Uma mulher entre livros

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  • UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTECENTRO DE CINCIAS SOCIAIS E APLICADAS

    DEPARTAMENTO DE EDUCAOPROGRAMA DE PS-GRADUAO EM EDUCAO

    MARIZE LIMA DE CASTRO

    Uma mulher entre livros

    Zila Mamede e o silencioso exerccio de semear bibliotecas

    Natal-RN

    2004

  • MARIZE LIMA DE CASTRO

    Uma mulher entre livros:

    Zila Mamede e o silencioso exerccio de semear bibliotecas

    Dissertao apresentada ao Programa de Ps-graduao em Educao da UniversidadeFederal do Rio Grande do Norte, comoexigncia parcial para obteno do ttulo deMestre em Educao.

    Orientadora: Prof Dr Maria Arisnete C. deMorais

    Natal-RN

    2004

  • Catalogao da publicao na fonte. UFRN/Biblioteca Central Zila MamedeDiviso de Servios Tcnicos

    Castro, Marize Lima de Uma mulher entre livros: Zila Mamede e o silencioso exerccio de semear bibliotecas / Marize Lima de Castro. _ Natal , RN, 2004. 141p. : il.

    Orientadora: Maria Arisnete Cmara de Morais.

    Dissertao (Mestrado) Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Centro de Cincias Sociais Aplicadas. Programa de Ps-graduao em Educao.

    1. Historiografia Norte-rio-grandense Tese. 2. Literatura Norte-rio-grandense - Historiografia - Tese. 3. Mamede, Zila Biografia Tese. 4. Biblioteca Tese. 5. Educao Tese. I. Morais, Maria Arisnete Cmara de. II. Ttulo.

    RN/UF/BCZM CDU 930(813.2)

  • MARIZE LIMA DE CASTRO

    Uma mulher entre livros

    Zila Mamede e o silencioso exerccio de semear bibliotecas

    Dissertao apresentada ao Programa de Ps-graduao em Educao da UniversidadeFederal do Rio Grande do Norte, comoexigncia parcial para obteno do ttulo deMestre em Educao.

    Natal, de de 2004

    Banca Examinadora

    ___________________________________________Prof Dr Maria Arisnete Cmara de Morais

    ___________________________________________Prof. Dr. Francisco Ivan da Silva

    ___________________________________________Prof Dr Rosanlia de S Leito Pinheiro

    ___________________________________________Prof. Dr. Luiz Assuno

  • Dedico a Zila Mamede, pelo rigor e pela paixo

  • Agradeo a Maria Arisnete Cmara de Morais

    por esta orientao celeste.

  • Organizar bibliotecas exercer, de um modo silencioso emodesto, a arte da crtica.

    Jorge Lus Borges

  • Resumo

    A contribuio de Zila Mamede educao e cultura norte-rio-grandenses, na dcada de

    1960, inclusive ao construir a biblioteca "sem muros" mais importante do Rio Grande do

    Norte a bibliografia de Cmara Cascudo , o que este texto compreende e narra.

    Diferentes abordagens trazem Zila Mamede academia, mas a sua prtica na rea da

    biblioteconomia ainda no havia merecido nenhum estudo. O trabalho pioneiro realizado

    por Zila Mamede de organizar bibliotecas e de formar profissionais para trabalharem

    nessa "construo cheia de livros" estava para ser contado. Este trabalho articula-se, na

    dcada de 1960, com a cidade de Natal e sua produo poltico-cultural. Configurar a

    sociedade natalense nessa poca fez-se essencial. Por conseguinte, foi reconstitudo o

    trabalho pioneiro realizado por Zila Mamede na biblioteconomia potiguar, atravs de

    entrevistas com familiares, amigos, alunos, alm de profissionais que trabalharam com

    ela. Tambm foram consultados livros de memria de autores potiguares e inmeros

    exemplares de jornais locais.Estas fontes sustentaram e iluminaram esta pesquisa.

  • Abstract

    Zila Mamede left a great contribution to education and culture in Rio Grande do Norte

    during the 60s, when she built the most important outdoor library from the state the

    Camara Cascudos bibliography. It is this aspect of her work that this text tries to apprehend

    and narrate. Different approaches have brought Zila Mamede to academy, but her work

    as a librarian yet did not have had any study. Her pioneer work on organizing and preparing

    professionals to deal with these constructions full of books was waiting to be told. This

    work articulates itself with the political and cultural production of Natal during the 60,

    because it was essential to configurate the city at this time. It was also necessary to interview

    Zila Mamedes friends, relatives and the people who worked with her. This research also

    demanded a review of many memoirs by potiguares, and the examination of newspapers

    and magazines to enlighten the period.

  • Sumrio

    1 Alm do nome: o caminho que me levou pesquisa....................... 12

    2 A pesquisa a que ser que se destina ?...................................... 20

    3 Estranha alquimia como fiz a pesquisa..................................... 26

    4 O lugar da histria............................................................... 31

    4.1 Almas e corpos torturados............................................................ 46

    5 Zila Mamede exata, pronta................................................... 55

    5.1 Arte de viver............................................................................. 58

    6 O meu encontro com Zila Mamede.......................................... 89

    7 No caminho do mar repercusso de uma morte......................... 95

    8 Uma biblioteca uma biblioteca uma biblioteca uma biblioteca... 104

    8.1 A bibliografia de Cascudo solido e destemor.................................... 112

    9 Concluindo e o desejo de continuar ........................................ 132

    Referncias................................................................................. 136

  • Antes do desejo de conhecimento, o simples gosto; antes da obrade cincia plenamente consciente de seus fins, o instinto que a ela

    conduz

    Marc Bloch

  • 12

    1 Alm do Nome: o caminho que me levou pesquisa

    No ano de 2001 realizei uma idia que cultivava h algum tempo: entrevistar escritores e

    poetas norte-rio-grandenses, amalgamando a linguagem literria com a linguagem

    jornalstica.

    Essas entrevistas foram publicadas aos domingos, no caderno Viver, do jornal Tribuna

    do Norte. A seo chamava-se Alm do Nome e se caracterizou por ocupar uma pgina

    inteira; pelo material fotogrfico indito, sempre em sintonia com o que estava sendo

    narrado no texto; e pela abordagem declaraes nunca antes reveladas ao pblico.

    O meu objetivo era mostrar os nomes da literatura do Rio Grande do Norte, desvelar

    suas fragilidades, grandezas, inquietaes, sonhos e, essencialmente, a misso e a

    necessidade de escrever de cada um deles. Pretendia diminuir a distncia que h entre os

    escritores norte-rio-grandenses e o pblico leitor. Entrevistei 33 nomes;1 33 universos

    de onde se originaram livros livros de vida.2

    1 Lus Carlos Guimares, Dorian Gray, Alex Nascimento, Diva Cunha, Joo Gualberto, Digenes da Cunha Lima, NeiLeandro de Castro, Vicente Serejo, Nivaldete Ferreira, Benito Barros, Gilberto Avelino, Franklin Jorge, Maria EugniaMontenegro, Dailor Varela, Avelino Arajo, Anchieta Fernandes, Tarcsio Gurgel, Defilo Gurgel, Manoel Onofre Jnior,Francisco Sobreira, Andire Abreu, Celso da Silveira, Jorge Dumaresq, Racine Santos, Carmem Vasconcelos, Franco Jasiello,Paulo de Tarso Correia de Melo, Francisco Ivan, Iracema Macedo, Adriano de Sousa, Antnio Ronaldo, Paulo Augusto eJoo da Rua.

    2 Os livros so sempre livros de vida (DERRIDA, 1971, p. 72).

  • 13

    O primeiro nome entrevistado foi Diva Cunha.3 O ltimo entrevistado, em dezembro

    de 2001, foi Dailor Varela.4 Trs dos poetas entrevistados j faleceram: Lus Carlos

    Guimares,5 Gilberto Avelino6 e Franco Jasiello.7 A resposta do pblico foi surpreendente.

    Vrias cartas foram enviadas para a redao do jornal e para o meu correio eletrnico.

    Todas foram publicadas na coluna do leitor da Tribuna do Norte.

    Essas entrevistas me contagiaram. Comecei a sentir aquela inegvel atrao pela histria

    a qual Bloch (1941, p. 14) refere-se: Antes do desejo de conhecimento, o simples gosto;

    antes da obra de cincia plenamente consciente de seus fins, o instinto que a ela conduz.

    O desejo de compreender, narrar, fazer histria chamava-me. Perguntei-me como

    aprofundaria aquele trabalho, o que faria com aquelas incomensurveis horas de gravao.

    Voltei o pensamento para a Universidade Federal do Rio Grande do Norte, instituio

    na qual sou jornalista h vrios anos, sempre atuando no jornalismo cultural, especialmente

    como editora. Na dcada de 1990 fui editora responsvel da revista Odissia,8 do Centro

    3 Poeta, professora, pesquisadora, nasceu em Natal (RN), em 1947. autora dos livros Dom Sebastio: a metfora de umaespera; Canto de pgina; A palavra estampada; Corao de lata; Iniciao poesia do Rio Grande do Norte; LiteraturaFeminina do Rio Grande do Norte de Nsia Floresta a Zila Mamede; Literatura do Rio Grande do Norte antologia;Via-lctea de Palmyra e Carolina Wanderley e Armadilha de Vidro.

    4 Poeta, jornalista, nasceu em Anpolis (GO), em 1945. Morou muitos anos em Natal. Autor dos livros Babel; Jaula aberta;Recados para Mara; Bem aventurados os bbados; A loua suja da convivncia; Mscaras de papel; Travessia; Escrevivncias;Crnicas lobatenses; Cantilena diablica; Do meu caderno amarelo e Delrico. Reside no Estado de So Paulo.

    5 Poeta nascido em Currais Novos (RN), em 1934. autor dos livros O aprendiz e a cano; As cores do dia; Ponto de fuga;O sal da palavra; Pauta de passarinho; A lua no espelho; O fruto maduro e 133 traies bem-intencionadas. Ocupou aCadeira n 37 da Academia Norte-rio-grandense de Letras. Faleceu em Natal, no ano de 2001, semanas aps a suaparticipao no Alm do Nome. Essa foi a sua ltima entrevista para a imprensa.

    6 Nasceu em Au (RN), em 1928, ainda criana transferiu-se para Macau essa cidade o motivo maior da potica deGilberto Avelino. autor dos livros O moinho e o vento; O navegador e o sextante; Os pontos cardeais; Elegias do maraceso em lua; O vento leste; Alm das salinas; As mars e as ilhas; Os tercetos e um canto s vozes do mar. Faleceu emNatal, em 2002. Suas obras completas foram publicadas em 2004, pela Editora Sebo Vermelho, sob o ttulo de DirioNutico.

    7 Poeta italiano naturalizado brasileiro, nascido em Roma, em 1932. Autor dos livros Os amigos do sangue noturno;Sobrevivncia da memria; As estaes nufragas; Linguagem da Histria da Arte; Itinerrio do imprevisto; Correspondnciaatrasada; Correspondncia potica dos lricos gregos e Anatomia da ausncia. Faleceu em Natal, no ano de 2004.

  • 14

    de Cincias Humanas Letras e Artes da UFRN. A questo que coloquei para mim foi a

    seguinte: a minha prxima pesquisa tambm incluiria o carter cientfico.

    Foi esse trabalho realizado no projeto Alm do Nome que, literalmente, trouxe-me

    para o Programa de Ps-graduao em Educao da UFRN. O ltimo entrevistado, o

    poeta Dailor Varela, lanou em Natal, na livraria A. S Livros,9 em dezembro de 2001, o

    seu livro Delrico. Nessa noite, reencontrei, depois de muitos anos, uma amiga: Maria

    Arisnete Cmara de Morais. Eu conhecia, mas no profundamente, o seu trabalho de

    pesquisadora; j tinha tido a oportunidade de folhear algumas pginas do livro A mulher

    em nove verses, editado em 2001 pela Editora da UFRN. Observei, ento, que eram

    textos de professores e alunos do Programa de Ps-graduao em Educao da UFRN,

    vinculados base de pesquisa Gnero e Prticas Culturais: abordagens histricas, educativas

    e literrias.10

    No meu reencontro com a amiga, professora e pesquisadora Maria Arisnete Cmara

    de Morais, surgiu-me a quase certeza de que eu havia encontrado o que procurava.

    Telefonei-lhe no dia seguinte, falei-lhe, superficialmente, das minhas inquietaes, e fui

    convidada a participar das reunies da base. Aps alguns encontros, a quase certeza

    transformou-se em certeza. Identifiquei-me com o grupo, com a maneira das discusses

    serem conduzidas e, principalmente, com os estudos que pretendem a compreenso

    8 Revista interdisciplinar fundada em 1994, idealizada para ser uma alternativa dentro da academia. Nessa publicao, textoscientficos, artsticos e filosficos conviveriam em harmonia. Esta Odissia um sonho e um risco. Amalgamar Filosofia,Cincia e Arte um desafio. Mas uma possibilidade. Uma postura de vida. Muitos vislumbraro aqui alguns penhascos emuitas dvidas. Porm o que seria de ns sem a estranheza e o estremecimento profundos que nos levam a muitas paisagens,mas que tambm nos devolvem, fielmente, nossa taca? (ODISSIA, 1994, p.5).

    9 Localizada na avenida Salgado Filho.

    10 Base de pesquisa coordenada, desde o ano de 1998, pela professora Maria Arisnete Cmara de Morais.

  • 15

    histrica do papel da mulher na sociedade, para melhor compreender a interao homem

    e mulher, segundo valores e interdependncias historicamente constitudos (MORAIS,

    2001, p.10).

    Em um desses encontros fui convidada a falar sobre as minhas expectativas em relao

    base e sobre o estudo que eu pretendia desenvolver. Levei para a sala de aula alguns

    exemplares do caderno Viver, falei sobre o que tinha sido o Alm do Nome e, inclusive, da

    minha aspirao de continuar pesquisando.

    A orientao da coordenadora da base foi a seguinte: Marize, voc precisa escolher

    um nico nome para trabalhar, sem esse recorte ficar muito difcil desenvolver a pesquisa.

    Por sugesto sua, decidi-me pela escritora e professora Maria Eugnia Montenegro,11

    uma das entrevistadas do Alm do Nome. Aps ser aprovada na prova escrita para ingressar

    no mestrado do PPGED, apresentei o projeto Maria Eugnia Montenegro, um rio de

    memria e palavras, tambm posteriormente aprovado, no qual eu pretendia reconstituir

    a histria da educao da mulher, atravs da obra da escritora, nas dcadas de 1930 e

    1940, no Vale do Au, no serto do Rio Grande do Norte.

    Este foi o caminho percorrido por mim para entrar como aluna regular e como

    pesquisadora dessa base, onde presenciei vrias discusses sobre estudos que estavam em

    desenvolvimento, estando hoje, em 2004, todos concludos. Entre eles, destaco:

    11 Escritora, nascida em Lavras (MG), em 1915. autora dos livros Saudade, teu nome menina: memrias de uma meninafeia; Azul solitrio; Alfar, a que est s; Lavras - terra de lembranas (memrias de mocidade); Andorinha sagrada de VilaFlor; Lembranas e tradies do Au; Porque Amrico ficou ll da cuca; Loureno, o sertanejo; Todas as Marias. MariaEugnia Montenegro ocupa a Cadeira n 16 da Academia Norte-rio-grandense de Letras. Reside em Au (RN).

  • 16

    1. A tese Faces de mulher no Brasil das dcadas de 1960 e 1970, da professora Ilane

    Ferreira Cavalcante, na qual a autora busca perfis de mulheres que representem as

    brasileiras nas dcadas de 1960 e 1970, extradas essas representaes das revistas

    Veja, Cludia e Realidade e dos romances Vero no aqurio e As meninas, da

    escritora Lygia Fagundes Telles.

    2. A dissertao Jornal das Moas (1926-1932): educadoras em manchete, do

    jornalista Manoel Pereira da Rocha Neto. Pesquisa que teve como objetivo investigar

    esse peridico, enfatizando a presena das professoras Georgina Pires, Dolores

    Diniz e Jlia Augusta de Medeiros. Mulheres que produziram o jornal em Caic,

    no Rio Grande do Norte.

    3. Dolores Cavalcanti: entre a docncia e o jornalismo em Cear-Mirim/RN (1903-

    1930), de Elisngela de Arajo Nogueira Melo. Nessa pesquisa, a autora analisa a

    forma como a professora Maria Dolores Bezerra Cavalcanti constri e representa

    sua relao com a educao.

    4. Revista Pedagogium: um olhar sobre a educao no Rio Grande do Norte (dcada

    de 1920). Estudo no qual a professora Marlene Fernandes Ribeiro reconstituiu as

    prticas educativas e representaes de professores e professoras da educao

    pblica no Rio Grande do Norte, na dcada de 1920.

    5. A Educao da Mulher no Rio Grande do Norte na dcada de 1920, atravs dos

    romances de Antnio de Souza. Nessa dissertao, a professora Eliane Moreira

    Dias reconstituiu a histria da educao da mulher norte-rio-grandense, na dcada

  • 17

    de 1920, atravs dos romances Flor do serto e Gizinha, de Polycarpo Feitosa,

    pseudnimo do escritor e poltico Antnio Jos de Melo e Souza.

    Aps estudos, discusses e questionamentos, observando a paixo dos integrantes da

    base por seus objetos de estudo, percebi que eu no estava apaixonada por minha incipiente

    pesquisa. Ns no escolhemos a pesquisa, ela que nos escolhe, estas palavras proferidas

    por Maria Arisnete Cmara de Morais em uma das suas aulas, deixaram-me atenta

    minha falta de paixo. Por que no me sentia contagiada por minha pesquisa? Esta pergunta

    me fiz constantemente. At que eu obtive a resposta. Mesmo compreendendo o inestimvel

    valor da escritora e da mulher Maria Eugnia Montenegro, eu no havia sido escolhida.

    Outros, certamente, entendi, realizaro algum dia, com mais competncia, esse trabalho

    sobre a histria da educao da mulher no vale do Au, atravs da obra de Maria Eugnia.

    Ao descobrir que o meu objeto de estudo no havia me escolhido, escrevi,

    imediatamente, uma carta para a orientadora desta dissertao, na qual eu falava da minha

    angstia e apresentava um outro objeto de estudo. Eis alguns fragmentos dessa carta:

    [...]Sei que voc aceitou me orientar por acreditar no meu trabalho e nasminhas possibilidades. O nosso reencontro me surpreendeu muito.Reencontrei uma mulher na maturidade de sua vida, imagino quantovoc deve ter lutado com o estabelecido para no se deixar levar nafogueira das mesquinharias e vaidades. Acredite, aprendo muito comvoc. Cada vez que conversamos, sinto que voc a pessoa certa paraestar ao meu lado neste momento da minha (retomada) vida acadmica.Por tudo que eu acabei de dizer, por favor, aceite este meu pedido:quero trabalhar j com Zila. Ela me chama todos os dias. Devo isso aela. Devo isso a mim. Rosa de pedra completa 50 anos este ano. Noquero perder esta comemorao, quero comemorar com a minha/nossa dissertao sobre essa mulher entre livros.

  • 18

    Os chamados de Zila Mamede tornaram-se quase ininterruptos. Um deles foi uma

    conversa que tive com uma irm12 da bibliotecria-poeta13 (ou ser o contrrio, poeta-

    bibliotecria?), no aposento ao lado do quarto onde durante alguns anos ela dormiu,

    sonhou e acordou. Cercada por fotos, livros, cartas, entre outros objetos pertencentes a

    Zila Mamede, tive a certeza da importncia de uma pesquisa que narrasse o trabalho

    dessa profissional intensamente apaixonada por seu trabalho. Paixo descrita por Freire

    (1985,p. 2)14 numa das suas crnicas:

    No conheci na vida ningum que amasse mais os livros e trabalhassecom ele com mais competncia. No conheci na vida quem melhordirigisse uma biblioteca pblica, aliando ao desvelo do carinho aeficincia da profissional. No conheci ningum mais meticuloso nolevantamento bibliogrfico de grandes autores, transformando o simplesfichrio de livros em obra de consulta obrigatria como o fez com Lusda Cmara Cascudo e estava a fazer, estava concluindo, com respeitoao grande poeta Joo Cabral de Melo Neto.

    Nesse pequeno trecho15 escrito sob forte emoo, uma semana aps a morte de Zila

    Mamede, Dorian Jorge Freire emitiu o seu testemunho do quanto essa mulher amou,

    acolheu e foi acolhida pelos livros.

    Por fim, esta pesquisa existe para dar visibilidade ao trabalho pioneiro realizado por

    Zila Mamede, como bibliotecria e bibligrafa. Norteada por Duby (1993, p.62-63),

    acredito que cabe ao historiador a funo mediadora de

    12 Ivonete Mamede, irm mais nova de Zila Mamede.

    13 Acho que esta palavra assim composta adequa-se bem quando se trata de Zila Mamede.

    14 Dorian Jorge Freire, jornalista de notvel atuao na imprensa norte-rio-grandense. Foi um dos grandes amigos de ZilaMamede. Reside em Mossor (RN).

    15 Ainda retornarei a este texto durante a dissertao.

  • 19

    (...) comunicar pelo texto escrito o calor, restituir a prpria vida.Mas no devemos nos iludir: esta vida que ele tem por misso instilar a sua prpria vida. E nisto ele tem tanto mais xito quanto mais sensvelse mostra. Deve controlar suas paixes, mas sem estrangul-las, e tantomelhor desempenhar seu papel se deixar-se aqui e ali levar por elas.Longe de afast-lo da verdade, elas tm todas as possibilidades deaproxim-lo mais ainda. histria seca, fria, impassvel, prefiro ahistria apaixonada. Inclinar-me-ia mesmo a consider-la maisverdadeira.

    Orientada por este quase conselho do historiador francs, tentei durante a construo

    deste texto comunicar o calor que senti quando, em pequenas pores, a vida de Zila

    Mamede foi misturando-se minha vida. As paixes, controladas, porm no estranguladas,

    levaram-me a uma verdade cujo oposto possvel. Esta verdade16 foi o que busquei aqui

    contar.

    16 H dois tipos de verdades: as do raciocnio e as de fato. As verdades do raciocnio so necessrias e seu oposto impossvel;e as de fato so contingentes e seu oposto possvel (LEIBNIZ, 1996, p. 269).

  • 20

    2 A pesquisa a que ser que se destina?

    Da mesma forma que Duby, histria seca, fria, impassvel, prefiro a histria apaixonada.

    Inclino-me tambm a consider-la mais verdadeira. O destino desta pesquisa17 foi

    compreender e narrar o exerccio de organizar bibliotecas realizado pela escritora Zila

    Mamede, na dcada de 1960. Como a prtica dessa mulher contribuiu para a formao da

    comunidade de leitores e leitoras, na cidade de Natal, Rio Grande do Norte.

    Diferentes abordagens trouxeram Zila Mamede academia, mas a sua prtica na rea

    da biblioteconomia ainda no havia sido estudada. O trabalho pioneiro realizado por Zila

    Mamede no Rio Grande do Norte, de organizar bibliotecas e de formar profissionais para

    trabalharem nessa construo cheia de livros utilizando uma das acepes do

    Dictionnaire, de Furetire (1690) , estava para ser contado.

    Na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Zila Mamede foi objeto de estudo

    pela primeira vez no ano de 1981, quando Elza Maria Bezerra Lamartine, ento estudante

    do Curso de Letras, apresentou a monografia Zila, obra potica: uma viso histrica

    atravs de trechos.

    17 Esta pesquisa vincula-se ao Projeto Integrado: Histria dos Impressos e a Formao das Leitoras/CNPq, que tem comoobjetivo contribuir para a historiografia da educao, a partir do sculo XVIII, enfocando a histria dos impressos e aformao das leitoras; representaes da mulher no romance; e participao de mulheres na construo de uma sociedadeletrada, especialmente a norte-rio-grandense. Neste ltimo, insere-se este trabalho historiogrfico.

  • 21

    No ano de 1992, a professora Beteizabete de Brito defendeu a dissertao Ancoragens

    textuais de Navegos,18 mobilizando alguns conceitos produzidos na Lingstica Textual

    para analisar o livro Navegos (1978), de autoria de Zila Mamede.

    Em 1994, Diva Cunha publicou no livro Mulher e Literatura no RN,19 o texto De

    vida e obra: notcias breves sobre Zila Mamede, no qual refez sinteticamente a trajetria

    potica de Zila Mamede.

    Dois anos depois, em 1996, Maria das Graas de Aquino Santos concluiu a dissertao

    Zila Mamede, a memria como evocao.20 Um trabalho luz da Literatura Comparada

    que privilegiou trs questes: memria, intertextualidade e tradio literria.

    Admiradora incondicional21 da obra de Zila Mamede, Beteizabete de Brito permaneceu

    estudando a sua poesia e defendeu, em 1999, a tese intitulada Gnese de A herana.22

    Nessa tese, a pesquisadora perseguiu os traos redacionais dos ltimos poemas escritos

    por Zila Mamede, tentando perceber o texto potico se inventando, revelando-se,

    paradigmaticamente se compondo, at se fixar sob a forma estvel, como texto definitivo

    (BRITO, 1999, p.7).

    18 Dissertao sob a orientao do professor Joo Wanderley Geraldi, apresentada na Universidade Estadual de Campinas,So Paulo e publicada pela Editora da UFRN, em 1996.

    19 Livro organizado por Constncia Lima Duarte e editado pela Coleo Humanas, Letras e Artes, do Centro de CinciasHumanas Letras e Artes da UFRN.

    20 Dissertao orientada pela professora Constncia Lima Duarte e co-orientada por Diva Cunha, no Programa de Ps-graduao em Estudos da Linguagem, do Departamento de Letras da UFRN.

    21 Em entrevista concedida a jornalista Salsia Dantas, no jornal O Poti, em 19 de setembro de 1993, Beteizabete de Britoafirmou que se apaixonou pela poesia de Zila Mamede ao ler o verso A minha me a concha e eu sou o outro lado,escrito por Zila Mamede na dcada de 1950.

    22 Tese orientada pela professora Ingedore Grunfeld Villaa Koch, defendida no Instituto de Estudos da Linguagem, daUniversidade Estadual de Campinas.

  • 22

    No ano de 2001, o professor paraibano Charliton Jos dos Santos Machado defendeu

    a tese Prticas de mulheres do serid paraibano, 1960-1980.23 Ele investigou as prticas

    artsticas e literrias de educadoras do serid paraibano, representadas pelas

    novapalmeirenses: Zila da Costa Mamede e as irms Bezerra de Medeiros, Maria da Paz,

    Maria da Guia e Maria da Luz. Machado (2001, p.6) assim justificou a escolha do seu

    objeto de estudo:

    Por se tratarem de figuras pblicas que alcanaram notveis posies evisibilidade no campo da arte, da poltica e da educao, no perodoque compreende as dcadas de 1960 a 1980, demarcado pela intensaproduo das suas prticas de escrita no contexto de crescente inserofeminina nas esferas educativas e, conseqentemente, no mercado detrabalho.

    Charliton Machado mostrou a importncia de Zila Mamede na historiografia literria

    nordestina, revelada atravs de inmeros artigos, livros e estudos em torno da produo

    da poeta. A relao que Zila Mamede manteve at o fim da sua vida com Nova Palmeira

    foi evidenciada por Machado (2001, p.30) na sua tese:

    Mesmo tendo passado, praticamente, toda a sua vida distante da pequenacidade onde nasceu, Zila Mamede manteve viva a sua relao comfamiliares e artistas da cidade, tendo sido considerada, por escritorascomo Maria da Paz Bezerra de Medeiros, como precursora da literaturalocal. O amor pela sua terra de origem sempre foi um marco em seusescritos, como expressou em depoimento a TV Universitria em 03 defevereiro de 1981: pequena rea rural, que pertenceu a minha famlia,o meu espao de vivncia emocional, onde passei os primeiros anos deminha vida, espao que permanece na minha geografia sentimental.

