Talento, pra qu? Talento, pra qu?

  • Published on
    07-Jan-2017

  • View
    213

  • Download
    1

Transcript

  • Revista dos alunos de Comunicao Social da PUC- Rio Ano 15 N 29 Julho / Dezembro de 2009 issn 1413-5965

    Talento, pra qu?

  • Talento, pra qu? 1

    A cAA Aos cAA-TAlenTos

    no cAminho dA fAmA

    Pequenos grAndes noTveis

    filho de Peixe Pode no ser Peixinho

    fAzendo diferenTe

    sem PressA

    Perdidos e AchAdos PelA ruA

    TAlenTos nA noiTe do rio

    A ArTe dA TATuAgem

    2

    6

    10

    14

    18

    21

    24

    28

    31

    Primeiras Palavras

    eclTicA umA revisTA semesTrAl dos Alunos do dePArTAmenTo de

    comunicAo sociAl dA Puc-rio, esse nmero foi Produzido PelA

    TurmA de 2009.2 do curso de comunicAo sociAl, hAbiliTAo

    em JornAlismo, dA disciPlinA de edio em JornAlismo imPresso.

    direTorA do dePArTAmenTo de comunicAo sociAlProf. AngellucciA hArberT

    coordenAo ediToriAlProf. fernAndo s

    PROGRAMAO VISUALProf. Affonso ArAJo

    AlunA ediTorAmArliA sArkis

    redAo e AdminisTrAodePArTAmenTo de comunicAo sociAlruA mArqus de s. vicenTe, 225 AlA kennedy6 AndAr gveA rio de JAneiro rJceP: 22453-900 Tel.: (21) 3527-1603

    Sumrio

    Julho/Dezembro 2009

    Marlia Sarkis

    Quem nunca ouviu pelos cantos do mun-do expresses como Esse menino tem talento, Voc precisa de talento para fazer isso, Talento o diferencial dele? Apesar de fazer parte do cotidiano das pessoas, no se sabe ao certo sua origem e porque alguns indivduos possuem talento para fazer algu-ma coisa e outros no.

    Talento pode significar uma vocao, um dom, uma habilidade para desenvolver cer-tas atividades, como artes plsticas, msica, literatura, esportes... Como essa habilidade pode se manifestar de vrias formas, procu-ramos desvendar qual o mistrio que h por trs de se ter ou no uma vocao, assim como a opinio de profissionais especializa-dos em encontrar talentos.

    gentico? H uma idade para ser desco-berto? Onde se pode encontrar o talento ar-tstico? O que a night, que muito agrada principalmente os jovens cariocas, tem a ver com esse assunto? O que devo fazer para que meu talento seja despertado ou reconhecido? Essas so algumas questes que procuramos responder nas matrias que publicamos nesta revista. Alm disso, voc tambm encontrar um mundo de expectativas, lutas, paixes e histrias bem contadas.

    Revista dos alunos de Comunicao Social da PUC- Rio Ano 15 N 29 Julho / Dezembro de 2009 issn 1413-5965

    Talento pra qu?

  • Julho/Dezembro 20092

    A caa aos Caa-Talentos

    ClariCe rios e Cora ayres

    Quem nunca sonhou estar cantando num barzi-nho ou simplesmente andando pela rua, e de repente, ser descoberto por um caa-talentos? Ou que pessoa apaixonada por futebol no queria a visita de um olheiro (o caa-talentos do futebol) na sua pelada com os amigos? Os caadores de ta-lentos esto no imaginrio das pessoas, s que essa profisso no mais to comum assim. Meninas e meninos em todo o Brasil sonham em ser modelo, ator, cantor e jogador de futebol. Muitos deles cor-rem atrs de uma chance indo de porta em porta e se arriscando a receber um no. Outros ficam espe-rando que algum os descubra.

    Carlos Andrade agente e diretor da Top Kids e Te-ens. Seu dia-a-dia basicamente na agncia de mo-delos e atores onde responsvel pelas avaliaes de interpretao e pelos testes fotogrficos. Andrade informa que na maior parte das agncias no exis-te mais a figura do caa-talentos que sai s ruas em busca de algum excepcional. O mtodo mais comum o cadastro pelo site e, posteriormente, o teste presencial.

    Mas quando Andrade est na rua, liga o faro, j treinado pelo tempo de profisso, e segue sua in-tuio para encontrar novos talentos. Na agncia, apesar de no ter nenhum headhunter especializa-do, todos j tm o esprito de caador e so treina-dos para descobrir pessoas que tenham boa apa-rncia e simpatia.

    A possvel superficialidade do olhar de um caa-talentos de atores e modelos talvez tire o glamour da

    profisso no imaginrio das pessoas. Quando esse profissional vai s ruas, na maior parte das vezes, tem poucas ferramentas para descobrir o talento, seno a aparncia e o carisma que transparecem. Como Andrade define: h uma procura por algum fora dos padres.

    Para ser modelo a beleza importante, no en-tanto, para seguir a carreira de ator muitos outros fatores esto em jogo. Esse um dos motivos que as agncias Top Kids e Teens, no centro do Rio, e a Qualit, em Copacabana, alegam por no op-tarem por um profissional especializado. A partir do site ou pelo telefone, mais oportunidades so abertas e o candidato pode provar sua aptido. J a agncia tem mais opes, e diminui o risco de perder algum que primeira vista no parecia ser talentoso.

    Abrir o teste para o pblico pode tambm dificul-tar o trabalho, especialmente para quem lida com crianas e adolescentes. A habilidade da criana to evidente para os pais nem sempre reconheci-

    Fomos atrs dos que vo atrs de novos talentos

    Ainda mais difcil informar a um pai coruja que seu filho

    no tem talento

    Carlos Andrade

    Edilene de Franca, a nmero 2, comemora gol com as companheiras de Seleo

  • Talento, pra qu? 3

    da pelos avaliadores. Muita criana quando chega agncia no quer se apresentar ou fica com ver-gonha, porque para ela um ambiente estranho. E os pais ficam insistindo e dizendo que em casa ele faz tudo bonitinho, conta Andrade. preciso muito jogo de cintura para convencer os pais a no insistir se a criana no quiser. Ainda mais difcil infor-mar a um pai coruja que seu filho no tem talento.

    A dificuldade de abordagem nas ruas outro fator que promove a extino destes profissionais. Casos de indivduos que se fazem passar por agentes de modelo e enganam jovens, deixaram a populao mais desconfiada e precavida. Quando vemos uma criana ou um adolescente fora dos padres, faze-mos sempre a abordagem com os pais, entregando um carto da agncia, e quando h uma mulher bo-nita falamos com o namorado para eles no acha-rem que uma cantada, ressalta.

    Das agncias aos gramadosNo futebol o caa-talentos conhecido como

    olheiro. Os meninos e meninas que sonham ser jo-gadores ainda contam com a ajuda desse profissio-nal. A discrio a maior caracterstica do obser-

    vador. Sem se identificar, ele vai s competies em busca de novos talentos.

    assim que o olheiro Flavio Rangel, tambm Di-retor do Departamento de Futebol Feminino do Vas-co, define sua atuao nos campos. Sempre muito discreto, ele prefere manter o anonimato para no interferir no estado emocional dos atletas.

    Rangel vai atrs de novos jogadores nas chama-das vrzeas. Essas so competies normalmente organizadas por comunidades, associaes de mo-radores ou pessoas fsicas. Para um olheiro esse o melhor local para encontrar novos talentos no fute-

    Sem sangue novo o corao pra, sem novidade a engrenagem emperra

    Alexandre Ktena

    Candidatos a famosos mostram seu talento nas agncias.

    renATo Wrobel

  • Julho/Dezembro 20094

    bol. O bom observador sempre sabe onde ocorrem esses jogos. O melhor celeiro a vrzea, possvel identificar a qualidade e o potencial das jogadoras, reitera Rangel.

    O headhunter do futebol precisa ter pacincia e foco. O desempenho dos atletas em cada jogo pode variar bastante. preciso frequentar no mnimo trs jogos para saber se a pessoa realmente talentosa.

    Rangel define o olheiro, como o prprio nome j sugere, como aquele que tem um olho clnico para encontrar um bom jogador. Quando eu vejo o to-que na bola, a conduo e o passe j consigo notar se aquele atleta tem futuro, afirma.

    Foi com o seu olho clnico que as jogadoras Thay-nara de Arajo, Edilene de Franca e Jssica Gomez saram do time de sua comunidade e foram convo-cadas para a Seleo Brasileira. No h maior sa-

    tisfao do que ver uma atleta que voc acreditou sair de uma vrzea, de uma favela, e despontar che-gando Seleo, diz Rangel. Ele conta que elas se destacaram no s pelo talento inerente, mas tam-bm porque se dedicaram intensamente.

    Eu procuro dar toques sobre o trabalho dentro de campo, mas tambm no mbito social, porque essas jogadoras so muito jovens, vm de locais humildes. Ento eu procuro alertar para que elas tenham maior controle, se afastem de ms influncias, conta Ran-gel. O olheiro profissional no s responsvel por informar o clube a descoberta de um novo talento. Pode realizar, tambm, o gerenciamento da carreira do jogador e dar conselhos que contribuam para o crescimento pessoal. Ele tem papel importante no percurso do atleta, pois as negociaes entre os clubes transformam o jogador em mercadoria. Quando se trata de jovens amadores ainda mais imprescind-vel saber escutar o desejo e a vontade do esportista.

    O mercado futebolstico movimenta muito dinheiro e fascina as pessoas. H diversos casos de falsos olhei-ros que se aproveitaram da ingenuidade das fam-lias. Pessoas que deram todo o dinheiro que tinham para jogar num time no exterior e quando chegaram ao aeroporto no havia sequer algum para receb-las. Outras viajaram, e ao chegarem ao destino no havia clube, mas sim um esquema de prostituio.

    Flavio Rangel informa que quando se gerencia a carreira de um atleta amador, a famlia tem que ser informada de tudo que est acontecendo. Ele faz um alerta para que as famlias no negociem nada pelo telefone, tudo deve ser documentado e autenticado.

    Coisa do passado?No ramo da msica, pode se dizer que caa-talen-

    tos coisa do passado. O produtor executivo Mau-rcio Von Helde afirma que a funo das gravadoras no mais a mesma que antes dos anos 1980 e 90.

    As gravadoras tinham o monoplio dos meios de produo de msica e controle sobre a mdia (rdio e TV), mas depois do barateamento do computador, das novas tecnologias de gravao e da consolida-o da internet, as bandas e grupos comearam a surgir de forma independente, fazendo seus conte-dos e se divulgando, afirma Von Helde.

    Na maioria das vezes, quando o artista j tem um pblico e alguma fama, ento, a gravadora o incor-pora. As grandes empresas, que antes eram grandes reveladoras de talentos, hoje, so mais distribui-doras do produto musical. Esta mudana do com-portamento ativo das gravadoras se deve maior facilidade que os artistas hoje tm para se divulgar e, principalmente, criar um pblico.

    O sonho de chegar s passarelas.

    ren

    ATo W

    robe

    l

  • Talento, pra qu? 5

    O que as gravadoras j no fazem mais hoje em dia, os programas de televiso tm feito. O quadro Garagem do Fausto, do programa dominical de Fausto Silva, busca talentos musicais por todo o Brasil. Um exemplo vivo de que um sonho pode se tornar realidade o da mineira de Itajub, Myllena. Ela foi a primeira revelao do programa e aps se apresentar no palco do Domingo do Fausto, foi contratada pela Som Livre e gravou seu primeiro CD. Myllena surpreendeu tanto que sua msica entrou na trilha da novela Caras e Bocas, da TV Globo, como tema da personagem de Ingrid Guimares. Tudo aconteceu muito rpido, em quatro semanas a minha vida se transformou. Na primeira semana vi meu vdeo exibido no programa, na segunda, me ligaram para ir ao palco. Na terceira me convidaram para colocar a msica na novela e na quarta fechei contrato com a Som Livre. Um trabalho de 10 anos, que se transformou em

    realidade em apenas um ms! Nunca imaginei que seria assim. Voc manda o vdeo do mesmo modo que joga na loteria, sem imaginar que possa ganhar!, declara Myllena.S tm a chance de serem descobertos, aqueles que enviam seus vdeos para o site do programa. Segundo o diretor do Garagem do Fausto, Cris Gomes, a internet facilitou a entrada dos programas de televiso nesta busca por novos talentos. O Garagem uma ideia do apresentador Fausto Silva. Desde 2006 a direo vem trabalhando na execuo deste projeto, mas somente este ano foi possvel execut-lo. O objetivo do quadro revelar talentos, dar oportunidade s pessoas de divulgar seu trabalho e est a o diferencial do Garagem. A internet virou a porta de entrada para um dos programas mais tradicionais e conceituados da TV brasileira, que durante muito tempo da sua histria

    musical ficou merc das grandes gravadoras, afirma Cris Gomes.Para o diretor do Garagem, o espao dos annimos na televiso sempre existiu, e hoje, o que acontece que a tecnologia facilitou e mudou o jeito de fazer televiso. O annimo tem vrias maneiras de interagir com os canais de TV e, por isso, acaba sendo mais fcil descobrir novos artistas.

    O produtor musical da gravadora DeckDisc, Ale-xandre Ktena, concorda que no h mais um pro-fissional que se concentre apenas na descoberta de um novo talento, mas, segundo ele, certamente as gravadoras e produtoras ainda buscam o novo. Sempre haver algum buscando o NOVO com le-tras maisculas, seja ele um artista que encontrou uma maneira original de cantar um antigo sucesso, seja ele aquele compositor que fala de amor de um jeito que ningum falou antes, seja ele uma pessoa que inventou um modo absolutamente indito de misturar ritmos e melodias e de fazer disso uma re-voluo. Sem sangue novo o corao pra, sem no-vidade a engrenagem emperra, ressalta.

