A filosofia entre a religio e a cincia

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    14-Jun-2015

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1. A filosofia entre a religio e a cincia Bertrand Russel Os conceitos da vida e do mundo que chamamos "filosficos" so produto de dois fatores: um, constitudo de fatores religiosos e ticos herdados; o outro, pela espcie de investigao que podemos denominar "cientfica", empregando a palavra em seu sentido mais amplo. Os filsofos, individualmente, tm diferido amplamente quanto s propores em que esses dois fatores entraram em seu sistema, mas a presena de ambos que, em certo grau, caracteriza a filosofia. "Filosofia" uma palavra que tem sido empregada de vrias maneiras, umas mais amplas, outras mais restritas. Pretendo empreg-la em seu sentido mais amplo, como procurarei explicar adiante. A filosofia, conforme entendo a palavra, algo intermedirio entre a teologia e a cincia. Como a teologia, consiste de especulaes sobre assuntos a que o conhecimento exato no conseguiu at agora chegar, mas, como cincia, apela mais razo humana do que autoridade, seja esta a da tradio ou a da revelao. Todo conhecimento definido - eu o afirmaria - pertence cincia; e todo dogma quanto ao que ultrapassa o conhecimento definido, pertence teologia. Mas entre a teologia e a cincia existe uma Terra de Ningum, exposta aos ataques de ambos os campos: essa Terra de Ningum a filosofia. Quase todas as questes do mximo interesse para os espritos especulativos so de tal ndole que a cincia no as pode responder, e as respostas confiantes dos telogos j no nos parecem to convincentes como o eram nos sculos passados. Acha-se o mundo dividido em esprito e matria? E, supondo-se que assim seja, que esprito e que matria? Acha-se o esprito sujeito matria, ou ele dotado 2. de foras independentes? Possui o universo alguma unidade ou propsito? Est ele evoluindo rumo a alguma finalidade? Existem realmente leis da natureza, ou acreditamos nelas devido unicamente ao nosso amor inato pela ordem? o homem o que ele parece ser ao astrnomo, isto , um minsculo conjunto de carbono e gua a rastejar, impotentemente, sobre um pequeno planeta sem importncia? Ou ele o que parece ser a Hamlet? Acaso ele, ao mesmo tempo, ambas as coisas? Existe uma maneira de viver que seja nobre e uma outra que seja baixa, ou todas as maneiras de viver so simplesmente inteis? Se h um modo de vida nobre, em que consiste ele, e de que maneira realiz-lo? Deve o bem ser eterno, para merecer o valor que lhe atribumos, ou vale a pena procur-lo, mesmo que o universo se mova, inexoravelmente, para a morte? Existe a sabedoria, ou aquilo que nos parece tal no passa do ltimo refinamento da loucura Tais questes no encontram resposta no laboratrio. As teologias tm pretendido dar respostas, todas elas demasiado concludentes, mas a sua prpria segurana faz com que o esprito moderno as encare com suspeita. 0 estudo de tais questes, mesmo que no se resolva esses problemas, constitui o empenho da filosofia. Mas por que, ento, - podereis perguntar - perder tempo com problemas to insolveis? A isto, poder-se-ia responder como historiador ou como indivduo que enfrenta o terror da solido csmica. A resposta do historiador, tanto quanto me possvel d-la, aparecer no decurso desta obra. Desde que o homem se tornou capaz de livre especulao, suas aes, em muitos aspectos importantes, tm dependido de teorias relativas ao mundo e vi a humana, relativas ao bem e ao mal. Isto to verdadeiro em nossos dias como em qualquer poca anterior. Para compreender uma poca ou uma nao, devemos compreender sua filosofia e, para que compreendamos sua filosofia, 3. temos de ser, at certo ponto, filsofos. H uma relao causal recproca. As circunstncias das vidas humanas contribuem muito para determinar a sua filosofia, mas, inversamente, sua filosofia muito contribui para determinar tais