    23 Tese orientada pela professora Maria Arisnete Cmara de Morais, no Programa de Ps-graduao em Educao da UFRN.

  • 23

    Estes so, portanto, os estudos que conheo realizados na academia que abordam a

    obra e a vida de Zila Mamede. Porm, nenhum deles, trouxe tona a bibliotecria, a

    profissional que dedicou vrios anos de sua vida a semear bibliotecas na cidade de Natal.

    Outros pesquisadores, desejo, bebero nesta fonte que inicia aqui o seu jorro. Estou cnscia

    de que cada cincia tem a esttica prpria da sua linguagem e que os fatos humanos so,

    por essncia, fenmenos delicadssimos (BLOCH, 1941).

    Convenci-me de que nesta cincia a Histria dos homens no tempo, o historiador

    no pensa apenas o humano. O tempo da histria o prprio plasma em que banham os

    fenmenos, e como que o lugar da sua inteligibilidade (BLOCH, 1941). Foi nesse tempo

    que busquei respostas para as minhas indagaes. Orientada por Bloch, a minha

    compreenso do presente nasceu da dcada de 1960. Ao evocar, sabiamente, Michelet,

    Bloch (1941) lembrou que todo o historiador que se atar ao presente, ao atual, no

    compreender o atual.

    Sintonizada com Certeau (1982), encarei esta pesquisa no apenas como um dizer,

    o que acabaria por reintroduzir na histria a lenda, ou seja, a substituio de um no-

    lugar ou de um lugar imaginrio pela articulao do discurso com um lugar social. Certeau

    (1982, p.77) assegurou que a histria define-se a partir da relao da linguagem com o

    corpo social:

    [...] a histria se define inteira por uma relao da linguagem com ocorpo (social) e, portanto, tambm pela sua relao com os limites queo corpo impe, seja maneira do lugar particular de onde se fala, seja maneira do objeto outro (passado, morto) do qual se fala.

  • 24

    Na minha busca busca de compreender como a prtica de semear bibliotecas, exercida

    por Zila Mamede, em Natal, na primeira dcada da segunda metade do sculo XX,

    contribuiu para formao de um pblico leitor, persuadi-me de que o passado , por

    definio, um dado que coisa alguma pode modificar. Porm, o conhecimento do passado

    coisa em progresso, que ininterruptamente se transforma e se aperfeioa (BLOCH,

    1941, p.55).

  • 25

    Outro prazer, este excitante: o prazer de decifrar, que no passa naverdade de um jogo de pacincia.

    George Duby

  • 26

    3 Estranha alquimia como fiz a pesquisa

    Inclinando-me muito menos a querer saber do que a querer compreender, encaminhei-

    me a Certeau (1982). Ele afirmou que a articulao da histria com um lugar a condio

    de uma anlise da sociedade e que levar a srio o seu lugar no ainda explicar a histria,

    porm a condio para que alguma coisa possa ser dita sem ser nem legendria (ou

    edificante), nem a-tpica (sem pertinncia).

    Este trabalho articulou-se, na dcada de 1960, com a cidade de Natal e sua produo

    poltico-cultural. Configurar a sociedade natalense nessa poca foi essencial, pois:

    Sendo a denegao da particularidade do lugar o prprio princpio dodiscurso ideolgico, ela exclui toda teoria. Bem mais do que isto,instalando o discurso em um no-lugar, probe a histria de falar dasociedade e da morte, quer dizer, probe-a de ser a histria (CERTEAU,1982, p. 77).

    Para percorrer esta trilha de produo de conhecimento sobre o passado evoquei Elias

    (1993, p.198):

    A moderao das emoes espontneas, o controle dos sentimentos, aampliao do espao mental alm do momento presente, levando emconta o passado e o futuro, o hbito de ligar os fatos em cadeias decausa e efeito todos estes so distintos aspectos da mesmatransformao de conduta, que necessariamente ocorre com amonopolizao da violncia fsica e a extenso das cadeias da ao einterdependncia social. Ocorre uma mudana civilizadora docomportamento.

  • 27

    O processo civilizador, segundo concebeu Elias, comporta uma dimenso que

    necessariamente coletiva e social, mas tambm uma dimenso particular e individualizada

    que remete para a compreenso dos processos de introjeo das demandas e presses

    sociais e coletivas: nesta medida, o autor sugeriu um duplo procedimento de anlise para

    a compreenso deste processo civilizador. Uma sociognese e uma psicognese, capazes

    de iluminar a construo social da civilizao como uma forma especfica e particular de

    configurao social, historicamente marcada. No sendo uma necessidade da Histria, a

    civilizao inscreve-se no campo das aes e decises humanas, comportando um olhar

    sobre os indivduos como construtores e construdos pela sociedade (ELIAS, 1994).

    Tornar-se-ia, portanto, impossvel compreender o exerccio de semear bibliotecas de

    Zila Mamede, se no fosse compreendido o fluxo constante das tenses que ela sofreu

    durante o jogo social que viveu, em Natal, na dcada de 1960.

    Reconstitu, por conseguinte, o trabalho pioneiro realizado por Zila Mamede na

    biblioteconomia potiguar atravs de entrevistas, depoimentos com familiares, amigos,

    alunos, alm de profissionais que trabalharam com ela. Consultei livros de memria de

    autores como Mailde Pinto Galvo24 e Umberto Peregrino.25 Fui aos chamados setores

    de pesquisa dos jornais Tribuna do Norte e Dirio de Natal. Inmeros exemplares desses

    peridicos foram investigados, sustentando, iluminando esta pesquisa.

    Conhecer Ivonete Mamede, a irm mais nova de Zila Mamede, tambm foi importante.

    Ela abriu as portas do seu apartamento, comprado por Zila Mamede em 1980, no edifcio

    24 Ex-diretora da Diretoria de Documentao e Cultura da Prefeitura de Natal, na administrao de Djalma Maranho.Foipresa e molestada pelos torturadores de 1964. Autora do livro 1964. Aconteceu em abril. Na orelha desse livro, escreveuo poeta e escritor Nei Leandro de Castro: Nenhum sofrimento foi posto margem. Mailde no esqueceu de nada. O seulivro pede, tacitamente, para ningum esquecer os violentadores da nossa liberdade.

    25 Escritor, ex-diretor do Instituto Nacional do Livro, de 1967 a 1969. Desde cedo saiu do Rio Grande do Norte. Faleceu noano de 2003, no Rio de Janeiro.

  • 28

    Caminho do Mar, na rua Serid, nmero 754, apartamento 1202, no bairro de Petrpolis,

    e me deixou passar. Diante de mim, apareceram informaes, documentos, bilhetes,

    anotaes e objetos pessoais. Alm das fotos de Pta assim Ivonete Mamede chama a

    irm nas suas inmeras viagens pelo mundo afora (Estados Unidos, Europa, Rio de

    Janeiro), vi fotos de Zila Mamede diante do prdio da futura Biblioteca Central da UFRN,

    com o projeto arquitetnico nas mos; fotos da adolescente Zila Mamede em Nova Palmeira

    e nas praias natalenses de Areia Preta e Ponta Negra; deparei-me ainda com jornais

    esmaecidos pelo tempo; livros lidos, riscados, anotados, sublinhados, livros com

    dedicatrias de amigos famosos e queridos, como Manuel Bandeira e Carlos Drummond

    de Andrade.

    Zila Mamede e o livro: uma relaointensa

    Zila Mamede na praia de Ponta Negra, em 1 deoutubro de 1953

    Coube a esta narradora reunir, confrontar, checar, relacionar e decidir o que era essencial

    a esta pesquisa; e decifrar, principalmente decifrar. Perdio e salvao do historiador, um

    jogo de pacincia que, muitas vezes, profundamente inquieta.

  • 29

    Sobre esse prazer de decifrar fontes historiogrficas, Duby (1993, p.28) emitiu a

    seguinte opinio:

    Outro prazer, este excitante: o prazer de decifrar, que no passa naverdade de um jogo de pacincia. Terminada a tarde, um punhado dedados, quase nada. Mas so exclusivamente nossos, de quem soube irao seu encontro, e a caada foi muito mais importante que o animalcapturado. Cabe perguntar se o historiador encontra-se alguma vezmais prximo da realidade concreta, dessa verdade que anseia por atingire que lhe escapa permanentemente, do que no momento em que temdiante de si, examinando-os atentamente, esses restos de escrita queemanam do fundo das eras, como destroos de um completo naufrgio,objetos cobertos de signos que podemos tocar, cheirar, observar nalupa, e aos quais ele d o nome de fontes, em seu jargo.

    Na verdade, o que presenciei durante este trabalho foi o objeto fazendo o seu caminho,

    impondo-se para mim, revelando-se, revelando-me, dando-me a certeza de que devo

    interessar-me menos pelos fatos e mais pelas relaes (DUBY, 1993). Disse Michelet

    (apud DUBY, 1993) que para recuperar a vida histrica necessrio acompanh-la,

    atentamente, em todos os seus caminhos, em todas as suas formas, em todos os seus

    elementos. Mas que tambm necessrio, com uma paixo muito maior, refazer,

    estabelecer o funcionamento de tudo isto, a ao recproca dessas diferentes foras, num

    poderoso movimento que se transformar na prpria vida.

    E foi dessa estranha alquimia proclamada por Michelet que ao misturar as fontes que

    alimentam esta pesquisa vi surgir, mesmo em meio a incertezas e tormentos, a figura de

    uma sociedade: a sociedade natalense letrada da dcada de 1960.

  • 30

    O Cineclube Tirolaos sbados

    sabiados nossos sonhos solitrios.

    O Rio Grandeaos domingos,

    era mais do que um cinema.Depois,

    nos outros dias,havia tempo para tudo:

    para Sartre Camus ou Pessoa na Ponta doMorcego

    jazz ou samba na casa dos amigos.Havia tempo

    para, s 5 da tarde,passar na Universitria

    beber um conhaque na Palhoaou em Nemsio

    jogar conversa fora no Grande Ponto.Havia tempo para ler

    Zila ouvir Tita vibrar com o ABC.Havia tempo

    Moacy Cirne

  • 31

    4 O lugar da histria

    Proferiu Certeau (1982) que no existem consideraes, por mais gerais que sejam, nem

    leituras, tanto quanto possa estend-las, capazes de suprimir a particularidade do lugar

    de onde o historiador fala e do domnio em que realiza uma investigao.

    Por concordar com Certeau, abri este captulo com este poema encontrado no livro

    Rio Vermelho (1998), de autoria de Moacy Cirne,26 que fala de uma Natal onde havia

    tempo, entre outras coisas, para ler Zila Mamede e passar na Livraria Universitria, o

    local de encontro preferido dos escritores e leitores potiguares, na dcada de 1960.

    A Livraria Universitria era dirigida por Walter Pereira,27 livreiro dedicado s questes

    da cultura foi o pioneiro no Estado em publicaes e edies de livros; lanou, em

    1967, os livros Histria e Geografia do Rio Grande do Norte e Gramtica da Lngua

    Portuguesa, de autoria de Rmulo Wanderley e Ascendino Almeida, respectivamente.

    O verso de Castro Alves Quando ante Deus vos mostrardes/Tereis um livro na mo,

    que Walter Pereira escolheu e gravou na entrada da Livraria Universitria, fundada em

    1959, mostra a importncia da vida literria na minscula Natal da dcada de 1960.

    26 Poeta nascido em Jardim do Serid (RN), em 1943. autor dos livros A poesia e o poema do Rio Grande do Norte;Objetosverbais (poema/processo 1979/1980); A biblioteca de Caic; Cinema Pax; Um panfleto para Godard; Docementeexperimental; Histria e crtica dos quadrinhos brasileiros; Balaio incomun - uma folha porreta; Qualquer tudo; Dezpoemas para Jos Bezerra Gomes; Continua na prxima poesia; Poemas, cajaranas e carambolas; entre outros. professordo Curso de Comunicao Social da Universidade Federal Fluminense, em Niteri. Reside no Rio de Janeiro.

    27 Nascido em Natal (RN), em 1926, filho do livreiro Ismael Pereira, comeou menino, aos 12 anos, a trabalhar na livraria doseu pai, instalada no bairro da Ribeira, na rua Dr. Barata, na dcada de 1930. Faleceu em agosto de 1982.

  • 32

    Na segunda metade do sculo XX, a intelectualidade norte-rio-grandense foi alimentada

    pelas reunies semanais institudas por Walter Pereira, na Livraria Universitria,

    denominada pelos freqentandores de Palcio dos Livros e Templo da Cultura. Segundo

    Mrio Moacir Porto,28 esses encontros constituam-se numa troca de informaes peculiar,

    superando, inclusive, as reunies da Academia Norte-rio-grandense de Letras, pelo seu

    informalismo e ecletismo: [...] Sempre fui dos mais assduos. Todos os sbados pela manh

    compareo para o bate-papo com uma pontualidade eclipse (PORTO, 1984, p.49).

    Naqueles anos em que Natal tinha pouco mais de duzentos mil habitantes, uma boa

    parte do universo literrio da cidade, definitivamente, girava em torno de Walter Pereira.

    Ouamos Madruga (1984, p.51):29

    Quantos escritores no receberam dele o estmulo, o empurro, oaplauso? Na sua Livraria Universitria, da Cidade Alta, dezenas deautores daqui e de outros estados, novos e consagrados, lanaram suasobras em verdadeiras festas de cultura. Sempre esteve presente a todasas manifestaes artstico-culturais realizadas no estado nestes ltimos30 anos e o seu escritrio, nos fundos do primeiro andar de sua livrariada Rio Branco, era um refgio dos intelectuais para longas e agradveisconversas.

    Peregrino (1989, p.103) evidenciou a importncia da Livraria Universitria no seu

    livro de memrias Crnica de uma cidade chamada Natal:

    28 Escritor, desembargador. Pertenceu Academia norte-rio-grandense de Letras, ocupou a Cadeira n 20, da qual a poetaAuta de Souza patrona e Palmyra Wanderley a primeira ocupante.

    29 Woden Madruga, reconhecido jornalista potiguar, escreve diariamente a coluna Jornal de WM, na Tribuna do Norte. Ex-presidente da Fundao Jos Augusto e professor aposentado do Curso de Comunicao Social da Universidade Federaldo Rio Grande do Norte.

  • 33

    A livraria de Walter Pereira, em Natal, no era com ele apenas umaorganizao comercial exemplar, bem sortida, bem instalada, bemservida. Era tambm um lugar onde os intelectuais se sentiamprestigiados, gozavam de todas as facilidades e recebiam infalivelmentea exuberante saudao do livreiro que sabia valorizar a inteligncia eno tratava o livro como simples mercadoria, como puro instrumentode lucro, mas como tambm algo que estimava e compreendia eleprprio.

    Zila Mamede tambm freqentou a Livraria Universitria. Desde a dcada de 1950

    que a poeta era amiga de Walter Pereira e j participava dos eventos realizados, poca,

    na Livraria Ismael Pereira, na Ribeira. Assim revelou uma foto datada de 1956, publicada

    no livro Bandeira desfraldada, Walter Pereira e seus amigos,30 na qual Zila Mamede aparece

    ao lado do ento governador do Rio Grande do Norte, Dinarte Mariz, e do prefeito

    Djalma Maranho, durante uma reunio literria na Ismael Pereira.

    1956 Zila Mamede (primeira esquerda) durante reunio na livraria Ismael Pereira.

    30 Livro organizado por familiares e amigos em homenagem a Walter Pereira, publicado em 1984, dois anos aps o falecimentodo empresrio.

  • 34

    Uma outra foto, datada de 1961, mostrou Zila Mamede na Livraria Universitria

    durante o lanamento do livro A caa nos sertes do Serid, de autoria de Oswaldo

    Lamartine.31 Alm do autor, esto na foto os escritores Hlio Galvo32 e Dorian Gray

    Caldas.33

    Ao fundo, Zila Mamede, durante o lanamento do livro A caa nos sertes do Serid,de Oswaldo Lamartine (sentado), em 1961, na Livraria Universitria. esquerda,esto Hlio Galvo e Dorian Gray.

    31 Folclorista, escritor, nasceu em 1919, na cidade de Natal (RN). Oswaldo Lamartine de Faria publicou, na rea de Folclore,alm de artigos em revistas especializadas e jornais, Uns fesceninos, Encouramento e arreios do vaqueiro no Serid,Sertes do Serid e Ferro de ribeiras do Rio Grande do Norte, entre outros livros. Reside Natal.

    32 Nasceu em Tibau do Sul (RN), em 1916. Pertenceu a instituies culturais, como o Instituto Histrico e Geogrfico doRio Grande do Norte e a Academia Norte-rio-grandense de Letras. Sua produo bibliogrfica compreende estudosrelativos a diversas reas, como o Direito, o Folclore, a Genealogia, a Antropologia Cultural e a Literatura. Faleceu emNatal, em outubro de 1981.

    33 Poeta, escritor, artista plstico, nasceu em Natal, em 1930. Ocupa a cadeira n 9 da Academia Norte-rio-grandense deLetras. autor, entre outros, dos livros: Os instrumentos do sonho; Presena e poesia; Campo memria;Os signos e seungulo de pedra; Lendas do Rio Grande do Norte; O trao, a cor e o mito; Encantados: lendas e mitos do Brasil; Cantoherico. Arte & Texto; e Os dias lentos e outros dias.

    34 Amrico de Oliveira Costa, ensasta, nascido em Macau (RN). um dos mais importantes intelectuais do Rio Grande doNorte. Pertenceu Academia Norte-rio-grandense de Letras. autor, entre outros, dos livros Viagem ao universo deCmara Cascudo, O comrcio das palavras e A biblioteca e seus habitantes. Faleceu em Natal, na dcada de 1990.

    Costa34 falando sobre as reunies dos sbados, na Livraria Universitria, salientou

    que Zila Mamede era presena intermitente:

  • 35

    Havia aqueles que freqentavam as reunies permanentemente e outroscom presenas intermitentes, como Zila Mamede, Dalton Melo, RaulFernandes, Elza Sena, Arlindo Pereira. Ali confraternizvamos, isentosde preconceitos e parti-pris pessoais, nos comentrios de problemas efatos nacionais e internacionais, culturais, econmicos, polticos, sociais,literrios, entremeados de estrias amenas e pitorescas, ditos deesprito, evocaes de acontecimentos e pessoas perdidas no tempo eno espao, anedotas inteligentes, uma autntica parafernlia da memriae do cotidiano em movimento (OS ENCONTROS..., 1984, p.84).

    Talvez Zila Mamede no fosse to assdua nessas reunies em razo de suas viagens de

    estudo e trabalho, inclusive para os Estados Unidos, quando visitou e estagiou em

    importantes bibliotecas norte-americanas.35

    A cidade de Natal da dcada de 1960 uma cidade de duas geraes de intelectuais.

    Zila Mamede pertence quela gerao na qual esto Newton Navarro,36 Moacyr de Ges,37

    Myriam Coeli,38 Augusto Severo Neto,39 Dorian Gray Caldas, Mailde Pinto Galvo, entre

    outros. A outra gerao formada por nomes como Sanderson Negreiros,40 Afonso

    35 Dissertarei mais adiante sobre essas viagens.

    36 Escritor, poeta, artista plstico, nasceu em Natal (RN), em 1928. Pertenceu Academia Brasileira de Letras, ocupando aCadeira n 37. autor dos livros Subrbio do silncio, ABC do cantador clarimundo, O caminho da cruz: a via-sacra, Umjardim chamado Getsmani, O solitrio vento do vero, 30 crnicas no selecionadas, Beira-rio, Os mortos so estrangeiros,Do outro lado do rio, entre os morros e De como se perdeu o gajeiro Curi. Em 1998, seus livros foram reunidos napublicao pstuma Obra completa. Faleceu em Natal, em 1991.

    37 Escritor, advogado, professor da UFRN e UFRJ, ex-secretrio Municipal de Educao de Natal e do Rio de Janeiro.Reside no Rio de Janeiro desde a dcada de 1960.

    38 Poeta, jornalista, nasceu em Manaus (AM), em 1926. Com poucos meses, veio residir em So Jos de Mipibu (RN), ondepassou a infncia e fez os primeiros estudos. Como bolsista do Instituto de Cultura Hispnica, a poetisa residiu na Espanha,diplomando-se na Escola Oficial de Jornalismo de Madrid. Somente ento, como professora e jornalista, retornadefinitivamente ao Rio Grande do Norte. Faleceu em Natal, no ano de 1982. autora dos livros Imagem virtual; Vivnciasobre vivncia; Cantigas de amigo; Inventrio; Da boca do lixo construo servil: o livro do povo (obra pstuma).

    39 Escritor, poeta, jornalista, professor, nasceu em Natal (RN), em 1921. autor dos livros Sinfonia do tempo, Do outrolado do mar, At que o mar, Tempo ontem; Tempo vida; Paris: uma viso panormica; De lricos e de loucos; Estrias dedistncias; Raconto sem malineza do viver de Lenival; Nau frgil; Ontem vestido de menino; Amigo; Do existir faanhosode Odiclio Gineceu e O gume e a pedra (obra pstuma). Faleceu em Natal, em 1991.

    40 Poeta, professor, jornalista, nasceu em Cear-Mirim (RN), em 1939. autor dos livros O ritmo da busca; Fbula Fbula;Os lances exatos; A hora da lua da tarde e Chegana. Ocupa a Cadeira n 40 da Academia Norte-rio-grandense de Letras.

  • 36

    Laurentino Ramos,41 Nei Leandro de Castro,42 Paulo de Tarso Correia de Melo,43 Iaponi

    Arajo,44 Tom Filgueira,45 Leopoldo Nelson,46 Lus Carlos Guimares, Moacy Cirne e

    Dailor Varela. Eram esses nomes que apareciam no noticirio cultural e poltico da cidade

    (GES, 1994).

    41 Jornalista potiguar. Foi um dos mentores do plano cultural do governo de Aluzio Alves, na dcada de 1960. Trabalha,atualmente, no jornal Dirio de Natal.

    42 Poeta, escritor, publicitrio, nasceu em Caic (RN), em 1940. autor dos livros O pastor e a flauta; Voz geral; Decomposiodo nu; Contistas norte-r io-grandenses, antologia; Universo e vocabulrio do Grande Serto; Feira livre; Romance dacidade do Natal; Canto contra canto; Zona ergena; O dia das moscas: romance de maus costumes; Viagem de volta; Musade vero. 50 Poemas mais ou menos livres; As pelejas de Ojuara. A histria verdadeira do homem que virou bicho; Era umavez Eros; Cinqenta sonetos de forno e fogo; Dirio ntimo da palavra e Dunas vermelhas. Reside no Rio de Janeiro.

    43 Poeta, professor, nasceu em Natal (RN), em 1944. Pertence Academia norte-rio-grandense de Letras. autor dos livrosTalhe rupestre; Natal: secreta biografia; Folhetim cordial da guerra em Natal e Cordial folhetim da guerra em Parnamirime Romances de Alcaus.

    44 Artista plstico norte-rio-grandense.

    45 Artista plstico norte-rio-grandense.

    46 Mdico e artista plstico norte-rio-grandense. Faleceu, em Natal, na dcada de 1990.

    Zila Mamede com amigos de gerao, em 1957, num evento social. Da esquerda para adireita esto Newton Navarro, Hlio Vasconcelos, Berilo Vanderley, Zila, Necir Rodrigues eTalis Andrade.

  • 37

    No incio da dcada de 1960, Natal celebrou o seu primeiro prefeito eleito Djalma

    Maranho. A criao da Faculdade de Direito, Faculdade de Filosofia, Faculdade de Medicina

    e Faculdade de Odontologia possibilitou a concentrao na cidade de moas e rapazes, de

    todo o Rio Grande do Norte jovens estudantes que se iniciavam nas descobertas das

    desigualdades sociais do Pas. Alguns se filiaram ao Partido Comunista Brasileiro, orientado,

    em Natal, pelo professor Lus Incio Maranho Filho. Outros, recm-sados da Juventude

    Universitria Catlica, assumiram a luta pelo socialismo e fundaram a Ao Popular.

    Naquele contexto, a equipe da Prefeitura era constituda por profissionais recm-chegados

    na vida pblica Ticiano Duarte, Roberto Furtado, Moacyr de Ges, Lus Gonzaga dos

    Santos, Omar Pimenta, Carlos Lima, Paulo Macedo, Flvio Cludio Siminia, Louril Lins

    do Nascimento, Celso da Silveira, Francisco das Chagas Oliveira e Mailde Pinto. Essa equipe,

    sob a liderana de Djalma Maranho, articulada ao movimento social urbano nacional, abriu

    para aqueles jovens inmeras possibilidades de atuao (GES, 1994).

    Entre esses jovens, a leitura no se limitava aos textos de Marx e Lenin. Nesse caso, a

    poesia medrava junto com a poltica. Vincius de Moraes, Joo Cabral de Melo Neto,

    Pablo Neruda, Carlos Drummond de Andrade, Ceclia Meireles e Ledo Ivo eram alguns

    dos autores preferidos desses universitrios que estavam descobrindo o conceito de cultura

    nos trabalhos de Moacyr de Ges e de Paulo Freire. Para aquelas moas e para aqueles

    rapazes, toda ao humana era um ato cultural e o homem de qualquer classe social

    detinha um saber o saber popular, a cultura popular. Ouamos Ges47 (1994, p. vi) na

    apresentao do livro 1964. Aconteceu em abril, de autoria de Mailde Pinto Galvo:

    47 Maria Conceio Pinto de Ges, historiadora, escritora, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).Autora do livro Mulheres do Serto. Reside no Rio de Janeiro desde a poca da ditadura, quando o seu marido, Moacyr deGes, secretrio de Educao do Governo de Djalma Maranho, exilou-se de Natal.

  • 38

    Esto todos embriagados de generosidade, de disponibilidade. Cristos ecomunistas, comunistas e cristos. E os independentes, no organizadosem partidos polticos. Ocupam os acampamentos da campanha De pno cho tambm se aprende a ler, ocupam as Praas de Cultura, OTeatro do Povo, ocupam as bibliotecas da DDC, arrastam-se apara asescolas e praas, levam para os palanques da Prefeitura os grupos dasdanas folclricas que existem na periferia da cidade, ocupam ossindicatos, onde discutem os problemas referentes s reformas necessrias extino da misria, e as reformas que possam democratizar a sociedadea sociedade brasileira. Discutir com um campons a reforma agrria,mas ouvir tambm dele a sua opinio sobre a participao dos estudantesnos Conselhos Universitrios.

    Moacy Cirne revelou na epgrafe deste captulo os outros caminhos bibliogrficos que

    aquela gerao percorria: Sartre, Camus e Pessoa. Gerao da qual Zila Mamede era

    considerada a mentora, aquela que guiava poeticamente, como enfatizou Sanderson

    Negreiros no jornal O Poti, de 22 de dezembro de 1985: [...] logo se afirmou para mim

    a irm mais velha, a grande irm, que me descobria os livros para ler, que madrugava para

    meu esprito os temas da cultura [...].

