Uma mulher no seu tempo: cincia, arte e educao num ... ? A vida e obra de uma intelectual cientista

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    10-Nov-2018

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Uma mulher no seu tempo: cincia, arte e educao num percurso de vidaA woman in her time: science, art and education in a life pathMaria Joo Mogarro*RESUMOProfessora universitria de cincias e professora do ensino liceal, Seoma-ra da Costa Primo (Lisboa, 1895 Amadora, 1986) distinguiu-se como investigadora, autora (nomeadamente de manuais) e ilustradora. A sua ao incorporou tambm o associativismo docente, a participao na imprensa e misses de estudo no estrangeiro. Foi uma mulher do seu tempo, uma intelectual, que defendeu um papel ativo das mulheres na sociedade e lutou pela sua educao, afirmando-se num universo essencialmente masculino. O seu percurso vital demonstra que percorreu algumas das instituies de referncia da poca e dialogou em arenas significativas de debate, afirmando--se como uma personalidade mpar que tambm circulou internacionalmente em misses cientficas. A penumbra em que tem sido mantido o seu nome e a sua vida deve ser iluminada por uma recolocao na galeria das mulheres ilustres que representam um tempo e um modo de ocupar o espao pblico e de afirmar a profisso docente.Palavras-chave: Profisso docente. Universidade. Manuais. Seomara da Costa Primo. Histria das mulheres.ABSTRACTSeomara da Costa Primo (Lisbon, 1895 Amadora, 1986) was a science university professor and a high school teacher. She was a distinguished researcher, textbook author and illustrator. She was also part of teaching as-sociations, was once part of the press and did study missions abroad. She was a woman of her day, an intellectual that defended the active role of women in DOI: 10.1590/0104-4060.53320* Universidade de Lisboa. Lisboa, Portugal. R. Branca Edme Marques, 1600-276. E-mail: mariamogarro@gmail.comEducar em Revista, Curitiba, Brasil, n. 65, p. 119-134, jul./set. 2017 119society and fought for her education, empowering herself in a mens world. Her life path demonstrates that she was part of some reference institutions of the time and dialogued in significant arenas of debate, asserting herself as a personality who also circulated internationally in scientific missions. The penumbra in which her name and life have been kept must be illuminated by re-placing her in the gallery of illustrious women who represent a time and a way of occupying the public space and put the teaching profession forward.Keywords: Teaching profession. University. Textbooks. Seomara da Costa Primo. Womens history.A vida e obra de uma intelectual cientistaNo final do sculo XIX, no dia 10 de Novembro de 1895, nasceu em Lisboa, a capital do pas, Seomara Buttuller da Costa Primo, que viria a falecer nove dcadas depois, na Amadora, em 2 de Abril de 1986. As suas origens situavam-na na classe mdia lisboeta, tendo a famlia assegurado uma formao secundria e universitria a Seomara, que se revelou uma aluna brilhante. Esse patamar de excelncia seria uma marca na sua vida profissional. Ela foi professora de Cincias na Universidade de Lisboa e, antes, professora do ensino liceal; no seu percurso, revelou-se como investigadora, autora, principalmente de manu-ais didticos, desenhadora e ilustradora. Seomara da Costa Primo destacou-se tambm no associativismo docente, participando com intensidade na imprensa. Se a podemos considerar hoje uma mulher do seu tempo, ela apresenta--se-nos sobretudo como uma mulher alm do seu tempo, uma intelectual (SI-RINELLI, 1996), que ocupou um lugar pioneiro na defesa do papel ativo das mulheres na sociedade, defendeu a sua educao e se afirmou num universo predominantemente masculino. Ao longo da sua vida frequentou instituies de referncia e travou debates em arenas