Filosofia apostila segundo ano

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    29-Jun-2015

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  • 1. Discutindo filosofia a partir de temas Nosso blog: www.sementesdementes.blogspot.com Email: professorfabio@hotmail.com 1 Texto 01: Filosofia ps-moderna - Michel Foucault A genealogia dos micropoderes Jos Renato Salatiel1 Desde crianas, adoramos os super-heris. Torcemos por eles e esperamos que derrotem os viles. So narrativas importantes em nossas vidas, e nos ajudam a assimilar noes de bem e mal, certo e errado. Em geral, nos identificamos tambm como o mais fraco, que desafia o poder do mais forte, como o tmido e fraco Clark Kent, que usa seus poderes secretos, como Superman, para derrotar Lex Luthor. Afinal de contas, tambm somos fracos e o mundo, to cruel, que no custa imaginar que temos algum tipo de superpoder para enfrentar os viles que aparecem pelo caminho. Agora, imaginem a confuso de uma HQ (Histria em Quadrinhos) como Watchmen - cujo filme estria em 2009 -, em que os super-heris cuidam de sua prpria vida, no tm mais uma "causa" pela qual lutar e, pior, alguns deles comportam-se como viles! Escrita nos anos 80 por Alan Moore, o enredo tipicamente ps-moderno. Em uma realidade fragmentada, com um cotidiano multifacetado e sem coeso, como agiriam os super-heris? E como fica a questo do poder? Para responder a essas perguntas, vamos conhecer um pouco do pensamento de Michel Foucault (1926-1984), um dos mais conhecidos e estudados filsofos franceses contemporneos, sendo alinhado, por suas teorias, tanto entre os estruturalistas como entre os ps-estruturalistas ou ps-modernos. De sua obra, nos interessa discutir aqui apenas sua teoria do poder. Poder no plural Antes de Foucault, a teoria poltica concebia o poder como algo que uns tem, outros no, alm de estar associado, mais comumente, figura da Igreja ou do Estado. Toda teoria poltica clssica, de Maquiavel e os contratualistas (Hobbes, Locke e Rousseau) at Marx, discutia-se como legitimar o poder de uns poucos sobre muitos, e assim, manter (ou subverter, no caso de Marx) a ordem social. Foucault entende o poder no como um objeto natural, mas uma prtica social expressa por um conjunto de relaes. Temos que pensar o poder no como uma "coisa" que uns tem e outros no, como, por exemplo, o pai e o filho, o rei e seus sditos, o presidente e seus governados, etc., mas como uma relao que se exerce, que opera entre os pares: o filho que negocia com o pai, os sditos que reivindicam ao rei, os governados que usam dispositivos legais para fiscalizar o presidente, etc. Deste ponto de vista, poder no se restringe ao governo, mas espalha-se pela sociedade em um conjunto de prticas, a maioria delas essencial manuteno do Estado. O poder uma espcie de rede formada por mecanismos e dispositivos que se espraiam por todo cotidiano - uma rede da qual ningum pode escapar. Ele molda nossos comportamentos, atitudes e discursos. Para descobrir como o poder funciona, Foucault vai usar o mtodo genealgico, empregado por Nietzsche para contar a "histria secreta" dos valores (ver o texto "Filosofia ps-moderna - Nietzsche"). Vamos ver alguns exemplos disso. 1 Jos Renato Salatiel jornalista e professor universitrio.