    Para o produtor da DeckDisc, se algum assumir o papel do caa-talentos, este deve ouvir msica o tempo todo, e vasculhar a internet com olhos e ouvidos atentos. O perfil ideal dessa pessoa que ela esteja disposta a escutar tudo o que lhe mandam, ir a todos os eventos, e o mais importante, sem carre-gar nenhum preconceito.

    Ktena acredita que no h uma regra para onde se pos-sa encontrar um novo talento. Os sucessos na maioria das vezes aparecem nos locais mais inesperados. Podem vir de uma garagem em Seattle, de uma fazendo em Gois, de uma casa noturna do Baixo Leblon, de uma praia na fronteira da Bahia com o Esprito Santo, de uma churrascaria no meio da estrada, de um barraco cain-do aos pedaos na favela, dos pilotis da PUC-Rio, num boteco p-sujo nas margens da Lagoa do Abaet... E esta lista a absolutamente real, ou de onde voc acha que vieram Nirvana, Bruno & Marrone, Blitz, Falamansa, Wando, Jota Quest, Exaltasamba, Los Hermanos e Ivete Sangalo? Exatamente dos locais que listei ali..., afirma Ktena.

    Caa-se talento ou no, uma coisa certa, ainda h muito artista por a em busca de um lugar ao sol. Sem dvida a oferta muito maior que a demanda. As gra-vadoras/produtoras recebem uma quantidade enorme de contedo (CDs, DVDs, MP3, links e sites) de bandas e cantores que tm o sonho do sucesso e elas no so capazes de absorver tudo, diz Maurcio Von Helde.

    Myllena no palco do Domingo do Fausto

    A caa nos programas de televiso

  • Julho/Dezembro 20096

    No caminho da fama

    Dinheiro, sucesso, popularida-de e glamour. Palavras que querem constar no dicionrio daqueles que esto no caminho da fama. Ser reconhecido na rua pode ser o sonho de muita gente. Da se v o aumento de reality shows, como o Big Brother e o American Idol, que so uma porta de entrada para o mercado televisivo. Mas nem todos tm a oportunidade de aparecer em programas como esses. Sendo assim, eles tm que buscar outras alterna-tivas para mostrar o seu talento.

    O fato que para se chegar ao su-cesso preciso muita fora de von-tade e dedicao. So mudanas na rotina, ensaios, cuidado com a apa-rncia e com a voz dependendo de qual carreira se deseja seguir. Ainda sim, existe espao para quem real-mente quer entrar nesse caminho, mas a fama s ser possvel se a pessoa realmente estiver empenha-da para que isso acontea.

    J na estrada...Anna Cludia Hannickel pode

    no ser conhecida por muita gen-te, mas j participou do Coral das Meninas de Petrpolis, do Projeto Aquarius ao lado do maestro Isaac Karabtchevsky alm de ter cantado o Hino Nacional, no Tri-bunal de Contas do Rio de Janeiro, para o prefeito Eduardo Paes.

    Como a maioria dos jovens, Nina como mais conhecida, adora danar funk, ir s boates, festas e shows. Mas, para manter o vozeiro em dia, precisa tomar cuidado com as sadas e evitar a rouquido, que pode atrapa-lhar sua participao nos eventos. s vezes tenho que ficar em casa para cuidar da minha voz e da sade.

    A estudante de msica da Uni-versidade Federal do Rio de Janei-ro (UFRJ) acredita que outra difi-culdade nessa estrada o fato de

    o mercado para a msica princi-palmente da clssica ter poucas oportunidades. Sabendo disso, ao entrar na UFRJ resolveu fazer um curso de administrao. A concor-rncia tambm outro fator que Anna Cludia considera uma difi-culdade para se alcanar a fama. muita gente boa tentando a mesma coisa que voc, todo mun-do est estudando para isso.

    Mesmo com a rotina apertada, Nina sonha em ser uma grande cantora lrica e cantar peras em teatros famosos. Para conquistar o seu objetivo, a estudante tem usa-do a propaganda boca a boca e investido em eventos fechados, como jantares e casamentos. A soprano desenvolveu tambm um site, que ainda est em constru-o, para divulgar os seus vdeos on-line.

    Para Nina, o diferencial que possui em relao s demais

    Os desafios e conquistas de quem resolveu seguir nessa estrada

    lusa sussekind e Melina nasCiMento

    Anna Cludia canta no Tribunal de Contas do Rio de Janeiro e com Isaac Karabtchevsky no Projeto Aquarius

  • Talento, pra qu? 7

    cantoras lricas a alegria, a de-dicao, ter um esteretipo dife-rente e ser jovem. Alm dessas vantagens, ela ainda conta com o apoio de uma equipe muito es-pecial. Acho que o apoio da fa-mlia e dos amigos fundamen-tal, porque passamos por muitas dificuldades. So testes que nos negam, crticas, etc. E a fora que recebo de todos o que no me deixa desistir.

    Assim como Nina, Mariana Alho est percorrendo o caminho da fama. Alm de estudar turis-mo na Universidade Veiga de Al-meida (UVA), a jovem de 20 anos toca guitarra, violo, bateria, pia-no, pandeiro e cavaquinho. Se j no bastassem os instrumentos, ela ainda cantora e tem duas bandas: Focco e Hyt. A segunda de composies prprias e par-ticipam no quadro Garagem do Fausto.

    Mariana deseja viver seu sonho. Para isso, ela teve que mudar sua vida social em funo da carreira, uma vez que vive para os ensaios e suas bandas. Tenho que trocar vrias vezes a festinha, a viagem, o cinema, o churrasco, os amigos em geral, para me dedicar aos en-saios. Economicamente falando tambm complicado, porque no comeo se investe muito, e o retor-

    no, quando vem, s alguns anos depois.

    A cantora tem conscincia das dificuldades enfrentadas pelos artistas. Sendo assim, mais do que natural que Mariana tenha alguns temores em relao ao futuro: no conseguir se destacar na mdia, devido ao nmero de concorrentes; no conseguir se manter financeiramente quando alcanar o sucesso; e perder sua privacidade, j que a considera fundamental. Com esse futuro in-certo, ela passa a valorizar ainda mais o apoio que recebe em casa. Acho que o apoio a melhor aju-da que algum pode receber nesse tipo de profisso.

    Depois da conquista da fama, quais so os novos desafios?

    Ernesto Xavier percorreu um ca-minho to duro quanto o de Nina e Mariana. Mas ele j subiu al-guns degraus a mais na escada da fama. Depois de atuar em peas de teatro, fez um teste para elenco de apoio da Rede Globo. Foi aceito e fez pequenas participaes em novelas. Em Duas Caras, novela das oito que estreou em 2007, ele contracenou com sua av, Xica Xavier.

    Seu trabalho desenvolvido no horrio nobre lhe rendeu um con-

    vite muito especial de Miguel Fa-labella: participar da novela Ne-gcio da China, que estreou em 2008. O autor escreveu uma per-sonagem especialmente para ser interpretada por Ernesto. Agora, com mais visibilidade na mdia, o ator sentiu algumas diferenas causadas pelo sucesso. A vida no muda tanto. Claro que acon-tecem coisas novas como ser re-conhecido na rua, festas, lugares novos, mas importante manter o rumo normal da vida, com ami-gos e famlia.

    Ernesto nunca buscou a fama. Seu desejo era trabalhar. Traba-lhar e no ficar parado. E sem-pre com esperana, porque um caminho com muitos desafios. So audies atrs de audies, alguns feedbacks positivos e mui-tos negativos. E depois disso tudo, teve que lidar com as mudanas de referencial de dia de trabalho. O artista trabalha quando os ou-tros se divertem. Sbado e domin-go so dias normais de trabalho, mas uma segunda-feira pode ser tima para ir praia.

    Como tudo na vida, a fama tem vantagens e desvantagens. Por um lado, o reconhecimento pblico pode ser considerado motivo de orgulho, auto-realizao e poder. No entanto, ela limita a liberdade

    Mariana no ensaio da banda Hyt e no show no pub Mud Bug, em Copacabana

  • Julho/Dezembro 20098

    individual, por torn-la uma figu-ra pblica. Esse medo tambm faz parte da vida de Ernesto. Tenho medo de perder a privacidade. No por mim, mas pelas pessoas que po-dem estar prximas a mim. Algum dia quero ter filhos, famlia e essas pessoas podem ser afetadas. Mas

    ChicagoUma sonhadora cantora que busca a fama dos palcos da Broadway conhece na priso uma ex-famosa. Juntas elas tentam chamar a ateno da imprensa, para voltar aos holofotes da Broadway.

    Filmes que falam sobre o caminho para a fama

    Na trilha da fama A atriz e cantora Hillary Duff, no papel da jovem Terri, sai de uma cidade pequena para fazer um curso de vero em uma das escolas de msica mais conceituada de Los Angeles. Uma histria emocionante sobre como acreditar num sonho meio caminho para torn-lo realidade

    FamaO clssico musical dos anos 1980, FAMA, mostra os desafios que jovens danarinos, cantores e artistas enfrentam para alcanar o sucesso, enquanto ainda so estudantes da tradicional New York City High School of Performing Arts.

    A malvadaEm busca de sucesso, uma jovem e ambiciosa atriz procura entrar no show business com a ajuda de uma famosa diva dos palcos. Para alcanar a fama ela tenta ocupar o lugar da estrela do teatro, manipulando sua vida e seus amigos mais prximos.

    isso depende de como voc leva a vida. Quem procura no se expor e leva uma vida tranquila no in-teressante para a imprensa.

    Ernesto pode ainda no ser ob-jeto de interesse dos paparazzi. Mesmo assim, j se prepara para lidar com a perseguio da mdia.

    Sempre que pode, se rene com sua famlia, composta por alguns artistas, para pedir conselhos e lembrar sempre dos exemplos que tem em casa. Uma dessas dicas j considerada por ele um diferen-cial para sua carreira. Ter estu-dado muito e me dedicar a outras atividades o meu segredo. Quem estuda e se informa tem vanta-gem. E ser simptico, fazendo amizades por onde passo timo. Assim voc sempre ser lembrado para um novo trabalho.

    Ernesto pretende agora voltar aos palcos de teatros, sua grande paixo. E para o futuro, um pou-co mais distante, pretende entrar para o cinema. E no somente como ator, com papis que exijam cada vez mais dele, mas tambm como produtor. Eu espero que al-gum dia eu possa produzir filmes dos roteiros que eu escrevo.

    Por trs da famaClara Sssekind bailarina pro-

    fissional h 16 anos. J fez bal clssico, bal moderno, sapateado, jazz, dana do ventre, dana india-

    Ernesto ( direita) no intervalo da gravao da novela Negcio da China

  • Talento, pra qu? 9

    na e dana cigana. Ela tentou uma carreira na rea durante muitos anos e acabou virando professora. Em 2006, foi para a Turquia estu-dar o giro Sufi, que faz parte do fol-clore turco. Mas como o pas mu-ulmano, ela no encontrou em Istambul algum que a ensinasse.

    Desistiu do estudo e resolveu ir Capadcia para andar de balo. Essa viagem foi sem volta: arru-mou um emprego no restaurante Harmandali e est l at hoje. Eu cheguei aqui s para fazer turis-mo. Entrei numa loja de artigos de dana do ventre e o vendedor me falou que seu amigo era dono de um restaurante. Eu fui l, me apre-sentei e acabei sendo contratada. Dano l todas as noites e com o restaurante sempre cheio.

    Clara j atrao turstica na regio. Aplaudida por pessoas do mundo inteiro, ela considera-da hoje a primeira-bailarina da Turquia. Para manter o cargo, a bailarina e ex-moradora de Copa-cabana, precisa ser discreta para que o pblico no descubra sua verdadeira identidade. Seria to frustrante para eles se soubessem que sou brasileira, quanto seria se descobrissem que a musa do car-naval carioca na verdade turca.

    Por mais que tenha alcanado o sucesso, Clara no vive o conto de fadas que ela sonhava. Primeiro porque mora em um pas de cul-tura completamente diferente da sua, no qual a mulher no tem espao na sociedade. E depois, ela teve que deixar sua famlia no Rio de Janeiro: pai, me, sobrinhas, ir-mos e a filha de 10 anos. A Sofia

    Ernesto Xavier, ator: Alcanar a fama fcil, difcil ser reconhecido pelo seu trabalho efetivamente. Qualquer um pode ficar famoso em um reality show. Acreditar no prprio talento e esforo o segredo. O lema persistir sempre.

    Selma Correia, psicloga: No desistir jamais. Ir atrs do seu objetivo. Isso exige obstinao, ou seja, no olhar para trs.

    Frederico Baumann, mdico: Nunca se contente com o que j fez, por melhor que possa parecer. Sempre h margem para fazer alguma coisa ainda melhor.

    Adriana Ferreira, chefe de reportagem da TV PUC: Para chegar ao sucesso tem que trabalhar, trabalhar, trabalhar. preciso muita sorte, porque a pessoa precisa estar na hora certa e no lugar certo. Mas necessrio ter senso de oportunidade, para perceber o que um bom projeto para o futuro.

    Anna Cludia Hannickel, estudante e soprano: No tenha vergonha de fazer sucesso. Isso sinal de que seu trabalho bom e foi reconhecido. As pessoas adoram conhecer algum que faz sucesso e, por isso, vo transformar voc no centro das atenes. Muitos podem sentir certo incmodo com isso. Mas esta uma etapa que deve ser superada.