circunstncias. Essa ao mtua, atravs dos sculos, ser o tema das pginas seguintes. H, todavia, uma resposta mais pessoal. A cincia diz-nos o que podemos saber, mas o que podemos saber muito pouco e, se esquecemos quanto nos impossvel saber, tornamo-nos insensveis a muitas coisas sumamente importantes. A teologia, por outro lado, nos induz crena dogmtica de que temos conhecimento de coisas que, na realidade, ignoramos e, por isso, gera uma espcie de insolncia impertinente com respeito ao universo. A incerteza, na presena de grandes esperanas e receios, dolorosa, mas temos de suport-la, se quisermos viver sem o apoio de confortadores contos de fadas, No devemos tambm esquecer as questes suscitadas pela filosofia, ou persuadir-nos de que encontramos, para as mesmas, respostas indubitveis. Ensinar a viver sem essa segurana e sem que se fique, no obstante, paralisado pela hesitao, talvez a coisa principal que a filosofia, em nossa poca, pode proporcionar queles que a estudam. A filosofia, ao contrrio do que ocorreu com a teologia , surgiu, na Grcia, no sculo VI antes de Cristo. Depois de seguir o seu curso na antigidade, foi de novo submersa pela teologia quando surgiu o Cristianismo e Roma se desmoronou. Seu segundo perodo importante, do sculo YI ao sculo XIV, foi dominado pela Igreja Catlica, com exceo de alguns poucos e grandes rebeldes, como, por exemplo, o imperador Frederico II (1195-1250). Este perodo terminou com as perturbaes que culminaram na Reforma. O terceiro perodo, desde o sculo XVII at hoje, dominado, mais do que os perodos que o precederam, pela cincia. As crenas religiosas tradicionais 4. mantm sua importncia, mas se sente a necessidade de que sejam justificadas, sendo modificadas sempre que a cincia torna imperativo tal passo. Poucos filsofos deste perodo so ortodoxos do ponto de vista catlico, e o Estado secular adquire mais importncia em suas especulaes do que a Igreja. A coeso social e a liberdade individual, como a religio e a cincia, acham-se num estado de conflito ou difcil compromisso durante todo este perodo. Na Grcia, a coeso social era assegurada pela lealdade ao Estado- Cidade; o prprio Aristteles, embora, em sua poca, Alexandre estivesse tornando obsoleto o Estado-Cidade, no conseguia ver mrito algum em qualquer outro tipo de comunidade. Variava grandemente o grau em que a liberdade individual cedia ante seus deveres para com a Cidade. Em Esparta, o indivduo tinha to pouca liberdade como na Alemanha ou na Rssia modernas; em Atenas, apesar de perseguies ocasionais, os cidados desfrutaram, em seu melhor perodo, de extraordinria liberdade quanto a restries impostas pelo Estado. 0 pensamento grego, at Aristteles, dominado por uma devoo religiosa e patritica Cidade; seus sistemas ticos so adaptados s vidas dos cidados e contm grande elemento poltico. Quando os gregos se submeteram, primeiro aos macednios e, depois, aos romanos, as concepes vlidas em seus dias de independncia no eram mais aplicveis. Isto produziu, por um lado, uma perda de vigor, devido ao rompimento com as tradies e, por outro lado, uma tica mais individual e menos social. Os esticos consideravam a vida virtuosa mais como uma relao da alma com Deus do que como uma relao do cidado com o Estado. Prepararam, dessa forma, o caminho para o Cristianismo, que, como o estoicismo, era, originalmente, apoltico, j que, durante os seus trs primeiros sculos, seus adeptos no tinham influncia no governo. A coeso social, 5. durante os seis sculos e meio que vo de Alexandre a Constantino, f oi assegurada, no pela filosofia nem pelas antigas fidelidades, mas pela fora - primeiro a fora dos exrcitos e, depois, a da administrao civil. Os exrcitos romanos, as estradas romanas, a lei romana e os funcionrios romanos, primeiro criaram e depois preservaram um poderoso Estado centralizado. Nada se pode atribuir filosofia romana, j que esta no existia. Durante