significativas de discusso. Foi uma personalidade mpar que no se limitou escala nacional, tendo realizado viagens ao estrangeiro em misses cientficas. A sua figura tem sido relativamente esquecida, mas um nome que deve ser destacado, pois exem-plifica uma forma de estar no espao pblico e de afirmar a profisso docente (LBO; FARIA, 2008; PERROT, 2015).Depois de ter realizado, com distino, o exame de instruo primria, Seomara da Costa Primo cursou o Liceu Maria Pia, que foi o primeiro liceu feminino portugus, onde concluiu, em 4 de agosto de 1911, o Curso Geral (2 seco) com a classificao de 17 valores. Continuou os seus estudos com a MOGARRO, M. J. Uma mulher no seu tempo: cincia, arte e educao num percurso de vidaEducar em Revista, Curitiba, Brasil, n. 65, p. 119-134, jul./set. 2017120frequncia do curso complementar de Cincias, no Liceu Passos Manuel, onde terminou o ensino secundrio, em 27 de julho de 1913, com a nota final de 17 valores.A sua formao universitria foi realizada na Faculdade de Cincias da Universidade de Lisboa, no curso de Cincias Histrico-Naturais, tendo-se di-plomado em 1919, com a classificao final de 18 valores. Durante estes anos acadmicos, o seu valor foi reconhecido e recebeu vrios diplomas de mrito (PRIMO, 1943). Complementarmente, frequentou tambm as cadeiras de His-tologia e Embriologia na Faculdade de Medicina, na mesma Universidade, em 1917-1918. Alis, exerceu o cargo de preparadora do Instituto de Histologia e Embriologia durante um ano, orientada por Celestino da Costa.Seomara deixou aquelas funes para frequentar o Curso do Magistrio Liceal na Escola Normal Superior, onde se diplomou e realizou o seu Exame de Estado, em 1922, com a classificao final de 18 valores. Este curso habilitou-a para o exerccio da profisso docente, tendo desempenhado as funes de professo-ra no Liceu Almeida Garret e, depois, no que lhe sucedeu o Liceu Maria Amlia Vaz de Carvalho. As duas designaes da instituio liceal foram atribudas, sucessivamente, ao antigo Liceu Maria Pia. Na realidade, Seomara Costa Primo regressava, como professora, aps uma dcada, escola onde fora aluna liceal.Durante mais de vinte anos, no perodo de 1921 a 1942, Seomara foi simultaneamente professora do ensino liceal e docente universitria. Alis, foi na condio de professora do ensino liceal que ela desenvolveu intensa atividade no campo pedaggico e associativo: integrou os corpos dirigentes da Federao das Associaes dos Professores dos Liceus Portugueses, a partir de 1927, e proferiu diversas comunicaes nos Congressos daquela associao e em encontros realizados em outros pases, onde se deslocava muitas vezes acompanhada por seu pai, Manuel da Costa Primo.Em 1942, defendeu o doutoramento em Cincias Biolgicas (Botnica) e foi a primeira mulher a doutorar-se nesta rea em Portugal. A partir de ento, passou a dedicar-se s aulas, na universidade, e investigao. A sua vida pro-fissional passou a situar-se no mundo universitrio, mas manteve sempre uma relao umbilical com o ensino secundrio. Assim se compreende que o seu nome seja principalmente conhecido como autora de manuais e materiais didticos de cincias naturais para o ensino secundrio. Os manuais de Seomara tm traos distintivos, assim como os seus materiais didticos (nomeadamente os quadros parietais), que apresentam uma notvel qualidade esttica na sua apresentao. As aguarelas, os carves e outras ilustraes, muitas de sua autoria, expressam o rigor cientfico e o sentido de beleza com que estas obras eram concebidas. Seomara da Costa Primo aposentou-se no ano de 1962, dando por finda uma carreira irrepreensvel, brilhantemente dedicada ao ensino, cincia e MOGARRO, M. J. Uma mulher no seu tempo: cincia, arte e educao num percurso de vidaEducar em Revista, Curitiba, Brasil, n. 65, p. 119-134, jul./set. 2017 121participao cvica. Em 1986, faleceu na sua casa da Amadora, perto