    Mariana Alho, estudante e cantora: Determinao e humildade. Essas so as palavras-chave para quem quer ter sucesso na carreira.

    Elan Brasil, engenheiro: Tenha perseverana e aceite desafios. Estabelea objetivos. Cumpra metas.

    Clara Sssekind, danarina: A fama s vem com a persistncia. So muitas dificuldades no caminho e preciso lutar sempre. Por mais que muitos digam que questo de sorte, para chegar ao sucesso e se manter l preciso muito empenho, dedicao e amor profisso.

    Marcia Fontes, arquiteta: Para se chegar ao sucesso preciso antes de mais nada estudo. Seja em humanas, exatas ou at na arte. No se chega a lugar algum sem uma boa formao acadmica e uma cultura ampla das coisas.

    a minha vida. Ela tudo para mim. Mas como o destino me se-parou dela, eu preciso lutar para superar sua falta. Ns nos falamos pela internet todos os dias, e eu posso v-la e ouvir sua voz. E ela vem Turquia nas frias da esco-la e fica aqui um ms. No vero carioca, eu vou ao Rio e a vejo du-rante mais um ms.

    10 dicas para se alcanar a fama

    Foto do book de divulgao de Clara

  • Julho/Dezembro 200910

    Pequenos grandes notveis

    rica Galeo e Gustavo coelho

    O talento descoberto desde cedo

    A rotina da jovem Paula Eduarda Chine Miguel no igual de uma garota comum. Ela tem apenas 11 anos de idade, mas a sua agenda agitada como a de uma autntica estrela do mundo artstico. Entre ensaios e viagens, aulas no colgio e atividades extracurriculares, Paula Eduarda parece conseguir fazer quase de tudo. Somente no campo musical, a garota aprende quatro instrumentos di-ferentes: piano, guitarra, violino e violo. Quase ao mesmo tempo, arruma espao para aprender ingls, espanhol e italiano, alm de praticar ginstica olm-pica e natao. O dia-a-dia de Paula Eduarda mui-to corrido, mas a histria no poderia ser outra em se tratando de um fenmeno to precoce como ela.

    H quem diga que certas pessoas demoram d-cadas at ver o prprio talento aflorar. No caso de Paula Eduarda, foi tudo muito rpido. A trajetria dela comeou meio sem querer. Um caa-talentos de uma agncia a viu no meio de um shopping, achou ela bonita e veio falar conosco. Ns recusamos, mas no dia seguinte encontramos com ele de novo, no mesmo shopping. Ele nos convenceu a colocar a Pau-la na agncia e isso mudou completamente o rumo das nossas vidas, conta o pai da menina, Almir Miguel. Aqueles encontros fortuitos eram apenas o incio de uma carreira que, em pouqussimos anos, j alaria voos muito altos.

    Em 2001, j contratada pela agncia Mega, Pau-la Eduarda levou o ttulo de Miss Brasil Mirim. Ti-nha apenas trs anos de idade. Aos cinco, quando j colecionava trofus nas passarelas e parecia ter pela frente uma promissora carreira de modelo, mudou de rumo e ganhou um programa de TV numa emissora de seu estado natal, Santa Catari-na, onde fazia as vezes de reprter e apresentadora. E pensa que ela parou por a? Nada disso: encan-tada pela msica lrica, a garota de Florianpolis decidiu tentar a sorte como cantora e atualmen-te faz apresentaes como soprano em So Paulo, para onde se mudou na tentativa de ter o nome reconhecido. Jamais imaginvamos que seguir-

    amos esse caminho. No h como parar porque os convites vo aparecendo. o destino dela, est traado, diz Almir, que dedica 24 horas ao dia carreira da filha. Mesmo com tantos compromis-sos, Paula Eduarda ainda encontra tempo para ir escola como uma garota comum, mas no gosta de manter uma rotina muito normal. Ela sempre gostou de desafios, completa o pai.

    No livro dos recordesPaula Eduarda um caso extremo de uma ca-

    tegoria de pessoas talentosas que sempre chamou ateno: os jovens prodgios. No site Rank Brasil uma espcie de verso nacional e on-line do famoso Guinness Book a garota detm os recordes de mais jovem miss eleita, reprter e apresentadora de TV e soprano do pas. Mas no a nica que possui mar-cas de precocidade impressionantes. Outro exemplo o jovem Adauto Kovalski da Silva. Aos cinco anos, o menino entrou para o Rank Brasil e, de quebra, para o prprio Guinness Book como o mais novo escritor a lanar um livro no mundo.

    A cantora-mirim Paula Eduarda j tinha seu prprio programa de TV aos cinco anos.

  • Talento, pra qu? 11

    A obra Aprender fcil foi publicada em 2005 e, at agora, o recorde de Adauto no foi batido. Ele de-senvolveu o livro de forma ldica para ensinar aos colegas de turma a aprender o que a professora do Jardim III passava a eles. O Adauto fala das letras do alfabeto e ensina como escrever e pintar brincan-do. Tudo com uma linguagem de criana, explica a sua tia, Maria Jos Kovalski. Ao contrrio de outros jovens prodgios, porm, o garoto no tem vontade de ficar famoso e hoje, aos nove anos, prefere levar uma vida normal. Fazemos questo de frisar que o Adauto como qualquer outra criana. Ele mesmo diz que o filho do vizinho anda muito bem de skate, mas ningum vai l fotograf-lo. No fazemos nada de divulgao porque o Adauto ainda no sabe se quer ver seu trabalho divulgado, afirma.

    O trabalho, no caso, muito mais do que apenas uma obra publicada. Dono de um talento artstico notvel, Adauto faz pinturas em tela e escreve com-posies para piano. No futuro prximo, pretende lanar um livro de partituras. Mas, no dia-a-dia, vive

    como os outros meninos de sua idade. Ele estuda em turma normal. Em matrias como matemtica, encontra as mesmas dificuldades dos demais alunos. Ele no tem nota baixa, mas tambm no chega ao 10, diz Maria Jos. O jovem Adauto ainda no deci-diu o que vai fazer com seu talento, mas j tem uma ideia pensa em ser pianista, mdico ou dentista.

    Um prodgio em alta velocidadeEnquanto Adauto no tem pressa para escolher seu

    futuro, outro jovem talento j tem certeza de qual seu objetivo. E quer chegar l muito rpido, literal-mente. Aos 13 anos, o paulistano Eric Granado a mais recente revelao do motociclismo brasileiro e sonha disputar corridas na principal categoria do esporte a motor sobre duas rodas, a MotoGP. Ele ain-da no tem idade para correr l, mas j vai colecio-nando ttulos enquanto pode. Em 2003, com apenas sete anos, veio o primeiro trofu: o do campeonato paulista. O mais recente, conquistado no ano pas-sado, tambm foi o mais importante at agora o

    Adauto Kovalski est no Guiness como o mais jovem autor a publicar um livro no mundo

  • Julho/Dezembro 200912

    ttulo do Festival Metrakit, na Espanha, espcie de campeonato mundial em sua categoria.

    Quando est no Brasil, Eric treina todas as segun-das-feiras no circuito paulista de Interlagos. As via-gens cada vez mais comuns para fora do Brasil so bancadas pela Irga, empresa do segmento de trans-portes de cargas superpesadas. Desde o comeo, sabamos que estvamos investindo em um garoto diferenciado, vencedor. O Eric tem representado o Brasil da melhor maneira possvel. Tenho certeza de que muitos outros ttulos viro, elogia o presidente da Irga, Luprcio Torres Neto.

    Seja nas pistas, nas passarelas ou nos palcos, h sempre um jovem prodgio pronto para surgir e im-pressionar. Mas at que ponto viver como uma es-trela desde cedo pode afetar a vida de uma criana? A histria tem muitos exemplos de famosos que sur-giram muito jovens e nunca deixaram de brilhar apesar disso, no so raros os casos nos quais a fama precoce se coloca como obstculo para talentos muito especiais.

    Rotina de gente grandeH quem pense que iniciar a carreira o mais cedo

    possvel seja o ideal. Parece que assim h mais tempo para experimentar coisas diferentes, ter mais chan-ces de errar e encontrar o caminho para o sucesso de forma mais descomprometida. Mas as crianas e os adolescentes que ganham grandes responsabili-dades ainda muito novos podem sofrer graves con-sequncias no futuro. Para a psicloga Maria Ins Bittencourt, preciso ter muito cuidado. Um artista mirim, por exemplo, seja ator ou cantor, precisa se dedicar bastante carreira, que ocupa grande parte do dia. No entanto, muitas vezes, ele no est prepa-

    rado para essa rotina, correndo o risco de apresentar distrbios psicolgicos na vida adulta, afirma ela.

    A psicloga ressalva ainda que cada caso um caso. Segundo ela, ainda no h um estudo que comprove os danos causados pela explorao de um talento precocemente. H crianas que podem lidar bem com essa situao e at tirar proveito disso. Mas apesar de um notrio amadurecimento mais rpido desses jovens, ela alerta que a infncia e a adolescn-cia devem ser preservadas. Uma criana submetida a um trabalho srio pode acabar atropelando algu-mas fases da vida, diz a psicloga. Ela constan-temente exposta a desafios e pode, com isso, perder o tempo de ser apenas criana. importante que ela viva esse momento inocente.

    Segundo Maria Ins, tudo uma questo de cultura. Antigamente, as mulheres eram destinadas a realizar afazeres domsticos desde novas, e os homens, a tra-balhar ajudando na renda da famlia. Hoje em dia, a infncia um tempo valorizado e considerado importante que a criana brinque e estude sem mui-tas preocupaes. No h dvidas de que o trabalho pode atrapalhar na formao escolar. Um jovem que se destaque por algum tipo de talento se torna o cen-tro das atenes no colgio. A popularidade entre os colegas de classe pode subir cabea sem contar com a falta de tempo. Se para um adulto j difcil trabalhar e estudar, imagina para uma criana?.

    Na construo de uma carreira equilibrada e sau-dvel dos filhos, os pais exercem papel fundamental. Muitas vezes, ao criar uma expectativa muito grande por um bom desempenho, eles os prejudicam. Uma criana que se sinta pressionada, pode se cobrar mui-to, e com isso, se tornar carente e, acima de tudo, dar origem a uma ansiedade fora do normal. Ela tem medo de decepcionar os pais e por isso se comporta do jeito que eles querem. Mas importante que os pais respeitem as limitaes dos filhos e aceitem que eles tm vontades prprias. diz Maria Ins. Vale lembrar que a escola tambm deve observar o comportamen-to dos pequenos notveis no convvio com os outros alunos. Nesse processo de formao do indivduo, os professores devem agir em parceria com os pais.

    O piloto Eric Granado a grande promessa do motociclismo brasileiro

    Na construo de uma carreira equilibrada e saudvel dos

    filhos, os pais exercem papel fundamental

  • Talento, pra qu? 13

    Mesmo que os danos psicolgicos no sejam sempre os mesmos, possvel identificar diversos casos entre pessoas famosas que iniciaram carreira ainda crianas e, mais tarde, se tornaram

    centro de polmica por causa de suas personalidades instveis. Abaixo, alguns nomes bem conhecidos:

    Famosos precoces

    Mozart - O compositor clssico, autor de mais de 600 obras, mostrou uma habilidade fora do comum desde a infncia. Aos cinco anos tocava teclado e violino e j compunha as primeiras melodias. Na mesma poca, passou a se apresentar para a realeza da Europa. Aos 17, foi contratado como msico da corte em Salzburgo, na ustria. Ao visitar Viena, em 1781, foi afastado do cargo, e optou por ficar na capital, onde conquistou fama, porm pouca estabilidade financeira. Teve uma morte precoce, aos 35 anos, sem causa definida.

    Michael Jackson Muito lembrado nos ltimos meses por causa da sua morte, o cantor iniciou carreira profissional aos 11 anos, como vocalista dos Jackson 5. Mas desde os cinco anos j chamava ateno cantando e danando entre os irmos. Jackson ficou conhecido no s pelo talento inigualvel, mas tambm pelos escndalos em que se envolveu mais tarde, como o misterioso embranquecimento da pele e as acusaes de pedofilia.

    Drew Barrymore A atriz americana apareceu pela primeira vez na mdia aos 11 meses de vida, em uma propaganda. Barrymore estreou no filme Viagens alucinantes, aos cinco anos e, em seguida, estourou como a menina Gertie, no filme E.T.- O extraterrestre. Rapidamente se tornou uma das mais conhecidas atrizes mirins de Hollywood, mas teve uma adolescncia turbulenta, marcada pelo excesso de lcool e drogas.

    Masa A paulista Masa foi descoberta aos trs anos no programa de calouros do

    Raul Gil, onde dublou sucessos musicais. Em 2007, passou a comandar o programa Sbado Animado, no SBT. Com a atrao

    infantil, a menina se tornou popular na internet e aos seis anos, ganhou espao no programa dominical de Slvio Santos. Recentemente, ganhou o prmio Trofu

    Imprensa na categoria revelao, mas est proibida de participar do

    programa de Silvio Santos, que est sendo investigado por suspeita de explorao

    indevida de imagem.

    Masa apresentando seu programa no SBT

    Mozart, Michael Jackson e Drew Barrymore: talentos jovens e problemticos

  • Julho/Dezembro 200914

    Ditados populares como Tal pai tal filho nos levam a crer que talento, intelign-cia e vocao so hereditrios. Mas ser que as mximas so ver-dadeiras? Existem muitos exem-plos de pessoas talentosas, filhas de pais tambm talentosos. Pode-mos observar isso no meio artsti-co, no esporte, na literatura e at mesmo em famlias cujo talento para uma determinada profisso passado de gerao em gera-o. Diante desta situao, nos perguntamos: ser que talento, inteligncia ou comportamento podem passar geneticamente de pai para filho assim como a cor dos olhos, ou seria o meio onde a criana foi criada o maior res-ponsvel na sua formao?

