Se e como poder uma obra de arte ser ? poder falar-se de bela arte no contexto da Crtica da

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  • Joo Lemos

    Se e como poder uma obra de arte

    ser belaAcerca das condies de possibilidade da

    noo de bela arte na Crtica da Faculdade do Juzo de Immanuel Kant

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    na

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    Esta biblioteca digital se integra en la revista Con-Textos Kantianos International Journal of Philosophy (CKT-IJP) ISSN: 2386-7655 Diseo del logo de la coleccin CTK E-Books: Armando Menndeze-mail: contextoskantianos@gmail.com Pgina web: www.con-textoskantianos.net

    Joo Lemos, 2017 CTK E-Books, Ediciones Alamanda, Madrid, 2017La edicin electrnica de este libro es de acceso abierto y se distribuye bajo los trminos de una licencia de uso y distribucin Creative Common Attribution (CC BY-NC-ND International 4.0) que permite la descarga de la obra y compartirla con otras personas, siempre que el autor y la fuente sean debidamente citados, pero no se autoriza su uso comercial ni se puede cambiar de ninguna manera.Diseo y maquetacin: Nuria RocaISBN: 978-84-940241-3-9

    Ediciones AlamandaGeneral Zabala, 5 E-28002 Madrid

  • Joo Lemos

    Se e como poder uma obra de arte

    ser belaAcerca das condies de possibilidade da

    noo de bela arte na Crtica da Faculdade do Juzo de Immanuel Kant

    CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana

  • Agradecimentos

    Devemos iniciar este texto com uma palavra de agradecimento Sr.

    Professora Doutora Nuria Snchez Madrid. Foi ela quem lado-a-lado

    com o Sr. Professor Roberto R. Aramayo, a quem tambm agradecemos

    possibilitou a sua publicao.

    Trata-se da tese de doutoramento que apresentmos Faculdade de

    Letras da Universidade do Porto e que a Sr. Professora Doutora Maria

    Filomena Molder e o Sr. Professor Doutor Diogo Pires Aurlio tiveram a

    amabilidade de avaliar. A ambos agradecemos as valiosas apreciaes.

    Para a sua realizao teve especial importncia o financiamento

    concedido pela Fundao para a Cincia e a Tecnologia, sob a forma de

    uma bolsa de doutoramento. O Instituto de Filosofia da Universidade do

    Porto disponibilizou todas as outras condies para que a investigao

    se desenrolasse.

    Endereamos um agradecimento especial Sr. Professora Doutora

    Maria Eugnia Morais Vilela, que orientou a maior parte da investigao

    e da escrita deste trabalho. Enquanto coordenadora do grupo de

    investigao Esttica, Poltica e Artes, a Sr. Professora Eugnia Vilela

    igualmente promoveu um dilogo cuja influncia sobre os contedos aqui

    disponibilizados no pode ser subvalorizada.

    Agradecemos tambm ao Sr. Professor Doutor Adlio da Costa Melo,

    responsvel pela orientao inicial. Foi com a ajuda do Sr. Professor

    Adlio Melo que as nossas questes comearam a tomar forma.

    O Sr. Professor Doutor Paulo Jorge Delgado Pereira Tunhas fez muito

    mais do que aquilo que era exigvel ou expectvel. Foi o responsvel pela

    orientao final desta tese com entusiasmo e dedicao. Destina-se ao

    Sr. Professor Paulo Tunhas o nosso ltimo agradecimento.

  • ndice

    NOTA INTRODUTRIA ....................................................................... 5

    INTRODUO ...................................................................................... 8

    CAPTULO I: JUZO DE GOSTO ....................................................... 22

    1. Juzo esttico reflexivo .................................................................. 22

    1.1 Juzo esttico ........................................................................... 22

    1.2. Juzo esttico dos sentidos ...................................................... 26

    1.3. Princpio da faculdade do juzo .............................................. 30

    1.4. A beleza apraz no simples julgamento .................................... 39

    1.5. Princpio da conformidade a fins formal da natureza .............. 45

    1.6. Ideia do supra-sensvel como conceito de um fundamento do princpio da conformidade a fins formal da natureza ................ 58

    2. Juzo esttico universalmente vlido a priori ................................ 60

    2.1. Enquadramento ....................................................................... 60

    2.2. Supra-sensvel como fundamento da validade universal a priori do juzo de gosto .............................................................. 65

    2.3. O que significa um juzo de gosto ser universalmente vlido a priori? .............................................................................. 67

    2.4. Necessidade e sensus communis ............................................. 71

    2.5. Necessidade subjectiva, necessidade e validade exemplares, voz universal ................................................................................. 77

    2.6. Justificao do sentido comum ............................................... 78

    2.7. Um princpio........................................................................... 80

  • NDICE

    2.8. Juzo errneo .......................................................................... 82

    CAPTULO II: ARTE ........................................................................... 89

    1. Juzo atravs do qual se declara artstico um objecto ..................... 89

    1.1. Obra de arte ............................................................................ 89

    1.2. Representao de uma conformidade a fins objectiva interna............................................................................................ 92

    1.3. Possibilidade de falar-se de bela arte ..................................... 96

    2. Juzo atravs do qual se declara bela uma obra de arte .................. 98

    2.1. Impossibilidade de falar-se de bela arte ................................. 98

    2.2. Perfeies ............................................................................. 100

    2.3. Beleza aderente e juzo de gosto aplicado ............................. 102

    2.4. Juzo esttico logicamente condicionado .............................. 104

    2.5. Beleza fixada e juzo de gosto em parte intelectualizado ...... 106

    2.6. No pode falar-se de bela arte .............................................. 108

    CAPTULO III: BELA ARTE ............................................................ 115

    1. Belas obras de arte ....................................................................... 115

    1.1. Obras de arte livremente declaradas belas ............................ 115

    1.2. A noo de bela arte segundo os 44-46 da Crtica da Faculdade do Juzo ..................................................................... 118

    2. Gnio, ideia esttica, expresso de ideias estticas e referncia do juzo atravs do qual se declara bela uma obra de arte ao princpio da conformidade a fins formal da natureza ....................... 123

    2.1. Gnio .................................................................................... 123

    2.2. Ideia esttica ......................................................................... 128

    2.3. Expresso de ideias estticas ................................................ 139

  • NDICE

    2.4. Referncia do juzo atravs do qual se declara bela uma obra de arte ao princpio da conformidade a fins formal da natureza ....................................................................................... 153

    3. Forma .......................................................................................... 159

    3.1. Conformidade a fins da forma .............................................. 159

    3.2. Figura ................................................................................... 163

    3.3. Jogo ...................................................................................... 166

    3.4. Da Esttica transcendental da Crtica da Razo Pura ao Terceiro momento do juzo de gosto da Crtica da Faculdade do Juzo ..................................................................... 172

    3.5. Vrios Elementos.................................................................. 179

    3.6. Forma e expresso ................................................................ 182

    3.7. Importncia da forma no sentimento do sublime .................. 187

    4. Beleza aderente como beleza ....................................................... 194

    4.1. Beleza da arte como beleza aderente .................................... 194

    4.2. Beleza da arte como beleza livre .......................................... 210

    4.3. Gostos ................................................................................... 218

    CAPTULO IV: PARA A PRODUO DE BELA ARTE ............... 232

    1. Educao do gnio ....................................................................... 232

    2. Cultivo, exercitamento e correco do gosto ............................... 244

    CONCLUSO .................................................................................... 264

    BIBLIOGRAFIA ................................................................................. 274

    ANEXOS ............................................................................................ 283

  • CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana 5

    Nota Introdutria

    A obra que motiva esta tese de doutoramento a Kritik der Urteilskraft, de Immanuel Kant, originalmente escrita em Alemo. A nossa tese escrita em Portugus e dirigida a leitores do Portugus. Por esta razo, sempre que citamos passagens da Kritik der Urteilskraft, utilizamos uma traduo portuguesa; por aquela outra, recorrente transcrevermos o texto original quando fazemos uma citao. Numa tese em que as citaes aparecem com grande frequncia, cremos ser esta a metodologia mais adequada para que o leitor acompanhe, em continuidade, o raciocnio que a desenhado.

    Igualmente considerando a possibilidade de acompanhamento, em continuidade, do raciocnio desenhado nesta tese, devemos assinalar que, em cada citao, optamos por transcrever do original apenas as partes especialmente relevantes para o assunto que estamos a abordar no

  • SE E COMO PODER UMA OBRA DE ARTE SER BELA

    6 CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana

    momento em que a citao feita. Nuns casos, essa opo resulta na transcrio da totalidade da passagem; noutros, no. nossa opinio que tal contribui para que a leitura no seja perturbada por transcries. Importa tambm indicar que no deixamos de proceder a reorganizaes gramaticais sempre que faz-lo se afigura relevante.

    A edio da Kritik der Urteilskraft que utilizamos para transcrever as palavras de Kant, em Lngua Alem, a da Preuische Akademie der Wissenschaften. No que diz respeito ortografia, citamos o texto dessa edio adaptando-o escrita actual, posterior Rechschreibreform de 1996 desde logo, escrevemos Urteilskraft, no Urtheilskraft.

    A traduo a que recorremos para citar a Kritik der Urteilskraft em Portugus a realizada por Antnio Marques e Valrio Rohden e editada em 1998 pela Imprensa Nacional Casa da Moeda. Mantemo-la exactamente como est publicada, incluindo aquilo de que discordamos e aquilo que consideramos serem gralhas. Sempre que nos parece pertinente alterar ou simplesmente comentar a traduo de uma palavra ou passagem, acrescentamos uma nota de rodap.

    No que concerne primeira Einleitung Kritik der Urteilskraft, utilizamos a traduo realizada por Rubens Rodrigues Torres Filho. Quando a citamos, mantemos as opes do tradutor por exemplo, a traduo de Urteilskraft por Juzo. No entanto, em nenhum outro caso submetemos a nossa escrita a essas opes usamos a expresso faculdade do juzo, por exemplo.

    Passagens de comentadores da obra de Kant ou passagens de outros filsofos so por ns citadas em Portugus. Nos casos em que utilizamos tradues portuguesas dos textos desses autores, limitamo-nos a transcrever os excertos tal como esto escritos nessas tradues; naqueles em que apenas lemos os textos na lngua estrangeira em que originalmente so escritos ou noutra lngua estrangeira, traduzimo-los, sob nossa responsabilidade, para Portugus.

    Sempre que citamos um comentrio no qual citada uma passagem da Kritik der Urteilskraft, a passagem do texto de Kant por ns transcrita segundo a traduo portuguesa supramencionada. Fazmo-lo para

  • NOTA INTRODUTRIA

    CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana 7

    proporcionar ao leitor da nossa tese uma mais rpida localizao da passagem citada no comentrio.

    Ainda no que diz respeito a comentadores da obra de Kant ou a outros filsofos, de assinalar que referimos, na Bibliografia, escritos que ao longo do nosso texto no so mencionados. Consideramos que uma tese de doutoramento pode ser um meio para partilhar referncias bibliogrficas relativas ao assunto por ela abordado.

    Finalmente, uma nota relativa maneira como citamos diferentes ttulos presentes na Crtica da Faculdade do Juzo. A terceira Crtica mereceu pelo menos um prlogo, duas introdues, duas partes, duas seces, duas divises, dois livros, vrios apndices, vrias observaes com diferentes estatutos entre si na hierarquia dos ttulos presentes na obra, tal como acontece com os apndices e quatro momentos cada um com a sua explicao. De forma a evitarmos eventuais mal-entendidos na leitura do nosso texto decorrentes de um grafismo variado, optamos por citar os referidos ttulos do modo que se apresenta no anexo 1. Ttulos.

  • 8 CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana

    Introduo

    A questo central que conduz esta investigao a de saber se e como poder falar-se de bela arte no contexto da Crtica da Faculdade do Juzo, de Immanuel Kant.1 Por outras palavras: pretendemos saber se e sob que condies ser legtimo usar-se a expresso bela arte no mbito da terceira Crtica. A partir da resposta a essa questo, responderemos igualmente

    1 No problematizaremos, na nossa tese, propostas de distino entre Kraft e Vermgen ou, mais especificamente, entre Urteilskraft e Vermgen zu urteilen. Note-se, a este propsito, que, no 35, Kant identifica essas duas expresses, nomeadamente ao afirmar que [a] condio subjectiva de todos os juzos a prpria faculdade de julgar ou a faculdade do juzo ([d]ie subjektive Bedingung aller Urteile ist das Vermgen zu urteilen selbst, oder die Urteilskraft) (Kant, 1998: 188). Seguimos a opo dos responsveis pela traduo portuguesa por ns usada para fazer citaes traduzir Kritik der Urteilskraft por Crtica da Faculdade do Juzo. Tal opo no ter qualquer influncia sobre a questo de saber se e como poder falar-se de bela arte.

  • INTRODUO

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    questo de saber o que ser necessrio para a produo de bela arte, isto , para a produo de belas obras de arte.

    Embora de um modo intermitente, e numas vezes mais explicitamente do que noutras, a noo de bela arte (schne Kunst) uma noo que atravessa toda a Crtica da Faculdade de Juzo Esttica da Crtica da Faculdade do Juzo.2 Assim, no 14, Kant menciona explicitamente belas-artes (schne Knste) (Kant, 1998: 115); no 16, cita objectos artsticos como sendo belos (cf. Kant, 1998: 120-121); no pargrafo seguinte (17) acerca do ideal da beleza, o nosso autor escreve uma nota sobre aquele que ele vir a dizer tratar-se do talento para a produo de objectos belos, a saber, o gnio (cf. Kant, 1998: 268); mais frente, na Observao geral sobre a primeira seco da analtica, usando parques, decorao de aposentos, toda a espcie de utenslios de bom gosto, etc como exemplos, tal, de resto, como o gosto ingls por jardins ou o gosto barroco por mveis, Kant sublinha uma actividade que, como posteriormente veremos, indispensvel bela arte, a saber, o jogo livre das faculdades de representao (Kant, 1998: 134); no 32, a propsito da primeira peculiaridade do juzo de gosto, Kant, embora sem utilizar a palavra gnio, procede a uma primeira explicao daquilo pelo qual, como mostraremos, esse talento precisa de ser acompanhado para que se produzam obras de arte belas (cf. Kant, 1998: 183-185); dez pargrafos depois, no 42, ele utiliza as expresses belo da arte (Schne der Kunst)

    2 Na traduo portuguesa por ns usada para fazer citaes, a expresso schne Kunst traduzida no apenas por bela arte, mas tambm por arte bela. No sabemos o que ter motivado essa opo. No vemos nela qualquer problema, porm. Alis, na medida em que pelo menos no contribui para a assuno da possibilidade de falar-se de bela arte enquanto algo independente do que seja a beleza e do que seja a arte bela arte que, nesse caso, estaria materializada nas obras das chamadas belas-artes, das schne Knste, das fine arts, mesmo que essa designao nada tivesse a ver com o que seja a beleza ou a arte a expresso arte bela poder ajudar a ver a relevncia da questo de saber se a arte pode ser bela, se a beleza pode ser artstica. Devemos ressalvar, no entanto, que a emergncia dessa pergunta em nada depende de uma traduo de schne Kunst por arte bela. Por essa razo e porque, de facto, Kant escreve unicamente schne Kunst tenderemos a usar a expresso bela arte para traduzi-la.

  • SE E COMO PODER UMA OBRA DE ARTE SER BELA

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    (Kant, 1998: 201), beleza da arte (Kunstschnheit) (Kant, 1998: 202) e bela arte (schne Kunst) (Kant, 1998: 204); e, nos 44-53, procede a uma descrio directa da bela arte e de tudo o que esta envolve, como indiciado pelos ttulos dos pargrafos respectivos (cf. Kant, 1998: 208-237); na primeira observao ao 57, Kant refere o padro de medida quela conformidade a fins esttica porm incondicionada na arte bela (schne Kunst) (Kant, 1998: 252); no pargrafo que se segue (58) o nosso autor aborda o princpio do idealismo da conformidade a fins na arte bela (schne Kunst) (Kant, 1998: 259); finalmente, no ltimo pargrafo da Crtica da Faculdade de Juzo Esttica (60) Kant d-nos indicaes quer sobre a maneira, quer sobre a propedutica bela arte (schne Kunst) (cf. Kant, 1998: 264-266). Antes de tudo isso, no Prlogo primeira edio da Crtica da Faculdade do Juzo, Kant faz referncia ao belo e ao sublime da natureza ou da arte (das Schne und Erhabne der Natur oder der Kunst) (Kant, 1998: 48); na Primeira Introduo, cita a beleza artstica (Kunstschnheit) (Kant, 1995: 91); e, na Introduo, menciona o prazer no belo associando-o quer natureza, quer arte.3

    O facto de a noo de bela arte atravessar a Crtica da Faculdade de Juzo Esttica poderia ser encarado como razo suficiente para no se inquirir acerca da sua legitimidade. Em nosso entender, porm, parece haver, no interior da terceira Crtica, um conflito entre, por um lado, as exigncias que um juzo que se pretende de gosto tem de satisfazer

    3 Primeiro, Kant fala de um prazer cujo fundamento se encontra na condio universal, ainda que subjectiva, dos juzos reflexivos, nomeadamente na concordncia conforme a fins de um objecto (seja produto da natureza ou da arte (er sei Product der Natur oder der Kunst)) com a relao das faculdades de conhecimento entre si, as quais so exigidas para todo o conhecimento emprico (da faculdade de imaginao e do entendimento) (Kant, 1998: 76); seguidamente, assinala a receptividade de um prazer a partir da reflexo sobre as formas das coisas (da natureza, assim como da arte (der Natur sowohl als der Kunst)) (Kant, 1998: 77); entretanto, na seco IX, o nosso autor indica que o juzo esttico que ocasiona o conceito da faculdade do juzo de uma conformidade a fins da natureza refere-se a objectos da natureza ou da arte (der Natur oder der Kunst) (Kant, 1998: 83).

  • INTRODUO

    CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana 11

    para que, atravs dele, um objecto natural ou no seja declarado belo e, por outro lado, as exigncias que um juzo que tambm se pretende de gosto tem de satisfazer para que, atravs dele, uma obra de arte (Kunstwerk) seja declarada bela (schn). Esse conflito faz com que a possibilidade de uma obra de arte ser declarada bela atravs daquilo que Kant define como juzo de gosto (Geschmacksurteil) seja por ns questionada. Esto em causa o significado e a legitimidade da noo de bela arte. Na nossa indagao, tornaremos explcito o referido conflito e verificaremos se e como poder uma obra de arte ser considerada bela por outras palavras: se e como poder falar-se de bela arte.

    No Captulo I: Juzo de Gosto, elencaremos os critrios atravs dos quais algo declarado belo, as exigncias que um juzo tem de satisfazer para que atravs dele se declare belo um objecto, as caractersticas do juzo de gosto. Em primeiro lugar, caracteriz-lo-emos como um juzo esttico reflexivo (sthetisches Reflexionsurteil). F-lo-emos na primeira seco, Juzo esttico reflexivo. Seguidamente, na seco Juzo esttico universalmente vlido a priori, apresentaremos a argumentao de Kant no sentido de caracteriz-lo como um juzo esttico universalmente vlido a priori (allgemeingltig a priori).

    Ao caracteriz-lo como um juzo esttico reflexivo, necessariamente o distinguimos de duas espcies de juzos que de modo breve tambm caracterizaremos: o juzo acerca do agradvel (das Angenehme), juzo esttico no reflexivo, juzo esttico dos sentidos, e o juzo acerca do bom (das Gute), que nem sequer um juzo esttico. Na caracterizao do juzo de gosto como juzo esttico reflexivo, daremos destaque ao princpio prprio da faculdade do juzo, a saber, o princpio da conformidade a fins da natureza para as nossas faculdades de conhecimento (Prinzip der Zweckmigkeit der Natur fr unser Erkenntnisvermgen)4:

    4 Antnio Marques e Valrio Rohden traduzem o termo Zweckmigkeit por conformidade a fins; Rubens Rodrigues Torres Filho tradu-lo por finalidade. A desvantagem da primeira opo prende-se com a composio da palavra conformidade, que a liga necessariamente palavra forma, sendo que, no contexto da Crtica da Faculdade do Juzo, nem toda a conformidade a fins se

  • SE E COMO PODER UMA OBRA DE ARTE SER BELA

    12 CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana

    explicitaremos como a ele se chega, como a faculdade do juzo d esse princpio a si prpria, e descrev-lo-emos como uma pressuposio necessria da faculdade do juzo, mostrando igualmente que ele serve de princpio para a reflexo (Reflexion), no para a determinao. Salientaremos que o juzo de gosto no um juzo de conhecimento (Erkenntnisurteil), no se funda em conceitos (Begriffe). Sublinharemos a afirmao da independncia do juzo de gosto relativamente ao conceito de perfeio (Vollkommenheit). No seguimento desse sublinhado, faremos emergir a noo de conformidade a fins sem fim (Zweckmigkeit ohne Zweck) e registaremos a possibilidade e as condies de observao de uma conformidade a fins formal da natureza para as nossas faculdades de conhecimento (formalen Zweckmigkeit der Natur fr unser Erkenntnisvermgen). Uma tal conformidade a fins ajuizada por intermdio do gosto (faculdade de juzo esttica) atravs do sentimento de prazer no movimento simultaneamente livre e harmnico das faculdades de conhecimento entre si por ocasio da representao de um objecto. Se, por ocasio da representao de um objecto, aquele que ajuza sentir um prazer num movimento simultaneamente livre e harmnico das suas faculdades de conhecimento entre si, ento ele declarar belo esse objecto. Por ltimo, assinalaremos que, de acordo com Kant, a representao de uma conformidade a fins formal da natureza para as faculdades de conhecimento no pode ocorrer sem uma referncia ao conceito racional transcendental do supra-sensvel (der transzendentale Vernunftbegriff von

    relaciona com a forma. A opo por finalidade, por seu turno, tem a desvantagem de o significante no ter qualquer relao com a palavra forma, sendo que, igualmente no mbito da terceira Crtica, a noo de forma de importncia capital. Por essa razo, e por uma questo de uniformidade, considerando que a traduo que utilizamos do texto de Kant (a Kritik der Urteilskraft, com a excepo da primeira Einleitung) a efectuada por Marques e Rohden, optaremos por aplicar o termo conformidade a fins para nos referirmos a Zweckmigkeit. Mais difcil a traduo de Zweckmigkeit para Lngua Inglesa. Nem purposiveness nem finality so expresses inteiramente satisfatrias a primeira, porque no carrega qualquer referncia forma (form); a segunda, por no envolver referncias seja forma, seja a fins (ends, purposes).

  • INTRODUO

    CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana 13

    dem bersinnlichen). O juzo de gosto (o juzo atravs do qual se declara belo um objecto) envolve necessariamente uma referncia ideia do supra-sensvel.

    Em ltima anlise, na referncia ao supra-sensvel que Kant considera fazer assentar a validade universal a priori do juzo de gosto. Por essa razo, depois de enquadrarmos a tentativa encetada por Kant para providenciar uma deduo transcendental do juzo de gosto, prosseguiremos a seco Juzo esttico universalmente vlido a priori com a afirmao dessa referncia e da validade do juzo esttico reflexivo. Seguidamente, descreveremos o tipo de necessidade que est em causa nesse tipo de juzo esttico. Nesse contexto, apelaremos noo de sentido comum (Gemeinsinn / sensus communis), enquanto aquilo sobre cuja pressuposio o juzo de gosto assenta a sua necessidade. Uma tal necessidade subjectiva mas, segundo Kant, a priori. Explicit-la, envolver uma meno das noes de necessidade exemplar (exemplarische Notwendigkeit), validade exemplar (exemplarische Gltigkeit) e voz universal (allgemeine Stimme), assim como uma justificao do sentido comum como ideia necessria. Finalmente, em jeito de esclarecimento, defenderemos, em primeiro lugar, que a recorrncia de Kant conformidade a fins formal da natureza para as nossas faculdades de conhecimento, ao conceito do supra-sensvel, ao sentido comum e voz universal, tal resulta no na afirmao de uma multiplicidade de princpios sobre os quais assentaria o juzo esttico reflexivo, enquanto juzo universalmente vlido a priori, mas numa rede de elementos para tentar legitimar a validade universal a priori do juzo de gosto; em segundo lugar, reforando que proferir um juzo desse tipo proferir um juzo baseado no princpio do gosto, igualmente defenderemos que um engano da parte daquele que ajuza no coloca em causa a pretenso do juzo de gosto validade citada.

    No Captulo II: Arte, descreveremos, numa primeira seco, o juzo atravs do qual se declara artstico um objecto e, numa segunda seco, o juzo atravs do qual se declara belo um objecto artstico.

  • SE E COMO PODER UMA OBRA DE ARTE SER BELA

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    Assim, na seco Juzo atravs do qual se declara artstico um objecto, enunciaremos os critrios atravs dos quais algo declarado uma obra de arte, os requisitos indispensveis declarao de uma coisa como artstica (knstlich). Faz-lo corresponde a apresentar as consideraes proferidas por Kant acerca da arte (Kunst), especialmente a partir do 43. Nesse contexto, assinalaremos o carcter mecnico, coercivo e escolstico da arte e destacaremos a relao desta com conceitos daquilo que o objecto deva ser, intenes e regras.5 Por conseguinte, igualmente destacaremos a relao do juzo atravs do qual se declara artstico um objecto com a representao de uma conformidade a fins objectiva interna (innere objektive Zweckmigkeit), isto , com a representao de uma perfeio. Finalmente, no deixaremos de propor que, considerando unicamente a descrio que Kant d de arte e, a partir dessa, aquilo que um juzo tem de cumprir para atravs dele se declarar artstico um objecto o facto de um objecto ser uma obra de arte no impede que ele seja declarado belo.

    No entanto, Kant no se limita a descrever a arte; o nosso autor igualmente elenca condies para que a arte seja bela. A seco Juzo atravs do qual se declara bela uma obra de arte partir precisamente da enunciao de um critrio que um juzo tem de satisfazer para que atravs dele se declare bela uma obra de arte. Confrontado com aquilo que teremos exposto no Captulo I: Juzo de Gosto, esse critrio ser por ns apresentado como causa da indagao que motiva este estudo, a saber, se e como poder falar-se de bela arte. Na segunda seco do Captulo II: Arte, clarificaremos o conflito em jogo o conflito entre as condies que um juzo tem de satisfazer para ser um juzo de gosto, isto , um juzo atravs do qual se declara belo um objecto, e os requisitos que um juzo tem de preencher para que atravs dele se declare bela uma obra de arte. A partir dessa clarificao, a questo que nos move pode adquirir diferentes vestes: Ser o juzo atravs do qual se declara bela uma obra de arte um juzo de gosto? Ser possvel declarar-se bela uma

    5 Tal envolver tambm uma primeira referncia explcita s consideraes de Kant acerca da bela arte.

  • INTRODUO

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    obra de arte atravs de um juzo de gosto? Poder ajuizar-se um objecto artstico atravs de um juzo de gosto? Poder uma obra de arte ser bela? Depois de explicitadas e analisadas, as distines estabelecidas por Kant entre perfeio qualitativa (qualitative Vollkommenheit) e perfeio quantitativa (quantitative Vollkommenheit), no 15, e entre beleza livre (freie Schnheit / pulchritudo vaga) e beleza aderente (anhngende Schnheit / pulchritudo adhaerens), ou, equivalentemente, entre puro juzo de gosto (reines Geschmacksurteil) e juzo de gosto aplicado (angewandtes Geschmacksurteil), no 16, sero tidas como irrelevantes para a sustentao de uma resposta afirmativa questo de saber se poder falar-se de bela arte. Igualmente tida como irrelevante para responder afirmativamente a essa questo ser a introduo das noes de beleza fixada (fixierte Schnheit) e juzo de gosto em parte intelectualizado (zum Teil intellektuierten Geschmacksurteils), no 17, e de juzo esttico logicamente condicionado (logisch-bedingtes sthetiches Urteil), no 48. A prpria legitimidade de algumas das noes mencionadas ser questionada. Como consequncia dessa explicitao e anlise, estar colocada em causa, de modo reforado, a legitimidade da noo de bela arte.

    O Captulo III: Bela Arte o captulo especificamente dirigido legitimao da noo de bela arte. Na sua primeira seco, Belas obras de arte, apresentaremos trs razes fornecidas pela Crtica da Faculdade do Juzo para, apesar do que concludo no captulo anterior, continuarmos a pensar a possibilidade de falar-se de bela arte e as condies dessa possibilidade. Se as duas primeiras razes a apresentar podero ser vistas como insuficientes, sem prejuzo da sua consistncia interna, o mesmo no se passar com a terceira: essa razo torna incontornvel uma investigao renovada acerca das condies de possibilidade de falar-se de bela arte, sob pena de o texto de Kant carregar uma contradio: obras de arte podem e no podem ser declaradas belas.6

    6 Se se preferir: obras de arte podem e no podem ser livremente declaradas belas, objectos artsticos podem e no podem ser declarados belos atravs de puros juzos de

  • SE E COMO PODER UMA OBRA DE ARTE SER BELA

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    A nova investigao basear-se- na definio que Kant d de bela arte como arte do gnio (Kunst des Genies), a partir do 46. Se compreendermos o que est em causa na arte do gnio, compreenderemos o significado que o nosso autor atribui noo de bela arte.7 Assim, iniciaremos a segunda seco, Gnio, ideia esttica, expresso de ideias estticas e referncia do juzo atravs do qual se declara bela uma obra de arte ao princpio da conformidade a fins formal da natureza, com uma descrio introdutria da noo de gnio (Genie). Tal ser feito na subseco Gnio. Na segunda subseco, Ideia esttica, explicitaremos e legitimaremos a noo de ideia esttica (sthetische Idee). Para a sua legitimao, ser indispensvel uma referncia ao alargamento das capacidades da faculdade da imaginao enquanto faculdade produtiva (produktives Vermgen) efectuado na terceira Crtica. Alm disso, abordaremos a relao das ideias estticas com conceitos. Essa abordagem ser necessria para que se compreenda que, do ponto de vista de Kant, o exerccio da faculdade da imaginao , no contexto da arte do gnio, um exerccio livre. Ora, tendo em conta que um exerccio livre das faculdades de conhecimento daquele que ajuza uma conditio sine qua non para o proferimento de um juzo de gosto, mostrar que, no contexto da arte do gnio, a faculdade da imaginao se exerce livremente revela-se uma etapa indispensvel na legitimao da noo de bela arte. Constituindo uma condio necessria, o exerccio livre das faculdades de conhecimento daquele que ajuza no constitui, no entanto, uma condio suficiente para o proferimento de um juzo de gosto e, por conseguinte, para a declarao de uma obra de arte como bela, para a beleza da arte. Considerando esse facto, passaremos, na subseco

    gosto, pode e no pode falar-se de bela arte enquanto arte livremente declarada bela, pode e no pode falar-se de bela arte enquanto arte declarada bela atravs de puros juzos de gosto. 7 Nos pargrafos imediatamente anteriores, 44 e 45, Kant apresenta definies explcitas de bela arte. O problema que, consideradas antes da explicitao do significado de bela arte como arte do gnio, tais definies so simplesmente contraditrias com aquilo que teremos concludo no segundo captulo da nossa tese.

  • INTRODUO

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    Expresso de ideias estticas, a uma primeira enunciao daquilo que faz com que, no contexto da arte do gnio, as faculdades de conhecimento daquele que ajuza se disponham num movimento no apenas livre, mas tambm harmnico entre si. Ser crucial explicitar a noo de esprito (Geist). Aquilo que o esprito d ao gnio afigurar-se-, nesse mbito, como a razo que faltava para a definio de bela arte como arte do gnio (Kunst des Genies). Finalmente, na subseco Referncia do juzo atravs do qual se declara bela uma obra de arte ao princpio da conformidade a fins formal da natureza, mostraremos como o juzo atravs do qual se declara belo um produto do homem concretamente, uma obra de arte referido ao princpio da conformidade a fins formal da natureza para as nossas faculdades de conhecimento. Tal implicar um retorno importncia do supra-sensvel na declarao de algo como belo. Desta feita, porm, o objecto em causa ser o objecto artstico. Nesse retorno, daremos destaque noo de tcnica (Technik), s expresses como (als) e como se/que (als ob) e diferena entre ser (sein) e parecer (scheinen / aussehen).

    A possibilidade de denominao da beleza como expresso de ideias estticas (Ausdruck sthetischer Ideen), referida no incio do 51, no apenas contribui para sustentar uma resposta afirmativa questo de saber se pode falar-se de bela arte e, por conseguinte, para a legitimao da noo de bela arte mas, alm disso, acarreta uma consequncia relativa importncia que Kant d forma no concernente ao juzo de gosto: vrios so os elementos a colaborar para o movimento simultaneamente livre e harmnico das faculdades de conhecimento daquele que ajuza por ocasio da representao que ele faz de um objecto belo. Considerando o estatuto da forma na beleza dos objectos, dedicaremos a essa noo uma seco prpria no mbito da legitimao da noo de bela arte: Forma, terceira seco do Captulo III: Bela Arte. Comearemos por assinalar que, segundo Kant, o comprazimento no belo est ligado conformidade a fins da forma do objecto para as nossas faculdades de conhecimento. Seguidamente, explicitaremos o que o nosso autor entende por forma (Form) e aproveitaremos para chamar a ateno para as condies de

  • SE E COMO PODER UMA OBRA DE ARTE SER BELA

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    possibilidade de a matria (Materie), que atrai, que agradvel, contribuir para a beleza ou mesmo ser bela. Reiteraremos, porm, que, de acordo com Kant, o que no proferimento de um juzo de gosto se considera a forma do objecto. Claramente identificada a posio do nosso autor, procuraremos a sua origem, problematizaremos a sua necessidade e reafirmaremos a ligao da disposio subjectivamente conforme a fins das faculdades de conhecimento daquele que ajuza, por ocasio da representao que ele faz de um objecto belo, com vrios elementos alm da forma, entre eles as ideias estticas. No deixaremos, no entanto, de apresentar uma interpretao de forma que poder conciliar uma posio formalista, sugerida em mltiplas passagens da Crtica da Faculdade do Juzo, com a denominao da beleza como expresso de ideias estticas, cuja possibilidade , como j notmos, afirmada no incio do 51. Por ltimo, uma referncia ao sentimento do sublime (das Erhabene). Enquanto a Analtica do belo emerge da possibilidade de representao de uma conformidade a fins subjectiva a partir da forma de um objecto, a necessidade da Analtica do sublime reside na possibilidade de ocorrncia de um sentimento de prazer universalmente vlido numa forma que, sob um certo ponto de vista, no conforme a fins, aparecendo mesmo como contrria a fins. A origem dos dois livros da Analtica da faculdade de juzo esttica , desta perspectiva, diametralmente oposta. essa oposio que os torna necessrios. Na parte final da seco Forma, mostraremos que a problematizao da importncia da forma no juzo de gosto no coloca em causa a importncia da forma ou da ausncia dela para a ocorrncia do sentimento do sublime.

    Est feita a introduo s trs primeiras seces do Captulo III: Bela Arte. Em algumas partes dessas seces, falaremos da beleza da arte como se no fosse a possibilidade de uma tal beleza aquilo que est em causa na nossa tese. Referir-nos-emos bela arte suspendendo o excerto a partir do qual pode alegar-se que a beleza da arte s pode ser uma beleza aderente. Mencion-la-emos como se um outro excerto no colocasse em causa a legitimidade da colocao da beleza aderente no mbito da beleza. Falaremos de bela arte como se fosse legtimo falar

  • INTRODUO

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    de bela arte antes de ser mostrado que a arte pode ser bela, que uma obra de arte pode ser declarada bela, que pode ajuizar-se um objecto artstico atravs de um juzo de gosto. A relevncia dessas trs seces revelar-se- numa quarta, denominada Beleza aderente como beleza. Concretamente, revelar-se- indispensvel termos indicado que o exerccio da faculdade da imaginao pode ser um exerccio livre mesmo que haja considerao de conceitos da parte daquele que ajuza. A partir de uma reflexo acerca das vrias possibilidades de interpretao do termo representao (Vorstellung), comearemos por apontar em relao a que conceito pode, no juzo atravs do qual se declara bela uma obra de arte, ser tida em conta uma perfeio. Igualmente indicaremos que num juzo no qual considerada uma conformidade a fins objectiva interna a faculdade da imaginao pode exercer-se livremente e que o juzo atravs do qual se declara bela uma obra de arte no deixa de ser fundado na observao de uma conformidade a fins subjectiva por ocasio da representao do objecto artstico. Seguidamente, mediante uma proposta de interpretao da distino estabelecida por Kant entre beleza livre e beleza aderente, que nessa altura recuperaremos, caber-nos- defender que e como a ltima pode ser uma beleza. Tambm a sero consideradas as condies do exerccio livre da faculdade da imaginao. Ora, por intermdio da legitimao da beleza aderente como espcie de beleza e, por conseguinte, do juzo de gosto aplicado como juzo de gosto ser legitimada a noo de bela arte, enquanto arte condicionadamente declarada bela, enquanto arte declarada bela atravs de juzos de gosto aplicados. Poder falar-se de bela arte.8 essa possibilidade que justificaremos na subseco Beleza da arte como beleza aderente. No obstante a referida subseco eliminar algumas das dificuldades com que nos confrontamos, nem todas so eliminadas por ela. Se recordarmos a razo principal que apresentamos, na seco Belas obras de arte, para justificar a necessidade de continuarmos a

    8 Tal legitimao no ser efectuada sem uma consequncia para o texto de Kant no concernente aos requisitos que um juzo tem de satisfazer para ser um juzo de gosto.

  • SE E COMO PODER UMA OBRA DE ARTE SER BELA

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    pensar se e como poder falar-se de bela arte, compreenderemos que a beleza da arte no pode reduzir-se ao mbito da beleza aderente. indispensvel legitimar a noo de bela arte no ou no apenas como arte condicionadamente declarada bela, como arte declarada bela atravs de juzos de gosto aplicados, mas ou mas tambm como arte livremente declarada bela, como arte declarada bela atravs de puros juzos de gosto. isso que faremos na subseco Beleza da arte como beleza livre. A partir de uma diviso de uma das interpretaes possveis do termo representao e de uma segunda releitura da distino estabelecida por Kant entre beleza livre e beleza aderente, sustentaremos a possibilidade de declarar-se bela uma obra de arte atravs de um puro juzo de gosto. Assim, defenderemos que objectos artsticos podem ser condicionadamente declarados belos (declarados belos atravs de juzos de gosto aplicados) e podem ser livremente declarados belos (declarados belos atravs de puros juzos de gosto). Afirmaremos, ento, que a beleza da arte pode ser uma beleza livre, que a bela arte pode ser uma arte livremente declarada bela, uma arte declarada bela atravs de puros juzos de gosto, que pode falar-se de bela arte enquanto tal. O que estar em causa ser a ligao do conceito daquilo que o objecto deva ser ao gosto. Nesse contexto, ter de ser problematizado o significado da noo de gosto (Geschmack) na Crtica da Faculdade do Juzo. F-lo-emos na subseco Gostos. Efectuada essa problematizao e reiterada a possibilidade de falar-se de bela arte enquanto arte declarada bela atravs de puros juzos de gosto, ficar respondida a questo central que motivou a nossa investigao.

    Legitimada a noo de bela arte, ser nossa inteno responder questo de saber o que necessrio para a produo de uma tal arte. Responder-lhe-emos no Captulo IV: Para a Produo de Bela Arte. A necessidade de respondermos a essa questo prende-se com o facto de, na Crtica da Faculdade do Juzo, especialmente nos pargrafos directamente concernentes bela arte (44-53) haver indcios aparentemente contraditrios quanto ao ou aos talentos requeridos para a produo de belas obras de arte. O carcter educvel do gnio e o carcter

  • INTRODUO

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    cultivvel, exercitvel e corrigvel do gosto constituiro a chave para a resposta que proporemos.

    Comearemos por mencionar as passagens que indiciam contradio. Iniciaremos a sua resoluo apelando a diferenas entre homens que tm em comum entre si o facto de serem gnios isto , de serem dotados de um talento denominado gnio. Seguidamente, explicitando o processo de sucesso entre homens dotados de um tal talento, mostraremos que a sua posse no condio suficiente para a produo de objectos artsticos belos e salientaremos a importncia do gosto no contexto da bela arte. Faremos isso na seco Educao do gnio.

