VANTAGENS E DESVANTAGENS DA DIETA ATKINS ? A dieta proposta pelo Dr. Atkins consiste em uma dieta

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  • STRINGHINI, Maria Luiza Ferreira, et al. Vantagens e desvantagens da dieta Atkins no tratamento da obesidade. Salusvita, Bauru, v. 26, n. 2, p. 257-268, 2007.

    RESUMO

    A obesidade constitui uma das alteraes metablicas mais freqen-tes e de maior repercusso sanitria e scio-econmica. No mundo ocidental, a prevalncia da obesidade est aumentando em todas as faixas etrias e atingindo nveis epidmicos. As dietas constituem uma das formas para o tratamento da obesidade e, dentre elas esto as dietas da moda que adquirem muitos seguidores por prometerem perda rpida de peso. Uma das dietas da moda seria aquela proposta pelo Dr. Atkins que consiste em uma dieta com liberado consumo de gorduras e protenas e, restrio para carboidratos. Este trabalho de reviso tem como objetivo discutir esta dieta no controle e no trata-mento da obesidade.

    Palavras-chave: obesidade, tratamento diettico, dieta Atkins.

    ABSTRACT

    Obesity constitutes one of the more frequent metabolic alterations and of largerst sanitary and socioeconomic repercussion. In the western world, the prevalence of the obesity is increasing in all of the age groups and reaching epidemic levels. Diets constitute one way for the treatment of obesity and, among them are the popular

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    VANTAGENS E DESVANTAGENS DA DIETA ATKINS NO

    TRATAMENTO DA OBESIDADEMaria Luiza Ferreira Stringhini1

    Janaina Macdo Costa e Silva2

    Fernanda Granja de Oliveira2

    Recebido em: 16/01/2006Aceito em: 25/3/2007

    1 Professora assisten-te, Faculdade de Nu-trio, Universidade

    Federal de Gois2 Nutricionista

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    diets that acquire many followers for they promise fast loss of weight. One of the fashion diets would be that proposed by Dr. Atkins, and it consists of a diet having a liberated consumption of fats and proteins, and restriction for carbohydrates. This revision work has the objective of discussing this diet for control and treatment of obesity.

    Key words: obesity, dietoterapic treatment, Atkins diet.

    INTRODUO

    Durante anos a obesidade foi vista como sinnimo de beleza, bem-estar fsico e poder. Hoje constitui um importante problema de sade pblica, tanto pelo seu impacto na expectativa mdia de vida como pela piora que causa na sua qualidade (DAMASO, 2003).

    A orientao diettica constitui uma das principais formas de tra-tamento para a obesidade. Algumas dietas so chamadas dietas da moda por serem difundidas pela mdia e prometerem perda rpida e fcil de peso. Com isso, atraem vrios seguidores em busca de um peso adequado (NUNES et al., 1998). Entre as dietas da moda podemos citar aquela proposta pelo Dr. Atkins que consiste em uma dieta hipocalrica e cetognica, com liberado consumo de lipdios e protenas. Este artigo de reviso tem como objetivo discutir sobre a dieta Atkins para o tratamento da obesidade.

    OBESIDADE

    A obesidade constitui uma das alteraes metablicas mais fre-qentes e de maior repercusso sanitria e scio-econmica atingin-do, nos pases desenvolvidos, at da populao. No mundo ociden-tal, a prevalncia da obesidade est aumentando em todas as faixas etrias, especialmente nas camadas mais pobres da populao, che-gando a nveis epidmicos (MONTEIRO, 2001).

    No Brasil, estima-se que um tero da populao esteja com o peso acima do ideal. Uma tendncia ascendente das prevalncias de sobre-peso/ obesidade foi observada em todos os estados brasileiros, princi-palmente nas faixas da populao de menor poder aquisitivo e, embora sejam menores do que as encontradas nos pases desenvolvidos, a velo-cidade de ascenso preocupante (VASCONCELOS & SILVA, 2003).

    Todos parecem conhecer o que obesidade, mas muitos poucos po-dem defi ni-la de modo claro. Conforme Caterson apud Beraldo, Filizo-

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    la e Naves (2004), obesidade uma doena crnica no transmissvel, caracterizada como um excesso de tecido adiposo no organismo. Um aumento de 20% do peso corpreo aumenta substancialmente o risco para hipertenso arterial, doena arterial coronariana, dislipidemias e diabetes tipo 2, assim como a mortalidade precoce (BERALDO, FILI-ZOLA & NAVES, 2004). Aumentos na freqncia de cncer de clon, reto e prstata tm sido observados em homens obesos, enquanto a obesidade em mulheres se associa a maior incidncia de cncer de vescula, endomtrio e mamas (FARIA & ZANELLA, 2000).

    notria a nfase dada ao estudo da obesidade nos dias atuais. Pesquisadores como Serra e Santos (2003) e Ramos e Filho (2003) vm dedicando anos de estudo na esperana de entender cada vez mais a etiologia e a fi siopatologia desta alterao metablica. Entre-tanto, na maioria dos casos, a causa da obesidade no facilmente identifi cada visto que existem contribuies genticas, metablicas, comportamentais e psicolgicas associadas ao desenvolvimento e manuteno desta (HALPERN & MANCINI, 1996).