    O psiclogo Felipe Huthmacher acredita que a cincia ainda no conseguiu provar que esse tipo de transmisso seja de carter gen-tico. Na prtica, cada vez mais, a gentica mostra que capaz de dar conta da morfologia dos se-res vivos, da estrutura dos vrus, por exemplo, o que a torna uma arma mdica especial; mas no que se refere psicologia, sub-jetividade, s aptides e aos ta-lentos humanos, a gentica, nes-ses campos, parece no ter muito a dizer.

    No entanto, os exemplos conti-nuam a deixar essa dvida acesa. O ex-atacante Bebeto, que sempre foi reconhecido pelo seu talento no futebol, comeou sua carreira em 1983 no Vitria e atuou em al-guns dos maiores clubes do pas, como Flamengo, Vasco e Botafogo. Jogou tambm em grandes times internacionais como o Deportivo La Corua e o Sevilha, na Espa-nha. Mas, sua maior conquista foi o campeonato mundial pela Sele-o Brasileira na Copa de 94.

    Durante a competio, Bebeto imortalizou o gesto conhecido

    como embala nenm ao co-memorar o segundo gol na vi-tria do Brasil por 3 a 2 sobre a Holanda, nas quartas de final e dedic-lo ao nascimento de seu filho Matheus. O que ningum imaginava que anos depois o menino seguiria os passos do pai destacando-se como jogador do Flamengo e da Seleo Brasileira sub-15.

    Bebeto afirma que nunca teve a pretenso de ter um filho joga-dor de futebol, mas acredita que quando coisa de Deus no tem jeito. Desde pequeno, quan-

    Filho de peixe pode no ser peixinho

    Camila mendona e maria Gabriela de oliveira

    Ser que talento passa mesmo de pai pra filho?

    colunistas.ig.com.br/.../tag/selecao

    Bebeto homenageia o filho na Copa de 94

  • Talento, pra qu? 15

    do tinha um ano e meio Matheus j pegava na bola sem deixar cair, era impressionante a coor-denao motora que tinha.

    Uma das correntes da psico-logia acredita que talento est muito mais ligado influncia do meio do que questo genti-ca. Para os psiclogos, a frmu-la est no filho querer ser igual ao pai e o pai querer que o filho o veja como um ideal. normal que o filho absorva a vontade de ser como o pai e se desenvolva neste caminho dando a falsa im-presso de que ele j tenha nasci-do com tal vocao.

    De acordo com Felipe, afirmar que o filho do Bebeto tem o mes-mo talento que ele s porque tambm est seguindo a carreira de jogador de futebol muito pre-tensioso. Mesmo que ele venha a ter sucesso, no possvel dizer coisas do tipo estava escrito, herdou do pai, de famlia. Se fosse assim, seria fcil saber de onde viriam os novos craques do futebol, e pouqussimos so os casos em que pai e filho chega-ram ao mesmo lugar na carrei-ra, comentou Felipe.

    Bebeto assume que o meio pode ter influenciado seu filho, mas no descarta a ajuda da gentica e acredita que Matheus nasceu para jogar futebol. Matheus nas-ceu em uma famlia de atletas, ento eu acho que isso influencia muito, mas se ele no tivesse o dom no adiantaria nada. Acho que o mais importante o dom, e isso eu tenho a certeza que ele tem.

    A fama do pai abre ou fecha portas?

    Matheus muito elogiado. Ape-sar de no jogar na mesma posi-o do pai e ter um estilo de jogo, segundo os crticos, totalmente diferente, sofre com as compa-raes. Bebeto conta que o fato de ser reconhecido s dificultou a entrada do filho no mundo do futebol, pois as cobranas foram ainda maiores. Para entrar no futebol de salo do Flamengo, ele teve que fazer um teste (peneira) com mais ou menos 100 crian-as. Eu no apareci nessa fase, porque no queria que as pessoas achassem que ele s passou por ser meu filho.

    Segundo o psiclogo, num caso como esse o importante ter a conscincia de que, tenha sido a escolha pela repetio da tra-dio familiar ou pelo talento, o esforo deve ser sempre no senti-do de criar uma maneira prpria, pessoal e singular de realizar o trabalho, para que o efeito inevi-tvel e nocivo das comparaes no afete o desenvolvimento da carreira.

    Bebeto sempre se preocupou com o modo como seu filho li-daria com as cobranas. Sem-pre falamos da importncia que eu tive no futebol e todas as mi-nhas conquistas. Por isso ele te-ria que procurar o seu espao, fazer a sua histria, caminhar com os seus prprios ps e pro-var s pessoas que ele est ali por mrito prprio e no por ser meu filho.

    E quando decidem quebrar as regras

    No so apenas os filhos que escolhem seguir a carreira bem sucedida dos pais que sofrem com as cobranas e dificuldades. Quando algum decide tomar um caminho diferente daquele que todos esperavam, as exigncias tambm so grandes. O corretor de seguros Carlos Henrique Toni-ni, faz parte da terceira gerao de uma famlia de juristas. O so-brenome, conhecido no meio, foi construdo pelo av, o juiz de di-reito Renato Tonini. Desde ento toda a famlia seguiu carreira na advocacia.

    Mas o verdadeiro talento de Carlos Henrique so os jogos ele-trnicos. O jovem de 23 anos bicampeo brasileiro de um jogo de RPG multiplayer na internet. Em 2008 foi representar o Brasil na fase mundial que aconteceu nas Filipinas. Este ano, Carlos j est classificado para o mundial

    Bebeto com seu filho Matheus: o mais novo craque da famlia

    www.personalstylist.com.br

  • Julho/Dezembro 200916

    A pesquisa mostrou que crianas geradas a partir de vulos e

    espermatozides de ganhadores de prmios Nobel, no apresentaram a

    mesma capacidade dos pais

    e embarca no prximo ms para o Japo.

    Eu jamais gostei do direito, mas sempre me senti na obri-gao de continuar a tradio da famlia. Entrei na faculdade e no consegui concluir. A pres-so da famlia me atrapalhou na hora de decidir o que eu queria fazer. Tive medo de escolher algo que no garantisse o meu futuro e ser ainda mais pressionado por isso, confessou Carlos.

    Para o psiclogo, fugir da li-nha profissional da famlia normal e no significa falta de talento. Alm disso, tentar obri-gar algum a escolher a profis-so que no quer pode ser muito perigoso.

    A aptido para uma profisso diferente da famlia pode nascer de uma simples identificao com um adulto que tenha lhe dado um pouco mais de ateno, ou se aproximado de uma forma mais interessante. s vezes a atividade da famlia menos interessante do que aquilo que a criana v o vizinho fazendo.

    Segundo o psiclogo, querer se-guir outro caminho pode ser tam-bm uma tentativa de enfrentar a famlia, um desejo efetivo de se diferenciar, ainda que posto em prtica a partir de motivaes in-conscientes. Excessos de autori-tarismo, manifestaes claras da

    impossibilidade de a criana se-guir outra carreira que no aque-la da famlia, tratar a atividade familiar como uma obrigao: est a uma forma eficiente de se criar um rebelde, afirmou.

    A questo genticaA ideia de que talento passa de

    pai para filho vem desde o sculo XIX com a publicao de A origem das espcies, de Charles Darwin. A possibilidade de estudar e pro-mover alteraes genticas ca-pazes de produzir modificaes planejadas na raa humana fi-zeram emergir questes sobre a hereditariedade de algumas ca-ractersticas e capacidades inte-lectuais.

    Comearam ento as especula-es sobre o assunto. No fim do mesmo sculo, histrias como a de Tarzan mostravam que um homem poderia conservar o n-vel de inteligncia, os valores morais e os hbitos ocidentais mesmo vivendo em ambientes e situaes diferentes. Essa hist-ria provava a hiptese cientfica da poca: o meio no exercia in-fluncia.

    Ao longo dos anos surgiram muitas pesquisas sobre o tema. Em dezembro de 2001, uma pes-quisa de neurocientistas ame-ricanos e finlandeses avanou nessa questo. O estudo foi re-

    alizado a partir de testes de QI com gmeos idnticos e gmeos fraternos e o resultado mostrou que a inteligncia tem ligao com a gentica.

    No entanto, estas constataes no foram suficientes para ex-tinguir a questo da influncia. Segundo os cientistas, o que se herda a capacidade de ser inte-ligente, mas isso precisa ser esti-mulado. Um casal talentoso no necessariamente vai gerar um filho talentoso. A pesquisa mos-trou que crianas geradas a par-tir de vulos e espermatozides de ganhadores de prmios Nobel, no apresentaram a mesma ca-pacidade dos pais.

    Outra pesquisa, realizada em 1977, pelos pesquisadores dina-marqueses Mednick e Christian-sen comparou a ficha policial de homens adultos adotados com a ficha policial dos pais adotivos e dos pais naturais. Quando o pai adotivo tinha tendncias crimi-nosas, 12% dos filhos tambm as apresentavam. Quando os pais biolgicos eram violentos, a es-tatstica passava para 22%. J quando os dois pares de pais ha-viam cometido crimes, o nmero de filhos criminosos era de 36%. O resultado ajudou a demonstrar a importncia do ambiente. Isto prova que as caractersticas po-dem se desenvolver tanto gene-ticamente quanto pelo convvio com o meio.

    A divergncia entre cientistas e psiclogos em relao a esse assunto, e a falta de estudos que comprovem a supremacia de uma das duas teorias, mostra que no h uma verdade nica. Sendo pela gentica ou pela in-fluncia do meio, o importante que os talentosos continuem a mostrar seus talentos. O que vale fazer bem, com prazer, e do seu jeito.

  • Talento, pra qu? 17

    Filhos do famoso cantor sertanejo Xoror, a dupla Sandy e Junior seguiu os passos do pai e chegou a vender mais de 16 milhes de discos. Sempre demonstrando serem donos de um grande talento, no enfretaram grandes problemas com as crticas. Separados desde 2007, Junior integrante da banda de rock Nove Mil Anjos e Sandy prepara um CD para ser lanado em 2010.

    A cantora Maria Rita filha da inesquecvel Elis Regina e do compositor Csar Camargo Mariano, iniciou sua

    carreira em 2003 e foi acusada pela crtica musical de imitar o estilo da me. Superando as comparaes, Maria

    Rita consagrou-se no cenrio da MPB. Com seu primeiro CD vendeu mais de 1 milho de cpias no mundo e j

    acumula seis Grammy Latinos na carreira.

    Filho do tricampeo brasileiro de Frmula 1, Nelson Piquet, Nelsinho Piquet, ainda no alcanou grandes conquistas. Atualmente tem sido mais lembrado por protagonizar um escndalo na Frmula 1, do que por seu talento. Nelsinho assumiu ter provocado o acidente ocorrido durante o GP de Cingapura de 2008, para beneficiar sua antiga equipe, a Renault.

    Edinho, filho de Pel, considerado o maior jogador de futebol de todos os tempos, no chegou nem perto do sucesso alcanado pelo pai. Atuou no Santos como goleiro, mas era considerado pela mdia

    como um jogador apenas mediano. Aps o fim de sua carreira, passou a ter problemas com a Justia,

    foi preso e condenado por trfico de drogas.

    16valvulas.wordpress.com

    bafanaciencia.blog.br

    www.last.fm/music

    Filhos famosos de pais famosos

  • Julho/Dezembro 200918

    Saber lidar com fortes emoes e ter o controle sobre elas no para qualquer um: tem que ter muito talento. Conseguir transformar medo em coragem, ansiedade em estmulo e nervosismo em fora so algumas das habilidades que fazem parte do cotidiano de certos profissionais. Eles tm o dom de usar esses sentimentos a seu favor para con-seguirem desempenhar, com destreza, suas funes.

    Desde artistas circenses e dubls at mdicos legis-tas, a capacidade de manter o equilbrio, tanto fsi-co quanto psicolgico, primordial. Afinal, desta maneira que esses profissionais conseguem mostrar para a sociedade que nem tudo o que considerado incomum ou arriscado negativo. Existem pessoas que tm o prazer em exercer funes que a maioria da populao prefere s ver de longe.

    Respeitvel pblico, o espetculo vai comear!Com apenas 18 anos, Lucas Nunes faz parte de

    um dos nmeros mais esperados do Circo Las Vegas: o globo da morte. Nesta atrao, alguns motoquei-ros andam com suas motocicletas por dentro de uma espcie de jaula em forma de esfera de ao.

    Lucas conta que nasceu no circo e desde criana j se encantava pelo globo da morte. Foi devido a esse fas-cnio que, aos 10 anos, ele comeou a treinar no globo com uma bicicleta. Na medida em que foi se aperfei-oando na atividade, passou a usar uma motocicleta e hoje tem orgulho de ser chamado de globista. Para ele, o medo j um obstculo superado: No incio, eu sentia um frio na barriga, mas com o tempo perdi o medo at porque quem tem medo nem entra no globo. Eu gosto da adrenalina do momento.

    O jovem tambm diz que muito gratificante sentir o carinho do pblico aps o fim da apresentao e que no h nada melhor do que escutar os aplausos. O globista conta que chegou a sair do circo para cursar uma faculdade de direito, mas a saudade apertou e ele acabou voltando para aquilo que mais o fazia feliz.

