Uma Lagrima de Mulher

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    Universidade da Amaznia

    Uma Lgrima deMulher

    de Alusio Azevedode Alusio Azevedo

    NEAD NCLEO DE EDUCAO A DISTNCIAAv. Alcindo Cacela, 287 Umarizal

    CEP: 66060-902Belm Par

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    Uma Lgrima de Mulherde Alusio Azevedo

    PRIMEIRA PARTE

    CAPTULO I

    Numa das formosas ilhas de Lipari, branquejava solitria uma casinhatrrea, meio encravada nos rochedos, que as guas do mar da Siclia batemconstantemente.

    Ao lado esquerdo da modesta habitao, corria uma farta alameda deoliveiras, que, juntamente com os resultados da pesca do coral, constitua os meiosescassos de vida de Maffei e sua famlia.

    O pescador enviuvara cedo.Do amor ardente e rude com que o embalara por dez anos uma formosa

    procitana por quem se apaixonara, restava-lhe, com recordao viva da extintamocidade, como um beijo animado da felicidade que passou, uma alegria de quinzeanos, uma filha querida, meiga e delicada como o afago de uma criancinha.

    Ela adorava-o. Enchia-o de beijos e ternuras; era como um rouxinol aacariciar um tigre. Nas tardes melanclicas do outono, quando se assentavam ao solno terreiro, contrastava com a bruteza do peito largo do pescador a engraadacabea de Rosalina, que se debruava sobre ele.

    Completava a pequena famlia de Lipari uma boa e religiosa velha dos seuscinqenta anos, ama, criada e amiga; ngela era, ao mesmo tempo, a me adotivada filha de Maffei.

    Rosalina era encantadora. Como em quase todas as meninas italianas,adivinhavam-se-lhe os elementos de uma mulher bela. Difcil seria v-la algum,sem prender o corao naquela graciosa liberdade de movimentos; ouvi-la, semguardar na memria, como uma relquia sagrada, o seu falsete de criana.

    H quinze anos, adormecia e levantava-se antes da alva, sempre rindo ecantando; nunca uma tristeza real lhe havia nublado a transparncia azul de suaalegria, parado em meio uma das suas sadias gargalhadas. Amor, que no o daMadona ou da famlia, jamais lhe entrara no corao; e contudo, nos ltimos mesesdos seus quinze anos, caa, s vezes, num cismar de tristeza indefinvel, quando, desobre a penedia, contemplava sozinha a extenso melanclica do mar; sentia emtais momentos como vagas inquietaes, que se lhe debatiam por dentro eprocurava, tolinha! com insistncia pueril, arrancar do oceano o segredo de tudoaquilo; parecia-lhe que o ar misterioso das guas vedava ao seu entendimento overdadeiro motivo dos seus anelos.

    Inexperiente, atribua-os vontade de viajar; nunca sara de sua pequenailha, e essa, apesar da beleza do cu, dos perfumes, das florestas, das sombras dasoliveiras, do amor paterno e da dedicao de ngela enchia-a de tristeza emelancolia.

    Aos domingos costumava ir missa e embalde o aprendiz ou o operrio separamentava com seu gorro novo; a filha do pescador, logo em deixando os trajosdomingueiros, nem mais se lembrava do moo, que a cortejara sorrindo, ou dosingelo galanteio de alguns dos do mesmo ofcio de seu pai

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    Nem por isso deixavam de querer-lhe, pois nas rodas divertidas dosalpendres, enquanto danavam e riam cantando a Tarantella, ao som das gaitas defoles, Rosalina no era esquecida, e at muito de corao lamentavam a mania dovelho Maffei de no consentir que a pequena fosse aos domingos bailar e brincarnos seus folguedos.

    CAPTULO II

    Principiava a declinar o ms de outubro, e j o inverno abria cedo os portesda noite.

    O cu, betumado por igual de um cinzento chumbado e sujo, peneirava devez em quando uma poeira dgua, que se precipitava na lmina polida do mar,como se milhes de flechazinhas microscpicas crivassem o escudo enorme dofabuloso gigante marinho.

    Das guas, mortas e sombreadas pelo azul escuro da noite, levanta-se otorro vulcnico, da ilha, desenhando fantasticamente no fundo plmbeo do cu oscontornos negros das oliveiras.

    As duas vidraas iluminadas da casa de Maffei fitavam da treva as ilhasvizinhas.

    Do lado oposto da ilha, os pescadores lanavam, cantando as redes ao mar,e o som montono das cantigas chegava esfacelado e trmulo, como o reflexo dosseus archotes nas vagas.

    CAPTULO III

    Ia adiantada a noite.A serenidade aparente da casinha branca contrastava com a agitao

    interior. Extraordinrio deveria ser o fato que tinha, to desacostumadamente,despertos at tarde os seus pacficos moradores. Entanto, o bulcio crescia l dentro;iam e vinham de um para outro lado, procurando, influenciados pelo silncio, que anoite s por si impe, abafar o som dos passos e das vozes, como se tivessemvizinhos ou pudessem incomodar algum.

    Em tudo, respirava uma impacincia surda; as andorinhas, pouco habituadascom o rumor, espreitavam curiosas e assustadas por entre as ripas com as suascabecinhas pretas.

    Apesar de velha e magra, ngela era forte e sadia; atarefada emalavaferramentas e movia fardos com facilidade; Rosalina por outro lado, dobrava eempacotava roupas e afivelava malas prontas.

    Tratava-se sem dvida de alguma viagem.Maffei era o nico que no parecia preocupado com o que se passava; de

    natural sombrio e reservado no se mostrava inquieto; imvel, numa cadeira de pau,como dedo grosseiro entre os dentes, dividia e somava mentalmente umas parcelasimaginrias.

    Saam-lhe inarticulados da boca sons aproveitveis s para ele; ao resolverqualquer questo, deixava cair sobre a mesa de nogueira o punho serrado, e com orudo as duas mulheres voltavam rapidamente a cabea; a imobilidade do pescadortranqilizava-as, e ele continuava entregue inteiramente ao seu cogitar.

    Efetivamente, preparava-se uma viagem.

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    Maffei partia no dia seguinte para Npoles, empregado numa companhia,que se propunha continuar em Rezina explorao das famosa runas deHerculano.

    Decorria ento 1838, e nessa poca as ambies voltavam-se abertamentepara Rezina, onde centenas de operrios e trabalhadores, lutando dia e noite, oueram vtimas de sua cobia ou triunfavam ricos e vitoriosos da luta desigual, travadapor eles, com as lavas, que vomitara um dia o Vesvio e setecentos anospetrificavam.

    Seduzido pela fortuna, ia o pescador deixar a filha; o gnio aventureiro eespeculador no lhe permitia avaliar o alcance da empresa. Bem conheciam as boasmulheres o carter de Maffei, e por isso mesmo no arriscavam uma nica palavrapara o dissuadir.

    Para ele, nunca as coisas estavam bem no p em que se achavam. Erasempre preciso melhorar. Tinha a impacincia do mar e a firmeza do ferro; quandoqualquer idia se apoderava dele, era como a ferrugem, que avultava, domina, atcorromper de todo.

    CAPTULO IV

    Mal raiara a aurora triste e descorada do dia de viagem, j de p dispunha-se a famlia para descer ao porto do embarque.

    Aqui chegados, o pai apertou nos braos a filha; duas lgrimas grossas evaronis, como verdadeiros intrpretes da linguagem muda e sincera do amor,abriam-lhe caminho pelas faces tostadas.

    E, enquanto Rosalina esfregava os chorosos olhos com as costas da moesquerda, ngela, meio afastada, rosmeneava a orao favorita, a cobrir debnos o querido aventureiro.

    No tinha ainda o sol enxugado da umidade dos rochedos, que durante anoite receberam chuva contnua e carregada, j uma vela minguava ao longe dabaa, confundindo-se com o claro-escuro das guas.

    CAPTULO V

    Cinco meses depois da partida do pescador, o tempo atirou aso habitantesda ilha um domingo, que se podia chamar a obra-prima de maro.

    S pode ser verdadeiramente apreciado o domingo por um artista, umoperrio, um estudante ou outro qualquer filho legtimo do trabalho e que este sededique toda a semana. Os amados da fortuna e bastardos do suor, que vivempaulatinamente dos seus calados rendimentos, tem sete domingos na semana e nologram conseguintemente o melhor e mais legtimo dos prazeres - o descanso. Parapoder descansar preciso principalmente uma coisa - cansar. Do que se conclui queo domingo existe e pertence exclusivamente a quem ocupa utilmente os outros dias.

    A ilha apresentava um aspecto realmente encantador.Por toda parte, danavam e cantavam grupos alegres de homens sadios e

    mulheres bonitas ao som da guitarra e do pandeiro. missa da manh no faltou habitante de Lipari, que prezasse o seu carter

    tradicionalmente religioso. Encontravam-se os namorados, trocavam-se meias

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    palavrinhas de ressentimento e cime, quando no de amor, e, l muito a furto, onoivo roubava s faces morenas e coradas da sua conversada um suspirado beijo.

    Os sinos da igreja de S. Tiago repicavam o termo da missa.Era muito de ver os moos, com as suas roupas domingueiras, perfilados

    porta da Igreja, aguardando a sada das suas prediletas, namoradas; e para logosurgir, ao calor metlico do bronze, uma onda sangnea de mulheres frescas efortalecidas, procurando, com os olhos inquietos e enfeitiados, os daqueles, que asesperavam.

    Assim apareceu Rosalina, cujos amarrotados da saia denunciavam o muitoque estivera de joelhos.

    Vinha um tanto aborrecida e fatigada: os olhos pareciam mais midos quede ordinrio e os movimentos mais demorados, as faces enrubecidas pelo calor daigreja, a ligeira transpirao, que lhe borrifava o lbio superior e o nariz, davam aomoreno aveludado de sua tez os tons leves e palpitantes, cujo segredo s possuiuMurilo, quando, pintando a cabea da virgem, reproduzia a beleza anglica de suafilha.

    Trazia sai curta de pano escuro e grosseiro, deixando ver o comeo de umaspernas bem feitas e terminadas por dois sapatinhos pretos de fivela e lao. O seioarfava-lhe sob a presso do tecido rijo de barbatanas de baleia, que armavam umcorpete de l vermelho, muito justo e melhor talhado. Os cabelos, de tal negrura, quelevantariam ao sol reflexos de azul-ferrete, destacavam-se do quadrado de linhobranco, que lhe toucava cuidadosamente a fronte e reapareciam mais abundantesno pescoo em forma de duas reforadas tranas.

    Estava cansada. Que a deixassem! Queria desafrontar-se daquelasroupas; e, passeando os olhos pelos grupos multicores dos rapazes no vestbulo,parecia procurar algum com certa impacincia.

    Mal dera alguns passos sorrira. Os lbios sempre anunciam rindo, quandoos olhos acham quem o corao procura.

    Com efeito, um moo, saindo da multido, acercou-se dela.Era um belo rapaz. Esbelto e destro, olhar sombrio e ardente, agradvel

    expresso de amargura na fisionomia, e suma confiana desamparada nosmovimentos. Tinha uma cabea escultural, modelada pelo tipo quase extinto da raaetrusco-pelgia.

    Como os mais vestia jaqueto de veludo com mangas compridas eabotoadas, cales justos e claros, enfeitados de fitas na juno com a meia listrada,camisa de l, aberta no pescoo.

    Chamava-se Miguel Rizio. Filho de um msico romano, dedicara-se artedo pai com algum xito at aos doze anos. De repente, viu-se rfo e sem apoio,ficando-lhe, como derradeira consolao, a sua querida rabeca, nica que no vivermiservel de larazone, a que o condenara a misria, no o desamparou jamais.Dormiam abraados, muita vez, pelos alpendres, quando lhes falecia o teto e acama.

    Um belo dia, conseguiu fugir para Roma e l, melhorando a arte, melhoroutambm os meios de subsistncia.

    De volta ilha, sua ptria, encontrava-se aos domingos com Rosalina, edesde ento, apesar da meninice da pequena, amou-a ele, quase tanto, quanto sua rabeca.

    E ela? Valha-a Deus! Por esse tempo nem se lhe dava dos amores domsico.

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    Quem se deu foi o pescador. De uma feita, desconfiou dos olhos ardentesde Miguel, e, cravando neles os seus, no menos ardentes e mais ferozes, f-lodesde a experimentar, a despeito da precoce energias de seus dezenove anos, umno sei que desagradvel, que o obrigava e evitar sempre o pai de Rosalina.

    Agora, ausente este, o moo sentia-se livre e feliz, e nestas circunstnciasdeu com franqueza o brao a Rosalina, tomando alegremente o caminho de casa,que no ficava longe.

    A boa ngela protegia os inocentes amores da pupila, amores novos esuperficiais para ambas, que apenas h dois meses o sabiam; enraizados, porm, evelho para Miguel, que h muito consumia noites e esperanas a cismar na filha doseu gratuito e maior inimigo.

    Caracteres anglicos como o do artista sabem e podem amar; no com esseamor sensual e grosseiro, cheio de desejos, que estiolam o corao e os sentidosdos filhos das grandes capitais, mas com essa fragrncia singela, comparvel aoperfume da violeta e que se pode chamar afeto, religio ou mesmo fanatismo. No aamava ele porque a desejasse, seno porque a sentisse em toda a suaindividualidade; nele tudo se poderia extinguir, menos esse sentimento, que oacompanhava como uma qualidade inerente sua matria. Quanto maisprocuravam evit-lo, quanto mais obstculos levantavam sua passagem, quantomais faziam por pis-lo, mais forte recendia esse afeto, semelhante s plantas doOriente, que tanto mais perfume exalam, quanto mais grosseira for a mo que astriture.

    Supersticioso como era, tinha para si que nem a morte seria capaz dedestruir essa paixo.

    Quando eu morrer pensava ele, h de ficar nesta ilha o meu amor,triste, invisvel e inconsolvel, como um esprito penado, e ir todas as noites deitar-se soleira da tua casinha branca, minha Rosalina. Vs um frasco de perfume quese quebra e derrama o lquido perfumoso? Pois bem; os pedaos desaparecem, aumidade do cho, que o lquido ensopara, bebe-a o calor da atmosfera, mas operfume fica e ficar por muito tempo! assim que eu te amo, minha amiga!

    No entanto, Rosalina estava longe de alcanar a grandiosidade destesentimento: supunha-o vulgar e reles, como soe acontecer com as raparigas, queno conhecem o corao do homem.

    CAPTULO VI

    H dois anos, estava Maffei em Rezina.H dois anos, cartas impregnadas de certo cheiro de prosperidade vinham

    alegrar a famlia do pescador e sobressaltar o nimo do pobre Miguel. Contudo, acasinha branca continuava naquela ignorada e encantadora solido; agora, porm,as oliveiras deixavam apodrecer o fruto nos galhos, o lugar onde dormia ocioso e asredes da pesca no viam gua salgada desde muito tempo.

    Fazia uma noite deliciosa. Uma dessas noites sem lua, em que a frouxaclaridade das estrelas povoa o campo de poesia e amor.

    O relgio de So Tiago badejava pausada e religiosamente, o toque docrepsculo, quando Miguel, com sua rabeca debaixo do brao, seguia abstrado pelaorla do caminho, que ia dar casinha branca.

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    Em breve, atravessava o patamar de pedra da casa do pescador, edescansava vagarosamente sobre a mesa a rabeca e o chapu de feltro de copaalta.

    ngela e Rosalina correram ao encontro do recm-chegado.

    Boa noite, Rosalina! Como passou, me ngela?

    As duas mulheres responderam familiarmente a este cumprimento.

    Senta-te aqui, Miguel disse Rosalina, arrastando uma cadeira de pau,enquanto do fundo da casa, um co, uivando amigavelmente, veio cheirar os ps eas mos do artista.

    Fica visto por esta recepo que aquela visita no era novidade paranenhum dos trs.

    Miguel sentou-se, sem cerimnia, ao lado de Rosalina; Castor, o co, veiosentar-se-lhes aos ps, encostando-lhes humildemente a cabea nas pernas.

    Depois de algum silncio, entabulou-se entre os dois moos uma dessasconversaes fteis e agradveis, cujo segredo s possuem os namorados. Falavambaixo, descansados e desapercebidos de tudo; falavam nimiamente por se ouvir umao outro, com o egosmo dos amantes, mas sem afetao nem constrangimento.

    Qualquer coisa, que dizia Miguel, tinha muita graa para Rosalina. O menorgracejo do artista fazia-a mostrar os dentes claros e a lngua vermelha em uma dassuas francas e sadias gargalhadas.

    Tocas-me hoje o teu Sonho? Perguntou ela, em seguimento da conversa. Tocarei, depois da leitura, mas trago-te uma msica nova. Feita agora? Concluda hoje; j estava principiada a mais tempo. A quem dedicada? Que pergunta! A quem poderia ser? A mim, disse Rosalina, feliz. E sabe como se chama? Perguntou Miguel. Como ? Teu nome! Rosalina? No! Teu nome! Ah, fez rindo a moa. J sei, o nome : Teu nome? Exatamente! Ora! O que se chama Teu nome por bem dizer no tem nome. Tolinha!... Queres que o mude? No!... disse meigamente sorrindo Rosalina. Ento! Senhor Miguel! No temos hoje leitura? Perguntou ngela,

    colocando a mo aberta sobre os olhos para poder enxergar o interrogado.

    Este respondeu, levantando-se e indo tomar um livro de um armrio de pau,pregado na parede; depois, sentou-se defronte da velha, que, junto mesa, cosia aoclaro da luz do azeite.

    Rosalina foi reunir-se ao grupo.Reinava o mais absoluto silncio.

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    Miguel abriu com pachorra o livro, no lugar marcado por uma tira bordada,trabalho delicado de Rosalina, esfregou carinhosamente as palmas da mo nasfolhas do livro, aberto de par em par; cruzou as pernas, enterrando os ps parabaixo da cadeira, em que estava assentado; espevitou o pavio da candeia, e depois,de fitar abstratamente o cabea branca de ngela, principiou, com a voz sonora edesembaraada, a leitura de uns contos fantsticos, que faziam o enlevo da velha ede Rosalina.

    A isto sucedeu completa tranqilidade.Com o interesse do romance, ngela parara maquinalmente o trabalho e,

    firmando os cotovelos descarnados na madeira da mesa, ficava automaticamente afitar, com o rosto apoiado nas mos compridas e ossudas, o movimento regular doslbios do leitor.

    Dominado, como estava, pela mgica influncia do livro, ligavaindistintamente no sei que relao entre a fisionomia expressiva de Miguel e oassunto da novela; parecia-lhe que aquilo eram palavras e pensamentos dele, ditos,e pensados ali, naquele instante; s vezes, sentia vontade de abra-lo, quando apassagem lhe agradava, e ao contrrio, revoltava-se, interiormente, por amor dastranscendentes maldades dos tiranos do romance.

    Choravam e riam silenciosamente as duas, conforme a situao. Tudo erainteresse, at o pobre Castor parecia tomar parte na leitura, sofrendo resignado avontade de ladrar contra as ruidosas lufadas de vento; ficava o pobre animal com acabea estendida e o olhar mole e sensual, a bater com a cauda de um para ourolado, com a uniforme oscilao de uma pndula.

    No meio deste silencio, a voz grave e compassada de Miguel ecoavamonotonamente nas quatro paredes de betume cinzento.

    Terminada a leitura, conversavam os trs sobre o enredo e o carter dospersonagens, que figuravam no romance, cujo desfecho ngela com muito empenhoprofetizava.

    Em seguida, Rosalina foi buscar a rabeca e Miguel executouexpressivamente vrias msicas de sua imaginao, no se esquecendo da ltima -Teu nome, que muito arrebatou e comoveu aquela a quem foi oferecida.

    Com efeito, desvanecia-se a rapariga com ser a inspiradora de to belasconcepes, e ficava enlevada, como a sonhar, bebendo pelo corao asmelanclicas harmonias, que emanavam do instrumento apaixonado.

    Assim fugiram as horas tranqilas e esquecidas da visita, at que os sinosde S. Tiago tocavam o silncio; ento, descontinuava-se o recreio: Miguel despedia-se, beijando a mo da velha e a fronte da moa, e, depois de tomar o chapu e arabeca, partia cabisbaixo.

    Ao sair o msico, fechavam logo a porta; a luz desaparecia da sala e asduas mulheres recolhiam-se para o mesmo quarto, onde rezavam e dormiam juntas;tudo isso era feito com cuidado e devagarinho, como se tivessem medo de acordarcom o barulho a felicidade que se lhes agasalhara em casa.

    Nas noites em que Miguel se demorava ou no ia como de costume,sentiam-se as duas mal e impacientes e Rosalina encostava-se, ento,cantarolando, s ombreiras da porta, e derramava, de vez em quando, um olhar detristeza pela brancura do caminho. Enfim, o rapaz era j como pessoa da famlia;era, ao menos, uma necessidade para ambas.

    Aos domingos de primavera, o sol ao levantar-se s cinco horas j os via dep e em caminho para a missa. Ento, aparecia sempre um pretexto para demorar-se ao passeio, que os levava em geral pelas casas das amigas.

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    O que posso asseverar que o leno, com que Rosalina assistiu ltimamissa, era presente de Miguel: e a gravata com que este no ltimo domingo seenfeitara, era feitura das delicadas mos da sua presenteada.

    Era tudo harmonia e amor naquela casinha branca!

    CAPTULO VII

    Chegara finalmente o vero com o seu cortejo de luz e de alegria; agostosurgira enfeitado e casquilho como um novo campesino a cobrir de beijos e mimos aformosa ilha, sua noiva. Vinha alegre.

    O cu, todo irado, refletia no mar os seus mais belos cambiantes; asrvores, ento, bem cobertas e reverdecidas, derramavam no cho uma alfombraazulada, cheia de languidez e perfumes que encantavam; a brisa sussurrava mornae maliciosa em segredo de namorados; golpeadas de luz quente, as rochas erguiam-se do mar como belos monstros, enfeitados de diamantes.

    Quanta atividade na terra!Quanta doura no cu!O canto saa espontneo das gargantas e os sorrisos dos lbios, e de tal

    sorte se casavam no ar, que o canto parecia riso e o riso parecia canto! A luzenorme do sol caa filtrada dentro do corao, para a abrir uma aurora da mocidadee sade; a bondade vinha superfcie da terra; propagava-se como um som aalegria, e a gargalhada detonava com o eco desse som.

    Pousavam nos colmos os passarinhos ou embalavam-se chilreando nashastes flexveis das videiras. Como uma boa notcia, as andorinhas cortavam a ilhaem todos os sentidos, inquietas como a fortuna, ligeiras como a curiosidade, oraroavam a terra para lhe dizer um segredo, ora molhavam na baa a pontinha negrada asa os se desvaneciam no azul ilimitado do espao.

    No mar o quadro correspondia em movimento e beleza de colorido ao daterra.

    O oceano vestira uma domingueira camisa de rendas espumosas.Por todos e de todos os lados, singravam listras multicores dos barcos

    pintados de novo; a espicha vergava com a vela reverberante e cheia. Ospescadores, satisfeitos com a pesca da noite, cantavam anunciando o peixe; outros,j desembarcados na praia, estendiam as redes ao sol, arrastavam o barco, epunham-se depois a subir as granitosas ladeiras, suando, vergados sob o peso doresultado abundante de suas pescarias. O filhinho, mesmo pequeno, j ajudava opai; metia-se-lhe de pernas arregaadas no mar, para colher o cabo do bote e asredes; no o amedrontava a imponncia do leo marinho. Nas cabanas, as velhasconcertavam o peixe e punham a mesa.

    Era para ver o riso, o apetite, a felicidade enfim!De repente, divisou-se ao longe um barco estranho.Diferente e maior que os mais, tinha um sombriamente soberbo, que

    contrastava com a alegre singeleza dos outros.Vinha como uma bala queima-roupa!Dir-se-ia um insulto alcatroado. A vela opada, amarelenta e inchada como o

    saco de couro de uma gaita de foles, lembrava ao mesmo tempo o ventre enorme deum cadver que vai apodrecer.

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    Os pescadores olhavam-no ofendidos como para um intruso; indignavam-secom o vento e com o mar porque tanto o favoreciam. Tinham cimes, os bonspescadores, das suas guas e dos sopros das suas brisas.

    Todavia, o barco no diminua de carreira. Chegou rpido ao porto, desceu avela e atracou.

    Um homem robusto e carrancudo, seguido de marinheiros e homensacarretados de malas, apareceu na praia e subiu com p firme cidade.

    Os camponeses e pescadores olhavam-no com aterrada desconfiana; entreeles alguns davam mostras de conhec-lo, chegando at a falar-lhe. A tudorespondia secamente o recm-chegado.

    Fez impresso nas rodas.Instantneo e curioso silncio apoderava-se dos que o viam; no o largavam

    de vista; o sujeito era observado com respeito e reserva.Os pescadores arriscavam com cuidado palavra a respeito dele,

    murmuravam medrosos, mesmo quando j no podiam ser ouvidos pelo mauhomem e em segredo diziam: era um jettatura, que os livrasse Madona do mauolhado.

    No entanto o mau olhado seguia indiferente o caminho da casinha branca eda a meia hora Rosalina abraava o pai.

    Maffei tinha chegado.Foi um alvoroo em casa. ngela soltou uma exclamao religiosa e

    levantou os braos para o cu. sempre enternecedora a volta de um pai ao seio da famlia.Seja ele uma fera, nessa ocasio h de ser pai.As palavras comeadas, que no se acabam; o pranto, que assistem como

    um amigo da famlia; o co, que fareja alvoroado; tudo! Tudo enternecedor esanto!

    S Maffei no chorou nessa ocasio.Acariciava, beijando a filha, porm sempre spero e inaltervel.Disse depois que estava cansado e que lhe dessem uma cama.Enquanto dormia o aventureiro, ngela agradecia a Deus o seu regresso

    feliz.Rosalina, com os olhos ainda midos, remexia e examinava os objetos que

    lhe trouxera o pai.