    O mtodo diagnstico mais utilizado para estudos epidemiolgi-cos da obesidade o ndice de Massa Corprea (IMC), sendo obtido medindo-se o peso (kg) e a estatura (m) do indivduo. A partir dos valores obtidos, calcula-se o IMC, dividindo o peso pela estatura ao quadrado e ento, identifi ca-se o estado nutricional do indivduo (FLASO/ABESO, 1999), como mostrado na Tabela 1.

    Tabela 1- Classifi cao do estado nutricional baseado no ndice de Massa Corpo-ral, para indivduos adultos de ambos os sexos (FLASO/ABESO, 1999).

    Classifi cao IMC (kg/m2)

    Magreza < 18,5

    Eutrfi co 18,5- 24,9

    Pr-obesidade 25,0- 29,9

    Obesidade: Grau I 30,0- 34,9

    Grau II 35,0- 39,9

    Grau III > 40,0

    Conforme Damaso (2003), entre as medidas complementares existentes para avaliar a composio corporal e o estado nutricional de um indivduo adulto encontram-se:

    mtodos antropomtricos como as dobras cutneas e a circun-ferncia da cintura;

    e outros como a impedncia bioeltrica, a densitometria, a ra-diografi a, a ultra-sonografi a, a interactncia infra-vermelha, a tomografi a computadorizada, a ressonncia magntica nucle-ar e a absorciometria.

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    Os possveis benefcios obtidos por essas avaliaes somente se-ro vlidos e fi dedignos se houver as padronizaes e adequaes especfi cas para cada necessidade como a disponibilidade de equi-pamento, indivduos treinados, adequao do custo fi nanceiro e da metodologia utilizada, alm de identifi car os objetivos a serem al-canados. Desta forma, essas anlises ofereceriam, aos programas de atividades motoras e nutricionais, melhores possibilidades para prescries e orientaes adequadas, visando ao controle de peso ou doenas (DAMASO, 2001).

    CONTROLE DA OBESIDADE: UMA MISSO IMPOSSVEL?

    Grande parte dos profi ssionais da rea de nutrio e sade prope um tratamento para obesidade dentro dos padres estabelecidos pela Organizao Mundial de Sade (OMS), que visa ao estabelecimento gradativo do peso e no de uma forma imediata (BERALDO, FILI-ZOLA & NAVES, 2004).

    A perda lenta de peso est relacionada com uma reduo signifi -cativa das co-morbidades associadas obesidade (FLASO/ABESO, 1999). Exames laboratoriais indicam que medida que o indivduo perde peso, valores de glicemia, presso arterial e colesterol vo se normalizando, diminuindo os fatores de riscos advindos do excesso de peso corporal (FRANCISCHI et al., 2000).

    Assim, a perda de peso dever ser em torno de 0,5 a 1,0 kg/ sema-na, para assegurar que a maior parte do peso perdido seja de tecido adiposo e garantir a manuteno da massa corprea magra, com a inibio da perda de protenas endgenas. Para atingir este objetivo necessrio um balano energtico negativo dirio de 500 a 1000 kcal incluindo a combinao com a atividade fsica. Dietas muito restritivas, menores que 1200 kcal/ dia, devem ser acompanhadas de suplementos de vitaminas e sais minerais e como regra geral, o valor energtico no dever ser menor que 800 kcal/ dia ou menor que a taxa metablica basal (BERALDO, FILIZOLA & NAVES, 2004).

    A composio ideal de uma dieta aquela que promove maior saciedade com menor ingesto energtica possvel. Tanto para indi-vduos saudveis quanto para os obesos, os macronutrientes da dieta devem estar em propores equilibradas em relao ao valor energ-tico total (VET), sendo recomendado 55 a 60% do VET provenientes de carboidratos, aproximadamente 15% advindos de protenas e at 30% fornecidos por lipdios (FLASO/ABESO, 1999). Apesar da alta densidade energtica dos lipdios, no se recomenda uma reduo

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    drstica no consumo deste nutriente, uma vez que os teores reduzi-dos de gordura comprometem o poder de saciedade, a textura e a pa-latabilidade das dietas, difi cultando a adeso ao tratamento a longo prazo (FLASO/ABESO,1999).