    Quem tambm teve a experincia de largar o cir-

    co em busca de outro estilo de vida foi o trapezista argentino Javier Bertolini, de 30 anos. Como somos ambulantes, s vezes temos vontade de experimen-tar uma vida mais estvel. Eu sa um tempo para estudar, foi uma experincia produtiva. Mas o circo um m, ele nos puxa de volta explica.

    Alm dessa capacidade de atrao, para o trapezis-ta o picadeiro o lugar onde suas preocupaes de-saparecem. Ele diz que quando no est bem, basta comear o seu nmero que tudo passa. como se a gente estivesse fora de si durante a apresentao. S depois que acaba que parece que o nosso esprito retorna. Este o momento em que a gente relaxa.

    Javier afirma que o medo seu aliado na hora de se apresentar. Segundo ele, o temor essencial porque seno a pessoa fica muito confiante e, conse-quentemente, no se prepara da maneira correta.

    O dom e o prazer da arte circense esto to pre-sentes na vida do trapezista que fizeram com que o hermano argentino deixasse o seu pas, h trs anos, para tentar a vida no circo brasileiro. De acordo com Javier, na Argentina este ramo no era to valoriza-

    Lucas Nunes e seus companheiros do globo da morte antes de uma apresentao

    Fazendo diferente

    Carolina medeiros e Julia dmaso

    O dom para profisses inusitadas

  • Talento, pra qu? 19

    do quanto aqui no Brasil. Para ele, uma das maiores vantagens da mudana foi poder visitar regies do pas que nem todos os brasileiros conhecem.

    O ex-domador de lees, Irineu Nunes Jnior, de 43 anos, tambm teve que lidar com o perigo durante 15 anos de sua vida. Ele relata que sempre gostou de bichos e que o grande segredo para exercer essa funo que todas as pessoas temem fazer com que o animal se apegue ao domador desde filhote. preciso criar um lao de amizade com os lees. Para mim, era como se eles fossem ces ou gatos. Eu ti-nha um prazer muito grande em trabalhar com es-ses animais explica.

    Luz, cmera, ao! Aps o diretor dar a largada para o incio de uma

    cena de ao no h como voltar atrs. E os dubls sabem disso melhor do que qualquer outro ator. Ag-naldo Bueno, de 38 anos, trabalha na profisso h 15. Ele explica que preciso estar muito concentra-do, pois o seu objeto de trabalho o prprio corpo. Tenho medo de sofrer acidentes graves que me im-possibilitem de fazer o que eu adoro. Por esse moti-vo, me equipo sempre. Existem dubls que adoram cicatrizes, mas o bom profissional no deve se ma-chucar nunca.

    Apesar da conscincia de que preciso se preparar bem, o dubl relata que j sofreu acidentes durante uma gravao. Agnaldo executou mal uma queda de cavalo enquanto ensaiava uma cena para a mi-nissrie da Rede Globo, A casa das sete mulheres, em 2006. O tombo resultou na fratura de um pulso, o que fez com que o profissional comeasse a tomar mais cuidado em suas encenaes.

    O dubl, que tambm j trabalhou como despachan-te policial e foi proprietrio de uma boate em Minas Gerais, diz que no pensou duas vezes quando teve a oportunidade de seguir a carreira: H exatos 15 anos eu estava em casa lendo um jornal, quando me de-parei com uma reportagem sobre um curso de dubls no Brasil. Na poca, eu pensava muito nisso, mas no sabia que aqui isso era possvel. Anotei o telefone e j no dia seguinte estava matriculado no curso.

    Hoje, Agnaldo afirma que se sente realizado na profisso e que s quem tem talento para ser du-bl sabe o prazer que essa ocupao proporciona,

    Javier Bertolini num momento de total concentrao: seu nmero no trapzio

    Agnaldo Bueno no que mais gosta de fazer: atuando como dubl no filme Os mercenrios

    luciana lopes

    Com o tempo, nos acostumamos com o trabalho e o fazemos com

    mais tranquilidadePaulo Csar Rodrigues - mdico legista

  • Julho/Dezembro 200920

    mesmo com todos os perigos que ela representa.Ele se orgulha de ter, em seu currculo, muitas partici-

    paes e destaca as trs mais recentes: no filme Os merce-nrios (The Expendables), dirigido por Sylvester Stallone; em A hora e a vez de Augusto Matraga, uma adaptao do livro de Guimares Rosa, dirigido por Vincius Coim-bra e em Plvora negra, do diretor Andr Kapel.

    Yvan Tomaz, de 25 anos, tambm substitui outros atores em cenas de risco e garante que tem prazer em desafiar o perigo. O dubl diz que sempre foi f de filmes de ao e que no ano de 2005 teve a oportu-nidade de conhecer melhor a ocupao: Um amigo me apresentou a um coordenador de ao, dono de uma equipe de dubls, e eu comecei logo a treinar. A partir da no parei mais. A cada dia que passa me apaixono mais por essa profisso.

    De acordo com Yvan, para se executar uma cena com perfeio, segurana e sem sair machucado, preciso focar na marcao da cena que foi feita.

    A adrenalina no deixa voc sentir medo na hora da cena. Naquele momento, voc se isola do mundo, o medo a nica coisa que no passa na sua cabea. s se benzer, pedir a Deus que d tudo certo e bola pra frente!

    E parece que as tticas de Yvan esto dando certo. Ele j participou de vrias produes como a srie Fora tarefa, da Rede Globo; a novela Chamas da vida, da Rede Record e um longa-metragem italiano fil-mado no Rio de Janeiro. Natal no Rio, do diretor Neri Parenti, ocupou a segunda colocao no ranking dos filmes mais vistos na Itlia em dezembro de 2008.

    Algum tem que fazer o trabalho pesadoAo entrar numa universidade para cursar medicina,

    o estudante tem uma variedade de opes para esco-

    lher como especializao. Mas o que leva uma pessoa a escolher trabalhar com mortos ao invs de vivos?

    O mdico legista Paulo Csar Rodrigues, 61 anos, tem uma explicao para a escolha. Ele diz que quando comeou a trabalhar, entrou nessa rea mais por causa da remunerao. Porm, com o pas-sar do tempo, se apaixonou pela profisso e a ques-to financeira acabou ficando em segundo plano.

    O mdico, que tambm obstetra e est se aposen-tando pelo Instituto Mdico Legal (IML), conta que admira muito esse ramo da medicina e diz que, ape-sar de ser uma funo pesada, algum tem que faz-la. E disso que ele se orgulha.

    Se ningum fizer, como vamos ficar? Com o tempo, nos acostumamos com o trabalho e o faze-mos com mais tranquilidade. gratificante quan-do vemos uma percia bem feita. justo com a vtima e com a famlia comenta. No entan-to, Paulo garante que o trabalho no feito de forma fria. Ele conta que no processo de necrop-sia os legistas lidam com corpos, muitas vezes no identificados, mas que isso no invalida emoes. Mdicos choram sim! Quando parente ou ami-go ainda mais complicado, isso mexe muito com o nosso emocional. Eu tambm nunca gostei de fazer necropsia em criana. Tem casos que impres-sionam a gente.

    Porm, esses choques no foram o suficiente para fazer com que o mdico largasse o amor pela medi-cina legal. Agora, mesmo em processo de aposen-tadoria, ele conta que vai ministrar cursos para as pessoas que foram aprovadas no concurso para en-trar no IML. Adoro ter contato com novos peritos e poder passar o que aprendi adiante. Afinal, lidar com a morte to de perto bem difcil encerra.

    Yvan Tomaz e outros atores em cena do filme Natal no Rio Paulo Csar Rodrigues garante: mdicos tambm se emocionam

    rebecca cardoso carolina medeiros

  • Talento, pra qu? 21

    Se voc nunca ouviu falar em livros como Harry Potter ou Crepsculo sinta-se por fora. Os nmeros que envolvem ambas as sries so recordes mundiais. Juntos eles somam cerca de mais de 500 milhes de exemplares vendidos e uma incontvel le-gio de fs. A saga de sete livros do bruxo fez tanto sucesso que foi parar nas telonas, arrecadando umas das maiores bilheterias de todos os tempos.

    Trilhando o mesmo caminho, o romance entre uma adolescen-te, um vampiro e um lobisomem, narrada em quatro livros pela au-tora Sthephenie Meyer, alm de estar nas listas dos mais vendidos, teve seu primeiro filme lanado no fim do ano passado. Com uma bilheteria astronmica, a continu-ao da histria foi um dos filmes mais aguardados de 2009 e en-quanto isso no acontece, Eclipse, o terceiro da srie, j est sendo filmado.

    Apesar de abordar temas dife-rentes, ambos renderam s suas autoras fama e muito dinheiro. E, assim como na fantasia de suas obras, as escritoras parecem ter chegado ao topo como em um passe de mgica. Mas, a realidade que se esconde por trs dos gran-des sucessos de vendas no to simples assim. A estrada que se percorre longa e, na maioria das vezes, o sucesso s alcanado de-pois de anos.

    O caso da escritora carioca Tha-lita Rebouas, que surgiu como revelao a partir da Bienal do Livro, em 2001, um exemplo da dificuldade de emplacar um livro. Autora de obras como Tudo por um Pop Star e Fala srio, me!, destina-do ao pblico infanto-juvenil, ela escrevia h 10 anos at conseguir reconhecimento. Em 2003, Thali-ta assinou com a Rocco, uma das grandes editoras do pas. E foi a partir da que ela conseguiu maior visibilidade.

    Eu no acredito em sucessos instantneos na literatura. Mes-mo best-sellers mundiais como J. K. Rowling, Dan Brown, Sthe-phenie Meyer e Paulo Coelho ralaram muito pra chegar l. Acho que isso de sucesso instan-tneo acontece mais com atores, cantores, bandas... afirmou Thalita.

    Ana Martins Bergin, h 10 anos gerente editorial de infanto-juve-nil da Rocco, tambm acredita que o sucesso leva tempo e depende de inmeras circunstncias. Para ela, um dos motivos de Crepscu-lo ter se tornado um fenmeno foi o fim de Harry Potter. Esses fs cresceram com a histria do bru-xinho e suas aventuras e quando ela, depois de quase 10 anos, che-gou ao fim, eles se tornaram uma espcie de rfos. Dessa forma, Crepsculo acabou adotando esses leitores que j tinham um mundo da fantasia.

    Lanando talentos Apostar em um novo autor

    uma tarefa difcil, pois gasta o tempo e imagem da editora, alm de demandar muito dinheiro. Ana afirma que no existem frmulas para a seleo dos livros, mas al-guns itens so levados em conta. Nos livros infanto-juvenis, por exemplo, preciso ter ou aventu-ra, ou emoo ou comdia. Se o li-vro conseguir reunir os trs temas, tem grandes chances de se tornar um sucesso. Mas, preciso, sobre-tudo, ter talento e criatividade.

    Mas ser que as aventuras do bruxo Harry Potter, criada por J. K.Rowling, despontaram como su-

    Sem pressa

    daniella albernaz e Julia Cohen

    Uma corrida para o sucesso

    Thalita Rebouas - sucesso infanto-juvenil

  • Julho/Dezembro 200922

    cesso assim que foram lanadas em 1998? Nem o Harry Potter teve essa frmula mgica, porque a autora foi recusada em muitas editoras at, finalmente, algum olhar para aquela histria com outros olhos e resolver banc-la afirmou a gerente editorial infanto-juvenil.

    O leitor precisa se identificar de alguma maneira com a histria seja com o personagem princi-pal, a me, o irmo, a av, o pas-sarinho. Alm disso, o diferencial a forma de escrever, porque possvel ter itens fantsticos de uma histria, mas sem uma aproximao com o pblico no h vontade de ler.

    A verdade que fundamental correr atrs e ser bastante per-sistente. Segundo Thalita, achar uma editora com o perfil do seu texto tambm ajuda. Muito im-portante tambm ser original. Segundo Ana, a srie milionria de Crepsculo foi recusada pela Rocco. Na poca, apesar do su-

    cesso l fora, a editora achou que j tinha livros o suficiente sobre vampiros e lobisomens. Foram eles que lanaram, aqui no Bra-sil, a escritora Anne Rice, do livro que virou filme, Entrevista com o vampiro e Guilhermo Del Toro, autor da Trilogia da escurido, to-dos best-sellers.

    A concorrncia outro fator importante. Mesmo entre auto-res considerados promissores, os baixos investimentos em cultura limitam o nmero de livros pu-blicados. Por isso, novos escritores precisam sempre buscar alterna-tivas para a divulgao e venda de seus textos. Uma opo recente so as editoras on-line onde pos-svel criar todo o livro pela inter-net. Alm disso, existem os blogs onde as pessoas podem publicar os contedos diariamente.

    Dessa forma, h cada vez mais concorrncia para as editoras, ainda mais com o avano da tecnologia. Mas existem muitos casos, como o de professores e es-

    tudiosos, que carregam seus livros para todos os lugares e em vez do peso, preferem um pequeno ibook ou palmtop onde podem armaze-nar tudo. Mas que em suas casas, na hora de ler um romance, prefe-rem sentir as folhas dos livros em suas mos. Por causa disso, Ana no acredita que as editoras este-jam perdendo nessa disputa.

    A editora ainda acredita que vai haver uma nova ordem de leitura e, cada vez mais, novas formas sero criadas. Entretanto, apesar da grande visibilidade que a internet pode oferecer, isso no quer dizer que o livro ser lido. Alm disso, depois de publicado na rede, pouco provvel que um autor consiga lanar o mes-mo livro em uma editora, porque ele perde sua originalidade.

