Teoria, Prtica e Reflexo Na Formao Do Profissional Em Educacao Fsica

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TEORIA, PRTICA E REFLEXO NA FORMAO DO PROFISSIONAL EM EDUCACAO FSICA

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  • MOTRIZ - Volume 2, Nmero 2, Dezembro/1996

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    RESUMO Em diferentes reas do conhecimento, inclusive na Educao Fsica, tem havido um questionamento em relao aos seus pressupostos epistemolgicos e metodolgicos, fato que vem configurando um estado de crise. Deste estado, o efeito mais produtivo a busca de superao dos impasses identificados. A busca de alternativas na produo e socializao do conhecimento implica em definies filosficas. A abordagem feita nesta exposio fundamenta-se no materialismo histrico dialtico, em cuja perspectiva o homem concebido como indissocivel em corpo e mente (esprito), constituindo-se exclusivamente nas e pelas relaes sociais, sendo a sua conscincia construda a partir de sua atividade concreta sobre o meio e materializada na linguagem, diferenciando-se de outros animais por produzir seus meios de subsistncia atravs do trabalho, o qual sempre implica na utilizao de todas as faculdades (fsicas e mentais). A partir dessa viso de homem, define-se prtica como a ao concreta sobre o meio, teoria como sistematizao de representaes sobre a realidade e reflexo como o processo de confronto das representaes da realidade concreta com sistemas conceituais organizados (teorias). Toda atividade humana implica em teoria e prtica, em algum grau. Contudo, a relao entre teoria, prtica e reflexo varia segundo a predominncia de uma atividade terica ou prtica e segundo a abrangncia das representaes sobre a realidade. Nessa tica, a profundidade e abrangncia do processo reflexivo depende de (a) profundidade e abrangncia dos conceitos disponveis, (b) contato com a realidade concreta e (c) disponibilidade/hbito/habilidade de confrontar teorias com a realidade concreta. Dadas tais definies, considera-se que o corpo terico para orientar o ensino da Educao Fsica deve abranger a realidade em suas dimenses natural e scio-histrico-cultural, integradas nos nveis filosfico, cientfico e tcnico. Quanto relao entre teoria e prtica, esta deve ser explicitada, o mais clara e sistematicamente possvel, durante as aulas, antes, durante e aps as vivncias prticas. Finalmente, o desenvolvimento de uma atitude reflexiva no alunado pode ser obtido pelo confronto constante do contedo curricular com fatos concretos que esto ocorrendo no mbito das atividades caractersticas da Educao Fsica e na esfera mais ampla das relaes sociais, polticas e

    1 Palestra proferida no V Simpsio Paulista de Educao Fsica 2 Chefe do Depto. de Educao Fsica e Esportes da PUC-SP

    econmicas, em abrangncia local, nacional e internacional. O ensino com as caractersticas apontadas demanda professores com ampla viso filosfica, cientfica e tcnica, aliada ao exerccio do ensino e ao hbito de reflexo. As dificuldades que os professores de cursos de graduao em Educao Fsica podem encontrar para viabilizar esse tipo de ensino podem ser superadas pelo exerccio da interdisciplinaridade em ato, entendida como o trabalho conjunto de profissionais de diversas reas no planejamento, no desenvolvimento e na avaliao das atividades curriculares.

    A abordagem do tema desta mesa redonda

    remete considerao da questo mais ampla do significado de teoria, prtica e reflexo no mbito da cincia e da tecnologia, de modo geral, e no campo da Educao Fsica, em especial.

    Inicialmente, convm assinalar que uma parte significativa da assim chamada comunidade cientfica tem se empenhado, ao longo deste sculo, em questionar as bases epistemolgicas e metodolgicas da cincia, em diferentes reas do conhecimento. Na Fsica, nas Cincias Sociais e na Psicologia, para citar alguns exemplos, o debate em torno da delimitao e caracterizao de seus objetos de estudo e de modelos tericos para orientar a pesquisa tem sido constante (variando em intensidade, em diversos centros de reflexo).

    Na rea da Educao Fsica, o debate em torno de sua cientificidade ganhou abrangncia significativa na dcada de 60, a partir da polmica iniciada nos EUA, a qual estendeu-se a outros centros, chegando ao Brasil apenas ao final da dcada de 70. Na atualidade, a reflexo sobre o que deve ser considerado o objeto de estudo da Educao Fsica e, consequentemente, como este deve ser estudado, ainda segue em meio a considerveis controvrsias.