    Ex-titular interina da Diretoria de Documentao e Cultura da Prefeitura Municipal

    de Natal,48 cargo que exerceu de 1959 a 1961 (SANTOS, 1996), admirada e respeitada

    pela sociedade natalense, aos 33 anos de idade, com trs elogiados livros publicados

    Rosa de pedra, Salinas e O arado Zila Mamede, recm-chegada de uma viagem aos

    Estados Unidos,49 falou em nome dos intelectuais potiguares, em novembro de 1961,

    durante a solenidade de inaugurao da primeira Praa de Cultura de Natal.50 A foto que

    est publicada na pgina 85 do livro 1964. Aconteceu em abril, retrata, sentados na primeira

    fila, Djalma Maranho, Moacyr de Ges, Paulo Freire e Herly Parente.

    48 A diretora era Mailde Pinto Galvo.

    49 Quando conheceu importantes bibliotecas norte-americanas (ver captulo 5 desta dissertao).

    50 Importante iniciativa cultural realizada na administrao de Djalma Maranho, com grande mobilizao popular.

  • 39

    Inaugurao da primeira praa de cultura de Natal, em novembro de 1961. ZilaMamede fala em nome dos intelectuais. Sentados, na primeira fila (da esquerda para adireita), esto Djalma Maranho, Moacyr de Ges, Paulo Freire e Herly Parente.

    Era a poca das bibliotecas volantes. O povo mobilizava-se de uma forma surpreendente.

    A cultura, na administrao popular de Djalma Maranho, associava-se a uma pedagogia

    para as massas, atravs do programa De P no Cho Tambm se Aprende a Ler. Gurgel

    (2001, p. 94) disse que em funo disto foram criados

    [...] grupos de estudo com a presena de jovens intelectuais, realizou-se Feira de Livros, com grande mobilizao popular, bibliotecas volantespassaram a percorrer bairros distantes, promoveram-se encontros, naschamadas Praas da Cultura, realizaram-se festivais de folclore, com aconseqente valorizao dos grupos existentes e at uma galeria deartes, foi construda, ocupando uma rea na Praa Andr deAlbuquerque, (e que seria demolida aps o golpe), com a finalidade depopularizar o consumo da arte.

    A linha bsica da Diretoria de Documentao Cultural era a democratizao da cultura,

    realizada, ento, atravs das Praas de Cultura, uma adaptao das praas j existentes no

    Movimento de Cultura Popular de Recife. Essas praas eram compostas de bibliotecas

    populares com jornais murais, quadras de esporte e parques infantis. Dessa forma, a

    DDC promovia a integrao com a comunidade dos bairros onde as praas eram instaladas.

  • 40

    Estabelecido o dilogo cultural com a comunidade, sem assistencialismoe sem demagogia, construamos juntos, o sonho de integrao com acultura popular, principalmente nos bairros onde o povo comea a lere a participar das praas de cultura e esporte. No era por acaso quenos bairros das Rocas e Quintas, os emprstimos de livros atingiam amdia dos dois mil e quinhentos mensais, e as promoes culturaisrecebiam um pblico talvez nunca repetido (GALVO, 1994, p. 100).

    No centro de Natal, na praa Andr de Albuquerque, a DDC mantinha uma Galeria

    de Arte j mencionada por Gurgel (2001) onde eram promovidas as exposies, uma

    biblioteca para leituras in loco, bastante freqentada pelos funcionrios do comrcio da

    Cidade Alta, e uma concha acstica para apresentaes teatrais, concertos musicais e

    cinema ao ar livre.

    Praas de cultura com feira de livros, discos, exposies, noites de autgrafos,

    apresentaes musicais e folclricas eram realizadas, anualmente, no centro da cidade,

    promovidas pela prefeitura.

    Nessa poca, o Rio Grande do Norte era governado por Aluzio Alves, um jovem

    jornalista tambm, a exemplo de Djalma Maranho, com uma postura simptica atividade

    cultural. Assessorado por um outro jovem jornalista Afonso Laurentino Ramos, e tendo

    como secretrio de Educao Grimaldi Ribeiro,51 Aluzio Alves realiza em Natal, no

    incio da sua administrao, o Festival do Escritor Norte-rio-grandense, na Lagoa Manuel

    Felipe,52 no bairro do Tirol.

    Esse festival, segundo Peregrino (1989), constou de feira de livros de autores potiguares,

    exposio de artes plsticas de artistas locais, exposio de arte popular, inaugurao da

    51 Poltico norte-rio-grandense.

    52 Atual Cidade da Criana, administrada pela Fundao Jos Augusto.

  • 41

    Coleo Jorge Fernandes53 de poesia, e da Coleo Henrique Castriciano54 de ensaios,

    e de um curso sobre literatura do Rio Grande do Norte, ministrado por Peregrino Jnior,55

    Lus da Cmara Cascudo56 e Jayme Adour da Cmara.57 Durante o evento, o governador

    Aluzio Alves assinou alguns decretos criando as seguintes instituies: o Instituto Juvenal

    Lamartine, com o objetivo de desenvolver pesquisas, cursos e manter a publicao da

    revista Polgono, especializada em estudos regionais; o Museu Histrico; e a Biblioteca

    Pblica do Estado. Na estrutura dessa biblioteca, incluam-se uma discoteca e uma escolinha

    de arte.

    O planejamento da biblioteca coube a uma comisso presidida por Umberto Peregrino

    e composta por Tarcsio Medeiros,58 Verssimo de Melo59 e Zila Mamede.

    De acordo com Peregrino (1989, p. 136-137), os trabalhos dessa comisso orientaram-

    se no sentido de:

    53 O nome dessa coleo foi sugerido por Newton Navarro, em homenagem ao poeta Jorge Fernandes (1887-1953). Ospoetas publicados so Augusto Severo Neto, Celso da Silveira, Defilo Gurgel, Dorian Gray Caldas, Lus Carlos Guimares,Myriam Coeli da Silveira e Sanderson Negreiros. O prefcio nico (no includo em todos os livros) de Cmara Cascudo,intitula-se Prego, no qual compara os poetas a astros e evidencia a importncia de se homenagear o modernista potiguarJorge Fernandes.

    54 Dois ttulos foram lanados naquela coleo: A geografia potiguar na sensibilidade dos poetas, de Rmulo Wanderley, eJazz, cinema e educao, de Alvamar Furtado. Essa coleo homenageou Henrique Castriciano, poeta, escritor, pesquisador,nascido em Macaba (RN), em 1874. Foi um dos fundadores da Academia Norte-rio-grandense de Letras e seu primeiropresidente. Morreu em Natal (RN), em 1947.

    55 Nasceu em Natal (RN), em 1898. autor de vrios livros, entre eles Puanga (premiado pela Academia Brasileira deLetras), Doena e constituio de Machado de Assis, O tempo interior na poesia brasileira, O movimento modernista,Panorama cultural da Amaznia e A mata submersa e outras histria da Amaznia. O escritor foi eleito em 1945 para aAcademia Brasileira de Letras ocupou a Cadeira n 18. Faleceu no Rio de Janeiro, no ano de 1983.

    56 Folclorista, historiador, escritor e jornalista nasceu em Natal (RN), em 1898. Possui uma vasta bibliografia, com mais deuma centena de obras publicadas. Cmara Cascudo faleceu em Natal, em 1986, aps uma vida dedicada pesquisa e cultura.

    57 Escritor nascido em Cear-Mirim, em 1898. Na dcada de 1920, morando em So Paulo, colaborou e dirigiu a Revista deAntropofagia, quando conviveu com intelectuais como Oswald de Andrade e Mrio de Andrade. Publicou um nico livro,intitulado Oropa, Frana e Bahia, um documentrio de suas viagens pelo mundo.

    58 Historiador norte- rio-grandense.

    59 Escritor, folclorista, ex-presidente da Academia norte-rio-grandense de Letras, onde ocupou a Cadeira n 12. Faleceu emNatal (RN), em 1996.

  • 42

    a) fixar diretrizes quanto orientao cultural da Biblioteca e suascaractersticas;

    b) assentar orientao e providncias a respeito do acervo inicial delivros (veio a ser adquirida, por iniciativa nossa, a valiosa Bibliotecado escritor potiguar Jayme Adour da Cmara);

    c) fixar orientao e providncias a respeito do recrutamento e dapreparao do pessoal tcnico destinado aos quadros da Bibliotecae da Discoteca.

    No tocante orientao cultural foram adotadas as seguintes ideasbsicas:a) criar estantes especializadas de autores do Rio Grande do Norte

    e de bibliografia alusiva ao Estado;b) instituir trs Prmios Culturais, a saber: Prmio Policarpo Feitosa

    romance e conto; Prmio Jorge Fernandes Poesia; PrmioTavares de Lira estudos norte-rio-grandenses;

    c) manter um arquivo de documentao literria (autgrafos,originais, cartas, fotos, manuscritos em geral);

    d) manter um museu da palavra oral (gravaes de discursos econferncias, entrevistas de visitantes ilustres, preges das ruas,cantigas populares, vozes do povo recolhidas nas feiras, nas festaspopulares);

    e) manter um setor editorial destinado a divulgar obras de autoresnorte-rio-grandenses ou obras alusivas ao Rio Grande do Norte,bem como as obras consagradas pelos trs prmios culturais dabiblioteca;

    f) publicar um boletim como rgo de informaes culturais e derelaes pblicas;

    g) distribuir prmios (em livros) a leitores, a ttulo de incentivo;Para o recrutamento e o preparo de pessoal destinado ao servioda Biblioteca e Discoteca decidiu-se:

    a) formar auxiliares-de-biblioteca atravs do Curso, cuja matrculaestaria condicionada a exame de seleo e o aproveitamentoposterior classificao obtida no dito Curso;

    b) formar ou adaptar serventes por meio de breve curso destinadoa dar-lhes noes sobre higienizao rotineira dos livros, posturadurante o trabalho, mtodo de vigilncia no servio de portaria,

    maneira de tratar com o pblico.

    O programa de construo da Biblioteca Pblica do Estado, alm do salo de leitura

    com capacidade para 120 leitores e da discoteca com 10 cabines individuais e um auditrio,

    previa sala especial destinada ao trabalho de pesquisadores, salo de exposies, auditrio

  • 43

    e apartamento para hospedagem dos convidados da instituio. Inclua ainda duas bibliotecas

    itinerantes: uma para o pblico infantil e outra para o pblico adulto.

    Zila Mamede, em 1962, foi escolhida para ministrar o Curso de auxilares-de-

    biblioteca, no mbito da Escola de Administrao do Estado, e diplomou nove dos vinte

    e quatro candidatos matriculados.

    Peregrino (1989), administrador, poca, do Instituto Nacional do Livro, narrou o

    desempenho cultural daquela biblioteca nascente, incluindo os cursos realizados e o

    frustrado sonho de ver o prdio construdo para ser a Biblioteca Pblica do Rio Grande

    do Norte se tornar a sede da Assemblia Legislativa. Zila Mamede estava frente desse

    sonho:

    De fato, na memria de Natal estaro, porque concorridssimos e assazlouvados, os Cursos que a Biblioteca nascente, antecipando-se nodesempenho da sua misso cultural, promoveu a partir do ano de 1962.

    O primeiro foi aquele memorvel Curso de Histria e Crtica da PinturaModerna, na palavra atraente do Prof. Carlos Cavalcanti, especialmentetrazido do Rio de Janeiro. Nesse Curso foram matriculados 217 alunose conferidos 180 diplomas aos que alcanaram as condies exigidas.

    A seguir, a Biblioteca Pblica nascente promoveu a vinda do Prof. PauloSantos, especialista em Jazz. Essa escolha inspirou-se no pensamento deque, num Plano de Aperfeioamento Cultural, os temas controvertidosdevem colocar-se com prioridade, no s porque mais prementementereclamam elucidao, como porque so mais apaixonantes. E, na verdade,o Curso, versando a Histria e a Interpretao do Jazz, despertou amplointeresse, traduzido na matrcula de 150 alunos, 105 dos quais atenderams exigncias que os habilitaram conquista do respectivo diploma.

    Outro Curso, o terceiro, consistiu numa Introduo ao Yoga e estevea cargo do nosso conterrneo, Cel. Jos Hermgenes. E, curioso essefoi de todos os cursos, o mais numeroso e calorosamente freqentado.No houve aula em que o auditrio da antiga Faculdade de Filosofiano se apresentasse largamente superlotado.

    Mas h que lembrar ainda a presena, promovida pela Biblioteca Pblicanascente, do crtico Jos Guilherme Merquior, para trazer como trouxe,

  • 44

    a reproduo do magistral Curso que havia ministrado no ISEB e queresumiu falando de Literatura e sua funo social.

    A seguir foi a vez da professora Isabel Maria Vasconcelos, especialmenteconvidada para proferir conferncia e fazer mesas-redondas sobreLiteratura Infantil, assunto da sua especialidade e que versa com lucideze objetividade iguais.

    Enquanto por essa forma se antecipava a ao cultural da Biblioteca Pblicado Estado avanava a construo do prdio em que devia instalar-se. NoRio, em cumprimento ao resultado de concorrncia pblica, eramconfeccionados os equipamentos (mesas, cadeiras, fichrios, tudo sob osdesenhos do projeto global).

    Foi o tempo que se criou a Fundao Jos Augusto, idealizada com apreocupao de coordenar harmoniosamente a atividade das diversasinstituies culturais criadas pelo Governo e, sobretudo, assegurar-lhes a regular sobrevivncia qualquer que fosse a orientao dos futurosresponsveis pela direo dos negcios do Estado.

    Nessa altura a construo do prdio da Biblioteca estava concluda e osequipamentos prontos. Competia determinar a sua inaugurao a HelioGalvo, que presidia a Fundao. Este, todavia, de protelao emprotelao, frustrou essa providncia puramente formal, pois que tudoestava no ponto para que a inaugurao se efetivasse. E assim, emboranossos esforos insistentes, houve mudana do Governo sem que HlioGalvo se dispusesse a dar existncia efetiva Biblioteca pronta eacabada.

    O novo Governador, o Monsenhor, a quem desde logo procuramospara expor a situao criada no demonstrou interesse pela causa. Elogo a seguir fulminou-a atravs de um ato irreversvel: fez entrega Assemblia Legislativa, para servir-lhe de sede, do prdio construdopara a Biblioteca Pblica do Estado.

    Mais tarde, talvez alertado para o despropsito de haver cancelado aexistncia da Biblioteca Pblica do Estado, providenciou a construode outro prdio, o qual, entretanto, corresponde instalao de umaBiblioteca do tipo clssico, muito distanciado estruturalmente daquelaque fra planejada sob o padro de uma Casa de Cultura (PEREGRINO,1989. p.137-139).

    Foi essa biblioteca do tipo clssico que Zila Mamede talvez ainda se recuperando

    da malograda aspirao de ver uma biblioteca holstica no Rio Grande do Norte

  • 45

    organizou, planejou e instalou em 1969. O prdio, intitulado Biblioteca Pblica Cmara

    Cascudo, foi construdo na rua Apodi, no bairro do Tirol.

    Zila Mamede realizou o seu trabalho mesmo frustrada pelo ato irreversvel do

    governador Monsenhor Walfredo Gurgel. Ato contrrio aos atos dos sucessivos

    imperadores romanos,60 que incluram bibliotecas em seus planos de edificao pblica.

    A maior delas talvez tenha sido a de Trajano, cujo projeto afastou-se da disposio

    tradicional das salas de leitura. Em vez de serem feitas lado a lado, foram dispostas

    uma defronte a outra, comunicando-se por colunatas guarnecidas de anteparos. No

    ptio existente entre elas, foi erguida a Colunata de Trajano, monumento ao qual o

    imperador mais deve sua fama. Embora isso hoje parea inacreditvel, o fato que

    esse homem to dado a guerras e intrigas resolveu colocar o mais importante memorial

    de sua vida bem no centro de uma biblioteca (BATTLES, 2003).

    60 Os imperadores no se limitavam a dotar seus prprios palcios e templos de grandes bibliotecas. Eles tambm as ofereciamao povo de Roma. Durante o reinado de Augusto, os banhos pblicos parte da poltica imperial do po e circo, objetivandoo contentamento das massas passaram a incluir bibliotecas entre os seus atrativos (BATTLES, 2003, p.53).

  • 46

    4.1 Almas e corpos torturados

    Em abril de 1964, em Natal, a exemplo de todo o Pas, sonhos foram rasgados, almas e

    corpos foram torturados, aprisionados, projetos de vida foram interrompidos. O prefeito

    que proporcionava ao povo no apenas comida, mas tambm diverso e arte, foi deposto

    e preso pelos militares.

    Eleito em 1960, com 64% dos votos vlidos, Djalma Maranho instalou em Natal

    uma verdadeira democracia participativa, coisa que s ganharia esse conceito nas

    administraes do PT,61 aps a Constituio de 1988 (GES, 2002, p.73).

    Um ano antes da sua priso e impeachment, Djalma Maranho inaugurou a Biblioteca

    Popular Monteiro Lobato, em 1 de maio de 1963 (GALVO, 1994). Uma das fotos

    dessa biblioteca retrata homens do povo com livros nas mos, buscando alcanar com a

    inteligncia, atinar, perceber, entender suas prprias vidas.

    Biblioteca Popular Monteiro Lobato, posto de emprstimo inaugurado a 1 de maio de 1963

    61 Sigla do Partido dos Trabalhadores.

  • 47

    A palavra Biblioteca vem do grego biblion (livro) e teka (casa). Seu significado de

    guarda, custdia e conservao de livros. Atravs dos tempos, vem sendo ampliado. Seu

    sentido e funo. Durante sculos, ler e escrever eram habilidades que poucos conheciam.

    As primeiras casas de livros, ou seja, as primeiras bibliotecas, eram de responsabilidade

    dos sacerdotes, a elite letrada da poca. A Sabedoria e a Cincia eram considerados bens

    sagrados. Somente alguns sabiam ler. Portanto, ao povo, desde sempre foi negada a

    possibilidade de decidir, de conhecer, pois o vu da ignorncia esteve, continuamente,

    colocado sobre os seus olhos.

    Foi esse vu que Djalma Maranho tentou retirar dos olhos do povo potiguar. Foi o

    estigma de povo analfabeto, sem voz, sem opinio que ele buscou apagar da histria da

    cidade de Natal. Impediram-no. Exilaram-no. Natal tornou-se uma cidade sitiada, dominada

    pela arrogncia. Homens e mulheres natalenses tornaram-se protagonistas de uma fico

    criada pela prepotncia. Os fantoches do Golpe de 1964 insistiram que os livros eram

    armas utilizadas para alienar o povo brasileiro. At mesmo a poesia foi

    confundida,amaldioada, aprisionada.

    Ouamos o depoimento de Galvo (1994, p.39):

    [...] invadiram minha residncia, armados com fuzis e metralhadoras,revistaram todos os cmodos da casa e, no meu quarto, mexeram atnas caixas de absorventes ntimos. Levaram apenas alguns livros, entreeles Guerra e Paz, de Tolstoi, O Diabo, de Papini, O Vermelho e oNegro, de Sthendal e Nosso Homem e Havana, de Graham Greene.

    [...]

    As coisas se passavam como num teatro parecia que todosrepresentavam. Do ato de terror passamos tragicomdia quando otenente, nervoso, sups encontrar em meus pertences a pista queprocurava para me incriminar. Leu um soneto do poeta Ledo Ivo, quese encontrava em minha bolsa, intitulado Soneto de Abril e considerou

  • 48

    que os versos Agora que abril e o mar se ausenta/ secando-se emsi mesmo, como um pranto, eram uma senha preparada pelosguerrilheiros da esquerda para, naquele ms, desencadearem uma lutaarmada. Foi muito difcil argumentar, e meu espanto era enorme. Sequerpodia rir da loucura do tenente. Alm do mais, ele exigia respostasimediatas, pisava duro ao caminhar em redor da mesa, falava sementender sobre os livros das bibliotecas populares, sobre a campanhaDe P no Cho Tambm se Aprende a Ler e voltava ao Soneto deAbril .

    Este depoimento descreveu o que foi aquela dcada durante e aps abril de 1964. A

    democracia foi destruda e no seu lugar levantou-se a ditadura militar. Homens e mulheres

    desapareceram, assassinados em nome do progresso e da salvao da ptria. Muitos

    eram jovens estudantes no incio de suas vidas que acreditavam num pas com menos

    desigualdade.

    Virgens (2002, p.77-78), recordando o Grande Ponto, o corao de Natal naquela

    dcada, no esqueceu as mortes nem as prises causadas pela insensatez dos militares que

    participaram do Golpe de 64:

    Quatro anos depois,62 viriam aqueles terrveis militares no mesmolocal, arrecadando ouro para o bem do Brazil.

    Com esse ouro, eles sustentaram um regime que prendeu meu cunhadoquase um ano; condenou a morte meu amigo Theodomiro Romeirodos Santos e; assassinou, num tonel, meu outro grande amigo JosSilton Pinheiro, depois de uma sesso de tortura num pau-de-arara,no Rio de Janeiro. Ambos eram da minha sala no Colgio Marista.

    Nunca mais o Grande Ponto foi o mesmo.

    62 O jornalista Petit das Virgens est se referindo ao ano de 1964.

  • 49

    O Grande Ponto foi, na dcada de 1960, o territrio das almas lricas e curiosas da

    cidade, a gora natalense, o grande porto dos intelectuais, funcionrios pblicos, polticos,

    comerciantes, artistas, jornalistas, poetas, esportistas, estudantes. Ouamos um dos seus

    assduos freqentadores:

    No incio dos anos 60, o Grande Ponto fervilha politicamente. Aesquerda discute freneticamente o destino do Brasil. As vozes vibrantesdo ferrovirio Vav e do telegrafista Afrnio Noronha so ouvidas deponto a ponto, de lado a lado, do Grande Ponto. Eles denunciam oimperialismo norte-americano, defendem a Revoluo Cubana, queremas reformas de base, apiam o governo de Joo Goulart.

    A Praa da Imprensa a praa do povo. Na sacada do Frum de Debates,em cima do Vesvio, o deputado Leonel Brizola, com arma no coldre,cospe palavras de fogo, atacando o embaixador Lincoln Gordon e ogeneral Muricy, a quem chama de gorila (com o perdo dos gorilas).

    [...]

    Em meio a isso tudo, o golpe militar urdido socapa pelas foraspolticas reacionrias. Os espies espionam e listas so preparadas,contendo os nomes dos que sero presos quando da vitria da ofensivagolpista em desenvolvimento.

    Um casal de mulheres, de braos dados, do a volta no quarteiro.Sinal dos tempos. O prefeito Djalma Maranho, envolto na bandeiranacional, comemora alegremente a conquista do bi-campeonato mundialpela seleo brasileira no Chile em 1962.

    31 de maro de 1964, o medo instaurado no Grande Ponto.

    A represso desencadeada pela ditadura militar alcana numerososmembros da comunidade que freqentavam o logradouro. Tempossperos, anos de chumbo (ALMEIDA, 2002, p. 80-81).

    Nesses anos de chumbo, capitaneados por homens tambm de chumbo, no havia

    lugar para compreender a importncia dos programas culturais da Diretoria de

    Documentao Cultural (DDC) realizados na administrao de Djalma Maranho. Os

    militares, definitivamente, no acreditavam que sem interesses polticos e subversivos, a

    DDC emprestasse livros a uma comunidade popular. Eles prosseguiam acusando o prefeito

  • 50

    e seus assessores. Segundo esses homens de chumbo, as guerrilhas estavam sendo

    preparadas atravs das bibliotecas populares. Os militares possuam as estatsticas de

    emprstimos de livros que atingiam uma mdia mensal de dois mil e quinhentos em

    cada posto. [...] apavoraram-se com os livros nas mos do povo e no aceitaram

    explicaes nem defesa dos programas culturais realizados pela DDC (GALVO,

    1994, p.100).

    Alguns livros apreendidos nas bibliotecas pelos militares foram recolhidos pelo professor

    e poeta Paulo de Tarso Correia de Melo,63 poca assessor da DDC. Esses livros eram,

    segundo Galvo (1994), Lord Jim, de Joseph Conrad; Viola de bolso, de Carlos Drummond

    de Andrade; O moinho do Rio Floss, de George Eliot; Judeus sem dinheiro, de Michael

    Gold; A luz da manh, de Robert Nathan; Juzo universal, de Giovanni Pappini; Ofcio de

    vagabundo, de Vasco Pratolini; So Bernardo, de Graciliano Ramos; Correio Sul, de Saint-

    Exupry; O advogado do diabo, de Morris West, Maravilhas do conto ingls e Obras-

    primas do conto moderno.

    Diante dessa lista de livros que ficou com Paulo de Tarso Correia de Melo, percebe-se

    que no havia, no governo de Djalma Maranho, a menor inteno de formar guerrilheiros,

    mas sim homens e mulheres que tivessem opinies prprias, lessem o mundo sem a nvoa

    da ignorncia embotando suas mentes. Para isso, o prefeito, com bastante dificuldade

    econmica, ao contrrio do governador,64 realizava a sua administrao priorizando os

    63 Poeta nascido em Natal (RN), em 1944. Sua obra tem recebido importantes prmios, como o Prmio Estadual de PoesiaAuta de Souza, pelo livro Natal: secreta biografia, e o Prmio Municipal de Poesia Othoniel Menezes, pelo Folhetimcordial da guerra em Natal e Cordial folhetim da guerra em Parnamirim, no ano de 1991. Paulo de Tarso tambm autorde inmeros prefcios e estudos crticos acerca da poesia norte-rio-grandense. Entre os poetas por ele j estudados, estoZila Mamede, Myriam Coeli e Lus Carlos Guimares.

    64 Aluzio Alves administrava respaldado pelos recursos financeiros vindos do Aliana para o Progresso, programa dogoverno norte-americano para a Amrica Latina.

  • 51

    programas de alfabetizao popular, conscientizao poltica e democratizao da

    cultura.

    Os livros apreendidos nas bibliotecas municipais e nas casas das pessoas presas foram

    expostos na ento Galeria de Arte da Praa Andr de Albuquerque. Com o apoio do

    jornal Dirio de Natal e do seu superintendente, o jornalista Lus Maria Alves, alguns

    pretensos intelectuais 65 selecionaram esses livros, segundo seus critrios, e os tacharam

    de subversivos. Aqueles livros foram, portanto, a prova do crime de subverso praticado

    atravs das minsculas bibliotecas populares que serviam s pessoas dos bairros pobres de

    Natal.

    Sobre aqueles livros, relatou Galvo (1994, p.85):

    Pelo amplo noticirio da imprensa, pelas fotografias de meia pginados jornais e pela leitura dos seus ttulos, podia-se observar que amaioria dos livros eram os que haviam sido recebidos por doao daBiblioteca do Exrcito, atravs do General Humberto Peregrino, seuento diretor. Aqueles livros, alis, eram raramente procurados pelosleitores que poucos se interessavam por assuntos estritamente militares;no entanto, foram o ponto crtico de todos os interrogatrios a que fuisubmetida. Eram ttulos sugestivos e direcionados divulgao deassuntos militares e, por causa deles, fui acusada de que estariam sendousados para o ensinamento de tticas de luta armada.

    No entanto, a imprensa local no noticiou uma linha sequer sobre os livros de autoria

    de Machado de Assis, Jos de Alencar, Monteiro Lobato, Graciliano Ramos, Jorge Amado,

    Castro Alves, Rachel de Queiroz, entre outros que compunham as bibliotecas populares:

    65 A expresso de Mailde Pinto Galvo. Concordo com ela, pois penso que no papel do intelectual aprisionar livros, massim lhes d liberdade.

  • 52

    De, aproximadamente, oito mil livros que compunham as dez bibliotecasda Prefeitura trs em praas pblicas, uma no Centro de Formaode professores, um nibus-biblioteca volante e cinco caixas-bibliotecascom 150 livros cada, nos acampamentos escolares, mais o acervo dereserva selecionaram uns poucos que tratavam da realidade poltico-social do Brasil e fundamentaram desonestamente as acusaes(GALVO, 1994, p. 86).

