Semeando Agroecologia: rvores na Agricultura Familiar

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    03-Jan-2017

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  • Semeando Agroecologia: rvores na Agricultura Familiar

  • Semeando Agroecologia: rvores na Agricultura FamiliarTexto:Thiago Michelini Barbosa

    Reviso tcnica:Adriana Galvo Freire, Claudemar Mattos, Marcio Mattos de Mendona

    Reviso ortogrfica e gramatical:Rosa Peralta

    Projeto Grfico:I Graficci Comunicao & Design

    Ilustraes:Ayssa

    Tiragem:1.000 exemplares

    Impresso:Reproset

    AS-PTA Agricultura Familiar e AgroecologiaRua das Palmeiras, 90 Botafogo RJCEP 22270-070 Rio de Janeirowww.aspta.org.br e-mail: urbana@aspta.org.br @asptaagroecologia

    Responsvel:

    Financiador:

    rvores na Agricultura

    Responsvel:

    Financiador:

    Esta cartilha dedicada ao seu Milton Machado Alves, agricultor agroflorestal de Casimiro de Abreu-RS. Seu Milton no est mais entre ns, mas esperamos que sua experincia aqui semeada possa semultiplicar e gerar bons frutos.

  • ndice

    Mata Atlntica: riqueza ameaada ................................................................................ 5

    As florestas e a agricultura .............................................................................................. 5

    As rvores no stio .............................................................................................................. 7

    Sombra e gua ............................................................................................................... 7Controle do mato espontneo ................................................................................... 8Fertilizao e conservao dos solos ........................................................................ 8Produo de lenha e madeira ..................................................................................... 9Produo de alimentos .............................................................................................. 10Produo de forragem ............................................................................................... 11Produo de remdios................................................................................................ 11Refgio para animais da mata .................................................................................. 12Suportes vivos, cercas e moures vivos .................................................................. 12Quebra-ventos ............................................................................................................ 14

    Agroflorestas ..................................................................................................................... 15

    Agroflorestas de bens de raiz (cultivos perenes) .................................................. 15Agroflorestas de lavouras brancas (cultivos anuais) ........................................... 17Agroflorestas para animais ....................................................................................... 20

    As rvores e a gerao de renda no stio .................................................................... 22

    A Agricultura Familiar, as rvores e a Lei .................................................................... 23

    Roteiro para planejamento do uso de rvores na propriedade familiar ............... 25

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    Mata Atlntica: riqueza ameaadaVivemos num pas tropical, abenoado por Deus e bonito por natureza, j cantava Jorge Ben-

    jor, inspirado nas belas paisagens do nosso litoral: na grandeza de seus mares, nas curvas de seus morros e na exuberncia de suas florestas.

    As florestas tropicais so as mais ricas do planeta. Ricas em quantidade e diversidade de animais e plantas. Ricas em seres vivos. Chamamos isso de biodiversidade. A Mata Atlnti-ca, floresta que abriga todo o estado Rio de Janeiro, uma das mais ricas em biodiversidade do mundo. E, dependendo do solo, do clima e da altitude, a Mata Atlntica pode se apresen-tar como uma floresta densa ou assumir a forma de campos de altitude, mangue ou restinga.

    Nos dias de hoje, porm, existem poucos remanescentes originais de Mata Atlntica no Brasil, apenas 8% de tudo que j existiu. como ficar com apenas 8 ps de fruta de um po-mar que tinha 100 ps. Grande parte da depredao da Mata Atlntica ocorreu pela forma de explorao da terra predominante no pas: extrao desenfreada do pau-brasil, agricul-tura monocultora e indstria predatria, assim como pela especulao imobiliria.

    As florestas e a agriculturaMas por que a agricultura praticada hoje no Brasil no consegue conviver em

    harmonia com as florestas?

    Para responder a essa pergunta, temos que refletir um pouco sobre a nossa histria. A histria da agricultura no Brasil.

    A maior parte dos agricultores familiares brasileiros conseguiu aprender com indgenas a praticar uma agricultura baseada numa relao de maior harmonia com a natureza. Para es-ses agricultores e agricultoras, a terra no vista como simples mercadoria, mas sim como recurso de trabalho, fonte de sustento e cho onde criam seus filhos e cultivam suas ami-zades. As famlias agricultoras sabem da importncia da manuteno dos recursos naturais do local onde vivem. Sabem da importncia das florestas, pois sempre dependeram delas para realizar seu trabalho e manter suas futuras geraes. Ao manejar e utilizar as florestas e rvores, os agricultores e agricultoras atuam diretamente na conservao desses recur-sos, principalmente da gua. E essa viso ecolgica do ambiente, presente na cultura de muitas famlias rurais Brasil afora, que permitiu que elas produzissem por tanto tempo em um mesmo lugar, sem o uso de adubos qumicos e agrotxicos.

    Porm, nos ltimos 40 anos, a agricultura familiar vem sofrendo com as mudanas im-postas pelo avano da agricultura empresarial, tambm chamada de convencional ou agro-negcio. Esse tipo de agricultura voltado para atender exclusivamente interesses de al-guns poucos grupos econmicos e se baseia no uso intensivo de insumos vindos de fora do ambiente onde se produz. O modelo empresarial, alm de ser caro, vive em conflito com a natureza, pois consome bastante os recursos naturais do local, no reconhece a floresta como aliada, no entende a importncia dos insetos e microrganismos no sistema, tratando-os muitas vezes como pragas e doenas das plantas, e ainda disfara a fraqueza dos solos por meio do uso constante de adubos qumicos.

    Muitos agricultores familiares j degradaram suas terras e faliram economicamente aps adotar as prticas da agricultura conhecida como agronegcio. Isso porque esse mo-delo no respeita o papel das rvores e dos arbustos no clima tropical e no condiz com a realidade econmica e cultural da agricultura familiar.

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    Com a grande presso do agronegcio, o aumento no rigor das leis ambientais e a diminuio do tamanho das propriedades rurais, muitos agricultores familiares passaram a enxergar as rvores como um estorvo. J no deixam mais a floresta recuperar o solo, no conservam uma mata com receio de perder rea de cultivo e raramente utilizam os produtos florestais em sua economia e seu modo de vida. Resultado: empobrecimento da terra e a consequente diminuio da renda das famlias. E, o que pior, os agricultores, e muitas vezes os seus filhos, abandonam a roa e vo morar na cidade!