de Lisboa, na qual tinha vivido quase meio sculo; morreu no dia em que devia abandonar essa casa, para que ela fosse demolida. FIGURA 1 SEOMARA DA COSTA PRIMO NA SUA CASA, AMADORA, PORTU-GALFONTE: Ncleo Museolgico Seomara da Costa Primo (2017).Um ano antes tinha afirmado, de forma paradigmtica, o seu percurso vital: Alunos e livros foram meus companheiros na vida; mais do que isso, eles foram a minha prpria vida (PRIMO apud CARVALHO, 2012, no p.). A escola da Amadora adotou o seu nome como patrona e inscreveu esta frase na sua entrada.Autora de manuais e professora no ensino licealComo professora do primeiro Liceu feminino portugus, desde 1922, lecionou as disciplinas de Cincias Naturais (Botnica, Biologia, Zoologia) e Cincias Fsico-Qumicas, tendo percorrido os patamares prprios da profisso docente: primeiro foi professora provisria, depois professora agregada e, final-MOGARRO, M. J. Uma mulher no seu tempo: cincia, arte e educao num percurso de vidaEducar em Revista, Curitiba, Brasil, n. 65, p. 119-134, jul./set. 2017122mente, em 1926, professora efetiva (PRIMO, 1943; CAVADAS; GUIMARES, 2010). A dimenso em que atinge maior notoriedade no exerccio dessas funes a de autora de manuais e compndios para o ensino secundrio. So livros didticos de Botnica, Biologia e Zoologia, que se apresentam com numerosas ilustraes, harmonizando de forma cientificamente rigorosa texto e imagem. Estes materiais didticos expressam as novas correntes editoriais, mas h um cunho pessoal que os eleva a obras artsticas, nas aguarelas e nos carves que a prpria Seomara executa com rara beleza e que os transforma em objetos nicos. Autora de vrios tipos de materiais didticos, como os quadros parietais, neles imprime a mesma qualidade cientfica e artstica; ainda hoje essas produ-es se encontram nas colees histrias do patrimnio educativo que povoam as escolas mais antigas do ensino secundrio portugus.Contudo, importa no esquecer o campo de produo (BOURDIEU, 1991, 2004) em que Seomara da Costa Primo se movimentava e publicava as suas obras. Foi um campo fortemente controlado pelo poder poltico, em que o Estado Novo exercia a censura prvia sobre todas as formas de expresso. No campo educativo, a poltica do livro nico foi instituda em 1935, tendo os manuais de cada disciplina de serem aprovados pelo Ministrio da Educao Nacional. Era um processo complexo e dispendioso para os autores, que tinham de submeter as suas propostas de manuais ao exame e avaliao de uma comisso oficial. Esse processo reforava fortemente o controlo poltico e ideolgico do estado sobre os autores de manuais, os professores, as escolas e o sistema educativo, no seu todo, refletindo-se no autocontrole e autolimitao de quem escrevia e autocensurava as suas produes, sabendo que elas iam ser sujeitas ao crivo de uma censura ideolgica e punitiva, luz dos valores mais conservadores e autoritrios do regime poltico. Era o imprio do medo, com a consequente desvalorizao do esprito crtico nos processos de aprendizagem e na educao.Nesse contexto, Seomara da Costa Primo revela toda a sua determinao e criatividade, desenvolvendo modalidades prprias para contornar (subtilmente) as prescries emanadas do poder poltico quanto a esta matria e impondo o seu nome como a autora privilegiada do seu campo disciplinar. Nos anos de chumbo do regime, os seus manuais de Botnica, de Biologia e de Zoologia, ilustrados e coloridos, tiveram sucessivas reedies, com uma presena constante nos liceus portugueses entre os anos 30 e 70 do sculo XX. Numa bibliografia sistematizada pelo Ministrio da Educao, em 2006, no mbito de uma expo-sio virtual dedicada a Seomara, so referenciados 37 ttulos, tanto de edies como de reedies. MOGARRO, M. J. Uma mulher no seu tempo: cincia, arte e educao num percurso de vidaEducar em Revista, Curitiba, Brasil, n. 65, p. 119-134, jul./set. 