    Segundo o relatrio da Comisso Municipal que apurava a subverso em Natal,

    MAILDE PINTO Foi a responsvel pela aquisio de livrossubversivos destinados s bibliotecas, que serviam ao Centro deFormao de Professores, Concha Acstica, Postos de Emprstimo dasRocas e Quintas e s Bibliotecas ambulantes, que eram distribudaspor meio de caixas aos acampamentos.

    Grande parte desses livros foram apreendidos pelo exrcito e o restanteretirado das bibliotecas pelo atual diretor66 da Diretoria deDocumentao e Cultura (GALVO, 1994, p.173).

    Os responsveis pela exposio eram quase todos de formao universitria,

    reconhecidos como intelectuais na cidade, mas estavam possudos pelo delrio do poder,

    perturbados pela vibrao de um patriotismo falsamente direcionado e covardemente

    preocupados em agradar aos militares (GALVO, 1994, p.87). Foram essas pessoas e a

    cegueira de suas almas que auxiliaram os militares na destruio de um plano cultural que

    oferecia populao carente de Natal a possibilidade de ler, ou seja, andar com os prprios

    ps, ter sua cidadania resgatada, um plano cultural que, se continuado, poderia ter

    modificado a lamentvel e dramtica situao do analfabetismo em Natal (GALVO,

    1994, p.87).

    Sim, terminantemente, aquela foi uma dcada spera, uma poca em que o crime do

    jornalista Leonardo Bezerra foi o de possuir livros marxistas em sua vasta biblioteca e o

    66 Segundo Galvo (1994, p.173), o diretor que a substituiu e retirou os livros das bibliotecas foi Digenes da Cunha Lima:O diretor referido no relatrio, advogado Digenes da Cunha Lima, substituiu-me no cargo de Diretor da Documentaoe Cultura da Prefeitura de Natal.

  • 53

    do poeta Nei Leandro de Castro foi de expressar, na sua poesia, questes sociais.

    Em 1964, Zila Mamede estava em Braslia. Mas acredito na sua tristeza, quando

    retornou a Natal, em 1965, e encontrou a DDC, da qual foi titular, entregue ao juzo

    obscurecido de certos homens.

  • 54

  • 55

    Assim era Zila Mamede. Exigente, consciente, racional, inteligente,pronta [...]

    Dorian Jorge Freire

    5 Zila Mamede exata, pronta

    Nesta primeira metade do sculo XXI, aps quase vinte anos da morte de Zila Mamede,

    alguns incautos, na academia, somente a conhecem porque a principal biblioteca do campus

    universitrio da Universidade Federal do Rio Grande do Norte recebe o seu nome:

    Biblioteca Central Zila Mamede a conhecida BCZM. Muitos no sabem da luta dessa

    mulher para que esse prdio fosse erguido com o objetivo de abrigar os livros do acervo

    da UFRN que se distribuam, perdiam-se, extraviavam-se nos galpes em pssimas

    condies fsicas ou permaneciam nas casas de certos maus usurios e jamais retornavam

    para a comunidade universitria.

    Zila Mamede ficou conhecida como uma pessoa visceral, metdica, disciplinada, aquela

    que lutava at o fim por suas crenas, seus projetos, suas crias. Assim descreveu a poeta

    um dos seus grandes admiradores:

    Tinha que levar anos na preparao de um livro, quem levava meses naelaborao de um verso. Na construo de um verso. Porque Zila noexigia de si muito: ela exigia o tudo que sabia poder proporcionar setrabalhasse sem tempo marcado para entrega de seu produto. Ela e seuverso, ela e sua inspirao, ela e sua poesia. Para poetar sobre o arado,ela precisava estudar tudo do arado, da mo que sustenta o arado, daterra que o arado vai cultivar, dos sonhos e devaneios que o aradosuscitaria. Assim para escrever sobre tipografia. Foi aprender tudo dognero, exigente, exata, impiedosa consigo mesma. Fazendo olevantamento da obra de Lus da Cmara Cascudo, deu-nos ummonumento altura daquele mestre e de sua obra polifrmica.

  • 56

    Assim era Zila Mamede. Exigente, consciente, racional, inteligente,pronta, de uma sinceridade que s vezes chegava aparente descortesia(FREIRE, 1985, p.2).

    Numa poca em que a expresso biblioteconomia ainda era um nome difcil de

    ser pronunciado e que profissionais de outras reas exerciam a funo de bibliotecrios,

    Zila Mamede suscitou a criao, na UFRN, de um curso superior de biblioteconomia,

    o que s foi acontecer muito tempo depois, no ano de 1992.

    O bibliotecrio Edson Nery da Fonseca,67 que sempre exaltou o significativo

    trabalho de Zila Mamede, destacou num quase desabafo: Ela era avs rara numa

    atividade cheia de grandes ignorncias gerais especializadas em biblioteconomia e

    documentao (FONSECA, 1985).

    Alm de ter sido pssaro raro na biblioteconomia nacional, foi ainda( ou acima de

    tudo) poeta do mar e da terra , amiga de Drummond e Bandeira. autora de um dos

    mais belos poemas da poesia brasileira , Banho (rural), escolhido um dos cem melhores

    poemas brasileiros do sculo XX . Eis o texto de Mamede (2001, p.141-142):

    De cabaa na mo, cu nos cabelos tarde era que a moa desertavados arenzs de alcova. Caminhando

    um passo brando pelas roas ianas vingas nem tocando; reesmagavana areia os prprios passos, tinha o rio

    67 Edson Nery da Fonseca, intelectual nascido em Recife (PE), em 1921. referncia nacional na rea de biblioteconomia.Autor dos livros Problemas da comunicao da informao cientfica; A biblioteconomia brasileira no contexto mundial;e Um livro completa meio sculo, entre outros. Foi orientador da dissertao (incompleta) de Zila Mamede, na Universidadede Braslia.

  • 57

    com margens engolidas por tabocas,feito mais de abandono que de estradae muito mais de estrada que de rio

    onde em cacimba e lodo se assentavagua salobre rasa. Salitrosoera o tambm caminho da cacimba

    e mais: o salitroso era deserto.A moa ali perdia-se, afundava-seenchendo o vasilhame, aventurava

    por longo capinzal, cantarolando;desfibrava os cabelos, a rodilhae seus vestidos, presos no tapume

    velando vales, curvas e ravinas(a rosa de seu ventre, sis no busto)libertas nesse banho vesperal.

    Moldava-se em sabo, estremecidacada vez que dos ombros escorrendoo frio dgua era carcia antiga.

    Secava-se no vento, recolhias noite e essncias, mansa carregando-asna morna geografia de seu corpo.

    Depois, voltava lentamente os rastosem deriva cacimba, se encontravanas guas: infinita, liquefeita.

    Ento era a moa regressavatendo nos olhos cnticos e aromasapreendidos no entardecer rural.

    Zila Mamede tambm foi uma das poetas selecionadas por Manuel Bandeira e Carlos

    Drummond de Andrade para compor a antologia Rio de Janeiro em Prosa e Verso, editada

    pela Livraria Jos Olympio, no ano de 1965. O poema escolhido intitula-se Santa Tereza

    um potico retrato de Santa Tereza:68

    68 Antigo bairro carioca

  • 58

    O tom dos sinosescorrendo nas ladeiras,os ventos do Curveloe o cheiro morno do Silvestre.

    Ponte dos arcos,quantas brumasmeus sapatos te tocaram,ss.

    Santa Teresa:as estrelas se mudaram para o cho.(MAMEDE, 1978, p.32)

    5.1 Arte de viver

    Sob o signo de Virgem, Zila da Costa Mamede nasceu em 15 de setembro de 1928, na Vila

    de Nova Palmeira, Estado da Paraba, municpio de Picu, zona da Caatinga.69 Filha de

    Josaf Gomes da Costa Mamede e Eldia Bezerra Mamede, a segunda de sete filhos,

    sendo a mais velha das irms.

    Sim, talvez a mais norte-rio-grandense de todas as poetas potiguares nasceu na Paraba,

    como ela mesmo revelou:

    o cho onde nasci, e eu gostaria que ele fosse no Rio Grande doNorte, porque me sinto to norte-rio-grandense, que tenho susto

    69 Tipo de vegetao caracterstico do Nordeste brasileiro, formado por pequenas rvores, comumente espinhosas, queperdem as folhas no curso da longa estao seca (entre elas ocorrem numerosas plantas suculentas, sobretudo cactceas).

  • 59

    quando olho a minha carteira de identidade. Nisso no h nenhumpreconceito contra a Paraba. Apenas fui transplantada muito pequena,a tempo de me sentir enraizada no Rio Grande do Norte. Da por queeu digo que gostaria que Nova Palmeira, a vila fundada pelo meu av epelo meu padrinho de batismo, fosse no Rio Grande do Norte. Erauma fazenda, uma vila, hoje mais um municpio brasileiro, mas no como municpio, e sim, como stio do meu av que permanece naminha geografia sentimental (MEMRIA VIVA..., 1987, p.9).

    Aos dois anos de idade, saiu de Nova Palmeira para Vila Cabor, ainda na Paraba,

    de onde trs anos depois tambm partiu.O destino era ento o Rio Grande do Norte,

    a cidade de Currais Novos.

    Meu pai, isso o mar?

    No. Isso um canavial.

    Esse dilogo ocorrido na estrada entre Zila Mamede e seu pai, quando os dois viajavam

    para Recife, num fordeco, na dcada de 1930, antecipou a sensao de deslumbramento

    e a sensao de medo que a poeta viria a ter horas depois diante do verdadeiro mar. A

    sensao que tive foi que, se eu parasse muito tempo ali, naquela calada do Pina, o mar

    ia virar, emborcar e me engolir (MEMRIA VIVA..., 1987, p. 14).

    Enfim, a menina que morava em Currais Novos, interior do Rio Grande do Norte, e

    nunca havia visto o mar, defrontou-se com aquele que era grande demais para que eu

    estivesse perto dele (MEMRIA VIVA..., 1987, p.14).

    [...] a idia de mar veio porque, em Currais Novos, havia uma srie defamlias que saam para veranear e falavam de mar. Naquela poca notinha televiso, revistas eram muito poucas [...] a gente arrumava a

  • 60

    areia e nadava naquela superfcie plana cheia de areia. Era brincar demar: eu, minhas irms, primos e amigos.

    Entretanto, o mar s se tornou companheiro inseparvel a partir de 1942, quando

    em plena Segunda Guerra Mundial, veio com a famlia para Natal. O pai, mecnico,

    dono de oficina, estava na capital potiguar desde 1939, na iluso de trabalhar para os

    norte-americanos: O meu pai foi um dos que caram no conto do vigrio de um bom

    emprego, muito bem remunerado, com a oficina arrendada para os americanos

    (MEMRIA VIVA..., 1987, p. 15).

    Em Natal, aquele que era grande demais tornou-se, com o serto, presena

    marcante na obra de Zila Mamede. Obra que um legado para os leitores e fazedores

    de poesia. Jovens poetas, a exemplo de mim mesma na dcada de 1980, aprenderam

    muito com esta mulher que to bem soube amalgamar a literatura com a prpria vida.

    Sejamos sua ouvinte:

    A minha surpresa era quando eu transportava a palavra repolho para apoesia, que no tinha a ver, mas tinha porque era uma coisa que eutinha presenciado, e essas palavras fortes se somaram ao meuvocabulrio, ainda muito incipiente; mas foi a partir da descoberta deque poderia usar palavras como repolho, ou outras, como, por exemplo,no Soneto para a mocidade holandesa, em que usei nos lbios dastulipas defloradas, que eu no sabia por que usava essa palavra emrelao coisa to delicada como tulipa; fui para o dicionrioescandalizada comigo mesma: era a palavra certa para aquilo(MEMRIA VIVA..., 1987, p.28).

    De 1943 a 1949, estudou no Colgio Imaculada Conceio e estava nos seus planos

    tornar-se freira, idia da qual desistiu em 1951, quando comeou a escrever seus primeiros

    poemas e conseguiu o seu primeiro emprego como tcnica em contabilidade:

  • 61

    Eu queria estudar literatura e tive que estudar contabilidade, porqueeu precisava de um emprego. Meu pai, j naquela poca, tinha asabedoria de que literatura no dava emprego a ningum, e me botoupara estudar contabilidade (MEMRIA VIVA..., 1987, p. 27).

    Em 17 de outubro de 1953, lanou o seu primeiro livro, Rosa de Pedra, editado pelo

    Departamento de Imprensa do Rio Grande do Norte, sob a direo do crtico e poeta

    Antnio Pinto de Medeiros.70 Esse livro seria editado no Rio de Janeiro, pela Edies

    Hipocampo,71 dirigida pelos poetas Thiago de Melo72 e Geir Campos,73 mas a editora

    faliu antes da publicao. Em Rosa de Pedra , que completou 50 anos em 2003, est

    publicado Mar Morto, poema a partir do qual declarou ter se tornado poeta: o meu

    batistrio potico, minha certido de poeta (MEMRIA VIVA..., 1987, p.24).

    Ei-lo:

    70 Poeta e ensasta nascido em Manaus (AM), em 1919. Em Natal, colaborou com vrios suplementos literrios. Ficouconhecido como um crtico exigente e culto. Foi diretor do Departamento de Imprensa no Governo de Sylvio Pedroza,responsvel pela publicao de livros de Othoniel Menezes, Cmara Cascudo e Zila Mamede. autor dos livros Um poeta toa , Rio do vento e Elegia da Rua Quinze. Faleceu no Rio de Janeiro, em 1970.

    71 Editora fundada pelos poetas Thiago de Mello e Geir Campos que revolucionou as artes grficas no Brasil. Foram publicadostextos poticos, em prosa e verso, de autores consagrados e novos, todos ilustrados primorosamente por grandes artistas.Os livros eram compostos tipograficamente, diagramados pelos prprios editores e impressos aps o expediente dagrfica de fundo de quintal, em Niteri, dirigida por Antonio Marra e Armando Cabral Guedes. O processo de acabamentoera feito na casa onde Geir Campos residia, com a colaborao de toda a famlia. Dobravam-se as capas em forma deenvelope, onde se inseriam as folhas soltas. Com tiragens mdias de 116 exemplares, em dois anos foram feitas 20 edies,que incluam nomes como Carlos Drummond de Andrade, Ceclia Meireles, Manuel Bandeira, Iber Camargo, JooGuimares Rosa, Fayga Ostrower, Santa Rosa e Darel Valena.

    72 Thiago de Mello nasceu em Bom-Socorro (AM), em 1926. Adido Cultural da Embaixada do Brasil no Chile, nos anos 60,teve longa amizade com Pablo Neruda. Sua obra mais polmica Os Estatutos do Homem, direitos e deveres lricos, peaantolgica que corre o mundo em sucessivas edies estrangeiras. Da sua bibliografia constam, entre outros, A Cano doAmor Armado, Mormao na Floresta, Num Campo de Margaridas, De uma Vez por Todas e Campo de Milagres.

    73 Geir Campos nasceu em So Jos do Calado (ES), em 1924. Formou-se em Direo Teatral (FEFIERJ-MEC, Rio),mestre e doutor em Comunicao Social pela Escola de Comunicao da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ),da qual foi professor. Foi diretor da Biblioteca Pblica Estadual de Niteri (1961-1962), transformando-a em um centrocultural. Faleceu em 1999, em Niteri (RJ).

  • 62

    Parado morto mar de minha infnciasem sombras nem lembranas de sargaospor onde rocem asas de gaivotasperdendo-se num rumo duvidoso.

    Pesado mar sem gesto, mar sem nsia,sem praias, sem limites, sem espaos,sem brisas, sem cantigas, mar sem rotas,apenas mar incerto, mar brumoso.

    Criana penetrando no mar mortoem busca de um brinquedo coloridoque julga ver no mar vogando.

    Zila Mamede na poca do lanamento de Rosa de Pedra, 1953.

  • 63

    Infncia nesse mar que no tem porto,num mar sem brilho, vago, indefinido,onde no h nem sonhos navegando.(MAMEDE, 1978, p.157)

    Ilustrado pelo escritor e artista plstico Newton Navarro, Rosa de Pedra foi comentado

    por crticos e poetas importantes, entre eles estavam Mauro Mota74 e Osman Lins,75 no

    jornal Dirio de Pernambuco; e Jaime dos G. Wanderley,76 no Dirio de Natal. Eis alguns

    desses comentrios:

    No chamo Zila Mamede de jovem, levando em conta apenas a suacondio cronolgica de novssima. Pois nos seus poemas que ajuventude se afirma. Jamais no sentido da imaturidade, antes no deexercer sobre as palavras a ao potica mais restauradora do quedepuradora, sem met-las em camisa de fora, sem esprem-las embusca do sangue que elas, palha na origem, no tm (MOTA, 1953).

    Arrisca-se Zila Mamede, em alguns sonetos, poesia social. Todo mundosabe o que significa isto. Acontece, porm, que esta poetisa nova,abordando temas grandiloqentes, fugiu ao pomposo, evitou a nfase,abrigou lamentos, vigas e charcos em sua alma lrica e conseguiu realizaralguns trabalhos admirveis. [...] poemas como a Cano do sonhoocenico, Soneto triste para a minha infncia e outros aquimencionados, fazem-nos saudar em Zila Mamede uma de nossas maispuras afirmaes poticas e reafirmam a nossa f na jovem poesiabrasileira (LINS, 1953).

    Ela joga com rara habilidade a medida do verso, embora sempreocupao da contagem, que a faz, sempre, com a trena da arte

    74 Poeta, jornalista, nascido em Recife (PE). Pertenceu Academia Brasileira de Letras. Sua bibliografia ampla e diversificada.Estreou em livro em 1952, embora seu nome, a essa poca, j houvesse conquistado projeo nacional como poeta. Foium grande incentivador e divulgador da poesia de Zila Mamede. No livro Itinerrio (1983), Mauro Mota dedicou opoema Monlogo do mutilado a Zila Mamede.

    75 Osman Lins nasceu em 1924, em Vitria de Santo Anto (PE). Estreou pea de sua autoria, Lisbela e o prisioneiro, no Riode Janeiro, em 1961. Em 1973, publica Avalovara, romance, traduzido posteriormente para o espanhol, francs e alemo.Foi professor titular de Literatura Brasileira na Faculdade de Filosofia Cincias e Letras de Marlia (SP) at 1976, quandodeixa o ensino universitrio dedicando-se exclusivamente atividade de escritor. Faleceu em So Paulo, no ano de 1978.

    76 Nasceu em Natal (RN), em 1897. Ocupou a cadeira n 23 da Academia Norte-rio-grandense de Letras. autor dos livrosFogo sagrado, Espinho de Jurema, Boneca de chocolate, Perfis a carvo, Perfis parlamentares, Natal cidade prespio,Ode ao sal, Macambira, Braslia, rainha do planalto, Quinteto de cordas, Flor de estufa entre cactus, Reencontro dedeuses, Meu canto verde amarelo, Epopia da redeno, Sandoval Wanderley: um homem de teatro e tempo de recordar.Faleceu em Natal, em 1986.

  • 64

    moderna, liberta dos elos que obrigam, na mtrica antiga, a formaoda corrente, onde se prende a ncora que o hemistquio dosalexandrinos que consagram PrudHomme ou as tnicas obrigatriasna tessitura dos decasslabos, com os quais Mallarm culminou na suaascenso artstica, nos crculos intelectuais da Frana contempornea(WANDERLEY, 1953).

    Portanto, foram esses, entre outros, os primeiros comentrios no jornalismo sobre

    Rosa de Pedra. Quase todos elogiosos, porm alguns apontando, em algum momento,

    as inconstncias do livro: Infelizmente, nem todos os poemas atingem a mesma

    qualidade a mesma pureza e a mesma fluidez [...] , como bem assinalou Lins (1953)

    no seu texto Variaes em torno do Rosa de Pedra, publicado no Dirio de Pernambuco. O

    que no impediu do crtico finalizar o seu texto saudando Zila Mamede como uma das

    mais puras afirmaes poticas da poesia brasileira.

    Comentrios todos recolhidos por Zila Mamede num caderno no formato A4, no

    qual ela colou recortes de jornais de todo o Pas, com crticas sua poesia, alm de

    entrevistas, poemas e textos de sua autoria. Foi nesse mesmo caderno, j esmaecido pelo

    tempo, que eu me debrucei na tentativa de recolher senhas para contar esta histria: O

    historiador conta uma histria, uma histria que ele forja recorrendo a um certo nmero

    de informaes concretas (DUBY, 1993, p. 13).

    Em 1953, Zila Mamede ainda no havia entrado no mundo da biblioteconomia. O que

    faria no ano seguinte, quando recebeu certificado pelo Curso Intensivo de Biblioteconomia,

    expedido pelo Instituto Nacional do Livro, atravs do Programa de Assistncia Tcnica s

    Bibliotecas Brasileiras. Zila Mamede, ao conseguir a melhor nota do curso, ganhou tambm

    uma bolsa de estudo para um curso na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. Ainda no

    ano de 1954, ela dirigiu pela primeira vez uma biblioteca: a Biblioteca do Instituto de

    Educao do Rio Grande do Norte, hoje Departamento de Letras da UFRN cargo que

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    exerceu at 1962.

    Zila Mamede, em julho de 1954, fazendo reportagem durante o congresso de biblioteconomiapara o jornal Dirio de Pernambuco.

    Zila Mamede na biblioteca do Teatro Santa Isabel em Recife, durante congresso debiblioteconomia, em julho de 1954.

  • 66

    Em entrevista concedida a Carlos Lyra77, Alvamar Furtado78 e Celso da Silveira79 no

    programa Memria Viva,80 da Televiso Universitria da UFRN, , ao falar sobre a publicao

    de Rosa de Pedra, revelou o nome que a levou para a biblioteconomia: o ex-governador

    Sylvio Piza Pedroza.81

    [...] quem acabou publicando foi Antnio Pinto, no governo de SylvioPedroza. Dois homens a quem eu devo: a um, a publicao de umlivro; a outro, o meu primeiro emprego pblico e a minha profisso debiblioteconomia. A eles sempre rendi a minha melhor homenagem,tanto que o meu livro Exerccio da palavra dedicado a Sylvio Pedrozae a Antnio Pinto, e muito pouca gente sabe por qu (MEMRIAVIVA, 1987, p. 21).

    No seu discurso de posse, na Academia Norte-rio-grandense de Letras, em 1996,

    Sylvio Piza Pedroza (1996, p.13-14) lembrou Zila Mamede fazendo-lhe uma referncia

    77 Fotgrafo, professor aposentado do curso de Comunicao Social da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, ex-diretor da Televiso Universitria da UFRN.

    78 Intelectual norte-rio-grandense, membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras, falecido no ano de 2002.

    79 Jornalista e escritor, nasceu em Au (RN), em 1929. autor dos livros 26 poemas do menino grande, Imagem virtual,Glosa glosarum, O homem ri de graa, Memorial do Grande Ponto, Poesia agora, Ave, Myriam, Joge Fernandes e omodernismo brasileiro, Versicanto, Tempo passatempo e Assu: gente, natureza, histria.

    80 Gravado em 3 de fevereiro de 1981, foi exibido em 22 de fevereiro daquele ano.

    81 Sylvio Piza Pedroza foi prefeito de Natal na dcada de 1940. Governou o Rio Grande do Norte na primeira metade dadcada de 1950. Foi um grande incentivador da cultura norte-rio-grandense. Ocupou a Cadeira n 1 da Academia Norte-rio-grandense de Letras. Faleceu no Rio de Janeiro, em 1998.

  • 67

    especial:

    A primeira vez que ouvi falar em Zila, foi atravs de Antnio Pintode Medeiros, cuja memria espera, ainda, a justia que merece. Nos pelo valor do poeta e do jornalista, mas, principalmente, por seuinteresse na divulgao de obras literrias frente do Departamentode Imprensa, no meu governo, quando efetivamente demoscumprimento lei Alberto Maranho, publicando mais de 50 livros deautores norte-rio-grandenses.

    Falou-me Antnio Pinto de uma jovem poeta, que na sua opinioescrevia versos de notvel inspirao e fora lrica. Perguntei-lhe sej havia material suficiente para confeco de um livro. Da surgiuRosa de Pedra, publicado em 1953. Antnio Pinto tinha razo. Erauma revelao de extraordinrio vigor, e justia no tardou a lhe serfeita. Primeiro no Recife, com o depoimento de Mauro Mota e,finalmente, no centro cultural do Pas, no Rio de Janeiro, quandonada menos que Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade,afirmaram enfaticamente que estavam diante de uma das maiorespoetas de todos os tempos.

    O poeta Manuel Bandeira, com quem Zila Mamede manteve correspondncia desde

    os 23 anos de idade, tambm foi um nome decisivo na sua vida profissional. No programa

    Memria Viva (1987, p. 22), a poeta revelou: Ele interferiu para que uma bolsa de estudos

    da Biblioteca Nacional sasse logo para mim. A bibliotecria j havia sido premiada com

    a bolsa, porm a burocracia impedia o desfrute desse prmio. Portanto, foi Bandeira, com

    seu prestgio de poeta nacional, que agilizou a entrega daquela bolsa de estudos a Zila

    Mamede.

    O primeiro contato de Zila Mamede com Bandeira se deu atravs de uma carta, [...]

    me deu um certo atrevimento: fiz uma carta para Manuel Bandeira (MEMRIA VIVA...,

    1987, p.21). Dentro do envelope, alm da carta, ela colocou alguns poemas de sua autoria.

    A resposta de Bandeira foi surpreendente: confessando estar impactado pela poesia de

    Zila Mamede, o poeta rendeu-lhe uma homenagem. Mandou-lhe uma pgina do jornal

  • 68

    Dirio Carioca com a publicao de Soneto Noturno para o Rio Capibaribe:

    Nos mistrios do rio me perdi,na amargura do rio me encontreina sombra que beijava a flor do riosenti minha saudade anoitecer.

    O rio fez-se ventre onde nasci:sua gua tem o pranto que choreiquando o vento, pousando o leito, frio,quis da espuma meu sangue recolher.

    Sou pontes, sou granito, sou letreiros,sou mangues, sou barcaas, sou cantigasdesenhando petrleos na torrente.

    Sou rio que compe os seus barqueiros,dos soluos da margem que, ora, antiga,gera flores e lama, indiferente.(MAMEDE, 1978, p.184)

    Na entrevista para o Memria Viva (1984), Zila Mamede equivocou-se e declarou ser

    o soneto Noturno do Recife, poema com o qual venceu um dos concursos permanentes

    promovidos pelo Jornal de Letras, do Rio de Janeiro, em julho de 1955:

    Noturno do Recife me vestindoo pensamento, leve como acciasque o vento distribui pelas caladase as leva passeando a gua dos rios.

    Que paz derrama a lua na roupagemdas pontes, na magreza dos mocambos,na distncia afogante dos subrbiosinsinuando morte e carnaval.

    Recife. Luz fugindo, se apagando.Recife. Cus to claro, cu to perto(a alma noturna bia-me nos dedos).

  • 69

    Recife pendurado nos meus olhos,eu beijo a tua noite nos meus sonhose planto o meu destino nos teus mares.(MAMEDE, 1978, p. 123)

    O poeta Thiago de Mello, que era o redator do Jornal de Letras e um dos membros da

    comisso julgadora do concurso, escreveu evidenciando a qualidade literria do soneto

    de autoria de Zila Mamede:

    Seu Soneto do Recife apresentou evidente superioridade sobre asdemais poesias enviadas, pela realizao tcnica e a doura do ritmo.Esse soneto nos leva a supor em Zila Mamede uma das revelaes dapoesia moderna (MELLO, 1955).

