promoo da acessibilidade das pessoas portadoras de deficincia ou com mobilidade reduzida. Tal decreto, em seu Captulo III, pargrafo I, item d, determina que as barreiras nas comunicaes e informaes so: (...) qualquer entrave ou obstculo que dificulte ou impossibilite a expresso ou o recebimento de mensagens por intermdio dos dispositivos, meios ou sistemas de comunicao, sejam ou no de massa, bem como aqueles que dificultem ou impossibilitem o acesso informao (BRASIL, 2004). Do ponto de vista empresarial, em seu artigo Gesto da Responsabilidade Social Empresarial, o Doutor em Sociologia Elizeu Francisco Calsing (2004, p.1) destaca que: Um nmero cada vez maior de empresas est descobrindo que assumir compromissos sociais pode gerar vantagens competitivas e resultados favorveis para seus negcios. Est incorporando, portanto, no ncleo de suas funes estratgicas, objetivos que ultrapassam seu desempenho financeiro, mercadolgico e tecnolgico, e que passam a ser denominados de desempenho social e ambiental. Ratificando essa importncia do desempenho social e ambiental, uma pesquisa realizada pelos Institutos Akatu e Ethos apresenta um panorama sobre a percepo do consumidor brasileiro em relao s aes de responsabilidade social das empresas, evidenciando que estas devem aprimorar suas estratgias, em prol de aes peridicas voltadas sustentabilidade social. Tal pesquisa constatou que: 51% do pblico em geral atribui um papel para as empresas que vai alm do meramente econmico, concordando em definir esse papel como sendo de estabelecer padres ticos mais elevados, indo alm do que determinado pela lei, ajudando ativamente a construir uma sociedade melhor para todos, somado ao papel de ter um padro de comportamento entre concentrar-se em gerar lucro e estabelecer padres ticos mais elevados (AKATU e ETHOS, 2006-2007, p.13). Grande parte das empresas que esto adotando essas diretrizes de insero social acredita que a incluso de pessoas com algum tipo de deficincia em seu quadro de colaboradores j atende s expectativas de responsabilidade social empresarial, uma vez que esto agindo de acordo com a legislao de incluso social, porm as empresas tambm devem estar atentas demanda de pessoas com deficincia que consomem seus produtos. um grande equvoco concluir que pessoas com deficincia visual no consomem produtos que so essencialmente ou primariamente visuais. Esses produtos esto sim no cotidiano dessas pessoas, para consumo prprio ou para presentear outra pessoa, por exemplo. A preocupao de elaborar campanhas que atinjam tambm os deficientes visuais deve partir das empresas e organizaes, porm extremamente importante que as agncias de propaganda, como interlocutores entre a empresa e seu pblico-alvo, invistam em profissionais capacitados para desenvolver propagandas acessveis. Neste cenrio, o recurso da audiodescrio, apresentado a seguir, um dos mais promissores na adaptao de anncios audiovisuais para as mdias tradicionais e 199. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 4 digitais, embora tenha sido usado na construo de alguns equvocos encontrados na rede, justamente por ter sido produzido sem o preparo ideal para criar um equivalente textual das imagens que esto na tela. Este trabalho se prope a expor a necessidade da produo de propagandas audiovisuais acessveis para serem veiculadas nas mdias tradicionais (TV e Rdio), uma vez que esses meios so uma das principais fontes de informao para pessoas com deficincia visual (ALVES, 2012), promovendo, assim, maior acesso informao e consequentemente maior autonomia s pessoas com esse tipo de deficincia, a fim de proporcionar-lhes melhores condies para tomadas de decises no cotidiano. O que a audiodescrio? De acordo com Sena (2013, s.p), para o Blog Lead2 : A acessibilidade nos meios de comunicao um tema que est em pauta no mundo todo. Os esforos neste sentido visam no apenas proporcionar o acesso a produtos culturais a uma parcela da populao que se encontra excluda, como tambm estabelecer um novo patamar de igualdade baseado na valorizao da diversidade. Para possibilitar essa acessibilidade, existe a audiodescrio: um recurso que visa incluso de cegos e deficientes visuais consumidores de meios de comunicao visual. Muito utilizada em eventos culturais como: peas de teatro, exposies, musicais, palestras, eventos tursticos, esportivos e pedaggicos, a audiodescrio " uma atividade de mediao lingustica, uma modalidade de traduo intersemitica" (MOTTA; FILHO, 2010, p.11). Alm das pessoas com deficincia visual, a audiodescrio auxilia tambm o entendimento de pessoas com deficincia intelectual, idosos e dislxicos. Ou seja, uma forma de traduo audiovisual que consiste na narrao descritiva de elementos visuais: cenrios, figurinos, expresses faciais, movimentao de personagens etc. 2. Objetivos da pesquisa Essa pesquisa, alm de abordar a necessidade da elaborao de campanhas acessveis a deficientes visuais, ir: avaliar o material divulgado nas mdias; explorar o recurso da audiodescrio; destacar a importncia social de uma comunicao de qualidade para deficientes visuais; e identificar as expectativas que esse tipo de produo pode gerar. 3. Metodologia A princpio estabeleceu-se uma imerso no universo dos deficientes visuais, a fim de observar seus hbitos e suas principais formas de comunicao. No primeiro momento do projeto, foi necessria uma pesquisa bibliogrfica, por meio da qual se entrou em contato com estudos e relatos sobre o cotidiano de pessoas com deficincia visual. A leitura de artigos cientficos e a anlise de notcias divulgadas em jornais e revistas foram utilizadas como base para identificar como a percepo 2 BLOG LEAD. Voc sabe o que audiodescrio? Disponvel em: . Acessado em: 5 de maro de 2013. 200. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 5 dessas pessoas sobre o mundo. Sero deixados, para um futuro aprofundamento dessa pesquisa, testes de usabilidade e experincia do usurio com produtos especficos e entrevistas, pois a anlise desse material demanda tempo, referncias pontuais, alm de transcender o escopo desse projeto. A partir de ento, surgiu a necessidade de uma pesquisa mais aprofundada sobre a audiodescrio e a forma com que ela utilizada. Em seguida, a pesquisa foi direcionada para o levantamento e anlise do material audiovisual disponvel na rede (Youtube), onde a audiodescrio foi utilizada como recurso para traduzir anncios audiovisuais. Nessa pesquisa, 15 vdeos foram selecionados para anlise, sendo todos eles propagandas institucionais, de produtos e/ou servios. Para a avaliao desses vdeos, consideraram-se as seguintes perguntas, usando como base as dicas do livro Which ad pulled best? De Philip Ward Burton e Scott C. Purvis (1996): A mensagem clara? fcil entender sem o auxlio do visual? O produto/servio/marca facilmente identificvel? Elaborou-se, tambm, uma anlise quantitativa para explorar os principais problemas na construo de um equivalente textual para a audiodescrio, levando em considerao: Quantidade de vdeos que apresentam rudos. Quantidade de vdeos que apresentam muita informao descrita. Quantidade de vdeos que apresentam informao desnecessria descrita. Resultados e discusso Conforme Cunha (2000, p.1): O primeiro passo para uma sociedade inclusiva que esta conceba a deficincia como uma diferena e no como um dficit. Dessa maneira, foi de extrema importncia entender que a atitude das pessoas perante o deficiente tende a salientar aquilo que ele no capaz de fazer, em vez de focar o que ele pode fazer (SCHOLL, 1986). Para Wagner (1992), existem duas maneiras de contribuir para a mudana dessa mentalidade: por um lado, reduzindo barreiras, tanto aquelas relacionadas mobilidade quanto aquelas que impedem o acesso informao, e, por outro, ajudando o deficiente a ultrapass-las. A falta de viso exige a disponibilizao de outros meios alternativos para que o deficiente receba informaes. Esses outros meios atingem os demais sentidos do indivduo e ajudam na sua percepo acerca do mundo. Nesse sentido, seus principais recursos de percepo tornam-se o tato e a audio (CUNHA, 2000). A grande maioria dos deficientes visuais ainda tem como principal fonte de informao as narrativas orais de seus familiares e amigos. Sendo assim, a recepo da publicidade presente nos meios tradicionais de comunicao (Rdio e TV), para esses indivduos, ainda depende de mediadores que compartilham sua compreenso das imagens do anncio e de certa maneira influenciam as prticas de consumo dessas pessoas. A partir disso, identificou-se aqui o potencial da audiodescrio em relao sensibilidade do deficiente visual a estmulos sonoros e tambm se enxergou essa ferramenta como uma alternativa mais confortvel, se comparada a anncios tteis, 201. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 6 por exemplo, que alm de se exporem a uma pea compartilhada por diversas pessoas, precisam da iniciativa do indivduo de se deslocar para acessar informao. Anncios do Youtube Conforme citado anteriormente, 15 anncios audiovisuais traduzidos com audiodescrio foram analisados. Os seguintes tiveram destaque na anlise qualitativa: Vdeo Bradesco3 Acessibilidade: Para promover os servios de acessibilidade das agncias Bradesco, esse anncio atende de forma objetiva e clara s necessidades deste pblico-alvo especfico. Com descries simples das cenas, o equivalente textual coerente com a necessidade de informao dos deficientes visuais. A marca facilmente identificada atravs da narrao. Rio 20164 - Lanamento da Marca Paraolmpica: Esse anncio oficial das Olimpadas do Rio em 2016 foi um dos grandes equvocos encontrados nessa pesquisa. A audiodescrio foi utilizada somente para identificar o nome dos autores dos depoimentos que compem o vdeo, porm no apresenta nenhuma descrio das imagens ou do contexto em que essas pessoas esto inseridas. Esse anncio no corresponde s expectativas que o recurso da audiodescrio promove no seu receptor, e acaba destacando o despreparo do governo para a produo desse tipo de anncio voltado para deficientes visuais. A audiodescrio, sobretudo no contexto de uma olimpada, muito importante, pois a pea apresenta informaes relevantes sobre a construo da marca paraolmpica Rio 2016. A marca identificada atravs da narrao. Natura Natur5 : Esse anncio, que tambm esteve presente na TV, apresenta um equivalente textual satisfatrio descrevendo de forma simples e objetiva as imagens presentes na tela. Porm, a descrio em alguns trechos do anncio acaba competindo com o dilogo dos personagens, o que dificulta o entendimento de ambas as informaes. Um dos destaques desse anncio a voz do narrador, que no robtica e sem emoo (ao contrrio do que se verifica em outros anncios analisados), alm de ser coerente com o contexto infantil apresentado no vdeo. A marca identificada atravs da narrao. Fundao Dorina6 Institucional: Esse anncio apresenta uma abordagem diferente de todos os outros. Nos primeiros 50 segundos descreve todas as cenas que esto presentes ao longo do vdeo e, em seguida, os dilogos e depoimentos iniciam-se. Esse anncio possibilita uma maior autonomia na interpretao por parte do deficiente visual, pois a descrio das cenas no acompanha a narrativa, 3 Bradesco Acessibilidade. Disponvel em: . Acessado em: 15 de maio de 2013. 4 Rio 2016 Lanamento da Marca Paraolmpica. Disponvel em: . Acessado em: 15 de maio de 2013. 5 Natura Natur. Disponvel em: . Acessado em: 15 de maio de 2013. 6 Fundao Dorina. Disponvel em: . Acessado em 15 de maio de 2013. 202. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 7 ou seja, o ouvinte situa-se no contexto antes do dilogo e pode interpretar de diversas maneiras as cenas descritas. A marca identificada atravs da narrao. Trailer Colegas7 O filme: Esse trabalho com a utilizao da audiodescrio teve um grande destaque na rede e deve servir como exemplo da utilizao do recurso. A pea como um todo extremamente coerente, a audiodescrio parece fazer parte do trailer. O tom de voz e a abordagem potica para a descrio do contexto visual constroem um equivalente to bom quanto a pea elaborada para o pblico que no tem alguma deficincia visual. Outro fator importante dessa pea que ela demonstra que no existe a necessidade de descrever todos os elementos visuais da cena para compor o contexto da mensagem. Elaborou-se tambm, conforme anunciado anteriormente, uma anlise quantitativa para identificar os principais equvocos na utilizao do recurso, tendo como resultados: 4 dos 15 vdeos apresentam rudos. Caracterizam-se por rudos trechos nos anncios em que h sobreposio de dilogo e narrao, o que consequentemente dificulta o entendimento da mensagem. 4 dos 15 vdeos apresentam uma grande quantidade de informao descrita e consequentemente a narrao fica muito rpida, uma vez que existe um grande esforo para descrever todos os elementos visuais da cena em um curto espao de tempo. 6 dos 15 vdeos apresentam informao desnecessria. Notou-se que em alguns casos as caractersticas das imagens que foram descritas no acrescentavam em nada para a sua traduo. Isto , em alguns vdeos as expresses cu alaranjado, tela escurece e um senhor de cabelos e barbas brancas so utilizadas para descrever o vdeo, quando na verdade poderiam ser substitudas por expresses como um senhor idoso, por exemplo, que se aproxima mais da realidade de percepo dos deficientes visuais. Apesar de alguns equvocos cometidos em algumas propagandas, verifica-se que, no Brasil, a audiodescrio est ganhando espao em diversas produes e eventos artsticos e culturais. Exibies de filmes, peas de teatro, espetculos de dana, eventos e exposies so as produes que mais aderiram ao recurso, porm nos meios de comunicao tradicionais, como o Rdio e a TV, a utilizao da audiodescrio bem menor. Ademais, se comparado com outros pases, o investimento do Brasil no recurso ainda mnimo. O pas em que a rea mais evoluda o Reino Unido. Alm de possuir audiodescrio nos teatros, museus e em mais de 300 salas de cinema, os principais canais de televiso mantm mais de 20% da programao audiodescrita (MACHADO, 2013). Entretanto, muito mais importante do que a utilizao do recurso o fato de que ele est sendo bem aceito pelo seu pblico-alvo. A audiodescrio uma excelente ferramenta, sendo, portanto, necessrio valoriz-la. 4. Concluso Como aponta Cunha (2000, p. 3), A falta de informao necessria ou suficiente para se deslocar de forma confiante condiciona a mobilidade do cego e por se movimentar 7 Trailer Colegas o Filme. Disponvel em: . Acessado em: 15 de maio de 2013. 203. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 8 pouco tem menos oportunidades de aceder informao perdendo autonomia. Essa observao se encaixa no somente dentro do contexto de deslocamento fsico, mas tambm no contexto de deslocamento para tomada de decises. O deficiente visual que recebe uma mensagem correspondente com a sua viso do mundo sente-se mais seguro e consequentemente mais independente. As palavras carregam uma extrema fora conceitual e simblica (ALVES, 2012), principalmente para aqueles que no tm um referencial visual. Portanto, a audiodescrio deve ser trabalhada de forma que destaque caractersticas que correspondam percepo do indivduo com deficincia visual. Ao invs de tentar descrever cores, por exemplo, possvel ser mais efetivo ao descrever sensaes. Vale salientar que a audiodescrio informal sempre foi feita por quem convive com pessoas com deficincia visual, geralmente colocando suas interpretaes sobre o contedo descrito. Porm, necessrio desenvolver meios para que os deficientes tornem-se independentes e passem a ter suas prprias interpretaes acerca daquilo que o cerca. Diante disso, parece que, atualmente: A audiodescrio vem, aos poucos, conquistando espao e adeptos em eventos culturais, tais como: peas, filmes, documentrios, peras, espetculos de dana, desfiles de moda, mostras e exposies em museus; acadmicos: congressos, seminrios, ciclos de palestras, sala de aula; passeios tursticos, eventos esportivos e sociais (MOTTA, 2010, p.11). Para permitir essa independncia aos deficientes visuais, necessrio realizar um trabalho minucioso. De acordo com Flvia de Oliveira Machado, autora do blog Com Audiodescrio, para elaborar o material traduzido preparado um roteiro de audiodescrio, desenvolvido aps um estudo do contedo a ser audiodescrito. Muitas vezes necessrio acompanhar a produo e realizar pesquisas sobre a obra para a elaborao desse roteiro. Dessa forma, muito importante que o profissional que trabalha com o recurso tenha uma maior sensibilidade para elaborar os equivalentes textuais. Muitas vezes algumas referncias que funcionam para pessoas que enxergam no carregam o mesmo significado quelas que no. Alm disso, deve existir tambm um cuidado em no comprometer totalmente a audio da pessoa com deficincia visual. A audio o recurso central para o equilbrio dessas pessoas em sua locomoo (CUNHA, 2000), por isso, o uso da audiodescrio deve ser explorado quando o deficiente visual estiver na segurana de sua casa ou em um ambiente onde ele no necessite que sua audio esteja muito atenta ao ambiente externo. Assim, as mdias mais indicadas para a distribuio de um material audiodescritivo so a TV, o Rdio e a Internet. Como j foi dito anteriormente, a sociedade ainda enxerga o deficiente visual pelas suas limitaes e acaba esquecendo-se do seu potencial. Porm, basta observar na mdia, por exemplo, como os novos suportes tecnolgicos ampliaram a forma como os deficientes visuais interagem com o mundo. Isso porque o indivduo privado da viso no est privado de criatividade, raciocnio ou da habilidade de desenvolver qualquer coisa. Muito pelo contrrio, notam-se, cada vez mais, deficientes visuais conquistando espao no desenvolvimento de grandes ideias. No seria ento uma soluo criar oportunidades para que os prprios deficientes visuais estejam por trs da elaborao de roteiros audiodescritos? Alis, quem poderia dizer melhor o que funciona e o que no funciona nesse tipo de traduo? claro que cada vez mais pessoas esto se qualificando nesse tipo de 204. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 9 trabalho, porm extremamente importante colocar-se sobre a perspectiva daquele que recebe a mensagem, porque assim possvel entender o esforo e determinao que lhe so exigidos para adaptar-se ao "mundo visual. O raciocnio tico que conduz a boa ao exige exatamente isso: colocar-se no lugar dos outros. Uma maneira de minimizar esse esforo pode partir da iniciativa de adaptar propagandas exibidas nas mdias tradicionais e digitais. So aes que podem desencadear uma nova maneira de comunicar-se com o deficiente visual e promover cada vez mais autonomia para esses indivduos. Conclui-se que a iniciativa de adotar a audiodescrio como ferramenta para propiciar acesso s propagandas televisivas deve partir das empresas e organizaes que anunciam seus produtos e servios, no s para promover a incluso, mas tambm para impulsionar uma mudana na forma pela qual a sociedade enxerga as limitaes do deficiente visual. Isso porque as empresas hoje se preocupam em ter um comportamento aceito pela sociedade (CALSING, 2004) e investem cada vez mais em iniciativas socialmente sustentveis que refletem na mentalidade e hbitos de consumo das pessoas. E claro que empresas engajadas com compromissos sociais agregam uma vantagem competitiva e apresentam resultados melhores nos negcios, se comparadas quelas que no. Exatamente por isso as empresas, organizaes, agncias de propaganda e produtoras devem investir tambm na propaganda acessvel. O deficiente visual escolhe as roupas que quer vestir, o corte de cabelo que deseja ter, quer se sentir bonito, desejvel e incluso (ALVES, 2012). Deseja tambm ter acesso a informaes que os outros consumidores tm, querem ter a possibilidade de basear sua escolha e decises no s pela necessidade de algo, mas tambm pelo seu posicionamento. claro que a utilizao do recurso, por si s, no ir imediatamente alavancar uma nova forma de enxergar o mundo para essas pessoas. O que se pretende uma reeducao de um hbito de muitos anos. importante que essas pessoas tambm estejam dispostas e abertas s possibilidades da audiodescrio, para que essas iniciativas sejam passos em um longo caminho que pode ressignificar a maneira como os deficientes visuais lidam com o lado visual do mundo no futuro. Elaborar propagandas acessveis, dentro do contedo distribudo pelas mdias, portanto, uma pequena ao que pode acarretar grandes resultados na promoo da incluso de pessoas, no s com deficincia visual, um hbito na sociedade. Referncias ALVES, M.C.D. Janelas para os ouvidos: publicidade, imaginrio e consumo dos cegos. Escola Superior de Propaganda e Marketing. So Paulo: Comunicon, 2012. BRASIL. Decreto n 5.296, de 2 de dezembro de 2004. Planalto. Disponvel em: . Acessado em: 7 de dezembro de 2012. CALSING, E. F. Gesto da responsabilidade social empresarial. Braslia, Coletnea de Textos, Seminrio Responsabilidade Social e Qualidade de Vida no Trabalho, 2004. Disponvel em: . Acessado em: 5 de fevereiro de 2013 CUNHA, M.P.T. A cidade vista do cego - Informao, Mobilidade e Cidadania, 2000. Disponvel em: . Acessado em: 16 de novembro de 2012. 205. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 10 INSTITUTOS AKATU E ETHOS. O que as empresas podem fazerpela incluso de pessoas com deficincia, So Paulo, 2002. Disponvel em: . Acessado em: 16 de maro de 2013. INSTITUTOS AKATU E ETHOS. Responsabilidade social das empresas - Percepo do consumidor brasileiro. Pesquisa 2006-2007 Sumrio de concluses. Disponvel em: . Acessado em: 25 de janeiro de 2013. MACHADO, F. de O. Audiodescrio ferramenta de incluso, diz especialista da rea. Blog Com Audiodescrio, 25. Out. 2011. Disponvel em: Acessado em: 15 de maro de 2013. MOTTA, L. Apresentao. Blog Ver Com Palavras, 2010. Disponvel em: . Acessado em: 12 de abril de 2013. MOTTA, L. M. V.; FILHO, P. R (Orgs.). Audiodescrio: Transformando Imagens Em Palavras. So Paulo: Secretaria dos Direitos da Pessoa com Deficincia do Estado de So Paulo, 2010. Disponvel em: . Acessado em: 14 de dezembro de 2013. PURVIS, S.C. 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Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design Vol. 3 no 1 janeiro de 2014, So Paulo: Centro Universitrio Senac ISSN 2179474 X 2014 todos os direitos reservados - reproduo total ou parcial permitida, desde que citada a fonte portal de revistas cientficas do Centro Universitrio Senac: http://www.revistas.sp.senac.br e-mail: revistaic@sp.senac.br CEM ANOS DE CIA CITY A Importncia dos Bairros-Jardins na Conformao da Cidade de So Paulo. 100 years of Cia City: The Importance of the City Gardens in the development of So Paulo. Juliana Lopes de Andrade, Prof. Dr. Mrcio Novaes Coelho Jr. Centro Universitrio Senac CAS BAU Comunicao, Arquitetura e Design - Bacharelado em Arquitetura e Urbanismo ju.l.andrade@uol.com.br, marcio.ncjr@sp.senac.br Resumo. Este projeto pretende estudar o papel dos Bairros Jardins projetados pela Cia City no incio do sculo XX, como planos de ordenamento urbano de determinada rea da cidade de So Paulo, no caso o Jardim Amrica, com enfoque no contexto histrico e sociocultural da cidade, analisando o tecido urbano em suas diferentes temporalidades, com suas permanncias, efemeridades e projees, buscando verificar os impactos da transformao causada por esta poltica urbana e sua influncia no reconhecimento de um patrimnio construdo da cidade. Palavras-chave: Bairro Jardim, Cia City, ordenamento urbano, So Paulo, Jardim Amrica. Abstract. This project aims to study the role of the City Gardens developed by the Cia City during the beginning of the 20th century, as planning instruments of a new residential neighborhood in So Paulo, the Jardim America, focusing on historical context and socio-cultural city, analyzing the urban fabric in their different temporalities and its permanence, seeking to verify the impact of consolidation of this urban policy and its influence on the recognition of a built heritage of the city. Key words: Garden City, Cia City, urban planning, So Paulo, Jardim America. 207. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 2 1. Introduo Como tema deste projeto de pesquisa escolheu-se estudar os Bairros Jardins, planejados pela inglesa Cia City ("City of So Paulo Improvements and Freehold Land Company Limited), fundada em maro de 1912, e as possveis influncias que os mesmos teriam na configurao da estrutura urbana de So Paulo. A escolha do tema teve como partida a relevncia da Cia City no processo urbano e paisagstico de So Paulo, que influenciou o urbanismo paulistano da poca, e contribuiu para a difuso de um determinado tipo de assentamento residencial, o dos Bairros Jardins, sendo uma das primeiras a implantar e planejar loteamentos de acordo com normas urbansticas; e o fato da companhia estar completando cem anos. Os bairros jardins paulistanos, surgiram a partir do conceito de Cidade-Jardim; primeiramente abordado por Ebenezer Howard. As teorias de Howard, publicadas em 1989, (SEGAWA,2000) defendiam uma cidade autnoma, que mesclasse as qualidades do campo e da metrpole, se apropriasse das qualidades naturais do terreno onde seria implantada, e, alm disso, fossem circundadas por um cinturo verde. A ideia era utilizar as caractersticas originais da terra, como drenagem, topografia, vegetao, para criar um ambiente que prezasse a vida em comunidade, e resgatasse elementos j perdidos na vida na cidade liberal. O novo modelo de se desenhar as cidades era uma resposta do estudioso ao fenmeno de perda de identidade e sociedade que vinha ocorrendo nas cidades inglesas, e principalmente nas suas regies perifricas. Baseados nesses ideais, os urbanistas Barry Parker e Raymond Urwin foram os responsveis por projetar a primeira Cidade Jardim implantada no mundo, Letchworth, em 1902. Esses mesmos urbanistas foram, aproximadamente dez anos mais tarde, chamados para desenhar o primeiro bairro jardim brasileiro: o Jardim Amrica. Assim, o modelo de assentamento das casas do Jardim Amrica, assobradadas e destacadas dos limites de seus lotes, veio da Europa, mas tornou-se padro para a implantao das residncias paulistanas da poca. Tambm, sua norma vigente de desenho urbano, homogneo e orgnico, com passeios ajardinados e arborizados, vegetao publica e residncias baixas, foi importada dos moldes ingleses e considerada sofisticada e adequada aos padres da cidade, passando assim a ser replicado em outros empreendimentos de bairros residenciais, tornando-se a novo meio de se lotear. A pesquisa teve assim seu foco direcionado para o estudo do Jardim Amrica, primeiro bairro institudo pela Cia City em So Paulo. Assim, sua implantao foi tomada de exemplo para se entender como funciona um bairro jardim em So Paulo, que relaes cria na cidade, e como foi sua manuteno com o passar do tempo. Sobretudo porque o caso particular deste bairro considerado representativo dentro de um conjunto de casos anlogos, pois, a partir da implantao do Jardim Amrica, diversos outros modelos de bairros jardins, inspirados no sucesso deste, se consolidaram em So Paulo (Jardim Paulista, Jardim Europa, Jardim Guedala). 2. Objeto de Estudo O objeto de estudo em questo, o bairro do Jardim Amrica, foi incorporado em 1915 e loteado por volta de 1919, tendo seu tombamento assinado em 1986. Faz parte do distrito Jardim Paulista e administrado pela subprefeitura de Pinheiros. O permetro definido para estudo se delimita entre as ruas Estados Unidos, Av. Nove de Julho, Groenlndia e Al. Gabriel Monteiro da Silva. Sua escolha como objeto de pesquisa baseia-se no pioneirismo do mesmo em sua proposta urbanstica, e nas polmicas geradas em relao ao seu processo de tombamento (WOLFF, Silvia, 2001). Alm 208. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 3 disso, o perodo de implantao e consolidao do bairro coincide com o momento em que se constituram as primeiras representantes da arquitetura paulistana moderna. 3. Objetivos da Pesquisa O projeto visa o estudo de traados e percursos, e a influncia dos mesmos na trajetria da formao do espao urbano na cidade de So Paulo, a partir da anlise especifica de determinado trecho da cidade: o loteamento realizado pela Cia City na regio do Jardim Amrica. A relevncia do projeto baseia-se, portanto, na ativa participao da companhia, que agora completa cem anos, no processo de transformao urbana e paisagstica de So Paulo, e na referncia histrica que estes bairros trouxeram para So Paulo, sendo que alguns deles (Jardim Amrica, City Lapa, Pacaembu) so inclusive tombados como patrimnio histrico pelo Condephaat (Conselho de Defesa de Patrimnio Histrico, Arqueolgico, Artstico e Turstico do Estado de So Paulo). 4. Metodologia A metodologia adotada baseou-se em um primeiro levantamento de dados bibliogrficos, que aps estudos e discusses gerou parmetros que guiaram o resto da pesquisa. Foram ento realizadas coletas de material documental e legislativo, e uma pesquisa de campo que resultou em um levantamento de material iconogrfico. As anlises desses dados recolhidos juntamente com o suporte bibliogrfico deram base para a elaborao de mapas e diagramas esquemticos sobre o local; e comparao, com base nos dados recolhidos, da situao atual do local com sua forma original. 5. Resultados Em 1910, a prefeitura de So Paulo propunha uma expanso urbana, contratando Barry Parker, famoso urbanista ingls, responsvel por realizar loteamentos conhecidos como cidade-jardim, para realizar projetos em So Paulo. O desenho urbano das cidades-jardim era feito levando em conta as caractersticas e elementos naturais do terreno (topografia, drenagem, vegetao). Assim, o desenho local valoriza o pedestre: com caladas largas, bem arborizadas, os recuos prestigiam o conforto trmico e lumnico. O desenho dos jardins pode ser considerado pioneiro nos moldes do urbanismo paulistano, e a massa vegetal se compara a edificada em questo de importncia, sendo que na poca de sua ocupao, foram definidos padres no s de uso e aproveitamento de lote, recuos e gabaritos, como tambm regras que exigiam existncia de massas arbreas, cercas vivas, caladas e passeios gramados. Quanto arquitetura, no h um nico estilo arquitetnico no Jardim Amrica, porm, uma mistura de edifcios eclticos, modernistas, neoclssicos e neocoloniais. H poucos edifcios originais, muito do que foi implantado de novo procura copiar os padres da poca de implantao do bairro. Quanto ao tombamento, foram tombados na rea do Jardim Amrica os seguintes elementos: o atual traado urbano, representado pelas ruas e praas pblicas contidas entre os alinhamentos dos lotes particulares; a vegetao , especialmente a arbrea, que passa a ser considerada como bem aderente; e as atuais linhas demarcatrias dos lotes, junto ao o baixo adensamento delas decorrente. Alm disso, quaisquer alteraes nas construes devero passar por prvia autorizao do CONDEPHAAT; no so permitidas mudanas no sistema virio, guias e larguras de caladas, sem prvia autorizao; permitido aos moradores o plantio de rvores e ajardinamento de caladas; e os projetos realizados na regio devero respeitar limites e volumetria 209. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 4 dos edifcios originais e ter parte do lote destinado ao ajardinamento com alta densidade arbrea. Alm da importncia histrica e turstica, a regio apresenta precioso valor ambiental e paisagstico, criando um microclima urbano mais mido e de temperaturas mais amenas. Em 2010, foi proposto um projeto de reviso do tombamento dos Jardins, quando o mesmo completou 25 anos, tentando modificar aspectos da legislao que se adaptassem melhor s caractersticas existentes nos locais, porm no obteve aprovao. Pesquisa de campo: Descrio de vias principais. -Vias Arteriais: Foram praticamente todas modificadas, ocupadas principalmente por showrooms. -Vias Coletoras: Ainda mantm o carter residencial e o desenho de caladas em sua maioria, mas grande parte j foi ocupada por servios. -Vias locais: Ainda funcionam no padro original, observam-se poucas mudanas na arquitetura tambm, e h um grande nmero de edifcios antigos. -Praas: As praas, apesar de bem conservadas, muitas por serem mantidas por empresas privadas, no so muito utilizadas pela populao local, mesmo aquelas que possuem equipamentos. Vrias delas funcionam apenas como canteiros e floreiras. As praas parecem no ser exatamente voltadas para uso pblico, mas tm funo de garantir a permeabilidade e condio de conforto ambiental e qualidade ecolgica do local. A partir da pesquisa de campo, foi criado um mapeamento de usos e ocupaes atuais das principais vias do Jardim Amrica, organizados no Mapa 1: 210. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 5 MAPA 1 - Mapa montado a partir de visitas, estudos, anlise de dados e levantamento iconogrfico de mapas e fotos sobre o Jardim Amrica, para determinar as formas aproximadas de uso e ocupao das vias. Fonte: Base Gegran; Edio Autora. Levantamento Iconogrfico MAPA A - Referncias histricas Seleo de locais e desenhos de rua considerados importantes por serem referncias histricas ou caracterizadores da tipologia do bairro. Dentre eles instituies que marcaram poca por motivos especficos; monumentos; conjuntos de praas e trechos virios que demonstram caractersticas de desenho urbano-paisagstico do lugar. (Observar Mapa A e Tabela de Figuras A). 211. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 6 MAPA A Localizao dos edifcios apontados na Tabela de Figuras A. Fonte: Base Google; Edio Autora. 212. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 7 TABELA DE FIGURAS A Seleo de imagens de locais de alta representatividade histrica. Fonte: Autora. A1. Parquia Nossa Senhora do Brasil. Praa Nossa Senhora do Brasil, s/n. Datada 1942, a igreja, originalmente de estilo colonial brasileiro modernizado, foi sendo modificada durante sua construo adquirindo um estilo ecltico, com elementos mouriscos, orientais, clssicos e barrocos. o principal marco do bairro, localizada exatamente no centro do mesmo, foi construda em local destinado pela Cia City para jardins; A2. Praa Homero Vaz do Amaral, s/n. Esquina das ruas Venezuela e Estados Unidos. Mantida pela F*Hits, a praa hoje possui esculturas diversas e instalaes artsticas. Graas decorao a praa tornou-se cenrio para fotos e propagandas de marcas de roupas; A3. Praa Dionsio de Carvalho, s/n. Localizada na Rua Colmbia. A praa ganhou sua importncia quando em 1927 foi inaugurado em 1927 o monumento para homenagear o Club Athletico Paulistano, primeiro time brasileiro a excursionar pela Europa; 213. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 8 A4. Club Athletico Paulistano. Rua Honduras, 1400. Desde os primeiros desenhos, o espao em que hoje est implantado o clube foi destinado para esse fim, sua fundao coincide com a do bairro. O local conta com infraestruturas diversas para a prtica de esportes, como quadras e piscinas, e atende no s moradores do Jd. Amrica como de diversos locais da cidade; A5. Praa Libertador Simn Bolvar, s/n. Localizada na Rua Canad. A praa pode ser considerada um elemento mais pontual, servindo de referencia apenas para as ruas em seu entorno. Formada apenas por canteiros, e sem equipamentos, tem sua manuteno realizada pelos prprios moradores das casas adjacentes; A6. Praa Adolfo Bloch, s/n. Localizada na Rua Colmbia. A praa funciona como um parque local com equipamentos diversos, e tem capacidade para atender um grande pblico, palco para diversos eventos culturais, educacionais e de lazer. Apesar disso, ela pouco utilizada, e assim como na maior parte das ruas do bairro a frequncia de pessoas pequena; A7. Praa das Guianas, s/n. Entre as ruas Canad e Nove de Julho. Funciona como um canteiro central separador de vias. Assim como a maioria das praas do Jd. Amrica ela no possui usos especficos e sua funo est relacionada bem mais a permeabilidade, e elemento paisagstico de composio do desenho das vias, que um espao para uso pbico de descanso, ou contemplao; A8. Praa General San Martn, s/n. Localizada na Rua Guadalupe. Mantida pelo banco Santander, possui equipamentos como playgrounds, e mobilirios; e uma escultura dedicada ao patrono que d nome praa. Tem escala bem maior que as outras praas existentes no bairro, mas apesar disso no se nota a presena de pessoas frequentes que utilizam o local; A9. Rua Argentina/ A10. Rua Canad. O desenho de vias e caladas, mostrado nas fotos acima, foi escolhido para representar todo o traado virio do Jardim Amrica, que pode tambm ser considerado como uma referncia e merece ateno especial devido s suas particularidades. Todas as caladas residenciais possuem tratamento paisagstico, desenhos especficos e reas destinadas para jardins; A11. Sociedade Harmonia Tnis, Rua Canad, 652. Fundado em 1930 por scios do Club Athletico Paulistano, possuiu dez quadras abertas e piscinas, atende a populao local e de outros bairros, alm de ser sede de diversos campeonatos da modalidade. O edifcio projetado por Fbio Penteado foi tombado como patrimnio histrico. MAPA B Showroons, comrcios e servios. Seleo de trechos virios caracterizadas por usos comerciais e de servios que fogem dos padres de construo e legislao existentes no bairro. (Observar Mapa B e Tabela de Figuras B.) 214. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 9 MAPA B Localizao dos edifcios apontados na Tabela de Figuras B. Fonte: Base Gegran; Edio Autora. 215. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 10 TABELA DE FIGURAS B Seleo de imagens de comrcios, servios e showroons. Fonte: Autora. B1. Showroom Via Itlia. Av. Brasil, 1779. No local so expostos carros das marcas Ferrari e Maserati, foi 216. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 11 inaugurado em 2009 e alm da funo cultural, tambm exerce papel turstico atraindo pblico para visitar os carros expostos; B2. C&C Showroom Brasil. Av. Brasil, 1860. O antigo palacete da Av. Brasil foi adaptado e hoje abriga um depsito da C&C. Parte da vegetao foi mantida e tambm alguns mveis e decoraes da poca de sua construo; B3. Av. Brasil, altura do nmero 2079. A avenida possui comrcios, servios, showroons e depsitos espalhados por toda sua extenso. a via mais movimentada; B4. Giroflex Forma, Rua Colmbia, 100./ B5. ASH Hair and Esthetics, Rua Colmbia, 229./ B6. Tnia Bulhes, Perfumes. Rua Colmbia, 270. A parte baixa da Rua Colmbia possui showroons, clnicas, e servios variados, com maior adensamento vegetal, tem caladas e passeios desenhados e vegetados, baixa luminosidade e maior conforto trmico e umidade que a parte alta da mesma; B7. Hyundai, Rua Colmbia, 652./ B8. Audi, Rua Colmbia, 710./ B9. Citren, Rua Colmbia, 740./ B10. Bentley, Rua Colmbia, 784/ B11. Mercedes-Benz, Rua Colmbia, 785./ B12. Aston Martin, Rua Colmbia, 799. A parte alta da Rua Colmbia marcada pela existncia de concessionrias das mais diversas marcas, acabou tornando-se referncia na cidade por possuir um tipo de servio especfico. Possui caladas largas e pouco vegetadas, o local recebe alta incidncia solar, fugindo dos padres paisagsticos definidos para o bairro; B13. Salo 1838, Rua Estados Unidos, 1838./ B14. 2001 Locadora, Rua Estados Unidos, 1324./ B15. HSBC, Rua Estados Unidos, 1240./ B16. LINCX, Rua Estados Unidos, 1162./ B17. S. C. Sapatos, Moda, Acessrios, Rua Estados, 1122/ B18. Zabo Engenharia, Rua Estados Unidos, 1044./ B19. LINCX, Rua Estados Unidos, 1000. O comrcio de rua da Estados Unidos o menos elitizado e parece ser mais voltado ao pblico local. Isso pode ser consequncia do fato da via ter sido destinada desde o inicio do bairro para usos comerciais; B20. Doural, Alameda Gabriel Monteiro Da Silva, 795./ B21. Portoro, Alameda Gabriel Monteiro da Silva, 756./ B22. Alberflex Mveis, Alameda Gabriel Monteiro da Silva, 755./ B23. Espao Til, Alameda Gabriel Monteiro da Silva, 689. A Alameda Gabriel Monteiro da Silva pode ser considerada a mais movimentada depois da Av. Brasil devido a sua ocupao total por showroons de alto padro. A via no visa atender apenas pblico local, mas ser um ponto de vendas que atrai pessoas de diversos locais da cidade; B24. Joo Mansur Arquitetura, Rua Groenlndia, 1922./ B25. Avanti Carpet, Rua Groenlndia, 1951. A metade mais alta da Rua Groenlndia ocupada por lojas, showroons, e escolas de artes e lnguas. Provavelmente por conta de esse trecho ser o mais prximo da Al. Gabriel Monteiro da Silva, contrastando com a metade mais baixa da rua, onde a ocupao em sua maioria residencial. MAPA C Residncias Seleo de residncias e trechos residenciais considerados marcantes, ou por serem originais do perodo de criao do bairro, e por sua arquitetura histrica preservada, 217. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 12 ou por terem sofrido reformas drsticas, pela agressividade das modificaes, ou contrate que causam em seu entorno. (Observar Mapa C e Tabela de Figuras C.) MAPA C Localizao dos edifcios apontados na Tabela de Figuras C. Fonte: Base Gegran; Edio Autora. 218. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 13 TABELA DE FIGURAS C Seleo de imagens de residncias. Fonte: Autora. C1. Rua Honduras, 1361. O estilo arquitetnico da casa foi representativo do perodo de sua construo, a casa apresenta caractersticas neocoloniais e regionalistas alm de arcos de pedras incrustadas tpicos de uma simplificao da linguagem hispano-americana; C2. Rua Estados Unidos, 1053. Na rua h poucas residncias implantadas, e a maioria encontrada l parece ter sofrido reforma recente, como esse palacete, que se encontrava em obras; C3. Rua Estados Unidos, 1358. Outra residncia na Rua Estados Unidos que apresenta recente reforma, mas que procura manter parte de suas caractersticas estilsticas; C4. Rua Canad, 85. Exemplo da forma de tratamento paisagstico existente intra-lote; os lotes tem grande parte de suas reas permeveis e com alta concentrao arbrea. Observa-se bem essa caracterstica nessa residncia, pela diversidade de espcies vegetais, rvores de copa densa e palmeiras; C5. Rua Canad, 240. Residncia que tambm apresenta diversos elementos caractersticos do Jardim Amrica idealizado por Barry Parker, como os muros baixos, 219. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 14 as caladas ajardinadas e a alta quantidade de vegetao dentro do lote; C6. Rua Canad, 390. Mais um exemplo da mescla estilstica do Jardim Amrica. Com elementos mais orgnicos como o porto Art Nouveau, contrastando com as formas mais geometrizadas da edificao; C7. Rua Canad, 424. Novas elites que ocuparam o bairro mais recentemente investiram em arquiteturas mais monumentais, remetendo aos elementos clssicos, grandes jardins racionalistas, e uso de paredes brancas; C8. Rua Canad, 602./ C9. Rua Canad, 671./ C10. Rua Canad, 677./ C11. Rua Canad, 739. Conjunto de casas da rua Canad das dcadas de 30 e 40, demonstram como o modo de vida do refletia-se na arquitetura; muros baixos, muitos ornamentos, portes e esquadrias adornados, misturas de elementos estilsticos. Nota-se tambm a como o tempo influi na arquitetura, que assumia formas mais limpas e geometrizadas nas residncias mais novas; C12. Rua Canad, 787. Exemplo de como os moradores tem investido em elementos que em sua opinio trazem mais segurana as suas casas, como os muros altos, ultrapassando os 1,2m de muro delimitados na poca da ocupao do bairro, e outros equipamentos como cmeras e guaritas. C13. Rua Argentina, 219. Uma das diversas residncias construdas em estilo normando, nome genrico para um tipo de construo com telhados de alta inclinao, estruturas em madeira enxaimel, e janelas pequenas, o tipo de construo usada em pases frios para proteo da neve, esteve ironicamente sempre presente no Jardim Amrica contribuindo para o seu clima buclico. C14. Rua Groenlndia, 1338. Construda em 2009, aps demolio do edifcio pr-existente, demonstra a ocupao mais recente do bairro por edifcios de carter contemporneo. C15. Rua Groenlndia, 1371. Conhecida como Casa Manchete, foi tida como um dos cartes postais da cidade por ter pertencido a Dr. Adolfo Bloch, dono da Editora Manchete e da Rede Manchete de Televiso, manso afrancesada, com mansardas e guas-furtadas. A casa foi originalmente construda para residncia do Ministro Horcio Lafer, sendo posteriormente vendida para o dono da Manchete e, em seguida para o empresrio Jorge Yunes, que murou a casa por volta de 2006, aps um assalto. Hoje parece que o proprietrio da manso o ex-senador Gilberto Miranda. C16. Av. Brasil, 2016. Uma das poucas residncias remanescentes na Av. Brasil, seno a nica, tambm em estilo normando. Sobre esses dados discorre-se que apesar possuir de um desenho completamente favorvel caminhada do pedestre, as ruas so basicamente ocupadas somente por carros, o trnsito de pessoas muito pequeno e nulo em algumas partes. Motivos hipotticos podem ser a insegurana dos usurios ou a falta de usos mistos e outros atrativos. A elitizao do bairro, a segurana exagerada, os muros altssimos negando 220. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 15 completamente a ideia de cercar os lotes com paredes de at 1,20m previstas no projeto original, podem ser agravantes nesse processo de desuso das ruas por pblico de transeuntes. Mesmo assim, inegvel a representatividade do bairro para a regio em que foi implantada por diversos fatores. 6. Concluso As formas de ocupao do Jardim Amrica no incio do sculo passado e a diversidade estilstica de suas residncias foram, juntamente com o traado criado pela City, os elementos caracterizadores do bairro. As casas, smbolos de momentos arquitetnicos diferentes, seus moradores e as vivncias que se desenvolveram no local deram vida imagem que temos hoje do mesmo. Essa imagem, apesar de consolidada, veio se modificando nos ltimos anos devido a fraquezas na legislao vigente, entre outros fatores. Apesar de possuir um desenho urbano altamente reconhecvel e responsvel pelo sucesso da Companhia City (favoreceu, inclusive seus cem anos de existncia) a forma do bairro tem sido desmerecida com o passar do tempo. A legislao protege os elementos paisagsticos, virios e de parcelamento, porm, no eficaz ao que se diz respeito manuteno das edificaes e formas de uso locais. Com a construo de elementos que no estavam presentes no projeto original de Parker, como muros altos e guaritas, o bairro perdeu muitas de suas caractersticas originais de uso e ocupao do solo e parte da sua essncia. O local, desenvolvido para favorecer o percurso a p, dotado de caminhos arborizados, referncias buclicas e pitorescas, no mais utilizado dessa forma. O trfego de pedestres praticamente nulo, os espaos pblicos so pouco utilizados e as ruas so apenas ocupadas por veculos. Muitas residncias foram mascaradas dando lugar comrcios e servios; outras vezes showroons ocupam os lotes, que deveriam ser exclusivamente residenciais, com aprovao legal, usando a desculpa de no realizarem atividades comerciais, somente expositivas. Isso faz com que o tombamento conquistado pelos moradores para garantir a essncia tradicional do bairro venha aos poucos perdendo seu sentido. Apesar de tudo isso, pensar em impor no bairro formas de ocupao unicamente residenciais como garantia de sucesso um tanto quanto paradoxal. J que ao limitar esse tipo de uso cria-se uma ocupao mais elitizada limitando tambm o melhor aproveitamento das formas urbanas pelos transeuntes. Talvez a melhor maneira de retomar o modelo de bairro idealizado por Parker e Urwin seja mesclar os diferentes usos, porm com incentivo legal e regulamentado. Conclui-se assim que a ocupao no residencial que vem ocorrendo no Jardim Amrica, principalmente nos ltimos dez anos, apesar de acelerar o processo de descaracterizao do bairro, poderia funcionar como uma soluo para a melhoria de seu carter de uso pblico; se feita de forma padronizada e regulamentada. A verdade que a legislao atual d pouco suporte manuteno do Jardim Amrica original, das residncias, e favorece situaes de ocupao consideradas imprprias pela lei. Durante seus cem anos de existncia, a Cia City foi responsvel por trazer referncias arquitetnicas e urbansticas para a cidade, com seu jeito europeu, orgnico e sustentvel de se lotear, e favoreceu na conformao da histria de So Paulo. A companhia trouxe uma forma de loteamento, que apesar de no ser para todas as classes, no pode ser negligenciada, devido sua importncia histrica, artstica, cultural e arquitetnica. Um modelo que merece ser preservado e ter uma legislao que garanta o melhor aproveitamento possvel de suas obras; tanto por seus moradores, como por visitantes e pela cidade em geral; no somente no Jardim Amrica, tomado como exemplo nesse projeto, mas tambm nos muitos outros bairros criados pela empresa. 221. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 16 Referncias ANDRADE, Carlos Roberto Monteiro de. Barry Parker: um arquiteto ingls na cidade de So Paulo. 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Preldio da Metrpole: arquitetura e urbanismo em So Paulo na passagem do sculo XIX ao XX. So Paulo: Atelie Editorial, 2000. WOLFF, Silvia Ferreira Santos. Jardim Amrica: o primeiro bairro-jardim de So Paulo e sua arquitetura. So Paulo: EDUSP: FAESP, Imprensa Oficial, 2001. ____. O tombamento dos Jardins In Folheto comemorativo do Tombamento das reas que compem os Jardins Amrica, Europa, Paulistano e Paulista, em ato presidido pelo Governador Franco Montoro no dia 23 de janeiro de 1986 nos Jardins do Museu da Casa Brasileira. 222. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design Vol. 3 no 1 janeiro de 2014, So Paulo: Centro Universitrio Senac ISSN 2179474 X 2014 todos os direitos reservados - reproduo total ou parcial permitida, desde que citada a fonte portal de revistas cientficas do Centro Universitrio Senac: http://www.revistas.sp.senac.br e-mail: revistaic@sp.senac.br A permanncia das ideias: os experimentos de Buckminster Fuller e seu rebatimento no desenvolvimento de estruturas tensionadas The permanence of ideas: the experiments of Buckminster Fuller and tensile structures Thamara Cristina da Fonseca Nadais , Valria Fialho Estudante do Centro Universitrio SENAC - Bacharelado em Arquitetura e Urbanismo Professora do Centro Universitrio SENAC tha_nadais@hotmail.com, valeria.sfialho@sp.senac.br Resumo. Este artigo apresenta, atravs de levantamento iconogrfico e construo de modelos tridimensionais, a relao entre forma e estrutura na obra de Buckminster Fller, com nfase nos experimentos que levaram construo da Dymaxion House, assim como a permanncia de suas ideias no desenvolvimento de estruturas tensionadas. Palavras-chave: estrutura, experimentos, Richard Buckminster Fuller, tensegridade. Abstract. This project studies, the relationship between form and structure in the work of Buckminster Fuller, with emphasis on experiments that led to the construction of the "Dymaxion House", and also discuss his legacy on the development of tensile structures. Key words: structure, experiment, Richard Buckminster Fuller, tensegrity. 223. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 2 1. Dymaxion House Uma as primeiras apresentaes do modelo da Dymaxion House foi feita por Buckminster Fuller no final de 1920. O projeto desta casa foi desenvolvido para que esta fosse autossuficiente, com sistemas de energia, auto-ventilao e regulao da temperatura e umidade, reciclagem de material vegetal e sistemas automatizados para cozinha e lavanderia, ajustando a luz e calor conforme necessrio. Os cmodos da casa eram divididos radialmente, dando continuao grade triangular do projeto. No interior da casa, muita luz, portas automticas, sistema de limpeza centralizado, aparelhos integrados e mobilirio adaptvel. Sua fachada apresenta um efeito de continuidade com os painis suspensos que dividem os cmodos, resultando em uma construo leve, firme e forte. Fig. 01: Richard Buckminster Fuller e o modelo da primeira casa. (Fonte: www.aqua-velvet.com). Neste projeto a estrutura suspensa e composta pela tenso de cabos, painis de vidro e telhado suspenso. A casa forma um arranjo habitacional com a forma de um hexgono, suportado por seis cabos ligados ao topo de uma coluna central e ancorado no solo. O suporte funciona estruturalmente coletando e distribuindo energia, gua e outros servios. 224. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 3 Neste arranjo, a circulao vertical tem redobrada importncia e funciona como ncleo funcional e estrutural, como pode ser visto na sequncia registrada abaixo: Fig. 02: Registro da evoluo do modelo experimental desenvolvido com nfase na montagem da estrutura. (Fonte: http://www.themotart-journal.com/2010/08/dymaxion-house.html e fotos da autora) Com o intuito de compreender o conceito estrutural da casa atravs de uma leitura e interpretao de desenhos originais de Fuller, foi desenvolvido um modelo de experimentao, que segue registrado nas imagens abaixo: Fig. 03: Desenhos de Buckminster Fuller. (Fonte: BALDWIN, J.Bucky Works. Buckminster Fullers Ideas for Today). 225. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 4 Figs. 4: Registro do trabalho experimental: a partir da interpretao dos desenhos de Fuller (fig. 03) foi realizado um modelo em escala com o uso de varetas e barbante. A partir da construo da estrutura central, foi realizada em seguida a amarrao da estrutura central com uma linha contnua, seguida do hexgono que define o permetro da casa e colocado em volta da estrutura central. (Fonte: fotos da autora) Figs. 5: Os vrtices do hexgono so ligados com a linha at o ponto mais alto da estrutura. Seguindo o mesmo raciocnio, o mesmo procedimento foi realizado em todas as extremidades. Por ltimo, a linha de cada vrtice do hexgono se une a cada ponto da pirmide da base central. (Fonte: fotos da autora) Para dar continuidade ao projeto foi realizado um estudo de encaixes da fixao da pirmide ao mastro central e a anlise dos painis que do revestimento fachada e que permite ngulos de abertura de forma desejada pelo usurio, como mostra a figura abaixo: Fig. 6: estudo de revestimento da estrutura associados a Dymaxion House. (Fonte: BALDWIN, J.Bucky Works. Buckminster Fullers Ideas for Today). 226. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 5 Fig.7: Estudos de estruturas associados Dymaxion House. (Fonte: fotos da autora) Conforme constatado no processo de elaborao dos modelos, esses painis se constituem atravs da prpria estrutura inicial e sua estabilidade tambm se d pelo tubo de ligao que se conecta ao cho. O painel contnuo que percorre toda a casa de grande importncia para proteger os ambientes da casa para da incidncia solar e controlar a temperatura nos mesmos. A partir dos estudos realizados, percebemos que toda a estruturao, assim como seus cabos de ligao e funcionamento da casa feito por meio de um tubo que conectado abaixo do solo e tudo se desenvolve a partir dele. Como o processo de montagem explicita, percebemos que existe uma sequncia de nveis da casa, comprovando que suas paredes foram pensadas de modo a fazer uma organizao dos ambientes de forma livre, podendo haver modificaes entre a distncia, cmodos maiores ou menores, conforme a figura abaixo: Fig.8: Ambiente interno da casa, a disposio dos mveis e sua utilizao. (Fonte: http://www.themotart-journal.com/2010/08/dymaxion-house.html) Os modelos desenvolvidos esclareceram as formas utilizadas por Buckminster Fuller em seus projetos e na prpria anlise de formao da estrutura, que conferia leveza casa, distribuindo-a de forma regular e, principalmente, atuava como um mastro central que a define e gera o funcionamento da mesma. 227. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 6 2. Estruturas tensionadas Dando continuidade ao estudo das experincias de Fuller, surgiu o interesse em verificar a permanncia de suas ideias no desenvolvimento de estruturas tensionadas. A origem das estruturas tensionadas vem das tendas e toldos tradicionais, montadas h pelo menos dois mil anos e foram sendo usadas no decorrer da histria, particularmente em sociedades nmades que necessitavam de coberturas portteis para sua proteo, feitas a partir de linhas de tecido, pele de animais ou materiais tramados (figura 9). Fig.9: Evoluo de abrigos ao longo da histria. (Fonte: http://www.unimar.br/feat/assent_humano4/membranas.htm) As estruturas tensionadas vm sendo muito procuradas por se tratar de uma estrutura que possibilita diversas concepes arquitetnicas, por sua qualidade de vencer grandes vos, ser utilizada por sua praticidade e variao de uso: coberturas de estdios, eventos (figura 10), garantirem sombreamento e proteo de ambientes, entre outros, alm de possuir alta eficincia trmica e luminosa. Fig.9: Tenda no Club A Hebraica, estrutura na Represa Guarapiranga e Estdio Olmpico de Munique, de Frei Otto, 1972. (Fonte: http://leoprojeta.blogspot.com.br/2011/11/estrutura-tensionada- no-clube-hebraica.html, foto da autora e http://www.olympiapark.de/) Em relao eficincia luminosa, as mantas possuem capacidade de baixo isolamento e, consequentemente, alta refletividade da luz, podendo assim ser utilizadas para captar a luz natural (temperaturas quentes ou temperadas com radiao solar alta), diminuindo o custo e a quantidade de lmpadas artificiais. Ao contrrio da eficincia luminosa, essas estruturas no oferecem muita resistncia acstica por possurem baixssima massa, porm, pode ser resolvido com o uso de duplas ou triplas camadas de tecido com melhor capacidade de absoro. 228. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 7 O desenvolvimento das estruturas tensionadas se deu pela anlise aprofundada do arquiteto e engenheiro Frei Otto, a partir do final da dcada de 1950, que comeou seus experimentos com formas leves, tecidos, cabos e membranas de elstico e de sabo, sustentadas em suas bordas por meio de fios e arames para ter um melhor resultado na hora de tensionar, como exemplo na figura 11. Fig. 11: Primeiros experimentos de Frei Otto. (Fonte: BAIXAS, Juan Ignacio. Forma resistente). Os estudos seguintes, realizados com estruturas sinclstica e anticlstica, foram desenvolvidos a partir da construo de modelos fsicos para permitir um melhor entendimento da sua concepo estrutural, alm de comprovar as hipteses geradas pela observao de elementos no cotidiano. Fig. 12: Montagem de uma estrutura tensionada definida por trs arcos. (Fonte: fotos da autora) Os trs arames, para comear a definir a estrutura, foram colocados na forma vertical e horizontal do plano, todos com um mnimo de curvatura para se integrar com o revestimento escolhido (tecido malevel). A linha de nylon possibilitou a ligao de todos os pontos da estrutura, que comea do arco da posio vertical, liga-se com os seguintes, proporcionando uma melhor resistncia para a estrutura que comea a ser gerada. A estabilidade da estrutura se d pela linha e a partir da colocao do tecido, no caso ela se torna a definidora das vigas, que so resistentes aos esforos da trao, como visto na figura 13, 14 e 15. 229. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 8 Fig. 13: Estabilidade da estrutura. (Fonte: fotos da autora) Fig. 14: A figura representa o ambiente interno gerado da cobertura. As curvaturas ficam bem visveis e estruturadas. (Fonte: fotos da autora) 230. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 9 Fig.15: Vista total da estrutura. (Fonte: foto da autora) Com a estrutura finalizada, possvel ver sua formao desde o seu ponto inicial at o ponto que chega a base. A fora de trao contnua nesse percurso, se dividindo nos dois sentidos da forma. Como explicado no incio do estudo, conclumos que a estrutura elaborada uma estrutura sinclstica (figura 16), onde a direo da fora no varia. Fig.16 Estrutura sinclstica. (Fonte: desenho da estrutura feito pela autora) Outro modelo de estrutura tensionada so as anticlsticas, como exemplo, as tendas de circo, elaborada no sistema eletrnico. Ela se forma a partir de crculos e arcos ligados, que geram uma superfcie tensionada, como analisados nas figuras 17, 18 e 19: 231. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 10 Fig. 17: Crculos, arcos e superfcies da estrutura. (Fonte: desdenho elaborado no software Autocad pela autora) Fig.18: Detalhe da curvatura lateral da lona e do arco superior e seu raio. (Fonte: desdenho elaborado no software Autocad pela autora) Fig.19: Imagem ilustrativa do desenvolvimento da lona. (Fonte: modelo tridimensional elaborado no software Autocad pela autora) 232. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 11 No modelo fsico, a montagem da estrutura comea, na sequncia, pelo posicionamento dos cabos de trao em 45 em relao a lona de cobertura, como na figura 15, em seguida a distribuio dos cabos pela estrutura inteira de forma radial e fixada ao solo e por fim, puxada por mastros de sustentao, ficando fixo pelo mesmo (figura 20). Fig.20: Processo de montagem da estrutura anticlstica. (Fonte : fotos da autora) 233. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 12 Fig.21: Estrutura finalizada. (Fonte : foto da autora) 3. Concluso Com a concluso desta fase do trabalho, foi possvel verificar que os sistemas estruturais tensionados so um recurso de tecnologia sofisticada, aplicveis, sobretudo para determinados programa, como em aeroportos, estdios, que demandam eficincia estrutural para vencer grandes vo com estruturas leves. Neste contexto, as experincias de Fuller foram fundamentais a evoluo deste tipo de sistema, sobretudo no que diz respeito geometria dos componentes e ao uso de determinados materiais. Este tipo de sistema estrutural vence grandes vos, e podem compor sistemas desmontveis e de fcil transporte. Alm disso, na questo de materialidade, o uso do tecido na estrutura considerado importante por sua leveza e praticidade, qualidades que tambm conferem ao sistema grande expresso visual e versatilidade. Agradecimentos Agradeo Profa. Dra. Valria Cssia dos Santos Fialho pelas orientaes e por possibilitar reunies frequentes para tomar cincia e participar do desenvolvimento da pesquisa. Agradeo tambm ao meu pai, Henrique Aurlio Nadais, pela pacincia e auxlio em modelos tridimensionais, onde foi necessrio um cuidado maior ao manuseio de mquinas. Referncias AGUIAR, Elizabeth Oshima de.; BARBATO, Roberto Luiz de Arruda. Anlise da estrutura de cabos da cobertura do pavilho da feira internacional de indstria e comrcio - Rio de Janeiro. Cadernos de Engenharia de Estruturas, So Carlos, n. 20, 2002. 127-148 p. BAIXAS, Juan Ignacio. Forma resistente. Arq Ediciones. 2 edio, 2010. BALDWIN, J. Bucky Works. Buckminster Fullers Ideas for Today. New York: J.Wiley & Sons, 1996. CHING, F. ONOUYE, B.; ZUPERBUHLER, D. Sistemas Estruturais Ilustrados: Padres, Sistemas e Projeto. Porto Alegre: Bookman Editora AS, 2009. CONSALEZ, Lorenzo. Maquetes: A representao do espao no projeto arquitetnico. Barcelona: Gustavo Gili, 2001. ENGEL, H. Sistemas estruturais. Barcelona: Gustavo Gili, 1997. FOSTER, N. Dymaxion car: Buckminster Fuller. London: Ivorypress, 2010. HAYS, K. M.; MILLER, D. 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Bucky Works. Buckminster Fullers Ideas for Today. J.Wiley & Sons. New York, 1996. 08 BAIXAS, Juan Ignacio. Forma resistente. Arq Ediciones. 2 edio, 2010. 13 Desenho da estrutura elaborada pela autora. 14, 15 e 16 Desenho em software Autocad elaborado pela autora. 235. A produo independente na televiso e sua presena em um contexto local Independent production in television and its presence in a local context Fernanda Baptista Ribeiro, Karla Holanda (orientadora) Universidade Federal de Juiz de Fora - UFJF Instituto de Artes e Design Bacharelado Interdisciplinar em Artes e Design fernandab91@gmail.com, holanda.k@gmail.com Resumo. A sano da lei 12.485/2011, que determina cotas de contedo na TV por assinatura, representa um marco indito na legislao brasileira. Cotas de contedo j ocupam grande espao na programao de pases como Reino Unido, Chile, Canad e Argentina, onde os servios de radiofuso tambm se encontram bem regulamentados. Nesse trabalho, buscou-se contemplar brevemente o espao que a produo independente tem ocupado na histria da televiso brasileira, assim como conhecer mais sobre a produo independente de Juiz de Fora e verificar se a nova lei teve impacto imediato no mbito local. Para tal, foram realizadas entrevistas com duas produtoras da regio, buscando-se assim observar melhor o tipo de mercado que elas atendem e as oportunidades encontradas por elas atravs da nova lei caso existam. Palavras-chave: produo independente, cotas de contedo Abstract. The sanction of the law 12.485/2011, that determines content quotas on cable television, represents an unprecedented milestone in Brazilian legislation. Content quotas occupy a large space in the television programming of countries like UK, Chile, Canada and Argentina, where the broadcasting services are also well regulated. In this study, we sought to briefly contemplate the space independent production has played in the history of Brazilian television, as well as learn more about the independent production of Juiz de Fora and check if the new law had an immediate impact at a local level. To this end, interviews were conducted with two local production companies, in order to better observe the kind of market they serve and opportunities encountered by them under the new law - if any. Key words: independent production, content quotas 236. 2 Aps quatro anos de tramitao, foi sancionada pela Presidenta Dilma Rousseff a lei 12.485/20111 . Buscando estimular a concorrncia, desconcentrar o mercado e refletir a pluralidade brasileira nas telas, a lei determina, entre outros aspectos, que canais de contedo qualificado da TV por assinatura exibam em seu horrio nobre 3h30minutos semanais de obras audiovisuais brasileiras. Destas, 50% devero ser produes independentes. Alm disso, cada pacote oferecido dever conter um canal dedicado ao contedo brasileiro de programadora nacional para cada trs canais. A lei abrange apenas canais de TV por assinatura, e branda quando comparada s leis aplicadas em outros pases, mas ainda assim representa um avano na legislao brasileira. J h muito vem-se tentando regulamentar o setor audiovisual brasileiro, ainda que sem sucesso. Fortalecer a produo independente e nacional no somente aquece o mercado e cria empregos, como tambm permite a identificao do pblico com sua realidade vista na tela. No entanto, a necessidade de tal regulamentao e a dificuldade na aprovao da mesma so indicadores do pouco espao dado produo audiovisual nacional. Nesse trabalho, busca-se contemplar brevemente o espao que a produo independente tem ocupado na televiso brasileira, assim como observar se foi possvel notar o impacto da lei em um contexto regional. A televiso brasileira e sul-americana comeou com a TV Tupi, em setembro de 1950. Em seguida vieram a Record em 1953, a Excelsior em 1959 e a Globo em 1965. A precariedade tecnolgica e maior experimentalismo foram marcas desse incio da produo televisiva.Com o regime militar, foi definida a Lei de Segurana Nacional e os Objetivos Nacionais para o novo modelo econmico almejado pelo militares. O projeto previa aes como a acelerao do progresso, a modernizao do pas e a promoo da integrao nacional por meio das telecomunicaes e, com essa finalidade, surgem instituies como a Empresa Brasileira de Telecomunicaes (Embratel), em 1965; o Conselho Federal de Cultura (CFC) e o Instituto Nacional de Cinema (INC), em 1966; o Ministrio das Telecomunicaes, em 1967; a Empresa Brasileira de Filmes (Embrafilme), em 1969; e a Fundao Nacional de Arte (Funarte), em 1975 (HOLANDA, 2013, p. 82). Esse cenrio ser responsvel por mudanas na televiso, uma vez que suscitar simultaneamente o avano tecnolgico e a viabilizao do projeto poltico dos militares. (VARGAS, 2009, p. 14-21; SACRAMENTO, 2011, p. 35 apud HOLANDA, 2013, p. 82). Quando a empresa estadunidense Time-Life se aproxima da TV Globo, fornecendo aporte financeiro, a emissora se torna fortemente competitiva e a televiso brasileira deixa de ser improvisada e adquire uma estrutura comercial. A fim de estabelecer um padro de qualidade, a TV Globo investe em programas jornalsticos como Jornal Hoje, Globo Shell Especial, Globinho, Jornal Internacional, Globo Reprter e Fantstico (VARGAS, 2009, p. 26 apud HOLANDA, 2013, p. 82). a partir desse momento que emergir um vnculo entre televiso e a produo independente. O surgimento, na dcada de 60, do Cinema Novo - influenciado pelo neorrealismo e pela nouvelle vagueacaba por estimular uma nova forma de debater a realidade brasileira. V-se a produo de documentrios que traavam o panorama brasileiro, como os da Caravana Farkas, o que resulta em uma migrao de cineastas para a TV (HOLANDA, 2013). Os cineastas da Caravana Farkas, bem como a produtora paulista Blimp Films, passam a dirigir programas para o Globo Reprter e para o Globo-Shell Especial, cuja empresa patrocinadora estava se instalando no pas e desejava associar sua imagem a histrias brasileiras (HOLANDA, 2013, p. 85).O Globo-Shell Especial teve 25 programas exibidos, at que foi encerrado o financiamento do programa(HOLANDA, 2013, p. 86). 1 Disponvel em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2011/Lei/L12485.htm. Acesso em: 17 dez. 2012. 237. 3 Apesar do momento de represso militar, os cineastas puderam experimentar certa liberdade na realizao dos filmes exibidos no Globo Reprter. Segundo Lins (2004, p.19 apud HOLANDA 2013, p. 88), at 1981 os programas no usavam negativo e a montagem era feita no prprio original, o que dificultava o controle do material pela emissora. Alm disso, a equipe no trabalhava na sede da emissora, mas numa casa prxima, o que tambm dificultava um controle mais acirrado. Segundo Formaggini, na passagem para a dcada de 1980, alguns filmes tm suas exibies proibidas pela censura federal. O Globo Reprter interrompido e, quando volta no ano seguinte, no mais em pelcula, e sim em videtape, o que permite maior controle por parte da emissora. A Globo passa a almejar a padronizao e se afasta da linguagem cinematogrfica, adotando o modelo da srie estadunidense 60 Minutes (2002 apud HOLANDA, p. 89). Durante a dcada de 70, o documentrio feito por cineastas tambm estava presente na TV Cultura, com o Hora da Notcia, que buscava contrapor a imagem de paz e tranqilidade fabricada pela ditadura realidade de crise social e poltica (HOLANDA, 2013). Nos anos 70 a videoarte chega ao Brasil e, segundo Fechine, se diferenciava da TV na sua proposta tico-esttica, indo contra o modelo televisivo de base em interesses polticos e econmicos (apud HOLANDA, 2013, P. 91). No ncio da dcada de 90 chega ao pas a televiso paga, mas o veculo, que poderia ter marcado a presena da produo independente na programao dos novos canais, acaba por manter um modelo em que as participaes da produo independente nacional so irregulares e centradas em poucas produtoras (HOLANDA, 2013, p.100). Uma proposta inovadora nessa rea foi o DOCTV, projeto surgido em 2003 que constitua- se no fomento da produo de documentrios em cada estado e sua subsequente exibio em cadeia nacional, atravs de emissoras pblicas(HOLANDA, 2013, p.7). Criado e executado pela Secretaria do Audiovisual, rgo subordinado ao Ministrio da Cultura, o DOCTV teve quatro edies nacionais, nas quais foram produzidos 131 documentrios. Segundo Santana (2011, p.13), o DOCTV atua na cadeia produtiva do audiovisual da elaborao do roteiro exibio das obras fomentando cada etapa e auxiliando na formao de profissionais do setor. O carter regional das obras surgidas atravs do programa singular e permitia que a pluralidade nacional se mostrasse em rede nacional. O programa simultaneamente estimulava a produo de realizadores independentes sem vnculo direto com emissoras de televiso e atingia os problemas da distribuio e da descentralizao da produo (HOLANDA, 2013, p. 7).De difcil implantao, o DOCTV chegou ao fim em 2010 e sua continuidade no foi assegurada pelo novo arranjo poltico que assumiu o Ministrio da Cultura no governo Dilma (HOLANDA, 2013, p.20). Com a chegada da Lei 12.485/2011, a produo independente ganha um novo espao, ainda que reduzido, uma vez que ela s se aplica aos canais de TV paga. Ainda assim esse espao importante, considerando-se que, segundo Filho e Nazareno (2008, p. 5), se existem barreiras quase intransponveis veiculao de contedos independentes nos meios de comunicao, a diversidade de informaes acabar por ficar irremediavelmente comprometida e, por consequncia, tambm a qualidade da televiso brasileira. A busca por maior regulamentao da televiso e fortalecimento da produo nacional, como evidenciada pela lei 12.485/2011, no sem precedentes. O Projeto de Lei 256/19912, da deputada Jandira Feghali, propunha que emissoras de rdio e televiso exibissem diariamente de 7:00 s 23:00 horas, um mnimo de 30% de programas culturais, artsticos e jornalsticos totalmente regionais. Pelo menos um filme de produo nacional tambm deveria ser exibido semanalmente e o no cumprimento de tais determinaes poderia acarretar em multa, suspenso da concesso e at o cancelamento 2 Disponvel em: http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=15222. Acesso em: 13 mar. 2013 238. 