    Ento, como mudar esse quadro?

    Existem vrias experincias agroecolgicas de agricultores e agricultoras familiares integrando rvores e cultivos em plena Mata Atlntica. Elas nos apontam caminhos para a harmonizao da agricultura com o am-biente, por meio da adoo de prticas que aproveitam o espao da propriedade e as diversas funes das rvores. H tambm iniciativas que agregam valor ao produto agroflorestal e dialogam criativamente com a legislao ambiental. Inspirados nessas experincias, procuramos apresentar a seguir algumas prticas rela-cionadas com o uso de rvores na agricultura, visando o incremento da renda e a melhoria da qualidade de vida na propriedade familiar.

    Agricultura Familiar Tradicional Agricultura Empresarial (Agronegcio)

    Diversos cultivos e produtos Monocultivo (cultivo de um nico produto)

    A terra vista como meio de vida e bem cultural

    A terra vista como mercadoria

    Recupera a fertilidade dos solos por meio do descanso da terra, da adubao orgnica e

    da adubao verde

    Disfara a baixa fertilidade dos solos por meio da utilizao de adubos qumicos fabricados

    por empresas

    Controla pragas e doenas por meio da rotao de culturas, do controle biolgico e

    de receitas caseiras

    Combate pragas e doenas por meio do uso de agrotxicos fabricados por empresas

    Utiliza sementes nativas e crioulas adaptadas ao ambiente local

    Utiliza sementes hbridas, melhoradas e transgnicas compradas de grandes

    empresas

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    As rvores no stioA presena de rvores nas terras das famlias agricultoras tem grande importncia, pois

    pode desempenhar muitas funes, tais como:

    Sombra e gua

    Na sombra, a temperatura e a umidade variam menos. Por isso, a sombra proporcionada pelas rvores muito til, pois protege as plantaes e os animais, ao amenizar as mudanas bruscas do clima, e ajuda a conservar a umidade do ar, ao reduzir a evaporao da gua.

    As razes das rvores tambm so fundamentais para manter a gua no ambiente, servin-do para proteger as nascentes e margens de rio e proporcionar melhor infiltrao e armaze-namento da gua da chuva no solo. J os galhos e folhas diminuem a intensidade e o impacto das fortes chuvas de vero sobre o cho. Quando a gua chega mais devagar no solo, causa menos eroso.

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    Controle do mato espontneo

    Quando combinadas com cultivos da roa, a sombra das rvores e a cobertura do solo podem eliminar uma grande quantidade de espcies de plantas indesejveis que nascem espontaneamente, como as gram-neas, que gostam de ficar em pleno sol. por isso que muitos agriculto-res e agricultoras afirmam que a presena das rvores diminui bastante o trabalho de capina e manuteno da lavoura.

    Fertilizao e conservao dos solos

    Todo agricultor e toda agricultora sabe que para um solo recuperar sua fertilidade preciso deix-lo descansar. o que cha-mamos de pousio, que significa deixar que as rvores cresam por algum tempo. Mas como as rvores e arbustos recuperam a fertilidade do solo?

    As rvores tm capacidade de fazer os nutrientes do solo circularem pelo ambien-te. Suas razes profundas conseguem bus-car nutrientes em lugares que a maioria das culturas da lavoura no alcana. Depois, esses nutrientes voltam para a terra quan-do seus galhos e folhas caem e apodrecem, deixando a terra estrumada.

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    Os galhos e folhas cados das rvores tambm contribuem ao formar uma camada que protege o solo da eroso, protege a vida do solo dos raios solares e favorece a infiltrao da gua. Assim, po-demos dizer que as rvores atuam diretamente na garantia das reservas de nutrientes no ambiente, na manuteno da vida e da estrutura do solo e na economia de gua.

    As rvores que possuem frutos do tipo vagem, as leguminosas, so as mais eficientes na adu-bao dos solos, pois elas se associam s bactrias da terra que conseguem capturar o nitrognio presente no ar. E essa substncia que faz o solo enriquecer. Por isso, muitos agricultores e agricul-toras costumam plantar gliricdia, ing, cssia ou guandu para fortalecer sua terra.

    Produo de lenha e madeira

    A lenha e a madeira so fundamentais para a vida das famlias do campo. A lenha uma das principais fontes de energia. Por isso, sempre bom ter uma rea com algumas rvores boas para esse uso. fcil encontrar o maric, o monjolo (pau-jacar), o sanso do campo ou a canafstula para manter sempre o estoque de lenha para a casa.

    J a madeira pode ser utilizada em diversas construes e ferramentas ou servir como fonte de renda. Algumas famlias manejam matinhas de sabi (Mimosa caesalpinifolia), por exemplo, para vender como estacas ou moures. Tambm sempre vemos em suas terras rvores como cambu, cambuci, garapa, vassourinha, ip, caboclinho, louro branco ou guatambu para fazer cabo de fer-ramentas. Encontramos ainda jequitibs, cedros, jatobs, araribs, canelas ou perobas, madeiras nobres para construes ou fabricao de mveis.

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    Produo de alimentos

    Alm de produzir sombra, gua, nutrientes e energia, uma grande quantidade de rvo-res originrias da Mata Atlntica podem ser cultivadas na propriedade para fornecer tanto frutas como nctar para as abelhas fabricarem mel.

    So muitas as frutas tpicas da Mata Atlntica, bastante apreciadas pelos agricultores e muito valorizadas nas cidades, entre elas: araticum, ara, pitanga, sapoti, jabuticaba, guabiroba, jenipapo, bacupari, grumixama, cambuc e juara (o aa da Mata Atlntica).

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    Produo de forragem

    Outras rvores so bastante apreciadas pelos animais de criao. Eles se alimentam dos frutos, folhas, cascas e outras partes das rvores. O feijo-guandu, o abacateiro, a jaqueira, a leucena, a gliricdia, o ing, entre outras, so espcies bastante teis para forragem animal.