    Manuel Bandeira foi a primeira pessoa a quem ela visitou ao chegar no Rio de Janeiro,

    no ano de 1955. O poeta pernambucano tornou-se, ento, a grande referncia da poeta

    potiguar: Ele me dava todas as duplicatas de livros que recebia [...] ele me obrigava a

    estudar latim, a conhecer os clssicos [...] Digo que ele me obrigou a levar a srio a

    poesia (MEMRIA VIVA..., 1987, p.22).

    No Rio de Janeiro, assumiu, durante os anos de 1955 e 1956, o cargo de bibliotecria

    do Instituto de Matemtica Pura e Aplicada do Conselho Nacional de Pesquisa. No final

    do ano de 1956, recebeu o diploma de Bacharel em Biblioteconomia, expedido pelo

    Curso de Biblioteconomia da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, registrado na Diviso

    de Ensino Superior do Ministrio da Educao e Cultura.

    Ao retornar a Natal, em 1957, foi nomeada bibliotecria e scio efetiva da Sociedade

    Cultural Brasil-Estados Unidos,82 onde permaneceu at 1961, ano em que assumiu o

    82 A SCBEU foi uma tradicional escola de ingls que existiu em Natal. Funcionou na avenida Getlio Vargas, no bairro dePetrpolis, onde esto, atualmente, construdos vrios edifcios

  • 70

    Zila Mamede na Itlia, em 1957, quando viajou como jornalista contratada pelo jornal O Globo.

    cargo de bibliotecria do Servio Central de Bibliotecas da Universidade Federal do

    Rio Grande do Norte. Ainda em 1957, passou cinco meses na Europa como jornalista

    enviada pelo jornal O Globo, do Rio de Janeiro. O objetivo da viagem foi a cobertura

    jornalstica do 10 Congresso Mundial dos Dirigentes da Juventude Operria Catlica.

    Os pases visitados foram Portugal, Espanha, Frana, Itlia, Alemanha, Blgica e

    Holanda.

    O segundo livro de poemas, Salinas, foi publicado no Rio de Janeiro em 1958, pelo

    83 Esse livro, organizado pela professora Maria das Graas de Aquino Santos, composto por dezenove cartas, onze bilhetese um carto, enviados no perodo de 1953 a 1985, incluindo o telegrama remetido famlia Mamede por ocasio dofalecimento de Zila Mamede. Foi lanado, em 2000, pela editora Sebo Vermelho. A introduo da organizadora e asorelhas so da professora e poeta Diva Cunha.

  • 71

    Servio de Documentao do Ministrio da Educao e Cultura (MEC). Com essa

    obra, recebeu o Prmio de Poesia Vnia Souto de Carvalho, dividido com o poeta

    pernambucano Csar Leal. Em maio do mesmo ano, recebeu carta do amigo e poeta

    Carlos Drummond de Andrade. Essa carta foi publicada no jornal A Repblica, em 15

    de agosto de 1958 e republicada no livro Cartas de Drummond a Zila Mamede.83 Num

    tom carinhoso, Andrade (2000, p. 19-20) falou sobre os novos poemas de Zila Mamede

    e agradeceu pelos rgios presentes de poeta:

    Rio, 20 de maio 1958.

    Zila amiga, que posso dizer de seus poemas novos seno a verdade,isto , que eles so uma beleza? O milho novo desabrochando pscoas,a dor do menino sacudindo miragens do po, e as invenes da luz, daventania: obrigado, Zila, por estes rgios presentes de poeta.

    Bem, subi ao 9 andar e falei ao Simeo. Ele riu muito, contou-me ossustos que tem passado em voc, dizendo-lhe que seu livro no sairto cedo, de castigo. A verdade que o livro est quentinho no forno,segundo ele prprio Simo [sic] informou,e Lcia, a eficiente

    secretria, confirmou. Disse ela que as terceiras provas j seguirampara a Imprensa Nacional, com o imprimatur, est bom? Se demorarapesar de tudo isso, irei novamente ao S. D. e me converterei no seurepresentante legal, clamando e reclamando providncias. Mas achoque agora a coisa vai, Zila.

    Estou acompanhando com muita tristeza a tragdia a do Nordeste, eque voc resume bem nessas palavras: sol, misria, politicagem. Opior esta ltima agravando os males da natureza e cevando-se neles,com ferocidade. uma vergonha para ns todos que no tenhamosainda resolvido o problema das nossas regies secas, quando desertosinteiros so fertilizados em outras partes do mundo.

    Um abrao para voc, Zila, e as muitas saudades amigas do Drummond

    No ano seguinte, 1959, publicou o seu terceiro livro, O Arado. Carlos Drummond de

  • 72

    Andrade foi pea fundamental nesse livro. Zila Mamede recorreu ao poeta e pediu-

    lhe conselhos. Ele reafirmou a sua alegria de ver Zila crescendo em poesia e o seu

    constrangimento em propor qualquer modificao a um poeta. Receio ainda sugerir o

    que apenas a minha verdade, uma verdade precria nos limites do meu ser, disse Andrade

    (2000, p. 23-24), porm, em seguida, deu algumas sugestes:

    [...] Noto o seguinte: certa repetio de palavras-chave, como pasto,lrio, trigal, po, que torna montono o livro, embora a unidadetemtica imponha essa monotonia como condio prvia. Tambmgostaria de certas audcias, como transformar substantivos em adjetivos,ou compor palavras misturando as existentes mas deixando claro parao leitor o elo que as prende. O mais uma tcnica de economia:cortar palavrinhas desnecessrias (o, um, seu), encurtar, acelerar,tornar mais direta e violenta a dico. De importante no vejo nadaa censurar. E o livro saiu uma doura rural completa, uma coisa deterra e vida incorporada terra, que torna autntica sua poesia.[...]

    Quando o livro foi publicado, ela o enviou a Carlos Drummond de Andrade (2000,

    p.27) que lhe justificou a sua no-resposta imediata:

    Rio, 17 julho 1959.

    Zila, amiga:

    Sim, recebi O Arado, tomei conhecimento das novidades e dascorrees no texto primitivo, e achei tudo ok. Se no mandei umapalavra a respeito, porque tenho andado submergido at o pescooem trabalhos meus e alheios. Quanto aos ltimos, basta lhe dizer queestou revendo os originais de trs livros de amigos livros de prosa,tradues, coisas que exigem consulta a outros volumes e tm que serfeitas devagarinho [...]

    No incio de 1960, ou seja, sete meses aps a ltima carta, Carlos Drummond de

    Andrade (2000, p.29), talvez menos atarefado, voltou a lhe escrever, dizendo-se encantado

  • 73

    com O Arado:

    Rio, 11 fevereiro 1960

    Zila, amiga querida:

    Seu livro est aqui, encantando um velho leitor que j o conhecia beme agora se alegra de tornar a ver o amigo. To puro ele em sua aderncia terra, aos bichos, vida natural [...]

    Alm de publicar O Arado, no ano de 1959, reorganizou a Biblioteca do Tribunal de

    Justia do Estado do Rio Grande do Norte, organizou a Biblioteca da Faculdade de Direito

    de Natal, ministrou Curso Intensivo de Biblioteconomia na Faculdade de Filosofia,

    Cincias e Letras e tornou-se, at 1961, titular interina da Diretoria de Documentao

    e Cultura da Prefeitura Municipal de Natal (SANTOS, 1996).

    Um ano peculiar na vida profissional de Zila Mamede foi o de 1961. Ela

    permaneceu grande parte desse perodo, como bolsista do governo norte-americano,

    nos Estados Unidos, onde participou de um curso sobre administrao em bibliotecas,

    cumprindo o programa G-1-80 do Latin American Consultant. Nesse curso, Zila Mamede

    realizou, segundo o seu Curriculum Vitae, elaborado por ela mesma, inmeras atividades

    (SANTOS, 1996):

    1. Em Washigton, na Biblioteca do Congresso, realizou visita de observao s

    seguintes divises: Biding Division, Exchange and Gift Division, Union Catalog,

    The Hispanic Foundation, Music, prints and Phothographs Division, Serials Division

    e Film Division. Na Unio Pan-americana, visitou os diversos departamentos da

    instituio, com observao especial Biblioteca de Colombo, tendo como

  • 74

    resultado de entendimentos o estabelecimento de um programa de intercmbio

    de publicaes com o servio Central de Bibliotecas da UFRN. Visitou ainda a

    United States Book Exchange USBE , com o objetivo de assinar um convnio

    para permuta de publicaes com o Servio Central de Bibliotecas da Universidade

    Federal do Rio Grande do Norte, programa que vigorou at 1964, quando foi

    suspenso pela prpria USBE.

    2. Na cidade de Nova York, na Biblioteca da Universidade de Siracusa, Zila Mamede

    visitou as seguintes divises tcnicas:

    a Catalog Room, onde participou do programa sob a superviso da bibliotecria

    norte-americana Elizabeth Newlove, envolvendo trs diferentes divises e

    consistindo na seleo, preparao e circulao de publicaes latino-

    americanas e, ainda, na sua classificao e catalogao;

    a Gif and Exchange Division, onde fez a reformulao do programa de

    intercmbio com pases latino-americanos, atualizao de fichrios de

    instituies universitrias e de pesquisa,e estabeleceu o contato com aquelas

    instituies para intercmbio de publicaes com a Biblioteca da Universidade

    de Siracusa;

    e a Farmington Plan, onde participou do Programa de Aquisio Planificada,

    que incluii publicaes da Argentina, Paraguai e Uruguai, sob a direo do

  • 75

    Com o livro sempre mo, em 1961, nos Estados Unidos, onde participou de um curso sobreadministrao e bibliotecas, convidada pelo governo norte-americano. O apartamento em que Zilainstalou-se era da Universidade de Siracusa, em Nova York.

  • 76

    professor Jorge Aguayo.

    3. Em Cleveland, na cidade de Ohio, Zila Mamede visitou The Wester Reserve

    University, Library School, University Library, The Cleveland Public Library e

    The Word Publish Company. Participou ainda como convidada estrangeira da

    Annual Conference of the American Library Association.

    Quando analisamos que o ano era 1961 e que o governador do Rio Grande do

    Norte, poca o jornalista Aluzio Alves, acabara de assinar um decreto criando a

    Biblioteca Pblica do Estado, percebemos a importncia daquela viagem para a cultura

    norte-rio-grandense.

    Observo que Zila Mamede iniciou sua viagem aos Estados Unidos realizando visitas

    de observao na maior biblioteca universal do mundo, a Biblioteca do Congresso. Todos

    os dias so acrescentados nessa biblioteca 7 mil livros aos mais de 100 milhes j dispostos

    em seus 850 quilmetros de prateleira (BATTLES, 2003). Portanto, sair da provinciana

    Natal, carente de bibliotecas, para estudar nas bibliotecas das cidades cosmopolitas de

    Washington e Nova York, certamente deu a Zila Mamede a possibilidade de obter um

    conhecimento singular na rea de biblioteconomia o que habilitou a jovem bibliotecria

    no seu trabalho pioneiro e rigoroso de planejar e instalar bibliotecas pblicas no Rio

    Grande do Norte. Um desses conhecimentos, decerto, foi o sistema de classificao adotado

    pelas bibliotecas universitrias norte-americanas, que Battles (2003, p.21), ironicamente,

    chamou de cabalismo impenetrvel:

  • 77

    As bibliotecas acadmicas norte-americanas adotaram o sistema dechamada numrica da Biblioteca do Congresso, que hoje padro um cabalismo impenetrvel que mistura nmeros e letras num desafio intuio, cheio daquele rigorismo formulstico da bibliografiacientfica.

    No ano seguinte, em 1962, Zila Mamede administrou o Curso Intensivo de

    Biblioteconomia, indito no Rio Grande do Norte, autorizado pelo Instituto Nacional do

    Livro e subordinado ao Curso de Administrao Pblica do Rio Grande do Norte. Em

    1963, planejou, implantou e organizou o Servio Central de Bibliotecas da UFRN. A

    Biblioteca Central Zila Mamede a verso atual desse trabalho iniciado por sua primeira

    bibliotecria. A BCZM foi o fruto de um incansvel trabalho realizado por uma profissional

    e amante do livro que, a exemplo do narrador de A Biblioteca de Babel, de Jorge

    LuisBorges,84 sabia que uma biblioteca ilimitada e cclica, como o universo, ou que

    todos os livros so O livro de Areia,85 com suas inalcanveis folhas. Talvez por isso ela

    tenha doado sua vida ao exerccio de acolher livros, semear bibliotecas. Qui aquela

    menina de Nova Palmeira no dedicou sua existncia em busca do livro no qual todos os

    livros esto catalogados, ou na procura pela clarificao dos mistrios bsicos da

    humanidade (BATTLES, 2003, p.25).

    O ano de 1964 chegou com clima de separao: a morte da sua me Eldia Bezerra

    Mamede, aos 59 anos de idade, e a sua ida para a Braslia, para cursar o mestrado em

    84 Nasceu em Buenos Aires, em 1899. Aps seus estudos na Europa, retornou Argentina, onde exerceu importantesfunes, como titular da cadeira de literatura inglesa e norte-americana na Universidade de Buenos Aires, diretor daBiblioteca Nacional e presidente da Sociedade Argentina de Escritores. autor, entre os mais os 50 livros que escreveu, deHistria universal da infmia, Fices, O Aleph, Elogio da sombra e O informe de Brodie. Faleceu em 1986, em Genebra,Sua.

    85 [...] porque nem o livro nem a areia tm princpio ou fim (BORGES, [198-?], p. 318).

  • 78

    biblioteconomia. Zila Mamede permaneceu um ano no Distrito Federal, mas no

    concluiu a ps-graduao, porm, o trabalho que iniciou no mestrado tornou-se obra

    de referncia na biblioteconomia potiguar: a bibliografia do historiador Cmara

    Cascudo. Publicada pela Fundao Jos Augusto, em 1970, a obra intitulou-se Lus da

    Cmara Cascudo: 50 anos de vida intelectual, 1918/1968.

    Sobre a realizao desse trabalho, Mamede (1970, p.17) comentou:

    O Rio Grande do Norte um dos Estados brasileiros em que hmenor nmero de bibliotecas e, em especial, de fontes de informaoimpressa. Tendo a mo o fartssimo material bibliogrfico de e sobreL.C.C, sentimo-nos como que obrigados a realizar este trabalhopensando em torn-lo til ao Brasil. Mas nosso pensamento estavainteiramente voltado para os norte-rio-grandenses, pois a eles,principalmente, ela se dirige.

    Esse comentrio, escrito em outubro de 1968, publicado na introduo do Volume

    1 Parte 1 da bibliografia de Cmara Cascudo, comprovou a preocupao de Zila

    Mamede com a transmisso e circulao do conhecimento, alm de evidenciar o seu

    compromisso com a cultura norte-rio-grandense.

    Encarando uma exaustiva pesquisa para concluir a bibliografia de Cmara Cascudo,

    trabalhou sobre material existente na Biblioteca Central da Universidade de Braslia, nos

    anos de 1964 e 1965; e em Natal, o celeiro natural de L.C.C.:

    Obtivemos algum material do Rio de Janeiro, So Paulo, Porto Alegree tambm do exterior. Mas no tivemos condies de pesquisar emSalvador e em Recife, cidades onde L.C.C. estudou medicina e direito.Sem contar com os inmeros institutos histricos e geogrficos

    86 Primeira e nica mulher, at hoje, a presidir a Fundao Jos Augusto.

  • 79

    espalhados por todo esse Brasil e aos quais Cascudo est ligado. E asrevistas estrangeiras em que colaborou? E as viagens de estudo, fora doBrasil, que realizou? Tudo isso ficou fora do nosso alcance (MAMEDE,1970, p.17).

    Esta quase queixa aponta para as dificuldades de se fazer pesquisa naquela poca. Foi a

    compreenso de uma outra mulher, Ilma Melo Diniz,86 ento presidenta da Fundao

    Jos Augusto, que permitiu Zila Mamede concluir o seu valioso trabalho:

    Sua compreenso pelo nosso trabalho, adquirindo-o para a Fundaoque preside, permitiu-nos conclu-lo. Sem essa providncia, noteramos tido condies de preparar os originais e tornar estabibliografia uma homenagem a Lus da Cmara Cascudo, no seu jubileude escritor (MAMEDE, 1970, p.25).

    Em 1966, sintonizada com os filsofos utilitaristas, traduziu ndice em Cadeia e

    Catlogo Classificado, publicado no Boletim Universitrio da UFRN, e tambm como

    separata em maio de 1986. A obra de autoria de John Stuart Mill, terico que concordava

    que um maior acesso informao seria benfico para todos, mas que tambm defendia

    que as bibliotecas ofereciam um bem maior que a razo:

    Mill dizia que as massas no sabiam fazer clculos e careciam de bomsenso prtico, mas que uma boa educao iria ensin-las a fazer clculoscorretos, transformando seus membros em consumidores moderados,sensatos, e em trabalhadores bem treinados e cheios de aspirao.

    [...] inspirado pelo Romantismo, achava que as bibliotecas ofereciamum bem maior que a razo: elas tambm ofereciam felicidade. Haviamais no interior dos livros do que meras oportunidades de treinamentoe de doutrinao da cultura do capitalismo. Os livros podiam significarevaso, ainda que momentnea, repouso e reflexo, que, por sua vez,acabavam encorajando a preocupao com o prximo, a base doaltrusmo (BATTLES, 2003, p.138).

  • 80

    Dedicando-se cada vez mais ao estudo da biblioteconomia, ainda em 1966, escreveu

    Bibliografia Anotada sobre Xico Santeiro, em parceria com Verssimo de Melo, publicada

    pelo Instituto de Antropologia de Natal e republicada, muito posteriormente, pela UFRN,

    em 1987.

    Tornou-se, em 1967, membro do Conselho Regional de Biblioteconomia de Recife e

    foi nomeada bibliotecria do Setor de Informao Tcnico-cientfica da Superintendncia

    de Desenvolvimeno do Nordeste, cargo no qual permaneceu at 1968. Ano em que

    publicou o texto Lus da Cmara Cascudo: um pesquisador pesquisado, na revista

    Provncia 2, edio em homenagem aos 70 anos de vida do historiador e aos seus 50

    anos de vida literria.

    Nesse texto, Mamede (1998, p.75) narrou a gnese da bibliografia de Cmara

    Cascudo:

    A idia de fazer-lhe a bibliografia crtica, anotada, comentada, no nova. Vem de 1961, quando ele comemorou seus 62 anos de idade. Foimesmo o passo inicial, o levantamento de uma parte das ACTASDIURNAS, srie em que ele escreveu diariamente por longos e longosanos, em jornais de Natal, sobretudo em A Repblica. Esselevantamento, em originais datilografados, integrou a EXPOSIOBIBLIOGRFICO-DOCUMENTRIA que a Diretoria deDocumentao e Cultura da Prefeitura Municipal do Natal promoveu,ento, em sua homenagem. Quando vi o material apresentado naExposio, tive em minhas mos tantas e tantas coisa curiosas, srias,ignoradas da maioria das gentes do Rio Grande do Norte e do Brasil,que no parei mais de pensar no assunto: no levantamento geral de suaobra.

    Ainda naquele texto, Mamede (1998, p.76-77) descreveu a resistncia de Cascudo ao

    seu trabalho:

  • 81

    Um dia, quase dois anos depois de iniciado o trabalho, aps tantas etantas insistncias de minha parte, Cascudo concedeu-me a honra de ir minha casa em Natal, ver com os olhos o que ele no acreditava comos ouvidos. Encontrou, para seu prprio espanto, o meu quarto dedormir transformado numa biblioteca especializada em CmaraCascudo. E um fichrio contendo cerca de 25 MIL FICHAS sobre suaobra. A, com os olhos cheios de lgrimas, me disse com a maior emooe seriedade: Vou dar um presente a voc: uma placa com a inscrioVIRGEM E MRTIR.

    Claro que, a partir desse instante, sou das poucas pessoas que entramna Biblioteca de Cascudo, a qualquer hora do dia ou da noite, esteja eleem casa ou no. Mexo e remexo em tudo, de cima para baixo.

    Sobre a biblioteca pessoal de Lus da Cmara Cascudo, Mamede (1998, p.77) revelou

    que aquela foi a primeira biblioteca de sua vida:

    A sua biblioteca algo de maravilhoso, de mundo encantado. Desdemeus 18 anos eu espiava por entre-portas as coisas que ali existem.Mas nunca, jamais, meu Deus, ousava entrar. Me lembro exatamenteda primeira vez que ousei esta aventura. No me lembro muito bemdo ano, mas sei que era governador do Rio Grande do Norte, o Dr.Sylvio Pedroza. Inventaram de trazer os restos mortais da pobre daNsia Floresta, de Rouen, Frana, para sua cidade de nascimento Papari, no Rio Grande do Norte. A inventaram coisa pior: de meescolherem para, em nome da mulher norte-rio-grandense, falar nasolenidade da chegada dos restos mortais. Que era que eu ia fazer?Nsia Floresta me era uma ilustre desconhecida. Me lembrei do nicobeco-sem-sada: Cascudo. Morrendo de medo e timidez, marquei umahora para ir l. Fui. Ele conta que eu cheguei l com cada olho dotamanho de olho de sapo e pedi, pelo amor de Deus, que ele me dissessequem era essa tal de Nsia Floresta. Deu-me os livros dela, deu-mecoisas sobre ela e, afinal de contas, o discurso saiu, mas sabe Deus comque horror, de minha parte. Era a primeira vez que eu utilizava umabiblioteca. A Biblioteca tem coisa bonita demais. s vezes ele compraum livro que tem certeza de possuir, mas no sabe onde se encontra.H exatamente um ms passado, Cascudo precisou consultar uma obravaliosa. Quando tirou o volume da estante e comeou a folhe-lo, ovolume virou p, em suas mos.

  • 82

    Lus da Cmara Cascudo e sua biblioteca

    A Biblioteca Pblica Cmara Cascudo: planejada, organizada, instalada e dirigida por Zila Mamede.Seu acervo est estimado em 100 mil ttulos, entre livros didticos, obras literrias, de referncia eperidicos

  • 83

    A convite do Governo do Rio Grande do Norte, no ano de 1969, planejou,

    organizou, instalou e administou at 1972 a Biblioteca Pblica Estadual Cmara

    Cascudo. Essa biblioteca amenizou a frustrao do sonho de uma biblioteca capaz de

    oferecer, alm dos servios convencionais, as mais variadas oportunidades culturais e

    educativas (PEREGRINO, 1989, p.139).

    De acordo com a acepo abordada por Chartier (1994, p.67) de bibliotecas sem

    muros, ou seja, que uma biblioteca tambm pode ser uma compilao de tudo que se

    pode dizer sobre um mesmo tema, Zila Mamede publicou, em 1970, a bibliografia anotada

    Lus da Cmara Cascudo, 50 anos de vida intelectual, 1918/1968, constituda de trs

    volumes, nos quais est reunida a obra do historiador nesses 50 anos.

    Em 1971, supervisionou o estgio das alunas do terceiro ano do Curso de

    Biblioteconomia do Instituto de Letras e Artes da Fundao Universitria do Maranho.

    De abril de 1972 a abril de 1974, assumiu a Assessoria Tcnica do Instituto Nacional do

    Livro (INL), no Distrito Federal, dirigida pela bibliotecria Maria Alice Barroso, de quem

    tornou-se amiga. Maria Alice87 recordou Zila Mamede com muito desvelo:

    Tive o privilgio de trabalhar com Zila no Instituto Nacional do Livro,onde era assessora literria. Foi ela quem, examinado os originaisguardados diria quase que perdidos, encontrou um livro de LiteraturaInfantil, precioso, de Francisco de Assis Barbosa, sobre Santos Dumont,para meninos. Esse livro foi resgatado do esquecimento por ZilaMamede (BARROSO, 1986, p.2).

    Em 1973, supervisionou aulas na Escola de Biblioteconomia da Universidade Federal

    87 Em 13 de janeiro de 1986, um ms aps a morte de Zila Mamede, Maria Alice Barroso, poca membro do ConselhoFederal de Cultura, pronunciou um discurso em homenagem a Zila Mamede. O trecho aqui citado, publicado no jornalTribuna do Norte, faz parte desse discurso.

  • 84

    de Minas Gerais e participou do 1 Encontro de Responsveis pela Execuo do

    Programa de Bibliotecas no Brasil, realizado em Braslia.

    Em 10 de outubro de 1974, assumiu a direo da Biblioteca Central da Universidade

    Federal do Rio Grande do Norte. Salientei no incio deste captulo a luta desta bibliotecria

    para construir o prdio que hoje abriga a biblioteca que leva o seu nome. Um esforo

    imensurvel proteger o acervo bibliogrfico da UFRN. Esse esforo de Zila Mamede

    jamais poder ser apagado da histria desta universidade. Caso isto ocorra algum dia,

    certamente, uma luz, um fogo, um brilho ser extinto da vida acadmica potiguar, sob o

    risco de algo ignaro, embaciado, medocre reconhecer-se em seu lugar.

    O quarto livro de poemas, intitulado Exerccio da Palavra , foi editado em 1975 pela

    Fundao Jos Augusto. No ano seguinte, iniciou a criao de outra biblioteca sem

    muros: a bibliografia do poeta Joo Cabral de Melo Neto.

    O quinto livro de poemas foi publicado em 1978. Navegos, editado pela editora Vega,

    de Belo Horizonte, reuniu a poesia de Zila Mamede de 1953 a 1978, sendo composto

    pelos livros Rosa de Pedra, Salinas, O Arado, Exerccio da Palavra e pelo indito Corpo a

    Corpo. Em entrevista a Mendes (1978, p.17), Mamede respondeu por que utilizou o

    termo navegos:

    Navegos uma palavra clssica da lngua, que significa arte de navegar.Mas tambm , na linguagem do serto, uma palavra extremamentepopular. Meu av materno era um tipo fabuloso, um precursor doshippies, que ganhava 500 contos e dizia: Este fim-de-semana vamospro navego! Queria dizer com isso que ia jogar cartas, fazer farra oumarcar quadrilha, dando ao termo um sentido de aventura. Navegos ento minha aventura potica, que j dura 25 anos, mas para mim tambm arte de viver.

  • 85

    Dois dias aps a publicao dessa entrevista, lanou Navegos em Natal, no Amrica

    Futebol Clube, localizado na Avenida Rodrigues Alves, no bairro do Tirol. O jornal Dirio

    de Natal divulgou, sobre o lanamento, anotcia intitulada Zila tem homenagens ao

    lanar Navegos. Segundo o jornal, na ocasio, ela agradeceu a festa dos seus 25 anos de

    poesia e dos seus 50 anos de idade, declarando ter se preparado para viver:

    Com a presena de cerca de 400 pessoas do vice-governadorGenibaldo Barros como representante do governador do Estado, deprofessores, estudantes, intelectuais e membros do Conselho Estadualde Cultura, dentre os quais o nosso companheiro Luiz Maria Alves,diretor do Dirio de Natal , a poetisa Zila Mamede lanou na noitede tera-feira a coletnea de poesias Navegos, que inclui seus 25 anosde produo potica.

    Os discursos de saudao a Zila foram pronunciados pelo vice-governador Genibaldo Barros, pelo reitor da UFRN, Domingos Gomesde Lima, e pela filha da poetisa Myriam Coeli, Cristiana, j que suame no pde ler a pea laudatria que preparara, em virtude deacometimento de forte emoo.