    Na seco Cultivo, exercitamento e correco do gosto, mostraremos que nem apenas o gnio, nem sequer o gnio e o gosto, constituem condio suficiente para a produo de belas obras de arte. Nesse sentido, elaboraremos uma reflexo acerca da possibilidade e das condies de desenvolvimento quer do gosto, quer da faculdade do juzo, salientando a importncia das habitual mas equivocadamente chamadas cincias belas nesse contexto.9 A produo de objectos artsticos belos revelar-se- estreitamente ligada a esse desenvolvimento. Ficar respondida a questo de saber o que necessrio para a produo de bela arte.

    9 Ser relevante, nessa altura, fazer uma chamada de ateno para a independncia da validade quer do juzo de gosto, quer do sentimento do sublime, relativamente ao desenvolvimento da faculdade do juzo.

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    Captulo I: Juzo de Gosto

    1. JUZO ESTTICO REFLEXIVO

    1.1 Juzo esttico

    A questo principal a que a nossa investigao pretende responder a de saber se e sob que condies ser legtimo falar-se de bela arte no contexto da Crtica da Faculdade do Juzo. Para tal, teremos de considerar os requisitos a cumprir para que um objecto seja declarado belo, assim como aqueles que so indispensveis para que uma coisa seja declarada artstica. Comearemos pelos primeiros. Tal implica descrever detalhadamente o juzo atravs do qual se declara belo um objecto, o juzo de gosto, juzo esttico reflexivo.

  • JUZO DE GOSTO

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    A faculdade de julgamento do belo o gosto (Geschmack).10 Os juzos provenientes do gosto so juzos estticos.11 O juzo de gosto (Geschmacksurteil) um juzo esttico (sthetischesurteil). pela afirmao segundo a qual o juzo de gosto esttico que iniciaremos a enunciao das exigncias que um juzo tem de satisfazer para que, atravs dele, se declare que um objecto belo. esse o ttulo do primeiro pargrafo da Crtica da Faculdade de Juzo Esttica (cf. Kant, 1998: 89).

    Nesse mesmo pargrafo (1) depois de afirmar que o juzo de gosto esttico, Kant assinala, complementarmente, que esttico (sthetisch) aquilo cujo fundamento de determinao no pode ser seno subjectivo (dasjenige, dessen Bestimmungsgrund nicht anders als subjektiv sein kann) (Kant, 1998: 89). Um recuo at Introduo ajuda-nos a

    10 Logo na primeira nota da Crtica da Faculdade de Juzo Esttica, Kant diz que [a] definio do gosto ([d]ie Definition des Geschmacks), posta aqui como fundamento, de que ele a faculdade de julgamento do belo (er sei das Vermgen der Beurteilung des Schnen) (Kant, 1998: 267). Num comentrio a essa nota, Antnio Marques e Valrio Rohden anunciam a traduo de Urteil e Beurteilung por juzo e julgamento, respectivamente. Quando se trata de citaes, manteremos essa distino. Dela depende, no entender de Donald W. Crawford e de Paul Guyer, a inteligibilidade da Crtica da Faculdade do Juzo (cf. Crawford, 1974: 71 e Guyer, 1997: 98). Apesar disso, ela no usada de uma maneira absolutamente coerente ao longo do texto de Kant. A este propsito, Guyer reconhece, primeiro, que embora haja grande evidncia para atribuir esta distino a Kant, ele no lhe manifesta o seu comprometimento adoptando uma terminologia consistente para a sua expresso e, a seguir, que o nosso autor no sugere que est a introduzir uma distino em terminologia tcnica () nem usa esta terminologia em todos os lugares onde poderia (Guyer, 1997: 98). Talvez seja o mesmo reconhecimento aquilo que leva Marques e Rohden a fazerem equivaler urteilen a julgar, no a ajuizar, quando, na sua traduo do 35, identificam das Vermgen zu urteilen selbst com a prpria faculdade de julgar (cf. Kant, 1998: 188). Tambm ns no deixaremos, em alguns casos, nos quais se trata da nossa letra, de usar indistintamente os verbos ajuizar e julgar e de referir a faculdade de julgamento do belo como a faculdade atravs da qual se ajuza o belo. Esta opo resultar apenas numa maior uniformidade terminolgica do nosso texto, no tendo qualquer influncia sobre a resposta questo de saber se e como poder falar-se de bela arte. 11 No incio do 17, Kant nota que todo o juzo proveniente desta fonte [isto , do gosto] esttico (sthetisch) (Kant, 1998: 122).

  • SE E COMO PODER UMA OBRA DE ARTE SER BELA

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    compreender o que significa subjectivo (subjektiv). Na seco VII, no contexto da referncia noo de natureza esttica (sthetische Beschaffenheit), depois de indicar que essa natureza [a]quilo que na representao de um objecto meramente subjectivo, isto aquilo que constitui a sua relao com o sujeito e no com o objecto ([w]as an der Vorstellung eines Objekts blo subjektiv ist, d. i. ihre Beziehung auf das

    Subjekt, nicht auf den Gegenstand ausmacht) (Kant, 1998: 73), Kant acrescenta que aquele elemento subjectivo numa representao que no pode de modo nenhum ser uma parte do conhecimento o prazer ou desprazer, ligados quela representao ([d]asjenige Subjektive an einer Vorstellung, was gar kein Erkenntnisstck werden kann, ist die mit ihr verbundene Lust oder Unlust) (Kant, 1998: 74). O fundamento de determinao do juzo esttico por conseguinte do juzo de gosto tem de ser, ento, o prazer ou desprazer que se liga representao do objecto percepcionado.12

    O juzo de gosto no , porm, a nica espcie de juzo esttico. Tambm o juzo acerca do agradvel (das Angenehme) um juzo esttico.13 Nem no juzo de gosto, nem no juzo acerca do agradvel, o fundamento de determinao a sensao enquanto sensao objectiva (objektive Empfindung). Tambm no caso do juzo acerca do agradvel o fundamento de determinao o sentimento de prazer ou desprazer que se

    12 Esta posio afirmada desde logo na Primeira Introduo Crtica da Faculdade do Juzo. A, assinala Kant que h somente uma nica assim chamada sensao (Empfindung) que jamais pode tornar-se conceito de um objecto, e esta o sentimento de prazer e desprazer (Kant, 1995: 60). O sentimento de prazer , como continua o nosso autor, uma sensao meramente subjetiva (blo subjektiv), enquanto toda demais sensao pode ser usada para conhecimento (Kant, 1995: 60-61). O juzo esttico aquele cujo fundamento-de-determinao est em uma sensao que esteja imediatamente vinculada com o sentimento de prazer e desprazer (dasjenige, dessen Bestimmungsgrund in einer Empfindung liegt, die mit dem Gefhle der Lust und

    Unlust unmittelbar verbunden ist) (Kant, 1995: 61). 13 Para uma discusso detalhada acerca das afinidades e diferenas entre o agradvel e o objecto do juzo de gosto sugere-se a leitura do texto de David Berger, Kants Aesthetic Theory The Beautiful and Agreeable (cf. Berger, 2009).

  • JUZO DE GOSTO

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    liga representao do objecto percepcionado.14 Sob este ponto de vista, h uma comunidade de ambas as espcies de juzo quanto ao respectivo

    14 A este propsito de fazer duas notas. Em primeiro lugar, importa notar que preciso evitar aquilo que, no 3, Kant assinala como sendo uma confuso bem usual () relativamente ao duplo significado que a palavra sensao (Empfindung) pode ter (Kant, 1998: 92), a saber, a confuso entre a representao de uma coisa (pelos sentidos, como uma receptividade pertencente faculdade do conhecimento), em que a representao referida ao objecto (auf das Objekt), podendo servir para o conhecimento, caso, por exemplo, da cor verde dos prados, que, portanto, pertence sensao objectiva (objektive Empfindung), como percepo de um objecto dos sentidos, e, por outro lado, algo totalmente diverso, em que a representao referida () meramente ao sujeito (auf das Subjekt), e no serve para nenhum conhecimento, to pouco para aquele pelo qual o prprio sujeito se conhece (Kant, 1998: 93). Assim, ainda no mesmo pargrafo, Kant chama aquilo que sempre tem que permanecer simplesmente subjectivo, e que absolutamente no pode constituir nenhuma representao de um objecto (das, was jederzeit blo subjektiv bleiben muss und schlechterdings keine Vorstellung eines Gegenstandes ausmachen kann), pelo nome alis usual de sentimento (Gefhl) (Kant, 1998: 93). Trata-se daquilo no qual, como afirma o nosso autor, logo no 1 da Crtica da Faculdade do Juzo, o sujeito se sente a si prprio do modo como ele afectado pela sensao (Kant, 1998: 90). Em segundo lugar importante notar que a confuso supracitada no equivale a uma eventual confuso entre o agradvel (das Angenehme) e o belo (das Schne). A distino entre sensao (Empfindung) (sensao objectiva (objektive Empfindung)) e sentimento (Gefhl) (sensao subjectiva (subjektive Empfindung)), e a associao, errada, do juzo esttico acerca do agradvel com a primeira, poderia levar a que se recusasse o facto de qualquer das duas espcies de juzo ser uma subespcie dos juzos estticos e, assim, a distinguir uma da outra erradamente. Tal como o juzo de gosto, tambm o juzo atravs do qual se decide se algo agradvel , como vemos no 8, um juzo esttico sobre um objecto simplesmente com respeito relao da sua representao com o sentimento de prazer e desprazer (ber einen Gegenstand blo in Ansehung des Verhltnisses seiner Vorstellung zum Gefhl der Lust und Unlust) (Kant, 1998: 102). certo que, no 3, depois de referir que [a]gradvel o que apraz aos sentidos na sensao (Kant, 1998: 92), Kant acrescenta que [n]a definio acima, entendemos () pela palavra sensao uma representao objectiva dos sentidos (Kant, 1998: 93). No entanto, com isso prev-se apenas que a representao da coisa pelos sentidos, a percepo do objecto dos sentidos, a sensao objectiva, a sensao sensorial, provoque uma outra sensao, subjectiva, o sentimento, que um prazer do sujeito e que, por o ser, leva a que ele considere agradvel o objecto. Por essa razo, pode Kant afirmar, como efectivamente afirma, no mesmo pargrafo, que o agrado da cor verde dos prados pertence sensao subjectiva (zur subjektiven Empfindung), pela qual nenhum objecto representado: isto , ao sentimento (zum

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    fundamento de determinao: quer a agradabilidade, quer a beleza, se fundamentam no sentimento de prazer do sujeito por ocasio da representao do objecto.15

    1.2. Juzo esttico dos sentidos

    Se aquilo que comum ao juzo acerca do agradvel e ao juzo acerca do belo (o juzo de gosto) o facto de ambos serem juzos estticos, ento, dizer que o segundo um juzo esttico e, nesse seguimento, simplesmente caracterizar esta espcie de juzo, o juzo esttico no se afigura suficiente para dar conta daquilo que torna nico o juzo de gosto. Revela-se indispensvel enunciar as diferenas entre os dois tipos de juzos estticos.16

    Gefhl) pelo qual o objecto considerado como objecto do comprazimento (o qual no nenhum conhecimento do mesmo) (Kant, 1998: 93-94). 15 Na Primeira Introduo Crtica da Faculdade do Juzo, Kant salvaguarda que [p]ela denominao de um juzo esttico sobre um objeto, est indicado desde logo () que uma representao dada referida, por certo, a um objeto, mas, no juzo, no entendida a determinao do objeto, mas sim a do sujeito e de seu sentimento (Kant, 1995: 59). Quer no juzo de gosto, quer no juzo acerca do agradvel, entendida no a determinao do objecto, mas, sim, a do sujeito e do seu sentimento. 16 S enunciando as diferenas entre o juzo acerca do agradvel e o juzo de gosto pode Kant impedir a reduo da beleza e do objecto belo, respectivamente, agradabilidade e ao objecto agradvel. essa reduo que ele considera ser efectuada por Burke e pelos empiristas. No entender de Kant, a exposio dos juzos estticos elaborada por Burke e por muitos homens perspicazes fisiolgica (Kant, 1998: 176-177). Trata-se de uma exposio do belo meramente emprica (Kant, 1998: 177) e que envolve apenas o reconhecimento de leis empricas das mudanas do nimo (Kant, 1998: 178). No contexto daquilo a que Kant chama o empirismo da crtica do gosto, o gosto sempre julga segundo fundamentos de determinao empricos, que so dados a posteriori pelos sentidos (Kant, 1998: 254-255). Ora, Kant pretende mostrar que o gosto julga a partir de um fundamento a priori (Kant, 1998: 255), sendo que, para tal, ele considera necessrio elaborar uma exposio transcendental dos juzos estticos (Kant, 1998: 176). A propsito da emergncia dessa necessidade, de resto, podemos afirmar que ela evidencia um distanciamento do nosso autor em relao posio por si mesmo defendida na Crtica da Razo Pura e por ocasio da qual ele censura o uso que Baumgarten faz do termo esttica. De acordo com o que est escrito na primeira Crtica, as regras ou critrios do julgamento do belo so apenas empricos quanto s suas fontes principais e nunca podem servir para

  • JUZO DE GOSTO

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    No obstante ser um juzo esttico, o juzo acerca do agradvel faz parte daquela espcie de juzo que Kant designa por juzo esttico dos sentidos (sthetisches Sinnesurteil) (cf. Kant, 1995: 60, 61, 63 e 66 e Kant, 1998: 244). Um juzo dessa espcie, embora no seja um juzo de conhecimento (Erkenntnisurteil), igualmente no um juzo reflexivo (Reflexionsurteil) (cf. Kant, 1995: 66). Apesar de num juzo esttico dos sentidos tambm haver referncia da representao ao sentimento de prazer e desprazer, essa referncia no feita mediante a faculdade do juzo e o seu princpio.17 O juzo esttico dos sentidos apenas se ocupa com a proporo das representaes ao sentido interno (mit dem Verhltnis der Vorstellungen zum innern Sinne), na medida em que este sentimento (Kant, 1995: 63), nada mais

    leis determinadas a priori, pelas quais se devesse guiar o gosto dos juzos (Kant, 2001: 62), sendo essa a razo para que deva reservar-se para a doutrina da esttica transcendental o termo mencionado ou simplesmente prescindir dele. No entanto, se, como Kant pretende, a terceira Crtica mostrar que o juzo de gosto subespcie do juzo esttico se fundamenta num princpio a priori, ento o uso do termo esttica deixar de limitar-se doutrina da esttica transcendental. So alteraes como esta que servem de ocasio para Maria Filomena Molder chamar a ateno para o modo admirvel como Kant desenvolve novas interpretaes e implicaes no que respeita a conceitos que forjaram o n central da primeira Crtica e se constituram imediatamente como autntica herana, por exemplo, o conceito de esttica enquanto esttica transcendental (Molder, 2007: 377). Como continua a intrprete, [] de lembrar, alis, que em toda a Crtica da Faculdade de Julgar o termo esttica, e no de mais sublinh-lo, determinado como transcendental (a expresso a esttica transcendental da faculdade de julgar) seja utilizado uma nica vez, na Observao geral sobre a exposio dos juzos reflexivos estticos, e que esttico aparea sempre como qualificao (Molder, 2007: 377-378). O fim da reduo do termo esttica doutrina da esttica transcendental no significa, porm, que Kant passe a estar de acordo com Baumgarten, para quem a beleza a perfeio do conhecimento sensvel enquanto tal (Baumgarten, 1988: 11). No entender de Kant, a beleza no uma perfeio o juzo de gosto no um juzo de conhecimento. Assim, como, na Primeira Introduo, ele explicitamente reitera: no pode haver uma esttica do sentimento como cincia (Kant, 1995: 58). 17 Na Primeira Introduo Crtica da Faculdade do Juzo, Kant afirma que um juzo-de-sentidos esttico () refere uma representao dada (mas no por intermdio do Juzo e de seu princpio (nicht vermittelst der Urteilskraft und ihrem Prinzip)) ao sentimento de prazer (Kant, 1995: 61).

  • SE E COMO PODER UMA OBRA DE ARTE SER BELA

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    contendo do que a proporo da representao ao sentimento (sem mediao de um princpio-de-conhecimento) (das Verhltnis der Vorstellung zum Gefhl (ohne Vermittelung eines

    Erkenntnisprinzips)) (Kant, 1995: 66). No pressuposta, nesta espcie de juzo, qualquer comparao da representao com as faculdades-de-conhecimento que atuam unificadas no Juzo (Kant, 1995: 61). O que h num juzo esttico dos sentidos por conseguinte, num juzo acerca do agradvel uma vinculao imediata da sensao produzida pela intuio emprica do objecto com o sentimento de prazer e desprazer.18 No obstante ser um juzo esttico, o juzo acerca do agradvel , ento, um juzo esttico material (materiales sthetisches Urteil), um juzo emprico (empirisches Urteil), um juzo dos sentidos (Sinnenurteil).19

    18 Continuando a recorrer Primeira Introduo Crtica da Faculdade do Juzo, devemos salientar que, no caso do juzo esttico dos sentidos, o predicado exprime a referncia de uma representao imediatamente ao sentimento de prazer, e no faculdade-de-conhecimento (nicht aufs Erkenntnisvermgen) (Kant, 1995: 60). Esta espcie de juzo esttico absolutamente no se refere faculdade-de-conhecimento (sich gar nicht aufs Erkenntnisvermgen bezieht), mas imediatamente, atravs do sentido, ao sentimento de prazer (Kant, 1995: 61). No juzo esttico dos sentidos, a sensao que [est] imediatamente vinculada com o sentimento de prazer e desprazer aquela sensao que imediatamente produzida pela intuio emprica do objecto (welche von der empirischen Anschauung des Gegenstandes unmittelbar hervorgebracht wird) (Kant, 1995: 61), sendo esta a razo pela qual um tal juzo pertence ao campo meramente emprico (blo empirisches Fach) (Kant, 1995: 66). Mas a singularidade do juzo esttico dos sentidos no assinalada apenas na Primeira Introduo; ela sublinhada ao longo de toda a Crtica da Faculdade de Juzo Esttica vejam-se, por exemplo, o 4, no qual Kant afirma que o agradvel assenta inteiramente na sensao (beruht ganz auf der Empfindung) (Kant, 1998: 94), o 8, onde o nosso autor denomina o gosto do juzo esttico sobre o agradvel gosto dos sentidos (Sinnen-Geschmack) (Kant, 1998: 102), a investigao que ocupa o 9, na qual Kant caracteriza o prazer do agradvel como simples agrado na sensao sensorial (bloe Annehmlichkeit in der Sinnenempfindung) (Kant, 1998: 105), ou, finalmente, o 39, onde o nosso autor lhe chama prazer do gozo (Lust des Genusses) (Kant, 1998: 193). 19 Kant indica-o no incio do 14: Juzos estticos podem, assim como os tericos (lgicos), ser divididos em empricos e puros (empirische und reine). Os primeiros so os que afirmam agrado ou desagrado (Annehmlichkeit oder Unannehmlichkeit),

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    No caso de aquilo a considerar como fundamento determinante do juzo esttico ser o que meramente atrai, ento esse juzo esttico ser no um juzo de gosto, mas um juzo esttico acerca do agradvel.20 Assentando inteiramente na sensao, o agradvel carrega um desejo (Begierde) relativamente ao objecto. O sujeito no se limita a sentir prazer; o objecto deleita-o (vergngt ihn). Atravs das impresses dos sentidos passa a haver um interesse (Interesse) no objecto, um comprazimento na sua existncia (ein Wohlgefallen an dem Dasein), um prazer na sua existncia (eine Lust an der Existenz).21 O agradvel

    os segundos os que afirmam beleza de um objecto ou do modo de representao do mesmo (Schnheit von einem Gegenstande, oder von der Vorstellungsart desselben); aqueles so juzos dos sentidos (juzos estticos materiais) (Sinnenurteile (materiale sthetische Urteile)), estes (como formais (als formale)) unicamente autnticos juzos de gosto (allein eigentliche Geschmacksurteile) (Kant, 1998: 113). Nesta passagem, alm de descrever o juzo acerca do agradvel, Kant isola o juzo atravs do qual se declara belo um objecto (o juzo esttico puro, o juzo esttico formal) como nico tipo de juzo de gosto autntico. 20 So vrias as passagens em que Kant salienta os efeitos sofridos pelo juzo esttico no caso de se fundar esse juzo naquilo que meramente atrai. Citemos algumas dessas passagens: um juzo de gosto puro somente na medida em que nenhum comprazimento meramente emprico (kein blo empirisches Wohlgefallen) misturado (beigemischt wird) ao fundamento de determinao do mesmo. Isto porm ocorre todas as vezes em que atractivo (Reiz) ou comoo (Rhrung) tem uma participao (einen Anteil haben) no juzo pelo qual algo deve ser declarado belo (Kant, 1998: 113-114); eles [isto , os atractivos] prejudicam efectivamente (tun wirklich dem Geschmacksurteile Abbruch) o juzo de gosto, se chamam a ateno sobre si como fundamentos do julgamento da beleza (Kant, 1998: 115); se o prprio ornamento (Zierrat) no consiste na forma bela, e se ele como a moldura dourada, adequado simplesmente para recomendar, pelo seu atractivo (durch seinen Reiz), o quadro ao aplauso (Beifall), ento chama-se adorno (Schmuck) e rompe com a autntica beleza (tut der echten Schnheit Abbruch) (Kant, 1998: 116). 21 Citemos a definio que, no 2, Kant d de interesse: Chama-se interesse ao comprazimento que ligamos representao da existncia de um objecto (Interesse wird das Wohlgefallen gennant, was wir mit der Vorstellung der Existenz eines Gegenstandes verbinden) (Kant, 1998: 91). Ter um interesse em algo significa obter prazer a partir da existncia dessa coisa. Quando h interesse, h uma referncia faculdade da apetio (eine Beziehung auf das Begehrungsvermgen): quer-se (que exista) o objecto a partir (da existncia) do qual se obtm prazer. Ora, o ttulo do 3 assinala precisamente que [o] comprazimento no agradvel ligado a interesse

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    gera inclinao.22 Pois bem, se aquele que ajuza est sujeito inclinao, se ele sofre a influncia de um interesse emprico, nesse caso, o seu juzo no ser um juzo livre como Kant afirma, no 5, os objectos da inclinao (die Gegenstnde der Neigung)

    no nos deixam nenhuma liberdade (lassen uns keine Freiheit) para fazer de qualquer coisa um objecto de prazer para ns mesmos. Todo o interesse pressupe necessidade ou a produz (setzt Bedrfnis voraus, oder bringt eines hervor); e, enquanto fundamento determinante da aprovao, ele j no deixa o juzo sobre o objecto ser livre (lsst es das Urteil ber den Gegenstand nicht mehr frei sein) (Kant, 1998: 97-98).

    Envolvendo um comprazimento na existncia do objecto, envolvendo um interesse emprico na coisa, o juzo acerca do agradvel torna o sujeito passivo e, assim, compromete a sua liberdade e imparcialidade.

    1.3. Princpio da faculdade do juzo

    Diferentemente do juzo acerca do agradvel, o juzo de gosto um juzo esttico reflexivo (ein sthetisches Reflexionsurteil).23 Um juzo reflexivo um juzo no qual se ajuza segundo o princpio da faculdade do juzo, isto , segundo o princpio da faculdade do juzo enquanto faculdade de conhecimento superior (Prinzip der Urteilskraft, als obern Erkenntnisvermgens). Embora o princpio em causa seja, como veremos, ([d]as Wohlgefallen am Angenehmen ist mit Interesse verbunden) (Kant, 1998: 92); e dois pargrafos a seguir, no 5, Kant justifica a sua afirmao ao referir que no caso do agradvel, assim, de resto, como no caso do bom (das Gute), [n]o simplesmente o objecto apraz, mas tambm a sua existncia ([n]icht blo der Gegenstand, sondern auch die Existenz desselben gefllt) (Kant, 1998: 96-97). 22 Kant chama a ateno para o facto de que do agradvel no se diz apenas: ele apraz (es gefllt), mas: ele deleita (es vergngt). No uma simples aprovao (ein bloer Beifall) que lhe dedico, mas atravs dele gerada inclinao (Neigung) (Kant, 1998: 94). H, como o nosso autor refere, desta feita no 5, um comprazimento patologicamente condicionado (por estmulos) (ein pathologisch-bedingtes (durch Anreize, stimulos) Wohlgefallen) (Kant, 1998: 96). 23 Na Primeira Introduo Crtica da Faculdade do Juzo, Kant afirma que os juzos-de-reflexo estticos (die sthetischen Reflexionsurteile) futuramente sero desmembrados sob o nome de juzos de gosto (Geschmacksurteile) (Kant, 1995: 77).

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    um princpio simplesmente subjectivo (einem blo subjektiven Grunde) (Kant, 1998: 77), ele , igualmente, um princpio transcendental da faculdade do juzo (ein transzendentales Prinzip der Urteilskraft) (Kant, 1998: 64), um princpio transcendental (transzendentaler Grundsatz) colocado como princpio inteiramente a priori (zum Grunde vllig a priori) pela faculdade do juzo (Kant, 1998: 79).

    A apresentao do princpio da faculdade do juzo feita por Kant na Introduo Crtica da Faculdade do Juzo.24 Como sabemos, pela Crtica da Razo Pura, e como o nosso autor sublinha, na terceira Crtica, a natureza em geral (como objecto dos sentidos) no pode ser pensada sem as leis universais (Kant, 1998: 66).25 Essas leis universais assentam em categorias, aplicadas s condies formais de toda a nossa intuio possvel, na medida em que esta de igual modo dada a priori

    24 Ser sem demasiadas preocupaes concernentes importncia desse princpio para o sistema kantiano que reproduziremos como a ele Kant chega. Comungamos da tese de Eva Schaper, segundo a qual [m]esmo que Kant igualmente tivesse outros e maiores fins sistemticos em mente quando escreveu a terceira Crtica, eles podem ser guardados na retaguarda e a sua inteligibilidade deixada indecidida enquanto assuntos pertinentes para a esttica estiverem a ser considerados (Schaper, 2007: 368). Para um estudo acerca da influncia que a descoberta do princpio da faculdade do juzo poder ter sobre o sistema da filosofia crtico-transcendental de Kant, sugere-se a leitura do texto de Marques, Organismo e Sistema em Kant ensaio sobre o sistema crtico kantiano (cf. Marques, 1987), assim como A Terceira Crtica como Culminao da Filosofia Transcendental Kantiana, que o mesmo autor escreve para prefaciar a traduo da Kritik der Urteilskraft que ele prprio e Rohden realizaram (cf. Marques, 1998), e o artigo Do Esttico ao Teleolgico: a coleco de objectos naturais, de Maria Filomena Molder, no qual sugerida uma alterao no prprio projecto transcendental (Molder, 1981: 228). O artigo La Crtica del Juicio a slo dos aos de la Crtica de la Razn Prctica, de Jos Gmez Caffarena, aborda o mesmo assunto mas a partir de uma incidncia especial na histria da terceira Crtica (cf. Caffarena, 1992). 25 Se quisermos recorrer directamente Crtica da Razo Pura, recordaremos que [p]or natureza (em sentido emprico), entendemos o encadeamento dos fenmenos, quanto sua existncia, segundo regras necessrias, isto , segundo leis e que [h] pois certas leis e, precisamente, leis a priori, que, antes de mais, tornam possvel uma natureza (Kant, 2001: 236). De resto, ainda na primeira Crtica, Kant afirmar, mais simplesmente, que se d o nome de natureza ao encadeamento de fenmenos que se determinam necessariamente uns aos outros por leis universais (Kant, 2001: 411).

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    e so algo de necessrio () para a natureza em geral (como objecto de experincia possvel) (Kant, 1998: 66).26 Assim, continuar Kant, o entendimento possui a priori leis universais da natureza, sem as quais esta no seria de modo nenhum objecto de uma experincia (Kant, 1998: 68).27 Sabemos, alm disso, que as leis transcendentais universais dadas pelo entendimento () s dizem respeito possibilidade de uma natureza em geral (como objecto dos sentidos) (Kant, 1998: 60).28 Pois bem, na Crtica da Faculdade do Juzo, Kant chama a ateno para o facto de que

    existem tantas formas mltiplas da natureza, como se fossem outras tantas modificaes dos conceitos da natureza universais e transcendentais que sero deixados indeterminados por aquelas leis () que para tal multiplicidade tm que existir leis (Gesetze) (Kant, 1998: 60).29

    26 Note-se, recorrendo, de novo, s palavras da Crtica da Razo Pura, que o entendimento realiza a unidade da apercepo a priori apenas mediante as categorias (Kant, 2001: 145) e que a natureza como objecto do conhecimento numa experincia, com tudo o que pode conter, apenas possvel na unidade da apercepo (Kant, 2001: 169). 27 O nosso autor refora-o mais frente: s atravs dessas leis que obtemos um conceito daquilo que o conhecimento das coisas (da natureza) e que elas pertencem necessariamente natureza como objecto do nosso conhecimento (Kant, 1998: 71). 28 Desde logo na primeira Crtica, Kant ressalva que a capacidade do entendimento puro de prescrever leis a priori aos fenmenos, mediante simples categorias, no chega para prescrever mais leis do que aquelas em que assenta a natureza em geral, considerada como conformidade dos fenmenos s leis no espao e no tempo. Leis particulares, porque se referem a fenmenos empiricamente determinados, no podem derivar-se integralmente das categorias, embora no seu conjunto lhes estejam todas sujeitas (Kant, 2001: 168). 29 As palavras citadas so da seco IV da Introduo Crtica da Faculdade do Juzo. O nosso autor repete a argumentao, com mais detalhe, na seco V: naturezas especificamente diferentes, para alm daquilo que em comum as torna pertencentes natureza em geral, podem ainda ser causa de infinitas maneiras, sendo que cada uma dessas maneiras tem que possuir (segundo o conceito de uma causa em geral) a sua regra, que lei, e por conseguinte acarreta consigo necessidade, ainda que ns, de acordo com a constituio e os limites das nossas faculdades de conhecimento, de modo nenhum descortinamos esta necessidade; ora, tal implica pensar na natureza uma possibilidade de uma multiplicidade sem fim de leis empricas, em relao s suas leis simplesmente empricas, leis que no entanto so contingentes para a nossa

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    Essas leis, enquanto empricas, podem ser contingentes, segundo a nossa perspicincia intelectual (Kant, 1998: 60-61), mas

    se merecem o nome de leis (Gesetze) (como tambm exigido pelo conceito de uma natureza), tm que ser consideradas necessrias (als notwendig) e provenientes de um princpio da unidade do mltiplo (Prinzip der Einheit des Mannigfaltigen), ainda que desconhecido (wenn gleich uns unbekannten) (Kant, 1998: 61).30

    Para fundamentar a unidade de todos os princpios empricos sob outros igualmente empricos, mas superiores e por isso fundamentar a possibilidade da subordinao sistemtica dos mesmos entre si, a faculdade do juzo precisa de um princpio que ela no pode retirar da experincia (eines Prinzips, welches sie nicht von der Erfahrung entlehnen kann) (Kant, 1998: 62).31 Ora, segundo Kant, o princpio em causa

    perspicincia (no podem ser conhecidas a priori) (Kant, 1998: 66). Assim, alm de possuir a priori leis universais da natureza, o entendimento necessita tambm de uma certa ordem da natureza nas regras particulares da mesma, as quais para ele s empiricamente podem ser conhecidas e que em relao s suas so contingentes (Kant, 1998: 68). Essas regras particulares, sem as quais no haveria qualquer progresso da analogia universal de uma experincia possvel em geral para a analogia particular, tem o entendimento que pens-las como leis (isto como necessrias), porque doutro modo no constituiriam qualquer ordem da natureza, ainda que ele no conhea a sua necessidade ou jamais a pudesse descortinar (Kant, 1998: 68). 30 Novamente, as palavras citadas so da seco IV da Introduo. Na seco V, Kant refere que uma tal unidade tem que ser necessariamente pressuposta e admitida, pois de outro modo no existiria qualquer articulao completa de conhecimentos empricos para um todo da experincia, na medida em que na verdade as leis da natureza universais sugerem uma tal articulao entre as coisas segundo o seu gnero, como coisas da natureza em geral, mas no de forma especfica, como seres da natureza particulares (Kant, 1998: 67). Assim, como continua o nosso autor, a faculdade do juzo ter que admitir a priori como princpio que aquilo que contingente para a perspicincia humana nas leis da natureza particulares (empricas), contm mesmo assim para ns uma unidade legtima, no para ser sondada, mas pensvel na ligao do seu mltiplo para uma experincia em si possvel (Kant, 1998: 67). 31 Assinale-se, neste contexto, que s a faculdade de juzo reflexiva (nur die reflektierende Urteilskraft) pode dar a si mesma um tal princpio como lei e no retir-lo de outro lugar (porque ento seria faculdade de juzo determinante (bestimmende Urteilskraft)) (Kant, 1998: 62). Logo no incio da seco IV, Kant afirma que [a]

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    no pode ser seno este: assim como as leis universais tm o seu fundamento no nosso entendimento, que as prescreve natureza (ainda que somente segundo o conceito universal dela como natureza) assim tm as leis empricas particulares, a respeito daquilo que nelas deixado indeterminado por aquelas leis, que ser consideradas segundo uma tal unidade, como se (als ob) igualmente um entendimento (ainda que no o nosso) as tivesse dado em favor da nossa faculdade de conhecimento (zum Behuf unserer Erkenntnisvermgen), para tornar possvel um sistema de experincia segundo leis da natureza particulares (Kant, 1998: 63).32

    faculdade de juzo determinante, sob leis transcendentais universais dadas pelo entendimento, somente subsume; a lei -lhe indicada a priori ([d]ie bestimmende Urteilskraft unter allgemeinen transzendentalen Gesetzen, die der Verstand gibt, ist

    nur subsumierend; das Gesetz ist ihr a priori vorgezeichnet) e por isso no sente necessidade de pensar uma lei para si mesma, de modo a poder subordinar o particular na natureza ao universal (Kant, 1998: 60). A faculdade de juzo determinante nada mais faz do que subsumir em leis dadas (hat nichts zu tun, als unter gegebenen Gesetzen zu subsumieren) (Kant, 1998: 66). S a faculdade de juzo reflexiva tem a obrigao de elevar-se do particular na natureza ao universal (von dem Besondern in der Natur zum Allgemeinen aufzusteigen die Obliegenheit hat) (Kant, 1998: 61-62), por isso s ela sente necessidade de pensar uma lei para si mesma (hat ntig, fr sich selbst auf ein Gesetz zu denken) (Kant, 1998: 60) e s ela a pode dar a si mesma (kann sich nur selbst geben) (Kant, 1998: 62). 32 Considerando que a unidade refora o nosso autor, na seco V representada como conformidade a fins dos objectos (aqui da natureza), a faculdade do juzo, que no que diz respeito s coisas sob leis empricas possveis (ainda por descobrir) simplesmente reflexiva, tem que pensar a natureza relativamente quelas leis, segundo um princpio da conformidade a fins para a nossa faculdade do juzo (nach einem Prinzip der Zweckmigkeit fr unser Erkenntnisvermgen) (Kant, 1998: 67). de ressalvar, entretanto, que, na passagem citada, Kant escreve Erkenntnisvermgen, no Urteilskraft. A faculdade do juzo tem de pensar a natureza segundo um princpio da conformidade a fins para a nossa faculdade de conhecimento. Trata-se do princpio da conformidade a fins da natureza (na multiplicidade das suas leis empricas) (Prinzip der Zweckmigkeit der Natur (in der Mannigfaltigkeit ihrer empirischen Gesetze)) (Kant, 1998: 64), como Kant lhe tinha chamado no incio da referida seco. Ainda na seco V, o nosso autor descreve-o como o princpio da conformidade a fins [da natureza] para a nossa faculdade de conhecimento (Prinzip der Zweckmigkeit fr unser Erkenntnisvermgen), isto para a adequao ao nosso entendimento humano na sua necessria actividade, que consiste em encontrar o universal para o particular, que a percepo lhe oferece e por sua vez em encontrar a conexo na unidade do princpio para aquilo que diverso (na

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    O princpio em causa , de acordo com o nosso autor, um princpio a priori (ein Prinzip a priori) para investigar as chamadas leis empricas (Kant, 1998: 68). Trata-se da pressuposio (Voraussetzung) de uma concordncia da natureza com a nossa faculdade de conhecimento (Zusammenstimmung der Natur zu unserem Erkenntnisvermgen) (Kant, 1998: 69). Sem pressupormos essa concordncia, no teramos, afirma Kant, qualquer ordem da natureza segundo leis empricas e por conseguinte nenhum fio condutor para uma experincia e uma investigao das mesmas que funcione com elas segundo toda a sua multiplicidade (Kant, 1998: 69).33

    verdade, o universal para cada espcie) (Kant, 1998: 70). Na seco VI, Kant designa-o por princpio da adequao da natureza nossa faculdade de conhecimento (Prinzip der Angemessenheit der Natur zu unserem Erkenntnisvermgen) (Kant, 1998: 73). Na Primeira Introduo, ele referido como o conceito da natureza como arte, em outras palavras, o da tcnica da natureza quanto a suas leis particulares (Kant, 1995: 39). 33 Nota ele, imediatamente antes, que [e]sta concordncia da natureza com a nossa faculdade de conhecimento pressuposta a priori pela faculdade do juzo em favor da sua reflexo sobre a mesma, segundo as suas leis empricas, na medida em que o entendimento a reconhece ao mesmo tempo como contingente e a faculdade do juzo simplesmente a atribui natureza como conformidade a fins transcendental (em relao faculdade de conhecimento do sujeito) (transzendentale Zweckmigkeit (in Beziehung auf das Erkenntnisvermgen des Subjekts)) (Kant, 1998: 69). As palavras citadas so da seco V. Quer ainda na seco V, na sua parte final, quer na seco VI, Kant refora esta tese: diz ele, primeiro, que s na medida em que [o princpio da conformidade a fins da natureza para a nossa faculdade de conhecimento] exista, nos possvel progredir, utilizando o nosso entendimento na experincia, e adquirir conhecimento (Kant, 1998: 70); acrescenta, j na seco VI, que [a] concebida concordncia da natureza na multiplicidade das suas leis particulares com a nossa necessidade de encontrar para ela a universalidade dos princpios, tem que ser ajuizada, segundo toda a nossa de perspicincia como contingente, mas igualmente como imprescindvel para as nossas necessidades intelectuais (als zufllig, gleichwohl aber doch fr unser Verstandesbedrfnis als unentbehrlich), por conseguinte como conformidade a fins, pela qual a natureza concorda com a nossa inteno, mas somente enquanto orientada para o conhecimento (Kant, 1998: 70). Ainda nessa seco, Kant, fornece a sua explicao: tanto quanto nos possvel descortinar, contingente o facto da ordem da natureza segundo as suas leis particulares, com toda a, pelo menos possvel, multiplicidade e heterogeneidade que ultrapassa a nossa faculdade de apreenso, ser no entanto adequada a esta faculdade; de acordo com o

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    de salientar, entretanto, ser para reflectir, no para determinar, que o princpio da conformidade a fins da natureza para a nossa faculdade de conhecimento serve de fundamento. Como indica Kant, somente faculdade de juzo reflexiva que esta ideia serve de princpio, mas para reflectir, no para determinar (es ist nur die reflektierende Urteilskraft, der diese Idee zum Prinzip dient, zum Reflektieren, nicht zum Bestimmen) (Kant, 1998: 63). Quando se trata de determinar, a faculdade do juzo limita-se a subsumir o particular em leis que vai buscar ao entendimento. Ora, na Crtica da Faculdade do Juzo, o poder de julgar, como nota Maria Filomena Molder, destaca-se, separa-se, do entendimento (Molder, 2007: 375), e leva a uma epoch provisria da realizao efectiva das nossas operaes intelectuais, conceptuais, construtivas (Molder, 2007: 378), isto , emudece a operao prpria do entendimento, a operao de transformao daquilo que aparece em objecto (Molder, 2007: 385). Aquilo que a descoberta do princpio da

    nosso autor, [a] descoberta de uma tal ordem uma actividade do entendimento, o qual conduzido com a inteno de um fim necessrio do mesmo, isto a inteno de introduzir nela a unidade dos princpios; assim, como ele conclui, o princpio em questo tem ento que ser atribudo natureza pela faculdade do juzo, porque aqui o entendimento no lhe pode prescrever qualquer lei (die Urteilskraft der Natur beilegen muss, weil der Verstand ihr hierber kein Gesetz vorschreiben kann) (Kant, 1998: 71). Na parte final da seco VI, Kant afirma que proceder segundo o princpio da adequao da natureza nossa faculdade de conhecimento, to longe quanto for possvel, sem (pois que no se trata de uma faculdade de juzo determinante, que nos d esta regra) descobrir se em qualquer lugar existem ou no limites um imperativo da nossa faculdade do juzo (ein Gehei unserer Urteilskraft) (Kant, 1998: 73). Ele j o tinha assinalado na seco V: este conceito transcendental de uma conformidade a fins da natureza () representa somente a nica forma, segundo a qual ns temos que proceder na reflexo sobre os objectos da natureza com o objectivo de uma experincia completamente consistente ([d]ieser transzendentale Begriff einer Zweckmigkeit der Natur vorstellt nur die einzige Art, wie wir in der Reflexion ber

    die Gegenstnde der Natur in Absicht auf eine durchgngig zusammenhngende Erfahrung verfahren mssen), por conseguinte um princpio subjectivo (mxima) da faculdade do juzo (ein subjektives Prinzip (Maxime) der Urteilskraft) (Kant, 1998: 67). Trata-se, ento, de um princpio a priori que tem de colocar-se como fundamento de toda a reflexo (aller Reflexion zum Grunde legen) sobre as leis particulares da natureza (Kant, 1998: 68).