2. Discutindo filosofia a partir de temas Nosso blog: www.sementesdementes.blogspot.com Email: professorfabio@hotmail.com 2 Corpos dceis Uma manifestao externa desses poderes que Foucault analisa diz respeito aos seus efeitos sobre nossos corpos, que ele chama de poder disciplinar e que caracterizou determinadas sociedades no sculo 20. Foucault argumenta que nenhum poder que fosse somente repressor poderia se sustentar por muito tempo, porque uma hora as pessoas iriam se rebelar. Portanto, seu segredo que, ao mesmo tempo em que reprime, gera conhecimento e corpos produtivos para o trabalho. Era comum, e ainda nos dias atuais, encontrarmos ptios escolares em que se formam filas com crianas para entrar nas salas de aula. Depois, na sala de aula, era preciso que as crianas controlassem suas vontades corporais (fome, vontade de fazer xixi, etc.) at que tocasse o sinal. Este um exemplo da domesticao de corpos de que fala o filsofo. Mais tarde, na Igreja, no Exrcito e nas fbricas, esse indivduo viveria a mesma rotina de adestramento corporal. O objetivo? Segundo Foucault, maximizar a utilidade econmica de nossos corpos, para o trabalho, e diminuir a fora poltica e criativa, de contestao, que temos tambm, criaturas cheias de desejos que somos. Afinal de contas, imagine o que seria de uma sociedade, livre de mecanismos de poder, em que quisssemos trabalhar ou estudar na hora em que desse na telha e resolvssemos passar a maior parte do nosso tempo namorando, jogando futebol ou simplesmente no fazendo nada? E, para dar o exemplo para aqueles que so considerados corpos improdutivos para a sociedade, diz Foucault, foram criados asilos para os loucos e prises para os ladres. Desse encarceramento surgem reas de conhecimento como a psiquiatria e a criminologia. Resistncias locais O ponto em que a teoria de poder de Foucault converge com o ps-modernismo que, da mesma maneira que lidamos com o fim das vises totalizantes de mundo, o poder tambm se pulveriza em micropoderes. E, consequentemente, a resistncia aos poderes passa a ser local, em aes cada vez mais regionalizadas. No adianta investir contra o Estado, achando que ele a causa de todos os males. Ele apenas uma das representaes desse poder que se exerce em uma srie de mecanismos, que reproduzimos todos os dias sem ao menos nos darmos conta disso. Por exemplo, quando tratamos com autoritarismo nossos filhos, namoradas ou pais. E onde Foucault identifica estes focos de resistncias locais aos poderes? Nos movimentos ativistas pelos direitos humanos, alm de gays, negros, feministas, ecologistas e outras minorias que se organizaram como plos de contra-poder, principalmente a partir da dcada de 1960, quando emerge o ps-modernismo. Neste nosso mundo ps-moderno, fica cada dia mais difcil saber quem o vilo e quem o mocinho. Os super-heris esto cada vez mais humanos. Ou, como diria Nietzsche, demasiadamente humanos. Sugesto de leitura FOUCAULT, Michel. Microfsica do poder. So Paulo: Editora Graal, 2007. Extrado de: http://educacao.uol.com.br/filosofia/filosofia-pos-moderna-Michel-Foucault.jhtm 3. Discutindo filosofia a partir de temas Nosso blog: www.sementesdementes.blogspot.com Email: professorfabio@hotmail.com 3 TEXTO 02: Ceticismo - Deve se duvidar de tudo Josu Cndido da Silva* Para Kant, o ctico nos lembra de que pensar no um fim, mas uma atividade Se algum lhe perguntasse "O que voc conhece?", voc poderia pensar em uma poro de coisas, a maioria delas adquiridas em sua experincia cotidiana. Mas se a pessoa insistisse e perguntasse "Algo do que voc sabe realmente verdade? Apostaria sua vida nisso?", essas questes complicariam um bocado as coisas. Eu, por exemplo, poderia dizer que tenho certeza que sou filho dos meus pais, mas talvez eu tivesse sido adotado ou trocado na maternidade e estar enganado a esse respeito. Poderia ainda estar enganado sobre uma srie de outras coisas que at ento julgava certas. E se reparar direito, tudo o que eu tenho so crenas, algumas at muito razoveis, mas nada de que eu possa dizer que uma verdade irrefutvel. Percebo, ento, que me falta um parmetro para examinar as minhas crenas e verificar quais so realmente certas e quais so falsas. Condies universais de validade Durante a histria da filosofia, vrios foram os filsofos que tentaram estabelecer as condies para que algo fosse tomado como absolutamente verdadeiro, isto , uma verdade que independesse de fatores circunstanciais e que fosse algo que no fosse verdadeiro para mim ou para um grupo de pessoas, mas para todos os seres racionais. Voc deve estar cansado de ver por a grupos de pessoas