ESCRITAS URBANAS VOZES SILENCIADAS

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    01-Sep-2014

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ESCRITAS URBANAS VOZES SILENCIADAS HYPOLITO, Brbara de Brbara PROGRAU/UFPEL barbarahypolito@hotmail.com ROCHA, Eduardo PROGRAU/UFPEL amigodudu@pop.com.br Palavras-chave: arte, escrita, experincia urbana Introduo Esta pesquisa vincula-se dissertao de mestrado em andamento, na rea de Arquitetura e Urbanismo, intitulada O corpo espontneo inserido na cidade dura e tem como objetivo analisar articulaes entre corpo e cidade; lanando um olhar investigativo sobre a cidade contempornea (SECCHI, 2006; MAGALHES, 2007) e as experincias urbanas (AGAMBEM, 2009; JACQUES, 2008), possibilitada por sua configurao espacial; tendo nas escritas urbanas (graffiti, pichao, etc.) um dispositivo capaz de propor hipteses acerca da sua qualidade em afectar a leitura do espao urbano e dos corpos em um constante processo de desterritorializao e reterritorializao (DELEUZE; GUATTARRI, 1995) durante a experincia urbana. A relao que os corpos estabelecem no espao urbano e as foras geradas mutuamente o que trata a corpografia urbana (JACQUES, 2008), estudo ao qual se alia esta pesquisa, permitindo ler o ambiente urbano a partir da experincia do corpo no seu espao de deslocamento e vivncia cotidiana a cidade. Metodologia A pesquisa tem cunho qualitativo e utiliza-se do mtodo cartogrfico (ROLNIK, 1989) - apostando na experimentao do pensamento e dando voz aos afetos que pedem passagem, mergulhando nas intensidades deste nosso tempo, atentando s linguagens encontradas e devorando aquelas que parecem elementos possveis para a composio desta cartografia. Os procedimentos adotados foram pesquisa de campo, levantamento fotogrfico, conversa-observao in loco, reviso bibliogrfica, anlise do Filme Documentrio Pixo (2009) e estudo de caso na cidade de Pelotas/RS. Os resultados apresentados so parciais, visto que o estudo encontra-se em andamento, dando sequncia a pesquisa de mestrado. O mapa encontra-se em construo. Resultados e discusso As escritas urbanas (graffiti e pichao) so intervenes que se utilizam da cidade e da arquitetura como suporte e instrumento de ao, comunicao e protesto. So elementos que interferem constantemente no cotidiano da experincia urbana, na construo e leitura da cidade e na constituio de sujeitos no contexto urbano e social das cidades contemporneas; relacionando escrita, arte, urbanismo, prticas sociais, desejos e criao de espaos relacionais. So discursos visuais na e da cidade e implicam diferentes relaes tico-estticas (GUATARRI, 1990) no desenho urbano e na experincia do corpo pela cidade; caracterizam-se por uma linguagem prpria marcada pela necessidade de expresso e transgresso, e por meio da qual alguns grupos almejam transformar a realidade social. O graffiti e a pichao so termos popularmente associados, no entanto, diferenciam-se em muitos aspectos, principalmente, segundo Ramos (1994) na linguagem empregada, na esttica e na forma de apropriao dos espaos urbanos. Ao graffiti associa-se uma preocupao esttica na ao, interessa aqui o processo de criao, com enfoque ao produto final valorizando o resultado do trabalho e o espao em que se est inserindo. Quem produz arte, transforma a realidade, cria outras possibilidades de existncia num ato de criao e recriao, de si mesmas e de quem atingido. A produo da arte urbana modifica a vivncia cotidiana do sujeito com a cidade que habita, aumentam s possibilidades da relao corpo-cidade, produz novos sentidos, participando no processo de construo de sujeitos e na produo de suas subjetividades; construindo uma cidade sempre em devir (FURTADO, 2009, p. 1290), um constante vir a ser. A pichao como conceito um produto brasileiro designado para os escritos urbanos compostos por letras estilizadas, com poucas cores e de rpida reproduo, com enfoque ao ato (tem um tom de protesto e de reconhecimento). O filme documentrio Pixo (2009) aborda sobre essa forma nica de expresso na cidade de So Paulo, a partir de relatos de pichadores, fotgrafos e artistas sobre a experincia