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    faculdade do juzo proporciona, assim, um alargamento das possibilidades de ajuizar os objectos. Nas palavras de Antnio Marques, [e]sta reviso da faculdade do juzo tem como consequncia bvia uma maior liberdade na avaliao dos objectos (Marques, 1998: 11). Ela liberta os juzos de um confinamento a uma espcie de subsuno automtica dos casos particulares nos nossos conceitos mais gerais, evita que procedamos a uma absoro imediata dos particulares nos conceitos que de antemo possumos (Marques, 1998: 11), permite fugir a uma perspectiva categorial que se desinteressa pela particularidade do particular (Marques, 1998: 18), fugir a um automatismo no juzo (Marques, 1998: 10), e preencher um sujeito transcendental demasiado formalista ou esquemtico, que nas duas primeiras Crticas est ainda muito afastado da dinmica da vida sensvel e afectiva (Marques, 1998: 11).

    No juzo esttico reflexivo (sthetisches Reflexionsurteil), a faculdade do juzo referida imediatamente ao sentimento de prazer, mas a referncia imediata da faculdade do juzo ao sentimento de prazer ocorre segundo um princpio a priori (cf. Kant, 1998: 48). Acerca do juzo esttico reflexivo, podemos assinalar, por conseguinte, que ele se refere faculdade-de-conhecimento (bezieht er sich aufs Erkenntnisvermgen) (Kant, 1995: 61). precisamente essa referncia aquilo que faz dele um juzo reflexivo. com mediao de um princpio-de-conhecimento (Vermittlung eines Erkenntnisprinzips) que o juzo esttico reflexivo contm a proporo da representao ao sentimento (das Verhltnis der Vorstellung zum Gefhl) (Kant, 1995: 66).34 O juzo esttico acerca da

    34 Explicaremos mais frente como se processa essa mediao, essa referncia. Por ora, apenas nos importa notar que tal no significa que o juzo de gosto (juzo esttico reflexivo) seja um juzo de conhecimento (Erkenntnisurteil). Ele um juzo esttico. A maneira como o sujeito afectado, portanto o sentimento de prazer ou desprazer, mesmo que podendo resultar de um conhecimento, no um conhecimento. O juzo de gosto e, mais geralmente, o juzo esttico no , ento, um juzo de conhecimento. Tal indicado ao longo de toda a Crtica da Faculdade de Juzo Esttica da Crtica da Faculdade do Juzo, numas vezes mais explicitamente, noutras, menos. Veja-se, nesse sentido, desde logo o 1, onde Kant escreve que [o]

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    beleza , como vimos, um juzo esttico formal, um juzo esttico puro, o nico tipo de juzo de gosto autntico. Essa autenticidade assenta na referncia do juzo ao princpio da faculdade do juzo enquanto faculdade de conhecimento superior.35

    juzo de gosto no () nenhum juzo de conhecimento (kein Erkenntnisurteil), por conseguinte no lgico e sim esttico, pois pelo sentimento de prazer e desprazer, que o fundamento de determinao do juzo esttico e, portanto, do juzo de gosto, no designado absolutamente nada no objecto (gar nichts im Objekte bezeichnet wird) (Kant, 1998: 89). Observem-se tambm o 15, no qual sugerido que um juzo de gosto no um juzo de conhecimento e explicitamente afirmado que um juzo esttico nico em sua espcie e no fornece absolutamente conhecimento algum (e to pouco um confuso) do objecto (schlechterdings keine Erkenntnis (auch nicht eine verworrene) vom Objekt gebe) (Kant, 1998: 119), os 18 e 32, nos quais Kant refora, respectivamente, que um juzo esttico no nenhum juzo objectivo e de conhecimento (kein objektives und Erkenntnisurteil) (Kant, 1998: 128) e que o juzo de gosto () no em caso algum um conhecimento (berall nicht Erkenntnis), mas somente um juzo esttico (Kant, 1998: 183), a observao ao 38, na qual sublinhado que o juzo de gosto no nenhum juzo de conhecimento (kein Erkenntnisurteil) (Kant, 1998: 192), e, finalmente, o 58, onde Kant repete que um juzo de gosto [no] um juzo de conhecimento (kein Erkenntnisurteil) (Kant, 1998: 255). Uma anterior considerao de Kant a este propsito tecida no Prlogo primeira edio da Crtica da Faculdade do Juzo, quando o nosso autor assinala que os juzos que se chamam estticos e dizem respeito ao belo e ao sublime da natureza ou da arte () por si s em nada [contribuem] para o conhecimento das coisas (fr sich allein zur Erkenntnis der Dinge gar nichts beitragen) (Kant, 1998: 48). Essa tese est em absoluta concordncia com algo que Kant afirma na Primeira Introduo, a saber, que [u]m juzo esttico, em universal, pode () ser explicado como aquele juzo cujo predicado jamais pode ser conhecimento (conceito de um objeto) embora possa conter as condies subjetivas para um conhecimento em geral (dasjenige Urteil dessen Prdikat niemals Erkenntnis (Begriff von einem Objekte) sein kann (ob es gleich die subjektive Bedingungen zu einem Erkenntnis berhaupt enthalten mag)) (Kant, 1995: 60) e que denominar esttico um juzo, porque no refere a representao de um objeto a conceitos e, portanto, no refere o juzo ao conhecimento (das Urteil nicht auf die Erkenntnis bezieht) () no deixa temer nenhum mal-entendido; pois, para o juzo lgico, as intuies, embora sejam sensveis (estticas), tm de ser previamente elevadas a conceitos, para servir ao conhecimento do objeto, o que, no juzo esttico, no o caso (Kant, 1995: 86). 35 A partir desta propriedade do juzo de gosto, Kant chega a esboar uma excluso do juzo acerca do agradvel do mbito do juzo esttico. Diz ele que por estticos, so entendidos somente os juzos-de-reflexo, os nicos que se referem a um princpio do Juzo, como faculdade-de-conhecimento superior (welche sich allein auf ein

  • JUZO DE GOSTO

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    1.4. A beleza apraz no simples julgamento

    Ao longo da Crtica da Faculdade do Juzo, Kant refere que o belo meramente apraz, isto , apraz por si prprio no simples julgamento.36 Se belo aquilo que meramente apraz, se belo aquilo que apraz imediatamente por si prprio no simples julgamento37, ento esse comprazimento tem de depender apenas da reflexo sobre a representao do objecto.38 No caso do juzo de gosto, o nimo contempla serena e

    Prinzip der Urteilskraft, als obern Erkenntnisvermgens beziehen), enquanto os juzos-de-sentidos estticos s se ocupam imediatamente com a proporo das representaes ao sentido interno, na medida em que este sentimento (Kant, 1995: 63). Ainda assim, manteremos que h duas espcies de juzo esttico o juzo esttico dos sentidos, a saber, o juzo acerca do agradvel; e o juzo esttico reflexivo, o juzo de gosto, o juzo atravs do qual se declara belo um objecto. Ao faz-lo, estamos a respeitar a j citada passagem inaugural do 14, de acordo com a qual podem dividir-se os juzos estticos em juzos estticos puros, formais, e juzos estticos empricos, materiais (cf. Kant, 1998: 113). 36 No 5, a propsito da comparao entre os trs modos especificamente diversos de comprazimento, Kant diz que belo [significa para algum] aquilo que meramente lhe apraz (was ihm blo gefllt) (Kant, 1998: 97); na Observao geral sobre a exposio dos juzos reflexivos estticos, o nosso autor define o belo como o que apraz no simples julgamento (was in der bloen Beurteilung gefllt) (Kant, 1998: 165); no 45, j no mbito das suas consideraes acerca da bela arte, ele afirma que belo aquilo que apraz no simples julgamento (was in der bloen Beurteilung gefllt) (Kant, 1998: 210). 37 No 23, ao enunciar os factos em que h concordncia entre o belo e o sublime, Kant refere que ambos aprazem por si prprios (beides fr sich selbst gefllt) (Kant, 1998: 137). 38 No 59, ao observar a diferena entre o belo e o moralmente bom (das Sittlich-Gute), Kant afirma precisamente que [o] belo apraz imediatamente ([d]as Schne gefllt unmittelbar) e somente na intuio reflexiva (nur in der reflektierenden Anschauung) (Kant, 1998: 263). Esta afirmao vai ao encontro de algo que j tinha sido assinalado nos 2, 4, 23, 39 e 41, a saber, respectivamente, que se a questo saber se algo belo (Kant, 1998: 91), ento o que importa como ajuizamos a coisa na simples contemplao (intuio ou reflexo) (in der bloen Betrachtung (Anschauung oder Reflexion) (Kant, 1998: 91), que [o] comprazimento no belo tem que depender da reflexo sobre um objecto (Reflexion ber einen Gegenstand) (Kant, 1998: 94), que o belo pressupe um juzo de reflexo (ein Reflexionsurteil) (Kant, 1998: 137), que o prazer no belo um prazer da simples reflexo (eine Lust der bloen Reflexion) (Kant, 1998: 194) e que o comprazimento no belo o

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    40 CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana

    tranquilamente o objecto.39 Pois bem, dizer que o juzo de gosto simplesmente contemplativo o mesmo que dizer que um tal juzo indiferente em relao existncia do objecto.40 Ao ajuizarmos se um objecto belo, no temos, ento, qualquer considerao pela sua existncia; o que importa o que acontece com a sua representao em ns nomeadamente por relao ao sentimento de prazer e desprazer.41 No h qualquer interesse no fundamento do juzo de gosto, no h

    comprazimento da simples reflexo sobre um objecto (Wohlgefallen der bloen Reflexion ber einen Gegenstand) (Kant, 1998: 199). 39 Devemos citar, neste contexto, breves passagens dos 5, 12, 24 e 27, a saber, respectivamente: o juzo de gosto meramente contemplativo (blo kontemplativ) (Kant, 1998: 97); o prazer no juzo esttico () simplesmente contemplativo (blo kontemplativ) (Kant, 1998: 112); o gosto no belo pressupe e mantm o nimo em serena contemplao (in ruhiger Kontemplation) (Kant, 1998: 141); e no seu juzo esttico sobre o belo [o nimo] est em tranquila contemplao (in ruhiger kontemplation) (Kant, 1998: 154). 40 Kant di-lo efectivamente no 5: o juzo de gosto meramente contemplativo, isto , um juzo que, indiferente em relao existncia de um objecto, s considera a sua natureza em comparao com o sentimento de prazer e desprazer (indifferent in Ansehung des Daseins eines Gegenstandes, nur seine Beschaffenheit mit dem Gefhl der Lust und Unlust zusammenhlt) (Kant, 1998: 97). 41 Afirma Kant, no 2: Quer-se saber somente se esta simples representao do objecto em mim acompanhada de comprazimento (ob die bloe Vorstellung des Gegenstandes in mir mit Wohlgefallen begleitet sei), por indiferente que sempre eu possa ser com respeito existncia do objecto desta representao. V-se facilmente que se trata do que fao dessa representao em mim mesmo (was ich aus dieser Vorstellung in mir selbst mache), no daquilo em que dependo da existncia do objecto, para dizer que ele belo e para provar que tenho gosto. () No se tem que simpatizar minimamente com a existncia da coisa, mas pelo contrrio ser a esse respeito completamente indiferente, para em matria de gosto desempenhar o papel de juiz (Kant, 1998: 92). No mesmo pargrafo, mas ainda antes, Kant refere que se a questo saber se algo belo, ento no se quer saber se a ns ou a qualquer um importa ou sequer possa importar algo da existncia da coisa (Kant, 1998: 91). Mais frente, no 5, ele insiste em afirmar que o juzo de gosto indiferente em relao existncia de um objecto (Kant, 1998: 97). Destas afirmaes no deve concluir-se que os objectos do juzo de gosto so coisas inexistentes, que nenhum objecto emprico pode ser belo ou, como faz Robert L. Zimmerman, atribuir a Kant a assero de que na experincia esttica a mente presenteada com contedos do mundo numnico (Zimmerman, 1967: 386).

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    qualquer interesse no comprazimento que determina esse juzo.42 O comprazimento no belo um comprazimento desinteressado.43 com favor que declaramos belo um objecto.44

    42 Desde logo, no ttulo do 2, destacada a independncia do juzo de gosto em relao a interesses: O comprazimento que determina o juzo de gosto independente de todo o interesse (Das Wohlgefallen, welches das Geschmacksurteil bestimmt, ist ohne alles Interesse) (Kant, 1998: 91). 43 Na explicao do belo inferida do Primeiro momento do juzo de gosto, segundo a qualidade e, logo a seguir, no 6, caracteriza-se o objecto belo como o objecto de um comprazimento independente de todo o interesse (ohne alles Interesse) (Kant, 1998: 99); no 24, descrevendo o comprazimento envolvido nos juzos da faculdade de juzo esttico-reflexiva (sthetischen reflektierenden Urteilskraft), Kant indica que esse comprazimento tem que ser () segundo a qualidade sem interesse (ohne Interesse) (Kant, 1998: 140); na Observao geral sobre a exposio dos juzos reflexivos estticos, o nosso autor afirma que o belo tem de comprazer sem nenhum interesse (ohne alles Interesse gefallen msse) (Kant, 1998: 165); no 41, Kant, referindo, a propsito do interesse emprico pelo belo, um eventual comprazimento na existncia de um objecto belo, no deixa de assinalar que previamente esse objecto aprouve por si sem considerao de qualquer interesse ( fr sich und ohne Rcksicht auf irgend ein Interesse gefallen hat) (Kant, 1998: 199); no 59, finalmente, distinguindo o belo do moralmente bom, ele refora que o primeiro apraz independentemente de todo o interesse (gefllt ohne alles Interesse) (Kant, 1998: 263). 44 No 5, indicado que o comprazimento no belo se refere a favor e explicitamente afirmado que favor o nico comprazimento livre (Gunst ist das einzige freie Wohlgefallen) (Kant, 1998: 97). Na Crtica da Faculdade de Juzo Teleolgica, numa referncia Crtica da Faculdade de Juzo Esttica, assinalado que nesta foi dito que consideraramos a bela natureza com favor (mit Gunst), na medida em que tivssemos um comprazimento totalmente livre (desinteressado) (ein ganz freies (uninteressirtes) Wohlgefallen) na sua forma (Kant, 1998: 422). No artigo El Sentimiento como Fondo de la Vida y del Arte, Flix Duque fala de uma anterioridade ontolgica do sentimento enquanto sentido interior, enquanto receptividade enquanto inwendiger Sinn, portanto, enquanto Empfnglichkeit, no como recepo, no como sensibilidade, externa ou interna e associa-a noo de favor (Gunst) (cf. Duque, 1992: 83-84). Mais frente no seu artigo, entretanto, o comentador conclui que precisamente a reflexo pura, o sentimento da beleza o sentimento por antonomsia (Duque, 1992: 87) e que a beleza e o juzo de gosto so os baixos fundos de toda a experincia possvel, cognoscitiva ou prtica (Duque, 1992: 98).

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    Colocar um interesse no fundamento do juzo de gosto seria vici-

    lo, torn-lo faccioso, parcial.45 O juzo de gosto tem de ser um juzo

    livre. Como referido no ttulo do 13, [o] juzo de gosto puro

    independente de atractivo e comoo ([d]as reine Geschmacksurteil ist

    von Reiz und Rhrung unabhngig) (Kant, 1998: 112).46 No

    fundamento do juzo de gosto no pode estar um interesse, seja esse

    um interesse dos sentidos, seja, de resto, um interesse da razo.

    Pertinentemente, Maria Filomena Molder indica que o juzo de gosto

    tido como um juzo livre, isto , liberto de qualquer constrangimento

    quer seja patolgico quer seja conceptual (Molder, 2007: 375).47

    Regressando s palavras de Kant, devemos ver a Observao geral

    sobre a exposio dos juzos reflexivos estticos, na qual ele define o

    belo como o que apraz no simples julgamento (logo, no mediante a

    sensao do sentido segundo um conceito do entendimento (nicht

    45 Veja-se o que est escrito no 2: aquele juzo sobre a beleza, ao qual se mescla o

    mnimo interesse muito faccioso (sehr parteilich) e no nenhum juzo de gosto

    puro (Kant, 1998: 92). A razo do proferimento desta afirmao aparece repetida no incio do 13, onde Kant afirma que [t]odo o interesse vicia (verdirbt) o juzo de

    gosto e tira-lhe a imparcialidade (nimmt ihm seine Unparteilichkeit) (Kant, 1998: 112). 46 Envolvendo os mesmos termos, nuns casos, envolvendo outros, noutros casos, essa

    tese repetida em vrias passagens da Crtica da Faculdade do Juzo. Cite-se, por exemplo, o fim do 13, onde Kant afirma que atractivo e comoo (Reiz und

    Rhrung) no tm nenhuma influncia (keinen Einflu) sobre o puro juzo de gosto

    (Kant, 1998: 113), o fim do 14, onde ele sublinha que a comoo (Rhrung) uma sensao que no pertence absolutamente (gehrt gar nicht) beleza (Kant, 1998:

    116) e que um juzo de gosto puro no possui nem atractivo nem comoo (weder Reiz noch Rhrung) como princpio determinante (zum Bestimmungsgrunde), numa

    palavra, nenhuma sensao enquanto matria do juzo esttico (keine Empfindung, als

    Materie des sthetischen Urteils) (Kant, 1998: 117), e o 28, no qual o nosso autor assinala que no pode absolutamente julgar () sobre o belo quem tomado de

    inclinao e apetite (welcher durch Neigung und Appetit eingenommen ist) (Kant,

    1998: 157). 47 As palavras de Paulo Tunhas seguem no mesmo sentido o juzo atravs do qual

    se declara belo um objecto , no entender do intrprete, o nico a testemunhar uma inteira liberdade, devido ao facto de que no se encontra submetido nem necessidade

    de uma inclinao, como o juzo relativo ao agradvel, nem coero do dever, como

    o juzo concernente ao bem (Tunhas, 2011: 76).

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    vermittelst der Empfindung des Sinnes nach einem Begriffe des

    Verstandes)) (Kant, 1998: 165), o 45, no qual o nosso autor afirma

    que belo aquilo que apraz no simples julgamento (no na sensao

    sensorial nem mediante um conceito (nicht in der Sinnenempfindung,

    noch durch einen Begriff)) (Kant, 1998: 210), e, ainda antes, o 23,

    onde Kant nota que o comprazimento na beleza no se prende a uma

    sensao como a sensao do agradvel, nem a um conceito

    determinado como o comprazimento no bem (nicht an einer

    Empfindung wie die des Angenehmen, noch an einem bestimmten

    Begriffe wie das Wohlgefallen am Guten) (Kant, 1998: 137).48

    Efectivamente, o prazer no bom (das Gute) funda-se em conceitos.

    Observe-se o incio do 4: Bom o que apraz mediante a razo pelo

    simples conceito (Kant, 1998: 94). No bom est contido o conceito de

    um fim, portanto a relao da razo ao (pelo menos possvel) querer,

    consequentemente um comprazimento na existncia de um objecto ou de

    uma aco, isto , um interesse qualquer (Kant, 1998: 94). De resto, o

    absolutamente e em todos os sentidos bom, a saber o bom moral ()

    comporta o mximo interesse (Kant, 1998: 96). Mas um juzo de gosto

    que se fundasse em conceitos no seria um juzo de gosto.49 O

    comprazimento no belo, e, portanto, o juzo de gosto, no tem um conceito

    como fundamento de determinao. Kant assertivo a este respeito: o

    juzo de gosto no se funda absolutamente sobre conceitos (grndet sich

    48 A sensao de prazer no belo , no entanto, referida a conceitos, se bem que sem determinar quais (auf Begriffe, obzwar unbestimmt welche, bezogen wird)

    (Kant, 1998: 137). Sempre que mencionamos a independncia do juzo de gosto

    da beleza, portanto em relao a conceitos, estamos a referir-nos, ento, a conceitos determinados. Ao tomarmos essa opo, concordamos com o prprio

    Kant quando menciona a independncia da beleza relativamente a conceitos, ele

    refere-se a conceitos determinados. 49 Na Primeira Introduo Crtica da Faculdade do Juzo, Kant defende que os

    juzos reflexivos estticos de nenhum modo podem ser fundados sobre conceitos (durchaus nicht auf Begriffe gegrndet) e, portanto, derivados de nenhum

    princpio determinado (von keinem bestimmten Prinzip abgeleitet), porque seno

    seriam lgicos (Kant, 1995: 77).

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    44 CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana

    gar nicht auf Begriffe) (Kant, 1998: 183). Esta posio , alis, inmeras vezes afirmada ao longo da Crtica da Faculdade do Juzo.50

    No 15, o nosso autor salienta que o fundamento de determinao do juzo de gosto no pode ser nenhum conceito, por conseguinte to pouco o de um fim determinado (kein Begriff, mithin auch nicht der eines bestimmten Zwecks sein kann) (Kant, 1998: 118). Se assim , um juzo deste tipo no pode basear-se na conformidade do objecto a um tal fim, isto , na conformidade objectiva da coisa a fins, seja, essa conformidade a fins objectiva, uma conformidade a fins objectiva externa, seja interna, pela simples razo de que o juzo de gosto um juzo esttico e, como tal, um juzo cuja referncia da representao do objecto dirigida apenas ao sujeito e ao seu sentimento de prazer ou desprazer.51 No juzo de gosto, a

    50 Numas vezes, isso acontece explicitamente; noutras, implicitamente. Kant ostenta a sua posio no 4, ao referir que, para encontrar a beleza num objecto, no necessrio saber que tipo de coisa o objecto deva ser, isto , ter um conceito do mesmo (einen Begriff von dem Gegenstand) (Kant, 1998: 94), e mesmo nos exemplos que d de objectos belos, ao assinalar que [f]lores, desenhos livres, linhas entrelaadas sem inteno sob o nome de folhagem, no significam nada, no dependem de nenhum conceito determinado (hngen von keinem bestimmten Begriffe ab) e contudo aprazem (Kant, 1998: 94); f-lo tambm no 5, ao indicar que, no juzo de gosto, a contemplao to pouco dirigida a conceitos (ist auch nicht auf Begriffe gerichtet) (Kant, 1998: 97), no 16, ao salientar que o prazer no belo no pressupe nenhum conceito (keinen Begriff voraussetzt) (Kant, 1998: 121), na Analtica do sublime, concretamente no 28, ao identificar o juzo esttico como um juzo sem conceito (ohne Begriff) (Kant, 1998: 157), e no 35, ao dizer explicitamente que o juzo de gosto no subsume absolutamente num conceito (gar nicht unter einen Begriff subsumiert) e no determinvel por conceitos (nicht durch Begriffe bestimmbar ist) (Kant, 1998: 188). 51 Kant identifica a conformidade a fins externa com a utilidade e a conformidade a fins interna com a perfeio: A conformidade a fins objectiva (objektive Zweckmigkeit) ou externa (uere), isto a utilidade (die Ntzlichkeit), ou interna (innere), isto a perfeio do objecto (die Vollkommenheit des Gegenstandes) (Kant, 1998: 117). A conformidade a fins objectiva a referncia do objecto a um fim determinado (die Beziehung des Gegenstandes auf einen bestimmten Zweck) (Kant, 1998: 117). Essa definio reforada quando Kant afirma que para nos representarmos uma conformidade a fins objectiva numa coisa, o conceito do que esta coisa deva ser preced-la- (der Begriff von diesem, was es fr ein Ding sein solle, voran gehen) (Kant, 1998: 118). Acontece que, como salientado no incio do 11,

  • JUZO DE GOSTO

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    conformidade a fins no , ento, representada como objectiva, sendo que, no concernente independncia do juzo de gosto relativamente perfeio, a assertividade de Kant est bem patente no prprio ttulo do 15: O juzo de gosto totalmente independente do conceito de perfeio (Das Geschmacksurteil ist von dem Begriffe der Vollkommenheit gnzlich unabhngig) (Kant, 1998: 117).52

    1.5. Princpio da conformidade a fins formal da natureza

    Nem toda a conformidade a fins tem de ser, no entanto, representada como objectiva. No 10, acerca da conformidade a fins em geral (von der Zweckmigkeit berhaupt), Kant sustenta que possvel representar-se uma conformidade a fins sem fim (ohne Zweck) (Kant, 1998: 109). Segundo o nosso autor, um objecto pode ser conforme a fins

    ainda que a sua possibilidade no pressuponha necessariamente a possibilidade da representao de um fim, simplesmente porque a sua possibilidade somente pode ser explicada ou concebida por ns na medida em que admitimos no fundamento da mesma uma causalidade segundo fins, isto uma vontade, que a tivesse ordenado desse modo

    o juzo de gosto nem sequer pode fundamentar-se num fim subjectivo (subjektiver Zweck) (Kant, 1998: 110), pois [t]odo o fim, se considerado como fundamento do comprazimento, traz sempre consigo um interesse como fundamento de determinao do juzo sobre o objecto do prazer (Kant, 1998: 110). Note-se, no entanto, que tal no o mesmo que recusar que o juzo de gosto se baseia sobre fundamentos subjectivos (auf subjektiven Grnden beruht) (Kant, 1998: 118). A primeira afirmao ligaria a determinao do juzo de gosto a uma finalidade determinada; a segunda no o faz. 52 Observa-se neste ttulo um distanciamento do nosso autor em relao a uma abordagem racionalista da crtica do gosto. No entender de Kant, a abordagem em causa, alicerada em Descartes, mas plasmada em Leibniz ou Wolff, entre outros, encara o juzo de gosto como sendo propriamente um oculto juzo da razo sobre a descoberta perfeio de uma coisa e a referncia do mltiplo nele a um fim, juzo esse que por conseguinte somente denominado esttico em virtude da confuso que inerente a esta nossa reflexo, embora no fundo ele seja teleolgico (Kant, 1998: 254). Uma tal abordagem anula partida a possvel especificidade do juzo de gosto ou da beleza. A beleza , nesse mbito, uma perfeio. O juzo de gosto , nesse contexto, um juzo de conhecimento conhecimento confuso, no distinto, mas, ainda assim, conhecimento.

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    segundo a representao de uma certa regra (wenn gleich ihre Mglichkeit die Vorstellung eines Zwecks nicht notwendig

    voraussetzt, blo darum, weil ihre Mglichkeit von uns nur erklrt

    und begriffen werden kann, sofern wir eine Kausalitt nack Zwecken,

    d. i. einen Willen, der sie nach der Vorstellung einer gewissen Regel

    so angeordnet htte, zum Grunde derselben annehmen) (Kant, 1998: 109)53,

    ainda, ento, que no ponhamos as causas [da sua] forma numa vontade, e contudo somente podemos tornar compreensvel para ns a explicao da sua possibilidade enquanto a deduzimos de uma vontade (Kant, 1998: 109-110). Pois bem, considerando que no temos sempre necessidade de descortinar pela razo (segundo a sua possibilidade) aquilo que observamos, como continua Kant, podemos pelo menos observar uma conformidade a fins segundo a forma mesmo que no lhe ponhamos no fundamento um fim (como matria do nexus finalis) (eine Zweckmigkeit der Form nach, auch ohne dass wir ihr einen Zweck (als die Materie des nexus finalis) zum Grunde legen) (Kant, 1998: 110). na representao de uma conformidade a fins sem fim, meramente formal, que o juzo de gosto se baseia.

    Os fundamentos da representao de uma tal conformidade a fins levam-nos de volta Introduo Crtica da Faculdade do Juzo, nomeadamente seco VIII. Afirma Kant, nessa seco, que a parte da crtica da faculdade do juzo que contm a faculdade do juzo esttica (welcher die sthetische Urteilskraft enthlt), e apenas (allein) ela, contm um princpio que a faculdade do juzo coloca como princpio inteiramente a priori na sua reflexo sobre a natureza (ein Prinzip enthlt, welches die Urteilskraft vllig a priori ihrer Reflexion ber die Natur zum Grunde legt) (Kant, 1998: 79). Esse princpio o princpio de uma conformidade a fins formal da natureza segundo as suas leis particulares (empricas) para a nossa capacidade de conhecimento (das Prinzip, das einer formalen Zweckmigkeit der

    53 A segunda ocorrncia da palavra possibilidade na traduo para Portugus constitui um erro e deve ser simplesmente eliminada.

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    Natur nach ihren besonderen (empirischen) Gesetzen fr unser

    Erkenntnisvermgen), conformidade sem a qual o entendimento no se orientaria naquelas, o princpio transcendental que consiste em representar uma conformidade a fins da natureza, na relao subjectiva s nossas faculdades de conhecimento, na forma de uma coisa, enquanto princpio do julgamento da mesma ([d]er transzendentale Grundsatz, sich eine Zweckmigkeit der Natur in subjektiver

    Beziehung auf unser Erkenntnissvermgen an der Form eines Dinges

    als ein Prinzip der Beurteilung derselben vorzustellen) (Kant, 1998: 79). Kant tambm lhe chama conceito de uma conformidade a fins subjectiva da natureza, nas suas formas segundo leis empricas (Begriff von einer subjektiven Zweckmigkeit der Natur in ihren Formen nach

    empirischen Gesetzen) (Kant, 1998: 78) ou, mais simplesmente, princpio da conformidade a fins formal da natureza (Prinzip der formalen Zweckmigkeit der Natur) (Kant, 1998: 64). O nosso autor no refere apenas, ento, o princpio da conformidade a fins da natureza para as nossas faculdades de conhecimento; ele refere o princpio da conformidade a fins formal da natureza para as nossas faculdades de conhecimento. Aquilo que importa saber, por conseguinte, por que que ou em que medida a referida conformidade fins da natureza formal e por que que ou em que medida unicamente a parte da crtica da faculdade do juzo que contm a faculdade de juzo esttica contm esse princpio.

    Para o sabermos, devemos recorrer ao incio da seco VIII. Afirma Kant, a, que

    [n]um objecto dado numa experincia, a conformidade a fins pode ser representada, quer a partir de um princpio simplesmente subjectivo, como concordncia da sua forma com as faculdades de conhecimento na apreenso (apprehensio) do mesmo, antes de qualquer conceito, para unir a intuio com conceitos a favor de um conhecimento em geral (aus einem blo subjektiven Grunde, als bereinstimmung seiner Form, in

    der Auffassung (apprehensio) desselben vor allem Begriffe, mit den Erkenntnisvermgen, um die Anschauung mit Begriffen zu einem

    Erkenntnis berhaupt zu vereinigen), quer a partir de um princpio

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    objectivo, enquanto concordncia da sua forma com a possibilidade da prpria coisa, segundo um conceito desse objecto que antecede e contm o fundamento desta forma (aus einem objektiven, als bereinstimmung seiner Form mit der Mglichkeit des Dinges selbst, nach einem Begriffe

    von ihm, der vorhergeht und den Grund dieser Form enthlt) (Kant, 1998: 77-78).

    Relativamente representao da segunda espcie de conformidade a fins, o nosso autor dir que essa representao relaciona a forma do objecto, no com as faculdades de conhecimento do sujeito na apreenso do mesmo, mas sim com um conhecimento determinado do objecto sob um conceito dado (auf ein bestimmtes Erkenntnis des Gegenstandes unter einem gegebenen Begriffe) e nada tem a ver com um sentimento do prazer nas coisas, mas sim com o entendimento no julgamento das mesmas (hat nichts mit einem Gefhle der Lust an den Dingen, sondern mit dem Verstande in Beurteilung derselben zu tun) (Kant, 1998: 78).54 No que diz respeito possibilidade de representar a conformidade a fins da primeira espcie, esta j tinha sido afirmada por Kant na seco VII:

    Se o prazer estiver ligado simples apreenso (apprehensio) da forma de um objecto da intuio, sem relao da mesma com um conceito destinado a um certo conhecimento, nesse caso a representao no se liga ao objecto, mas sim apenas ao sujeito (wird die Vorstellung dadurch nicht auf das Objekt, sondern lediglich auf das Subjekt bezogen); e o prazer no pode mais do que exprimir a adequao desse objecto s faculdades de conhecimento que esto em jogo na faculdade de juzo reflexiva (die Angemessenheit desselben zu den Erkenntnisvermgen, die in der reflektierenden Urteilskraft im Spiel sind) e por isso, na medida em que elas a se encontram, exprimem simplesmente uma

    54 isso que acontece quando o conceito de um objecto dado: nesse caso a actividade da faculdade do juzo, no seu uso com vista ao conhecimento, consiste na apresentao (exhibitio) (Darstellung (exhibitio)), isto no facto de colocar ao lado do conceito uma intuio correspondente, quer no caso disto acontecer atravs da nossa prpria faculdade da imaginao, como na arte, quando realizamos um conceito de um objecto antecipadamente concebido que para ns fim (wie in der Kunst, wenn wir einen vorhergefassten Begriff von einem Gegenstande, der fr uns Zweck ist, realisieren), quer mediante a natureza na tcnica da mesma (como acontece nos corpos organizados), quando lhe atribumos o nosso conceito do fim para o julgamento dos seus produtos (Kant, 1998: 78).

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    subjectiva e formal conformidade a fins do objecto (eine subjektive formale Zweckmigkeit des Objekts) (Kant, 1998: 74).

    Mesmo sendo o movimento da faculdade da imaginao e do entendimento entre si um movimento livre, ele um movimento harmnico, concordante, consonante. As faculdades de conhecimento movimentam-se harmonicamente.55 Um tal movimento constitui a

    55 Aquilo que fica por explicar devidamente como esse movimento se inicia, como se colocam as faculdades de conhecimento em jogo. Ainda na seco VII da Introduo, Kant assinala que aquela apreenso das formas na faculdade da imaginao nunca pode suceder, sem que a faculdade de juzo reflexiva, tambm sem inteno, pelo menos a possa comparar (vergliche) com a sua faculdade de relacionar intuies com conceitos (Kant, 1998: 74-75). Tal tinha sido j anunciado pelo nosso autor na Primeira Introduo. Dizia ele, a, que imaginao e entendimento so considerados na proporo em que tm de estar no Juzo em geral em relao um ao outro, comparada (verglichen) com a proporo em que efetivamente esto (Kant, 1995: 56). Ambas as passagens do a entender que a reflexo ocorre sem inteno e compara a representao da apreenso que est a suceder com a disposio das faculdades de conhecimento quando se trata de determinar. Alm disso, elas esto de acordo com a definio de reflectir dada na Primeira Introduo: comparar e manter-juntas dadas representaes, seja com outras, seja com sua faculdade-de-conhecimento, em referncia a um conceito tornado possvel atravs disso (gegebene Vorstellungen entweder mit andern, oder mit seinem Erkenntnisvermgen, in Beziehung auf einen dadurch mglichen Begriff, zu vergleichen und zusammen zu halten) (Kant, 1995: 47). Entretanto, de novo na Introduo, Kant afirma que se nesta comparao (in dieser Vergleichung) a faculdade da imaginao (como faculdade das intuies a priori) sem inteno posta de acordo com o entendimento (como faculdade dos conceitos) mediante uma dada representao e, desse modo, se desperta um sentimento de prazer, nesse caso o objecto tem que ento ser considerado como conforme a fins para a faculdade de juzo reflexiva (als zweckmig fr die reflektierende Urteilskraft) (Kant, 1998: 75). Kant no refere que a comparao constata o acordo entre as faculdades de conhecimento; ele indica que as faculdades de conhecimento se dispem harmonicamente na comparao isto , na reflexo. A questo que se coloca, neste contexto, a de saber como podem as faculdades de conhecimento dispor-se harmonicamente a partir de uma apreenso sem conceito. Mais exactamente, perguntar-se- como pode sugerir-se uma apreenso sem conceito se a Crtica da Razo Pura nos informa que toda a sntese, pela qual se torna possvel a prpria percepo, est submetida s categorias; e como a experincia um conhecimento mediante percepes ligadas entre si, as categorias so condies da possibilidade da experincia e tm pois tambm validade a priori em relao a todos os objectos da experincia (Kant, 2001: 163-164). A este respeito e em face da ausncia de uma explicao dada pelo prprio Kant as propostas so variadas. Admitindo o carcter controverso da sua proposta, Guyer, por exemplo, sugere que na teoria kantiana

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    consonncia proporcionada, que exigimos para todo o conhecimento (die proportionierte Stimmung, die wir zu allem Erkenntnisse fordern) (Kant, 1998: 108), correspondendo, portanto, condio subjetiva, meramente sensvel, do uso objetivo do Juzo (die subjektive blo empfindbare Bedingung des objektiven Gebrauchs der Urteilskraft) (Kant, 1995: 60), condio subjectiva do conhecer (subjektive Bedingung des Erkennens) (Kant, 1998: 130), condio formal subjectiva de um juzo em geral (subjektive formale Bedingung eines Urteils berhaupt) (Kant,

    da sntese se estabelea uma distino entre elementos psicolgicos e elementos epistemolgicos. Segundo o intrprete, teramos, assim, uma teoria da sntese como processos mentais atravs dos quais estados mentais de conhecimento so produzidos, e uma teoria das categorias como regras atravs das quais a verificao das exigncias do conhecimento pode ser feita (Guyer, 1997: 86). A partir dessa distino, Guyer considera que [o] emprego das categorias, e dos conceitos empricos que se aplicam a intuies empricas reais, seria ento no uma condio necessria para a ocorrncia do processo psicolgico de sntese, mas apenas uma condio para a verificao das exigncias de conhecimento real dos membros do diverso de um indivduo e da sua posio na histria mental desse indivduo ou na unidade objectiva da apercepo (Guyer, 1997: 86). Aceitando-a, a unificao de um diverso sem um conceito, pela imaginao, poderia ser pensada como um estado no qual os concomitantes psicolgicos do conhecimento se obtm na ausncia de uma exigncia real de conhecimento; e esta interpretao estabeleceria uma separao entre a ocorrncia de estados psicolgicos ordinariamente associados unificao de diversos e a sujeio absoluta da ltima s categorias (Guyer, 1997: 87). Ainda assim, Guyer mantm que o principal problema do poder explicativo do modelo de resposta esttica que difcil ver como a possibilidade da harmonia das faculdades compatvel com a tese da primeira Crtica de que a sntese sempre sujeita a conceitos (Guyer, 1997: 304-305). Jos Gil confronta-se com a mesma dificuldade. No sentido de ultrapass-la, aquilo que ele prope uma descrio do processo de formao do juzo de gosto no de baixo para cima, isto , a partir de um comeo que seria a apreenso, para se elevar, degrau a degrau intuio pura, apreenso, reflexo, jogo das faculdades, estado de esprito, prazer esttico, juzo de gosto at descoberta de uma finalidade mais vasta que aponta para o supra-sensvel, mas, diferentemente, de cima para baixo (Gil, 2006: 313-314). Neste contexto, no s [a] apreenso esttica no exclui a apreenso cognitiva, como acompanha-a necessariamente, se bem de dela difira irredutivelmente (Gil, 2006: 308). De acordo com Gil, ela decorre da desmontagem da percepo e da apreenso cognitiva (Gil, 2006: 312). Ora, completando esta proposta, Gil defende que a regularidade de uma imaginao livre se deve permanncia de um lao com a unidade do conceito (Gil, 2006: 312).