    Nada impede que um blog vire livro, na verdade existem vrios casos assim. Ns fazemos recortes e tal. Mas todo texto novo e indito tem uma maior probabilidade de ser lanado disse Ana.

    E um fato que o papel das edi-toras ainda tem bastante peso. Thalita por exemplo, viu sua car-reira decolar quando mudou para a Rocco. No meu caso, o sucesso veio com a juno de batalha, perseverana e uma tima edito-ra. Porque uma pequena editora no tem o poder de distribuio de uma grande, e acho que essa a principal diferena. Ento, o autor publicado por uma pequena corre grande risco de ficar frustrado por no ver seus livros nas livrarias contou Thalita.

    Ana citou J. K. Rowling como exemplo, que teve grande parte do seu sucesso devido ao trabalho de marketing e publicidade. A editora alm de contar com um excelente texto, soube aproveitar os momen-tos para vender os produtos.

    Segundo ela, as resenhas que saem na mdia tambm so fun-

    J. K. Rowling e o ltimo livro da srie Harry Potter

  • Talento, pra qu? 23

    damentais, porque as velhinhas, no dia seguinte, esto com os re-cortes dos jornais indo s livrarias.

    S que existem muitos mais livros do que as editoras podem publicar e, por isso, foi criada a gaveta. Na verdade, em teoria, todos os livros da gaveta sero publicados, at porque eles tm prazo de contrato. Mas essas da-tas podem variar bastante e por isso alguns autores ficam bastan-te chateados.

    Para que ningum saia preju-dicado criada uma estratgia de lanamento que pode ser por tema, por idade ou mesmo por momento. Ento estar na gave-ta j faz o escritor se sentir por dentro, fazendo parte daquilo. A nica diferena que ele no sabe exatamente quando seu li-vro ser publicado.

    Para conseguir entrar numa gaveta o primeiro passo registrar seu livro na Bibliote-ca Nacional. Depois entrar no site das editoras e preencher

    os formulrios. Segundo Ana, no adianta escrever email com choradeira. Os textos s chegam com ttulo, resumo e autor. Mas escrever no resumo um bom motivo pelo qual seu livro deveria ser publicado j uma dica e claro, informaes bem escritas tambm so bem-vindas. S no muda o ttulo e manda o texto de novo! Nada mais irritante do que o autor achando que vai nos enganar brincou Ana.

    O negcio ser bem criativo e se divertir com seu texto. O suces-so no vir rpido, mas segundo a Thalita, os obstculos no s estimulam como oferecem ama-durecimento para o autor.

    Vou dizer uma frase do Raul Seixas, que eu adoro: chato chegar a um objetivo num ins-tante. Fazer sucesso agora, de-pois de tantos anos de batalha com 10 livros no currculo, mui-to melhor do que se eu tivesse es-tourado no meu primeiro livro.

    Ento ter pacincia e correr atrs. Afinal, as editoras vo con-tinuar existindo, os livros sendo publicados e o pblico esperando novos ttulos. Porque apesar das novas tecnologias, se acabar a luz... Os livros ainda vo estar por a Ana concluiu rindo.

    Quanto maior o sucesso mais as pessoas tentam usufruir da apario na mdia. E, dessa forma, vo surgindo publicidade de todos os lados. Com a onda de

    Crepsculo, propagandas como crepusculinho para pequenos ou Morro dos Ventos Uivantes. O livro predileto da Bella puderam ser vistas por a. E nem

    todas necessariamente autorizadas pela autora. Para Ana, essas caronas so normais e no existe bem um certo ou errado para esse tipo de atitude.Outro ponto comum so os filmes baseados e, na maioria das vezes,

    homnimos. S que estes possuem sempre dois lados. Em casos como o da trilogia do Senhor dos anis e Harry Potter, tantos os filmes viraram sucessos

    como trouxeram mais leitores. Porm, h casos como o da Irmandade das calas viajantes, uma srie de quatro livros traduzida pela Rocco, que no fez o menor sucesso. E ainda por cima, decepcionou os fs. Isso pode acabar por

    afast-los, em vez de trazer um novo pblico. S que quando os livros e os filmes vendem muito bem, a as portas para

    a criatividade so escancaradas. Canetas, blusas, copos, pratos, cadernos, agendas, maquiagem, perfumes, comidas. Tudo o que possvel e impossvel

    criado em cima daquele mundo ficcional prolongando cada vez mais o sucesso da histria.

    Na carona do sucesso

    Cartaz do filme Crepsculo

    Sthephanie Meyer autografando Crepsculo, um de seus sucessos

  • Julho/Dezembro 200924

    Pintor de quadro, cenrio, parede, alm de de-corador, desenhista, fotgrafo, ele tambm faz maquetes e cartazes. Quando comeou a dese-nhar aos quatro anos, e a pintar aos sete, Eduardo Marques no imaginava que esse talento lhe possi-bilitaria exercer oito profisses.

    Aos sbados e domingos, sai de sua casa, em Sepe-tiba, para expor sua arte em uma feira, em Copaca-

    bana. possvel ver em seus quadros a preferncia por um tema em especial: a nudez. Explorar o nu de belas mulheres faz parte da vida do artista. Minha vida estar no meio de mulheres. Meu trabalho s possvel porque elas posam para mim.

    O mesmo nu que provoca a admirao da maioria, j lhe trouxe problemas: Quase fui preso por cau-sa dos meus quadros. A polcia quis confiscar tudo

    Perdidos e achados pela rua

    mariana barreto e marlia sarkis

    Artistas que no esto na mdia fazem sucesso nas ruas da cidade

    A arte e a nudez nas obras de Eduardo

  • Talento, pra qu? 25

    depois da reclamao de uma pessoa que achou os quadros erticos demais.

    Reconhecido por pinturas que representam a cul-tura negra, o artista chegou a ser convidado para a

    elaborao da capa do CD Soul of Brazil, mais conhecido no exterior. Os quadros, que na feira custam entre R$ 250,00 e R$ 500,00, chegam a at US$ 3,000.00 na internet (www.novica.com). Os turistas so os seus principais clientes e a alta temporada, vero e julho, a melhor poca para as vendas.

    Assim como para outros ar-tistas que trabalham na rua, o mau tempo o prin-cipal obstculo. Espero expor minhas obras em um lugar fechado. A chuva prejudica muito meus qua-dros, lamenta o pintor que j exps seu trabalho em hotis como o Le Meridien.

    Apesar de todas as adversidades, Eduardo se sen-te completo profissionalmente: Pinto pra mim em primeiro lugar, ser reconhecido por terceiros no me importa muito. O que eu fao o que me agrada.

    Talentos de areia

    Basta sair da feira e atravessar a rua para depa-rar-se com outro tipo de arte. O que poderia passar despercebido por muitas pessoas, j que existe em grande abundncia na praia, vira matria prima do trabalho de alguns.

    Ubiratan dos Santos, conhecido como Bira, traba-lha h 12 anos como escultor de areia. Sua especia-lidade esculpir mulheres que se tornaram sucesso internacional. Mulheres com belos corpos, como Vi-viane Arajo e Juliana Paes, so a inspirao para o trabalho do artista.

    H quem goste, quem critique e quem duvide de suas esculturas. Uma vez uma pessoa pediu para que eu fizesse uma escultura na hora, na frente dela,

    Bira homenageia o Rei do Pop nas areias de Copacabana

    Soul of Brazil, sucesso no exterior.

  • Julho/Dezembro 200926

    para provar que era eu mesmo quem fazia. A pes-soa no teve que esperar por muito tempo, Bira de-mora em mdia 20 minutos para fazer uma mulher de areia.

    Na poca da morte de Michael Jackson o escul-tor se antecipou, prestando homenagem ao Rei do Pop logo no dia seguinte. Ele fez uma escultura do cantor que foi seu trabalho de maior repercusso. Em apenas dois dias, 500 pessoas foram praia de Copacabana, na altura da Rua Miguel Lemos, tirar foto com a escultura. Esse fenmeno fez com que a mdia tambm o procurasse e sua obra fosse parar em jornais, na internet e em blogs.

    O escultor afirma que o pblico gosta de seu trabalho: Vivo das contribuies que me do na praia. Alm disso, ele mesmo se considera um artista talentoso. Me amarro (sic) no meu trabalho, em arte. Sou arteiro.

    A poucas quadras dali, na altura da Rua Siquei-ra Campos, encontramos o incio do Parque de es-culturas planejado por Ives Pereira. H 11 anos no ramo da escultura em areia, fcil perceber o nvel tcnico e artstico de seu trabalho. O escultor apren-deu o ofcio com Roberto Souza, a quem chama de mestre, a primeira pessoa a trabalhar com isso na praia de Copacabana, em 1983. Hoje, Roberto seu parceiro na elaborao das obras.

    Seus projetos no so pequenos. No dia 17 de maio, Ives iniciou a construo de um castelo que atual-mente possui 35 torres e com previso de ter 150 at o final do ano. com gua, areia e um fixador que o pblico passa a ter acesso ao imaginrio do artis-ta. Ele realiza o trabalho a partir dos seus impulsos, tendo apenas algumas referncias de arquitetura pesquisadas em revistas. Tudo que est aqui vem da

    Castelo imaginrio com suas 35 torres. No detalhe o artista d vida sua obra

  • Talento, pra qu? 27

    minha cabea. A minha imagi-nao vai longe.

    Com pretenso de deixar o castelo exposto por aproximada-mente cinco anos e aps ter sofri-do a destruio de alguns traba-lhos durante a noite, atualmente Ives se v obrigado a deixar um vigilante tomando conta da obra 24 horas por dia.

    Seus trabalhos chegaram a re-ceber patrocnio de grandes em-presas, como o Banco do Brasil, e o artista disse j estar procu-ra de outros patrocinadores para seu novo projeto. Ocupando uma rea de 16m2, o Parque de escul-turas vai ter, alm do castelo em construo, uma pirmide e outra escultura ainda no defi-nida. Ao lado do complexo, Ives pretende criar uma escola de arte para escultores de areia, onde ele e seu mestre ensinaro a metodo-logia do trabalho.

    O dinheiro arrecadado com as esculturas o sustento do artista. Nas altas temporadas, janeiro e julho, o artista consegue arre-cadar em torno de R$ 5.000,00. Cada um contribui com o que pode e acha que o trabalho vale. Uma vez teve um gringo que me deu 500 euros. Foi a maior nota que j ganhei.

    Procurados pela Secretaria Municipal de Cultura, em julho, os artistas das areias de Copacabana par-ticiparam do Virado Cultural e do ano da Frana no Brasil. A proposta era que cada escultor produzis-se uma obra relacionada ao pas das baguetes. Ives e seu parceiro representaram a Bastilha.

    Msica na ruaNo so s areia e pincel que produzem obras:

    notas musicais tambm so ferramentas utilizadas pelos talentos de rua. Desde 2007, quem passa pelo Largo do Machado pode conhecer a arte do violonis-ta David Cheldon. Amante de msica desde seus 10 anos, ele divulga seu trabalho tambm no Largo da Carioca, no centro da cidade, na Praa Saens Pea.

    O artista, que no gosta de ser interrompido e d entre-vista entre uma msica e outra, j inicia o papo provo-cando: Pode escrever a: um dos maiores violonistas do Brasil toca na rua. (...) Me sinto (sic) um Baden Powell.

    David coloca a culpa na mdia, principalmente no rdio, pelo no reconhecimento do seu traba-lho. A mdia no tem espao pra mim, no d apoio a msicos de rua. S v o lado comercial. As pessoas no tm cultura musical porque o r-dio no a transmite, s toca porcaria. O rdio deveria acabar ou divulgar mais os msicos.

    Com CDs feitos por uma gravadora indepen-dente, o violonista prefere vend-los na rua a lev-los a lojas, que exigem uma tiragem maior e diminuem o lucro do instrumentista. O msico afirmou vender uma mdia de 100 CDs por sema-na, dependendo das condies do tempo.

    O maior objetivo de David no a fama. Quando era adolescente, com banda e compo-sies prprias, chegou at a almejar o sucesso, mas atualmente s pretende comprar sua casa prpria.

    Muitas pessoas passam elogiando e aplaudindo o artista enquanto caminham para seus destinos. Ele reconhece essa ateno do pblico: A rua a vitrine para o artista.

    David e sua msica no Largo do Machado

  • Julho/Dezembro 200928

    Sbado noite, a partir das 22h. Esse o dia e o horrio combinado para os jovens cariocas se encontrarem em um lugar e comearem a pr-night que, entre um gole e outro de bebida al-colica com energtico, ajudam o aquecimento para a noitada que est por vir e no ter hora para acabar. No entanto, para essa ge-rao, no h muitas opes de festas noturnas e a maioria se di-vide entre as boates da Zona Sul, da Barra e os bares da Lapa. Para tentar mudar o quadro atual e toda essa gente poder ter mais lu-gares para se divertir, um pessoal talentoso est agindo nos bastido-res da noite do Rio e tirando todos da monotonia. Estamos falando dos promoters e organizadores de eventos que lutam para manter o glamour da noite carioca.

    Para quem pensa que os profis-sionais da night levam uma vida fcil, aconselhvel pensar mais uma vez. Os promoters planejam, promovem e administram todo o evento realizado. Para comear, preciso definir junto ao cliente o que ser (uma festa, um show ou jantar), o local e a quantidade de pessoas. Dependendo do evento que est sendo feito, o profissio-nal pode ter que trabalhar mais de 14h por dia, falar em dois ce-lulares ao mesmo tempo, contro-lar diversas listas de convidados, e

    claro, tentar agradar a todos.O desafio no fcil e por isso

    a Ecltica foi atrs dos principais talentos que vm surgindo na noi-te carioca para procurar entender como e o que faz um evento bom-bar para diversos tipos de jovens dos mais variados gostos musicais e culturais.