esse longo perodo, as idias gregas herdadas da poca da liberdade sofreram um processo gradual de transformao. Algumas das velhas idias, principalmente aquelas que deveramos encarar como especificamente religiosas, adquiriram uma importncia relativa; outras, mais racionalistas, foram abandonadas, pois no mais se ajustavam ao esprito da poca. Desse modo, os pagos posteriores foram se adaptando tradio grega, at esta poder incorporar-se na doutrina crist. O Cristianismo popularizou uma idia importante, j implcita nos ensinamentos dos esticos, mas estranha ao esprito geral da antigidade, isto , a idia de que o dever do homem para com Deus mais imperativo do que o seu dever para com o Estado.l A opinio de que "devemos obedecer mais a Deus que ao homem", como Scrates e os Apstolos afirmavam, sobreviveu converso de Constantino, porque os primeiros cristos eram arianos ou se sentiam inclinados para o arianismo. Quando os imperadores se tornaram ortodoxos, foi ela suspensa temporariamente. Durante o Imprio Bizantino, permaneceu latente, bem como no Imprio Russo subseqente, o qual derivou do Cristianismo de Constantinopla. Mas no Ocidente, onde os imperadores catlicos foram quase imediatamente substitudos ( exceto em certas partes da Glia ) por conquistadores brbaros herticos, a superioridade da lealdade religiosa sobre a lealdade poltica sobreviveu e, at certo ponto, persiste ainda hoje. 6. A invaso dos brbaros ps fim, por espao de seis sculos, civilizao da Europa Ocidental. Subsistiu, na Irlanda, at que os dinamarqueses a destruram no sculo IX. Antes de sua extino produziu, l, uma figura notvel, Scotus Erigena. No Imprio Oriental, a civilizao grega sobreviveu, em forma dissecada, como num museu, at queda de Constantinopla, em 1453, mas nada que fosse de importncia para o mundo saiu de Constantinopla, exceto uma tradio artstica e os Cdigos de Direito Romano de Justiniano. Durante o perodo de obscuridade, desde o fim do sculo V at a metade do sculo XI, o mundo romano ocidental sofreu algumas transformaes interessantes. O conflito entre o dever para com Deus e o dever para com o Estado, introduzido pelo Cristianismo, adquiriu o carter de um conflito entre a Igreja e o rei. A jurisdio eclesistica do Papa estendia-se sobre a Itlia, Frana, Espanha, Gr-Bretanha e Irlanda, Alemanha, Escandinvia e Polnia. A princpio, fora da Itlia e do sul da Frana foi muito leve o seu controle sobre bispos e abades, mas, desde o tempo de Gregrio VII ( fins do sculo XI ), tornou-se real e efetivo. Desde ento o clero, em toda a Europa Ocidental, formou uma nica organizao, dirigida por Roma, que procurava o poder inteligente e incansavelmente e, em geral, vitoriosamente, at depois do ano 1300, em seus conflitos com os governantes seculares. O conflito entre a Igreja e o Estado no foi apenas um conflito entre o clero e os leigos; foi, tambm, uma renovao da luta entre o mundo mediterrneo e os brbaros do norte. A unidade da Igreja era um reflexo da unidade do Imprio Romano; sua liturgia era latina, e os seus homens mais proeminentes eram, em sua maior parte, italianos, espanhis ou franceses do sul. Sua educao, quando esta renasceu, foi clssica; suas concepes da lei e do governo teriam sido mais compreensveis para Marco Aurlio do que para os monarcas contemporneos. 7. A Igreja representava, ao mesmo tempo, continuidade com o passado e com o que havia de mais civilizado no presente. O poder secular, ao contrrio, estava nas mos de reis e bares de origem teutnica, os quais procuravam preservar, o mximo possvel, as instituies que haviam trazido as florestas da Alemanha. O poder absoluto era alheio a essas instituies, como tambm era estranho, a esses vigorosos conquistadores, tudo aquilo que tivesse aparncia de uma legalidade montona e sem esprito. O rei tinha de compartilhar seu poder com a aristocracia feudal, mas todos esperavam, do mesmo modo, que lhes fosse