Preconceito lingustico marcos bagno

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  • 1. MARCOS BAGNO, tradutor, escritor e lingista, Doutor em Filologia eLngua Portuguesa pela Universidade de So Paulo (USP). Professor deLingstica do Instituto de Letras da Universidade de Braslia, publicouA lngua dc Eullia: novela sociolingstica (Ed. Contexto, 1997; em13 ed.); Preconceito lingstico: o que , como se faz (Ed. Loyola,1999; em 15 ed.); Dramtica da lngua portuguesa (Ed. Loyola, 2000;em 2 ed.); Portugus ou brasileiro? Um convite pesquisa (ParbolaEd., 2001; em 2 ed.); Lngua materna: letramento, variao e ensino(Parbola Ed., 2002). Alm desses ttulos, autor de duas dezenas deobras literrias. Recebeu em 1988 o Prmio Nestl de LiteraturaBrasileira e, em 1989, o Prmio Carlos Drummond de Andrade dePoesia, entre outros. Selecionou e traduziu os artigos reunidos emNorma lingstica (Ed. Loyola, 2001). Traduziu Histria concisa dalingstica, de Barbara Weedwood (Parbola Ed., 2002), alm dedezenas de obras cientficas, filosficas e literrias de autores comoBalzac, Voltaire, H. G. Wells, Sartre, Oscar Wilde, etc. Vem sededicando investigao das implicaes socioculturais do conceitode norma, sobretudo no que diz respeito ao ensino de portugus nasescolas brasileiras.Obras do Autor:A inveno das horas (contos), Ed. Scipione, 1988 (IV Prmio Bienal Nestl de Literatura Brasileira)O papel roxo da ma (infantil), Ed. L, 1989 (Prmio Joo de Barro de Literatura Infantil)Um cu azul para Clementina (infantil), Ed. L, 1991Frevo, amor & graviola (juvenil), Ed. Atual, 1991Amor, amora (juvenil), Ed. Bagao, 1992Os nomes do amor (juvenil) (co-autoria com Stela Maris Rezende), Editora Moderna, 1993A vingana da cobra (juvenil), Ed. tica, 1995Dia de branco (juvenil), Ed. L, 1995Miguel, o cravo & a rosa (infantil), Ed. L, 1995Rua da Soledade (contos), Ed. L, 1995 (Prmio Estado do Paran 1989)A barca de Zo (infantil), Ed. Formato, 1995Mirablia (contos), Editora Didtica Paulista, 1996Uma vitria diferente (juvenil) Ed. L, 1997Unhas de ferro (juvenil), Ed. L, 1997A Lngua de Eullia (novela sociolingstica), Ed. Contexto, 1997Pesquisa na escola o que , como se faz, Ed. Loyola, 1998Machado de Assis para principiantes, Ed. Atica, 1998Preconceito lingustico o que , como se faz, Ed. Loyola, 1999Minimirim e o planeta que encolheu (infantil), Ed. lcone, 2000O Processo de Independncia do Brasil, Ed. Atica, 2000Dramtica da lngua portuguesa, Ed. Loyola, 2000Portugus ou brasileiro? Um convite pesquisa, Parbola Editorial, 2001Norma lingstica, Ed. Loyola, 2001
  • 2. Lngua materna: letramento, variao e ensino, Parbola Editorial, 2002O espelho dos nomes (juvenil) tica, 2002
  • 3. Marcos Bagno Preconceito lingsticoo que , como se faz
  • 4. CONTRA CAPADiz-se que o brasileiro no sabe Portugus e que Portugus muito difcil. Estes so alguns dos mitos que compem umpreconceito muito presente na cultura brasileira: o lingstico.Tudo por causa da confuso que se faz entre lngua egramtica normativa (que no a lngua, mas s umadescrio parcial dela). Separe uma coisa da outra com estelivro, que um achado. Revista Nova Escola, maio de 1999.Eu gostaria que algum j tivesse escrito um livro como estesobre a lngua inglesa. Prof. Gregory Guy, Universidade de York (Canad)
  • 5. http://groups.google.com/group/digitalsource
  • 6. Edies LoyolaRua 1822 n 347 Ipiranga04216-000 So Paulo, SPCaixa Postal 42.335 04218-970 So Paulo, SP(0**11) 6914-1922(0**11) 6163-4275Home page e vendas: www.loyola.com.brEditorial: loyola@loyola.com.brVendas: vendas@loyola.com.brTodos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra podeser reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ouquaisquer meios (eletrnico ou mecnico, incluindo fotocpiae gravao) ou arquivada em qualquer sistema ou banco dedados sem permisso escrita da Editora.ISBN: 85-15-01889-648 e 49 edio: junho de 2007 EDIES LOYOLA, So Paulo, Brasil, 1999
  • 7. Sedule curavi humanas actiones non ridere, non lugere, neque detestare, sed intellegere. SPINOZA (Tenho-me esforado por no rir das aes humanas,por no deplor-las nem odi-las, mas por entend-las)
  • 8. Sumrio PRIMEIRAS PALAVRAS.................................................................... 9I. A MITOLOGIA DO PRECONCEITO LINGSTICO ........................... 13 Mito n 1 A lngua portuguesa falada no Brasil apresenta uma unidade surpreendente ............................................................................. 15 Mito n 2 Brasileiro no sabe portugus / S em Portugal se fala bem portugus ..................................................................................... 20 Mito n 3 Portugus muito difcil ........................................................... 35 Mito n 4 As pessoas sem instruo falam tudo errado ........................... 40 Mito n 5 O lugar onde melhor se fala portugus no Brasil o Maranho ............................................................................................... ......... 46 Mito n 6 O certo falar assim porque se escreve assim ......................... 52 Mito n 7 preciso saber gramtica para falar e escrever bem .............. 62
  • 9. Mito n 8 O domnio da norma culta um instrumento de ascenso social ............................................................................................... ......... 69II. O CRCULO VICIOSO DO PRECONCEITO LINGSTICO .............. 73 1. Os trs elementos que so quatro............................................ 73 2. Sob o imprio de Napoleo....................................................... 79 3. Um festival de asneiras............................................................ 83 4. Beethoven no danado......................................................... 94III. A DESCONSTRUO DO PRECONCEITO LINGSTICO ........... 105 1. Reconhecimento da crise........................................................ 105 2. Mudana de atitude................................................................ 115 3. O que ensinar portugus..................................................... 118 4. O que erro............................................................................ 122 5. Ento vale tudo....................................................................... 129 6. A parania ortogrfica........................................................... 131 7. Subvertendo o preconceito lingstico................................... 139
  • 10. IV. O PRECONCEITO CONTRA A LINGSTICA E OS LINGISTAS .......................................................................................................... ........ 147 1. Uma religio mais velha que o cristianismo...................... 147 2. Portugus ortodoxo? Que lngua essa?............................... 154 3. Devaneios de idiotas e ociosos............................................... 157 4. A quem interessa calar os lingistas?................................... 161ANEXO CARTA DE MARCOS BAGNO REVISTA VEJA ............. 167REFERNCIAS .................................................................................185Nota da digitalizadora: A numerao de pginas aqui refere-se a edio original, apaginao original, que encontra-se inserida entre colchetes no texto.Entende-se que o texto que est antes da numerao entre colchetes o que pertence aquelapgina e o texto que est aps a numerao pertence a pgina seguinte.
  • 11. Primeiras palavras Existe uma regra de ouro da Lingstica que diz: sexiste lngua se houver seres humanos que a falem. E ovelho e bom Aristteles nos ensina que o ser humano umanimal poltico. Usando essas duas afirmaes como ostermos de um silogismo (mais um presente que ganhamos deAristteles), chegamos concluso de que tratar da lngua tratar de um tema poltico, j que tambm tratar de sereshumanos. Por isso, o leitor e a leitora no devero se espantarcom o tom marcadamente politizado de muitas de minhasafirmaes. proposital; alis, inevitvel. Temos de fazerum grande esforo para no incorrer no erro milenar dosgramticos tradicionalistas de estudar a lngua como umacoisa morta, sem levar em considerao as pessoas vivas quea falam. O preconceito lingstico est ligado, em boa medida, confuso que foi criada, no curso da histria, entre lngua egramtica normativa. Nossa tarefa mais urgente desfazeressa confuso. Uma receita de bolo no um bolo, o moldede um vestido no um vestido, um mapa-mndi no omundo... Tambm a gramtica no a lngua. A lngua um enorme iceberg flutuando no mar dotempo, e a gramtica normativa a tentativa de descrever[pg. 09] apenas uma parcela mais visvel dele, a chamadanorma culta. Essa descrio, claro, tem seu valor e seus
  • 12. mritos, mas parcial (no sentido literal e figurado do termo)e no pode ser autoritariamente aplicada a todo o resto dalngua afinal, a ponta do iceberg que emerge representaapenas um quinto do seu volume total. Mas essa aplicaoautoritria, intolerante e repressiva que impera na ideologiageradora do preconceito lingstico. Voc sabe o que um igap? Na Amaznia, igap umtrecho de mata inundada, uma grande poa de guaestagnada s margens de um rio, sobretudo depois da cheia.Parece-me uma boa imagem para a gramtica normativa.Enquanto a lngua um rio caudaloso, longo e largo, quenunca se detm em seu curso, a gramtica normativa apenas um igap, uma grande poa de gua parada, umcharco, um brejo, um terreno alagadio, margem da lngua.Enquanto a gua do rio/lngua, por estar em movimento, serenova incessantemente, a gua do igap/gramticanormativa envelhece e s se renovar quando vier a prximacheia. Meu objetivo atualmente, junto com muitos outroslingistas e pesquisadores, acelerar ao mximo essaprxima cheia... Este livro traz os primeiros resultados, sempre provisrios,das reflexes que venho fazendo sobre o tema do preconceitolingstico. Ele rene as principais concluses a que cheguei,concluses que pude compartilhar e discutir com as pessoasque me ouviram falar nas diversas palestras que dei ao longode 1998. Essas palestras, e o livro que delas nasceu, s forampossveis graas ao esforo e ao carinho das seguintes [pg.10] pessoas: ngela Paiva Dionsio, Ariovaldo Guireli, Atalibade Castilho, Cludia Maia Ricardo, Doris da Cunha, sio
  • 13. Macedo Ribeiro, Irand Antunes, Jos Lus Falotico Corra,Judith Hoffnagel, Loureno Chacon, Lucila Nogueira, MaralAquino, Marcos Marcionilo Maria Amlia Almeida, Maria MartaScherre, Maria da Piedade S, Margia Viana, Rosely FaloticoCorra e Sonia Alexandre. Esta segunda edio traz mudanas bastante significa-tivas em comparao com a primeira: alguns trechos forameliminados, outros foram acrescentados, muitos sofreramprofunda reformulao. Isso se deve minha vontade demanter o livro sempre atualizado com a evoluo de minhaprpria maneira de ver as coisas e sintonizado com ascrticas, sugestes e comentrios que o trabalho recebeu daparte de leitores e leitoras atentos e dispostos a colaborar nadivulgao destas idias. Agradeo muito especialmente a Manoel Luiz GonalvesCorra, que me ajudou a preparar esta reedio, alertando-me para determinadas inconsistncias tericas e conceituais,nascidas de uma tentativa de simplificar (talvez demais) osconceitos da Lingstica para torn-los acessveis a umpblico mais amplo. claro que ainda sobram falhas eimperfeies de minha inteira (ir)responsabilidade e porisso convido os que desejarem participar desta luta que seengajem nela enviando-me suas opinies. A capa deste livro tem uma histria que merece sercontada. As pessoas ali fotografadas so minha sogra, AliceFrancisca, meu sogro, Jos Alexandre, e meu cunhado [pg.11] mais novo, Sstenes, cerca de vinte anos atrs. Comoeste um livro que trata de discriminao e excluso, decidihomenagear meus sogros que so, como costumo dizer, umprato cheio para alguns dos preconceitos mais vigorosos da
  • 14. nossa sociedade: negros, nordestinos, pobres, analfabetos.Alice Francisca tambm carrega o estigma de ser mulhernuma cultura entranhadamente machista. Aprender a amarestas pessoas pelo que elas so, deixando de lado todos osrtulos discriminadores que tentam classific-las emcategorias supostamente inferiores s que eu e pessoas deminha extrao social ocupamos, tem sido uma liofundamental para toda a minha vida pessoal e profissional. com este amor que me defendo das acusaes que svezes recebo de ser autor de um livro demaggico. No demagogia: opo consciente, poltica, declaradamenteparcial. Peo simplesmente aos leitores e leitoras quemeditem sobre esta situao que tanto me angustia:homenagear com um livro pessoas que jamais podero l-lo.Isso explica, decerto, a grande dose de indignao que emcertos momentos passa frente da reflexo cientfica serenae me faz assumir o tom apaixonado de quem no toleranenhum tipo de intolerncia, principalmente quando frutode uma viso de mundo estreita, inspirada em mitos esupersties que tm como nico objetivo perpetuar osmecanismos de excluso social. MARCOS BAGNO mbagno@terra.com.br [pg. 12]
  • 15. I A mitologia do preconceito lingstico Parece haver cada vez mais, nos dias de hoje, uma fortetendncia a lutar contra as mais variadas formas depreconceito, a mostrar que eles no tm nenhum fundamentoracional, nenhuma justificativa, e que so apenas o resultadoda ignorncia, da intolerncia ou da manipulao ideolgica. Infelizmente, porm, essa tendncia no tem atingido umtipo de preconceito muito comum na sociedade brasileira: opreconceito lingstico. Muito pelo contrrio, o que vemos esse preconceito ser alimentado diariamente em programasde televiso e de rdio, em colunas de jornal e revista, emlivros e manuais que pretendem ensinar o que certo e oque errado, sem falar, claro, nos instrumentostradicionais de ensino da lngua: a gramtica normativa e oslivros didticos. O preconceito lingstico fica bastante claro numa sriede afirmaes que j fazem parte da imagem (negativa) que obrasileiro tem de si mesmo e da lngua falada por aqui. Outrasafirmaes so at bem-intencionadas, mas mesmo assimcompem uma espcie de preconceito positivo, quetambm se afasta da realidade. Vamos examinar [pg. 13]algumas dessas afirmaes falaciosas e ver em que medidaelas so, na verdade, mitos e fantasias que qualquer anlisemais rigorosa no demora a derrubar.
  • 16. Estou convidando voc, a partir de agora, a fazer juntocomigo um pequeno passeio pela mitologia do preconceitolingstico. Quando o passeio acabar, isto , quando tivermosterminado de examinar os principais mitos, vamos tentarrefletir juntos para encontrar os meios mais adequados decombater esse preconceito no nosso dia-a-dia, na nossaatividade pedaggica de professores em geral e,particularmente, de professores de lngua portuguesa. [pg.14]
  • 17. Mito n 1A lngua portuguesa falada no Brasil apresenta uma unidade surpreendente Este o maior e o mais srio dos mitos que compem amitologia do preconceito lingstico no Brasil. Ele est toarraigado em nossa cultura que at mesmo intelectuais derenome, pessoas de viso crtica e geralmente boasobservadoras dos fenmenos sociais brasileiros, se deixamenganar por ele. o caso, por exemplo, de Darcy Ribeiro, queem seu ltimo grande estudo sobre o povo brasileiroescreveu: de assinalar que, apesar de feitos pela fuso de matrizes to diferenciadas, os brasileiros so, hoje, um dos povos mais homogneos lingstica e culturalmente e tambm um dos mais integrados socialmente da Terra. Falam uma mesma lngua, sem dialetos [grifo meu, Folha de S. Paulo, 5/2/95]. Existe tambm toda uma longa tradio de estudosfilolgicos e gramaticais que se baseou, durante muito tempo,nesse (pre)conceito irreal da unidade lingstica do Brasil. Esse mito muito prejudicial educao porque, ao noreconhecer a verdadeira diversidade do portugus falado noBrasil, a escola tenta impor sua norma lingstica como se elafosse, de fato, a lngua comum a todos os 160 milhes debrasileiros, independentemente de sua idade, de sua origemgeogrfica, de sua situao socioeconmica, de seu grau deescolarizao etc. [pg. 15]
  • 18. Ora, a verdade que no Brasil, embora a lngua faladapela grande maioria da populao seja o portugus, esseportugus apresenta um alto grau de diversidade e devariabilidade, no s por causa da grande extenso territorialdo pas que gera as diferenas regionais, bastanteconhecidas e tambm vtimas, algumas delas, de muitopreconceito , mas principalmente por causa da trgicainjustia social que faz do Brasil o segundo pas com a piordistribuio de renda em todo o mundo. So essas gravesdiferenas de status social que explicam a existncia, emnosso pas, de um verdadeiro abismo lingstico entre osfalantes das variedades no-padro do portugus brasileiro que so a maioria de nossa populao e os falantes da(suposta) variedade culta, em geral mal definida, que alngua ensinada na escola. Como a educao ainda privilgio de muito pouca genteem nosso pas, uma quantidade gigantesca de brasileirospermanece margem do domnio de uma norma culta. Assim,da mesma forma como existem milhes de brasileiros semterra, sem escola, sem teto, sem trabalho, sem sade,tambm existem milhes de brasileiros sem lngua. Afinal, seformos acreditar no mito da lngua nica, existem milhes depessoas neste pas que no tm acesso a essa lngua, que anorma literria, culta, empregada pelos escritores ejornalistas, pelas instituies oficiais, pelos rgos do poder so os sem-lngua. claro que eles tambm falam portugus,uma variedade de portugus no-padro, com sua gramticaparticular, que no entanto no reconhecida como vlida,que desprestigiada, ridicularizada, [pg. 16] alvo de chacotae de escrnio por parte dos falantes do portugus-padro ou
  • 19. mesmo daqueles que, no falando o portugus-padro, otomam como referncia ideal por isso podemos cham-losde sem-lngua. O que muitos estudos empreendidos por diversos pes-quisadores tm mostrado que os falantes das variedadeslingsticas desprestigiadas tm srias dificuldades emcompreender as mensagens enviadas para eles pelo poderpblico, que se serve exclusivamente da lngua-padro. Comodiz Maurizzio Gnerre1 em seu livro Linguagem, escrita e poder,a Constituio afirma que todos os indivduos so iguaisperante a lei, mas essa mesma lei redigida numa lngua ques uma parcela pequena de brasileiros consegue entender. Adiscriminao social comea, portanto, j no texto daConstituio. claro que Gnerre no est querendo dizer quea Constituio deveria ser escrita em lngua no-padro, massim que todos os brasileiros a que ela se refere deveriam teracesso mais amplo e democrtico a essa espcie de lnguaoficial que, restringindo seu carter veicular a uma parte dapopulao, exclui necessariamente uma outra, talvez a maior. Muitas vezes, os falantes das variedades desprestigiadasdeixam de usufruir diversos servios a que tm direitosimplesmente por no compreenderem a linguagem em-pregada pelos rgos pblicos. Um estudo bastante reveladordessa situao foi empreendido por Stella Maris Bortoni-Ricardo na periferia de Braslia e publicado no [pg. 17] artigoProblemas de comunicao interdialetal. Diante do quedescobriu, a autora pode afirmar:1 As referncias bibliogrficas completas de todas as obras citadas ao longo deste livro se encontram nofinal do volume.
  • 20. A idia de que somos um pas privilegiado, pois do ponto de vista lingstico tudo nos une e nada nos separa, parece-me, contudo, ser apenas mais um dos grandes mitos arraigados em nossa cultura. Um mito, por sinal, de conseqncias danosas, pois na medida em que no se reconhecem os problemas de comunicao entre falantes de diferentes variedades da lngua, nada se faz tambm para resolv-los. A mesma autora alerta para que no se confunda a idiade monolingismo com a de homogeneidade lingstica. Ofato de no Brasil o portugus ser a lngua da imensa maioriada populao no implica, automaticamente, que esseportugus seja um bloco compacto, coeso e homogneo. Naverdade, como costumo dizer, o que habitualmentechamamos de portugus um grande balaio de gatos, ondeh gatos dos mais diversos tipos: machos, fmeas, brancos,pretos, malhados, grandes, pequenos, adultos, idosos, recm-nascidos, gordos, magros, bem-nutridos, famintos etc. Cadaum desses gatos uma variedade do portugus brasileiro,com sua gramtica especfica, coerente, lgica e funcional. preciso, portanto, que a escola e todas as demaisinstituies voltadas para a educao e a cultura abandonemesse mito da unidade do portugus no Brasil e passem areconhecer a verdadeira diversidade lingstica de nosso paspara melhor planejarem suas polticas de ao junto populao amplamente marginalizada dos falantes dasvariedades no-padro. O reconhecimento da [pg. 18]existncia de muitas normas lingsticas diferentes fun-damental para que o ensino em nossas escolas seja conse-qente com o fato comprovado de que a norma lingsticaensinada em sala de aula , em muitas situaes, umaverdadeira lngua estrangeira para o aluno que chega escola proveniente de ambientes sociais onde a norma
  • 21. lingstica empregada no quotidiano uma variedade deportugus no-padro. Felizmente, essa realidade lingstica marcada peladiversidade j reconhecida pelas instituies oficiais en-carregadas de planejar a educao no Brasil. Assim, nosParmetros curriculares nacionais, publicados pelo Ministrioda Educao e do Desporto em 1998, podemos ler que A variao constitutiva das lnguas humanas, ocorrendo em todos os nveis. Ela sempre existiu e sempre existir, independentemente de qualquer ao normativa. Assim, quando se fala em Lngua Portuguesa est se falando de uma unidade que se constitui de muitas variedades. [...] A imagem de uma lngua nica, mais prxima da modalidade escrita da linguagem, subjacente s prescries normativas da gramtica escolar, dos manuais e mesmo dos programas de difuso da mdia sobre o que se deve e o que no se deve falar e escrever, no se sustenta na anlise emprica dos usos da lngua2. So, de fato, boas novas! Espero que elas desam dasaltas esferas governamentais e se propaguem pelas salas deaula de todo o pas! [pg. 19]2 Parmetros curriculares nacionais, Lngua Portuguesa, 5a a 8a sries, p. 29.
  • 22. Mito n 2 Brasileiro no sabe portugus / S em Portugal se fala bem portugus Essas duas opinies to habituais, corriqueiras, comuns, eque na realidade so duas faces de uma mesma moedaenferrujada, refletem o complexo de inferioridade, o sen-timento de sermos at hoje uma colnia dependente de umpas mais antigo e mais civilizado. Podemos encontrar essa concepo expressa no livroLngua viva, de Srgio Nogueira Duarte, que uma coletneade suas colunas sobre lngua portuguesa publicadas no Jornaldo Brasil. Ali a gente l, na pgina 65: Sempre me perguntam onde se fala o melhor portugus. S pode ser em Portugal! J viajei muito pelo Brasil e j estive em todas as regies. Sinceramente, no sei onde se fala melhor. Cada regio tem suas qualidades e seus vcios de linguagem. [grifo meu] Por isso no consigo concordar com o ttulo do livro queest longe de analisar a verdadeira lngua viva usada emnosso pas , nem com o subttulo: uma anlise simples ebem-humorada da linguagem do brasileiro. Seria maisacertado dizer que se trata de uma anlise preconceituosa edesinformada da lngua falada e escrita por aqui. Mas nopodemos culpar o autor, que antes uma vtima do quepropriamente um responsvel por esse preconceito: ele est
  • 23. apenas exprimindo uma ideologia impregnada em nossacultura h muito tempo. [pg. 20] a mesma concepo torpe segundo a qual o Brasil umpas subdesenvolvido porque sua populao no uma raapura, mas sim o resultado de uma mistura negativa deraas, sendo que duas delas, a negra e a indgena, soinferiores do branco europeu, por isso nosso povinho spode ser o que . Ora, h muito tempo a cincia destruiu omito da raa pura, que um conceito absurdo, sem nenhumapossibilidade de verificao na realidade de nenhum povo,por mais isolado que seja. Assim, uma raa que no pura no poderia falar umalngua pura. No difcil encontrar intelectuais renomadosque lamentem a corrupo do portugus falado no Brasil,lngua de matutos, de caipiras infelizes, arremedo toscoda lngua de Cames. o que escreve, por exemplo, ArnaldoNiskier, presidente da Academia Brasileira de Letras, numartigo publicado na Folha de S. Paulo (15/1/98): [...] pode-se registrar o fato, facilmente comprovvel, de que nunca se escreveu e falou to mal o idioma de Ruy Barbosa. [...] A classe dita culta mostra-se displicente em relao lngua nacional, e a indigncia vocabular tomou conta da juventude e dos no to jovens assim, quase como se aqueles se orgulhassem de sua prpria ignorncia e estes quisessem voltar atrs no tempo. Para mostrar o quanto declaraes desse tipo se baseiammais em posturas preconceituosas perpetuadas ao longodos sculos pela desinformao ou m informao do queem anlises cientficas acuradas dos fatos lingsticos, vamos
  • 24. ler o seguinte trecho do fillogo Cndido de Figueiredo: [pg.21] Quanto mais progressiva a civilizao de um povo, mais sujeita a sua lngua adeturpaes e vcios, sob a variada influncia das relaes internacionais, dos novosinventos, das travancas da ignorncia, e at dos caprichos da moda. [...] Sbios eromancistas, poetas e prosadores, e nomeadamente a imprensa peridica, parecehaverem conspirado para dar curso s mais extraordinrias invenes e enxertos delinguagem. Ora, essas palavras foram escritas em 1903 num livrochamado O que se no deve dizer (sim, o ttulo essemesmo!). surpreendente como elas tm o mesmo tom dequeixa e censura das palavras de Niskier, escritas noventa ecinco anos depois! Niskier tambm faz, neste artigo, umareferncia queixosa ao pouco apreo que devotamos aogosto pela leitura. Nosso ndice per capita mal alcana doislivros por habitante; na Frana, por exemplo, oscila em tornode oito, e passa a elogiar os hbitos culturais dos franceses,que valorizam mais a leitura do que os brasileiros. Esqueceu-se, porm, de dizer que a Frana ocupa a 11 posio noquadro do IDH (ndice de Desenvolvimento Humano),estabelecido pela ONU para avaliar a qualidade de vida nos175 pases do mundo. O Brasil, que em 1996 ocupava a 58aposio, caiu, em 1999, para a 79a, devido sensvel pioradas condies sociais dos brasileiros como um todo. Diante detamanha diferena, um ndice per capita de dois livros porano, num pas com 60 milhes de analfabetos plenos eanalfabetos funcionais (nmero igual ao da populao total daFrana), mesmo espantoso...
  • 25. E da mesma forma como Niskier lamenta a invaso dosanglicismos, Figueiredo diz que o enxerto da francesia [pg.22] frutificou com [...] exuberncia, classificando de mal-ria o uso de palavras estrangeiras. E se quisssemos recuarainda mais no tempo, no teramos dificuldades em encontraroutros autores vociferando contra a runa da lnguaportuguesa e profetizando o fim dela. Felizmente, nenhuma dessas profecias se concretizou. Osgalicismos, na passagem do sculo XIX para o XX, e osanglicismos, na virada do terceiro milnio, no tm a foradestruidora to temida pelos puristas e conservadores. Alngua portuguesa, nesses noventa e cinco anos, se mantevemuito bem, obrigada, falada e escrita por cada vez maisgente, produziu uma literatura reconhecida mundialmente, propagada tambm em nvel internacional pelo grandeprestgio de que goza a msica popular brasileira entretantas outras provas de sua vitalidade. E a avalanche (ai, umgalicismo!) de palavras estrangeiras tem de ser analisada soba perspectiva da dependncia poltico-econmica (econseqentemente cultural) do Brasil (e de Portugal) paracom os centros mundiais de poder. No adianta bradar contraa invaso de palavras na lngua portuguesa sem analisaressa dependncia. querer eliminar os efeitos sem atacar asverdadeiras causas. E essa histria de dizer que brasileiro no sabe portu-gus e que s em Portugal se fala bem portugus? Trata-sede uma grande bobagem, infelizmente transmitida degerao a gerao pelo ensino tradicional da gramtica naescola.
  • 26. O brasileiro sabe portugus, sim. O que acontece quenosso portugus diferente do portugus falado em [pg. 23]Portugal. Quando dizemos que no Brasil se fala portugus,usamos esse nome simplesmente por comodidade e por umarazo histrica, justamente a de termos sido uma colnia dePortugal. Do ponto de vista lingstico, porm, a lngua faladano Brasil j tem uma gramtica isto , tem regras defuncionamento que cada vez mais se diferencia dagramtica da lngua falada em Portugal. Por isso os lingistas(os cientistas da linguagem) preferem usar o termo portugusbrasileiro, por ser mais claro e marcar bem essa diferena. Na lngua falada, as diferenas entre o portugus dePortugal e o portugus do Brasil so to grandes que muitasvezes surgem dificuldades de compreenso: no vocabulrio,nas construes sintticas, no uso de certas expresses, semmencionar, claro, as tremendas diferenas de pronncia no portugus de Portugal existem vogais e consoantes quenossos ouvidos brasileiros custam a reconhecer, porque nofazem parte de nosso sistema fontico3. E muitos estudos tmmostrado que os sistemas pronominais do portugus europeue do portugus brasileiro so totalmente diferentes. Por exemplo, os pronomes o/a, de construes como euo vi e eu a conheo, esto praticamente extintos [pg. 24]no portugus falado no Brasil, ao passo que, no de Portugal,continuam firmes e fortes. Esses pronomes nunca aparecemna fala das crianas brasileiras nem na dos brasileiros no-3 Assistindo um dia desses a televiso portuguesa por cabo, ouvi os verbos uprar e dlibrar. Consegueadivinhar o que ? Sim, operar e deliberar. Tambm comum os portugueses evitarem hiatos como agua introduzindo um [y] e pronunciando aygua. Alm disso, se uma palavra termina em s e a prximacomea com c, os portugueses fundem essas duas consoantes numa s, pronunciada como o x de xixi:outros cinco pronunciado otruxincu. So realizaes fonticas totalmente estranhas lngua dobrasileiro.
  • 27. alfabetizados e tm baixa ocorrncia na fala dos indivduoscultos, o que demonstra que so exclusivos da lnguaensinada na escola, sobretudo da lngua escrita, no fazendoparte, ento, do repertrio da lngua materna dos brasileiros.Nossas crianas usam sem problema me e te Ela mebateu, Eu vou te pegar , mas o/a jamais, que sosubstitudos por ele/ ela: Eu vou pegar ele, Eu vi ela. Asformas lo e la peg-lo, v-la , ento, nem pensar. Se ascrianas no usam porque no ouvem os adultos usar, e seos adultos no usam porque no precisam dessespronomes. E mesmo na lngua dos adultos escolarizados,esses pronomes s aparecem como um recurso estilstico, emsituaes de uso mais formais, quando o falante quer deixarclaro que domina as regras impostas pela gramtica escolar.A gramtica escolar, no entanto, desconhece essatransformao por que a lngua est passando e insiste emconsiderar erradas construes como Eu conheo ele,Voc viu ela chegar etc. O nico nvel em que ainda possvel uma compreensoquase total entre brasileiros e portugueses o da lnguaescrita formal, porque a ortografia praticamente a mesma,com poucas diferenas. Mas um mesmo texto lido em voz altapor um brasileiro e por um portugus vai soar completamentediferente, ou melhor, difrent! Alis, faa voc mesmo aexperincia: tente tirar a letra de uma msica cantada por umcantor ou uma cantora da terrinha e veja [pg. 25] como difcil!4 E por incrvel que parea, um dos principais obstculos4 Eu mesmo uma vez passei por uma situao embaraosa: um amigo meu, francs, me enviou uma fitacassete com msicas do compositor portugus Jos Afonso (por sinal, maravilhoso) e me pediu para tirara letra de uma delas, de que ele gostava muito. Depois de algumas tentativas, acabei desistindo, porquehavia muitas frases inteiras das quais eu no pescava simplesmente nada. Ele, espantado, me perguntou:Mas ele no canta em portugus? Tive de explicar ao meu amigo que havia grandes diferenas entre o
  • 28. para a difuso no Brasil do cinema feito em Portugal justamente... a lngua alm das dificuldades dedistribuio, ligadas ao quase monoplio do cinemaamericano. Como os brasileiros tm dificuldades em entendero portugus de Portugal, e como ficaria no mnimo estranhocolocar legendas em filmes portugueses, o resultado quepraticamente nunca se v filme portugus nos cinemas daqui.Temos a impresso de que Portugal no produz cinema, o que falso: h bons cineastas portugueses, um dos quais, ManueldOliveira, reconhecido internacionalmente como um grandediretor. No que diz respeito ao ensino do portugus no Brasil, ogrande problema que esse ensino at hoje, depois de maisde cento e setenta anos de independncia poltica, continuacom os olhos voltados para a norma lingstica de Portugal. Asregras gramaticais consideradas certas so aquelas usadaspor l, que servem para a lngua falada l, que retratam bemo funcionamento da lngua que os [pg. 26] portuguesesfalam. a concepo que impera, por exemplo, no livro Noerre mais!, de Luiz Antonio Sacconi, que na pgina 64 explica: A Lua mais pequena que a Terra Eis a uma frase corretssima, que muitos imaginam o contrrio. Mais pequeno expresso legtima, usada por todos os portugueses, que usam menor quando se trata de idia de qualidade: poeta menor, escritor menor etc. [grifo meu] Fica implcito, ento, que para considerar uma expressolegtima basta que ela seja usada por todos os por-tugueses, como se eles ditassem a norma lingstica vlidaportugus do Brasil e o de Portugal. Mas eu tive a minha vingana. Pedi a esse mesmo amigo, poucodepois, que transcrevesse a letra de uma cano gravada por uma cantor canadense, e ele teve a mesmadificuldade, porque o francs do Canad s vezes pode ser incompreensvel para um falante do francs daFrana...