com crenas estranhas, que dizem que eles esto certos e todos os outros enganados. Nesse caso, como decidir quem est certo? Votando? Mas se a maioria estiver errada e o pequeno grupo estiver certo, nunca conheceremos a verdade porque eles sempre perdero nas votaes. preciso que se trate de uma verdade universal, isto , vlida para todos, tanto para a maioria quanto para as minorias. Portanto, o que os filsofos investigam so as condies universais de validade, aquelas condies que independem das opinies particulares que eu ou voc possamos ter. Ceticismo Na investigao sobre as condies de validade do nosso conhecimento um grupo de filsofos merece destaque: os cticos. O termo ctico vem da palavra grega skepsis, que significa "exame". Atualmente, dizemos que uma pessoa ctica algum que no acredita em nada, mas no bem assim. Um filsofo ctico aquele que coloca suas 4. Discutindo filosofia a partir de temas Nosso blog: www.sementesdementes.blogspot.com Email: professorfabio@hotmail.com 4 crenas e as dos outros sob exame, a fim de verificar se elas so realmente dignas de crdito ou no. Pirro de Elis (360-275 a.C.) considerado o fundador do ceticismo. Segundo ele, no podemos ter posies definitivas sobre determinado assunto, pois mesmo pessoas muito sbias podem ter posies absolutamente opostas sobre um mesmo tema e timos argumentos para fundamentar suas posies. Nesse caso, Pirro nos aconselha a suspenso do juzo e a mantermos nossa mente tranqila (ataraxia). Ao invs de enfrentarmos o desgaste de acalorados debates que no produziro certeza alguma, devemos manter silncio (apraxia) e preservar uma atitude de suspeita diante de qualquer tipo de dogmatismo. Depois de Pirro, muitos outros filsofos tornaram o ceticismo uma das mais importantes correntes filosficas at os dias de hoje. Atualmente, alguns cticos defendem o probabilismo ou falibilismo, ou seja, na impossibilidade de encontrarmos verdades absolutas, seja pelas limitaes de nossos sentidos e intelecto, seja pela complexidade da realidade, devemos tratar nossas crenas sempre como provisrias, como quem anda em gelo fino. Desse modo, um ctico nunca seria pego de surpresa se algo que todos acreditavam ser verdade se revelasse falso no futuro. Por outro lado, reconhecer que as verdades so provisrias no significa uma completa inao. Sabemos que os remdios so falhos, mas so a nica coisa que temos para combater as doenas. Isso tambm vale para o campo da tica. O filsofo Montaigne propunha que vivssemos em harmonia com os costumes de nosso povo ou cultura, pois embora eles sejam falhos, so to falhos quanto os de qualquer outro povo, no havendo razo para preferir este a aquele. Despertar do sono dogmtico Conta a lenda que Pirro morreu enquanto dava aula de olhos vendados. Um aluno o teria alertado quanto ao precipcio sua frente. Ctico, Pirro desconfiou do aluno e caiu. Essa lenda, obviamente, pretende mostrar os perigos de se duvidar de tudo. Mas ser que um ctico autntico no duvidaria tambm de suas prprias dvidas? Odiado por alguns, o ctico como a abelha que aferroa o boi do conhecimento, retirando-o da mesmice das ideias prontas e acabadas, nos provocando, por meio da dvida, a investigar a fundo os pressupostos de nossas crenas; ou, como diria Kant, o ctico aquele que nos desperta do nosso sono dogmtico para lembrar-nos que pensar no um fim, mas uma atividade. Extrado de http://educacao.uol.com.br/filosofia/teoria-conhecimento-ceticismo.jhtm Anotaes de aula 5. Discutindo filosofia a partir de temas Nosso blog: www.sementesdementes.blogspot.com Email: professorfabio@hotmail.com 5 TEXTO 03 Como e para que se estabelece um governo democrtico Plenrio da Cmara dos Deputados do Brasil Para voc pensar O processo democrtico pode ser prejudicado pelo desvirtuamento da atividade poltica, quando ela se volta para interesses particulares, ou se faz ao sabor de casusmos, oportunismos e conchavos. Mas ser que a culpa disso pode ser atribuda somente classe poltica? A prpria populao, tambm, no seria responsvel pelo problema, caso ela assuma uma postura despolitizada e no- participante? Suponha que voc se tornou amigo de um estrangeiro que acabou de chegar ao Brasil para passar as frias. Imagine que, um dia, ele lhe perguntar se o Brasil uma democracia. O que voc iria responder? Em princpio, bem provvel que sua resposta seja afirmativa e, de fato, se for assim, ela estar correta. H cerca de 20 anos, o Brasil uma democracia, e essa condio foi conquistada pelo nosso prprio povo, que agentou um governo ditatorial, imposto pelos militares, de 1964 a 1985. Mas o que significa dizer que o Brasil uma