    Este quadro configura uma crise nas convices cientficas em diferentes reas e, por conseguinte, um questionamento de diversas teorias, ensejando atitudes diversas, que vo de um pessimismo radical quanto possibilidade de produzir conhecimento seguro at a motivao para buscar novos caminhos para o pensamento cientfico. Esta ltima atitude parece ser o melhor que pode resultar de uma crise: a determinao de buscar alternativas e de fazer opes.

    Imbudos da atitude de busca, podemos ento retomar a questo apontada no primeiro momento desta fala, desdobrando-a em 3 perguntas: (a) o que teoria? (b) o que prtica? (c) o que reflexo? Toda resposta que

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    Carol Kolyniak Filho2

    V SIMPSIO PAULISTA DE EDUCAO FSICA

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    possa ser dada a tais perguntas tem de partir de alguns pressupostos acerca do Homem e do conhecimento. Por essa razo, responder implica em assumir posies filosficas. A partir de respostas dadas a essas 3 questes, pode-se, ento, enfrentar outras tantas: 1)-Que corpo terico deve ser utilizado no ensino da Educao Fsica? 2)-Como articular teoria e prtica nesse ensino? 3)-Como favorecer uma atitude reflexiva no profissional em formao?

    Para abordar essas questes, comeo pela definio dos meus pressupostos epistemolgicos. Assumindo o materialismo histrico dialtico como referncia fundamental, entendo que o homem caracteriza-se pelos seguintes atributos essenciais:

    - indivisvel em corpo e mente (esprito), sendo estes aspectos de uma totalidade que se realiza em ato.

    - constitui-se nas e pelas interaes sociais, sobrevivendo e se desenvolvendo, portanto, apenas em grupo.

    - sua conscincia origina-se na atividade concreta exercida sobre a natureza, na luta pela sobrevivncia, sendo essa conscincia materializada na linguagem - portanto, mediada por signos.

    - diferencia-se de outros animais pela capacidade de produzir seus prprios meios de sobrevivncia, transformando a natureza e transformando-se ao faz-lo.

    - ao realizar trabalho, utiliza seu corpo e suas faculdades mentais, de modo que no h trabalho exclusivamente fsico nem exclusivamente mental.

    Diante de tais pressupostos, possvel definir: Prtica como toda a ao do homem sobre a

    natureza e sobre outros homens. Teoria como a organizao das representaes

    que o homem constri sobre objetos ou fenmenos, num sistema conceitual elaborado segundo critrios lgicos (estes, por sua vez, igualmente construdos pelo homem).

    Reflexo como o processo de confrontar sistematicamente as representaes da realidade com um sistema ou conjunto de sistemas conceituais articulados (teorias). Desse processo podem resultar mudanas nas formas de representar a realidade, nas teorias ou em ambas.

    Dadas tais definies, cabe notar que toda a atividade humana envolve, em alguma medida, tanto a ao concreta sobre a realidade quanto a representao dessa realidade. Assim sendo, quando tomamos teoria e prtica em sentido amplo, podemos afirmar que no h prtica sem teoria, nem teoria sem prtica. Isso equivale a dizer, tambm, que toda a atividade humana envolve algum grau de reflexo. No obstante, preciso considerar que a combinao entre prtica, teoria e reflexo pode assumir formas muito diversas, variando de uma prtica quase automatizada, com vaga conscincia dos conceitos que a embasam, a uma teorizao quase sem relao com a realidade concreta. Nesses casos extremos, o que definimos como reflexo ocorre em escala muito reduzida.

    Outra variabilidade nas relaes entre teoria, prtica e reflexo ocorre em funo da abrangncia das representaes que algum tem sobre a realidade. Pessoas que compreendem apenas os aspectos imediatos de seu ambiente e de suas relaes podem refletir muito ao agir, sem contudo ultrapassar os limites de sua compreenso da realidade. Por exemplo, um professor de Educao Fsica que conhece muito bem anatomia, fisiologia e cinesiologia, pode refletir constantemente sobre a adequao de seu trabalho s caractersticas morfolgicas e funcionais das pessoas com quem trabalha. No obstante, se no tiver compreenso dos aspectos psicossociais, histrico-culturais e poltico-econmicos que constituem a motricidade, no poder fazer uma leitura mais abrangente de sua atividade. A situao desse professor a mesma do agricultor que conhece muito bem as tcnicas de plantio, cultivo e colheita, mas desconhece os mecanismos de formao de preos, as intermediaes na comercializao de seus produtos, a poltica agrcola do governo em sua articulao com os interesses dos latifundirios e de outros grupos econmicos. Em ambos os casos, a reflexo dessas pessoas s poder interferir na sua ao imediata sobre o meio restrito em que atuam, no chegando possibilidade de alterar o sistema mais amplo de relaes em que se inserem.