  • 29. para todos os povos que falam portugus. Ora, todos sabe-mos que mais pequeno no funciona no Brasil, umaexpresso rejeitada pela norma culta brasileira, que usamenor em todas as circunstncias em que h comparao. O mesmo esprito guiou a revista poca que, em suaedio de 14 de junho de 1999, estampou uma grandereportagem sobre A cincia de escrever bem, acerca daredao no vestibular. Entre as melhores redaes apre-sentadas naquele ano ao vestibular da Universidade de SoPaulo estava a de Henrique Suguri, 17 anos, que emdeterminado momento assim se expressou (p. 81): O Brasil hoje no europeu, africano, asitico, indgena. Ns somos a mistura exata de tudo isso, completamente diferentes das nossas origens, nicos. E apesar disso, estamos indiscutivelmente atrelados aos princpios da nossa matriz. Talvez o ano 2000 possa servir para abrirmos os olhos e, em vez de comemorarmos os nossos cinco sculos coloniais, enterrarmos o que sobrou deles. [pg. 27] Essa belssima declarao de independncia, essaconscincia da especificidade cultural do povo brasileiro, essavalorizao de nossa identidade nacional, nica, parece queno foi totalmente compreendida pelos autores dareportagem. Pois estes, em vez de aceitar o convite do jovemvestibulando para enterrar o que sobrou dos cinco sculos decolonizao, fizeram questo de comprovar, ao contrrio, queainda estamos indiscutivelmente atrelados aos princpios danossa matriz, incluindo a, claro, os princpios lingsticos.Digo isso porque, na pgina 84 da mesma reportagem,aparece um quadro chamado Como escrever bem, que temcomo subttulo:Dicas que valem para brasileiros de todas as
  • 30. idades. Acontece que a primeirssima destas dicas aseguinte: O uso do gerndio empobrece o texto. Lembre que no existe gerndio no portugus falado em Portugal. Ora, se so dicas para brasileiros que querem escreverbem, por que motivos eles tm de se lembrar do que existeou no existe no portugus de Portugal? A dica, alm dedeixar mostra sua inspirao neocolonialista, tambmafirma uma inverdade lingstica: no portugus de Portugalexiste, sim, o gerndio. A ttulo de curiosidade, lembro-me doFado do cime sucesso na voz de Amlia Rodrigues, umadas maiores cantoras portuguesas de todos os tempos ,cuja letra a certa altura diz: antes prefiro morrer / do quecontigo viver / sabendo que gostas dela. Esse sabendo outracoisa no seno um gerndio. (Aproveito para chamarateno para o antes [pg. 28] prefiro...do que, indcio de queos portugueses tambm erram na hora de usar o verbopreferir...) O que no existe no portugus falado em Portugal aconstruo do tipo estou comendo, ela est telefonando,Pedro esteve trabalhando muito situaes em que osportugueses usam a preposio a seguida do verbo noinfinitivo. Imagine agora se algum de ns, brasileiros, disserpor a frases como estou a comer, ela est atelefonar,Pedro esteve a trabalhar muito, que so uma dascaractersticas mais marcantes do portugus de Portugal!Como no me canso de repetir, so simplesmente diferenasde uso e diferena no deficincia nem inferioridade.Quanto tempo ainda teremos de esperar para nos darmos
  • 31. conta, de uma vez por todas, de que somos completamentediferentes das nossas origens, nicos, como tobrilhantemente escreveu Henrique Suguri em sua redao devestibular? Por causa desse preconceito que somos obrigados aensinar e aprender que o certo dizer e escrever D--meum beijo e no Me d um beijo, e que errado dizer eescrever Assisti o filme e Aluga-se casas, porque l emPortugal no assim que se faz. O mito de que brasileiro no sabe portugus tambmafeta o ensino de lnguas estrangeiras. muito comumverificar entre professores de ingls, francs ou espanhol umgrande desnimo diante das dificuldades de ensinar o idiomaestrangeiro. E mais comum ainda ouvi-los dizer: Os alunosj no sabem portugus, imagine se vo conseguir aprenderoutra lngua, fazendo a velha confuso entre [pg. 29] lnguae gramtica normativa. muito fcil atribuir aos outros aculpa do nosso prprio fracasso. Assim, em vez de buscar ascausas da dificuldade de ensino na metodologia empregada,nas diferenas de aptido individual para o aprendizado delnguas ou na competncia do prprio professor, muito maiscmodo jogar a culpa no aluno ou na incompetncialingstica inata do brasileiro. curioso como muitos brasileiros assumem esse mesmopreconceito negativo tambm em relao a outras lnguas,defendendo sempre a lngua da metrpole contra a lngua daex-colnia. o nosso eterno trauma de inferioridade, nossodesejo de nos aproximarmos, o mximo possvel, do cultuadopadro ideal, que a Europa. Todo santo dia tenho de ouviralgum me dizer que prefere o ingls britnico, porque acha o
  • 32. ingls americano muito feio. A essas pessoas eu dousempre a mesma resposta: aprenda o ingls britnico sequiser ler Shakespeare; mas se quiser dominar uma lngua deuso internacional, aceita em todos os cantos do mundo comoveculo de intercmbio cultural, comercial, diplomtico,tecnolgico, cientfico etc., aprenda o ingls americano. Se algum de ns disser a um norte-americano que eleno sabe ingls ou que o ingls falado nos Estados Unidos errado ou feio, ele decerto vai ficar chocado com nossaignorncia. Afinal, existe um argumento mais do queconvincente para rebater essa acusao: o tamanho do pas ea quantidade de falantes de ingls que ali vivem, alm daimportncia dos Estados Unidos no panorama mundial. [pg.30] O mesmo argumento vale para o portugus do Brasil.Nosso pas 92 vezes e meia maior que Portugal, e nossapopulao quase 15 vezes superior! Quando se trata delngua, temos de levar em conta a quantidade: s na cidadede So Paulo vivem mais falantes de portugus do que emtoda a Europa! Alm disso, o papel do Brasil no cenriopoltico-econmico mundial , de longe, muito maisimportante que o de Portugal. No tem sentido nenhum,portanto, continuar alimentando essa fantasia de que osportugueses so os verdadeiros donos da lngua, enquantons a utilizamos (e mal!) apenas por emprstimo. Existe, embutida nesse mito, a iluso de que os portu-gueses falam e escrevem tudo certo e que seguem rigo-rosamente as regras da gramtica ensinada na escola. Aprofessora Irand Antunes, de quem tive a honra de ser alunona Universidade Federal de Pernambuco, me contou que
  • 33. quando estava para embarcar para Portugal, onde viveriaalguns anos preparando seu doutorado, muitas pessoas noBrasil lhe disseram: Voc vai morar em Portugal? Entoagora suas filhas vo aprender a falar direito! No nada disso. Assim como ns aqui cometemosnossos pecados contra a gramtica normativa, os portu-gueses tambm cometem os deles, s que, mais uma vez,diferentes dos nossos. Em Portugal, por exemplo, o plural detu no vs, como querem as gramticas normativas. Oplural de tu vocs. Pois bem, na hora de usar ospossessivos, os portugueses usam vosso/vossa, que,teoricamente, s poderiam ser usados com referncia a vs:Vocs trouxeram os vossos filhos? E num livro editado [pg.31] em Portugal encontrei a seguinte pergunta: No vossucede sentirem-se por vezes um pouco indefinidos? afamosa mistura de tratamento, que causa tanto arrepio edor de estmago nos gramticos conservadores misturaque, em termos cientficos e no-preconceituosos, deve seranalisada, de fato, como uma reorganizao do sistemapronominal da lngua, tanto a de l como a de c. Ento, no h por que continuar difundindo essa idiamais do que absurda de que brasileiro no sabe portugus.O brasileiro sabe o seu portugus, o portugus do Brasil, que a lngua materna de todos os que nascem e vivem aqui,enquanto os portugueses sabem o portugus deles. Nenhumdos dois mais certo ou mais errado, mais feio ou maisbonito: so apenas diferentes um do outro e atendem snecessidades lingsticas das comunidades que osusam,necessidades que tambm so... diferentes!
  • 34. Em seu livro Emlia no Pas da Gramtica, publicado em1934, Monteiro Lobato j chamava a ateno para esse tipode preconceito (que no entanto continua firme e forte noBrasil de hoje!). Numa conversa com as crianas do Stio doPica-pau Amarelo, a velha Dona Etimologia lhes diz (pp. 100-101): [...] Uma lngua no pra nunca. Evolui sempre, isto , muda sempre. H certos gramticos que querem fazer a lngua parar num certo ponto, e acham que erro dizermos de modo diferente do que diziam os clssicos. Quem vem a ser clssicos? perguntou a menina [Narizinho]. Os entendidos chamam clssicos aos escritores antigos, como o padre Antnio Vieira, Frei Lus de Sousa, o padre [pg. 32] Manuel Bernardes e outros. Para os carranas, quem no escreve como eles est errado. Mas isso curteza de vistas. Esses homens foram bons escritores no seu tempo. Se aparecessem agora seriam os primeiros a mudar, ou a adotar a lngua de hoje, para serem entendidos. A lngua variou muito e sobretudo aqui na cidade nova [o Brasil]. Inmeras palavras que na cidade velha [Portugal] querem dizer uma coisa, aqui dizem outra. [...] Tambm no modo de pronunciar as palavras existem muitas variaes. Aqui, todos dizem PEITO; l, todos dizem PAITO, embora escrevam a palavra da mesma maneira. Aqui se diz TENHO e l se diz TANHO. Aqui se diz VERO e l se diz VRO. Tambm eles dizem por l VATATA, VACALHAU, BACA, VESOURO lembrou Pedrinho. Sim, o povo de l troca muito o v pelo B e vice-versa. Nesse caso, aqui nesta cidade se fala mais direito do que na cidade velha concluiu Narizinho. Por qu? Ambas tm o direito de falar como quiserem, e portanto ambas esto certas. O que sucede que uma lngua, sempre que muda de terra, comea a variar muito mais depressa do que se no tivesse mudado. Os costumes so outros, a natureza outra as necessidades de expresso tornam-se outras. Tudo junto fora a lngua que emigra a adaptar-se sua nova ptria.
  • 35. A lngua desta cidade [Brasil] est ficando um dialeto da lngua velha. Com o correr dos sculos bem capaz de ficar to diferente da lngua velha como esta ficou diferente do latim. Vocs vo ver. Monteiro Lobato, que morreu em 1948, estava muito maispor dentro das noes da lingstica moderna do que muitoautor de gramtica que est por a hoje, vivo e bulindo,como se diz no Nordeste... [pg. 33] espantoso que a figura do gramtico autoritrio eintolerante ridicularizado por Lobato na personagem doprofessor Aldrovando Cantagalo, em seu delicioso conto Ocolocador de pronomes, de 1924 (!) tenha voltado cenaneste fim de sculo, sob a roupagem enganosamentemoderna da televiso, do computador e da multimdia. [pg.34]
  • 36. Mito n 3 Portugus muito difcil Essa afirmao preconceituosa prima-irm da idia queacabamos de derrubar, a de que brasileiro no sabeportugus. Como o nosso ensino da lngua sempre se baseouna norma gramatical de Portugal, as regras que aprendemosna escola em boa parte no correspondem lngua querealmente falamos e escrevemos no Brasil. Por isso achamosque portugus uma lngua difcil: porque temos dedecorar conceitos e fixar regras que no significam nada parans. No dia em que nosso ensino de portugus se concentrarno uso real, vivo e verdadeiro da lngua portuguesa do Brasil bem provvel que ningum mais continue a repetir essabobagem. Todo falante nativo de uma lngua sabe essa lngua. Saberuma lngua, no sentido cientfico do verbo saber, significaconhecer intuitivamente e empregar com naturalidade asregras bsicas de funcionamento dela. Est provado e comprovado que uma criana entre os 3 e4 anos de idade j domina perfeitamente as regrasgramaticais de sua lngua! O que ela no conhece so su-tilezas, sofisticaes e irregularidades no uso dessas regras,coisas que s a leitura e o estudo podem lhe dar. Masnenhuma criana brasileira dessa idade vai dizer, por exem-plo: Uma meninos chegou aqui amanh. Um estrangeiro,porm, que esteja comeando a aprender portugus, poder
  • 37. se confundir e falar assim. Por isso aquela piadinha que muitagente solta quando v uma criancinha estrangeira falando To pequeno e j fala to bem [pg. 35] ingls [ou outralngua] tem seu fundo de verdade: muito pouca genteconseguir falar uma lngua estrangeira com tantadesenvoltura quanto uma criana de cinco anos que tem nelasua lngua materna! Por qu? Porque toda e qualquer lngua fcil para quem nasceu e cresceu rodeado por ela! Seexistisse lngua difcil, ningum no mundo falaria hngaro,chins ou guarani, e no entanto essas lnguas so faladas pormilhes de pessoas, inclusive criancinhas analfabetas! Se tanta gente continua a repetir que portugus difcil porque o ensino tradicional da lngua no Brasil no leva emconta o uso brasileiro do portugus. Um caso tpico o daregncia verbal. O professor pode mandar o aluno copiarquinhentas mil vezes a frase: Assisti ao filme. Quando essemesmo aluno puser o p fora da sala de aula, ele vai dizer aocolega: Ainda no assisti o filme do Zorro! Porque agramtica brasileira no sente a necessidade daquelapreposio a, que era exigida na norma clssica literria, cemanos atrs, e que ainda est em vigor no portugus falado emPortugal, a dez mil quilmetros daqui! um esforo rduo eintil, um verdadeiro trabalho de Ssifo, tentar impor umaregra que no encontra justificativa na gramtica intuitiva dofalante. A prova mais visvel disso que aquelas mesmas pessoasque, por causa da presso policialesca da escola e dagramtica tradicional, usam a preposio a depois do verboassistir, tambm dizem que o jogo foi assistido por vinte milpessoas. Ora, se o verbo assistir pede uma preposio
  • 38. porque ele no transitivo direto, e s os verbos transitivosdiretos podem, segundo as gramticas, assumir a vozpassiva. Desse modo, quem diz assisti ao [pg. 36] jogo nopoderia, teoricamente, dizer o jogo foi assistido. S que essaesquizofrenia gramatical acontece o tempo todo. Basta lerjornais como a Folha de S. Paulo e o Estado de S. Paulo, cujosmanuais de redao decretam que o verbo assistir tem quevir obrigatoriamente seguido da preposio a. Na voz ativa, apreposio aparece: Vinte mil pagantes assistiram ao jogo,porque assim manda o manual da redao. Mas na hora deusar a voz passiva, a gramtica intuitiva brasileira do redatorse manifesta, e a gente encontra milhares de exemplos dotipo o jogo foi assistido por vinte mil pagantes. Essas pes-soas, ento, ficam em cima do muro: acertam na voz ativa,por causa do patrulhamento lingstico, mas erram napassiva, porque se deixam levar pelo uso normal doportugus brasileiro. Tudo isso por causa da cobranaindevida, por parte do ensino tradicional, de uma normagramatical que no corresponde realidade da lngua faladano Brasil. O professor Sirio Possenti, da UNICAMP, em seuexcelente livro Por que (no) ensinar gramtica na escola,classifica a regncia assistir a como um arcasmo, umaforma sinttica que j caiu em desuso, mas continua sendocobrada injustificadamente pelo ensino tradicionalista, que serecusa a admitir a extino desse e de muitos outrosdinossauros lingsticos. Por isso tantas pessoas terminam seus estudos, depois deonze anos de ensino fundamental e mdio, sentindo-seincompetentes para redigir o que quer que seja. E no toa:se durante todos esses anos os professores tivessem
  • 39. chamado a ateno dos alunos para o que realmenteinteressante e importante, se tivessem desenvolvido [pg. 37]as habilidades de expresso dos alunos, em vez de entupirsuas aulas com regras ilgicas e nomenclaturas incoerentes,as pessoas sentiriam muito mais confiana e prazer nomomento de usar os recursos de seu idioma, que afinal uminstrumento maravilhoso e que pertence a todos! Falaremosdisso na terceira parte deste livro. Se tantas pessoas inteligentes e cultas continuamachando que no sabem portugus ou que portugus muito difcil porque esta disciplina fascinante foi trans-formada numa cincia esotrica, numa doutrinacabalstica que somente alguns iluminados (os gramticostradicionalistas!) conseguem dominar completamente. Elescontinuam insistindo em nos fazer decorar coisas que nin-gum mais usa (fsseis gramaticais!), e a nos convencer deque s eles podem salvar a lngua portuguesa da deca-dncia e da corrupo. Hoje em dia, alis, alguns delesesto at fazendo sucesso na televiso, no rdio e em outrosmeios de comunicao, transformando essa supostadificuldade do portugus num produto com boa sadacomercial. Para o j citado Arnaldo Niskier, trata-se de umasaudvel epidemia que tomou conta da imprensa brasileira.Que epidemia, concordo, mas quanto a ser saudvel,tenho muitas e srias dvidas... livro, curso em vdeo-cassete, CD-ROM, Manual de Redao do Jornal Tal, consultrio gramatical por telefone... Eles juram que quemno souber conjugar o verbo apropinquar-se vai direto para oinferno! Na segunda parte deste livro tratarei de explicar porque no considero saudvel essa epidemia. [pg. 38]
  • 40. No fundo, a idia de que portugus muito difcil servecomo mais um dos instrumentos de manuteno do statusquo das classes sociais privilegiadas. Essa entidade mstica esobrenatural chamada portugus s se revela aos poucosiniciados, aos que sabem as palavras mgicas exatas parafaz-la manifestar-se. Tal como na ndia antiga, oconhecimento da gramtica reservado a uma castasacerdotal, encarregada de preserv-la pura e intacta,longe do contato infeccioso dos prias. A propaganda da suposta dificuldade da lngua , comodiz Gnerre no livro j citado,o arame farpado mais poderosopara bloquear o acesso ao poder (p. 6). Sustentar queportugus muito difcil cavar uma profunda trincheiraentre os poucos que sabem a lngua e a massa enorme deasnos (termo usado por Luiz Antonio Sacconi em seu livroNo erre mais!) que necessitam, assim, do auxlioindispensvel daqueles mestres para saltar com seguranapor sobre o abismo da ignorncia. Em termos mais brandos, a embalagem do CD-ROM Nossalngua portuguesa oferece o produto como uma ajuda a evitaras armadilhas da lngua. Ora, no a lngua que temarmadilhas, mas sim a gramtica normativa tradicional, queas inventa precisamente para justificar sua existncia e paranos convencer de que ela indispensvel. No seria a hora de acionar a Lei de Defesa do Consu-midor contra essa reserva de mercado? [pg. 39]
  • 41. Mito n 4 As pessoas sem instruo falam tudo errado O preconceito lingstico se baseia na crena de que sexiste, como vimos no Mito n 1, uma nica lnguaportuguesa digna deste nome e que seria a lngua ensinadanas escolas, explicada nas gramticas e catalogada nosdicionrios. Qualquer manifestao lingstica que escapedesse tringulo escola-gramtica-dicionrio considerada,sob a tica do preconceito lingstico, errada, feia,estropiada, rudimentar, deficiente, e no raro a gente ouvirque isso no portugus. Um exemplo. Na viso preconceituosa dos fenmenos dalngua, a transformao de I em R nos encontros consonantaiscomo em Crudia, chicrete, praca, broco, pranta tremendamente estigmatizada e s vezes considerada atcomo um sinal do atraso mental das pessoas que falamassim. Ora, estudando cientificamente a questo, fcildescobrir que no estamos diante de um trao de atrasomental dos falantes ignorantes do portugus, massimplesmente de um fenmeno fontico que contribuiu para aformao da prpria lngua portuguesa padro. Bastaolharmos para o seguinte quadro: [pg. 40] PORTUGUS PADRO ETIMOLOGIA ORIGEM branco > blank germnico brando > blandu latim
  • 42. cravo > clavu latim dobro > duplu latim escravo > sclavu latim fraco > flaccu latim frouxo > fluxu latim grude > gluten latim obrigar > obligare latim praga > plaga latim prata > plata provenal prega > plica latim Como fcil notar, todas as palavras do portugus--padro listadas acima tinham, na sua origem, um I bem ntidoque se transformou em R. E agora? Se fssemos pensar queas pessoas que dizem Crudia, chicrete e pranta tm algumdefeito ou atraso mental, seramos forados a admitir quetoda a populao da provncia romana da Lusitnia tambmtinha esse mesmo problema na poca em que a lnguaportuguesa estava se formando. E que o grande Lus deCames tambm sofria desse mesmo mal, j que ele escreveuingrs, pubricar, pranta, frauta, frecha na obra que considerada at hoje o maior monumento literrio doportugus clssico, o poema Os Lusadas. E isso, craro,seria no mnimo absurdo. Existem, evidentemente, falantes da norma culta urbana,pessoas escolarizadas, que tm problemas para [pg. 41]pronunciar os encontros consonantais com L. Nesses casos,sim, trata-se realmente de uma dificuldade fsica que pode serresolvida com uma terapia fonoaudiolgica. No dessaspessoas que estamos tratando aqui, mas dos brasileirosfalantes das variedades no-padro, em cujo sistema fonticosimplesmente no existe encontro consonantal com L,independentemente de terem ou no dificuldades
  • 43. articulatrias. Quando, na escola, se depararem com osencontros consonantais com L, preciso que o professortenha conscincia de que se trata de um aspecto fonticoestrangeiro para eles, do mesmo tipo dos que encontramos,por exemplo, nos cursos de ingls, quando nos esforamospara pronunciar bem o TH de throw ou o I de live. precisoseparar bem os dois aspectos do fenmeno. Se dizer Crudia, praca, pranta considerado errado, e,por outro lado, dizer frouxo, escravo, branco, praga considerado certo, isso se deve simplesmente a umaquesto que no lingstica, mas social e poltica aspessoas que dizem Crudia, praca, pranta pertencem a umaclasse social desprestigiada, marginalizada, que no temacesso educao formal e aos bens culturais da elite, e porisso a lngua que elas falam sofre o mesmo preconceito quepesa sobre elas mesmas, ou seja, sua lngua consideradafeia,pobre,carente, quando na verdade apenasdiferente da lngua ensinada na escola. Ora, do ponto de vista exclusivamente lingstico, ofenmeno que existe no portugus no-padro o mesmoque aconteceu na histria do portugus-padro, e [pg. 42]tem at um nome tcnico: rotacismo. O rotacismo participouda formao da lngua portuguesa padro, como j vimos embranco, escravo, praga, fraco etc., mas ele continua vivo eatuante no portugus no-padro, como em broco, chicrete,pranta, Crudia, porque essa variedade no-padro deixa queas tendncias normais e inerentes lngua se manifestemlivremente. Assim, o problema no est naquilo que se fala,mas em quem fala o qu. Neste caso, o preconceito lingstico decorrncia de um preconceito social. Este tipo especfico
  • 44. de preconceito o que abordei em meu livro A lngua deEullia. Minha herona literria predileta, a boneca Emlia, deMonteiro Lobato, no quis saber desse tipo de preconceito. Aovisitar, no Pas da Gramtica, a priso onde Dona Sintaxemantinha enjaulados os vcios de linguagem, revoltou-se aover atrs das grades o Provincianismo, isto , os vcios dafala rural, do caipira (p. 120): Emlia no achou que fosse caso de conservar na cadeia o pobre matuto. Alegou que ele tambm estava trabalhando na evoluo da lngua e soltou-o. V passear, seu Jeca. Muita coisa que hoje esta senhora condena vai ser lei um dia. Foi voc quem inventou o VOC em vez de TU, e s isso quanto no vale? Estamos livres da complicao antiga do Tuturututu. Como se v, do mesmo modo como existe o preconceitocontra a fala de determinadas classes sociais, tambm existeo preconceito contra a fala caracterstica de certas regies. um verdadeiro acinte aos direitos humanos, por exemplo, omodo como a fala nordestina retratada [pg. 43] nasnovelas de televiso, principalmente da Rede Globo. Todopersonagem de origem nordestina , sem exceo, um tipogrotesco, rstico, atrasado, criado para provocar o riso, oescrnio e o deboche dos demais personagens e doespectador. No plano lingstico, atores no-nordestinosexpressam-se num arremedo de lngua que no falada emlugar nenhum do Brasil, muito menos no Nordeste. Costumodizer que aquela deve ser a lngua do Nordeste de Marte! Masns sabemos muito bem que essa atitude representa umaforma de marginalizao e excluso.
  • 45. Para mostrar que a fala nordestina nada tem de engra-ada ou ridcula, vamos fazer uma pequena comparao.Na pronncia normal do Sudeste, a consoante que escreve-mos T pronunciada [t] (como em tcheco) toda vez que seguida de um [i]. Esse fenmeno fontico se chamapalatalizao. Por causa dele, ns, sudestinos, pronunciamos[titia] a palavra escrita TITIA. E todo mundo acha issoperfeitamente normal, ningum tem vontade de rir quandoum carioca, mineiro ou capixaba fala assim. Quando, porm, um falante do Sudeste ouve um falanteda zona rural nordestina pronunciar a palavra escrita OITOcomo [oytu], ele acha isso muito engraado, ridculo ouerrado. Ora, do ponto de vista meramente lingstico, ofenmeno o mesmo palatalizao , s que o elementoprovocador dessa palatalizao, o [y], est antes do [t] e nodepois dele. Ento, se o fenmeno o mesmo, por que na boca de umele normal e na boca de outro ele engraado, [pg. 44]feio ou errado? Porque o que est em jogo aqui no alngua, mas a pessoa que fala essa lngua e a regiogeogrfica onde essa pessoa vive. Se o Nordeste atrasado, pobre, subdesenvolvido ou (na melhor dashipteses) pitoresco, ento, naturalmente, as pessoas quel nasceram e a lngua que elas falam tambm devem serconsideradas assim... Ora, faa-me o favor, Rede Globo! [pg. 45]
  • 46. Mito n5 O lugar onde melhor se fala portugus no Brasil o Maranho No sei quem foi a primeira pessoa que proferiu essagrande bobagem, mas a realidade que at hoje ela continuasendo repetida por muita gente por a, inclusive gente culta,que no sabe que isso apenas um mito sem nenhumafundamentao cientfica. De onde ser que veio essa idia?Esse mito nasceu, mais uma vez, da velha posio desubservincia em relao ao portugus de Portugal. sabido que no Maranho ainda se usa com granderegularidade o pronome tu, seguido das formas verbaisclssicas, com a terminao em -s caracterstica da segundapessoa: tu vais, tu queres, tu dizes, tu comias, tu cantavasetc. Na maior parte do Brasil, como sabemos, devido reorganizao do sistema pronominal de que j falei, opronome tu foi substitudo por voc. Alis, nas palavras daboneca Emlia, o tu j est velho coroco e o que ele devefazer, na opinio dela, ir arrumando a trouxa e pondo-se aofresco, e mudar-se de vez para o bairro das palavrasarcaicas. De fato, o pronome tu est em vias de extino nafala do brasileiro, e quando ainda usado, como por exemploem alguns falares caractersticos de certas camadas sociaisdo Rio de Janeiro, o verbo assume a forma da terceira pessoa:tu vai, tu fica, tu quer, tu deixa disso etc., que caracteriza
  • 47. tambm a fala informal de algumas outras regies. EmPernambuco, por [pg. 46] exemplo, muito comum ainterjeio interrogativa tu acha? para indicar surpresa ouindignao. Ora, somente por esse arcasmo, por essa conservao deum nico aspecto da linguagem clssica literria, quecoincide com a lngua falada em Portugal ainda hoje, que seperpetua o mito de que o Maranho o lugar onde melhor sefala o portugus no Brasil. Acontece, porm, que os defensores desse mito no sedo conta de que, ao utilizarem o critrio prescritivista decorreo para sustent-lo, se esquecem de que os mesmosmaranhenses que dizem tu s, tu vais, tu foste, tu quiseste,tambm dizem: Esse um bom livro para ti ler, em vez daforma correta, Esse um bom livro para tu leres. Ou seja,eles atribuem ao pronome ti a mesma funo de sujeito queem amplas regies do Brasil, nas mais diversas camadassociais (cultas inclusive), atribuda ao pronome mim quandoantecedido da preposio para e seguido de verbo noinfinitivo: Para mim fazer isso vou precisar da sua ajuda uma construo sinttica que deixa tanta gente de cabelo emp. O que acontece com o portugus do Maranho emrelao ao portugus do resto do pas o mesmo queacontece com o portugus de Portugal em relao aoportugus do Brasil: no existe nenhuma variedade nacional,regional ou local que seja intrinsecamente melhor, maispura, mais bonita, mais correta que outra. Todavariedade lingstica atende s necessidades da comunidadede seres humanos que a empregam. Quando deixar de
  • 48. atender, ela inevitavelmente sofrer transformaes para[pg. 47] se adequar s novas necessidades. Toda variedadelingstica tambm o resultado de um processo histricoprprio, com suas vicissitudes e peripcias particulares. Se oportugus de So Lus do Maranho e de Belm do Par,assim como o de Florianpolis, conservou o pronome tu comas conjugaes verbais lusitanas, porque nessas regiesaconteceu, no perodo colonial, uma forte imigrao deaorianos, cujo dialeto especfico influenciou a variedade deportugus brasileiro falado naqueles locais. O mesmoacontece com algumas caractersticas italianizantes doportugus da cidade de So Paulo, onde grande a presenados imigrantes italianos e seus descendentes, ou comcastelhanismos evidentes na fala dos gachos, que mantmestreitos contatos culturais com seus vizinhos argentinos euruguaios. Numa entrevista revista Veja (10/9/97), Pasquale CiproNeto disse que pura lenda a idia de que o Maranho olugar do Brasil onde melhor se fala portugus. Ponto para ele.Infelizmente, continuando a tratar do assunto, no hesitou emafirmar que no cmputo geral, o carioca o que se expressamelhor sob a tica da norma culta e que a So Paulo que fala dois pastel e acabou as ficha um horror. No acredito queo fato de ser uma cidade com grande nmero de imigrantes seja uma explicaosuficiente para esse portugus esquisito dos paulistanos. Na verdade, inexplicvel. Faltam argumentos cientficos rigorosos, por parte doentrevistado, que nos expliquem como chegou ao cmputo[pg. 48] geral que lhe permitiu atribuir ao carioca umaexpresso melhor sob a tica da norma culta, nem com que
  • 49. critrios metodolgicos chegou concluso de que o por-tugus paulistano esquisito. O uso de expresses togeneralizadoras como o carioca (de que classe social, deque faixa etria, com que nvel de instruo?) ou a So Pauloque fala (quase vinte milhes de habitantes, duas vezes apopulao de Portugal!) acaba reforando indiretamente(devido influncia inegvel de quem as formulou comoformador de opinio) a idia de que o falar carioca melhore digno de maior prestgio que os demais falares brasileiros idia que, no passado, levou at a se querer impor apronncia carioca como a oficial no teatro, no canto lrico enas salas de aula do Brasil inteiro! As pesquisas sociolingsticas que se baseiam emcoleta de dados por meio de gravaes da fala espontnea,viva, dos usurios nativos da lngua confirmam umasuposio bvia: as pessoas das classes cultas de qualquerlugar dominam melhor a norma culta do que as pessoas dasclasses no-cultas de qualquer lugar. Falantes cultos do Rio deJaneiro, do Recife, de Porto Alegre, de So Paulo, de Catol doRocha ou de Guaratinguet se expressaro igualmente bemsob a tica da norma culta. Basta consultar, por exemplo, oenorme acervo de centenas de horas de gravao da fala 5urbana culta recolhido pelos pesquisadores do Projeto NURCpara confirmar que, [pg. 49] apesar das inevitveis variaesregionais, existe uma norma urbana culta geral brasileira.5 O material do Projeto NURC pode ser consultado nos vrios livros publicados com as transcries dasfitas gravadas nas cincos diferentes cidades que compem o projeto (Recife, Salvador, Rio de Janeiro,So Paulo e Porto Alegre). Alguns desses livros so: CASTILHO & PRETI, A linguagem falada culta nacidade de So Paulo (So Paulo, T. A. Queiroz/FAPESP, 1987 - vol. 1 - e 1988 - vol. 2); CALLOU & LOPES,A linguagem falada culta na cidade do Rio de Janeiro (Rio de Janeiro, UFRJ, 1992 - vol. 1 -, 1993 - vol.2 - e 1994 - vol. 3); HILGERT, A linguagem falada culta na cidade de Porto Alegre (UFRS, 1997, vol. 1);MOTA & ROLLEMBERG, A linguagem falada culta na cidade do Salvador (UFBA, 1994, vol. 1); S, CUNHA,LIMA & OLIVEIRA, A linguagem falada culta na cidade do Recife (UFPE, 1996).