    As palavras de Zila foram de agradecimento: Quero agradecer festados meus 50 anos de idade, dos meus 25 anos de poesia que prepareiinteriormente como quem se prepara para morrer: s que eu mepreparei para viver: viver este momento. Eu o desejei. Eu o programei.E vocs, meus queridos amigos, e voc, minha Cidade do Natal, vocsrealizaram, deram corpo, som, luz e forma a este instante de amizade,de poesia e confraternizao (ZILA..., 1978, p.11)

    Em 1984, aposentada pela UFRN e novamente coordenadora da Biblioteca Pblica

    Cmara Cascudo, cinco anos aps o lanamento de Navegos, publicou o seu ltimo livro

    de poemas, A herana, e dedicou-se quela que seria a sua obra pstuma: Civi l Geometria,

    Bibliografia Crtica, Analtica e Anotada de de Joo Cabral de Melo Neto, 1942-1982.

    Segundo Mindlin (1987, p.XI),88 na apresentao desse livro, Civil Geometria uma

    88 Jos Mindlin, biblifilo, dono da maior biblioteca particular do Brasil.

  • 86

    obra que por si s consagraria Zila Mamede como pesquisadora:

    A pertincia, a meticulosidade, o zelo e o amor poesia de ZilaMamede demonstraram, no entanto, que o trabalho era e foi possvel.Assim, graas ao seu esforo, tm agora os estudiosos da obra de JooCabral de Melo Neto um precioso manancial de informaesbibliogrficas que, sem ele, estaria disperso em um sem nmero depublicaes, bibliotecas, arquivos e colees particulares, e, portanto,praticamente inacessvel. Trata-se de uma obra que por si sconsagraria Zila Mamede como pesquisadora [...] (MAMEDE, 1987,p. XI).

    Aranha (1998), ao recordar o discuso pronunciado por Zila Mamede em 22 de

    outubro de 1979, na abertura da Semana Nacional do Livro, revelou que a poeta-

    bibliotecria deixou ainda mais clara sua verdadeira paixo. Citando outro poeta, o

    francs Mallarm, Zila Mamede proferiu: Tudo que existe no mundo, comea e

    acaba em livro.

    A exemplo de Campos (1984, p.13),89 Mamede sabia que o livro viagem mensagem

    de aragem plumapaisagem, ou ainda que o livro poro, puro, disporo.

    Logo, tornou-se amiga e amante deste objeto e fez dele sua razo de viver. A

    biblioteconomia e a literatura constituram-se no sustentculo da sua vida. Sem Zila

    Mamede, a histria da biblioteconomia e da poesia em Natal seria outra. Talvez sem a

    89 Haroldo de Campos, poeta, tradutor de poesia de vrias lnguas e literaturas, ensasta. Com Augusto de Campos e DcioPignatari, lanou o movimento nacional e internacional de Poesia Concreta (1956). Publicou mais de 30 livros (de suaautoria pessoal ou em colaborao). Dirigiu a coleo Signos, da Editora Perspectiva, (30 volumes publicados). Faleceu nacidade de So Paulo, em 2003.

  • 87

    paixo que incita o rigor e o rigor que corrige a paixo.

    Ouso dizer que Zila Mamede experimentava, quando estava diante das estantes de

    uma biblioteca, o mesmo sentimento revelado por Battles (2003, p.12-14), bibliotecrio

    e tambm amigo e amante do livro:

    Quando estou diante das estantes de uma biblioteca [...] tenho aimpresso de que os milhes de volumes que ali se encontram podem,de fato, conter a totalidade da experincia humana e que eles noconstituem um modelo para o universo, mas sim do universo.Degrausde mrmore desgastados por geraes de transeuntes levam at asentranhas do edifcio. Descendo por eles, muitas vezes sou tomadopela sensao de que tudo o que acontece l fora deve ter sua contraparteem algum lugar das estantes. fcil, nessas horas, mergulhar em sonhoscabalsticos, imaginando reorganizaes dos livros que revelariam osmistrios do universo, um Logos sagrado equivalente ao nome secretode Deus.

    No seu famoso quadro O bibliotecrio (1566), o italiano Giuseppe Arcimboldo

    criou um ser feito de livros, ou seja, os livros formam um ser, sua cabea, tronco,

    membros so constitudos por livros:

    As bochechas e os lbios so livros em miniaturas que, no tempo deArcimboldo, costumavam conter preces e louvores. Seu brao direito,ao contrrio, um pesado volume in-flio. Pginas esvoaantes cobremsua cabea. No so impressas, mas manuscritas, e seu contedo spode ser lido de cima (BATTLES, 2003, p.12).

    Giuseppe Arcimboldo, O bibliotecrio (1566).

  • 88

    Tal qual o quadro de Arcimboldo foi Zila Mamede. Essa bibliotecria-poeta que

    imaginou o universo formado de interminveis representaes de um s elemento o

    livro.

  • 89

    [...] que dizer a uma jovem poeta seno a prpria poesia? [...]

    Zila Mamede

    6 O meu encontro com Zila Mamede

    Conheci Zila Mamede no incio da dcada de 1980, quando participei, como aluna, do

    90 Escritora nascida em Nsia Floresta (RN), em 1950. Autora dos livros Os olhos do lixo, Cada cabea uma sentena,Feminino feminino e Uma arma para Maria, Eu no tenho palavras, O dia pblico e outros dias e Histria particular de umpoeta.

    91 Jornalista e publicitrio nascido no ano de 1962, em Alexandria (RN). Autor dos livros Overdose, Usura colonial, Fl e Oalvissareiro.

    92 Professor do Curso de Letras da UFRN. Autor dos livros Modernismo Anos 20 no Rio Grande do Norte, O lirismo nosquintais pobres e Asas de Sfia .

  • 90

    ento Laboratrio de Criatividade da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

    Coordenado pela escritora Socorro Trindad,90 esse curso tinha como professores poetas

    como Lus Carlos Guimares e Franco Jasiello.

    O objetivo do curso era incentivar e divulgar jovens poetas. L estavam, entre outros,

    Adriano de Sousa91 e Humberto Hermenegildo.92 Zila Mamede foi convidada para,

    numa manh de sbado, no campus da UFRN, falar sobre poesia. Lembro-me de sua

    vitalidade e de como ficamos excitados com sua presena. No final, ela saiu sozinha, no

    seu fusca de cor cinza, deixando conosco a certeza de que tnhamos estado diante de um

    ser com muita fora e muito talento para a vida.

    Talento to bem descrito por Costa (1985, p. 3):

    Em Zila, havia sobretudo, mulher prodigiosa e incansvel, a grandepoetisa que, embora nascida na Paraba, viera aos cinco anos, meninaainda, para a cidade de Currais Novos, em nosso Estado, e aqui sefixou com a famlia. Aqui se fez, assim, a sua formao educacional,moral e social, aqui integrou-se nas condies e nos interesses de nossavida coletiva, aqui participou, fez amigos, viveu, em suma, com tudoquanto uma vida humana comporta de alegrias e dores, sacrifcio ecompensaes, desnimos e vitrias. Viveu, lutou e construiu um nomeestelar, na poesia norte-rio-grandense, dos mais altos, dos mais puros,dos mais belos, com repercusses nos grandes centros intelectuais dopas.

    Na poca, estudante de jornalismo e estagiria da TV Universitria, iria ver Zila Mamede

    93 Atual Biblioteca Central Zila Mamede (BCZM).

    94 Poeta, escritor, terico, nascido no Estado de So Paulo. Criou, na dcada de 1950, com os irmos Haroldo e Augusto deCampos, a chamada poesia concreta. autor de vrios livros.

    95 Poeta e jornalista nascida no ano de 1926, em Manaus (AM) e falecida em 1982, em Natal (RN). Autora, entre outros, doslivros Imagem virtual , Vivncia sobre vivncia e Cantigas de amigo. Myriam Coeli foi a primeira mulher a dar planto naredao de jornal, em Natal.

  • 91

    pessoalmente ainda em duas ocasies. A primeira, na entrega do ttulo de doutor honoris

    causa ao poeta Joo Cabral de Melo Neto. Depois, num seminrio de semitica coordenado

    pelo Departamento de Letras da UFRN, no auditrio da Biblioteca Central,93 durante

    palestra do professor e poeta Dcio Pignatari.94 O ano era 1981 e l estava ela com sua

    inseparvel amiga, a tambm poeta Myriam Coeli.95

    Somente em 7 dezembro de 1984, durante o lanamento do seu ltimo livro A herana,

    fomos apresentadas. O poeta Nei Leandro de Castro, que estava retornando a Natal,

    96 Durante a dcada de 1980, o Festival de Arte de Natal era realizado, anualmente, na Fortaleza dos Reis Magos, organizadopor um grupo de artistas independentes. Na dcada de 1990, o Festival foi descaracterizado quando as instituies pblicasmonopolizaram a sua produo.

    97 Exposio montada pelo poeta Eduardo Alexandre, na Praia dos Artistas. Os trabalhos de poetas e artistas plsticos eramexibidos num grande muro, sempre nos finais de semana. Era um lugar para onde convergiam todos os que participavamdo movimento da poesia mimegrafo em Natal.

    Manuscrito de Zila Mamede datado de 7 de dezembro de 1984

  • 92

    depois de morar anos no Rio de Janeiro, apresentou-nos. Eu estava s vsperas de

    lanar o meu primeiro livro.

    Diferente do que se dizia sobre Zila Mamede, uma mulher inatingvel, entre outras

    coisas, encontrei uma pessoa afetuosa, atenta aos novos escritores, aos jovens poetas daquela

    Natal da dcada de 1980. Uma Natal bem menor do que esta de 2004, mas com um

    movimento literrio incessante. Foi naquela dcada, alis, que se iniciaram as

    comemoraes do 14 de maro, o Dia Nacional da Poesia. Zila Mamede declarou conhecer

    a minha poesia e a de alguns outros poetas da chamada Poesia Marginal, ou seja, os

    poetas que nas dcadas de 1970 e 1980, seguindo um movimento que acontecia em

    todo o Pas, publicavam os seus textos em mimegrafos e os distribuam nas mesas dos

    bares da cidade, no Festival de Arte de Natal96 ou na Galeria do Povo.97

    No meu exemplar de A herana (1984), Zila Mamede escreveu: Marize: que dizer

    a uma jovem poeta seno a prpria poesia? Receba os meus melhores votos para uma

    grande carreira potica. Um beijo de Zila Mamede.

    Encontramo-nos uma semana depois. Dessa vez no lanamento de Marrons Crepons

    Marfins, livro com o qual recebi o prmio de poesia98 da Fundao Jos Augusto. L

    estava Zila Mamede, na sexta-feira de 14 de dezembro de 1984, nos jardins do Solar Bela

    Vista, no Centro de Natal, foi uma das primeiras pessoas a chegar, abraou-me eu ainda

    quase uma menina de camiseta e minissaia e me desejou, novamente, boa sorte na

    minha carreira potica.

    98 Prmio Galux de Poesia da Fundao Jos Augusto. Patrocinado pela empresa Galvo Mesquita, esse prmio foi entreguepelo empresrio Paulo de Paula, atual chanceler da Universidade Potiguar (UnP).

  • 93

    Quase um ano depois do lanamento de Marrons Crepons Marfins, em 13 de dezembro

    de 1985, tambm numa sexta-feira, a sbita morte de Zila Mamede surpreendeu Natal. A

    poesia da cidade sentiu-se rf. Ns, jovens poetas, sentimo-nos desamparados. A aparente

    distncia entre ns e Zila Mamede, no existia. Todos ns, ou quase todos, conhecamos e

    admirvamos a sua poesia, o seu compromisso com a linguagem. Ainda no sabamos

    quanto de premonio havia em sua potica, como bem revelam estes fragmentos do

    poema Cano do Sonho Ocenico, publicado pela primeira vez em Rosa de Pedra :

    [...]Irei brincar com fantasmas,os governantes do mar.Falarei lngua das ondas,cantarei canes marujas,escreverei meus poemasnos lbios dos caramujos:leva-los-o chuvas, ventosaos peixes e caravelasque brincaro de cirandasnos recncavos do mar.

    Dormi o sono dos deusesno ventre dos sete mares.Despertei boiando acciasdeixadas por navegantesque tocaram meus caminhosem naves feitas de sonhos.

    Passai, marujos, passai,que no voltarei do mar:ocenica persisto;sou produto desse marque compus nas minhas mosda verdura do meu sangue,das guas dos olhos meus.

    [...]

    Vinde, amados, oceanos,beijai meus olhos, beijai

  • 94

    soltai-me de vos navios,deixai-me pura, vagar:eu s quero a liberdadepara nela me afogar.(MAMEDE, 1978, p.191-193)

  • 95

    Empossei-me dos caminhosconvergentes para o mar.

    Zila Mamede

    7 No caminho do mar repercusso de uma morte

    99 O deputado Mrcio Marinho, lder do Partido da Frente Liberal na Assemblia Legislativa do Rio Grande do Norte, estavaem coma profundo na Clnica Bambina, no Rio de Janeiro. O parlamentar tambm faleceu em dezembro de 1985.

    100 O jornal equivocou-se: Zila residia em Natal desde 1942.

    101 Outro equvoco: o nome do edifcio Caminho do Mar.

  • 96

    O jornal Tribuna do Norte do dia 14 dezembro de 1985 estampou na sua capa a seguinte

    manchete: Sexta-feira 13, fatal para as letras e a poltica do Estado Mrcio Marinho99

    entre a vida e a morte; Zila Mamede morre afogada:

    A poetisa Zila Mamede foi encontrada morta no incio da tarde deontem na praia da Redinha. Segundo laudo tcnico emitido pelo ITEP,ela morreu de asfixia mecnica por afogamento. Nascida em NovaPalmeira, Estado da Paraba, Zila residia em Natal desde 1935,100 tendoassumido e ocupado posies de destaque no mundo literrio da cidade.Ontem de manh, como fazia todos os dias, saiu cedo de sua residncia,no edifcio Morada Cantinho do Mar,101 na Rua Serid, para umacaminhada na Praia do Forte onde, em seguida, costumava fazer algumtempo de natao. Sua demora, porm, preocupou familiares e amigosque decidiram procur-la. Quando o seu carro, aberto e abandonado,foi encontrado na Praia do Forte, as preocupaes aumentaram. Maistarde seu corpo foi encontrado na Praia da Redinha e conduzido para oITEP, onde foi autopsiado pelo mdico-legista Francisco Ferreira, poucodepois das 13 horas. O reconhecimento por familiares s foi oficializadono incio da noite e, at o encerramento desta edio, no estavamdefinidos os locais e horrios do velrio e do sepultamento [...] (SEXTA-FEIRA...,1985, p.1)

    No mesmo exemplar da Tribuna do Norte, na sua coluna Jornal de WM, Madruga

    (1985, p.4) escreveu emocionado:

    Alm de poeta, de grande poeta, Zila era uma animadora cultural,uma pesquisadora infatigvel, um trabalhador intelectual no sentidomais exato da palavra. Poeta e jornalista. Como jornalista foi dosprimeiros instantes de Tribuna do Norte, assinando uma coluna nosanos cincoenta. Sua biografia rica, Zila essa fantstica figura desertaneja a plantar bibliotecas no cho rido do Nordeste. Guerreira.Guerrilheira.

    A irm caula de Zila Mamede negou a verso de o carro de Zila ter sido encontrado

    aberto. Sergundo Ivonete Mamede, o carro estava fechado, do mesmo jeito que Zila o

    deixava todos os dias quando ia nadar na Praia do Forte:

  • 97

    Nas proximidades da ltima barraca que d para a enseada, avistaram oseu fusca, devidamente fechado, e pelo vidro observaram a blusa, toalhae o lencinho de croch, utilizado para proteger a cabea durante ascaminhadas. Ao retornar para casa, Ivonete telefonou para amigos eparentes comunicando o fato e providenciou o deslocamento do carropara a garagem: foi a que tive a curiosidade de abrir o porta-luvas eencontrei os culos dela e documentos. Como ela no andava sem osculos, s podia estar no mar e neste momento temi pela sua vida(IVONETE..., 1985, p.5).

    Zila Mamede era uma excelente nadadora, por causa disso surgiram rumores de

    suicdio. No entanto, a famlia refutou essa possibilidade. Primeiro, porque Zila, estava

    concluindo uma obra de mxima importncia para a biblioteconomia e poesia brasileiras:

    a bibliografia de Joo Cabral de Melo Neto. Depois, porque no havia nenhum sintoma

    de ordem existencial, segundo palavras de Ivonete Mamede (1985, p.5).

    As hipteses de algum assalto ou de algum constrangimento fsico tambm foram

    afastadas:

    [...] o corpo no apresentava nenhuma leso, o carro estava devidamentefechado (a chave Zila levou consigo, amarrada na ala do mai) e osobjetos (culos e documentos) estavam todos dentro do veculo [...](IVONETE,1985, p.5).

    Sobre o fato de o corpo de Zila Mamede ter aparecido horas depois na praia da Redinha,

    quando na opinio de algumas pessoas deveria ter demorado muito mais, a explicao foi

    dada por Sebastio Jos dos Santos, conhecedor dos movimentos das mars e dono de um

    bar localizado no quebra-mar, onde o corpo que trajava mai azul com manchas brancas

    foi encontrado:

    [...] S vi foi o ajuntamento de gente e soldados da Polcia em volta docorpo. Curioso, foi d uma olhada de perto e concluiu que a vtimano tinha sofrido nenhuma leso e trajava mai azul com manchas

  • 98

    brancas.

    A explicao que deu para o corpo ter aportado na Redinha horasdepois do afogamento, foi de que a mar estava enchendo e ventavamuito naquele dia. Caso a mar estivesse vazante, no tinha dvidade que o corpo iria parecer l para as bandas de Santa Rita(PESCADORES..., 1985, p.5).

    O velrio de Zila Mamede foi realizado na Capela do Hospital So Lucas, em Natal,

    no bairro do Tirol, na presena de familiares, amigos, poetas, escritores, intelectuais,

    jornalistas, polticos, inmeros admiradores da sua poesia, do seu trabalho. O sepultamento

    ocorreu s 10h30min do dia 14 de dezembro de 1985, no Cemitrio do Alecrim, sob um

    cu nublado como poeticamente, citando Rilke, o jornal O Poti narrou:

    O cu estava nublado e cinzento, hora em que todas as cores

    medrosamente empalidecem. /Longe um nico ponto vermelho/

    como uma ferida ardente. / Vagos reflexos surgem e brilham. Paira no

    ar/um qu de tnue perfume de rosa/e pranto contido... na expresso

    do poeta alemo Rainer Maria Rilke (ZILA..., 1985,p.1).

    Na foto publicada pelo O Poti, em 15 de dezembro, ilustrando a reportagem intitulada

    Zila, no choro de cada amigo a dolorosa surpresa da morte, consegue-se ver os rostos

    entristecidos de Sanderson Negreiros, Dorian Gray Caldas e Digenes da Cunha Lima,

    diante do caixo da estrela guia dessa gerao de poetas do Rio Grande do Norte:

    Foi uma surpresa dolorosa, um corte profundo na carne, disse ontememocionado o poeta e velho amigo de gerao Lus Carlos Guimares,que compareceu ao velrio e acompanhou o cortejo fnebre at oCemitrio do Alecrim. Era a estrela guia da minha gerao, disseLus Carlos com a voz embargada de emoo (ZILA...,1985, p.1)

  • 99

    Nos dias que se seguiram a sua morte e nos trs primeiros anos seguintes, jornalistas

    e escritores, entristecidos, despediram-se de Zila Mamede. O professor e escritor Amrico

    de Oliveira Costa, na reunio do Conselho Estadual de Cultura do Rio Grande do Norte,

    em 17 de dezembro de 1985, relembrou, sob forte emoo, Zila Mamede. O discurso do

    escritor foi publicado na Tribuna do Norte, intitulado Zila: nunca mais:

    A reunio de hoje, deste Conselho Estadual de Cultura, marca, paratodos ns, o incio da ausncia definitiva de uma grande e queridacompanheira. No precisaria, certamente, relembrar-lhe o nome,porque h cinco dias, ele percorre os vos de nossa memria: ZilaMamede. Mas bem merece ela todas as nossas homenagens, esta emoo,este sentimento, esta mgoa que sobe do ntimo de todos ns,inapelavelmente.

    Integrante deste conselho, e sob este aspecto que dela me ocupo, emprimeiro lugar, tinha ela o pleno senso de responsabilidade e daimportncia do seu encargo. Vimo-la, aqui, quantas vezes, sugerir,debater e defender problemas, iniciativas e providncias de ordemcultural (histricos, artsticos, patrimoniais, literrios), com a viso, odiscernimento, a experincia, a seriedade de quem se sentia votada,por mltiplas faces, ao servio do benefcio coletivo. Criadora,organizadora e diretora de bibliotecas pblicas, como a da Universidadee a da Fundao Jos Augusto, ambas se tornaram modelares no gnero,e constituram sempre objetivos fundamentais, uma de cada vez, deseus cuidados e de suas preocupaes.

    Pesquisadora de carter histrico e intelectual, biobibliogrfico, seutrabalho sobre os cinqenta anos de atividade cultural de CmaraCascudo, em trs volumes, constitui um documentrio de relevoexcepcional. Obra do mesmo molde a que j se achava concluindosobre o poeta Joo Cabral de Melo Neto. Ambas iniciativas erealizaes creio que rarssimas em nosso pas, pela meticulosidadedas investigaes procedidas.

    Extraordinria em Zila, nos dois trabalhos, essa capacidade de abelhalaboriosa, movimentando-se na colheita e na ordenao de milhares defichas [...] (COSTA, 1985, p.3).

    Negreiros (1985, p.8), amigo de Zila Mamede durante 30 anos, para quem declarou

  • 100

    voc me ensinava Poesia, despediu-se dela publicamente no texto Quando Zila,

    num fim de tarde, encantou-se nas guas fundas do mar:

    [...]

    H pouco, vi seu corpo entregue ao silncio absoluto, horizontalidade,retirado das guas profundas, do mar morto que voc adivinhou edescreveu em seu primeiro poema. Os olhos estavam cobertos essesolhos que perseguiam a Estrela da Manh de seu amigo paternal ManuelBandeira, como poderiam descobrir poderosos olhos videntes oscaminhos do serto, o hectare onde dorme o vento sertanejo, o acentovertiginoso de sua infncia passada em Nova Palmeira, Paraba e CurraisNovos. Mas, sobretudo olhos que amaram e revisitaram, durante todosos momentos, o mar que a enfeitiava, o mar estrangeiro que lhe eraum chamamento diuturno, o mar e suas vertigens de horizonte, suaspossibilidades de vagas e rumores, seus domnios de assombro emelancolia, de fascinao e alumbramento, de vidas e auroras [...]

    Continuemos ouvindo Negreiros (1985, p.8) na sua despedida a Zila Mamede,

    relembrando as conversas ocorridas entre eles no colgio Atheneu e na casa da poeta, no

    bairro do Tirol:

    [...]

    Em 1956, voc dirigia a biblioteca do Atheneu Norte-rio-grandense.Eu tinha uns 16 anos, e lia e escrevia furiosamente. Todos os dias ia v-la, conversar com voc minhas inquietudes bastardas, meus desejosincipientes, meus sonhos especulativos. Era uma conversa longa voclogo se afirmou para mim a irm mais velha, a grande irm, que medescobria os livros para ler, que madrugava para meu esprito ostemas da cultura, a vocao para a poesia e o tom para essa msica

    102 Dorian Jorge Freire est se referindo ao livro Lus da Cmara Cascudo: 50 anos de vida intelectual 1918/1968.

    103 O jornalista refere-se ao livro Civil geometria, editado em 1987 pela Nobel/Edusp/Instituto Nacional do Livro/Vitae eGoverno do Estado do Rio Grande do Norte.

  • 101

    interior da amizade, que nunca haver de desaparecer na retina dosmeus olhos fatigados, como disse o Poeta. Da biblioteca, amos parasua casa, que voc to bem recorda em um poema, na vibrao dastardes do Tirol, que forma para mim uma espcie de tringulo-das-bermudas ao contrrio: quem olhar os cus, nas manhs e tardes doTirol no morre nunca.[...]

    Freire (1985, p.2), na sua crnica Dia de Domingo, tambm consternado com a

    sbita morte de Zila Mamede, escreveu um texto ressaltando o amor de Zila pelos

    livros. Dorian afirmou jamais ter conhecido algum que trabalhasse com eles com

    mais competncia. No economizando adjetivos, o cronista relembou a amiga e a

    profissional:

    Com a morte prematura, inesperada e violenta de Zila Mamede,perdemos todos. Ou cada um de ns perdeu alguma coisa de muitapreciosidade, de muita raridade e muita valia.

    O Rio Grande do Norte perde de uma s vez, seu maior poeta, suagrande bibliotecria, sua grande diretora de biblioteca pblica, suagrande bibligrafa, sua grande ensasta. Todos ns perdemos uma grandeamiga, spera amiga, mas leal, sempre pronta, sempre solcita, sempresolidria, sempre mobilizada, sempre sincera.

    No conheci na vida quem amasse mais os livros e trabalhasse com elescom mais competncia. No conheci na vida quem melhor dirigisseuma biblioteca pblica, aliando ao desvelo do carinho a eficincia daprofissional. No conheci ningum mais meticuloso no levantamentobibliogrfico de grandes autores, transformando o simples fichrio delivros em obra de consulta obrigatria como o fez com Lus da CmaraCascudo102 e estava a fazer, estava concluindo, com respeito ao grandepoeta Joo Cabral de Melo Neto.103

    Dois anos aps a sua morte, Zila Mamede ainda continuou muito presente no cotidiano

    potiguar. Em dezembro de 1987, prestei-lhe uma homenagem na coluna Fora de Pauta

    que assinei durante dois anos na Tribuna do Norte:

  • 102

    Por que o mar?, perguntam muitos. Bem sabemos que no poderiaser em outro lugar. Os poetas precisam de magia, inclusive para partir.Contigo no podia ser diferente. Sabes que o verdadeiro cu dotamanho de uma mo.

    Quando te vi pela ltima vez estavas serena. Tive inveja, raiva, dor.Pensei: agora tu no mais sofres, no mais escreves, no mais necessitasda palavra. Quanto a mim, continuarei escrevendo. Mulher eternamentecurvada diante das palavras. [...]

    Amiga, tenho muito medo. Temo os csios, os ascticos, os afetosduradouros, os desejos que nos escravizam, a prudncia e a perdio,as multides que dilaceram nosso corpo e nossa alma, o excesso deindependncia que nos torna infectos e egostas, as noites quepresenciam ressurreies e mortes. Temo, sobretudo, a honra de sergrotesca como um palhao. ... ai que to cedo/era to noite... ReleioA herana. Sangue e afeto. Tudo se mistura. Tudo sangue e tudo afeto. As divises no mais existem.

    No deves estar to distante nem deves permanecer to prxima. Quemsabe estejas ao lado de Bandeira, Mauro Mota, Drummond... [...] quase um blsamo a certeza de que algum dia descansaremos parasempre. No precisaremos mais mentir. No haver mais desesperosnem ternuras forjadas. O silncio e a solido sero generosos. Noexistiro naufrgios, mutilaes, runas humanas, ilhas enfermas. J quase madrugada e o vento entra sem permisso neste quarto de ondete escrevo.

    Agora rezo por ti (CASTRO, 1987, p.2).

    um texto muito emocionado de algum que, ainda muito jovem, j sentia a perda

    irrecupervel de uma interlocutora com quem poderia falar, verdadeiramente, sobre a

    vida, sobre o ato de escrever, sobre a paixo pelas palavras. Na verdade, uma carta que

    jamais ser lida por sua destinatria, pois:

    104 Semana de Cincia, Tecnologia e Cultura realizada anualmente na UFRN.

  • 103

    Quando se vai por marno se leva bagagem, mapalembrana, recordao da Terra.