    Produo de remdios

    Existem tambm diversas rvores que possuem propriedades medicinais. Seus frutos, folhas, cascas e seiva (leos) so tradicionalmente utilizados na cura de doenas e no alvio de dores e mal-estares. Quem mora na Mata Atlntica sempre faz uso do leo de copaba para combater inflama-es, problemas de pele e tambm como antissptico de feridas abertas. J as folhas da espinheira santa servem para gastrite, lcera, azia e queimao. E esses so apenas alguns exemplos.

    O poder do jatobO jatob (Hymenaea coubaril) uma rvore nativa das florestas tropi-

    cais (Mata Atlntica, Cerrado e Amaznia) empregada h muito tempo pelos indgenas no tratamento de doenas e no preparo de deliciosas comidas. A casca moda usada contra diarreia; a seiva alivia a tosse e a bronquite; a farinha do fruto boa para receitas de bolo e pes; e o ch da casca serve para problemas estomacais e para o tratamento de fun-gos nos ps. Prepara-se ainda um extrato lquido de sua casca e resina chamado de vinho-de-jatob, recomendado como tnico e fortificante.

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    Refgio para animais da mata

    As rvores ainda cumprem a funo de atrair pssaros e outros animais que ajudam no equilbrio da natu-reza (controle biolgico). Quem nunca viu um ninho de vespa numa rvore? As vespas controlam as lagartas e os ovos de outros insetos que causam danos lavoura.

    Alm disso, as flores das rvores criam um ambiente favorvel para a vida de muitos polinizadores, aqueles animais que visitam as plantas da roa, to necessrios para uma boa produo, incluindo a produo de mel.

    A forma com que muitas famlias agricultoras do Rio de Janeiro organizam as rvores na propriedade tambm um fator bastante relevante:

    Suportes vivos, cercas e moures vivos

    As rvores podem ser usadas para conduzir culturas que precisam de um suporte para crescer, como a pimen-ta-do-reino, o maracuj, o tomate ou o car. A prtica vem mostrando que o uso de suportes vivos traz muitas vantagens: produz o sombreamento exigido por muitas dessas plantas, melhora a fertilidade do solo, diminui a eroso e reduz as despesas com adubos, capinas e mtodos e substncias de controle de pragas e doenas.

    A preferncia pelas leguminosas de sombra rala que se reproduzem por meio de estacas, pois tm baixo custo de implantao e promovem o enriquecimento do solo com nitrognio. A gliricdia (Gliricidia sepium) e o mulungu (Erytrina verna) so timos exemplos para serem usados como suportes vivos.

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    A cerca viva pode ser muito til para uma famlia agricultora. Alm de isolar e/ou demarcar uma determinada rea, pode cumprir a funo de abrigo para aves, o que, por sua vez, contribui para o controle dos insetos. Quando plantadas muito prximas uma das outras, as cercas vivas diminuem o impacto do vento e impe-dem a passagem de animais e pessoas. Elas tambm favorecem a fertilidade do solo e podem servir de reserva de forragem para os animais.

    Uma rvore muito usada para formar cercas vivas o sabi, ou sanso-do-campo, que, alm de cercar a rea, produz lenha e madeira de boa qualidade. Al-gumas famlias tambm usam brinco-de-princesa, hibisco ou lanternachinesa, espcies que pegam bem por estacas.

    Alguns tipos de rvores funcionam como moures vivos, que tambm ajudam a cercar a propriedade e so capazes de aguentar o arame farpado. Uma vantagem que, depois que pega, o agricultor s ter que se preocupar com o arame. Para fazer os moures vivos, prefira aquelas espcies que pegam por estacas, como a castanha-do-maranho (Bombacopsis glabra), o caj-manga (Spondias mombin) ou a gliricdia (Gliricidia sepium).

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    Quebra-ventos

    Todo mundo que mora na roa sabe que o vento pode afetar bastante a produtividade das la-vouras, pois aumenta as perdas de gua da planta e do solo por evaporao e transpirao, alm de facilitar a disseminao de doenas nas lavouras. Ventos mais velozes podem quebrar galhos e folhas, o que tambm favorece a entrada de doenas nas culturas.

    Ao formar barreiras de rvores, podemos diminuir bastante a ao do vento. Normalmente, o quebra-vento posicionado de acordo com a direo dos ventos mais fortes e deve permitir que parte do vento passe por entre as rvores, freando sua fora. Para fazer um quebra-vento, bom usar plantas mais flexveis, como a casuarina (Casuarina equisetifolia) e os bambus.

    Implantando o quebra-ventoUm bom quebra-vento formado por quatro ou cinco fileiras

    de rvores, tendo uma largura total mxima de 20 metros. Do lado que recebe mais vento, planta-se a primeira linha com ar-bustos ou rvores de porte mdio (tais como aroeirinha, urucum, ing, etc.). A segunda e terceira linhas podem ser ocupadas com rvores mais altas (oiti, eucalipto, pau-ferro, etc.). A ltima linha do lado da rea cultivada plantada novamente com arbustos ou rvores de porte mdio.

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    AgroflorestasUma agrofloresta consiste na

    associao de roas e/ou os animais com rvores e/ou arbustos numa mesma rea. Nesse tipo de plantio, as rvores so usadas para melhor equilibrar o solo e o ambiente.

    As agroflorestas so prticas que procuram resgatar os conhe-cimentos dos antigos agricultores e agricultoras, que sempre sou-beram utilizavar os benefcios das florestas para manejar seus solos e manter seus recursos. Esse saber hoje ainda mais valioso, pois a maioria dos agricultores familia-res j no dispe nem de rea nem de tempo suficiente para deixar suas terras descansarem. Ento, as agroflorestas se apresentam como uma alternativa agroecolgica im-portante para o fortalecimento da agricultura familiar, ao permitir um aproveitamento mais eficiente da propriedade, recuperar a fertilidade do solo, aumentar a disponibilidade de gua, alm de tornar o trabalho na roa mais prazeroso.

    Podemos organizar as agro-florestas em vrios tipos, depen-dendo do manejo das rvores e dos objetivos de cada agricultor ou agricultora. No estado do Rio de Janeiro, encontramos diversos exemplos de agroflorestas sendo desenvolvidas pelas famlias agri-cultoras. A seguir, vamos conhecer algumas dessas prticas.