  • 50. Muitos aspectos dessa norma urbana culta esto descritosnos seis volumes da Gramtica do portugus falado, umagrande obra coletiva publicada pela Editora da UNICAMP,resultado do trabalho de investigao e anlise de dezenas delingistas das mais diversas regies do pas. De igual modo, fenmenos de concordncia do tipo doispastel e acabou as ficha so facilmente encontrveis nafala carioca, como podemos ouvir nas fitas gravadas doProjeto CENSO, que investiga o uso da lngua no Rio de Janeironas classes sociais no-cultas (isto , pessoas que nocursaram universidade)6. Alm disso, esse tipo deconcordncia se verifica de Norte a Sul do Brasil e tambmem Portugal, segundo pesquisas recentes da professora MariaMarta Scherre. Essa mesma pesquisadora defendeu, naUniversidade Federal do Rio de Janeiro, uma tese dedoutorado com o ttulo Reanlise da concordncia [pg. 50]nominal em portugus, com 555 pginas, que hoje umareferncia obrigatria para quem se aventurar a emitiropinies a respeito. Scherre mostra que, ao contrrio do quepensa Cipro, aqueles fenmenos de concordncia so, naverdade, altamente explicveis. Portanto no representamuma mera esquisitice dos paulistanos, muito menos umhorror. Convm salientar que a determinao das normas culta eno-culta uma questo de grau de freqncia das variantes(o que os normativistas considerariam erros ou acertos). Porexemplo, coisas como os menino tudo ou houveram fatospodem aparecer na fala de brasileiros cultos.6 A anlise de alguns fenmenos variveis do portugus falado na cidade do Rio de Janeiro, com base noacervo do Projeto CENSO, se encontra no livro organizado por SILVA & SCHERRE, Padres sociolingsticos,Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro/UFRJ, 1996.
  • 51. preciso abandonar essa nsia de tentar atribuir a umnico local ou a uma nica comunidade de falantes omelhor ou o pior portugus e passar a respeitarigualmente todas as variedades da lngua, que constituem umtesouro precioso de nossa cultura. Todas elas tm o seu valor,so veculos plenos e perfeitos de comunicao e de relaoentre as pessoas que as falam. Se tivermos de incentivar ouso de uma norma culta, no podemos faz-lo de modoabsoluto, fonte do preconceito. Temos de levar emconsiderao a presena de regras variveis em todas asvariedades, a culta inclusive. [pg. 51] Mito n 6 O certo falar assim porque se escreve assim Diante de uma tabuleta escrita COLGIO provvel que umpernambucano, lendo-a em voz alta, diga Clgio, que umcarioca diga CUlgio, que um paulistano diga Clgio. E agora?Quem est certo? Ora, todos esto igualmente certos. O queacontece que em toda lngua do mundo existe umfenmeno chamado variao, isto , nenhuma lngua faladado mesmo jeito em todos os lugares, assim como nem todasas pessoas falam a prpria lngua de modo idntico. Infelizmente, existe uma tendncia (mais um precon-ceito!) muito forte no ensino da lngua de querer obrigar oaluno a pronunciar do jeito que se escreve, como se essafosse a nica maneira certa de falar portugus. (Imagine se
  • 52. algum fosse falar ingls ou francs do jeito que se escreve!)Muitas gramticas e livros didticos chegam ao cmulo deaconselhar o professor a corrigir quem fala muleque, bjo,minino, bisro, como se isso pudesse anular o fenmeno davariao, to natural e to antigo na histria das lnguas. Essasupervalorizao da lngua escrita combinada com o desprezoda lngua falada um preconceito que data de antes deCristo! claro que preciso ensinar a escrever de acordo com aortografia oficial, mas no se pode fazer isso tentando criaruma lngua falada artificial e reprovando como erradas aspronncias que so resultado natural das [pg. 52] forasinternas que governam o idioma. Seria mais justo edemocrtico dizer ao aluno que ele pode dizer BUnito ouBOnito, mas que s pode escrever BONITO, porque necessriauma ortografia nica para toda a lngua, para que todospossam ler e compreender o que est escrito, mas precisolembrar que ela funciona como a partitura de uma msica:cada instrumentista vai interpret-la de um modo todo seu,particular! O pintor belga Ren Magritte (1898-1967) tem um quadrofamoso, chamado A traio das imagens, no qual se v afigura de um cachimbo e embaixo dela a frase escrita: Istono um cachimbo.
  • 53. Em que esse exemplo pode servir nossa discusso? Issono um cachimbo de verdade, mas simplesmente arepresentao grfica, pictrica de um cachimbo. O mesmoacontece com a escrita alfabtica, em sua regulamentaoortogrfica oficial. Ela no a fala: uma tentativa [pg. 53]de representao grfica, pictrica e convencional da lnguafalada. (Falarei mais detidamente da parania ortogrfica naterceira parte deste livro.) Quando digo que a escrita uma tentativa de repre-sentao porque sabemos que no existe nenhuma orto-grafia em nenhuma lngua do mundo que consiga reproduzir afala com fidelidade. Algumas ortografias, como a do espanhol, tm regrasmais generalizveis, mais simples e mais coerentes, quefacilitam o ato de ler e escrever. Mesmo assim, no castelha-no-padro da Espanha, pode sempre haver dvidas: Z ou C? Bou V? G ou J? Outras lnguas, como o ingls, tm mais excees do queregras, e preciso aprender a escrever (e a pronunciar)
  • 54. praticamente cada palavra, pois a generalizao das regrasortogrficas tem boa chance de falhar: para um falante deportugus, estranho imaginar que as palavras jail e gaoltenham a mesma pronncia! Outras, ainda, como o chins,no buscam reproduzir a lngua falada, e optam pela escritaideogrfica. Esta relao complicada entre lngua falada e lnguaescrita precisa ser profundamente reexaminada no ensino.Durante mais de dois mil anos, os estudos gramaticais sededicaram exclusivamente lngua escrita literria, formal.Foi somente no comeo do sculo XX, com o nascimento dacincia lingstica, que a lngua falada passou a ser con-siderada como o verdadeiro objeto de estudo cientfico. Afinal,a lngua falada a lngua tal como foi aprendida pelo falanteem seu contato com a famlia e com a comunidade, [pg. 54]logo nos primeiros anos de vida. o instrumento bsico desobrevivncia. Um grito de socorro tem muito mais eficcia doque essa mesma mensagem escrita. A lngua escrita, por seu lado, totalmente artificial,exige treinamento, memorizao, exerccio, e obedece aregras fixas, de tendncia conservadora, alm de ser umarepresentao no exaustiva da lngua falada. Faa voc mesmo o teste: pegue uma palavra bemsimples fogo, por exemplo e pronuncie-a com todas asinflexes e tons de voz que conseguir: espanto, medo, alegria,tristeza, saudade, ira, remorso, horror, felicidade, histeria,pavor... Depois tente reproduzir por escrito essas mesmasinflexes e tons de voz. impossvel. O mximo que a lnguaescrita oferece so os sinais de exclamao e deinterrogao! A mera forma escrita no capaz de traduzir as
  • 55. inflexes e as intenes pretendidas pelo falante. Por isso, osautores de textos teatrais indicam, entre parnteses, aemoo, sensao ou sentimento que o ator deve expressarnuma dada fala. A importncia da lngua falada para o estudo cientficoest principalmente no fato de ser nessa lngua falada queocorrem as mudanas e as variaes que incessantementevo transformando a lngua. Quem quiser, por exemplo,conhecer o estado atual da lngua portuguesa do Brasilprecisar investigar empiricamente a lngua falada (comofazem os pesquisadores dos projetos NURC e CENSO, que j citei,entre outros). Afinal, a escola, as gramticas normativas e oslivros didticos at hoje afirmam que os pronomes-sujeitos desegunda pessoa so [pg. 55] tu e vs, que o pronome voc simplesmente uma forma de tratamento, que a mesclise(dar-vo-lo-ei, di-lo-amos, amar-nos-emos) ainda umaopo para a colocao dos pronomes oblquos, ou que ofuturo do subjuntivo do verbo ver vir. Essa, porm, j no a realidade de boa parte da lngua escrita no Brasil, que dirda lngua falada! Do ponto de vista da histria de cada indivduo, oaprendizado da lngua falada sempre precede o aprendizadoda lngua escrita, quando ele acontece. Basta citar os bilhesde pessoas que nascem, crescem, vivem e morrem semjamais aprender a ler e a escrever! E no entanto ningumpode negar que so falantes perfeitamente competentes desuas lnguas maternas. Do ponto de vista da histria da humanidade a mesmacoisa. A espcie humana tem, pelo menos, um milho deanos. Ora, as primeiras formas de escrita, conforme a
  • 56. classificao tradicional dos historiadores, surgiram h apenasnove mil anos. A humanidade, portanto, passou 990.000 anosapenas falando! Quando o estudo da gramtica surgiu, no entanto, naAntigidade clssica, seu objetivo declarado era investigar asregras da lngua escrita para poder preservar as formasconsideradas mais corretas e elegantes da lngua liter-ria. Alis, a palavra gramtica, em grego, significa exata-mente a arte de escrever. Infelizmente, essas mesmas regras da lngua literriacomearam a ser cobradas da lngua falada, o que umdisparate cientfico sem tamanho! [pg. 56] H cientistas que se dedicam especificamente a estudaras diferenas, semelhanas, inter-relaes e interaes queexistem entre as duas modalidades. O ensino tradicional dalngua, no entanto, quer que as pessoas falem sempre domesmo modo como os grandes escritores escreveram suasobras. A gramtica tradicional despreza totalmente osfenmenos da lngua oral, e quer impor a ferro e fogo a lngualiterria como a nica forma legtima de falar e escrever,como a nica manifestao lingstica que merece serestudada. Veja-se, por exemplo, o caso da Nova gramtica doportugus contemporneo, de Celso Cunha e Lindley Cintra.Ao definirem o objetivo de seu trabalho, os autores declaram,no prefcio: Trata-se de uma tentativa de descrio do portugus atual na sua forma culta, isto , da lngua como a tm utilizado os escritores portugueses, brasileiros e africanos do Romantismo para c. [grifo meu]
  • 57. Essa obra, portanto, s pode ser consultada por quemtiver dvidas no momento de escrever um texto literrio, jque, segundo os prprios autores, no sero abordadosfenmenos caractersticos de outras normas escritas, como ajornalstica ou a da produo cientfica, muito menos osfenmenos tpicos da lngua falada. A gramtica de Celso Cunha e Lindley Cintra louvvelpela honestidade com que declara seu objeto de estudo(embora, por diversas razes que no cabe aqui enumerar,eles no cumpram o que prometem no prefcio [pg. 57] eacabem tratando de fatos da lngua oral ao lado defenmenos caractersticos da escrita). A maioria das outras obras desse gnero, porm, no fazassim: seus autores assumem a norma literria como a nicadigna de ser estudada, ensinada e praticada, e acham issoto natural que nem se do ao trabalho de defini-la comoseu objeto de estudo. Fica evidente que para eles s essanorma literria conservadora merece o ttulo de lnguaportuguesa. O que dito ali vale para todas as variedades doportugus, em qualquer lugar do mundo, em qualquermomento histrico, em qualquer classe social, em qualquerfaixa etria. Portanto, no uma gramtica, umapanacia... Essa nfase no texto literrio tem produzido uma visoredutora da lngua, identificando-a freqentemente apenascom a regulamentao ortogrfica. Como se no bastasse, os autores de compndios gra-maticais, inclusive os mais recentes, no fazem a distinobsica, elementar, entre ortografia e fontica, isto , entre asregras da lngua escrita e os fenmenos da lngua oral. Alis,
  • 58. por mais incrvel que parea, muitos deles classificam aortografia como uma das subdivises da fontica! o mesmoque querer incluir os ursinhos de pelcia na classe dosmamferos carnvoros! Gramtico muito mais criterioso e atento o rinoceronteQuindim personagem do Stio do Pica-pau Amarelo, deMonteiro Lobato , que levando as crianas do stio a passearpelo Pas da Gramtica, insistiu muito para que seusalunos no confundissem letra e som (p. 6): [pg. 58] Trotou, trotou e, depois de muito trotar, deu com eles numa regio onde o ar chiava de modo estranho. Que zumbido ser este? indagou a menina [Narizinho]. Parece que andam voando por aqui milhes de vespas invisveis. que j entramos em terras do Pas da Gramtica explicou o rinoceronte. Estes zumbidos so os Sons Orais, que voam soltos no espao. No comece a falar difcil que ns ficamos na mesma observou Emlia. Sons Orais, que pedantismo esse? Som Oral quer dizer som produzido pela boca. A, E, I, O, U so Sons Orais, como dizem os senhores gramticos. Pois diga logo que so letras! gritou Emlia. Mas no so letras! protestou o rinoceronte. Quando voc diz A ou O, voc est produzindo um som, no est escrevendo uma letra. Letras so sinaizinhos que os homens usam para representar esses sons. Primeiro h os Sons Orais; depois que aparecem as letras, para marcar esses sons orais. Entendeu? O ar continuava num zunzum cada vez maior. Os meninos pararam, muito atentos, a ouvir. Estou percebendo muitos sons que conheo disse Pedrinho, com a mo em concha ao ouvido. Todos os sons que andam zumbindo por aqui so velhos conhecidos seus, Pedrinho. Querem ver que o tal alfabeto? lembrou Narizinho. E mesmo!... Estou distinguindo todas as letras do alfabeto...
  • 59. No, menina; voc est apenas distinguindo todos os sons das letras do alfabeto corrigiu o rinoceronte com uma pachorra igual de dona Benta. Se voc escrever cada um desses sons, ento, sim; ento surgem as letras do alfabeto. [pg. 59] Esse livro de Monteiro Lobato foi publicado em 1934. Masas lies do rinoceronte Quindim ainda precisam serlembradas e relembradas, pois a literatura gramatical per-petua at hoje a confuso entre letra e fonema. assim que procedem, por exemplo, Pasquale Cipro Netoe Ulisses Infante em sua Gramtica da lngua portuguesa,publicada no final de 1997. Por isso a gente no deve sesurpreender quando esses autores explicam que a letra xrepresenta o fonema // depois de um ditongo, e do comoexemplo de palavras com ditongo: ameixa, caixa, peixe,eixo, frouxo, trouxa, baixo, sem fazer a menor meno aofenmeno de monotongao que j atingiu essas palavras nalngua falada no Brasil, inclusive em sua norma culta urbana,resultando nas pronncias amxa, caxa, pxe, xo,frxo e baxo. O termo ditongo (dois sons), que se aplicaa um fenmeno fontico, no cabe nesses exemplos, queretratam simplesmente a conveno ortogrfica que aindaconserva, na escrita, as duas letras vogais antes do X. O queacontece que esses monotongos podem vir a se ditongarem situaes bem especficas, tal como a reduo davelocidade da fala com finalidade de dar nfase ao enunciado.Pensemos, por exemplo, no uso das palavras louco e loucuraquando usadas de modo afetado para indicar coisassurpreendentes ou muito boas: Foi uma louuucura! Os mesmos autores dizem que na palavra QUAL existe umditongo crescente, quando qualquer brasileiro de ouvido
  • 60. mais afinado vai reconhecer a, na verdade, um tritongo. muito restrita, no portugus do Brasil, a pronncia [pg. 60] /l/ou // para o L que aparece em final de slaba. Na grandemaioria dos falares brasileiros, esse L se pronncia como asemivogal /w/. o velho preconceito grafocntrico, isto , a anlise detoda a lngua do ponto de vista restrito da escrita, que impedeo reconhecimento da verdadeira realidade lingstica. Por isso, temos de desconfiar desses livros que seautodenominam Gramtica da lngua portuguesa semespecificar seu objeto de estudo. A lngua portuguesa queeles abordam uma variedade especfica, dentre as muitasexistentes, que tem de ser designada com todos os seusqualificativos: Gramtica da lngua portuguesa escrita,literria, formal, antiga. Todos os demais fenmenos vivos dalngua falada e de outras modalidades da lngua escrita sodeixados de fora desses livros. [pg. 61]
  • 61. Mito n 7 preciso saber gramtica para falar e escrever bem difcil encontrar algum que no concorde com adeclarao acima. Ela vive na ponta da lngua da grandemaioria dos professores de portugus e est formulada emmuitos compndios gramaticais, como a j citada Gramticade Cipro e Infante, cujas primeirssimas palavras so: AGramtica instrumento fundamental para o domnio dopadro culto da lngua. muito comum, tambm, os pais de alunos cobrarem dosprofessores o ensino dos pontos de gramtica tais comoeles prprios os aprenderam em seu tempo de escola. E nofaltam casos de pais que protestaram veementemente contraprofessores e escolas que, tentando adotar uma prtica deensino da lngua menos conservadora, no seguiamrigorosamente o que est nas gramticas. Conheo genteque tirou seus filhos de uma escola porque o livro didtico aliadotado no ensinava coisas indispensveis comoantnimos, coletivos e anlise sinttica... Por que aquela declarao um mito? Porque, como nosdiz Mrio Perini em Sofrendo a gramtica (p. 50), no existeum gro de evidncia em favor disso; toda a evidnciadisponvel em contrrio. Afinal, se fosse assim, todos osgramticos seriam grandes escritores (o que est longe de ser
  • 62. verdade), e os bons escritores seriam especialistas emgramtica. [pg. 62] Ora, os escritores so os primeiros a dizer que gramticano com eles! Rubem Braga, indiscutivelmente um dosgrandes de nossa literatura, escreveu uma crnica deliciosa aesse respeito chamada Nascer no Cairo, ser fmea decupim. Carlos Drummond de Andrade (preciso de adjetivos paraqualific-lo?), no poema Aula de Portugus tambm dtestemunho de sua perturbao diante do mistrio dasfiguras de gramtica, esquipticas, que compem oamazonas de minha ignorncia. Drummond ignorante? E o que dizer de Machado de Assis que, ao abrir agramtica de um sobrinho, se espantou com sua prpriaignorncia por no ter entendido nada? Esse e outroscasos so citados por Celso Pedro Luft em Lngua e liberdade(pp. 23-25). E esse mesmo autor nos diz (p. 21): Um ensino gramaticalista abafa justamente os talentos naturais, incute insegurana na linguagem, gera averso ao estudo do idioma, medo expresso livre e autntica de si mesmo. Mrio Perini, no livro que citamos acima, chama a atenopara a propaganda enganosa contida no mito de que preciso ensinar gramtica para aprimorar o desempenholingstico dos alunos: Quando justificamos o ensino de gramtica dizendo que para que os alunos venham a escrever (ou ler, ou falar) melhor, estamos prometendo uma mercadoria que no podemos entregar. Os alunos percebem isso com bastante clareza, embora talvez no o possam explicitar; e esse um dos fatores do descrdito da disciplina entre eles. [pg. 63]
  • 63. E Sirio Possenti, j citado, lembra-nos que as primeirasgramticas do Ocidente, as gregas, s foram elaboradas nosculo II a. C, mas que muito antes disso j existira na Grciauma literatura ampla e diversificada, que exerce influnciaat hoje em toda a cultura ocidental. A Ilada e a Odissia jeram conhecidas no sculo VI a. C, Plato escreveu seusfascinantes Dilogos entre os sculos V e IV a. C, na mesmapoca do grande dramaturgo Esquilo, verdadeiro criador datragdia grega. Que gramtica eles consultaram? Nenhuma.Como puderam ento escrever e falar to bem sua lngua? O que aconteceu, ao longo do tempo, foi uma inverso darealidade histrica. As gramticas foram escritasprecisamente para descrever e fixar como regras e pa-dres as manifestaes lingsticas usadas espontanea-mente pelos escritores considerados dignos de admirao,modelos a ser imitados. Ou seja, a gramtica normativa decorrncia da lngua, subordinada a ela, dependente dela.Como a gramtica, porm, passou a ser um instrumento depoder e de controle, surgiu essa concepo de que os falantese escritores da lngua que precisam da gramtica, como seela fosse uma espcie de fonte mstica invisvel da qualemana a lngua bonita, correta e pura. A lngua passoua ser subordinada e dependente da gramtica. O que noest na gramtica normativa no portugus. E oscompndios gramaticais se transformaram em livrossagrados, cujos dogmas e cnones tm de ser obedecidos risca para no se cometer nenhuma heresia. [pg. 64] O resultado dessa inverso dos fatos histricos visvel,por exemplo, na Gramtica de Cipro e Infante que, na p. 16,afirma:
  • 64. A Gramtica normativa estabelece a norma culta, ou seja, o padro lingstico que socialmente considerado modelar [...] As lnguas que tm forma escrita, como o caso do portugus, necessitam da Gramtica normativa para que se garanta a existncia de um padro lingstico uniforme [...]. Ora, no a gramtica normativa que estabelece anorma culta. A norma culta simplesmente existe como tal. Atarefa de uma gramtica seria, isso sim, definir, identificar elocalizar os falantes cultos, coletar a lngua usada por eles edescrever essa lngua de forma clara, objetiva e com critriostericos e metodolgicos coerentes. Sem isso no podemosconfiar em gramticas como a de Domingos Paschoal Cegalla,que afirma simplesmente: Este livro pretende ser uma Gramtica Normativa da Lngua Portuguesa do Brasil, conforme a falam e escrevem as pessoas cultas na poca atual [Novssima gramtica da lngua portuguesa, p. xix]. Mas quem so essas pessoas cultas na poca atual?Com que critrios o autor as classificou de cultas? Com quemetodologia precisa identificou o modo como elas falam eescrevem? Pois disso precisamente que mais necessitamoshoje no Brasil: da descrio detalhada e realista da normaculta objetiva, com base em coletas confiveis que se utilizemdos recursos tecnolgicos mais avanados, para que ela sirvade base ao ensino/aprendizagem [pg. 65] na escola, e nomais uma norma fictcia que se inspira num ideal lingsticoinatingvel, baseado no uso literrio, artstico, particular eexclusivo dos grandes escritores. Afinal, um instrutor de auto-escola quer formar bons motoristas, e no campeesinternacionais de Frmula 1. Um professor de portugus quer
  • 65. formar bons usurios da lngua escrita e falada, e noprovveis candidatos ao Prmio Nobel de literatura! Por outro lado, no a gramtica normativa que vaigarantir a existncia de um padro lingstico uniforme.Esse padro lingstico (que pode chegar a certo grau deuniformidade, mas nunca ser totalmente uniforme, pois usado por seres humanos que nunca ho de ser criaturasfsica, psicolgica e socialmente idnticas), como j dissemos,existe na sociedade, independentemente de haver ou nolivros que o descrevam. As plantas s existem porque os livros de botnica asdescrevem? claro que no. Os continentes s passaram aexistir depois que os primeiros cartgrafos desenharam seusmapas? Difcil acreditar. A Terra s passou a ser esfricadepois que as primeiras fotografias tiradas do espaomostraram-na assim? No. Sem os livros de receitas nohaveria culinria? Eu sei muito bem que no: a melhorcozinheira que conheo, capaz de preparar centenas depratos diferentes, os mais sofisticados, uma pernambucanade quase oitenta anos, cem por cento analfabeta. Esse mito est ligado milenar confuso que se faz entrelngua e gramtica normativa. Mas preciso desfaz-la. [pg.66] No h por que confundir o todo com a parte. Lembra-sedo que eu falei na abertura do livro sobre a gramticanormativa ser um igap? Acho que vale a pena repetir aqui.Na Amaznia, igap uma grande poa de gua estagnadas margens de um rio, sobretudo depois da cheia. Acho umaboa metfora para a gramtica normativa. Como eu disse,enquanto a lngua um rio caudaloso, longo e largo, quenunca se detm em seu curso, a gramtica normativa
  • 66. apenas um igap, uma grande poa de gua parada, umcharco, um brejo, um terreno alagadio, margem da lngua.Enquanto a gua do rio/lngua, por estar em movimento, serenova incessantemente, a gua do igap/gramticanormativa envelhece e s se renovar quando vier a prximacheia. a mesma coisa que nos explica, em termos cientficos,Luiz Carlos Cagliari em Alfabetizao & lingstica7: A gramtica normativa foi num primeiro momento uma gramtica descritiva de um dialeto de uma lngua. Depois a sociedade fez dela um corpo de leis para reger o uso da linguagem. Por sua prpria natureza, uma gramtica normativa est con- denada ao fracasso, j que a linguagem um fenmeno dinmico e as lnguas mudam com o tempo; e, para continuar sendo a expresso do poder social demonstrado por um dialeto, a gramtica normativa deveria mudar. Se no o ensino/estudo da gramtica que vai garantir aformao de bons usurios da lngua, o que vai garanti-la?Existe muito debate a respeito entre os lingistas [pg. 67] eos pedagogos. O certo que eles so praticamente unnimesem combater aquele mito. H lugar para a gramtica naescola? Parece que sim. Mas tambm parece ser. um lugarbastante diferente do que lhe era atribudo na prticatradicional de ensino da lngua. Na terceira parte deste livro,tentarei expor algumas opinies a respeito. De todo modo, algumas pessoas muito competentes jexplicaram tudo isso melhor do que eu seria capaz. Por isso,ao leitor e leitora interessados nesse tema recomendo aleitura, entre outros, dos j citados Sofrendo a gramtica, deMrio Perini, Por que (no) ensinar gramtica na escola, de7 Citado por Ernani Terra, Linguagem, lngua e fala, p. 46.
  • 67. Srio Possenti, e Lngua e liberdade, de Celso Pedro Luft, etambm Linguagem, lngua e fala, de Ernani Terra;Contradies no ensino de portugus, de Rosa Virgnia Mattose Silva, e Gramtica na escola, de Maria Helena de MouraNeves. Esses livros nos ajudam a compreender melhor osmecanismos de excluso que agem por trs da imposio dasnormas gramaticais conservadoras no ensino da lngua e deque modo poderamos, em nossa prtica pedaggica, tentardesmont-los. [pg. 68]
  • 68. Mito n8 O domnio da norma culta um instrumento de ascenso social Este mito, que vem fechar nosso circuito mitolgico, temmuito que ver com o primeiro, o mito da unidade lingsticado Brasil. Esses dois mitos so aparentados porque ambostocam em srias questes sociais. muito comum encontrarpessoas muito bem-intencionadas que dizem que a normapadro conservadora, tradicional, literria, clssica que temde ser mesmo ensinada nas escolas porque ela uminstrumento de ascenso social. Seria ento o caso de daruma lngua queles que eu chamei de sem-lngua? Ora, se o domnio da norma culta fosse realmente uminstrumento de ascenso na sociedade, os professores deportugus ocupariam o topo da pirmide social, econmica epoltica do pas, no mesmo? Afinal, supostamente, ningummelhor do que eles domina a norma culta. S que a verdadeest muito longe disso como bem sabemos ns, professores, aquem so pagos alguns dos salrios mais obscenos de nossasociedade. Por outro lado, um grande fazendeiro que tenhaapenas alguns poucos anos de estudo primrio, mas que sejadono de milhares de cabeas de gado, de indstrias agrcolase detentor de grande influncia poltica em sua regio vaipoder falar vontade sua lngua de caipira, com todas asformas sintticas consideradas erradas pela gramtica [pg.
  • 69. 69] tradicional, porque ningum vai se atrever a corrigir seumodo de falar. O que estou tentando dizer que o domnio da normaculta de nada vai adiantar a uma pessoa que no tenha todosos dentes, que no tenha casa decente para morar, guaencanada, luz eltrica e rede de esgoto. O domnio da normaculta de nada vai servir a uma pessoa que no tenha acessos tecnologias modernas, aos avanos da medicina, aosempregos bem remunerados, participao ativa econsciente nas decises polticas que afetam sua vida e a deseus concidados. O domnio da norma culta de nada vaiadiantar a uma pessoa que no tenha seus direitos decidado reconhecidos plenamente, a uma pessoa que vivanuma zona rural onde um punhado de senhores feudaiscontrolam extenses gigantescas de terra frtil, enquantomilhes de famlias de lavradores sem-terra no tm o quecomer. Achar que basta ensinar a norma culta a uma crianapobre para que ela suba na vida o mesmo que achar que preciso aumentar o nmero de policiais na rua e de vagasnas penitencirias para resolver o problema da violnciaurbana. A violncia urbana est intimamente ligada a uma si-tuao social de profunda injustia, que d ao Brasil, como euj disse, o triste segundo lugar entre os pases com a piordistribuio de renda de todo o mundo, perdendo apenas paraBotswana, um pas africano desrtico, muito menor e muitomenos desenvolvido. preciso garantir, sim, a todos os brasileiros o reco-nhecimento (sem o tradicional julgamento de valor) da [pg.
  • 70. 70] variao lingstica, porque o mero domnio da normaculta no uma frmula mgica que, de um momento paraoutro, vai resolver todos os problemas de um indivduocarente. preciso favorecer esse reconhecimento, mastambm garantir o acesso educao em seu sentido maisamplo, aos bens culturais, sade e habitao, aotransporte de boa qualidade, vida digna de cidadomerecedor de todo respeito. Como fcil perceber, o que est em jogo no asimples transformao de um indivduo, que vai deixar deser um sem-lngua padro para tornar-se um falante davariedade culta. O que est em jogo a transformao dasociedade como um todo, pois enquanto vivermos numaestrutura social cuja existncia mesma exige desigualdadessociais profundas, toda tentativa de promover a ascensosocial dos marginalizados , seno hipcrita e cnica, pelomenos de uma boa inteno paternalista e ingnua. Por isso eu me pergunto: ser que doando a lnguapadro a um indivduo das classes subalternas ele vai,automaticamente, tornar-se um patro? No mera coin-cidncia etimolgica o fato de padro e patro serem duasformas divergentes de uma mesma origem comum: o latimpatronu-, que tem tambm a mesma raiz de paternalismo epatriarcalismo. Valer mesmo a pena promover a ascenso social paraque algum se enquadre dentro desta sociedade em quevivemos, tal como ela se apresenta hoje? Basta pensar umpouco nos indivduos que detm o poder no Brasil: no so(quando so) apenas falantes da norma culta, mas sosobretudo, em sua grande maioria, homens, [pg. 71]
  • 71. brancos, heterossexuais, nascidos/criados na poro Sul-Sudeste do pas ou oriundos das oligarquias feudais doNordeste. Como eu j tinha avisado na abertura do livro, falar dalngua falar de poltica, e em nenhum momento estareflexo poltica pode estar ausente de nossas posturastericas e de nossas atitudes prticas de cidado, de pro-fessor e de cientista. Do contrrio, estaremos apenascontribuindo para a manuteno do crculo vicioso dopreconceito lingstico e do irmo gmeo dele, o crculovicioso da injustia social. [pg. 72]
  • 72. II O crculo vicioso do preconceito lingstico 1. Os trs elementos que so quatro Os mitos que acabamos de examinar so transmitidos eperpetuados em nossa sociedade, cada um deles em graumaior ou menor, por um mecanismo que podemos chamar decrculo vicioso do preconceito lingstico. Esse crculo viciosose forma pela unio de trs elementos que, sem desrespeitarmeus amigos telogos, costumo denominar SantssimaTrindade do preconceito lingstico. Esses trs elementos soa gramtica tradicional, os mtodos tradicionais de ensino eos livros didticos: Como que se forma esse crculo? Assim: a gramticatradicional inspira a prtica de ensino, que por sua [pg. 73]vez provoca o surgimento da indstria do livro didtico, cujosautores fechando o crculo recorrem gramticatradicional como fonte de concepes e teorias sobre a lngua.