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    1998: 188).56 A conformidade a fins da natureza formal, ento, porque e na medida em que a disposio harmnica das faculdades da imaginao 56 Na Primeira Introduo, Kant cita uma proporo na qual imaginao e entendimento () tm de estar no Juzo em geral em relao um ao outro (Kant, 1995: 56) e refere a concordncia daquelas duas faculdades entre si como sendo uma proporo de ambas as faculdades-de-conhecimento, que constitui a condio subjetiva, meramente sensvel, do uso objetivo do Juzo (Kant, 1995: 60). Acabmos de mencion-la. Mais explicitamente, numas vezes, menos noutras, ele refora-o ao longo da Crtica da Faculdade do Juzo. F-lo desde logo na Introduo, onde cita a unidade da faculdade de imaginao com o entendimento como sendo a conformidade a leis no uso emprico da faculdade do juzo em geral (Kant, 1998: 75). Precisamente nessa passagem, Kant assinala ser unicamente com essa conformidade a leis que a representao do objecto na reflexo concorda (Kant, 1998: 75). Entretanto, o reforo da tese segundo a qual o acordo entre as faculdades de conhecimento constitui a condio formal do uso objectivo da faculdade do juzo prolonga-se quando Kant menciona, ainda na Introduo, a relao das faculdades de conhecimento entre si, as quais so exigidas para todo o conhecimento emprico (da faculdade de imaginao e do entendimento) (Kant, 1998: 76), no 9, como vimos, a consonncia proporcionada, que exigimos para todo o conhecimento (Kant, 1998: 108), no 21, a disposio das faculdades de conhecimento para um conhecimento em geral, e na verdade aquela proporo que se presta a uma representao (pela qual um objecto nos dado), para fazer dela um conhecimento como sendo a assinalada condio subjectiva do conhecer sem a qual o conhecimento como efeito no poderia surgir (Kant, 1998: 130), no 35, como igualmente vimos, a condio formal subjectiva de um juzo em geral, e diz que [u]tilizada com respeito a uma representao pela qual um objecto dado, [a faculdade do juzo] requer a concordncia de duas faculdades de representao, a saber da faculdade da imaginao (para a intuio e a composio do mltiplo na mesma) e do entendimento (para o conceito como representao da unidade desta compreenso) (Kant, 1998: 188), numa nota ao 38, a relao das faculdades de conhecimento () postas em actividade com vista a um conhecimento em geral como sendo a condio formal da faculdade do juzo (Kant, 1998: 268), e, finalmente, no 39, a apreenso comum de um objecto pela faculdade da imaginao enquanto faculdade da intuio, em relao com o entendimento como faculdade dos conceitos como um procedimento da faculdade do juzo, o qual esta tem de exercer () com vista experincia mais comum () para perceber um conceito objectivo emprico (Kant, 1998: 194) e a proporo destas faculdades de conhecimento () exigida para o so e comum entendimento que se pode pressupor em qualquer, acrescentando, alis, que essa proporo tambm requerida para o gosto (Kant, 1998: 195). Se o fundamento de determinao do juzo de gosto o prazer sentido por ocasio do alcance, livre, dessa proporo, ento admitir-se-, com Antnio Marques, que do ponto de vista da motivao e at da estrutura do juzo o objectivo cognitivo

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    e do entendimento entre si alcanada livremente por ocasio da representao do objecto.57 deixa de ser o mais relevante e que [o] conceito de jogo passa a estar na primeira linha, sublinhando certamente a presena do anmico, do inventivo e at do inesperado que caracteriza afinal a experincia esttica (Marques, 1998: 22). Mais do que isso, Kant levar-nos- muito mais longe do que espervamos, como nota Maria Filomena Molder, indo at ao ponto de considerar que nesse jogo se engendra qualquer forma de conhecimento, pois na proporo entre as faculdades, que configura a sua relao como jogo livre, surpreendemos a matriz de qualquer movimento compreensivo (Molder, 2007: 373-374). A este propsito, igualmente de observar a posio de Olivier Chdin (cf. Chdin, 1982). 57 Sem prejuzo do que acabmos de afirmar, importa notar que Kant no esgota a explicao da representao de uma conformidade a fins formal da natureza no aspecto que salientmos. O nosso autor faz assentar a possibilidade de uma representao formal da conformidade a fins na forma do objecto. No que diz respeito Introduo Crtica da Faculdade do Juzo, isso evidente no apenas nas passagens que citmos da seco VII, mas em toda essa seco e, de resto, na seco seguinte a, Kant sugere que a conformidade a fins da natureza formal porque e na medida em que representada nas suas formas (in ihren Formen), isto , na forma da coisa (in der Form des Dinges) (Kant, 1998: 78), na forma de uma coisa (an der Form eines Dinges) (Kant, 1998: 79). O nosso autor j o tinha feito na Primeira Introduo e voltar a faz-lo ao longo de toda a Crtica da Faculdade do Juzo. A prpria Analtica do sublime , de certo modo, elaborada por relao importncia que, na sua explicitao da noo de beleza, Kant atribui noo de forma (Form). Desde logo no pargrafo inaugural do segundo livro da Analtica da faculdade de juzo esttica (23) o nosso autor indica-o: diz ele, primeiro, que o sublime, contrariamente [ao belo] pode tambm ser encontrado num objecto sem forma (formlosen), na medida em que seja representada nele uma ilimitao ou por ocasio desta e pensada alm disso na sua totalidade (Kant, 1998: 137); acrescenta, depois, que o objecto pode quanto forma (Form) aparecer contrrio a fins para a nossa faculdade de juzo, inadequado nossa faculdade de apresentao e por assim dizer violento para a faculdade da imaginao, mas apesar disso e s por isso julgado ser tanto mais sublime (Kant, 1998: 138). esta diferena, em relao ao belo, que leva a que, tal como anunciado na Introduo, o juzo esttico [esteja] ligado ao belo, no simplesmente como juzo de gosto, mas tambm ao sublime e, portanto, a que aquela crtica da faculdade de juzo esttica [tenha] que se decompor em duas partes principais conformes queles, ou seja, na Analtica do belo e na Analtica do sublime (Kant, 1998: 77). No que concerne Crtica da Faculdade de Juzo Teleolgica, destacamos como paradigmtica a seguinte passagem: Temos boas razes para aceitar, segundo princpios transcendentais, uma conformidade a fins subjectiva da natureza nas suas leis particulares, relativamente sua compreenso para a faculdade do juzo humana e possibilidade da conexo das experincias

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    Centremo-nos, agora, nas referncias de Kant ao sentimento de prazer. Mediante essas referncias, poderemos responder questo de saber por que que ou em que medida apenas a parte da crtica da faculdade do juzo qual pertence a faculdade de juzo esttica contm um princpio que a faculdade do juzo coloca como princpio inteiramente a priori na sua reflexo sobre a natureza, nomeadamente o princpio de uma conformidade a fins formal da natureza segundo as suas leis particulares (empricas) para a nossa capacidade de conhecimento (Kant, 1998: 79). No 9, Kant informa-nos de que quando se trata de uma relao objectiva entre as faculdades de conhecimento, essa relao pensada: uma relao objectiva (ein objektives Verhltnis) somente pode ser pensada (gedacht) (Kant, 1998: 108). No outro o caso do juzo lgico, no qual a conscincia da relao entre as faculdades da imaginao e do entendimento adquirida intelectualmente (intellektuell), precisamente por aquilo que o nosso autor diz ser a conscincia da nossa actividade intencional com que pomos aquelas em jogo (das Bewusstsein unserer absichtlichen Ttigkeit, womit wir jene ins Spiel setzen) (Kant, 1998: 107). Trata-se, a, de uma conscincia intelectual (como no esquematismo objectivo da faculdade do juzo, do qual a crtica trata) (Kant, 1998: 107). O caso que nos interessa, porm, o da relao meramente subjectiva entre as faculdades de conhecimento. Acabmos de assinalar que a disposio harmnica das faculdades da imaginao e do entendimento entre si por ocasio da representao do objecto alcanada livremente. Como Kant ressalva, ainda no 9, uma unidade subjectiva da relao (subjektive Einheit des Verhltnisses) entre as faculdades de

    particulares num sistema dessa mesma natureza; assim que entre os seus muitos produtos podemos esperar que sejam possveis alguns contendo formas especficas que lhe so adequadas, como se afinal estivessem dispostas para a nossa faculdade do juzo. Tais formas, atravs da sua multiplicidade e unidade, servem para simultaneamente fortalecer e entreter as faculdades do nimo (que esto em jogo por ocasio do uso desta faculdade) e s quais por isso atribuimos o nome de formas belas (schne Formen) (Kant, 1998: 273). Considerando que, como indicmos, Kant faz assentar a possibilidade de uma representao formal da conformidade a fins na forma do objecto, daremos o relevo devido noo de forma em seco prpria.

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    conhecimento somente pode fazer-se cognoscvel (kenntlich)

    atravs da sensao (durch Empfindung) (Kant, 1998: 108). O

    sujeito adquire conscincia dela por sensao do efeito que consiste

    no jogo facilitado de ambas as faculdades do nimo (da imaginao e

    do entendimento) vivificadas pela concordncia recproca (Kant,

    1998: 108). Quando livre, a relao harmnica das faculdades de

    conhecimento entre si por ocasio da representao do objecto

    sentida no efeito sobre o nimo (in der Wirkung auf das Gemt

    empfunden werden) (Kant, 1998: 108).58 Kant anuncia-o desde logo

    na Primeira Introduo Crtica da Faculdade do Juzo afirma ele,

    a, que a finalidade subjetiva () sentida, em seu efeito (in ihrer

    Wirkung empfunden) (Kant, 1995: 61). Entretanto, no mesmo texto,

    o nosso autor acrescenta que como uma condio meramente

    subjetiva de um juzo no d lugar a nenhum conceito determinado

    do fundamento-de-determinao do mesmo, este s pode ser dado no

    sentimento de prazer (im Gefhle der Lust) (Kant, 1995: 61). A

    conformidade a fins, formal, sentida, ento, como sentimento de

    prazer.59 Trata-se, por conseguinte, de uma representao esttica

    da conformidade a fins da natureza (sthetische Vorstellung der

    Zweckmigkeit der Natur) (Kant, 1998: 73).

    58 Fica, assim, respondida a questo menor do 9 (Kant, 1998: 107), a questo de

    saber de que modo nos tornamos conscientes de uma concordncia subjectiva recproca das faculdades de conhecimento entre si no juzo de gosto (Kant, 1998:

    107). Esse modo esttico. Essa conscincia adquirida [e]steticamente pelo simples sentido interno e sensao (sthetisch durch den bloen innern Sinn und

    Empfindung) (Kant, 1998: 107). O sentimento do movimento simultaneamente livre

    e harmnico entre as faculdades de conhecimento por ocasio da representao do objecto um sentimento sentido atravs do sentido interno. 59 Note-se que a sensao que est imediatamente vinculada com o sentimento de

    prazer e desprazer aquela sensao () que o jogo harmonioso das duas faculdades-de-conhecimento do Juzo, imaginao e entendimento, efetua no sujeito,

    na medida em que, na representao dada, a faculdade-de-apreenso de uma e a faculdade-de-exposio do outro so mutuamente favorveis uma outra, proporo

    esta que, em tal caso, efetua por essa mera forma uma sensao (eine Empfindung)

    (Kant, 1995: 61).

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    Pois bem, a faculdade de ajuizar a conformidade a fins formal (tambm chamada subjectiva) (die formale Zweckmigkeit (sonst auch subjektive gennant)), mediante o sentimento do prazer ou desprazer (durch das Gefhl der Lust oder Unlust) a faculdade do juzo esttica (sthetisch) (Kant, 1998: 79).60 Essa faculdade o gosto. A conformidade a fins formal (simplesmente subjectiva) ajuizada por ns mediante o gosto (esteticamente, pelo sentimento do prazer) (durch Geschmack (sthetisch, vermittelst des Gefhls der Lust) (Kant, 1998: 78-79).61 Assim, apenas o gosto (a faculdade de juzo esttica) pode conter o princpio que a faculdade do juzo coloca como princpio inteiramente a priori na sua reflexo sobre a natureza, a saber, o princpio de uma conformidade a fins formal da natureza segundo as suas leis particulares (empricas) para a nossa capacidade de conhecimento (Kant, 1998: 79).62

    Jamais a parte da crtica da faculdade do juzo qual pertence a faculdade de juzo teleolgica poderia conter um tal princpio, isto , um princpio que a faculdade do juzo colocasse como inteiramente a priori na sua reflexo sobre a natureza. Tal assim porque a faculdade de juzo teleolgica ajuza uma conformidade a fins real (objectiva) (einer realen (objektiven) Zweckmigkeit) e f-lo mediante o entendimento e a razo

    60 Ela decide, no atravs da concordncia com conceitos, mas sim atravs do sentimento (durch das Gefhl) (Kant, 1998: 80). 61 por isso que o juzo de gosto (o juzo reflexivo esttico) um juzo esttico. Veja-se o que Kant afirma no 15: [o] juzo chama-se esttico (sthetisch) tambm precisamente porque o seu fundamento de determinao no nenhum conceito, mas sim o sentimento (do sentido interno) (das Gefhl (des innern Sinnes)) daquela unanimidade no jogo das faculdades do nimo, na medida em que ela pode ser somente sentida (Kant, 1998: 119). Recordemos as palavras da Primeira Introduo: um juzo esttico aquele cujo fundamento-de-determinao est em uma sensao que esteja imediatamente vinculada com o sentimento de prazer e desprazer (in einer Empfindung, die mit dem Gefhle der Lust und Unlust unmittelbar verbunden ist) (Kant, 1995: 61). 62 Neste contexto de citar Tunhas. Segundo o comentador, a faculdade que determina a autonomia da faculdade de julgar a faculdade de julgar esttica (Tunhas, 2011: 70), a beleza o grau zero da filosofia e a propedutica filosofia uma crtica da beleza, ou, mais exactamente, das condies de possibilidade dos juzos acerca da beleza (Tunhas, 2011: 71).

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    (durch Verstand und Vernunft) (Kant, 1998: 78-79). logicamente, segundo conceitos (logisch, nach Begriffen) que a faculdade de juzo teleolgica ajuza a conformidade a fins real (objectiva) da natureza (Kant, 1998: 79). De acordo com Kant,

    pelo facto de no poder ser dado a priori absolutamente nenhum princpio, nem mesmo a possibilidade deste, a partir do conceito de uma natureza, como objecto da experincia, tanto no universal como no particular, decorre da que ter que haver fins objectivos da natureza, isto coisas que somente so possveis como fins da natureza (als Naturzwecke) (Kant, 1998: 79).

    No entanto, tal como o nosso autor ressalva logo a seguir,

    s a faculdade do juzo, sem conter em si para isso a priori um princpio (ohne ein Prinzip dazu a priori in sich zu enthalten), contm em certos casos (em certos produtos) a regra para fazer uso do conceito dos fins, em favor da razo, depois que aquele princpio transcendental j preparou o entendimento para este aplicar natureza o conceito de um fim (pelo menos segundo a forma) (Kant, 1998: 79).63

    Assim, a faculdade de juzo teleolgica

    no uma faculdade particular, mas sim somente a faculdade de juzo reflexiva em geral na medida em que ela procede, como sempre acontece no conhecimento terico, segundo conceitos, mas atendendo a certos objectos da natureza segundo princpios particulares, isto os de uma faculdade de juzo simplesmente reflexiva e no determinante dos objectos (Kant, 1998: 80).64

    63 Vejamos, de resto, o que Kant afirma mais frente: a faculdade do juzo usada teleologicamente indica de forma precisa as condies sob as quais algo (por exemplo um corpo organizado) deve ser ajuizado segundo a ideia de um fim da natureza; no entanto ela no pode aduzir qualquer princpio a partir do conceito da natureza como objecto da experincia que autorize atribuir quela a priori uma referncia a fins e que leve a admitir, ainda que de forma indeterminada, esses fins a partir da experincia efectiva desses produtos (Kant, 1998: 80). O nosso autor justifica-o indicando que muitas experincias particulares tm que ser examinadas e consideradas sob a unidade do seu princpio, para poder conhecer de forma somente emprica, num certo objecto, uma conformidade a fins objectiva (Kant, 1998: 80). 64 precisamente [p]or isso, e segundo a sua aplicao que ela pertence parte terica da filosofia, embora por causa dos princpios particulares que no so

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    Regressemos ao juzo esttico reflexivo (o juzo de gosto). por ser fundado sobre o princpio prprio da faculdade do juzo que, acerca do juzo de gosto, pode afirmar-se que ele pertence faculdade-de-conhecimento superior, e alis ao Juzo (zum obern Erkenntnisvermgen und zwar zur Urteilskraft), sob cujas condies subjetivas e no entanto tambm universais subsumida a representao do objeto e que, mesmo sendo um juzo esttico, sempre um juzo-de-reflexo (immer ein Reflexionsurteil ist) (Kant, 1995: 61). Como, no juzo de gosto, a reflexo sobre uma representao dada precede o sentimento de prazer (die Reflexion ber eine gegebene Vorstellung vor dem Gefhle der Lust vorhergeht), a conformidade a fins subjectiva pensada, antes de ser sentida (gedacht, ehe sie empfunden wird) (Kant, 1995: 61). O juzo de gosto assenta num sentimento de prazer, mas esse sentimento despertado porque, por ocasio da representao do objecto, as faculdades da imaginao e do entendimento se dispem livre mas harmonicamente entre si. Assim, embora no haja uma subsuno das intuies da faculdade da imaginao em conceitos do entendimento, o objecto representado como conforme a fins para um conhecimento em geral.65 Por essa razo, atravs de um juzo simultaneamente esttico e reflexivo, ns consideramo-lo belo. O juzo de gosto baseia-se no conceito de uma conformidade a fins subjectiva da natureza, nas suas formas segundo leis empricas (Kant, 1998: 78). Embora esse conceito

    determinantes tal como tem que acontecer numa doutrina, ela tenha de constituir uma parte particular da crtica (Kant, 1998: 80). 65 J vimos que a relao de harmonia livre entre as faculdades da imaginao e do entendimento advm conscincia daquele que ajuza por intermdio de um sentimento de prazer. No entanto, o comprazimento s sentido porque a relao livremente alcanada a saber, a harmonia das faculdades de conhecimento entre si, que, enquanto no resultante da submisso das intuies em conceitos, no caso do juzo de gosto, estabelecida de um modo extraordinrio, sendo, portanto, inesperada, surpreendente constitui a condio subjectiva do conhecimento. Aquele que ajuza sente um comprazimento porque o objecto que representa independentemente de conceitos serve de ocasio para o cumprimento do objectivo geral do conhecimento: a unificao do diverso.

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    no seja de modo nenhum um conceito do objecto (kein Begriff vom Objekt ist), mas sim somente um principio da faculdade do juzo (ein Prinzip der Urteilskraft) para arranjarmos conceitos nesta multiplicidade desmedida (para nos podermos orientar nela), ns consideramos todavia a natureza como que numa relao s nossas faculdades de conhecimento segundo a analogia de um fim (gleichsam eine Rcksicht auf unser Erkenntnisvermgen nach der Analogie eines Zwecks); e assim nos possvel considerar a beleza da natureza (die Naturschnheit) como apresentao do conceito da conformidade a fins formal (simplesmente subjectiva) (als Darstellung des Begriffs der formalen (blo subjektiven) Zweckmigkeit) (Kant, 1998: 78).

    Uma tal conformidade a fins, formal, , como j vimos, ajuizada mediante o gosto (esteticamente, pelo sentimento do prazer) (Kant, 1998: 79). Pode afirmar-se, por conseguinte, que o gosto (a faculdade de juzo esttica) uma faculdade particular de ajuizar as coisas segundo uma regra (nach einer Regel), mas no segundo conceitos (nicht nach Begriffen) (Kant, 1998: 80).

    1.6. Ideia do supra-sensvel como conceito de um fundamento do

    princpio da conformidade a fins formal da natureza

    Como j tivemos oportunidade de notar, a no referncia a conceitos no proferimento de um juzo de gosto meramente a no referncia a conceitos determinados. O juzo de gosto no pode ter um conceito como fundamento de determinao. Kant salienta-o ao longo da Crtica da Faculdade do Juzo. No entanto, o nosso autor no deixa de acrescentar que na beleza h uma referncia a conceitos. Veja-se, por exemplo, desde logo o 4, no qual ele assinala que [o] comprazimento no belo tem que depender da reflexo sobre um objecto, que conduz a um conceito qualquer (sem determinar qual) (zu irgend einem Begriffe (unbestimmt welchem) fhrt) (Kant, 1998: 94), ou o primeiro pargrafo da Analtica do sublime (23), no qual nota que a sensao de prazer no belo, tal como, de resto, a sensao de prazer no sublime, no se prende a uma sensao como a sensao do agradvel, nem a um conceito determinado como o comprazimento no bem, e contudo referida a conceitos, se bem

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    CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana 59

    que sem determinar quais (auf Begriffe, obzwar unbestimmt welche,

    bezogen wird) (Kant, 1998: 137). Esta chamada de ateno ganha

    especial relevncia no 57 ao tentar resolver a antinomia do gosto, Kant

    admite que [a] algum conceito o juzo de gosto tem que se referir (auf

    irgend einen Begriff muss sich das Geschmacksurteil beziehen), pois de

    contrrio ele no poderia absolutamente reivindicar validade necessria

    para qualquer um (Kant, 1998: 246). Tal como o nosso autor tem o

    cuidado de acrescentar logo a seguir, porm, isso no significa que o juzo

    de gosto seja demonstrvel a partir de um conceito (Kant, 1998: 246).

    O juzo de gosto no pode ter qualquer conceito determinado no seu

    fundamento e s atravs de um conceito determinado que seria possvel

    demonstrar algo.

    Pois bem, no entender de Kant, o nico conceito sobre o qual o

    juzo de gosto poder fundar-se o conceito racional transcendental

    do supra-sensvel (der transzendentale Vernunftbegriff von dem

    bersinnlichen), que jaz no fundamento de toda [a intuio sensvel]

    (Kant, 1998: 246), o simples conceito racional puro do supra-

    sensvel (der bloe reine Vernunftbegriff von dem bersinnlichen)

    que se situa no fundamento do objecto (e tambm do sujeito que julga)

    enquanto objecto dos sentidos, por conseguinte enquanto fenmeno

    (Kant, 1998: 247), a ideia indeterminvel do supra-sensvel (die

    unbestimmte Idee des bersinnlichen) em ns (Kant, 1998: 248).66

    66 Na primeira observao que se segue ao 57, Kant refere-se a este conceito como

    sendo o conceito racional de substracto supra-sensvel de todos os fenmenos em geral (Kant, 1998: 251); na segunda, o conceito de um substracto inteligvel (algo

    supra-sensvel, do qual o conceito somente ideia e que no admite nenhum autntico

    conhecimento) (Kant, 1998: 252), isto , o conceito de um substracto inteligvel da natureza fora de ns e em ns () enquanto coisa em si mesma (Kant, 1998: 253);

    no 78, j, portanto, na Crtica da Faculdade de Juzo Teleolgica, Kant refere-o

    como o conceito do supra-sensvel, conceito que temos que pr na base da natureza como fenmeno (Kant, 1998: 338); ainda na segunda parte da Crtica da

    Faculdade do Juzo, no 81, finalmente, o nosso autor refere-o como tratando-se do conceito do substracto supra-sensvel da natureza, cerca do qual nada podemos

    positivamente determinar, a no ser que o ser em si do qual apenas conhecemos o

    fenmeno (Kant, 1998: 350).

  • SE E COMO PODER UMA OBRA DE ARTE SER BELA

    60 CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana

    a esse conceito que o comprazimento no belo conduz, a esse

    conceito que o juzo de gosto se refere. questo de saber se esta

    tese entra em contradio com aquela segundo a qual o princpio do

    gosto o princpio da conformidade a fins formal da natureza,

    responder-se negativamente este princpio uma Idia da

    natureza, cuja legalidade, sem uma relao da mesma a um substrato

    supra-sensvel, no pode ser entendida (eine Idee der Natur, deren

    Gesetzmigkeit ohne ein Verhltnis derselben zu einem

    bersinnlichen Substrat nicht verstanden werden kann ) (Kant, 1995:

    85). Em ltima anlise, ento, o juzo de gosto funda-se sobre aquilo

    para o qual o princpio da conformidade a fins formal da natureza

    remete, a saber, a ideia do supra-sensvel.67

    2. JUZO ESTTICO UNIVERSALMENTE VLIDO A PRIORI

    2.1. Enquadramento

    Na seco anterior, caracterizmos o juzo de gosto como juzo esttico

    reflexivo. Ao faz-lo, elencmos um requisito que abrange todas as

    exigncias a satisfazer pelo juzo atravs do qual se declara belo um

    objecto, a saber, basear-se apenas na observao de uma conformidade a

    fins formal da representao do objecto para as nossas faculdades de

    conhecimento, observao que depende de uma referncia ao conceito

    racional transcendental do supra-sensvel. De facto, ao anunciar-se que o

    juzo de gosto assenta unicamente no princpio dado pela faculdade do

    juzo a si mesma (o princpio da conformidade a fins formal da natureza

    para as nossas faculdades de conhecimento) anuncia-se ao mesmo tempo

    67 Note-se, finalizando esta seco, que, no 57, Kant estabelece uma identificao precisamente entre a ideia do supra-sensvel e o conceito de um fundamento em

    geral da conformidade a fins subjectiva da natureza para a faculdade do juzo (einem Begriffe eines Grundes berhaupt von der subjectiven Zweckmigkeit der Natur

    fr die Urteilskraft) (Kant, 1998: 247). sobre esse conceito que o juzo de gosto

    se funda.

  • JUZO DE GOSTO

    CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana 61

    que um tal juzo no se funda naquilo que atrai, nem se funda em fins, em conceitos determinados.

    A independncia de um juzo relativamente a atractivos ou conceitos no esgota, no entanto, a sua caracterizao enquanto juzo de gosto. Para ser um juzo de gosto, um juzo tem de ser, no entender de Kant, universalmente vlido a priori. Assim, para caracterizarmos plenamente o juzo de gosto, para caracterizarmos por completo o juzo atravs do qual se declara belo um objecto algo indispensvel elaborao de uma resposta suficientemente justificada questo de saber se legtimo falar-se de bela arte, questo que desde o incio nos propusemos tratar necessrio mostrar em que termos o nosso autor considera o juzo de gosto um juzo esttico dotado de validade universal a priori (Allgemeingltigkeit a priori).68 Tendo em vista a satisfao dessa necessidade, a nossa prxima tarefa a de explicitar a tentativa de legitimao do juzo de gosto como juzo esttico universalmente vlido a priori elaborada na Crtica da Faculdade do Juzo.

    Antes de procedermos a uma tal explicitao, devemos enquadrar a referida tentativa, notando que a sua pertinncia se prende com o carcter insuficiente das propostas estticas quer do empirismo, quer do racionalismo. De facto, as propostas apresentadas pelos empiristas so entendidas por Kant como insuficientes para sustentar devidamente a validade universal a priori do juzo de gosto: se aquilo que serve de fundamento de determinao ao juzo de gosto for o prazer dos sentidos, o comprazimento do gozo, ento um tal juzo jamais pode ser universalmente vlido a priori. Mesmo que haja unanimidade entre todos aqueles que ajuzam, essa unanimidade uma unanimidade meramente

    68 Embora, no 9, Kant fale vrias vezes de comunicabilidade universal (allgemeine Mitteilbarkeit) (Kant, 1998: 105, 106 e 108), no h, ao longo do seu texto, qualquer indcio de que comunicabilidade no seja sinnimo de validade. Precisamente no 9, alis, Kant contrasta a comunicabilidade universal com a validade privada (cf. Kant, 1998: 105), o que nos faz pensar que a relao entre comunicabilidade e validade , efectivamente, uma relao de sinonmia.

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    62 CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana

    contingente.69 Quanto s propostas apresentadas pelos racionalistas, no obstante poderem garantir que o juzo de gosto um juzo universalmente vlido a priori, de maneira nenhuma garantem a especificidade desse juzo: no contexto do racionalismo, o juzo de gosto , como tivemos oportunidade de assinalar, um juzo de conhecimento, assim como a beleza uma perfeio.

    Em segundo lugar, relevante salvaguardar que a tentativa de legitimao do juzo de gosto como juzo esttico universalmente vlido a priori elaborada na Crtica da Faculdade do Juzo pode ser uma tentativa mltipla. Entre os comentadores da terceira Crtica, vrios so aqueles que consideram serem diversas as tentativas encetadas por Kant para fornecer uma deduo transcendental do juzo de gosto.70 Alm disso, tambm no que diz respeito localizao da argumentao de Kant existe uma variedade de pareceres. Donald D. Crawford, por exemplo, fala de um argumento principal, estendido e contnuo cujo desenvolvimento lgico passvel de ser dividido em cinco estdios (cf. Crawford, 1974: 66-69). No entender do comentador, apesar de mostrarem como um prazer pode ser baseado naquilo que universalmente comunicvel e, portanto, ser ele mesmo universalmente comunicvel, os primeiros quatro estdios no mostram que a mera comunicabilidade universal de um sentimento de

    69 Ressalve-se, a este propsito, que Hume no deixa de sugerir um estado so do rgo que pode ser suposto providenciar-nos um verdadeiro padro de medida de um gosto e sentimento e uma ideia da beleza perfeita (Hume, 1997: #12). No entanto, essa sugesto no derivada do seu empirismo. Por essa razo, Paul Guyer coloca Hume a par de Hutcheson, Burke e Home e indica que qualquer das solues para o problema do gosto apresentadas por esses autores assenta no apelo a uma concepo metafsica da humanidade como uma espcie nica, com certas propriedades essenciais, normais ou ideais, e incluindo um acordo bsico no gosto entre estas propriedades (Guyer, 1997: 4). Ora, plasmando uma metafsica transcendente, uma concepo desse tipo no poder ser bem recebida pelo autor da Crtica da Razo Pura. 70 Outros intrpretes h que questionam a necessidade de a Crtica da Faculdade do Juzo envolver uma deduo transcendental. Rolf-Peter Horstmann um deles (cf. Horstmann, 1989).

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    prazer pode ser imputada a todos, digamos assim, como um dever , sendo que, por essa razo, [c]ompletar a deduo requer uma transio do mbito esttico para o mbito da moralidade e, por conseguinte, um quinto estdio (Crawford, 1974: 68).71

    71 Crawford partidrio da tese segundo a qual a deduo transcendental do juzo de gosto depende de algo que ser transversal Crtica da Faculdade do Juzo, a saber, a ligao entre o gosto e a moralidade, a conexo entre o esttico e o tico, a analogia entre o juzo esttico e o juzo moral. Essa tese partilhada por R. K. Elliott, entre outros, e assenta particularmente na afirmao de Kant, no 59, de acordo com a qual o belo o smbolo do moralmente bom; e tambm somente sob este aspecto (uma referncia que natural a qualquer um e que tambm se exige de qualquer outro como dever) ele apraz com uma pretenso ao assentimento de todo o outro (das Schne ist das Symbol des Sittlich-Guten; und auch nur in dieser Rcksicht (einer Beziehung,

    die jedermann natrlich ist, und die auch jedermann andern als Pflicht zumutet) gefllt es mit einem Anspruche auf jedes andern Bestimmung) (Kant, 1998: 262). Elliott entende esta passagem como significando que somente atravs da conexo analgica entre o belo e o bom que o juzo de gosto tem algum direito a exigir universalidade e necessidade (Elliott, 1968: 255). Crawford, por sua vez, indica que [a] assuno kantiana claramente que a sensibilidade moral o mesmo que, ou pelo menos implica, uma sensibilidade para a base da moralidade e que [a]ssim, para completar a deduo, Kant tem de argumentar ou assumir que a sensibilidade moral implica uma sensibilidade para aquilo que simboliza a base da moralidade (Crawford, 1974: 149). Uma tal concluso pode ser contestada. O seu problema mais imediato prende-se com a ilegitimidade da exigncia de sensibilidade a um mero smbolo da moralidade. Apesar de podermos exigir a qualquer outro o cumprimento da lei moral, no temos o direito de dele exigir sensibilidade para algo que meramente simboliza a moralidade. Como nota Guyer, a sensibilidade a um smbolo da moralidade no ela mesma um estado requerido para a performance moral, e assim no algo que pode ser exigido como parte de uma exigncia para a aco moral (Guyer, 1997: 339). Concordamos, ento, com as palavras que Guyer profere mais frente na sua obra: Se uma representao simblica de algo fosse a nica representao possvel, e o conhecimento dessa matria fosse justificadamente exigido de todos, ento talvez a sensibilidade ao seu smbolo pudesse tambm ser universalmente exigida. Mas supor que isto assim no caso da simbolizao da moralidade da beleza entraria em conflito com uma das mais fundamentais teses da filosofia moral de Kant, a tese de que todos so imediatamente conscientes da sua obrigao sob a lei moral. Na medida em que Kant mantm que esta conscincia equivalente conscincia da sua liberdade, ele est ento comprometido com a viso de que todo o ser humano imediatamente consciente do facto da sua liberdade; no mnimo, Kant est certamente comprometido com a viso de que qualquer um pode tornar-se consciente da sua liberdade simplesmente por reflexo acerca da sua

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    64 CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana

    Independentemente da necessidade que a deduo transcendental do juzo de gosto eventualmente possa envolver de que se transite do mbito esttico para o mbito da moralidade, a posio de acordo com a qual essa deduo constitui um argumento com as propriedades que Crawford lhe atribui no uma posio fcil de sustentar. Guyer refere trs lugares diferentes e amplamente separados nos quais Kant tenta justificar a validade universal a priori do juzo de gosto (Guyer, 1997: 233). Do ponto de vista do comentador, h duas tentativas principais de Kant para fornecer uma tal deduo e uma tentativa final mas infeliz (Guyer, 1997: 11).72 Ora, ainda segundo Guyer, em nenhuma dessas tentativas feita qualquer referncia explcita a qualquer das outras (cf. Guyer, 1997: 233 e 246), sendo que os 36 e 37 preparam o caminho para o 38 como se a questo da validade intersubjectiva estivesse ainda completamente aberta,

    obrigao sob a lei moral. Mas ento nenhuma representao meramente indirecta ou simblica do imperativo categrico ou do facto da liberdade pode efectivamente ser requerida para cumprimento das exigncias da moralidade. Argumentar o contrrio seria minar uma parte bsica da filosofia moral de Kant (Guyer, 1997: 342). Note-se que essa parte bsica da filosofia moral de Kant no acaba com a segunda Crtica de observar, a propsito, o que Kant afirma a fechar a Crtica da Faculdade do Juzo: possvel pensar que seres racionais se vissem rodeados por uma tal natureza que no mostrasse qualquer trao claro de organizao, mas somente efeitos de um simples mecanismo da matria bruta e de tal modo que, por ocasio da mudana de algumas formas e relaes finais simplesmente contingentes, no parea existir algum fundamento para inferir um autor do mundo inteligente. No haveria nesse caso qualquer oportunidade para uma teologia fsica e mesmo assim a razo que no recebe neste caso qualquer orientao atravs de conceitos da natureza encontraria, na liberdade e nas ideias morais que nela se fundam, um fundamento prtico suficiente para postular o conceito de ser originrio a si adequado, isto , de uma divindade, e a natureza (mesmo da nossa prpria existncia) como um fim terminal, adequado quele e s suas leis e, na verdade, em considerao ao mandamento inevitvel da razo prtica (Kant, 1998: 413). 72 Ao longo do seu estudo, ele indica que as tentativas principais efectuadas por Kant se localizam no 21, a primeira, e nos 38, intitulado Deduo dos juzos de gosto, e 39, a segunda, sendo que, entre elas, no 30, est o ttulo Deduo dos juzos estticos puros; quanto tentativa final, essa efectuada sob o ttulo Resoluo da antinomia do gosto, na Dialctica da faculdade de juzo esttica.

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    mesmo depois do 21 (Guyer, 1997: 247) e, alm disso, os 38 e 39 no fazem meno questo aberta do 22, ou mesmo distino entre princpios regulativos e constitutivos (Guyer, 1997: 281). Obviamente, estes factores tornam particularmente difcil a defesa da tese de acordo com a qual na Crtica da Faculdade do Juzo h um argumento nico para justificar que o juzo de gosto um juzo esttico universalmente vlido a priori.

    Independentemente da diversidade e da localizao da argumentao de Kant em prol da validade universal a priori do juzo de gosto, facto que ele recorre a vrios elementos para tentar sustentar uma tal validade. Tendo como objectivo mostrar em que termos o nosso autor considera o juzo de gosto um juzo esttico universalmente vlido a priori, reconstruiremos a sua argumentao atravs de um percurso pelos diferentes elementos por ele mencionados, e assim a explicitaremos. Comearemos precisamente pelo elemento com o qual terminmos a seco anterior: o conceito racional transcendental do supra-sensvel.

    2.2. Supra-sensvel como fundamento da validade universal a priori

    do juzo de gosto

    No 59, depois de assinalar que aquilo que o gosto tem em mira o inteligvel (das Intelligibele) (Kant, 1998: 262) Kant acrescenta que a faculdade do gosto se refere ao supra-sensvel (das bersinnliche) (Kant, 1998: 263). Acerca do supra-sensvel, o nosso autor assinala que ele no natureza e to pouco liberdade, que contudo est conectado com o fundamento desta, e que, nele, a faculdade terica est ligada, em vista da unidade, com a faculdade prtica de um modo comum e desconhecido (Kant, 1998: 263). Com estas afirmaes, Kant retoma a posio adoptada no 57, segundo a qual no supra-sensvel que se procura o ponto de convergncia de todas as nossas faculdades a priori (der Vereinigungspunkt aller unserer Vermgen a priori) (Kant, 1998: 249). Pois bem, na medida em que o conceito racional transcendental do supra-sensvel no se

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    pode absolutamente determinar por intuio, sendo em si indeterminvel (an sich unbestimmbar), portanto tendo em conta que ele inapropriado para o conhecimento (zum Erkenntnis untauglich), que atravs dele no se pode conhecer nada, que a partir [dele] nada pode ser conhecido e provado acerca do objecto, por conseguinte visto que no permite apresentar nenhuma prova para o juzo de gosto (kein Beweis fr das Geschmacksurteil fhren lsst) (Kant, 1998: 247)73, sobre esse conceito que, em ltima anlise, Kant tenta fundamentar a referncia ampliada (erweiterte Beziehung) do juzo de gosto representao do objecto (ao mesmo tempo tambm do sujeito), sobre a qual fundamos uma extenso desta espcie de juzos como necessria para qualquer um (der Vorstellung des Objekts (zugleich auch des Subjekts), worauf wir eine

    Ausdehnung dieser Art Urteile als notwendig fr jedermann

    grnden) (Kant, 1998: 247). Colocando-o como princpio subjectivo do gosto, Kant atribui ao juzo de gosto validade para qualquer um (em cada um na verdade como juzo singular que acompanha imediatamente a intuio) (Gltigkeit fr jedermann (bei jedem zwar als einzelnes, die Anschauung unmittelbar begleitendes Urteil), precisamente porque o seu princpio determinante talvez se situe no conceito daquilo que pode ser considerado como o substracto supra-sensvel da humanidade (Begriffe von demjenigen, was als das bersinnliche Substrat der Menschheit angesehen werden kann ) (Kant, 1998: 247), isto , no conceito, conquanto indeterminado (nomeadamente do substracto supra-sensvel dos fenmenos) (obzwar unbestimmten Begriffe (nmlich vom bersinnlichen Substrat der Erscheinungen)) (Kant, 1998: 248).

    73 Na observao que se segue ao 57, Kant informa que um tal conceito j, quanto espcie, um conceito indemonstrvel e uma ideia da razo (Kant, 1998: 251), pois no pode em si ser dado na experincia absolutamente nada que lhe corresponda quanto qualidade (Kant, 1998: 251). Entretanto, na Crtica da Faculdade de Juzo Teleolgica, no 78, o nosso autor indica que desse conceito no podemos realizar o menor conceito definido positivamente numa inteno terica (Kant, 1998: 338).

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    A propsito da tentativa de Kant de fazer assentar a validade universal a priori do juzo de gosto na ideia do supra-sensvel, Guyer acusa o nosso autor de, tal como os seus predecessores, no evitar recorrer a uma unanimidade metafsica no que concerne ao gosto (cf. Guyer, 1997: 10), de transgredir os limites que ele prprio, Kant, estabeleceu para a metafsica (cf. Guyer, 1997: 247), de ir alm das fronteiras da sua prpria epistemologia (cf. Guyer, 1997: 311).74 No discutiremos a legitimidade do recurso de Kant a essa ideia. Limitamo-nos, por agora, a assinal-la. Mais frente, explicitaremos a sua situao na argumentao de Kant. Em resposta a Elliott (cf. Elliott, 1968), Guyer refere que a Dialctica da faculdade de juzo esttica no , claramente, a primeira tentativa de Kant para enfrentar o problema cptico, mas pode ter sido pretendida como uma resposta ltima (Guyer, 1997: 299). Devemos concentrar-nos, por ora, nas outras tentativas encetadas por Kant para justificar a validade universal a priori do juzo de gosto melhor: devemos concentrar-nos nos outros elementos a que a argumentao de Kant recorre no sentido de assegurar que o juzo de gosto um juzo esttico universalmente vlido a priori.