2017 123FIGURAS 2, 3 E 4 MANUAL ESCOLAR; QUADRO GERAL DOS GRUPOS VE-GETAIS (ESTAMPA); ESTUDO PARA QUADRO PARIETAL SOBRE AS LEIS DE MENDEL, DE SEOMARA DA COSTA PRIMOFONTE: Ncleo Museolgico Seomara da Costa Primo (2017) e Exposio virtual sobre Seomara Costa Primo: vida e obra (PORTUGAL, 2006).MOGARRO, M. J. Uma mulher no seu tempo: cincia, arte e educao num percurso de vidaEducar em Revista, Curitiba, Brasil, n. 65, p. 119-134, jul./set. 2017124As ilustraes dos manuais de Seomara da Costa Primo expressam o desenvolvimento da manualstica, atribuindo uma importncia crescente ima-gem, que vai conquistando terreno, na mancha grfica, ao texto (CAVADAS; GUIMARES, 2010). No entanto, as obras de Seomara expressam esse lugar das ilustraes na economia explicativa dos contedos, mas elas continuam a atribuir ao texto o lugar central desse processo.Se uma imagem vale por mil palavras, pelas emoes que suscita, pelos estmulos que cria e pelas simplificaes a que conduz. Neste sentido, o texto to ou mais importante que a imagem pela simples razo de que mais complexo, profundo e rigoroso Deste ponto de vista, as imagens no servem a realidade, servem os seus autores. Sendo assim, Seomara da Costa Primo atravs dos manuais escolares usou a realidade como objecto, a fim de melhor exprimir o que queria explicar e mostrar. No caso das figuras analisadas, a imagem cumpriu com um significado rigoroso e pertinente a interpretao conceptual de Seomara, com o objectivo de favorecer o reconhecimento e a identificao pelos alunos do contedo em questo e de atingir nveis elevados de qualidade esttica e beleza formal alis, a iconografia apresentada revelou sempre dependncia textual e nunca o oposto. Essa opo mostra o papel central que ainda cabia ao texto nos manuais de cincias da altura, embora esse foco fosse diminuindo paulatinamente. (CAVADAS; GUIMARES, 2010, p. 9-10).Esses mesmos autores realam que nos manuais de Seomara as imagens apresentam uma riqueza morfolgica substancial, sendo inclusivamente inova-doras no uso corrente da fotografia e da cor, acompanhando o prprio avano das tcnicas grficas (CAVADAS; GUIMARES, 2010, p. 10) e a sua anlise confirma, em bases cientficas e consolidadas, a valorizao da iconografia nas ilustraes de Seomara. O conjunto da obra didtica e manualstica revela a experincia significativa da autora e reflete a conscincia pedaggica de uma educadora incontornvel (CAVADAS; GUIMARES, 2010, p. 10) no campo educativo portugus. A beleza artstica das suas aguarelas, carves, estampas, desenhos e fotografias, que integram o seu esplio, ilumina essas dimenses profissionais e cientficas da sua vida.Seomara da Costa Primo foi uma defensora das metodologias ativas e as suas prticas pedaggicas focavam-se na observao direta, na experimentao, na (re)formulao de perguntas e respostas. Como professora, acreditava que cada aluno tinha um caminho prprio e ela apoiava esse percurso, escolhendo exerccios especficos em funo das particularidades que cada um tinha. Esta conceo personalizada do ensino explica algumas das suas opes.MOGARRO, M. J. Uma mulher no seu tempo: cincia, arte e educao num percurso de vidaEducar em Revista, Curitiba, Brasil, n. 65, p. 119-134, jul./set. 2017 125Seomara foi uma apologista do cinema educativo, que introduziu no seu Liceu em 1929, com a apresentao do filme Chang e a publicao de um extenso artigo no suplemento do jornal O Sculo (o Cinfilo), intitulado Chang - Uma lio no Liceu Maria Amlia Vaz de Carvalho. Nesse artigo faz uma breve histria do cinema e reala as vantagens do cinema educativo como forma de aproximar os alunos da realidade. Seomara defendia tambm a correspondncia interescolar, considerando-a um meio de unio e solidariedade entre as crianas do mundo. Foi uma dimenso transnacional das suas concees pedaggicas, que exprimiu tambm no interesse que manteve relativamente