  • 73. gramtica tradicional, em sua vertente normativo-prescritivista, continua firme e forte, como fcil verificar noscompndios gramaticais mais recentes. As prticas de ensinovariam muito de regio para regio, de escola para escola, eat de professor para professor, de acordo com as concepespedaggicas adotadas. A tendncia atual, mencionada noincio deste livro, crtica dos preconceitos e ao exerccio datolerncia tem tornado o ambiente escolar bastante maisrespirvel e democrtico do que, por exemplo, na poca emque estudei, em plena ditadura militar. Como j vimos, a maisalta instncia educacional do pas, o Ministrio da Educao,tem feito esforos louvveis para provocar uma reflexo sobreos temas relativos tica e cidadania plena do indivduo,para estimular uma postura menos dogmtica e mais flexvel,por parte, pelo menos, das escolas pblicas. Os j citadosParmetros curriculares nacionais reconhecem que existe muito preconceito decorrente do valor atribudo s variedades padro e ao estigma associado s variedades no-padro, consideradas inferiores ou erradas pela gramtica. Essas diferenas no so imediatamente reconhecidas e, quando so, so objeto de avaliao negativa. Para cumprir bem a funo de ensinar a escrita e a lngua padro, a escola precisa livrar-se de vrios mitos: o de que [pg. 74] existe uma forma correta de falar, o de que a fala de uma regio melhor do que a de outras, o de que a fala correta a que se aproxima da lngua escrita, o de que o brasileiro fala mal o portugus, o de que o portugus uma lngua difcil, o de que preciso consertar a fala do aluno para evitar que ele escreva errado. Essas crenas insustentveis produziram uma prtica de mutilao cultural [...]88 Ministrio da Educao e do Desporto (1998): Parmetros curriculares nacionais, Lngua Portuguesa,5 a 8a sries, p. 31.
  • 74. Temos ainda de esperar para ver em que medida essesesforos se refletiro na prtica quotidiana, efetiva, dosprofessores em sala de aula. Acompanhando esse movimento,muitas editoras vm tentando produzir um material didticomais compatvel com as novas concepes pedaggicas, e osistema oficial de avaliao dos livros didticos, apesar demuito criticado, tem contribudo para uma reviso das formastradicionais de elaborao desse tipo de livro. Mas os preconceitos, como bem sabemos, impregnam-sede tal maneira na mentalidade das pessoas que as atitudespreconceituosas se tornam parte integrante do nosso prpriomodo de ser e de estar no mundo. necessrio um trabalholento, contnuo e profundo de conscientizao para que secomece a desmascarar os mecanismos perversos quecompem a mitologia do preconceito. E o tipo mais trgico depreconceito no aquele que exercido por uma pessoa emrelao a outra, mas o preconceito [pg. 75] que uma pessoaexerce contra si mesma. Infelizmente, ainda existem muitasmulheres que se consideram inferiores aos homens;existem negros que acreditam que seu lugar mesmo desubservincia em relao aos brancos; existem homossexuaisconvictos de que sofrem de uma doena que pode,inclusive, ser curada... Do mesmo modo, muitos brasileiros acreditam que nosabem portugus, que portugus muito difcil ou que alngua falada aqui toda errada. E ao contrrio dos demaispreconceitos, que vm sendo atacados com algum sucessocom diversos mtodos de combate, o preconceito lingsticoprossegue sua marcha. Se j existe uma mudana de atitude
  • 75. nos livros didticos e na pedagogia oficial, por que o crculovicioso do preconceito lingstico continua girando? Intrigado com isso, comecei a prestar ateno minhavolta e cheguei concluso de que o crculo vicioso noestava completo. Descobri que, assim como os TrsMosqueteiros de Alexandre Dumas so quatro, tambm existeum quarto elemento oculto dentro daquele crculo. Como estequarto elemento no to compactamente institucionalizadoquanto os demais, a gente deixa de perceb-lo. Mas, afinal, que quarto elemento esse? aquilo queresolvi chamar de comandos paragramaticais. todo essearsenal de livros, manuais de redao de empresasjornalsticas, programas de rdio e de televiso, colunas dejornal e de revista, CD-ROMS, consultrios gramaticais [pg.76] por telefone e por a afora... a saudvel epidemia aque se refere Arnaldo Niskier no artigo que citei ao falar doMito n 2, epidemia que, para mim, nada tem desaudvel, e vou explicar por qu. O que os comandosparagramaticais poderiam representar de utilidade para quemtem dvidas na hora de falar ou de escrever acaba seperdendo por trs da espessa neblina de preconceito queenvolve essas manifestaes da (multi)mdia. Assim, tudo oque elas fazem de concreto perpetuar as velhas noes deque brasileiro no sabe portugus e de que portugus muito difcil. uma pena que seja assim. Todo esse formidvel poderde influncia dos meios de comunicao e dos recursos dainformtica poderia ser de grande utilidade se fosse usadoprecisamente na direo oposta: na destruio dos velhosmitos, na elevao da auto-estima lingstica dos brasileiros,
  • 76. na divulgao do que h de realmente fascinante no estudoda lngua. Mas no assim. Toda vez que algum se pe afalar da situao lingstica do Brasil, para repetir asmesmas queixas e lamrias de cem anos atrs ou mais. Um exemplo. Na entrevista de Pasquale Cipro Neto revista Veja, que citamos na primeira parte deste livro, o textoque antecede a entrevista propriamente dita repisa aquelesmesmos chaves bolorentos: [...] professor de portugus um idioma que, de to maltratado no dia-a-dia dos brasileiros, precisa ser divulgado e explicado para os milhes que o tm como lngua materna. [pg. 77] E a primeira pergunta, como era de prever diante de umaabertura to pessimista, s podia ser: Por que o portugus to mal falado e to mal escrito no Brasil? E o entrevistadoparte logo para a explicao das causas visveis dessasituao, sem contestar em momento algum a afirmao, fcilde negar, contida na pergunta. E da mesma forma comoCndido de Figueiredo, em 1903, e Arnaldo Niskier, em 1998,ele investe contra os estrangeirismos declarando que o sujeito que usa um termo em ingls no lugar do equivalente em portugus , na minha opinio, um idiota. Ora, se ele mesmo reconhece que o uso de estran-geirismos a face mais irritante de um pas colonizadoculturalmente como o nosso, injusto chamar de idiota apessoa que , de fato, uma vtima dessa colonizao cultural.Se nosso comrcio est repleto de nomes em ingls porqueos comerciantes e os industriais sabem que isso atrai mais o
  • 77. pblico, que qualquer produto com aparncia de estrangeirotem maior aceitao por parte do consumidor. Quanto aos comandos paragramaticais, no faltamexemplos do preconceito lingstico que os orienta. Como oespao de que disponho neste livro muito pequeno, noser possvel fazer um exame pormenorizado de muitasdessas manifestaes preconceituosas, por isso me limitarei aalgumas mais gritantes, que merecem ser denunciadas. [pg.78] 2. Sob o imprio de Napoleo O mais respeitado e renomado propagador do preconceitolingstico por meio de comandos paragramaticais no Brasilfoi, durante longas dcadas, o professor Napoleo Mendes deAlmeida, at falecer no comeo de 1998, aos 87 anos. Elenunca escondeu sua intolerncia e seu autoritarismo em suascolunas de jornal, e fcil verific-lo nas mais de 600 pginasde seu Dicionrio de questes vernculas. Como ele foi (eainda ) aclamado por muitos como um defensorintransigente da lngua, parece-me oportuno mostrar de quemaneira ele exerceu essa sua defesa. O verbete VERNCULO do citado Dicionrio comea assim: Os delinqentes da lngua portuguesa fazem do princpio histrico quem faz a lngua o povo verdadeiro moto para justificar o desprezo de seu estudo, de sua gramtica, de seu vocabulrio, esquecidos de que a falta de escola que ocasiona a transformao, a deteriorao, o apodrecimento de uma lngua. Cozinheiras, babs, engraxates, trombadinhas, vagabundos, criminosos que devem figurar, segundo esses derrotistas, como verdadeiros mestres de nossa sintaxe e legtimos defensores do nosso vocabulrio.
  • 78. Basta esse pargrafo para demonstrar que, alm dopreconceito lingstico, est a manifestado um profundopreconceito social. Em outras passagens do livro, ele falanovamente de lngua de cozinheiras e de infelizescaipiras. [pg. 79] Para Napoleo Mendes de Almeida, a literatura brasileiramorreu em 1908, junto com Machado de Assis. Toda a vastaproduo do Modernismo e dos perodos seguintes merecedora de seu mais profundo desprezo: Escritor o que tem forma e contedo; aquela ter quem conhecer o idioma; este, quem tiver erudio e, principalmente, cultura. Se somente a forma, temos o frvolo; se somente o contedo, temos o tcnico; se as duas coisas, temos o escritor; se nenhuma delas, teremos o... modernista. Recusa-se a escrever o nome de Carlos Drummond deAndrade, a quem nega o ttulo de poeta e escritor por terusado o verbo ter no lugar de haver no clebre poema Nomeio do caminho, pecado suficiente para conden-lo aoinferno dos gramticos! As explicaes de Napoleo se baseiam exclusivamenteem comparaes com o latim e o grego, e freqentementeatribuem a origem dos supostos erros da sintaxe dosbrasileiros imitao servil do francs ou do ingls,desconsiderando sistematicamente todas as contribuies dacincia lingstica moderna. Alis, no verbete LINGSTICA, eledeixa transparecer sua desinformao acerca do querealmente essa cincia: A lingstica no estuda idioma nem gramtica nenhuma, a lingstica estuda a fala, explica fatos naturais de articulao, de formas de expresso oral do ser humano; como estudo da estrutura das lnguas em geral, no vai alm da fontica.
  • 79. Enganam-se os pais, enganam-se os filhos quando pensam estar a escola, a faculdade ensinando gramtica, ensinando a lngua da terra porque no programa consta lingstica. O objeto da lingstica [pg. 80] a lngua no sentido da fala, de dom de expressar o homem por palavras o pensamento; um estudo sem utilidade especfica para este ou aquele idioma. [...] um dos grandes enganos de certas faculdades de letras fazer alunos acreditar que esto a aprender a lngua de sua terra com explanaes de estrutura da fala do homem. a lingstica um dos estorvos do aprendizado da lngua portuguesa em escolas brasileiras. Para ele, estudar lingstica fixar inteis, pretensiosase ridculas bizantinices. Fica evidente por essas palavras queo professor Napoleo jamais ps os ps numa boauniversidade depois que o ensino da lingstica foi institudonos cursos de letras do Brasil. E que tampouco leu um nicosequer dos muitssimos livros intitulados Introduo lingstica para saber qual o verdadeiro objeto de estudodessa cincia. Acreditar que a lingstica no vai alm dafontica de uma ingenuidade imperdovel em algum quejulgava ter autoridade suficiente para policiar a lngua dosjornalistas e dos escritores, para decretar o que certo eerrado no portugus brasileiro, para afirmar, sem papas nalngua, no verbete VERNCULO, que portugus estropiado que no Brasil se fala, lngua de gria, lngua sem peias sintticas, lngua de flexo arbitrria, lngua do deix v, do mande ele, do j te disse que voc, do no lhe conheo, do fiz ele estudar, do vi os meninos sarem. Esse seu total desconhecimento da lingstica que lhepermite fazer conjecturas sem nenhum fundamento cientficoou de qualquer outra natureza como: [pg. 81] A gramtica, no que diz respeito funo da palavra, internacional. O que sujeito em portugus sujeito em chins; o que objeto direto em nosso idioma
  • 80. objeto direto em qualquer outro, e o mesmo se diga de todas as funes sintticas e de todas as classes de palavras. Essa gramtica internacional pura fico, fruto daignorncia lingstica do autor. Para comprovar isso, e usandoo exemplo que ele mesmo sugeriu o chins basta umbreve exame da literatura cientfica especializada: [em chins] no existe nenhuma morfologia de casos que assinale diferenas entre relaes gramaticais como sujeito, objeto direto ou objeto indireto, nem existe qualquer concordncia ou flexo verbal para indicar o que sujeito e o que objeto. No chins, de fato, h poucas razes gramaticais para se postular relaes gramaticais, embora haja, claro, meios de distinguir quem fez o qu a quem, tal como existem em todas as lnguas9. Alm disso, o mesmo estudo diz que em chins no hnada que se possa classificar de adjetivos, desmentindo,portanto, o que Napoleo pensa acerca dainternacionalidade das classes de palavras. No caso de Napoleo Mendes de Almeida, a carga depreconceito lingstico j no a neblina espessa a que mereferi mais acima: uma verdadeira parede de rochaimpermevel e intransponvel, que impede o acesso a [pg.82] qualquer eventual utilidade que suas explicaes possamter. Seu Dicionrio de questes vernculas, da perspectiva datica mais elementar, desrespeita os direitos lingsticos doscidados brasileiros. 3. Um festival de asneiras Na mesma linha de conduta preconceituosa se encontra olivro No erre mais!, de Luiz Antonio Sacconi. A edio que9 LI, Charles & THOMPSON, Sandra. Chinese, in COMRIE, B. (ed.), The Worlds Major Languages, London,Routledge, 1987, pp. 824-825.Traduo minha.
  • 81. tenho a 23a, de 1998, o que mostra o amplo sucesso daobra, um verdadeiro best-seller. Trata-se, contudo, de umprato cheio (420 pginas!) para quem desejar ver, em letraimpressa, a perpetuao de todos os preconceitos queexaminamos na primeira parte deste livro. Quais so os problemas de No erre mais!?. Paracomear, o livro no tem o mais remoto critrio de orga-nizao: os supostos erros so encadeados caoticamente,um aps o outro, sem nenhuma distribuio baseada em tiposde erros (ortogrficos, fonticos, sintticos, morfolgicos)nem na mais elementar ordem alfabtica de assunto. Em seguida, tenta ensinar coisas perfeitamente inteis,como a pronncia correta do nome ingls do modelo de umcarro que, por sinal, j deixou de ser fabricado (Monza ClassicSE) e tambm das siglas FNM e DKW (igualmente extintas), agrafia correta do apelido da apresentadora de televisoXuxa (que, segundo ele, deveria se escrever Chucha), ou aconjugao do verbo apropinquar--se, que ningum em sconscincia usa no Brasil, a menos que queira provocar risosou passar por pedante... [pg. 83] Alm disso, corrige erros cometidos por uma nicapessoa, em determinada ocasio, em determinado momento,que no tm, portanto, a freqncia de uma regra varivel (oque os prescritivistas chamam de erro comum), mas lapsoscometidos por algum, o que no justifica sua incluso numlivro desse tipo. Mas o pior de tudo a enxurrada de expressespreconceituosas que inundam o livro de ponta a ponta.Apesar de Sacconi atribu-las sua ndole espirituosa edizer que isso nada tem que ver com desprezo ou me-
  • 82. nosprezo aos ignorantes, o uso mesmo do termo igno-rantes j constitui um sinal desse desprezo ou menos-prezo. Porque, lendo o livro, o leitor descobre que todos osbrasileiros, com exceo do autor, so ignorantes no quediz respeito lngua: a cada pgina surge uma invectivacontra uma entidade amorfa e indefinida chamada povo,contra os jornalistas em bloco, contra os autores de dicio-nrios, contra a Academia Brasileira de Letras, contra escri-tores clssicos, contra outros gramticos, contra especialistasnas mais diversas cincias e tcnicas... Fica claro, ento, quea norma culta uma flor nica, que s germina no jardim dacasa dele. Afinal, se todos os mapas e livros de geografiatrazem a forma Antrtida, que autoridade tem Sacconi paradizer que isso lamentvel e que a forma certa Antrtica? Vamos examinar apenas as primeiras cem pginas deNo erre mais! (ir alm disso seria maltratar demais oestmago do leitor). Nelas aparecem doze palavras derivadas[pg. 84] de asno (asinino,asneira,asnice) para se referirqueles mesmos ignorantes mencionados no texto deabertura do livro. Sendo ao todo 420 pginas, podemosimaginar quantas mais no aparecero! (Lngua de jacu outra das expresses favoritas dele.) Sacconi se revela, desse modo, um discpulo fiel eimitador perfeito de Cndido de Figueiredo, que em O que seno deve dizer (de 1903!) declara: Em geral, os espritos fortes... na asneira julgam microscpicas as questes de letras, e at as questes de palavras (vol. 1, p. 17).
  • 83. Os jornalistas so o alvo preferido das tiradas precon-ceituosas do autor de No erre mais!: [...] essa mesma imprensa, para no fugir sua regra maior, que ignorar a coerncia, pe os ps pelas mos (p. 30). Essa gente que escreve em jornais uma gracinha! (p. 40). Alguns de nossos jornais e jornalistas se tornaram um problema a mais para todos os professores de Portugus. At quando? (p. 45). [...] excrescncias comuns na boca e na pena de certos jornalistas versados em esporte. (p. 52). H jornalistas que, de fato, inventam a toda a hora, aprontam com todo o mundo... (p. 54). Os jornalistas usam: o aumento do funcionalismo, o aumento da gasolina, o aumento da carne. o mais puro aumento da incompetncia... (p. 68). [pg. 85] Os brasileiros, por exemplo, vivem mal e parcamente num pas onde os jornalistas escrevem muito mal e parcamente... (p. 77). Pra quem no sabe, redao de jornal um lugar aonde s deveria ir gente que conhecesse um pouquinho a lngua. S um pouquinho... (p. 78). Essa gente ainda vai um dia inventar uma nova lngua, inteligvel s para si mesmos (p. 82). No vamos aumentar o diapaso de crticas que temos feito a alguns jornalistas... (p. 86). A qualidade de nossos jornais piora ( preciso acrescentar ainda mais?) (p. 94) No bastasse esse ataque aos jornalistas, Sacconi nohesita em ofender preconceituosamente outros segmentossociais. Para ele, a regncia namorar com coisa deitalianos (p. 7). Para ele, a forma peozada s pode existir na
  • 84. fala, pois o correto na escrita peonada, e aconselha ospees a que tenham o bom-senso de trocar essa forma pelaoutra quando escrevem. Se que escrevem... (p. 8),mostrando que, na sua opinio, todo peo necessariamenteanalfabeto. O mesmo acontece em relao aos errossupostamente cometidos por caminhoneiros: Camioneiros,contudo, incansveis trabalhadores, merecem todo o perdodeste mundo... (p. 21). Seu iderio poltico tambm fica manifesto em decla-raes do tipo: Hoje em dia existem pessoas que fazem curso superior em greves, formam-se no assunto e mostram-se to competentes [pg. 86] no ofcio, que decidem em nome de toda a classe que representam: pela continuidade da greve! (p. 10). Recentemente, todavia, um comentarista de futebol, membro do PT, corintiano, resolveu dizer, no ar, mais asneiras do que comumente diz sobre aquilo que diz entender: futebol (p. 13). H declaraes preconceituosas para quase todos ossegmentos da sociedade: Costumo dizer que algarismo romano como vizinho: devemos evit-lo tanto quanto possvel (p. 65). Leu-se, porm, num jornal: Martins quase um octogenrio. Certamente, quem escreveu isso estaria bem para l disso... (p. 68). So os [dicionrios] que j passam dos setecentos anos, seno a obra, o seu autor... (p. 68). Na Bahia, porm, na sempre formidvel Bahia, as pessoas se acordam. O mais interessante que se acordam e vo direto praia... (p. 73).
  • 85. Sacconi aceita a crena primitiva e ingnua de que apalavra e o objeto a que ela se refere so uma e a mesmacoisa: se a forma da palavra est errada, o objeto noexiste. Falando do nome Antrtida (p. 15) ele diz: Eis a umaregio do globo que, em verdade, no existe. Ao comentar odeslize de um reprter de televiso que pronunciou iberoem lugar de ibro ao referir-se a um festival de rock,Sacconi afirma: Esse festival, garantimos, no existiu. E aocondenar o uso do artigo a diante do nome da cidade deFranca (conforme tradio [pg. 87] antiga entre os lnascidos) na frase Moro na Franca, ele rebate: No mora. Numa atitude totalmente oposta de um cientista dalinguagem cuja tarefa principal seria a descrio dos fatosda lngua ou de um professor que se esforaria emjustificar, com explicaes razoveis, a preferncia por estaou aquela forma de uso da lngua ele, aps decretar o que certo ou errado, reafirma nosso Mito n 3: No perca nenhum tempo em perguntar por qu, caro leitor: basta no esquecer que estamos estudando a lngua portuguesa. Com certeza... (p. 14). Ou seja, a lngua portuguesa difcil e cheia demistrios inexplicveis, como reza a mitologia do pre-conceito lingstico. Do ponto de vista das concepes lingsticas do autor, olivro tambm um desastre. Condena usos que j esto hmuito consagrados na norma culta real (e no na fictcia, ques ele conhece), abonados nos mais diversos dicionrios e naobra de muitos escritores de reconhecido talento. Tenta imporformas arcaicas, que causariam estranheza a qualquer falantebem instrudo, e abolir construes que so perfeitamente
  • 86. aceitveis, resultantes das inevitveis transformaes por quea lngua passa. Sua desinformao acerca das noes bsicas de lin-gstica, sobretudo de sociolingstica e de histria da lngua,levam-no a atribuir obsessivamente Bahia e a umasuposta influncia africana uma srie de variantes do [pg.88] portugus do Brasil que se encontram documentadas nasmais diversas regies do pas, inclusive naquelas em que apresena negra foi ou mnima. O que ele diz a respeito daslnguas indgenas carece igualmente de toda fundamentaocientfica: Alguns preferem usar taio, no lugar de talho, transformando o lh em i, fato comum em certas regies do Pas, mormente naquelas que receberam influncia do elemento africano (p. 32). Em algumas regies do Brasil (na Bahia, principalmente), o d dos gerndios no soa. Dizem, ento: correno, andano, cano, em vez de correndo, andando, caindo. Trata-se de um caso tpico de influncia africana, que a Bahia recebeu enormemente. Tambm ao elemento negro devemos o fato de pronunciarmos muitas vezes: a) os infinitivos sem o r final (cas, vend, menti); b) apenas o el tnico final (pap, an, coron); c) tamm (em vez de tambm), ful (em vez de flor), sinh, sinh (em vez de senhor, senhora) fed (em vez de fedor), etc.; d) mui (em vez de mulher), paiao (em vez de palhao) (p. 38). Ocorre que, nas regies banhadas pelo legendrio rio Tiet, utilizado pelos bandeirantes, as pessoas realmente trocam o l pelo r (arto, iguar, tarco, etc.), por influncia da lngua dos indgenas, que no conheciam o som l, mas apenas o som r brando, de caro, barato. Os bandeirantes, preocupados em se aproximar dos ndios (e das suas riquezas), faziam o que podiam para serem compreensveis, para serem amveis, gentis. Assim, toda palavra que tinha l sofria a natural
  • 87. modificao [...] Comeou, ento, dessa forma, o hbito de trocar o l por r, fenmeno conhecido pelo nome de rotacismo, muito comum [pg. 89] nas cidades paulistas de Tatu, Piracicaba, Tiet, Laranjal, Porto Feliz, Itu, Salto, Capivari, etc. (p. 98). A vocalizao do fonema //, que representamosgraficamente com o LH, um fenmeno que se verificou nahistria do francs e que est amplamente representado emdiferentes variedades do castelhano faladas na Espanha e empases da Amrica Central e do Sul. No me consta que essaslnguas tenham recebido influncia negra nem muito menosbaiana. Alm disso, esse fenmeno no acontece apenasem certas regies do Pas: ele est presente em todas asvariedades no-padro do portugus brasileiro, do Amazonasao Rio Grande do Sul. Ele tem explicaes fonticas esociolingsticas muito mais complexas do que a merainfluncia africana. Quanto assimilao do tipo -nd- > -nn- > -n-, sobretudonos gerndios, ela se verifica tambm no dialeto napolitano,falado numa regio (o sul da Itlia) onde, at que oshistoriadores me desmintam, no houve escravido de negrosafricanos nem colonizao baiana. Ela existe amplamentedocumentada, mais uma vez, em todas as variedades no-padro do portugus brasileiro e at mesmo na faladescontrada de muitas pessoas das camadas urbanas cultas.Trata-se, novamente, de um fenmeno fontico muito natural,que um rpido exame da histria da lngua esclarece semdificuldades. Por seu turno, a explicao dada pelo autor ao fenmenodo rotacismo um verdadeiro disparate cientfico. Primeiro,porque os bandeirantes simplesmente no falavam [pg. 90]
  • 88. portugus: a lngua que a grande maioria deles empregavaera o que ento se chamava lngua geral, lngua braslica ounheengatu, uma lngua de base tupi que funcionava comoinstrumento de comunicao entre as diferentes naesindgenas em todo o litoral brasileiro e parte do interior. Nosculo XVII, em cada cinco habitantes da cidade de So Paulo,apenas dois conheciam o portugus. O bandeirante paulistaconvocado para destruir o quilombo de Palmares, DomingosJorge Velho, foi descrito pelo bispo de Pernambuco como umbrbaro que nem falar sabe, e as autoridadespernambucanas que o contrataram tinham de usar umintrprete para se comunicar com ele, que s falava a lnguageral. Como nos explicam os historiadores, os bandeirantes, emsua maioria, eram mamelucos, isto , filhos de pai portuguse me ndia, desconheciam totalmente a lngua paterna e sfalavam a materna: Nos primeiros dois sculos aps a chegada de Cabral, o que se falava por estas bandas era o tupi mesmo. O idioma dos colonizadores s conseguiu se impor no litoral no sculo XVII e, no interior, no XVIII. Em So Paulo, at o comeo do sculo passado, era possvel escutar alguns caipiras contando casos em lngua indgena. No Par, os caboclos conversavam em nheengatu at os anos 40. [...] Era o idioma do povo,enquanto o portugus ficava para os governantes e para os negcios com a metrpole. [...] Derivado do dialeto de So Vicente, o tupi de So Paulo se desenvolveu e se espalhou no sculo XVIII, graas ao isolamento geogrfico da cidade e atividade pouco crist dos [pg. 91] mamelucos paulistas: as bandeiras, expedies ao serto em busca de escravos ndios.1010 Superinteressante, dezembro de 1998, pp. 82 e 84. Essa matria da revista, muito bemelaborada, apia-se em depoimentos de alguns importantes conhecedores das lnguasindgenas brasileiras, inclusive aquele considerado o maior deles, o professor AryonRodrigues, da Universidade de Braslia.
  • 89. Por isso, os bandeirantes no precisavam fazer o quepodiam para serem compreensveis, para serem amveis,gentis. Muito pelo contrrio, o que a histria nos conta queos bandeirantes eram de uma crueldade desumana para comos ndios, a quem buscavam escravizar a toda fora,despojando-os de suas terras, de suas riquezas e, muitasvezes, de suas vidas. Conta-se de uma expedio bandeiranteque capturou, no serto, 500 ndios para escraviz-los, masque desses s 50 chegaram a So Paulo, por causa dosesforos dos bandeirantes para serem amveis, gentis. Segundo, o rotacismo que se verifica em alto > artotambm aconteceu na lngua portuguesa padro, em seuperodo de formao. Assim, do rabe AL-MAKHAZAN deriva oportugus armazm. O que acontece, de fato, que asconsoantes /l/ e /r/ so, do ponto de vista articulatrio,parentas muito prximas, o que faz com que, na histria demuitas lnguas (e no s do portugus das regies banhadaspelo legendrio rio Tiet) elas se substituam uma outraindiferentemente. So as chamadas consoantes lquidas, quetambm tm muito parentesco com as vogais (o que faztambm com que, em algumas variedades, [pg. 92] sejamsubstitudas por vogais, como o caso do L. de final de slabaque em quase todo o Brasil pronunciado como um /w/). Assim, o nome prprio Guilherme nos veio de umgermnico WILHELM, enquanto nosso Geraldo veio do tambmgermnico GEHRHARDT. Na lngua culta coexistem as formasaluguel e aluguer, e nosso papel se originou do provenalpapr (e este do grego papyros). No portugus medieval aolado de flor havia a forma frol, cujo plural, fres, sobreviveucomo nome de famlia. A cidade do norte da frica que em
  • 90. francs se chama Alger (do rabe al-jazird) em portugus Argel, donde o nome do pas, Arglia (em francs, Algrie). Ea nossa palavra poro deriva do latim planu-: deve terocorrido primeiro o rotacism pl- > pr- e depois a quebra dogrupo consonantal com a introduo de uma vogai o,exatamente como acontece na forma dialetal brasileira ful. Etudo isso uns bons sculos antes da descoberta da Bahia! A troca de /r/ por /l/ se chama lambdacismo. Ela ocorre,no portugus no-padro, em variantes como calvo, celveja,galfo. O que as pesquisas dos sociolingistas e dosfoneticistas nos explicam que tanto o rotacismo quanto olambdacismo ocorrem em ambientes fonticos especficos,isto , diante de determinadas consoantes (quem diz calvo,por exemplo, no diz calta, mas sim carta) ou de acordo coma posio do fonema na palavra. A vocalizao do //, a assimilao -nd- > -nn- > -n- e orotacismo so fenmenos que caracterizam as variedades[pg. 93] no-padro (sobretudo rurais) do portugus doBrasil e que, por isso, recebem uma forte carga deestigmatizao, isto , sofrem um grande preconceito porparte dos falantes das variedades urbanas. Tentei explic-loscientificamente e (espero) sem preconceitos no meu livro Alngua de Eullia. Como fcil concluir, o livro No erre mais! est repletode erros erros de descrio dos fenmenos lingsticos e,sobretudo, erros de conduta: preconceituosa e nada tica.Podemos dizer, portanto, usando as palavras do prprioSacconi (p. 63), que se trata de um verdadeiro festival deasneiras.
  • 91. 4. Beethoven no danado! Nossa ltima investigao da presena epidmica (parausar de novo o termo proposto por Arnaldo Niskier) dopreconceito lingstico nos comandos paragramaticais usarcomo material de anlise uma coluna de jornal chamadaDicas de Portugus, assinada por Dad Squarisi. Vamos reproduzir o texto tal como publicado no Dirio dePernambuco de 15/11/98. Essa mesma coluna, porm, j tinhasido estampada no Correio Braziliense algum tempo antes(22/6/96), poca em que o presidente Fernando HenriqueCardoso, numa visita a Portugal, acusou os brasileiros deserem todos caipiras, declarao infelicssima e desastrosa(caipira no pode ser usado como ofensa), com a qual,todavia, Squarisi parece concordar plenamente, j quequalifica o presidente de iluminado. [pg. 94] A republicao da coluna mais de dois anos depois provaque se trata de material distribudo por agncia de notcias,com possibilidade de j ter sido ou de ainda vir a serpublicado em outros jornais uma perspectiva que,confesso, me d arrepios. Por qu? Leia voc mesmo edescubra: Portugus ou Caipirs? Dad Squarisi Fiat lux. E a luz se fez. Clareou este mundo cheinho dejecas-tatus. direita, esquerda, frente, atrs, s se vuma paisagem. Caipiras, caipiras e mais caipiras. Algunsdeslumbrados, outros desconfiados. Um s um iluminado. Pobre peixinho fora dgua! To longe da Europa,
  • 92. mas to perto de paulistas, cariocas, baianos emaranhenses. Antes tarde do que nunca. A definio do cartertupiniquim lanou luz sobre um quebra-cabea queatormenta este pas capiau desde o sculo passado. Quelngua falamos? A resposta veio das terras lusitanas. Falamos o caipirs. Sem nenhum compromisso com agramtica portuguesa. Vale tudo: eu era, tu era, ns era,eles era. Por isso no fazemos concordncia em frases comoNo se ataca as causas ou Vende-se carros. Na lngua de Cames, o verbo est enquadrado na lei daconcordncia. Sujeito no plural? O verbo vai atrs. Semchoro nem vela. Os sujeitos causas e carros esto no plural.O verbo, vaquinha de prespio, deveria acompanh-los. Masse faz de morto. O matuto, ingnuo, passa batido. Sabe porqu? O sujeito pode ser ativo ou passivo. Ativo, pratica a aoexpressa pelo verbo: Os caipiras (sujeito) desconhecem(ao) [pg. 95] o outro lado. Passivo, sofre a ao: O outrolado (sujeito) desconhecido (ao) pelos caipiras. Reparou?O sujeito o outro lado no pratica a ao. H duas formas de construir a voz passiva: a. com o verbo ser (passiva analtica): A cultura caipira estudada por ensastas. Os carros so vendidos pela con-cessionria. b. com o pronome se (passiva sinttica): estuda-se a cul-tura caipira. Vendem-se carros. No caso, no aparece oagente. Mas o sujeito est l. Passivo, mas firme.