permitido, de vez em quando, uma exploso ocasional de suas paixes em forma de guerra, assassnio, pilhagem ou rapto. possvel que os monarcas se arrependessem, pois eram sinceramente piedosos e, afinal de contas, o arrependimento era em si mesmo uma forma de paixo. A Igreja, porm, jamais conseguiu produzir neles a tranqila regularidade de uma boa conduta, como a que o empregador moderno exige e, s vezes, consegue obter de seus empregados. De que lhes valia conquistar o mundo, se no podiam beber, assassinar e amar como o esprito lhes exigia? E por que deveriam eles, com seus exrcitos de altivos, submeter-se s ordens de homens letrados, dedicados ao celibato e destitudos de foras armadas? Apesar da desaprovao eclesistica, conservaram o duelo e a deciso das disputas por meio das armas, e os torneios e o amor corteso floresceram. s vezes, num acesso de raiva, chegavam a matar mesmo eclesisticos eminentes. Toda a fora armada estava do lado dos reis, mas, no obstante, a Igreja saiu vitoriosa. A Igreja ganhou a batalha, em parte, porque tinha quase todo o monoplio do ensino e, em parte, porque os reis viviam constantemente em guerra. uns com os outros; mas ganhou-a, principalmente, porque, com muito poucas excees, tanto os governantes como povo acreditavam sinceramente 8. que a Igreja possua as chaves do cu. A Igreja podia decidir se um rei devia passar a eternidade no cu ou no inferno; a Igreja podia absolver os sditos do dever de fidelidade e, assim, estimular a rebelio. Alm disso, a Igreja representava a ordem em lugar da anarquia e, por conseguinte, conquistou o apoio da classe mercantil que surgia. Na Itlia, principalmente, esta ltima considerao foi decisiva. A tentativa teutnica .de preservar pelo menos uma independncia. parcial da Igreja manifestou-se no apenas na poltica, mas, tambm, na arte, no romance, no cavalheirismo e na guerra. Manifestou-se muito pouco no mundo intelectual, pois o ensino se achava quase inteiramente nas mos do clero. A filosofia explcita da Idade Mdia no um espelho exato da poca, mas apenas do pensamento de um grupo. Entre os eclesisticos, porm - principalmente entre os frades franciscanos - havia alguns que, por vrias razes, estavam em desacordo com o Papa. Na Itlia, ademais, a cultura estendeu-se aos leigos alguns sculos antes de se estender at ao norte dos Alpes. Frederico II, que procurou fundar uma nova religio, representa o extremo da cultura antipapista; Toms de Aquino, que nasceu no reino de Npoles, onde o poder de Frederico era supremo, continua sendo at hoje o expoente clssico da filosofia papal. Dante, cerca de cinqenta anos mais tarde, conseguiu chegar a uma sntese, oferecendo a nica exposio equilibrada de todo o mundo ideolgico medieval Depois de Dante, tanto por motivos polticos como intelectuais, a sntese filosfica medieval se desmoronou. Teve ela, enquanto durou, uma qualidade de ordem e perfeio de miniatura: qualquer coisa de que esse sistema se ocupasse, era colocada com preciso em relao com o que constitua o seu cosmo bastante limitado. Mas o Grande Cisma, o movimento dos Conclios e o papado da renascena produziram a Reforma, que destruiu a unidade do 9. Cristianismo e a teoria escolstica de governo que girava em torno do Papa. N o perodo da Renascena, o novo conhecimento, tanto da antigidade como da superfcie da terra, fez com que os homens se cansassem de sistemas, que passaram a ser considerados como prises mentais. A astronomia de Coprnico atribuiu terra e ao homem uma posio mais humilde do que aquela que haviam desfrutado na teoria de Ptolomeu. O prazer pelos f atos recentes tomou o lugar, entre os homens inteligentes, do prazer de raciocinar, analisar e construir sistemas. Embora a Renascena, na arte, conserve ainda uma determinada ordem, prefere, quanto ao que diz respeito ao pensamento, uma ampla e fecunda desordem. Neste sentido, Montaigne o mais tpico expoente da