    CAPTULO VIII

    Foi-se passando o tempo e o recm-chegado sem explicar a melhora dasituao.

    Tambm as mulheres no se animavam a interrog-lo; compreendeu a boagente que tinha melhorado de sorte, e a Madona por isso recebeu nessa noite umagrinalda nova toda perfumada.

    Com efeito, Maffei tinha enriquecido.Em princpio, encontrou em Rezina a sorte adversa, porm, com energia e

    ambio soubera poupar e avultar um peclio, que, emprestado a juros eespeculaes mais altas, em pouco tempo se multiplicara. A economia rigorosaconcluiu a obra, crescendo na razo direta do engrandecimento do capital.

    Outros atribuam a um princpio ilcito essa riqueza; aqui diziam que roubara;ali, que a fortuna o protegera, fazendo-lhe achar dinheiro nas escavaes.

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    Sabemos que em Herculano no apareceu muito dinheiro, porque apopulao tivera tempo de fugir, quando a cidade foi submergida; tambm sabemosque em Npoles ningum se queixava de Maffei como ladro, mas o que era patentee real que o pai de Rosalina voltava rico, mais ambicioso e necessariamente piorde corao.

    Luzia-lhe agora com mais intensidade a cobia vermelha e sinistra, como umfarol no meio da tempestade.

    E no havia porventura uma tempestade naquela cabea?Sim! porm toda interior.No se ouviam os troves nem os vendavais, a revoluo ia-lhe por dentro e

    s chegava superfcie da fisionomia desfeita em espuma biliosa nos cantosarqueados da boca e em sangue mau no vtreo dos olhos.

    Isso era nos momentos de clera. monotonia bondosa da casinha branca sucedeu a tristeza, espcie de

    pavor, que cerca o homem de m catadura.Contra ele principiavam j a murmurar, na ilha, e, se at ali tinha tido poucos

    amigos, nenhum desses lhe restava agora. Em geral, malqueriam-no davam-lhe apaternidade de coisas horrveis; crimes medonhos, maldades atrozes, tudo serviapara explicar a sua imprevista fortuna.

    Todavia, se bem que contrariado e s, ia ele vivendo, falava menos e commais indelicadeza; durante o sono, balbuciava palavras singulares. Frentico eaborrecido, agitava-o sempre a mesma impacincia e o mesmo cogitar.

    Quais seriam as suas intenes?...No o sabiam as mulheres, nem se animavam a pergunta-lho.Com todas essas coisas ia aviltando a tristeza na casinha branca. Rosalina

    j no era a mesma cotovia alegre e jubilosa, cantadora e risonha; se cantava agora,era triste e suspirando. E as suas notas e suspiros iam, repassados de muitasaudade, em busca de Miguel, que, ao chegar o seu velho inimigo, arrancara-se dali,como o galho partido que o furaco arremessa com estrondo ao longe.

    ngela, cada vez mais devota, passava agora a maior parte do tempo arezar.

    Desconsolado se tornara esse lar, que j nalgum tempo fora vivo quadro depaz e felicidade.

    Agora, o quadro era sombrio.Trs nicas figuras formavam o primeiro plano. Um velho spero, que

    cisma uma devota, que reza uma filha, que suspira; e l, no ltimo plano, meioescondido nas nvoas do poente, um velho esbatido nas meias-tintas do horizonte -um homem, que chora abraado a uma rabeca. Ah! Ainda no quadro uma formanegra, mais um borro que uma figura o co.

    Tambm vivia triste e chorava o animal, que em noites de luar soltava unsuivos to arrastados e queixosos, que enterneciam o corao da gente.

    CAPTULO IX

    Assim decorreram duas estaes, impregnadas, com a vinda de Maffei, deaborrecimento e marasmo.

    Uma noite, estavam todos reunidos em volta da mesa; era a hora da ceia.Rosalina servia, preocupada, um prato de peixe com lentilhas, reverberava-lhe

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    nessa ocasio uma esperana na alma, tinha de todo resolvido falar ao pai arespeito de Miguel.

    ngela conhecia os planos da pupila e prestava-se se fosse necessrio aajud-la.

    A refeio passou-se silenciosa; ao terminarem-na, quedaram-se por meia-hora, imveis nos seus lugares, mudos.

    Ouvia-se l fora bater o vento nas oliveiras, ouviam-se o as cantigaslongnquas dos pescadores nas praias opostas.

    Rosalina, com as mo frias, trouxe a Maffei o cachimbo.O velho ps-se a fumar voltado para o lado da rua e a seguir com a vista no

    caminho, que lhe nascia porta. Estava sombrio como nunca.Faltava a Rosalina nimo de falar ao pai; finalmente, tomando uma

    resoluo extrema foi-se-lhe encostar ao grosseiro espaldar da cadeira.O homem de to preocupado no se apercebera disso; um beijo da filha

    despertou-o, porm, no o comoveu. Refratrio ternura, continuava secamente afumar.

    Rosalina, cujo corao pulsava cada vez mais impetuosamente, passou-lheum brao em volta do pescoo, e com a mo livre messando-lhe os cabelos; entre oreceio e o desejo, mais medrosa que terna:

    Estou triste! Por qu? Interrompeu indiferentemente o pescador.

    ngela ouvia com interesse este dilogo.

    Tenho medo de pedir-lhe uma coisa... E por qu tens medo? Insistiu o velho, sempre a fitar maquinalmente a

    estrada. Porque vai ralhar comigo. Ento, queres pedir-me alguma tolice?... No senhor!... Ento pede... Promete no se zangar?... Sim ! E quando souber que tenho um namorado? Disse abaixando os olhos

    Rosalina, porm, agora mais terna do que medrosa.

    Ao ouvir as ltimas palavras da filha, Maffei tirou vagarosamente o cachimboda boca e voltou-se, cravando nela os olhos vivos e interrogadores.

    A rapariga estremeceu empalidecendo, sentia-se j arrependida do quehouvera arriscado e com dificuldade conseguiu dizer vacilante.

    No senhor! no tenho! Com que, tens um namorado?! repisava entre-dentes o pescador,

    ruminando a frase.

    Rosalina conservava o olhar baixo e, perturbada, alisava com a unha dopolegar da mo direita a costura do corpinho.

    Com que, tens um namorado?!... repetia o velho.

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    Porm disse trmula e sem levantar os olhos Rosalina ele me quertanto! E eu estou afeita a v-lo... e abaixando mais a voz, quase a falar consigo,continuava que era um bom moo, trabalhador, e que tudo era para bem, elequeria espos-la, que...

    Quem ? interrompeu asperamente Maffei. ... ... Miguel Rizio...

    Um raio no produziria o efeito desta revelao. A fisionomia do velhoalterou-se apopleticamente; firmado nas plantas, levantou-se como impelido pelasmolas da clera e descarregou com bruta excitao na mesa, o punho cerrado enervoso.

    Foi um avermelhar de olhos, um crispar de lbios, um contorcer de nervos,mais rpidos que o relmpago. Estava transformado.

    Miguel Rizio! um miservel!...

    E ria-se ironicamente.Rosalina, toda trmula, tinha a cabea baixa e o olhar arrependido;

    apertava-se-lhe naquele momento o corao, como se tivesse cometido um crime;dos lbios semi-abertos, fugia-lhe um rosear frouxo e trmulo, como um cardume demariposas.

    O vulto sombrio e preocupado do velho comeou a passearautomaticamente de um para outro lado da casa.

    Tinha na fisionomia o sobressalto do marinheiro em perigo, nos movimentosumas ligeiras crispaes, que lembravam o balano do navio.

    Era uma capito no seu tombadilho; as sombras do passado e do futuro, asvagas do grande oceano que o embalava; a confisso da filha, o vendaval.

    E assim passeava sem se dirigir a ningum; falava sem se voltar paraRosalina, parecia conversar com Deus, ou com o demnio! Saam-lhe da boca aspalavras escandecidas e speras como as pedras de um vulco.

    E necessariamente ele vinha c!... E eu ignorava que a minha casa erafreqentada por um Miguel Rizio!...

    E voltando-se depois para afilha, como se falasse a um marinheiro, exclamaem tom de ordem:

    No quero casar-te com um maltrapilho daquela laia! Entendes?! Ele bemo sabe, que me evita, o miservel!... Tenho-te reservado nome e posio! Somente de ti depende a minha e a tua felicidade, pelo menos enquanto fores bela!Nada tenho a recear daquele mendigo, porque partimos depois de amanh paraNpoles! Veremos se o maldito lazarone vai l perseguir-nos! E quanto a ti - bradouele com mais fora, apresentando a cara defronte da de Rosalina - quero que no otornes a ver!... Entendes?!...

    Sim, senhor - fez timidamente Rosalina.

    CAPTULO X

    Ir para Npoles!

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    Viver na grande capital, com opulncia, beleza, mocidade, sade, alegria,admiradores; isto , realizar o mais dourado dos sonhos, a mais sonhada dasesperanas, o desejo mais querido e a mais brilhante expectativa do corao deuma mulher bela e vaidosa.

    Tal era o quadro que Maffei descortinara aos olhos fascinadores da filha, talera a cornucpia abundante, cuja fortuna sufocava de alegria o corao, ainda ternode Rosalina.

    Do fundo da sua obscuridade, sentia a formosa filha do pescador asconvulses da prola nas profundezas do oceano.

    Era a sede formidvel de luz e de brilho, de admirao e de inveja! A febrede aparecer e ofuscar! O direito da beleza e a impacincia do ouro!

    Vaidade! Vaidade grosseira da matria! Que supe desperdcio esquecer naostra singela e honesta a jia digna de se corromper na cabea de um rei!

    Vai, criana sonhadora! E que te hajas to ditosa que para ti Npoles sejasomente o que o diadema de uma princesa para uma prola.

    Porm Miguel?! O querido namorado de Rosalina!?...Oh! Que imprudncia... lembrar uma lgrima, quando se trata de todo um

    futuro de prazeres e galas!Quem se importa da ptala da rosa, que o trem faustoso do rico, ao passar

    altivo, esmagou no caminho?!Todavia, Miguel era um ponto sensvel e doloroso no corao da moa

    ambiciosa. A despeito de tudo, ela ainda o amava, e, no meio dos sonhos degrandeza, tinha para o pobre artista um suspiro de amor e saudade, ainda o via, nofundo brilhante do seu quadro de irradiaes e alegrias, sombrio, triste, meioespectro, meio homem, a chorar talvez, com certeza a sofrer. Via-o ela esbelto edelicado, contra a luz das suas esperanas, e sentia-se projetar-se no disco irado deseu corao a sombra negra desse vulto querido.

    No h felicidade, por mais completa, que no ressinta de uma mancha aomenos!

    Todo e qualquer obstculo, por mais mesquinho e miservel que seja,produz uma sombra relativa.

    Subtraiam todos os mundos, todos! Que o firmamento fique um nada infinito.Ento deixem brilhar unicamente o sol, isolado e egosta. S ele! e a sua luz aperder-se pelo nada.

    No se pode certamente julgar mais completa e inteira luz; pois bem, tragamdepois um gro de areia, s um! coloquem-no defronte do sol e ser perturbadaessa imensa pureza de luz! Um mesquinho gro de areia contra a enormidade da luzdo sol! Todavia, o gro de areia ser uma sombra!

    Assim tambm grande e cheia era a taa de nctar, que Maffei entregara filha, porm nessa taa havia uma gota de fel: era o amor do artista.

    A fortuna passara a cobrir Rosalina de beijos, porm nesse aluvio decarcias foi de envolta uma arranhadura.

    Pobre Rosalina!E neste vacilar, entre a felicidade e a dor, entre o bem e o mal, escrevera a

    Miguel uma carta, contando-lhe, com honesta franqueza, o que se passara, eprometendo-lhe uma entrevista, s ocultas do pai.

    O rapaz ficou fulminado ao receber a notcia; entretanto, sofreu todas essascoisas afetando a mais indiferente tranqilidade. Exteriormente, parecia no seuestado normal de tristeza e inteligncia, e contudo no conseguiria, se o tentasse,ligar duas idias.

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    Tinha a lucidez no olhar, porm, as trevas no crebro!De queixas, nem vestgios!De resignao - todos os sintomas!Depois da chegada do pescador, o msico nem cuidava de si; esquecera

    obrigaes e talento!Coitado! Sem famlia, sem um amigo ao menos, um companheiro com quem

    dividisse fraternalmente o seu infortnio, sofria, o desgraado, essa dor ignorada,que s tem uma expresso a lgrima; s sabe um caminho o do tmulo!

    CAPTULO XI

    A casinha branca ficava situada em um dos extremos da ilha, para asbandas do nascente.

    Era um ponto magnfico.A modesta e simptica vivenda olhava de frente, podemos dizer, sorrindo,

    para a estrada que conduzia ao centro povoado da ilha; do mundo, saa-lhecorrendo, em distncia de seiscentos passos, a nossa j conhecida alameda deoliveiras, cujo solo formava um declive suave e frtil, plantado de ambos os lados,com variedade e gosto, at onde o terreno ia pouco a pouco se tornando maisngreme com a vizinhana do mar.

    Ento, principiava uma ladeira pedregosa, que ia acabar, em grandedistncia, numa ampla e formosa praia, de areias claras e batidas livremente pelosventos.

    Do lado direito, avizinhava-se o mar, entre o qual e a casa, interpunha-sesomente uma clareira, onde Rosalina costumava sentar-se tarde, e uma moita deespinheiros, espcie de cerca natural, que ali entrelaara a natureza, para servir deameias, que resguardassem as bordas perigosssimas deste lado.

    Do esquerdo, o espao entre o mar e a casa era desproporcionalmentemaior, porm menos cultivado e coberto de uma vegetao enfezada e m. Porentre esse mato, nascia uma picada, to irregular e confusa, e to dificultada pelosabrolhos e saras, que quase no se deixava perceber; e tanto mais ingrato era osolo, quanto mais se afastava da casa.

    Perto desta era a terra cultivvel e solta, mais ia gradualmente e tornandocalcfera at chegar ao estado de pedra, proporo que se aproximava das bordasda ilha, terminado por um pedregulho alcantilado, inteiramente liso e escorregadio,pelo salpicar constante do p mido das vagas, que se despedaam contra ele.

    A rocha ficava a pique sobre o mar, um precipcio medonho!Nas noites claras do estio, algum que trepasse penedia at galgar os

    alcantis aprumados e reluzentes, abrangeria, s com um abrao de olhos, aimensidade dos horizontes celestes e marinhos; e se, chegado borda do abismo,se debruasse um pouco sobre a ingremidade da rocha, julgar-se-ia solto no espao,sem ligao alguma com este mundo e s preso a Deus pelo esprito.

    Ento sentiria debaixo dos ps os soluos espumosos das ondas, e sobre acabea a linguagem enrgica do nordeste, revelando natureza adormecida osmistrios da criao dos mundos.

    E o mugir dos ventos e o rugido colrico do mar lhe pareciam, nesse instantede transporte, o resumo supremo de todas as foras, de todas as paixes, de todasas virtudes, de todos os vcios, de todas as tempestades dos homens e todas as

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    tempestades dos elementos; chegar-lhe-iam ao corao como o index fabuloso douniverso.

    Assim, medonho e belo, era o lado esquerdo da casinha branca, o que otornava desprezado e quase ignorado, a no ser pelas gaivotas e outras avesaquticas, que l subiam nesses cumes, procura do pouso e da solido.

    CAPTULO XII

    Tinha comeado o inverno e, apesar disso, a noite marcada para aentrevista dos dois amantes era to serena, que faria chorar de inveja a vaidosaprimavera.

    Nem uma nuvem perturbava o aspecto ingnuo e puro do cu.As oliveiras solitrias e esguias, como toda a vegetao de Lipari, em virtude

    da leveza da atmosfera, beijavam-se voluptuosamente, impelidas pela brisa frescado mar, e projetavam no cho, contra a luz da lua, uma sombra de triplicadocomprimento.

    O vento estorcia-se, uivando como um doido de asas e redemoinhava emtorno das oliveiras, cujas sombras desenhavam na aspereza do solo fantasmassingulares e monstros extravagantemente disformes.

    s vezes, o doido mudava de rumo e quebrava no ar o murmrio dascantigas dos pescadores, que estendiam a rede do lado do poente.

    E assim vagavam, soltas e desarticuladas no espao, vozes confusas edisparatadas.

    O mais dormia silenciosamente.A casinha branca parecia, ao luar, embrulhada com frio, num lenol de linha

    alvo.A lua aborrecia-se, coitada! no seu eterno isolamento!

    CAPTULO XIII

    Por volta das dez da noite, um barco costeava a ilha pelo lado da praia.De vez em quando o vento, caprichoso e vadio, trazia de rastro alguns

    fragmentos de uma bela barcarola, que necessariamente vinha do barco. Eram asnoites de uma chorosa rabeca, espcie de harmonia chorada, ou melhor, de prantoharmonioso. O certo que, msica ou pranto, doa gente ouvir soluar daquelemodo. Se fosse possvel fazer do corao um instrumento e tang-lo, com certezahavia o som de ser o mesmo que ento se ouvia.

    O barco vinha-se aproximando lentamente da praia, e lentamente ia-secalando o instrumento; da a pouco paravam ambos, e um vulto de homem, comares de pescador, soltando o ferro, pojava na areia.

    O barqueiro depositou a rabeca sobre um dos bancos de seu barco,conchegou melhor o capote de pescador e, dando alguns passos pela praia,encarou a silenciosa ladeira, frouxamente clareada pelo luar.

    Miguel no faltara entrevista, porm. Temendo vir pela estrada e ter quepassar pela porta de Maffei, resolvera entrar pelo fundo, disfarado em pescador;precaues necessrias para no ser descoberto pelo pai de Rosalina O marsempre era mais seguro.

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    Posto em terra, atravessou o espao, compreendido entre a gua e aladeira, e deitou a subir cautelosamente.

    Subiu sempre at encontrar a primeira rvore; a parou e ficou a escutar.Era tudo absolutamente silencioso.Miguel encostou-se ao tronco da rvore e esperou.Sentia-se mal, o pobre moo! Desde que recebera o bilhete de Rosalina,

    meditava um meio de salvar a situao, e, por mais que desse voltas cabea, nadadescobrira.

    Agora, prestes a v-la, encostado oliveira, com o cotovelo direito na moesquerda e com a outra escondendo o rosto, fazia castelos magnficos e desfazia-os, com a mesma facilidade. Imaginava as coisas mais absurdas, os projetos maisirrealizveis.

    Lembrava-se de raptar Rosalina, fugir com ela para qualquer parte; ouempregar-se em Rezina, como operrio, e especular, como fizera Maffei; ou deixar-se morrer; ou mat-la.

    Enfim, mil outras idias deste gnero encontravam-se, debatiam-se, amorderem-se sangrentas, no crebro molesto do pobre rapaz, como, na mesmaptria, irmos se devoram e matam em tempo de guerra intestina.

    Assim permanecia ele esttico, com o rosto escondido na mo esquerda,invejando interiormente a tranqilidade feliz da natureza, que parecia adormecida asonhar amores.

    A terra, essa boa me pensava ele tambm tem um corao: svezes parece sofrer, porque geme; sentir alegrias, porque ri; amar, porque solua;enfim, no podia deixar de ter um corao, porque me.

    CAPTULO XIV

    Enquanto Miguel, encostado rvore, era todo meditao e cismar, do altoindeciso da ladeira alvejava um vulto trmulo, cujas roupagens flutuantes sedesvaneciam nas sombras transparentes da noite.

    O corao do moo estremeceu, como o ferro quando se avizinha o im: eraRosalina que se aproximava.

    Com aquela cega e santa confiana, que as singelas camponesas tm emsi, com o desamparo dos coraes que no se arreceiam das trevas nem da luz,descia a ladeira, descuidosa, a filha do pescador, procurando descobrir nas sombraso vulto querido do seu amado.

    Assim que o divisou, deitou a correr francamente para ele com os braosabertos.

    Mais parecia descer voando, que correndo; Miguel com os olhos do coraovia-lhe as asas, que a amparavam no vo.

    O vento, repuxando-lhe para trs as saias e os cabelos, contornava-lhe aredondeza correta da cabea e as curvas voluptuosas e macias do corpo; era comose a mo invisvel de um gigante a segurasse por trs, e pouco a pouco a viesseaproximando dos lbios de Miguel.

    Nessa ocasio, para ele Rosalina mais que nunca parecia um anjo; para osamantes vir por cima sempre baixar do cu quando se trata do objeto amado.

    Era aquilo um descer vertiginoso e quase fantstico: as pedrinhas do chodesprendiam-se e rolavam com rudo at a praia; os belos e adestrados ps de

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    Rosalina corriam pelo solo conhecido, com a facilidade com que deslizam pelotelhado os dedos de um mestre de piano. Atravessando a alameda, ora recebia emcheio o luar pelos claros da folhagem e pelos espaos de entre as rvores, ora secobria rapidamente de sombra, para reaparecer logo na luz. Miguel correu aoencontro de Rosalina, recebendo-a em cheio nos braos.

    Vinha ofegante de cansao, e nesse estado se abandonava de si, para detodo se entregar negligentemente aos braos do amante.

    Assim ficaram por algum tempo silenciosamente abraados; ela a respirarsofregamente e ele a fartar-se de v-la, queimando-a com esse olhar, que parece oreflexo vermelho do incndio que cai pelo corao.

    Desabraaram-se para segurar as mos um do outro; os amantes, quandoss, nunca tm as mos ociosas.

    Oh! Como esto frias! Disse Rosalina, tomando entre as suas as deMiguel.

    Tenho-as frias como tenho despedaado o corao. No h calor nasrunas! volveu tristemente Miguel e recolheu-se a cismar; porm, pouco depois,tomado de sbita agitao, ergueu com fora a cabea e rompeu a falardesordenadamente, como se a dor, que desde a vspera prendera em ferros,rebentasse vista de Rosalina, medonha e troadora, rompendo cadeias, violandorepresas.

    Ouve Rosalina! Eu tinha uma fortuna, uma esperana, uma alegria, umanica felicidade, desde o princpio de minha vida, isto , desde que te conheo, meuamor! Teu pai entendeu para si de transformar numa chaga sempre aberta isso queera o meu nico sorriso. Vais partir para Npoles e vais rica; conheo bem oscostumes dessa cidade: so maus e perigosos, principalmente para os ricos! Sersporventura a mesma quando l te vires, cercada de opulncia e de aduladores?...Essa dvida me mata!...

    E soluou.

    Miguel!... Tenho medo, minha Rosalina; pode muito a ausncia! Tenho medo de

    que te esqueas por uma vez do pobre artista! E que seria de mim se me deixassesde amar? Desaparece, e nada mais aqui fica que me aproveite! Apaga a luzinha queconduz o viajante, e v-lo-s perdido; toma o cajado ao cego, e v-lo-s cair; privado sol a planta, e v-la-s murchar; arranca do desgraado a crena em Deus, e v-lo-s sucumbir. Pois bem! Tu s a estrela que me guia ao futuro, o cajado que meampara na vida, a luz que me d crenas e a crena que me d foras. Desaparecee eu cairei nas trevas e morrerei sem crenas! Repito, Rosalina! disse Miguelcomovido e enxugando as lgrimas Repito! Tenho medo que te esqueas parasempre de mim!

    No, meu amigo, no me mais possvel esquecer-te - volveu a moa,conchegando para si o amante e passando-lhe os braos em volta do pescoo. Oamor que tenho, meu amigo, no entrou neste corao j feito e desenvolvido, no!ele aqui nasceu, fecundado por ti, foi pequenino e hoje est crescido, eduquei-opouco a pouco como se educa um filho querido, que sai de nossas entranhas;amamentei-o como a minha primeira esperana; alimentei-o depois com a tuadedicao; santifiquei-o ao calor religioso de teus sacrifcios e fielmente robusteci-oao claro vivificante do teu talento. Amei-te, porque s nobre, forte e dedicado! Hoje

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    o nosso filho querido, o nosso amor dono absoluto de mim; o corao, com afranqueza de me, habituada a fazer-lhe todos os caprichozinhos, j no reage. Eparece-te que eu seria capaz, que poderia, ainda se quisesse, enxot-lo da casa?No sabes que depois da recusa de meu pai eu mais e mais te quero? Oh! mas eleconsentir em tudo! meu pai bom e ainda no te conhece bem; logo que assimacontea, gostar necessariamente de ti. E muito mais sabendo que eu te amo tantoe tanto!

    E dizendo isso, Rosalina cada vez mais estreitava o amante com carinho.E ele, com os lbios juntos aos dela, sentia carem-lhe dentro aquelas

    palavras como beijos incendiados.Todas as trevas de seu passado dispersaram-se espavoridas como um

    bando de aves negras ao contato da luz daqueles beijos.Sentia-se novamente feliz, dessa felicidade, ou talvez, desta vaidade que

    enche os coraes ainda moos e enamorados, quando embevecidos recebem doslbios da mulher amada a confirmao da prpria fortuna. E assim foi que Miguel,possudo do inesperado contentamento, rindo e chorando, murmurou em segredo edesordem junto aos ouvidos de Rosalina:

    Fala! meu amor! Continua a dizer dessas coisas! Enlouqueo de te ouvirdizer assim a nossa felicidade! Dize! Dize que me amas muito e que me amars semfim.

    E o roar dos lbios dos amantes desprendeu um beijo, semelhante chispa, que o atrito do ferro levanta da pedra.

    Uma fasca sempre perigosa: pode fazer exploso.Sbito, um jato de luz vermelha inundou rpido o grupo abraado dos dois

    amantes.Se Satans existe, deve ser dessa cor a sua aureola.Rosalina soltou um grito horrorizada, grito igual ao da cotovia ao sentir a

    bala do caador, e caiu sem sentidos nos braos de Miguel, que imvel, hirto,chumbado terra, parecia uma esttua de bronze, tendo nos braos uma mulherbela e plida, de uma beleza e de uma palidez de mrmore.