  • 93. Dica: use o truque dos tabarus cuidadosos: troque apassiva sinttica pela analtica. E faa a concordncia com osujeito. Vende-se casas ou vendem-se casas? Casas sovendidas (logo: Vendem-se casas). No se ataca ou no seatacam as causas? As causas no so atacadas (no seatacam as causas). Fez-se ou fizeram-se a luz? A luz foi feita(fez-se a luz). Firmou-se ou firmaram-se acordos? Acordosforam firmados (firmaram-se acordos). Na dvida, no bobeie. Recorra ao truque. S assim vocchega l e ganha o passaporte para o mundo. Adeus,Caipirolndia. O que mais me impressionou nesse texto foi seu poder desntese: em poucos pargrafos, a autora conseguiu reunirpraticamente todos os chaves ranosos que compem opreconceito lingstico. Os preconceitos sociais e tnicostambm foram contemplados. O preconceito se manifesta j no ttulo: Portugus oucaipirs? A partir da, como milho de pipoca em leo quente,pululam as palavras de contedo semntico fortementepreconceituoso: mundo, jecas-tatus, caipiras, caipiras emais caipiras, deslumbrados, tupiniquim, [pg. 96]capiau, caipirs, matuto, tabarus, Caipirolndia. ou no um poderoso trabalho de sntese? Dispensacomentrios. Isso quanto forma. Quanto ao contedo gramaticalabordado pela autora, encontramos, mais uma vez, a atitudepreconceituosa da pessoa que, conhecendo uma nicavariedade da lngua, se arroga o direito de ofender, desprezar
  • 94. e ridicularizar os falantes das outras dezenas (senocentenas) de variedades. Mas j sabemos que o preconceito fruto da ignorncia, e o que Squarisi faz questo de afirmarem seu texto seu absoluto desconhecimento dacomplexidade dos fenmenos lingsticos. Temerosa de seaventurar na corrente vertiginosa do rio que a lngua, elaprefere continuar presa gua estagnada e malcheirosa deseu igap... A questo da partcula se em enunciados do tipo Vende-se casas vem sendo investigada h muito tempo nos estudosgramaticais e lingsticos brasileiros. O que todos osestudiosos concluem que, na lngua falada no Brasil, noportugus brasileiro, ocorreu uma reanlise sinttica nessetipo de enunciado, isto , o falante brasileiro no consideramais esses enunciados como oraes passivas sintticas. O que a gramtica normativa insiste em classificar comosujeito a gramtica intuitiva do brasileiro interpreta comoobjeto direto. Respeitados fillogos e lingistas da primeirametade do sculo XX, como Manuel Said Ali, AntenorNascentes e Joaquim Mattoso Camara Jr., reconheceram ofenmeno. Muitas pesquisas cientficas, baseadas [pg. 97]em coleta de dados da lngua real, em levantamentosestatsticos rigorosos e em teorias lingsticas consistentes,mostram que a imensa maioria dos brasileiros de todas asclasses sociais, cultos ou no, na lngua falada e na lnguaescrita usam verbos no singular nos enunciados em queaparece o se com um verbo transitivo e um substantivo noplural: Vende-se casas, Aluga-se salas, Joga-se bzios, Avia-sereceitas...
  • 95. Mas no porque somos caipiras, jecas-tatus,matutos ou tabarus. porque a lngua muda com otempo, segue seu curso, transforma-se. Afinal, se no fossedesse modo, ainda estaramos falando latim... Na verdade,falamos latim, um latim que sofreu tantas transformaes quedeixou de ser latim e passou a ser portugus. Da mesmaforma, o portugus do Brasil queiram os gramticos ou no tambm est se transformando, e um dia, daqui a algunssculos, ser uma lngua diferente da falada em Portugal mais diferente do que j ... Em meu livro A lngua de Eullia, tratei com bastantedetalhe das questes relativas s assim chamadas oraespassivas sintticas (que na minha opinio e na de muitoslingistas simplesmente no existem). Me ocuparei aquiapenas do esfarrapado truque, com o qual a autora dacoluna Portugus ou caipirs? acredita, ingenuamente,resolver todos os problemas da fala dos caipiras, caipiras emais caipiras. Falar construir um texto, num dado momento, numdeterminado lugar, dentro de um contexto de fala definido,visando um determinado efeito. Quando o falante usa [pg.98] uma frase com a partcula se, ele quer se valer dos recur-sos que esse tipo de construo sinttica lhe oferece parachegar ao efeito que visa provocar naquele determinadocontexto. Trocar essa frase por outra trocar, tambm, aomesmo tempo, o efeito visado. H situaes em que s as oraes com se funcionam.Imagine um carro em cujo vidro traseiro lemos um cartazescrito: Vende-se. Se fssemos aplicar o truque sugeridopelas gramticas normativas teramos: vendido. Que efeito
  • 96. pode ter uma frase assim, afixada num carro? Como disseManuel Said Ali, ela s servir para fazer o leitor duvidar dasanidade mental de quem a escreveu. Em outras ocasies, apenas as oraes na voz passivaatingem o efeito desejado: Animais mortos foram trazidoscom a enchente. Aplicando o truque: Animais mortos setrouxeram com a enchente... Algum diz isso assim? Podemos tambm perguntar por que Vende-se esta casa igual a Esta casa vendida e somente a isso? Por que nodizer que tambm igual a Esto vendendo esta casa,Algum est vendendo esta casa etc.? Alm disso, a substituio de mo nica: Alugam-sesalas igual a Salas so alugadas, mas a substituio nosentido contrrio no funciona: De que so feitos essesdoces? pode ser substitudo por De que se fazem essesdoces? ou por De que esses doces se fazem? sero essasconstrues naturais, espontneas, caractersticas da lnguaportuguesa? Me parece que no. [pg. 99] Se na capa de uma revista sobre telenovelas est escritoHenrique preso isso equivale a Henrique se prende? Uma reportagem intitulada O que fazer quando se temproblemas com o vizinho tambm poderia chamar-se O quefazer quando so tidos problemas com o vizinho? Onde est, portanto, a alegada equivalncia? Um dia desses, meu filho de 9 anos chegou em casarevoltado porque a professora queria que, numa festa daescola, as meninas danassem uma msica de Beethoven.Sua reao foi dizer: No se dana Beethoven! Na mesmahora pensei em como ficaria essa frase substituda por suaequivalente na voz passiva analtica: Beethoven no
  • 97. danado! Faz algum sentido para voc? Para mim tambmno, mas talvez ns sejamos demasiado capiaus paraatingir o nvel de iluminao a que s a professora Squarisie o presidente Fernando Henrique Cardoso tm acesso. O truque tambm falha porque, na obteno do efeitodesejado, a colocao dos termos na orao importan-tssima: (1) Com este mtodo, mistura-se a gua com a areia. (2) Com este mtodo, a gua mistura-se com a areia. Est claro que em (1) temos uma orao na voz ativa emque o sujeito indeterminado e o objeto de MISTURA--SE GUA. Jem (2) o sujeito passa a ser GUA e a partcula se indica que setrata de um verbo reflexivo. [pg. 100] A posio dos elementos no enunciado, quando alterada,altera tambm a interpretao de seu significado, desviando-se do efeito pretendido pelo falante. o que acontece com (3) No se encontra Joo no prdio. (4) Joo no se encontra no prdio. Em (3) JOO o objeto do verbo ENCONTRA, ao passo que em(4) JOO o sujeito. Compare-se ainda esses trs enunciados: (5) Muita gente demitiu-se da Ford. (6) Demitiu-se muita gente da Ford. (7) Muita gente foi demitida da Ford. Em (5) est claro que a demisso foi voluntria porque osujeito evidente da orao MUITA GENTE. Em (6) o sujeito indeterminado, e essa indeterminao est indicada pela
  • 98. partcula se, sendo MUITA GENTE O objeto da demisso. As oraes(5) e (6) podem ser perfeitamente classificadas de ativas. Jem (7) temos, sim, uma verdadeira orao na voz passiva emque o sujeito, MUITA GENTE, sofre a ao praticada: demitir. Se nolugar de MUITA GENTE tivssemos MUITOS OPERRIOS e quisssemosfazer a mesma anlise, obteramos: (8) Muitos operrios demitiram-se da Ford. (9) Demitiu-se muitos operrios da Ford. (10) Muitos operrios foram demitidos da Ford. A frase (9) no teria o mesmo efeito se o verbo estivesseno plural: Demitiram-se muitos operrios da Ford [pg. 101]seria simplesmente a mesma frase (8) com o sujeito colocadodepois do verbo, ao contrrio da ordem natural do portugus,que a do sujeito antes do verbo. Se a inteno do falante dizer que muitos operrios perderam, a contragosto, seusempregos, o verbo tem de ser conjugado no singular porqueos operrios, neste caso, so o objeto da demisso, sofreramcom essa ao, no a praticaram. Minhas explicaes levam em conta, como fcil per-ceber, trs critrios de anlise dos enunciados lingsticos: 1) o sinttico a colocao dos termos na orao; 2) o semntico o significado que cada tipo de enunciado assume segundo a posio ocupada pelos termos na orao; 3) o pragmtico o efeito visado pelo falante ao escolher enunciar uma orao na voz ativa, passiva ou reflexiva. A anlise de Dad Squarisi bem mais pobre, pois s levaem conta o critrio sinttico, reduzindo-o a um jogo desupostas equivalncias. a atitude comum do gramtico
  • 99. tradicionalista, que encara a lngua como um objetodescontextualizado, inerte, congelado, morto, fora do tempo,fora do espao, independente das pessoas que a falam. Paraela e para outros membros dos comandos para-gramaticais,defensores intransigentes da norma oculta, no hdiferena nenhuma entre No se dana Beethoven eBeethoven no danado, diferena que uma criana de 9anos conhecedora, como todas as crianas de sua idade,das regras constitutivas de sua lngua materna [pg. 102]soube reconhecer intuitivamente no momento de enunciarsua reao, alcanando em cheio o efeito desejado. A autora da coluna diz que no temos nenhum com-promisso com a gramtica portuguesa. Talvez ela no saiba e se soubesse decerto ficaria muito triste , mas nemmesmo os portugueses tm esse compromisso. Lendoanncios publicados no jornal lisboeta Dirio de Notcias de22/07/97, a lingista Maria Marta Scherre11 verificou que alihavia alternncia entre verbos no plural e no singular, emboratodos os substantivos estivessem no plural: Vendem-se lotes de prdios c/ licenas a pagamento Vende-se magnficas instalaes loja com armazm Vendem-se andares novos Vende-se lotes de terreno Vende-se andares no lumiar Aluga-se escritrios Laranjeiras Compra-se dois espaos de garagem Procura-se reas at 150 m211 A professora Scherre analisou detalhadamente o preconceito contido nessa e em outras colunasassinadas por Dad Squarisi no texto Preconceito lingstico: doa-se lindos filhotes de poodle, a serpublicado brevemente em obra coletiva organizada pelo professor Dermeval da Hora, da UniversidadeFederal da Paraba. Agradeo a ela a gentileza de ter-me possibilitado ler seu excelente ensaio antes deentreg-lo publicao.
  • 100. Teremos de incluir Portugal entre as provncias daCaipirolndia? Por fim, Dad Squarisi apia-se no nome glorioso deCames (e glorioso mesmo!) para justificar seus ataques[pg. 103] grosseiros contra quem no se enquadra na leida concordncia. Ora, nOs Lusadas encontra-se os seguin-tes versos: E como por toda frica se soa, / lhe diz, os grandes feitos que fizeram (canto II, 103). Seria o caso de incluir Cames entre os jecas-tatus?Afinal, pelas regras sintticas da lngua da professora Squarisi,os GRANDES FEITOS o sujeito de SE SOA, e por isso o verbodeveria estar no plural... S que no est. Parece incrvel que, depois de tanto tempo em vigor nalngua falada no Brasil, esta regra de uso do pronome SE aindaseja rejeitada pelos gramticos prescritivistas. Eles continuamagindo como o professor Aldrovando Cantagalo, do conto Ocolocador de pronomes de Monteiro Lobato, publicado em1924. Ao ver uma placa com os dizeres Ferra-se cavalos, ohistrico gramtico tentou explicar ao ferreiro que o verbodeveria estar no plural porque o sujeito da frase eracavalos. E foi obrigado a receber esta aula perfeita desintaxe brasileira: V. Sa. me perdoe, mas o sujeito que ferra os cavalos sou eu, e eu no sou plural. Aquele SE da tabuleta refere-se c a este seu criado. Algum j viu um cavalo pr ferradura em si mesmo?Talvez o professor Aldrovando Cantagalo em seus delrios
  • 101. normativistas, que ainda acometem muita gente hoje em dia![pg. 104]
  • 102. III A desconstruo do preconceito lingstico 1. Reconhecimento da crise De que modo poderemos romper o crculo vicioso dopreconceito lingstico? Como conseguiremos escapar doigap estagnado e mergulhar nas guas dinmicas evivificantes do grande rio da lngua? Uma coisa no podemos deixar de reconhecer: existeatualmente uma crise no ensino da lngua portuguesa. Muitosprofessores, alertados em debates e conferncias ou pelaleitura de bons textos cientficos, j no recorrem toexclusivamente gramtica normativa como nica fonte deexplicao para os fenmenos lingsticos. Por outro lado,sentem falta de outros instrumentos didticos que possam,seno substituir, ao menos complementar criticamente oscompndios gramaticais tradicionais. Muita gente acredita edefende que a norma culta que deve constituir o objeto deensino/aprendizagem em sala de aula. Mas o que e ondeest essa norma culta? No difcil perceber que a norma culta por diversasrazes de ordem poltica, econmica, social, cultural algoreservado a poucas pessoas no Brasil. Vimos isso no Mito n 1e no n 8. o mesmo que acontece com a alimentao, [pg.105] a sade, a educao, a habitao, o transporte, oacesso s novas tecnologias etc. Uns poucos privilegiados se
  • 103. locomovem em carros importados, enquanto a grande maioriausa um transporte pblico deficiente, precrio e, se nobastasse, caro demais conheo pessoas humildes que voa p para o trabalho, despertando no meio da madrugada ecaminhando durante horas da periferia at os bairros centrais,porque seu salrio no lhes permite tomar nibus, trem nemmetr. Podemos identificar trs problemas bsicos a esserespeito. Primeiro, e mais bvio, a quantidade injustificvel deanalfabetos que existe neste pas. Estatsticas oficiais, doIBGE, falam de 18 a 20 milhes de analfabetos com mais de15 anos de idade duas vezes a populao de Portugal!Some-se a isso os milhes de crianas em idade escolar queno freqentam nenhuma escola. Temos tambm um altondice de analfabetos funcionais, isto , pessoas quefreqentaram a escola por um perodo insuficiente paradesenvolver plenamente as habilidades de leitura e redao.A mdia nacional de educao da fora de trabalho de 3,9anos de escola: seriam, no total, 45 milhes de analfabetosfuncionais ou semi-analfabetos. Analfabetos plenos eanalfabetos funcionais seriam, ao todo, mais de 60 milhes debrasileiros: duas vezes a populao da Argentina! Numa lista de 175 pases elaborada pela ONU, o Brasilocupa o 93 lugar em ndice de escolarizao, ficando atrsat mesmo de pases como a Etipia e a ndia, exemplosclssicos de subdesenvolvimento crnico. S que o Brasil [pg.106] uma das dez maiores economias do planeta!Ocupamos tambm o 80 lugar em investimentos naeducao. E ningum pode alegar que isso se deve ao
  • 104. tamanho do pas ou da populao: a China, bem maior que oBrasil e com uma populao de 1,2 bilho de habitantes, tem6 % de analfabetos, enquanto o Brasil tem 18,4 %, segundo oBanco Mundial. E na China esses analfabetos vivem em reasmuito remotas, nas montanhas ou nos desertos, enquanto osnossos esto na periferia das grandes cidades e at mesmotrabalhando dentro de nossas casas. Tudo isso num pas cujaConstituio diz que a educao dever do Estado. A norma culta, como vimos, est tradicionalmente muitovinculada norma literria, lngua escrita. Com tantosanalfabetos, lamentar a decadncia ou a corrupo danorma culta no Brasil , no mnimo, uma atitude cnica. Segundo, por razes histricas e culturais, a maioria daspessoas plenamente alfabetizadas no cultivam nemdesenvolvem suas habilidades lingsticas no nvel da normaculta. Ler e, sobretudo, escrever no fazem parte da culturadas nossas classes sociais alfabetizadas. Isso se prende aosvelhos preconceitos de que brasileiro no sabe portugus ede que portugus difcil, veiculados pelas prticastradicionais de ensino. Esse ensino tradicional, como eu jdisse, em vez de incentivar o uso das habilidades lingsticasdo indivduo, deixando-o expressar-se livremente parasomente depois corrigir sua fala ou sua escrita, ageexatamente ao contrrio: interrompe o fluxo natural daexpresso e da comunicao com a atitude corretiva (emuitas vezes punitiva), cuja conseqncia [pg. 107]inevitvel a criao de um sentimento de incapacidade, deincompetncia. Em minha experincia de tradutor profissional, j medeparei algumas vezes com situaes que poderamos
  • 105. classificar de surrealistas. Pessoas que fizeram doutorado noexterior me procuram para que eu traduza para o portugusteses escritas originalmente em ingls ou francs. Quandopergunto pessoa por que ela mesma no faz a traduo, aresposta que eu recebo chocante: porque eu no seiportugus. Como possvel? Uma pessoa que escreveu umatese de 500 ou 600 pginas num idioma estrangeiro, e queobteve assim o seu grau de doutor, de Ph.D., em suaespecialidade cientfica, tem receios de escrever em suaprpria lngua materna? Existe algum problema a, e eu noposso aceitar a explicao dada por tantos professores de queos alunos que so preguiosos e no conseguem aprender,ou, pior ainda, que portugus muito difcil. O problemacertamente est no modo como se ensina portugus enaquilo que ensinado sob o rtulo de lngua portuguesa. Terceiro, o dilema relativo norma culta se prende aofato de que esse termo usado pela tradio gramaticalconservadora para designar uma modalidade de lngua que,como j vimos na primeira parte deste livro, no corresponde lngua efetivamente usada pelas pessoas cultas do Brasilnos dias de hoje, mas sim a um ideal lingstico inspirado noportugus de Portugal, nas opes estilsticas dos grandesescritores do passado, nas regras sintticas que mais seaproximem dos modelos da gramtica latina, ousimplesmente no gosto pessoal do gramtico [pg. 108] para Napoleo Mendes de Almeida, por exemplo, o certo 12dizer eu odio e no EU ODEIO...12 Outros termos empregados indistintamente pelos prescritivistas so: norma padro, lngua padro,lngua culta, padro culto. Todos eles, porm, carecem de uma definio terica rigorosa, sendo usadosbasicamente como um sinnimo geral de bom portugus, em contraste com tudo o que no portugus.
  • 106. Dentro desse conceito de norma culta, a proibio decomear um perodo com pronome oblquo (Me empreste seulivro) justificada com a afirmao de que em Portugal (!)ningum fala assim. De igual modo, a recusa dos gramticosconservadores em aceitar que em frases como Vende-secasas o pronome se desempenha uma funo semelhante de sujeito se baseia no fato de que, em latim (!!), o pronomese nunca exercia essa funo. Dizer ou escrever eu prefiromais X do que Y um pecado, na opinio deles, porque oprefixo prae- em latim (!!!) funcionava para formarsuperlativos analticos, contendo em si mesmo a idia demuito ou mais do que... Alm disso, errado dizer outraalternativa porque alter em latim (!!!!) j significava outro.Mas desde quando ns falamos latim no Brasil? A distncia entre norma culta real e norma culta idealpode ser medida em afirmaes como esta, de Rocha Lima,em sua Gramtica normativa da lngua portuguesa (p. 15): Em extensas faixas do Brasil, e especialmente no Rio de Janeiro, a consoante /l/, quando em final de slaba, apresenta uma pronncia relaxada, que a aproxima da semivogal /w/. Este [pg. 109] fato faz que desapaream oposies como as de mal e mau, alto e auto, servil e serviu oposies que a lngua culta procura cuidadosamente observar [grifo meu]. Basta ouvir os locutores de rdio, os apresentadores detelejornal e os professores universitrios trs profisses queexigem educao de nvel superior e, portanto, domnio danorma culta para verificar que a afirmao de Rocha Limano se baseia na realidade empiricamente analisvel. provvel que nenhum falante da lngua culta se preocupe,hoje em dia, em fazer a distino entre as palavras por ele
  • 107. citadas. No acervo de gravaes da lngua urbana cultacoletado pelo Projeto NURC, a que j me referi no Mito n 5,no se percebe essa suposta preocupao em distinguir asduas pronncias. A pronncia do L como /l/ e no como /w/ sse verifica na fala de pessoas bastante idosas ou de falantesde variedades bem especficas de portugus, como a gacha(e, mesmo assim, no de modo geral). Essa mesma idealizao da norma culta como um padrolingstico 100% puro como uma pedra preciosa semnenhuma jaa, como uma pepita de ouro livre de toda ganga se verifica, por exemplo, num texto publicado por PasqualeCipro Neto em sua pgina na revista Cult (n 11, junho de1998, p. 44). Para ele, os usos no-normativos de ondeconstituem uma praga. E o uso feito por Chico Buarque,numa cano, de onde no lugar de quando indica que opoeta-compositor caiu na esparrela. Lemos no texto de Cipro que a diferena entre onde eaonde tambm deixa muita gente de cabelo em p. [pg.110] Depois de explicar o uso correto de cada uma dasduas formas, ele diz que mesmo em escritores renomados sev o emprego de onde e aonde sem critrio, e cita o exemplodo poema A onda de Manuel Bandeira, que escreveu:Aonde anda a onda. E chama a ateno para o fato de queem termos de lngua culta, para cada 99 ocorrncias corretasde onde, h uma de aonde. Diante dessa estatstica (que elecita sem indicar a fonte de seus dados nem a metodologiaempregada para colet-los), a lgica nos leva a concluir que oproblema ento no est na falta de critrio dos falantes danorma culta, mas sim na concepo que o autor do texto temde lngua culta. Afinal, se Chico Buarque, Manuel Bandeira e
  • 108. Machado de Assis (que no poema Nini, parte III, estrofe 2,escreveu:Mas aonde te vais agora, / Onde vais, esposomeu?) no servem como exemplos de usurios da lnguaculta, quem servir? Em seu livro Com todas as letras (que tem o sugestivosubttulo de o portugus simplificado, que nos remete logoao Mito 3), o jornalista Eduardo Martins tenta ensinar o usocorreto do verbo pedir. Depois de ler as explicaes dadasali, na pgina 16, passei a aplicar um teste para controlar se oque ele chama de norma culta realmente merece essenome. Assim, toda vez que vou dar uma palestra emcongressos e seminrios ou conversar com professores deportugus, escrevo o seguinte enunciado na lousa e perguntoo que h de errado com ele: Joo est doente, por isso me pediu para vir aqui no lugar dele. [pg. 111] Deixo que as pessoas reflitam e dem suas opinies.Cada uma arrisca uma hiptese, mas ningum detecta oerro denunciado por Martins em seu livro. E voc, jdescobriu qual ? Pois saiba, caro leitor, cara leitora, que aconstruo pedir para s pode ser empregada quando osentido o de pedir permisso, licena ou autorizao.Segundo o autor de Com todas as letras, se a idia depermisso ou licena no estiver implcita ou subentendida, ocerto usar pedir que + subjuntivo: Joo est doente, porisso me pediu que viesse aqui no lugar dele. E ele abre suasexplicaes afirmando: A locuo pedir para um dos melhores exemplos do abismo existente entre a linguagem coloquial e a norma culta do idioma.
  • 109. E eu me vejo obrigado a reagir dizendo: Nada disso,senhor jornalista! A locuo pedir para um exemplo doabismo que existe, sim, mas entre a verdadeira norma cultausada pelas pessoas cultas do Brasil e aquilo que ele e outrosno-especialistas em lingstica, que se baseiamexclusivamente na norma gramatical mais conservadora eprescritiva, chamam de norma culta. O que Martins rotulade linguagem coloquial (termo, alis, que quase sempre empregado com sentido pejorativo) , na verdade, umamanifestao da norma culta objetiva, real, empiricamentecoletvel e analisvel. E a prova maior disso que os falantescultos (professores de portugus!) a quem ofereo meuteste reconhecem tranqilamente a gramaticalidade, aaceitabilidade de construes como a do enunciado queescrevo na lousa. Como possvel, [pg. 112] ento, falar deerro se a construo no causa estranheza a falantes cultose perfeitamente assimilada do ponto de vista semntico epragmtico, se no h nenhuma ambigidade em suainterpretao (que o argumento quase sempre apresentadopelos prescritivistas, que normalmente analisam a lngua semlevar em conta o contexto da enunciao)? De onde vem esse abismo entre o conceitosociolingstico de norma culta e a noo vaga (epreconceituosa) de lngua culta exibida pelos comandosparagramaticais? Como tantos especialistas de verdade vminsistindo em mostrar, esse abismo nasce da recusa dosdefensores da gramtica tradicional de acompanhar osavanos da cincia da linguagem. Consultando, por exemplo,a bibliografia do livro Com todas as letras, de EduardoMartins, lanado no incio de 1999, verifica-se que dos 26
  • 110. ttulos consultados por ele nenhum de obra cientficaespecializada: 10 so comandos paragramaticais em forma delivros que listam no-sei-quantos-mil erros de portugus(entre os quais o Manual de Redao e Estilo do jornal OEstado de S. Paulo, de autoria do mesmo Martins); 11 sodicionrios de lngua e/ou de regncias verbais e nominais(obras escritas moda antiga e no segundo os critrios dalexicografia contempornea), e 5 so gramticas normativas.Como todo comando para-gramatical digno do nome, estetambm se caracteriza por sua inflexvel endogamia: paraconservar a pureza de sua lngua, s aceita manter relaescom indivduos de sua prpria casta. [pg. 113] Como reconhece o prprio Ministrio da Educao, nodocumento j citado, no se pode mais insistir na idia de que o modelo de correo estabelecido pela gramtica tradicional seja o nvel padro de lngua ou que corresponda variedade lingstica de prestgio (p. 31). Para separar o ideal do real, como eu j disse, ne-cessrio empreender a identificao e a descrio daverdadeira lngua falada e escrita pelas classes cultas doBrasil. uma tarefa que tem de ser feita, e que est sendofeita. Infelizmente, os resultados j obtidos na execuo dessatarefa so de acesso difcil maioria das pessoas porque seencontram expostos em livros e teses escritos em linguagemextremamente tcnica como de fato exige o rigor cientfico, e recorrem, em suas anlises e interpretaes, a diferentesmodelos tericos, todos eles muito sofisticados e de difcilcompreenso para o leitor comum no familiarizado com eles.
  • 111. preciso escrever uma gramtica da norma cultabrasileira em termos simples (mas no simplistas), claros eprecisos, com um objetivo declaradamente didtico--pedaggico, que sirva de ferramenta til e prtica paraprofessores, alunos e falantes em geral. Sem essa gramticaque nos descreva e explique a lngua efetivamente faladapelas classes cultas, continuaremos merc das gramticasnormativas tradicionais, que chamam erradamente de normaculta uma modalidade de lngua que no culta, mas simcultuada: no a norma culta como ela , mas a norma [pg.114] culta como deveria ser, segundo as concepes antiqua-das dos perpetuadores do crculo vicioso do preconceitolingstico. 2. Mudana de atitude Enquanto essa gramtica no chega, temos de combatero preconceito lingstico com as armas de que dispomos. E aprimeira campanha a ser feita, por todos na sociedade, afavor da mudana de atitude. Cada um de ns, professor ouno, precisa elevar o grau da prpria auto-estima lingstica:recusar com veemncia os velhos argumentos que visemmenosprezar o saber lingstico individual de cada um de ns.Temos de nos impor como falantes competentes de nossalngua materna. Parar de acreditar que brasileiro no sabeportugus, que portugus muito difcil, que os habitantesda zona rural ou das classes sociais mais baixas falam tudoerrado. Acionar nosso senso crtico toda vez que nosdepararmos com um comando paragramatical e saber filtraras informaes realmente teis, deixando de lado (e
  • 112. denunciando, de preferncia) as afirmaes preconceituosas,autoritrias e intolerantes. Da parte do professor em geral, e do professor de lnguaem particular, essa mudana de atitude deve refletir-se nano-aceitao de dogmas, na adoo de uma nova postura(crtica) em relao a seu prprio objeto de trabalho: a normaculta. Do ponto de vista terico, esta nova postura pode sersimbolizada numa simples troca de slaba. Em vez de REPETIRalguma coisa, o professor deveria REFLETIR sobre [pg. 115]ela. Diante da velha doutrina gramatical normativa, oprofessor no deveria limitar-se a transmiti-la tal e qual ela seencontra compendiada nos manuais gramaticais ou nos livrosdidticos. necessrio lanar dvidas sobre o que est dito ali,questionar a validade daquelas explicaes, filtr-las, to-mando inclusive como base seu prprio saber lingstico,devidamente valorizado: Eu no falo assim, no escrevoassim; meus colegas tambm no; escritores que tenho lidono seguem essa regra ser que ela pertence de fato norma culta? Posta a dvida, passa-se investigao, ao levantamentode hipteses, busca de explicaes que esclaream ofenmeno que provocou o questionamento. Se milhes debrasileiros de norte a sul, de leste a oeste, em todas asregies e em todas as classes sociais falam e escrevemAluga-se salas ou se h flutuao no uso de onde e aonde, oproblema, evidentemente, no est nesses milhes depessoas, mas na explicao insuficiente (errada, at, nessescasos) dada a esses fenmenos pela gramtica tradicional.