    Restrio calrica, aumento da atividade fsica e terapia compor-tamental so estratgias bem avaliadas em vrios estudos de inter-veno no tratamento da obesidade. Entretanto, o controle da obesi-dade tem falhado no sentido de manter reduzido o peso atingido com as intervenes, o que causa incertezas sobre a efi ccia e a efetivida-de por parte de pacientes e profi ssionais (WANNMACHER, 2004).

    DIETAS DA MODA

    As dietas restritivas para o tratamento da obesidade foram am-plamente utilizadas nas dcadas de 50 e 60, e proporcionavam perda de peso em torno de 1 kg/ dia no primeiro ms e, posteriormente 0,5 kg/ dia (STILLMAN & BAKER, 1978). Nos primeiros anos da dcada de 70, as dietas hiperproticas e hipoglicdicas foram bas-tante valorizadas e nos anos 80 surgiu a segunda gerao de dietas, as dietas de pouqussimas calorias para o tratamento da obesidade mrbida. Nestes casos eram oferecidas aos pacientes dietas de 450 a 500 kcal/ dia que, aps algum tempo, passavam para 800 kcal/ dia (SOURS et al, 1981).

    A mdia leiga tem sido a principal fonte de informaes sobre dietas. Grande parte da populao obesa, que quer emagrecer rapidamente, utiliza informaes veiculadas em revistas, jornais, televiso ou mais recentemente, na internet, sem se preocupar com as conseqncias fu-turas da adeso a alguma dieta da moda (VIUELA et al, 2002).

    E o que so dietas da moda? Moda signifi ca algo passageiro, do momento, que por onde passa adquire seguidores, por ser fcil e bas-tante convidativa. As dietas milagrosas prometem uma perda de peso rpida e, geralmente, com um mnimo de esforo. No entanto, na maioria das vezes, este pode ser o caminho mais curto para o re-torno ao peso anterior e o incio do efeito sanfona, to indesejvel quanto frustrante (SILVA & POTTIER, 2004).

    importante ressaltar que em cada poca surgem dietas da moda, como a soluo fi nal para o problema da obesidade. O ideal seria que essas dietas da moda fossem adequadas aos padres nutricionais estabelecidos, que apresentassem fundamento na sua elaborao e que o paciente fosse acompanhado por um profi ssional nutricionista que limitaria o tempo de uso desta dieta bem como o auxiliaria na reeducao alimentar (SILVA & POTTIER, 2004).

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    DIETA ATKINS

    O chamativo de algumas dietas parece bastante promissor. o que ocorre com a dieta proposta pelo Dr. Robert C. Atkins, que afi r-ma ser sua dieta: A melhor dieta do sculo XX (ATKINS, 2004).

    A dieta proposta pelo Dr. Atkins consiste em uma dieta hipocal-rica, cetognica com liberado consumo de lipdios e protenas, como carnes vermelhas, ovos e manteiga, e restrio para carboidratos, como frutas, pes, farinha, macarro, acares e doces. A dieta composta por trs fases: dieta de induo; com perda de peso exces-siva; dieta permanente e dieta de manuteno (ATKINS, 2004).

    Nestas fases o que se altera so as quantidades de carboidratos consumidas. Inicialmente, faz-se uma restrio diria severa de car-boidratos, sendo permitindo apenas de 15 a 20g. Depois de atingir a perda mxima de peso, o indivduo entra numa perda contnua ou permanente de peso, o que lhe d direito a aumentar 5g de carboi-dratos na dieta. Em seguida, entra-se para a fase de pr-manuteno aumentando mais 5g de carboidratos e, fi nalmente, a manuteno, onde o indivduo estabelecer, conforme sua resistncia perda de peso, a quantidade de carboidratos que ir consumir por toda a vida (Atkins, 2004).

    VANTAGENS E DESVANTAGENSDA DIETA ATKINS

    Vantagens Segundo Atkins (2004) os benefcios da sua dieta atingem cerca

    de 20 milhes de seguidores em todo o mundo. Pacientes tratados com esta dieta apresentam perda rpida de peso, manuteno da per-da de peso sem fome, boa sade e preveno de doenas cardiovas-culares (ATKINS, 2004).