    2.3. O que significa um juzo de gosto ser universalmente vlido a priori?

    Ainda antes de enunciarmos esses elementos, porm, ser conveniente compreender o que a validade universal a priori que, segundo Kant, caracteriza o juzo de gosto. Desde logo deve ser notado que, no 31, imediatamente antes da explicitao das duas peculiaridades do juzo de gosto, Kant assinala que essa subespcie de juzo esttico universalmente vlido a priori. No restem dvidas quanto posio de Kant: de acordo

    74 Assim, segundo o comentador, a tentativa de Kant uma tentativa final mas infeliz (Guyer, 1997: 11) que consiste numa adenda completamente ilegtima deduo (Guyer, 1997: 247) e que, como tal, poder constituir uma das principais infelicidades expositivas da Crtica da Faculdade do Juzo (Guyer, 1997: 277). Guyer afirma-o admitindo ser o prprio Kant quem, logo no 58, coloca algumas restries ao voo do 57 na metafsica (Guyer, 1997: 309).

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    68 CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana

    com as palavras do nosso autor, o juzo de gosto dotado de validade universal a priori (Allgemeingltigkeit a priori) (Kant, 1998: 182). Nos juzos de gosto sendo, tais juzos, juzos estticos aquele que ajuza refere representaes empricas singulares dadas meramente ao seu sentimento de prazer ou desprazer, e portanto no aplica a essas representaes qualquer conceito determinado do objecto. Nessa medida, estamos obrigados a afirmar que os juzos de gosto so juzos singulares. 75 Apesar disso, Kant atribui aos juzos de gosto uma validade universal a priori, como acabmos de verificar. Segundo o nosso autor, de facto, aquele que profere um juzo de gosto reivindica de todos os outros a aprovao, reclama deles, sejam eles quem forem, sem excepo, o assentimento ao seu juzo, singular, presume em qualquer um deles a adeso a esse juzo, imputa-lhes, atribui-lhes, o mesmo comprazimento, como se este fosse um predicado do conhecimento do objecto, exige-lhes o seu acordo. 76

    O juzo de gosto no , ento, de acordo com Kant, um juzo cuja validade se limita quele que ajuza tal aproxim-lo-ia perigosamente

    75 Kant afirma-o e explica-o no 8: No que concerne quantidade lgica, todos os juzos de gosto so, juzos singulares (einzelne Urteile). Pois, porque tenho de ater o objecto imediatamente ao meu sentimento de prazer, e contudo no atravs de conceitos, assim aqueles no podem ter a quantidade de um juzo objectiva e comummente vlido (Kant, 1998: 103). Entretanto essa tese repetida nos 33 e 37, onde o nosso autor nota, respectivamente, que o juzo de gosto sempre proferido como um juzo singular (als ein einzelnes Urteil) sobre o objecto (Kant, 1998: 186) e que todos os juzos de gosto so juzos singulares (einzelne Urteile), pois eles ligam o seu predicado do comprazimento, no a um conceito, mas a uma representao emprica singular dada (Kant, 1998: 191). 76 Esta tese sublinhada, mais explicitamente, nuns casos, ou menos explicitamente, noutros, ao longo de toda a Crtica da Faculdade do Juzo, por exemplo quando est escrito, na Introduo, que o sentimento de prazer () mediante o juzo de gosto deve ser exigido a cada um (jedermann zugemutet werden soll) (Kant, 1998: 76), no 6, que [o] belo o que representado sem conceitos como objecto de um comprazimento universal (eines allgemeinen Wohlgefallens) e que tem que se atribuir ao juzo de gosto () uma reivindicao de validade para qualquer um (ein Anspruch auf Gltigkeit fr jedermann) (Kant, 1998: 99), no j citado 7, que se [algum] toma algo por belo, ento atribui a outros (mutet andern) precisamente o mesmo comprazimento (Kant, 1998: 100) e exige (fordert) dos outros o acordo unnime (Einstimmung) (Kant, 1998: 101), no tambm citado 8, que pelo juzo

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    CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana 69

    do juzo acerca do agradvel. Se os queremos distinguir um do outro, de resto, no podemos limitar-nos a afirmar que a validade do juzo de gosto

    de gosto (sobre o belo) imputa-se a qualquer um (dass man jedermann ansinne) o comprazimento no objecto, que no juzo de gosto sobre a beleza cada um presume ao outro adeso (mutet dem andern Einstimmung zu) ao seu juzo de gosto, que o gosto da reflexo () profere pretensos juzos comummente vlidos (pblicos) (vorgebliche gemeingltige (publike)) (Kant, 1998: 102) e que se ento chamamos ao objecto, belo () reivindicamos a adeso de qualquer um (man macht Anspruch auf den Beitritt von jedermann) (Kant, 1998: 104), na explicao do belo inferida do Segundo momento do juzo de gosto, a saber segundo a sua quantidade, que [b]elo o que apraz universalmente (allgemein gefllt) sem conceito (Kant, 1998: 108), na Analtica do sublime, que, tal como os juzos acerca do sublime, os juzos acerca do belo se anunciam como universalmente vlidos com respeito a cada sujeito (sich fr allgemeingltig in Ansehung jedes Subjekts ankndigende) (Kant, 1998: 137), que, tal como o comprazimento no sublime, o comprazimento no belo tem que ser, segundo a quantidade, de modo universalmente vlido (allgemeingltig) (Kant, 1998: 140) e que os juzos: o homem belo, e: ele grande, no se restringem meramente ao sujeito que julga, mas reivindicam () o assentimento de qualquer um (verlangen jedermanns Beistimmung) (Kant, 1998: 142), no citado 31, que o juzo de gosto postula de qualquer um (jedermann ansinnt) a aprovao (Beifall) (Kant, 1998: 182), no 33, que o juzo de gosto estende a sua pretenso a todos os sujeitos (alle Subjekte in Anspruch nimmt) (Kant, 1998: 186), ou, finalmente, no 58, que o juzo de gosto exige a priori validade para qualquer um (a priori Gltigkeit fr jedermann fordert) (Kant, 1998: 260). Entretanto, a propsito destas passagens, de salientar algo respeitante sua traduo. Na traduo portuguesa por ns utilizada, os verbos muten e verlangen so traduzidos por atribuir e reivindicar, respectivamente. O verbo zumuten, por sua vez, traduzido por presumir, numa passagem, e exigir, noutra. Esta ltima traduo gera uma coincidncia ao longo da traduo que fazem do texto de Kant, Antnio Marques e Valrio Rohden traduzem o verbo fordern por exigir, como deve ser feito. Nenhuma dessas opes problemtica. De facto, zumuten e fordern poderiam igualmente ser traduzidos por reclamar, por exemplo. O mesmo no acontece com a traduo de ansinnen por postular. Embora essa traduo seja legtima, importa notar que, no 8, Kant usa especificamente o verbo postulieren, bem traduzido por postular. F-lo em duas passagens: no juzo de gosto nada postulado (nichts postuliert wird) e [o] prprio juzo no postula o acordo unnime de qualquer um (postuliert nicht jedermanns Einstimmung) (Kant, 1998: 104). O facto de nestas passagens Kant usar especificamente o verbo postulieren, assim como o facto de pelo menos a segunda ser uma negao, tais factos so por ns considerados razes suficientes para que se deva restringir a postulieren a traduo por postular. de notar, de resto, que, no mesmo pargrafo,

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    extensvel a todos os sujeitos ou que se trata simplesmente da validade universal de um juzo singular (allgemeine Gltigkeit eines einzelnen Urteils) (Kant, 1998: 181). No obstante no juzo acerca do agradvel, como afirma Kant, no 7, cada um [se resignar] com o facto de que o seu juzo, que ele funda sobre um sentimento privado e mediante o qual diz de um objecto que este lhe apraz, limita-se tambm simplesmente sua pessoa (Kant, 1998: 100), pois, como continua o nosso autor, j no pargrafo seguinte, o gosto dos sentidos () profere meramente juzos privados (Kant, 1998: 102), importante lembrar que um juzo acerca do agradvel pode ser comum a todos os homens, isto , que todos os homens podem estar de acordo em relao a algo ser agradvel. Aquilo que h a salientar, assim, que, embora efectiva e frequentemente se encontre uma unanimidade muito ampla tambm nestes juzos [acerca do agradvel] (Kant, 1998: 102), essa unanimidade fruto no de regras universais, mas, nuns casos, de regras gerais e empricas ou, noutras situaes, do acaso, no sendo, ento, um requisito essencial do juzo atravs do qual se declara algo como agradvel.77 Essa , no contexto da Crtica da Faculdade do Juzo, uma diferena especfica entre o juzo

    imediatamente a seguir s duas passagens por ns citadas, Marques e Rohden voltam a traduzir ansinnen por imputar (cf. Kant, 1998: 105). Finalmente, devemos aproveitar esta nota para referir o principal problema da tese de Crawford, segundo a qual completar a deduo transcendental do juzo de gosto supe a assero de que a sensibilidade para o que simboliza a base da moralidade necessria sensibilidade moral. Mesmo que se justificasse que, enquanto indispensvel sensibilidade moral, a sensibilidade para o que simboliza a base da moralidade exigida de todos, tal apenas reforaria o valor da experincia da beleza no serviria de suporte afirmao do juzo de gosto como juzo esttico universalmente vlido a priori. Da a crtica de Jeffrey Maitland, para quem uma tal tese no distingue o problema de justificar a possibilidade de juzos estticos e o problema de justificar a importncia da experincia esttica (Maitland, 1976: 347). Os argumentos alicerados no estatuto simblico do belo no justificam, assim, a imputao de acordo no gosto. 77 Remetendo para a parte final da Observao geral sobre a exposio dos juzos reflexivos estticos, diremos que uma tal unanimidade plasma meramente uma concordncia acidental (Kant, 1998: 178); remetendo para a segunda observao que se segue ao 57, diremos que ela reside nas situaes nas quais os sujeitos casualmente estejam uniformemente organizados (Kant, 1998: 254).

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    acerca do agradvel e o juzo atravs do qual se declara algo como belo. A reivindicao de universalidade um requisito essencial somente do juzo acerca da beleza.78

    2.4. Necessidade e sensus communis

    O comprazimento inerente ao juzo atravs do qual declaramos belo um objecto , ento, segundo Kant, um comprazimento necessrio.79 No

    78 Vejam-se, nesse sentido, o 8, onde Kant afirma que esta reivindicao de universalidade pertence to essencialmente a um juzo pelo qual declaramos algo belo, que sem a pensar aquela universalidade, ningum teria ideia de usar essa expresso (dieser Anspruch auf Allgemeingltigkeit so wesentlich zu einem Urteil gehre, wodurch wir etwas fr schn erklren, da, ohne dieselbe dabei zu denken, es niemand in die Gedanken kommen wrde, diesen Ausdruck zu gebrauchen), mas tudo o que apraz sem conceito seria computado como agradvel (Kant, 1998: 102), o 32, onde ele assinala que [o] juzo de gosto determina o seu objecto com respeito ao comprazimento (como beleza) com uma pretenso do assentimento de qualquer um, como se fosse objectivo (bestimmt seinen Gegenstand in Ansehung des Wohlgefallens (als Schnheit) mit einem Anspruche auf jedermanns Bestimmung, als ob es objektiv wre) e que [d]izer esta flor bela significa apenas o mesmo que dizer dela a sua prpria pretenso ao comprazimento de qualquer um (ihren eigenen Anspruch auf jedermanns Wohlgefallen ihr nur nachfragen) (Kant, 1998: 182), e o 33, no qual nota que unicamente aquilo pelo qual considero uma tulipa singular bela, isto , pelo que considero o meu comprazimento nela vlido universalmente, um juzo de gosto (dasjenige, wodurch ich eine einzelne gegebene Tulpe schn, d. i. mein Wohlgefallen an derselben allgemeingltig, finde, ist allein das Geschmacksurteil) (Kant, 1998: 186). 79 So vrias as passagens da Crtica da Faculdade do Juzo que o sublinham. No 9, Kant nota que se denominamos algo belo, imputamos o prazer que sentimos a todo o outro como necessrio (muten wir jedem andern als notwendig zu) no juzo de gosto (Kant, 1998: 107); no primeiro pargrafo do Quarto momento do juzo de gosto segundo a modalidade do comprazimento no objecto, 18, assinala que [d]o belo () se pensa que ele tenha uma referncia necessria ao comprazimento (eine notwendige Beziehung auf das Wohlgefallen) (Kant, 1998: 128); mais frente, na explicao do belo que infere do momento citado, Kant conclui que [b]elo o que conhecido sem conceito como objecto de um comprazimento necessrio (notwendigen Wohlgefallens) (Kant, 1998: 132); no 24, j, portanto, na Analtica do sublime, o nosso autor afirma que o comprazimento no sublime , segundo a modalidade, como o comprazimento no belo, ou seja, tem de representar a

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    entender do nosso autor, o juzo de gosto afirma uma necessidade.80 O facto de que o juzo de gosto seja no um juzo lgico, mas, sim, um juzo esttico, fundado, portanto, no sentimento de prazer que se liga representao do objecto percepcionado, faz com que a necessidade que afirma no possa ser, porm, uma necessidade objectiva.81 importante

    conformidade a fins subjectiva como necessria (als notwendig) (Kant, 1998: 140); no 36, Kant diz que o juzo de gosto um juzo formal de reflexo, que imputa [o comprazimento que acompanha a representao do objecto] como necessrio (als notwendig) a qualquer um (Kant, 1998: 190); no pargrafo imediatamente a seguir (37) identifica a declarao de um objecto como belo com a imputao do comprazimento em qualquer um como necessrio (als notwendig) (Kant, 1998: 191); finalmente, no 57 o nosso autor refere que no juzo de gosto est sem dvida contida uma referncia ampliada representao do objecto (ao mesmo tempo tambm do sujeito), sobre a qual fundamos uma extenso desta espcie de juzos como necessria (als notwendig) para qualquer um (Kant, 1998: 247). 80 isso que reforado nos 31 e 35 (cf. Kant, 1998: 182 e 188), por exemplo; mas, desde logo na Primeira Introduo Crtica da Faculdade do Juzo, Kant repetidamente indica que os juzos reflexivos estticos tm pretenso necessidade (machen auf Notwendigkeit Anspruch) (Kant, 1995: 77). 81 De acordo com o 18, ela no uma necessidade objectiva terica (eine theoretische objektive Notwendigkeit) na qual pode ser conhecido a priori que qualquer um sentir este comprazimento no objecto que denomino belo, pois, [v]isto que um juzo esttico no nenhum juzo objectivo e de conhecimento, ento a necessidade que lhe inerente no pode ser deduzida de conceitos determinados e no pois apodctica (apodiktisch) (Kant, 1998: 128); no , alm disso, e de acordo com o que est escrito no mesmo pargrafo, uma necessidade prtica (praktisch), na qual atravs de conceitos de uma vontade racional pura, a qual serve de regra a entes que agem livremente, este comprazimento a consequncia necessria de uma lei objectiva e no significa seno que simplesmente (sem inteno ulterior) se deve agir de um certo modo (Kant, 1998: 128). Finalmente, tendo em conta no tanto que a experincia dificilmente conseguiria documentos suficientemente numerosos para inferir a necessidade que o juzo de gosto afirma, mas, acima de tudo, que nenhum conceito de necessidade pode fundamentar-se sobre juzos empricos, ento [m]uito menos pode ela ser inferida da universalidade da experincia (de uma unanimidade universal dos juzos sobre a beleza de um certo objecto) (Kant, 1998: 128). De resto, na Primeira Introduo, Kant chama disparate manifesto afirmao segundo a qual um juzo deve valer universalmente porque efetivamente, como a observao prova, ele vale universalmente, e vice-versa, que, de que cada qual julga de certa maneira, se segue que ele deve tambm julgar assim (Kant, 1995: 77).

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    notar que [o] gosto reivindica simplesmente autonomia ([d]er Geschmack macht blo auf Autonomie Anspruch) (Kant, 1998: 183). Se a aprovao de qualquer um, imputada pelo juzo de gosto, pudesse ser imposta mediante argumentos a priori ou se cada um se deixasse convencer atravs de argumentos empricos, ento, em qualquer desses casos, um tal juzo seria no um juzo autnomo, mas um juzo determinado por elementos estranhos a ele, o que denotaria uma heteronomia com a qual a faculdade de juzo esttica perderia a sua capacidade legisladora.82

    Ainda assim, um juzo que afirma necessidade tem de referir-se a um princpio a priori.83 No obstante as restries assinaladas, nada impede que esse princpio seja subjectivo, que a necessidade inerente ao juzo de gosto assente num princpio subjectivo: apesar de o fundamento no qual uma necessidade tem de basear-se ser obrigatoriamente um princpio a priori, pois um conceito de necessidade no pode assentar em juzos empricos, um tal princpio no tem de ser um princpio objectivo. Kant prope-no no 20, nomeadamente ao assinalar que os juzos de gosto tm que possuir um princpio subjectivo (ein subjektives Prinzip), o qual determine, somente atravs de sentimento e no de conceitos, e contudo de modo universalmente vlido, o que apraz ou desapraz (Kant, 1998: 129).84 Ora, precisamente no mesmo pargrafo (20) Kant afirma que

    82 Por o gosto reivindicar simplesmente autonomia, e, portanto, por o seu juzo, isto , o juzo atravs do qual se declara belo um objecto, um juzo esttico, ser um juzo autnomo, por isso que [n]o h (Kant, 1998: 208), como dito no 44, nem pode haver (Kant, 1998: 264), como acrescentado no 60, uma cincia do belo (Kant, 1998: 208 e 264). Se houvesse ou pudesse haver uma cincia do belo, ento deveria () ser decidido nela cientificamente, isto por argumentos, se algo deve ser tido por belo ou no; portanto se o juzo sobre a beleza pertencesse cincia, ele no seria nenhum juzo de gosto (Kant, 1998: 208). 83 Tal como Kant assinala na Primeira Introduo, a referncia a um princpio a priori pode e deve ter lugar, sempre que o juzo tem pretenso a necessidade (die Beziehung auf ein Prinzip a priori kann und muss immer noch statt finden, wo das Urteil auf Notwendigkeit Anspruch macht) (Kant, 1995: 77). 84 Ele sublinha essa tese no 36, ao referir que o princpio a priori que tem de situar-se no fundamento de um juzo formal de reflexo que imputa o comprazimento que

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    [u]m tal princpio, subjectivo, somente poderia ser considerado como um sentido comum (als ein Gemeinsinn) (Kant, 1998: 129).

    no 40 que o nosso autor apresenta a mais detalhada e explcita descrio que na Crtica da Faculdade do Juzo podemos encontrar da noo de sentido comum (sensus communis). Assinala Kant:

    [p]or sensus communis () tem que se entender a ideia de um sentido comunitrio, isto de uma faculdade de julgamento, que na sua reflexo considera em pensamento (a priori) o modo de representao de todo o outro, como que para ater o seu juzo inteira razo humana e assim escapar iluso que a partir de condies privadas subjectivas, as quais facilmente poderiam ser tomadas por objectivas teria influncia prejudicial sobre o juzo (die Idee eines gemeinschaftlichen Sinnes, d. i. eines Beurteilungsvermgens verstehen, welches in seiner Reflexion auf

    die Vorstellungsart jedes andern in Gedanken (a priori) Rcksicht nimmt, und gleichsam an die gesammte Menschenverunft sein Urteil zu halten und dadurch der Illusion zu entgehen, die aus subjektiven

    Privatbedingungen, welche leicht fr objektiv gehalten werden knnten,

    auf das Urteil nachteiligen Einflu haben wrde) (Kant, 1998: 196).

    Ao ajuizar atravs dessa faculdade, aquele que ajuza abstrai o seu juzo de tudo aquilo que atrai ou comove e funda esse juzo unicamente no que comum a todos os homens, a saber, o nvel formal da representao do objecto.85 Trata-se, aqui, da adopo de um ponto de vista universal (ein

    acompanha a representao do objecto como necessrio a qualquer sujeito pode ser um princpio simplesmente subjectivo (blo subjektives) (na suposio de que um princpio objectivo devesse ser impossvel em tal espcie de juzos) (Kant, 1998: 190). Imediatamente antes da Deduo dos juzos estticos puros, o nosso autor afirmava que no caso de um juzo de gosto ter de valer necessariamente como plural, se a gente o reconhece como algo que, ao mesmo tempo, pode reclamar que qualquer um deva dar-lhe a sua adeso, ento no seu fundamento tem que situar-se algum princpio a priori (seja ele objectivo ou subjectivo (subjektives)) (Kant, 1998: 178). 85 na medida em que simplesmente abstramos das limitaes que acidentalmente aderem ao nosso prprio julgamento: o que por sua vez produzido pelo facto que na medida do possvel se elimina aquilo que no estado da representao matria, isto sensao, assim que se presta ateno pura e simplesmente s peculiaridades formais da sua representao ou do seu estado de representao (die formalen Eigentmlichkeiten seiner Vorstellung oder seines Vorstellungszustandes) (Kant, 1998: 196).

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    allgemeiner Standpunkt) (Kant, 1998: 198) que faz com que o sujeito pense no lugar de todo o outro ([a]n der Stelle jedes andern) (Kant, 1998: 196) e assim cumpra a mxima da faculdade do juzo (Kant, 1998: 198), a saber, a segunda mxima da maneira de pensar (Denkungsart) (Kant, 1998: 197), a maneira de pensar alargada (erweitert) (Kant, 1998: 196-197).

    No caso de, ao faz-lo, o sujeito adquirir conscincia de que as faculdades da imaginao e do entendimento se exercitam reciprocamente num jogo subjectivamente conforme a fins, nesse caso ele reivindicar de todos os outros a aprovao, reclamar deles, forem eles quem forem, sem excepo, o assentimento ao seu juzo, singular, presumir em qualquer um deles a adeso a esse juzo, imputar-lhes-, atribuir-lhes-, o mesmo comprazimento, como se esse fosse um predicado do conhecimento do objecto, exigir-lhes- o seu acordo. Tal acontecer porque a disposio consonante entre as faculdades do juzo, mais livremente alcanada, como acontece no juzo de gosto, ou menos, universalmente comunicvel.86

    86 No 21, Kant defende que o conhecimento universalmente comunicvel: [c]onhecimentos e juzos, juntamente com a convico que os acompanha, tm que poder comunicar-se universalmente (mssen allgemein mitteilen lassen); pois de contrrio eles no alcanariam nenhuma concordncia com o objecto: eles seriam em suma um jogo simplesmente subjectivo das faculdades de representao, precisamente como o cepticismo o reclama (Kant, 1998: 129-130). O conhecimento tem como condio indispensvel a sua comunicabilidade universal. Sabemos, alm disso, que, de acordo com Kant, o que se requer para um conhecimento em geral uma relao de unanimidade entre as faculdades da imaginao e do entendimento por ocasio da representao de um objecto. Essa tese , como j notmos, reforada pelo nosso autor ao longo da Crtica da Faculdade do Juzo, concretamente na Primeira Introduo, na Introduo, no 9, no 21, que agora citamos, e nos 35, 38, 39 e 58. Pois bem, se o conhecimento universalmente comunicvel e se para se conhecer condio subjectiva a referida relao das faculdades de conhecimento entre si, ento essa relao algo que, segundo Kant, pode ser pressuposto em qualquer pessoa. Se conhecimentos devem poder comunicar-se, ento, defende o nosso autor, tambm o estado do nimo, isto a disposio das faculdades de conhecimento para um conhecimento em geral, e na verdade aquela proporo que se presta a uma representao (pela qual um objecto nos dado), para fazer dela um conhecimento, tem que poder comunicar-se universalmente (muss sich auch der Gemtszustand, d. i. die Stimmung der Erkenntniskrfte zu einer Erkenntnis

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    sobre a pressuposio de um sentido comum, ento, que, de acordo com Kant, o juzo de gosto faz assentar a sua necessidade. Essa necessidade, baseada num princpio subjectivo, e sendo, por conseguinte, uma necessidade subjectiva, no objectiva, , ainda assim, uma necessidade a priori, precisamente porque assente num sentido comum.87 Esse sentido comum, considerando o que se escreve no 40, o gosto.88

    berhaupt, und zwar diejenige Proportion, welche sich fr eine Vorstellung (wodurch

    uns ein Gegenstand gegeben wird) gebhrt, und daraus Erkenntnis zu machen, allgemein mitteilen lassen); porque sem esta condio subjectiva do conhecer o conhecimento como efeito no poderia surgir (Kant, 1998: 130). Importa notar, finalmente, que, embora, por questes metodolgicas, tenhamos seguido o raciocnio plasmado no 21, a posio exposta na passagem transcrita tinha sido j assumida por Kant, no 9, enquanto a era sugerido que se o conhecimento determinado, baseado na mencionada relao subjectiva como condio subjectiva, universalmente comunicvel, ento esta relao subjectiva prpria do conhecimento em geral tem de valer tambm para todos e consequentemente ser universalmente comunicvel (deses zum Erkenntnis berhaupt schickliche subjektive Verhltnis eben so wohl fr

    jedermann gelten und folglich allgemein mitteilbar sein msse) (Kant, 1998: 106-107). Essa posio reforada quer ainda no mesmo pargrafo, no qual Kant refere que, por ser exigida para todo o conhecimento, a consonncia proporcionada por ns considerada vlida para qualquer um que est destinado a julgar atravs do entendimento e sentidos coligados (para todo homem) (fr jedermann, der durch Verstand und Sinne in Verbindung zu urteilen bestimmt ist (fr jeden Menschen),

    gltig) (Kant, 1998: 108), quer no 38, quando o nosso autor assinala que requerido para o conhecimento possvel em geral que a condio subjectiva possa ser pressuposta em todos os homens (in allen Menschen) (Kant, 1998: 192). 87 Esta nossa afirmao est plasmada nos prprios ttulos dos 19, 20 e 22, respectivamente: A necessidade subjectiva que atribumos ao juzo de gosto condicionada (bedingt) (Kant, 1998: 128), A condio (Die Bedingung) da necessidade que um juzo de gosto pretende a ideia de um sentido comum (Kant, 1998: 129) e A necessidade do assentimento universal que pensada num juzo de gosto, uma necessidade subjectiva, que sob a pressuposio de um sentido comum representada como objectiva (eine subjektive Notwendigkeit, die unter der Voraussetzung eines Gemeinsinns als objektiv vorgestellt wird) (Kant, 1998: 130). 88 Veja-se o ttulo do pargrafo: Do gosto como uma espcie de sensus communis (Vom Geschmacke als einer Art von sensus communis) (Kant, 1998: 195). Numa nota a esse pargrafo, Kant afirma mesmo que se pode designar o gosto como sensus communis aestheticus (durch sensus communis aestheticus) (Kant, 1998: 269). Lembremos que o gosto a faculdade do juzo esttica, como assinalado na Introduo, e que atravs dos juzos de gosto se ajuza a conformidade a fins formal

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    2.5. Necessidade subjectiva, necessidade e validade exemplares, voz

    universal

    importante ressalvar, no entanto, que, tal como afirmado no 8, [o] prprio juzo de gosto no postula o acordo unnime de qualquer um (postuliert nicht jedermanns Einstimmung) (pois isto s pode faz-lo um juzo lgico-universal, porque ele pode alegar razes) (Kant, 1998: 104-105).89 No 22, Kant refora essa tese f-lo ao salvaguardar que o gosto, enquanto sentido comum, no diz que qualquer um ir concordar com o nosso juzo (sagt nicht, dass jedermann mit unserm Urteile bereinstimmen werde) (Kant, 1998: 131). Aquilo que o sentido comum diz, nas palavras do nosso autor, que qualquer um deve concordar (zusammenstimmen solle) com o referido juzo (Kant, 1998: 131).90 Ora, embora seja certo que, ainda no 22, Kant caracteriza o dever (das Sollen)

    (tambm chamada subjectiva), mediante o sentimento do prazer ou desprazer (Kant, 1998: 79). Por outras palavras: ajuizar atravs do gosto significa ajuizar atravs de um sentido comum que tem em conta unicamente o sentimento de prazer na observao da conformidade a fins do movimento simultaneamente livre e harmnico das faculdades de conhecimento entre si por ocasio da representao que se faz do objecto. De resto, considerando que o sentimento de uma tal disposio das faculdades da imaginao e do entendimento entre si , como seguidamente veremos, universalmente comunicvel, Kant acrescentar, tambm no 40, que [p]oder-se-ia at definir o gosto pela faculdade de julgamento daquilo que torna o nosso sentimento, numa representao dada, universalmente comunicvel, sem mediao de um conceito (durch das Beurteilungsvermgen desjenigen, was unser Gefhl an einer gegebenen Vorstellung ohne Vermittelung eines Begriffs allgemein mitteilbar macht) e que o gosto a faculdade de ajuizar a priori a comunicabilidade dos sentimentos que so ligados a uma representao dada (sem mediao de um conceito) (das Vermgen, die Mitteilbarkeit der Gefhle, welche mit gegebener Vortsellung (ohne Vermittelung

    eines Begriffs) verbunden sind, a priori zu beurteilen) (Kant, 1998: 198). 89 Esta uma das passagens do 8 nas quais Kant usa especificamente o verbo postulieren, traduzido, correctamente, por postular. 90 Desde logo na Primeira Introduo Crtica da Faculdade do Juzo, Kant afirma que os juzos reflexivos estticos [t]m pretenso a necessidade, e no dizem que cada qual julga assim com isto seriam um problema de explicao para a psicologia emprica mas que se deve julgar assim (sagen nicht, dass jedermann so urteile dadurch sie eine Aufgabe zur Erklrung fr die empirische Psychologie sein wrden

    sondern dass man so urteilen solle) (Kant, 1995: 77).

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    como a necessidade objectiva da confluncia do sentimento de qualquer um com o sentimento particular de cada um (die objektive Notwendigkeit des Zusammenflieens des Gefhls von jedermann mit jedes seinem

    besondern) (Kant, 1998: 131), j assinalmos que a necessidade inerente ao juzo de gosto uma necessidade subjectiva. Assim sendo, num juzo de gosto, o dever usando as palavras do 19 portanto expresso s condicionadamente (nur bedingt ausgesprochen) (Kant, 1998: 128).

    Uma outra noo que Kant utiliza para caracterizar a necessidade subjectiva inerente ao juzo de gosto a noo de necessidade exemplar (exemplarische Notwendigkeit). Essa necessidade, de acordo com o que o nosso autor escreve no 18, uma necessidade do assentimento de todos a um juzo que considerado como exemplo de uma regra universal que no se pode indicar (eine Notwendigkeit der Bestimmung aller zu einem Urteil, was als Beispiel einer allgemeinen Regel, die man nicht angeben

    kann, angesehen wird) (Kant, 1998: 128). Ora, precisamente por constituir um exemplo que o juzo de gosto tem aquilo a que alguns pargrafos depois, no 22, Kant chama validade exemplar (exemplarische Gltigkeit) (Kant, 1998: 131). Cada juzo que com ele concorda , neste contexto, uma instncia da referida regra universal que no se pode indicar. Usando as palavras do 8, diremos que o acordo um caso da regra (einen Fall der Regel) (Kant, 1998: 105). no mesmo 8, de resto, que Kant salvaguarda que a nica coisa que o juzo de gosto postula (postuliert) uma voz universal (allgemeine Stimme) com vista ao comprazimento sem mediao dos conceitos; por conseguinte a possibilidade de um juzo esttico, que ao mesmo tempo possa ser considerado como vlido para qualquer um (Kant, 1998: 104).91

    2.6. Justificao do sentido comum

    Pois bem, embora a citada voz universal seja, como afirmado ainda no 8, somente uma ideia (nur eine Idee) (Kant, 1998: 105), embora o

    91 Esta a primeira das passagens do 8 nas quais Kant usa especificamente o verbo postulieren.

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    sensus communis, seja, como mais frente, no 22, se escreve, uma simples norma ideal (eine bloe idealische Norm), este pode ser, de acordo com Kant, admitido como subjectivo-universal (uma ideia necessria para qualquer um) (fr subjektiv-allgemein (eine jedermann notwendige Idee) angenommen) (Kant, 1998: 131). Pode s-lo na medida em que se esteja autorizado a admiti-lo como condio indispensvel validade universal do conhecimento. No 21, tal como tivemos oportunidade de assinalar, Kant defende que, se o conhecimento universalmente comunicvel, ento a disposio das faculdades da imaginao e do entendimento entre si para um conhecimento em geral tambm o . Ora, ainda nesse pargrafo, o nosso autor acrescenta, primeiro, que a referida disposio das faculdades de conhecimento algo cujo sentimento tambm universalmente comunicvel e, logo a seguir, que, pressupondo a comunicabilidade universal de um sentimento um sentido comum, ento um tal sentido pode ser admitido como condio sine qua non da comunicabilidade universal do conhecimento:

    visto que esta prpria disposio [das faculdades de conhecimento para um conhecimento em geral] tem que poder comunicar-se universalmente e, por conseguinte tambm o sentimento da mesma (numa representao dada), mas visto que a comunicabilidade universal de um sentimento pressupe um sentido comum: assim este poder ser admitido com razo (die allgemeine Mitteilbarkeit eines Gefhls setzt einen Gemeinsinn voraus: so wird dieser mit Grunde angenommen werden knnen), e na verdade sem neste caso se apoiar em observaes psicolgicas, mas como a condio necessria da comunicabilidade universal do nosso conhecimento, a qual pressuposta em toda a lgica e em todo o princpio dos conhecimentos que no seja cptico (Kant, 1998: 130).

    A tentativa de justificao do sentido comum est, assim, efectuada. Com ela dado, no entender de Kant, um passo indispensvel para a deduo transcendental do juzo esttico reflexivo.

    De resto, apesar de o comprazimento no belo (o prazer sentido por ocasio do proferimento de um juzo de gosto) ser um prazer cuja necessidade subjectiva, essa sua necessidade , no entanto, segundo Kant, uma necessidade a priori que assenta numa condio universal. O

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    juzo atravs do qual se declara belo um objecto, a saber, o juzo de gosto, , ento, de acordo com o nosso autor, um juzo dotado de validade universal a priori, no obstante essa validade universal no ser uma universalidade lgica. Embora esta posio seja explicitada no 31, concretamente quando Kant identifica universalidade subjectiva (subjektive Allgemeinheit) com o assentimento de qualquer um (jedermanns Beistimmung) (Kant, 1998: 181) e refere que a validade universal a priori do juzo de gosto no uma universalidade lgica segundo conceitos mas a universalidade de um juzo singular (die Allgemeinheit eines einzelnen Urteils) (Kant, 1998: 182), a sua possibilidade assenta logo no 6, onde se assinala que a reivindicao que tem de ligar-se ao juzo de gosto uma reivindicao de universalidade subjectiva (ein Anspruch auf subjektive Allgemeinheit) (Kant, 1998: 100), e no 8, em cujo ttulo o nosso autor afirma que [a] universalidade do comprazimento representada num juzo de gosto somente como

    subjectiva ([d]ie Allgemeinheit des Wohlgefallens wird in einem Geschmacksurteile nur als subjektiv vorgestellt) (Kant, 1998: 101).92

    2.7. Um princpio

    Regressemos, agora, ao princpio do gosto. Importa fazer um esclarecimento concernente relao entre o sentido comum e o princpio da conformidade a fins formal da natureza para as nossas faculdades de 92 Igualmente no 8, Kant acrescenta as expresses validade comum (Gemeingltigkeit) e universalidade esttica (sthetische Allgemeinheit) para designar essa universalidade subjectiva e distingui-la da universalidade lgica: de acordo com Kant, o juzo de gosto dotado de uma validade comum, a qual designa a validade no da referncia de uma representao faculdade de conhecimento, mas ao sentimento de prazer e desprazer para cada sujeito (Kant, 1998: 103); a sua universalidade uma universalidade esttica, que no conecta o predicado da beleza ao conceito do objecto, considerado em sua inteira esfera lgica, e no entanto estende o mesmo sobre a esfera inteira dos que julgam (Kant, 1998: 103); aquilo que ele traz consigo no uma quantidade objectiva do juzo, mas somente uma subjectiva (nur eine subjektive) (Kant, 1998: 103), ou seja, uma quantidade esttica da universalidade, isto , da validade para qualquer um (eine sthetische Quantitt der Allgemeinheit, d. i. der Gltigkeit fr jedermann) (Kant, 1998: 104).

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    conhecimento. Na passagem para a Deduo dos juzos estticos puros, Kant afirma que sem que [o gosto] mesmo tenha princpios a priori, ser-lhe-ia impossvel dirigir os juzos de outros e, com pelo menos alguma aparncia de direito, apresentar pretenses de aprovao ou rejeio a respeito deles (ohne dass derselbe Prinzipien a priori habe, knnte er unmglich die Urteile anderer richten und ber sie auch nur mit einigem

    Scheine des Rechts Billigungs oder Verwerfungsaussprche fllen) e que [a] pretenso de um juzo esttico validade universal para todo o sujeito carece, como um juzo que tem de apoiar-se sobre algum princpio a priori, de uma deduo (isto , de uma legitimao da sua presuno) ([d]er Anspruch eines sthetischen Urteils auf allgemeine Gltigkeit fr jedes Subjekt bedarf als ein Urteil, welches sich auf irgend ein Prinzip a priori fuen muss, einer Deduktion (d. i. Legitimation seiner Anmaung) (Kant, 1998: 179). Assumir que a condio na qual a reivindicao de universalidade do juzo de gosto (universalidade esttica, subjectiva, validade comum) assenta a pressuposio de um sentido comum, tal no resulta na afirmao de uma multiplicidade de princpios para o juzo de gosto. O princpio a priori do gosto e, portanto, do juzo de gosto o princpio da conformidade a fins formal da natureza para as nossas faculdades de conhecimento. Segundo Kant, a legalidade desse princpio s pode ser entendida por relao ao conceito racional transcendental do supra-sensvel: a ideia do supra-sensvel o fundamento da referida conformidade.93 Ora, atravs da introduo do gosto como sentido

    93 como condio do entendimento da legalidade do princpio da conformidade a fins formal da natureza para as nossas faculdades de conhecimento que se situa a ideia do supra-sensvel na argumentao de Kant em prol da validade universal a priori do juzo de gosto. Indicar Guyer, neste contexto, que Kant parece supor que a conformidade a fins na qual consiste o movimento livre e harmnico das faculdades de conhecimento entre si, estabelecida para ns pela nossa prpria natureza, s pode ser explicada se transcendermos os limites do mundo emprico e as faculdades necessrias para compreend-lo e, em vez disso, invocarmos aluses realidade numnica (Guyer, 1997: 304). questo de saber se uma tal explicao necessria e, portanto, questo de saber se a recorrncia ideia do supra-sensvel indispensvel, ou, sequer, til, a essa questo podemos abster-nos de responder

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    82 CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana

    comum, Kant procura licenciar a ligao de um sentimento de prazer (o comprazimento da reflexo, no o comprazimento dos sentidos) ao mencionado princpio da conformidade a fins formal da natureza para as nossas faculdades de conhecimento. assim que ele tenta legitimar a reivindicao de universalidade que diz pertencer to essencialmente a um juzo pelo qual declaramos algo belo (Kant, 1998: 102); assim que ele tenta sustentar a validade universal de um juzo singular (Kant, 1998: 181); assim que ele tenta justificar, enfim, a validade universal a priori do juzo de gosto (Kant, 1998: 182). Proferir um juzo de gosto proferir um juzo esttico (baseado num sentimento de prazer) que assenta na representao de uma conformidade a fins formal do objecto para as faculdades de conhecimento do sujeito. Essa representao, no entender de Kant, no pode ocorrer sem referncia ao conceito racional transcendental do supra-sensvel e depende de que aquele que ajuza ajuze atravs de um sentido comum (o gosto) mediante o qual ele considera apenas o sentimento de prazer ligado a um movimento simultaneamente livre e harmnico das suas faculdades de conhecimento entre si por ocasio da representao do objecto.94

    2.8. Juzo errneo

    Um segundo esclarecimento prende-se com o proferimento de juzos errneos. De acordo com o 22 da Crtica da Faculdade do Juzo, que aquele que ajuza esteja seguro de ter feito a subsuno correcta (sicher richtig subsumiert zu haben) (Kant, 1998: 131) condio necessria para que ele exija assentimento universal. Essa condio , entretanto, mais duas vezes citada por Kant, a saber, na observao que faz ao pargrafo intitulado [d]eduo dos juzos de gosto (Deduktion der Geschmacksurteile) (Kant, 1998: 191), observao na qual afirma que

    enquanto o nosso objectivo for o de meramente explicitar como tenta Kant assegurar que o juzo de gosto um juzo esttico universalmente vlido a priori. 94 Para uma compreenso esquemtica deste processo, remetemos o leitor para o anexo 2. Articulao.