  • 113. Nessa nova postura de reflexo, indispensvel que oprofessor procure, tanto quanto possvel, estar sempre a pardos avanos das cincias da linguagem e da educao: lendoliteratura cientfica atualizada, assinando revistasespecializadas, filiando-se a associaes profissionais, fre-qentando cursos em universidades, aderindo a projetos depesquisa, participando de congressos, levantando suasdvidas e inquietaes em debates e mesas-redondas... [pg.116] Do ponto de vista prtico, a nova postura pode serrepresentada na eliminao de uma nica slaba tambm. Emvez de REPRODUZIR a tradio gramatical, o professor devePRODUZIR seu prprio conhecimento da gramtica,transformando-se num pesquisador em tempo integral, numorientador de pesquisas a serem empreendidas em sala deaula, junto com seus alunos. Parar de querer entregar regras(mal descritas) j prontas, e comear a descobrir mtodosinteligentes e prazerosos para que os prprios aprendizesdeduzam essas regras em textos vivos, coerentes, bemconstrudos, interessantes, tanto de lngua escrita como delngua falada. Tentei dar uma contribuio inicial a esseprocesso na segunda parte do meu livro Pesquisa na escola: oque , como se faz. A gramtica tradicional tenta nos mostrar a lngua comoum pacote fechado, um embrulho pronto e acabado. Mas no assim. A lngua viva, dinmica, est em constantemovimento toda lngua viva uma lngua em decom-posio e em recomposio, em permanente transformao. uma fnix que de tempos em tempos renasce das prpriascinzas. uma roseira que, quanto mais a gente vai podando,
  • 114. flores mais bonitas vai dando. E o professor tambm devepreferir ser uma metamorfose ambulante, do que ter aquelavelha opinio formada sobre tudo, como cantava Raul Seixas(contrariando, nesses mesmos versos, a velha opinioformada de que o verbo preferir no pode ser usado com aconstruo do que...). Tudo muda no universo, e a lngua tambm. A compa-rao da lngua a um rio me faz lembrar do filsofo grego[pg. 117] Herclito que disse que ningum se banha duasvezes no mesmo rio: na segunda vez, j no a mesmapessoa, j no o mesmo rio. No precisamos ter medo disso quando formos dar aulade portugus. Um professor de qumica, fsica, biologia ouhistria sabe perfeitamente que muito do que ele estensinando hoje pode vir a ser reformulado ou at negadoamanh por alguma nova descoberta, por algum novo avanotecnolgico que permitir ver coisas que antes no se via.Toda cincia, para merecer esse nome, tem que ser, como sediz em ingls, work in progress, um trabalho emandamento, uma construo ininterrupta, uma obra aberta.E a lingstica (dentro da qual se inclui a gramtica) umacincia assim. Por isso, no h razo para que o professor de gramtica seja dispensado da formao cientfica que se exige de um professor de biologia ou de psicologia. [...] definitivamente necessrio comear a conceber a gramtica como uma disciplina viva, em reviso e elaborao constante. Essas palavras de Mrio Perini em sua Gramtica des-critiva do portugus (pp. 16 e 17) sintetizam o que eu disse
  • 115. mais acima a respeito de uma nova postura terica e prticapor parte do professor de lngua portuguesa. 3. O que ensinar portugus? Para romper o crculo vicioso do preconceito lingstico noponto em que temos mais poder para atac-lo a prtica deensino , precisamos rever toda uma srie [pg. 118] develhas opinies formadas que ainda dominam nossamaneira de ver nosso prprio trabalho. Logo de incio, convm fazer a pergunta: o que ensinarportugus? Que objetivo pretendemos alcanar com nossaprtica em sala de aula? Os mtodos tradicionais de ensino da lngua no Brasilvisam, por incrvel que parea, a formao de professores deportugus! O ensino da gramtica normativa mais estrita, aobsesso terminolgica, a parania classificatria, o apego nomenclatura nada disso serve para formar um bomusurio da lngua em sua modalidade culta. Esforar-se paraque o aluno conhea de cor o nome de todas as classes depalavras, saiba identificar os termos da orao, classifique asoraes segundo seus tipos, decore as definies tradicionaisde sujeito, objeto, verbo, conjuno etc. nada disso garantia de que esse aluno se tornar um usurio competenteda lngua culta. Quando algum se matricula numa auto-escola, esperaque o instrutor lhe ensine tudo o que for necessrio para setornar um bom motorista, no ? Imagine, porm, se oinstrutor passar onze anos abrindo a tampa do motor eexplicando o nome de cada pea, de cada parafuso, de cadacorreia, de cada fio; explicando de que modo uma parte se
  • 116. encaixa na outra, o lugar que cada uma deve ocupar dentrodo compartimento do motor para permitir o funcionamento docarro e assim por diante... Esse aluno tem alguma chance dese tornar um bom motorista? Acho difcil. Quando muito,estar se candidatando a um emprego de mecnico deautomveis... Mas quantas pessoas existem por a, dirigindotranqilamente seus [pg. 119] carros, tirando o mximoproveito deles, sem ter a menor idia do que acontece dentrodo motor? Hoje em dia, cada vez mais pessoas esto usando umcomputador. A retumbante maioria delas consegue fazer umbom uso de sua mquina conhecendo apenas os programas,os softwares. O hardware, isto , a parte mecnica docomputador, a estrutura fsica das placas, dos chips, dasconexes etc., fica para os especialistas, os tcnicos. E ento? O que pretendemos formar com nosso ensino:motoristas da lngua ou mecnicos da gramtica? Devemosinsistir nos componentes hard ou devemos dar preferncia aobom manejo dos soft?13 Ns, sim, professores, temos que conhecer profunda-mente o hardware da lngua, a mecnica do idioma, porquens somos os instrutores, os especialistas, os tcnicos. Masno os nossos alunos. Precisamos, portanto, redirecionartodos os nossos esforos, volt-los para a descoberta denovas maneiras que nos permitam fazer de nossos alunosbons motoristas da lngua, bons usurios de seus programas.13 Hard em ingls significa duro, rgido, enquanto soft significa macio, malevel. Qual dessas duasopes de ensino voc acha que nossos alunos escolheriam se tivessem chance?
  • 117. Por isso que Srio Possenti, depois de exibir argumentoscom os quais concordo integralmente, diz nas pginas 53-54de Por que (no) ensinar gramtica na escola: Todas as sugestes feitas nos textos anteriores s faro sentido se os professores estiverem convencidos ou puderem ser convencidos de que o domnio efetivo e ativo de uma lngua [pg. 120] dispensa o domnio de uma metalinguagem tcnica. Em outras palavras, se ficar claro que conhecer uma lngua uma coisa e conhecer sua gramtica outra. Que saber uma lngua uma coisa e saber analis-la outra. Que saber usar suas regras uma coisa e saber explicitamente quais so as regras outra. Que se pode falar e escrever numa lngua sem saber nada sobre ela, por um lado, e que, por outro lado, perfeitamente possvel saber muito sobre uma lngua sem saber dizer uma frase nessa lngua em situaes reais. Quando digo coisas assim em pblico, algumas pessoaslevantam a objeo de que o ensino da nomenclatura tra-dicional, das definies, das classificaes, da anlise sin-ttica necessrio porque so essas coisas que serocobradas ao aluno no momento de fazer um concurso ou deprestar o vestibular. Se assim, cabe a ns, professores,pressionar pelos meios de que dispomos associaesprofissionais, sindicatos, cartas imprensa para que asprovas de concursos sejam elaboradas de outra maneira,trocando as velhas concepes de lngua por novas. Notemos de nos conformar passivamente com uma situaoabsurda e prosseguir na reproduo dos velhos vciosgramatiqueiros simplesmente porque haver uma cobranafutura ao aluno. Quanto ao vestibular Deus seja mil vezes louvado! ,ele est desaparecendo. Diversas universidades pblicas eprivadas esto encontrando novos meios de seleo e
  • 118. admisso de alunos aos cursos superiores. Afinal, poucasinstituies houve no Brasil to obtusas, nefastas, injustas,antidemocrticas e perniciosas quanto o vestibular. Nuncaconsegui entender por que uma pessoa [pg. 121] que querestudar Direito precisa fazer prova de fsica, qumica, biologiae matemtica, se o que ela aprendeu dessas matrias j foiavaliado na concluso do 2 grau. Com o fim do vestibular, desaparecer tambm assimesperamos ardentemente toda a indstria que se formouem torno dele: os nefandos cursinhos onde ningumaprende nada, onde no h nenhuma produo deconhecimento mas apenas reproduo de informaesdesconexas, onde centenas de alunos se apinham numa sala,onde tudo o que se faz entupir a cabea do aluno comtruques e macetes que em nada contribuem para a suaverdadeira formao intelectual e humanstica. 4. O que erro? Outro modo interessante de romper com o crculo viciosodo preconceito lingstico reavaliar a noo de erro. A nootradicional (eu diria at folclrica) de erro que permite quepessoas como Sacconi escrevam livros absurdos como Noerre mais! e vendam milhares de exemplares deles. Como vimos na primeira parte do livro, o Mito 6 expressaa prtica milenar de confundir lngua em geral com escrita e,mais reduzidamente ainda, com ortografia oficial. A tal pontoque uma elevada porcentagem do que se rotula de erro deportugus , na verdade, mero desvio da ortografia oficial. Ovigor desse mito se depreende, por exemplo, num exercciode pesquisa sugerido por um livro didtico de publicao
  • 119. recente (Carvalho & Ribeiro, 1998: 125). Aps apresentar opoema [pg. 122] Erro de portugus, de Oswald deAndrade, os autores pedem ao aluno: 1. Procure localizar erros de portugus em cartazes, placas, ou at mesmo na fala de pessoas que voc conhece. Transcreva-os em seu caderno. Ora, em cartazes e placas no aparecem erros deportugus e, sim, erros de ortografia. Escrever, digamos,LOGINHA DE ARTEZANATO onde a lei obriga a escrever LOJINHA DEARTESANATO em nada vai prejudicar a inteno do autor da placa:informar que ali se vende objetos de artesanato. Neste caso,nem mesmo a realizao fontica da placa certa e da placaerrada vai apresentar diferena. O fato tambm de havererro na placa no significa de forma nenhuma que osobjetos ali vendidos sejam de qualidade inferior, errados oufeios. Se mais acima escrevi lei porque se trata exatamentedisso. A ortografia oficial fruto de um gesto poltico, determinada por decreto, resultado de negociaes epresses de toda ordem (geopolticas, econmicas,ideolgicas). No incio do sculo XX o certo era escrever: EMNICTHEROY ELLE POUDE ESTUDAR SCIENCIAS NATURAES, CHIMICA E PHYSICA. Se hojeo certo escrever: EM NITERI ELE PDE ESTUDAR CINCIAS NATURAIS,QUMICA E FSICA, isso no altera a sintaxe nem a semntica doenunciado: o que mudou foi s a ortografia. O exerccio proposto por Carvalho & Ribeiro, alm deconfundir portugus com ortografia do portugus, tambmadmite implicitamente a existncia de erros na [pg. 123]fala de pessoas que voc conhece. O problema aqui aindamais grave porque, do ponto de vista cientfico, simplesmente
  • 120. no existe erro de portugus. Todo falante nativo de umalngua um falante plenamente competente dessa lngua,capaz de discernir intuitivamente a gramaticalidade ouagramaticalidade de um enunciado, isto , se um enunciadoobedece ou no s regras de funcionamento da lngua. Ningum comete erros ao falar sua prpria lnguamaterna, assim como ningum comete erros ao andar ou aorespirar. S se erra naquilo que aprendido, naquilo queconstitui um saber secundrio, obtido por meio detreinamento, prtica e memorizao: erra-se ao tocar piano,erra-se ao dar um comando ao computador, erra-se aofalar/escrever uma lngua estrangeira. A lngua materna no um saber desse tipo: ela adquirida pela criana desde otero, absorvida junto com o leite materno. Por issoqualquer criana entre os 3 e 4 anos de idade (se no menos)j domina plenamente a gramtica de sua lngua. O resultadodisso , como diz Perini (1997:11), que nosso conhecimentoda lngua ao mesmo tempo altamente complexo,incrivelmente exato e extremamente seguro. E o mesmo autor prossegue, afirmando (p. 13) que qualquer falante de portugus possui um conhecimento implcito altamente elaborado da lngua, muito embora no seja capaz de explicitar esse conhecimento. E [...] esse conhecimento no fruto de instruo recebida na escola, mas foi adquirido de maneira to natural e espontnea quanto a nossa habilidade de andar. Mesmo pessoas que nunca estudaram [pg. 124] gramtica chegam a um conhecimento implcito perfeitamente adequado da lngua. So como pessoas que no conhecem a anatomia e a fisiologia das pernas, mas que andam, danam, nadam e pedalam sem problemas. Assim, podemos at dizer que existem erros de por-tugus, s que nenhum falante nativo da lngua os comete!
  • 121. Por exemplo, seriam errados os enunciados abaixo (oasterisco indica construo agramatical): (1) *Aquela garoto me xingou (2) *Eu nos vimos ontem na escola (3) *Jlia chegou semana que vem (4) *No duvido que ele no queira no vir aqui (5) *Que o livro que a moa que Lus que trabalha comigo me apresentou escreveu bom no nego. Esses enunciados, precisamente por serem agramaticais,isto , por no respeitarem as regras de funcionamento danossa lngua, no aparecem na fala espontnea e natural defalantes nativos do portugus do Brasil, mesmo que sejamcrianas pequenas que ainda no freqentam escola ouadultos totalmente iletrados. O que est em jogo aqui, evidentemente, a noo deerro e seu estreito vnculo com o que tradicionalmente chamado de portugus. Como j mostrei, existe, no nvel dalngua escrita, a confuso entre portugus e ortografia oficialda lngua portuguesa. No nvel da lngua falada, os termosque se confundem, ou que so tomados como equivalentes,so portugus, gramtica normativa e variedade padro. [pg.125] Em relao lngua escrita, seria pedagogicamenteproveitoso substituir a noo de erro pela de tentativa deacerto. Afinal, a lngua escrita uma tentativa de analisar alngua falada, e essa anlise ser feita, pelo usurio da escritano momento de grafar sua mensagem, de acordo com seuperfil sociolingstico. Uma pessoa com poucos anos deescolarizao, pouco habituada prtica da leitura e da
  • 122. escrita, tendo como quadro de referncia apenas uma supostaequivalncia unvoca entre som e letra, far uma anlisedotada de reduzido instrumental terico, empregando comoferramenta bsica a analogia. Assim, quem escreveu CHCARAem vez de XCARA no fez isso porque quis errar, mas simporque quis acertar. Se existe CHINELO, CHICOTE, CHIQUEIRO, CHICLETE,por analogia se chega possibilidade de tambm haverCHCARA. importante notar que os erros de ortografia soconstantes: troca de J por G, de S por Z, de CH por X e assim pordiante justamente por serem casos em que necessriofazer uma anlise da relao fala-escrita que ultrapassa oslimites tericos da suposta equivalncia som-letra. Dificilmen-te algum vai tentar escrever XCARA usando um J, um G, um Sno lugar do X oficial, porque faltam dados de experincia parauma analogia razovel. Por outro lado, uma pessoa que tenhafreqentado a escola por muitos anos, que leia e escrevaassiduamente, que se tenha familiarizado com o uso dodicionrio, que tenha sido despertada para a existncia dasregularidades e irregularidades da lngua escrita, saber quea simples analogia no ser suficiente como guia no momentode escrever outros quadros de referncia tero de seracessados: a cultura [pg. 126] erudita, a etimologia daspalavras, as reformas ortogrficas, os critrios denormativizao da ortografia etc. Quanto lngua falada, fica bvio que o rtulo de erro aplicado a toda e qualquer manifestao lingstica (fontica,morfolgica e sinttica, principalmente) que se diferencie dasregras prescritas pela gramtica normativa, que se apresentacomo codificao da lngua culta, embora na verdade seja acodificao de um padro idealizado, que no coincide com a
  • 123. verdadeira variedade culta objetiva. Dentro dessaconceituao, so igualmente errados os enunciados abaixo (6) A Joana uma menina que ela sabe o que faz (7) *A Joana que ela sabe uma menina o que faz, muito embora (6) seja perfeitamente inteligvel,decodificvel, interpretvel e, portanto, gramatical, aceitvel,enquanto (7) claramente agramatical e, por conseguinte,no ocorre na fala normal de nenhum brasileiro. No entanto,(6) considerado to errado quanto (7) porque nenhum dosdois enunciados se enquadra nas prescries da gramticanormativa (e de seus autoproclamados defensores, oscomandos paragramaticais). O enunciado (6), porm, temuma sintaxe, uma semntica e uma pragmtica que qualquerfalante nativo do portugus do Brasil (sem preocupaesnormativistas) aceita com tranqilidade, e a prova disso queenunciados desse tipo so proferidos aos milhes diariamenteem todos os cantos do pas, por pessoas de todas as classessociais, inclusive as consideradas cultas. ( certo queconstrues [pg. 127] desse tipo no aparecem em textoscultos escritos, mas preciso distinguir as variedades cultasfaladas das variedades cultas escritas, coisa que osprescritivistas em geral no fazem.) Trata-se, aqui, de umaregramaticalizao do pronome que, de toda uma complexaperda de casos gramaticais, fenmeno que vem sendoestudado h bastante tempo, tendo sido j tema de muitosensaios, dissertaes e teses cientficas. Mas a provaoferecida pelo uso intenso de construes sintticas como ade (6) no convence os defensores da gramtica normativa e
  • 124. os membros dos comandos paragramaticais, que no con-seguiriam sobreviver sem a noo de erro. preciso ter sempre em mente que tudo aquilo que considerado erro ou desvio pela gramtica tradicional temuma explicao lgica, cientfica, perfeitamentedemonstrvel. S por isso que os agentes dos comandosparagramaticais podem falar de erros comuns. Osgramticos conservadores no se do conta de que o prprioadjetivo comum usado por eles mostra que se trata de umfenmeno amplo de variao, de uma transformao que estse processando nos mecanismos de funcionamento geral dalngua. Em sua cegueira dogmtica, eles falam de vciocomum, erro vulgar, praga, corrupo muito difundida,sem perceber que esto, na verdade, reconhecendo queaquilo que eles consideram certo que deve apresentaralgum problema, alguma disfuno, alguma impossibilidadede uso que impede que a maioria das pessoas obedeaquela regra. A nica explicao inaceitvel (embora seja apreferida dos conservadores) a de que essas pessoas soasnos, ignorantes ou idiotas. [pg. 128] A nova postura terica e prtica consiste em procurarconhecer as regras que esto levando os falantes da lngua ausar X onde se esperaria Y, identificar essas regras, descrev-las, pesquisar explicaes cientficas para elas, e, se possvel,apresent-las a seus alunos. Foi o que tentei fazer em meulivro A lngua de Eullia, e foi tambm o que fiz neste livro aocontestar a explicao paleozica de Dad Squarisi para a altafreqncia de Vende-se casas em lugar de Vendem-se casas. O bom professor age como o filsofo Spinoza, queescreveu:
  • 125. Tenho-me esforado por no rir das aes humanas, por no deplor-las nem odi- las, mas por entend-las. Pessoas como Napoleo Mendes de Almeida, Luiz AntonioSacconi e Dad Squarisi agem exatamente ao contrrio deSpinoza. Sacconi, ao recorrer a um humor de gosto duvidoso,chega mesmo a escrever, preto no branco:Eu, porm, odeiogente que s diz asneiras... (p. 43). De um verdadeiroprofessor devemos sempre esperar compaixo, solidariedade,empatia, nunca o dio muito menos o riso deplorador. 5. Ento vale tudo? Algumas pessoas me dizem que a eliminao da noo deerro dar a entender que, em termos de lngua, vale tudo.No bem assim. Na verdade, em termos de lngua, tudovale alguma coisa, mas esse valor vai depender de uma sriede fatores. Falar gria vale? Claro que [pg. 129] vale: no lugarcerto, no contexto adequado, com as pessoas certas. E usarpalavro? A mesma coisa. Uma das principais tarefas do professor de lngua conscientizar seu aluno de que a lngua como um grandeguarda-roupa, onde possvel encontrar todo tipo devestimenta. Ningum vai s de mai fazer compras numshopping-center, nem vai entrar na praia, num dia de solquente, usando terno de l, chapu de feltro e luvas... Usar a lngua, tanto na modalidade oral como na escrita, encontrar o ponto de equilbrio entre dois eixos: o daadequabilidade e o da aceitabilidade. Quando falamos (ou escrevemos), tendemos a nosadequar situao de uso da lngua em que nos encontra-
  • 126. mos: se uma situao formal, tentaremos usar uma lin-guagem formal; se uma situao descontrada, uma lin-guagem descontrada, e assim por diante. Essa nossa tenta-tiva de adequao se baseia naquilo que consideramos ser ograu de aceitabilidade do que estamos dizendo por parte denosso interlocutor ou interlocutores. Podemos representartudo isso graficamente mais ou menos assim: totalmente inadequado, por exemplo, fazer umapalestra num congresso cientfico usando gria, expresses[pg. 130] marcadamente regionais, palavres etc. A platiadificilmente aceitar isso. claro que se o objetivo dopalestrante for precisamente chocar seus ouvintes, aquelalinguagem ser muito adequada... No adequado que umagrnomo se dirija a um lavrador analfabeto usando umaterminologia altamente tcnica e especializada, a menos quequeira no se fazer entender. Como sempre, tudo vaidepender de quem diz o qu, a quem, como, quando, onde,por qu e visando que efeito...
  • 127. 6. A parania ortogrfica A atitude tradicional do professor de portugus, aoreceber um texto produzido por um aluno, procurarimediatamente os erros, direcionar toda a sua ateno paraa localizao e erradicao do que est incorreto. umapreocupao quase exclusiva com a forma, pouco importandoo que haja ali de contedo. sobretudo aquilo que chamo deparania ortogrfica: uma obsesso neurtica para que todasas palavras tragam o acento grfico, que todos os tenhamsua cedilha, que todos os J e G estejam nos lugares certos... eassim por diante. Alis, uma porcentagem enorme do quetodo mundo chama de erro de portugus diz respeito ameras incorrees ortogrficas. Ora, saber ortografia no tem nada a ver com saber alngua. So dois tipos diferentes de conhecimento. A orto-grafia no faz parte da gramtica da lngua, isto , das regrasde funcionamento da lngua. Como vimos no Mito n 6, muitaspessoas nascem, crescem, vivem e morrem sem jamaisaprender a ler e a escrever, sendo, no entanto, conhecedoresperfeitos da gramtica de sua lngua. [pg. 131] A ortografia oficial fruto de um decreto, de um atoinstitucional por parte do governo, e fica muitas vezes sujeitaaos gostos pessoais ou s interpretaes dos fenmenoslingsticos por parte dos fillogos que ajudam a estabelec-la. Por isso, na virada do sculo XIX para o XX se escrevia ELLE;na primeira metade do sculo XX se escreveu LE e agora, nolimiar do sculo XXI, se escreve ELE. Por isso, a lei nos manda escrever HUMO OU HMUS, mas MIDOe UMIDADE, embora sejam todas palavras da mesma famlia (emPortugal todas essas palavras tm H).
  • 128. Por isso tambm temos de escrever ESTRANHO e ESTRANGEIRO,com s, embora sejam palavras formadas com base no prefixoEXTRA-, presente em EXTRAORDINRIO, EXTRAVAGANTE, EXTRAPOLAR etc. (emespanhol se escreve EXTRNEO e EXTRANJERO). Por isso o adjetivo EXTENSO e o substantivo EXTENSOapresentam um x, mas o verbo ESTENDER (v l saber por qu!)se escreve com um s. E o adjetivo MACIO se escreve com cembora seja derivado de MASSA, com SS. Se os legisladores da lngua podem ser to incoerentes nomomento de definir a ortografia oficial, no h por queestranhar (ou extranhar) que as pessoas em geral tambm seconfundam. Mas no o que pensam Pasquale Cipro Neto eUlisses Infante, que na p. 33 de sua Gramtica, escrevem: No admissvel que com um alfabeto to restrito (apenas 23 letras!) se cometam tantos erros ortogrficos pelo Brasil afora. Estude com cuidado este captulo para integrar o grupo de cidados que sabem grafar corretamente as palavras da lngua portuguesa. [pg. 132] Essa Gramtica filia-se tradio que atribui ao domnioda escrita um elemento de distino social, que na verdadeum elemento de dominao por parte dos letrados sobre osiletrados. Existe um mito ingnuo de que a linguagem humana tema finalidade de comunicar, de transmitir idias mitoque as modernas correntes da lingstica vm tratando dedemolir, provando que a linguagem muitas vezes umpoderoso instrumento de ocultao da verdade, demanipulao do outro, de controle, de intimidao, deopresso, de emudecimento. Ao lado dele, tambm existe omito de que a escrita tem o objetivo de difundir as idias.
  • 129. No entanto, uma simples investigao histrica mostra que,em muitos casos, a escrita funcionou, e ainda funciona, com afinalidade oposta: ocultar o saber, reserv-lo a uns poucospara garantir o poder queles que a ela tm acesso. Como nos informa Leda Tfouni em seu livro Adultos noalfabetizados: o avesso do avesso, a escrita na ndia esteveprofundamente ligada aos textos sagrados, a que s tinhamacesso os sacerdotes, os iniciados, os que passavam por umlongo processo de preparao: no fundo, a garantia de quepoderiam ler aqueles textos guardando-os em segredo. Defato, a clebre gramtica de Panini (sculo V a. C), queesmiua toda a estrutura da lngua snscrita clssica, tinhaum objetivo especfico: permitir a leitura correta e ainterpretao exata dos textos sagrados. Era, portanto, afilologia a servio da casta sacerdotal. Convm lembrar quefoi necessria a Reforma protestante, no sculo [pg. 133]XVI, para que a Igreja catlica romana permitisse apopularizao da Bblia, tolerando que as Escrituras fossemlidas e estudadas em outras lnguas vivas e no somente emlatim. A primeira traduo da Bblia para o portugus, porexemplo, s aconteceu em 1719, por obra de um protestante,Joo Ferreira de Almeida. Na China, o sistema ideogrfico de escrita exerceudurante sculos a funo de assegurar o poder aos burocratase aos religiosos. Realmente, a grande quantidade deideogramas, juntamente com o alto grau de sofisticao deseus desenhos, eram obstculos para que as pessoas do povopudessem aprender a ler e escrever. Pesquisadores citadospor Tfouni relatam que apesar de os chineses conhecerem aescrita alfabtica desde o sculo II d.C, eles se recusaram a
  • 130. aceit-la at a poca atual, provavelmente porque seu cdigoantigo, mais complexo e pouqussimo prtico, h sculos seestabelecera como o meio de expresso de uma vastaproduo literria, alm de estar inextricavelmente ligado sinstituies religiosas e de ser aceito como marca distintivadas classes educadas (grifos de Tfouni). A mesma autora (p. 12) atribui introduo da escritaalfabtica na Grcia, no sculo V-VI a.C, todo um processo deradicais transformaes culturais, polticas e sociais: O aparecimento, entre outras coisas, do pensamento lgico-emprico e filosfico, a formalizao da Histria e da Lgica enquanto disciplinas intelectuais, e a prpria democracia grega tm ntima relao com a expanso e solidificao da escrita fontica na Grcia e na Jnia. [pg. 134] Por qu? Porque, ao contrrio de outras civilizaes suascontemporneas, a grega no tem uma casta sacerdotalmonopolizadora dos livros sagrados. A prpria escrita no um segredo dos governantes e escribas, mas de domniopblico e comum, possibilitando, agora sim, a ampla difuso ediscusso de idias. Assim, se por um lado a escrita pode ser apontada comouma das causas fundamentais do surgimento de civilizaesmodernas e do desenvolvimento cientfico, tecnolgico epsicossocial das sociedades em que foi adotada, por outro,no convm negligenciar fatores como as relaes de poder edominao que governam a utilizao restrita ou generalizadade um cdigo escrito. Ao convidar o leitor a fazer parte do grupo de cidadosque sabem grafar corretamente as palavras da lnguaportuguesa, Cipro e Infante afirmam, implicitamente, que
  • 131. esse conhecimento no amplo e generalizado (nem poderiaser: 60 milhes de analfabetos!), mas sim restrito a umgrupo de cidados. Outra idia ingnua dos autores achar inadmissvel onmero de erros de ortografia cometidos pelo Brasil afora jque nosso alfabeto tem apenas 23 letras! Ora, o alfabeto tem23 letras, sim, mas elas podem se juntar em centenas (senomilhares) de combinaes diferentes, criando a riquezainumervel das palavras da lngua portuguesa. E essascombinaes possveis nada tm de coerentes: nosso sistemaortogrfico, como explica Miriam Lemle, , ao mesmo tempo,um sistema de representao fonmica, um sistema derepresentao [pg. 135] morfofonmica, um sistema commemria etimolgica e um sistema que privilegia umavariedade dialetal em detrimento de outra14. Para termos uma idia das complexas combinaespossveis entre as letras de nosso alfabeto e os sons que elaspodem representar, vamos ver as relaes que existem entreos fonemas [k], [s], [] (este o som da letra x em xixi) e [z] esuas possveis representaes ortogrficas1514 Ver o interessante prefcio de Miriam Lemle ao livro Leitura, ortografia e fonologia, de MyrianBarbosa da Silva.15 Este quadro inspira-se no da p. 32 do livro de Myrian Barbosa da Silva, com pequenas alteraes.
  • 132. [pg. 136] Contando o nmero de flechas, identificamos ao todo 21relaes entre realizao fontica e representao grfica.Mas se fssemos levar em conta toda as diversidades depronncia que existem no universo da lngua portuguesa, noBrasil e fora dele, certamente encontraramos muitas mais16.Vamos dar exemplos s das 21 relaes do nosso esquema: 1. QU [ku]: obliqe16 Gosto de propor o seguinte desafio s pessoas que ainda se iludem com o mito de que o certo escrever assim porque se fala assim: voc sabia que a letra s pode representar o som do J em j? Depoisde alguns momentos de reflexo, dou a resposta: na pronncia do Rio de Janeiro, de Belm ou de Lisboa,numa palavra como MESMO O S tem som de J, e o prprio nome de Lisboa na fala de seus nativos sepronuncia lijboa. Nessas pronncias, uma frase como AS MESMAS BOAS GAROTAS soa aj mejmaj boaj garotax,por causa de caractersticas fonticas tpicas do portugus (culto inclusive) falado nesses locais. Almdisso, na fala no-culta do Rio de Janeiro comum a pronncia mermo ou memo para o que se escreveMESMO. A complexidade da relao letra-som, como se v, muito maior do que as pessoas em geralpensam, sobretudo quando se leva em conta todas as variedades nacionais, regionais, sociais, estilsticasetc. da lngua.
  • 133. 2. QU [kw]: quase 3. QU [k]: quero 4. C [k]: casa 5. C [s]: cu 6. S [s]: sol 7. S []: festa (na pronncia carioca, paraense, lisboeta, entre outras) 8. S [z]: rosa 9. Z [z]: azul 10. Z []: raiz (nas mesmas pronncias citadas em 7) 11. X [s]: prximo 12. X [ks]: fixo [pg. 137] 13. X [z]: exame 14. X []: xcara 15. [s]: ao 16. SS [s]: osso 17. XC [s]: exceto 18. XS [s]: exsudar 19. SC [s]: descer 20. S [s]: cresa 21. CH []: chave Parece complicado? E ! Diante de uma situao dessas,que apenas uma das muitas sries de inter-relaes entreletra e som que existem na lngua portuguesa, no nos parecenem um pouco inadmissvel a existncia de dvidas ehesitaes por parte dos brasileiros, inclusive dos bemalfabetizados, no momento de escrever. Vamos abandonar, portanto, a idia (preconceituosa) deque quem escreve tudo errado um ignorante da lngua.O aprendizado da ortografia se faz pelo contato ntimo efreqente com textos bem escritos, e no com regras malelaboradas ou com exerccios pouco esclarecedores.