    A reflexo, que constitui a articulao constante entre teoria e prtica, possibilita a transformao das representaes sobre a realidade e das aes concretas sobre a realidade, num processo dialtico. Em outras palavras, mudanas que o homem provoca em seu meio, com sua atividade, determinam alteraes em suas representaes sobre a realidade. Reciprocamente, mudanas nessas representaes (e nas teorias) possibilitam novas formas de atividade, num processo contnuo de transformao mtua e unitria.

    Isto posto, possvel afirmar que a profundidade e a abrangncia do processo de reflexo - portanto, da dinmica de desenvolvimento na relao teoria-prtica - que uma pessoa (ou um grupo) capaz de realizar depende de tres variveis: (a) profundidade e abrangncia de seus conceitos e sistemas tericos, (b) o seu contato com a realidade concreta e (c) a disponibilidade/hbito/habilidade de confrontar continuamente os dados da experincia com os referenciais tericos.

    luz dessas definies - tomadas a partir de um marco terico assumido - abordarei o segundo grupo de questes colocadas ao incio.

    1. Que corpo terico deve ser utilizado no ensino da Educao Fsica?

    A resposta cabal a esta questo depende, em primeiro lugar, da definio de um objeto de estudo para a Educao Fisica. No obstante, qualquer que seja o objeto definido, este s pode ser entendido adequadamente em sua relao com a totalidade dos fenmenos humanos e naturais. Assim sendo, um corpo terico para a Educao Fsica deve caracterizar-se pela abrangncia da realidade

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    em suas dimenses natural e scio-histrico-cultural. Essas dimenses devem ser integradas em 3 nveis de abordagem: o filosfico (tratando das concepes genricas sobre o homem, a realidade, o conhecimento e a axiologia - tica e esttica), o cientfico (como construo sistemtica de representaes da realidade, expressas em teorias) e o tcnico (referindo-se a procedimentos concretos para levar a cabo o trabalho profissional, em torno do objeto de estudo definido para a Educao Fsica).

    Ao assumir o materialismo histrico dialtico como marco epistemolgico e metodolgico, considero de especial relevncia, na formao do professor de Educao Fsica, o estudo das relaes entre o movimento humano consciente (ou outra formulao que se possa dar ao objeto de estudo da Educao Fsica) e a organizao poltica e econmica da sociedade em que esse movimento ocorre. Nesse sentido, no poderia faltar, entre outras abordagens, um estudo introdutrio da Economia Poltica, atravs do qual possvel situar como as relaes de produo influenciam na motricidade das pessoas e na sua conscincia.

    2. Como articular teoria e prtica nesse ensino?

    Os currculos atuais de formao do professor de Educao Fsica contemplam disciplinas como psicologia, sociologia, etc. No obstante, essas disciplinas tendem a ser ministradas como corpos tericos autnomos, que podem permanecer desvinculados das disciplinas chamadas "prticas", como o atletismo, a natao, o voleibol, etc. A articulao entre teoria e prtica exige uma organizao que possibilite a abordagem de todos os princpios tericos junto prtica, inclusive, em vrios momentos, simultaneamente prtica. Por exemplo, ao ministrar uma aula versando sobre flexibilidade, o professor pode propor a prtica de exerccios de alongamento, durante os quais vai pedindo aos alunos que prestem ateno s sensaes advindas da execuo dos exerccios, de modo a identificarem a musculatura que est sendo alongada. No decorrer da sesso, enquanto os alunos executam os exerccios propostos, o professor pode retomar os mecanismos de contrao e descontrao muscular, as funes do fuso muscular e do rgo tendinoso de Golgi, etc. Pode tambm abordar a questo das tenses musculares e suas possveis origens, relacionando-as com o cotidiano das pessoas, com a dinmica das relaes humanas, no bojo das relaes de produo e dos valores de classe social. Nesse quadro, pode localizar com mais clareza a importncia dos exerccios de alongamento na busca de reequilbrio face s tenses do dia-a-dia, apontando, tambm, porque tais exerccios no constituem, por si s, uma soluo definitiva dos problemas causados pela tenso.

