SONHOS tropicais. Sonhos Tropicais Sonhos Tropicais ? seria necessrio desalojar a populao dos

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    22-Sep-2018

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SONHOS tropicais. Direo: Andr Sturm. Fotografia: Jacob Solitrenick. 2h 24 min. Pandora Filmes. Disponvel em: https://www.youtube.com/watch?v=fieH3FqzrZ0. Acesso em: 14/12/15. O cinema, a Histria e a fico: o presente do passado O sonho do passado perdura no presente; assim como a fico e a histria perduram nas telas do cinema. Essa sucinta definio cabe bem a essa obra do cunho histrico. Sonhos Tropicais contempla o perodo poltico da repblica velha - do ano de 1889, quando Oswaldo Cruz e Esther chegam ao Brasil. Assistem e participam, em 1904, da Revolta da vacina. A verso cinematogrfica de Sonhos Tropicais baseada no livro homnimo do escritor Moacyr Scliar, de 1992. Com preciso aos pormenores histricos da poca, o filme uma importante fonte de conhecimento e anlise da histria das epidemias que invadiram o pas; da persuaso poltica que colocava a populao contra a repblica e da fora de uma sociedade que no satisfeita com as imposies do governo, vai luta mesmo com o precrio armamento que possuem. Por outro lado, a histria de Esther uma denncia explorao sexual da qual foram vtimas inmeras mulheres estrangeiras. No ano de 1889 aportam o mdico sanitarista Oswaldo Cruz e sua famlia no porto da cidade do Rio de Janeiro. Oswaldo Cruz volta ao Brasil depois de especializao em medicina sanitarista realizada no Instituto Pasteur, na Frana. No mesmo navio vem Esther, uma jovem polonesa de famlia judaica, ela vem ao Brasil prometida em casamento. Quando aqui chega a moa descobre que foi enganada e obrigada a trabalhar como prostituta para o proxeneta Rotchilds. Ao chegarem aqui encontram o pas tropical do sculo XX infectado por epidemias de peste bubnica, febre amarela a varola. Nos prostbulos, alm das epidemias, so disseminadas a gonorreia e outras DSTs. Na poltica, monarquistas tentam derrubar os republicanos do poder. Em reconhecimento ao profissionalismo de Oswaldo Cruz, o presidente o nomeia Diretor de sade pblica. As medidas profilticas de conteno as epidemias adotadas pelo mdico brasileiro so recebidas com receios pela populao. Para acabar com a peste bubnica, o sanitarista prope ao governo a compra de todos os ratos transmissores da peste; para acabar com a febre amarela o sanitarista monta a junta mata mosquito, agentes que entravam nas casas e eliminavam todos os recipientes que servissem de alojamento para os vetores da doena. Por ltimo instituiu um rgido regulamento para a vacinao da varola. Na poca o presidente da repblica era Rodrigues Alves, a sede da presidncia era no Rio de Janeiro. O sonho do presidente e do prefeito Pereira Passos era transformar o Rio em uma cidade maravilhosa, que pudesse ser conhecida como a Paris dos trpicos. Para isso https://www.youtube.com/watch?v=fieH3FqzrZ0seria necessrio desalojar a populao dos cortios que estavam instalados no centro da cidade. As medidas intrusas de conteno das epidemias e a insatisfao poltica ocasionaram a revolta da vacina em novembro de 1904. Embora pouco desenvolvida no romance, a personagem Esther rouba a ateno do pblico na trama. Ao ver seu sonho de casamento ser desmanchado num prostbulo, a moa se apodera de sua condio e a supera. No prostbulo, a moa se envolve com dois homens: Amaral e Cardoso de Castro. Amaral ganha a vida com seu jeitinho brasileiro, esteretipo de malandro carioca, vive a driblar as dificuldades. Quando o governo comea a comprar os ratos da populao o rapaz faz uma fazenda de ratos e ganha muito dinheiro. Cardoso de Castro um homem de influncia e de confiana do governo. Na funo de delegado, responde como um xerife da cidade. Apaixonado por Esther o delegado abre um prostbulo para a moa, elevando-a da condio de vtima Esther para a de algoz. Mas quando Cardoso de Castro descobre que participa de um tringulo amoroso com Amaral, coloca Esther e Vnia (amiga de confiana de Esther) na rua, prende o concorrente destri a fazenda de criao de ratos que o