  • 134. Ao recebermos um texto escrito por algum (ou ao ouviralgum falar), vamos procurar ver, antes de tudo, o queele/ela est querendo comunicar, para s depois nospreocuparmos com os detalhes de como ele/ela est secomunicando. Vamos fazer a ns mesmos as seguintesperguntas: Esse texto (ou esse discurso) coerente? Traz idias originais? [pg. 138] Ofende algum princpio tico? preconceituoso? Reproduz idias autoritrias ou intolerantes? Mostra um esprito crtico e/ou criativo? Demonstra um senso esttico? Comunica que sentimentos? Ensina-me alguma coisa? Desperta minhas emoes? Quais? ... E assim por diante. Isso que educar: dar voz ao outro,reconhecer seu direito palavra, encoraj-lo a manifestar-se...Sem isso, no de admirar que a atividade de redao sejato problemtica na escola. Eu confesso que sinto muito maior prazer ao ler (ou ouvir)um texto cheio de erros de portugus mas com idiasoriginais, inovadoras, coerentes, bem expressas , um textoisento de preconceitos e de idias ranosas, do que ao ler umtexto com todas as vrgulas no lugar, com todas as regnciascultas respeitadas, todas as concordncias verbais enominais, mas repleto de intolerncia, de deboche, desarcasmo, de concepes degradantes e por a afora. 7. Subvertendo o preconceito lingstico
  • 135. Por mais que isso nos entristea ou irrite, precisoreconhecer que o preconceito lingstico est a, firme e forte.No podemos ter a iluso de querer acabar com ele de umahora para outra, porque isso s ser possvel [pg. 139]quando houver uma transformao radical do tipo desociedade em que estamos inseridos, que uma sociedadeque, para existir, precisa da discriminao de tudo o que diferente, da excluso da maioria em benefcio de umapequena minoria, da existncia de mecanismos de controle,dominao e marginalizao. Apesar disso, acredito tambmque podemos praticar alguns pequenos atos subversivos, umapequena guerrilha contra o preconceito, sobretudo porquens, professores, somos muito importantes como formadoresde opinio. E quais so estes pequenos atos de sabotagemcontra o preconceito? Primeiro, formando-nos e informando-nos. No me cansode insistir: preciso que cada professor de lngua assumauma posio de cientista e investigador, de produtor de seuprprio conhecimento lingstico terico e prtico, eabandone a velha atitude repetidora e reprodutora de umadoutrina gramatical contraditria e incoerente. Segundo, fazendo a crtica ativa da nossa prtica diriaem sala de aula. Por questo de sobrevivncia (s vezes atsobrevivncia fsica mesmo!), talvez tenhamos de continuarensinando aquelas coisas que nos so cobradas pelasociedade, pela direo das escolas, pelos pais dos nossosalunos. Mas podemos ensinar essas coisas criticando-as aomesmo tempo e deixando bem claro que aquilo ali no tudoo que se pode saber a respeito da lngua, que h um milho
  • 136. de outras coisas muito mais [pg. 140] interessantes egostosas para descobrir no universo da linguagem. Terceiro, diante das cobranas de pais, diretores ou donosde escola, mostrar que as cincias todas evoluem, e que acincia da linguagem tambm evolui. Que as mentalidadesmudam, que as posturas do prprio Ministrio da Educaohoje so outras. No se pode negar que os ParmetrosCurriculares Nacionais representam um grande avano para arenovao do ensino da lngua portuguesa. Vamos tentaradquirir, copiar, ter sempre mo esses Parmetros para nosdefender das pessoas que nos cobram um ensino modaantiga: Olha aqui, , o Ministrio da Educao t dizendo quea gente deve ensinar de uma maneira diferente, nova,atualizada. Ou voc quer que seu filho continue aprendendocoisas que no servem mais para nada?. H algumas boas comparaes que nos ajudam a ar-gumentar melhor. Quando eu estava na escola, o certo emastronomia era que somente o planeta Saturno tinha anis.Hoje, graas s inovaes tecnolgicas, j sabemos queUrano e Netuno tambm tm anis. A cada ano sodescobertas dezenas de espcies novas de animais e plantas(no mesmo ritmo, infelizmente, das que so extintas parasempre). Recentemente, encontrou-se o fssil de umdinossauro carnvoro maior e mais forte que o tiranossauro,considerado durante muito tempo o maior predador quejamais existiu. Os achados dos arquelogos a todo momentonos fazem rever e reformular nossas idias sobre [pg. 141] ahistria dos povos antigos. Os mapas com as divises polticasda Europa de dez anos atrs j no tm nenhuma utilidadeprtica hoje em dia, a no ser para o pesquisador investigar o
  • 137. que mudou de l para c. Se tantas mudanas acontecem nasoutras reas do conhecimento, decorrentes dastransformaes do universo, da natureza e da sociedade,sendo acolhidas como naturais e inevitveis, por que s oestudo-ensino da lngua estaria isento de crtica ereformulao? Quarto, assumir uma nova postura, usando como matriade reflexo as seguintes noes, que chamei de DEZ CISES,porque representam de fato uma ciso, um corte do cordoumbilical que sempre nos prendeu s velhas doutrinasgramaticais (o smbolo de infinito no final da lista umconvite a quem quiser acrescentar outras cises): DEZ CISES para um ensino de lngua no (ou menos) preconceituoso 1) Conscientizar-se de que todo falante nativo de umalngua um usurio competente dessa lngua, por isso eleSABE essa lngua. Entre os 3 e 4 anos de idade, uma crianaj domina integralmente a gramtica de sua lngua. Sendoassim, 2) aceitar a idia de que no existe erro de portugus.Existem diferenas de uso ou alternativas de uso em relao regra nica proposta pela gramtica normativa. [pg. 142] 3) No confundir erro de portugus (que, afinal, noexiste) com simples erro de ortografia. A ortografia arti-ficial, ao contrrio da lngua, que natural. A ortografia uma deciso poltica, imposta por decreto, por isso ela
  • 138. pode mudar, e muda, de uma poca para outra. Em 1899 aspessoas estudavam psychologia e histria do Egypto; em1999 elas estudam psicologia e histria do Egito. Lnguasque no tm escrita nem por isso deixam de ter suagramtica. 4) Reconhecer que tudo o que a Gramtica Tradicionalchama de erro na verdade um fenmeno que tem umaexplicao cientfica perfeitamente demonstrvel. Semilhes de pessoas (cultas inclusive) esto optando por umuso que difere da regra prescrita nas gramticas normativas porque h alguma regra nova sobrepondo-se antiga.Assim, o problema est com a regra tradicional, e no comas pessoas, que so falantes nativos e perfeitamentecompetentes de sua lngua. Nada por acaso. 5) Conscientizar-se de que toda lngua muda e varia. Oque hoje visto como certo j foi erro no passado. O quehoje considerado erro pode vir a ser perfeitamenteaceito como certo no futuro da lngua. Um exemplo: noportugus medieval existia um verbo leixar (que aparece atna Carta de Pero Vaz de Caminha ao rei D. Manuel I). Com otempo, esse verbo foi sendo pronunciado deixar, porque [d]e [l] so consoantes aparentadas, o que permitiu a troca deuma pela outra. Hoje quem pronunciar leixar vai estarcometendo um erro (vai ser acusado de desleixo), muitoembora essa forma seja mais prxima da origem [pg. 143]latina, laxare (compare-se, por exemplo, o francs laisser e oitaliano lasciare). Por isso bom evitar classificar algum
  • 139. fenmeno gramatical de erro: ele pode ser, na verdade,um indcio do que ser a lngua no futuro. 6) Dar-se conta de que a lngua portuguesa no vai nembem, nem mal. Ela simplesmente VAI, isto , segue seurumo, prossegue em sua evoluo, em sua transformao,que no pode ser detida (a no ser com a eliminao fsicade todos os seus falantes). 7) Respeitar a variedade lingstica de toda e qualquerpessoa, pois isso equivale a respeitar a integridade fsica eespiritual dessa pessoa como ser humano, porque 8) a lngua permeia tudo, ela nos constitui enquantoseres humanos Ns somos a lngua que falamos. A lnguaque falamos molda nosso modo de ver o mundo e nossomodo de ver o mundo molda a lngua que falamos. Para osfalantes de portugus, por exemplo, a diferena entre ser eestar fundamental: eu estou infeliz radicalmentediferente, para ns, de eu sou infeliz. Ora, lnguas como oingls, o francs e o alemo tm um nico verbo paraexprimir as duas coisas. Outras, como o russo, no tmverbo nenhum, dizendo algo assim como: Eu - infeliz (orusso, na escrita, usa mesmo um travesso onde nsinserimos um verbo de ligao). Assim, 9) uma vez que a lngua est em tudo e tudo est nalngua, o professor de portugus professor de TUDO.(Algum j me disse que talvez por isso o professor deportugus devesse receber um salrio igual soma dossalrios de todos os outros professores!) [pg. 144]
  • 140. 10) Ensinar bem ensinar para o bem. Ensinar para obem significa respeitar o conhecimento intuitivo do aluno,valorizar o que ele j sabe do mundo, da vida, reconhecer nalngua que ele fala a sua prpria identidade como serhumano. Ensinar para o bem acrescentar e no suprimir, elevar e no rebaixar a auto-estima do indivduo. Somenteassim, no incio de cada ano letivo este indivduo podercomemorar a volta s aulas, em vez de lamentar a volta sjaulas! [pg. 145]
  • 141. IV O preconceito contra a lingstica e os lingistas 1. Uma religio mais velha que o cristianismo O ensino de lngua na escola a nica disciplina em queexiste uma disputa entre duas perspectivas distintas, doismodos diferentes de encarar o fenmeno da linguagem: adoutrina gramatical tradicional, surgida no mundo helensticono sculo III a.C, e a lingstica moderna, que se firmou comocincia autnoma no final do sculo XIX e incio do XX.Qualquer pessoa bem informada acharia no mnimo estranhose um professor de biologia ensinasse a seus alunos que asmoscas nascem da carne podre, ou se um professor decincias dissesse que a Terra plana e o Sol gira em tornodela, ou ainda se um professor de qumica afirmasse que amistura dos quatro elementos (ar, gua, terra e fogo) poderesultar em ouro! So idias mais do que ultrapassadas e quecomearam a ser substitudas por novas concepes maisverossmeis a partir do perodo da histria do conhecimentoocidental conhecido como o nascimento da cincia moderna(sculo XVI em diante). Ningum se espanta, porm, quandoum professor de lngua ensina que os substantivos [pg. 147]so palavras que representam os seres em geral, ou quesujeito o ser do qual se diz alguma coisa, ou que verbo a palavra que exprime ao ou movimento. So afirmaesto imprecisas e incoerentes (para no dizer francamente
  • 142. falsas) quanto a de que as avestruzes enterram a cabea naareia ou que apontar para as estrelas faz nascer verruga nosdedos! E no entanto elas continuam sendo estampadas nosmanuais de gramtica, nos livros didticos, nas apostilas, ecobradas em testes, exames e provas de vestibular! A doutrina gramatical tradicional, mais velha que areligio crist, passou inclume pela grande revoluocientfica que abalou os fundamentos do conhecimento e dopensamento ocidental a partir do sculo XVI. Basta examinaro que acontece na escola. muito comum o ensino das outrasdisciplinas fazer uma abordagem crtica dos saberes dopassado, mostrando de que maneira a evoluo da sociedade,da cincia e da tecnologia levou o ser humano a abandonarvelhas crenas e supersties. Em livros didticos de biologia,fsica, qumica, histria, geografia etc., freqente encontrarafirmaes do tipo: Durante muito tempo se acreditou que[...], mas os avanos da pesquisa e do conhecimentorevelaram que [...]. Quem no se lembra de algum professorcontando a histria de Coprnico, Galileu, Newton, Darwin,Pasteur e outros que revolucionaram o conhecimentohumano? Isso s no acontece nas aulas de lngua! Os termose conceitos da Gramtica Tradicional estabelecidos h maisde 2.300 anos! continuam a ser repassados praticamente[pg. 148] intactos de uma gerao de alunos para outra,como se desde aquela poca remota no tivesse acontecidonada na cincia da linguagem. O ensino tradicional opera as-sim uma imobilizao do tempo, um apagamento dascondies sociais e histricas que permitiram o surgimento ea permanncia da Gramtica Tradicional.
  • 143. A Gramtica Tradicional permanece viva e forte porque,ao longo da histria, ela deixou de ser apenas uma tentativade explicao filosfica para os fenmenos da linguagemhumana e foi transformada em mais um dos muitoselementos de dominao de uma parcela da sociedade sobreas demais. Assim como, no curso do tempo, tem se falado daFamlia, da Ptria, da Lei, da F etc. como entidadessacrossantas, como valores perenes e imutveis, tambm aLngua foi elevada a essa categoria abstrata, devendo,portanto, ser preservada em sua pureza, defendida dosataques dos barbarismos, conservada como umpatrimnio que no pode sofrer runa e corrupo.Nessa concepo nada cientfica, lngua no toda e qualquermanifestao oral e/ou escrita de qualquer ser humano, dequalquer falante nativo do idioma: a Lngua, com artigodefinido e inicial maiscula, somente aquele ideal de purezae virtude, falado e escrito, claro, pelos puros e virtuososque esto no topo da pirmide social e que, por isso,merecem exercer seu domnio sobre as demais camadas dapopulao. A lngua deixou de ser fato concreto para setransformar em valor abstrato. Querer cobrar, hoje em dia, a observncia dos mesmospadres lingsticos do passado querer preservar, [pg. 149]ao mesmo tempo, idias, mentalidades e estruturas sociais dopassado. A Gramtica Tradicional, funcionando como umaideologia lingstica, foi e ainda , como toda ideologia, olugar das certezas, uma doutrina slida e compacta, com umanica resposta correta para todas as dvidas. Por isso, o queno est abonado na gramtica normativa erro ousimplesmente no portugus, e se alguma palavra no se
  • 144. encontra no dicionrio porque simplesmente ela noexiste! A lingstica moderna, ao encarar a lngua como umobjeto passvel de ser analisado e interpretado segundomtodos e critrios cientficos, devolveu a lngua ao seu lugarde fato social, abalando as noes antigas que apresentavama lngua como um valor ideolgico. Assim, a lingstica, comotoda cincia, o lugar das surpresas, das descobertas, donovo, da substituio de paradigmas, da reformulao crticadas teorias. Ora, o novo assusta, o novo subverte as certezas,compromete as estruturas de poder e dominao h muitovigentes. No por acaso que, mesmo entre profissionais quedeveriam ter a lingstica como seu corpo terico e prtico dereferncia, a doutrina gramatical tradicional ainda encontreum apoio e uma defesa quase irracionais. o que se v, hojeem dia, na imprensa e na mdia brasileira, com os comandosparagramaticais analisados neste livro, essa enxurrada deprogramas de televiso e de rdio, colunas de jornal e revistaque tentam preservar as noes mais conservadoras docerto e do errado, desprezando o saber acumulado pormais de um sculo [pg. 150] de cincia lingstica moderna,que tem no Brasil centros de pesquisa de excelnciareconhecida internacionalmente. Isso para no falar tambmdos grupos de pessoas que dizem promover ridculosmovimentos de defesa da lngua portuguesa, como se fossenecessrio defender a lngua de seus prprios falantesnativos, a quem ela pertence de fato e de direito. A matriade capa da revista Veja de 7/11/2001 (Falar e escrever bem)e a estria de Pasquale Cipro Neto no programa Fantstico daRede Globo no mesmo ano so exemplos perfeitos do obscu-
  • 145. rantismo anticientfico que envolve, nos meios decomunicao, tudo o que diz respeito lngua e ao ensino dalngua. A participao de Pasquale no Fantstico faz regredirem pelo menos 25 anos os grandes avanos j obtidos pelaLingstica na renovao do ensino de lngua na escolabrasileira. O grande problema est na confuso que reina namentalidade das pessoas que atribuem uma crise lngua,quando, de fato, a crise existe na escola, no sistemaeducacional brasileiro, classificado entre os piores do mundo,apesar de nosso pas ser o mais rico e industrializado doHemisfrio Sul, alm de ser a dcima economia capitalista doplaneta. A lngua no est em crise, muito pelo contrrio:nunca em toda a sua histria o portugus foi to falado, toescrito, to impresso e to difundido mundo afora pelos maisdiferentes meios de comunicao. E a participao do Brasil,com seus 170 milhes de falantes nativos, de longe a maisrelevante [pg. 151] e a mais importante. Crise existe, sim, naescola pblica brasileira, de todos os nveis, desde o pr-primrio at a universidade, sobretudo depois que o duplogoverno presidido por Fernando Henrique Cardoso passou aempregar todos os esforos possveis para demolir,sistematicamente, o j cambaleante e sucateado sistema deensino pblico do Brasil (como tem feito, alis, com todo opatrimnio pblico dos brasileiros). essa escola arruinada,com professores despreparados e pessimamenteremunerados, que no oferece aos alunos as mnimascondies de letramento necessrias para o pleno exerccioda cidadania. Tentar atribuir as deficincias dos brasileiros nouso mais formal da lngua aos prprios brasileiros que no
  • 146. tm amor ao idioma ou, pior ainda, ao prprio idioma, noquerer ver a realidade, lanar a culpa sobre quem, de fato, a vtima maior deste processo perverso. Desse modo, achar que a lngua est em crise e quepara superar essa crise necessrio sustentar a doutrinagramatical sem submet-la a uma crtica serena e bem-fundada , a meu ver, uma atitude que s pode ter duasexplicaes: a ignorncia cientfica (a pessoa nunca ouviufalar de lingstica) ou a desonestidade intelectual (tendoentrado em contato com a cincia lingstica, finge que no aconhece) pior ainda quando essa atitude se sustenta numindisfarado e indisfarvel preconceito social. No podemosaceitar nenhuma dessas explicaes para justificar o trabalhodaqueles que se proclamam especialistas em questes delinguagem. Que um leigo continue a repetir os mitospreconceituosos e as idias [pg. 152] infundadas quecirculam na sociedade sobre lngua e linguagem algo quepodemos compreender e explicar com base numa anlisesociolgica e histrica. Mas que assim proceda umautoproclamado especialista que, ainda por cima, se atribui opapel de julgar e condenar o comportamento lingstico deseus semelhantes... algo que no podemos aceitar e quedevemos, sim, denunciar e combater. Pelas mesmas razes que levaram transformao daGramtica Tradicional num instrumento de dominao eexcluso social que a atividade dos lingistas brasileirosvem sofrendo ataques grosseiros por parte de auto-intituladosfilsofos que representam, na verdade, a reao maisconservadora (e muitas vezes com acentos claramentefascistas) contra qualquer tentativa de democratizao do
  • 147. saber e da sociedade. a mesma ira que leva osfundamentalistas (pseudo)cristos a querer impedir o ensinoda teoria evolucionista de Darwin em escolas norte-americanas. Assim como esses fundamentalistas, para de-fender seu ponto de vista obscurantista, acusam Darwin deafirmar que o homem descende do macaco (coisa que elejamais escreveu em nenhuma de suas obras: sua teoria a deque os humanos e os demais primatas descendem de umancestral comum), tambm os atuais detratores da cincialingstica acusam os estudiosos da linguagem dedefenderem o no-ensino das formas padronizadas doportugus, numa tentativa de transformar toda uma argu-mentao detalhada e sofisticada em duas ou trs afirmaestoscas e propositadamente deturpadas. [pg. 153] 2. Portugus ortodoxo? Que lngua essa? fcil mostrar de que modo essa oposio cincialingstica est viva e ativa no Brasil nos dias de hoje. Paracomear, vamos invocar novamente o espectro daquele quese tornou uma espcie de arqutipo folclrico do gramticoautoritrio, conservador e intolerante: Napoleo Mendes deAlmeida. Tudo o que ele escreveu constitui um materialsuculento e abundante para diversos tipos de investigaosobre idias no-cientficas: como j vimos na segunda partedeste livro, dos textos de Napoleo gotejam preconceitossociais, raciais, lingsticos entre outros; ao mesmo tempo,pululam neles as afirmaes mais estapafrdias possveissobre lngua, gramtica e ensino. Vamos repetir aqui o que eleescreveu no Dicionrio de Questes Vernculas, no verbetelingstica:
  • 148. Para fixar inteis, pretensiosas e ridculas bizantinices, perde o estudante o tempo que deveria dedicar ao conhecimento efetivo da lngua. [...] Que adorno cultural representa um diploma de lingstica a quem escreve, ou deixa meia dzia de vezes passar num mesmo artigo de jornal, os mais tolos erros de gramtica? [...] Enganam-se os pais, enganam-se os filhos quando pensam estar a escola, a faculdade ensinando gramtica, ensinando a lngua da terra porque no programa consta lingstica. O objeto da lingstica a lngua no sentido da fala, de dom de expressar o homem por palavras o pensamento; um estudo sem utilidade especfica para este ou aquele idioma. [...] a lingstica um dos estorvos do aprendizado da lngua portuguesa em escolas brasileiras. [pg. 154] Como j comentei esse texto mais atrs (pp. 80-81), vouapenas chamar a ateno para o seguinte fato: NapoleoMendes de Almeida morreu em 1998 (aos 87 anos). Se tivesseescrito esse verbete at 1930, seria mais fcil entender suapostura anticientfica, analisando-a dentro do contexto dasidias e das concepes de lngua e linguagem quevigoravam naquela poca, em que a cincia lingstica aindano tinha se instalado definitivamente nos grandes centros deensino e de pesquisa. Mas, em 1998, muita gua j tinhapassado debaixo da ponte cientfica, os estudos da linguagemj tinham enfrentado diversas revolues epistemolgicas,amplamente divulgadas nos meios acadmicos e at nasescolas fundamental e mdia. No h nada que possajustificar esse conceito to mesquinho e tacanho, essa idiatola de que a lingstica s estuda os sons da fala... Volto a falar de Napoleo Mendes de Almeida porque suamorte mereceu um artigo assinado por Pasquale Cipro Netona Folha de S. Paulo, jornal onde Pasquale consultor deportugus. Nesse artigo, depois de falar do estilo rebuscado
  • 149. e barroco de Napoleo, Pasquale escreveu o seguinte(27/4/1998): Talvez por isso, os lingistas autoproclamados de vanguarda o tm como conservador e consideram intil o estudo de sua obra. Meticuloso, Napoleo era essencialmente gramtico e como tal deve ser encarado. Muita gente o admira e respeita, sobretudo por seu curso de portugus e latim por correspondncia. [pg. 155] E conclui o artigo com estas palavras: Uma coisa, porm, incontestvel: quem quiser estudar o portugus ortodoxo para prestar concurso pblico, advogar, exercer a magistratura ou carreira diplomtica certamente precisar consultar a obra de Napoleo. muito interessante aqui o uso da expresso portugusortodoxo. Como se sabe, a noo de ortodoxia foi inventada pouco depois da instituio do cristianismo como religiooficial do imprio romano para definir os dogmas oficiais daIgreja, as nicas maneiras certas e admissveis de acreditarem Deus, em Cristo, na Virgem Maria, na Santssima Trindadeetc. Quem se desviasse desses dogmas era acusado deheresia e condenado s mais diversas punies, como oexlio, a priso, a tortura e a morte na fogueira. O conceito deortodoxia se relaciona com uma srie de outras noes domesmo campo semntico: dogma, intolerncia, inflexibilida-de, pecado, penitncia, castigo, excomunho e outrasaparentadas. Ao erro do hertico corresponde a infa-libilidade do ortodoxo. Se possvel falar em portugusortodoxo porque certamente tambm deve existir, namentalidade de seus defensores e em oposio a ele, umportugus hertico, um portugus pecador, que merece
  • 150. castigo e excomunho... E ns sabemos que precisamenteessa mentalidade de perseguio, acusao e condenaoque est por trs, at hoje, da ao dos defensoresintransigentes dessa nebulosa ortodoxia gramatical. [pg.156] 3. Devaneios de idiotas e ociosos Mas o que ser, afinal, o portugus ortodoxo dePasquale Cipro Neto? No muito difcil descobrir, basta lercom ateno as coisas que ele escreve. Analisando, porexemplo, a fala do poltico Francisco Rossi, candidato aogoverno de So Paulo em 1998, Pasquale escreveu, na mesmaFolha de S. Paulo (21/8/1998): Referindo-se a Gilson Menezes, Rossi disse que o prefeito de Diadema foi um dos que levantou bandeira. Alguns lingistas perdem seu precioso tempo em devaneios com que tentam explicar por que o falante brasileiro prefere o singular nesses casos. Dizem que essa opo ocorre porque o que se quer colocar em evidncia o elemento de que se fala. Balela. Por que no se aceita que se diga Ela uma das moas bonita da sala, ou Ele um dos deputados inscrito para falar? Porque no se quer dizer que ela a nica moa bonita, nem que o deputado o nico inscrito. Das moas bonitas, ela uma. Dos deputados inscritos para falar, ele um. Dos que levantaram bandeira, Gilson um. Ento Gilson foi um dos que levantaram bandeira. Temos aqui uma das muitas ocasies em que Pasquale,sistematicamente, s menciona os lingistas para lanarsobre eles as mais diversas acusaes. Nesse texto, temos aassociao de lingistas com devaneios e balela. Mas sempre assim. Quem consultar, por exemplo, o cd-rom querene todas as edies do jornal Folha de S. Paulo entre osanos de 1994 e 2000, vai ver que nas colunas assinadas por
  • 151. Pasquale, a palavra lingista vem sempre [pg. 157]acompanhada de alguma nota depreciativa. Tambm narevista Cult, onde escreve regularmente, Pasquale j chamouos lingistas de deslumbrados. Sobre o fato gramatical que ele analisa, detectando errocomum na fala de Francisco Rossi, muito instrutivo ler oque o fillogo e gramtico Evanildo Bechara afirmou numaentrevista ao jornal UERJ em questo (n 72, fevereiro/abril de2001). Para justificar a suposta necessidade de elaborao deuma gramtica normativa com a chancela da AcademiaBrasileira de Letras, Bechara declarou: Vejamos um exemplo: a expresso um dos que. A lngua permite que voc diga: Carlos um dos alunos que trabalha; ou um dos alunos que trabalham. H professores que consideram mais lgica a concordncia do verbo no plural. Outros acham que a concordncia deve ser no singular. Mas a lngua admite as duas possibilidades. O que no se pode fazer optar por uma forma e considerar a outra errada, como muitas vezes fazem as bancas examinadoras. Evanildo Bechara , sem a menor possibilidade de dvida,o mais importante gramtico brasileiro vivo. Apesar de suainegvel competncia como estudioso da lngua, suasposturas polticas e pedaggicas no tm nada derevolucionrias, e o simples fato de pertencer AcademiaBrasileira de Letras exemplo de sua filiao a um iderioconservador e elitista ele j declarou, por exemplo, que afuno da escola levar os alunos a falar melhor e com osmelhores porque na sua opinio existe uma necessidade davigncia da hierarquizao e da [pg. 158] normatividade,esquecendo-se de que a hierarquizao s pode parecernecessria para os que ocupam, evidentemente, o topo da
  • 152. hierarquia e se consideram, naturalmente, os melhores...17Ora, Pasquale Cipro Neto consegue ser mais conservador eelitista ainda do que Bechara. Para o gramtico profissional,a lngua admite as duas possibilidades. Para o colunista daFolha, a admisso dessas possibilidades representadevaneios e balela. Agora fica mais fcil entender o quePasquale chama de portugus ortodoxo: um conceito delngua certa que mais certa ainda do que a lngua dosgramticos profissionais, da prpria Academia Brasileira deLetras. Em outra coluna (28/5/1998) ele fala de lingistasdefensores do vale-tudo, numa absoluta distoro doverdadeiro papel do lingista como investigador de todos osfenmenos da lngua, e no s como caador de erros e juizdo uso. Vejamos um ltimo exemplo dessa concepo obscu-rantista que Pasquale Cipro Neto divulga da lingstica e doslingistas, e que em nada difere da opinio de NapoleoMendes de Almeida. A nica diferena entre os dois queNapoleo nunca escondeu suas posies retrgradas, tendo-as assumido com toda franqueza e nitidez ao longo de suavida, ao passo que Cipro Neto tenta dar verniz moderno sua atividade, posando de progressista. O abismo entre seudiscurso e sua prtica, no [pg. 159] entanto, amplo, largo efundo. Numa coluna publicada em 20/11/1997, comentando afala de representantes do governo numa entrevista nateleviso, Pasquale escreveu:17 Evanildo Bechara, A sobrevivncia da lngua culta, in Academia Brasileira de Letras na Imprensa1999, Rio de Janeiro, ABL, 1999, pp. 63-70.
  • 153. Quem assistiu entrevista coletiva concedida pela equipe econmica no ltimo dia 10 deve ter tido congesto de de que. Um dos membros da equipe, cujo nome melhor no citar, abusou do direito de usar a bendita expresso: O gover- no considera de que; No nos parece de que esse caso; Penso de que no ser etc. Santo Deus! De onde o homem, graduadssimo, professor, tirou tanto de? Os verbos considerar, pensar e parecer pedem a preposio de? bvio que no. Algum pensa algo, algum considera algo, algo parece a algum. Onde est o de? Perguntem ao homem. Nada de de que: No nos parece que, Penso que, O governo considera que. E agora, ao ataque: Alguns lingistas (alguns), idiotas, diro que a lngua falada no merece reparo, que a fala sempre boa etc. Esses ociosos no conseguem perceber que os homens no estavam na mesa de um boteco, batendo papo. Estavam falando para o pas, sobre um assunto tcnico, usando linguagem teoricamente culta. Quem assiste a esse tipo de transmisso normalmente acredita nessas pessoas, tem-nas como modelo. Adolescentes que vo fazer vestibular ouvem o cidado dizendo de que, de que, de que e acham que isso o mximo. A Fuvest faz uma questo a respeito, como j fez h dois ou trs anos. E muitos, ingenuamente, erram. E alguns idiotas, ociosos, dizem que a fala sempre boa, que isso e aquilo. [pg. 160] Esse tipo de afirmao to chocante, reveladora deum tamanho desconhecimento, de uma ignorncia tomanifesta, que leva mesmo a pensar que Pasquale noacredita no que escreve. Que deve haver alguma razosecreta para ele publicar coisas que depem to abertamentecontra sua prpria inteligncia! Afinal, o fenmeno dodequesmo j tem merecido, nos ltimos quinze anos pelomenos, a ateno de diversos pesquisadores, j foi tema dedissertaes e de teses, de artigos publicados em livros e
  • 154. revistas cientficas... (alm disso, tambm ocorre no espanholculto falado na Amrica Latina, no sendo, portanto, invenode brasileiro burro...). Ser que custava tanto assim eleprocurar ler, informar-se sobre o fenmeno? E quem so afinalesses lingistas idiotas e ociosos que dizem que a lnguafalada no merece reparo, que a fala sempre boa etc.?Pasquale nunca d nome aos bois. Por isso, apesar de sempreescrever alguns lingistas, ele nunca diz quem, onde equando. Assim, fica fcil deduzir que esse alguns um merodisfarce para seu preconceito contra todos os lingistas. 4. A quem interessa calar os lingistas? Finalmente, vamos ver um caso interessante de pre-conceito contra os lingistas, no por discriminao explcita,como no caso de Pasquale Cipro Neto, mas por absolutadesconsiderao, por omisso. Em seu to debatido projeto de lei (de 1999) sobre apromoo, a proteo, a defesa e o uso da lnguaportuguesa, [pg. 161] o deputado Aldo Rebelo (PCdoB/SP),embora tratando de assuntos que dizem respeito ao campode investigao da lingstica terica e aplicada, em nenhummomento faz referncia aos cientistas da linguagem, spessoas que se dedicam profissionalmente ao estudo dalngua. Dos pouqussimos autores citados na justificativa doprojeto, nenhum lingista. Um Machado de Assis porsinal, numa citao que o deputado, parece, no soube lercorretamente, porque nela Machado desmente, em poucaslinhas, cada uma das idias contidas no projeto. Dois outrosso jornalistas que publicaram, na poca da redao do
  • 155. projeto, artigos em que se queixavam do atual estado decrise da lngua. E a Academia Brasileira de Letras? Seu esprito elitista,conservador e feudal o deputado no critica: muito pelocontrrio, Aldo Rebelo escreve que Academia Brasileira deLetras continuar cabendo o seu tradicional papel de centromaior de cultivo da lngua portuguesa no Brasil e que Academia Brasileira de Letras incumbe, por tradio, o papelde guardi dos elementos constitutivos da lngua portuguesausada no Brasil afirmaes que no significamrigorosamente coisa nenhuma, fazendo a gente at seperguntar se esse projeto de lei mesmo para ser levado asrio ou se no passa de uma pea de prosa surrealista... AAcademia Brasileira de Letras nem de longe pode serchamada de centro maior de cultivo da lngua portuguesa noBrasil: afinal, por que atribuir essa qualidade a um reduzidogrupo de 40 indivduos (dos quais, para piorar, somente umnmero nfimo composto de [pg. 162] verdadeirosescritores), quando o portugus do Brasil falado (ou seja, de fato cultivado) por mais de 170 milhes de pessoas? Almdisso, os elementos constitutivos de uma lngua pertencemao grupo social que fala essa lngua, pertencem a seusfalantes nativos, e no precisam de guardies... alis,novamente, os nmeros voltam a gritar: podem 40 senhores esenhoras defender a lngua contra o suposto ataque deseus 170 milhes de falantes? Somente uma ideologiaultraconservadora, colonialista e elitista ao extremo quepode justificar a pretenso de defender o portugus contra osseres humanos que tm ele como sua prpria lngua materna!
  • 156. O nico autor citado no projeto de Aldo Rebelo que temalguma coisa a ver com o estudo e o ensino da lngua ,novamente, Napoleo Mendes de Almeida. No entanto, muito divertido ver que, no texto, Napoleo apresentadocomo um dos nossos maiores lingistas. Ora, conhecendo aopinio de Napoleo sobre a lingstica, s podemos rir dapiada (involuntria?) do deputado. Chamar Napoleo delingista um desrespeito sua memria, uma vez que paraele a lingstica era um estorvo e uma coleo debizantinices. Fechamos assim mais um crculo preconceituoso quecomea em Napoleo, com seus ataques contra a lingstica,passa por Pasquale Cipro Neto, que elogia Napoleo e seguesuas concepes obscurantistas sobre a cincia dalinguagem, e termina com Aldo Rebelo, que novamenterecorre a Napoleo para justificar seu projeto insustentvel deuma lei impraticvel. [pg. 163] muito curiosa a situao desse projeto de lei dodeputado Aldo Rebelo. A retumbante maioria dos lingistastem se manifestado nas mais diversas ocasies contra oprojeto, denunciando seus equvocos lingsticos, polticos,histricos, sociolgicos etc. A indignao dos lingistasprofissionais se concretizou at na forma de um livro coletivo Estrangeirismos: guerras em torno da lngua (So Paulo,Parbola Editorial, 2001), organizado por Carlos AlbertoFaraco. Mas ningum d ouvido aos lingistas. O projetocontinua sua marcha vitoriosa pelo Congresso Nacional, etudo indica que vir a ser aprovado para se tornar mais umalei que ningum vai cumprir, at porque seu cumprimento invivel.