democracia? Bem, num primeiro momento, talvez seja possvel dizer que o Brasil uma democracia porque elegemos nossos governantes, porque os direitos dos cidados brasileiros so estabelecidos por leis, que tambm os garantem, porque - ao menos em tese - somos todos iguais perante as leis, porque existe liberdade de imprensa etc. Por outro lado, algum poderia questionar o carter democrtico de nosso pas, levando-se em conta nossos altos ndices de pobreza e misria, isto , o fato de estarmos num pas cuja distribuio de renda est esntre as piores do mundo. Alm disso, sabemos que h uma diferena muito grande do tratamento que o Estado dedica aos ricos e aos pobres. Isso sem falar na questo da corrupo que - entra governo e sai governo - parece jamais acabar. Forma e substncia Bem, o Brasil uma democracia, mas isso - por si s - no resolve todos os seus problemas. Para resolv-los, talvez o primeiro passo fosse justamente aprofundar a compreenso que temos do conceito de democracia. Para isso, em primeiro lugar, importante estabelecer uma distino entre os aspectos formais e substanciais de uma democracia. O aspecto formal da democracia constitui-se no conjunto das instituies caractersticas deste regime poltico. Entre elas, destacam-se as eleies livres, o voto 6. Discutindo filosofia a partir de temas Nosso blog: www.sementesdementes.blogspot.com Email: professorfabio@hotmail.com 6 secreto e universal, a autonomia dos poderes de Estado (Executivo, Legislativo e Judicirio), a existncia de mais de um partido poltico, e a liberdade de pensamento, expresso e associao. Em outras palavras, estamos nos referindo s regras do "jogo" democrtico, ao estabelecimento dos meios pelos quais a democracia posta em prtica. J o aspecto substancial aquele que se refere aos resultados do processo, aos fins a serem alcanados. Aqui se destaca, em primeiro lugar, a existncia efetiva - e no somente em tese - da igualdade jurdica e poltica dos cidados. Ao mesmo tempo, deve- se levar em conta tambm as desigualdades econmicas, que deveriam ser as menores possveis. Ainda que as pessoas sejam diferentes e integrem grupos sociais diversos, ningum pode ser privilegiado ou discriminado no tocante a direitos bsicos. Todos devem ter a possibilidade de acesso aos bens materiais bsicos como moradia, alimentao e sade, e ainda aos bens culturais, em todos os nveis: educao, profissionalizao, lazer, arte, etc. Democracia e estado de direito Atingir uma democracia substancial, porm, s possvel a partir do momento em que se respeitam as regras do jogo. Nesse sentido, antes de mais nada, a democracia pressupe a existncia de um estado de direito, ou seja, o respeito s leis, das quais a principal a Constituio do pas. Alm disso, fundamental a autonomia dos Poderes legislativo e judicirio. Uma das caractersticas do autoritarismo e da ditadura a submisso dos poderes legislativo e judicirio ao executivo. Na poca da ltima ditadura militar no Brasil, a presidncia da Repblica emitia atos institucionais e decretos-leis, que no precisavam ser nem debatidos nem aprovados pelo Congresso Nacional. Na verdade, a democracia brasileira ainda no conseguiu se livrar totalmente desse vis autoritrio e ainda constante o recurso s medidas provisrias pelo poder executivo, que temporariamente passam por cima do legislativo. Para ser de fato substancial, a democracia no pode permitir a prevalncia de um poder executivo sobre os outros e deve estar baseada em uma legislao que realmente atenda ao interesse da sociedade. Ao mesmo tempo, precisa contar com um poder judicirio eficiente e capaz de resistir s presses, em especial do poder econmico, de modo que qualquer cidado - rico ou pobre - possa obter justia. O pblico e o privado particularmente importante observar o respeito res publica, coisa pblica, que no pode se sujeitar a interesses privados ou particulares. Por isso, o poder poltico deve ser exercido de modo institucional e no pessoal. Quem est no poder encontra-se nessa posio enquanto representante do povo. Ele no o dono do poder. Sua posio transitria e ser ocupada tambm por outras pessoas, pois est estabelecida a rotatividade do exerccio do poder. Alis, na democracia, o acesso ao poder se faz de forma ascendente, isto , de baixo para cima. A maioria da populao, a base da sociedade, escolhe seus governantes, contando com os recursos de, no mnimo, dois partidos polticos: o que governa (aps eleito) e o que a ele se ope, fiscalizando e questionando seus atos, tendo em vista o interesse geral da populao. De fato, a democracia supe o consenso, isto , a aceitao geral das regras estabelecidas aps as discusses. Isso, porm, no elimina a existncia do dissenso, isto , a possibilidade de discordar, sempre que necessrio. Alis, uma caracterstica essencial da democracia a aceitao do confronto ou do conflito, como expresso das opinies divergentes. Faz parte do processo democrtico a conversao e a negociao para solucionar os conflitos. 