    No exemplo dado, fica explcito o que quero dizer com articulao entre teoria e prtica. Esse tipo de articulao no precisa ser feito em todas as aulas, de todas as disciplinas. H momentos em que necessrio

    uma elaborao conceitual mais complexa, que exige processos diferenciados - leitura e discusso de textos, assistncia e discusso de filmes e desempenhos motores ao vivo (desportivos ou artsticos), debates, elaborao de trabalhos e snteses escritas,etc. Tambm h momentos que exigem uma concentrao maior em tentativas de domnio de movimentos especficos, bem como um engajamento em situaes de jogo, como vivncias importantes para a compreenso dos fenmenos que a Educao Fsica estuda. Entretanto, necessrio que haja muitas aulas do tipo mencionado acima, para que se possa vincular estreitamente teoria e prtica. Nesse sentido, cabe apontar que a prtica de ensino constitui uma parte fundamental do currculo, na qual a relao teoria-prtica deve atingir o maior grau possvel de explicitao.

    3. Como favorecer uma atitude reflexiva no profissional em formao?

    A atitude reflexiva no se esgota na articulao teoria-prtica durante o processo de ensino-aprendizagem. Tal atitude exige um olhar constante e crtico para a realidade, para os fatos que esto ocorrendo cotidianamente, tanto no mbito estrito das atividades que sero desenvolvidas pelo futuro professor (ensino escolar, orientao em academias, atividades em clubes, eventos esportivos, campanhas publicitrias,etc) como na esfera mais genrica das relaes poltico-econmicas locais, nacionais e internacionais. O exerccio de anlise da realidade, luz do conhecimento que os alunos vo construindo durante a graduao, representa a forma privilegiada para o desenvolvimento de uma atitude reflexiva, que pode acrescentar mais significado aos contedos do ensino profissional em Educao Fsica.

    O desenvolvimento do ensino na formao do profissional em Educao Fsica, na forma apontada acima, s pode ocorrer com docentes que tenham uma ampla viso filosfica, cientfica e tcnica, aliada ao exerccio do ensino (seja em escolas, academias, clubes ou outras situaes) e ao hbito da reflexo. Professores altamente especializados, detentores de grande saber tcnico, mas incapazes de contextualizar suas prticas na dinmica das relaes sociais, polticas e econmicas em que atuam, dificilmente podero contribuir para a formao de uma atitude reflexiva por parte do alunado.

    Como decorrncia do processo de fragmentao do conhecimento cientfico, que resultou na especializao progressiva da atividade profissional, o professor de Educao Fsica, como outras tantas categorias de trabalhadores, tende a isolar-se na busca de soluo para os problemas de sua rea. A meu ver, a busca da interdisciplinaridade em ato constitui uma sada para os impasses na formao de um profissional com viso mais ampla da realidade multifacetada em que atua. Por interdisciplinaridade em ato entendo a atuao conjunta e articulada de profissionais de diferentes reas e no o mero recurso, por parte do professor, a teorias de diferentes cincias (isto j tem ocorrido na graduao, sem caracterizar, necessariamente, uma autntica

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    interdisciplinaridade). Por exemplo, mdicos, psiclogos, socilogos e professores de Educao Fsica poderiam planejar os contedos de suas disciplinas em conjunto (todos interferindo no planejamento de todos) e, em alguns casos, ministrar aulas em duplas ou trios, aprofundando a leitura de aspectos psicossociais e biolgicos subjacentes a um contedo prtico. O processo de avaliao, efetuado em conjunto com os alunos, tambm pode ser um momento privilegiado para o exerccio da interdisciplinaridade em ato - visto que, nesse caso, os alunos percebem como seu desempenho pode ser enfocado de diferentes ngulos, com o auxlio de diferentes teorias.

    A utilizao de estratgias como as exemplificadas constitui-se em possibilidade para a busca de uma formao em que se alia fundamentao terica significativa e abrangente com domnio de instrumental tcnico e metodolgico adequado, na perspectiva da criao de um profissional reflexivo, capaz de atuar para o desenvolvimento do meio em que vive, no s reproduzindo o conhecimento construdo em sua graduao, mas transformando esse conhecimento e as prticas sociais correspondentes, na direo apontada por uma postura poltico-ideolgica explcita e consciente.

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