poca. Tanto na teoria poltica como em tudo o mais, exceto a arte, a ordem sofre um colapso. A Idade Mdia, embora praticamente turbulenta, era dominada, em sua ideologia, pelo amor da legalidade e por uma teoria muito precisa do poder poltico. Todo poder procede, em ltima anlise, de Deus; Ele delegou poder ao Papa nos assuntos sagrados, e ao Imperador nos assuntos seculares. Mas tanto o Papa como o Imperador perderam sua importncia durante o sculo XV. O Papa tornou-se simplesmente um dos prncipes italianos, empenhado no jogo incrivelmente complicado e inescrupuloso do poder poltico italiano. As novas monarquias nacionais na Frana, Espanha e Inglaterra tinham, em seus prprios territrios, um poder no qual nem o Papa nem o Imperador podiam interferir. O Estado nacional, devido, em grande parte, plvora, adquiriu uma influncia sobre o pensamento e o modo de sentir dos homens, como jamais exercera antes - influncia essa que, progressivamente, destruiu o que restava da crena romana quanto unidade da civilizao. Essa desordem poltica encontrou sua expresso no Prncipe, de 10. Maquiavel. Na ausncia de qualquer princpio diretivo, a poltica se transformou em spera luta pelo poder. O Prncipe d conselhos astutos quanto maneira de se participar com xito desse jogo. O que j havia acontecido na idade de ouro da Grcia, ocorreu de novo na Itlia renascentista: os freios morais tradicionais desapareceram, pois eram considerados como coisa ligada superstio; a libertao dos grilhes tornou os indivduos enrgicos e criadores, produzindo um raro florescimento do gnio mas a anarquia e a traio resultantes, inevitavelmente, da decadncia da moral, tornou os italianos coletivamente impotentes, e caram, como os gregos, sob o domnio de naes menos civilizadas do que eles, mas no to destitudas - de coeso social. Todavia, o resultado foi menos desastroso do que no caso da Grcia, pois as naes que tinham acabado de chegar ao poder, com exceo da Espanha, se mostravam capazes de to grandes realizaes como o havia sido a Itlia. Do sculo XVI em diante, a histria do pensamento europeu dominada pela Reforma. Reforma foi um movimento complexo, multiforme, e seu xito se deve a numerosas causas. De um modo geral, foi uma revolta das naes do norte contra o renovado domnio de Roma. A religio fora a fora que subjugara o Norte, mas a religio, na Itlia, decara: o papado permanecia como uma instituio, extraindo grandes tributos da Alemanha e da Inglaterra, mas estas naes, que eram ainda piedosas, no podiam sentir reverncia alguma para com os Brgias e os Mdicis, que pretendiam salvar as almas do purgatrio em troca de dinheiro, que esbanjavam no luxo e na imoralidade. Motivos nacionais motivos econmicos e motivos, religiosos conjugaram-se para fortalecer a revolta contra Roma. Alm disso, os prncipes logo perceberam que, se a Igreja se tornasse, em seus territrios, simplesmente nacional, eles seriam capazes de domin-la, tornando-se, assim, muito mais 11. poderosos, em seus pases, do que jamais o haviam sido compartilhando o seu domnio com o Papa. Por todas essas razes, as inovaes teolgicas de Lutero foram bem recebidas, tanto pelos governantes como pelo povo, na maior parte da Europa Setentrional. A Igreja Catlica procedia de trs fontes. Sua histria sagrada era judaica; sua teologia, grega, e seu governo e leis cannicas, ao menos indiretamente, romanos. A Reforma rejeitou os elementos romanos, atenuou os elementos gregos e fortaleceu grandemente os elementos judaicos. Cooperou, assim, com as foras nacionalistas que estavam desfazendo a obra de coeso nacional que tinha sido levada a cabo primeiro pelo Imprio Romano e, depois, pela Igreja Romana. Na doutrina catlica, a revelao divina no terminava na sagrada escritura, mas continuava, de era em era, atravs da Igreja, qual, pois, era dever do indivduo submeter suas opinies pessoais. Os protestantes, ao contrrio, rejeitaram a Igreja