Cruz Vermelha da mocidade, apresentando uma comunicao sobre o tema, em 1930, e, ainda nesse ano, uma conferncia intitulada A educao e a Cruz Vermelha infantil, patrocinadas pelo jornal O Sculo e o seu suplemento Modas e Bordados, dirigido por Maria Lamas, em que dava a conhecer os objetivos e as realizaes em prol da paz que a referida instituio internacional prosseguia.Em 1929, Seomara tinha assistido a uma exposio didtica realizada em Genebra e observara os trabalhos de crianas de 41 pases; entusiasmada com a iniciativa, propunha-se impulsionar a adeso de Portugal a esta instituio e divulgar a sua ao entre os alunos dos liceus portugueses. As suas perspetivas sobre a educao e as suas preocupaes pedaggicas revelaram-se na defesa da necessidade de adotar novos mtodos de ensino, o que a conduziu afirmao pblica da sua crtica relativamente aos programas do ensino liceal. Coerente com a sua ao pedaggica, Seomara defendeuA transformao dos mtodos de ensino em mtodos activos, que tendem a favorecer a actividade pessoal da criana, procurando rode-la das mesmas condies que encontrar na vida, levando-a a resolver problemas em que colocada, dentro das suas foras e da sua mentalidade, o que certo que tambm nos nossos programas muito pouco se cuida dos problemas da vida. (PRIMO, 1930).Seomara da Costa Primo desempenhou vrios cargos e funes, com gran-de empenho pedaggico e cvico: foi membro de jris de exames de admisso ao estgio liceal, participou nas provas de admisso Universidade do Porto, em exames de estado e na apreciao de exposies de trabalhos escolares. Foi tambm nomeada para integrar vrias comisses, como a Comisso de Reviso dos Planos de Estudos e dos Programas do Ensino Liceal em 1942. As questes relativas condio da mulher foi outra das suas preocupa-es e exprimiu as suas ideias com clareza, defendendo a educao da mulher: MOGARRO, M. J. Uma mulher no seu tempo: cincia, arte e educao num percurso de vidaEducar em Revista, Curitiba, Brasil, n. 65, p. 119-134, jul./set. 2017126Quanto mais esclarecida for [a mulher], tanto mais elevar a sua misso de me. A cultura nunca far mal s raparigas a mulher, de facto quem exerce mais influncia no esprito dos filhos. Fomentar, pois, a sua cultura, elevar a sua mentalidade, pedra-de-toque de um pas verdadeiramente civilizado. (PRIMO, 1943).Como membro dos corpos gerentes da Federao das Associaes dos Pro-fessores dos Liceus Portugueses, desde 1927, apresentou diversas comunicaes nos Congressos realizados pela associao: os Congressos do Ensino Secundrio Oficial, realizados entre 1927 (o I Congresso) e 1931 e o I Congresso Nacional de Cincias Naturais, realizado em Lisboa, em 1941. Tambm participou ati-vamente em Congressos internacionais, tais como: o XI Congrs Internacional de lnseignement Secondaire, realizado em Haia, em 1929, como delegada da Federao das Associaes dos Professores dos Liceus portugueses; e o III Congrs Bisannuel de la Fdration Universelle ds Associations Pdagogi-ques, realizado em Genebra, tambm em 1929, entre outros eventos similares.A memria da professora liceal manteve-se, forte, carinhosa e impressiva nas suas alunas. vivamente recordada nas palavras de Antera Valeriana de Seabra:Fui aluna da Professora Seomara em Cincias fsico-qumicas e Cincias naturais no 4, 5 e 6 anos do liceu, portanto, de 1935 a 1938. Gostava muito das aulas dela e ela tinha aqueles livros maravilhosamente bem ilustrados - ela gostava muito de desenhar e pintar. As aulas eram muito prticas: ela levava para as aulas os caules cortados, as cebolas que observvamos ao microscpio e amos ao laboratrio observar o esqueleto humano, os msculos...ainda hoje sei muita coisa de Biologia graas quela professora. Era uma professora extraordinariamente pedagoga - tinha umas qualidades pedaggicas extraordinrias e era uma simpatia. Ela foi nossa viagem de fim do curso