sustentava. Sem ter para onde ir as duas alugam um precrio quarto num beco da cidade e continuam com a prostituio para sobreviver, mas logo Vnia contagiada pelo vrus da varola e no resiste a enfermidade. Ao perder a amiga Esther se prope a ser uma cobaia da vacina experimental de Oswaldo Cruz, porm se mistura aos revoltosos quando encontra na venda do portugus Manoel comida e quarto (em troca de dividir o lucro da prostituio com o benfeitor). Na venda Esther uma figura importante para a comunidade quando estoura a revolta da vacina. Durante a revolta, o governo entra em choque com a populao. Os revoltosos so vencidos e a Repblica continua a ser uma sucesso caf-com-leite (ora um Presidente paulista, ora um mineiro), mas o governo atende ao clamor da populao, cancela a vacinao obrigatria, levando Oswaldo a abdicar do cargo. O filme explora um cenrio de poca bastante requintado. Sua qualidade histrica no foge das convencionais produes realistas brasileiras. Seus produtores apostaram em fotografias antigas para reforar a concepo de narrativa de poca: no comeo da exibio uma fotografia do porto do Rio de Janeiro situa o espectador em data e locais especficos. No final h outra fotografia com letreiro especificando o ms e o ano em que acaba a revolta, e seguem outras relatando o destino de alguns dos principais revoltosos. Para reforar a interpretao de realidade que a fico oferece a arte como mimese da realidade - a exibio termina com a afirmao: Os episdios narrados nesse filme so rigorosamente verdadeiros, mesmo aqueles inventados. Os produtores ainda apostaram no artificio da voz off para que o espectador tomasse conhecimento dos motivos da imigrao de Esther. O realismo das imagens e a fidelidade aos pormenores polticos que ocasionaram a revolta da vacina aproximam o filme da histria autorizada contada pelo historiador. R. A. Ronsenstone (2010), professor catedrtico de Histria do Califrnia Institute of Technology, autor de diversos livros e artigos sobre cinema defende que diretor de filmes de cunho histrico e historiador muito se aproximam pelo fato de mostrar a histria por sua tica, isso significa que o olhar para a histria tanto do diretor quanto do discurso autorizado do historiador carregado da ideologia, histria e cultura de quem as produz. Assim pode-se dizer que a idiossincrasia do enunciador (diretor ou historiador) se mistura ao seu trabalho. Levando em conta a viso histrica do diretor Andr Sturm, podemos salientar que a obra ficcional por ele produzida de fundamental importncia para o momento atual: as epidemias que maltratavam a populao do incio do sculo XX continuam a fazer vtimas no sculo XXI. Longe de dar uma utilidade obra de arte, mas pensando em sua peculiaridade de contar o mundo, percebe-se que embora tenha passado um sculo ainda continuamos com os mesmos viles polticos e sociais. Parafraseando a personagem Oswaldo Cruz, pode-se afirmar que as doenas advindas da baixa qualidade sanitria, as doenas sexuais e polticas continuam contaminando o tecido social. As doenas polticas e sociais determinaram a direo dos sonhos das personagens: o sonho de Rodrigues Alves em transformar o Rio de Janeiro na Paris dos trpicos no foi concretizado. O sonho de Esther em se casar e dar uma vida melhor aos seus familiares na Polnia no foi possvel. No entanto, o sonho mais longe de ser realizado o de Oswaldo Cruz. Mais de um sculo aps a constituio da junta mata mosquito as epidemias tropicais ainda permanecem vitimando a sociedade. O saneamento bsico ainda no chegou s periferias. Ser a sade e saneamento o grande sonho do pas tropical? Se esse o sonho estamos longe de realiz-lo. Referncia bibliogrfica e flmica: ROSENSTONE, R. A. A histria nos filmes. In.: _______. A histria nos filmes. Os filmes na histria. Traduzido por Marcello Lino. So Paulo: Paz e Terra, 2010. pp. 13 25. SONHOS tropicais. Direo: Andr Sturm. Fotografia: Jacob Solitrenick. 2h 24 min. Pandora Filmes. Disponvel em: https://www.youtube.com/watch?v=fieH3FqzrZ0. Acesso em: 14/12/15. https://www.youtube.com/watch?v=fieH3FqzrZ0

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