    CAPTULO XV

    Continuava o sopro brando sussurrante da brisa do mar.Rosalina tinha a cabea pendente para a terra e os seus cabelos,

    indiferentes, brincavam ao soprar travesso da brisa com as pedrinhas soltas naladeira.

    O silncio principiava a coalhar.A cinco passos de distncia, de p, com uma lanterna furta-luz na mo

    esquerda, e com a direita sustentando uma machadinha de abordagem, estava doalto Maffei, plido de raiva, com a boca serrada a salivar biles.

    Luzia-lhe o olhar com a mesma vermelhido da lanterna; os cabelosempastados de suor, caam-lhe midos pela testa. Estava medonho.

    Era uma quadro sombrio e lgubre.A figura austera do velho, mergulhada na penumbra, contrastava com o

    grupo iluminado do primeiro plano. A atmosfera comeava de se fazer carregada e

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    pouco a pouco escondera a lua. O foco da lanterna aumentava a densidade dassombras, onde os olhos de Maffei brilhavam como os de um gato bravo. Esse olhartinha as fosforescncias da pupila do tigre.

    O desgraado Miguel sentia mais que nunca a influncia magnticadaqueles olhos que o fitavam da escurido; afiguravam-se-lhe a prpria sombra aespi-lo.

    Nessa ocasio, a lanterna tinha um qu de humana e atrevida: parecia umacara risonha e irnica e contrair-se no vidro sujo de p e a deitar para fora a lnguacomprida e ensangentada, lngua de luz, cuja claridade doa como um insulto.

    Quando essa claridade caiu em cheio no rosto de Miguel produziu o efeitode uma bofetada. Estremeceu e corou de vergonha.

    Felizmente, voltara-lhe o sangue frio.O velho, com um gesto imperioso e grosseiro, ordenou-lhe que o

    acompanhasse; Miguel maquinalmente abaixou a cabea, enquanto Maffei, semprecalmo, deu-lhe indiferente as costas e ps-se a subir a ladeira.

    Rosalina permanecia sem sentidos nos braos do amante, que, comtranqila delicadeza, segurou-a pelos joelhos com a mo direita e com a esquerdaamparou-lhe a cabea lnguida, e, como uma me faria ao pequenino, deitou-acarinhosamente no colo; depois, segurando-lhe as costas com o brao, f-ladescansar com cuidado a cabea em um dos seus ombros, e comeou a seguirsilenciosa e vagarosamente o velho.

    A luz da lanterna ia gradualmente amortecendo, proporo que no cu onegrume se desenvolvia.

    No meio do silncio, destacavam-se os passos cadenciados do velho e doranger de galhos e folhas secas, que o outono arrojara ao cho.

    Um ou outro passarinho, enganado pela claridade da lanterna ao passarMaffei, piava do seu esconderijo, cumprimentando o dia artificial.

    Quando a gente sobe uma ladeira, qualquer peso estafa logo e pareceavultar extraordinariamente.

    Depois de cinqenta passos, Miguel sentiu-se exausto. proporo que iasubindo, mais ngreme, mais pedregosa e mais difcil era a ladeira; firmava o p, e apedra em que firmava desprendia-se a rolar ruidosamente at a praia; ento oequilbrio e a agilidade substituam as foras, que alis lhe minguavam.

    Para animar-se apertava de vez em quando o corpo de Rosalina, ao que adesfalecida respondia com um suspiro tranqilo e duvidoso, como o ressonar deuma criana adormecida.

    Porm, pouco a pouco, foram desaparecendo os ltimos recursos ereproduzindo-se as dificuldades: o suor jorrava em bagas da fronte do moo; aspernas tremiam-lhe; a vista perturbava-se; a lngua seca, o corao dodo, a cabeaperdida; a respirao cada vez mais demorada e mais forte. O corpo de Rosalinaparecia de chumbo; o cansao fizera dele um corpo de gigante. Ora desanimava, orareagia; as foras iam e vinham. Era um vaivm de agonias.

    E nessa vertigem acompanhava ele com a vista esgazeada a luz vermelhada lanterna, que gradualmente ia-se afastando, diminuindo sempre.

    Sem saber porque, ligava certa correspondncia entre as prprias fora que,extinta aquela luz, fartar-lhe-ia o nimo para o resto do caminho; pedia mentalmentea Deus a vida para ela, com o mesmo fervoroso interesse como a pediria para si.

    Contudo, a lanterna estava j nos seus ltimos arrancos.O velho tinha com vantagens de foras aumentado o espao entre si e

    Miguel; mais dez passos, oito! cinco passos! Dois... e chegou!

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    A lanterna escondeu-se, a luz desapareceu para Miguel. O rapaz vacilou, aocair! Equilibrou-se!...

    Um vozear confuso e penetrante parecia-lhe dizer aos ouvidos nimo!Um esforo mais! Um ltimo arranco!O moo reuniu os destroos de suas foras; beijou com os lbios cobertos

    de suor o rosto gelado de Rosalina, e cortou de carreira os ltimos trinta passos quefaltavam.

    A lanterna crepitava o seu ltimo claro, podemos dizer, o seu ltimosuspiro, brilhou mais forte e morreu!...

    Nisto, Miguel acabava de atravessar a porta do fundo da casinha branca ecaa desamparadamente no cho, com Rosalina a seu lado.

    Desabou, quase morto.O suor corria-lhe de todo o corpo; a caixa dos pulmes erguia-se e abaixava-

    se com a sofreguido de um fole enorme fazendo grande rumor a respirao ao sair;a voz desaparecera; as plpebras fecharam-se; o suor convertera-se em umidadepegajosa e doentia, como a ltima transpirao de um tsico.

    Sentia vertigens e vontade de vomitar. Era um incomodo comparvel aoenjo do mar.

    CAPTULO XVI

    O pescador foi ao interior da casa e pouco depois voltou.Com a presena do velho, Miguel ergueu-se de um pulo era outra vez um

    homem.Num dos ngulos sombrios de um quarto, ngela, ao claro minguado da luz

    de azeite orava, Madona; a claridade mortia do nicho escorria at a varanda ebatia em cheio na palidez nublada do rosto de Rosalina. Estava sinistramenteencantadora.

    Maffei aproximou-se dela, arrastou-a at o leito e voltou.Um gemido da desfalecida atraiu para si ao mesmo instante ngela; para os

    coraes extremosos, um gemido sempre um apelo urgentssimo.Voltava o velho com as mos vazias e o olhar tranqilamente feroz; Miguel

    no era covarde, esperou-o sereno, de braos cruzados.

    Precisamos nos entender, disse Maffei com aspereza. Venha! E tomou olado dos abrolhos, esquerda da casa.

    Miguel seguiu-o silenciosamente.Entranharam-se na picada e desapareceram.O caminho no era freqentado, com o que se tornava mais difcil e em

    parte quase intransitvel.Miguel apenas o conhecia; o velho, porm, apesar dos obstculos e do

    negrume da noite, que se tornara sombria, caminhava desembaraadamente e atcom pressa; o outro seguia-o, perdendo-o s vezes de vista, cortando comdificuldade a vegetao enfezada, que lhe obstava a passagem; os galhoschicoteavam-lhe as pernas e o rosto; diversas partes do corpo sangravam com osespinhos, duas gotas de sangue, que lhe corriam pela face, lembravam duaslgrimas vermelhas.

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    Depois de vencerem duzentos dificultosos passos, deram subitamente coma rocha; achavam-se defronte do mar.

    As lufadas fortes do vento anunciavam prxima tempestade.O tempo parecia colrico e os dois homens calmos e sombrios.O velho sentou-se tranqilamente na nica pedra solta que havia e com um

    gesto convidou o companheiro a fazer o mesmo.Miguel aceitou o convite e ficaram juntos.A pedra era pequena, o que os obrigava a ficarem encostados, unidos, ss,

    como dois bons amigos de infncia.Depois de algum silncio, Maffei abriu a falar, porm era como se o fizesse

    por mera formalidade; falava como se estivesse lendo, era como se proferisse asfrases convencionais de um juramento perante um tribunal. Aquelas palavrasmetdicas e sem expresso verdadeira lembravam a missa. O velho falava como umpadre.

    Teodoro Rizio, principiou ele, viveu para vergonha sua e da famlia. Eradevasso e encontrado constantemente bbado pelos alpendres; foi acusado deassassino e morreu preso numa priso de Leorne. Sua desgraada mulher no osobreviveu por muito tempo, morrendo pouco depois, de tsica, dizem uns, demisria, dizem outros; de vergonha, digo eu.

    De desgosto... emendou Miguel, deveras chocado com as palavrasgrosseiras do pescador, que lhe caam na cabea, pesadas e inteirias, comoparaleleppedos de pedra.

    No isso verdade?... perguntou Maffei , fez secamente o moo.

    O velho continuou sacudindo os ombros, cada vez mais automaticamente.

    Ficou desses desgraados um filho; no sei se herdou do pai todos osvcios, porm certo ter herdado toda a misria, que o fez peregrinar pelas ruas deRoma, sem po, sem lar, sem famlia. isto ou no verdade?

    Meu pai, disse humildemente o filho de Teodoro, no me deixoumiservel, deu-me uma rabeca e ensinou-me a tirar dela o po para a boca.

    Mas foste um vagabundo! Fui. Bem, continuou o velho. Eu tambm fui pobre, eu tambm tenho famlia,

    no entanto nunca fui um desgraado! Porque foi sempre feliz, disse indiferente o moo. Mas sou muito ambicioso! muito! Entendes?! Disse o velho arregalando

    os olhos e batendo convulsivamente na perna de Miguel. J o sabia, respondeu este com calma.

    O velho continuou como se falasse para si:

    Fui pobre, verdade, mas trabalhei e trabalhei muito e por muito tempo,para juntar alguma coisa; poupei, especulei e consegui entesourar ainda mais! Hojesou rico! Bastante rico! Entendes? Porm, mais do que nunca ambicioso. Preciso deminha filha para subir, talvez venha a ser nobre, e no para dar-ta a ti ou a outroqualquer bomio.

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    O moo resmungou alguns sons ininteligveis.

    Bem sei, prosseguiu mais brando o velho, de tudo quanto se tempassado; Rosalina sofrer, por isso que te ama, mas espero que em breve estejatudo acabado. Tu ficas aqui e ns partimos. Por ora aceita isso para te arranjares.

    E assim dizendo procurou manter na mo de Miguel uma bolsa comdinheiro, que tirara da algibeira.

    Guarde-o! disse este com altivez. No preciso de esmolas! No queres ento aceitar? insistiu Maffei. No! disse resolutamente Miguel, levantando-se. Contudo, creio que no nos aparecers em Npoles... impossvel!... Impossvel?!... perguntou Maffei, cuja clera principiava a transpirar. E

    que vai l fazer? Sim! que vais buscar?!... Ver Rosalina... disse naturalmente Miguel, procur-la, dizer que a amo e

    amarei sempre! essa a tua resoluo? At a morte.

    A resoluta calma do artista incendiou o nimo do velho, e, transformando-orpido como um raio, assistiu-lhe sangrenta a raiva por todos os poros, como sedentro lhe rebentasse uma aneurisma de clera.

    Rangiam-lhe os queixais, roncava-lhe a respirao, partiam-lhe chispasdiablicas dos olhos; as unhas, de to cerradas, sangravam-lhe as palmas. E,medonho e insolentemente nervoso, levantou-se cambaleando.

    Cravou por algum tempo no moo o olhar esfogueado e com uma voz, queseria a do tigre se o tigre falasse, bradou:

    Preferes antes morrer! desgraado! a deixar de v-la? No isso?! fala!

    O velho roncava estas palavras na posio da fera que arma o pulo.Firmando nas plantas, com as mos abertas como duas garras, encarava ferozMiguel, como suspenso espera da resposta suprema.

    O amante de Rosalina, depois de leve perturbao, meneou a cabeaafirmativamente.

    Este gesto foi o grito de guerra!Um bramido selvagem ecoou nas cavernas do peito do velho! E a pantera

    arremeteu-se contra a vtima!

    CAPTULO XVII

    Entretanto, as nuvens negras cresciam no cu, como os fantasmas crescemna sombra, como remorso cresce no corao, como a ferrugem cresce no ferro ecomo a lcera cresce nos pulmes.

    O mar, cada vez mais encarapinhado, quebrava-se de encontro rocha,salpicando-a de cuspiduras espumosas e grossas, como as de um brio.

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    Com este salivar a pedra se tornava mais e mais escorregadia. J o p noencontrava resistncia.

    Peito a peito, brao a brao, lutavam os dois homens; ora escorregava um ese firmava no adversrio: ora cambaleava o outro, e restabeleciam o equilbrio.

    A luta continuava.Abraaram-se mais. Estreitavam-se com o frenesi de dois amantes moos

    que se encontram depois de longa ausncia.E lutaram!De repente, deslocou-se o ar com a detonao da queda de um s corpo.Foi uma queda para dois; rolavam formando um s vulto.Lembrava aquilo uma besta informe nas agonias da morte: os dois

    formavam uma fera.Era a mocidade fundida na clera de um velho. A fora dos vinte anos e a

    clera dos cinqenta eram o motor dois do bruto negro, que engatinhava, rolava e setorcia na lisura da pedra, um monstro marinho, fora dgua.

    A claridade fosfrica do mar, a besta movia-se em todos os sentidos etomava novas propores; parecia fantasticamente ora crescer, ora diminuir.

    A boca espumosa do velho esfregava-se pela cara do moo, segredando-lheem tom terrvel e quebrado pelo cansao estas palavras:

    Pois morrers! Miservel!...

    E mordiam-se.

    Pois morrers!

    Procuravam matar um ao outro.Lutavam!E a rocha cada vez mais escorregadia, o cu mais negro e o mar mais

    bravo.A luta tendia a enfraquecer: a fera ia sossegando; a massa bruta dilatava-se:

    a mole negra parecia diluir-se.Era o cansao.Desfaziam-se como uma nuvem negra no horizonte.Como um urso enorme e velho, arrastavam-se surda e vagarosamente para

    a borda do precipcio.Miguel se apercebera disso e reagiu: com um esforo supremo lograra tomar

    sob si o velho, ficando de gatinhas sobre ele. Tinha um aspecto feroz; o sangueescorria-lhe por entre os dentes e pelas ventas; a posio, como o olhar, eramirracionais. Nesta atitude, ia atirar-se garganta do adversrio, quando este,concentrando o resto das foras, reagiu por sua vez: com um empurro expeliu de sio moo.

    Miguel rolou pela pedra at segurar-se nas asperezas das bordas doprecipcio.

    Maffei no lhe dera tempo para mais, de um salto deitou-se ao comprido nocho, e engatinhando com ligeireza de tigre, agarrou-o pelas costas.

    Cinqenta ps os separavam do mar, e nesse ponto a pedra erainteiramente ngreme, quase cavada.

    Miguel torcia-se todo nas mos do velho.

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    De repente, um grito agudo e rpido sucedeu a uma gargalhada surda,estalada pelo cansao. Gargalhadas como s sabem dar um velho mau ou uma medoida.

    Maffei, e bruos sobre a roda, via tranqilamente rolar pelo precipcio ocorpo ensangentado de Miguel. Um sorriso cansado e triunfante encrespou-lhe oslbios esfolados, ao ouvir o rudo cavo de um corpo que cai na gua.

    A tempestade, que se preparava ameaadora, desabou encerrando oespetculo; e o mar, contente de sua presa, gargalhou com seu rir de espumas.

    Comeou a chover copiosamente.Tranqilo, como nos seus dias mais tranqilos, o velho levantou-se, sacudiu

    a roupa molhada e ps-se a andar para casa silenciosa e pacificamente, como umamenina quando volta do banho do mar.

    CAPTULO XVIII

    No dia seguinte, Maffei e a famlia abandonaram a formosa ilha, e, no seucompleto isolamento, debatia-se a casinha branca nas vascas de um incndio,ateado de propsito pelo pai e Rosalina.

    Defronte daquele chamejar doido e desapiedado, Castor, o co, uivavaplangentemente.

    SEGUNDA PARTE

    CAPTULO I

    Na clebre rua de Toledo, em Npoles, porventura mais bela hoje do que noano de 1843, poca em que sucederam os fatos que estamos narrando, figuravauma casa cinzenta com cimalhas de mrmore cor-de-rosa.

    O edifcio tinha trinta metros de altura sobre sessenta de comprimento, e, ajulgar da colorao e feitio de portas e janelas, e atentando para as folhas de acantoque ornavam o baco das colunas de dez dimetros de altura e pertencentes semdvida rica e variada ordem corntia, era talhado pela escola antiga.

    A face dianteira, posto que um tanto chata, era bem arquitetada, podendoser dividida em trs partes distintas. A central, com cinco janelas de honra e trsportas de entrada geral, sendo a do centro mais larga e mais guarnecida - e as duaspartes laterais, inteiramente iguais entre si, com trs janelas cada uma e fechandoem graciosa curva as extremidades do frontispcio.

    Destas extremidades, partiam duas alas de colunas, que, sustentando umesfrico avarandado de balastres do mesmo mrmore das cimalhas, ladearamelegante e circularmente o edifcio.

    O porto central com pilares de mrmore tambm cor-de-rosa abria para umtrio, espcie de corredor quadrado, cujas paredes betumadas com terra cozidaapresentava, em alto relevo, assuntos mitolgicos, notando-se alguma monotonia nadisposio simtrica das figuras meio humanas e meio irracionais, sendo na maiorparte fabulosas.

    O cho desse corredor, ladrilhado de pedra de diversas cores, terminava poruma ampla escadaria de pedra calcria, dividida em dois lances, que seencontravam na extremidade superior. A uma varanda gradeada com vista para o

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    corredor dava passagem para o interior da casa por uma larga e bonita porta, quecomunicava imediatamente com a sala de espera, na qual uma infinidade deestatuetas, vasos de prfiro e outros muito variadssimos objetos de arte distraiam aateno de quem l se achasse.

    Seguia-se a sala de visitas, preparada e guarnecida com gosto e rigor,sobressaindo do roxo escuro das paredes a brancura opaca dos bustos e estatuetasde jaspe colocadas de espao em espao sobre trabalhadas peanhas de basalto;magnficas mesas de sicmoro, caprichosamente talhadas, refletiam-se, pejadas dedelicadas tetias, nos espelhos oitavados com moldura de metal dourado embutidono bano; o cho, de madeira brunida, luzia como uma lmina de ao polido,refletindo o fundo artisticamente talhado das cadeiras e das mesas.

    Atravessavam-se ainda algumas casas, destinadas a sales de baile,alcovas particulares e cmaras de recreio, tais como biblioteca, sala de fumar,quarto de armas, etc., at chegar a uma enorme varanda que costeava emsemicrculo de um lado a outro toda a casa.

    Efetivamente, dessa varanda gozava-se de uma vista esplndida evariadssima: das janelas da frente devassava-se a Chiaja, Vila Realie e lados deCapo di monte; quem ai estivesse veria o formigar constante e geral da populao esentiria o confuso motim dos cafs, restaurantes, ourivesarias e casas de modas, deque j ento abundava a rua de Toledo; da envolveria agradavelmente com a vistao soberbo Palcio Real com o seu jardim beira do golfo, e os seus grupos debronze no comeo do jardim.

    Do fundo, davam as vistas sobre uma magnfica chcara, pertencente casa, bem plantada e guarnecida, tendo no centro um belo chafariz de mrmorerajado. Galgavam depois os olhos os grupos amontoados de casas e quintais, aalcanavam finalmente os pitorescos arrabaldes, anunciados pela copa de rvoresseculares.

    CAPTULO II

    No h nada to desastrado e perigoso como mudar repentinamente deposio.

    Modificam-se os caracteres mais firmes e delicados e confrangem-se ascrenas mais arraigadas; um desmoronar doloroso, um despertar de nufrago:iluses desfeitas, convices profanadas, afetos destrudos, tranqilidade nula, amorproscrito tais so os efeitos da luta desigual dos hbitos de toda vida com ocapricho vaidoso de um dia; tais so os rastros que, aps a tormenta, sobrenadam flor do oceano revolto da alma, restos de um corao que naufragou.

    Grosseira e estpida a que leva o homem a trocar a paz segura do lar pelasuposta fortuna.

    Foi isso que sucedeu famlia do pescador - enriqueceu.Para alguns, enriquecer naufragar, no em alto mar, porm em alta

    sociedade.O vcio a fome desse naufrgio.Maffei enfronhara-se na opulncia como uma casaca alheia: sentia-se mal;

    incomodavam-lhe as mangas compridas demais, porm a tudo fechava os olhos,contanto que desses sacrifcios resultassem para ele dignidades e consideraes.

    Era o seu sonho dourado.E com essas honras e com esses supostos ttulos acharia ele a felicidade?

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    No, de certo, porque a verdadeira felicidade incompatvel com o rudo e ofulgor. No, porque ela tranqila, singela, econmica a alheia a tudo que brilhante e espetaculoso.

    A felicidade, como o mais neste mundo, relativa, e s pode subsistir dentrode seus competentes limites.

    Maffei, cego pela ambio, buscava uma felicidade alheia. Desgraado!...fatalmente seria vtima da sua cegueira, tanto quanto uma ave que tentassemergulhar ou um peixe que quisesse voar.

    A casa cinzenta da rua de Toledo era propriedade do antigo pescador.Com algum jeito, conseguiu introduzir nela o jogo elegante; receber todos os

    sbados e gastar todos os dias.O Ouro para o parasita o que o im para o ferro: em pouco tempo,

    encheram-se os sales de Maffei. E no meio daquela gente que o adulava, o ricoburgus sentia-se grande, invejado e respeitvel..

    Entretanto, aquela roda se desenvolvia e multiplicava com a prodigiosafecundidade da larva.

    Mas donde vinha essa gente?No sei!... A podrido que responda donde lhe vm os vermes.Tudo neste mundo tem a sua conseqncia, o seu squito prprio de

    misrias, o seu acompanhamento natural e espontneo - a glria tem a vaidade; oamor o egosmo; a podrido o verme. a lei fatal dos contrastes e dos extremostocados: no h sentimento que no tenha uma extremidade na terra e outra no cu,um p no bero e outro no tmulo, um olho na luz e outro na treva.

    Foi por isso que, a cabo de trs anos, Maffei tinha com hericos esforos,cevado, relacionado e habituado aos costumes de sua casa uma roda de homenselegantes, que fumavam, bebiam e jogavam custa dele.

    Houve que lhe proporcionasse ocasio de especular com os seus bens:triplicou-os.

    J era poderoso e ridculo, antiptico e adulado; justo viesse a ser rico edesgraado.

    E, com efeito, passava os dias entregue sempre a esse cogitar aborrecido,que produz a preocupao doentia dos homens excessivamente ambiciosos; nadadesfrutava, nada o distraa, nada podia arranc-lo das profundezas de suaspreocupaes; vivia a mergulhar no fundo dessa cisma constante e estril, que fazde um homem um bicho insuportvel.

    Maffei seria insuportvel, se no fosse rico.Mesmo durante o sono, o pobre diabo no vivia menos apoquentado: nessa

    segunda existncia aturava coisas horrveis! s vezes, numa especulao, perdiatodos os bens e via-se a esmolar inteiramente pobre com a filha; outras vezes, davapara roubar e era preso como ladro, condenado s gals e coberto de grilhes epancadas; noutras ocasies era Miguel que lhe aparecia formidvel, saindo do mar,cheio de sangue, de limo e de clera, a exprob-lo como se espancasse um co; e,coisa mais singular, Maffei, que acordado s se lembrava de Miguel com indiferenae desprezo, durante o sono temia-o covardemente, e deixava-se bater por ele,trmulo e suplicante a seus ps, confessando as prprias culpas e reconhecendo arazo da parte do adversrio. Um dia, Rosalina afigurou-se-lhe descomposta e sempudor a injuri-lo; outra vez, foi enforcado e seu carrasco era Cristo, que do alto docadafalso, potico, louro, cheio de bondade, sorria piedosamente para ele; cometia,s vezes, sacrilgios e ento acordava em gritos e prantos; enfim, Maffei durante o

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    sono sofria horrivelmente dominado e combatido por um inimigo tremendo e mau,que o fustigava e repelia apesar de sair dele prprio.

    Queremo-nos referir a esse eu, que durante o sono sai de ns e parteconstitui livremente a sua individualidade, pensando, praticando e resolvendo muitoa seu bel-prazer, sem nos ouvir, sem nos consultar.

    Vezes h que, durante o sonho, a despeito da nossa honra, roubamos, adespeito da nossa coragem, choramos aos ps de um inimigo, e a despeito donosso amor, matamos o prprio pai ou irmo. E o eu independente e arbitrriodos sonhos faz-nos caprichosamente assassinos, ladres e covardes, sem por issoter nenhuma responsabilidade ou castigo.

    Por outro lado, Rosalina transformava-se de dia para dia. J no dava maisa mais plida idia da antiga camponesa, formosa e lou, cheia de singela ternura,amada, mulher na idade, criana na inocncia. Alm da beleza, nada mais restavadesse encantador mais divino que humano, mais anjo que mulher, desse ente queoutrora com a sua garganta e o seu corao incensava de poesia e cantos matutinosa casinha branca.

    Fizera-se elegante e no sem trabalho.Teve de vencer certos obstculos renitentes como a linguagem, a princpio,

    depois os movimentos, a voz, o olhar, o sorriso, tudo, toda essa beleza foranecessrio desmoronar, e com que dificuldade! Para sobre as runas dela construir-se outra beleza mais falsa, mais cara e menos rara a elegncia. A elegnciacomea sempre onde a natureza acaba, uma viciosa continuao pelo homem.

    As regras do canto, os passos da dana, a msica, os preceitos decivilidade, a distrao afetada, a gramtica so coisas fceis de aprender nameninice, porm obstculos assustadores na idade em que j se no tem respeitoaos mestres.

    Todavia, Rosalina venceu todas as dificuldades.Agora, no a incomodavam mais os vestidos justos, decotados e de enorme

    cauda, afizera-se aos sapatinhos moda francesa, e o triunfo seria completo se, devez em quando, sob os invlucros de seda e de rendas bordadas, no quisessem asdesenvoltas carnes da outrora camponesa, proclamar sua independncia, violandocolchetes e estalando alguns pontos mais delicados do vestido.