do liceu - fomos l acima ao Lindoso e foi sempre muito atenciosa e amiga, muito simplescomigo e com as outras minhas colegas.Eu assisti ao seu doutoramento e como era mulher foi bastante ama-chucada... ela no merecia aquele tratamento... O jri era composto por homens, com excepo da Doutora Branca, mas ela no era de Biologia era de QumicaFoi uma Professora a quem realmente muito fiquei a dever, que me em-purrou para as Cincias, que me trazia problemas e exerccios e dizia estes dois so para a Antera e depois dava outros problemas diferentes s minhas colegas.MOGARRO, M. J. Uma mulher no seu tempo: cincia, arte e educao num percurso de vidaEducar em Revista, Curitiba, Brasil, n. 65, p. 119-134, jul./set. 2017 127A Seomara era fundamentalmente uma pedagoga e uma amante da profis-so; ela vivia para os seus alunos, nunca se casou nem nada...tinha uma amizade muito especial pelos seus alunos e era uma Professora com letra muito grande (Eng. Antera Valeriana de Seabra, 2006, testemunho oral). (PORTUGAL, 2006).As palavras de Laura Ayres revelam o mesmo carinho e reconhecimento pela figura paradigmtica da professora que as marcou para a vida:Conheci Seomara da Costa Primo nos ltimos anos do curso liceal, no fim dos anos 30. Os quase cinquenta anos que me separam dessa data no fizeram apagar a memria da professora de excepo que as alunas da minha gerao tiveram o privilgio de conhecer Sobretudo, fiquei a dever-lhe o exemplo inesquecvel de algum com o gosto pelo saber terico e prtico e com a atitude perante o ensino que a caracterizaram como uma profissional mpar e que, sem dvida, marcou profundamente as suas alunas, tanto no liceu como na Faculdade de Cincias. Relembrar Seomara da Costa Primo, a quem me ligaram laos de profundo respeito e amizade, prestar-lhe a ainda que muito simples homenagem a que fez jus pelas suas elevadas qualidades profissionais e humanas. (Dr. Laura Ayres, 1986, testemunho). (PORTUGAL, 2006).A professora na universidadeA carreira universitria de Seomara da Costa Primo iniciou-se em 1921, quando assumiu as funes de 2 Assistente no remunerada do subgrupo de Botnica, tendo no ano seguinte continuado a exercer o cargo, mas de forma remunerada. At 1934-1935 assegurou principalmente os trabalhos prticos dos cursos de Botnica Sistemtica e Morfologia e Fisiologia Vegetais. Em 1934, foi proposto que ela exercesse, por contrato, o cargo de assistente encarregada do curso de Botnica, tendo ento sido contratada para essas funes.Foi um impulso importante na sua carreira acadmica e universitria, onde se afirmou e integrou a lista dos grandes nomes da botnica nacional (CAVADAS; GUIMARES, 2010). Seomara preocupou-se permanentemente com o ato educativo e no somente com a transmisso de conhecimentos, como sublinham Antunes e Galvo (2001).MOGARRO, M. J. Uma mulher no seu tempo: cincia, arte e educao num percurso de vidaEducar em Revista, Curitiba, Brasil, n. 65, p. 119-134, jul./set. 2017128A tese de doutoramento de Seomara da Costa Primo, intitulada Contribui-o para o estudo comparativo da aco do arsnio e da colciquina na clula vegetal, foi defendida em 1942, tendo sido aprovada com mrito absoluto. Ela foi a primeira mulher a doutorar-se em Cincias Biolgicas. As provas do dou-toramento foram noticiadas na imprensa e tiveram um impacto significativo na poca, com a descrio detalhada das perguntas (relembre-se que as suas alunas refeririam a exigncia de algumas questes que lhe colocaram, por comparao com a facilidade de outras feitas a candidatos do gnero masculino) e a calma e o rigor de Seomara nas respostas. Foi ainda salientada a forma efusiva como colegas e alunos felicitaram Seomara. No entanto, na memria de algumas alunas, ficou gravada a maneira pouco elegante como alguns membros (mas-culinos) do jri a questionaram durante as provas, considerando que havia uma intencionalidade