    Agroflorestas de bens de raiz (cultivos perenes)

    Muitas experincias nos mostram que vrias plantas frutferas, chamadas perenes (ou de ciclo longo), pro-duzem melhor na companhia de rvores. Mostram que as agroflorestas, com diferentes graus de diversifi-cao, desenhos e combinaes, podem recuperar um solo degradado se beneficiando da dinmica da mata, preparando-o para receber plantas exigentes, como caf, banana, palmito, cacau, madeiras de lei, dentre ou-tras espcies.

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    Cultivando uma floresta de alimentosA experincia da famlia Ferreira - Paraty (RJ)

    A famlia Ferreira vive no serto do Taquari, em Paraty, e uma das pioneiras do estado do Rio de Janeiro a resgatar as prticas agroflorestais para a recuperao do solo. Embora fosse acostumada a eliminar a floresta para plantar, a famlia viu a necessidade de mudar seu padro de agricultura. Isso porque, com o passar do tempo, foi percebendo o desgaste de seu solo e o fracasso dos cultivos ali plantados, vendo o capim dominar cada vez mais as reas de lavoura. A partir de trocas de experincias com agricultores que j faziam agrofloresta, os Ferreira passa-ram a observar o funcionamento da mata e adotar seus princpios na lavoura. Eles comearam a plantar ao mesmo tempo rvores e arbustos de crescimento rpido (guandu, urucum, ing, etc.), assim como leguminosas de pequeno porte (feijo-de-porco e crotalrias), imitando, dessa for-ma, o comportamento da floresta em regenerao. Com as podas e a capina para controle das plantas no desejveis, aceleraram o crescimento das culturas e incorporaram grande quanti-dade de material orgnico ao solo. Num intervalo de dois anos, acabaram com o capim braqui-ria, devido ao sombreamento proporcionado pelas rvores do sistema e cobertura morta feita a partir das podas. Com trs anos de manejo, j produziam abacaxi, aipim, pupunha, guandu, cana e banana, tudo plantado junto com as rvores. Hoje, a rea uma agrofloresta de bens de raiz, com solo frtil, onde encontramos espcies como pupunha, palmeira real, palmeira juara, aa, cupuau, cacau, banana, caf, jaca, abacate, etc. Ali tambm encontramos diversas madei-ras nobres, como louro, canela, cedro, angelim, entre outras.

  • Semeando Agroecologia: rvores na Agricultura Familiar 17

    O bananal sombreadoA experincia da famlia Cunha Rodrigues - Mag (RJ)

    Localizada na comunidade da Cachoeira Grande, no distrito de Piabet, em Mag (RJ), a propriedade agrcola da famlia Cunha Rodrigues o seu principal meio de vida. Rui e Jura-cy, juntamente com suas filhas Evellin, Erika e Ellen, trabalhavam na agricultura com o foco na produo de banana. O tempo foi passando e eles foram percebendo que as bananeiras que se encontravam na sombra de certas rvores ficavam mais vistosas e saudveis. Obser-varam tambm que as rvores que se davam bem com a bananeira tinham a sombra rala e perdiam as folhas em determinada poca do ano. Comearam ento a deixar que essas rvores se desenvolvessem no meio da roa. O guapuruvu (Schizolobium parahyba), tambm conhecido como bandarra ou ficheira, uma das espcies companheiras da banana. Sua sombra perfeita, pois, mesmo permitindo certa insolao, mantm o clima da regio mais mido, do jeito que a bananeira gosta. Funciona tambm como quebra-vento, protegendo as folhas sensveis da bananeira da ao dos ventos. Outra vantagem a adubao que o guapuruvu promove no bananal, pois as folhas que ele perde em determinada poca do ano cobrem o solo de matria orgnica. Espcies como ip, caj e tamboril tambm so boas para sombrear as bananeiras. As filhas do casal, que trabalham ativamente com o pai na manuteno e no crescimento do bananal, j perceberam as vantagens da lavoura sombreada. Alm disso, a famlia, que est participando da Feira da Agricultura Familiar de Mag, comeou a diversificar a produo, introduzindo o abacaxi, a palmeira juara e outras frutferas em meio ao bananal.

    Agroflorestas de lavouras brancas (cultivos anuais)

    Existem agroflorestas que so organizadas para favorecer o manejo do solo visando aumentar a produtividade das lavouras brancas. Essas agroflorestas no necessariamente se tornaro uma floresta de alimentos ou uma floresta de produo de madeira, sendo seu principal objetivo melhorar as condies dos solos. J as famlias agricultoras do Rio de Janeiro empregam a prtica do pousio para recuperar a terra, deixando a mata nativa voltar a crescer livremente. Temos tambm agroflorestas organizadas a partir do uso intenso das rvores aduba-deiras aquelas espcies de rpido crescimento, que aceitam podas drsticas e que so capazes de fixar nutrientes no solo.

  • 18 Semeando Agroecologia: rvores na Agricultura Familiar

    O feijo agroflorestal abafadoA experincia de seu Milton - Casimiro de Abreu (RJ)