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    CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana 83

    essa deduo to fcil (Kant, 1998: 192) pelo facto de o juzo de gosto afirmar

    somente que estamos autorizados a pressupor universalmente em cada homem as mesmas condies subjectivas da faculdade do juzo que encontramos em ns, e ainda, que sob estas condies subsumimos correctamente o objecto dado (wir unter diesen Bedingungen das gegebene Objekt richtig subsumiert haben) (Kant, 1998: 192),

    e, logo a seguir, no 39, onde o nosso autor acrescenta que

    aquele que julga com gosto (contanto que ele no se engane nesta conscincia e no tome a matria pela forma, o atractivo pela beleza (wenn er nur in diesem Bewusstsein nicht irrt und nicht die Materie fr die Form, Reiz fr Schnheit nimmt)) pode postular em todo o outro a conformidade a fins subjectiva, isto o seu comprazimento no objecto, e admitir o seu sentimento como universalmente comunicvel e na verdade sem mediao dos conceitos (Kant, 1998: 195).95

    A questo que emerge, neste contexto, a de saber se aquele que ajuza pode estar certo de fazer a subsuno correcta, de subsumir correctamente o objecto dado, de ajuizar com gosto poder ele ter a certeza de que ajuza atravs do gosto, de que profere um juzo de gosto, de que o seu juzo alicerado num comprazimento desinteressado?

    Na Fundamentao da Metafsica dos Costumes, a propsito da aco moral, Kant indica que

    no se pode () provar com exactido a partir de nenhum exemplo que a vontade seja aqui determinada unicamente pela lei sem qualquer outro mbil para alm dela, ainda que o parea, pois sempre possvel que o temor do oprbio, talvez mesmo uma obscura premonio de outros perigos, tenham sobre a vontade uma secreta influncia (Kant, 2003: 89).96

    95 Tendo em conta a argumentao por ns anteriormente apresentada, consideramos que, tambm nesta passagem, ansinnen seria melhor traduzido por imputar e no por postular, como o caso. 96 A questo em causa a de saber [c]omo provar atravs da experincia a no realidade de uma causa, se a experincia nada nos ensina para alm do facto de que somos incapazes de apreender essa mesma causa? (Kant, 2003: 89). Antecipando essa questo, Kant, na mesma obra, assinala que perfeitamente impossvel

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    Aplicando esta tese ao juzo de gosto, afirmaremos, com Guyer, que nenhuma falha para mostrar evidncia de um interesse aps uma procura de qualquer particular extenso pode provar que nenhum interesse causou o prazer da pessoa (Guyer, 1997: 182).97 Esta impossibilidade constitui uma limitao inerente aos juzos causais: [o] facto de que uma procura finita possa estabelecer conclusivamente a presena de uma causa possvel, mas no a sua ausncia, um problema para o juzo causal em geral (Guyer, 1997: 183). Por isso que qualquer juzo causal tem aquilo a que Guyer chama uma corrigibilidade intrnseca (Guyer, 1997: 182).

    determinar a partir da experincia, com absoluta certeza, um s caso em que a mxima de uma aco, de resto conforme ao dever, tenha tido como nico motivo os princpios morais e a representao do mesmo dever. Pois na verdade acontece, por vezes, mesmo depois do mais escrupuloso exame de conscincia, no encontrarmos absolutamente nada que, para alm do princpio moral do dever, tenha tido poder suficiente para nos levar a praticar uma qualquer boa aco, ou submetermo-nos a um qualquer grande sacrifcio; mas nada nos permite inferir dessas circunstncias com certeza absoluta que no tenha realmente sido um secreto impulso do amor-prprio, embora oculto sob a simples aparncia daquela ideia, a verdadeira causa determinante, da vontade; o facto que nos extremamente agradvel atribuirmo-nos, mesmo que sem fundamento, um princpio de determinao mais nobre; mas na realidade, nunca poderemos, por mais rigoroso que seja o exame a que nos submetamos, penetrar completamente at aos mbiles secretos; ora, quando se trata de valor moral, o essencial no reside nas aces em si mesmas, mas nos seus princpios interiores, que no se vem (Kant, 2003: 75). Anos depois, no texto Sobre a Expresso Corrente: Isto pode ser correcto na teoria, mas nada vale na prtica, o nosso autor reafirma a sua tese: Concedo de bom grado que nenhum homem pode tornar-se consciente com toda a certeza de ter cumprido o seu dever de um modo inteiramente desinteressado, pois isso cabe experincia interna, e para esta conscincia do seu estado de alma seria preciso ter uma representao perfeitamente clara de todas as representaes marginais e de todas as consideraes associadas ao conceito de dever mediante a iamginao, o hbito e a inclinao, representao essa que em nenhum caso se pode exigir; a inexistncia de algo (por conseguinte, tambm de uma vantagem secretamente pensada) no pode em geral ser tambm objecto da experincia (Kant, 2004: 68). 97 Concluir que um comprazimento desinteressado depende da conscincia da presena ou ausncia de outros factos ou estados de mente associados a isso (Guyer, 1997: 180). Acontece que [s]e a procura por um interesse uma procura na rede dos prprios pensamentos e associaes de algum, sempre possvel que ele no tenha procurado suficientemente longe ou na direco certa (Guyer, 1997: 182).

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    Ora, o juzo relativo causa do sentimento de prazer , tambm ele, um juzo causal: trata-se de um juzo emprico relativo causa do sentimento de prazer daquele que ajuza.98 Note-se que o carcter desinteressado de um comprazimento no pode ser manifestado por um sentimento especial e caracterstico e que [a] conscincia de desinteresse no apercebimento de qualquer sentimento fenomenologicamente nico (Guyer, 1997: 180). O juzo atravs do qual se afirma que o comprazimento que se sente um comprazimento desinteressado constitui um juzo indirecto que liga um prazer sentido harmonia das faculdades em virtude da ausncia de evidncia para certos outros juzos acerca da causa ou efeito desse prazer, sendo que, como tal, ele no pode fornecer evidncia conclusiva (Guyer, 1997: 181). Trata-se, ento, de um juzo falvel (Guyer, 1997: xix). Por essa razo, o juzo de gosto, ainda de acordo com Guyer, retm sempre um elemento de incerteza (Guyer, 1997: 143) e tem de ser sempre menos do que completamente certo (Guyer, 1997: 248). Aquele que ajuza no pode estar completamente certo de que o prazer que sente por ocasio da representao que faz do objecto derivado de uma harmonia livre das suas faculdades de conhecimento o movimento das suas faculdades de conhecimento entre si pode no ser um movimento livre, embora sendo harmnico, e aquele que ajuza pode no saber disso.

    Ser, porm, que a impossibilidade de aquele que ajuza estar certo quanto ao carcter desinteressado do seu comprazimento coloca em causa a pretenso do juzo de gosto validade universal a priori? Ser que um eventual engano coloca em causa essa pretenso? Na supracitada observao que se segue ao 38, depois de defender que o juzo de gosto 98 Trata-se usando novamente as palavras de Guyer de um juzo emprico acerca do seu prprio estado mental, de uma hiptese acerca de um troo da sua prpria histria mental, onde h sempre espao para erro e motivao escondida (Guyer, 1997: 134), trata-se de um juzo acerca de uma ligao causal particular na minha prpria histria mental (Guyer, 1997: 147), trata-se de um juzo caracterizado por hipteses e conjecturas acerca de conexes causais na histria mental da pessoa (Guyer, 1997: 182), trata-se de um juzo emprico acerca da prpria histria mental de algum (Guyer, 1997: 292).

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    afirma que sob as condies subjectivas universais da faculdade do juzo h uma subsuno correcta do objecto dado, Kant acrescenta que

    conquanto este ltimo ponto contenha dificuldades inevitveis, que no so inerentes faculdade de juzo lgica (porque nesta se subsume em conceitos, enquanto na faculdade de juzo esttica se subsume numa relao que meramente pode ser sentida da faculdade da imaginao e do entendimento reciprocamente concordantes entre si na forma representada do objecto, em cujo caso a subsuno facilmente pode enganar), porm com isso no se retira nada da legitimidade da pretenso da faculdade do juzo de contar com um assentimento universal, pretenso que somente decorre de julgar de um modo vlido a correco do princpio a partir de fundamentos subjectivos para qualquer um (so wird dadurch doch der Rechtmigkeit des Anspruchs der Urteilskraft,

    auf allgemeine Beistimmung zu rechnen, nichts benommen, welcher nur

    darauf hinausluft, die Richtigkeit des Prinzips aus subjektiven Grnden

    fr jedermann gltig zu urteilen) (Kant, 1998: 192-193).

    A razo apresentada pelo nosso autor imediatamente a seguir:

    no que concerne dificuldade e dvida quanto correco da subsuno naquele princpio, ela torna to pouco duvidosa a legitimidade da pretenso a esta validade de um juzo esttico em geral, por conseguinte o prprio princpio, quanto a igualmente errnea (embora no to frequente e fcil) subsuno da faculdade de juzo lgica no seu princpio pode tornar duvidoso este princpio, que objectivo (was die Schwierigkeit und den Zweifel wegen der Richtigkeit der Subsumtion

    unter jenes Prinzip betrifft, so macht sie die Rechtmigkeit des

    Anspruchs auf diese Gltigkeit eines sthetischen Urteils berhaupt,

    mithin das Prinzip selber so wenig zweifelhaft, als die eben sowohl

    (obgleich nicht so oft und leicht) fehlerhafte Subsumtion der logischen

    Urteilskraft unter ihr Prinzip das letztere, welches objektiv ist,

    zweifelhaft machen kann) (Kant, 1998: 193).

    Proferir um juzo de gosto pressupe fazer a subsuno correcta; se a subsuno errada, aquele que ajuza no est a proferir um juzo de gosto, isto , no est a ajuizar atravs da faculdade de juzo esttica e do seu princpio. Nesse caso, a razo da discrdia residir no proferimento de juzos de espcies diferentes um, de gosto; outro, no. Trata-se apenas da aplicao incorrecta a um caso particular da autorizao que uma lei nos d (die unrichtige Anwendung der Befugnis, die ein Gesetz uns gibt,

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    auf einen besondern Fall), sendo que com isso a autorizao em geral no suprimida (wodurch die Befugnis berhaupt nicht aufgehoben wird) (Kant, 1998: 268). No existir, neste contexto, aquilo a que, no 8, Kant chama juzo de gosto errneo (irriges Geschmacksurteil) (Kant, 1998: 105). Um juzo de gosto errneo no um juzo de gosto; um juzo que assenta em algo que no o sentimento de prazer na harmonia livre das faculdades de conhecimento entre si por ocasio da representao de um objecto.99 Tal no significa que aquele que ajuza esteja ou sequer possa estar certo de que o juzo de gosto que profere efectivamente um juzo de gosto significa apenas que esse juzo um juzo de gosto, independentemente de se estar ou no estar certo de que o , de poder-se ou no se poder estar certo de que o . No colocada em causa, assim, atravs da introduo da possibilidade de ajuizar-se erradamente, a argumentao de Kant em prol da validade universal a priori do juzo de gosto. Se aquele que ajuza profere um juzo de gosto, ento, segundo Kant, ele reivindica de todos os outros a aprovao, reclama deles, sejam eles quem forem, sem excepo, o assentimento ao seu juzo, singular, presume em qualquer um deles a adeso a esse juzo, imputa-lhes, atribui-lhes, o mesmo comprazimento, como se este fosse um predicado do conhecimento do objecto, exige-lhes o seu acordo.

    ***

    Consideramos ter tornado claro, ao longo desta segunda seco, em que medida o juzo de gosto , no entender de Kant, um juzo dotado de validade universal a priori. Fizemo-lo conscientes da complexidade da argumentao da Crtica da Faculdade do Juzo, mas evitando

    99 De resto, apesar de usar a expresso juzo de gosto errneo e de indicar que aquele que ajuza profere juzos de gosto errneos, Kant no deixa de referir aquele que cr proferir um juzo de gosto (der, welcher ein Geschmacksurteil zu fllen glaubt), e no aquele que efectivamente profere um juzo de gosto (Kant, 1998: 105).

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    desenvolver os problemas dessa argumentao.100 A mesma opo metodolgica foi tomada na primeira seco. Nem os problemas relacionados com a caracterizao do juzo de gosto como juzo esttico reflexivo, nem aqueles que concernem especificamente argumentao de Kant a favor da validade universal a priori do juzo de gosto constituem o objecto principal da nossa investigao. Pretendemos saber se e sob que condies ser legtimo falar-se de bela arte se e como poder falar-se de bela arte no contexto da Crtica da Faculdade do Juzo. Para responder de maneira suficientemente sustentada a essa questo era indispensvel elencar detalhada, justificada e articuladamente as exigncias que um juzo tem de satisfazer para que atravs dele se declare belo um objecto. isso que consideramos ter feito ao longo do primeiro captulo da nossa tese.

    100 Talvez o principal problema da argumentao de Kant em prol da validade universal a priori do juzo de gosto se prenda com a suposio de que a relao livre e harmnica das faculdades de conhecimento daquele que ajuza ocorre sob as mesmas condies em todos aqueles que ajuzam. Essa ocorrncia contingente. Alis, como alerta Guyer, precisamente por ser contingente que a ocorrncia desta harmonia ocasiona um prazer que no sentido em todos os casos de conhecimento (Guyer, 1997: 288). Assim, se h um problema para a deduo de Kant do juzo esttico, que uma similaridade geral das faculdades de conhecimento humanas no parece implicar que ns temos todos de responder da mesma maneira a objectos particulares (Guyer, 1997: 305). essa implicao, contudo, que uma deduo transcendental do juzo de gosto exige.

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    Captulo II: Arte

    1. JUZO ATRAVS DO QUAL SE DECLARA ARTSTICO UM OBJECTO

    1.1. Obra de arte

    Elencados os critrios atravs dos quais algo declarado belo, enunciadas as exigncias que um juzo tem de satisfazer para que atravs dele se declare que um objecto belo, as caractersticas essenciais do juzo de gosto, tempo de elencarmos os critrios atravs dos quais algo declarado uma obra de arte, de enunciarmos os requisitos indispensveis declarao de uma coisa como artstica, as caractersticas essenciais do juzo atravs do qual se declara artstico um objecto.

    Na primeira alnea do primeiro pargrafo acerca da arte (Kunst) em geral (43) Kant salienta que, sendo pensado por uma causa que actua

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    sob uma especfica ponderao da razo, um objecto artstico (um produto artstico) no um efeito (Wirkung), mas uma obra (Werk) (cf. Kant, 1998: 206).101 No seguimento , alis, sugerida uma tripla caracterizao de um tal produto: um produto artstico o resultado de um exerccio da liberdade, assim da razo do homem, portanto de um ser humano (cf. Kant, 1998: 206-207). De resto, Kant conclui a mesma alnea afirmando que se () se denomina algo absolutamente uma obra de arte (ein Kunstwerk), para distingui-la de um efeito da natureza (eine Naturwirkung), ento entende-se sempre por isso uma obra dos homens (ein Werk der Menschen) (Kant, 1998: 207)102. Os produtos artsticos so, por definio, obras dos homens, consequncias do exerccio da sua razo e do seu arbtrio.103 Na alnea seguinte (2)), embora constatemos reforado o estatuto da arte como obra dos homens, observamo-la enquanto distinta da cincia (Wissenschaft): a arte uma habilidade (Geschicklichkeit), exige uma tcnica (Technik), efectiv-la requer um poder de execuo que no seja imediatamente derivado de um saber (cf. Kant, 1998: 207). Finalmente, na terceira alnea (3)), e estendendo os seus comentrios ao pargrafo seguinte (44), Kant divide a arte em

    101 O nosso autor escreve tambm os termos latinos correspondentes, respectivamente effectus e opus. 102 Uma eventual distino entre artstico (knstlich) e artificial (knstlich) prender-se- unicamente com o carcter no casual das obras de arte. Todos os objectos artsticos so objectos artificiais no naturais, portanto mas nem todos os objectos artificiais so objectos artsticos: entre os objectos artificiais, uns h que so obras de arte; outros, produtos do acaso. Ainda assim, devemos salientar que os termos por ns referidos partem de uma nica e mesma palavra: knstlich. 103 No s no 43, mas tambm no 90, j na Crtica da Faculdade de Juzo Teleolgica, concretamente numa nota s inferncias segundo a analogia, Kant recusa qualquer identificao da arte com aquilo que ele designa por instinto artstico (Kunstinstinkt) (Kant, 1998: 372) ou faculdade artstica animal (tierischen Kunstvermgen) (Kant, 1998: 425), vedando o acesso dos animais ao terreno da primeira. Isso no significa, contudo, que ele os considere mquinas de acordo com o nosso autor, os animais esto, alis, unidos ao homem (enquanto seres vivos) segundo o gnero, pois tambm agem segundo representaes (Kant, 1998: 426); o que, no entanto, no se pode concluir que os animais tm uma razo igual dos homens ou sequer uma razo (cf. Kant, 1998: 425-426).

  • ARTE

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    vrias ramificaes, a saber, arte livre (Freiekunst), arte remunerada (Lohnkunst) ou ofcio (Handwerk), arte mecnica (mechanische Kunst) e arte esttica (sthetische Kunst) (cf. Kant: 1998: 207-209).104 A arte esttica ou arte agradvel ou bela arte (angenehme oder schne Kunst) (Kant, 1998: 209).

    Ainda no 43, na sua parte final, Kant afirma que

    em todas as artes livres se requer () algo coercivo ou, como se diz, um mecanismo (in allen freien Knsten etwas Zwangsmiges, oder, wie man es nennt, ein Mechamismus), sem o qual o esprito, que na arte tem de ser livre e o qual unicamente vivifica a obra, no teria absolutamente nenhum corpo e volatilizar-se-ia integralmente (por exemplo na poesia a correco e a riqueza da linguagem, igualmente a prosdia e a mtrica) (Kant, 1998: 208);

    e no 47, o nosso autor refere que no h nenhuma arte bela na qual algo mecnico, que pode ser captado e seguido segundo regras, e portanto algo escolstico, no constitua a condio essencial da arte (gibt es keine schne Kunst, in welcher nicht etwas Mechanisches, welches nach Regeln gefasst und befolgt werden kann, und also etwas

    Schulgerechtes die wesentliche Bedingung der Kunst ausmachte) (Kant, 1998: 215). A razo da necessidade desta componente mecnica e escolstica da arte e, de acordo com a ltima passagem, da bela arte sublinhada em vrios excertos da Crtica da Faculdade do Juzo: assim, na Introduo, Kant assinala que na arte () realizamos um conceito de um objecto antecipadamente concebido que para ns fim (wir einen vorhergefassten Begriff von einem Gegenstande, der fr uns Zweck ist, realisieren) (Kant, 1998: 78); no 47, indica que um objecto s artstico se algo for pensado como fim (als Zweck gedacht) (Kant, 1998: 215); e, finalmente, no 48, refora que a arte sempre pressupe um fim na causa (e na sua causalidade) (Kunst setzt immer einen Zweck in der Ursache (und deren Kausalitt) voraus)

    104 Salvaguarde-se, entretanto, a possibilidade de eventuais cruzamentos entre algumas das referidas ramificaes: a arte mecnica, por exemplo, pode simultaneamente ser um ofcio (arte remunerada).

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    92 CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana

    (Kant, 1998: 216).105 Pois bem, a actualizao de um fim pressupe determinadas regras. Como defende Kant, no 46, para pr um fim em aco so requeridas determinadas regras, das quais no se pode dispensar-se ([u]m einen Zweck ins Werk zu richten, dazu werden bestimmte Regeln erfordert, von denen man sich nicht frei sprechen

    darf) (Kant, 1998: 215).106 Assim sendo, devemos afirmar, como o nosso autor afirma, no 46, que cada arte pressupe regras, atravs de cuja fundamentao pela primeira vez um produto, se ele deve chamar-se artstico, representado como possvel (jede Kunst setzt Regeln voraus, durch deren Grundlegung allererst ein Produkt, wenn es

    knstlich heien soll, als mglich vorgestellt wird) e que sem uma regra precedente um produto jamais se pode chamar arte (ohne vorhergehende Regel in Produkt niemals Kunst heien kann) (Kant, 1998: 211). 1.2. Representao de uma conformidade a fins objectiva interna

    Importa compreender o que um fim. Citemos trs passagens nas quais, de uma maneira explcita, Kant apresenta a noo de fim (Zweck): uma, da Introduo, aquela na qual o nosso autor afirma que o conceito de um objecto, na medida em que ele ao mesmo tempo contm o fundamento da efectividade deste objecto, se chama fim (der Begriff von einem Objekt, sofern er zugleich den Grund der Wirklichkeit dieses Objekts enthlt, heit

    der Zweck) (Kant, 1998: 63); a segunda, do 10, a passagem em que, no contexto da reintroduo e abordagem da noo de conformidade a fins (Zweckmigkeit), Kant diz que fim o objecto de um conceito, na medida em que este for considerado como a causa daquele (o fundamento

    105 Na primeira alnea do 43, no obstante no usar a palavra fim (Zweck), Kant sugere que no caso de uma obra de arte o efeito pensado pela causa (Kant, 1998: 207). 106 Se quisermos citar a parte final do 45, diremos que essas so as regras segundo as quais unicamente o produto pode tornar-se aquilo que ele deve ser (Kant, 1998: 211).

  • ARTE

    CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana 93

    real de sua possibilidade) (Zweck ist der Gegenstand eines Begriffs, sofern

    dieser als die Ursache von jenem (der reale Grund seiner Mglichkeit)

    angesehen wird), concluindo que [o]nde pois no porventura pensado

    simplesmente o conhecimento de um objecto mas o prprio objecto (a

    forma ou existncia do mesmo) como efeito, enquanto possvel somente

    mediante um conceito do ltimo, a se pensa um fim ([w]o also nicht etwa

    blo die Erkenntnis von einem Gegenstande, sondern der Gegenstand

    selbst (die Form oder Existenz desselben) als Wirkung, nur als durch

    einen Begriff von der letztern mglich gedacht wird, da denkt man sich

    einen Zweck) (Kant, 1998: 109); finalmente, numa terceira passagem, no

    15, Kant escreve que fim em geral aquilo cujo conceito pode ser

    considerado como fundamento da possibilidade do prprio objecto (Zweck

    berhaupt dasjenige ist, dessen Begriff als der Grund der Mglichkeit des

    Gegenstandes selbst angesehen werden kann) (Kant, 1998: 117-118).

    Em qualquer das trs passagens citadas a noo de fim apresentada em

    estreita ligao com a noo de conceito (Begriff).107 O produto artstico

    constitui-se, neste contexto, como efeito de um conceito do objecto, isto

    , como efectivao, enquanto objecto, do conceito que orientou a sua

    107 Na Primeira Introduo Crtica da Faculdade do Juzo, Kant afirma, respectivamente, que fins so representaes que tm de ser, elas mesmas,

    consideradas como condies da causalidade de seus objetos (como efeitos)

    (Kant, 1995: 69) e que somente em produtos da arte podemos tomar conscincia da causalidade da razo em relao a objetos que por isso se

    chamam finais ou fins e, quanto a eles, denominar tcnica razo adequado experincia da causalidade da nossa prpria faculdade (Kant, 1995: 72); na

    Crtica da Faculdade de Juzo Teleolgica, o nosso autor dir que chamamos

    fim o produto de uma causa, cujo fundamento de determinao simplesmente a representao do respectivo efeito (Kant, 1998: 332) e que o efeito

    representado, cuja representao ao mesmo tempo o fundamento de

    determinao da causa inteligente actuante, chama-se fim (Kant, 1998: 354). Embora nestas passagens no seja usado o termo conceito, evidente o acordo

    de qualquer uma delas com as trs anteriormente transcritas. Ressalvemos, no entanto, que no deve ser lida nas nossas palavras qualquer identificao entre

    as noes de conceito e de fim. Alis, nem sequer pode ser afirmado que um

    conceito sempre pensado como um fim.

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    criao. H, na criao artstica, um nexus finalis, uma conexo das causas ideais.108

    Consideremos, complementarmente, algo que Kant escreve numa nota explicao do belo deduzida do Terceiro momento do juzo de gosto, segundo a relao dos fins que neles considerada. A propsito de coisas nas quais se v uma forma (Form) conforme a fins, sem reconhecer nelas um fim, isto , de objectos que em sua figura (Gestalt) [denunciam] claramente uma conformidade a fins, para a qual no se conhece o fim, o nosso autor assinala que o facto de que se os considera uma obra de arte j suficiente para ter que admitir que a gente refere a sua figura a alguma inteno qualquer e a um fim determinado (dass man sie fr ein Kunstwerk ansieht, ist schon genug, um gestehen zu mssen,

    dass man ihre Figur auf irgend eine Absicht und einen bestimmten Zweck

    bezieht) (Kant, 1998: 268). Se assim , temos de concluir no apenas que o artista refere a figura do seu objecto inteno que orientou a sua construo, isto , determinada inteno de produzir algo (bestimmte Absicht etwas hervorzubringen) que, no 45, Kant sublinhar que a arte tem sempre (hat Kunst jederzeit) (Kant, 1998: 210), mas tambm que a prpria declarao desse objecto como artstico pressupe a referncia da sua figura ao conceito de um fim ao ajuizarmos um objecto como obra de arte, somos obrigados a considerar um fim determinado, somos

    108 Vejamos o que significa conexo das causas ideais (die Idealenursachenverknpfung). Trata-se de uma ligao causal segundo um conceito da razo (de fins), ligao que, se a considerarmos como uma srie, conteria tanto no sentido descendente, como no ascendente uma forma de dependncia, na qual a coisa, que uma vez foi assinalada como efeito, passa ento no sentido ascendente a merecer o nome de uma causa daquela coisa de que ela fora o efeito (Kant, 1998: 289-290). Apesar de Kant s referir uma tal conexo j na Crtica da Faculdade de Juzo Teleolgica, pelo menos utilizando exactamente essa expresso, ele refere-a sugerindo tratar-se de uma conexo que facilmente se encontra no domnio da arte. Observe-se, a propsito, o exemplo do objecto casa: a casa () na verdade a causa dos rendimentos que so recebidos pelo respectivo aluguer, porm tambm inversamente foi a representao deste possvel rendimento a causa da construo da casa (Kant, 1998: 290). neste mbito que nos parece relevante assinalar a noo de conexo das causas ideais.

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    obrigados a considerar o conceito daquilo que esse objecto deve ser, e a referir a sua forma a esse conceito.109

    Referir a forma de um objecto ao conceito que fundamenta a possibilidade desse objecto, ou, melhor, constatar a concordncia dessa forma com o conceito que fundamenta o prprio objecto e a sua forma, tal significa constatar a conformidade a fins objectiva do objecto.110 A perfeio um tipo de conformidade a fins objectiva, a saber, uma conformidade a fins objectiva interna.111 Ora, se, como Kant afirma, na Introduo, a representao de uma conformidade a fins dessa espcie isto , objectiva: representada, portanto, com base num princpio objectivo ao relacionar a forma do objecto com um conhecimento determinado do objecto sob um conceito dado, nada tem a ver com o sentimento de prazer nas coisas, mas sim com o entendimento no julgamento das mesmas (hat nichts mit einem Gefhle der Lust an den Dingen, sondern mit dem Verstande in Beurteilung derselben zu tun) (Kant, 1998: 78), ento a representao de uma perfeio, sendo ela um tipo de conformidade a fins objectiva, igualmente tem a ver no com o sentimento de prazer nos objectos, mas com o entendimento no julgamento dos mesmos.112 Logo,

    109 Facilmente se observa, nas nossas palavras, um uso indistinto dos termos forma, eleito por Antnio Marques e Valrio Rohden para traduzir Form, e figura, eleito pelos mesmos tradutores para abarcar os termos Gestalt e Figur. A possibilidade de ser o prprio Kant a permitir-nos tal uso poder ser atestada na seco Forma, nomeadamente atravs da recorrncia a passagens dos 14 (cf. Kant, 1998: 116), 16 (cf. Kant, 1998: 120-121), 30 (cf. Kant, 1998: 179-180) e 48 (cf. Kant, 1998: 216-217). Por ora, no precisamos de citar essas passagens. Em si mesma, a supramencionada nota explicao do belo deduzida do Terceiro momento do juzo de gosto, segundo a relao dos fins que neles considerada envolve um uso indistinto dos termos Form, Gestalt e Figur. 110 De acordo com o 15, como j vimos, a conformidade a fins objectiva a referncia do objecto a um fim determinado (die Beziehung des Gegenstandes auf einen bestimmten Zweck) (Kant, 1998: 117). 111 igualmente no 15, como tambm j vimos, que Kant identifica a conformidade a fins objectiva interna com a perfeio, assim como identifica a conformidade a fins objectiva externa com a utilidade (cf. Kant, 1998: 117). 112 Na Primeira Introduo Crtica da Faculdade do Juzo, l-se, no mesmo sentido, que perfeio, como mera completude da pluralidade na medida em que constitui

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    quando ajuizamos a conformidade de um objecto em relao ao conceito do fim que o fundamento da sua possibilidade, embora possamos estar a ajuizar esse objecto enquanto obra de arte, no estamos a ajuiz-lo quanto beleza.113

    1.3. Possibilidade de falar-se de bela arte

    Por si s ou conjuntamente, nenhum dos requisitos que enuncimos enquanto indispensveis declarao de um objecto como artstico impede que um objecto artstico possa ser declarado belo. Vimos que, por definio, na causa de uma obra de arte, como condio da sua possibilidade, como fundamento da sua efectividade, da sua realizao, est um fim (um conceito daquilo que o objecto deve ser, o efeito representado). Alm disso, a prpria declarao do objecto como artstico pressupe a referncia da sua figura a esse conceito de fim. No entanto, nenhum desses requisitos impede que o mesmo objecto possa ser declarado belo. Se tivermos em conta algo que est escrito no 16, assumiremos ser possvel proferir um juzo de gosto a respeito de um objecto no fundamento do qual esteja uma finalidade interna determinada.

    uma unidade, um conceito ontolgico, que o mesmo que o da totalidade de um composto (por coordenao do diverso em um agregado ou, ao mesmo tempo, pela subordinao do mesmo como fundamentos e conseqncias em uma srie), e no tem o mnimo que ver com o sentimento de prazer e desprazer (mit dem Gefhle der Lust oder Unlust nicht das mindeste zu tun hat) (Kant, 1995: 64). 113 Como assinala Kant, no 15, no obstante a perfeio estar, por comparao com a utilidade, isto , com a conformidade a fins externa objectiva, mais prxima da beleza, s tomada como idntica a esta ltima se ela for pensada confusamente (wenn sie verworren gedacht wird) (Kant, 1998: 117). Entretanto, no 58, o nosso autor sublinhar a diferena entre a beleza e a perfeio: visto que, considerados em si, nem um juzo de gosto um juzo de conhecimento, nem a beleza uma qualidade do objecto, assim o racionalismo do princpio de gosto jamais pode ser posto no facto de que nesse juzo a conformidade a fins seja pensada como objectiva, isto que o juzo tenha a ver teoricamente, por conseguinte tambm logicamente (se bem que somente num julgamento confuso), com a perfeio do objecto (die Zweckmigkeit in diesem Urteile als objektiv gedacht werde, d. i. dass das Urteil theoretisch, mithin

    auch logisch (wenn gleich nur in einer verworrenen Beurteilung) auf die

    Vollkommenheit des Objekts) (Kant, 1998: 255).

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    Assim, na parte final desse pargrafo, Kant afirma que [u]m juzo de gosto seria puro com respeito a um objecto com fim interno determinado somente se aquele que julga no tivesse nenhum conceito desse fim ou se abstrasse dele em seu juzo ([e]in Geschmacksurteil wrde in Ansehung eines Gegenstandes von bestimmtem innern Zwecke nur alsdann rein sein,

    wenn der Urteilende entweder von diesem Zwecke keinen Begriff htte,

    oder in seinem Urteile davon abstrahierte) (Kant, 1998: 122). O mesmo dizer que um tal objecto pode ser declarado belo. Podemos declar-lo como tal se ignorarmos a finalidade interna determinada que est no seu fundamento ou se no nosso juzo abstrairmos dela.

    Considerando aquilo que expusemos at agora, podemos concluir que a declarao de um objecto como belo nada tem a ver com a representao de uma conformidade a fins objectiva, seja essa interna ou externa. Artstico ou natural, o objecto ser declarado belo se, por ocasio da sua representao, aquele que ajuza sentir uma harmonia livre das suas faculdades de conhecimento entre si, por conseguinte, se ele observar uma conformidade a fins sem fim, uma conformidade a fins subjectiva, uma conformidade a fins formal.

    No que diz respeito aos objectos da natureza, mais do que ignorarmos qual o fim interno determinado a que a sua criao poder ter estado submetida, no temos conhecimento de que essa criao tenha estado submetida a um conceito de um fim. Assim, no caso do belo na figura humana, de acordo com a Observao geral sobre a exposio dos juzo reflexivos estticos,

    no temos que recorrer a conceitos de fins, como fundamentos determinantes do juzo e em vista dos quais todos os seus membros existem, nem deixar a concordncia com esses conceitos influir sobre o nosso (ento no mais puro) juzo esttico (Kant, 1998: 169).

    Mesmo que, alis, concebssemos um eventual fim interno determinado que teria regido a criao de um objecto da natureza, essa possibilidade no impediria que sobre um tal objecto proferssemos um puro juzo de gosto e que livremente pudssemos declar-lo belo. Para que como tal pudssemos ajuiz-lo, teramos de abstrair de qualquer conformidade a fins objectiva, isto

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    , de qualquer concordncia entre o objecto e um conceito daquilo que ele deva ser. Kant d um exemplo desta possibilidade no 16. Afirma ele:

    Flores so belezas naturais livres. Que espcie de coisa uma flor deva ser, dificilmente o saber algum alm do botnico; e mesmo este, que no caso conhece o rgo de fecundao da planta, se julga a este respeito atravs do gosto, no toma em considerao este fim da natureza. Logo, nenhuma perfeio de qualquer espcie, nenhuma conformidade a fins interna, qual se refira a composio do mltiplo, posta no fundamento deste juzo (Es wird also keine Vollkommenheit von irgend einer Art, keine innere Zweckmigkeit, auf welche sich die Zusammensetzung des

    Mannigfaltigem beziehe, diesem Urteile zum Grunde gelegt) (Kant, 1998: 120).

    Para ajuizar se uma flor bela, o botnico tem apenas de abstrair de qualquer fim a que a sua criao eventualmente tenha estado submetida, tendo, por conseguinte, de ignorar qualquer conformidade a fins objectiva interna da flor a esse conceito de fim. Retomando as nossas consideraes acerca das obras de arte, resta-nos salientar, ento, duas teses: o juzo atravs do qual se declara belo um objecto e o juzo atravs do qual se declara artstico um objecto no obedecem aos mesmos critrios; os critrios a que cada uma dessas espcies de juzos obedece no tornam incompatvel a declarao de um objecto artstico como belo. Tendo em conta o que temos vindo a explicitar, devemos responder afirmativamente questo de saber se poder um objecto artstico ser ajuizado atravs de um juzo de gosto, se poder uma obra de arte ser declarada bela, e, por conseguinte, questo de saber se legtimo falar-se de bela arte.

    2. JUZO ATRAVS DO QUAL SE DECLARA BELA UMA OBRA DE ARTE

    2.1. Impossibilidade de falar-se de bela arte

    Sem prejuzo do que temos vindo a explicitar, devemos admitir que tal no tudo o que Kant assinala acerca da beleza, da arte ou da beleza da arte. No 48, o nosso autor profere a seguinte afirmao:

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    Se () o objecto dado como um produto da arte e como tal deve ser declarado belo, ento tem que ser posto antes no fundamento um conceito daquilo que a coisa deva ser, porque a arte sempre pressupe um fim na causa (e na sua causalidade); e visto que a consonncia do mltiplo numa coisa com vista a uma determinao interna da mesma enquanto fim a perfeio da coisa, assim no julgamento da beleza da arte tem que ser tida em conta ao mesmo tempo a perfeio da coisa (Wenn () der Gegenstand fr ein Produkt der Kunst gegeben ist und als solches fr schn erklrt werden soll: so muss, weil Kunst immer

    einen Zweck in der Ursache (und deren Kausalitt) voraussetzt, zuerst

    ein Begriff von dem zum Grunde gelegt werden, was das Ding sein soll;

    und da die Zusammenstimmung des Mannigfaltigen in einem Dinge zu

    einer innern Bestimmung desselben als Zweck die Volkommenheit des

    Dinges ist, so wird in der Beurteilung der Kunstschnheit zugleich die

    Volkommenheit des Dinges in Anschlag gebracht werden mssen) (Kant, 1998: 216).

    De acordo com esta passagem, ajuizar um objecto artstico como belo supe a representao de uma conformidade a fins objectiva interna desse objecto, representao que, como sabemos, assenta na constatao de que o objecto exibe adequadamente o conceito de fim que o causou, isto , na constatao de que o objecto apresenta para esse conceito uma intuio que lhe corresponde. Aquele que ajuza acerca da beleza de um objecto artstico tem de ter em conta, no seu juzo, a finalidade interna determinada que est na causa desse objecto, no podendo, portanto, abstrair do conceito dessa finalidade.

    A questo qual desde o incio da nossa investigao nos propusemos responder a de saber se e sob que condies ser legtimo falar-se de bela arte, isto , se e como poder uma obra de arte ser declarada bela. Contrariamente aos requisitos indispensveis declarao de um objecto como artstico, a exigncia que agora apresentamos parece impedir que possa declarar-se bela uma obra de arte, pois, como vimos, o juzo atravs do qual se declara belo um objecto o juzo de gosto, juzo que, segundo o ttulo do 15, totalmente independente do conceito de perfeio (ist von dem Begriffe der Vollkommenheit gnzlich unabhngig) (Kant, 1998: 117). A possibilidade de proferimento de um juzo de gosto com respeito a um objecto com fim interno determinado

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    parece, ento, no se confirmar. Colocando lado-a-lado as condies indispensveis ao julgamento de um objecto como belo e a exigncia segundo a qual ao ajuizar se uma obra de arte bela aquele que ajuza tem de considerar a conformidade a fins objectiva interna da coisa, parecemos obrigados a concluir que uma obra de arte no pode ser declarada bela.114 Aquilo que faz aparecer como inaceitvel a concluso contrria (uma obra de arte poder ser declarada bela) a incompatibilidade entre, por um lado, a total independncia do juzo de gosto em relao ao conceito de perfeio, isto , conformidade a fins objectiva interna da coisa e, por conseguinte, ao conceito daquilo que o objecto deva ser, e, por outro lado, a dependncia por mnima que possa ser do julgamento da beleza da arte em relao a esse mesmo conceito de perfeio. Se o juzo atravs do qual se declara belo um objecto o juzo de gosto, como inicialmente notmos, se o juzo de gosto absolutamente independente do conceito de perfeio, como entretanto acrescentmos, e se no juzo atravs do qual se declara bela uma obra de arte tem de ser tida em conta a perfeio do objecto, como no-lo indica o 48, ento parece no poder ajuizar-se acerca da eventual beleza de uma obra de arte por outras palavras: uma obra de arte no pode ser declarada bela, no legtimo falar-se de bela arte.115

    2.2. Perfeies

    Regressemos ao 15. Nesse pargrafo, Kant estabelece uma distino entre dois tipos de perfeio, a saber, perfeio qualitativa (qualitative

    114 Sublinhe-se a inexistncia de qualquer incompatibilidade entre as condies indispensveis declarao de um objecto como belo e os requisitos a preencher para se declarar um objecto como artstico. Nem sequer h uma incompatibilidade entre as mencionadas condies e a necessidade de na declarao de um objecto como artstico se referir o objecto em causa finalidade determinada que orientou a sua criao, isto , ao conceito precedente daquilo que o objecto deva ser. 115 Se [o] juzo de gosto totalmente independente do conceito de perfeio (Kant, 1998: 117), ento, visto que no julgamento da beleza da arte tem que ser tida em conta ao mesmo tempo a perfeio da coisa (Kant, 1998: 216), a bela arte ou no exactamente bela ou no exactamente artstica.