expressa de a amachucar.FIGURAS 5 E 6 O DOUTORAMENTO DE SEOMARA DA COSTA PRIMO NA IMPRENSA DA POCAMOGARRO, M. J. Uma mulher no seu tempo: cincia, arte e educao num percurso de vidaEducar em Revista, Curitiba, Brasil, n. 65, p. 119-134, jul./set. 2017 129FONTE: Exposio virtual sobre Seomara Costa Primo: vida e obra (PORTU-GAL, 2006).Na sequncia do Doutoramento, Seomara da Costa Primo foi nomeada 1 Assistente do 2 grupo (Botnica) da 3 seco da Faculdade de Cincias. No ano seguinte, em 1943, prestou provas pblicas no concurso para o lugar de professor catedrtico do mesmo 2 grupo (Botnica), mas no se conhece a sua nomeao MOGARRO, M. J. Uma mulher no seu tempo: cincia, arte e educao num percurso de vidaEducar em Revista, Curitiba, Brasil, n. 65, p. 119-134, jul./set. 2017130para esta categoria. Foi regente das disciplinas de Morfologia e Fisiologia Vegetais, Botnica Geral e Botnica Sistemtica, entre outras, sendo mais tarde responsvel pela cadeira de Desenho Biolgico (1949). A lecionao desta ltima cadeira expressa de forma exemplar a associao que estabelecia entre a arte e a cincia. Esta dimenso da arte na cincia, que iluminava um esprito de grande rigor, est presente no testemunho da sua aluna Salom Soares Pais, que frequentou a Faculdade de Cincias na rua da Escola Politcnica:[Seomara da Costa Primo] deslocava-se habitualmente junto de cada alu-no que, em p, no seu estirador, passava as aulas de Desenho Biolgico, no 1 andar da Faculdade de Cincias de Lisboa, na Rua da Escola Poli-tcnica, tentando por vezes com dificuldade, fazer ressaltar um pormenor da folha ou da flor de uma Angiosprmica ou dar expresso ao bico do mais simples dos pssaros. Quando necessrio, a Prof. Seomara pegava no lpis e, como boa desenhadora Biolgica que era, rapidamente cor-rigia a perspectiva ou exprimia o rigor da nervao ou recorte da folha desenhada. (Salom Soares Pais, Testemunho). (PORTUGAL, 2006).Seomara atingiu, na sua atividade cientfica, uma escala internacional. Ela foi autora de artigos cientficos, publicados em revistas da especialidade, tendo sido citada na imprensa estrangeira; foi tambm scia de diversas sociedades cientficas, como a Sociedade Portuguesa de Cincias Naturais, a Sociedade Portuguesa de Biologia, a Sociedade Broteriana e a Socit Linnenne de Lyon. Como autora, destacam-se as suas colaboraes com os Arquivos da Univer-sidade de Lisboa, o Bulletin de la Socit Portugaise des Sciences Naturelles, o Boletim da Sociedade Broteriana, os Archives portugaises des sciences biologiques e as revistas Labor, Scientia e Naturalia (ANTUNES; GALVO, 2001). As suas viagens de estudo, de mbito cientfico e pedaggico, levaram--na a Frana, a Alemanha, a Blgica, a Holanda e a Sua, onde participou em congressos e frequentou vrias instituies cientficas, como o Instituto Botnico de Berlim-Dahlem, Nymphenburg, Universidade de Iena.O lugar de Seomara da Costa Primo na memria e na histria da educaoAs alunas de Seomara e as suas colegas professoras, assim como um n-mero reduzido de investigadoras, assumiram como imperativo preservar a sua MOGARRO, M. J. Uma mulher no seu tempo: cincia, arte e educao num percurso de vidaEducar em Revista, Curitiba, Brasil, n. 65, p. 119-134, jul./set. 2017 131herana, os seus documentos e as memrias da mestre. No entanto, as publicaes so em nmero reduzido, distinguindo-se os textos de Guida Carvalho (2010, 2003), Guida Carvalho e Capelo (2002) e de Helena Antunes e Ceclia Galvo (2001). Na verdade, esta personalidade paradigmtica da educao portuguesa reclama uma investigao mais aprofundada. Algumas questes se colocam, por exemplo: porque razo publica o seu ltimo texto cientfico em 1943, quando continuou na docncia e na Universidade at 1962? Porque no foi nomeada catedrtica, apesar de ter sido aprovada no respetivo concurso, em 1943?No entanto, no mundo virtual encontram-se