    O agricultor Milton Machado se dedica desde 2002 produo agroecolgica no Stio Estrela da Manh, no assentamento rural Fazenda Visconde, em Casimiro de Abreu (RJ). A maioria das reas do seu stio seguem os princpios agroflorestais. Uma de suas experincias o cultivo de lavouras brancas. Milton recuperou algumas de suas reas utilizando espcies de rvores nativas e plantas adubadeiras, como o guandu e o ing. Ele foi introduzindo a banana e a pupunha medida que o solo ia melhorando. Para plantar as lavouras anuais, que necessitam de pleno sol, Milton passou a podar drasticamente suas agroflorestas. Faz o que se chama de plantio de feijo abafado. Para plantar o feijo, Milton seleciona uma agrofloresta com cerca de trs anos de idade, na qual geralmente se tem plantado banana, pupunha e uma srie de rvores adubadeiras. Primeiro, faz uma capina, cortando aquelas plantas que ele no quer que cresam, ao mesmo tempo em que deixa as mudas pequenas de rvores que aparecem naturalmente na rea. Depois, planta o feijo preto normalmente, por bai-xo das rvores de trs anos de idade. Aps o plantio do feijo, Milton poda drasticamente todas as rvores adubadeiras e trata das touceiras de banana, deixando apenas os filhotes vigorosos e as pu-punhas. O sol bate normalmente na rea, e o feijo sai muito bem por entre a palhada dos restos de rvores. Milton planta o feijo da seca nesse sistema, sobre o solo mido com a cobertura morta das podas (aproveitando as guas de maro). E ele quase no tem trabalho com capina nem para o plantio (devido sombra das rvores de trs anos) nem na lavoura (uma vez que a cobertura morta gerada das podas erradica praticamente todas as ervas indesejveis). Depois da colheita do feijo, as bana-nas e pupunhas se beneficiam da entrada de sol e do adubo gerado pelas podas, e as rvores podadas brotam novamente. Milton faz uma espcie de rodzio de manejo nas suas agroflorestas, deixando as rvores produzirem novamente troncos, galhos e folhas o suficiente para alimentar suas lavouras anuais e seu sistema de trabalho agroecolgico.

    Essas matas, a natureza, no nada nosso. tudo emprestado das crianas, emprestado do futuro e por isso temos que cuidar muito bem.

    Milton Machado agricultor agroflorestal, Presente!

  • Semeando Agroecologia: rvores na Agricultura Familiar 19

    A lavoura migratriaA experincia de seu Isaltino - Bom Jardim (RJ)

    A agricultura migratria bastante disseminada no Brasil. Conhecida tambm como agricultura caiara, de coivara ou de pousio, foi muito praticada pelos ndios e ainda apresenta adeptos em comunidades como as dos ribeirinhos da Amaznia e, no estado do Rio de Janeiro, entre pescado-res da Ilha Grande e em algumas reas da Regio Serrana. Seu Antnio Isaltino Sandre, que vive no Stio Cachoeira, em Bom Jardim (RJ), um desses agricultores que praticam a agricultura de pousio, mantendo uma tradio familiar de mais de 100 anos. Mas como a famlia conseguiu se manter produzindo por tanto tempo numa mesma rea? A propriedade de seu Isaltino possui aproximada-mente 30 hectares, de relevo bem acidentado e com bastante rea de reserva florestal. Graas a essa reserva, as reas de lavouras, quando abandonadas, regeneram-se rapidamente, pois ela funciona como fonte de sementes. Quando percebia que a fertilidade da rea de lavoura estava se deterioran-do, a famlia de seu Isaltino deixava a terra descansar de cinco a sete anos, enquanto produzia em outras reas. O plantio de inhame, milho, feijo, aipim, batata, entre outros, migrava pela proprie-dade, conforme as condies do solo. Alm da reserva florestal, sempre havia reas com florestas em pousio pelo stio, descansando. Os resultados de uma pesquisa realizada pela Embrapa Agrobio-logia no stio do seu Isaltino mostraram que um pousio de cinco a sete anos capaz de recuperar a capacidade de o solo produzir, chegando prximo s condies de solo de uma floresta de 70 anos. Hoje, porm, devido legisla-o ambiental, seu Isaltino no pode fazer o pousio por tanto tempo (as rvores j esto mui-to grandes), passando a fazer o pousio de trs anos, o que no suficiente para garantir a com-pleta recuperao da fertilida-de do solo e uma boa produo agrcola. Mas seu Isaltino e sua famlia no desanimam e esto se articulando com outras expe-rincias agroflorestais do Rio de Janeiro a fim de regularizar sua prtica tradicional e garantir o sustento de seus filhos e netos por mais 100 anos.

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  • 20 Semeando Agroecologia: rvores na Agricultura Familiar

    Agroflorestas para animais

    No Rio de Janeiro, a maioria das pastagens para criao animal est degradada ou em processo de degrada-o. As plantas que formam esses pastos, geralmente gramneas, no conseguem manter o solo produtivo por muito tempo. Com o passar dos anos, a ao das fortes chuvas vai erodindo e o pisoteio constante dos animais vai compactando as reas de pastagens.

    A introduo de rvores e arbustos nas pastagens pode ajudar a reverter esse quadro. De um lado, forma um banco de protena para os animais; por outro, contribui para a recuperao da pastagem, melhorando a produo animal e, portanto, abrindo caminho para uma pecuria mais sustentvel e rentvel.

    Os bovinos, ovinos e caprinos, bem como os animais silvestres, tm o hbito de pastar folhas e brotos novos de arbustos e rvores ou palmeiras de porte baixo, principalmente na poca mais seca do ano. Outra vantagem o conforto trmico dos animais. O gado, por exemplo, em pastagens totalmente abertas, sofre com o excesso de calor, ficando mais sensvel a doenas, produzindo menos leite (no caso de gado leiteiro) ou levando mais tempo para atingir o peso de abate (no caso de gado de corte).

    Vimos, portanto, que as rvores mantidas ou introduzidas nas pastagens podem prestar muitos servios: diversificao da alimentao, sombra e abrigo para os animais; produo de madeira; e adubao e melhoria das condies do solo.

    Porm, s a introduo de rvores e arbustos nas pastagens no suficiente para se alcanar a sustentabili-dade do pasto. Como na rea de cultivo, tambm necessrio que deixe a pastagem descansar para que as gra-mneas forrageiras possam se recuperar aps o pastejo. As famlias resolvem isso dividindo o pasto em piquetes.

    Arborizando a pastagem: o sistema silvipastoril

    Quando a atividade principal da famlia a criao animal, as rvores ou palmeiras so plantadas com maior espaa-mento entre elas. Portanto, a quantidade de rvores mantida na pastagem no pode ser exagerada, para no prejudicar o desenvolvimento das gramneas e outras ervas forrageiras. Para que as rvores plantadas cresam sem problemas de pisoteio, bom formar pequenos bosques e cerc-los. Quando elas ficaram grandes, daro abrigo aos animais nas horas mais quentes do dia, podendo servir tambm como forrageiras. Para diminuir o custo da arborizao das pastagens, o agricultor pode manter e ajudar o crescimento de rvores, arbustos e palmeiras que ali ocorrem naturalmente, em especial na forma de rebrota de tocos.