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    Vollkommenheit) e perfeio quantitativa (quantitative Vollkommenheit) (cf. Kant, 1998: 118). A perfeio quantitativa definida como a completude de cada coisa em sua espcie, e simples conceito de quantidade (da totalidade) (die Vollstndigkeit eines jeden Dinges in seiner Art, ein bloer Grenbegriff (der Allheit) ) (Kant, 1998: 118). No juzo acerca deste tipo de perfeio j antecipadamente pensado como determinado o que a coisa deva ser (Kant, 1998: 118). Apenas se pergunta se est no objecto todo o requerido para isso (Kant, 1998: 118). Representar uma perfeio qualitativa significa, por sua vez, representar numa coisa a concordncia do mltiplo (die Zusammenstimmung des Mannigfaltigen) com o conceito do que esta coisa deva ser (der Begriff von diesem, was es fr ein Ding sein solle) (Kant, 1998: 118). Um tal conceito precede o objecto e fornece nele a regra da ligao do mesmo (Kant, 1998: 118). Assim, enquanto num juzo acerca da perfeio quantitativa de um objecto, aquele que ajuza quer unicamente saber o grau de conformidade do objecto em relao quilo que um objecto da sua espcie requer, num juzo acerca da perfeio qualitativa, desse ou de outro objecto, aquele que ajuza avalia a conformidade do objecto inteno que precede a sua criao e de acordo com a qual o objecto avaliado como perfeito ou imperfeito. Na passagem supramencionada do 48, a perfeio qualitativa parece ser aquela a necessariamente ter em conta no juzo atravs do qual se declara bela uma obra de arte. No entanto, segundo o ttulo do 15, h uma total independncia do juzo de gosto em relao ao conceito de perfeio . Logo, um juzo no qual tem de ser tida em conta a perfeio, qualitativa ou quantitativa, no um juzo de gosto. A distino entre perfeio qualitativa e perfeio quantitativa revela-se irrelevante, ento, no que concerne questo de saber se o juzo atravs do qual se declara bela uma obra de arte um juzo de gosto. Considerando o que at agora expusemos, vemo-nos obrigados a concluir que o juzo atravs do qual se declara bela uma obra de arte no um juzo de

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    gosto e, por conseguinte, que uma obra de arte no pode ser declarada bela, que no legtimo falar-se de bela arte.

    2.3. Beleza aderente e juzo de gosto aplicado

    No 16, sem que algo o fizesse prever, Kant estabelece uma diviso que, sob um certo ponto de vista, autorizaria que se falasse de bela arte. Trata-se da diviso da beleza em beleza livre (freie Schnheit) e beleza simplesmente aderente (blo anhngende Schnheit) (cf. Kant, 1998: 120).116 Ainda no incio desse pargrafo, logo a seguir a nomear essas duas espcies de beleza, o nosso autor assinala que a segunda, sendo aderente a um conceito (beleza condicionada) (einem Begriffe anhngend (bedingte Schnheit)), e, portanto, atribuda a objectos que se encontram sob o conceito de um fim particular (Objekten, die unter dem Begriffe eines besondern Zwecks stehen, beigelegt) (Kant, 1998: 120), pressupe um conceito daquilo que o objecto deva ser (setzt einen Begriff von dem voraus, was der Gegenstand sein soll) e a perfeio do objecto segundo esse conceito (die Vollkommenheit des Gegenstandes nach demselben) (cf. Kant, 1998: 120). Pois bem, se no julgamento da beleza de tais objectos nomeadamente igrejas, palcios, arsenais ou casas de campo, exemplos dados por Kant e que no so exemplos de objectos da natureza de maneira a declar-los belos, tm de ser tidos em conta os conceitos de fins que determinam aquilo que os respectivos objectos devam ser e, alm disso, a perfeio de cada um desses objectos segundo os respectivos conceitos de fins, ento, se assim , uma obra de arte pode, sem hesitao, ser considerada bela. a prpria noo de beleza aderente, note-se, precisamente enquanto cumprindo, por definio, o que no 48 apresentado como um requisito indispensvel ao julgamento da beleza da arte a saber, que seja tida em conta ao mesmo tempo a perfeio do objecto aquilo autoriza que se fale de bela arte. Se as condies para que se considere belo um objecto artstico nomeadamente a condio acrescentada no 48 no entram em conflito com as exigncias

    116 Kant escreve igualmente os termos latinos correspondentes, a saber, pulchritudo vaga e pulchritudo adhaerens.

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    que um juzo tem de cumprir para que se declare que algo belo o que nos permitido concluir se admitirmos que a beleza pode ser aderente, ou, melhor, que a beleza aderente , de direito, uma espcie de beleza ento permitido falar-se de bela arte.

    O problema no , no entanto, de to fcil soluo. Ser legtima a introduo de uma espcie de beleza cujos critrios entram em conflito com os critrios da prpria beleza? Admitir a beleza aderente como uma espcie de beleza obrigaria a admitir que o juzo atravs do qual se declara belo um objecto no necessariamente o juzo de gosto, pois o juzo de gosto totalmente independente do conceito de perfeio.117 Kant no admite que o juzo atravs do qual se declara belo um objecto no necessariamente o juzo de gosto. No entanto, ele estabelece uma distino entre juzos de gosto que anloga distino entre beleza livre e beleza aderente, a saber, a distino entre puro juzo de gosto (reines Geschmacksurteil) e juzo de gosto aplicado (angewandtes Geschmacksurteil). Assim, na parte final do 16, sugerindo a possibilidade de dois indivduos discordarem acerca da beleza de um objecto, o nosso autor afirma que

    [a]travs desta distino pode-se dissipar muita disseno dos juzos de gosto sobre a beleza, enquanto se lhes mostra que um considera a beleza livre, o outro a beleza aderente, o primeiro profere um juzo de gosto puro, o segundo um juzo de gosto aplicado (der erstere ein reines, der zweite ein angewandtes Geschmacksurteil flle) (Kant, 1998: 122).

    A questo que emerge a de saber se a noo de juzo de gosto aplicado , ela mesma, legtima, ou, melhor, a questo de saber se legtimo admitir uma espcie de juzo de gosto cujos critrios entram em conflito com os critrios do prprio juzo de gosto enquanto juzo esttico. Nada do que at agora expusemos sustenta uma tal admisso. Um juzo de gosto um juzo esttico, portanto um juzo cujo fundamento de determinao o sentimento de prazer ou desprazer que se liga representao do objecto. O juzo de

    117 Repetimo-lo: O juzo de gosto totalmente independente do conceito de perfeio (Kant, 1998: 117).

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    gosto no , ento, um juzo de conhecimento. Kant associa esta subespcie de juzo esttico (o juzo esttico reflexivo, o juzo de gosto) beleza livre. O juzo de gosto aplicado, diferentemente, associado por Kant beleza aderente. J dissemos que no julgamento da beleza aderente tm de ser tidos em conta o conceito daquilo que o objecto deva ser e a perfeio do objecto segundo esse conceito, portanto a conformidade a fins objectiva interna da coisa. Nesse caso, a representao do objecto referida a um conceito de fim; no apenas ao sujeito e ao seu sentimento de prazer ou desprazer. isso que, segundo Kant, ocorre nos juzos que ele coloca no mbito dos juzos de gosto impuros, juzos que o nosso autor no deixa de considerar de gosto, embora sem que apresente uma justificao para tal. Vejam-se, nesse sentido, desde logo o ttulo do 16, no qual afirmado que [o] juzo de gosto, pelo qual um objecto declarado belo sob a condio de um

    conceito determinado, no puro ([d]as Geschmacksurteil, wodurch ein Gegenstand unter der Bedingung eines bestimmten Begriffs fr schn erklrt wird, ist nicht rein) (Kant, 1998: 120), e a passagem, do mesmo pargrafo, segundo a qual um juzo de gosto que se torne dependente de um conceito de perfeio e por esse se torne limitado deixa de ser um juzo de gosto livre e puro (ist nicht mehr ein freies und reines Geschmacksurteil) (Kant, 1998: 121). Acontece que um juzo que no seja livre no pode ser um juzo de gosto. Ele um juzo interessado e, portanto, viciado, faccioso e parcial, algo que o juzo de gosto no pode ser. O prazer que se sente por ocasio do proferimento de um juzo de gosto sem interesse, um comprazimento desinteressado, um comprazimento totalmente livre. A noo de juzo de gosto aplicado no pode, ento, ser admitida. O chamado juzo de gosto aplicado no um juzo de gosto. Por conseguinte, no pode declarar-se belo um objecto atravs do chamado juzo de gosto aplicado. Assim, a resposta questo de saber se pode falar-se de bela arte uma resposta negativa: no pode falar-se de bela arte.

    2.4. Juzo esttico logicamente condicionado

    Centremo-nos agora noutra passagem do 48. Ao distinguir beleza da natureza (Naturschnheit) e beleza da arte (Kunstschnheit), utilizando

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    os casos do ser humano e do cavalo, j utilizados no 16 (cf. Kant, 1998: 121), Kant diz o seguinte:

    Na verdade, no julgamento principalmente dos objectos animados da natureza, por exemplo do homem ou de um cavalo, habitualmente tomada tambm em considerao a conformidade a fins objectiva para julgar sobre a beleza dos mesmos; porm ento o juzo tambm deixa de ser puramente esttico, isto um simples juzo de gosto (ist das Urteil nicht mehr rein-sthetisch, d. i. bloes Geschmacksurteil) (Kant, 1998: 216).

    Num tal juzo, [a] natureza no mais ajuizada como ela aparece enquanto arte, mas na medida em que ela efectivamente arte (embora sobre-humana) ([d]ie Natur wird nicht mehr beurteilt, wie sie als Kunst erscheint, sondern sofern sie wirklich (obzwar bermenschliche) Kunst

    ist) (Kant, 1998: 216). Trata-se de um juzo no qual um juzo teleolgico serve ao juzo esttico como fundamento e condio que este tem que tomar em considerao (das teleologische Urteil dient dem sthetischen zur Grundlage und Bedingung, worauf deses Rcksicht nehmen muss) (Kant, 1998: 216). Kant exemplifica-o com a frase esta uma mulher bonita, na qual no se pensa seno isto: a natureza representa belamente na sua figura os fins na estatura feminina (die Natur stellt in ihrer Gestalt die Zwecke im weiblichen Baue schn vor) (Kant, 1998: 216). o prprio Kant a admitir que, em casos como este, tem que se estender a vista para alm da simples forma at um conceito (man muss noch ber die bloe Form auf einen Begriff hinaussehen) (Kant, 1998: 216). Ora, no entender do nosso autor, o juzo em causa um juzo esttico logicamente condicionado (ein logisch-bedingtes sthetiches Urteil) (Kant, 1998: 217). Acontece que, como vimos no primeiro captulo da nossa tese, o juzo esttico sem conceito. Assim, o chamado juzo esttico logicamente condicionado no , nem pode ser, um juzo esttico trata-se de um juzo acerca da perfeio. Nessa medida, ele no pode ser considerado um juzo de gosto. O proferimento de um juzo de gosto no envolve o conhecimento do tipo de coisa que o objecto deva ser, um conceito desse objecto. Ora, tal como no pode declarar-se belo um

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    objecto atravs do chamado juzo de gosto aplicado, tambm no pode declarar-se belo um objecto atravs do chamado juzo esttico logicamente condicionado. A introduo da noo de juzo esttico logicamente condicionado (logisch-bedingtes sthetiches Urteil) no permite que se responda afirmativamente questo de saber se uma obra de arte pode ser declarada bela. Por conseguinte, a resposta a essa questo continua a ser uma resposta negativa: uma obra de arte no pode ser declarada bela no legtimo falar-se de bela arte. 2.5. Beleza fixada e juzo de gosto em parte intelectualizado

    No deixa de ser relevante salientar, por outro lado, os exemplos que, no 16, Kant d de objectos que so do mbito da beleza aderente. A, o nosso autor fornece exemplos no apenas de objectos artsticos, mas tambm de objectos naturais, cuja beleza aderente, nomeadamente seres humanos e cavalos:

    a beleza de um ser humano (e dentro desta espcie a de um homem ou uma mulher ou uma criana), a beleza de um cavalo, de um edifcio (como igreja, palcio, arsenal ou casa de campo) pressupe um conceito do fim que determina o que a coisa deve ser, por conseguinte um conceito da sua perfeio, e portanto beleza simplesmente aderente (setzt einen Begriff von Zwecke voraus, welcher bestimmt, was das Ding sein soll, mithin einen Begriff seiner Vollkommenheit, und ist also blo

    adhrirende Schnheit) (Kant, 1998: 121).

    A incluso de objectos naturais no mbito da beleza aderente e, portanto, dos juzos de gosto aplicados ou dos juzos estticos logicamente condicionados no pode ser compreendida sem a introduo da noo de ideal da beleza (Ideale der Schnheit). Kant explicita-a no 17. De acordo com o que est escrito nesse pargrafo, ideal (Ideal) significa a representao de um ente individual como adequado a uma ideia (die Vorstellung eines einzelnen als einer Idee adquaten Wesens), isto , como adequado a um conceito da razo (Kant, 1998: 123). Embora certamente repousando sobre a ideia indeterminada da razo de um mximo, o ideal da beleza no pode no entanto ser representado mediante conceitos (doch kann nicht durch Begriffe vorgestellt werden)

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    (Kant, 1998: 123).118 Ele repousa sobre a apresentao, ele somente [pode ser representado] por apresentao individual (Kant, 1998: 123). Ora, como a faculdade de apresentao, porm, a imaginao, o ideal da beleza ser simplesmente um ideal da faculdade da imaginao (Kant, 1998: 123). Assim, se no estamos imediatamente na posse dele, contudo aspiramos produzi-lo em ns, ou seja, o modelo mais elevado, o original do gosto, isto , o ideal da beleza, uma simples ideia que cada um tem de produzir em si prprio (Kant, 1998: 123).

    de notar, entretanto, que, segundo Kant, somente o homem () capaz de um ideal da beleza (Kant, 1998: 124). Somente o homem porque somente este tem o fim da sua existncia em si prprio e pode determinar ele prprio os seus fins pela razo ou compar-los aos fins essenciais e universais e pode ento ajuizar tambm esteticamente a concordncia com esses fins (Kant, 1998: 124). Por essa razo,

    a beleza, para a qual deve ser procurado um ideal, no tem que ser nenhuma beleza vaga, mas uma beleza fixada por um conceito de conformidade a fins objectiva, consequentemente no tem que pertencer a nenhum objecto de um juzo de gosto totalmente puro, mas ao de um juzo de gosto em parte intelectualizado (die Schnheit, zu welcher ein Ideal gesucht werden soll, keine vage, sondern durch einen Begriff von objektiver Zweckmigkeit fixierte Schnheit sein, folglich keinem Objekte eines ganz reinen, sondern dem eines zum Teil intellektuierten

    Geschmacksurteils angehren msse) (Kant, 1998: 124),

    isto , seja em que espcie de fundamentos do julgamento um ideal deve ocorrer, a tem que se encontrar alguma ideia da razo segundo conceitos determinados, que determina a priori o fim sobre o qual a possibilidade interna do objecto repousa (muss irgend eine Idee der Vernunft nach bestimmten Begriffen zum Grunde liegen, die a priori den Zweck bestimmt, worauf die innere Mglichkeit des Gegenstandes beruht) (Kant, 1998: 124). No entanto, precisamente pelas mesmas razes, [u]m ideal de flores belas, de um mobilirio belo, de um belo panorama no pode ser pensado e

    118 Logo depois de assinalar isso mesmo, Kant afirma que o referido ideal no repousa sobre conceitos (nicht auf Begriffen beruht) (Kant, 1998: 123).

  • SE E COMO PODER UMA OBRA DE ARTE SER BELA

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    to pouco se pode representar o ideal de uma beleza aderente a fins determinados, por exemplo de uma bela residncia, de uma bela rvore, de um belo jardim, etc.; presumivelmente porque os fins no so suficientemente determinados e fixados pelo seu conceito, consequentemente a conformidade a fins quase to livre como na beleza vaga (Kant, 1998: 124).

    Assim, pelas razes j apresentadas, como nota Kant, o ideal () se pode esperar unicamente na figura humana (Kant, 1998: 127).

    Pois bem, de acordo com as palavras do nosso autor, na figura humana o ideal consiste na expresso do moral, sem o qual o objecto no aprazeria universalmente e alm disso positivamente (no apenas negativamente numa apresentao academicamente correcta) (Kant, 1998: 127). Assim, a ideia da razo () faz dos fins da humanidade, na medida em que no podem ser representados sensivelmente, o princpio do julgamento da sua figura, atravs da qual aqueles se revelam como sem efeito no fenmeno (Kant, 1998: 124-125). Isto significa, no entanto, que o julgamento segundo um tal padro de medida jamais pode ser puramente esttico e o julgamento segundo um ideal da beleza no nenhum simples juzo de gosto (die Beurteilung nach einem solchen Mastabe niemals rein sthetisch sein knne, und die Beurteilung nach

    einem Ideale der Schnheit kein bloes Urteil des Geschmacks sei) (Kant, 1998: 127). Acontece que, tal como Kant afirma numa fase ainda inicial do 17, segundo esse ideal que aquele que ajuza tem que ajuizar tudo o que objecto do gosto, o que exemplo do julgamento pelo gosto e mesmo o gosto de qualquer um (er alles, was Objekt des Geschmacks, was Beispiel der Beurteilung durch Geschmack sei, und selbst den

    Geschmacks von jedermann beurteilen muss) (Kant, 1998: 123). Logo, aquele que ajuza segundo esse ideal no profere um juzo de gosto puro por outras palavras: aquele que ajuza segundo o ideal do gosto no ajuza atravs de um juzo de gosto.

    2.6. No pode falar-se de bela arte

    Tanto no caso do chamado juzo de gosto aplicado, como no do chamado juzo esttico logicamente condicionado ou do juzo de gosto

  • ARTE

    CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana 109

    em parte intelectualizado, ento, h uma dependncia do juzo em relao a um conceito de fim. Esses juzos no so juzos livres; so juzos condicionados pelo referido conceito so os juzos condicionados atravs dos quais se declara que um objecto belo, so os juzos atravs dos quais se declara condicionadamente que um objecto belo, so os juzos atravs dos quais se declara que um objecto condicionadamente belo. Os chamados juzo de gosto aplicado, juzo esttico logicamente condicionado ou juzo de gosto em parte intelectualizado no so, nem podem ser, juzos de gosto no , nem pode ser, atravs de um juzo de gosto aplicado, de um juzo esttico logicamente condicionado ou de um juzo de gosto em parte intelectualizado que se declara belo um objecto.

    Temos vindo a mostrar que no se pode admitir que o juzo de gosto aplicado, o juzo esttico logicamente condicionado ou o juzo de gosto em parte intelectualizado sejam juzos de gosto de acordo com a descrio que Kant d de juzo de gosto, por um lado, e de juzo de gosto aplicado, de juzo esttico logicamente condicionado ou de juzo de gosto em parte intelectualizado, por outro ou a beleza aderente ou fixada uma espcie de beleza igualmente considerando a descrio que o nosso autor d de beleza, por um lado, e de beleza aderente ou fixada, por outro. Mostrmos, por conseguinte, que a diviso entre beleza livre e beleza aderente ou fixada no serve para sustentar uma resposta afirmativa questo de saber se pode falar-se de bela arte, isto , questo de saber se um objecto artstico pode ser ajuizado atravs de um juzo de gosto, se um objecto artstico pode ser declarado belo. Pois bem, considerando que, quando quer ajuizar-se acerca da beleza de uma obra de arte, surge um conflito entre a independncia do juzo de gosto e da beleza relativamente ao conceito de perfeio e a dependncia do julgamento da beleza da arte em relao a esse conceito, somos obrigados a manter a concluso a que tnhamos chegado antes de referirmos a diviso feita por Kant no 16. Repetiremos, assim, que uma obra de arte no pode ser ajuizada atravs de um juzo de gosto, que uma obra de arte no pode ser declarada bela,

  • SE E COMO PODER UMA OBRA DE ARTE SER BELA

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    que no legtimo falar-se de bela arte.119 Considerando que os critrios da chamada beleza aderente ou fixada entram em contradio com os critrios da beleza, considerando que as propriedades do chamado juzo de gosto aplicado, ou do chamado juzo esttico logicamente condicionado, ou do chamado juzo de gosto em parte intelectualizado, so insuficientes para que possa responder-se afirmativamente questo de saber se legtimo falar-se de bela arte, isto , questo de saber se legitimo falar-se de objectos artsticos belos, de saber se uma obra de arte pode ser ajuizada atravs de um juzo de gosto, de saber se uma obra de arte pode ser declarada bela, ento, somos obrigados a manter aquilo que dissemos no incio desta seco, ainda antes, portanto, da introduo das noes de beleza aderente, beleza fixada, juzo de gosto aplicado, juzo esttico logicamente condicionado e juzo de gosto em parte intelectualizado, a saber, que no pode ajuizar-se acerca da eventual beleza de uma obra de arte atravs de um juzo de gosto por outras palavras: que uma obra de arte no pode ser declarada bela, que no legtimo falar-se de bela arte.

    Afirmar o contrrio teria como consequncias admitir uma espcie de beleza (a beleza aderente ou fixada) cujos critrios entram em contradio com os critrios da beleza, admitir uma espcie de juzo de gosto (o juzo de gosto aplicado, o juzo esttico logicamente condicionado ou o juzo de gosto em parte intelectualizado) cujas

    119 Esta a maneira mais simples de responder questo. Se, porm, quisermos responder-lhe utilizando as distines estabelecidas por Kant entre, respectivamente, beleza livre e beleza aderente ou fixada e puro juzo de gosto e juzo de gosto aplicado, juzo esttico logicamente condicionado ou juzo de gosto em parte intelectualizado, nesse caso diremos o seguinte: se por bela arte se entende uma arte cuja beleza declarada livremente, isto , atravs de um puro juzo de gosto, ento, no pode falar-se de bela arte. S condicionadamente, portanto atravs de um juzo de gosto aplicado, de um juzo esttico logicamente condicionado ou de um juzo de gosto em parte intelectualizado, poderia declarar-se belo um objecto artstico nesse caso a obra de arte seria condicionadamente bela. Tal, porm, significaria confundir o juzo de gosto com um juzo acerca da perfeio.

  • ARTE

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    propriedades entram em contradio com as propriedades do juzo de gosto, confundir uma espcie de beleza com uma conformidade a fins objectiva e confundir uma espcie de juzo de gosto com um juzo acerca da perfeio. Isso no significaria abdicar da especificidade da faculdade de juzo enquanto faculdade superior. Tendo em conta o que vimos at agora, significaria, no entanto, uma limitao da sua aplicao enquanto tal unicamente a objectos da natureza e, mesmo entre os objectos da natureza, talvez apenas a alguns e, portanto, uma limitao da beleza (beleza livre) e do juzo de gosto (puro juzo de gosto) a alguns objectos naturais. Poder-se-ia ajuizar como belo um dado objecto da natureza se, nesse juzo, se ignorasse ou abstrasse de qualquer conformidade a fins objectiva, isto , de qualquer concordncia entre o objecto e um conceito daquilo que ele deva ser. O mesmo no poderia fazer-se relativamente a um objecto artstico, pois, por definio, na causa de um objecto artstico pressuposto um fim e, alm disso, no juzo atravs do qual esse objecto declarado belo tem de considerar-se a sua conformidade ao referido fim.

    ***

    Vrios comentadores da Crtica da Faculdade do Juzo reconhecem a dificuldade causada pela passagem, do 48, de acordo com a qual se () o objecto dado como um produto da arte e como tal deve ser declarado belo, ento tem que ser posto antes no fundamento um conceito daquilo que a coisa deva ser e no julgamento da beleza da arte tem que ser tida em conta ao mesmo tempo a perfeio da coisa (Kant, 1998: 216). Paul Guyer, por exemplo, admite que, a ser assumida, sem mais, esta passagem implicaria que apenas a beleza natural, e no a artstica, poderia ser um adequado objecto de gosto (Guyer, 1997: 214); Salim Kemal prope que um objecto no pode ser simultaneamente considerado belo e artstico (cf. Kemal, 1986: 36);

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    Henry E. Allison considera-a um problema central, na medida em que o requisito segundo o qual a avaliao da beleza artstica pressupe um conceito do tipo de coisa que a obra suposta ser () parece, segundo os critrios do 16, tornar aderente toda a beleza artstica (ou pelo menos os juzos a ela concernentes) (Allison, 2001: 296). A propsito da distino entre beleza artstica e juzos a ela concernentes, de referir a viso de Donald W. Crawford acerca do assunto. Crawford assume que a distino entre beleza livre e beleza aderente uma distino concernente no aos objectos, mas quilo que se considera no juzo acerca dos objectos (cf. Crawford, 1974: 114-116). A partir dessa assuno, ele sugere ser sempre possvel abstrair de qualquer conceito de um propsito que determine a forma daquilo que estamos a considerar (Crawford, 1974: 116). No entanto, vrias so as passagens do texto de Kant a indicar que nem sempre possvel proceder a uma tal abstraco. Uma dessas passagens precisamente a passagem, do 48, que temos vindo a apresentar como causa do problema que nos propusemos abordar. Logo, a perspectiva apresentada por Crawford no contribui especialmente para a resoluo desse problema. Embora remetendo para o 45, tambm a perspectiva de Fiona Hughes assenta na possibilidade de abstraco. No entender da intrprete, o simples facto de a bela arte ter de ser vista como se fosse natural e, por conseguinte, a necessidade de se abstrair de quaisquer fins envolvidos na produo de uma bela obra de arte, tal torna desnecessria a concluso de acordo com a qual a beleza artstica no pode qualificar-se para o gosto, mas unicamente para a beleza aderente (Hughes, 2010: 121). Hughes parece esquecer o que afirmado no 48. Precisamente porque no juzo atravs do qual se declara bela uma obra de arte tem de ser considerado um conceito daquilo que o objecto deva ser, nesse juzo no pode abstrair-se desse conceito.120 H. W. Cassirer no ignora essa exigncia. No entanto,

    120 Ainda assim, no deixa de ser de destacar a separao que, na passagem supracitada, Hughes estabelece entre gosto, por um lado, e beleza aderente, por outro.

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    apesar de consider-la surpreendente, pois a Crtica da Faculdade do Juzo sempre nos informou que os nossos juzos acerca da beleza de modo nenhum pressupem um conceito definido do objecto (fim) e que a beleza uma qualidade que fundamentalmente diferente da perfeio, Cassirer considera o problema por ela levantado fcil de resolver (Cassirer, 1970: 277). O comentador no o resolve, porm. Ele limita-se a afirmar que em comparao com os nossos juzos sobre objectos naturais belos, os nossos juzos acerca de produtos de arte belos pressupem a Ideia de um fim e que isso no altera o facto de que mesmo no caso dos produtos artsticos belos o fim envolvido no um fim objectivo definido e de que o conceito no um conceito definido, acrescentando, logo a seguir, que [o] princpio que subjaz todos os nossos juzos acerca da beleza o princpio da conformidade a fins subjectiva, ou conformidade a fins sem fim (Cassirer, 1970: 277). Uma possvel explicao para a perspectiva de Cassirer assentar na sua opo por no abordar, entre outros, os 15-17, inserindo-os no grupo dos pargrafos que no esto imediatamente ligados s questes principais da terceira Crtica (cf. Cassirer, 1970: vii). Particularmente centrada no 16, Eva Schaper, chamando a ateno para um uso opaco e ambivalente da noo de representao, contribui sobremaneira para a elaborao de uma resposta consistente questo de saber se pode falar-se de bela arte. Ainda assim, ela no parece colocar essa questo. Schaper parece simplesmente aceitar que pode falar-se de beleza artstica.121 Schaper est mais interessada em contrariar a viso segundo a qual a arte no-representativa, no sentido moderno de arte abstracta, providencia o paradigma para os puros juzos de gosto e segundo a qual a arte que retrata ou descreve , simplesmente por essa razo, material meramente para avaliaes

    121 Numa abordagem que faz do 42, a comentadora refere mesmo que o puro juzo de gosto () agora explicitamente estendido para incluir a resposta beleza na arte (Schaper, 2007: 388); mais frente, ela acrescenta que a beleza dos produtos do gnio pode ser ajuizada como puramente formal em puros juzos de gosto (Schaper, 2007: 392).

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    estticas impuras, por outras palavras, em contrariar a perspectiva de acordo com a qual h uma primazia da arte no-representativa sobre a arte representativa (Schaper, 2003: 117).122 Finalmente, Hans-Georg Gadamer afirma que o conceito de gosto perde o seu significado se o fenmeno da arte passar para primeiro plano (Gadamer, 2006: 49).

    122 Para tal, a intrprete aborda a questo de saber se os fundamentos para a distino entre duas espcies de beleza so os mesmos para a natureza e para a arte (Schaper, 2003: 102), isto , se Kant pretende dar as mesmas razes ou aplicar os mesmos critrios para a atribuio da beleza pura a objectos naturais e a objectos feitos pelo homem (Schaper, 2003: 105). Mas ela no estabelece qualquer relao entre a sua abordagem e o que escrito no 48 da Crtica da Faculdade do Juzo.

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    Captulo III: Bela Arte

    1. BELAS OBRAS DE ARTE

    1.1. Obras de arte livremente declaradas belas

    A questo que conduz a nossa investigao a de saber se e como poder falar-se de bela arte no contexto da Crtica da Faculdade do Juzo. Queremos averiguar se e sob que condies ser legtimo usar-se a expresso bela arte no mbito da terceira Crtica de Kant. Poder uma obra de arte ser ajuizada atravs de um juzo de gosto? Poder um objecto artstico ser declarado belo? Os argumentos que apresentmos contra a possibilidade de uma obra de arte ser declarada bela, os argumentos que apresentmos contra a possibilidade de ajuizar-se um objecto artstico atravs de um juzo de gosto, por outras palavras, os argumentos que

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    apresentmos a favor da impossibilidade de falar-se de bela arte, tais argumentos no devem levar-nos a ignorar trs factos do texto de Kant.

    Em primeiro lugar, h que assinalar que a Crtica da Faculdade de Juzo Esttica da Crtica da Faculdade de Juzo vive entre a limitao de uma obra de arte ser declarada bela atravs de um juzo de gosto aplicado, de um juzo esttico logicamente condicionado ou de um juzo de gosto em parte intelectualizado e a possibilidade de essa mesma obra ser declarada bela atravs de um (puro) juzo de gosto, entre a mera aptido das obras de arte para a beleza simplesmente aderente ou fixada e a sua eventual aptido para a beleza (livre), entre a possibilidade e a impossibilidade de obras de arte serem (livremente) declaradas belas, entre a legitimidade e a ilegitimidade de falar-se de bela arte enquanto arte que (livremente) declarada bela. Em segundo lugar devemos salientar um facto claro: Kant ocupa uma parte significativa do seu texto a falar de bela arte.123 Por si s, estes dois factos no seriam, no entanto, suficientes para que acrescentssemos o que quer que seja ao que dissemos no segundo captulo da nossa tese o primeiro porque, embora legtimo, mais um ponto de vista acerca do texto de Kant do que propriamente um facto; o segundo porque, embora seja um facto claro, poder significar que, quando fala de bela arte, Kant est a falar to-somente de uma arte condicionadamente bela, isto , de obras de arte que s condicionadamente, no livremente, portanto atravs dos chamados juzos de gosto aplicados, dos chamados juzos estticos logicamente condicionados ou dos chamados juzos de gosto em parte intelectualizados, no de puros juzos de gosto, so declaradas belas.124 Se efectivamente for esse o caso, ento o facto de Kant ocupar uma parte significativa do seu texto a falar de bela arte no contribui minimamente

    123 No elencaremos as ocorrncias da expresso bela arte na Crtica da Faculdade do Juzo. Algumas dessas ocorrncias foram enunciadas na introduo a esta tese. Citemos apenas o ttulo do 44: Da bela arte (Von der schnen Kunst) (Kant, 1998: 208). 124 Ora, ns temos vindo a sustentar que tais juzos no so juzos de gosto, que a beleza livre no uma beleza.

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    para que se afirme a possibilidade de uma obra de arte ser declarada bela atravs de um (puro) juzo de gosto, a aptido das obras de arte para a beleza (livre), a possibilidade de as obras de arte serem (livremente) declaradas belas, a legitimidade de falar-se de bela arte enquanto arte que (livremente) declarada bela. Se esse for efectivamente o caso, ento um objecto artstico no pode ser ajuizado atravs de um juzo de gosto, uma obra de arte no pode ser declarada bela, no legtimo falar-se de bela arte.

    Esse poder no ser o caso, no entanto. Henry E. Allison, por exemplo, considera que [m]esmo quando passa para a natureza da produo artstica e sua relao com o gnio () Kant continua a orientar-se em direco ao juzo de gosto (Allison, 2001: 271). Nesse sentido, em Kants Theory of Taste, o comentador assinala que a preocupao bsica de Kant poder ser descrita como contribuir para a possibilidade de um puro juzo de gosto relativo bela arte (Allison, 2001: 271).125 Ainda que a interpretao de Allison possa ser incorrecta e que, ao falar de bela arte, Kant possa remeter apenas para uma arte condicionadamente bela, facto que Kant menciona objectos artsticos como sendo livremente declarados belos. F-lo no 16, ao afirmar, explicitamente, que os desenhos la grecque, a folhagem para molduras ou sobre papel de parede (die Zeichnungen la grecque, das Laubwerk zu Einfassungen oder auf Papiertapeten), objectos artsticos, so belezas livres (sind freie Schnheiten) (Kant, 1998: 120). F-lo, igualmente, no seguimento dessa afirmao, ao referir o que na msica se denomina fantasias (sem tema),

    125 Entretanto, as consideraes de Allison a este propsito reaparecem mais frente na sua obra: do seu ponto de vista, precisamente o problema de justificar a possibilidade da produo de uma bela obra de arte aquilo que leva Kant de um foco exclusivo na questo do gosto (ou de uma recepo esttica) a uma preocupao com a produo artstica (ou de uma criao esttica) (Allison, 2001: 279). Por essa razo, no entender do intrprete, s luz desse problema que podemos compreender a funo sistemtica da discusso de Kant acerca da bela arte no interior da Crtica da Faculdade do Juzo (Allison, 2001: 279). Note-se, de resto, que os pargrafos da terceira Crtica directamente concernentes bela arte se situam na chamada Deduo dos juzos estticos puros.

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    e at toda a msica sem texto (das, was man in der Musik Phantasieen (ohne Thema) nennt, ja die ganze Musik ohne Text), tambm, esses, objectos artsticos, como exemplos de objectos que se pode contar como da mesma espcie (man kann das zu derselben Art zhlen) (Kant, 1998: 120). Nestes excertos, do 16, de facto, Kant apresenta exemplos de objectos artsticos que so livremente declarados belos, exemplos de objectos artsticos que so declarados belos atravs de puros juzos de gosto. este o terceiro e mais decisivo facto que devemos salientar do texto de Kant. De maneira nenhuma podemos ignor-lo. A sua aceitao tem como consequncia a aceitao de que uma obra de arte pode ser (livremente) declarada bela, a aceitao de que uma obra de arte pode ser declarada bela atravs de um (puro) juzo de gosto. De outra maneira: a sua aceitao tem como consequncia a aceitao de que um objecto artstico pode ser ajuizado atravs de um juzo de gosto, de que uma obra de arte pode ser declarada bela, de que legtimo falar-se de bela arte. Paul Guyer reconhece o seu carcter decisivo. Em Kant and the Claims of Taste, ele assinala que os prprios exemplos dados por Kant tornam claro que pelo menos algumas obras de arte podem ser consideradas belezas livres (Guyer, 1997: 222). Resta-nos descobrir como podem obras de arte ser consideradas belezas livres.

    1.2. A noo de bela arte segundo os 44-46 da Crtica da Faculdade

    do Juzo

    Embora um tal facto seja de destacar, devemos admitir que no pargrafo a partir do qual ele emerge (16) nada parece ser dito no sentido da sustentao da possibilidade de um objecto artstico ser livremente declarado belo, e, portanto, no sentido da sustentao da possibilidade de falar-se de bela arte. Pelo contrrio, esse precisamente o pargrafo no qual surgem as noes de beleza aderente e de juzo de gosto aplicado, como j tivemos oportunidade de notar, noes cuja relevncia ou mesmo legitimidade temos vindo a recusar. Nos pargrafos anteriores e nos pargrafos que imediatamente se lhe seguem tambm nada se encontra no sentido da referida sustentao. Efectivamente, s a partir do 44 parecem

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    poder ser encontradas informaes que sustentem explicitamente a possibilidade de falar-se de bela arte.126

    Uma viso direccionada do 44 permite-nos observar no s que, sendo arte esttica, a bela arte, por definio, tem por inteno imediata o sentimento de prazer (hat sie das Gefhl der Lust zur unmittelbaren Absicht), como tambm que o seu fim no que o prazer acompanhe as representaes enquanto simples sensaes (dass die Lust die Vorstellungen als bloe Empfindungen begleite), caso da arte agradvel, cujo padro de medida a sensao sensorial, mas que o prazer as acompanhe enquanto modos de conhecimento (dass sie dieselben als Erkenntnisarten begleite) (Kant, 1998: 209). Para uma obra de arte ser bela, o comprazimento que o sujeito sente por ocasio da sua representao tem de estar ligado a uma disposio reciprocamente harmnica das faculdades da imaginao e do entendimento enquanto condio do conhecimento.127 Entretanto, Kant afirma que a bela arte um modo de representao que por si prpria conforme a fins () sem fim (ist eine Vorstellungsart, die fr sich selbst zweckmig ist und () ohne Zweck) (Kant, 1998: 209) e que o seu padro de medida a faculdade de juzo reflexiva (die reflektierende Urteilskraft) (Kant, 1998: 210).

    Ser, porm, legtimo falar-se de uma arte cujo padro de medida a faculdade de juzo reflexiva? Poder falar-se de uma arte cuja beleza assenta numa conformidade a fins que , no entanto, sem fim? Estaremos autorizados a falar de bela arte? importante recordar que, de acordo com o 48, no juzo atravs do qual se declara bela uma obra de arte tem que ser posto antes no fundamento um conceito daquilo que a coisa deva ser

    126 No defendemos, com esta afirmao, que, a partir do 44, Kant tem como objectivo a sustentao da possibilidade de falar-se de bela arte. 127 Assim, de acordo com o que Guyer prope, uma obra de bela arte um objecto intencionalmente produzido pela capacidade humana com o objectivo de produzir prazer nos elementos do seu pblico ocupando as suas faculdades de conhecimento superiores e induzindo um jogo harmnico entre a sua imaginao e o seu entendimento (Guyer, 1997: 355).

  • SE E COMO PODER UMA OBRA DE ARTE SER BELA

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    (muss zuerst ein Begriff von dem zum Grunde gelegt werden, was das Ding sein soll) e tem que ser tida em conta ao mesmo tempo a perfeio da coisa (wird zugleich die Volkommenheit des Dinges in Anschlag gebracht werden mssen) (Kant, 1998: 216). Se consideramos essa informao, no devemos deixar ficar a nossa indagao pelo 44, pois o que afirmado nesse pargrafo no anula nem sequer diminui, por si s, as dificuldades causadas por aquele outro.128

    Como ttulo do 45, Kant escreve: Bela arte uma arte enquanto ao mesmo tempo parece ser natureza (Schne Kunst ist eine Kunst, sofern sie zugleich Natur zu sein scheint) (Kant, 1998: 210). No caso da beleza da natureza, como j vimos, a representao da conformidade a fins do objecto no envolve um conceito daquilo que esse objecto deva ser. Parecer ser natureza (Natur zu sein scheinen), de acordo com o que nos dado a entender no 45, significa que a conformidade a fins do produto parece livre, parece no intencional, parece no submetida s regras segundo as quais unicamente o produto pode tornar-se aquilo que ele deve ser (Regeln, nach denen allein das Produkt das werden kann, was es sein soll) (Kant, 1998: 211).129 Assim, no caso da bela arte, esconde-se a forma escolstica (die Schulform) e qualquer vestgio de que a regra tenha pairado diante do artista e tenha algemado as faculdades do nimo (Spur, dass die Regel dem Knstler vor Augen geschwebt und seinen Gemtskrften Fesseln angelegt habe) (Kant, 1998: 211).