7. Discutindo filosofia a partir de temas Nosso blog: www.sementesdementes.blogspot.com Email: professorfabio@hotmail.com 7 Sociedade civil Alm disso, a multiplicao dos rgos representativos da sociedade civil - ou seja, de quem no est nas instncias governamentais - amplia e aprofunda o regime democrtico na medida em que ativa as formas de participao popular. isto que faz da democracia um regime que no tem apenas um nico centro, mas cujo poder se irradia de diversas alas da sociedade. Nesse sentido, so fundamentais as organizaes - ocasionais ou permanentes - que representam interesses de setores da coletividade. o caso das associaes de bairros, dos mutires, grupos contra a violncia, grupos ecolgicos, ao lado de outras importantes instituies como a Ordem dos Advogados do Brasil, a Associao de Imprensa, os partidos polticos, os sindicatos, etc. A difuso de poderes d condies para o melhor cumprimento da vontade geral, bem como para o controle dos abusos e arbitrariedades. Ao mesmo tempo, colabora com a transparncia das aes nas diversas instncias de poder. Extrado de: http://educacao.uol.com.br/historia/ult1704u68.jhtm Anotaes de aula 8. Discutindo filosofia a partir de temas Nosso blog: www.sementesdementes.blogspot.com Email: professorfabio@hotmail.com 8 TEXTO 4 Democracia: Participao direta e indireta Sesso do Senado norte-americano Voc j sabe que a democracia um regime de governo caracterizado pela participao popular. Entretanto, o modo por meio do qual essa participao se d, permite estabelecer uma diferena entre dois tipos de democracia. Ao menos, assim refletiram os diversos filsofos que, durante o sculo 18, se debruaram sobre a questo. Esses dois tipos de democracia so ao mesmo tempo divergentes e complementares. Vamos tentar entender o porqu desse paradoxo, mas, antes disso, preciso ficar mais claro do que estamos falando. Ento, quanto ao modo de participao popular, a democracia pode ser: direta: em que todos os indivduos de uma coletividade manifestam sua opinio sobre os assuntos concernentes a esta mesma coletividade, votando em assemblias ou reunies coletivas; representativa: em que a coletividade elege representantes a quem delega o poder para tomar as decises. Histria da democracia O regime de governo democrtico originou-se em Atenas, na Grcia da Antigidade, conhecendo seu apogeu no sculo 5 a.C. Tratava-se precisamente de um regime em que o "povo" se manifestava diretamente, reunindo-se e votando em assemblias, para tomar as decises a respeito da vida da sua cidade. Todo cidado ateniense tinha no s o direito, como tambm o dever de participar dessas assemblias. Todos os cidados eram iguais perante a lei e tinham o direito no s a votar, como tambm expressar sua opinio e defender o seu ponto de vista, convencendo outros a votar como ele. A princpio, esse pode lhe parecer o melhor dos mundos, mas, a bem da verdade, no era bem assim. Ser um cidado ateniense no era uma condio de que usufruam todos os habitantes de Atenas. Naquela sociedade, as mulheres, os escravos e os estrangeiros no eram considerados cidados. Por isso, estavam totalmente excludos das grandes decises. Desse modo, somente 10% do povo de Atenas estavam aptos a participar da democracia. Democracia ateniense De qualquer maneira, o simples surgimento do ideal democrtico importantssimo: tratava-se de um novo valor, que se contrapunha aos regimes de governo anteriores, que, segundo a definio de Aristteles, so a monarquia (o governo de um s, o rei) e a aristocracia, o governo de um grupo de elite (seja econmica, militar, tecnolgica). Ou, trocando em midos, em que um ou alguns poucos mandam e aos outros s resta obedecer. 