    As rvores so importantes tambm na criao de peixes. Elas podem fornecer alimento (folhas e frutos de arbustos forrageiros) e matria orgnica para adubar os viveiros de peixe. Alm disso, quando plantadas na forma de quebra-vento, melhoram as condies locais de clima, diminuindo as perdas de gua por evapora-o. Mas preciso observar que rvores de razes maiores devem ser plantadas a certa distncia dos viveiros para no danificar os diques e as margens dos tanques.

    Agroflorestas tambm so timas fontes para a produo de mel. Muitas rvores so visitadas por abe-lhas nativas, que produzem mel de alta qualidade, assim como por abelhas europeias. Alm de fabricarem mel, as abelhas contribuem muito para a polinizao das flores, aumentando a produo de frutos e semen-tes da agrofloresta.

  • Semeando Agroecologia: rvores na Agricultura Familiar 21

    Fabricando mel agroflorestalA experincia do sr. Eveli Bock Silva Jardim (RJ)

    Eveli agricultor familiar e possui um stio no pr-assentamento de reforma agrria Sebastio Lan II, em Silva Jardim (RJ). A rea do pr-assentamento bastante degradada, sofreu com muitos anos de pe-curia e agricultura intensivas. Quando comeou a participar dos movimentos pela Agroecologia, Eveli viu nas agroflorestas uma alternativa interessante para recuperar reas do seu stio e ao mesmo tempo gerar renda. Ele tinha grande interesse em trabalhar com mel, mas sabia que as abelhas no teriam como se alimentar devidamente em sua rea to degradada. Planejou ento uma agrofloresta para servir de pasto apcola e para sustentar seu negcio. Selecionou uma rea de aproximadamente oito mil metros quadrados e plantou rvores melferas de crescimento rpido e que poderiam se adaptar bem s condies do seu solo. Usou accia, astrapeia, ing, sibipiruna, etc., plantando junto com elas as culturas e frutferas, como caf, abacate, caj e pitanga (todas melferas tambm). Com dois anos, sua mata j estava praticamente formada. Montou um apirio de abelhas europeias (Apis melfera) e, atravs das podas das espcies de crescimento rpido, foi criando condies para o desenvolvimento das fru-tferas. Hoje, sua agrofloresta tem pouco mais de quatro anos e sustenta um apirio de 14 caixas, que gera em mdia 250 quilos de mel por ano. Alm do mel, Eveli produz caf e pitanga, iniciou o plantio de aa e jatob e j conta com a colheita de abacate e caj daqui a alguns anos.

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  • 22 Semeando Agroecologia: rvores na Agricultura Familiar

    As rvores e a gerao de renda no stioAs rvores cumprem papel importante na gerao de renda para a agricultura familiar. Alm dos bens e

    dos muitos servios fornecidos para suprir as necessidades familiares (alimento, forragem, sombra, matria orgnica, etc.), o uso de rvores na lavoura, como aqueles citados nos exemplos, diversifica as fontes de renda e ainda pode ser uma poupana para o futuro.

    Quando se pratica uma agrofloresta, a demanda por mo de obra familiar e os custos de produo vo dimi-nuindo com o passar do tempo, pois no h tanta necessidade de fazer capinas, o que significa menos esforo e despesa. J os rendimentos vo aumentando, em funo da melhoria do solo melhor e do incio da produo de frutas e madeira. Outro aspecto importante que a diversidade de produtos diminui os riscos de perdas, uma vez que no se aposta tudo num nico produto ou cultura, assim como assegura uma gerao de renda contnua ao longo do ano.

    Quem faz feira sabe disso: o consumidor aprecia a diversidade e os produtos do local. E, se as famlias da comunidade se organizarem, podem ficar mais fortes para conseguir novos mercados, como o da venda para o Programa Nacional de Alimentao Escolar (PNAE) ou para o Programa de Aquisio de Alimentos (PAA).

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    A Agricultura Familiar, as rvores e a LeiA legislao ambiental, com inteno de proteger o meio ambiente, determinou que alguns espaos devem

    ser especialmente protegidos. Entre eles, esto as reas de Preservao Permanente (APPs), a Reserva Legal, as reas cobertas por vegetao de Mata Atlntica, alm das Unidades de Conservao (UCs).

    O Cadastro Ambiental Rural (CAR)Para melhor monitorar as reas especialmente protegidas o governo federal, por

    meio da Lei 12.651, de 25 de maio de 2012, criou o Cadastro Ambiental Rural (CAR), que um registro pblico eletrnico contendo as informaes ambientais das proprieda-des e posses rurais do pas inteiro. A inscrio do imvel rural no CAR dever ser feita, preferencialmente, no rgo ambiental ou estadual. No caso da agricultura familiar a inscrio no CAR simplificada, sendo obrigatria a apresentao dos documentos de identificao do proprietrio ou possuidor rural; comprovao da propriedade ou pos-se; e croqui indicando o permetro (metragem) do imvel, as reas de Preservao Per-manente e os remanescentes que formam a Reserva Legal. Qualquer interveno que o agricultor familiar venha a fazer nestas reas protegidas depender do cadastramento do imvel rural no CAR.

    reas de Preservao Permanente (APPs)

    As APPs devem ser protegidas porque cumprem importantes funes, como a de preservao dos rios, da paisagem e da biodiversidade, alm de protegerem os solos e garantirem o nosso bem-estar.

    So APPs as margens de qualquer curso dgua, as reas no entorno de nascentes e olhos dgua, as en-costas muito inclinadas, os topos de morros e serras e reas de grande altitude. As restingas e os manguezais tambm so considerados APPs.

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  • 24 Semeando Agroecologia: rvores na Agricultura Familiar

    Reserva Legal

    A Reserva Legal a rea que deve ser destinada ao uso sustentvel dos recursos naturais em todas as propriedades rurais, com a funo de conservar a biodiversidade, ao abrigar e proteger as plantas e os animais nativos.