    Astrup, Meinert e Harper (2004) realizaram um estudo randomi-zado, por 12 meses, com 63 pacientes obesos e no-diabticos. Parte dos participantes optou pela dieta Atkins para a perda de peso e ou-tra, por uma dieta hipocalrica contendo 25% lipdios, 15% protenas e 60% carboidratos. Aps seis meses, o grupo seguidor da dieta de baixo carboidrato obteve uma maior perda de peso, cerca de 7%, contra, aproximadamente, 3% dos que seguiram a dieta hipocalri-ca. Concluram que a rpida perda de peso, entre os seguidores da dieta Atkins, poderia ser explicada pela diminuio da resistncia in sulina e pela regulao dos controladores de apetite a curto prazo.

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    A insulina constitui-se o mais importante hormnio anti-lipol-tico. Sua atuao se d atravs da inibio da atividade da enzima lipase hormnio sensvel, provocando o aumento do tecido adiposo visceral (CHRICTIE et al., 1996). Alm da inibio da liplise, estu-dos demonstram que a insulina atua diretamente na inibio da beta-oxidao, atravs do aumento da formao de Malonil-Coa, pela via glicoltica. Este composto um potente inibidor da enzima carnitina palmitoil transferase I, responsvel pelo transporte de cidos graxos de cadeia longa pela membrana mitocondrial para serem oxidados (SIDOSSIS et al., 1996). A dieta Atkins, que praticamente nula em carboidratos, deixaria o organismo ausente da liberao de insuli-na e utilizaria, em larga escala, as reservas de gordura, promoven-do uma perda rpida da gordura corporal atravs de sua oxidao (ATKINS, 2004).

    Sabe-se que, com o hiperinsulinemismo ocorre aumento da ati-vidade simptica, levando a hipertenso arterial e a maior atividade aterognica pela elevao dos nveis de colesterol srico (FLASO/ ABESO, 1999). Com a dieta proposta pelo Dr. Atkins haveria o con-trole da hipoglicemia reativa (hipoglicemia rpida acompanhada de hiperglicemia), normalizando-se os nveis glicmicos, prevenindo-se o hiperinsulinemismo, a hipercolesterolemia e a hipertenso arterial resultando na melhora dos problemas cardiovasculares e endcrinos (ATKINS, 2004).

    Alm dessas alteraes metablicas, a dieta Atkins atuaria nos controladores centrais do apetite a curto prazo. A saciedade obser-vada nos seguidores desta dieta explicada pelo aumento dos cor-pos cetnicos e dos nveis de serotonina. A serotonina possui um receptor no hipotlamo com efeito anorexgeno, o qual promoveria a diminuio do consumo de alimentos. A dieta hiperlipdica pro-vocaria, ainda, aumento da liberao de colecistocinina (CCK) no aparelho digestivo exercendo importante papel na saciedade contri-buindo na diminuio do apetite e perda de peso (KALRA et al., 1999; ROLLS, 1995).

    Desvantagens

    A dieta Atkins muito radical luz do pouco que a cincia tem de certeza sobre como funciona o metabolismo humano (ROLLO, 2003). Em reviso realizada por Astrup, Meinert e Harper (2004), de 107 artigos identifi cados, apenas 5 estudos avaliaram os participan-tes por 90 dias de tratamento com tal dieta e, portanto, no h evi-dncias sufi cientes para recomendar ou criticar este tipo de conduta.

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    A dieta cetognica proposta pelo Dr. Atkins prega a perda pon-deral e manuteno do peso ideal atravs da liberalidade de inges-to de preparaes apetitosas. Entretanto, existem alguns alimentos e preparaes que apresentam em sua composio os carboidratos (massas, pes, biscoitos, frutas e tubrculos) e que o indivduo esta-ria impossibilitado de seu consumo quando segue tal dieta. Assim, a dieta Atkins no seria to liberal como se preconiza (SILVA & POTTIER, 2004).

    A literatura tem mostrado que as dietas hiperlipdicas possuem pequena adeso com o passar do tempo e, quando abandonadas e seguidas de alimentao normal, aumentam a efi cincia metablica e promovem obesidade. Mesmo com atividade fsica, aps a reali-zao destas dietas, difcil ocorrer mobilizao dos depsitos de lipdeos, causando o conhecido efeito ioi (ESTADELLA, 2001; FRICKEN et al.,1991).

    De acordo com Atkins (2004), a perda de peso que ocorre nos indivduos seguidores de sua dieta devida ao aumento do dispndio de energia, porm, nenhum estudo determinou o valor deste gasto energtico. No h nenhuma evidncia que a dieta rica em protena e gordura seja particularmente termognica, pelo contrrio, a gor-dura tem um baixo efeito termognico, respondendo a uma pequena frao de perda de peso (ASTRUP, MEINERT & HARPER, 2004).