    Quanto no custou habituar aquelas belas mos to morenas e togordinhas s luvas apertadas!

    Os dedos repeliam os anis, o pescoo o colar, os braos a pulseira!Como no suspiravam os delgados ps pelos sapatos frouxos com que

    dantes corriam?E os cabelos? Os belos cabelos pretos de Rosalina, que dantes to

    vaidosamente se ostentavam ao sol com seus reflexos de azul-ferrete? Coitados!Choravam agora escondidos e presos nos caprichosos penteados cheios de floresartificiais e pedrarias. Mas na sua raiva, tinham razo os cabelos, que to bonitoscomo aqueles, compravam-se falsos penteados; porm to belos cabelos comodantes mostrara Rosalina, s os pudera ostentar quem os possusse naturais.

    Em suma, Rosalina j no era uma rapariga, era uma senhora.Conhecia todos os segredinhos das salas, j sabia ostentar um sorriso

    fingido as visitas de cerimnia, aturava maadas sociais com aparente alegria,ajeitava a fisionomia a sorrir e ficar triste, segundo a ocasio, como impe a sbiadelicadeza, tinha amizades convencionais, ares de proteo e tinha tambm sempreengatilhado nos lbios um formidvel Oh! para todas as pessoas que lhemereciam respeito e acatamento.

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    Estava completa a obra.O ouro derretera-se, dele levantaram-se as duas espirais de fumo

    Civilizao e Hipocrisia. Estas duas foras combinadas possuem um fludo capaz detransformar um anjo em mulher e uma mulher em demnio.

    Rosalina respirou esse fludo e aprendeu a grande cincia da vida sabiaesquecer, sabia odiar e sabia mentir.

    Quando a gente chega a conhecer tanta coisa no pode mais, nem precisaaprender o que ser boa e honesta. Maffei cada vez estava pior.

    A despeito da tua to prspera fortuna, entristecia progressivamente comoum velho urso de feira; vivia cada vez mais concentrado e sombrio, procurando oisolamento e a solido.

    Afetava uns instantes de prazer quando se metia na roda dos amigos;chegava mesmo, com fora de vontade, a arranjar uma espcie de sorriso artificial,com que os obsequiava; consistia essa espcie de sorriso em dilatar os lbios,avincar as peles franzidas do rosto, que lhe sustentavam as mandbulas, e por entreos dentes soprar uns sons bestiais, que se podiam classificar entre uma notadesafinada de clarinete e o ronco gutural de um porco.

    Estava no entanto civilizado tinha cabeleireiro prprio, vestia-se comdistino, bebia licores que estragam o estmago e o crebro, e jogava to bemcomo qualquer fidalgo de alta linhagem.

    Que faltava, pois?Simplesmente duas coisas esperar mais algum tempo e casar a filha com

    algum titular de pura nobreza e reumatismo gotoso. Bela expectativa!Da famlia, foi ngela quem menos se modificou. Cada vez mais devota,

    encerrava-se no quarto, indignada contra tudo e contra todos. Que no aprocurassem! No se queria comunicar com pessoa alguma. O que, digamos depassagem, sobremaneira satisfazia o ex-pescador, que pensava consigo: Ora quediabo vai fazer nas salas esta velha ridcula e burguesa, seno incomodar a mim edivertir os mais? Antes trate ela de liquidar este restinho de vida, que para pouco ounada lhe poder servir.

    Contudo, ia a boa me ngela bocejando as suas interminveis oraes etransformando insensivelmente a religiosidade em mania. Mais dois passos edespenhava com certeza aquela carga de ossos no idiotismo.

    CAPTULO III

    Fatal metamorfose!Maffei e a filha rolavam pelos despenhadeiros da sociedade; dera-lhes o

    primeiro empurro a cobia, a posse o segundo, depois o orgulho e finalmente ovcio. No cair vertiginoso, tentaram, baldadas vezes, agarrar-se s asperezas doprecipcio e no conseguiam mais que sujar as mos, porque a lama faz escorregare suja.

    Afigurava-se-lhes, entretanto, estarem a voar para cima; tm destes efeitossingulares as grandes quedas. s vezes supomos subir quando evidentementecamos. Viam tudo luzir em torno deles, sem se lembrarem que a lama tambm temo seu brilho, em lhe batendo a luz... do ouro.

    E caam! caam sempre, porque o mal como a lua - cresce ou diminui,nuca estaciona.

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    Uma noite, seriam duas da madrugada, os sales da casa da rua de Toledoreverberavam ao claro aristocrtico das mangas multicores de cristal.

    Era noite de baile.O baile tem um qu de morcego - s aparece noite e rouba as cores s

    raparigas.Havia grande folgana na casa, porque muito se ria e danava; a festa

    chegara s fases do frenesi e da loucura.Em uma das salas, porm, lvido, monstruoso e feroz, encerrado ali como

    uma fera na jaula, o jogo devorava, silenciosamente, terras, palcios, jias, dinheiroe reputao; era um tragar de jibia - engolia sem mastigar.

    O silncio indicava que o monstro fazia a digesto surda e pesada, pormfortssima desgasta o ouro e o diamante com a imperturbalidade e pachorra deum cnego velho e gastrnomo, que rumina, com apetite e mtodo, o fruto dacaridade do povo.

    A conscincia sentia vertigens de olhar por muito tempo para aquele grupo,espcie de autmato, movido pela cobia e governado pela fora abstrata do vcio.

    No meio da mesa, brilhava como um centro planetrio, o monte de moedasde ouro, em torno do qual toda a fora e ateno dos circunstantes gravitavamimpacientes e desordenadas.

    Era o centro de gravidade das almas daqueles miserveis; para eleconvergiam todos aqueles sentidos cariados e todos aqueles coraes sujos - ptria,famlia, aspiraes, glria, tudo, tudo se resumia no punhado de moedas.

    No se ouvia palavra.Como esttuas movedias, atiravam boca escancarada da fera os seus

    bens, os do filho, o futuro da prpria famlia e da alheia.E a fera, como uma vala de cemitrio, ia sorvendo em silncio tudo o que lhe

    lanavam, enquanto todos jaziam a meditar, que tambm a gente medita para fazero mal.

    Todavia, toda e qualquer conscincia tem horror ao jogo; a ningumincomoda tanto o tapete verde como ao prprio jogador - enquanto lana sorte oque possui, calca aos ps a pobre conscincia, que, ao lado das escarradeiras,dorme bria e envergonhada debaixo da mesa.

    O salo principal do baile oferecia um espetculo inteiramente oposto ao queacabamos de esboar.

    No se ouvia aqui o ressonar pesado do jogo, sentia-se a febre vertiginosada dana; aqui era tudo delrio e loucura. A atmosfera morna, pesada, abafadia, ede um branco opaco, enervava a cabea e dilatava os sentidos.

    A atmosfera de um baile daquela ordem, no seu apogeu, afetasingularmente a economia animal dos moos. O corao como se derrete ao calordos galanteios, dos perfumes, das luzes, dos vinhos, dos vapores estimulantes queexalam os corpos cansados das mulheres e derrama-se por todo o corpo como umfiltro diablico e sensual, que percorre e excita os tecidos orgnicos, precipitando assuas competentes funes; o exerccio da valsa d ao corao formas extravagantese caprichosas f-lo pular, estremecer e palpitar; e, conforme as impresses querecebe, informa-se, dilata-se, encolhe e chega a tomar formas.

    A gente mais facilmente ama nessas ocasies porque a atmosfera e ocansao aceleram os fenmenos vitais. Em tais circunstncias uma resistncia quase impossvel - afinal o corpo descai e languesce voluptuosamente; percorretodos os membros uma moleza gostosa e doentia; sentimos ccegas nos cantinhosda boca e no interior das ventas; o rosto afogueia-se, desfalece a energia; o hlito

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    queima; os dedos criam uma sensibilidade igual da lngua; o vtreo dos olhos raia-se de sangue e faz-nos ver tudo por um prisma vermelho e fantstico.

    O pio no produz efeitos to deslumbrantes.Quanto mais a gente dana, quanto mais se agitam os membros estafados,

    tanto mais se envenena o ar; as flores terminam a obra roubando o pouco oxignioque resta na atmosfera. Resulta de tudo isto um ar viciadssimo e to gasto econdensado que se pode comer em vez de respir-lo.

    Quanto mais tempo dura o baile e com ele a aglomerao e o exerccio,tanto maior e mais veemente a necessidade de respirar, e ento sorve-se comsofreguido o ar e o p j muito usados por todos.

    Os pulmes aspiram e expelem sempre o mesmo ar e o mesmo p.O ar como um pensamento e o pulmo como um crebro, acontece que

    o mesmo ar penetra, como uma idia geral, todos os pulmes, e esse ar ou essaidia nica corre toda a sala, entra por todos, domina quem a recebe e acaba porformar, identificando toda a sociedade - um s pulmo e uma s cabea, isto , umas vontade e um s querer.

    Eis a o que era um baile em casa de Maffei. Simplesmente uma reunio demoos de ambos os sexos, metidos numa sala bem fechada, onde danavam,pulavam, cansavam e apodreciam, como muitas mas em um cesto, onde bastante haver uma podre para contaminar e corromper as outras.

    Esse contato infernal era uma lgica conseqncia do ar viciado e dasimpatia.

    E tanto assim que em algumas ocasies no queremos tomar parte numdivertimento que nos parece mau, e, uma vez entrados, empenhamo-nos nele tantocomo os que l estavam; veja-se de parte de um baile e este se nos afigurar umareunio de doidos. Num combate se verifica a mesma coisa - travada a luta sotodos bravos; nos crceres so todos maus; nos hospitais so todos doentes; em umnaufrgio so todos religiosos e assim por diante.

    O ar sempre transmite a quem o respira o carter do lugar em que se acha,como no leite a ama transmite criana, que amamenta, todos os seus males fsicose morais.

    Para fazer um homem mau bastante obrig-lo a respirar com os maus.E h quatro anos os pulmes da bela Rosalina enchiam-se com o

    mesmssimo ar que uma roda m e corrupta at as pontinhas dos cabelos, sorvia eexpelia por todos os poros.

    CAPTULO IV

    Mas que roda era essa to esquisita?Donde vinha semelhante gente, e para onde se destinava?Vinha do nada e caminhada para o nada, pouco mais ou menos...

    De quem ou de que se compunha?

    De restos.Expliquemo-nos.Em todas as grandes capitais, h deste gnero de bomios aristocrticos,

    que Dumas Filho, referindo-se aos de Paris, intitula Demi-Monde, espcie de ilhaflutuante, que bia flor da sociedade universal.

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    Em Npoles, essa sociedade de ouropel florescia em 1846, comescandalosa aceitao, e, sustentando-se por necessidade, ia caminhando,podemos dizer, com regularidade, substituindo a nobreza pelo dinheiro e o dinheiropela nobreza, e, na falta de algum destes agentes, socorrendo-se formosura e mocidade, na ausncia dos quais ainda lanava mo, como ltimo recurso, dotalento de savoir-vivre e da arte de se meter em toda parte e de saber tirar partido detudo.

    Essa singularssima e perigosa prole principiou do seguinte modo: - Umfidalgo arruinado, depois de atirar pela janela do desperdcio o ltimo centavo e, nopodendo abdicar para sempre dos seus inveterados hbitos de opulncia, procurouum burgus rico com o fim de, muito em segredo, nele se arrimar; o burgus, poroutro lado, tambm precisava do auxlio da nobreza, para ter importncia e subir;reunidos satisfaziam mutuamente o til e o agradvel. Fundiram-se.

    Dessa combinao resultou luz e movimento. O paraltico prestou olhosao cego, e o cego pernas ao paraltico. E assim puderam ver e andar.

    Ora, tudo aquilo que v e anda, pode ir para diante e suscetvel deprogresso.

    Foi o que sucedeu prosseguiram.Pelo caminho foram atraindo com a luz da sua idia os companheiros que

    andavam desnorteados e erradios procura de um rumo.A luz transformou-se em farol os nufragos sociais engrossaram o grupo.As mulheres, que se desacreditavam na alta sociedade, vinham, repelidas

    pelos competentes maridos e pelas competentes famlias, refugiar-se nessa roda; osfilhinhos, ou melhor, as causas inocentes desta debandada, chegavam juntamentecom as mes repelidas e com elas se educavam no mesmo meio.

    Estas malfadadas crianas cresciam e, quando, por fraqueza ou por falta depundonor, no fugiam envergonhadas, formavam a parte moa da SociedadeFlutuante. As vagas dos maridos eram razoavelmente preenchidas e jamais os filhosconheciam os verdadeiros pais.

    Era mais uma roda de enjeitados do que uma roda social.Compunha-se especialmente de destroos e de vergonhas ali o que era

    um resto era um embrio ou tinha j deixado de ser ou ainda no era; ningumtinha um lugar definitivo, porque logo que chegasse a alcan-lo desertavaincontinenti.

    Podia tambm aquilo ser considerado como um curso preparatrio;habilitavam-se ali para poder galgar um lugar fora, e s na hiptese de nadaencontrar exteriormente, recorriam Sociedade Flutuante, como remdio extremoou como ltimo porto de salvao.

    E em verdade que, at certo ponto, achavam os fugitivos, na obscuridadedessa roda, abrigo seguro para as suas vergonhas e pesares. Esses eram osdesesperanados.

    Conclu-se que aquilo podia ser ou um tmulo, de qualquer modo seriamtrevas, semelhana do homem, cujos extremos so sempre sombras; podia ser umprincpio ou um fim, porm nunca um meio, isto , uma posio social.

    Em pblico, todos odiavam essa sociedade; em particular muitos aprocuravam e ningum, que pblica ou particularmente, queria, por gosto, ali ficarpara sempre. Quem ali permanecia era por no obter absolutamente outro recurso.

    Desse feito, pensava Maffei, e tinha para si que o casamento de Rosalinacom um fidalgo arruinado abriria na nobreza uma brecha assaz larga para ele evadir-se tambm. Um fidalgo, quando empobrece, continua o burgus a pensar, em

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    geral cai e com o choque abre na sua classe uma fenda por onde vai se introduzindoa burguesia.

    Frgil e desgraada coisa a nobreza que precisa de dinheiro para norachar.

    Era com essa fenda que contava o antigo pescador. E contava muito bem,porque os homens, ao contrrio dos gases, quanto mais pesados mais sobem.

    A Sociedade Flutuante avultava de dia para dia; ultimamente, tornara-se atbastante conhecida e um tanto censurada, e, se bem que afetasse tima aparncia,a polcia tinha-a de olho.

    Os seus mais perigosos detratores eram justamente os seus prpriosadeptos diziam mal uns dos outros e, a falta que este, com mil cuidados seesforava por encobrir, aquele lha devassava pela sorrelfa.

    Iam contudo vivendo e alis regularmente.O maior desejo das raparigas que l caiam era casar fora dessa roda ou

    com algum que ali estivesse por mera curiosidade, como simples amador. Se ologravam, saam sem sequer voltar para trs a cabea desapareciam por umavez, e faziam bem.

    Quem mais gostava da Sociedade Flutuante eram os rapazes solteiros. Os amores, como diz Dumas, so a mais fceis do que na alta sociedade e maisbaratos do que na baixa.

    Isto compreende-se com os amadores, com os que a freqentavam poresprito de - curiosidade, espcie de scios honorrios, porque com os outros, isto ,para os scios legtimos e efetivos, no era essa sociedade mais do que um recursosofrvel, em falta de outro melhor.

    Estes eram os velhos ou parvos.Se era um nobre que vinha arruinado e gasto da alta sociedade, chegava

    cansado e s queria que lhe dessem uma cadeira para descansar ou uma camapara morrer; e se o sujeito era nascido a e se tivesse deixado ficar, provaria comisso que era simplesmente parvo e ento s desejava que o deixassem viver nalama em que tinha nascido.

    Finalmente, velho ou moo, nobre ou parvo, o certo que para fazer parteda Sociedade Flutuante eram necessrias duas coisas principalmente: a primeira no ter juzo, a segunda no ter brios.

    Agora que fica conhecida a roda de Maffei, lembro que h quatro anos vivianela Rosalina.

    CAPTULO V

    O baile continuava crepitante a devorar sade, dinheiro e reputao, comoum incndio em que j ningum se entende e cada um s cuida de si; com adiferena, porm, que no sinistro do fogo procurava-se um meio de salvar e no dobaile se procura um meio de perder.

    O lcool, combustvel perigoso, aumentava progressivamente a densidadedo incndio; as garrafas vazias tinham j maioria sobre as cheias - sintoma infalvelde desordem.

    Assustador era o aspecto do salo de dana sobreerguia-se em espiraisalcoolizadas e insalubres um vozear confuso e bestial, que se podia chamar o fumoda incinerao das conscincias.

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    Entretanto, na outra sala, o jogo, como uma pstula, ia apodrecendosurdamente o que alcanava.

    A razo no tinha para onde fugir de um lado o fogo e do outro aputrefao.

    Rosalina, bela, mas j dessa beleza satnica das bacanais - pendente acabea, requebrando o olhar e o colo nu, valsava no salo principal com um rapazde bigodes pretos, reclinada voluptuosamente sobre ele, entregues ambos aodesamparo, feliz e enebriante do prazer e da fadiga. Ele, arquejando, segredava-lheumas coisas grosseiras e apaixonadas, e ela, ela sorria com indulgente gosto aosom venenoso das palavras que saam truncadas e ardentes dos lbios domancebo.

    Depois de um trmulo dilogo, imperceptvel para os outros, em quedeliberavam mais os olhos que as palavras, ela abaixou comprometedora ternura aspestanas, como respondendo fixidez interrogadora dos olhos abrasados do par, eele, com reconhecido sorriso, recolheu esse abaixar de plpebras, que queria dizer -sim.

    No mesmo instante separaram-se, e Rosalina, lanando sobre o moo umolhar significativo, desapareceu do salo, sem ser percebida.

    Atravessou sozinha e ligeira duas salas, passou pela varanda, desceu aescada que conduzia ao primeiro andar, e, procurando abafar o som dos passos,apalpando cautelosamente as sombras dos corredores, chegou a uma porta, abriu-ae entrou.

    Era a porta dos seus aposentos particulares, silencioso e perfumado ninho,onde o rudo do incndio de cima chegava trmulo e desfeito, como o murmrio deuma tempestade ao longe.

    Rosalina ao entrar correu de todo o farto cortinado de damasco e atirou-seextenuada sobre um div. Sentia-se preguiosamente fraca e terna, tinha unsdesejos vagos e incompletos, uma moleza voluptuosa e agradvel que a obrigava afechar involuntariamente as plpebras.

    Pequena lamparina de gata espalhava nos aposentos meia claridademacia, doce, morna e sonolenta, como o olhar oriental de um elefante.

    Envolvida nesse nada cor-de-rosa, a moa meditava.

    E em que!...

    caprichos da imaginao! Em Miguel. Desde que o esquecera era aprimeira vez que o vulto sombrio do seu amado primitivo lhe acudia a memria;dantes acudia-lhe muitas vezes, porm ao corao. Sem saber porque, Rosalinacom tal lembrana comeou a sentir o princpio de uma pontinha de remorso tmido e flexvel como o espinho ainda verde mas j agudo. Estava em tempo dequebrar facilmente, porm j doa.

    Quando de muda para Npoles, Rosalina, como nica resposta que obtevedo pai a respeito de Miguel, ouviu estas duas slabas: Morreu.

    Naquele momento, esta palavra caiu-lhe inteiria sobre o corao como umapedra sobre um tmulo, e, todavia, a idia de viver em Npoles com opulncia lhesopeara as lgrimas que porventura queriam rebentar; mas, pouco tempo depois, asfestas, o luxo, o amor dos homens, a inveja das mulheres e o cime e desesperodos desprezados, matizaram-lhe, como uma primavera cheia de luz e vida, por talforma o corao, que as flores acabaram por esconder o grosseiro tmulo que jazia.E desde ento Miguel fora totalmente esquecido.

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    Agora, mistrios do corao! por entre as flores e por entre os risos lobrigavaela o fnebre alvejar de pedra sepulcral; e o artista levantara-se medonho dasepultura, como um espectro sombrio e ameaador, a fix-la das sombras daeternidade.

    Esta viso preocupou ainda mais a bela cismadora que, suspirando, ergueu-se, passou as costas da mo pelos olhos, e depois acendeu um lustre, comoquerendo afugentar com a luz o fantasma.

    De repente, alguma coisa lhe prendeu a ateno. Era um som longnquoe profundo, que vinha do jardim pelo lado oposto s salas do baile; Rosalina reclinouvagarosamente a cabea para aquele som, gemido ou voz, suspiro ou msica, e,caindo de novo no div, quedou-se embevecida a escut-lo.

    O som lembrava ora um mugido de uma criancinha, ora o ciciar da brisa; vozda natureza ou suspirar de homem, chegava-lhe ao corao essa msica comocoisa estranha, impressiva e sobrenatural.

    Havia nesse murmurar um no sei o que de humano e um no sei o que deceleste; mal se diria se eram notas plangentes que vinham do cu ou se umaharmonia de lgrimas, caindo gota a gota numa taa de cristal; enfim, participavatanto do cu como da terra poder-se-ia dizer que era o roar das asas dos anjospelo corao do homem.

    Era uma rabeca que falava a linguagem da inspirao idioma divino scompreendido pelas almas bem formadas.

    Rosalina conhecia bem o metal daquela voz; conhecia a rabeca, o arco econhecia a msica, porm a sua alma embalde se esforava por compreend-laainda; produzia-lhe j o efeito de uma lngua estranha, digamos de uma lnguamorta.

    E, contudo, a rabeca soluava a ltima composio que Miguel lhe dedicarana casinha branca.

    Apossou-se ento de Rosalina um entorpecimento pesado e sombrio, quasesonambulismo; e, nesse estado, que se pode chamar de crepsculo entre a vida reale o sonho, sentia e ouvia, alucinada, aqueles gemidos indecisos e plangentes, queparecia sarem das profundezas da eternidade para vir conden-la no meio dafortuna e do vcio.

    De quem poderia ser aquele gemer? De homem certamente que no; suma alma penada saberia gemer assim.

    Ento, assistia-lhe a vontade de chorar.

    Chorar? por qu?

    A conscincia negava-lhe a resposta, como os olhos negavam-lhe aslgrimas; e o pranto no passava do corao.

    Infeliz daquela a quem no dado chorar; s o pranto afaga a dor que avontade no vence destruir.

    Lutando com tais opresses, Rosalina ergueu-se no intuito de respirar maislivremente o ar da noite; o terror, porm, no lho permitiu e f-la estacar defronte dajanela, afigurando-se-lhe que, se a abrisse, iria despertar o esprito errante, queporventura a chamava do jardim. E tomada desses sobressaltos foi se quedandotriste e cismadora a escutar a msica funrea.

    Nisto dilatou-se a cortina de damasco, onde por acaso tinha Rosalina o olharferado, e o moo dos bigodes pretos entrou risonho e sem-cerimnia no aposento.

    Ah! fez Rosalina voltando a si, e sorriu.

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    O cavalheiro debruou-se carinhosamente e com elegante desembaraosobre ela e, travando-a da cintura, beijou-lhe a fronte.

    Desapareceu a luz e a porta da alcova fechou-se protetoramente sobre eles.Entretanto, no jardim, o violino continuava a soluar com o desespero de um

    rfo pequenino.

    CAPTULO VI

    Dois dias decorreram depois da ltima noite do baile; e Rosalina, comovamos ver, chegou a descobrir a origem da msica esquisita e plangente, que nessanoite embalara poeticamente os seus prosaicos amores com o moo de bigodespretos.

    Antes, porm, de prosseguir, seja-nos permitido dar de passagem uma idialigeira do perfumoso ninho de Rosalina.

    Constavam os seus aposentos particulares simplesmente de uma salavermelha e de uma alcova cor de lrio, ligadas entre si por elegante portinha, emcujos ornatos entalhados dos olivares, flores polidos de encarnado carmezimsobressaiam, como espumas de sangue, da brancura natural da madeira. De umanica janela existente na sala debruava-se sobre o jardim pitoresca balaustrada demrmore rajado, feita e disposta ao antigo gosto veneziano. A sala era oitavada,guarnecendo-lhe as faces do octgono quadro do mesmo feitio, que molduravam ummetal branco brunido formosas gravuras sobre ao; as cortinas da mesma cor dasparedes prendiam-se graciosas em cornijas tambm de metal branco, uniformizadaspelo brilho com as reluzentes peanhas dos ngulos das paredes e com ostrabalhados tamboretes igualmente de metal. Os ps de quem tivesse a fortuna deentrar nesse paraso elegante, desapareciam silenciosamente no tapete, cuja felpaabundante e sedosa dava ao andar de quem o pisasse a suavidade voluptuosa dospassos macios do gato - parecia andar a gente descala sobre algodo em rama. Nocentro dessa luxuosa salinha uma mesa redonda p-de-galo, coberta por magnficacasimira da China, sustentava um candeeiro de alabastro, com listres de ourolavrado; num dos ngulos da parede, mimosa escrivaninha mostrava o necessriopara ler e escrever; num outro, acomodava-se belo esquentador de pedra negra,guarnecido por um relgio de bronze e dois soberbos vasos de porcelana do Japo.O mais seriam cadeiras, divs estofados, cristais da Bomia e uma infinidade denadinhas de luxo, que do a qualquer sala um aspecto embonecado e ftil.

    A alcova cor de lrio tinha, pouco mais ou menos, o lugar suficiente para otoucador e para a cama, da qual direita, pelo lado inferior, equilibrava-se suspensoum enorme espelho de Veneza, onde se refletia todo o quarto e principalmente oleito; e do lado esquerdo, cabeceira, encostava-se um bufete, onde se via umagarrafa de cristal de rocha, cheia de falerno, rodeada de delicadssimos clices edoces cristalizados e apetitosos; as ps da cama, vasta tapearia representava commuito engenho o grupo sublime das trs graas de Canova.