    Nos casos em que a Reserva Legal estiver desmatada, obrigao do proprietrio recuper-la. No estado do Rio de Janeiro, essa rea deve corresponder no mnimo a 20% da propriedade (por exemplo, em uma propriedade de 10 hectares, a Reserva Le-gal deve ter 2 hectares).

    Conforme o Artigo 15o do Novo Cdigo Florestal, poder ser admitido o cmputo das reas de preservao permanente (APP) no clculo do percentual da Reserva Legal do imvel, desde que, desde que estejam conservadas ou em processo de recupera-o e que o processo de cadastramento da propriedade no Cadastro Ambiental Rural (CAR) tenha sido iniciado.

    O manejo florestal e as agroflorestas

    Na pequena propriedade rural ou na posse familiar, o agricultor, desde que com a aprovao do rgo ambiental competente (o Instituto Estadual do Ambiente (Inea), no caso do Rio de Janeiro), poder estabelecer sua agrofloresta nas APPs de-gradadas, para recuperao e manejo da Reserva Legal, e em reas cobertas por vege-tao secundria de Mata Atlntica em estgio de regenerao inicial (capoeira fina) e mdio (capoeira).

    Vale ressaltar que no preciso ter autorizao dos rgos ambientais compe-tentes para eventualmente explorar produtos madeireiros (para lenha, esteios, cabos de ferramenta, moures, etc.) na Reserva Legal em agrofloresta, desde que seja para consumo na pequena propriedade ou posse familiar, isto , sem propsito comercial. O agricultor familiar poder retirar at dois metros cbicos de madeira por hectare por ano, no podendo ultrapassar o limite de 15 metros cbicos por ano no stio.

    Para implantar uma agrofloresta em reas que no sejam APPs, Reserva Legal ou vegetao secundria de Mata Atlntica em estgio de regenerao inicial e mdio, basta o agricultor ou agricultora familiar comunicar ao rgo ambiental competente quais os produtos florestais que pretende explorar. Por exemplo, se a famlia planeja plantar madeiras de lei nativas para futura explorao ou rvores com funo de adu-bao, preciso comunicar que estas sero cortadas e manejadas futuramente.

    O PousioO pousio, segundo a legislao, uma prtica que prev a in-

    terrupo das atividades agrcolas e pecurias por at 10 anos numa determinada rea para possibilitar a recuperao da fer-tilidade dos solos. Ser admitido o pousio em at dois hectares por ano na pequena propriedade rural ou nas posses de popula-es tradicionais ou de pequenos produtores onde, comprova-damente, essa prtica venha sendo utilizada tradicionalmente, mediante a autorizao do rgo ambiental competente.

  • Semeando Agroecologia: rvores na Agricultura Familiar 25

    Legislao ambiental para consulta

    Lei Estadual 2.049/1992 Uso do Fogo.

    Lei Federal 9.985/2000 Sistema Nacional de Unidades de Conservao

    Resoluo Conama 278/2001 Espcies Florestais Ameaadas de Extino

    Lei Federal 11.326/2006 Agricultura Familiar e Empreendimentos Familiares Rurais

    Lei Federal 11.428/2006 Mata Atlntica.

    Resoluo Conama 369/2006 Considera de utilidade pblica, interesse social ou de baixo impacto ambiental as agroflorestas realizadas em rea de Preservao Perma-nente em propriedade de Agricultura Familiar

    Decreto Federal 6.660/2008 Regulamenta a Lei da Mata Atlntica.

    Instruo Normativa 005/2009 do Ministrio do Meio Ambiente Habilita a utilizao de agroflorestas para a recuperao das reas de Preservao Permanente e de Re-serva Legal.

    Resoluo Conama 425/2010 Agricultura Familiar e reas de Preservao Perma-nente.

    Resoluo Conama 429/2011 Recuperao de reas de Preservao Permanente.

    Lei Federal 12.651/2012 Institui o novo Cdigo Florestal.

    Decreto Estadual 44.512/2013 Regulamenta o cadastramento ambiental rural no estado do Rio de Janeiro.

    Resoluo 86/2014 do INEA/RJ - define os critrios para a implantao, manejo e explorao dos Sistemas Agroflorestais (SAFs) e para a prtica de pousio.

    ROTEIRO PARA PLANEJAMENTO DO USO DE RVORES NA PROPRIEDADE FAMILIAR

    Este roteiro foi montado para ajudar a definir as aes relativas ao uso de rvores no es-pao de produo agrcola familiar. Ao olhar para o stio como uma unidade de produo, na qual todas as partes esto interligadas, podemos orientar nossas decises visando o melhor aproveitamento dos espaos e das interaes entre as prticas de produo agroecolgica. A seguir, listamos algumas dicas para ajudar a planejar:

    1. Caminhada Transversal:

    Essa caminhada tem como objetivo reconhecer a unidade de produo (stio, propriedade, posse, etc.) que estamos trabalhando ou que vamos trabalhar. Esse reconhecimento consiste na observao mais aprofundada das diversas reas existentes na propriedade (baixadas, morros, APPs, etc.), assim como das prticas que esto sendo realizadas em cada uma delas (lavouras, criaes de animais, pousio, etc.).

    Todos os membros da famlia devem participar da caminhada. Ela chamada de trans-versal porque visa percorrer a propriedade toda, de maneira que se possa observar toda sua diversidade. sempre bom passar pelos pontos mais altos, de onde podemos ter uma viso ampla do conjunto da unidade de produo.

    importante que pelo menos uma das pessoas que esto fazendo a caminhada tome nota das observaes realizadas durante o reconhecimento. A seguir, algumas questes que devem ser consideradas:

  • 26 Semeando Agroecologia: rvores na Agricultura Familiar

    Histrico da rea: o que se fazia no passado naquela determinada rea Situao aparente do solo nas diversas reas de produo: cor, textura, umidade, etc. Situao das lavouras: produo, sade, demanda de mo de obra para manejo, etc. Situao das APPs: nascentes, margens de rios, topos de morros, etc. Situao da rea de Reserva Legal: localizao, tamanho e condio (existe ou no existe) Utilizao das rvores no sistema de produo (se houver): quais so as principais espcies existentes

    e os seus benefcios e formas de uso (produo de fruta, apicultura, sombreamento, cerca viva, reserva para madeira/lenha/cabo de ferramenta)

    A caminhada transversal ser, assim, a base para a elaborao do Mapa Oral dos Sonhos da propriedade, ferramenta fundamental para o planejamento das aes de manejo e plantio de rvores.