    E nenhuma Dor.(CASTRO, 1993, p.69)

    Recentemente, em 2003, Zila Mamede foi a principal homenageada da Cientec.104

    Essa homenagem da UFRN consistiu no lanamento do livro Zila Mamede, se esse humano

    dos meus gestos. O texto intitulado Zila infinita, liquefeita, que finaliza esse livro,

    constituiu-se num captulo desta dissertao. Esta escrita , acima de tudo, um

    reconhecimento profundo a quem decidiu, ocenica, persistir.

  • 104

    Sou o que custodia os livros,Que talvez sejam os ltimos,

    Porque nada sabemos do ImprioE do Filho do Cu.

    A esto nas altas estantes,A um tempo prximos e distantes,Secretos e visveis como os astros,

    A esto os jardins, os templos.

    Jorge Lus Borges

    8 Uma biblioteca uma biblioteca uma biblioteca uma biblioteca105

    105 Lembrando o paradigmtico verso de Gertrude Stein: Uma rosa uma rosa uma rosa uma rosa.

    atribuies e refutaes dessas denncias (BATTLES, 2003, p.36).

  • 105

    Construda sete sculos antes de Cristo, a mais antiga biblioteca de que se tem notcia

    pertencia ao rei Assurbanipal. Seu acervo era formado por 22.000 tbuas de argila, escritas

    em caracteres cuneiformes. Mas foram os gregos os responsveis pela expanso das

    bibliotecas. Isto porque, nos estados helnicos, havia cidados leitores. Nos sculos IV e V

    a.C. grandes gnios da literatura, da arte e da cincia destacaram-se na Grcia. A maioria

    possua valiosos acervos e com eles formaram bibliotecas. As mais conhecidas foram as de

    Aristteles e Plato.

    De fundamental importncia histrica foi a biblioteca de Alexandria (sculo IV a.C.).

    Nela estavam guardados os rolos de papiro da literatura grega, egpcia, assria e babilnica.

    Uma parte dessa imensa biblioteca foi queimada quando as tropas de Jlio Csar atacaram

    a cidade (CANFORA, 1989). Naquelas chamas, infelizmente, queimou uma nova

    compreenso sobre a significncia do conhecimento:

    O grande estoque de livros reunido em Alexandria definiu uma novaconcepo a respeito do valor do conheciemnto. O objetivo era reunirtuod que estivesse disponvel, desde manuscritos da Ilada, ou de Ostrabalhos e os dias, de Hesodo, at as mais obscuras listagens decomentrios falaciosos s obras de Homero, alm de obrasincorretamente atribudas a Homero, obras que denunciavam essas falsas

    Quando os exrcitos romanos conquistaram a Grcia, levaram consigo um valioso

    acervo e criaram com esse acervo as primeiras bibliotecas pblicas romanas. Nos

    meados do sculo IV a.C. existiam em Roma vinte e oito bibliotecas pblicas e todo

    cidado-leitor tinha acesso a elas. A decadncia do imprio romano e a invaso dos

    brbaros acabaram com essas bibliotecas, porm muitos manuscritos foram escondidos

    e recuperados mais tarde.

    Durante a Idade Mdia, em um longo perodo de mais ou menos dez sculos, que

  • 106

    transcorreram entre a queda do imprio romano do Ocidente e a inveno da imprensa,

    no sculo XV, adquiriram grande desenvolvimento as bibliotecas monsticas, nos mosteiros.

    Em lugares chamados Scriptorium, os monges, auxiliados por inmeros copistas e

    ilustradores, dedicavam-se transcrio das obras gregas e latinas formando grandes e

    valiosos acervos bibliotecrios. Esses estavam a servio da Igreja e de alguns privilegiados.

    No Renascimento, duas foras impulsionaram o desenvolvimento das bibliotecas. De

    um lado, as universidades, na Itlia, Frana, Inglaterra, ustria, Alemanha criaram as

    primeiras bibliotecas pblicas, destinadas a professores e alunos. De outro lado, nobres e

    sbios, ou simplesmente colecionadores apaixonados pelos manuscritos deram grande

    impulso criao de bibliotecas privadas, que aumentaram em nmero e qualidade durante

    os sculos XIV e XV. Eram esses humanistas, nobres e sbios, que competiam com a

    Igreja na armazenagem de livros. Surgiram, assim as grandes bibliotecas privadas que

    impulsionaram a criao de bibliotecas universitrias. Posteriormente, apareceram as

    bibliotecas nacionais na Frana e na Inglaterra. Em 1802, inaugurou-se a Biblioteca do

    Congresso, nos Estados Unidos.

    Aps a Revoluo Francesa de 1789, desenvolveu-se um novo conceito de

    biblioteca. Ela deixou de ser espao privilegiado e passou a ser um servio pblico

    coletivo. Os rpidos acontecimentos da Idade Moderna deram uma contextualizao

    diferente para a biblioteca. Ao calor da Revoluo Francesa, e sob a presso objetiva

    da revoluo industrial, formaram-se sociedades cientficas. Os estudos e investigaes

    criaram novas ramificaes do conhecimento. Nesse momento, nasceu a classe operria.

    Simultaneamente, apareceram os Estados do novo mundo, aumentando a demanda

  • 107

    de livros, que cruzaram oceanos e mares, em busca de novos leitores.

    A imprensa e o papel geraram o aumento da produo de material impresso,

    permitindo que um nmero grande de pessoas lhe tivessem acesso. O nvel de

    escolarizao da popular cresceu e deu-se incio chamada massificao da educao.

    No sculo XVIII, na Inglaterra vitoriana, diante da idia obscura de que gente vulgar

    no necessita de livros, revelaram-se as chamadas bibliotecas paroquiais, com as quais se

    beneficiavam todas as pessoas que quisessem pagar uma inscrio.

    Nos novos Estados Unidos, Benjamin Franklin criou com gente simples grupos de

    estudos filosficos, com o objetivo de intercambiar idias e conhecimentos. Os recursos

    financeiros eram conseguidos com as pessoas envolvidas. Com os livros adquiridos,

    formaram os primeiros acervos das bibliotecas pblicas americanas. A partir da idia de

    Franklin, criou-se o princpio, segundo o qual a biblioteca, enquanto depositria da cultura

    do povo, pertence a todo o povo e deve estender seus servios a todos os cidados

    (FRAGOSO, 1996).

    Com essa transformao, foi necessrio criar sistemas de classificao e catalogao,

    uma vez que a linguagem bibliotecria, desde ento, deveria ser universal. As bibliotecas

    com estantes abertas, com circulao livre de leitores e com emprstimos em domiclio

    representaram os ideais democrticos.

    Entre bibliotecrios circula a tradio de que as bibliotecas respiram; o momento,

    no comeo de cada perodo letivo, quando as estantes expulsam os livros com vigorosos

    jactos de ar; inspirando-os, ao final do semestre, trazendo-os de volta. Para esses

    profissionais, elas so seres vivos, com desejos e peculiaridades. A biblioteca como um

    corpo, e as pginas dos livros so os rgos espremidos uns contra os outros na escurido

  • 108

    (BATTLES, 2003, p.12).

    Nos ltimos dois sculos, os bibliotecrios reduziam-se aos austeros discpulos de

    Sneca. A biblioteca, para Sneca, era o lugar das obras exemplares, ou seja, um templo,

    a exemplo de Delfos, nas encostas do Monte Parnaso, dedicado ao mais belo dos deuses,

    Apolo, e s musas. Nessa biblioteca eram acolhidas as obras que representavam o que

    Bom e Belo (segundo a formulao clssica), ou Sagrado, (segundo a formulao

    medieval).

    Battles (2003) intitulou essa biblioteca de parnasiana. O seu oposto a biblioteca

    universalista que no trata os livros como substncias transparentes valiosas:

    Eles so apenas textos tramas que sero sempre retalhadas ereconstrudas para dar origem a novos padres e combinaes. Comoas estrelas do cu ou as flores de Lineu, eles no existem para seremlouvados por qualquer qualidade ou influncia particular. Antes de seremobjetos do desejo, eles devem submeter-se a processos de contagem e

    A Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, onde Zila Mamede formou-se em Bacharelem Biblioteconomia

    106 Segundo nota do tradutor de Battles, Machine-Readable Cataloging (MARC) um registro bibliogrfico escrito segundopadres decodificveis por um computador. Inclui o uso de campos e de subcampos padronizados bem como de smbolosespeciais constitudos por letras e sinais grficos chamados de literais.

  • 109

    classificao (BATTLES, 2003, p.15).

    No entanto, so nessas mesmas bibliotecas universalistas que observaremos que a

    escrita no um simples sistema secundrio de smbolos em relao palavra falada, mas

    uma outra regio, ou melhor, um territrio vital:

    Aqui, a palavra escrita ganha vida prpria em meio miscelnia dos

    107 A biblioteca e seus habitantes resultou desse hbito de ler anotando frases e textos. Da a circunstncia do livro se haverconstitudo numa espcie de chamada geral, de convocao tambm, pela memria, de tudo quanto lido e anotado, paraa tessitura desse autntico tapete persa da histria das mil e uma noites. Quando releio, hoje, ao acaso, pginas de Abiblioteca e seus habitantes, chego a surpreender-me de t-lo podido construir em tais dimenses e perspectivas, pedra apedra, chegando concluso que se trata de uma obra sem possibilidade para mim de repetio da faanha (COSTA,1993, p. 139).

    Uma preciosidade: a Polyanthea, de Nani Mirabelli (1503), livroimpresso e encardenado com a folha de um antifonriomanuscrito.

  • 110

    incipt, explicit e colofes, das pginas recto e verso, dos manuscritoslavrados em caligrafia uncial, beneventana ou merovngia abreviada,dos palimpsestos e lacunas, das folhas de impresso costuradas in-flio,in-oitavo, in-sexgesimo quarto, dos arabescos e marcas dgua, dosincunbulos e CD-ROMS, dos Pandectorum e do Index LibrorumProhibitorum , das fichas de assunto, de ttulo e de autor, bem comodos subcampos e lietaris do formato MARC106 de registro (BATTLES,2003, p. 16).

    O filsofo Roger Bacon afirmou que podemos fazer magia com as seguintes substncias:

    a herbcea, a mineral e a verbal. O livro uma mistura das trs, com suas folhas de fibra

    vegetal, com suas tintas de vitrolo verde e fuligem, e com suas palavras. Se

    compartilharmos da idia, a exemplo de vrias tradies, de que as palavras existem

    independente de ns as pronunciarmos e, por conseguinte, podem ocasionar realizaes

    no mundo, sentiremos, alm da respirao, os batimentos dos coraes dos milhares de

    livros empilhados, desgastados, novos, velhos, feios, belos, finos, grossos, esquecidos ou

    celebrados numa biblioteca.

    Sensibilizado com este sopro de vida que vem dos livros, o professor Amrico de

    Oliveira Costa com sua particular ternura por esses objetos to vitais, proclamou em

    A biblioteca e seus habitantes:107

    Longe de ser aquele cemitrio de idias, a que alude Walter Mehring,a biblioteca arena, plataforma, torre, promontrio, rosa dos ventos,ponte, estdio, barco, frum, centro de imantao e irradiao, dotadode poderes mgicos (COSTA, 1982, p.135).

    Sim, a biblioteca jamais ser lugar de morte, pois l a vida urge. Urra. Revela paisagens.

    Sinaliza trilhas. Tranqiliza. Alimenta. Restaura corpos cansados. Resgata almas perdidas.

    Afaga. Acolhe. Sempre dotada de poderes mgicos, vencer, em qualquer situao, o

    medo da morte, como revelou o maltratado Maquiavel encontrado em A biblioteca e

  • 111

    seus habitantes , numa carta a um amigo ao falar do seu sentimento quase mstico,

    diante dos livros de sua biblioteca:

    tardinha, volto para casa e vou para a minha biblioteca; deixo porta

    as roupas poeirentas que usei durante o dia, e visto-me decentemente

    antes de ingressar no recinto dos homens do passado. Eles me acolhem

    com bondade, e com eles me nutro do alimento que me prprio e

    para o qual fui feito. Tenho a ousadia de a eles dirigir-me e de perguntar-

    lhes as razes por que agiram desta ou daquela forma. So boas almas

    e, em regra, respondem. Assim, por muitas horas, estou livre de

    aborrecimentos, esqueo todas as minhas dificuldades, domino o medo

    da pobreza e o horror da morte (MAQUIAVEL apud COSTA, 1982, p.

    35).

    Entrar numa biblioteca, isto , estar numa biblioteca diante destes seres repletos de

    vida , para muitos, paraso. Seja nas bibliotecas universalistas, seja nas parnasianas, seja

    nas pblicas, seja nas particulares, os leitores esses fiis amantes sentem a presena

    dos livros, mesmo sob a impossibilidade de os ler.:

    Continuo fingindo que no sou cego, continuo comprando livros,

    continuo enchendo minha casa de livros. Outro dia, me presentearam

    com uma edio do ano de 1966 da Enciclopdia de Brokhause. Senti a

    presena desse livro em minha casa, senti-a como uma espcie de

    felicidade. Ali estavam os vinte e tantos volumes com uma letra gtica

    que no posso ler, com as imagens e gravuras que no posso ver; e sem

    embargo, o livro estava ali. Eu sentia como uma gravitao amistosa do

    livro (BORGES apud COSTA, 1982, p.33).

    bastante significativo o poder de seduo que as bibliotecas tm sobre os

    escritores, o que faz com que muitos deles produzam bibliotecas imaginrias. No seu

    segundo livro, Gargntua e Pantagruel, Rabelais (2003) faz com que o personagem

    Pantagruel visite a Biblioteca de So Victor, em Paris, e folheie as obras As braguilhas da

  • 112

    lei e De modo cacendi ; John Donne, escreveu uma bibliografia fictcia em 1610; e Edgar

    Allan Poe temperava seus textos com citaes retiradas de uma biblioteca que s existia

    na sua imaginao. No entanto, a mais conhecida de todas, a Biblioteca de Babel,

    imaginada por Borges como se fosse todo o universo, ou vice-versa. Para muitos

    bibliotecrios, leitores, escritores esta biblioteca um profundo anseio.

    Em texto autobiogrfico, Les Mots, Jean Paul Sartre, tambm presente na biblioteca

    de Amrico de Oliveira Costa, narrou o seu primeiro contato com os livros e com a

    primeira biblioteca da sua vida, a biblioteca do seu av. O filsofo relembrou do seu

    contentamento quando aprendeu a ler:

    Sentia-me louco de alegria eram minhas aquelas vozes ressecadas emseus pequenos herbrios, aquelas vozes que meu av reanimava comseu olhar, que ele compreendia, que eu no compreendia! Eu iria escut-las, encher-me-ia de discursos cerimoniosos, saberia tudo. Deixaram-me solta na biblioteca e eu empreendi o assalto sabedoria humana.Foi isto o que me fez.

    [...] o Grand Larousse supria tudo para mim; pegava um tomo, aoacaso, atrs da escrivaninha, na penltima prateleira. A-Bello, Belloc-Ch ou Ci-D, Mele-Po ou PrZ (essas associaes de slabas se haviamtornado nomes prprios que designavam os setores do saber universal;havia a regio Ci-D, a regio Pr-Z, com sua fauna e suas cidades, seusgrandes homens e suas batalhas); colocava-os com esforo sobre a pastade mesa de meu av, abria-os e deles desaninhava os verdadeirospssaros, caava as verdadeira borboletas, pousadas sobre floresverdadeiras. Homens e animais estavam ali em pessoa; as gravuras eramseus corpos, os textos sua alma, sua essncia singular; alm daquelasparedes, encontravam-se apenas vagos esboos que se aproximavam,mais ou menos, dos arqutipos, sem alcanar sua perfeio [...]

    Havia encontrado minha religio; nada me pareceu mais importantedo que um livro. Via, na biblioteca, um templo (SARTRE apud COSTA,1982, p.396).

    A imagem da biblioteca como um templo freqente entre os que se devotam aos

  • 113

    Pesquisadora e pesquisado: Zila Mamede e Cmara Cascudo, na dcada de 1960, durante aelaborao da bibliografia do historiador

    Capa do primeiro volume da bibliografia de Cascudo

  • 114

    livros Borges (1979) confessou sempre ter chegado s coisas depois de ter ido aos

    livros, ou seja, depois de consult-los. Portanto, a biblioteca sempre ser para muitos

    leitores um templo habitado por orculos. O lugar preciso para a reflexo e meditao.

    Zila Mamede, acredito, ao se encantar com a biblioteca particular de Cmara Cascudo,

    experimentou tambm a sensao de estar num templo; um templo para consultar, meditar,

    refletir; uma regio sagrada, uma esfera divina, um pas destinado queles que,

    destemidamente, ousam adentr-lo.

    8.1 A bibliografia de Cascudo solido e destemor

    E foi com destemor, silncio, solido e um esforo incomum que Zila Mamede, na dcada

    de 1960, ultrapassando todos os obstculos que existem no caminho daqueles que

    pesquisam no Brasil, bibliografou 50 anos de vida intelectual desse homem-biblioteca

    chamado Lus da Cmara Cascudo. Destemidamente, observou Mamede (1998, p. 75)

    no incio do texto Cmara Cascudo, o pesquisador pesquisado. Para mim, o suficiente

    a existncia de Lus da Cmara Cascudo, brasileiro do Rio Grande do Norte. E sua obra.

    A proeza que Zila Mamede alcanou na dcada de 1960 enriqueceu, profundamente,

    a cultura do Rio Grande do Norte. Um trabalho titnico foi realizado por essa bibliotecria-

    108 Esta abreviatura do nome de Lus da Cmara Cascudo era muito usada por Zila Mamede; tambm farei uso dela duranteesta dissertao.

  • 115

    poeta. Sem ele, os pesquisadores e estudiosos da cultura brasileira em especial, a

    cultura norte-rio-grandense estariam mais merc de equvocos e ignorncias.

    Foram quatro anos e quatro meses de planejamento da pesquisa, elaborao, redao

    e montagem do trabalho. Entre frustraes e alegrias, diante da imensido da obra de

    Lus da Cmara Cascudo, Zila Mamede transformou essa bibliografia, inicialmente

    planejada para ser apenas um registro sinaltico, numa bibliografia anotada: Desta maneira

    poderamos elaborar um ndice to analtico quanto possvel (MAMEDE, 1970, p. 17).

    Por que Cascudo? A resposta parece bvia. A pergunta parece desnecessria. Mamede

    (1970, p.16) a respondeu de maneira serena, segura, com o equilbrio to prprio da sua

    atividade intelectual:

    [...] tem esta bibliografia duas finalidades imediatas: uma a de registrara grande obra do escritor brasileiro. Outra, a de oferecer ao Rio Grandedo Norte uma fonte de referncia sobre o que a esse Estado diz respeito:povo e gente, municpios, cidades, vilas, fazendas, engenhos; mares,praias, rios, serras, cavernas; economia e produo; igrejas, casas, ruas,becos, festas populares, santos, artistas. Quem quer que seja que desejeescrever sobre o Rio Grande do Norte, sobre a cidade do Natal, ter,evidentemente, que partir de Lus da Cmara Cascudo. Sua obra afonte inicial.

    Iniciada em julho de 1964, a bibliografia de L.C.C.108 designava-se a ser uma dissertao

    de mestrado, a ser apresentada no final de 1965, Universidade de Braslia, para a obteno

    do ttulo de Mestre em Biblioteconomia. No entanto, motivos superiores, levaram Zila

    Mamede a deixar a UnB, antes de finalizar a ps-graduao (MAMEDE, 1970).

    Ao regressar a Natal, Zila Mamede ampliou a pesquisa, que antes cobria a obra de

    Cascudo de 1918 a 1964, para o ano de 1965. E quando essa estava concluda, a bibliografia

    j em fase de montagem final, com todos os verbetes numerados, houve outra mudana

  • 116

    em seu plano inicial. A Fundao Jos Augusto(FJA) interessou-se na ampliao da

    investigao at o ano de 1968, com o objetivo de public-la durante as comemoraes

    dos 50 anos de vida intelectual do historiador. A soluo encontrada pela bibligrafa para

    contemplar a proposta da FJA foi acrescentar um suplemento, compreendendo as obras

    de L.C.C. de 1966 a 1968.

    Consciente dos limites e das dificuldades da sua pesquisa Embora exaustiva, no

    consideramos esta bibliografia concluda , Mamede (1998, p.76) encontrou as primeiras

    fontes na milagrosa, poca, Biblioteca Central da Universidade de Braslia:

    A Biblioteca Central da Universidade de Braslia um milagre nocontexto geral das universidades brasileiras. Possui um acervo queatende aos programas gerais da Universidade. E foi ali que descobri,pesquisei, analisei, utilizei grande parte das colees de revistas dasmais representativas de todas as pocas literrias, culturais, polticas,econmicas e sociais do Brasil e do estrangeiro.

    Afora Braslia, Natal foi o outro grande depsito de provises, onde a bibliotecria-

    poeta entranhou-se em arquivos empoeirados de bibliotecas pblicas e particulares:

    [...] era o grande celeiro: era a fonte mesma, a origem de Lus daCmara Cascudo. Os perodos de frias da Universidade deBraslia,passeios em Natal mergulhada na maior onda de arquivos,poeira, velharias, bibliotecas desordenadas, arquivos quemilagrosamente funcionavam. Utilizei-me, ali, das seguintes fontes:a) Biblioteca do Instituto Histrico e Geogrfico do Rio Grande do

    Norte;b) Servio Central de Bibliotecas da Universidade federal do Rio

    Grande do Norte;c) Arquivos de A REPBLICA, coleo de 1929-1959, exceto os

    anos em que apenas circulou como Dirio Oficial;d) Coleo do jornal A IMPRENSA, 1918-1923, fundado e de

    propriedade do pai de Cmara Cascudo o velho Coronel Cascudo;

    109 Nessa poca, Zila Mamede residia no Recife.

  • 117

    e) Arquivos dos Dirios Associados de Natal: O DIRIO DE NATAL.1947-1953, 1955-1961. O POTI, 1954-1956, 1961;

    f) Arquivos da TRIBUNA DO NORTE, 1951-1959;g) Biblioteca particular do professor Manoel Rodrigues de Melo;h) Biblioteca particular do professor Leonardo Bezerra;i) Biblioteca particular do professor Antnio Soares Filho;j) Biblioteca particular do professor Digenes da Cunha Lima;k) Diretoria de Documentao e Cultura da Prefeitura Municipal do

    Natal.Finalmente, a prpria biblioteca de Lus da Cmara Cascudo. Digofinalmente, porque a princpio, Cascudo fazia uma enorme resistnciaao meu trabalho. Ele, l dentro dos seus cabelos eternamentedespenteados, no acreditava em nada daquilo que eu lhe contava estarfazendo (MAMEDE, 1998, p.76).

    A resistncia de Cascudo ao trabalho de Zila Mamede foi desfeita quando ele foi at a

    casa da bibliotecria e, emocionado, viu o quarto de dormir de Zila Mamede transformado

    numa biblioteca especializada em Cmara Cascudo (MAMEDE, 1998). Depois dessa visita,

    Cascudo abriu totalmente as portas da sua biblioteca particular para Zila Mamede. Essa

    atitude do historiador uniu ainda mais intensamente os dois, numa prazerosa intimidade

    entre pesquisadora e pesquisado:

    Um dia, chego eu l, em casa de Cascudo, como de costume, paraperguntar coisas, nomes, datas, montanhas de fichas na mo. QuandoCascudo estava escrevendo, costumava me mandar baixar noutroterreiro. Ainda o faz. Habituei-me a ir l em sua casa uma vez porsemana para pedir informaes complementares necessrias ao trabalho.No h bibliotecas em Natal onde eu possa obter determinados tiposde dados. Tinha que ser mesmo a Biblioteca de Cascudo e a Bibliotecaviva que sua prodigiosa memria. De bom humor, sempre merespondia aos interrogatrios. E agora que estou longe,109 responde atodas as cartas perguntadeiras, como costuma chamar. Alm do que,hoje, eu j sei onde ele guarda aquelas cadernetinhas de capa preta quecontm nomes, datas de nascimento, casamento e morte eacontecimentos importantes de Natal e do Rio Grande do Norte e

    110 Revista fundada e dirigida por Joo Calazans, em Recife, no bairro de Boa Viagem. A edio a qual Zila Mamede refere-se a de agosto-setembro de 1972. Essa edio, intitulada Lus da Cmara Cascudo, sua vida sua obra sua glria, foicomposta em Natal, na Grfica Maninbu, da Fundao Jos Augusto.

  • 118

    de pessoas do mundo inteiro que com ele mantm contactosprofissionais e de amizade. Nessa noite, encontrei-o com o jornalistaJoo Calazans. Fora a Natal solicitar de Cascudo material para umaedio da revista Crtica110 que teria um nmero especial dedicado aCascudo. Avistei um bando de envelopes-saco lacrados, empoeirados.Comecei a dar umas rasgadinhas em cada envelope, pois descobrique estavam cheios de recorte de jornais e revistas sobre Cascudo eseus livros. E que jamais haviam sido abertos. Fiquei com uma raivadanada de Cascudo, que carreguei comigo os envelopes sem lhe darsequer a oportunidade de saber o que continham. Depois que os abri,selecionei, analisei e fichei o material que comuniquei a Cascudoque ali existiam cerca de 500 recortes de jornais de todas as partesdo Brasil e vrios do estrangeiro e que eram um verdadeiro tesouropara o meu trabalho. Jamais devolvi esse material. Guardo-o comigodevidamente arquivado. Quando ele precisar, pode pedir que euempresto. Mas fica comigo, como pagamento das lutas que tive procura de coisas sobre ele. Isso foi em janeiro ou fevereiro de 1966,ou seja, quase dois anos depois do incio do trabalho. E por causa donovo material descoberto tive que desfazer quase completamente asegunda parte da Bibliografia, que sobre Cascudo (MAMEDE, 1998,p.78-79).

    A relao de Zila Mamede e Cmara Cascudo foi enriquecida pelo respeito e pelo

    afeto. No entanto, L.C.C., entregue s suas minudentes e sistemticas investigaes, s

    vezes no facilitava a vida da sua bibligrafa:

    Noutra viagem, precisei confrontar umas notas de velhos recorte dejornais e revistas de 1922. Desconfiei que Cascudo possua as anotaes.Ele me deixou entrar no quarto secreto (onde guarda colees depreciosidades bibliogrficas, comendas, medalhas, diplomas, honrarias,arquivos, microfilmes e as duplicatas de suas obras que recebe doseditores). Pois dei com um verdadeiro ninho de revistasimportantssimas, a maioria delas estrangeiras e trazendo ensaios deCascudo no campo da etnografia e folclore. L foi outra demora naordenao do trabalho, pois eu no podia desperdiar aquele material(MAMEDE, 1998, p.79).