    O relgio marcava meia-noite. Rosalina fitava-o, reclinada pensativa em umdiv, acompanhando maquinalmente o tique-taque da pndula com a pontinha dop, dobrando e desdobrando um papel cor-de-rosa, que tinha entre os dedos.

    Ia triste e silenciosa a noite s se ouvia distintamente a pulsaomontona dos segundos. Impressiona sempre ouvir o pulsar de um relgio afigura-se-nos sentir palpitar o eterno corao do tempo.

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    Rosalina, depois de longo e profundo cismar, brandiu para trs os cabelos, elevantou-se, como se tivesse chegado intimamente soluo de qualquer dvida. Efazendo com a cabea esse movimento sacudido que to bem exprime aindiferena, disse, despregando de leve os lbios com um quase imperceptvelestalar de lngua Seja!

    Depois, muito tranqila de si, levantou-se, espreguiando-se,despreocupadssima, e foi amarrar no marmreo balco da varanda, branquejadafrouxamente pelo luar, o seu claro lencinho de rendas francesas, como quem arvoraum sinal.

    CAPTULO VII

    Efetivamente o leno de rendas francesas, que Rosalina amarrou no peitorilde sua janela, era um sinal e - coisa mais de pasmar - era um sinal dirigido a Miguel.

    O artista no morrera; e para clareza desta narrativa seja-nos lcito voltaratrs.

    No momento fatal em que Maffei precipitou dos rochedos de Lipari oinflexvel amante da filha, perdeu este os sentidos, dando de encontro pedraaprumada e foi rolando, rolando, at atufar-se de todo nas espumas rendilhadas domar. Com tanta fortuna se houve porm neste cair, que dele apenas lhe sobreveioum ferimento na cabea.

    O mar estava crescido. Foi a salvao do moo, porque ao dar na guavoltou a si com o choque, e, conhecendo quo perigosos so os rochedos de Liparie quo selvticas as ondas contra eles, tratou de nadar ao largo em vez dedemand-los; tempo este em que a tempestade queimava nos altos seus ltimoscartuchos.

    Afinal, serenou de todo o tempo. Miguel, apesar de ajudado pela correnteza,costeava, dificultosamente, a ilha na direo da praia, semelhando uma viso quefugia das trevas midas da morte, seguida de um rastilho de sangue.

    Cinco horas depois era rejeitado na praia pelo mar.Iam pouco a pouco se desfazendo as nuvens e j em alguns pontos do cu

    se percebia uma modesta claridade, precursora do bom tempo. A lua, voltando dosusto, foi aos poucos saindo do esconderijo, medrosa e tmida de seu natural,porque quando h qualquer desarmonia no cu ela quem primeiro se esconde.

    Por este tempo j permanecia de bruos o nufrago na praia; a areaibebera-lhe indiferente o sangue da ferida, que afinal estancara. Nesta postura, ficouele, falecido sem nimo e foras, uma hora, como se estivesse a dar um demoradobeijo na face da me salvadora, a terra - pelo seu bom regresso.

    Ao voltar de todo para si, volveu institivamente o olhar pisado para o cu,que, nesse momento desassombrado e azul, refletia nas guas os olhares prateadosde sua argntea e bela pupila.

    Quando se deixa ou volta vida, o que primeiro procuram os olhos o cu. H consolao e amparo na alma azul do infinito; o azul a cor da salvao,como o negro a do aniquilamento.

    E por que confiamos tanto no azul do cu, sem talvez o compreender aomenos?

    que ele a nica coisa verdadeiramente grande e imensamente bondosa. O oceano gigantesco, porm abisma; o nordeste imponente, porm destri; aterra me, porm devora; o sol rei, porm abrasa; s o cu infinitamente bom.

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    As estrelas brilham como um aluvio de libras esterlinas e no entanto ele humildee modesto, sabe unicamente ser infinito, azul e consolador.

    Jamais se queixou ningum do mal que lhe fizesse o azul do cu!Por isso, meditava Miguel, estendido na areia, a fitar o espao em muda e

    reconhecida contemplao; finalmente tentou pr-se de p, levantou-secambaleando e amarrou a ferida da cabea com um leno ensopado, que tirara daalgibeira. Depois, sacudiu tranqilamente a areia molhada da roupa e dos cabelos eps-se a andar com dificuldade.

    Encaminhava-se lenta e investigadoramente para o mar, como procura dealguma coisa, at reconhecer o mouro em que, se lhe no enganara a memriaenfraquecida pela pancada e perda de sangue, tinha amarrado o barco.

    De fato; mas deste s restavam dependurados da estaca, como relquias deguerra, a corda e um fragmento da proa.

    E nada mais havia do barquinho - o nordeste despedaara-o de encontro praia, da mesma feio que a tempestade dos nossos pensamentos despedaacontra as paredes do crebro uma idia fixa, que se agarra imaginao; o remorsotambm pode atirar o homem preso contra as arestas do crcere; a dor oprime ocorao contra o peito e quebra-o. sempre a mesma lei eterna da luta entre acovardia da tempestade e a fragilidade do preso.

    Miguel, acabando por se identificar com a situao e aceitando-a horrvel eestril tal qual se oferecia, comeou a passear pela praia, com essa calmainexplicvel do homem cnscio da sua desgraa, que procura refrear-seamargamente com os destroos da passada ventura; ora topava um pedao demadeira enterrado na areia, ora dava com alguns destroos do leme ou do casco, e, proporo que os ia descobrindo, atirava-os boca aberta do mar, como umdomador que, depois de dar de comer fera, ajunta-lhe ainda as migalhas cadaspor fora da jaula.

    Continuando a explorao, descobriu um fragmento de madeira amarela,que lhe prendeu mais o respeito - era o brao da sua rabeca.

    O artista ficou a olh-lo amargamente com a mgoa de uma me quecontemplasse o cadver do filhinho; depois, num assomo de ternura frentica, levou-o repetidas vezes aos lbios, beijando-o apaixonadamente.

    O incndio levantado por Maffei veio tir-lo desse xtase.Claro vermelho e sinistro iluminava de um golpe toda a ladeira.Miguel voltou-se para o lado do fogo, meteu cuidadosamente o pedao da

    sua rabeca entre a blusa e a camisa, limpou com a manga uma lgrima que lhependia das pestanas e encarou firme as lnguas de fogo, que singravam do tetocarbonizado da casa de Maffei.

    Mas o fogo na casinha branca! Pensou rapidamente o moo, e tentoucorrer par o lugar do sinistro.

    E Maffei?! Bradou-lhe a conscincia.

    Esta observao interior f-lo parar e cruzar involuntariamente os braos.

    E Rosalina?! interrogou por sua vez o corao; e, antes que a razointerviesse para o dissuadir, deitou a correr, o melhor que pde, pela ladeira.

    Ento que o incndio principiava a assumir a categoria de umamonstruosidade.

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    Nas praias batidas, como aquela, por ventos contrrios, um incndio sempre coisa fcil e decidida no mesmo instante.

    A idia de Rosalina em perigo restituiu ao amante naufragado as forasperdidas at ali, de sorte que em menos de um quarto de hora, correndo como umpossesso, tinha ele vencido a ladeira. Com as roupas molhadas de suor, de chuva,de mar e de sangue, atravessou rapidamente a porta do fundo da casa, entrou pelosquartos incendiados, pisou brasas, percorreu com uma sombra todos os cantosacesos, e, suando, vermelho, doido, sublime, cheio de lama, gritando, gesticulando,sem chapu, sem gravata, com as pestanas tostadas, a carne inchada com o calor,os cabelos queimados e cobertos de cinza, o corpo de fascas, ora desapareciaentre as chamas, ora tropeava nas vigas abrasadas, caa, levantava-se e saltava,gritando como uma fria:

    Rosalina! Rosalina!

    E o crepitar do fogo parecia rir-se dos seus apelos.

    Rosalina! No ouves?! meu Deus! Me Angela!

    NadaO isolamento aterrava-o mais que a imponncia do incndio e, sem dar f

    que lhe chiavam as carnes assadas e que lhe escorria gordura derretida pelosmembros, continuava a gritar:

    Rosalina! Rosalina! Estou aqui! Onde esto vocs! Respondam!

    Estariam todos mortos ou em to pouco tempo teriam partido? Rosalina! Minha Rosalina?!

    E disforme, desesperado, febricitante, horrvel, atravessou soluando a sala;topou com um pente de tartaruga, abaixou-se, apanhou-o, beijou-o e guardou-o noseio em menos de um segundo e a correr saiu pela porta do fundo, como quemacabasse de atravessar o inferno, exclamando furioso:

    Ningum! Partiram, bradou levantando o brao para o cuameaadoramente. No momento, porm, em que apostrofava, sentiu firmarem-se-lhe no estmago duas patas de co.

    Castor! Gritou o moo caindo de joelhos.

    Oh! disse voltando para o cu os olhos arrependidos. Ainda me resta umamigo!

    E abraou-o soluando.

    CAPTULO VIII

    A caminho, meu amigo, disse Miguel a Castor. E puseram-se a andarcom vontade pela estrada que ia dar ao povoado.

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    Castor ia na frente, sacudindo satisfeito a cauda, pelo compasso do andarcadenciado e ligeiro do co quando leva destino; o artista atrs, triste, vergado,coberto de lama, sangrento, tiritando, mais se arrastava do que andava. Apesar dofrio da madrugada que para o nascente alvorecia o horizonte, Miguel tinha a tomar-lhe a cabea febre abrasadora; seguia com o peso aterrador de quem acabava deassistir nesse instante transformao de sua ventura em um monto de runas.

    Que poderia esperar mais, alm das neves do isolamento? Rosalinadesaparecera, isto , fecharam-se todas as portas, janelas e postigos de sua almapor onde podia entrar a luz. E que seria das flores dessa pobre estufa, dessas floresto cuidadosamente tratados por ele entre os abrolhos de uma vida de necessidadese decepes, sem um nico raio do sol que at ali as sustentara? Que seria delascom a ausncia absoluta de Rosalina?

    O amor para a alegria, a esperana, a honra e a glria o que a luz paraas flores; em outras palavras o amor o matiz, o perfume, o frescor e a vida denossos sentimentos.

    As flores no podem vingar nas trevasAssim pensava Miguel quando chegou como companheiro casa.O sol tinha-se erguido de todo no levante; fazia um tempo magnfico.O moo empurrou a porta e Castor precipitou-se no interior do quarto,

    farejando os pobres trastes e o cho, em seguida, mordendo satisfeito a cauda e aspatas, ps-se a ladrar para a rua.

    Desde esse dia, viveram os dois amigos em ntima e completa harmonia -nunca se separavam, comiam juntos e dormiam perto um do outro.

    Trs meses depois do incndio, Miguel teve notcia de uma famlia queprecisava de um professor de msica para quatro crianas; apresentou-se e foiaceito.

    De tal momento, correu-lhe a vida mais fcil. Em pouco tempo, Miguel, cujosmodos singelos e honestos atraram incontinente sobre ele a cega confiana esimpatia dos seus protetores passou de mestre de msica a servir de preceptor,acompanhava por gosto os pequenos nos seus passeios e afinal j lhes tinhaamizade.

    O bom rapaz desvelava-se em dar aos discpulos mais instruo do que lhecompetia e at, digamos, mais do que podia - estudava durante a noite para instru-los pela manh, com to feliz xito que, s vezes, gravava inalteravelmente na suamemria ainda fresca preceitos e frmulas de literatura e belas artes, dos quais seesquecia o prprio mestre, que os no decorava. E por este sistema instrua comcabedais alheios; era, por bem dizer, o instrumento dos bons livros, mas o fato queos pequenos se desenvolviam e tanto lhe bastava.

    Os rapazes adoravam-no.No h como as crianas para tomar amizade gente, e com esta cresce

    em geral a dos pais; os dos discpulos de Miguel estavam encantados com a boaaquisio que haviam feito. Um dia chamaram em particular o jovem preceptor, e,depois de lhe manifestarem o quanto estavam penhorados pelos seus bons esforose pelo seu bom carter, o quanto desejavam que Miguel continuasse em companhiadeles, declararam que haviam deliberado aumentar-lhe o ordenado e faz-lo morarem sua companhia e sob sua vista e cuidados - que Miguel era s e adoentado; queera preciso ter mais cuidado com a sade e terminaram franqueando paternalmenteao professor um quarto cmodo e decente.

    No dia imediato, Miguel e Castor estabeleciam-se em casa da famlia L...

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    Tinha por conseguinte o artista todos os elementos de uma felicidaderelativa teto, cuidados e estima. Agora possua por bem dizer uma famlia;entretanto, tristeza contnua e carregada pesava-lhe deveras sobre o corao comoa garra negra de um abutre. Embalde esforava-se por esquecer de todo o pretritoe viver s do presente; embalde tentava plantar novas flores no terreno ressequidode seus afetos, que logo no rebentasse a, sangrentas e truncadas, as razes desua antiga fortuna, porventura mais persistente e volumosa depois que se converteraem infortnio.

    E nesse definhar amargurado, via ele cair um aps o outro, no passado, osseus dias plidos e saudosos, sem risos nem esperanas.

    De todos, procurava informar-se a respeito de Rosalina, e ningum oesclarecia; da ilha haviam todos perdido de vista o pescador Maffei. Entre o homemrude e o homem rico, abrira o ouro largo espao. De um lado, no se conheciam osque estavam do outro.

    CAPTULO IX

    E no cogitar doloroso da saudade, decorreram dois anos de desesperana,sem que fosse dado ao artista ter notcia da sua amada.

    J no parecia o mesmo tornara-se trabalhador e grave. A viglia e oestudo avivaram-lhe na fisionomia os clares da inteligncia, com a mesmaintensidade com que as sombras de constante tristeza lhe anuviavam no olhar amocidade e o riso.

    Bela e pensadora cabea, quem te burilou to sublime; a arte divina dohomem ou a mo humana de Deus?

    Muitas vezes o viam passar sombrio e automtico, seguido dos seusdiscpulos e do co; em tais momentos pendia-lhe para a terra a cabea, como quemprocura um canto onde descanse o ltimo sono. E as pobres criancinhas, coitadas!olhavam para o mestre com os pequeninos coraes estremecidos; as lourassensitivas choravam porque o viam chorar.

    Num desses passeios, chegaram s runas da casinha branca; massainforme de pedras e barro denunciavam apenas o lugar onde crescera e brincaraRosalina. Era tudo enegrecido pelo fogo e silencioso pelo abandono; somente eles,para as bandas do mar, por entre o sussurrar das oliveiras, um pescador velho selembrara de construir a sua choupana.

    Derramava-se a hora do crepsculo e da tristeza; os ltimos clares do diaabraavam as primeiras sombras da noite carcia contraditria da luz e dasombra.

    Nada enternece tanto como, depois de algum tempo, voltar ao bero denossa primeira felicidade; tambm no h decepo comparvel queexperimentamos ao topar arrasado esse ninho de recordaes e saudades. Procurar um abrigo e tropear em runas, procurar um bero e despenhar-se nacova! Todo aquele nada respirava aniquilamento e tristeza; contudo, parecia haveruma voz mgica e sobrenatural que, semelhante aos fogos ftuos dos cemitrios, sesobreerguia trmula e duvidosa das runas.

    Miguel, hirto e arrebatado pela influncia do fludo que exalavam os restoscarbonizados da casinha branca, pascia neles o olhar ansioso, procurandocompreender a voz misteriosa das runas, com a ateno de um septuagenrio que

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    procurasse soletrar na confusa inscrio de uma lpide, gasta pelo tempo, o nomedo seu primeiro afeto.

    E o seu olhas investigador, e o seu gosto cheio de interesse e ternura, e osom trmulo das suas palavras quase inarticuladas, parecia dizerem:

    Que feito de ti, minha ventura?... Corao que por mim palpitaste teuprimeiro amor; lbios que me falastes com a primeira mocidade; olhos que meseguistes com o primeiro cuidado! aonde fugistes vs?!... Sorrir! Como te deixasteesmagar pelas runas? Lgrimas! Como vos beberam, as lnguas do incndio? Crena, foge! Corao, cala-te! E o teu? O teu corao, minha Rosalina? Estar emrunas como o teu bero, ou brilhar porventura mais feliz e mais virtuoso, ao clarotranqilo e honesto do lar e da fortuna?! Se assim no for, se te no prendeste auma sorte invencvel, volve! que de muito te aguardo impaciente; se no teesqueceu a nossa passada ventura, pensa em mim, que to retribuirei com amor deescravo; e se eu morrer, esquecido e abandonado de todos, sem que aos meusolhos seja dado refletir a ternura dos teus, no momento extremo - chora meu amor,chora que Deus recolhe as lgrimas que os anjos c da terra derramam nassepulturas.

    E assim cismava Miguel imvel, chumbado s runas da casinha branca,pasmando as quatro criancinhas, que sobre ele passeavam admiradas os seusolhares de auroras.

    O artista cobriu o rosto com as palmas das mos e rompeu a chorarsoluadamente.

    CAPTULO X

    O pequenos continuavam aterrados sem se animarem a proferir palavra, atque o mais velho deles, Beppo, aproximando-se de Miguel, abraou-o pela cintura,dizendo em voz baixa e tmida:

    Por que est chorando, meu mestre?

    Para as crianas, coraes lgicos, onde no medrou ainda desconfiana,nem experincia - chorar sinnimo de - sofrer. O menino imediato a Beppo imitou oirmo; ente foi imitado pelo menor e finalmente pelo pequenino, que se contentouem dizer, terna e familiarmente:

    No chores!...

    Puxado pelo fio de ouro destas palavras, Miguel voltou a si e sentou-secomovido num pedao de parede, cobrindo de beijos a cabecinha loura deJeovanito.

    A gente, no sabemos por que, depois de muito chorar e lastimar-se, senteapetite de beijar e abraar algum; queremos crer na adversidade que sefortalecem mais os coraes, e se corroboram os afetos ligam-se to bem aslgrimas e o amor e formam to imperecvel betume, que vencem resistir sborrascas destruidoras da vida e aos gelos mortferos da ausncia e da idade. De talsorte, que Miguel daquele momento sentiu-se amar ainda mais os discpulos; e,

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    como o amor sempre uma luz, a claridade chegou-lhe ao gesto volatilizada numsorriso de alegria. As quatro crianas entravam-lhe com alvoroo pelo corao,como um bando de passarinhos alegres num templo abandonado e sombrio.

    Meu mestre! disse Beppo, passando o brao pelo ombro do artista porque razo voc desde que chegou a este monto de pedras est triste echorando?

    Francino, o imediato quele, atalhou, sem dar a Miguel tempo de responder:

    Ora essa! porque aqui morreu algum!

    palavra morreu Jeovanito voltou-se rapidamente e disse,arregalando muito os olhos, belos, como so sempre os olhos de uma criana:

    Morreu? de que foi que ele morreu?... No sei... disse muito naturalmente Angelino, metendo as mozinhas

    gordas nas algibeiras dos cales, com certo ar de autoridade.

    Nisto, Jeovanito, que se tinha afastado um pouco dos irmos, voltou-seaterrado, e apontando para o sul com o seu dedinho cor-de-rosa, exclamava,contente por chamar a ateno de todos:

    Olha! olha! um velho! E batia palmas alegremente assustado.

    Efetivamente, um velho alto e curvado, que subia a encosta, debuxava-se denegro na derradeira claridade do horizonte.

    Aquela apario produziu um mau efeito no nimo dos pequenos. Ocrepsculo dava-lhe o jeito fantstico de uma sombra, que saa aos poucos do mar ecujos contornos se iam desvanecendo no azul amortecido do cu.

    Silenciosamente, caminhava o vulto para eles e, proporo que o fazia, osmeninos conchegavam-se mais a Miguel.

    o misterioso habitante da choupana, calculou o professor, e no seenganara.

    Este homem, digamo-lo de passagem, era um antigo pescador, conhecidoem Lipari pelo cognome de Sombra da Noite. Tinham-no por milagreiro e na ilhaatribuam-lhe toda a casta de feitiarias e malefcios, que soe imaginar a ignornciado povo. Em bom tempo fora companheiro de trabalho e amigo de Maffei, a quem,por amizade e talvez mais acertadamente por interesse, arranjara os meios detransportar-se em segredo para Npoles, na mesma noite do incndio da casinhabranca. Esta boa ao rendeu-lhe em recompensa o direito de ocupar enquantovivesse o terreno de Maffei em Lipari e tirar dele, como das oliveiras, o partido quebem lhe aprouvesse.

    Rosalina, se bem que por esse tempo tomasse Miguel por morto, levava ocorao ainda morno do amor de seu companheiro de infncia; como uma paredeque durante o dia recebesse o sol forte e abrasador, e noite, apesar da ausnciadaquele, conserva uma certa dose de calor, que pouco a pouco vai morrendo, assimse esqueceu, ela de que podia arriscar o pai e para logo encarregou Sombra da

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    Noite de se instruir sobre o resultado de um cadver que necessariamente havia deter aparecido na costa pelo dia seguinte sua viagem.

    Sombra da Noite no se deslembrou da incumbncia, porm o cadver noapareceu. No fim de um ano de pesquisas, foi a Npoles e tagarelou um pouco coma me ngela; de volta ilha o pescador, ligando o sentido das palavras desta como da recomendao de Rosalina, concluiu por descobrir que se tratava do cadverde Miguel, a quem conhecera vagamente.

    Disto me pode vir algum resultado vantajoso, dizia ele consigo eprocurava um meio de falar a Miguel; a ocasio porm no se oferecia. Vendo-oagora, Sombra da Noite sentiu um estremecimento e tratou de aproveitar o lance. Nada de precipitaes, com os diabos! E parece que bispo enfim o meu cadver.

    Pensando assim, Sombra da Noite aproximava-se silenciosamente do grupo,que o observava tambm em silncio. Chegou s runas, trepou-se com agilidade demoos pelos barrancos e, equilibrando-se, alcanou finalmente a extremidadeoposta, onde estava Miguel, a fit-lo com suma curiosidade.

    Sombra da Noite abeirou-se dele e cortejou-o, descobrindo-sehumildemente.

    Era o tipo perfeito de lazarone - macilento e esfarrapado, sujo e feio, falandoum dialeto extravagante; grande chapu de abas largas sobre a nuca e cachimboqueimado no canto da boca.

    Os pequenos estavam horrorizados.

    Boa noite, disse Miguel. deus Nosso Senhor lhes d a mesma, meu senhor e meus ricos meninos,

    respondeu Sombra da Noite, mastigando compassadamente estas palavras eestendendo a mo para acariciar a menor das crianas.

    Jeovanito fugiu com a cabea, olhando de esguelha e procurou refugiar-senas pernas do mestre.

    Ento? disse este. Fala, Jeovanito! no vs que te fazem festa?...

    Boa noite, meu velho, disse Jeovanito mais tranqilo.

    Este seu filhinho? perguntou o pescador, passando a mo grosseirapela cabea loura do pequenito.

    No senhor. So todos meus discpulos. Ah! esto de passeio? verdade, disse Miguel, e levantou-se, segurando as mos das duas

    crianas menores. amos j, quando o senhor chegou. pena, com os diabos! disse Sombra da Noite, porque eu desejava falar-

    lhe sobre algum que morou neste lugar.

    Miguel sentiu-se fulminado - era a primeira vez, desde que se separara deRosalina, que algum lhe falava nela, e voltando rapidamente para o pescador:

    De Rosalina?! Oh! diga, diga depressa! Como esto eles? So felizes?Ricos?

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    Riqussimos e muito felizes, digo-lhe mais - em breve sero nobres!... Nobres?!... Pois ento!? A excelentssima senhora dona Rosalina vai casar-se com

    um fidalgo de muito boa linhagem e de muito bom dinheiro! O senhor est gracejando! No pode ser! Disse Miguel fingindo

    tranqilidade. Gracejando? berrou o homem. Pela Madona o juro eu! e beijou a palma

    da mo.

    Miguel sentia-se horrivelmente oprimido tinha vontade de continuar ointerrogatrio, mas ao mesmo tempo temia ouvir alguma verdade indita que oesmagasse de todo; temia uma exploso de dor; atacara-lhe logo uma sensaonervosa e frentica; latejavam-lhe as frontes, como contundidas por este dilema deferro calar-se, nada ouvir sobre Rosalina e sofrer ou ouvir muito, saber tudo esofrer mais. O corao saltava-lhe dentro como uma r no charco; acometiam-lhedesejos extravagantes e inexplicveis. Sentia-se com o apetite de ser um homemmau, desregado e intil; tinha como um prazer de ouvir dizer mal de Rosalina e aomesmo tempo ardia por esbofetear aquela sombra impertinente que tinha defrontede si, o pescador; porm, aquele homem era o primeiro que, no seu exlio, lhe falarasobre Rosalina; ento, tinha vontade de abra-lo.

    Estava triste, mas estava alegre; desejava cantar, mas soluando; desejavaabraar Sombra da Noite, mas estrangulando-o.

    Temos, s vezes, dessa contradies no nosso esprito, que, expostasassim, parecem disparatadas e absurdas.

    Qualquer resoluo todavia atravessou como um relmpago o crebro doartista cruzou os braos e fitou Sombra da Noite.

    Tem certeza do que est dizendo? Tenho, respondeu com firmeza o pescador, tanto quanto tenho de saber

    que falo com senhor Miguel Rizio.

    Miguel tornou a estremecer; agora, porm, era a idia da raiva de Maffei quelhe surgia negra e ameaadora. Seria isto uma cilada? Estaria aquele homem pagopor ele? Miguel desconfiava, mas ardia de curiosidade; finalmente, descendo deseus espasmos, disse descansadamente e afetando o mais frio desinteresse:

    Com que, o senhor conhece-me?... Perfeitamente, cavalheiro, e at desejo falar-lhe. A respeito de Rosalina? Sim, senhor, a respeito de dona Rosalina. Ento fale! disse Miguel j no podendo se conter. Fale que.. Agora, impossvel. Ento, quando? Quando estivermos a ss. Eu moro naquela choupana. E Sombra da

    Noite indicou a casinha que quase no se divisava. O senhor pode procurar-meai. Quer vir amanh?