    Material necessrio para caminhada: bloco de notas e caneta ou lpis. A utilizao de mquina fotogrfica pode ajudar no registro e na sistematizao de algumas informaes.

    2. Mapa Oral dos Sonhos

    Esse mapa o resultado da caminhada transversal e deve ser elaborado coletivamente por todos os mem-bros da famlia. Por ser construdo a partir das notas tomadas durante a caminhada transversal e dos depoi-mentos dos familiares, chamado de mapa oral. Ele no necessita de escala exata, pois seu maior objetivo visualizar as inter-relaes presentes e potenciais dentro da propriedade, buscando planejar melhor o manejo e a utilizao eficiente das diversas reas do sistema produtivo. Por isso, ele mais um desenho em forma de croqui do que propriamente um mapa!

    interessante que, na sua elaborao, o mapa oral seja visualizado por todos que manejam a propriedade. Para isso, recomenda-se a utilizao de um papel de tamanho grande, que tambm facilitar a identificao das diversas reas e prticas existentes no stio.

    Pontos a serem considerados no mapa oral:

    A propriedade hoje: elaborar o croqui da propriedade, destacando seus limites; a vizinhana; o nmero de pessoas que trabalham nela; as benfeitorias; as agriculturas (lavouras, pomar, horta, etc.); as cria-es de animais; as nascentes, crregos e rios; as reas de mata; as estradas; as cercas; entre outros. Para ajudar a visualizao dos desenhos desse item, use caneta de cor azul, por exemplo.

    A propriedade amanh: esquematizar os projetos da famlia para a propriedade em cima do croqui ela-borado (utilizar uma caneta de cor diferente, talvez de vermelha para chamar mais ateno). Procurar levar em considerao os sonhos e projetos a curto, mdio e longo prazo, tais como: estabelecimento de lavouras brancas e pomares, criaes, reflorestamentos, construes, entre outros.

    As possibilidades de uso de rvores na propriedade: depois de feito o croqui da situao atual e dos projetos da famlia para a propriedade, pensar coletivamente as possibilidades de uso das rvores nos sistemas de produo implantados e projetados. Com base no que foi visto durante a caminhada trans-versal, considere as seguintes questes:

    Condies dos solos das diversas reas do stio Topografia (reas de morro, lanante e baixada) Necessidade de adubao das lavouras e pomares

  • Semeando Agroecologia: rvores na Agricultura Familiar 27

    Sade das lavouras e pomares Aproveitamento dos espaos Situao das APPs (nascentes, margens de rio, topos de morro, etc.) Direo dos ventos dominantes, caso haja prejuzos decorrentes de ventanias Necessidade de cercamento Necessidade de madeira (construes rurais e lenha) Necessidade de alimentos (principalmente frutas, palmito e mel) Possibilidades de comercializao de produtos agrcolas e florestais

    Com base nessas questes, fica mais fcil definir como as rvores sero usadas dentro da propriedade. No desenho, a cor verde, por exemplo, pode representar a forma de utilizao das rvores desejada pela famlia. A escolha das espcies e do sistema de plantio depender do tamanho da rea e das condies de relevo e solo.

    Devemos tambm levar em conta para a escolha das espcies as nossas necessidades, ou seja, que be-nefcio(s) esperamos obter: produo de fruta, palmito ou mel; adubao verde; cercamento; delimitao da propriedade; matria prima para construes; lenha; cabo para ferramenta; forragem, efeito medicinal, entre outros. Tambm preciso definir como ser a forma de uso: agrofloresta; pasto apcola; cerca viva; quebra-vento; aleia de conteno; corredor florestal; recuperao de APP/Reserva Legal, pousio, etc.

    Para ajudar no seu planejamento do uso de rvores e espcies agrcolas, preencha a tabela da pgina 28.

    Material necessrio para elaborar o mapa oral: folhas de cartolina ou papel pardo; canetas hidrocor de pelo menos trs cores diferentes; lpis; material didtico sobre rvores e sistemas agroflorestais.

    Bibliografia consultada

    CALDEIRA, Patrcia Yamamoto Costa; Sistemasagroflorestaisemespaosprotegidos. Secretaria de Estado do Meio Ambiente, Coordenadoria de Biodiversidade e Recursos Naturais. 1.ed. So Paulo: SMA, 2011. 36p.

    DUBOIS, Jean C. L.; ManualAgroflorestalparaaAmaznia. Vol. 1; Rio de Janeiro: REBRAF 1996. 228p.

    GTSCH, Ernst; O renascer da agricultura. Trad.: Patrcia Vaz. 2.ed. Rio de Janeiro: AS-PTA, 1996. 24p.

    LORENZI, Harri; rvoresbrasileiras:manualde identificaoecultivodeplantasarbreasnativasdoBrasil.2.ed. Nova Odessa, SP: Editora Plantarum, 1998.

    LORENZI, Harri; rvoresbrasileiras:manualdeidentificaoecultivodeplantasarbreasnativasdoBrasil,vol.2. 2.ed. Nova Odessa, SP: Editora Plantarum, 2002.

    ManualAgroflorestalparaaMataAtlntica / Coordenao Peter Herman May, Cssio Murilo Moreira Trovat-to, Organizadores Armim Deitenbach...(et AL.). Braslia: Ministrio do Desenvolvimento Agrrio, Secretaria de Agricultura Familiar, 2008. 196p.

    SOUSA, Joseilton Evangelista de; Agriculturaagroflorestalouagrofloresta.Recife: Centro Sabi, 2007. 24p.

    VIVAN, Jorge Luiz; Pomaroufloresta:princpiosparamanejodeagroecossistemas. Rio de Janeiro: AS-PTA, 1995. 2a edio. 96p.

    VIVAN, Jorge Luiz; AgriculturaeFlorestas:princpiosdeumainteraovital.Guaba: Agropecuria, 1998. 207p.

  • 28 Semeando Agroecologia: rvores na Agricultura Familiar

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