    H mais de 10 anos organi-zando eventos pelo Rio, Z Nigri um dos responsveis pela agita-o da Zona Sul e a prova viva de que noite no fcil. Para ele, o apoio de seus pais foi muito importante para ter coragem de

    seguir em frente: Minha fam-lia sempre me deu carta branca, mas me orientavam a ver a noite como negcio, no apenas diver-so. Por isso, desde que comecei, me preocupo em separar as noites em que eu trabalho das que vou apenas para me divertir. muito importante no misturar trabalho com diverso. Toda sexta-feira ele organiza a festa na mais co-nhecida boate de Ipanema e uma das mais famosas da cidade, que costuma receber diversas celebri-dades e esportistas, a Baronneti. Segundo ele, difcil conseguir lu-

    Talentos na noite do Rio

    Pedro renaux e Pedro rocha

    A vida de quem faz as noites cariocas serem muito mais que apenas uma festa

    Promoters Z Nigri e Bruno Malta em festa na Baronneti

  • Talento, pra qu? 29

    crar: Poucos ganham dinheiro, a maioria leva prejuzo. preciso ter certeza de que voc quer essa vida porque diferente de quem traba-lha em uma empresa que ganha o salrio certinho no final do ms. Na rotina do promoter voc pode ganhar muito bem em um ms e trabalhar de graa no outro, preciso ter organizao financei-ra, alerta.

    Como agradar a todos os gostos?

    Alm do problema em adminis-trar o dinheiro que envolve pro-mover uma festa, outra dificulda-de saber o que as pessoas esto querendo fazer. Para o organiza-dor no tem como fugir dos cli-chs: O pessoal quer mesmo se divertir, conhecer gente nova, for-talecer sua auto-estima e beijar na boca. O estudante de engenharia da PUC-Rio, Daniel Scarambo-ne, 21 anos, pensa como Z, mas acha que o preo das boates est muito alto: O que eu quero m-sica boa e bebida barata e difcil encontrar isso nas boates da Zona Sul. Meu objetivo chegar sozinho e sair acompanhado.

    Apesar da constante busca por novos lugares, a Pizzaria Guana-bara, no Leblon desde 1964, pode ser considerada um exemplo de estabelecimento que se tornou pa-rada obrigatria para quem quer estender a badalao. As clssicas mesas de alumnio da varanda fi-cam sempre lotadas, de segunda a segunda, garante o matre da casa Joo Reis: Por aqui passaram Cazuza, Lobo e grandes nomes da cultura carioca e brasileira, o que d mais charme ao local. O bar diferente dos outros porque as pessoas no sentam aqui para beber e depois se deslocar para outro lugar, quem entra no quer sair. Algo curioso o horrio de maior movimento da Guanabara:

    Nosso horrio de pico acontece de 4h30m s 7h, quando as pesso-as voltam das festas que estavam para encerrar a noite com chave de ouro. Acho que abrir um neg-cio na Zona Sul j meio caminho andado para dar certo, explica.

    Outra alternativaMudando de ambiente, vamos

    Lapa, antro da boemia carioca que, apesar de diferente da Zona Sul, tambm tem sua receita de sucesso. Os botequins so a gran-de atrao que, alm do chope gelado, possuem msica ao vivo e mesas de sinuca, um prato cheio para a malandragem que fre-quenta o lugar. Na sada do Bar Lapa 40 graus, Antonio Junior Sil-va, advogado, 25 anos, tentou di-zer o que o traz todo fim de sema-na Lapa: Isso aqui algo que

    no d pra explicar. A atmosfera de alegria que engloba esse lugar enorme, voc encontra desde o pessoal da classe baixa at gente que mora em cobertura em Ipane-ma. A unio do Rio acontece aqui, porque pra mim, carioca de ver-dade gosta de cultura, cerveja e samba. No existe lugar melhor pra unir essas trs coisas do que aqui.

    Outro ramo da noite carioca que est em expanso, so sites na internet especializados em di-vulgao de eventos e publicao de fotos da noitada passada. Os administradores das pginas en-viam dezenas de fotgrafos para diversos eventos na cidade para fotografarem todos que estavam presentes e, no dia seguinte, as pessoas clicadas podem se ver no site fazendo um rpido cadas-

    No temos horrio, muita gente pensa que trabalhar na noite coisa

    de desocupado

    Martin Vidal

    A pista da Baronneti lotada

  • Julho/Dezembro 200930

    tro. Com um ano de existncia, o Previso da Night um exem-plo de pgina bem sucedida. O jovem empreendedor Martin Vi-dal, de 24 anos, dono do site e tambm do Kono Temakaria (restaurante japons) na Argen-tina e nos conta como comeou sua vida de organizador de even-tos: Foi meio que por acaso, eu passei uma temporada estudan-do fora e quando voltei, resolvi organizar uma festa de boas vin-das. Foram todos meus amigos, a festa foi super badalada. Aps algumas semanas, um amigo me convidou pra fazer o segun-do andar do Baronneti, e assim

    tudo comeou. Sempre adorei fa-zer eventos.

    Um talento mltiploApesar de trabalhar com marke-

    ting e eventos, o talentoso Martin formado em direito pela Univer-sidade Cndido Mendes e estava cursando economia na PUC-Rio, mas teve que trancar a faculdade por falta de tempo para adminis-trar seus negcios. Ele ainda ex-plicou como teve a idia de criar o site: O Previso da Night foi uma ideia de fugir da mesmice que temos no mercado. Pensei em um site exclusivo, que cobrisse s eventos que eu gostaria de ir. No

    comeo tudo complicado, ne-cessrio contatos, dinheiro para investir e principalmente muito trabalho, mas isso nunca foi obs-tculo pra mim.

    Segundo o jovem promoter exis-te um preconceito contra as pesso-as que trabalham na noite, mas isso nunca o prejudicou. Muita gente acha que trabalhar na noite coisa de quem no tem o que fa-zer. Eu trabalho muito, tanto para os eventos quanto para outro em-preendimento. No temos hor-rios e a presso sempre grande. No me importo muito com o que os outros falam, me importo em fazer tudo dar certo, finaliza.

    Nuth LagoaA boate abriu este ano na Lagoa, aps fazer grande sucesso na Barra e no Centro. Com trs andares, existem duas pistas de dana e um restaurante. A boate costuma receber um pblico com idade acima de 21 anos, que est nas noites a mais tempo e procura um lugar em que se possa danar e comer algo mais refinado.Mais informaes: Av. Epitcio Pessoa, 1244, Lagoa Tel: 3575-6850

    Baronneti uma das casas noturnas que est a mais tempo na noite do Rio, faz mais de cinco anos, e ainda consegue ficar lotada de quinta a sbado. Com dois ambientes, o lugar toca funk, hip-hop e house, agradando ao pblico bastante ecltico. Alm dos eventos semanais, possvel marcar festas fechadas, como as

    Teen Parties, que so uma espcie de matin para os adolescentes de 11 a 17 anos.Mais informaes: Rua Baro da Torre, 354, Ipanema Tel: (21) 2247-9100

    Marina da GlriaConsiderada a mais bonita paisagem da cidade, a Marina da Glria recebe eventos de todos os tipos e portes. Exposies, feiras, lanamentos, shows e festas so algumas das possibilidades. O espao conta com dois pavilhes, um auditrio e mais de 12 mil m para eventos na rea externa.Mais informaes: Av. Infante Dom Henrique, s/n, Glria Tel: (21) 2555-2200

    Lapa 40Toda a casa est equipada por rede wireless, com pedidos anotados em

    palmtop e sistema de cobrana individualizado base de carto eletrnico, e o ingresso da gafieira cobrado parte. O trreo, um imenso calado com pedras portuguesas que lembram a praia de Copacabana, abriga mesas de

    bar, com pequeno palco para shows. O segundo andar o espao reservado para os verdadeiros amantes da sinuca, com mesas de vrios tamanhos e bar com cerveja Original. A gafieira fica no terceiro andar com palco para pocket-

    shows de msica brasileira com acstica e sonorizao de primeira linha.Mais informaes: Rua Riachuelo, 97, Lapa Tel: (21) 3970-1329

    Os lugares que esto atraindo mais gente na cidade

  • Talento, pra qu? 31

    Tatuagem o processo de introduzir tinta sob a epiderme para apresentar na pele a arte dese-jada pelo indivduo tatuado. O tema j no mais novidade. Essa a forma de modificao cor-poral mais famosa no mundo e cada vez mais uti-lizada no Brasil. Temos a ideia de que vivemos num mundo moderno, no qual a liberdade de expresso e igualdade so seus pilares, embora ainda hoje exis-tam aqueles que no apreciam a atividade.

    A arte sob a pele no moda nova. No se sabe ao certo quando a prtica comeou, mas um dos regis-tros mais antigos foi detectado no famoso Homem do Gelo mmia com aproximadamente 5,3 mil anos, descoberta em 1991 nos Alpes. J as mmias egpcias femininas, como a Amunet, apresentam traos e pontos escritos na regio do abdome, indi-cando, a partir da, que a tatuagem no Egito Antigo poderia ter relao com cultos fertilidade.

    A tatuagem serviu, tambm, como identificao de grupos sociais, marcao de prisioneiros, orna-mentao e at como camuflagem. Com o cristia-nismo, a tcnica caiu em desuso no Ocidente e foi proibida. Tal tradio somente foi redescoberta em 1769, quando o navegador ingls James Cook rea-lizou uma expedio Polinsia e registrou em seu dirio de bordo o costume local: homens e mulhe-res pintam o corpo. Na lngua deles, chamam isso de tatau. Injetam pigmento preto sob a pele de tal modo que o trao se torna indelvel.

    Cem anos depois, Charles Darwin afirmaria que nenhuma nao desconhecia a arte da tatuagem. Na verdade, dizia que a maioria dos povos do plane-ta praticava ou havia praticado algum tipo de tatu-agem. Em 1873, um artista chamado Gottfried Lin-dauer (1838-1926) chegou Nova Zelndia e ficou fascinado pelos Maoris tribo primitiva do local. At o final do sculo XIX, havia terminado mais de 100 retratos que agora fazem parte de uma valiosa coleo de uma Galeria de Arte em Auckland, Nova Zelndia. Sua obra de grande valor histrico, pois

    um registro preciso de algumas das mais sofistica-das e artsticas tatuagens Maori.

    Capito Cook escreveu em 1769: as marcas em geral so espirais e at mesmo possuem grande elegncia. Um dos lados corresponde ao outro. As marcas no corpo lembram folhagens, orna-mentos, filigranas, mas eles tm um tal luxo de formas que de 1 em 100 primeiros que apareciam exatamente as mesmas, no foram formadas duas iguais a uma anlise aprofundada, de Ho-ratio G. Robley, em trecho de seu livro Moko ou Maori tatuagem.

    A arte da tatuagem

    Gabriela rocha

    A atividade ganha admiradores e supera antigos preconceitos

    Tatuagem Maori

  • Julho/Dezembro 200932

    Desde a dcada de 1950 at o sculo XXI, muitas tcnicas foram aprimoradas. Quando a tatuagem chegou ao Brasil, por volta de 1950, havia apenas cinco cores disponveis, os traos eram grossos, as agulhas limitadas e os desenhos no podiam ser mui-to trabalhados. Agora, cerca de 70 tonalidades para pele esto disponveis no mercado, o que possibilita desde o dgrad at verdadeiras pinturas na pele.

    Alm dos avanos tecnolgicos, foi fundamental a regulamentao da atividade. O presidente do Sin-dicato das Empresas de Tatuagem e Body Piercing do Brasil (Setap), Antonio Carlos Ferrari, disse numa entrevista que considera positiva a regulamentao dos equipamentos e tintas que no possuam ne-nhuma regulamentao.

    superpositivo para a populao que, a partir de fevereiro (2009), pode descobrir quem so os ta-tuadores que trabalham com a tinta correta para ser introduzida na pele. As pessoas vo descobrir se a tinta est regularizada ou no, j que na embala-gem vai constar o nmero do registro na Vigilncia Sanitria, afirma Ferrari.

    Ele tambm conta que o prprio Setap j havia pedido a regulamentao dos produtos, depois de notar a existncia de materiais sem procedncia. Surgiram muitos produtos ruins e sem procedn-cia nenhuma. H tintas sem rtulo e no sabemos exatamente o que h dentro dos frascos. Ns leva-mos esse problema ao conhecimento da Anvisa h cinco anos, diz.

    Apesar de ser muito identificada com a criminali-dade e com o sistema penitencirio, a arte da tatua-gem nos ltimos anos vem virando objeto de sofisti-cao devido influncia da mdia e, assim, a arte corporal vem se tornando cada vez mais popular. A tcnica, hoje, reconhecida e respeitada, atrai cada vez mais adeptos Arte.

    Breno Reis, alm de tatuador tambm estudante de Pintura na Escola de Belas Artes (UFRJ) e forma uma equipe, ARTECORE, que trabalha com aergra-fo em diferentes superfcies. Segundo Breno, o gosto pela tatuagem aflorou quando teve contato com a tatuagem dentro da famlia por ser o caula, che-gou a ver muitas tatuagens na irm e nos primos.

    Reis j trabalhou em alguns estdios do Rio de Janeiro e conhece bem o meio. Hoje ele tem seu pr-prio trabalho, atravs do seu estdio indoor como chamado o profissional que trabalha em casa, com uma clientela mais seleta. A famlia do tatuador, por sua vez, consegue ver atualmente o profissionalismo que demanda a atividade. A minha av comeou a ver o neto dela virando tatuador, virando artista. E mais, levando a srio. Porque antigamente tambm tinha isso: tatuadores que no levavam a srio o que faziam. Foi muito importante para mim o reconhe-cimento dela, conta Breno.