    A admirao de Zila Mamede por Cascudo cresceu conforme as descobertas que

    111 Nesse ano de 1968, Zila Mamede est morando em Recife.

  • 119

    ela fez no transcorrer da pesquisa. Algumas descobertas, inclusive, feitas quase por

    acaso, pois Cascudo costumava fazer algumas maldades com a dedicada pesquisadora

    da sua obra. Mamede (1998, p.79-80) contou em tom de brincadeira:

    A ltima que ele me fez, bem, quase tive um enfarte. Cada seismeses, mais ou menos, mando para Cascudo a relao das obrasinditas que diminui cada dia. Ele ungiu e sacramentou a relao. Issofoi em janeiro de 1967, pouco antes de minha vinda para o Recife.Em janeiro de 1968, na fase final de datilografia do trabalho, mandomais uma vez essa lista para a ltima triagem de Cascudo, em relaoa livros inditos. Pois ele teve a coragem de informar que uma daquelasobras que h mais de trs anos estava indicada como indita haviasido editada em 1961. Trata-se do livro de NORDESNKILD, Erland.Gases e paliadas entre os indgenas da Amrica do Sul, numa traduo deProtsio Melo com introduo e notas de Cascudo, editado pelaBiblioteca do Exrcito, em 1961. Passando por Natal,111 em princpiosde maio ltimo, tive uma briga com Cascudo, por causa dessainformao e disse-lhe e jurei que contaria isso por escrito. Mas eleacabara de passar 20 dias hospitalizado. Fez chantagem sentimentalcomigo. Mas acabei obrigando-o a procurar o livro e me deixar trazerpara o Recife para anot-lo e inclu-lo, ai meu Deus, depois de estaro trabalho todo numerado. Com a cara mais angelical desse mundoele se levantou de sua rede e, me enchendo das mais feias maldies,foi buscar o livro. E eu o trouxe, como castigo. Porque escreveraimediatamente para a Biblioteca do Exrcito, pedindo o tal livro eacabo de receb-lo. Exatamente quando entreguei o de Cascudo, Noitede So Joo, em Natal.

    Outra dele: nessa minha passagem por Natal, em maio, descobrilivros dele editados em 1967 em que ele nem me tocou. Mal sabe eleque ele prprio me ensinou como roubar as informaes que eleme esconde. Para pagar as maldades que faz comigo.

    Considerada por Zila Mamede como uma etapa do levantamento da vasta obra de

    Cascudo, essa bibliografia de L.C.C. foi dividida em 5 partes: Obras de Lus da Cmara

    112 As pesquisadoras Constncia Lima Duarte e Diva Maria Cunha Pereira de Macdo garantem: Como foi dito na Introduodesta Antologia, Zila Mamede, em Cmara Cascudo: 50 anos de vida intelectual, afirma a existncia de diversos inditosdo autor entre eles, uma Histria da Literatura do Rio Grande do Norte, que nunca foi localizada (DUARTE; MACDO,2001, p.257).

  • 120

    Cascudo; Obras sobre Lus da Cmara Cascudo; Suplemento; ndices e Fontes

    consultadas.

    As trs primeiras partes esto organizadas por tipo de publicao e, dentro dessa

    organizao, ordenadas cronologicamente. No trmino dos ndices, h uma Cronologia

    remissiva para os itens dos sumrios. Referindo-se aos livros, s antologias e edies

    anotadas, s tradues que Cascudo realizou e comentou, Mamede (1998) explicitou que

    esto distribudos dentro dos assuntos gerais, em ordem cronolgica, a partir do primeiro

    livro de cada assunto.

    Os assuntos gerais so os seguintes: Literatura, Histria e Geografia; Biografias,

    Descries e Viagens; Etnografia e Folclore; Genealogia; e Autobiografia.

    O assunto Literatura composto pelos livros Alma patrcia, crtica literria (1921);

    Joio pginas de literatura e crtica (1924); Canto de muro, romance de costumes

    (1959); e Histria da literatura norte-rio-grandense, livro indito, segundo Zila Mamede,

    essa obra nunca foi encontrada.112

    Ainda em Literatura, as edies anotadas so as seguintes: Versos reunidos, de Lourival

    Aucena (1920); Poesia, de Domingos Caldas Barbosa (1958) e Poesia, de Antnio Nobre

    (1959). Neste assunto, em tradues, Zila Mamede indicou apenas Trs poemas, de Walt

    Whitman (1954,1957).

    Histria e Geografia constitudo pelos livros Histrias que o tempo leva (1924);

    O homem americano e seus temas (1935); A intencionalidade do descobrimento do Brasil

    113 Estou fornecendo a informao conforme est na bibliografia, alguns obras que aparecerem como inditos, durante e apsa elaborao da bibliografia, foram publicadas.

  • 121

    (1935, 1937, 1940, 1965); O mais antigo marco colonial do Brasil (1934, 1940, 1965); O

    braso holands do Rio Grande do Norte (1936, 1949, 1955); Governo do Rio Grande do

    Norte (1939); Informao de histria e etnografia (1940, 1944); Histria da cidade do Natal

    (1947); Geografia do Brasil holands (1949, 1956); Os holandeses no Rio Grande do Norte

    (1949); Histria do Rio Grande do Norte (1955); Notas e documentos para a histria de Mossor

    (1955); Notas para a histria da parquia de Nova Cruz (1955); Notcia histrica do municpio

    de Santana do Matos (1955); Parquias do Rio Grande do Norte (1955); Ateneu Norte-rio-

    grandense (1961); Dois ensaios de histria (1965); Histria da Repblica no Rio Grande do

    Norte (1965); Nomes da terra; geografia, histria e toponmia do Rio Grande do Norte (1968);

    Assemblia Legislativa do Rio Grande do Norte (indito);113 Histria do municpio do Cear-

    Mirim (indito); Histria do Rio Grande do Norte para as escolas (indito); Histria da

    Carnaba (indito); Nomes de ruas e praas da cidade do Natal (indito).

    No assunto Histria e Geografia consta apenas de uma edio anotada Antologia

    de Pedro Velho (1954) e de nenhuma traduo.

    Biografias constitui-se das seguintes publicaes: Lpez do Paraguai (1927); Conde

    dEu (1933); Em memria de Stradelli (1936, 1967); Dr. Barata, poltico, democrata e

    jornalista (1938); O Marqus de Olinda e seu tempo (1938); Histria de um homem

    (Joo Severiano da Cmara) (1954); Vida de Pedro Velho (1956); Vida breve de Auta de

    Souza (1961); Nosso amigo Castriciano (1965); Jernimo Rosado (1861-1930): uma

    ao brasileira da Provncia (1967); O livro dos patronos (indito).

    Em Descries e Viagens, Zila Mamede registrou Viajando o serto (1934) e Em

    114 Consta tambm na relao dos livros de Histria e Geografia.

  • 122

    Sergipe del Rey (1953).

    Etnografia e Folclore formado pelos livros Vaqueiros e cantadores (1939, 1968);

    Informao de histria e etnografia (1940);114 Sociedade Brasileira de Folclore (1942); Geografia

    dos mitos brasileiros (1947); Consultando So Joo (1949); O folclore nos autos camoneanos

    (1950); Anubis e outros ensaios (1951); Meleagro depoimento e pesquisa sobre a magia branca

    no Brasil (1951); Histria da Imperatriz Porcina (1952, 1953); Literatura oral (1952);

    Cinco livros do povo. Introduo ao estudo da novelstica no Brasil (1953); Dicionrio do folclore

    brasileiro (1954, 1962); Tradies populares da pecuria nordestina (1956); Jangada; uma

    pesquisa etnogrfica (1957, 1964), Jangadeiros (1957); Supersties e costumes (1958); Rede-

    de-dormir, uma pesquisa etnogrfica (1959); Etnografia e direito (1961); Roland no Brasil

    (1962, 1964, 1968); Dante Alighieri e a traduo popular no Brasil; A cozinha africana no

    Brasil; Motivos da literatura oral da Frana no Brasil (1964, 1968); Made in frica pesquisas

    e notas (1965); Flor dos romances trgicos (1966); A vaquejada nordestina e sua origem

    (1966); Voz de Nessus. Inicial de um dicionrio brasileiro de supersties (1966); Folclore do

    Brasil (1967); Histria da alimentao no Brasil (v. 1967, v.2 1968); Mouros, franceses e

    judeus trs presenas no Brasil (1967); Coisas que o povo diz (1968); Preldio da cachaa

    (1968); Brazilian Folk-Lore (indito); Civilizao e cultura. Pesquisas e notas de etnografia

    geral (indito); Santos que o povo canonizou (indito).

    As antologias referidas em Etnografia e Folclore so as seguintes: Antologia do

    folclore brasileiro (1944, 1956, 1965); Os melhores contos populares de Portugal (1944);

    Contos tradicionais do Brasil (1946, 1955, 1967); Contos de encantamento (1954); Contos

    exemplares (1954); No tempo em que os bichos falavam (1954); Trinta estrias brasileiras

    (1955).

  • 123

    Ainda em Etnografia e Folclore, Cascudo escreveu em colaborao com outros

    autores as antologias Lendas brasileiras. 21 histrias criadas pela imaginao do povo

    (1945) e Grande Fabulrio de Portugal e Brasil (1961).

    As edies anotadas em Etnografia e Folclore so Festas e tradies populares no

    Brasil, de Alexandre Jos Mello Moraes (1946); Cantos populares do Brasil, de Slvio

    Romero (1954); Contos populares do Brasil, de Slvio Romero (1954); Paliadas e gases

    asfixiantes entre os indgenas da Amrica do Sul, de Erland Nordenskild (1961);

    Poranduba amazonense, de J. Barbosa Rodrigues (indito); Cancioneiro dos ciganos, de

    Alexandre Jos Mello Moraes (indito); Os ciganos no Brasil, de Alexandre Jos Mello

    Moraes (indito).

    Por fim, em Etnografia e Folclore, as obras traduzidas com anotaes so Montaigne

    e o ndio brasileiro, de Michael Eyquem Montaigne (1940); Viagens ao Nordeste do Brasil,

    de Henry Koster (1942); Os mitos amaznicos da tartaruga, de Charles Frederick Hartt

    (1952); e Mitologia indgena do Amazonas, de Charles Frederick Hartt (indito).

    Em Genealogia, Zila Mamede anotou apenas uma obra: A famlia do Padre Miguelinho

    (1960). O tempo e eu. Confidncias e proposies (1968) o nico registro no tema

    Autobiografia.

    Para o caso de uma bibliografia individual to vasta quanto a de Cascudo, a bibliotecria

    introduziu algumas tcnicas para a economia de verbetes. Mamede (1970, p. 21-23)

    enumerou, na introduo da bibliografia, quais foram as normas que ela estabeleceu:

    1. Agrupar numa entrada nica todos os artigos, em revistas ejornais, que versem especificamente sobre determinado assuntoou sobre certo aspecto de um mesmo assunto, mas que, pela suaforma de apresentao do contedo e do texto, no podem ser

  • 124

    considerado republicaes nem artigos em srie, tenham elesttulos idnticos ou variados; hajam sido publicados num mesmoperidico ou em peridicos diferentes; atualizem ou no, osartigos interiores. [...].

    1.1 Considera-se o ttulo do primeiro artigo referenciadocomo principal.

    1.2 Os demais artigos so referenciados subseqente-mente, em ordem cronolgica e em texto corrido,indicando-se os diferentes peridicos em queaparecem, com suas respectivas notas tipogrficas.Cada referncia separada da anterior, por ponto evrgula. Quando os artigos aparecem num mesmoperidico, indicam-se apenas as notas tipogrficas dossubseqentes ao primeiro referenciado, igualmenteseparados por ponto e vrgula.

    1.3 As variaes do ttulo dos artigos so indicadas emparnteses, aps a referenciao de cada artigo, comose fosse uma nota de srie.1.3.1 Cada artigo assim referenciado ser indicado no

    ndice, pelo seu ttulo original que, estando noverbete, entre parnteses, facilmenteidentificvel.

    1.4 Quando os artigos so subordinados a srie ou colunajornalstica, as variaes de seus ttulos seguem a srieou coluna, dentro do mesmo parntese, separados pordois pontos.

    1.5 Se um ou mais de um dos artigos referenciados,conforme item 1, acima, foram publicadosanteriormente e/ou republicados, quer constem damesma seo, quer de seo diferente, faz-se essaindicao em nota especial, com remissiva para overbete que registra a anterior publicao e/ourepublicao.

    2. Quando os artigos tratam de uma mesma pessoa, mas focalizamaspectos diferentes dessa pessoa, so tratados como artigosindependentes.

    3. As variaes do ttulo de uma publicao qualquer, em suasrepublicaes, quando referenciadas em subordinao ao primeirottulo, so indicadas entre parnteses, como se fosse uma nota desrie, atendendo aos mesmos princpios adotados nos itens 1.31.4 destas normas. [...]

    3.1 Fez-se exceo para os discursos e conferncias.

    4. Todas as informaes acrescentadas ao contedo e/ou resumo depublicaes, foram feitas entre colchetes, indicando-se em notaespecial informaes estritamente necessrias.

  • 125

    5. Para as recenses, adotaram-se entradas diretas pelo ttulo da obraou obras sob o registro bibliogrfico, seguido (s) do nome do autore/ou autores, na forma corrente.

    6. Durante a elaborao desta bibliografia, vrias obras j includas enumeradas na seo de obras inditas, foram publicadas. Utilizou-se um recurso para incluir essas edies sem alterar a numeraodos verbetes, j definitiva. Ver n. 3353, 3360 e 3362. O mesmorecurso foi utilizado em relao ao verbete sob n. 3368. Refere-sea uma obra editada em 1961, mas que o anotador inclura entre as

    obras inditas.

    O primeiro verbete da bibliografia foi Alma patrcia, crtica literria. Sobre ele, Mamede

    (1970, p.31) fez a seguinte anotao:

    1921

    Alma patricia, critica litteraria. Natal atelier Typ. M. Victorino. 187 p.

    Contm: [Epgrafes de] Machado de Assis e Mario de Alencar.[Dedicatria] A Anna da Cmara Cascudo e Francisco Cascudo, meusPaes. A memria de Alexandrina Chaves, ao meu padrinho, JoaquimFerreira Chaves, este livro dedicado. Natal julho de 1921. Em vez deprefcio [do autor] Sebastio Fernandes. Henrique Castriciano. OthonielMenezes. Abner de Brito. Palmyra Wanderley. Virgilio Trindade.Uldarico Cavalcanti. Francisco Palma. Kerginaldo Cavalcanti. FranciscoIvo Cavalcanti Filho. Ezequiel Wanderley. Manuel Segundo Wanderley.Ponciano Barbosa. Ferreira Itajub. Auta de Souza. Pedro Alexandrino.Gothardo Netto. Murilo Aranha. Nevroses (Ensaio de critica) AlmaPatricia. Parte historica e bibliographica do Alma Patrcia.

    Inc. Bibliogr. Do autor na parte posterior da brochura. A 0bra umestudo crtico e biobibliogrfico de 18 escritores e poetas norte-rio-grandenses ou radicados no Estado.

    Um dos ensaios foi republicado. Ver n.363. O poeta Alberto de Oliveira,em carta de 20 de maro de 1922, dirigida a Cmara Cascudo, considerao livro acima de alto valor informativo sobre o movimento de literaturado Rio Grande do Norte, at ento completamente ignorado pelamaioria dos escritores da metrpole. Ver n. 3622.

    Ainda na introduo dessa bibliografia Zila Mamede transformou em narrativa uma

    entrevista concedida por Cascudo, na qual ele revela os seus mtodos de trabalho e os

  • 126

    antecedentes de sua incurvel enfermidade de amar os livros. Esses antecedentes esto

    l na infncia do historiador quando, superprotegido pelos pais que j haviam perdido

    trs filhos mortos pela difteria, era proibido de evitar sol, areia seca ou molhada, luz

    da lua, o sereno, fruta quente, banho frio, brincar de correr, pular janela, entre outras

    coisas do cotidiano da vida de um menino. Para Cascudo, menino e rapaz, restou

    contemplar livro de figuras, coligir estampas de santos e ouvir estrias contadas pela

    ama Benvenuta de Arajo e por Lusa Freire, sua Sherezade analfabeta (MAMEDE,

    1970).

    Aos seis anos L.C.C. aprendeu a ler. Presentes dos seus pais e dos amigos desses, os

    livros transbordavam pela casa.

    Foi o primeiro menino, em Natal, a possuir um quarto para a bibliotecaque era visitada, gabada, aludida nos jornais por gente grande.Dispensvel , pois, salientar a gabolice infantil e a natural afetao doleitor de calas curtas e gravata de crisntemo (MAMEDE, 1970,p.12).

    Cascudo lia todos os livros que o seu pai dono de um considervel patrimnio

    mandava buscar na Europa, orientado pelos amigos letrados. Logo:A Histria foi a

    sedutora inicial e amor fiel inarredvel, ensinando-lhe a velhice das novidades e a

    universalidade do regional (MAMEDE, 1970, p.12).

    O pensamento de Cascudo sobre a riqueza que a leitura de um livro traz a um ser

    humano tambm foi referido por Mamede (1970, p.13) na introduo da bibliografia do

    historiador.

    Para Cascudo, a leitura diria, normal, inevitvel, posta no rumo

  • 127

    utilitrio do conhecimento uma capitalizao insensvel e normal.Enriquece o leitor sem que a memria perceba o lento acmulo dariqueza disponvel. Naturalmente, afirma ele, o dilvio determina aescolha limitadora das guas para a navegao. E assegura que no sedeve abandonar a visita amorosa aos velhos, s vezes esquecidos autoresque guardam fundamentos indispensveis orientao ou aferio dasderivas.

    A respeito de a doce mania de Cascudo pelas fontes bibliogrficas, morando numa

    cidade to distante das grandes bibliotecas do pas, observou Mamede (1970, p.13):

    Como ler e de que maneira possuir livros, raros nas grandes bibliotecasdo Rio de Janeiro e de So Paulo, citados como excepcionais peloseruditos? A deciso de preferir o livro a uma ostentao social custou-lhe 40 anos de obstinao e renncia a certos confortos da vida moderna.Por causa da Bibliographie des Ouvrages rabes (de Victor Chauvin.Lige, 1892-1922. 12 tomos) no possui uma casaca. Deixou de fazerviagens deliciosas para comprar livros de que necessitava para seusestudos e pesquisas. Hoje, entretanto, as reedies so comuns e fceis.Mas at pouco tempo, diz ele, certos autores eram guardados comoharns e mostrados como jias.

    Deus sabe o que lhe custou possuir o Katha Sarit Sagara, de Somadeva;o Hitopedexa, o Panchatantra, o Tuti-Nameh, o Calila e Dimna, o Librodel Conde Lucanor, o Disciplina Clericalis. Leu, com sofreguido, asedies legtimas do Mil e uma noites, a de Richard Burton, com osvolumes complementares, os primeiros antropologistas, as revistasespecializadas.

    A inveno do microfilme foi-lhe uma libertao. Com esse novo meiode comunicao e transmisso da palavra escrita ele tem trazido paraNatal algumas raridades. Tem podido trabalhar em casa, sossegadamente,em textos do sculo quinze ou das primeiras dcadas do sculo dezesseis.

    O espinhoso esforo de Cascudo para reunir comprovantes foi ainda exposto por

    Mamede (1970, p.13-14):

  • 128

    Cinco livros do povo, publicado em 1953, foi escrito sobre documentaoexistente fora do Brasil. Trata de cinco novelas tradicionais, de origemculta e que se tornaram populares, reeditadas no Brasil, lidas em todaparte. A mais nova, Joo de Calais, do tempo de Louis XV; e a maisvelha edio espanhola da Donzela Teodora anterior viagem deCristvo Colombo. Enfrentou uma rdua luta para reunir oscomprovantes, comentadores, crticos, etc., a fim de tomar conhecimentoda importncia cultural dos seus textos. Para o trabalhador provincianode Natal, simples professor estadual, procurando obter esse mundodocumental pelas suas pobres mos, foi um assombro terminar a tarefa ever o livro impresso. Mas a edio foi-lhe fcil.

    Durante a elaborao de um trabalho, L.C.C. no respeitava distncias, nem atendia

    dificuldades, ouamos ainda a narrativa de Mamede (1970, p.15):

    Falando das permanentes na elaborao do seu trabalho, Cascudo dizque desde a escolha do tema reunio documental mais vastapossvel, no respeita distncias nem atende dificuldades. Mobiliza oque possui e tenta obter o material ignorado e raro. Mas nem sempre atendido nas suas solicitaes, notadamente por aqueles qui travaillent se rendre inutiles, os que roncam de importncia nas misses ocupadasna Europa. As excees acolhedoras, felizmente, anulam essas irritadase efmeras onipotncias inoperantes. Tem sido mais alegrias do quedecepes em sua correspondncia precatria.

    [...]

    Comenta que as dificuldades de comunicao com outros pesquisadores,atualmente, j quase no existem. Mas quando comeou a trabalhar, h50 anos, o segredo de certas notoriedades reduzia-se a um livrinho deendereos, escondido com o cime de cigana nubente. A SociedadeBrasileira de Folclore publicou sries de endereos de escritoresestrangeiros, indicando suas predilees. As sociedades literrias tmpermutado as listas com a direo dos seus associados. Para Cascudo, oproblema outro. Trabalhando em Natal, precisa de informaesimediatas sobre livros existentes em bibliotecas do Rio de Janeiro, oude So Paulo: so ttulos completos de obras, captulos, trechos, frases,microfilmes, fotografias de personagens histricas, autores de livrosou participantes de fatos que esto sendo motivos de estudo. A obtenodesse material que difcil. Acha que uma das entidades culturais, noRio de Janeiro ou em So Paulo, poderia instalar um escritrio paraatender a solicitaes de escritores das provncias brasileiras, com tabelade preos pelos servios respectivos.

  • 129

    Sobre os assuntos que mereceram a ateno do historiador, Mamede (1970, p.16)

    registrou:

    Cascudo afirma que s escreve sobre os seus assuntos, tendo recusadosempre escrever sobre temas alheios sua preferncia pessoal.

    No tem alterao alguma substancial a fazer na bibliografia sob seunome jaguno. Todos os livros que escreveu tm data e essas explicama mentalidade orientadora, recursos fundamentais, agilidade daexposio e a lgica da concluso psicolgica.

    Nos trabalhos de etnografia e folclore, jamais se resignou a ser cortadore transportador de material. Confronta e opina sobre a origemtemtica, debate a bibliografia de perto e de longe, antiga e recente,lealmente fixada. Nunca citou em falso ou sonegou documentos.

    Para determinar a poca em que poderiam ter sido escritos trabalhos sobre Cascudo

    ou localizar escritos seus em revistas e jornais fora de Natal, Mamede (1998, p. 80)

    procedeu da seguinte forma:

    Se ele comeou a escrever em jornal no dia 18 de setembro de 1918 epublicou livro em 1921, havia de se determinar um espao de tempoat que seu nome comeasse a ser falado na imprensa de outras cidadese, principalmente, do Rio de Janeiro, e So Paulo. Levantei, na BibliotecaCentral da Universidade de Braslia, todas as colees de revistas ejornais literrios e culturais, histricos e geogrficos, a partir dessapoca. Basta que imaginem as colees das revistas dos institutoshistricos e geogrficos do Brasil todo, dos quais Cascudo scio. Apartir da primeira obra publicada, o resto foi fcil, pois a pista estavaaberta para a frente.

    H 156 ttulos de revistas e 88 de jornais mencionados na bibliografia.No me foi possvel, evidentemente, consultar as colees de todosesses jornais e revistas. Escrevi a mais de trezentos jornais e revistasbrasileiras e estrangeiras.

    Cada uma das obras dessa biblioteca sem muros, construda por Zila Mamede nesse

  • 130

    trabalho de fundamental importncia para a cultura brasileira, alm da anlise

    bibliogrfica, contm uma indicao sumarizada e opinies de crticos e especialistas

    que escreveram sobre Cmara Cascudo. Acompanha o trabalho de anlise bibliogrfica

    um completo trabalho de pesquisa sobre cada obra, de maneira que cada livro, folheto,

    opsculo, ensaio, artigo, traduo, etc., foi rodeado de todas as informaes possveis

    sobre um trabalho editado, ou seja, cotejo, comparao e crtica de edio e reedio,

    tradues, autenticidade das fontes de informao, entre outras coisas.

    O texto da Editora Nosso Tempo, publicado na orelha da bibliografia de

    Cascudo,evidenciou o quanto construo dessa biblioteca sem muros custou para Zila

    Mamede, qui at mesmo a construo da sua prpria poesia:

    [...] este livro custou autora, alm do trabalho extenuante, desprovidode meios e recursos, tarefa de artesanato silencioso e humilde, a quepoucos, na sua situao, renunciariam: a glria do aplauso crescente einstantneo medida que a sua poesia ia extravasando da alma para aimprensa e para os livros, e numa idade em que a vaidade mais fcilde ser suscitada. Fugiu desse palco iluminado, encerrou-se nasbibliotecas e arquivos, para ressurgir, anos depois, com este documentode uma vida e de uma cultura.

    [...]

    A obra de Zila Mamede o coroamento de meio sculo de trabalho dogrande mestre que mesmo, mesmo escondido na provncia, levou-o repercusso internacional. Poucas vezes a inteligncia ter juntado,atravs do tempo, e na mesma ordem de grandeza, dois esforos toobstinados e to fecundos.

    Sobre os riscos e as renncias que enfrentou para edificar tal biblioteca, Mamede

    (1998, p.82) profeiriu: O levantamento da obra de Lus da Cmara Cascudo, em suas

    pluridimenses, constitui , na verdade, o verdadeiro arquivo histrico e cultural do Rio

  • 131

    Grande do Norte. Portanto esta a grande contribuio que Zila Mamede deixou

    para o Rio Grande do Norte:a criao do verdadeiro arquivo histrico e cultural deste

    Estado

    evidente que esse vigoroso trabalho intelectual e fsico de Zila Mamede, jamais foi

    considerado concludo, pois Cascudo, estando vivo, continuou produzindo livros, livros

    e livros.

  • 132

  • 133

    Encontro de poetas em Natal: a tenacidade de Zila Mamede desarmou Joo Cabral de Melo Neto

    Capa do livro Civil Geometria, uma bibliografia possvel

  • 134

    Manuscrito da introduo de Civil Geometria. Na quarta linha podemos ler, a exclamao de Joo Cabral de Melo Neto:Impossvel. O trabalho persistente de Zila Mamede provou que o poeta estava enganado.

  • 135

    Ocenica, persisto

    Zila Mamede

    9 Concluindo e o desejo de continuar

    Aps ter os refletores focados em si e em sua obra potica, Zila Mamede, num ato de

    maturidade e extrema humildade, na casa dos trinta e poucos anos de idade, voltou-se

    para a construo da biblioteca sem muros mais importante do Rio Grande do Norte: a

    bibliografia de Cmara Cascudo. Isso aconteceu na dcada de 1960. Apenas esse trabalho

    j justificaria uma vida profissional. Anotar e analisar os 50 anos de vida intelectual de

    Lus da Cmara Cascudo tornou Zila Mamede um exemplo a ser seguido.

    Ela descobriu a biblioteconomia na dcada de 1950 e j na dcada seguinte dedicou-se

    a essa obra de extremo valor para a cultura norte-rio-grandense. Admirao,

    profissionalismo, amor, etc., moveram Zila Mamede a organizar, entre outras bibliotecas

    tradicionais, essa biblioteca sem muros, enriquecendo de forma peculiar o patrimnio

    cultural do Rio Grande do Norte.

    Na segunda metade da dcada de 1970, Zila Mamede decidiu construir a bibliografia

    do poeta Joo Cabral de Melo Neto, mesmo, inicialmente, sendo desanimada por ele.

    Impossvel! (MAMEDE, 1987, p. XIII) exclamou o poeta pernambucano, argumentando

    que por ter morado em vrios pases seria muito difcil realizar um levantamento do que

    se escrevera sobre ele. Zila Mamede, com sua competncia e dedicao conseguiu,

    posteriormente, a exemplo do que aconteceu com Cascudo, a adeso e a concordncia de

    Joo Cabral na realizao do trabalho que resultou na sua obra pstuma: Civil Geometria,

    bibliografia crtica, analtica e anotada de Joo Cabral de Melo Neto, 1948-1982.

  • 136

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