    Miguel no respondeu. Tinha a cabea baixa e o queixo descansado na modireita.

    Depois de um quarto de hora, sombra da Noite quebrou o silncio.

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    Ento vem?

    Miguel ergueu resolutamente a cabea.

    Venho! Amanh? No! Hoje? Pois at a meia-noite, disse o pescador, dando-lhe as costas e descendo

    as pedras. Da a pouco tinha desaparecido nas trevas.

    Miguel continuou a olh-lo por algum tempo; depois sacudiu os ombros etornou a tomar a mo dos pequenos.

    Meia hora depois, caminhavam pela estrada. Na lama nervosa do artista,aps to longa noite, raiara afinal um claro triste, de desesperana e despeito, masera uma luz, enfim.

    E como a mariposa que festeja a prpria luz que a h de queimar, comeoua alvoroar-se, cantarolando nervosamente.

    As crianas, tomando aquele cantar por expanso de alegria, abriramtambm a imit-lo, at chegar a uma cocheira, onde tomaram um carro que os levoualegremente casa.

    CAPTULO XI

    Miguel voltou incontinente.A viagem foi demorada em virtude do caminhar incmodo da carroa. Mal

    chegado cocheira, montou, sem tomar flego, um cavalo que lhe pareceu melhor egalopou para o lugar da entrevista.

    Da a pouco, atravessava de vertiginosa carreira todos aqueles barrancos,impregnados para ele de saudade e tristeza, de amor e de fadigas.

    Parecia mais galopar na impacincia de chegar do que no seu cavalo.A solido, o marulhar da costa, a hora adiantada da noite, erguiam-se com

    enorme fantasma de neblina e espuma, que lhe vinha avivar a clera de Maffei; oluzir vermelho e colrico dos olhos da fera, ainda o sentia ele dentro de si, comoduas brasa a lhe queimarem os osso do crnio. Esses olhos, que Miguel viu pelaltima vez antes de cair no precipcio, procurava desde ento esconder com o mantoclaro das suas idias; entanto, eles sentia-os a queim-las, a esburac-las e, depoisde encardi-las, reaparecem ameaadores e vivos, a espreitar de dentro os seusmovimentos, palavras e mais ntimas intenes, como se fosse o prprio olhar daconscincia, mas de uma conscincia bria.

    Sim, porque a conscincia tambm se embriaga, e nesse estado diz ascoisas sem nexo e s vezes obscenas.

    Ela, como toda mulher que se embriaga, fica nojenta - arregaa as mangas eas saias, fuma, cospe-se toda, ri-se como os marujos e bebe como os soldados;perde, enfim, a vergonha e o pudor.

    As grandes crises podem divinizar ou prostituir uma conscincia do mesmofeitio que um grande amor pode divinizar ou prostituir uma mulher.

    A casta, a pudica, a terna conscincia do artista dava nessa ocasiogargalhadas; contudo, l ia ele a galopar com ela na garupa. Levava consigo abbada e pelo caminho abraavam-se e beijavam-se como dois amantes doidos.

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    De fato, loucura o amor sem conforto que passa de cinco anos; o crebroe o corao tambm concebem e os seres, s vezes, saem alucinados,extravagantes e incoerentes.

    A idia fixa, que acompanhava Miguel h quatro anos, era um ser dessegnero, fecundado pelo amor e pela desgraa e endoidecido pelos prprios pais;crescera, crescera ainda mais e quando nasceu mamou nas tetas de uma fera.

    Uma fera doida, eis a idia fixa de Miguel nessa noite; presa, era horrvel;solta, deveria ser fatal.

    Nesse estado, chegou ele cabana do desconhecido; apeou-se e empurroucom um murro a porta.

    Sombra da Noite dormia tranqilamente sobre umas palhas no cho; aclaridade amortecida das estrelas, que se introduzia pela greta da porta, iluminavafrouxamente o interior miservel da casinha.

    Miguel arquejava; dir-se-ia o ressonar da sua conscincia bria; vista,porm, da tranqilidade rstica com que dormia o pescador, fugiram envergonhadasas suas suspeitas e foi cheio de confiana que se chegou para o acordar.

    Sombra da Noite espichou uma perna, abriu duas vezes a boca e levantou-se finalmente, fazendo o sinal da cruz.

    Espere, homem! disse ele a Miguel, no v dar com as pernas por a!

    E recolheu-se ao fundo da casa, donde voltou pouco depois com um rolo decera de abelha torcido e encerado.

    Sente-se por a! Olhe, tenho s este madeiro; no faz l muito bomassento, mas serve.

    E empurrou para Miguel um tronco de nogueira, nica moblia da casa.Miguel sentou-se, ardendo de impacincia.O homem foi ao outro quarto, bebeu gua de um pcaro de barro, acendeu o

    cachimbo e fechou a porta com uma tranca de madeira pesada; depois, encostou-se parede, com as pernas cruzadas e o indicador da mo esquerda engatilhado nocachimbo, e disse entre uma baforada de fumo e um bocejo:

    Agora vamos ao que serve!

    CAPTULO XII

    s quatro horas da manh, j no oriente passeava a aurora a sua alegriacor-de-rosa, contrastando com a terra toda tranqilidade e sonolncia; somente dachoupana de Sombra da Noite uma claridade avermelhada empalidecia ao claromatutino do dia.

    Parece que a natureza ao acordar vai apagando com as brisas da aurora asluzes mesquinhas das alcovas do homem. Quo ridcula e miservel a luz mortiade uma vela em presena da luz vivificante do sol - dir-se-ia o esprito de um homemcomparado ao esprito de Deus.

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    Tambm devem ser assim mesquinhas e plidas as nossas almas empresena do incriado no tremendo dia do Juzo Final!

    A portinha da choupana rangeu, depois da detonao que fez a trancapesada de madeira ao cair na terra do cho e deu passagem a Miguel seguido deSombra da Noite. O moo vinha transformado pela insnia e fadiga; o outro ajudou-oa montar o animal, que tosava fora os detritos da ladeira, dizendo-lhe secamente:

    At amanh... Ento posso contar com o seu auxlio? volveu Miguel firmado nos estribos

    e segurando com uma das mos o chapu, que o vento se esforava, por arrancar. Para a vida e para a morte! respondeu o pescador, recebendo dinheiro da

    mo que Miguel lhe estendia.

    O cavalo disparou e sumiu-se com o cavaleiro na estrada. Pouco a pouco,foi-se perdendo o som metlico da ferradura pisando o cho. Fechou-se de novo aporta da choupana sobre Sombra da Noite, e desapareceu a luzinha vermelha.

    O sol acabava e levantar-se no horizonte trmulo.

    CAPTULO XIII

    Nesse mesmo dia, Miguel, compondo boa sombra e bom gesto, se desfaziaem razes por descontinuar em casa da famlia L...

    J que est to aferrado sua resoluo, parta, meu amigo, dizia oprotetor de Miguel, entregando ao protegido o saldo dos seus salrios; mas no seesquea que aqui fica uma famlia que tanto o aprecia, como estima. Se algum diasuceder que volte, venha de novo ter conosco; prezamos contar para meus filhoscom o mesmo mestre e para mim com o mesmo filho. Venha! O senhor ser semprerecebido de braos abertos nesta casa; e pode, tanto disto, como da afeio sinceraque nos inspirou, levar certa a vitria, mais ganha por direito que por conquista!

    E levantando mais a voz, em cuja firmeza se percebia a experincia e aconvico, disse como um profeta:

    O senhor um homem de bem! Obrigado, balbuciou Miguel comovido, e beijou-lhe a mo.

    As crianas estavam boquiabertas.

    Mas o meu mestre vai para ficar? Perguntou Beppo. Espero que no, meu amiguinho; um dever de amigo constrange-me a

    partir para Npoles, mas, logo que me seja possvel voltar, continuaremos nossosestudos e os nossos passeios; quanto boa amizade - ah! essa, garanto, emdesfavor da ausncia e do tempo, continuar na mesma altura.

    Assim dizendo, Miguel abraava Beppo e os irmos.Os meninos, entretanto, vestiam tal seriedade, que mais pareciam zangados

    que pesarosos. Convm notar que em Miguel no viam eles a carranca do mestre-escola, mas o olhar inteligente e amigo do companheiro de folguedos; metera-lhes,

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    verdade, o bom moo, a carta do ABC nas unhas e na memria, mas emcompensao ensinara-lhes a atirar funda, a lanar o pio, a nadar e vencerbarrancos e finalmente instrura-os na grande cincia de fazer armadilhas e laarpassarinhos e lagartos.

    Ora, quem ensina destas artes s crianas fatalmente adorado por elas, e,por conseguinte, mesmo barateando a simpatia natural de Miguel, os filhos dosenhor L... tinham jus a estremecer o mestre, para, assim de corao tranqilo, overem partir to inesperadamente.

    A amizade das crianas, como toda afeio dos fracos, egosta; ospequenos constituam para si um direito absoluto sobre o amigo. Tiravam-lho? Tantopior! Por que? No queriam saber de razes; fossem quais fossem as causas, oefeito era evidentemente desfavorvel e mau. E tanto bastava para estarem enfiadose furiosos.

    Jeovanito, o mais moo dos trs, vendo que nada conseguia pelo supostodireito, achegou-se do mestre e disse-lhe, ameigando-lhe os dedos com a suamozinha gorda e rosada:

    Fica, meu mestrinho!...

    Dito isto, ficou a olh-lo suplicante, fazendo dos lbios, que talvez aindacheirassem a leite, um biquinho de enfado e ternura.

    Miguel respondeu negativamente com a cabea, enquanto o beijava.Desesperou-se o pequeno, e, conhecendo a nulidade de seus esforos,

    arremessou com toda a delicada fora de seus bracinhos uma pancada no ombro deMiguel, acompanhando-a dos eptetos mais engraados e injuriosos que pode dizeruma criana.

    Por outro lado, a me dos garotos tambm apresentava, com muita brandurade gestos e delicadeza de palavras, as suas sinceras oposies; e delas, vendo avirtuosa senhora o nenhum xito, volvia a aconselhar o amigo de seus filhos, comtais carinhos e meiguices de me, como se aos prprio filhos o fizesse.

    A me revela em tudo a maternidade, seja ela a me de Cristo ou a de umleo; entre a brandura celestial da santa e a ferocidade mundana da leoa est essesentimento sublime, esse amor incomparvel que tudo pode, tudo vence, tudodesbarata para salvar o filho. Penda para uma das extremidades, penda para outra,seja divina ou seja bestial, h de ser me ora comove pedras com as lgrimas doanjo, ora vence gigantes com as garras da fera; ora pede de joelhos, ora ameaacom as unhas; ora suplicante, ora ameaadora; mas sempre imponente, sempresublime, sempre me!

    Miguel despediu-se da me dos seus discpulos sumamente comovido; elaf-lo chorando e chorando dependurou-lhe do pescoo uma medalha de cobre coma imagem da Madona.

    para que o proteja e ajude, disse a boa senhora abenoando-o, e,distribuindo depois pelos filhos objetos de uso, como pentes, escovas, lenos egravatas, disse-lhes:

    Vamos, meus filhos, dem esses mimos ao seu mestre e peam a Deusque o abenoe e acompanhe.

    As crianas, quase em coro, repetiram automaticamente as palavras dame.

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    O senhor L... ofereceu-se ainda uma vez ao viajante para escrever a algunsamigos de sua confiana, recomendando-o; ao que se ops reconhecido Miguel,protestando parecer-lhe isso nimiamente desnecessrio.

    Ento, repito-lho, meu amigo, v e no se esquea de ns. Seria preciso ser muito ingrato, disse Miguel, abraando-o pela ltima

    vez, o que foi fazendo por todos at sair, depois de beijar repetidas vezes osdiscpulos, que se conservaram imperturbveis e srios.

    Quando Miguel desapareceu, os pequenos desataram a chorarruidosamente.

    Decorreu para a famlia L... um dia comprido e triste.

    TERCEIRA PARTE

    CAPTULO I

    Nas terra pequenas, onde as ambies e egosmo so relativos ao tamanhodo lugar, so entretanto os coraes extraordinariamente maiores que nas grandescapitais.

    Penso que esse rgo diminui na razo inversa do engrandecimento de umacidade; quanto maior for a terra, mais ridculo e corrupto o corao de seus filhos.Ele como o barmetro da civilizao, que o sufoca e amesquinha.

    Cada vez acreditamos mais que a inocncia anda de par com a ignorncia,como a lealdade e a franqueza com a inexperincia, como o progresso com adesconfiana, como a glria com o egosmo, como a ambio com a desvergonha efinalmente como a riqueza com a misria.

    Os milhes e as misrias degradantes so o patrimnio das cortes, como amediocridade de haveres e a ausncia de absoluta misria so o das pequenascidades - acumulam-se de um lado os bens para faltar do outro - acumulam-se mais,mais ainda, exageradamente mais, e mina pelo outro lado a misria degradante,inconcebvel, sem nome.

    Esse desequilbrio da fortuna produz o equilbrio da balana social, oequilbrio das classes. Do contraste das circunstncias, nasce a indstria e ocomrcio; estes so o progresso e a civilizao.

    E o que fazem o progresso e a civilizao ao contemplar a paz dos campos,a felicidade serena do lar, a fortuna dos obscuros e ignorados filhos da provncia?

    Riem-se grosseira e estupidamente.A ingnua hospitalidade da provncia, a espontaneidade no obsequiar, a

    facilidade de amar, os desinteresse no servir, o desejo de agradar, o compadecerdos infelizes, o consolar os desesperados, a obrigao de proteger os fracos, ointeresse pelo semelhante, e mil outras virtudes dos pequenos lugares, passamridicularizadas se no desconhecidas nas grandes capitais, onde um dinheiro formaum centro de gravidade, em torno do qual, como formidvel mundo planetrio,gravitam, sujeitos e dominados pela fora centrpeta, a moda, a aristocracia, aelegncia, a vaidade, o orgulho, o egosmo, a ambio, o desamor, a indiferena, abaixeza, o roubo, a mentira, a torpeza, a desonra e mil outros vcios brilhantes, cujacentelha so todas as vergonhas, todas as misrias, todas as corrupes sociais!

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    A hipocrisia moeda corrente nos grandes meios e h como um comrciode dios surdos entre os correligionrios mais ntimos e comunicados desse crculo,dourado na superfcie e podre no fundo.

    Tudo ofusca! tudo luz! porm nada conforta porque nada tem valor sincero ereal.

    Na provncia, os sentimentos so mais nus e verdadeiros e as almas maishumanas e firmes. Aqui o corao corao, o bom bom e o mau mau; aqui asmes so verdadeiramente mes, ali muito raras vezes o so; aqui a mulher querser me para ser feliz, ali no que ser me para no afeiar; aqui o amor e ocasamento so coisas puras, fceis e naturais, ali so jogos de especulao e deinteresse individual. Nas terras pequenas, o casamento , em geral, umaconseqncia do amor; nas grandes, quando ele no casamento exista, o querarissimamente sucede, uma conseqncia do casamento, isto , da convivncia edo hbito.

    Da imensos crimes e torpezas mesquinhas; da os filhos raquticos edesatinados, as mes doentias, cticas, aborrecidas e sem amor.

    Na provncia, enfim, cada um tem o seu corao, por ele vive e pratica, porele ama e s por ele delibera; na capital, h somente um corao para todos,podemos dizer um corao oficial, uma vscera da nao, uma aparelho mecnico eeconmico tem a mesma pulsao e o mesmo calor para todos; quase que umcorao artificial; mais um objeto de luxo, que um rgo necessrio; uma tetiadourada, um boneco de papelo, um trapo, lama!

    Pode haver um bom povo numa grande capital, convimos, mas urgecompreender que um bom povo no diz o mesmo que uma boa gente. Assim comouma atmosfera, alis boa e salubre, se compe de molculas boas e ms, cujacombinao produz magnficos resultados; assim como tambm o povo de umagrande capital, como a de Paris, por exemplo, ou de Madri, pode ser no todo e ruimem partes.

    Junto, unido, fundido em massa, ligado compactamente pelo entusiasmo,pelos brios polticos ser bom, porque brilhante e grandioso, porm como asmontanhas, s produz efeito visto de longe, donde com um olhar se abranja o todo eno as partes. Ser belo, atravs dos prismas encantados da histria e dos sculos,ser transparente e azul, depois de uma refrao, como nos parece o ter atravs aluz do sol e dos gases atmosfricos, porm de perto grosseiro e informe como amontanha, pedras bruscas e ruins, vegetaes enfezadas, barrancos perigosos,onde se escondem reptis malvados e traioeiros.

    Assim o povo de uma capital civilizada, pode ser bom no conjunto, mas emgeral os homens que o formam so entre si maus e viciosos.

    CAPTULO II

    Fria e fisiologicamente esmerilhando a verdadeira causa, no de espantar,como parece primeira vista, que a estranha famlia e Lipari se houvesse to boa,to patriarcalmente virtuosa, to desafetadamente ingnua, to infantilmentegenerosa e protetora, para com um pobre moo que se apresentava como mestre,sem proteo, sem dinheiro, sem atestados de colgio, sem outros dotes, que orecomendassem alm dos morais e intelectuais.

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    que nos lugares pequenos abrem-se os coraes antes de se abrirem osolhos; preferem o bom carter e os bons costumes grande sabedoria e brilhantenomeada. Ningum se diz mostra-se; ningum pergunta v.

    E se procurssemos bem a causa de tudo isto, haveramos de descobrirque, em vez do ar polvilhado das ruas estreitas das cortes, dos acepipescaprichosos dos hotis, os vestidos apertadssimos de baile, das encantadorasviglias das festas, do abuso e perfumes, do uso os licores excitantes, dossentimentos contrariados, das dores disfaradas pelo riso e das lgrimas fingidas;em vez de tudo isso respiram os da burguesa provncia o ar livre dos campos,comem os frugais legumes de suas hortas, vestem-se larga, dormem cedo,encantam-se com os perfumes das flores e delas tiram as mulheres os seus ornatos,e mostram no olhar e no sorrir as dores ou alegrias que lhe vo por dentro.

    No de pasmar tal contraste entre os civilizados filhos das grandes capitaise os singelos habitantes dos lugares pequenos, porque os estmagos de uns sodiametralmente opostos aos estmagos dos outros, e um homem bom ou mau,conforme o estado mau ou bom de seu estmago.

    Os perfumes e o lcool estragam o crebro e desbotam a memria; asanquinhas confrangem a respirao; o p arruina os pulmes; os hotis encarregam-se de aguar o sangue; enfim todos esses cmplices da morte, que constituem odeleite e encanto as grandes capitais, principiando por estragar o estmago doscidados classificados, acabam por dar batalha alma, que se enerva, se gasta, secorrompe e apodrece.

    Agora, voltemos de novo medalha. Os outros! como so felizes! como sosadios! como do que vivem todo o elemento fortifica e avigora. Como so bons ealegres, que pois tm bom o estmago e puro o sangue!

    O bom estmago a base de toda e qualquer felicidade possvel.Sem estar em perfeito estado o estmago, no pode haver alegria; sem

    alegria no h sade e, sem esta, que seria a virtude? A virtude umaconseqncia da sade e da alegria; a tristeza depe contra a virgindade e contra oamor. E finalmente que so a virtude, a sade e a alegria, seno a mais completafelicidade humana a famlia?

    De mais a beleza! no ser ela o conjunto dessas trs qualidadesreunidas? no ser a beleza a continuao da sade, da alegria e da virtude?

    Certamente que sim, como certamente esta a nica possvel everdadeira fortuna.

    Logo, os filhos das grandes capitais so geralmente maus e duplamentedesgraados, que alm da desgraa de o ser, tm ainda a, porventura maior, deconhecer que o so.

    E todavia continuam a ir-se torcendo dentro das suas jaulas de ouropel, aentulharem, com os esqueletos vivos os hospitais, e com os mortos oscemitrios.

    Deixamo-los viver ou morrer.

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    CAPTULO III

    Para onde e para que se dispunha Miguel com tanto af? o que vamos vere o que necessariamente ficou concertado desde aquela singular entrevista nachoupana de Sombra da Noite.

    Prepararam-se como para uma pesca no alto mar; Miguel abriu francamentea bolsa Sombra da Noite, e ele soube servir-se dela com inteligncia e economia;fretara um barco grande de pescar, comprara provises, salgara bastante peixe,empacotara lenha, bolacha e frutas secas, enchera duas talhas de gua fresca,munira-se de bom vinho e aguardente, arranjara duas macas, alcatroara oscompetentes archotes de feno e com tal zelo e atividade se houve em tudo, que meia-noite todo o necessrio estava pronto.

    O vento era favorvel e j o barco se sacudia impaciente na praia. Entre estae o barco, grosso archote, coberto de resina, espalhava um claro vermelho efumfero, parecia, refletindo na umidade da areia, uma brasa cuidadosamentecolocada sobre uma lmina de vidro.

    De vez em quando, interrompia a luz o archote o vulto negro e Sombra daNoite, carregado de mantimentos, que ia deixara a bordo; logo voltava com guapela cintura, subia e novo a ladeira e tornava a desc-la vergado com a carga. Seisou sete carretos e dera por feito todo o carregamento. Ento, armou a tolda notombadilho, empurrou com cuidado as talhas para um lado, calou-as bem e deps,ao alcance da mo, a borracha de aguardente; abriu em seguida a escotilha,arrumou nela os fardos de vveres e subiu novamente coberta; a fez lume paradisfarar a umidade, estendeu um bom encerado, armou duas macas e, tomandoflego, que tudo isto o fizera cansar, disse em voz alta:

    Pronto, com os diabos!

    Depois, por sua conta e de sua idia, assestou proa quatro anzis e duasredes de pescar. Feito isso, tirou vagarosamente tabaco e uma bolsa de couro,encheu bem o cachimbo, olhou em torno, procurando descobrir o que faltava e dissesatisfeito:

    Bom!

    Acendeu o cachimbo, voltou praia e subiu para casa, cantarolando muitotranqilamente e muito contente de sua vida.

    O artista desprezara as roupas graves do professor e revestira a sua antigae singela blusa e artista ambulante: tinha na mo o estojo da sua queria rabeca, umafaca na bainha da cintura, na algibeira todo o dinheiro que possua e no coraotoda a esperana que lhe restava, na cabea... Ah! nessa, alm das harmoniosasconcepes de h muito uma idia sinistra e repugnante, dependurada daimaginao, com o cadver contrado de um enforcado.

    E, seguido dessa idia, negra, como a sombra informe da sua prpriadesgraa, sentia alvejar, nas margens opostas o mar da Siclia, a roupagemtransparente de um anjo, que o chamava de l. Era isso a sua estrela; seguia-aindiferente a tudo mais que o cercava, via-a somente, s ela, luzir no fundo negro doseu futuro, com farol a nica salvao possvel.

    Alvo, farol ou estrela, apagassem essa esperana e a vida para Miguel seriatoda trevas e gelos.

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    Roubem-na, pensava ele, e esta vida no ser mais que uma enormesepultura.

    Castor dormia profundamente aos ps do amo.

    Pronto, patrozinho! Disse Sombra da Noite, chegando casa. Podemos ir? Quando quiser, respondeu o pescador, tomando do cho a torcida acesa.

    Miguel tomou o capote de um prego donde estava dependurado e,embrulhando-se, saiu, acompanhado de Castor, que, rpido, lhe tomou a frente edesceu a ladeira.

    Sombra da Noite fechou por dentro a porta com a tranca de nogueira, foi aooutro quarto e fez o mesmo porta do fundo e, depois de apagar o pavio, pis-lo emant-lo na algibeira, afastou de um canto do teto o choupo e, espremendo-se pelaestreita abertura, saltou fora, exclamando:

    At a volta, se te encontrar viva ou se eu no estiver morto!

    Em cinco minutos, alcanou Miguel.Chegados praia, o homem tomou nos ombros o artista e carregou-o para

    bordo. Castor seguiu-os a nado.Miguel agarrou-se ao portal e pulou no barco, estendeu depois um brao e

    puxou Castor para dentro; o co entrou todo a sacudir-se, salpicando gua do corpo.Sombra da Noite foi o ltimo e fechou o portal; em seguida, voltando-se paraMiguel, apresentou-lhe o barco e os seus arranjos, explicando a serventia disto,elogiando aquilo, falando de tudo e dando a entender que tinha conscincia do bomdesempenho da sua comisso. Miguel distraidamente passeou a vista pelo interiordo barco e declarou-se plenamente satisfeito.

    Suspendeu-se a amarra, guindou-se a vela grande. O barco comeou aembalar-se, como se tivesse acordado naquele instante, parecia mesmo que seespreguiava; logo, porm, cedeu ao leme de Sombra da Noite, virou a favor do mare entrou a navegar com vento em popa.

    Partiram.

    CAPTULO IV

    O barco atravessava descuidado o perigoso mar de Siclia, em demanda daspraias napolitanas.

    Quem o governava? O nordeste? O leme? O brao do pescador? Abssola? Uma estrela? Algum farol? A f em Deus? O capricho do mar? Nada! Nemo brao mesquinho do homem, nem o dedo poderoso de Deus, nem a vontade deum, nem o querer o outro. Governava-o sim, um corao apaixonado.

    O barco estremecia com o pulsar deste corao bomio; o seu verdadeirocomandante era o amor, esse que no conhece tempestade nem bonanas, esseque tranqilo no sofrer e desensofrido na ventura, esse que sempre triunfa! Oamor!

    Parecia demandar os portos de Npoles, mas em verdade o que demandavaele era to somente a mais forte das fragilidades humanas, a mais herica das

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    fraquezas divinas, o mais diablico dos anjos terrestres, o mais anglico demnioceleste: a mulher!