como veculo da revelao divina; a verdade devia ser procurada unicamente na Bblia, que cada qual podia interpretar sua maneira. Se os homens diferissem em sua interpretao, no havia nenhuma autoridade designada pela divindade que resolvesse tais divergncias. Na prtica, o Estado reivindicava o direito que pertencera antes Igreja - mas isso era uma usurpao. Na teoria protestante, no devia haver nenhum intermedirio terreno entre a alma e Deus. Os efeitos dessa mudana foram importantes. A verdade no mais era estabelecida mediante consulta autoridade, mas por meio da meditao ntima. Desenvolveu-se, rapidamente, uma tendncia para o anarquismo na poltica e misticismo na religio, o que sempre fora difcil de se ajustar estrutura da ortodoxia catlica. Aconteceu que, em lugar de um nico Protestantismo, surgiram numerosas seitas; nenhuma filosofia se opunha escolstica, mas havia tantas filosofias quantos eram os filsofos. No havia, 12. no sculo XIII, nenhum Imperador que se opusesse ao Papa, mas sim um grande nmero de reis herticos. O resultado disso, tanto no pensamento como na literatura, foi um subjetivismo cada vez mais profundo, agindo primeiro como uma libertao saudvel da escravido espiritual mas caminhando, depois, constantemente, para um isolamento pessoal, contrrio solidez social. A filosofia moderna comea com Descartes, cuja certeza fundamental a existncia de si mesmo e de seus pensamentos, dos quais o mundo exterior deve ser inferido. Isso constitui apenas a primeira fase de um desenvolvimento que, passando por Berkeley e Kant, chega a Fichte, para quem tudo era apenas uma emanao do eu. Isso era uma loucura, e, partindo desse extremo, a filosofia tem procurado, desde ento, evadir-se para o mundo do senso comum cotidiano. Com o subjetivismo na filosofia, o anarquismo anda de mos dadas com a poltica. J no tempo de Lutero, discpulos inoportunos e no reconhecidos haviam desenvolvido a doutrina do anabatismo, a qual, durante algum tempo, dominou a cidade de Wnster. Os anabatistas repudiavam toda lei, pois afirmavam que o homem bom seria guiado, em todos os momentos, pelo Esprito Santo, que no pode ser preso a frmulas. Partindo dessas premissas, chegam ao comunismo e promiscuidade sexual. Foram, pois, exterminados, aps uma resistncia herica. Mas sua doutrina, em formas mais atenuadas, se estendem pela Holanda, Inglaterra e Estados Unidos; historicamente, a origem do "quakerismo". Uma forma mais feroz de anarquismo, no mais relacionada Com a religio, surgiu no sculo XIX. Na Rssia, Espanha e, em menor grau, na Itlia, obteve considervel xito, constituindo, at hoje, um pesadelo para as autoridades americanas de imigrao. Esta verso moderna, embora anti-religiosa, encerra ainda muito do esprito do protestantismo 13. primitivo; difere principalmente dele devido ao fato de dirigir contra os governos seculares a hostilidade que Lutero dirigia contra os Papas. A subjetividade, uma vez desencadeada, j no podia circunscrevem-se aos seus limites, at que tivesse seguido seu curso. Na moral, a atitude enftica dos protestantes, quanto conscincia individual, era essencialmente anrquica. O hbito e o costume eram to fortes que, exceto em algumas manifestaes ocasionais, como, por exemplo, a de Mnster, os discpulos do individualismo na tica continuaram a agir de maneira convencionalmente virtuosa. Mas era um equilbrio precrio. O culto do sculo XVIII "sensibilidade" comeou a romper esse equilbrio: um ato era admirado no pelas suas boas conseqncias, ou porque estivesse de acordo com um cdigo moral, mas devido emoo que o inspirava. Dessa atitude nasceu o culto do heri, tal como foi manifestado por Carlyle e Nietzsche, bem como o culto byroniano da paixo violenta, qualquer que esta seja. O movimento romntico, na arte, na literatura e na poltica, est ligado a essa maneira subjetiva de julgar-se os homens, no como membros de uma comunidade, mas como