9. Discutindo filosofia a partir de temas Nosso blog: www.sementesdementes.blogspot.com Email: professorfabio@hotmail.com 9 Apesar da experincia democrtica ateniense, os principais filsofos gregos, como Scrates, Plato e o prprio Aristteles, viam com certa reserva, quando no com desprezo, a democracia. Bem, no fundo, eles eram sbios e, por isso mesmo, acreditavam que s os sbios deveriam exercer o governo, numa ordem social que poderia ser monrquica ou aristocrtica... Democracia na modernidade Historicamente, depois da Grcia e de Roma, as idias democrticas s iro reaparecer com maior fora na Idade Moderna, a partir dos sculos 17 e 18. Nessa poca, os abusos de poder dos monarcas levaram os intelectuais a discutir os poderes absolutos do governante, questionando o que tornava legtimo qualquer poder de qualquer governo. Contra o absolutismo em vigor, ergueu-se o liberalismo. As idias liberais se revoltaram contra a ordem aristocrtica que vinha da Idade Mdia, quando o poder poltico e a propriedade tinham transmisso hereditria: os herdeiros do rei e dos nobres recebiam no s as terras e os bens de seus antepassados, como tambm o poder sobre os homens que viviam em suas propriedades. O pensamento liberal, ao contrrio, estabeleceu uma distino entre a esfera pblica e a privada, entre a sociedade poltica e a sociedade civil. Para um filsofo liberal, como John Locke, o poder s exercido com legitimidade se tiver origem parlamentar. O que isso significa? Isso significa que ningum tem o direito de ocupar um cargo poltico s porque nasceu numa famlia nobre. Representantes do povo O direito ao poder, para Locke, depende de um mandato popular. Nesse sentido, a representao poltica s adquire legitimidade se tiver surgido da vontade dos cidados, expressa pelo voto. Os cidados elegem representantes para defender seus interesses junto ao governo. Mais uma vez, porm, a representao popular a que se refere o liberalismo dos sculos 17 e 18, no deixava de ser elitista. Abrangia somente os grupos sociais mais favorecidos. O voto era censitrio, isto , dependia de um censo - imposto pago para se obter a condio de eleitor. Com isso, a grande maioria da populao estava excluda do processo poltico e as decises continuavam restritas queles que possuam renda e propriedades. Alm da representao Ainda no sculo 18 - enquanto se levantava e valorizava a questo da legitimidade da representao - um outro filsofo, Jean-Jacques Rousseau defendia um novo enfoque para a democracia direta da velha Grcia. Para ele, as sociedades humanas so construdas a partir de um pacto ou contrato social. Por meio desse acordo, cada indivduo aliena seu poder em favor da coletividade. Entretanto, a vontade geral no poderia jamais ser alienada nem representada. Ou seja, para Rousseau, os deputados e governantes no so representantes do povo, mas apenas seus agentes. Assim, devem estar subordinados soberania popular, que toma decises por meio de assemblias, plebiscitos e referendos. Vontade geral o conceito bsico para compreender como Rousseau encarava a democracia. No seu modo de ver as coisas, todo indivduo - ao mesmo tempo - uma pessoa privada e uma pessoa pblica (cidado): enquanto pessoa privada, ela trata de seus interesses particulares; enquanto pessoa pblica faz parte de um corpo coletivo que tem interesses comuns. 10. Discutindo filosofia a partir de temas Nosso blog: www.sementesdementes.blogspot.com Email: professorfabio@hotmail.com 10 Problemas e conflitos Mas nem sempre o interesse de um coincide com o de outro, pois muitas vezes o que beneficia uma pessoa em particular pode ser prejudicial ao interesse coletivo. Nesses termos, aprender a ser cidado justamente saber distinguir qual a vontade geral, tpica do interesse de todos, mesmo que revelia dos seus prprios interesses enquanto pessoa particular. Rousseau no era ingnuo a ponto de desconhecer as dificuldades de implantao de uma democracia direta, sobretudo em naes de territrio extenso e grande densidade populacional. No mundo de hoje, de fato, ela parece invivel. Imagine que fosse necessrio colher a opinio de cerca de 120 milhes de brasileiros cada vez que uma deciso governamental tivesse de ser tomada... Tentativa e erro Por outro lado, alguns instrumentos da democracia direta - como os plebiscitos e os referendos - so muitas vezes fundamentais para a vontade da maioria prevalecer sobre os interesses minoritrios. Para haver participao popular no exerccio do poder, contudo, necessrio que os cidados sejam politizados: saibam o que querem ou do que precisam e conheam aqueles que agiro a bem do interesse comum. Caso contrrio, a manipulao, a corrupo e o jogo de interesses acabam transformando a maioria da populao numa massa de manobras, que agir em detrimento de seus prprios interesses e necessidades. Na verdade, a cidadania e a democracia se aprendem no seu prprio exerccio. Como dizia Aristteles, "s construindo podemos nos tornar mestres de obra". um processo de tentativa e erro, no qual os brasileiros, por sinal, parecem ter errado mais do que acertado nos ltimos anos... De qualquer modo, a nica alternativa continuar tentando. Extrado de http://educacao.uol.com.br/filosofia/ult1704u69.jhtm Anotaes de aula