A relao entre a cincia e a filosofia

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    11-Jul-2015

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A relao entre a cincia e a filosofia Lawrence Sklar Universidade de Michigan A demarcao das cincias naturais em relao filosofia foi um processo longo e gradual no pensamento ocidental. Inicialmente, a investigao da natureza das coisas consistia numa mistura entre o que hoje seria visto como filosofia (consideraes gerais das mais vastas sobre a natureza do ser e a natureza do nosso acesso cognitivo a ele) e o que hoje seria considerado como prprio das cincias particulares (a acumulao de factos da observao e a formulao de hipteses tericas gerais para explic-los). Se olharmos para os fragmentos que nos restam das obras dos filsofos pr-socrticos, encontraremos no s tentativas importantes e engenhosas para aplicar a razo a questes metafsicas e epistemolgicas vastas, mas tambm as primeiras teorias fsicas, simples mas extraordinariamente imaginativas, sobre a natureza da matria e os seus aspectos mutveis. Na poca da filosofia grega clssica j podemos encontrar uma certa separao entre as duas disciplinas. Nas suas obras metafsicas, Aristteles faz claramente algo que hoje seria feito por filsofos; mas em muitas das suas obras de biologia, astronomia e fsica encontramos mtodos de investigao que so hoje comuns na prtica dos cientistas. medida que as cincias particulares, como a fsica, a qumica e a biologia, foram aumentando em nmero, canalizando cada vez mais recursos e desenvolvendo metodologias altamente individualizadas, conseguiram descrever e explicar os aspectos fundamentais do mundo em que vivemos. Dado o sucesso dos investigadores das cincias especficas particulares, h muito quem pergunte se ainda restar algo para os filsofos fazerem. Alguns filsofos pensam que existem reas de investigao que so radicalmente diferentes das que pertencem s cincias particulares, como, por exemplo, a investigao sobre a natureza de Deus, sobre o "ser em si" ou sobre qualquer outra coisa do gnero. Outros filsofos tentaram de vrias maneiras encontrar uma rea remanescente de investigao em filosofia que estivesse mais prxima dos desenvolvimentos mais recentes e sofisticados das cincias naturais. Segundo uma perspectiva mais antiga, que foi perdendo popularidade ao longo dos sculos sem nunca desaparecer inteiramente, existe uma maneira de conhecer o mundo que nos seus fundamentos no precisa de depender da investigao observacional ou experimental prpria do mtodo das cincias particulares. Esta perspectiva foi influenciada parcialmente pela existncia da lgica e matemtica puras, cujas verdades firmemente estabelecidas no parecem depender, para que estejam garantidas, de qualquer base observacional ou experimental. De Plato e Aristteles a Leibniz e aos outros racionalistas, passando por Kant e pelos idealistas, e mesmo at ao presente, tem persistido a esperana de que, se fssemos suficientemente inteligentes e perspicazes, poderamos estabelecer um corpo de proposies que descreveriam o mundo e que, no entanto, seriam conhecidas com a mesma certeza com que dizemos conhecer as verdades da lgica e da matemtica. Poderamos acreditar nessas proposies independentemente de qualquer apoio indutivo obtido de factos especficos observados. Se dispusssemos de um corpo de conhecimento como esse, no teramos atingido o objectivo procurado durante sculos pela disciplina tradicionalmente conhecida por "filosofia"? Segundo uma perspectiva mais recente, o papel da filosofia no o de funcionar como fundamento ou extenso das cincias, mas como sua observadora crtica. A ideia a de que as disciplinas cientficas particulares usam conceitos e mtodos. As relaes entre os diversos conceitos, embora estejam implcitas no seu uso cientfico, podem no ser explicitamente claras para ns. O papel da filosofia da cincia seria assim o de clarificar essas relaes conceptuais. Uma vez mais, as cincias particulares usam mtodos especficos para fazer generalizaes, a partir de dados da observao, em direco a hipteses e teorias. O papel da filosofia, segundo esta perspectiva, o de descrever os mtodos usados pelas cincias e explorar as bases de justificao desses mtodos, isto , compete filosofia mostrar que os mtodos so apropriados para encontrar a verdade na disciplina cientfica em questo. Mas ser que podemos diferenciar a filosofia e a cincia, a partir de qualquer uma destas perspectivas, de uma maneira simples e direta? Muitos especialistas sugeriram que no. Nas cincias especficas, as teorias por vezes no so adoptadas devido apenas sua consistncia com os dados da observao, mas tambm com base na sua simplicidade, fora explicativa ou outras consideraes que paream contribuir para a sua plausibilidade intrnseca. Quando constatamos isto, comeamos a perder confiana na ideia de que existem dois domnios de proposies bastante diferentes: aquelas que so apoiadas apenas por dados empricos, e aquelas que so apoiadas apenas pela razo. Muitos metodlogos contemporneos, como Quine, estariam dispostos a defender que as cincias naturais, a matemtica, e at a lgica pura, formam um contnuo unificado de crenas sobre o mundo. Todas elas defendem estes metodlogos, so indirectamente apoiadas por dados da observao, mas todas contm tambm elementos de apoio "racional". Se isto for verdade, no ser a prpria filosofia, vista como o lugar das verdades da razo, uma parte do todo unificado? Isto , no ser tambm a filosofia apenas uma componente do corpo das cincias especializadas? Quando procuramos a descrio e a justificao apropriada dos mtodos da cincia, parece que estamos espera que os resultados especficos das cincias particulares entrem de novo em cena. Como poderamos compreender a capacidade dos mtodos da cincia para nos conduzir verdade se no estivssemos em condies de mostrar que esses mtodos tm realmente a fiabilidade que lhes atribuda? E como poderamos fazer isso sem usar o nosso conhecimento sobre o mundo, que nos foi revelado pela melhor cincia de que dispomos? Como poderamos, por exemplo, justificar a confiana da cincia na observao sensorial se a nossa compreenso do processo perceptivo (uma compreenso baseada na fsica, na neurologia e na psicologia) no nos assegurasse que a percepo, tal como usada quando se testam as teorias cientficas, realmente um bom guia da verdade sobre a natureza do mundo? ao discutir as teorias mais gerais e fundamentais da fsica que a impreciso da fronteira entre as cincias naturais e a filosofia se torna mais manifesta. Dado que elas tm a ambio ousada de descrever o mundo natural nos seus aspectos mais gerais e fundamentais, no surpreendente que os tipos de raciocnio usados ao desenvolver estas teorias altamente abstractas paream por vezes estar mais prximos dos raciocnios filosficos que dos mtodos usados quando se conduzem investigaes cientficas de mbito mais limitado e particular. Mais adiante, medida que explorarmos os conceitos e os mtodos usados pela fsica quando esta lida com as suas questes fundamentais mais bsicas, veremos repetidamente que pode estar longe de ser claro se estamos a explorar questes de cincia natural ou questes de filosofia. Na verdade, nesta rea da investigao sobre a natureza do mundo, a distino entre as duas disciplinas torna-se bastante obscura. Lawrence Sklar Traduo de Desidrio Murcho, Pedro Galvo e Paula Mateus Retirado de Philosophy of Physics, de Lawrence Sklar (Oxford University Press, 1992).