  • 157. o caso de perguntar: se um deputado sem formao emmedicina inventasse um projeto de lei que tivesse relaocom a prtica cirrgica e se todos os mdicos do pas semanifestassem contra o projeto, ser que ele conseguiria seraprovado? Por que toda e qualquer pessoa se acha no direitode dar palpites infundados e preconceituosos sobre asquestes que dizem respeito lngua? Por que os profissionaisde outras reas conseguem se fazer ouvir, mas os lingistaspermanecem no ouvidos? Ser que os lingistas, apesar dese dedicarem ao estudo da lngua, no falam? Ser que nose do conta de seu papel social e poltico, ou, mesmoconscientes desse papel, h outras foras que no nos deixamfalar? A quem interessa manter calados os estudiosos dalinguagem? Por que o discurso gramatical tradicional, j toamplamente criticado pelos cientistas da linguagem com baseem teorias [pg. 164] e mtodos consistentes e coerentes,ainda tem tanto vigor e obtm tanta defesa? Que ameaa aotipo de sociedade em que vivemos representa ademocratizao do saber lingstico, a divulgao ampla dasdescobertas deste campo cientfico, a liberao da voz detantos milhes de pessoas condenadas ao silncio por nosaber portugus ou por falar tudo errado? A queminteressa defender o portugus ortodoxo de unspouqussimos melhores contra a suposta heresiagramatical de muitos milhes de outros? Espero que a discusso feita neste livro ajude voc aencontrar suas prprias respostas para perguntas toinquietantes. [pg. 165]
  • 158. ANEXO Carta de Marcos Bagno revista Veja Em seu nmero 1725 (novembro de 2001), a revista Veja publicou uma extensa reportagem, anunciada na capa, com o ttulo Falar e escrever bem, eis a questo. O texto, assinado por Joo Gabriel de Lima, deixou a comunidade dos educadores e lingistas estarrecida por causa da quantidade de absurdos, distores e acusaes grosseiras que continha. Em reao a isso, Marcos Bagno escreveu e enviou uma longa carta ao editor da revista, no para ser publicada, mas para marcar a posio dos pesquisadores comprometidos com o avano da cincia brasileira diante de atitudes to assumidamente obscurantistas e retrgradas. So Paulo, 4 de novembro de 2001. Sr. Editor, Em 1990, o lingista e educador britnico Michael Stubbsescrevia que toda a rea da lngua na educao estimpregnada de supersties, mitos e esteretipos, muitos dosquais tm persistido por sculos e, s vezes, com distoresdeliberadas dos fatos lingsticos e pedaggicos por parte damdia. triste constatar que essas palavras, publicadas hmais de uma dcada, se [pg. 167] aplicam com precisoimpressionante ao que ainda ocorre hoje em dia no Brasil.Afinal, de que outro modo qualificar a reportagem de capa donmero 1725 de VEJA seno como uma srie de distoresdeliberadas dos fatos lingsticos e pedaggicos por parte damdia?
  • 159. O texto assinado pelo Sr. Joo Gabriel de Lima demonstrao quanto nossos meios de comunicao de massa seencontram, perdoe-me o lugar-comum, na contramo daHistria quando o assunto lngua. H um absolutodespreparo de jornalistas e comunicadores para tratar dotema (um exemplo gritante disso veio a pblico em outraedio recente de VEJA, a de nmero 1710, com a reportagemTodo mundo fala assim). Se falo de contramo porque passados mais de cemanos de surgimento, crescimento e afirmao da Lingsticamoderna como cincia autnoma , a mdia continua a dar ascostas investigao cientfica da linguagem, preferindoconsagrar-se divulgao e sustentao das supersties,mitos e esteretipos que circulam na sociedade ocidental hmais de dois mil anos. Isso ainda mais surpreendentequando se verifica que, na abordagem de outros camposcientficos, os meios de comunicao se mostram muito maiscuidadosos e atenciosos para com os especialistas da rea.Quando o assunto lngua, porm, o espao maior invariavelmente ocupado por alguns oportunistas que,apoderando-se inteligentemente dessas supersties, mitose esteretipos, conseguem transformar esse folclorelingstico em bens de consumo que lhes rendem muito lucrofinanceiro, alm [pg. 168] de fama e destaque na mdia.Basta comparar o espao dedicado, no ltimo nmero de VEJA,ao Prof. Luiz Antnio Marcuschi (reconhecido hoje no Brasilcomo um dos nomes mais importantes da cincia lingsticaentre ns) e aos atuais pregadores da tradio gramatical queinfestam o cotidiano dos brasileiros com suas quinquilhariasmultimiditicas sobre o que certo e errado na lngua. Seria espantoso ver uma matria de VEJA em que apa-recessem zologos falando mal da Biologia, ou engenheiroscriticando a Fsica, ou cirurgies maldizendo da Medicina. No
  • 160. entanto, ningum se espanta (e muitos at aplaudem)quando o Sr. Joo Gabriel de Lima, fazendo eco aos detratoresda Lingstica (como o Sr. Pasquale Cipro Neto), fala daexistncia de certa corrente relativista e escreve absurdoscomo trata-se de um raciocnio torto, baseado numesquerdismo de meia-pataca, que idealiza tudo o que popular inclusive a ignorncia, como se ela fosse atributo,e no problema, do povo. O que esses acadmicospreconizam que os ignorantes continuem a s-lo. Seriamuito fcil retrucar que estamos aqui diante de umdireitismo de meia-pataca que acredita na existncia deuma ignorncia popular, mas, como cientista, prefirorecorrer a outro tipo de argumento, baseado na reflexoterica serena e na experincia conjunta de muitas pessoasque h anos se dedicam ao estudo e ao ensino da lnguaportuguesa no Brasil. Segundo a reportagem, as crticas que o Sr. PasqualeCipro Neto recebe dessa corrente relativista deixam-no [pg.169] irritado. Ora, o que parece realmente irritar o Sr.Pasquale o fato de que, apesar de obter tanto sucesso entreos leigos, nada do que ele diz ou escreve levado a srio noscentros de pesquisa cientfica sobre a linguagem, sediadosnas mais importantes universidades do Brasil centros depesquisa lingstica, diga-se de passagem, reconhecidosinternacionalmente como entre alguns dos melhores domundo. Muito pelo contrrio, se o nome do Sr. Pasquale mencionado nas nossas universidades, sempre comoexemplo de uma atitude anticientfica dogmtica e atobscurantista no que diz respeito lngua e seu ensino (emvrios de seus artigos em jornais e revistas ele j chamou oslingistas de idiotas,ociosos, defensores do vale-tudo edeslumbrados).
  • 161. Se o Sr. Pasquale se irrita com os cientistas da linguagem, porque sabe que no tem como responder s crticas querecebe por parte dos pesquisadores, dos tericos e doseducadores empenhados num conhecimento maior e melhorda realidade lingstica do nosso pas. Digo isso com base naexperincia de j ter participado de trs debates junto com oSr. Pasquale e ter conhecido sua estratgia de nuncaresponder com argumentos consistentes s crticas a eledirigidas, preferindo sempre retrucar com arrogncia,prepotncia, grosserias e ataques pessoais (chamando oslingistas de ortodoxos seja isso l o que for e debichos-grilos) ou fazendo-se de vtima de algumaperseguio (num desses encontros ele declarou sentir-secomo um boi de piranha). [pg. 170] A razo para essa falta de argumentos consistentes muito simples: o Sr. Pasquale no tem formao cientficapara tratar dos assuntos de que trata. Suas opinies sebaseiam exclusivamente na arcaica doutrina gramaticalnormativo-prescritiva, cuja inconsistncia terica e cujosproblemas epistemolgicos graves vm sendo demonstradose criticados pela Lingstica moderna desde pelo menos ofinal do sculo XIX. As concepes do Sr. Pasquale de certoe de errado esto em franca oposio, no s com asteorias cientficas mais atuais, mas at mesmo com a posturainvestigativa dos gramticos profissionais de slida formaofilolgica (coisa que ele definitivamente no ), para nomencionar as diretrizes pedaggicas das instncias superioresda Educao nacional. O documento do Ministrio daEducao chamado Parmetros Curriculares Nacionais, porexemplo, bem explcito em seu volume dedicado ao ensinoda lngua portuguesa:
  • 162. A imagem de uma lngua nica, mais prxima da modalidade escrita da linguagem, subjacente s prescries normativas da gramtica escolar, dos manuais e mesmo dos programas de difuso da mdia sobre o que se deve e o que no se deve falar e escrever, no se sustenta na anlise emprica dos usos da lngua. E este mesmo documento enftico ao afirmar que: h muitos preconceitos decorrentes do valor social relativo que atribudo aos diferentes modos de falar: muito comum se considerarem as variedades lingsticas de menor prestgio [pg. 171] como inferiores ou erradas. O problema do preconceito disseminado na sociedade em relao s falas dialetais deve ser enfrentado, na escola, como parte do objetivo educacional mais amplo de educao para o respeito diferena. Para isso, e tambm para poder ensinar Lngua Portuguesa, a escola precisa livrar-se de alguns mitos: o de que existe uma nica forma certa de falar a que se parece com a escrita e o de que a escrita o espelho da fala e, sendo assim, seria preciso consertar a fala do aluno para evitar que ele escreva errado. Essas duas crenas produziram uma prtica de mutilao cultural que, alm de desvalorizar a forma de falar do aluno, tratando sua comunidade como se fosse formada por incapazes, denota desconhecimento de que a escrita de uma lngua no corresponde inteiramente a nenhum de seus dialetos, por mais prestgio que um deles tenha em um dado momento histrico. provvel, no entanto, que o Sr. Pasquale Cipro Neto e oSr. Joo Gabriel de Lima acreditem que os ParmetrosCurriculares Nacionais sejam obra de membros daquelacorrente relativista que conseguiram se infiltrar no Mi-nistrio da Educao e se apoderar da redao do documentooficial. Vamos, ento, deixar de lado as propostas oficiais deensino e lanar um olhar sobre a prpria prtica normativo-prescritiva de pessoas como o Sr. Pasquale assim ficarmais fcil descobrir por que ele no encontra argumentospara reagir s crticas bem-fundadas dos lingistas eeducadores srios e por que s consegue fazer sucesso entre
  • 163. os leigos e os que se recusam (certamente por motivaesideolgicas) a aceitar uma concepo de lngua maisdemocrtica. [pg. 172] Consultando a gramtica que Pasquale Cipro Neto assinaem parceria com Ulisses Infante (Gramtica da LnguaPortuguesa, Editora Scipione, So Paulo, 1998), encontra-se,s pp. 521-522, a seguinte explicao para o usosupostamente correto do verbo custar: Custar, no sentido de ser custoso, ser penoso, ser difcil tem como sujeito uma orao subordinada substantiva reduzida. Observe: Ainda me custa aceitar sua ausncia. Custou-nos encontrar sua casa. Custou-lhe entender a regncia do verbo custar. No Brasil, na linguagem cotidiana, so comuns construes como Zico custou a chutar ou Custei para entender o problema [...] Na lngua culta, essas construes em que custar apresenta um sujeito indicativo de pessoa so rejeitadas. Em seu lugar, devem-se utilizar construes em que surja objeto indireto de pessoa: Custou a Zico chutar (= Custou-lhe chutar). Quero chamar a ateno, aqui, para a seguinte afirmaodos autores: Na lngua culta, essas construes [...] sorejeitadas. Aqui est um exemplo claro e ntido de umaconcepo abstrata da lngua, tratada como uma espcie deentidade viva, de sujeito animado, capaz de rejeitar algumacoisa. Ora, que lngua culta essa que supostamente rejeitaessas construes? Ser a lngua dos nossos grandesescritores, que sempre serviu de material para o trabalho dosgramticos normativistas? Basta investigar para descobrir queno , porque os exemplos de [pg. 173] uso do verbo custarcom sujeito so mais do que abundantes na nossa melhorliteratura: (1) Seixas custou a conter-se (Jos de Alencar)
  • 164. (2) ... as moas custavam a se separar (Clarice Lispector) (3) Renato custou a acordar (Carlos Drummond de Andrade) (4) Felicidade, custas a vir e, quando vens, no te demoras (Ceclia Meireles) Ser que Alencar, Clarice Lispector, Drummond e CecliaMeireles no so bons exemplos de usurios da lnguaculta? Se no na literatura, quem sabe, ento, serecorrermos imprensa contempornea? Ser que l quemora a famosa lngua culta que rejeita essas construes?Ora, consultando o jornal onde o prprio Pasquale Cipro Netoescreve (Folha de S. Paulo) e onde presta servios deconsultor de portugus (seja isso l o que for),encontramos: (5) Quem foi ao show de Maria Bethnia, anteontem noite, depois de assistir o sbrio concerto de Joo Gilberto, custou a crer que estivesse na mesma cidade (22/6/1998, pp. 5-10). (6) O tcnico colombiano, Hernn Daro Gmez, [...] custou a admitir a superioridade rival (16/6/ 1998, pp. 4-14). (7) O nome Kubitschek era complicado de pronunciar, custou a ser assimilado pela fontica eleitoral (21/11/1997, pp. 4-3). [pg. 174] Se lembrarmos que Jos de Alencar morreu em 1877, ficamuitssimo claro que essa construo est viva e presente nanossa lngua h muito mais de um sculo! Os autores dagramtica esto proferindo uma inverdade ao dizer que essaconstruo tpica do Brasil quotidiano. Os Srs. Pasquale eUlisses, em vez de se curvar realidade concreta dos fatos,tentam nos convencer de que a opo que eles preferem, s
  • 165. porque a tradicional, que deve ser considerada amelhor. uma atitude essencialmente dogmtica, que serecusa a empreender a pesquisa emprica mnima necessriapara afirmaes sobre o que existe e o que no existe nalngua. Alm disso, essa atitude ainda mais conservadora doque a posio assumida por gramticos de geraesanteriores deles, como Celso Pedro Luft e DomingosPaschoal Cegalla, que reconhecem a vitria da construo eucusto a crer que... Esse apenas um pequeno exemplo de como fcil, paraum pesquisador munido de instrumental terico consistente ede metodologia cientfica adequada, desautorizar uma a uma,e de modo convincente, as afirmaes presentes no trabalhodo Sr. Pasquale Cipro Neto e de outros atuais defensores dadoutrina gramatical tradicional mais normativa e maisprescritiva possvel. Por causa de tudo isso que a estria doSr. Pasquale no programa Fantstico da Rede Globorepresenta, para a grande maioria dos cientistas dalinguagem e dos educadores conscientes, mais um exemplode como o nosso trabalho ainda est no comeo, apesar detudo o que j temos dito e feito. O quadro do Sr. Pasquale noFantstico faz regredir [pg. 175] em pelo menos 25 anos osgrandes avanos j obtidos pela Lingstica na renovao doensino de lngua na escola brasileira. No consigo, portanto,deixar de repetir o chavo: ele se encontra na contramo daHistria. Como j enfatizei acima, pessoas como o Sr. Pasquale sconseguem fazer sucesso entre os leigos, porque dizemexatamente o que as pessoas desejam ouvir: os mitos, assupersties e as crenas infundadas que, h mais de dois milanos, guiam o senso comum ocidental no que diz respeito lngua. Refiro-me ao senso comum ocidental porque essasituao de embate entre uma cincia lingstica moderna e
  • 166. uma doutrina gramatical arcaica tambm se verifica emoutros pases basta ler os livros Language Myths, publicadona Inglaterra sob organizao de L. Bauer e P. Trudgill, e oCatalogue des ides reues sur le langage, publicado naFrana por Marina Yaguello. por isso que escrevi, acima, quenossa luta ainda est no comeo. uma pena que nopossamos contar com a ajuda dos meios de comunicaopara dissipar todos esses mitos e preconceitos, que impedema formao, no Brasil em particular, de uma auto-estima lin-gstica, uma vez que tudo o que os brasileiros ouvem e lemso os mesmos chaves, repetidos h sculos, de quebrasileiro no sabe portugus e que a lngua que falamos portugus estropiado. (O pesquisador canadense ChristopheHopper localizou lamrias e queixas sobre a runa e adecadncia do francs em textos publicados em 1933,1905, 1730 e 1689, o que prova a [pg. 176] antiguidadedesse discurso alarmista e preconceituoso sobre o fenmenoda mudana das lnguas ao longo do tempo!) Outro fato lamentvel, na reportagem de VEJA, que seuautor no tenha prestado o grande favor sociedade deidentificar quem so os membros dessa certa correnterelativista, para que todos, pblico leitor em geral elingistas profissionais em particular, pudssemos nosprecaver contra o suposto raciocnio torto de umesquerdismo de meia-pataca dos que acreditam queensinar a norma-padro no seria til para as classes sociaisdesfavorecidas. Minha curiosidade ficou especialmenteaguada porque, como pesquisador dedicado h muitos anosao estudo das relaes entre lngua, ensino de lngua efenmenos sociais, at hoje no encontrei uma nica obra assinada por lingista de formao ou por educadorprofissional que negasse a importncia do ensino danorma-padro na escola brasileira, que pregasse a idia torpe
  • 167. de que no se deve ensinar as formas prestigiosas da lngua,ou que preconizam que os ignorantes continuem a s-lo,para citar as palavras infelizes da reportagem de VEJA. Entre os membros da comunidade acadmico-cientficaque no se intimidam diante da presso esmagadora dassupersties, mitos e esteretipos sobre a lngua podemoscitar a Profa. Magda Soares (reconhecida como uma das maisimportantes educadoras brasileiras de todos os tempos) e oProf. Srio Possenti (que nunca teve papas na lngua paradenunciar e demolir cientificamente os absurdos proferidospor gente como Pasquale Cipro [pg. 177] Neto). Ora, j em1986, Magda Soares, em seu livro (um clssico da educaobrasileira) Linguagem e Escola (Editora tica), escrevia, semhesitao (p. 78): Um ensino de lngua materna comprometido com a luta contra as desigualdades sociais e econmicas reconhece, no quadro dessas relaes entre a escola e a sociedade, o direito que tm as camadas populares de apropriar-se do dialeto de prestgio, e fixa-se como objetivo levar os alunos pertencentes a essas camadas a domin-lo, no para que se adaptem s exigncias de uma sociedade que divide e discrimina, mas para que adquiram um instrumento fundamental para a parti- cipao poltica e a luta contra as desigualdades sociais. Tambm em seu muito divulgado livro Por que (no)ensinar gramtica na escola (Ed. Mercado de Letras, 1996),Srio Possenti faz questo de enfatizar (pp. 17-18): O PAPEL DA ESCOLA ENSINAR LNGUA PADRO [...] adoto sem qualquer dvida o princpio (quase evidente) de que o objetivo da escola ensinar o portugus padro, ou, talvez mais exatamente, o de criar condies para que ele seja aprendido. Qualquer outra hiptese um equvoco poltico e ideolgico.
  • 168. E eu mesmo, que no tenho hesitado em combaterabertamente a manuteno das concepes arcaicas epreconceituosas de lngua, escrevi em meu mais recente livropublicado (Portugus ou Brasileiro? Um convite pesquisa,Parbola Editorial, 2001): [...] como responder a pergunta (invariavelmente presente na fala dos professores de lngua): qual o objeto de ensino nas [pg. 178] aulas de portugus? O que devemos ensinar a nossos alunos em sala de aula? Uma resposta concisa e rpida seria: devemos ensinar a norma-padro. J que s se pode ensinar algo que o aprendiz ainda no conhece, cabe escola ensinar a norma-padro, que no lngua materna de ningum, que nem sequer lngua, nem dialeto, nem variedade, como enfatizei acima. Ensinar o padro se justificaria pelo fato dele ter valores que no podem ser negados em sua estreita associao com a escrita, ele o repositrio dos conhecimentos acumulados ao longo da histria. Esses conhecimentos, assim armazenados, constituiriam a cultura mais valorizada e prestigiada, de que todos os falantes devem se apoderar para se integrar de pleno direito na produo/conduo/transformao da sociedade de que fazem parte. Tenho, portanto, a conscincia muito tranqila (comodecerto tambm a tm Magda Soares, Srio Possenti e, defato, a maioria dos lingistas e educadores brasileiroscomprometidos com a democratizao de nossa sociedade)de no fazer parte daquela corrente relativista e de nopoder ser acusado de ter um raciocnio torto. Por isso, voltoa lamentar que o Sr. Joo Gabriel de Lima no tenha dadonome aos bois, para que, juntos, pudssemos combater essesuposto esquerdismo de meia-pataca. No nomear seusadversrios no plano intelectual, no entanto, prticacorrente de pessoas como Pasquale Cipro Neto que, emboraalegando referir-se a alguns lingistas, nunca se d aotrabalho de dizer quem so os idiotas, ociosos edeslumbrados a que se refere. [pg. 179]
  • 169. A grande diferena entre os lingistas e educadores quedefendem o ensino da norma-padro e os apregoa-dores dadoutrina gramatical arcaica est no fato de que j se sabehoje em dia que, para aprender as formas mais padronizadase prestigiosas da lngua, no necessrio conhecer anomenclatura gramatical tradicional, as definiestradicionais, nem praticar a velha e mecnica anlise lexical emuito menos a torturante anlise sinttica. Em seudepoimento a VEJA, O Sr. Pasquale Cipro Neto lamenta queningum mais saiba diferenciar sujeito de predicado, nemmesmo os professores. Ora, todo um longo trabalho deinvestigao terica e de pesquisa em sala de aula noBrasil e no resto do mundo , trabalho que se faz h pelomenos trinta anos, j deixou muito claro que no decorandoas pginas da gramtica normativa que uma pessoa sercapaz de falar, ler e escrever adequadamente s diversassituaes. O j citado M. Stubbs escrevia, em 1987, que Muita gente lamenta o fim do ensino da gramtica formal (anlise sinttica e coisas assim), alegando que ele ajudava as crianas a escrever melhor, com mais preciso e assim por diante. [...] duvidoso que aquele ensino jamais tenha ajudado muita gente a escrever melhor, e ntido que ele afugentou um grande nmero de pessoas. A relao entre anlise e compreenso, e entre compreenso consciente e produo de linguagem efetiva, difcil de demonstrar. E o pedagogo canadense Gilles Gagn, em 1983, j dizia: O uso da lngua procede da inteno para a conveno [...] ao passo que a escola procede infelizmente ao contrrio, isto [pg. 180] , das convenes lingsticas para as intenes de comunicao; intenes, alm disso, quase sempre artificiais e impostas ou sugeridas pelo mestre. E aquele que considerado hoje, inclusive internacio-nalmente, como o nome mais importante da pesquisacientfica sobre o portugus brasileiro contemporneo o
  • 170. Prof. Ataliba T. de Castilho, da USP, atual presidente daAssociao de Lingstica e Filologia da Amrica Latina ecoordenador do grande Projeto da Gramtica do PortugusFalado (projeto apresentado de maneira distorcida epreconceituosa no nmero 1710 de VEJA) escreve com todaclareza em seu livro A lngua falada e o ensino de portugus(Ed. Contexto, 1998): [...] os recortes lingsticos devem ilustrar as variedades socioculturais da Lngua Portuguesa, sem discriminaes contra a fala verncula do aluno, isto , de sua fala familiar. A escola o primeiro contato do cidado com o Estado, e seria bom que ela no se assemelhasse a um bicho estranho, a um lugar onde se cuida de coisas fora da realidade cotidiana. Com o tempo o aluno entender que para cada situao se requer uma variedade lingstica, e ser assim iniciado no padro culto, caso j no o tenha trazido de casa. Desse modo, prossegue o autor, a gramtica deixar de ser vista pelos alunos como a disciplina do certo e do errado, reassumindo sua verdadeira dimenso, que a de esquadrinhar atravs dos materiais lingsticos o funcionamento da mente humana. [pg. 181] Afinal, o que aconteceu, ao longo dos sculos, segundoCastilho, foi que a gramtica, que no era uma disciplina autnoma, assumiu na escola uma vida prpria, desgarrada de suas origens, e concentrada apenas na sentena, na palavra e no som, obscurecendo-se sua argumentao e empobrecendo-se seu alcance. Se existe, porm, uma grande resistncia contra oredimensionamento do lugar do ensino da gramtica naescola porque todos sabemos que, ao longo do tempo, oconhecimento mecnico da doutrina gramatical se trans-formou num instrumento de discriminao e de exclusosocial. Saber portugus, na verdade, sempre significou
  • 171. saber gramtica, isto , ser capaz de identificar por meiode uma terminologia falha e incoerente o sujeito e opredicado de uma frase, pouco importando o que essa frasequeria dizer, os efeitos de sentido que podia provocar etc.Transformada num saber esotrico, reservado a uns poucosiluminados, a gramtica passou a ser reverenciada comoalgo misterioso e inacessvel da surgiu a necessidade demestres e guias, capazes de levar o ignorante aatravessar o abismo que separa os que sabem dos que nosabem portugus... Em concluso, Sr. Editor, gostaria de lhe pedir que, umavez que to amplo espao foi concedido aos defensores daidia medieval de que os brasileiros no sabem falar bem,caberia agora a VEJA conceder igual espao aos verdadeirosespecialistas, s pessoas que dedicam toda sua energia, todasua inteligncia, toda sua vida, enfim, ao [pg. 182] estudodos fenmenos da linguagem humana e proposio denovos mtodos de ensino, capazes de dar voz aos que, porfora de tantas estruturas sociais injustas, sempre forammantidos no silncio. Talvez assim VEJA possa se livrar do riscode ser acusada de promover distores deliberadas dos fatoslingsticos e pedaggicos. Atenciosamente, MARCOS BAGNO [pg. 183]
  • 172. RefernciasALMEIDA, Napoleo M. (1994): Dicionrio de questes vernculas. 2a ed., So Paulo, LCTE.BAGNO, Marcos (1995): A luta desigual. Mito vs. realidade nos livros didticos de lngua portuguesa. Dissertao de Mestrado, Recife, Programa de Ps-graduao em Letras e Lingstica, Universidade Federal de Pernambuco, mimeo.______ (1997): A lngua de Eullia. Novela sociolingstica. So Paulo, Contexto.______ (1999): Pesquisa na escola: o que , como se faz. 2a ed., So Paulo, Loyola.BORTONI-RICARDO, S. M. (1984): Problemas de comunicao interdialetal, in Sociolingstica e ensino do vernculo (Revista Tempo Brasileiro, n 78/79).CARVALHO, A. & RIBEIRO, J. (1998): Nossa palavra. 5 srie. So Paulo, tica.CASTILHO, A. et alii (I: 1990, II: 1992, III: 1993, IV, V, VI: 1996): Gramtica do portugus falado. Campinas, Editora da UNICAMP.CEGALLA, Domingos P. (1990): Novssima gramtica da lngua portuguesa. 33a ed., So Paulo, Cia. Editora Nacional.CIPRO Neto, P. & INFANTE, U. (1997): Gramtica da lngua portuguesa. So Paulo, Scipione.CUNHA, C. & CINTRA, L. E L. (1985): Nova gramtica do portugus contemporneo. Rio de Janeiro, Nova Fronteira.
  • 173. DUARTE, Srgio N. (1998): Lngua viva. Rio de Janeiro, Rocco. [pg. 185]FIGUEIREDO, Cndido de (1929 [1903]): O que se no deve dizer, vol. I. 5a ed., Lisboa, Livraria Clssica Editora.GNERRE, Maurizzio (1985): Linguagem, escrita e poder. So Paulo, Martins Fontes.LOBATO, J. B. Monteiro (1952 [1934]): Emlia no Pas da Gramtica. 3a ed., So Paulo, Brasiliense.LUFT, Celso Pedro (1994): Lngua e liberdade. 3a ed., So Paulo, tica.MARTINS, E. (1999): Com todas as letras. So Paulo, Moderna.MATTOS E SILVA, Rosa V (1997): Contradies no ensino de portugus. So Paulo, Contexto/EDUFBA.NEVES, Ma Helena M. (1990): Gramtica na escola. So Paulo, Contexto.PERINI, Mrio A. (1996): Gramtica descritiva do portugus. 2a ed., So Paulo, tica.______ (1997): Sofrendo a gramtica. So Paulo, tica.POSSENTI, Srio (1997): Por que (no) ensinar gramtica na escola. Campinas, Mercado de Letras.ROCHA LIMA, C. H. (1989): Gramtica normativa da lngua portuguesa. 30a ed., Rio de Janeiro, Jos Olympio.SACCONI, Luiz Antonio (1998): No erre mais! 23a ed., So Paulo, Atual.SILVA, Myrian B. (1993): Leitura, ortografia e fonologia. 2 ed., So Paulo, tica.TERRA, Ernani (1997): Linguagem, lngua e fala. So Paulo, Scipione.TFOUNI, Leda V (1988): Adultos no alfabetizados. O avesso do avesso. Campinas, Pontes Editores. [pg. 186]
  • 174. DISTRIBUIDORES DE EDIES LOYOLA Se o(a) senhor(a) no encontrar qualquer um de nossos livros em sua livraria preferida ou em nossos distribuidores, faa o pedido por reembolso postal : Rua 1822 n 347, Ipiranga - CEP 04216-000 - So Paulo, SP Caixa Postal 42.335 - CEP 04218-970 - So Paulo, SP Tel.: 11 6914-1922 - Fax: 11 6163-4275 vendas@loyola.com.br www.loyola.com.brBAHIA LIVRARIA E DISTRIBUIDORA MULTICAMP LTDA. Rua Direita da Piedade, 203 - Piedade Tel.: (71) 2101-8010/2101-8009 Telefax: (71) 3329-0109 40070-190 Salvador, BA multicamp@uol.com.brMINAS GERAIS ASTECA DISTRIBUIDORA DE LIVROS LTDA. Rua Costa Monteiro, 50 e 54 Bairro Sagrada Famlia Tel.: (31) 3423-7979 Fax: (31) 3424-7667 31030-480 Belo Horizonte, MG distribuidora@astecabooks.com.br ME DA IGREJA LTDA. Rua So Paulo, 1054/1233 - Centro Tel.: (31) 3213-4740 / 3213-0031 30170-131 Belo Horizonte, MG maedaigrejabh@wminas.comRIO DE JANEIRO ZLIO BICALHO PORTUGAL CIA. LTDA. Vendas no Atacado e no Varejo Av. Presidente Vargas, 502 - sala 1701 Telefax: (21) 2233-4295 / 2263-4280 20071-000 Rio de Janeiro, RJ zeliobicalho@prolink.com.br EDITORA VOZES LTDA - SEDE Rua Frei Luis, 100 - Centro 25689-900 Petrpolis, RJ Tel.: (24) 2233-9017 Fax: (24) 2246-5552 vozes62@uol.com.br
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  • 176. Tel.: (71) 3329-2477 / 3329-3668 Fax: (71) 3329-2546 40060-001 Salvador, BABRASLIA EDITORA VOZES LTDA. SCLR/Norte - Q. 704 - Bloco A n. 15 Tel.: (61) 3326-2436 Fax: (61) 3326-2282 70730-516 Braslia, DF vozes09@uol.com.br LIVRARIAS PAULINAS SCS - Q. 05 / Bl. C / Lojas 19/22 - Centro Tel. (61) 3225-9595 Fax: (61) 3225-9219 70300-500 Braslia, DF livbrasilia@pautinas.org.brCEAR EDITORA VOZES LTDA. Rua Major Facundo, 730 Tel.: (85) 3231-9321 Fax: (85) 3231-4238 60025-100 Fortaleza, CE vozes23@uol.com.br LIVRARIAS PAULINAS Rua Major Facundo, 332 Tel.: (85) 226-7544 / 226-7398 Fax: (85) 226-9930 60025-100 Fortaleza, CE [pg. 187]ESPRITO SANTO LIVRARIAS PAULINAS Rua Baro de Itapemirim, 216 - Centro Tel.: (27) 3223-1318 / 0800-15-712 Fax: (27) 3222-3532 29010-060 Vitria, ES livvitoria@paulinas.org.brGOIS EDITORA VOZES LTDA. Rua 3, n 291 Tel.: (62) 3225-3077 Fax: (62) 3225-3994 74023-010 Goinia, GO vozes27@uol.com.br LIVRARIA ALTERNATIVA
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