    Scwingshandl e Borkenstein (1995) afi rmaram que muitos me-canismos atuam na diminuio da taxa de metabolismo basal. A reduo da secreo de insulina, justamente o que ocorre na dieta Atkins, promove a mobilizao dos substratos endgenos, condu-zindo maior circulao de cidos graxos e corpos cetnicos, con-tribuindo para aumentar o catabolismo de protenas. Assim, um dos efeitos mais indesejveis dos adeptos desta dieta a perda de massa magra. Com essa perda ocorre diminuio da taxa metablica basal o que explicaria a difi culdade de manuteno do peso aps a dieta, mesmo com quantidade restrita de alimentos (ESTADELLA, 2001; FRICKEN et al., 1991).

    Outro fator que colaboraria para a perda ponderal dos pacientes seguidores da dieta Atkins seria o fato que, durante restrio severa de carboidrato so esvaziadas as reservas de glicognio e gua. Con-seqentemente, a perda de peso poderia ser predominantemente de fl uidos, repercutindo em desidratao, em lugar de perda de massa gorda (SILVA & POTTIER, 2004),

    Na pesquisa realizada por Astrup, Meinert e Harper (2004) perce-beu-se que, ao fi nal de 12 meses, a diferena de peso entre o grupo que recebia a dieta Atkins e o outro com dieta hipocalrica mas com propores adequadas de nutrientes no foram signifi cativas. Isso

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    porque a regulao da saciedade, ocorrida na dieta Atkins, tem seu efeito limitado pela regulao a longo prazo realizada pela ao da insulina e da leptina que apresentam efeito estimulante sobre a inges-to alimentar e, conseqentemente no aumento da adiposidade (MI-CHAEL et al., 1999; CLEMENT, 1999; JEQUIER & TAPPY, 1999).

    Outro fator a ser considerado que as gorduras so menos efi -cazes que as protenas e os carboidratos para enviar os sinais de sa-ciedade. Portanto, as pessoas que ingerem dietas hiperlipdicas, se alimentam por um perodo mais longo e em quantidades maiores (DAMASO, 2003).

    A despreocupao da dieta Atkins com a ingesto de alimentos saudveis e com a reeducao alimentar pode provocar srios riscos a sade a longo prazo (PONTES, 2000). O aumento da ingesto de gor-dura saturada pode implicar em risco aumentado de clculos biliares, hipercolesterolemia e cncer em pessoas pr-dispostas (ANDERSON, KONZ & JENKINS, 2000). As reclamaes mais freqentes dos se-guidores das dietas de baixo-carboidrato so constipao, dor de cabe-a, hlito cetnico, diarria, erupes cutneas e fraqueza geral, o que explicado prontamente pela baixa ingesto de frutas, legumes, pes integrais e cereais (ASTRUP, MEINERT & HARPER, 2004).

    CONCLUSO

    No h nenhuma evidncia slida para apoiar o uso indiscrimina-do de dietas com 20 g ou menos de carboidratos por mais de 90 dias, principalmente em indivduos com idade superior a 50 anos (Bravata et al, 2003). H uma necessidade urgente por estudos mais longos e com maior nmero de participantes com o objetivo de avaliar a efi c-cia da perda de peso, o equilbrio de energia, a composio corporal, os fatores de risco cardiovasculares e endcrinos, as alteraes no trato gastrointestinal e da funo renal (DAMASO, 2003).

    Pesquisas no concluram que dietas cetognicas so melhores que qualquer outra usada no tratamento para perda de peso. Apesar da popularidade e sucesso aparente da dieta Atkins, seus efeitos a longo prazo, relacionados com a sade e preveno de doenas so desconhecidos (ASTRUP, MEINERT & HARPER, 2004).

    Cientifi camente, a recomendao mais fundamentada, para pes-soas que querem perder peso, a utilizao de uma dieta reduzida em calorias e em lipdios, associada prtica de atividade fsica. A adoo de um estilo de vida saudvel reduzir a incidncia de diabetes mellitus tipo 2 e de doenas cardiovasculares (BERALDO, FILIZOLA & NAVES, 2004).

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    Ao se observar o estudo diagnstico da incidncia de obesidade no Brasil percebe-se que aes isoladas no resultaro em controle adequado dessa epidemia. Isso sugere, portanto, ao global, diver-sifi cada e integrada, principalmente visando reeducao alimentar, realizao de atividade motora apropriada, ao apoio psicolgico e clnico para o seu tratamento, uma vez que 2,7 milhes de crianas brasileiras tm algum grau de obesidade, podendo estas se tornar adultos obesos (DAMASO, 2001).

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