Seminrio Nacional de Pesquisa em Enfermagem (16. : 2011 ...

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  • SENTIMENTOS DE MULHERESFRENTE ESPERA DO TRANSPLANTE RENAL1

    Anna Maria de Oliveira Salimena2Denicy de Nazar Pereira Chagas3

    Maria Carmen Simes Cardoso de Melo4Beatriz Santana Caador 5

    Introduo: Apesar da tecnologia disponvel atualmente na pesquisa e na assistncia sade, observamos que muitos pacientes em condies crnicas e graves de adoecimento acreditam que o transplante seja a resoluo do seu problema, fato que talvez se deva a pouca informao sobre a teraputica. Nesse sentido, apesar de existir uma equipe multidisciplinar que atende a essa demanda, evidencia-se que os pacientes que aguardam na fila de espera de um transplante necessitam de apoio e de um cuidado emocional, pois vrias dvidas e sentimentos surgem nesse perodo. Acreditando que as mulheres que esperam o transplante renal apresentam particularidades e possveis mudanas na rotina diria, as quais refletem em sua vida familiar, emocional e social, justificou-se o desenvolvimento deste estudo. Pois que a mulher percebida como uma cuidadora por excelncia e um importante apoio para famlia, devido a sua grande capacidade de compreender situaes diversas e de transmitir respeito. Entretanto, ao se deparar com uma doena crnica, sem possibilidade de cura, ela vivencia uma inverso do seu papel, pois de cuidadora passa a ser a pessoa que necessita de cuidados [1]. Nesse momento da vida, surgem problemas que abalam o equilbrio e afetam o relacionamento familiar, porm a relao enfermeiro-paciente pode ajudar atravs da humanizao da assistncia, sendo a mulher vista como um todo, com suas angstias, medos e incertezas [2]. Ao trabalhar os aspectos psicossociais da paciente, o enfermeiro estar ajudando a superar as dificuldades que aparecem com a doena. Porm, necessrio conhecer como essa problemtica afeta a vida da mulher e que valor ela atribui doena e ao tratamento que est realizando [3]. Sabe-se que as doenas crnicas podem tornar as pessoas incapazes de realizar seus afazeres dirios, trazer vrias dificuldades devido aos sintomas variados, prejudicar a capacidade laboral e submeter a um estilo de vida dependente de tratamento contnuo [4]. Dentre essas, est a Doena Renal Crnica (DRC), considerada uma condio sem alternativas de melhoras rpidas, de evoluo progressiva e que causa problemas fsicos, sociais e econmicos [5]. Das principais causas, destacamos a hipertenso arterial, o diabetes, a glomerulonefrite, as doenas hereditrias como a doena policstica, obstrues (pedras nos rins, tumores) e infeces renais [6]. Os tratamentos disponveis para a doena renal so: a Dilise Peritoneal Intermitente, a Dilise Peritoneal Ambulatorial Contnua, Dilise Peritoneal Automatizada, Hemodilise e o Transplante Renal, tanto de doador vivo quanto de doador cadavrico. Vale advertir que esses tratamentos substituem parcialmente a funo renal, aliviam os sintomas da doena e preservam a vida do paciente, porm, nenhum deles curativo. As pessoas que esperam por um rgo passam por diversos sentimentos como ansiedade, medo, expectativa de melhora de vida e esperana de uma vida normal, no sendo assim apenas meros candidatos para

    1 Recorte do relatrio de Pesquisa realizada como Trabalho de Concluso do Curso de Enfermagem da Faculdade de Enfermagem da Universidade Federal de Juiz de Fora (FACENF/UFJF).

    2Orientadora. Doutora em Enfermagem. Professora do Departamento Enfermagem Aplicada FACENF/UFJF.

    3 Enfermeira. Graduada no Curso de Enfermagem FACENF/UFJF. 4 Professora Doutora do Departamento Enfermagem Aplicada da FACENF/UFJF.5 Enfermeira. Mestranda do programa de Ps-Graduao da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais. E-mail: annasalimena@terra.com.br