    Esse conjunto do que h de santo e do que h de tentao, esse amplexodo bom com o mal, esse beijo de Deus no homem, essa lgrima doce e venenosa depiedade e cime, esse motivo do inferno, esse mesmo inferno e esse paraso, essamocidade, essa riqueza, esse tudo, esse nada: a mulher!

    Ia em demanda de uma mulher, isto , ia naufragado; uma mulher sempreuma ilha desconhecida.

    Entretanto, navegavam; entretanto, o vento e a noite corriam favorveis etranqilos; a natureza verdadeiramente fidalga, boa e orgulhosa; dindiferentemente, no olha para quem recebe; favorece e passa distrada.

    O barco corria rpido e macio, as enxrcias esticadas, a vela gorda devento, a proa alta de cortadora, o casco trmulo de ligeiro.

    Miguel, de p, esbelto, pensativo, com a rabeca em punho, quebrava danoite o silncio encantado, com as vibraes harmoniosas de seu instrumento;gemia o arco apaixonado e as vagas levantavam-se, convulsas e encapeladas, parao ouvir e admirar, e logo depois recaam, deslocando-se magnticas sobre as suasmolas quebradias.

    E o barco embalava-se como um bero de gigante: e a msica fugia com ovento, e Npoles vinha pouco a pouco se aproximando.

    CAPTULO V

    Mal chegados, atracou o barco e saltaram os viajantes, seguidos do co.Sombra da Noite, por maior segurana, escolhera para desembarque uma

    praia de pescaria, das muitas que possui Npoles, e disfaradamente vestido depescador, carregava cantando moda destes, o peixe que apanhara durante aviagem.

    Seriam, quando muito, dez horas da noite, hora essa de se prepararem ospescadores para a pesca noturna em alto mar.

    Tudo estava pronto; viam-se as redes esticadas, amontoados os archotes echeias as borrachas.

    Dirigiram-se os dois e Castor para uma tasca fronteira praia; a, segundo ocostume, esperavam os pescadores, com as competentes mulheres e filhos, a vezda mar, entretidos a cear ou a beber. Os recm-chegados, que, a despeito davontade e do disfarce, chamavam a ateno geral, foram-se sentando com a afetadaindiferena e bebendo com sofrvel vontade.

    Sombra da Noite tratou logo de se desfazer do peixe, arranjar pouso para anoite e ajustar preos; feito isto, saiu com o companheiro da tasca e, sempreacompanhado de Castor, desprezaram a praia e entranharam-se pela cidade.

    Miguel no conhecia Npoles e, carregado da sua rabeca, deixava-se iracompanhando o guia; assim palmilhavam muitas ruas, a princpio tomando para aesquerda, seguiram depois transversalmente, ora atravessavam uma rua estreita edeserta, ora uma larga e concorrida, at que afinal chegaram a um lugar espaoso earborizado; depois de ligeira hesitao, venceram o largo e meteram-se por umabonita rua, larga, bem calada e mais concorrida que as outras.

    esta, disse o pescador sem parar. Miguel levantou os olhos para umatabuleta e leu: Rua de Toledo. O corao bateu-lhe mais apressado.

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    Continuaram a andar, silenciosos. proporo que o faziam, diminua onmero de transeuntes, era a noite que se adiantava. Uma vozeria confusa e alegrepartia dos cafs e dos grupos rareados.

    Castor, de cauda interrogativa e focinho baixo, ia na frente, farejandosofregamente as pedras estranhas para o seu faro.

    Nem sequer olhavam os viajantes para as preciosidades naturais e artsticasque se desenrolavam a seus olhos; contudo ali estava um artista, no sem almapara ver, sentir e admirar, mas no tomado de suas preocupaes, to pasmado eabsorvido por uma idia fixa, que no lhe dava a alma pressa de regalar a sede doartista, quando um corao se ressequia mingua de outro carvalho. Um artista, umlazarone e um co, isto , o primeiro abstrato, o segundo rude e o terceiro irracional,so justamente as espcies mais refratrias ao belo, mas em verdade quepareciam identificados pelo mesmo interesse e levados pelo mesmo fim, porque,igualmente apressados, caminhavam no mesmo compasso, se que dois homenspodem andar pelo compasso de um co.

    De repente Castor se ps a ladrar contra um porto de ferro, que servia devasta entrada para um jardim, em cuja casa muito se danava e folgava. A msicado baile absorvia os latidos do animal, este porm, ladrando cada vez mais, enfiavaa cabea e patas pelos intervalos dos vares lanceados da grade.

    Nas salas principais do edifcio estorcia-se o baile em convulses sensuais;da rua viam-se rodar vertiginosamente as cabeas muito frisadas e as espduasnuas de alabastro e banhadas de luz.

    Sombra da Noite parou, olhou com ateno para a fachada do edifcio e,calcando a cinza do cachimbo disse secamente:

    aqui!

    Miguel estava imvel e distrado; tinha os olhos arregalados e as mos frias;a luz imensa, a msica, o luxo, o zunzum das sedas e veludos, ofuscavam-no, aomesmo tempo que o enchiam de raivosa tristeza.

    Agora, disse o outro em voz baixa, podemos entrar por ali, sem risco desermos vistos. Conheo uma ruazinha particular pertencente casa e por onde permitido ao povo transitar.

    E arrancando o companheiro do labirinto de reflexes em que pareciaperdido, foi com ele atravessando a frente do edifcio. Miguel ia atrs, caminhava decabea baixa e passos lentos. Desse modo, costearam o jardim pelo lado esquerdo,depois, embrenhando-se por uma sombria alameda de laranjeiras, Sombra da Noitedisse ao companheiro:

    Esta rua cerca toda a casa; caminhemos por aqui.

    Quando chegaram ao meio da ruazinha, o guia parou novamente,acrescentando em segredo:

    Daqui se v perfeitamente o fundo de toda a casa. Aquela grandevaranda em forma de arco, disse ele, apontando para a enorme balaustrada doandar superior, fecha toda a casa; por a pouca gente pode agora transitar, porquenaturalmente esto entretidos com a dana e com o jogo; os sales do baile so no

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    centro, e a eles pertencem aquelas cinco janelas que o senhor viu da rua; dos ladosesto os dois sales do jogo e do tambm para a rua aquelas duas outras janelas,que o senhor viu de cada lado, porm, compreende? tudo resguardado pelavaranda, onde agora no chegam os convidados. Esto no diabo da festa! Daqui apouco, ouve-se o barulho que fazem, porque o vento leva contrrio. Olhe agora parabaixo, continuou Sombra da Noite, debruando-se nos ombros de Miguel eacompanhando a descrio com o indicador da mo direita, olhe! v aquela gradede mrmore? na parte escura!... Est inteiramente sombreada pelo diabo da varandado andar de cima...

    Onde esto aquelas vidraas de cor? Perguntou Miguel, todo ateno. Justo, disse o outro estendendo a palavra e os lbios. Tambm o nico

    aposento do andar de baixo que tem luz. Pois ali, continuou, abaixandomisteriosamente a voz e chegando a boca ao ouvido de Miguel, o aposento dafilha do senhor Maffei!...

    Miguel encostou-se grade do jardim, segurou a cabea com a mo e ficoua fitar embevecido as vidraas coloridas da janela. Sentia uma tempestade na alma;luziam-lhe ali na sombra os vidros iluminados do quarto de Rosalina, como um farolno alto mar.

    Teria ele encontrado o porto?

    Eu conheo, continuava Sombra da Noite, contendo Castor, que se queriaprecipitar pelas grades do jardim, no bem essas casas, conheo toda a cidade deNpoles, palmo a palmo! Que quer? aqui fui criado, aqui brinquei, cresci e corri.Todas estas casas novas, que o senhor v por c, foram levantadas sobre as runase um antigo convento de frades Em pequeno ainda apanhei esse convento; esteslados eram os da villa, de negras paredes, muito altas e feias. Com os diabos!parecia um cemitrio! Hoje est tudo isto acabado, assim mesma a nica coisa queconservam do convento um cruzeiro de pedra, que deve ter ficado para aquelasbandas, e indicava com os beios o lado oposto casa. E se isso ficou, meu ricocavalheiro, foi porque no o puderam destruir e no por ser, como disfaram eles,obra de grande arte e merecimento. Ora, quem no sabe que estes lugares no sobons?! Neste cho, dizia ele batendo com o p, h sangue mau de frades, que osirmos matavam para lhes ficar com os haveres, e depois enterravam a pela quinta,sem que a mais ningum constassem. Todas as noites, continuava o velho,engolindo a saliva, cada vez mais aterrado, ao badalar dos sinos grandes, aossbados, meia-noite, os diabos os frades levantavam-se das sepulturas e iam,rezando, rezando... agarrar-se cruz, e cada uma a puxa para o seu lado porpenitenciar os seus pecados. H uma fora que a prende a este cho amaldioado!Dizem at, e h quem tenha visto! que o cruzeiro falou!... e eu acredito! disse elebenzendo-se, todo trmulo, com ambas as mos.

    CAPTULO VI

    Continuava Sombra da Noite a discorrer por diante, enquanto Miguel, semsequer se aperceber disto, fitava, encostado, imvel, aos vares o jardim, aclaridade colorida e alegre das vidraas de Rosalina, cujo aspecto festivocontrastava com o sombrio das grades negras e lustrosas do crcere interior do seuesprito.

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    Ignorado, corria-lhe em silncio, dos olhos, o pranto morno e copioso.Por que chorava ele, to bom e generoso, ao contemplar a fortunosa

    opulncia da sua querida amiga? No a desejava por acaso feliz? No queria paraela todos os bens da terra e todas as bnos do cu? Sim! mas que no meio daopulncia daquele orgulhoso viver se haveriam de humilhar a singela blusa e arabeca o artista.

    Desgraado! Chorava porque era moo, porque no tinha vivido bastantepara saber que a vida uma enorme decepo; chorava porque Rosalina era o seuprimeiro amor, e o primeiro amor do homem to selvagem e feroz como o deve tersido o do primeiro homem da natureza. Chorava porque a estrela que o conduzia naexistncia tingia-se de cores mundanas, em perda do celeste azul do seufosforescer.

    Era aquele chorar de Miguel um carpir triste e desesperanado sobre doistmulos ainda mais tristes, sobre o de Rosalina e sobre o seu, porventura menosvalioso que o dela; era chorar sobre o tmulo das recordaes e sobre o dasesperanas, o passado e o futuro, o nada e o nada.

    E que mais o nosso viver nesta espcie de mundo, seno uma iluso entredois nadas: o presente e o futuro? Dois nadas insondveis e obscuros que fechamuma hiptese, chamada presente. Ontem, saudades nebulosas; hoje, mentiras eesterilidades; amanh, sonhos mal contornados. Eis a vida!

    E assim cismava Miguel, enquanto o companheiro, sem lhe dar pelaindiferena, continuava a papaguear, acrescentando:

    No seria eu capaz de morar aqui, nem que me cobrissem de ouro!Meter-me com os demos de almas penadas, que...

    Nisto avivou-se e repente a luz do quarto de Rosalina.Miguel endireitou-se todo como uma cobra e prestou ateno. Sombra da

    Noite calou-se de todo e ficou tambm a olhar para a janela iluminada, dizendobaixinho, depois de algum silncio:

    Entrou para o quarto...

    Miguel chegou-se dele e disse-lhe imperiosamente:

    Deixe-me s e v esperar-me na tasca. Leve consigo Castor e tomedinheiro para o que for necessrio.

    Sombra da Noite retirou-se silenciosamente.O artista continuou imvel e abstrato a fitar a janela; depois, como se

    quisesse falar quela claridade risonha e colorida que de l vinha, ergueu inspiradoo arco, colou com frenesi a rabeca ao ombro, e os sons encantados, com que dantescomovera a sua amada, rebentaram plangentes e harmoniosos, como um coro debeijos e suspiros, soluando pelos anjos.

    Estaria ela no quarto?Estava, com efeito, pois essa era a noite, justamente a mesma em que

    Rosalina, concertada com o cavalheiro de bigodes pretos, abandonava os sales dadana, para refugiar-se voluptuosamente extenuada nos seus aposentos, e a ouvirao murmurar choroso de uma harmonia esquisita e conhecida.

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    Era essa mesma a noite, mesma era tambm a msica, a rabeca a mesma,mesmos o arco, o artista, o brao, a inspirao; s Rosalina! s ela no era amesma, que dantes se arrebentava com aquela msica bela e inocente como o amorde duas crianas.

    CAPTULO VII

    Miguel continuava a tocar inspirado.A luz da alcova de Rosalina amortecia-se e as horas da noite foram-se

    sucedendo, tristes, frias, uniformes e silenciosas como as brisas do outono.Os ltimos arrancos do instrumento confundiram-se com os primeiros

    estremecimentos da aurora. Quando Miguel chegou tasca, era j dia alto; estavadeserta a praia de pescadores, que no tinham ainda voltado da pescaria.

    Ligeiro enfiou-se o artista pelo quarto onde se acomodara Sombra da Noite,deps num canto a rabeca e precipitadamente escreveu num pedao de papelordinrio o seguinte:

    "Rosalina:No morri e desejo viver s para te amar. Estou resolvido a fazer tudo o que

    me ordenares, at mesmo a minha prpria desgraa, se ela a ti for necessria; emtroca disso, peo-te, com a alma de joelhos, meu amor, que me concedas amanh meia-noite, uma entrevista. O teu leno, atado ao balco da tua janela, ser o sinalde que ainda te mereo alguma coisa. O teu escravo Miguel Rizio. "

    Escrito, dobrado e subscritado este bilhete, Miguel acordou Sombra daNoite, que dormia a somo solto.

    Entrega, disse-lhe ele, do melhor meio que te acudir, hoje noite, estacarta a Rosalina, se no lhe puderes falar, faze ao menos porque lhe chegue smos, mas sem falta hoje! Entendes?

    Descanse! que ser entregue, disse Sombra da Noite, metendo o papelno bolso.

    A missiva de Miguel chegou de efeito s mos de Rosalina, e, como vimosno captulo em que justamente a deixamos, ela, acendendo ao pedido doressuscitado amado, atara meia-noite, como ele lhe pedira, o seu lencinho derendas francesas no marmreo balco da janela.

    Feito o sinal, Rosalina voltara a reclinar-se tranqilamente no div, comoquem se submete ao aborrecimento de qualquer cerimnia poltica; e, nessa dbiapostura, mareando com o p o compasso dos segundos, dobrava e desdobrava opapel, que lhe chegara s mos por intermdio de Sombra da Noite.

    A pndula marcara afinal a hora da entrevista. Um silncio perfumado evoluptuoso recendia em torno de Rosalina, como uma aurola de desejos.

    H sempre nos aposentos de uma mulher bela um no sei o que de indizvele sedutor, que encanta e embriaga; uns perfumes de cabelos, de flores e de carnes.

    Pode-se chamar a esse fludo esquisito o perfume do amor.A claridade coalhada do globo de alabastro, a tepidez preguiosa da

    atmosfera, o macio surdo do tapete, tudo juntamente desatinava e endoidecia ossentidos.

    Rosalina, encantadoramente reclinada no div, pendente para trs a cabea,mole, mido o olhar, as narinas sfregas, os lbios entreabertos e ressequidos,

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    comprazia-se em ver, espiando pelo franjado sombrio das pestanas, o arfarvoluptuoso das carnes macias do colo. A garganta carnuda, plida e estendida, tinhauns tons frescos e uns estremecimentos de carnes gordas de criancinha de peito; ascovinhas dos cotovelos, os saltinhos das carnes dos dedos, as unhas cor-de-rosa,os dentes cor de leite, os cabelos lnguidos, serpenteados e frouxos, a respiraocomprimida, a lngua mida e vermelha, como um pedao de carne viva eensangentada, em cuja pontinha refletia a brancura ferina dos dentes, tudo, enfim,levantava com exploso a chama doida e selvagem dos sonhos.

    E, todavia, ela estava quieta e letrgico, nesse quase sonambulismo, queno bem indiferena, mas um esquecimento de si mesmo, um doce abandono deforas, comparvel ao estado comatoso, que sucede aos prazeres cansativos, nessedolce far niente de uma mulher rica, que mais formosa para os outros do que parasi, quando, sbito, no quadro escuro da janela, aberta de par em par, se desenhou obusto desgrenhado de Miguel.

    Vinha transformado e plido como uma caveira.

    CAPTULO VIII

    Miguel precipitou-se na alcova e caiu soluando aos ps de Rosalina;comoo amarga e deliciosa o dominava, como nos bosques a tempestade dominaa cora.

    Ele gozava e sofria amargamente. Rosalina ali estava, ao alcance dos seuslbios e de suas mos, mas era Rosalina transformada; da primeira no existia maisque a formosura. E tanto assim, que aquela cena, em demasiado sentimental etrgica, comeou a incomod-la. Ela sentia-se interiormente arrependida de terconsentido nessa entrevista; contudo era inevitvel; conhecia bastante o carter doseu companheiro de infncia, para, com razo, temer qualquer conseqncia m deuma recusa. De sorte que o melhor caminho a tomar era o da dissimulao e dodolo; no lhe faltariam certamente, para tal empresa, indstria e armas, que poiscontava com a sua maleabilidade de florete e com a sua destreza de cobra. Quandono era possvel empregar a fora, socorria-se s lgrimas e triunfava sempre.

    Rosalina, apercebida com tais munies, ps-se em guarda contra o terrvelinimigo, que tinha diante de si. Bem sabia quanto so perigosos e formidveis ainexperincia e a virtude quando amam.

    A verdadeira paixo selvagem, grosseira e egosta, porque a delicadeza, acivilidade e a sociabilidade so obras do homem ou meras convices sociais, e apaixo um monstro antidiluviano, criado pela natureza. O amor saiu diretamente daboca de Deus para o corao do homem; esse o nosso nico ponto de contatocom o incriado.

    Esse verbo eterno no conhece leis, nem ptria, nem senhor, como noconhece subdiviso nem variedade, um, nico e eterno: o verbo ser da natureza.

    Deus criou-o para o mundo e no para o homem; este como a fera, o rptilcomo o passarinho, amam da mesma forma.

    Foi pensando deste feitio que Rosalina cobriu de carcias a vtima que tinhaaos ps, e f-lo sentar-se prosaica e comodamente, numa magnfica cadeira dedamasco. E, depois de haverem pingado um por um os segundos do estilo, abriu afalar, protetora e carinhosamente, do seguinte modo:

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    Oh! como sou feliz e desgraada por te tornar a ver, meu Miguel, pormse me encanta a tua presena, a situao que dela resulta me aniquila. Amo-temuito, mas preciso seres prudente e teres, disse ela, sorrindo com inteno, muitojuizinho... Eu j no contava contigo e tinha razes para isso, vi uma vez o precipciodonde caste, e to terminante se me afigurou dele uma queda, que nunca mais meanimei a visit-lo. Porm tinha saudades tuas, acredita, disse ela suspirando, sinto-me loucamente satisfeita por te ter novamente a meu lado. Se soubesses o que fizpara ter notcias tuas! Mas enfim sou feliz, agora se...

    Porm, que... interrompeu Miguel, disseram-me que tu te ias casar comum fidalgo...

    verdade, disse novamente suspirando Rosalina; e no h outroremdio, se no nos conformamos com essa sorte escura.

    Miguel fez um gesto de impacincia e reprimiu o que ia dizer.

    Mas que pensas? continuou Rosalina, mudando de tom e afetando umtransporte; supes, porventura, que me fugiram repentinamente da memria osnossos juramentos e a nossa fortuna? crs que me parece ser riqueza o melhor osbens? julgas que no se pode converter em luto o que foi nossa esperana? tensque sou muito feliz? ingrato!... Oh! no. Miguel! Sofri amargamente e mais sofroagora. Quanta vez no amaldioei tudo que me cercava! quanta vez no trocaria porum daqueles pacficos e religiosos seres de Lipari, todos os faustos, todos osesplendores destas festas, que me acabrunham e me matam?! Entanto, tinha-te pormorto, nossa choupana foi incendiada e minhas amigas de infncia, sobreindiferentes, prevenidas contra mim! preciso esquecer-me de tudo!...

    Miguel escutava imvel e pensativo.Rosalina continuou, abaixando a voz:

    Meu pai est cada vez mais severo e mais ganancioso; agora toda a suaambio possuir um ttulo qualquer de nobreza antiga, cuja realizao s de mimconfia; desde que um fidalgo arruinado, o visconde de Cenis, com a mira no dote,me pediu em casamento...

    E tu consentes?! perguntou arquejante Miguel, e tu vais ligar-te a esseinfame especulador, mesmo sabendo que eu existo e s por teu amor o fao?!...

    Mas que me queres, meu amigo? No o desejo eu, ordena-mo meu pai!Nisto deves, antes de amaldioar o meu procedimento, pesar bem o sacrifcio quevou fazer! Sabes certamente que no a ambio e a vaidade que me conduzem,sabes o quanto te amo e o quanto me comprazeria viver contigo e s para ti; masem semelhantes circunstncias, nada fazer fazer tudo. A minha recusa, sobre sera desonra certa, seria talvez a morte de meu pai!... Quanto a mim... a no me poderligar contigo, ningum mais prefiro, tanto me d de casar com o visconde como comoutro qualquer. O que de tudo isto se conclu que eu sou a mais desgraada dasmulheres; amo, sou amada; chegam-me os bens par viver e no entanto faltam-meamor e existncia. Tu, meu pobre Miguel, sem o saber, vieste dar-me um golpeterrvel e me foi difcil habituar idia de tua morte, ser-me-ia impossvel suportar atua ausncia! Todavia, estou resignada; uma gota de mais ou de menos no vaso deminhas amarguras no prejudica, porque o lquido de h muito transbordou.Sejamos verdadeiramente corajosos, meu amigo, e saibamos ser dignos um dooutro pelo sacrifcio, soframos juntos... Se soubesses a noite que passei!... quando

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    ouvi aqui no jardim a mesma msica, que embalou os meus primeiros sonhos demulher e os meus ltimos devaneios de criana... aquelas notas eram como opoema da nossa mocidade e nosso amor. Como ramos ento felizes eesperanosos!... Muito chorei, meu amigo quando me abriste esse livro apagado derecordaes e saudades, chorei como no imaginas, e s se me afigurava queaqueles sons errantes eram o teu esprito, baixado do cu para me amaldioar. Foiuma noite de pesadelos para mim!... no dormi... faltava-me o ar... e tinha medo deabrir a janela... E debruando-se sobre Miguel exclama: Como sou desgraada!...

    Peo-te, continuou ela, depois de algum silncio, com a voz ainda tremulado choro, que partas; e, se no me podes remediar o mal, que no o agraves...Parte, meu amigo, o evita tornares-me a ver. Para salvar meu pai preciso sermosmutuamente rigorosos. S de todo nobre e generoso; salva a quem te quis perder!perdoa do alto do teu corao a esse pobre velho, que no tem culpa de terambicioso e mau. Ele o culpado de tudo; verdade, mas tambm a ele devo aminha existncia e todos os cuidados que tenho recebido; devemos-lhe a felicidadeque j gozamos, justo que suportemos agora o sacrifcio que ele nos impe...Perdoa! Sim? perdoa, Miguel!...

    E Rosalina, meiga, encarava com chorosa ternura o olhar sombrio deMiguel.

    O moo ergueu-se com impetuosa feio. Metamorfose assustadora operou-se-lhe na fisionomia: os olhos fechavam-se lentamente e lentamente se abriam; umsorriso de amargurada desconfiana encrespava-lhe os lbios. Debruou-sebrandamente sobre Rosalina e, recolhendo-lhe as mos frias, disse-lhe comdelicadeza:

    ento teu pai o nico obstculo de nossa felicidade? , disse ela. Ento, adeus! E beijou-lhe a fronte. Que vai fazer? Obedecer-te. Como? Partindo. Para onde? No sei. Quando? J.

    E Miguel saiu to rpido como houvera entrado.Rosalina levantou-se, foi at a janela e percebeu ainda o vulto do artista

    desaparecer por entre a rede de galhos e folhas sombreadas pela noite; encostou-seno balco de mrmore, olhou para o tempo e disse, fechando a janela e abrindopreguiosamente a boca:

    At que enfim!

    Depois entrou para a sua alcova, correu o cortinado, mirou-se numespelhinho de mo, desprendeu os cabelos e tocou a campainha, chamando acriada para a despir.

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    Da a meia hora, Rosalina, mais encantadora que nunca, adormecia sorrindopara o imenso cristal de Veneza, que com arte refletia o seu corpo esculturalmenteformoso, atufando-se nas amplas e alvssimas cambraias do leito, semelhante aVnus transformando-se das espumas do oceano.

    CAPTULO IX

    Depois dessa noite, Miguel vivia para uma idia: fosse qual fosse ela deveriade ser negra e amarga, por amargo era o seu sorrir e negras as sombras do seuolhar.

    J por vrias vezes lhe perguntara o guia se era tempo de regressarem paraa ilha; Miguel, porm, desviava a cabea, como se alguma coisa o prendesse aindaem Npoles e deixava-se ir ficando. Alguma coisa o prendia de feito: era essa idia.

    Todas as tardes, quando para o ocidente, o crepsculo vespertinoesfogueava as nuvens mais baixas do horizonte, ele, espantadio e calado, tomavapara as bandas da casa de Maffei e, como um esprito perseguidor e maligno,rondavam-lhe o jardim e o quintal, procurando sempre confundir-se com aescuridade movedia das folhagens.

    E, mais tarde, quando de todo a noite carbonizava a natureza e com as suassombras o favorecia, ento, mais seguro e confiado, atravessava o foragido as ruasrelvosas do jardim e, pisando cauteloso, apalpando sorrateiro as trevas,comprimindo a respirao e procurando minguar o seu vulto, ora desaparecia nasmoitas de roseiras, ora nos jasmineiros e caramanches em flor, para reapareceraqui e alm, como o veado domstico, que passeia nos quintais do amo, procurandoa solido e o silncio.

    A deixava-se passar ignorando as noites. E quando porventura viailuminada a janela de Rosalina, quedava-se horas esquecidas a contempl-lo,exttico e embevecido.