objetos de contemplao esteticamente encantadores. Os tigres so mais belos do que as ovelhas, mas preferimos que estejam atrs de grades. O romntico tpico remove as grades e delicia-se com os saltos magnficos com que o tigre aniquila as ovelhas. Incita os homens a imaginar que so tigres e, quando o consegue, os resultados no so inteiramente agradveis. Contra as formas mais loucas do subjetivismo nos tempos modernos tem havido vrias reaes. Primeiro, uma filosofia de semicompromisso, a doutrina do liberalismo, que procurou delimitar as esferas relativas ao governo e ao indivduo. Isso comea, em sua forma moderna, com Locke, que to contrrio ao "entusiasmo" - o individualismo dos anabatistas como 14. autoridade absoluta e cega subservincia tradio. Uma rebelio mais extensa conduz doutrina do culto do Estado, que atribui ao Estado a posio que o Catolicismo atribua Igreja, ou mesmo, s vezes, a Deus. Hobbes, Rousseau e Hegel representam fases distintas desta teoria, e suas doutrinas se acham encarnadas, praticamente, em Cromwell, Napoleo e na Alemanha moderna. O comunismo, na teoria, est muito longe dessas filosofias, mas conduzido, na prtica, a um tipo de comunidade bastante semelhante quela e que resulta a adorao do Estado. Durante todo o transcurso deste longo desenvolvimento, desde 600 anos antes de Cristo at aos nossos dias, os filsofos tm-se dividido entre aqueles que querem estreitar os laos sociais e aqueles que desejam afroux-los. A esta diferena, acham-se associadas outras. Os partidrios da disciplina advogaram este ou aquele sistema dogmtico, velho ou novo, chegando, portanto a ser, em menor ou maior grau, hostis cincia, j que seus dogmas no podiam ser provados empiricamente. Ensinavam, quase invariavelmente, que a felicidade no constitui o bem, mas que a "nobreza" ou o "herosmo" devem ser a ela preferidos. Demonstravam simpatia pelo que havia de irracional na natureza humana, pois acreditavam que a razo inimiga da coeso social. Os partidrios da liberdade, por outro lado, com exceo dos anarquistas extremados, procuravam ser cientficos, utilitaristas, racionalistas, contrrios paixo violenta, e inimigos de todas as formas mais profundas de religio. este conflito existiu, na Grcia, antes do aparecimento do que chamamos filosofia, revelando-se j, bastante claramente, no mais antigo pensamento grego. Sob formas diversas, persistiu at aos nossos dias, e continuar, sem dvida, a existir durante muitas das eras vindouras. claro que cada um dos participantes desta disputa como em tudo que persiste durante longo tempo - tem a sua parte de razo e a sua parte de 15. equvoco. A coeso social uma necessidade, e a humanidade jamais conseguiu, at agora, impor a coeso mediante argumentos meramente racionais. Toda comunidade est exposta a dois perigos opostos: por um lado, a fossilizao, devido a uma disciplina exagerada e um respeito excessivo pela tradio; por outro lado, a dissoluo, a submisso ante a conquista estrangeira, devido ao desenvolvimento da independncia pessoal e do individualismo, que tornam impossvel a cooperao. Em geral, as civilizaes importantes comeam por um sistema rgido e supersticioso que, aos poucos, vai sendo afrouxado, e que conduz, em determinada fase, a um perodo de gnio brilhante, enquanto perdura o que h de bom na tradio antiga, e no se desenvolveu ainda o mal inerente sua dissoluo. Mas, quando o mal comea a manifestar-se, conduz anarquia e, da, inevitavelmente, a uma nova tirania, produzindo uma nova sntese, baseada num novo sistema dogmtico. A doutrina do liberalismo uma tentativa para evitar essa interminvel oscilao. A essncia do liberalismo uma tentativa no sentido de assegurar uma ordem social que no se baseie no dogma irracional, e assegurar uma estabilidade sem acarretar mais restries do que as necessrias preservao da comunidade. Se esta tentativa pode ser bem sucedida, somente o futuro poder demonstr-lo.