4 da mesma. O PL 427/19913 , tambm da deputada Jandira Feghali, propunha que as emissoras de radiofuso executassem um mnimo de dois teros de msica brasileira com utilizao de lngua portuguesa, idioma indgena ou afro-brasileiro. Segundo a Ancine - Agncia Nacional do Cinema - cotas de produo audiovisual nacional so comuns em pases democrticos e de capitalismo avanado, fortalecendo o desenvolvimento econmico e cultural dos mesmos4 . Como pode-se observar no Apndice A, a situao brasileira bastante diferente da de pases como Reino Unido, Chile, Canad e Argentina, onde cotas de contedo ocupam maior espao entre a programao. Observa- se tambm que nesses pases, os servios de radiofuso se encontram bem regulamentados, com rgos prprios destinados a esse propsito. Juiz de Fora, uma cidade mineira interiorana de cerca de 516.247 habitantes5 , encontra- se fora do centro de maior produo cultural do pas, que compreende Rio de Janeiro e So Paulo. A fim de conhecer mais sobre a produo independente juizforana e verificar se a nova lei teve impacto imediato no mbito local, foram realizadas entrevistas com duas produtoras da regio. Busca-se assim observar melhor o tipo de mercado que elas atendem e as oportunidades encontradas por elas atravs da nova lei. A produtora Arbex est no mercado enquanto empresa desde 2010 embora, antes desse perodo, o dono j fizesse alguns trabalhos independentes. Sua maior demanda encontra- se no campo de filmes publicitrios, vdeos institucionais para empresas e DVDs musicais. A empresa nunca teve nenhuma obra veiculada na televiso, mas, segundo o produtor Czar Campos, tem buscado a possibilidade de produzir para a televiso por assinatura pensando na aplicao da Lei 12.485. Campos relata que: j comea a se notar alguns produtos novos, produzidos j com base na nova lei, em geral so programas de esportes6 e entretenimento. O que se nota tambm que fora do grande centro (Rio X So Paulo) no h ainda grande movimento em torno desse tipo de trabalho, porque tudo ainda muito tmido. (CAMPOS, 2013, em entrevista). Ele ainda salienta que, com a nova lei: existe uma nova ferramenta de fomento para o setor, porm os produtores principalmente fora do eixo no esto totalmente capacitados para captar esses recursos. Todas as formas de financiamento passam por aprovaes da Ancine ou Lei Rouanet, ai que comea a travar esse tipo de produo, a falta de conhecimento de formatao e captao dos recursos. Mais importante que fomentar o mercado se perguntar o quanto o mercado est preparado, e muita coisa volta ser produzido pelos mesmos grupos que j esto no mercado h muito tempo (CAMPOS, 2013, em entrevista). A Mais Comunicao, segunda produtora entrevistada, est no mercado desde 2009. Sua maior demanda tambm se encontra no campo publicitrio. Segundo o diretor de contedo Marcus Martins, a empresa j teve a oportunidade de exibir dois minidocumentrios no canal Futura e um programa no Agrocanal. A produtora tem o objetivo de produzir cada vez mais para a televiso, mas cr que ainda se paga muito pouco nessa rea. Para manter a estrutura a empresa, necessria a realizao de trabalhos institucionais e publicitrios, no permitindo que a mesma se foque apenas na produo para a televiso. Sobre a experincia de ter suas obras veiculadas na televiso, afirma: Pra gente foi uma experincia muito boa e o que a gente percebe que a cada dia a gente assume novos desafios, a cada dia a gente tem clientes diferentes, propostas diferentes, no d pra voc assumir um formato eu fao esse vdeo, esse, e esse. No. O mercado te diz aonde voc tem que correr atrs. (MARTINS, 2013, em entrevista). 3 Disponvel em: http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=176747. Acesso em: 13 mar. 2013 4 Disponvel em: http://www.ancine.gov.br/faq-lei-da-tv-paga. Acesso em: 17 dez. 2012 5 Disponvel em: http://www.ibge.gov.br/cidadesat/painel/painel.php?codmun=313670. Acesso em:16 jul. 2013 6 Ressalta-se que, de acordo com a Art. 2 da referida lei, pargrafo XII, eventos esportivos, contedos jornalsticos e programas de auditrio ancorados por apresentador no configuram contedo qualificado, logo, no podem ser includos na cota. 239. 5 Martins ressalta ainda as dificuldades do mercado local: Juiz de Fora um mercado muito concorrido, no um mercado unido, ento a gente acaba... pequeno, muita gente, ningum paga o produto, o preo que deveria valer, tem concorrentes desleais, tem gente muito boa no mercado tambm, ento temos sempre que manter a qualidade isso bom pro mercado mas tem o cara que faz de qualquer jeito e cobra menos e t fazendo, ou o cara que faz muito bem e cobra menos porque no tem custo ou no sabe analisar os custos dele. (MARTINS, 2013, em entrevista). O que se observa aqui uma descentralizao parcial. A nova lei permitiu que as produtoras independentes ocupassem mais espao na TV paga, no entanto essa produo parece se restringir aos grandes centros, em especial Rio de Janeiro e So Paulo. Adicionado a outros fatores, como a falta de maior conhecimento de alguns profissionais, isso tende a manter a produo independente nas mos das mesmas empresas. Revela- se assim um cenrio oposto ao que se buscava com o DOCTV, onde a descentralizao da produo audiovisual era uma prioridade, permitindo que comunidades fora do eixo Rio- So Paulo no s se vissem refletidos na tela, mas utilizassem esse mesmo espao para discutir suas questes. natural que um mercado como de Juiz de Fora tenha suas dificuldades particulares, uma vez que menor do que o dos grandes centros. No entanto, nota-se que a pouca valorizao das obras independentes impede que se invista mais na rea o que permitiria no s crescimento da qualidade do contedo produzido mas tambm crescimento econmico na rea. importante ressaltar, no entanto, que a amostra utilizada na pesquisa limitada e o resultado preliminar. Para se ter maior conhecimento da situao seria importante ampliar o nmero de produtoras entevistadas e buscar conhecer o cenrio em diferentes partes do pas. Quanto melhor se traar um panorama da situao, mais fcil ser tomar decises que beneficiem a todos. A aprovao da lei 12.485/2011 foi um importante passo no setor audiovisual nacional, mas necessrio ir mais longe. Em um pas de dimenses continentais como o Brasil, no se pode permitir que a produo audiovisual esteja confinada a um eixo to restrito. importante lembrar que, como afirmou o relatrio do Seminrio Nacional do Audiovisual de 2002, os canais de televiso aberta so objeto de concesso pblica e, nessa condio, devem atender aos preceitos de multiplicidade de opinies e de diversidade cultural que s podem ser oferecidos pela produo independente e pela programao regionalizada (HOLANDA, 2013, p.8). Estimular a produo independente e regional pode ser vantajoso no somente para o espectador, que passar a ter maior variedade de servios a sua disposio, mas tambm para a economia, com o aquecimento do mercado local e gerao de empregos. Referncias FECHINE, Yvana. O vdeo como um projeto utpico de televiso. In: MACHADO, Arlindo (org.). Made in Brasil: trs dcadas de vdeo brasileiro. So Paulo: Iluminuras: Ita Cultural, 2007. P. 85-110. apud HOLANDA, Karla. DOCTV: a produo independente na televiso. Tese (Doutorado em Comunicao) UFF. Niteri, RJ, 2013. FILHO, Jos de Souza Paz; NAZARENO, Cludio. Cotas de programao na televiso. Consultoria Legislativa da Cmara dos Deputados. Braslia, DF, 2008. Disponvel em: http://bd.camara.leg.br/bd/bitstream/handle/bdcamara/1315/cotas_programacao_pazet ali.pdf?sequence=1 Acesso em: 28 de mai. 2013 240. 6 FORMAGGINI, Beth. Cinema na TV: Globo Shell especial e Globo Reprter (1971-1979). In: Catlogo do Festival tudo verdade, So Paulo, 2002. apud HOLANDA, Karla. DOCTV: a produo independente na televiso. Tese (Doutorado em Comunicao) UFF. Niteri, RJ, 2013. HOLANDA, Karla. DOCTV: a produo independente na televiso.Tese (Doutorado em Comunicao) UFF. Niteri, RJ, 2013. LINS, Consuelo. O documentrio de Eduardo Coutinho: televiso, cinema e vdeo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004. apud HOLANDA, Karla. DOCTV: a produo independente na televiso. Tese (Doutorado em Comunicao) UFF. Niteri, RJ, 2013. MENDEL, Toby; SALOMON, Eve. O ambiente regulatrio para a radiodifuso: uma pesquisa de melhores prticas para os atores-chave brasileiros. Braslia, Unesco, Debates CI, no. 7, 2011. NAZARENO, Cludio. Anlise do projeto de lei de radiofuso em tramitao na Argentina. Consultoria Legislativa da Cmara dos Deputados. Braslia, DF, 2009. Disponvel em: http://bd.camara.leg.br/bd/bitstream/handle/bdcamara/1225/projeto_radiodifusao_naza reno.pdf?sequence=1 Acesso em: 20 de dez. 2012 SACRAMENTO, Igor. Depois da revoluo, a televiso: cineastas de esquerda no jornalismo televisivo dos anos 1970. So Carlos, SP: Pedro & Joo Editores, 2011. apud HOLANDA, Karla. DOCTV: a produo independente na televiso. Tese (Doutorado em Comunicao) UFF. Niteri, RJ, 2013. SANTANA, Ana Paula Dourado. Apresentao. In: DOCTV Oprerao de rede. So Paulo, SP: Instituto Cinema em Transe, 2011. SOBRINHO, Gilberto Alexandre. Sobre Televiso Experimental: Teodorico, O Imperador do Serto, de Eduardo Coutinho, e o Globo Reprter. Revista Eco-Ps, 2010, v. 13, n 2, p. 67-84. apud HOLANDA, Karla. DOCTV: a produo independente na televiso. Tese (Doutorado em Comunicao) UFF. Niteri, RJ, 2013. VARGAS, Heidy Silva. Globo-Shell e Globo Reprter: as imagens documentrias na televiso brasileira. Dissertao (mestrado em Multimeios) Unicamp. Campinas, SP, 2009. apud HOLANDA, Karla. DOCTV: a produo independente na televiso. Tese (Doutorado em Comunicao) UFF. Niteri, RJ, 2013. Lista de Entrevistados CAMPOS, Czar. Entrevista por e-mail, no dia 08/04/13. MARTINS, Marcus. Entrevista presencial, em Juiz de Fora, no dia 17/04/13. Apndice A Brasil Reino Unido Chile Canad Argentina 241. 7 Controle do servio de radiofuso Cerca de 9 agncias envolvidas *[1] Responsabilida de do Office of Communicatio ns (Ofcom)[2] Responsabili dade do Conselho Nacional de Televiso (CNTV)[3] Responsabili dade da Comisso de Radiotelevis o e Telecomunic aes do Canad [4] Com a Ley de Medios, o principal agente regulador passa a ser a Autoridade Federal de Servios de Comunica o Audiovisual [5] Licenciam ento O processo de concesso de licenas no Brasil extremam ente lento, chegando a levar anos, e no est claro como exatament e tal processo ocorre. [6] No Reino Unido a alocao de frequncias fica por conta do Ofcom. Quatro critrios so empregados para avaliar as solicitaes de licena: a viabilidade do plano de negcios, at que ponto o servio atender aos gostos e interesses locais, at que ponto a emissora expandir a gama de servios de rdio na rea e o grau de apoio local solicitao. [7] O passo a passo do processo de solicitao de uma licena de TV est publicado no site da CNTV. [8] O Tribunal Superior determinou que, sempre que uma questo envolver um direito fundamental, como a liberdade de expresso, deve ser tratada com alguns procediment os de proteo que incluem a obrigao de serem detalhados os motivos de uma medida ou deciso da autoridade. [9] A Ley de Medios prev que as concession rias de servios pblicos que queiram prestar servios de televiso por assinatura devero passar por uma avaliao prvia pela Autoridade. Ser solicitado ento ao Sistema de Defesa da Concorrnc ia um parecer de modo a que sejam estabelecid as as condies em dever ser prestado o servio. [10] Regulao do discurso A lei brasileira no prev regras especficas Procura-se adotar medidas para que as transmisses de tv no No Chile, as regras quanto ao dicurso so responsabili As emissoras esto proibidas de veicular matrias A Ley de Medios prev um horrio de proteo 242. 8 de radiofuso quanto questes como incitao ao dio. Em casos de infrao da legislao brasileira, depende- se de aes do Ministrio Pblico.[11] exibam programas que possa prejudicar o desenvolvimen to fsico, mental ou moral dos menores, especialmente programas que envolvam pornografia ou violncia gratuita. Quando uma violao da regras ocorre, a emissora recebe uma notificao e o ocorrido publicado no site da Ofcom. [12] dade do Conselho Nacional de Televiso, a fim de evitar contedos pornogrfico s e de violncia. As regras do licenciament o exigem que as transmissor as evitem programas que transgridam valores de moralidade, os bons costumes e a ordem pblica.[13] com contedo abusivo, discriminatr io ou que reenforce esteretipos. O Codigo de tica do Conselho Canadense Independent e de Padres de Radiodifuso orienta quanto a proteo de crianas de adolescentes . Caso tais recomenda es sejam violadas, as emissoras podem ter suas licenas suspensas ou revogadas. [14] s crianas: das 6h s 22h os programas, propagand as e avanos da programa o devero ser de classifica o indicativa livre. [15] Cotas de contedo nacional Com a nova lei, TVs por assinatura devem exibir em seu horrio nobre 3h30minut os semanais de obras audiovisuai s brasileiras. [16] Na Europa, a Diretriz de Servios de Mdia Audiovisual determina que, pelo menos, 50% do contedo da televiso seja produzido, predominante mente, com autores, trabalhadores e produtores residentes nos Estados- membros da Unio Europeia. [17] Exige-se que pelo menos 60% da programao total das emissoras e 50% da programao no horrio de pico de audincia sejam de origem canadense. [18] As rdios comerciais argentinas devero veicular 70% do contedo, assim como 30% das msicas, nacionais. Para a televiso aberta, 60% da produo dever ser nacional.[19 ] Cotas de contedo independe nte Das 3h30 semanais, 50% devero ser Todos os canais devem reservar no mnimo 25% de seu tempo Todo sistema de radiofuso deve incluir uma Para a televiso aberta, 10% da produo 243. 9 produes independe ntes. [20] de transmisso produo independente. O Canal 4 foi criado com a funo de exibir unicamente contedo independente. [21] contribuio significativa do setor de produtores canadenses independent es. As redes de TV aberta e de lngua inglesa devem aplicar na produo independent e um mnimo de 75% de seu oramento dedicado aos programas de interesse nacional. [22] dever ser independen te. [23] *Agncia Nacional de Telecomunicaes (Anatel) Ministrio das Comunicaes Secretaria de Comunicao Social da Presidncia da Repblica (Secom) Departamento de Justia, Classificao, Ttulos e Qualificao Procuradoria Federal dos Direitos do Cidado (PFDC) Agncia Nacional do Cinema (Ancine) Agncia Nacional de Vigilncia Sanitria (Anvisa) Conselho Administrativo de Defesa Econmica (Cade) Conselho de Autorregulamentao Publicitria (Conar) [1] (Mendel & Salomon, 2011, p. 19) [2] (Mendel & Salomon, 2011, p. 14) [3] (Mendel & Salomon, 2011, p. 14) [4] (Mendel & Salomon, 2011, p. 13) [5] (Nazareno, 2009, p. 5) [6] (Mendel & Salomon, 2011, p. 10) [7] (Mendel & Salomon, 2011, p. 23) [8] (Mendel & Salomon, 2011, p. 23) [9] (Mendel & Salomon, 2011, p. 22) [10] (Nazareno, 2009, p. 5) [11] (Mendel & Salomon, 2011, p. 37) [12] (Mendel & Salomon, 2011, p.36) 244. 10 [13] (Mendel & Salomon, 2011, p.30) [14] (Mendel & Salomon, 2011, p.29) [15] (Nazareno, 2009, p. 6) [16] http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2011/Lei/L12485.htm [17] (Mendel & Salomon, 2011, p. 41) [18] (Mendel & Salomon, 2011, p. 41) [19] (Nazareno, p. 6) [20] http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2011/Lei/L12485.htm [21] (Mendel & Salomon, 2011, p. 41) [22] (Mendel & Salomon, 2011, p. 42) [23] (Nazareno, p. 6) 245. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design Vol. 3 no 1 janeiro de 2014, So Paulo: Centro Universitrio Senac ISSN 2179474 X 2014 todos os direitos reservados - reproduo total ou parcial permitida, desde que citada a fonte portal de revistas cientficas do Centro Universitrio Senac: http://www.revistas.sp.senac.br e-mail: revistaic@sp.senac.br Iniciao cientfica: o incio da trajetria acadmica Ivan Ordonha Cechinel Graduado em Design Grfico pelo Centro Universitrio Senac e Mestre em Artes Visuais pela Unicamp. Desenvolvi dois trabalhos de Iniciao Cientfica durante a graduao em Design Grfico: Dilogos Simultneos: Design Grfico, de Produto e de Interiores (primeiro semestre de 2005) que ampliou minha viso a respeito de outras vertentes de Design. E a pesquisa: Arte de Rua e Design - Paralelos e Influncias (segundo semestre de 2006 e primeiro semestre de 2007) que me fez voltar o olhar para as manifestaes artsticas urbanas. Essas pesquisas trouxeram um complemento ao curso de Design Grfico possibilitando antecipar assuntos que veria posteriormente na graduao. Abriram-se portas de eventos importantes da rea e espao para divulgar o material levantado em simpsios e congressos, e assim tive contato com palestrantes e designers de outras regies do Brasil e do mundo. A experincia com a Iniciao durante a graduao prepara melhor o aluno para etapas mais difceis do curso, como a escolha do tema para o trabalho de concluso do curso (TCC). Tive a oportunidade de trabalhar com a Prof.Dr. Myrna de Arruda Nascimento que me orientou com ateno e segurana durante a primeira Iniciao Cientfica que fiz, posteriormente veio a ser minha orientadora no TCC (A Indumentria do Texto, 2007) e na ps-graduao comps a banca examinadora da minha pesquisa de Mestrado (As cores nas capas da Editora Civilizao Brasileira da dcada de 1960. Universidade Estadual de Campinas - Unicamp, Instituto de Artes, 2010. Orientadora: Prof. Dr. Anna Paula Silva Gouveia). A aproximao com mais afinco da rea acadmica representa outro aspecto positivo, pois, durante a Iniciao possvel planejar uma futura pesquisa de ps-graduao. Durante o ltimo semestre do curso de Design Grfico prestei processo seletivo para o Mestrado em Artes Visuais no Instituto de Artes da Unicamp e tive a oportunidade de ingressar no Mestrado no semestre seguinte. A bagagem adquirida com a Iniciao ajudou-me a desenvolver a proposta de projeto que inscrevi no processo seletivo do Mestrado e, posteriormente, durante a pesquisa deu subsdio em diversos aspectos: facilitou o levantamento bibliogrfico por j ter tido contato com os principais autores da rea durante a Iniciao, mais facilidade para lidar com questes metodolgicas, mais agilidade com coleta de dados, pesquisa de campo e principalmente disciplina de estudo. Os resultados que consigo hoje foram plantados com a Iniciao Cientfica, com a experincia das pesquisas tive alm do engrandecimento profissional e acadmico o desenvolvimento e amadurecimento pessoal. Somando essas experincias hoje sigo como autnomo na profisso de Designer, mas principalmente atuando na rea acadmica como docente duas profisses que perfeitamente podem seguir complementando-se mutuamente. 246. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014, So Paulo: Centro Universitrio Senac ISSN 2179474 X 2014 todos os direitos reservados - reproduo total ou parcial permitida, desde que citada a fonte portal de revistas cientficas do Centro Universitrio Senac: http://www.revistas.sp.senac.br e-mail: revistaic@sp.senac.br Lisboetas por um ano: maturidade, responsabilidade e jogo de cintura. Liboetas for one year: maturity, responsibility and adaptability Isadora Zuanazzi, Vernica Coachman, Wesley Vargas Centro Universitrio Senac Departamento de Humanas - Bacharelado em Design com Habilitao em Design Industrial isadora.zuanazzi@gmail.com, veronicavidigal@coachman.com.br, wesleyvargas91@gmail.com Resumo. Aps longos processos burocrticos, decepes e surpresas recebemos a notcia de que estava tudo certo, bastava arrumarmos as malas que o avio estava partindo rumo a Lisboa, Portugal. Havamos conseguido! Lisboa superou nossas expectativas j nos primeiros dias e durante o nosso perodo de estadia no poderia ser diferente. A maturidade, a responsabilidade e o jogo de cintura foram os pilares de toda a nossa vida lisboeta, tanto nos estudos como na convivncia social. Foi um ano repleto de experincias novas, conquistas e aprendizados que levaremos para a vida toda. Palavras-chave: cincia sem fronteiras, intercmbio, Lisboa, revista cientfica. Abstract. After many bureaucratic processes, disappointments and surprises, we received the news that everything was fine. We just had to organize our bags as the plane was leaving towards Lisbon, Portugal. We did it! Lisbon already surpassed all of our expectations during the first days, and it could not be any different throughout the whole period we would spend there. The maturity, the responsibility and adaptability were essential foundations for our life in Lisbon, both in the academic aspect as in the social coexistence part. It was a year full of new experiences, conquers and knowledge that we will keep for the rest of our lives. Key words: science without borders, exchange, Lisbon, scientific magazine. 247. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 2 1. Preparativos Em meados do nosso programa de Iniciao Cientfica, experincia essa que aconselhamos para todos os alunos que queiram ampliar seus conhecimentos pessoais e profissionais, ficamos cientes da possvel oportunidade de participar de um programa de intercmbio acadmico no exterior, atravs da Prof Dr Myrna de Arruda Nascimento. Sem muitas informaes a respeito, j que se tratava do programa Cincia Sem Fronteiras, e este havia acabado de comear, aceitamos o desafio. A partir da, comeou uma correria burocrtica, entre papis, comprovantes, relatrios, consulados. Cada um de ns escolheu um pas para estudar e tudo parecia estar encaminhado como deveria. Porm, muito perto de possivelmente completarmos todos os requisitos do programa, veio a decepcionante notcia de que no conseguiramos viajar devido a questes internas com as universidades que escolhemos. No podamos acreditar que tanto esforo havia sido perdido, mas claro, ele no foi. Em Agosto de 2012 fomos avisados de que haviam oportunidades para Lisboa (Portugal) e no mesmo ms, contrariando todos os pessimismos, elas eram nossas! Foi nesse momento em que percebemos que todas as histrias sobre as experincias de intercmbio iam finalmente acontecer conosco. Naquele momento s havia a notcia ecoando em nossas cabeas e uma sensao muito boa de recompensa, j que conseguir a bolsa no foi nada fcil. 2. Vida em Lisboa Os primeiros 2 dias em Lisboa pareciam frias. Era vero, pelo menos 35, e o sol deixava a cidade ainda mais amarelada, e linda. Foi amor a primeira vista, Lisboa j havia superado qualquer expectativa. Miguel Monteiro fala de uma maneira no mnimo precisa sobre a relao da cidade com a Luz, o Cu e o rio Tejo em seu site Arca de Darwin. A cor dos edifcios de Lisboa, alm das tintas que lhe do vida, resulta de um dilogo permanente com o sol, com o azul de um cu varrido pelo vento, e com o enorme espelho que o Tejo. Isto, claro, nas colinas, porque o resto da cidade uma mistura incaracterstica, onde at cabem os devaneios arquitectnicos de Toms Taveira. (Monteiro, Miguel, 2012) Figura 1. As cores dos edifcios de Lisboa 248. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 3 A vida real comeou a bater em nossa porta assim que comearam as burocracias (podemos dizer que j estvamos acostumados) e a dificuldade em achar um apartamento que estivesse dentro do nosso oramento e minimamente habitvel. Nos pareceu impossvel quando chegamos na 2 semana de busca. Mas enfim achamos o lugar ideal e bem perto do centro, o que faria a locomoo bem mais fcil. Mal sabamos que ele haveria de se tornar O Ap Mais Giro de Lisboa! (Giro: Gria portuguesa que significa muito legal, muito bom.) Foi neste apartamento que ns, enfim, nos deparamos com as maravilhas e surpresas de se morar sozinho. A liberdade , sem dvida alguma, um ponto bastante entusiasmante quando se mora sozinho, mas ela vem de mos dadas com a responsabilidade que por sua vez pede como pr-requisito uma certa maturidade pra quem quer desfrut-la. Se policiar quanto ao pagamento das contas de gua, luz, internet e aluguel; manter a dispensa em dia para no ter que abusar dos fast-foods; e principalmente se esforar quanto aos estudos, afinal seria um ano em Lisboa, morando sozinho. Ou seja, um ano que nos cobraria muita coisa e que ficaria para sempre gravado em ns e no nosso histrico acadmico. 3. A Universidade Nossa vida acadmica no exterior tambm havia comeado. E a Universidade Tcnica de Lisboa, tanto quanto viagens e novos amigos, foi uma das coisas que mais nos surpreendeu. Nossas matrias foram previamente definidas por nossa faculdade e futuramente validadas aqui no Brasil e nosso perodo de estudos era, na maioria dos dias, integral. Ficamos mais ntimos e com um olhar mas aprofundados sobre assuntos que j conhecamos, e tambm enriquecemos nossa base acadmica com milhares de outras informaes e curiosidades. Nos arriscamos a fazer coisas que no conhecamos e pudemos conviver com professores que no nos abandonaram nessa empreitada. Figura 2. Chafariz do Miradouro de So Pedro de Alcntara, em Prncipe Real, Lisboa Figura 3. Cerimnia da Beno das Fitas Formatura dos universitrios portugueses 249. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 4 A maturidade, a responsabilidade e o jogo de cintura foram os pilares de toda a nossa vida lisboeta. Fosse na Universidade ou em nosso convvio social, afinal ramos 3 conhecidos aqui no Brasil que nunca tinham morado completamente sozinhos, e por conta prpria, e ainda mais fora do nosso pas. Todos esses fatores se tornaram uma grande teia que nos melhoraram como indivduos, melhoraram nosso convvio em sociedade e sem dvida nosso aprendizado. Essa foi sem dvida a nossa bagagem mais pesada mas que nunca exceder o limite permitido. 250. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 5 Referncias Monteiro, Miguel. Arca de Darwin. Disponvel em: . Acesso em: 15 Out. 1013, 18:30 Banco de Imagens Figura 1 Acervo pessoal Figura 2 Acervo pessoal Figura 3 Acervo pessoal 251. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014, So Paulo: Centro Universitrio Senac ISSN 2179474 X 2014 todos os direitos reservados - reproduo total ou parcial permitida, desde que citada a fonte portal de revistas cientficas do Centro Universitrio Senac: http://www.revistas.sp.senac.br e-mail: revistaic@sp.senac.br O dilema contemporneo na metodologia de design criativo: indivduo, objecto e a sua relao Andr Patro Neves de Frias Martins | 2012/2013 Mestrando de Design Urbano Sustentvel em Lunds Universitet (Lund, Sucia) Mestrando de Filosofia em K.U.Leuven (Leuven, Blgica) andrefpatrao@gmail.com Resumo Por norma a discusso de um projecto de design centra-se no dissecar do objecto apresentado, os seus mritos, falhas, potenciais, ideias. O que , como e porqu? Quais as ideias que o sustentam? Que tcnicas se utilizaram? Que referncias serviram de inspirao? Qual a ideologia implcita e quo vlida ser? As perguntas alvejam o projecto em si e o processo de trabalho directo que o gerou circunstancial, segundo um programa pr-definido. O principal objectivo do designer o what e a sua justificao legitimadora o how posto em foco. Mas este processo operativo, limitado ao fim imediato, somente parte de um sistema maior: o mtodo. Esta componente instintiva e invisvel do design simultaneamente a estrutura fundamental de toda a produo criativa por parte de um indivduo, e um elemento chave na construo do indivduo em si no s enquanto designer mas tambm enquanto pessoa essa necessidade central e todavia frequentemente desvalorizada. O estabelecer mtodos de compreender e agir no Mundo define tambm como ser nele. Logo, questionar mtodo questionar como praticar design, e como ser no Mundo. As tcnicas especficas de um mtodo no so, todavia, universais: tradicionalmente, o desenho assume-se como instrumento principal utilizado, mas recentemente os meios digitais tm desafiado tal domnio. A importncia de mtodo, quer para o designer enquanto pessoa quer para o objecto de design produzido, exige que se compreenda a tcnica para alm da superficial aceitao da diversidade como virtude por si s. Especialmente num perodo em que o tradicional sistema reinante se v ameaado como nunca pela revoluo de uma nova era, h que questionar quo vantajoso se provam, de facto, estes novos instrumentos digitais para o objecto criado, e os efeitos secundrios para o indivduo que os cria. Palavras-chave: Mtodo, Desenho, Digital, Filosofia, Esttica 252. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014, So Paulo: Centro Universitrio Senac ISSN 2179474 X 2014 todos os direitos reservados - reproduo total ou parcial permitida, desde que citada a fonte portal de revistas cientficas do Centro Universitrio Senac: http://www.revistas.sp.senac.br e-mail: revistaic@sp.senac.br The contemporary dilemma of creative design methodology: individual, object and their relation Andr Patro Neves de Frias Martins | 2012/2013 Master Student of the SUDes programme of Lunds Universitet (Lund, Sweden) Master Student of the Philosophy programme at K.U.Leuven (Leuven, Belgium) andrefpatrao@gmail.com Abstract The discussion around Design Projects is usually carried out by dissecting the product displayed, its merits, flaws, potentials, ideas. How does it look like and why? What ideas were behind it? What techniques were used? Which references were inspirational? What ideology is implicit and how valid is it? The questions target the project itself and specific working process behind it circumstantial to a pre-defined program. It is the designers main goal of a what, and the meriting justification provided by the how, that is placed under the spotlight. But the operative process, focused on the immediate goal, is only part of a larger system: method. This often instinctive and invisible component of design is both the structure of all creative production by an individual and the key constructor of the individual itself, not only as a designer but as the underrated yet central essence of a person. Establishing a way of understanding and acting upon the World also defines how to be in it, thus questioning method is questioning both how to design and how to be. Specific techniques of a methods practice are not necessarily universal however: traditionally drawing has been the prime instrument used; but in recent years digital systems have come up to defy such domain. The importance of method both to the designer as a person as to the designed as an object pushes the issue of technique to be considered beyond the loose acceptance of generic diversity as an absolute value in itself. Especially in a period when traditional hand drawing strategies are being unprecedentedly replaced by digital-era influenced computer designs, one must question how advantageous are, indeed, these mainstream tendencies for the object produced, and what side-effects are reserved for the designing individual. Keywords: Method, Drawing, Digital, Philosophy, Aesthetics 253. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 2 Why method? The discussion of an Architectural or Urban Design project is usually carried out by dissecting the product displayed, its merits, flaws, potentials, ideas. How does it look like and why? What ideas were behind it? What techniques were used? Which references were inspirational? What ideology is implicit and how valid is it? The questions target the project itself and specific working process that formed it circumstantial to the pre- defined program. It is the designers ultimate goal of a what, and the meriting justification provided by the how, that is placed under the spotlight. But the operative process, focused on the immediate goal, is only part of a larger system: method. This often instinctive and invisible component of design is both the structure of all creative production by an individual and the key constructor of the individual itself, not only as a designer but as the underrated yet central essence of a person. Establishing a way of understanding and acting upon the World also defines how to be in it, thus questioning method is questioning both how to design and how to be. That itself justifies the imperious need, and promising benefits, of reflecting upon method in creative design disciplines as Architecture and Urban Design. 254. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 3 I) Creative method and the contemporary dilemma Before confronting the complexities of method, one must first establish a reference meaning for the word. Some answers can be suggested through aesthetics, on how Art comes to be: Ancient definitions as presented by Plato, of Art being product of a divine possession1 ; or, in more present terms, Kants credible account of the artistic genius as nature giving rule to art2 , outline a context under which to operate, but are still too broad for the specific practical conclusions one searches for. Intuitively it may be assed that method in Design implies a form of understanding, and thus thinking Design implies thinking understanding. It would seem wise to take up the origins of the debates intensification, with XVI to XVIII century Modern Philosopher-scientists. The dispute between Empiricism and Rationalism would eventually find conciliation in Contemporary Philosophy, and that is apparently the correct position to assume. It is self-evident that in the process of production design engages both the inevitable compromise towards the World it serves, and the self-reflexive necessity implicit in any art-related practice. Thus, method may be defined as the structure of intellectual and material creation, brought to be by an individuals empiric experience and internal conscious or unconscious reasoning. Such description alone displays how crucial method is in the design practice. Consequently, the understanding of its properties inherits the importance as well. Method is constituted by an individual who has a purpose , an object on which the purpose is practiced -, and it is from the reciprocal relation between both that method functions. Routine relations with certain realities, and consequent growing understanding of them, encourage the maturation of guidelines, systems, criteria that ascertain patterns of apparently successful thought and action towards them and then become references for thought and action towards similar or even unknown realities. So it is from an individuals desires, capacities and limitations towards an object that a method is established on how to comprehend and act upon it. As a result this shapes both the individuals form of interaction with the World and the objects purpose in that same World. Creative design related disciplines, such as Architecture and Urban Design, inherit these anchoring notions of method, but their translation into the more tangible language of a specific field brings up unique aspects as well. One is terminology, which attaches meaningful words with substance to otherwise abstract and somewhat unreachable concepts. For example, it becomes clear who the individual is and what it is doing to the 1 The gift which you possess of peaking excellently about Homer is not an art, but, as I was just saying, an inspiration [] In like manner the Muse first of all inspires men herself, and from these inspired persons a chain of other persons suspended, who take the inspiration. For all good poets, epic as well as lyric, compose their beautiful poems not by art, but because they are inspired and possessed. PLATO Plato on poetry: Ion, Cambridge University Press, Cambridge 1996; 533 to 534 2 Genius is the inborn predisposition of the mind (ingenium) under which nature gives rule to art. KANT, Immanuel Critique of the Power of Judgment, Cambridge University Press, USA, 2000; 46, page 186 255. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 4 object when rewriting these terms as the designer designing with the purpose of creating a final product, a designee. Though, it must be stressed, the designation of designer should still transport with itself the notion of individual stated before, for the second is only such by being the first as well. Another singular aspect that must be mentioned, as it becomes structuring in the creative methodology, is the relationship between designer and designee which has historically been done predominantly through graphic representation. Establishing the purpose of replicating or synthesizing the object implies recognizing its existence and the effort of comprehending it, simultaneously generating criteria under which the individual defines it3 . The consequences of such terminology go much deeper than labeling though, for method structure in itself must adapt to the individual as a designer and the object as a designee. This means there is a specific creative design methodology, elaborated from and for creative design. Such seems to be fully described when distinguishing and interconnecting four frequently shifting stages: analysis, when an object is studied, understood and absorbed; development, when previously acquired knowledge is used in the production of a new object4 ; communication, when the final idea of object is settled, explained; and validation, when the representation of the object is actually materialized into reality, into the real object. This last point opens space for the self-critic or poly-critic action of analysis, turning this tendency into a constantly self-improving cycle. However, the relation between designer and designee is not carried out in a single way. In fact representation is practiced under many techniques that can be put under two main categories: traditionally drawing has been the prime instrument used; but in recent years digital techniques have come up to defy such domain. The exposed importance of method both to the designer as a person and to the designed as an object pushes the issue of technique choice to be considered beyond the loose relativistic acceptance of subjective generic diversity as an absolute value in itself, and to be judged as to its concrete merits and flaws, limitations and possibilities. Especially in a period when traditional hand drawing strategies are being unprecedentedly replaced by digital-era influenced computer designs, one must question how advantageous are, indeed, these mainstream tendencies for the object produced, and what side-effects are reserved for the designing individual. 3 Initially Plato considered Arts imitative function as a flaw, for it would never truly replicate its object. Aristotle, later on, points out the educational function of imitative Art. It is that line of thought that is followed here: Imitation is natural to man from childhood, one of his advantages over the lower animals being this, that he is the most imitative creature in the world, and learns at first by imitation. ARISTOTLE, Aristotles Poetics, Northon, New York 1982; The imitative art of Poetry 1448b 4 But though our thought seems to possess this unbounded liberty, we shall find, upon a nearer examination, that it is really confined within very narrow limits, and that all this creative power of the mind amounts to no more than the faculty of compounding, transposing, augmenting, or diminishing the materials afforded us by the senses and experience HUME, David Enquiry Concerning Human Understanding, Hackett Publishing Company, Indianapolis, 1977; Section II on the origin of ideas, page 11 256. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 5 II) The reigning ritual and the rising revolution a) Drawing Historically drawing has been the preferred technique used in creative design related activities, and such inheritance has reached the present still in force. Though the hand, pencil and paper are not as they never were sole participants in the creative methodology, they do appear as a constant and structuring form of work and communication. These merits, allied to the various drawing techniques flexibility and adaptability to new demands, contexts and complementary knowledge sources, have kept drawing as a valid option to modern designers. In fact the ancient character of this methodology also justifies why drawing is a comparison model towards other techniques. The very notion of creative design developed through the longest lasting tool it has had, drawing, and consequently its development stages, roles, strategies and applications were influenced in that manner as well. Creative design gained shape growing around drawing, and to understand the former one must understand the latter. The analysis stage is undoubtedly the most important step of any method, regardless of the technique used. First, if one considers the Lockean notion of experience as prime matter of our cognition5 . Second and stepping forward from this, reinvoking the Kantian account on human creativity stated in fact on the topic of aesthetics6 , as well as the perception of the World being fundamental for our understanding of it, and for our internal construction especially if one fully adopts the Phenomenological suggested perspective supported. Metaphorically, and reasserting the Empiricist relevance on latter Rationalist processes, analysis provides the raw material for proceeding stages: new ideas are generated from the concepts gained here, and its future use is determined by how such is done. Drawing complies with this demand by being a rich instrument of observation and dissection of reality. Successful representation of an existing object requires the comprehension of its parts and their interaction as a whole. Therefore, even though the analysis benefits of drawings are naturally enhanced by capacity and practice from the 5 To this I answer, in one word, from experience. In that all our knowledge is founded; and from that it ultimately derives itself. Our observation employed either, about external sensible objects, or about the internal operations of our minds perceived and reflected on by ourselves, is that which supplies our understandings with all the materials of thinking LOCKE, John An essay concerning Human Understanding, Clarendon Press, Oxford, 1975; Book II: of Ideas - Chapter I, page 104 6 Kant goes further than Locke, determining that we are able to go beyond mere association, though the dependence on nature is still there: The imagination (as a productive faculty of cognition) is very powerful in creating another nature, as it were, out of the material actual nature gives it. [] Thus we feel our freedom from the law of association (which attaches to the empirical employment of imagination) so that the material supplied to us by nature in accordance with this law can be worked up into something different which surpasses nature KANT, Immanuel Critique of the Power of Judgement . Cambridge University Press, USA, 2000; 49, page 192 257. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 6 observer, the mere attempt of sketching an object be in a perspective or a technical drawing implies a careful, repetitive and investigative look, evermore astute and informative. This technique becomes especially powerful due to the easiness with which it relates to basic biological characteristics of the Human being. The pencil is a natural extension of the arm, the gestures of drawing interact directly with the body, and thus intellect and hand quickly and familiarly disclose themselves to each other as if made of one substance7 . Observing and representing becomes comparable to hearing and talking as a standard form of dialogue, of comprehension and expression, towards the observed object. In fact, the presence of drawing as far as the pre-historic ages may even be seen as evidence of how natural such form of communication is, or as justification for the present condition of drawing as an acquired instinct, or even as both. Whatever the case, the genuine character of drawing benefits the analysis process greatly, for the anti-dualistic contact between the sensitive perception and the intellects comprehension and imagination is more immediate, thus enriching it. More can be understood quicker, and consequently more can be gained. Individual and object become closer, and part of each other. Advantages of a drawn analysis stage are then carried to the design development. Stepping further in the previous considerations, and reminding what was initially said, new ideas merely come from the combination of old ideas 8 . This means that the more information attained during the analysis stage, the more diverse, the more precise, then the more resources available for the development stage. In this context another peculiarity granted specifically by drawing becomes especially useful: the language of object exploration and the one of object creation are the same. Both share the same signs that, duly insisted upon, gain space as a structuring cognitive language for practice and thought, very much like words do. Thus, drawing a project with the same codes used to draw reality ensures a fast and far-reaching association of memorized data - from conscious to (mainly) unconscious - hence multiplying the design possibilities and, consequently, increasing the chances of a better and stronger design. Drawing optimizes the process of creative generation by directly interconnecting its two fundamental components: recollection and association. The benefits ripped from such an extraordinary overreaching cognitive system becomes abundant internally and externally as written and spoken language itself: from the practical consequence for the designed object, that inherits a genuine Human component delivered from the individuals very essence; to the transcending matters of 7 Through a curious perspective, one considers the reunification of Cartesian dualism (thus the consideration of a res cogitas and res extensa that are then reunited), drawing almost seems to partake as a component of the bodily res extensa, and not as separate component. 8 And even in our wildest and most wandering reveries, nay in our very dreams, we shall find, if we reflect, that the imagination ran not altogether at adventures, but that there was still a connection upheld among the different ideas, which succeed each other. HUME, David Enquiry Concerning Human Understanding, Hackett Publishing Company, Indianapolis, 1977; Section III on the association of ideas, page 14 paragraph 1 258. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 7 the individuals intimate self-construction, achieved through the personal interrogation process that is design. But the merits of drawing even go beyond the strict exterior representation of an interior imagination. Within this methodological strategy there are infinite techniques for its actual realization. Long living and continuously improving forms of sketching bestow huge flexibility to this practice and allow it not only to not be a technical obstacle to creativity that would condition what may be made due to the how it can be made but even to be an auxiliary component of the idea association that forms the new. Adopting historic forms of drawing implies receiving, in those techniques, the knowledge bestowed on them by other people in the past. Aware or unaware of it, the designer practices what others have learned, and becomes more than just himself. Next is the value of drawing as a communication tool, when the individual converts his internal language into a universally recognizable format. More important than that, it is a point where the individual displays the product of his intimacy to the frightening judgment of entities beyond it. Admittedly the effectiveness of such exposure via drawing can be argued. Yes, there is worth on the imagination left open in a hand drawing in accordance to a reasonable unpredictability of a project development; and even of the information filter that may be used when drawing, outlining the main defining characteristics of a project and abiding from distracting random elements. But these strategies are very hardly or very inconveniently built upon universally understood signs, at least not without demanding a detour from the purely productive stream of method. Nonetheless, given designs necessary commitment to the World, this attempt towards a connection is an unavoidable step. In the attempt of doing so there is even another danger, of the final drawing becoming an object in itself and not the representation of one. The charm of producing a drawing can easily mislead its designer into abiding from its descriptive realistic function to create a beautiful image, and even if such practice is an innocent unconscious reflection of intent, its deceptive consequences to the object representation exist. At last the method reaches the moment of validation, when the design releases itself from the imagined represented condition in which it lived in the previous two stages to culminate into the physical form of its purpose, here forcibly universal. On one hand this is an ending point, for the methods application towards the production of an object is fulfilled. On the other hand, in the broader context of a methods evolution, this is the restarting point of a cycle that never ends, for reassessment of the created object implies the practice of yet again the familiar proceedings of observation, interpretation, representation that is analysis. Thus a repetitive self-critiquing and self- constructing feedback loop is established: the conclusions of validation become part of the analysis grounding foundation for the future object development. Unavoidably, as during the entire process, there is a deeper personal consequence to this phenomenon. Accepting once again the notion that the relation between individual and object transcends mere utilitarianism to become a constituting part of the individuals identity, then the assessed object is not only an object in itself but the intimate product of an individuals being. Thus judgment of the object is also a self-critique to the person beyond the designer. 259. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 8 b) Digital The formidable information and communication technological revolution of recent decades reshaped the World. Burdens became nearly effortless, dreams materialized into realities, and the fantasies of the future need only time to come to be. In the personal and professional sides of peoples lives, the digital era is welcomed to flourish for all the instant benefits it provides. Creative design was not an exception to the contagious tech fever, reacting in the same enthusiastic way as any other subject to the sudden infinite possibilities available. New techniques invaded the creative production as an unprecedented avalanche with photography, video, image and video editing, vector works, digital and better physical 3D models, renders, simulations, rapid precise calculations and so many more major contributes. But side-effects of the overwhelming digital era start to surface, in creative design as well. Questioning arose with the unexpectedly unsatisfactory final physical product of digitally-conceived objects due to their lack of human empathy. To what extent is it beneficial and how far can it go until turning prejudicial? This also raised concerns as far as how an object-focused design process instead of a human-focused one was affecting who interacted with such items, designers and users alike. The recent rise of Phenomenology in the creative scene played a major role in finding answers and suggesting solutions. An extraordinary conquest of the digital era in the analysis stage is the simulations and calculations. These tools have been real myth-busters and a mine of discoveries, granting precision and scientific understanding to otherwise generic guesses and conveniently manipulated interpretations of the facts. A credible factual ground is paved for development to kick off from. Sadly this praise is isolated in a gloomy fog that even suggests the analysis stage as the main flaw of a digital-structured creative methodology. And considering that this is the basis of creative design methodology, as shown above, it may be argued that this problem makes the method limp along the remaining steps. There are in fact various digital techniques of analyzing pre-existing objects, of which the most frequently used and representative one is photography. It seems to contain far more and more accurate information than drawing, for its product is truly a direct copy of the existing. Photography presents reality as it is, with all the visual information that implies. But the analysis stage is not about copying reality, it is about understanding it, and such can only be accomplished by taking apart its various constituting components, they themselves being complex pieces. Thus the full information provided in a picture ends up clogging the inquisitive view with excess information, leaving the observer with nothing more than a distant general impression. In its more amateurish use, photography frequently exemplifies a two-edged sword issue of contemporary digital society: the near abolition of time in favor of the immediate. Brief seconds are enough to register what the eye caught, and in short minutes one may compile hundreds of photos. But the massive information contained in 260. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 9 the camera remains there, and not in the human mind: on one hand, it overwhelms the perceptive capacity; on the other, such rapidness jumps past a profound understanding that only time allows. The shallow quantity-based productive context of contemporary times becomes evident here as well then9 . Curiously though, photography avoids such danger when used under the same principles of drawing: careful, patient observation. And under this regime it proves to be a useful and unique methodological tool. Yet another significant disadvantage of digital methods relative to drawing methods is the lack of physical involvement in the process. If the pencil ends up working as integrated extension of the body, a partaking res extensa, the mouse and keyboard and screen are far more of an obstacle. This issue goes beyond practice and familiarity with used tools, it is a matter of natural gesture, of the fluent movement synchronized with the body that digital techniques do not yet have. The relationship between individual and object is no longer of intimate dialogue, but mediated by a middle-man who works as a filter, delivering only partial information selected under its possibilities. The construction of knowledge and of the individual itself becomes therefore limited, and not expanded, by the tools used. The general ground problems of the analysis stage inevitably haunt the development stage as well. Reminding that the new is generated from associating pre- existing knowledge, the shallowness of acquired knowledge condemns new ideas born from it to the same state of insufficiency. If the analysis is considered complete with an unexplained impression, then development will limit itself to accomplishing the same vagueness and yet even in this being doomed to fail, for the hidden design forming those very impressions was merely unconsciously felt and not necessarily understood. Such scenario reduces the development stage to a form of tinkering with snapshots, views and imagery in an uninformed and blindly tentative attempt of recreating the representative form in which the objects were seen, and not the object itself. The matter becomes one of how it seems to be, and not of how it is. The lack of intimate connection between individual and object due to the constant mediation of an intermediary is also relevant an issue, one that in fairness is a common accusation towards digital life in general. The human invention that is the digital is a simplified system that expands traits we are consciously aware in ways we consciously understand. This means that, beyond the unquestionable advantages it gives, the digital is also a reflex of how much is ignored about the complexity of an individual. It is an expansion of what is known that does not include what is not known. One of the most visible and direct consequences of this, in creative design as well, is a generated object deprived of the enriching human contribution of the individual, and the individual unable to fully absorb the unique contribution the object has to offer. A limited connection between both that supplies each other with little. After such harsh criticism, a bright note though. It is the communication stage of the method that gains the most with digital techniques. Representing reality as a 9 Many people do not understand the sorts of things they encounter! Nor do they recognize them after they had experience though they themselves think - HERACLITUS Fragments University of Toronto Press, 1987, fragment 17 261. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 10 genuine approach to reality, and not only the final stage of the developments continuing fantasies and unproven illusions, is a merit at this point, and one that can function to some level as a validation before the validation. More than that, it also translates the designers language into universally recognizable language, thus dialoguing with a broader audience. But there is also a shared danger with drawing though here enhanced by the lack of strong methodological structure of the previous stages. Communication can easily become a mere pause in production for tinkering and view painting. Embellishing strokes and decorations are placed as an extra that may communicate a general intention of what is desired, but not more because it was never in the development stage to start with. At last, the validation stage is likely to be a faithful recreation of what was projected: inanimate object-like condition, alienated lack of intimacy, incoherent dialogue. The shape is materialized just as it was meant to, and the absence of genuine content behind it becomes clear as well. The cyclical character of creative method, which drives the validation stage onto analysis again, adds weight to the fault as well, for the knowledge that was not gained initially is also inexistent in at this point. So, given the apparently sound condition of the finished structure due to its correspondence with the communication product, one is fooled to assume the method has worked. And in a way it has, but only at the superficial level from which it can never break free. The main hope of escaping such cycle can only come from extra-methodology awareness, if the human essence of the individual beyond the mere designer becomes conscious of the objects lack of response to his personal needs. This would appeal to the intimate content that was not satisfied during the previous method. But are the natural cravings of the designer as an individual enough to be heard above the characteristic alienation of digital techniques? 262. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 11 III) Coexistence and aspirations for more It has become clear that both drawing and digital forms of work have innumerous benefits for the creative design methodology, both in a practical and personal level. In fact, the continuous practice and evolution of such techniques proves some degree of effectiveness and synchronization with the designer. But these reflections have also alerted that not all techniques should have the same function and predominance in the method. The primacy of drawing as structuring design process seems evident, not just due to the specific virtues of the technique in its parts, but especially for the globally complete and interconnected process built from beginning to end. Drawing also has the fantastic capacity of reaching beyond the circumstantial designer and designee relation to the long lasting individual and object relation. This implies not only advantages for the elaboration of the design practice, that feeds off the library of life experience and being the individual has to offer, but also at level of designer as individual, bringing the teachings of work into the very core of ones identity. But it must be noted that digital methods, from photography to three-dimensional modeling and renderings, do surpass drawing in many regards (accuracy, effectiveness and time consumption for example). Yet, perhaps due to the relatively recent evolution of digital forms of practice versus the historic practice of sketching, these do not seem to have the global coherence and inter-relationship between work stages and detailed techniques that drawing has. This may also be the cause, or effect, or even both, of one particularly major difference that clearly distinguishes drawn from digital: the distant relation between individual and object. The critical argument attained does not deny the significant advantages provided today by digital processes that should, in fact, be conciliated with a drawing core, to provide more diversity, detail and quality and to the design while keeping a sound structure -, nor does it even reject the possibility of valid digital-based design methodologies in a near future. What is stressed, however, is that for the contemporary conquests of the digital systems to surpass the object generated by drawing beyond the quick mass production and appealing easiness of framed renderings, they must first answer to the incredible creative cognitive process developed by tradition: a global process, conscious of itself and in touch with the very intimate essence of the designer and of the person that the designer is. The method of creative design that is the method of drawing. 263. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 12 Bibliography ARISTOTLE, Aristotles Poetics, Northon, New York 1982 DESCARTES, REN Meditations on First Philosophy (The Philosophical Writings of Descartes) Cambridge University Press, Cambridge University Press, Cambridge 1984 DESMOND, WILLIAM A filosofia e seus outros: modos do ser e do pensar. 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Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design Vol. 3 no 1 janeiro de 2014, So Paulo: Centro Universitrio Senac ISSN 2179474 X 2014 todos os direitos reservados - reproduo total ou parcial permitida, desde que citada a fonte portal de revistas cientficas do Centro Universitrio Senac: http://www.revistas.sp.senac.br e-mail: revistaic@sp.senac.br Embalagens de alimentos industrializados consumidos ou dirigidos ao pblico infantil: questes perceptivas e de consumo. Packaging of industrialized food consumed by or aimed at children: perception and consumption issues. Denise Dantas, Thabata Fernanda Oliveira, Fernanda M. da Silva Uekita Universidade de So Paulo - USP Departamento de Projeto - Faculdade de Arquitetura e Urbanismo - Bacharelado em Design dedantas@usp.br, thabata.fernanda.oliveira@usp.br, fernanda.uekita@usp.br Resumo. Esse artigo apresenta o resultado de duas pesquisas de iniciao cientfica cujo objetivo foi estabelecer o panorama do design de embalagens de biscoitos doces e sucos industrializados, destinados ou consumidos pelo pblico infantil, comercializados em So Paulo, no perodo de setembro de 2012 a junho de 2013. A pesquisa estruturou-se em duas etapas: levantamento de campo, seguido de anlise semitica e da composio visual das embalagens. As anlises avaliaram quais eram as informaes presentes nessas embalagens e como estas estavam apresentadas. Foram avaliadas 23 embalagens de biscoito, de uma amostra de 237 embalagens catalogadas, e 10 embalagens de sucos de 300 ml, de uma amostra de 97 catalogados. Os resultados indicaram tendncias na disposio e na apresentao das informaes nas duas categorias. Existe uma dominncia na composio visual das informaes relativas marca, ao sabor, ao personagem e s qualidades nutricionais benficas. As informaes obrigatrias so colocadas em locais de menor visualizao e recebem menor destaque. Tambm foi verificado que as embalagens transmitem mensagens utilizando elementos relacionados ao universo infantil. Esses elementos criam um envolvimento afetivo do pblico com a embalagem. Palavras-chave: embalagem, biscoitos, sucos, crianas Abstract. This article presents the results of two undergraduates researches whose aim is to establish an overview about the principles of packaging design applied to sweet biscuits packages and juices industrialized packages intended or consumed by children. This research was done in Sao Paulo, from September 2012 to June 2013. The research has been structured in two stages: field survey, followed by semiotic and visual packaging composition analyses. The analyses evaluated what kind of information packages has presented and how they have done this. We evaluate 23 samples of sweet biscuits packages from 237 that have had cataloged, and 10 juice packs from 97 cataloged. The results indicate design trends to present information in both categories. The information regarding the brand, the flavor, the character and the beneficial nutritional qualities are dominant in the visual composition. The mandatory information is placed in locations with lower display and receives less emphasis. It was also verified that the packages transmit messages using elements related to the infant universe. These elements create an emotional involvement of the audience with the packaging. Key words: packaging design, sweet biscuits, juice, children. 265. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 2 1. Introduo O consumo de alimentos pouco saudveis e o consequente aumento da obesidade infantil so grandes preocupaes contemporneas. Esses temas esto ligados aos hbitos de consumo das crianas que, muitas vezes, influenciado pelo design da embalagem: Elas sentem-se mais atradas por produtos e servios que sejam associados a personagens famosos, brindes, jogos e embalagens chamativas. A opinio dos amigos tambm foi identificada como uma forte influncia. (Alana, 2011). As duas pesquisas de iniciao cientfica apresentadas neste artigo so vinculadas ao projeto de pesquisa A criana e as embalagens de alimentos industrializados: questes perceptivas, simblicas e de consumo, coordenado pela Prof. Dra. Denise Dantas na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de So Paulo. O principal objetivo destas pesquisas era estabelecer um panorama do segmento de sucos e biscoitos doces industrializados analisando, tanto em termos de estrutura quanto de semitica, as informaes verbais e no-verbais presentes nos painis principais de embalagens destinadas ou consumidas pelo pblico infantil, buscando entender as relaes que se estabelecem do ponto de vista de linguagem e compreenso de informaes, bem como da possvel identificao de estratgias de comunicao especficas para ambos os segmentos. O panorama que se pretende obter ao comparar essas duas categorias distintas de produtos destinados ao pblico infantil um retrato das tendncias e estratgias de design que permeiam essas duas categorias estudadas e que possam ser indicativas de estmulo ao consumo de produtos no saudveis. 2. Procedimentos metodolgicos As pesquisas utilizaram mtodo de natureza qualitativa descritiva exploratria, baseado em levantamentos de campo. Os levantamentos foram realizados em quatro supermercados distintos localizados em bairros da Zona Sul e Oeste da cidade de So Paulo: Extra Hiper (Vila Santa Catarina e Vila Lageado ), Mambo (Campo Belo), Po de Acar (Alto da Boa Vista e Butant), Dia (Vila Santa Catarina) e Carrefour (Jardim Cambar). As visitas peridicas ocorreram mensalmente, entre os dias 01 e 10. Para orientar a obteno dos dados foi elaborada uma tabela, a qual determinava os aspectos que deveriam ser catalogados, sendo eles relacionados ao produto e embalagem. Para cada embalagem de biscoito ou suco presentes nos supermercados foram coletados sete dados: marca me, submarca, sabor, preo, tipo de material da embalagem, tipo de abertura e contedo lquido. A tabela tambm continha um campo chamado observaes, no qual outros aspectos relevantes pesquisa eram anotados, tais como caractersticas especficas do layout das embalagens ou novidades em relao coleta de dados de visitas anteriores. Paralelamente, os sucos e biscoitos catalogados que tinham maior expressividade no mercado, ou que se mostravam como casos interessantes ao objetivo das pesquisas, foram selecionados pela orientadora para serem os objetos de estudo da fase de anlise. Sendo assim, esses produtos foram comprados e posteriormente fotografados no FotoFAU, Laboratrio Fotogrfico da FAU USP. As embalagens selecionadas tiveram seus respectivos painis principais analisados do ponto de vista estrutural, semntico e simblico. Foram observados aspectos como os tipos de informaes contidas (marca, sabor, personagem, etc.); a disposio dos dados obrigatrios (nome legal do produto, marca, volume, informaes da indstria); a hierarquia de todas as informaes presentes nos painis; a poro em rea ocupada e, por fim, a eficincia da comunicao desses dados. 266. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 3 Para a fase de anlise foi utilizada a seguinte metodologia: primeiro, os produtos foram agrupados de acordo com faixas de preo. Em seguida, as estruturas grficas dos painis principais de cada produto foram mapeadas com o auxlio de softwares de computao grfica, a fim de determinar elementos relacionados a estratgias gerais de comunicao dos produtos e, em outro nvel, de cada empresa isoladamente. Dessa forma, foi possvel investigar se havia ou no uma estratgia de comunicao caracterstica dos segmentos de sucos e biscoitos doces industrializados. As anlises foram realizadas com embasamento bibliogrfico em Dondis (2003), Ferrara (1986), Hoffman (2000), Jacobson (2000) e Niemeyer (2003). Figura 1. exemplo de esquema do painel principal - biscoitos doces industrizalizados.1 (Grfico:Thabata Oliveira) Uma tabela comparativa foi utilizada para as anlises. Foram comparadas as informaes bsicas obtidas no levantamento de campo, a porcentagem da rea ocupada no painel principal, as diferentes maneiras pela qual as mesmas informaes foram apresentadas (redundncia), as informaes obrigatrias e as informaes perdidas aps a abertura e consumo dos produtos. Tais dados foram utilizados para fazer comparaes entre diferentes embalagens, avaliar a dominncia de alguns elementos e auxiliar na anlise da composio grfica. Um estudo analtico de Gestalt e semitica foi conduzido para cada uma das embalagens obtidas. Para isso foi elaborada uma ficha para cada uma das marcas obtidas. exemplificada abaixo. Os resultados obtidos em cada categoria de produto foram comparados entre si, com o intuito de se observar a existncia ou no de padres. Figura 2. exemplo de ficha de anlise - sucos industrializados. (ficha: Fernanda Uekita) Tambm foi verificada a resoluo RDC n 259, de 20 de setembro de 2002, que diz respeito ao regulamento tcnico sobre rotulagem de alimentos embalados. De acordo com esta resoluo, as informaes que obrigatoriamente devem constar na embalagem so: denominao de venda do produto; lista de ingredientes; contedos nome comercial Ades Kids nome l egal Alimento com soja sabor ma marca me Unilever marca Ades l inha Kids sabor Ma quantidade nominal 200 mL embal agem Tetra Brik Aseptic tipo de abertura Canudo preo* R$ 1,40 * mdia depreos obtidos de09/2012 a 01/2013nos supermercados pesquisados marca personagem sabor(tarja) 1 e 3 7 9 5 8 4 2 e 6 obrigatrias 1nomecomercial 2 nomelegal 3marca 4 sabor 5quantidadenominal 6 contm aromatizanteidnti - co ao natural outras 7 personagem 8 fruta 9 informaes nutricionais em tom promocional infos Anlise estrutural. Seguindo o padro estrutural encontrado na categoria, a embalagem do suco Ades Kids a Tetra Brik Aseptic. As intrues deuso esto na facesuperior eno ficam ocultadas quan - do o suco est sendo consumido. Anlise do painel principal. Em relao hierarquia das informa- es, duas delas dividem a ateno do observador em uma primei - ra observao: a marca (1), quetoma metadeda poro superior do painel principal etem granderea em branco ao redor para dar respiro eo sabor, comunicado atravs da fruta (8) eda tarja verme- lha (4). O personagem licenciado (7) tambm ocupa muito espao visual, echama bastanteateno por estar posicionado estrategi - camentejunto ma. Junto a elea legenda A Era do Gelo 4 so bastanteapelativas ao pblico infantil, porquefaz referncia ao filmedeanimao do qual o personagem foi tirado. Essefilme, que foi um grandesucesso entrecrianas eadultos, podeimprimir uma imagem positiva sobreo produto, fazendo com queeleseja mais atraentetanto para os pais quanto para os filhos pequenos. Logo abaixo da tarja em queest escrito o sabor do suco por extenso, localiza-seo nomelegal do produto (2) seguido pelo alerta contm aromatizanteidntico ao natural. esquerda est a quantidade nominal do produto, em uma fonteem tamanho suficientepara quea informao seja tranmitida demaneira clara. Por setratar de um suco desoja, as pores debranco so bastantesignificativas, edo ao produto um ar saudvel quereforado pelo tipo deilus- trao adotado da ma, quetem gotas degua em sua superfcie como setivessesido recm lavada epelo fundo dessa imagem, um campo verdequeremetemuito a ideias como frescor enatureza. > > fruta 120mm 37mm 47mm 267. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 4 lquidos; identificao da origem; nome/ razo social e endereo do importador; identificao do lote; prazo de validade. 3. Sucos industrializados Esta pesquisa foi desenvolvida pela bolsista Fernanda M. Uekita. Foram estudadas trs categorias de sucos: sucos em p, sucos concentrados e sucos de caixinha, em embalagens grandes (acima de 1L) e pequenas (at 300 ml). Foram catalogados 325 embalagens, sendo 27 de sucos concentrados, 47 de sucos em p, 154 de sucos em embalagem longa vida grandes e 97 de sucos em embalagem longa vida pequenas de at 300 ml. Apesar da grande variedade de produtos encontrados na pesquisa de campo, o foco principal da anlise foram os sucos em embalagens de 300ml, por serem os que maior contato tem com as crianas. So consumidos em diversas situaes, por comodidade, tais como no lanche da escola ou quando os pais levam as crianas para passear. Esta categoria de produto apresentou-se dividida em 28 linhas distribudas entre 16 marcas distintas. Contexto dos produtos no mercado Em todos os supermercados visitados os sucos estavam localizados em uma seo especfica, prxima aos demais tipos de bebidas comercializados. Na categoria dos sucos prontos para o consumo ficam dispostos lado a lado os produtos com emba- lagens maiores (de 1L a 2L) e os com embalagens menores (200 ml a 300 ml). Quando a gndola do corredor desse setor no tem capacidade para abrigar todas as categorias, os sucos concentrados e os em p ficam separados dos comuns. A disposio dos produtos nas gndolas determinada pela importncia da marca e pela categoria e pblico-alvo. As verses light costumam ficar agrupados e podem ser encontradas separadas das respectivas verses convencionais. A segmentao de pblico-alvo (crianas ou adultos), que notada com mais fora nos sucos para pronto consumo de embalagens pequenas, tambm potencializada pela maneira como ficam expostos: nas prateleiras centrais e inferiores, para facilitar o acesso ttil e visual das crianas. H uma grande variedade de marcas sendo comercializadas, sobretudo nas categorias de sucos comuns e em p. Na primeira, comum que empresas detenham uma nica marca com vrias linhas, enquanto na segunda uma mesma empresa detm vrias marcas que, por sua vez, possuem uma linha s de produtos. Isso tambm ocorre nos sucos concentrados. Em todos esses segmentos a gama de sabores extremamente diversificada, mas uva, laranja, manga, ma (sobretudo nos infantis) e pssego tem mais destaque. Muitos produtos possuem duas verses, uma normal e uma light. Eventualmente ocorrem edies limitadas com sabores exticos ou sazonais. O tipo de embalagem caracteriza bem cada categoria de produtos: embalagens cartonadas geomtricas do tipo longa-vida para os sucos de pronto consumo, garrafas PET para os sucos concentrados e saquinhos flexveis para os sucos em p. A variao de forma entre as embalagens dos produtos de cada categoria bastante sutil, sendo que as poucas marcas que apostam em embalagens diferenciadas so encontradas somente nos sucos de pronto consumo. 268. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 5 Figura 3. gndola de sucos em supermercado de So Paulo. (Foto: Fernanda Uekita) Layout do painel principal e apelo ao pblico infantil No geral, o layout das embalagens de todas as categorias de suco comunica o sabor do produto na parte frontal, com imagens da fruta e o sabor por escrito. Na categoria de sucos concentrados e em p, essa estratgia foi adotada em todos os produtos analisados; j no caso dos sucos de caixinha, notam-se estratgias alternativas a esse padro, como o uso de ilustraes, personagens que representam frutas e composies simblicas. Splashs informando benefcios nutricionais do produto tambm so adotados com frequncia em todas as categorias para complementar o espao grfico. Poucos produtos so especificamente destinados ao pblico infantil, e estes se concentram fortemente nos sucos para pronto consumo em embalagens de 200 a 300 ml. Entre os sucos em p analisados, apenas a marca Tang possui produtos que dialogam diretamente com esse pblico, o que no ocorre em nenhum produto encontrado na categoria de sucos concentrados. Quando existe, a distino entre as linhas convencionais e as especficas para crianas feita adotando personagens licenciados ou prprios da marca, ou ainda alterando o formato da embalagem e seu tipo de abertura em relao aos produtos convencionais. Entretanto, nos produtos em que isso no ocorre outras estratgias tambm podem ser apontadas como sugestivas: o uso dos layouts alternativos descritos no pargrafo anterior e dos splashs com informaes nutricionais especficas, cujos dados podem influenciar pais a comprar o produto para seus filhos. Figura 4. embalagens de sucos para crianas com uso de personagens. (Foto: Fernanda Uekita) As anlises apresentadas a seguir so fruto das observaes feitas durante a pesquisa de campo, catalogao dos dados e estudos dos painis principais selecionados, tendo como base a bibliografia indicada: FERRARA (1986) e NIEMEYER (2003). Sucos concentrados 269. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 6 O sortimento de marcas na categoria de sucos concentrados pequeno, sendo a que mais se destaca a Maguary, empresa tradicionalmente consagrada nesse segmento. H grande variedade de sabores, sendo os mais populares Caju, Maracuj, Manga e Uva, e cada um possui um rendimento caracterstico. No h divises entre verses convencionais e light. As empresas diferenciam-se entre si pela forma das garrafas, que apresentam diferentes alturas e detalhes como sulcos ou salincias em sua superfcie. Os rtulos, todos em material polimrico, ilustram as frutas correspondentes ao sabor do produto utilizando fotografias. O campo visual totalmente preenchido por elementos grficos, e quase no se notam espaos em branco. No foi encontrada nenhuma embalagem que se comunique explicitamente com o pblico infantil na categoria de sucos concentrados. Sucos em p No segmento de sucos em p a quantidade de marcas atuantes grande, mas a maioria delas pertence ao grupo Kraft: Tang, Clight, Fresh e Sukest. A Ajinomoto tambm tem grande participao no mercado, com as marcas Mid e Fit, e nos supermercados que possuem marca prpria, estes produtos ocupam grande parte das gndolas. A variedade de sabores enorme: foram catalogados cerca de 30 sabores diferentes entre as 11 marcas observadas. Todos os produtos utilizam embalagens flexveis, que so saquinhos em formatos retangulares, com diferentes alturas e larguras. As embalagens mais compactas, como as da marca Taeq, chamam bastante ateno pelas dimenses, menores em relao s demais marcas. Notou-se uma tendncia em fracionar os saquinhos em dois atravs de um picote central, o que induz o consumo em pores menores ou individuais. So exemplos dessa tendncia as linhas Tangol, da marca Tang, e Clight. O layout das embalagens bastante similar entre todas as marcas. Traz a fruta correspondente ao sabor do suco, em forma de foto, o rendimento da poro e, ocasionalmente, informaes quanto a benefcios nutricionais. No caso dos produtos light, como Fit e Clight, predominam composies mais limpas e com mais presena da cor branca. O sistema de abertura sempre em picote, localizada ou na aresta superior do produto ou nas laterais. A nica marca encontrada com apelo direcionado para o pblico infantil foi a Tang, em ambas as linhas que disponibiliza (Comum e Tangol). No caso da primeira, trazia no verso do saquinho uma propaganda da Brigada Tang de Reciclagem; j no caso da segunda, a comunicao visual tanto da face frontal quanto da posterior foi adaptada para se direcionar s crianas. A utilizao de um personagem em forma de sol potencializa esse posicionamento. Sucos comuns Embalagens grandes (1L a 2L) O nmero de marcas nessa categoria bastante grande: no total, foram catalogadas 22 marcas e 43 linhas de produtos. Entre as marcas, destacam-se as linhas de Ades, SuFresh, Del Valle e Maguary. Existem inmeros sabores de sucos, e eles podem variar de acordo com a linha do produto. Nessa categoria so encontrados sucos de frutas e alimentos com soja adicionados de frutas, nas verses convencional e light. Produtos orgnicos tambm esto presentes nesse segmento. Quase todos os produtos so vendidos em pores de 1L. Das marcas analisadas, apenas as marcas Ceres, Ades e Del Valle possuem produtos em verses maiores, sendo essas dos sabores mais populares (laranja para Ceres; laranja, ma e uva para Ades e manga, pssego e uva para Del Valle Mais). Nesse caso, as pores so de 2L, 1,5L e 1,5L, respectivamente. Praticamente todos os produtos empregam embalagens cartonadas do tipo longa vida. Para esse caso, a utilizao de embalagens da Tetra Pak, sobretudo do modelo Brik Aseptic, praticamente hegemnica mas h ainda produtos que so embalados em garrafas pet (Del Valle Limo e Nada, Del Valle Maracuj e Nada) ou de vidro, usadas com grande expressividade nos produtos orgnicos (Taeq, Aecia e Coopeg). No geral, as empresas adotam apenas um formato de invlucro para 270. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 7 todos os seus produtos. A Del Valle, por outro lado, varia bastante o modelo da embalagem de acordo com a linha de suco. Figura 4. exemplos de embalagens de Del Vale. (Foto:Fernanda Uekita) Em relao ao layout, nos sucos de frutas sem soja predominam composies bastante coloridas e repletas de elementos grficos, enquanto os com soja tem mais espaos na cor branca. Quando o produto light, empregam-se com frequncia tons azuis ou metlicos, ou aumenta-se a quantidade de branco na embalagem. No geral, em todos os tipos de sucos as frutas so retratadas sozinhas ou em pores, predo- minantemente atravs de ilustraes hiper-realistas, que do imagem um carter fotogrfico. Algumas marcas se destacam, propondo layouts mais minimalistas e limpos com montagens com pedaos de fruta que formam composies grficas interessantes quando pareadas (efeito display) como pode ser visto acima na em embalagem de Del Vale Pssego e Limonada (figura 4). No h produtos que se comuniquem especificamente com o pblico infantil nesta categoria, mas dois exemplos podem ser apontados como aqueles que mais se aproximam de uma linguagem infantil, sobretudo devido ao uso de ilustraes e personagens nas embalagens: Sheffa e do bem. Figura 5. embalagens de 1 L de suco da marca "do bem". (foto de Fernanda Uekita) Embalagens pequenas (200mL a 300mL) Em comparao ao segmento de sucos para pronto consumo de embalagens grandes, a mesma categoria em embalagens pequenas dispe de um nmero menor de marcas. No total, foram catalogadas 28 linhas distribudas entre 16 marcas diferentes. Assim como no caso da outra categoria, as marcas que mais oferecem linhas de produtos so Ades, Su Fresh e Del Valle. O sortimento entre sucos com ou sem soja, nas verses convencionais ou light, e orgnicos tambm encontrada aqui, mas a diversidade de sabores menor do que nos invlucros maiores. Predominam massivamente os produtos com embalagens de 200 ml, mas tambm foram encontrados volumes de 250 ml (Su Fresh Light) e 300 ml (Del Valle Limo e Nada, Del Valle Maracuj e Nada). A utilizao de embalagens cartonadas do tipo longa-vida tambm um padro nessa categoria, sendo que todos os produtos analisados que 271. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 8 faziam uso desse tipo de invlucro empregavam modelos da marca Tetra Pak. H ainda poucos produtos que utilizam garrafas pet. Quanto ao layout dos produtos, notam-se trs variaes: marcas com produtos da mesma linha dos de volume maior, com a comunicao visual idntica da verso grande; marcas que utilizam a mesma linha do volume maior, mas acrescentam ao seu campo grfico elementos que visam o pblico infantil; e marcas com linhas exclusivas para os invlucros pequenos, divididas entre exclusivamente infantis. Em comparao s embalagens de 1L ou mais, as empresas variam mais quanto escolha do formato tridimensional das embalagens dos produtos. O predomnio dos formatos em prisma de base retangular. No caso daqueles direcionados s crianas, no s o emprego de personagens licenciados ou da marca utilizado como apelo, mas tambm o de embalagens chamativas, como no caso do modelo Tetra Wedge da Tetra Pak, que foge da linha paraleleppedo. Figura 6. Exemplos de produtos da marca Del Valle com as embalagens Tetra Wedge O sistema de abertura tambm um recurso utilizado para direcionar o produto ao pblico infantil: o canudo utilizado em quase todas as embalagens, mas o emprego do lacre no Su Fresh Light, por exemplo, evidencia que esse produto tem foco em consumidores fora da faixa etria infantil. Anlises da amostra de embalagens selecionadas Ao longo da pesquisa 10 exemplares de sucos de pronto consumo em embalagens pequenas foram selecionados para anlise especfica de seus respectivos painis principais. Foram eles: Ades Kids de ma (duas embalagens: 2012 e 2013); Dafruta Barbie de abacaxi; Dafruta Hotwheels de frutas ctricas; Del Valle Kapo de uva (um na embalagem Tetra Brik Aseptic e dois na embalagem Tetra Wedge (verso 2012 e verso 2013); "do bem" de tangerina; Su Fresh Turma da Mnica de pssego e Vig de maracuj. Todos esses produtos continham personagens no painel principal, por isso foram selecionados como objetos de anlise especfica. Figura 7. Embalagens de 200 ml analisadas. 272. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 9 (Foto: Fernanda Uekita) Todas as embalagens selecionadas eram da Tetra Pak, das quais sete eram do modelo Tetra Brik Aseptic e trs do modelo Tetra Wedge Aseptic. O modelo Tetra Brik Aseptic tem o formato de um paraleleppedo simples, de dimenses 47x120x37mm. Esse formato d estabilidade embalagem e ergonomicamente adequado s mos das crianas. J o modelo Tetra Wedge Aseptic um slido com aspecto triangular, cuja face frontal tem mais espao grfico que a Tetra Brik Aseptic. Por ter as laterais arredondadas pode ser considerado mais confortvel s mos durante o consumo do suco, embora esse tipo de embalagem seja menos funcional: pelo fato de o furo estar localizado na face frontal da embalagem, comum que usurios se queixem de o suco espirrar aps furarem o orifcio com o canudo. O formato diferenciado destaca os produtos que tem esse invlucro nos pontos de venda. Todas as embalagens eram dotadas de canudos de plstico, fixados na parte posterior da embalagem. Em apenas um dos sucos analisados as instrues de uso estavam no painel principal, e nesse caso ele no era danificado ou obstrudo pelas mos do usurio durante o uso. Os painis principais apresentam duas categorias de informaes: informaes obrigatrias e no-obrigatrias, que dependem da estratgia de cada marca. Entre as no-obrigatrias, notou-se o uso de personagens e de imagens ilustrativas de frutas que indicam o sabor do produto. A ABRE (Associao Brasileira de Embalagens) disponibiliza uma checklist com 20 tipos diferentes de informaes obrigatrias que devem constar nas embalagens de produtos alimentcios. Nos sucos analisados observou-se que apenas seis dessas informaes so expostas no painel principal. Alm dos tipos de informaes contidas nos painis principais, tambm foi estudado como elas se comportam no espao visual, com o intuito de determinar a hierarquia entre os elementos. Para isso, foram detectados 8 tipos de informaes na face frontal da amostra, divididos entre: cor, imagem (a. marca; b. personagem; c. fruta) e texto (d. sabor; e. volume; f. splashs; g. outras informaes obrigatrias (conforme tabela acima). Por fim, analisou-se o significado simblico de todas essas informaes em conjunto, ou seja, como elas se relacionam para construir a mensagem que esses produtos buscam passar aos seus consumidores. Cor. A cor foi um elemento fundamental nas embalagens analisadas. Em 60% delas essa informao reforava o sabor do produto, uma vez que as cores empregadas remetiam ao senso comum para tonalidades que lembram as respectivas frutas a partir das quais os sucos so produzidos (roxo para uva, laranja para tangerina e pssego, amarelo para maracuj). Nesses casos, a cor dominava o painel principal, e variava de produto para produto dentro da mesma linha. A figura 8 mostra a linha 2013 dos produtos da linha Kapo, em que a codificao por cores para sabores diferentes fica bastante evidente. Figura 8. Linha Del Valle Kapo (2013): cores dominam a relao de hierarquia das informaes. (fonte: Promoview, 2013.) Imagem. Pode-se notar que nos painis principais h trs categorias de imagem: a. marca, b. personagem e c. fruta. A marca obrigatoriamente uma constante; quanto aos outros elementos, h casos em que ambos so usados simultaneamente, casos 273. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 10 em que apenas o personagem aparece e casos em que o personagem uma fruta personificada. a. marca. O espao grfico que ocupam equivale, no geral, a cerca de 25% do espao grfico total. Com exceo dos sucos Ades, em todos os produtos analisados as marcas estavam dispostas na horizontal e na poro superior da face frontal da embalagem. Por localizarem-se nesse ponto nobre do campo visual, as marcas geralmente dividem o topo da hierarquia com o sabor dos produtos, mesmo que, em termos de rea, no sejam o elemento mais expressivo da composio visual. b. personagem. Os personagens so elementos de extrema importncia visual no painel. Pode-se notar eles se concentram sobretudo na parte central e inferior do espao visual. Tomando como base apenas dimenses verticais lineares, observou-se que nos produtos analisados os personagens ocupam de 40% a 60% do espao grfico. Dependendo da estratgia da marca, o personagem protagonista na embalagem e ocupa a maior parte do campo visual, mas h casos em que eles funcionam apenas como complemento. (a) (a) (b) (b) Figura 9. (a), sobreposio das marcas; (b), espao ocupado pelos personagens. (Grfico: Fernanda Uekita) c. fruta. Foram encontradas duas linguagens grficas nas imagens de frutas: fotorrealismo e ilustrao. No primeiro caso, investe-se muito no appetite appeal: as frutas tem gotas de gua na superfcie, comunicando frescor e sade. J as ilustraes tem carter mais ldico, por isso podem ser consideradas mais direcionadas ao pblico infantil do que as fotos. As imagens das frutas ficam concentradas ou na poro central ou inferior do painel, e ocupam em mdia cerca de 1/3 de sua rea, como pode ser visto na figura 10. Figura 10. Espao ocupado pelas imagens de frutas. (Grfico: Fernanda Uekita) Texto. Detectaram-se vrios tipos de informao textual no painel principal dos sucos: c. sabor, e. splash, f. volume e g. demais informaes obrigatrias. Elas so complementares s informaes em forma de imagem, e a maneira como so dispostas no painel principal influencia sua decodificao. 274. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 11 d. sabor. Como pode ser observado na imagem a seguir, as embalagens exploram vrias maneiras de dispor a tarja que contm o sabor do produto por escrito, embora a estratgia predominante seja coloc-la na parte inferior do painel. Quanto rea, ocupam uma pequena parte do painel principal: em mdia 5% do total. Do ponto de vista das informaes textuais, isso faz com que o usurio identifique primeiro a marca do produto (nome na faixa superior) e depois o sabor por escrito. No entanto, quando se considera o painel como um todo (informao textual, imagem e cor), o sabor o dado com maior importncia hierrquica, devido estratgia de redundncia. (a) (a) (b) (b) Figura 11. (a), tarjas com informaes de sabor; (b), splashs. (Grfico: Fernanda Uekita) e. splash. Por serem uma informao textual de carter informal, os splashs so os elementos que mais variam de posio de embalagem para embalagem. Porm, nota- se a preferncia por posicion-los na parte direita do painel, local nobre do campo visual. Essa estratgia contribui para ressaltar ainda mais os benefcios nutricionais dos sucos, informao direcionada principalmente para os adultos que compram esses produtos para crianas. f. volume. Posicionar o volume na poro inferior do painel principal uma conveno para todos os sucos analisados. A maioria deles coloca essa informao na parte inferior esquerda, local menos visado do campo visual. Talvez isso seja explicado pelo fato de o volume no ser um diferencial de marca, uma vez que, para essa categoria de suco, 200 ml praticamente um padro. Essa informao textual a menos destacada no campo visual. g. As outras informaes obrigatrias, tais como nome legal do produto e origem da indstria se concentram no permetro do painel principal, geralmente dispostas em sentido vertical. Isso dificulta a leitura e contribui para que outras informaes com carter mais promocional sejam privilegiadas. Em seis dos dez casos analisados a informao que explicita que os produtos so sucos mistos fica completamente camuflada no painel principal, induzindo o consumidor a focar-se nos demais dados visuais do painel que comunicam receitas puras e saudveis. (a) (a) (b) (b) Figura 12. (a), informaes sobre volume; (b), outras informaes obrigatrias. 275. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 12 Concluses sobre as embalagens de sucos industrializados de 200 ml Segundo Niemeyer, (2003), o primeiro objetivo da mensagem fazer crer. Para isso as embalagens analisadas se dividem entre dois tipos de estratgias: comunicar o suco industrializado como um produto natural e saudvel, ou convencer o consumidor a acreditar que os sucos so bons produtos no apenas por seus benefcios nutricionais, mas sim pelo envolvimento afetivo ou credibilidade passada por personagens que fazem parte do repertrio infantil e que so reconhecidos pelo pblico adulto, responsvel pela compra. H casos em que ambas as estratgias so utilizadas simultaneamente, numa relao de complementao. Das tticas de estratgia persuasiva indicadas por Niemeyer, foi possvel observar que para construir a mensagem das embalagens as marcas usufruem da tcnica de seduo: a composio visual com cores vivas, imagens com appetite appeal e, sobretudo, o uso de personagens que se relacionam com o universo infantil criam um vnculo afetivo entre o produto e o consumidor. As embalagens trazem cenrios ldicos de aventura; utilizam personagens que so originalmente brinquedos (e nesses casos aplicam uma linguagem visual muito semelhante encontrada nas caixas desses brinquedos) ou personagens entre frutas suculentas, associando o divertido ao saudvel; todas essas estratgias instigam a criana a interpretar que consumir o suco de frutas pode ser prazeroso como brincar. Para garantir a decodificao e fixao da mensagem de sade e diverso, as marcas investem muito na prtica da redundncia. Essa atitude extremamente eficiente para desviar a ateno do consumidor do fato de que muitos desses sucos so produzidos a partir de receitas mistas, e no apenas da fruta, como sugere o apelo visual empregado. Abaixo um exemplo desta estratgia de comunicao: a cor roxa em quase toda a rea do painel principal, associada a uma ilustrao de um personagem que um cacho de uvas e dispor um texto em que se l sabor uva, faz com que essa informao redundante tenha pregnncia, enquanto a informao real bebida mista de ma, laranja, uva e abacaxi com aroma de uva, em tipografia condensada e contornada, disposta na parte inferior da embalagem, passa desapercebida. Figura 13. Estratgias para comunicao do sabor do suco. interessante notar que, ao mesmo tempo que as marcas buscam atravs da tcnica da seduo criar identificao entre produto e pblico-alvo, que a criana, no deixam de trazer informaes mais apelativas ao pblico adulto, o qual determinante no processo da compra: em todas as embalagens analisadas algumas informaes nutricionais benficas so ressaltadas em tom promocional, seja em linguagem sbria, seja em splashs coloridos e chamativos, como pode ser observado na figura 14, quando vemos o texto na parte superior "com suco natural de frutas". 4. Biscoitos doces industrializados Esta pesquisa foi desenvolvida pela bolsista Thabata Fernanda Oliveira. No perodo de 276. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 13 levantamento, foram catalogadas 237 embalagens de 23 marcas mes. Em seguida, 23 pacotes dos biscoitos que possuam maior apelo ao pblico infantil, foram analisados. Aps registro fotogrfico, as embalagens foram abertas, planificadas e digitalizadas. O uso de software de desenho assistido por computador permitiu traar o contorno das formas do painel principal por cima da imagem digitalizada da embalagem (figura 1). Contexto dos biscoitos doces no mercado Dentro da categoria de biscoitos industrializados existem os biscoitos doces e os salgados. No supermercado, esses dois tipos de biscoitos ficam em diferentes grupos em corredores ou prateleiras separadas. Essa pesquisa limita-se aos biscoitos doces, que podem ser apresentados com ou sem recheio, com ou sem cobertura, em forma de bolacha ou rosquinha2 ou ainda podem ser do tipo wafer. Os biscoitos geralmente ficam em um local do supermercado perto dos chocolates e de outros doces. Algumas excees so para os biscoitos naturais, orgnicos, lights ou dietticos, que ficam em outra sesso destinada a essa categoria de alimento. Biscoitos das marcas Bauducco, Nestl, Kraft Foods e Adria apareceram em grande quantidade nos trs supermercados visitados. No Po de Acar, os biscoitos destinados ao pblico infantil estavam concentrados na parte inferior da gndola, local de mais fcil acesso e visualizao do pblico infantil enquanto que no Carrefour e no Extra, esses biscoitos estavam distribudos por toda a extenso vertical da prateleira. O material predominante das embalagens o polipropileno (PP). A maioria dos biscoitos acondicionada em sacos ou embalagens flexveis, que podem ser metalizadas. Alguns fabricantes no indicam o tipo de material da embalagem e outros indicam que a embalagem se encaixa na categoria 7, que engloba produtos plsticos fabricados com policarbonato, ABS, poliamida, acrlicos ou diversas combinaes de resina. Os biscoitos que possuem cobertura, por serem mais sensveis, ficam acondicionados em caixinhas de papelo, com invlucro flexvel de PP. Os sistemas de abertura no possuem muita variao, as embalagens de 140g a 160g frequentemente possuem uma fita plstica vermelha, com revestimento adesivo, que fica na parte interna da embalagem e auxilia a abertura. Em alguns casos a embalagem picotada nas abas e h outros em que no existe nenhum sistema especial de abertura, como acontece com os biscoitos Marilan. As embalagens que possuem fita so acompanhadas de uma seta indicando o local para puxar juntamente com a frase abra aqui ou puxe aqui. Existem algumas embalagens prprias para o lanche. A Nestl possui uma embalagem de Passatempo contendo 6 pacotes de 30g; a Kraft Foods possui o Trakinas mini, de chocolate ou morango, em embalagens de 25g cada; a Parati tm a Mini goiabinha em embalagem com 6 pacotes de 25g e a Belvita possui embalagens contendo 30g de biscoito. Para os biscoitos do tipo wafer, a Nestl oferece o Passatempo de 20g; a Marilan o Turmix de 32g; a Arcor o Mini Danix de 40g; a Kraft Foods o Mini Bis de 30g e a Mabel o Mirabel de 40g. Algumas caractersticas das embalagens podem sugerir o uso do produto ou o pblico alvo. Os biscoitos destinados culinria, em sua maioria, no trazem a fita de abertura e so de 330 a 400 g. Para o pblico infantil as embalagens so mais metalizadas, possuem no mximo 160g e na maioria das vezes tm a fita de abertura. Considerando as habilidades motoras pblico infantil, a fita plstica pode ser considerada um aspecto positivo dessas embalagens. Marcas Pelos dados coletados possvel observar, de modo geral, que as marcas trabalham com vrias submarcas de produtos e dentro de cada submarca existe uma linha de biscoitos com sabores variados. A Nestl, por exemplo, possui 13 submarcas de biscoitos nos supermercados pesquisados, uma delas o Passatempo, que oferecido com recheio de morango, chocolate etc. Alguns supermercados possuem marcas 277. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 14 prprias para o produto. O Carrefour utiliza a prpria marca Carrefour, o Extra e o Po de Acar utilizam em conjunto a marca Qualit. Sabores Os sabores so variados, os mais comuns so chocolate, morango e baunilha, mas existe tambm sabores mais inusitados como o Trakinas especial da Era do Gelo 4, que de sorvete de frutas vermelhas ou de sorvete de limo, o Gulosos da Bauducco sabor marshmallow ou as Tortinhas Due, com os sabores Cheese Cake + Gelia de Goiaba, Trufa + Gelia de Morango e Chocolate Branco + Gelia de frutas vermelhas. Figura 14. Embalagem de Gulosos sabor marshmalow, da Bauducco. (Foto: Thabata Oliveira) Alguns biscoitos usam marcas de outros produtos conhecidos para especificar o sabor. A Nestl possui biscoitos sabor Prestgio, Moa, Galak, Nescau e Classic. Essas marcas fazem referncias produtos de outras categorias do mesmo fabricante. As marcas prprias dos supermercados apresentam poucas variaes de sabor. Cores Amarelo, marrom, vermelho e rosa apareceram com bastante frequncia nas embalagens e de modo geral so usadas paletas cromticas com mais de seis cores. A impresso no plstico deixa um acabamento brilhante, assim a luz refletida com bastante intensidade, deixando as cores bastante vivas. Alm disso, comum a opo por cores saturadas. As cores tambm so utilizadas para indicar o sabor do biscoito ou do recheio. Por exemplo, nos biscoitos Trakinas, um fundo marrom indica chocolate, rosa indica morango, verde sugere limo e assim por diante. Figura 15. Embalagem do biscoito Trakinas sabor morango e chocolate. (Foto: Thabata F. Oliveira) Composio visual A maioria dos biscoitos industrializados acondicionada em embalagens flexveis, resultando em um produto cilndrico de dimetro entre 4 e 5cm e altura entre 18 e 20cm. Tal configurao cria setores de visualizao da embalagem, esses setores podem ser repetitivos ou no. A presente pesquisa estudou esses painis, com maior ateno ao painel principal, que so as reas de rotulagem com maior destaque. A anlise da composio visual dos painis foi baseada nos princpios apresentados por Dondis (2003) e Hoffman (2000). Alguns padres puderam ser observados na composio visual dos painis estudados. Esses padres se referem aos pesos, posicionamentos e direo dos elementos. Como pode ser observado no exemplo da figura 16, o painel principal apresenta vrias categorias de informao, entre elas, as mais frequentes so: marca me, marca, sabor, imagem do biscoito, informaes nutricionais, informaes obrigatrias, informaes de abertura, informaes adicionais do biscoito e personagem. 278. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 15 Figura 16: Exemplo de informaes presentes no painel principal de uma embalagem de biscoito. (Grfico: Thabata F. Oliveira) O grfico 1 contm informaes a respeito da porcentagem da rea ocupada no painel principal por cada categoria de informao em relao s 23 embalagens obtidas. Grfico 1 Para os biscoitos das marcas Plugados, Tortinhas, Trakinas e Passatempo, a marca o elemento que ocupa a maior rea no painel principal. A imagem do biscoito possui a maior rea nas embalagens do biscoito amanteigado da Bauducco, do Recheadinho, Kid Lat, Toddy e recheados da Visconti. O personagem o maior elemento para o Gulosos, da Bauducco. As informaes nutricionais tambm ocupam uma rea grande do painel principal. Portanto, a marca, a imagem do biscoito, as informaes nutricionais e o personagem em painis que possuem um personagem so elementos de amplo peso na composio. Eles ocupam grande porcentagem da rea do painel principal, ou ainda esto situados prximos ao centro. Essas informaes nutricionais, que so apresentadas com destaque no painel principal, so relativas caractersticas consideradas benficas do produto, como a presena de vitaminas, clcio e ferro. A tabela que indica a quantidade desses nutrientes e a presena de outros, como os acares, gorduras e sdio, assim como a lista de ingredientes, encontram-se nos painis secundrios. A direo dos elementos tambm mostrou uma tendncia. O alinhamento em diagonal ascendente se mostrou bastante 279. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 16 presente, conferindo um movimento da esquerda para a direita, de baixo para cima. As embalagens que possuem a marca me no painel principal, tm seu logotipo posicionado no canto superior esquerdo do painel. O biscoito e o personagem aparecem no centro ou no lado direito. Assim, seguindo a ordem de leitura da esquerda para a direita temos: marca me; marca; imagem do biscoito e personagem, como exemplificado na figura 17. Figura 17: Padro encontrado na sequncia de posicionamento dos elementos no painel principal das embalagens. (Grfico: Thabata F. Oliveira) Esse padro foi encontrado em nove das dez marcas analisadas. A exceo, o biscoito Kid Lat da Parmalat, posiciona a marca me na extremidade direita do painel principal. Figura 18: Embalagem do biscoito Kid Lat, com a marca me na extremidade direita do painel principal. (Foto: Thabata F. Oliveira) Mensagem No caso de embalagens destinadas ao pblico infantil, a codificao da mensagem deve avaliar o repertrio desse pblico e levar em considerao que uma parte dele ainda no foi alfabetizado. A anlise das mensagens visuais foi realizada com base na obra de Ferrara (1986) e Niemeyer (2003). Entre as tticas utilizadas para uma estratgia persuasiva no processo de comunicao definidas por Niemeyer, a mais utilizada pelas embalagens analisadas a seduo. So utilizados sabores apelativos, como brigadeiro ou sorvete. As imagens dos biscoitos e dos elementos relacionados aos sabores tambm so usadas como appetite appeal3 . Os personagens so importantes no processo persuasivo pois se relacionam com o repertrio do pblico alvo e seduzem ao evocarem afetividade. Outra estratgia bastante utilizada a tentao. As embalagens podem conter uma premiao, como adesivos ou sorteios. Dentro do pacote de biscoito Plugados da Adria, alm dos biscoitos, h um adesivo e- plug, com uma senha que oferece vantagens em um site destinado marca. Na anlise da identidade da marca na embalagem, possvel observar que a identidade construda com base em temas relacionados ao estilo de vida e repertrio do pblico infantil. As travessuras evocadas pelo biscoito Trakinas; o uso frequente da internet trazido pelo biscoito Plugados; o processo de alfabetizao trazido pelos biscoitos estampados com animais e letras do Passatempo Junior; a paixo por personagens de desenhos animados ou filmes infantis Bob Esponja, a Era do Gelo 4, Alvin e os Esquilos 3 que so licenciados para vrias marcas. Tais identidades criam um envolvimento afetivo do pblico com a embalagem e com o biscoito, pois se relacionam com o conhecido e admirado (figura 19). 280. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 17 Figura 19: Exemplos de identidades visuais adotadas (Foto: Thabata F.) A comunicao das embalagens dentro de uma mesma linha redundante, marcada pela repetio. As variaes ocorrem basicamente na imagem do biscoito, no nome do sabor e em algumas cores. A redundncia tambm ocorre em algumas embalagens de uma mesma marca. Os biscoitos da Bauducco por exemplo, sempre possuem a marca Bauducco sobre um fundo amarelo esquerda do painel principal. A repetio garante a fixao da mensagem e a identificao com a marca. O sabor a informao apresentada com maior redundncia nas embalagens. Como pode ser exemplificado na figura 20 do biscoito Trakinas sabor brigadeiro, a informao de sabor aparece textualmente em duas ocasies: com grande destaque junto aos elementos do painel principal, (em sabor brigadeiro) e com menor destaque na denominao de venda do produto (em biscoito recheado sabor brigadeiro). O sabor tambm apresentado graficamente atravs da ilustrao do biscoito, da ilustrao do brigadeiro e do fundo tracejado, representando o chocolate granulado. As cores, que so saturadas e chamativas, tambm so utilizadas para indicar o sabor do biscoito ou recheio. Figura 20: Redundncia de informao de sabor. (Foto: Thabata F. Oliveira) Informaes obrigatrias Apesar das embalagens analisadas seguirem a legislao quanto tamanhos e distribuio, as informaes obrigatrias recebem pouco destaque na embalagem, pois esto em locais de menor visualizao do painel principal, utilizam tipografias condensadas e exceto a indicao dos contedos lquido, as informaes obrigatrias so apresentadas em letras no tamanho mnimo de 1mm, como estabelecido pela legislao nacional. A embalagem de 60g do biscoito da figura 21 requer que o usurio levante uma aba para visualizar a lista de ingredientes. Figura 21: Lista de ingredientes embaixo da aba. (Foto: Thabata F. Oliveira) Informaes nutricionais As informaes nutricionais so apresentadas de trs maneiras: tabela nutricional, infogrfico ou texto. Predominam as tabelas nutricionais. Elas facilitam a visualizao da informao pois organizam os dados de uma maneira visualmente lgica. Geralmente possuem duas colunas, uma indica o nutriente e a outra indica a quantidade desse nutriente por poro de 30g. Porm, foi verificado que muitas vezes o contraste da tipografia com o fundo baixo. Esse fato combinado com letras 281. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 18 pequenas acaba por dificultar a legibilidade. Os infogrficos ocorrem com frequncia para mostrar caractersticas nutricionais benficas, como a presena de vitaminas. Nota-se o uso de imagens metafricas para ilustrar a presena desses nutrientes, como pilha da marca Trakinas (figura 22) e raio Nutri Active do biscoito Passatempo. Os infogrficos so elementos chamativos da embalagem e de fcil visualizao. Entretanto, na maioria das embalagens, as quantidades de acares, gorduras e sdio informaes importantes para essa categoria de alimento so deixadas nas tabelas nutricionais ou textos. Figura 22: Embalagem planificada da marca Trakinas. (Foto: Thabata F. Oliveira) Entre as marcas analisadas, apenas duas colocam o valor energtico e as quantidades de acares, gorduras e sdio em local de maior visibilidade, na forma de infogrfico. Figuras 23 e 24: Infogrficos com informaes nutricionais (Foto: Thabata F. Oliveira) As informaes nutricionais apresentadas na forma de texto possuem a pior visualizao, pois unem em um nico pargrafo diversas informaes: lista de ingredientes, informaes nutricionais e identificao de origem. A figura 25 mostra um exemplo de opo por texto, presente em um dos biscoitos estudados. Figuras 25: Texto com informaes do produto. (Crdito: Thabata F. Oliveira) Concluses sobre as embalagens biscoitos doces As embalagens de biscoitos industrializados doces so, de maneira geral, de fcil identificao e de uso fcil. As informaes do painel principal so as mais visveis e contm informaes que influenciam na deciso de compra. A pesquisa mostrou que as informaes que receberam maior importncia e que so comunicadas com maior eficcia nas embalagens analisadas so: a marca, o sabor, o personagem e as qualidades nutricionais benficas do biscoito. Essas informaes ocupam uma grande porcentagem da rea do painel principal da embalagem, so apresentadas com cores 282. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 19 saturadas e chamativas e utilizam um estilo atrativo ao pblico infantil. As informaes obrigatrias e as tabelas nutricionais, que tambm so informaes importantes a serem consideradas na compra de um produto para consumo infantil, so colocadas em locais de menor visualizao e possuem legibilidade reduzida. 5. Concluso possvel perceber, ao compararmos os resultados obtidos nas duas pesquisas, que cada categoria tem duas estratgias de comunicao prprias, muitas vezes influenciadas mais pelo formato fsico da embalagem do que por uma distino prpria de cada produto. Apesar dessas variaes, entretanto, possvel dizer que existe uma estratgia comum de comunicao nas duas categorias estudadas, que se valem das estratgias da seduo para persuadir o pblico infantil e criar um elo de afetividade deste com os produtos. Muitas vezes essas tcnicas acabam por induzir o consumidor ao erro, uma vez que reforam, por redundncia, informaes secundrias ou que no refletem o real contedo da informao a ser passada, valendo-se de critrios de composio para mascarar outras informaes que so menos interessantes para os fabricantes. Algumas tticas puderam ser identificadas e se repetem em ambas as categorias: utilizao de tipografia condensada, em tamanho pequeno, com contorno, geralmente em fundo de pouca legibilidade e com muita interferncia, para mascarar informaes legais obrigatrias; redundncia de informao com o uso de texto, ilustrao e cores, que podem levar o consumidor a se enganar em relao ao contedo ou sabor do produto; uso de infogrficos para ressaltar informaes nutricionais benficas nos produtos, induzindo o consumidor a pensar que este produto um produto saudvel. O uso de personagens tambm deve ser destacado, uma vez que presena constante em diversos produtos das duas categorias analisadas. Estes merecem um estudo mais aprofundado pois seu impacto no pblico infantil varia de acordo com a idade, sendo mais passveis de influncia para crianas menores de 6 anos. Embora a promoo e venda de um produto sejam funes importantes da embalagem, os resultados da pesquisa indicam que questes ticas relativas ao papel dos designers na sociedade devem ser discutidas. A estratgia adotada pelo design pode estimular o consumo de alimentos industrializados pouco saudveis por crianas, podendo contribuir para o aumento da obesidade infantil. A seleo de informaes a respeito do produto apresentadas com maior destaque, pode levar a interpretaes errneas sobre as caractersticas do produto, especialmente no que se refere qualidades nutricionais. Por fim, foi possvel perceber que o levantamento feito pelas bolsistas nesta pesquisa de Iniciao Cientfica contribuiu de maneira significativa para a compreenso das estratgias de comunicao das embalagens destinadas ao pblico infantil e que as questes de consumo seguramente sofrem forte influncia das estratgias de design identificadas nos estudos. A ampliao deste levantamento para outras categorias de produtos consumidos pelo pblico infantil desejvel e necessria, para poder ratificar os resultados obtidos at o momento. Referncias ANVISA. Resoluo RDC n 259, de 20 de setembro de 2002. In: Portal: Anvisa.Disponvel em : http://portal.anvisa.gov.br/wps/wcm/connect/36bf398047457db389d8dd3fbc4 c6735/RDC_259.pdf?MOD=AJPERES>, 02/02/2013. DONDIS, D. Sintaxe da linguagem visual. So Paulo: Martins Fontes, 2003. FERRARA, L.A. Leitura sem palavras. So Paulo: tica, 2004. HOFFMAN, D. Inteligncia visual. Rio de Janeiro: Campus, 2000. 283. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica - Vol. 3 no 1 janeiro de 2014 Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design 20 INSTITUTO ALANA. Consumismo Infantil, um problema de todos. So Paulo, 2011. In: Home: Alana. http://alana.org.br/CriancaConsumo/ConsumismoInfantil.aspx, 12/09/2012. JACOBSON, . Information Design. 1 e_d. EUA: MIT Press, 2000. NIEMEYER, L. Elementos de semitica aplicados ao design. Rio de Janeiro: 2AB, 2003. Esta pesquisa contou com o apoio institucional da Universidade de So Paulo, na modalidade bolsas RUSP de IC. 1 Os nmeros indicam a rea ocupada pela superfcie em cm2 . 2 Bolacha o nome dado ao biscoitos de forma plana ou achatada e rosquinhas so biscoitos que tm forma anelar. 3 Appetite appeal o termo utilizado para o recurso de lanar estmulos ao paladar. 284. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014, So Paulo: Centro Universitrio Senac ISSN 2179474 X 2014 todos os direitos reservados - reproduo total ou parcial permitida, desde que citada a fonte portal de revistas cientficas do Centro Universitrio Senac: http://www.revistas.sp.senac.br e-mail: revistaic@sp.senac.br Confira tambm nessa edio Vdeo editado por alunos do curso de Design Industrial, participantes do Programa Cincia sem Fronteiras do Cnpq, apresenta um relato udio-visual das experincias vivenciadas por eles durante o perodo de estudo na Universidade de Lisboa, entre 2012 e 2013. Acesse no endereo http://www.youtube.com/watch?v=odhIdh2v7M0 Avaliadores Ad-Hoc Ariane Daniela Cole David Sperling Maria Eduarda Arajo Guimares Alcio Rossi Filho Ana Lcia Reboledo Sanches Ana Paula Coelho de Carvalho Andra Almeida Artur Simes Rozestraten 285. Iniciao - Revista de Iniciao Cientfica, Tecnolgica e Artstica Edio Temtica: Comunicao, Arquitetura e Design Vol. 3 no 1 - janeiro de 2014, So Paulo: Centro Universitrio Senac ISSN 2179474 X 2014 todos os direitos reservados - reproduo total ou parcial permitida, desde que citada a fonte portal de revistas cientficas do Centro Universitrio Senac: http://www.revistas.sp.senac.br e-mail: revistaic@sp.senac.br Carlos Egdio Alonso Celia Maria Escanfella Cibele Taralli Daniel Corsi da Silva Nelson Jos Urssi Eduardo Cardoso Braga Eneida de Almeida Feres Loureno Khoury Fernando Vzquez Giorgio Giorgi Joo Clark de Abreu Sodr Lauer Alves Nunes dos Santos Mario Segall Nanci Rodrigues Barbosa Nara Martins Pedro Antnio Janeiro Ralf Jos Castanheira Flres Ricardo Luis Silva Roberto Novelli Fialho Robinson Salata Teresa Riccetti Valria Cssia dos Santos Fialho Zuleica Schincariol