do Pixo e sua repercusso. Na fala do fotgrafo Choque (2009) esto as origens da pichao no Brasil: A primeira pichao no Brasil a pichao poltica contra a ditadura que comeou na dcada de 60, que era o tpico abaixo a ditadura e onde o cunho era s poltico, no tinha a preocupao esttica com as letras, era uma esttica legvel para qualquer alfabetizado ler. Depois da pichao da ditadura, que a pichao poltica, vieram as pichaes poticas que como o prprio nome diz so frases poticas. No comeo da dcada de 80, sendo um desdobramento do movimento punk, que tambm era pichao de cunho poltico, vem a pichao de So Paulo que um pouco mais focado no ego no pichador. O precursor foi o co fila Km 26, que no foi um pichador como a gente conhece hoje em dia, ele era dono de um canil que vendia co fila e saiu espalhando pela cidade inteira essa pichao co fila Km 26. (CHOQUE, In: Filme Documentrio PIXO, 2009) O fotgrafo salienta ainda que a cidade de So Paulo se tornou um agente verticalizador das letras (CHOQUE, 2009), ou seja, a escrita da pichao segue as linhas guias da cidade, como se esta fosse um grande caderno de caligrafia aonde os pichadores vo preenchendo os espaos. A esttica da escrita est na elaborao das marcas: O pichador busca originalidade na criao dos letreiros, existe um processo criativo muito bem elaborado para ele criar a marca dele. Quando a pichao surgiu na dcada de 80, esses jovens eram muito influenciados pela cultura do heavy metal, punk rock, hardcore, rock. Eles se inspiraram para criar o logo deles nos logos das bandas de rock, e por sua vez, esses logos foram inspirados nas runas anglo-saxnicas de milhares de anos atrs, e na verdade, essas runas so o primeiro alfabeto da Europa, dos povos germnicos, escandinavos, dos anglo-saxes, e os pichadores se apropriaram dessa escrita e criaram em cima, uma antropofagia, no uma simples cpia das runas uma criao, uma evoluo em cima disso. impressionante como a escrita de povos brbaros de milhares de anos atrs migrou para So Paulo, para os povos brbaros de So Paulo, os pichadores. (CHOQUE, In: Filme Documentrio PIXO, 2009) Outros relatos demonstraram as motivaes do movimento, que se do pela busca de adrenalina, reconhecimento, rebeldia, para que sejam visualizados nas ruas mais movimentadas da cidade; sempre fugindo da polcia e da ilegalidade dessa ao de protesto, afirmada na frase Arte como crime, crime como arte. O pichador categorizado de acordo com o local de aplicao do Pixo, existem os que se utilizam de muros, janelas, prdios ou escaladas que o top de linha dentre as categorias e aqueles que fazem todos os tipos; o que importa a quantidade; quanto mais letreiros existirem na cidade, com o logo de uma crew (grupo de pichadores) ou do prprio pichador, mais reconhecimento ter. A pesquisa de campo na zona porturia (prxima zona universitria) da cidade de Pelotas/RS, acompanhada de levantamento fotogrfico, demonstrou a intensidade dessas manifestaes em muros abandonados, equipamentos urbanos e fachadas privadas, que vo desde a pichao de cunho potico, passando pelas de cunho poltico e letreiros com as logos das crews at o graffiti de desenhos dos mais diversos. As escritas de cunho potico parecem querer lembrar a sociedade da beleza e das potncias de se viver em comunidade; as de cunho poltico alertam para a misria, a diferena social instaurada, o crime e os movimentos poltico e sociais. O graffiti, se mostra mais como arte urbana, abusando de cores e texturas com imagens abstratas ou realistas. Todas essas manifestaes passam a entrar na dinmica urbana de forma interativa (GITAHY, 1999) evidenciando as desimportncias urbansticas (RAMOS, 1994), assim como o flagra de que as cidades se desenvolvem sem atender as demandas reais de sua sociedade. Arquiteturas abandonadas, muros, fachadas, tapumes, prdios pblicos e privados so alvos dessas expresses. Segundo Guilherme (grafiteiro pelotense, em entrevista realizada no dia 08 de agosto de 2013 pela autora dessa pesquisa) o graffiti traz a galeria de arte pra rua, aos olhos de todos, gratuita e disponvel a todos aqueles que circulam pela cidade (GUILHERME, 2013). O