bastantes informaes, conse-quncia do trabalho desenvolvido pelo Ncleo Museolgico Seomara da Costa Primo, da Escola Secundria Seomara da Costa Primo, que constituiu, preserva e divulga o precioso esplio da sua patrona. Alis, foi com base neste esplio que o Ministrio da Educao de Portugal organizou a exposio virtual Seomara Costa Primo: vida e obra, datada de 2006. A referida Escola da Amadora reuniu, a partir de 1980, uma parte considervel do seu esplio bibliogrfico e artstico, constitudo por aguarelas, manuais escolares, publicaes, apontamentos de Seomara, fotografias, objetos pessoais, recortes de imprensa e livros, num total de 600 espcimes. Esse esplio, reunido no Ncleo Museolgico, foi constitudo atravs de doaes de entidades oficiais e particulares, nomeadamente da Escola Secundria Maria Amlia Vaz de Carvalho, do Museu-Escola Jardim Botnico e da Dr. Maria Lusa Azevedo Neves. O Ncleo Museolgico Seomara da Costa Primo da responsabilidade das professoras Maria Jos Capelo e Guida Carvalho. A Escola Secundria Maria Amlia Vaz de Carvalho tambm possui exem-plares que pertencem ao esplio de Seomara, relacionado com o ensino liceal: manuais escolares, quadros parietais (ou murais), livros de homenagem com elevado nmero de assinaturas que evidenciam as relaes humanas que manteve com os seus alunos e com os colegas. Por seu lado, o esplio de Seomara da Costa Primo associado investigao e ao ensino universitrio est depositado, em grande parte, na biblioteca do Instituto Botnico da Faculdade de Cincias da Universidade de Lisboa (ANTUNES; GALVO, 2001).ConclusoSeomara da Costa Primo uma figura paradigmtica, que fez parte da gerao que lutou pela afirmao da mulher na sociedade do seu tempo e num universo predominantemente masculino, como era a universidade. A sua ao cvica e envolvimento associativo, as suas ideias e o seu perfil profissional MOGARRO, M. J. Uma mulher no seu tempo: cincia, arte e educao num percurso de vidaEducar em Revista, Curitiba, Brasil, n. 65, p. 119-134, jul./set. 2017132permitem-nos coloc-la na vanguarda em defesa de um pas moderno, livre e democrtico, em dilogo com as outras sociedades e universos pedaggicos e cientficos. No entanto, quase toda a sua vida profissional decorreu sob um regime autoritrio e concentracionrio, sujeitando a ao pessoal, social e profis-sional aos mecanismos da censura sobre a liberdade de expresso e de controlo poltico-ideolgico sobre a vida quotidiana e profissional. Seomara construiu o seu espao prprio de ao entre estes condicionalismos, no ensino liceal (em que sempre atuou, mesmo que s como autora de manuais) e na universidade (a que sempre esteve ligada), no mundo editorial e no associativismo, agindo de forma determinada, exprimindo as suas ideias convictamente e encontrando mecanismos subtis de contornar as dificuldades para as divulgar. Mulher de esprito interventivo e inovador, de enorme coerncia entre o que defendia e o que praticava na sua atividade docente, os testemunhos que muitos alunos nos do revelam uma personalidade atenciosa, amiga, simples, paciente, pouco comunicativa, extremamente correta, sabedora, modesta e generosa (CARVALHO, 2010, p. 208), algo distante e profissionalmente irrepreensvel. Elina Guimares, na hora da morte de Seomara, enalteceu as suas qualidades de mulher cientista, pedagoga e cidad e reclamou a necessidade de manter viva a sua memria exemplar, pois com grande talento subiu, com simplicidade, to alto e serviu dedicadamente a cincia, o seu pas e, desse modo, as suas compatriotas (GUIMARES, 1986, p. 29).REFERNCIASANTUNES, H.; GALVO, C. Seomara da Costa Primo: a investigadora, docente, a mulher. In: SIMES, A. (Org.). Memrias de professores cientistas. Lisboa: Faculdade de Cincias da Universidade de Lisboa, 2001. p. 38-42.BOURDIEU, P. Le champ littraire. 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