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  • receber um rgo. Esta experincia vai alm da existncia do prprio ser, pois o rgo a ser recebido passa a ter um valor primordial, sinnimo de uma vida plena [7]. Objetivo: Conhecer os sentimentos das mulheres que aguardam na fila de espera por um transplante renal. Metodologia: Utilizada a pesquisa na abordagem qualitativa [8]. O projeto de pesquisa foi deferido pelo Comit de tica da Universidade Federal de Juiz de Fora segundo Parecer de n 268/2009 [9]. O estudo foi desenvolvido na cidade de Juiz de Fora MG, atravs da lista de espera disponibilizada pela Central de Notificao, Captao e Distribuio de rgos do Hospital Santa Casa de Misericrdia. Foram sujeitos 10 mulheres em tratamento hemodialtico, no ms de abril de 2010, selecionadas aleatoriamente. Valeu-se de entrevista aberta com as seguintes questes norteadoras: como foi para voc saber que necessita de receber um transplante renal? O que significa para voc estar na lista de espera do transplante renal? Como voc est sendo atendida em suas necessidades emocionais neste momento? Resultado: Buscou-se os pontos relevantes dos depoimentos de forma a proceder anlise compreensiva [10] onde emergiram as seguintes Unidades de Significao: Enfrentando o impacto do diagnstico; Significando a lista de espera; Mudana no cotidiano da mulher; Encontrando apoio: nos profissionais, na famlia e na religio. Quando se pensa em doena, independente do rgo acometido e dos efeitos causados no organismo pela mesma h um conjunto de sentimentos que se encontram diretamente a ela associados. O momento em que uma pessoa recebe um diagnstico geralmente decisivo, porque, a partir de ento, tem a possibilidade de reformular aspectos importantes de sua vida [11]. O impacto do diagnstico da DRC, por ser uma doena crnica, causa ao paciente insegurana, medo do tratamento, dos resultados incertos e limitao fsica, tornando a sua trajetria permeada por dvidas e situaes que causam muitas expectativas e que ter que enfrentar. Percebeu-se que ao receber o diagnstico de DRC, juntamente com a necessidade de realizar a hemodilise e esperar por um transplante, a angstia, o desespero, a tristeza e a certeza de que enfrentaro muitos sofrimentos, passou a fazer parte da vida diria dessas mulheres [12]. No bastasse o medo do tratamento, precisam tambm conviver com as idas e vindas ao hospital, com a interrupo de suas atividades profissionais e com a incerteza de cura, fazendo-as ficar sensveis e sujeitas a distrbios psicolgicos. Portanto, o respeito ao momento que est sendo vivenciado tambm colabora para o enfrentamento posterior das dificuldades, uma vez que cada ser singular e responde de forma diferente s situaes da vida. A espera um dos momentos mais difceis para a paciente, famlia, companheiros e tido como um momento de paralisao, em que h grande expectativa da paciente, que tudo quer fazer, mas no sabe como agir [13]. Ao se referir s questes da Insuficincia Renal Crnica aps aceitao da doena, estar em uma lista de espera para transplante o segundo momento mais difcil de todo o processo, pois possvel ser chamada para a cirurgia a qualquer momento. Neste perodo, a paciente pode ter baixa autoestima, tornar-se frgil e ter mudanas variadas no seu ser. O cotidiano das pessoas est sujeito a mudanas contnuas e estas vo promover um estado de equilbrio ou desequilbrio, dependendo da compreenso ou entendimento em relao situao que esto vivenciando. As atividades dirias e recreativas em geral tornam-se comprometidas devido ao tratamento, horrios que lhe imposto e o tratamento dialtico, principalmente aps incio do mesmo, so causa de tdio e limitam as atividades cotidianas, o que favorece ao sedentarismo e deficincia funcional, que vo refletir na qualidade de vida dessas pacientes [14]. A doena renal crnica provoca variadas perdas para seu portador: alm de mudanas nos relacionamentos sociais, ameaa de interrupo de projetos pessoais e/ou profissionais e o desempenho dos papis costumeiros. Na maioria das vezes, as pessoas so impedidas de continuar a trabalhar, sendo obrigadas a deixar que outras pessoas desempenhem suas atividades. Muitas vezes, a mulher o centro do lar, aquela que cuida, que educa, que ensina e, at mesmo, que responsvel pelo sustento da famlia. Ento, com o aparecimento da doena, passa a se sentir impossibilitada de assumir seu papel. importante que o enfermeiro busque conhecer o paciente e, atravs do dialogo constante, respeito e empatia, cultive a confiana, ajudando a diminuir a

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  • ansiedade e a fragilidade que esto presentes nesse momento. Todo paciente se sente debilitado em diversos aspectos e a comunicao vem contribuir para o restabelecimento da sade como um todo [15]. Diante da complexidade da situao das mulheres que aguardam o transplante renal imprescindvel que a equipe de enfermagem, principalmente o enfermeiro, seja o elo entre paciente, famlia e demais membros da equipe multidisciplinar. primordial que ele possua conhecimentos cientficos e sensibilidade para atender de maneira eficaz e individual s necessidades de cada paciente e contribuir com toda a equipe de sade para por em pratica as aes programadas. Para suportar a doena e o tratamento preciso que o doente tenha fora, perseverana e atravs da fora espiritual, ele ser capaz de se manter participativo e ter esperana em todas as situaes de dificuldades que lhe forem apresentadas. Assim, cada etapa vencida faz com que a paciente pense em um ser superior e, consequentemente, se apegue a Deus [10]. A assistncia e o suporte emocional oportunizado pelos profissionais da sade, em especial pelo profissional enfermeiro, servem de ajuda nos momentos difceis, seja atravs de palavras de conforto, da ateno, de explicaes tcnicas ou do cuidado direto. Consideraes finais: Evidenciou-se o quo fundamental o papel do enfermeiro em um centro de ateno a sade que oferece tratamento hemodialtico, sendo diariamente exigido desse profissional conhecimento tcnico e equilbrio emocional, pois vrios so os transtornos advindos da doena. Assim, o enfermeiro deve estar preparado para atender de maneira satisfatria a mulher cuidada, mantendo o respeito e a individualidade. Desvelou-se que a enfermagem precisa entrelaar tecnologia com aes educativas para desenvolver melhor sua assistncia. As mulheres entrevistadas se mostram menos receosas quando h informaes pertinentes ao tratamento, o que ressalta a importncia da comunicao e da explicao dos procedimentos tcnicos, assim como do apoio s necessidades emocionais, lembrando que a espiritualidade precisa ser trabalhada e inserida na assistncia de enfermagem.

    Palavras-chave: Enfermagem, Sade da Mulher, Transplante Renal.rea Temtica: Processo de cuidar em Sade e Enfermagem

    REFERNCIAS

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