    Assim sucedeu at o sbado, dia de recepo em casa de Maffei.Nessa noite o palcio escancarava as suas largas bocas a novos

    convidados, como insacivel monstro, que no se farta de tragar reputaes alheias;devia ser duplamente rica essa festa, porque, sobre ser sbado, era tambmaniversrio do nascimento de Rosalina; circunstncia esta de que no se esquecerao deslembrado amante e o fazia aguardar, com impacincia e desassossego, essefaustoso dia.

    Efetivamente, preparava-se a festa ameaadora e esplndida; dobrou-se aorquestra e multiplicou-se o nmero de garrafas; eminente s artfices incumbiram-sede magnfica iluminao e fogos de artifcio, que ocupassem a varanda e a parteprincipal do jardim; um quiosque, levantado defronte da janela do quarto dafestejada, dar-lhe-ia, ao romper da alva, um harmonioso bom dia.

    Chegada a hora, as salas, as varandas, os quartos, o andar inferior, tudo seencheu de gente. Era tudo confuso e bulcio; por todos os lados fosforesciamluzinhas de variadssimas cores; por toda a parte, msica e perfumes, flores emprofuso, gelados e vinhos, cantos e versos, mimos e ramilhetes, danas e jogos,flores e murtas; enfim, por toda parte e de todas as coisas rebentavam eefervesciam alvoroadamente o prazer, o riso, a loucura e o amor.

    Rosalina l estava resplandecente, como alvo brilhante de todos aquelesfaustos e grandezas; via-se cercada de aduladores, que a crivavam de galanteios e

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    lisonjas; e assim festejada, querida, requestada, adulada, tinha-se ela por feliz nomeio desse crculo de ferro dourado, que o dinheiro traa incomodo na sociedade.

    A festa crescia e redobrava de entusiasmo com o progredir tenebroso danoite; regorjeavam frenticos os instrumentos; pulsava doido o sangue com o ansiarnervoso da valsa; a embriaguez familiarizara-se e gritava a bel-prazer, rindo adesvergonhada, com a boca aberta e o gesto descomposto.

    CAPTULO X

    Todavia, enquanto to ruidosamente crepitava o baile, Miguel, ignorado e s,nos fundos trevosos do jardim, espiava afoitamente a turbulncia da festa,escondido como um rptil nos grutescos de uma fonte artificial.

    Quem de perto pudesse lhe observar a figura, notar-lhe-ia no olhardesvairado e redondo, um impacincia feliz, um raio de sinistro contentamento, quelhe iluminava a fisionomia com o mesmo luzir fnebre da lmina da guilhotina norosto do condenado.

    Subitamente, o escondido endireitou-se, colou cuidadosamente o ouvido parede e ps-se a escutar silenciosamente, sentiu passos.

    Era algum que, fugindo agitao das salas, procurava refugiar-se nojardim e descansar o seu aborrecimento, sozinho e tranqilo nos bancos de pedra,que pitorescamente guarneciam um aprazvel chafariz de jaspe.

    Miguel viu chegar um vulto e estremeceu reconhecendo-o; os seus olhosreverberavam com mais vermelhido; os seus lbios semi-abertos sussurraramalguns sons confusos e speros, enquanto o recm-chegado, satisfeito de si,esfregava as mos, saboreando o aspecto festivo e luxuoso do edifcio; depois, ovulto sentou-se meditativo no banco de pedra e permaneceu algum tempo decabea baixa e gesto concentrado.

    Profundo devia ser esse meditar que no dava de perceber os passosabafados de Miguel, que, como uma pantera, se encaminhava das sombras da grutapara ele, sem lhe arredar de cima os olhos ardentes e raiados.

    O artista, ao chegar s costas do velho, estacou e entrou consigo acontempl-lo em atencioso silncio, indicando, com um movimento afirmativo decabea, o bom resultado de suas observaes; alguns segundos depois, chegou-semais dele e de rijo tocou-lhe com a mo no ombro.

    O vulto voltou-se de sbito e, encarando o rosto transformado do artista,desviava vagarosamente o seu, aterrado pela fixidez sinistra dos olhos cavos eluzentes, que pareciam querer devor-lo; Miguel inclinou-se para ele a rir-sesurdamente, com esse rir que exprime o contentamento da vingana que se vaifartar, o rir do faminto que depois de longa viagem descobre o que comer.

    O vulto, segurando-se com a mo fria na pedra ainda mais fria do banco,continuava a retrair-se, como atacado de clicas horrveis; torpor aviltante corria-lhepelos membros frouxos e enervados e transpirava-lhe no gesto suarento o medocom todas as suas cores mais vergonhosas.

    Contemplavam-se os dois, trmulos... um de raiva, o outro de medo.

    CAPTULO XI

    O que tremia de medo era Maffei.

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    O conforto da riqueza e o roar spero dos anos poiram-lhe o vigor primitivo;o remorso, colaborando nessa obra de destruio, acaba por extinguir-lhe a foramoral, que dantes lhe luzia feroz no olhar. Sentia-se apequenado em presena deMiguel a quem tinha por morto.

    O vulto transformado da sua vtima, que j em sonhos o houvera perseguido,aparecia-lhe agora, real, palpvel, como se fora a prpria imagem do remorso;afigurava-se-lhe Miguel salvo naquele instante, saindo do mar; parecia-lhe at ver aumidade do cabelo e sentir-lhe o cheiro de sangue.

    O olhar fixo e desvairado do moo refletia-se-lhe na conscincia, como umaluz condenatria e da persistia a fit-lo; o sorrir cadavrico de Miguel derramava-secomo um filtro de ironias pelos membros lassos do velho e o fazia estremecer; eraum sorrir trgico de caveira a fit-lo com os dentes ameaadores e ferozes.

    A imobilidade do moo impunha ao outro a mesma imobilidade, e no entantoa arrogncia daquele no incutia neste o mesmo sentimento; Maffei, ao contrrio,cada vez mais se desapercebia de nimo e foras.

    Enquanto isto sucedia no jardim, o baile continuava a folgar indiferente.Miguel, afinal, chegando cara plida de Maffei a boca arreganhada,

    rebentou medonha e cavernosamente:

    Velho amaldioado! mau! ambicioso! s o nico obstculo de minhaventura! s a minha asa negra! o meu pesadelo! a minha raiva! a minha desgraa! omeu dio! o meu mal! o meu crime! Queres, bruto, regenerar-te? queres por uma vezabaixar este brao, que a tua maldade levantou sobre a tua cabea, velho estpido?!d-me a mo de tua filha. J! Peo-ta de joelhos, co! Responde!... Queres?!...

    Maffei estremeceu como se fora acordado de um sonho mau por uma chuvade pedras. As palavras de Miguel despertaram-no, chamando-lhe o sangue cabea com o efeito de um aluvio desencontrada de bofetadas, voltou a si e fez ummovimento para erguer-se.

    Responde! Gritou asperamente Miguel, descarregando-lhe com fora nosombros os punhos impacientes e nervosos. Responde! E o obrigou a ficar sentado.Responde!

    Nunca! atroou energicamente Maffei e ergueu-se de mpeto!

    Miguel, porm, em meio da resposta, rpido abarcara-lhe o pescoo,encravando-lhe pelas carnes as unhas doidas e assanhadas. Um ronco surdo egutural fundiu-se confusamente na turbulncia aguardentada do baile.

    E o moo no desgarrava da vtima as unhas envenenadas pela clera velhae sedenta de vingana, continuava a asfixi-la.

    Como uma lagarta no fogo o velho torcia-se, esforando-se por gritar eerguer-se. Embalde! Miguel lograra pr-lhe um joelho de bronze sobre o esfago e,empregando com bruteza toda fora do corpo, oprimia-o contra a pedra do banco.

    Roxido apopltica cobriu a cara e as unhas do pai de Rosalina; um suorabundante e mido escorria-lhe da cabea, inundando as mos frenticas doassassino.

    E o roncar moribundo e bestial do velho, mal casado com o ranger dosdentes do moo, contrastava com a turbulncia folgaz e sensual da dana, daembriaguez e do jogo, que alm fermentavam nos sales do baile, como fermentamas larvas numa podrido.

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    Miguel, no fim de algum tempo, desgarrou saciado a presa e o cadver doantigo pescador caiu-lhe pesado e retorcido aos ps, gosmando pelas ventas e porentre os dentes um muco grosso e esbranquiado.

    O moo contemplava-o sorrindo, alimpar tranqilamente as mos midas epegajosas nas fraldas da sua blusa. Depois, abaixou-se e fitou satisfeito o corpo deMaffei, observando minuciosamente se estava bem morto, mexia-lhe com asplpebras, passava-lhe os dedos no vtreo ensangentado dos olhos e esbugalhava-os mais, puxava-lhe as barbas empastadas de gosma, mexia-lhe com a lngua eafinal bem certo que estava morto escarrou-lhe com desprezo cara e em seguidaergueu-se, empurrando-o desdenhosamente com o p.

    Isto feito, fugiu.Ao chegar rua, parou, tomou com ambas as mos o peito e respirou

    livremente o ar da noite, como quem se livrasse de um peso horrvel.

    Finalmente! disse ele e correu tasca.

    Sombra da Noite dormia. Acordou-o.

    Partamos, disse ele. Para onde? Para qualquer parte.

    E desapareceram.

    CAPTULO XII

    O baile continuava indiferente e animado.A ausncia de Maffei no se fizera sentir e s algum curioso observador

    dizia distraidamente:

    Oh! Maffei est hoje mais do que nunca concentrado!... No h quem oveja!...

    E disso no passava.Somente no dia seguinte, pela manh que o jardineiro, todo banhado em

    lgrimas, participara ter encontrado no jardim o cadver do querido amo.Houve grande alvoroo na casa e, tanto esta como a famlia do morto, se

    cobriram de luto. No dia seguinte os jornais de Npoles noticiavam ter sucumbido omuito honesto e muito nobre proprietrio da rua de Toledo, fulano de tal Maffei,vtima de uma congesto cerebral, que o acometera na vspera. Enterrado ocadver no se falou mais em tal. Rosalina tratou de suspender, por algum tempo,os bailes e de substituir os teatros e passeios pelas palestras nos seres.

    Da nasceu um murmurar contra ela e o cavalheiro de bigodes pretos, secom ou sem razo, no sei; o que posso dizer e at afianar , que por vrias vezes,houve quem o visse sair pela madrugada do andar inferior da casa cinzenta da ruade Toledo. Calnias, talvez... inveja, com certeza!

    Com o correr dos dias, foi o luto perdendo pouco a pouco a cor carregada,de sorte que no fim de um ano desaparecera inteiramente e com ele cansou a dor

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    de doer e os olhos cansaram de fingir. E voltara a alegria, como volta a primavera,matizando de flores e risos os coraes e os lbios.

    Como um noivo passivo, o nobre visconde de Cenis gastava todos os seresem companhia da rica herdeira, e exteriormente j se tinha como resolvida ocasamento dele com Rosalina.

    Em breve a filha do pescador seria a excelentssima senhora viscondessa deCenis e o visconde seria o herdeiro legtimo dos bens do falecido Maffei.

    Qual das duas partes faria melhor aquisio? Uma levava uns restos dehomem a ttulo de visconde e a outra um dote avultado e uma mulher prostituda.Estas ruindades fundidas deveriam dar um resultado satisfatrio para ambos e talvezpara a sociedade, que, em vendo dinheiro, faz como as crianas: fecha os olhos eabre a boca.

    Entanto, quando o visconde se retirava da sala de honra, abria a noiva aporta privada da alcova, para o outro, que, se em verdade no era to nobrementevisconde, tinha, em compensao, um bom par de bigodes pretos, que valiam porum braso.

    Afora estes, roda imensa de admiradores incensava infrutiferamente, noite edia, a formosa e rica rf, mas embalde procurava ela, nos cantos empoeirados doseu corao, alguns restos de respeito e amizade sria para aquela gente que, adespeito da sua boa vontade, s lhe aparecia pelo prisma do interesse e daespeculao. No fim de contas to embotadamente desgraados eram osadoradores, como o objeto da adorao, que se aqueles amavam por cobia, esteno o podia fazer por desconfiana, e infeliz, muito infeliz da mulher que no ama, -o amor o caminho da maternidade.

    O prprio moo dos bigodes no passava para Rosalina de uma fantasia deigual criminalidade de outros muitos, que, com a mesma amorosa indiferena,entretinha a desregrada rapariga; e tanto assim era que, sendo por ele pedida emmatrimnio, recusara-se, dizendo cinicamente que o casamento era a nica parteascendente de sua vida por onde poderia trepar em algum tempo nobreza, e porisso no a barateava assim to facilmente.

    O dos bigodes, cujo empenho nico era enriquecer, vendo malogrado emNpoles os seus planos de abastecimento, deu-se de velas para Milo, sua ptria,em busca de nova fortuna, depois de ter chamado a amante de ingrata e perjura.

    Rosalina riu-se da sada aparentemente romanesca do cavalheiro debigodes e insensivelmente o substituiu por outro.

    O visconde em runas, esse, coitado! que no desistia, nem era preterido;barreira firme, rochedo inaltervel, recebia impassvel e com verdadeira coragem,digna da nobreza de sua ilustre raa, os embates tempestuosos daquele plago delama. Coitado! a desonra lhe seja leve!...

    E neste estado deplorvel de coisas decorria o tempo, sem outro fato denotar, alm do que se vai seguir.

    CAPTULO XIII

    Ia uma dessas noites quentes de vero, em que a natureza pareceadormecida aos beijos ardentes do sol; em que as guas dos lagos so mornascomo a brisa, que acaricia os pcaros abrasados das montanhas, e a lua se erguevermelha, como uma chaga viva.

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    Uma dessa formosas noites napolitanas, em que tudo se converte emvolpia e cansao, em que se derretem os coraes e volatizam-se os beijos paravagarem pelo espao, como um bando de mariposas sensuais.

    Noite de sonhos ardentes e dores indefinidas! noite feliz para o mancebo eperigosa para a donzela!...

    As mulheres estremecem ao tato dos amantes e as criancinhas torcem-seno bero, acometidas de precoce irritabilidade; o olhar transforma-se em boca quebeija; o hlito em palavra que excita; a palavra em corpo que morde, afaga, queimae estreita.

    Abraam-se nos montes os pinheiros e os ciprestes nos cemitrios;entrelaam-se flores no campo; amam-se feras nos covis; nos ares os passarinhos eos reptis no charco.

    A natureza toda transforma-se numa mulher de trinta anos, de carnesbrancas e palpitantes, sofre nessa noite da nevrose, tem ataques histricos,estrebucha, grita, contorce-se e solta, de vez em quando, suspiros prolongados egemidos voluptuosos.

    E quando, pela volta da madrugada, brisa fresca e cor-de-rosa da manh,adormecem os membros frouxos e fatigados, levanta-se da terra um murmrio suavee trmulo para o cu; a msica dos beijos!

    CAPTULO XIV

    A alcova de Rosalina recendia a amor. O amor tem o seu perfume especialque se aspira pelo corao; esse perfume, semelhana dos do Oriente, quandono mata, embriaga, mas sempre encanta.

    A bela italiana, perseguida pelo calor da noite, refugiara-se sozinha no seuninho, como a lebre que foge ao caador, e arremessando negligentemente asroupas para o cho, envolvera-se nas cambraias do leito, rolando de um para outrolado, como uma serpente.

    Extenuada, cara a moa nessa prostao mofina que precede o sono, e sde vez em quando dava acordo de si para refrigerar-se com um gole de orchata, que cabeceira do leito estava preparada num copo de cristal. Isto feito, recaa nomesmo entorpecimento, com as plpebras pesadas e os olhos descerrados pelocalor; mais parecia uma bela produo artstica do que uma realidade. Quandoquieta, difcil seria de dizer o que mais era, se uma esttua animada, se uma mulherde mrmore.

    Sbito, assomou na janela uma cabea, depois um busto, e finalmente umhomem, vestido de blusa, pulou na sala com a ligeireza de um gato.

    O barulho fez Rosalina voltar-se e soltar um grito que queria dizer:

    Miguel!...

    O recm-chegado parou, levando aos lbios o dedo em sinal de silncio; elarespondeu a esse sinal com um outro que o intimava a aproximar-se.

    O artista obedeceu, encaminhando-se sombriamente para o leito.

    s livre agora?!... disse, caindo de joelhos aos ps.

    A moa no respondeu e sorriu.

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    Fala, meu anjo!... no percamos tempo, dize-me se s j livre os se... Ouve! interrompeu Rosalina, fingindo dificuldade no falar. Ouve. Desde

    que morreu meu pai, uma fraqueza doentia me tem de tal modo perseguido, que mesuponho irremediavelmente perdida; posso dizer que tenho vivido neste leito, dondeno conto levantar-me com vida.

    Uma viagem te restabelecer totalmente, disse Miguel inquieto. Ah! suspirou Rosalina. Uma viagem!... porque no sabes, meu bom

    amigo, que, com a morte de meu pai, ficamos na extrema misria, que ele, coitado!passou uma vida de opulncia, superior ao que possua, e morreu de tal modoendividado, que no nos ser fcil a ns salvar honradamente seu nome, e a mimcontinuar a viver sem a difamante proteo de algum estranho! Bem fiz por salvar asituao, e confesso que me supunha mais forte e generosa, de que realmente sou!

    E Rosalina comeou a tossir, oprimindo o peito com as mos.

    E eu, continuou a suposta doente, com a voz cada vez mais trmula,fazia-me forte, aceitando a proposta salvadora e tremenda de um velho rico edoente, que se propunha resgatar o nome de meu pai, casando comigo. Era umfuturo triste, porm, honesto. Cedi, Miguel, cheia de esperana e resignao, pormdepois de medir bem o sacrifcio no tive nimo para arrost-lo. Urgia contudo tomaruma deliberao qualquer; o tempo passava e o dia do leilo da casa e dos mveisno tarda a anunciar-se. O momento fatal chegou!... Amanh tenho de entregartudo, tudo! e serei...

    Ento! interrompeu Miguel, em cujo olhar acabava de nascer ocontentamento e a esperana, havias te esquecido de mim? Ingrata! No te quis aomenos parecer que a tua riqueza era um obstculo srio minha ventura! Oh! comosou feliz em ver-te novamente pobre! Iremos juntos para Lipari, onde sers minhaesposa, e ento seremos felizes, muito felizes! Quanto bom ser pobre! Olha! disseele chegando-se carinhosamente para ela e sorrindo, com os modos satisfeitos, dequem se preza de saber arranjar bem as coisas. Vendido tudo por c, todas estasgrandezas e todo este luxo, em pouco poder ficar a dvida; por esse tempo jestars em Lipari, caso contigo e serei legalmente o nico devedor do que no sepuder pagar com o resultado da venda; e da, com o meu trabalho e principalmentecom a minha vontade, cr, conseguiremos ir pouco a pouco resgatando o nome deteu pai. Oh! como seremos felizes!... Mas como te houveste to injusta em no telembrares de mim!... Em Lipari, levantaremos novamente uma casa, sob as oliveirasque te viram nascer, minha Rosalina, e sozinhos, ao som das brisas que teembalaram em pequenina, e do mar que te ama ainda, e dos cantos dospassarinhos que voltaro ao nosso teto hospitaleiro, viveremos em companhia daboa ngela, que te estremece como me. Sabes mais!... Castor ainda vive!... disse omoo satisfeitssimo, batendo palmas, ainda vive! achei-o na noite o incndio econservo-o comigo; um bom e generoso companheiro! Oh! ele tambm virporque, no sabes? foi ele que primeiro descobriu pelo faro que tu moravas aqui.Coitado! como te cobrir de festas quando te vir! Oh! mas preciso que te decidas apartir! Vamos! no assim? Dize!... Ests pobre?... Tanto melhor! Ningum selembrar de te perseguir!... Partamos, meu amor!

    E Miguel, satisfeito como uma criana, beijava as mos, os ps, o cabelo e afronte de Rosalina. Parecia louco

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    Ela observava-o com um sorriso de afetada desesperana, que mascaravaenorme surpresa; parecia-lhe aquilo um sonho; nunca esperava tanto amor deMiguel; sentia-se conscientemente arrependida de se ter fingido pobre, antes falassecom franqueza, porque a situao perigava progressivamente.

    Diabo! dizia consigo. Ele adora-me apesar de tudo! Que volta darei a estacena to difcil e ridcula?

    E assim pensando, fingia fartar-se em contemplar silenciosa o amado,enquanto meditava astuciosamente outro meio mais seguro de fugir-lhe; porm,fundo e estranho ressentimento principiava a minguar-lhe o nimo, em presenadaquela vontade de ferro, daquela firmeza de afeto, daquele amor indelvel que tudocometia indiferente, contanto que o deixassem existir pela mulher, que o prpriocorao escolheu para dolo.

    Neste estado e maquinando ainda uma engenhosa sada, fitou Rosalina osolhos abrasados e felizes de Miguel, e, apartando deles os prprios, passeava-os,aparentemente enfraquecidos, pelo quarto, procura da idia; quando o acasodeparou-lhe o copo de orchata, sobre o velador cabeceira do leito.

    Ah! fez ela. Que tens!... acudiu Miguel. Nada, meu amigo, sinto-me mal!... Tudo isso, volveu Miguel, beijando-lhe as mos, desaparecer com a

    nossa futura felicidade! Reanima-te e ordena o que queres que te faa! Aqui tens umescravo! vamos, meu amor... fala! como se eu fosse teu pai, minha filhinha!...

    J no tenho vontade nem desejos... meu bom amigo, respondeu ela,retorcendo os olhos, porque no posso contar com a existncia...

    Rosalina!... disse Miguel; no te deixes levar por essas idias to ms!...Confia em mim e espera de Deus! No desanimes, que tens muita vida e a nossailha tem muitas flores que te esperam... Havemos de correr juntos pela primavera oscaminhos sombreados e ervecidos; subiremos de mos dadas as encostas dosmontes e os pncaros dos rochedos; havemos de...

    Rosalina parecia j no escutar; torcia-se na cama, a ranger os dentes unscontra os outros, e retorcendo os olhos derivava olhares desencontrados.

    Rosalina! Rosalina!... Que tens!... Meu Deus! Acudam! exclamava Miguel. Silncio! disse ela, tapando-lhe brandamente a boca com os dedos cor-

    de-rosa. No faas bulha e ouve, que necessrio falar. Ainda h pouco mevedaste concluir o que te contava; ouve o resto. Dizia-te eu, que era necessrioabraar qualquer partido, porque o tempo urgia e o dia da entrega se aproximava...Pois bem, meu bom Miguel, no tive nimo de me resolver a casar com o velho ricoe...

    E... disse Miguel trmulo de impacincia. Chegou a vspera do dia maldito!... Amanh os credores tomam conta de

    tudo!... No importa! Mas ... acrescentou chorando Rosalina, que eu no resisti a tamanha

    provao! Fui covarde!... confesso! mas eu sou mulher, perdoa!... Acaba!...

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    Vs este copo? continuou ela, torcendo-se toda e indicando a cabeceirado leito.

    Cus!... Ainda h pouco estava cheio de... veneno... eu... E reclinando-se nos

    braos de Miguel acrescentava, espatifando as palavras: No tenho, Miguel, devida... mais que alguns... instantes...

    Miguel quis levantar-se para chamar algum.

    No chames pessoa alguma!... disse ela agarrando-o com fora. Isso salcanaria fazer-me morrer desacreditada. Foi Deus que te mandou para meajudares a morrer! Foi um bom anjo que te conduziu! Eu j contava contigo! Oh! nomorria sem tu chegares! Como Deus bom! obedece-o depois... retira-te...

    Miguel forcejava contudo por erguer-se, mas desfaleciam-lhe as foras;vertigem doida acometeu-lhe de pronto a cabea. Quis gritar, a lngua apegara-se-lhe; quis soluar, o pranto enovelou-se na garganta ofegante, trmulo, com os olhosinjetados de sangue, ria-se nervosamente e chorava ao mesmo tempo; as pernasnegavam-lhe o j apoio, cambaleou; tentou ainda uma vez erguer-se, as pernasvergaram-se de todo e ele caiu regao de Rosalina; queimava o olhar, fumegava ohlito! a sua respirao era um soprar doido de labaredas!

    No chames por ningum! disse-lhe ela com dificuldade, ecarinhosamente o tomou entre os braos; depois, inclinando frouxamente a cabeapara trs, fechou devagarinho as plpebras e murmurou sons inarticulados etrmulos.

    Rosalina! Rosalina! vozeava o moo arrastando a lngua entre soluos.

    Rosalina pendeu de todo a cabea para trs, deixou cair sem ao o braofora do leito; e um suspiro doloroso partiu-lhe dos lbios. Ficou exttica.

    Miguel tinha a cabea no colo da desfalecida e permanecia imvel como ela;lembrando ambos to unidos, to mortos e to plidos, Pigmalio e a sua amante demrmore.

    Assim decorreu uma hora de pedra: fria, pesada e estpida.Rosalina, por fim, impacientou-se e sorrateiramente levantando a cabea e

    desembaraando-se dos abundantes cabelos pretos, disse quaseimperceptivelmente:

    Miguel... no partes?...

    Miguel no respondeu.

    No partes? Repetiu Rosalina, levantando um pouco mais a voz.

    Ainda o mesmo silncio.Ento, como a noiva, que vai, entre desejosa e envergonhada, procurar

    novas carcias do amado, ergueu ela com as mos difanas a cabea mole que lherepousara no colo e encarou-a .

    Grito de terror e remorso rompeu-lhe inteirio das entranhas.

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    Miguel estava morto. Ento, uma lgrima cristalina e santa, desprendendo-se do corao, rolou pura pelas faces da mulher. Chorou pela primeira vez!

    Aquela lgrima valia o poema inteiro da sua existncia! era o transunto doseu arrependimento! era o perdo dos seus crimes! Chorou! Chorou uma lgrima demulher, e por isso que vinha de Deus!

    Rosalina amou pela primeira vez aquele cadver.

    Fim