graffiti e a pichao criticam a estrutura da cidade, suas territorialidades, suas regulamentaes, seus espaos definidos de expresso, comunicao e dilogo, e constituem linhas de fuga e resistncia dentro das propostas padronizadas, funcionais e restritivas de organizao urbana. (FURTADO, 1994, p.1294) O graffiti, ento, questiona os territrios, as regulamentaes impostas ao espao, estrutura e imagem da cidade, se fazem na incerteza da durao, do olhar, do apagamento, da resistncia e dos significados que causaro. Um estudo de caso, sobre a aplicao de graffiti em fachada privada (Bairro Areal, Pelotas/RS) foi realizado. Entrevistas com a proprietria e com o grafiteiro averiguaram modificaes da relao dos moradores, vizinhos e transeuntes do espao pblico acerca da experincia. Os resultados, segundo a proprietria, so de que o graffiti possibilitou a identificao da casa, gerou a aproximao, de vizinhos e transeuntes, e aumentou o dilogo (ALLEMAND, 2013). Ela considera a importncia de inserir a arte ao meio ambiente, no cotidiano das pessoas que passam a ter um contato direto com as artes plsticas. Parece que as pessoas percebem mais a casa, e a gente. Antes eu notava uma barreira. Porque a nossa casa fica bem numa zona de fronteira, no bairro Leocdia, na esquina onde uma rua de cho batido e a outra pavimentada, e o graffiti passou a estabelecer uma relao de incluso com os vizinhos. (ALLEMAND, 2013) O artista responsvel pela pintura (GUILHERME, 2013) argumentou que sua inteno mudar a rotina das pessoas e deixar a cidade mais colorida, revitalizando-a; salienta tambm que a primeira reao do pblico de surpresa, de resistncia, e que depois se acostumam e se apropriam, interagindo de forma eficaz com os espaos pblicos de interveno. Consideraes finais Apesar de cada vez mais dura, a cidade ganha vida com a arte inscrita em seus muros e abandonos. Ela o lugar de atuao, de constituio de prticas e de redes coletivas de significao (FURTADO, 2009) tendo no graffiti a produo de outra cidade contida nela prpria. Numa atividade onde o artista, grafiteiro, rouba, se apropria de um muro, uma fachada, e devolve um espao revitalizado comunidade, que responde dialogando, questionando, deixando seus corpos serem invadidos pela surpresa e pelos novos sentidos que lhe causaro. A arte e a escrita urbanas so manifestaes da contemporaneidade que contribuem com a reflexo sobre as relaes entre arte, esttica, interveno e constituio de sujeitos no mbito da experincia urbana, possibilitando novas formas de os indivduos habitarem, se expressarem e se relacionarem com o meio urbano - a cidade. Elas evidenciam problemas e a necessidade de expresso de uma parte da sociedade que v suas vozes silenciadas pelo poder. Referncias AGANBEM, Giorgio. O que contemporneo? E outros ensaios. trad. Vinicius Nacastro Honesko. Chapec, SC: Argos: 2009. DELEUZE, Gilles; GUATTARRI, Felix. Mil Plats Capitalismo e Esquizofrenia. Vol. 1. So Paulo: 34 Ltda, 1995. FURTADO, Janana; ZANELLA, Andria Vieira. Graffiti e cidade: sentidos da interveno urbana e o processo de constituio dos sujeitos. In: Revista Mal-estar e Subjetividade Fortaleza Vol. IX N 4 p. 1279-1302 dez/2009. GITANY, C. O que graffiti. So Paulo: Brasiliense, 1999. Coleo primeiros passos. GUATTARRI, Flix. As trs ecologias. Traduo Maria Cristina F. Bittencourt. Campinas: Papirus, 1990. JACQUES, Paola Berenstein; BRITO, Fabiana Dultra. Corpografias urbanas: relaes entre o corpo e a cidade. In: LIMA, Evelyn F. Werneck (org.). Espao e teatro: do edifcio teatral cidade como palco, Rio de Janeiro: 7letras, 2008. MAGALHES, Srgio Ferraz. A cidade na Incerteza: Ruptira e continuidade em urbanismo. Rio de Janeiro: Ed. PROURB, 2007. RAMOS, Clia Maria A. Grafite, pichao & Cia. So Paulo: Annablume, 1994. ROLNIK, Suely. Cartografia Sentimental, Transformaes contemporneas do desejo. So Paulo: Estao Liberdade, 1989. SECCHI, Bernardo. Primeira Lio de Urbanismo. So Paulo: Perspectiva, 2006. PIXO. Filme documentrio. Direo: Joo Wainer e Roberto T. Oliveira. So Paulo: Sindicato Paralelo Filmes, 2009. (61 min.) son., color. Fonte: Acessado em: 01 de setembro de 2013.