    ECLTICA: O que a tatuagem?

    BRENO: A tatuagem um movimento artstico feito na pele, que foi usado de diversas maneiras pelos povos do mundo, ao longo da histria. Para se fazer uma tatuagem, voc pega uma tinta ba-sicamente natural , uma agulha ou algum instru-mento que faa a inciso e machuque a pele. Assim, voc tem uma absoro da tinta. Voc destri uma clula que produz a melanina e coloca ali o pigmen-to. A pele fagocita esse pigmento at a prpria pele se fechar. Nesse momento, acontece um processo de cicatrizao. At isso acontecer, a pele vai se des-pigmentando, vai jogando pigmento pra fora.

    E: A tatuagem vista, portanto, de maneiras dife-rentes ao redor do mundo. Como a atividade ga-nhou notoriedade ao longo dos anos?

    B: Essa relao entre o homem e o fato de voc machucar a pele, voc marcar a pele de algum para sempre, uma relao, historicamente, muito antiga. Sendo assim, voc tem em diversas civiliza-es o princpio do que , hoje, tatuagem como nos povos maoris, os havaianos e at os egpcios. O Sul da sia e os polinsios, principalmente, tm essa relao muito forte com a Arte h anos. Nesses

    Breno Reis trabalhando os desenhos

  • Talento, pra qu? 33

    lugares, a relao do homem com a tatuagem era, especialmente, tribal, espiritual ou religiosa. Em al-guns desses lugares no s tatuagem e, sim, o body modification, como chamado hoje em dia so machucados na pele, cortes. So formaes de que-lides trazidas artisticamente.

    Nos povos africanos, por exemplo, existe muito isso. J nos polinsios, no Sul da sia, eles tratam a pele como uma forma de remeter s batalhas. Em alguns lugares, como na ndia, usa-se henna na pele, que uma tcnica que se utiliza de uma tinta que sai. No entanto, onde a histria da tatuagem mais forte como na Austrlia e na Nova Zelndia , ela j feita atravs da inciso de pigmento na pele. A tecnologia, como milhes de outras formas de arte, chegou para revolucionar uma populariza-o da tatuagem. At o nome evoludo (Tatau o nome que se deu inicialmente tatuagem, devido ao som feito pelo instrumento que era utilizado ao bater na pele). Existe uma evoluo: tanto em rela-o ao material, como das agulhas e tintas.

    Foi o momento em que comeam a aparecer, tam-bm, desenhos diferentes no s lineares, mas desenhos com formas diferentes, como flores, ani-mais ou pessoas. E o homem tambm foi evoluin-do a partir disso. Ao chegar Modernidade, logo surgiu o equipamento da mquina eltrica, que era inicialmente uma mquina para fazer formas em superfcies lisas como o metal, por exemplo. Ela foi adaptada e, a partir da, foi criada a mquina

    de tatuagem que trabalha tecnologicamente como um im eltrico. Ocorreu, tambm, uma evoluo das tintas. E, desde ento, comeou a se popularizar a tatuagem. Hoje, voc tem uma maior populariza-o em relao arte e ao pensamento artstico em torno da tatuagem.

    E: Como a atividade chegou ao Ocidente?B: Todos os povos antigos tratavam a tatua-

    gem como uma situao religiosa, uma situao de guerra. Quando o ocidental passou pela rea oriental, trouxe a tatuagem junto com as nave-gaes das ndias e, assim, trouxeram tambm a tatuagem para o Ocidente. Na poca, s os nave-gadores e pessoas que entravam nos barcos antigos eram vistos como homens que no eram bons de conviver como bandidos. Eles se tatuavam, por-tanto, exatamente porque rodavam o mundo. claro que, na dcada de 1970, 80, voc tem uma popularizao muito grande por conta da prpria poca, pelo momento histrico que o mundo vivia. Voc tinha aquela coisa das pessoas rodarem. Esse pensamento da popularizao, em si, foi muito em relao moda, esttica. Saiu daquela coisa suja das cadeias, daquela coisa marginal da agulha que era um pedao de ferro e usava uma tinta de caneta para uma tecnologia mais avanada: agu-lhas feitas esterilizadas, pigmentos feitos s para aquilo. Foi profissionalizando mais o artista e, nem tanto, o preconceito.

    Breno Reis tatua Leonardo Arruda: Jamelo da Mangueira

  • Julho/Dezembro 200934

    E: A que voc atribui o fato dela ainda ser vista como uma atitude transgressora?

    B: Transgressora uma caracterstica que se en-caixa mais na viso da sociedade ocidental e atual. O pensamento em relao tatuagem, o preconceito em relao tatuagem, tudo, comeou a ser muito quebrado, como eu falei, atravs da globalizao. O boom da tatuagem se deu muito pela globalizao.

    E: Seria a globalizao o que permitiu que a tatua-gem pudesse, hoje, ser vista como uma modalidade artstica?

    B: A tribo dos tatuados , hoje, muito maior do que dcadas atrs. Antigamente, se voc tivesse vindo dos bairros mais pobres, voc era visto como um marginal no sentido de ser dos bairros pobres ou voc era visto como um bandido, porque nas cadeias, naquela poca, existiam muitas tatuagens que eram feitas de qualquer maneira. medida que o tempo passou, com a globalizao, que foi uma das coisas que mais perpetuou a tatuagem e voc passou a ter informao para todo o mundo. Ou seja, voc percebe que pode chegar a qualquer outro ponto do globo aonde aquilo uma coisa normal. Ento, eu acho que a globalizao foi o que con-seguiu abrir melhor as portas para a tatuagem e, claro, voc tambm teve artistas que popularizaram a atividade. A populao que no tinha dinheiro, antigamente, para se tatuar, comeou a se tatuar. E com isso, certos setores da populao comearam a ver isso em desenhos mais elaborados, em artistas, que trabalhavam melhor, trabalhavam mais artisti-camente, que tinham uma esttica mais elaborada.

    A partir do momento que se tem nvel tcnico de tatuagem muito mais avanado, as classes mdia e alta, comeam a ver a tatuagem com uma viso ar-tstica. Hoje em dia, com a internet e a globalizao, por conseqncia, voc tem uma gama de informa-es muito maior. E a tatuagem tambm foi muito ajudada com isso.

    E: A mdia uma das mais influentes formadoras de opinio. O que voc acha de programas de tele-viso como Miami Ink e Rio Ink?

    B: Assim como a globalizao e a popularizao acontecem, ocorre tambm a banalizao. Voc chega a um determinado ponto de divulgao desse tipo de arte que voc comea a banalizar. Por exem-plo, programas como esses Miami Ink ou Rio Ink, acabam banalizando porque aquilo no a realida-de do cotidiano de um estdio de tatuagem. Aquilo ali no o dia-a-dia de um tatuador.

    O tatuador, por exemplo, no d um rol e vai treinar boxe no meio da tarde, se ele tem obriga-es ao longo do dia com a tatuagem. Assim como qualquer profissional. No programa voc acompa-nha um momento especfico, um lugar especfico, um marketing aplicado. O estdio de tatuagem no uma loja em Los Angeles. E digo de uma forma geral. Isso no costuma ser visto de maneira posi-tiva por quem entende do assunto. Aquilo ali um programa feito para leigos, espectadores, observa-dores. Serve para mostrar a esse telespectador como se faz, mais ou menos, a tatuagem, j que eles tam-bm no mostram como aplicado, como esteri-lizado o material, qual o tempo que se perde para se fazer um desenho. Ou seja, como aquilo feito exatamente. Em minha opinio, como se passas-sem a informao de qualquer maneira e fizessem o trabalho de marketing televisivo em cima do estdio de tatuagem, que no s criao.

    E: Existe um pblico especfico que procure mais por tatuagem?

    B: O fato de voc trabalhar com uma espcie de tela fora do normal, fora dos alcances que se tem, usada pelos artistas normais como a parede, grafite, tela , a tatuagem acaba atraindo mais os jovens, naturalmente.

    E: Qual a regulamentao que garante a segu-rana do processo?

    B: Eu no posso dizer exatamente como est a regulamentao da profisso, no tenho certeza. Mas posso adiantar que j existe um Sindicato dos

    Estdio Miami Ink: srie de TV

  • Talento, pra qu? 35

    Tatuadores, embora a atividade dos tatuadores seja uma atividade autnoma. Quanto legislao e o Ministrio da Sade, existe uma responsabilidade do profissional com o equipamento e o seu uso assim como existem nos cabeleireiros e sales, por exemplo , que exige a esterilizao dos materiais utilizados no processo da tatuagem. Ento, as fer-ramentas de trabalho dos tatuadores devem deixar de ser esterilizadas na estufa de alta temperatura para ser tratadas na autoclave. Esta, por sua vez, a mesma pea que o dentista utiliza, j que ele tam-bm trabalha com um material que pode ser perigo-so para algumas doenas sanguneas. A autoclave um material hospitalar, em que voc mantm a esterilizao. J a estufa esteriliza, mas no mantm essa esterilizao.

    E: A tatuagem a inciso de tinta na pele. Como as pessoas costumam levar isso para o resto da vida?

    B: Eu costumo dizer que no sou tatuador, sou o gnio da lmpada (risos). Porque a pessoa so-

    nha, imagina uma imagem e aquilo vai para a pele dela. Voc tem que transcrever aquela ima-ginao, aquela imagem que a pessoa quer, para a pele dela. E aquilo vai para o resto da vida com ela. Ento voc tem uma intimidade com o dese-nho, de voc ter que satisfazer a pessoa que est pensando numa coisa para ela, que para a vida inteira. Eu no fao um desenho de R$ 150, por exemplo, porque eu quero ganhar R$ 150! Eu fao um desenho, seja o preo que for, mas que a pes-soa possa lembrar daquele momento. No s o desenho, mas tambm aquele momento que muito forte, um momento em que a pessoa est marcando o corpo dela para sempre. um mo-mento em que o cliente v o desenho e fala: esse que eu quero e, assim, decide qual o desenho que vai ficar com ela para o resto da vida. Ou seja, a pessoa est te dando confiana ao permitir que o tatuador faa um trabalho bom na pele dela. Sendo assim, ela vai procurar um profissional com quem ela se identifique.

    Art Nouveau francesa: propaganda de cigarro

  • Julho/Dezembro 200936

    E: Como a relao entre tatuador e cliente. E vice-versa?

    B: Para mim mais uma questo pessoal. A mi-nha relao com o cliente, como eu trabalho dentro de casa, indoor, uma relao mais pessoal, mais ntima. Ento, por trabalhar em casa, eu no abro as portas para qualquer um. Este tipo de tatuador costuma trabalhar com o boca-a-boca, usando as tatuagens j realizadas por ele como uma espcie de portflio na rua. As pessoas veem desenhos nos outros e perguntam: Ah, quem fez?. Ao respon-der, surge a chance da pessoa que perguntou, que-rer conhecer ainda mais do trabalho desse profis-sional. Sendo assim, ela se torna um novo cliente, assim como uma nova fonte para outros. Alm disso, muito gratificante voc fazer um bom tra-

    balho para a pessoa, que depois vira e fala: esse profissional fez isso e eu vou lembrar dele para o resto da minha vida porque est aqui. a minha imagem na memria da pessoa. Eu fico para o res-to da vida na memria dela. muito mais fcil, at, o cliente lembrar de mim e eu no lembrar do cliente porque eu estive ali no momento. Ento, a relao da pessoa comigo maior do que eu com ela, exatamente por eu estar marcando. Ento, se voc um profissional que lida com o desenho sob a pele, se fizer com que o cliente veja uma imagem boa daquilo, fique satisfeito, voc vai ter uma rela-o com a pessoa muito melhor, com certeza. Nem sempre voc gosta da imagem que pode vir a tatu-ar, mas se for uma imagem esteticamente bonita, a pessoa vai gostar.

    Trabalho da Artecore numa sala em Ipanema: cerca de 6m de largura

  • Talento, pra qu? 37

    E: O que o curso de belas artes acrescentou sua profisso?

    B: Eu entrei para a faculdade de belas artes exa-tamente para somar minha tcnica da tatua-gem, para que eu possa saber mexer cada vez melhor com as cores, estudar academicamente desenhos, pintura em si. Eu lido com a tatuagem como uma pintura e eu entrei para a faculdade com essa ideia, de trabalhar com a pintura de for-mas diferentes. Pedi a um amigo para me ensi-nar aergrafo (mais conhecido como Airbrush) e formamos uma equipe Artecore que usa ou-tra tcnica. um modo de no trabalhar s com a tatuagem. Com o trabalho do aergrafo, voc tambm tem um tom pr-estipulado, ou seja, j tem um pigmento na lona, que at bem pareci-

    do com o da pele. , tambm, uma forma de voc se deslocar um pouco do trabalho com agulha e pele e ver o que tinta em outros suportes. Em todo caso, animador o fato de voc poder mos-trar dentro da faculdade, que voc trabalha com um suporte mvel, como acontece com o grafite, a parede ou a tela, mas que , no caso da tatuagem, a pele humana.

    E: Para voc, o que seria uma tatuagem artstica?

    B: A faculdade me trouxe uma viso mais artstica sobre a atividade. Minha viso hoje em dia mui-to mais artstica sobre o que o suporte da pele. A nica diferena em relao s demais manifestaes artsticas o suporte: j tem um tom pr-estipulado e reage com a tinta.