    128 Neste estdio da nossa investigao, continuamos obrigados a afirmar que no pode declarar-se belo um objecto artstico, que um objecto artstico no pode ser ajuizado atravs de um juzo de gosto. No entanto, devemos notar desde j que, analisados por relao com os contedos de outros pargrafos da Crtica da Faculdade do Juzo, os contedos do 44 revelar-se-o importantes na compreenso das condies de possibilidade de falar-se de bela arte. O mesmo pode ser assinalado relativamente aos contedos do 45. 129 Segundo Allison, isso quer dizer que o objecto tem de comprazer de uma certa maneira, nomeadamente, no simples julgamento ou reflexo independentemente de um conceito, de uma maneira que preserve a liberdade da imaginao, por outras palavras, que o objecto tem de ocasionar uma harmonia das faculdades em jogo livre (Allison, 2001: 276).

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    Aquilo que se impe saber, porm, se uma tal condio para que a arte seja bela tem, por si s, alguma utilidade para sustentar a hiptese de uma resposta afirmativa questo acerca da legitimidade da noo de bela arte. Ao longo do 45, Kant salienta que a beleza da arte depende no apenas de essa arte parecer ser natureza, mas tambm da conscincia de que se trata de arte, de que arte.130 Se assim , ento ns sabemos que a conformidade a fins do objecto efectivamente intencional e, de acordo com o 48, que somos obrigados a t-la em conta no julgamento da beleza do objecto (cf. Kant, 1998: 216). Nesse caso, o movimento das faculdades de conhecimento entre si por ocasio da representao do objecto ser um movimento conforme a fins, mas que, no sendo um movimento livre, no ser conforme a fins sem fim. Nem o juzo ser um juzo de gosto, nem o objecto poder ser declarado belo. Assim, na ausncia de mais explicaes, no pode aceitar-se a afirmao de Kant, de acordo com a qual quer se trate da beleza da natureza ou da arte, podemos dizer de um modo geral: belo aquilo que apraz no simples julgamento (no na sensao sensorial nem mediante um conceito) (wir knnen allgemein sagen, es mag die Natur- oder die Kunstschnheit betreffen: schn ist das, was in der bloen Beurteilung (nicht in der Sinnenempfindung, noch durch einen Begriff) gefllt) (Kant, 1998: 210). No caso da arte, aquilo a que se chama beleza no parece poder aprazer no simples julgamento. Logo, a isso no pode chamar-se beleza. No pode declarar-se bela uma obra de arte. A resposta questo de saber se pode falar-se de bela arte , ento, uma resposta negativa: no pode falar-se de bela arte.

    130 Kant repete-o, insistentemente, no mesmo pargrafo: afirma, primeiro, que [f]ace a um produto da bela arte temos que tomar conscincia que ele arte e no natureza ([a]n einem Produkte der schnen Kunst muss man sich bewusst werden, dass es Kunst sei und nicht Natur) (Kant, 1998: 210); reitera, depois, que a arte somente pode ser denominada bela se temos conscincia de que ela arte e que ela apesar disso nos parece ser natureza (die Kunst kann nur schn genannt werden, wenn wir uns bewusst sind, sie sei Kunst, und sie uns doch als Natur aussieht) (Kant, 1998: 210); sublinha, finalmente, que a bela arte tem que passar por natureza, conquanto na verdade tenhamos conscincia dela como arte (schne Kunst muss als Natur anzusehen sein, ob man sich ihrer zwar als Kunst bewusst ist) (Kant, 1998: 211).

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    No 46, Kant apresenta uma outra condio no sentido da possibilidade de ajuizar-se um objecto artstico atravs de um juzo de gosto, isto , no sentido da possibilidade de uma obra de arte ser declarada bela: essa condio a de que o juzo usado para declar-la como tal no seja deduzido de qualquer regra que tenha um conceito como fundamento determinante (von irgend einer Regel abgeleitet werde, die einen Begriff zum Bestimmungsgrunde habe), portanto que ele no tenha no fundamento um conceito da maneira como [o produto] possvel (einen Begriff von der Art, wie es mglich sei, zum Grunde lege) (Kant, 1998: 211)131. Nesta fase da nossa investigao, no difcil compreender que, tal como os excertos que citmos dos 44 e 45, tambm esta passagem, do 46, parece no se coadunar com o enunciado de acordo com o qual no julgamento da beleza da arte tm de ser tidos em conta um conceito daquilo que o objecto deva ser e a perfeio da obra de arte segundo esse conceito (cf. Kant, 1998: 216). Assim sendo, poderamos nada mais dizer alm de que no possvel declarar-se belo um objecto artstico, no possvel ajuizar-se uma obra de arte atravs de um juzo de gosto, no legtimo falar-se de bela arte. Devemos salientar, no entanto, que o contexto em que ela est inserida o da introduo, na Crtica da Faculdade de Juzo, de uma noo cuja explicitao nos levar a repensar precisamente a posio adoptada por Kant no 48.132 Trata-se da noo de gnio (Genie), talento para a bela arte. Em nosso entender, a introduo dessa noo, assim como o alargamento das capacidades da faculdade da imaginao enquanto faculdade de conhecimento produtiva (produktives Erkenntnisvermgen), a recorrncia noo de ideia esttica (sthetische Idee) como representao inexponvel da faculdade da imaginao 131 No entender de S. Krner, esta passagem indica que a perspectiva segundo a qual no h quaisquer padres de medida ou critrios conceptuais da beleza quer na arte quer na natureza absolutamente incompatvel com o esprito e mesmo com a letra da filosofia do gosto kantiana (Krner, 1984: 194) 132 No anunciamos com esta frase qualquer recusa do que Kant afirma no 48. Limitamo-nos a indicar que, mais frente, retomaremos as afirmaes de Kant nesse pargrafo. De resto, voltaremos igualmente quilo que o nosso autor escreve nos 15-16.

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    (inexponible Vorstellung der Einbildungskraft) e a denominao da beleza como expresso de ideias estticas (Ausdruck sthetischer Ideen), todos esses factores contribuiro para a elaborao de uma resposta suficientemente fundamentada questo de saber se e como poder um objecto artstico ser ajuizado atravs de um juzo de gosto, se e como poder uma obra de arte ser declarada bela, se e como poder a beleza da arte ser uma beleza, e, portanto, questo de saber se e sob que condies ser legtimo falar-se de bela arte.

    2. GNIO, IDEIA ESTTICA, EXPRESSO DE IDEIAS ESTTICAS E REFERNCIA DO JUZO ATRAVS DO QUAL SE DECLARA BELA UMA OBRA DE ARTE AO PRINCPIO DA CONFORMIDADE A FINS FORMAL DA NATUREZA

    2.1. Gnio

    Comemos por indicar, no captulo inaugural da nossa tese, que o juzo atravs do qual se declara belo um objecto o juzo de gosto. Ainda na primeira parte desse captulo, transcrevemos o ttulo do 15: O juzo de gosto totalmente independente do conceito de perfeio (Das Geschmacksurtheil ist von dem Begriffe der Vollkommenheit gnzlich unabhngig) (Kant, 1998: 117). A questo de saber se e sob que condies ser legtimo falar-se de bela arte questo que guia esta nossa investigao foi suscitada quando se adicionou, s afirmaes supracitadas, a tese, do 48, segundo a qual no julgamento da beleza da arte tem que ser posto antes no fundamento um conceito daquilo que a coisa deva ser (muss zuerst ein Begriff von dem zum Grunde gelegt werden, was das Ding sein soll) e tem que ser tida em conta ao mesmo tempo a perfeio da coisa (wird zugleich die Volkommenheit des Dinges in Anschlag gebracht werden mssen) (Kant, 1998: 216). Suspendmo-la provisoriamente. Centremo-nos no primeiro pargrafo directamente concernente noo de gnio (Genie). O 46 afigura-se indispensvel para a elaborao de uma resposta suficientemente fundamentada

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    questo de saber se e como poder falar-se de bela arte. F-lo desde logo por intermdio da frase que o intitula. Ei-la: Bela arte arte do gnio (Schne Kunst ist Kunst des Genies) (Kant, 1998: 211).133 Se, no entender de Kant, bela arte arte do gnio, ento, compreender o que o gnio anuncia-se incontornvel para compreender a concepo kantiana de bela arte.

    No incio do 46, Kant assinala que o gnio uma faculdade produtiva (produktives Vermgen) (Kant, 1998: 211). Recordemos algo que salientmos no primeiro captulo da nossa tese: o juzo atravs do qual se declara belo um objecto no se funda em conceitos. O belo no pode ser determinado mediante conceitos. Se assim , a regra da bela arte no pode fundar-se num conceito. Ela no pode ser uma regra determinada. Ora, na primeira concluso que apresenta acerca da noo de gnio, precisamente no 46, Kant descreve-o como um talento para produzir aquilo para o qual no se pode fornecer nenhuma regra determinada (ein Talent sei, dasjenige, wozu sich keine bestimmte Regel geben hervorzubringen lsst) (Kant, 1998: 212). O gnio um talento para a produo da beleza, um talento para criar obras de arte belas, um talento, portanto, para a bela arte. Embora apenas gramaticalmente, vemo-lo antecipado no j citado ttulo do 46 (cf. Kant, 1998: 211).134

    Ainda no incio do 46, Kant assinala que o prprio talento enquanto faculdade produtiva inata do artista pertence natureza (das Talent als angebornes produktives Vermgen des Knstlers selbst zur Natur

    gehrt) e que [g]nio a inata disposio do nimo (ingenium), pela

    133 Se quisermos ser exactos, diremos que a primeira referncia que na Crtica da Faculdade de Juzo Esttica feita noo de gnio ocorre numa nota do 17, acerca do ideal da beleza. A, o nosso autor menciona aquilo que se denomina gnio (Genie) para dizer que, nisso que como tal designado, a natureza parece afastar-se das relaes normais das faculdades do nimo em benefcio de uma faculdade s (Kant, 1998: 268). Daremos o devido destaque a essa referncia no ltimo captulo da nossa dissertao. 134 As razes no meramente gramaticais para que a bela arte seja a arte do gnio assim como as consequncias que podemos extrair dessa afirmao, e mesmo as condies para o seu proferimento sero abordadas mais frente.

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    qual a natureza d a regra arte ([g]enie ist die angeborne Gemtsanlage (ingenium), durch welche die Natur der Kunst die Regel gibt) (Kant, 1998: 211). Algo deve desde j ser ressalvado: estas duas afirmaes no significam que os produtos do gnio sejam efeitos da natureza, objectos naturais. Kant salvaguarda-o no pargrafo anterior, ao referir, como j notmos, que [f]ace a um produto da bela arte temos que tomar conscincia que ele arte e no natureza ([a]n einem Produkte der schnen Kunst muss man sich bewusst werden, dass es Kunst sei und nicht

    Natur) (Kant, 1998: 210). No caso das obras de arte do gnio, aquilo que d a regra a natureza do sujeito: no 46, o nosso autor indica que a natureza do sujeito (e pela disposio da faculdade do mesmo) tem que dar a regra arte (muss die Natur im Subjekte (und durch die Stimmung der Vermgen desselben) der Kunst die Regel geben) (Kant, 1998: 211-212); no pargrafo seguinte (47) ele acrescenta que [a]s ideias do artista provocam ideias semelhantes no aprendiz, se a natureza o proveu com uma proporo semelhante de faculdades do nimo ([d]ie Ideen des Knstlers erregen hnliche Ideen seines Lehrings, wenn ihn die Natur mit einer

    hnlichen Proportion der Gemtskrfte versehen hat) (Kant, 1998: 214).135 no concernente a essa proporo que aquele que dotado de gnio um preferido pela natureza.136 135 Ainda nos 46 e 47, Kant nota, respectivamente, que como natureza (als Natur) que o gnio fornece a regra (die Regel gebe) (Kant, 1998: 212) e que o dom natural tem de dar a regra arte (enquanto bela arte) (die Naturgabe der Kunst (als schnen Kunst) die Regel geben muss) (Kant, 1998: 214). Na medida em que essas indicaes nada ostentam no que diz respeito a uma proporo especial das faculdades do nimo, elas no so por ns consideradas to relevantes quanto as outras que citmos. Mesmo assim, elas ajudam a compreender que aquele que dotado de gnio d a regra bela arte atravs da sua natureza, genial. 136 No 47, Kant adjectiva de preferidos pela natureza (Gnstlinge der Natur) relativamente ao seu talento para a arte bela (Kant, 1998: 213) os homens dotados de gnio, isto , [a]queles que merecem a honra de chamar-se gnios (Kant, 1998: 214). Mais frente, no olhar retrospectivo que lana sobre a explicao desse talento, afirma que o gnio um favorito da natureza, que somente se pode considerar como apario rara (ein Gnstling der Natur ist, dergleichen man nur als seltene Erscheinung anzusehen hat) (Kant, 1998: 224). A proporo das faculdades provida aos gnios , ento, algo raro. Ela no corresponde proporo requerida para o

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    Embora aquele que dotado de gnio tenha conscincia de que possui um dom natural, ele no tem, no entanto, qualquer noo de como surge nele a disposio das faculdades que lhe permite criar obras de arte belas ou de como se encontra nele, pelo menos nos termos em que se encontra, aquilo atravs do qual ele realiza essas obras.137 No tendo ele qualquer explicao para isso, no pode ensinar a outros como podem eles chegar a essa disposio do nimo e, portanto, no pode prescrever-lhes, metodicamente, o modo como podero produzir belas obras de arte.138 gosto (zum Geschmack erfordert wird), referida por Kant no 39, e que tambm exigida para o so e comum entendimento que se pode pressupor em qualquer (auch zum gemeinen und gesunden Verstande erforderlich ist, den man bei jedermann voraussetzen darf) (Kant, 1998: 195). De resto, no 17, Kant afirma que se nenhuma das disposies do nimo saliente sobre aquela proporo que requerida para constituir simplesmente um homem livre de defeitos, nada se pode esperar daquilo que se denomina gnio (wenn keine von den Gemtsanlagen ber diejenige Proportion hervorstechend ist, die erfordert wird, blo einen fehlerfreien Menschen auszumachen, nichts von dem, was man Genie nennt, erwartet werden darf) (Kant, 1998: 267-268). Entretanto, o nosso autor refora essa tese no 49, nomeadamente ao assinalar que a reunio das faculdades da imaginao e do entendimento constitui o gnio somente em certas relaes (in gewissem Verhltnisse) (Kant, 1998: 222). 137 Veja-se a terceira concluso acerca do gnio que apresentada no 46, a saber, que o prprio autor de um produto, que ele deve ao seu gnio, no sabe como para isso as ideias se encontram nele e to pouco tem em seu poder imagin-las arbitrria ou planeadamente e comunic-las a outros em tais prescries, que as pem em condio de produzir produtos homogneos (der Urheber eines Produkts, welches er seinem Genie verdankt, selbst nicht wei, wie sich in ihm die Ideen dazu herbei finden, auch

    es nicht in seiner Gewalt hat, dergleichen nach Belieben oder planmig auszudenken und anderen in solchen Vorschriften mitzutheilen, die sie in Stand setzen,

    gleichmige Produkte hervorzubringen) (Kant, 1998: 212). De resto, ter sido essa a razo, no entender de Kant, por que presumivelmente a palavra gnio foi derivada de genius, o esprito peculiar, protector e guia, dado conjuntamente a um homem por ocasio do nascimento, e de cuja inspirao aquelas ideias originais procedem (von dessen Eingebung jene originale Ideen herrhrten) (Kant, 1998: 212). Essas ideias originais so as ideias estticas, s quais daremos o devido destaque na subseco seguinte. 138 A esse propsito, de citar no apenas o incio da concluso mencionada na nota anterior, a saber, o gnio () ele prprio no pode descrever ou indicar cientificamente como realiza o seu produto (es, wie es sein Produkt zu Stande bringe, selbst nicht beschreiben, oder wissenschaftlich anzeigen knne) (Kant, 1998: 212), mas tambm a referncia que, no pargrafo seguinte, Kant faz a dois gnios, ou,

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    Pelas mesmas razes repitamo-lo, mas de um outro ponto de vista no possvel aprender a criar objectos assim.139 A originalidade (die Originalitt) do gnio, assim como o facto de aquele que o possui no saber como surge nele a disposio das faculdades que lhe permite criar obras de arte belas ou como se encontra nele, nos termos em que se encontra, aquilo atravs do qual ele realiza tais obras, esses dois aspectos no implicam, porm, que as obras de gnio no possam servir de produtos exemplares (exemplarisch) e, alis, de padro de medida (Richtmae) ou regra de julgamento (Regel der Beurteilung) para aqueles que as acolhem (cf. Kant, 1998: 212). Analisaremos essa possibilidade em momento oportuno. Manter-nos-emos, por ora, no mbito da originalidade daquele que dotado de gnio. Feita uma introduo do gnio enquanto talento para a bela arte, daremos destaque a dois outros factores que, no fim da seco anterior, mencionmos como relevantes para a construo de uma resposta adequada questo de saber se e como poder falar-se de bela

    melhor, a dois homens com gnio: nenhum Homero ou Wieland pode indicar como as suas ideias imaginosas, e contudo ao mesmo tempo cheias de pensamento, surgem e se reunem na sua cabea, porque ele mesmo no o sabe e portanto tambm no o pode ensinar a nenhum outro (kein Homer oder Wieland anzeigen kann, wie sich seine phantasiereichen und doch zugleich gedankenvollen Ideen in seinem Kopfe hervor

    und zusammen finden, darum weil er es selbst nicht wei und es also auch keinen andern lehren kann) (Kant, 1998: 213). Notemos, de resto, que a regra da bela arte no pode ser surpreendida numa frmula e servir como preceito; pois de contrrio o juzo sobre o belo seria determinvel segundo conceitos (kann in keiner Formel abgefasst zur Vorschrift dienen; denn sonst wrde das Urteil ber das Schne nach

    Begriffen bestimmbar sein) (Kant, 1998: 214), que o gnio um talento para a arte, no para a cincia, a qual tem que ser precedida por regras claramente conhecidas que tm que determinar o seu procedimento (ein Talent zur Kunst sei, nicht zur Wissenschaft, in welcher deutlich gekannte Regeln vorangehen und das Verfahren in derselben bestimmen mssen) (Kant, 1998: 223) e que a bela arte (arte do gnio) no um produto do entendimento e da cincia (ein Produkt des Verstandes und der Wissenschaft) (Kant, 1998: 260). 139 Por exemplo, no se pode aprender a escrever com engenho, por mais minuciosos que possam ser todos os preceitos da arte potica e por mais excelentes que possam ser os meus modelos (man kann nicht geistreich dichten lernen, so ausfhrlich auch alle Vorschriften fr die Dichtkunst und so vortrefflich auch die Muster derselben sein

    mgen) (Kant, 1998: 213).

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    arte no contexto da Crtica da Faculdade do Juzo. So eles o alargamento das capacidades da faculdade da imaginao enquanto faculdade de conhecimento produtiva e a recorrncia noo de ideia esttica como representao inexponvel da faculdade da imaginao.

    2.2. Ideia esttica

    Na primeira observao que se segue ao 57, Kant refere que podemos explicar o gnio tambm pela faculdade de ideias estticas, com o que ao mesmo tempo indicada a razo pela qual, em produtos do gnio, a natureza (do sujeito) e no um fim reflectido d a regra arte ( produo do belo) ([m]an kann diesem zufolge Genie auch durch das Vermgen sthetischer Ideen erklren: wodurch zugleich der Grund angezeigt wird, warum in Produkten des Genies die Natur (des Subjekts), nicht ein

    berlegter Zweck der Kunst (der Hervorbringung des Schnen) die Regel

    gibt) (Kant, 1998: 251-252). No nos preocupemos em mostrar desde j o estatuto de uma tal explicao do gnio como, ela prpria, explicao para que a criao de belas obras de arte seja regrada pela natureza do sujeito. Por ora, registemos apenas que o gnio pode ser explicado pela faculdade de ideias estticas.

    As principais referncias noo de ideia esttica so feitas por Kant no 49 e na mencionada primeira observao que se segue ao 57.140 Qualquer dessas referncias nos indica que as ideias estticas no so

    140 Tal como acontece no que concerne noo de gnio, tambm a primeira ocorrncia da noo de ideia esttica na Crtica da Faculdade de Juzo Esttica se d no 17, acerca do ideal da beleza. A, porm, estava em causa a ideia normal esttica (die sthetische Normalidee) (Kant, 1998: 124). A ideia normal esttica uma intuio singular (da faculdade da imaginao), que representa o padro de medida do [julgamento de uma coisa] como de uma coisa pertencente a uma espcie (Kant, 1998: 124), a regra, somente a forma, que constitui a condio imprescindvel de toda a beleza, por conseguinte simplesmente a correco na exposio da espcie (Kant, 1998: 126). Como tal, ela no pode conter nada especificamente caracterstico; pois de contrrio no seria ideia normal para a espcie (Kant, 1998: 126). No a esse tipo de ideia esttica que o nosso autor faz referncia no 49 e na primeira observao que se segue ao 57.

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    intuies como quaisquer outras as ideias estticas so representaes inexponveis da faculdade da imaginao.141 precisamente por o serem que tais ideias no podem tornar-se conhecimento. As ideias da razo no podem tornar-se conhecimento porque os seus conceitos ou melhor, elas prprias: ideias da razo, conceitos da razo so conceitos transcendentes, conceitos a que nenhuma intuio pode corresponder adequadamente, e, portanto, conceitos de realidade objectiva no provvel (indemonstrvel) no mbito do conhecimento terico, conceitos indemonstrveis da razo (cf. Kant, 1998: 249-250). A impossibilidade de as ideias estticas se tornarem conhecimento prende-se, diferentemente, com o facto de essas intuies internas da faculdade da imaginao no serem adequadamente alcanveis atravs de conceitos do entendimento, isto , com o facto de nenhum conceito do entendimento ser ou poder ser-lhes inteiramente adequado.142 A ideia esttica d muito que pensar d 141 Kant utiliza mais do que uma vez a mesma denominao. Veja-se a primeira observao que se segue resoluo da antinomia do gosto, observao na qual o nosso autor diz crer que se pode denominar a ideia esttica uma representao inexponvel da faculdade da imaginao (eine inexponible Vorstellung der Einbildungskraft) (Kant, 1998: 250) e acrescenta que visto que conduzir a conceitos uma representao da faculdade da imaginao equivale a exp-los, assim a ideia pode denominar-se uma representao inexponvel da mesma (em seu jogo livre) (eine inexponible Vorstellung derselben (in ihrem freien Spiele)) (Kant, 1998: 251). 142 A inadequabilidade essencial entre as ideias estticas e os conceitos do entendimento tambm repetidamente referida por Kant. Atente-se, nesse sentido, ao que ele afirma no 49, a saber, que [t]ais representaes da faculdade da imaginao podem chamar-se ideias () principalmente, porque nenhum conceito lhes pode ser plenamente adequado enquanto intuies internas (ihnen als innern Anschauungen kein Begriff vllig adquat sein kann) (Kant, 1998: 219-220), e, igualmente, primeira observao que se segue ao 57, na qual Kant assinala que [u]ma ideia esttica no pode tornar-se um conhecimento porque ela uma intuio (da faculdade da imaginao), para a qual jamais pode encontrar-se adequadamente um conceito (eine Anschauung (der Einbildungskraft) ist, der niemals ein Begriff adquat gefunden werden kann) (Kant, 1998: 249-250) e que numa ideia esttica o entendimento jamais alcana atravs dos seus conceitos a inteira intuio interna da faculdade da imaginao, que ela liga a uma representao dada (erreicht bei einer sthetischen Idee der Verstand durch seine Begriffe nie die ganze innere Anschauung der Einbildungskraft, welche sie mit einer gegenenen Vorstellung verbindet) (Kant, 1998: 251).

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    tanto que pensar que, como referido no 49, nenhuma linguagem [a] alcana inteiramente nem [a] pode tornar compreensvel (keine Sprache vllig erreicht und verstndlich machen kann) (Kant, 1998: 219), d tanto que pensar que jamais deixa compreender-se num conceito determinado (sich niemals in einem bestimmten Begriff zusammenfassen lsst) (Kant, 1998: 220).

    No obstante o gnio poder ser explicado pela faculdade de ideias estticas, a faculdade responsvel pela produo de tais ideias , ressalve-se, a faculdade da imaginao.143 A faculdade da imaginao produ-las enquanto faculdade de conhecimento produtiva (als produktives Erkenntnisvermgen) (Kant, 1998: 219). Na bela arte, em vez de proceder-se a uma apresentao lgica de um conceito, o que se faz, de acordo com as palavras do 49, ligar representao da faculdade da imaginao associada a um conceito dado (eine einem gegebenen Begriffe beigesellte Vorstellung der Einbildungskraft) uma multiplicidade de representaes parciais no uso livre das mesmas (eine Mannigfaltigkeit der Teilvorstellungen in dem freien Gebrauche derselben), naquilo que constitui um insuflar de esprito linguagem enquanto simples letra (Geist mit der Sprache, als bloem Buchstaben) (Kant, 1998: 222). Um tal procedimento depende da recorrncia aos atributos estticos dos objectos.144 atravs da recorrncia a esses atributos que a imaginao se

    143 Como nota Lambert Zuidervaart, [a] fonte mais precisa de ideias estticas no o gnio, no entanto, mas a imaginao criativa (Zuidervaart, 2003: 200). 144 Segundo Kant, os atributos estticos (sthetiche Attribute) so [a]quelas formas que no constituem a apresentao de um dado conceito, ele mesmo, mas somente expressam, enquanto representaes secundrias da faculdade da imaginao, as consequncias conectadas com elas e o parentesco do conceito com outros (diejenigen Formen, welche nicht die Darstellung eines gegebenen Begriffs selber ausmachen,

    sondern nur als Nebenvorstellungen der Einbildungskraft die damit verknpften

    Folgen und die Verwandtschaft desselben mit andern ausdrcken) (Kant, 1998: 220). Exemplos de atributos estticos dados por Kant so a guia de Jpiter com o relmpago nas garras (Kant, 1998: 220) ou o pavo da esplndida rainha do cu (Kant, 1998: 220-221). Os conceitos em causa so os da sublimidade e majestade da criao (Kant, 1998: 221). As ideias estticas so Jpiter, o poderoso rei do cu (Kant, 1998: 220), e Juno, a esplndida rainha do cu (Kant, 1998: 220-221).

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    exerce como faculdade de conhecimento produtiva e se permite alastrar-se por um grande nmero de representaes afins, que permitem pensar mais do que se pode expressar num conceito determinado por palavras (sich ber eine Menge von verwandten Vorstellungen zu verbreiten, die mehr denken lassen, als man in einem durch Worte bestimmten Begriff

    ausdrcken kann) (Kant, 1998: 221). Ora, sendo essas representaes que fornecem a ideia esttica (cf. Kant, 1998: 221), assim, uma tal ideia amplia esteticamente o prprio conceito de maneira ilimitada (den Begriff selbst auf unbegrnzte Art sthetisch erweitert) (Kant, 1998: 220), abre o nimo perspectiva de um campo incalculvel de representaes afins (die Aussicht in ein unabsehliches Feld verwandter Vorstellungen) (Kant, 1998: 221) e permite pensar [desse] conceito muita coisa inexprimvel, cujo sentimento vivifica as faculdades de conhecimento (zu einem Begriffe viel Unnennbares hinzu denken lsst, dessen Gefhl die Erkenntnisvermgen belebt) (Kant, 1998: 222).

    A descrio que acabmos de dar da maneira como se procede na bela arte, nomeadamente a explicitao do exerccio produtivo da faculdade da imaginao, no pode ser aceite sem que regressemos Crtica da Razo Pura. Tendo em conta o modo como a faculdade da imaginao descrita nesse texto, no podemos deixar de perguntar como pode ela exercer-se produtivamente no sentido que a Crtica da Faculdade do Juzo d a esse exerccio, isto , como pode a faculdade da imaginao produzir ideias para um conceito dado que, no entanto, vo alm desse conceito. Para responder a essa questo, indispensvel notar ser incorrecta a identificao do uso do predicado produtiva (productiv) na Crtica da Razo Pura e na Crtica da Faculdade do Juzo. Na primeira Crtica, a faculdade da imaginao tomada como produtiva ou produtora na medida em que a sua sntese um exerccio da espontaneidade, enquanto sintetiza a priori, e, portanto, enquanto a sua sntese serve de fundamento possibilidade da experincia (cf. Kant, 2001: 152, 160 e 165). como tal que, na primeira edio da Crtica da Razo Pura, Kant a designa por faculdade transcendental da imaginao (transzendentale Vermgen der Einbildungskraft) (Kant, 2001: 141). H, nesse contexto, salvaguarde-se,

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    uma dependncia da faculdade da imaginao em relao ao entendimento: a sua sntese, sntese transcendental que um efeito do entendimento sobre a sensibilidade e que a primeira aplicao do entendimento (e simultaneamente o fundamento de todas as restantes) a objectos da intuio possvel para ns (welches eine Wirkung des Verstandes auf die Sinnlichkeit und die erste Anwendung desselben

    (zugleich der Grund aller brigen) auf Gegenstnde der uns mglichen

    Anschauung ist), est, como o nosso autor salienta, na segunda edio, de conformidade com as categorias (den Kategorien gem) (Kant, 2001: 152).

    Acontece, porm, que, apesar de, no plano do conhecimento objectivo, a faculdade da imaginao estar submetida ao entendimento, o conhecimento objectivo no esgota todas as capacidades da nossa mente. Na Crtica da Faculdade do Juzo, a faculdade da imaginao tida como produtiva no (tanto) enquanto poder de sintetizar a priori, mas enquanto capaz de produzir intuies no subsumveis em conceitos do entendimento. Embora para um conhecimento objectivo as representaes da faculdade da imaginao sejam subsumidas em conceitos do entendimento, nem tudo se limita ao conhecimento objectivo e, portanto, nem todas as representaes dessa faculdade so subsumidas em conceitos do entendimento. A parte final do 49 particularmente clara quanto a esse ponto: enquanto no seu uso para o conhecimento a faculdade da imaginao est submetida coero do entendimento e limitao de ser adequada ao conceito do mesmo (im Gebrauch der Einbildungskraft zum Erkenntnisse die Einbildungskraft

    unter dem Zwange des Verstandes und der Beschrnkung unterworfen

    ist, dem Begriffe desselben angemessen zu sein), de um outro ponto de vista, concretamente do ponto de vista esttico (in sthetischer Absicht), ela livre para fornecer, alm daquela concordncia com o conceito, ainda espontaneamente, uma matria rica e no elaborada para o entendimento (frei ist, um noch ber jene Einstimmung zum Begriffe, doch ungesucht reichhaltigen unentwickelten Stoff fr den Verstand zu

    liefern) (Kant, 1998: 222). Essa matria rica e no elaborada feita das

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    ideias estticas. Ora, atravs de um tal material que a faculdade da imaginao, depois de tomar emprestada da natureza a matria (von der Natur Stoff geliehen), se exerce enquanto faculdade de conhecimento produtiva (als produktives Erkenntnisvermgen) e assim mostra ser mesmo muito poderosa na criao como que de uma outra natureza a partir da matria que a natureza efectiva lhe d (nmlich sehr mchtig in Schaffung gleichsam einer andern Natur aus dem Stoffe, den ihr die

    wirkliche gibt) (Kant, 1998: 219).145 Quanto ao entendimento, apesar de meramente atravs dos seus conceitos no poder abarcar uma tal matria (as ideias estticas) ele no deixa de empreg-la, embora no tanto objectivamente para o conhecimento, mas mais subjectivamente para a vivificao das faculdades de conhecimento, indirectamente portanto tambm para conhecimentos (nicht sowohl objektiv zum Erkenntnisse, als subjektiv zur Belebung der Erkenntniskrfte, indirekt also doch auch zu

    Erkenntnissen) (Kant, 1998: 222). Assim, mesmo sendo em vo que tenta, atravs dos seus conceitos determinados, compreender as intuies internas que a faculdade da imaginao fornece enquanto produtiva, o entendimento colabora para a vivificao do nimo.146

    145 Rudolf A. Makkreel caracteriza a faculdade da imaginao da primeira e terceira Crticas, respectivamente, como faculdade de produzir e reproduzir representaes (Vorstellungen) e como faculdade de criar apresentaes (Darstellungen) (Makkreel, 1994: 128). Note-se, no entanto, que a faculdade da imaginao no cria ex nihilo. Tal como assinala o intrprete, [a] criao envolvida nas ideias estticas no uma Urbildung, ou formao original, mas uma espcie de Umbildung, ou processo remodelador. Mediante a criao de outra natureza pela imaginao, ns remodelamos a experincia de acordo com leis analgicas e os princpios superiores da razo. No processo de remodelao, a imaginao libertada da lei da associao de maneira que a matria que nos dada pela natureza segundo essa lei pode ser reelaborada por ns para algo diverso () que ultrapassa a natureza (Makkreel, 1994: 120). 146 Veja-se a descrio que Vtor Moura d daquilo a que chama vaivm cognitivo entre as faculdades: quando o entendimento conquista uma nova ordenao do material fornecido pela imaginao (e. g., tal como uma guia, a majestade estende o seu raio de aco sobre todo um territrio, no deixando lugar para nenhum competidor), a imaginao responde, fornecendo uma nova imagem (e. g., a soberania como guia vigilante pronta a atacar com o raio que traz nas suas garras) qual o

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    Importa, agora, perguntar o seguinte: envolver, a referida vivificao, um exerccio livre da faculdade da imaginao daquele que ajuza? Estar essa faculdade em harmonia com o entendimento? Poder o juzo, desse que ajuza a obra de arte, ser um juzo de gosto? Abordar estas questes indispensvel para responder s perguntas que nos tm acompanhado desde o incio da nossa investigao Poder falar-se de bela arte? A ser legtimo, sob que condies poder isso ser feito?

    Pensemos, em primeiro lugar, na liberdade da faculdade da imaginao. A questo central que se coloca dada a caracterizao que fizemos quer das ideias estticas, quer do exerccio da imaginao enquanto faculdade de conhecimento produtiva, isto , enquanto produtora das referidas ideias a de saber se, no movimento das faculdades de conhecimento entre si, por ocasio da representao do objecto artstico genial, a faculdade da imaginao daquele que ajuza est em liberdade. Para respondermos a essa questo, devemos manter entre parntesis a tese, do 48, de acordo com a qual no julgamento da beleza de uma obra de arte tm de ser considerados um conceito daquilo que o objecto deva ser e a perfeio da referida obra de arte segundo esse conceito (cf. Kant, 1998: 216). No caso de no o fazermos, seramos obrigados a afirmar, nesta fase, que o exerccio da faculdade da

    entendimento aplicado uma e outra vez (Moura, 2006: 341). Ora, quando o entendimento tenta encontrar um conceito determinado capaz de organizar o material proposto pela imaginao, falha e balana de novo em direco imagem (Moura, 2006: 343-344). Tal acontece [p]orque no existe nenhum conceito determinado ao qual o entendimento se possa agarrar (Moura, 2006: 342). Sendo assim, o entendimento regressa recorrentemente imagem proposta pela imaginao e tenta pensar a imagem qua conceito, justapondo os atributos estticos e os atributos lgicos de ambos os termos (Moura, 2006: 342). Segundo Moura, esse feedback constante e o vaivm cognitivo entre as faculdades constituem-se como a caracterstica mais importante tanto da criao como da compreenso das ideias estticas. Avaliado enquanto sensao, este vaivm caracterizado como agradvel. Considerado do ponto de vista gnoseolgico, ele fortalece a conscincia do nosso prprio poder de pensar e agir. D-nos uma sensao de vida que deriva do facto de o poder intrnseco de cada faculdade cognitiva estar a ser desenvolvido na sua mxima extenso, porque no condicionado pela empiria (Moura, 2006: 341).

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    imaginao no um exerccio livre pois as intuies por ela produzidas contribuiriam para a representao de uma conformidade a fins objectiva interna e, por conseguinte, que o juzo em causa no um juzo de gosto.147 Considerando que s atravs de um juzo de gosto pode um objecto ser declarado belo, imediatamente se compreende a relevncia da questo de saber se, em face de uma obra de arte de gnio, a faculdade da imaginao se exerce livremente para a questo de saber se poder falar-se de bela arte. Que, perante um tal objecto artstico, a faculdade da imaginao daquele que ajuza se exera em liberdade, essa uma condio necessria para a declarao do referido objecto como belo e, por conseguinte, para a legitimao da noo de bela arte.

    Afirmar que o juzo de gosto um juzo livre corresponde a afirmar que ele no tem um conceito como fundamento de determinao.148 Se um juzo fundado num conceito, ento, nesse juzo, o exerccio da faculdade da imaginao submetido a esse conceito. Nesse caso, o que est em causa uma conformidade a fins objectiva. As faculdades de conhecimento no esto num jogo livre. Ora, se o movimento das faculdades de conhecimento daquele que ajuza no consiste num jogo livre, ento o seu juzo no pode ser um juzo de gosto. Consequentemente, o objecto por ocasio da representao do qual se ajuza no pode ser declarado belo.

    Regressemos ao 49 e noo de ideia esttica. No obstante nenhum conceito do entendimento poder ser plenamente adequado a uma ideia

    147 Se, para reiterar que num juzo de gosto a faculdade da imaginao tem de exercer-se livremente, quisermos abster-nos de elencar novamente as referncias que fizemos liberdade da faculdade da imaginao quando, no primeiro captulo da nossa tese, descrevemos o juzo de gosto, podemos limitar-nos a mencionar o 9, no qual Kant usa quatro vezes a expresso jogo livre (freies Spiel) para referir-se ao movimento das faculdades da imaginao e do entendimento entre si por ocasio da representao de um objecto quando se trata de proferir um juzo de gosto (cf. Kant, 1998: 106). 148 Em nome do rigor, devemos recordar que, para um juzo esttico como o caso do juzo de gosto ser um juzo livre, ele tambm no pode ser um juzo esttico dos sentidos, um juzo acerca da agradabilidade. Esta condio no tem, no entanto, qualquer relevncia para o que agora nos interessa averiguar.

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    esttica, Kant sugere, no 49, que uma ideia esttica pertence apresentao de um conceito (cf. Kant, 1998: 220). Ainda nesse pargrafo, ele define-a como uma representao da faculdade da imaginao associada a um conceito dado (eine einem gegebenen Begriffe beigesellte Vorstellung der Einbildungskraft) (Kant, 1998: 222).149 Embora as ideias estticas carreguem algo que objectivamente no corresponde a um tal conceito, na criao de uma bela obra de arte esse conceito no suprimido. Ora, tambm no juzo atravs do qual essa obra de arte declarada bela ele no pode ser suprimido. O conceito dado tem de ser reconhecido por aquele que ajuza a obra de arte como bela. A possibilidade de o fornecimento de ideias estticas promover um movimento harmnico recproco das faculdades de conhecimento daquele que ajuza pressupe o reconhecimento da associao entre essas ideias e o conceito dado e, por conseguinte, o reconhecimento desse mesmo conceito. Se aquele que ajuza no reconhecer esse conceito, ele no pode declarar bela a obra de arte. No pode declar-la como tal porque no sente um prazer ligado a uma disposio conforme a fins das suas faculdades de conhecimento entre si promovida pelo fornecimento de ideias estticas no sente esse prazer porque as faculdades de conhecimento simplesmente no se colocam nessa disposio.150

    A obrigao de aquele que ajuza reconhecer o conceito dado no equivale, porm, a uma submisso da faculdade da imaginao ao entendimento. Mediante o fornecimento de uma matria rica, a faculdade da imaginao desafia o entendimento a algo para o qual ele no suficiente. Entretanto, o entendimento igualmente provoca a faculdade da imaginao. Atravs dessa estimulao recproca, as duas faculdades relacionam-se. Assim, apesar de iniciada num conceito dado, a relao das faculdades de conhecimento entre si vai alm desse conceito, inicialmente

    149 J o tnhamos citado. 150 Veja-se o que afirma Paul Guyer a este propsito: o prazer na resposta esttica assenta na maneira como a imaginao induzida a ir alm de qualquer conceito determinado, mas ao mesmo tempo este prazer no pode sequer ser sentido a no ser que o conceito seja de facto reconhecido (Guyer, 1997: 359).

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    dado, ou de qualquer outro que o entendimento proponha imaginao. Por esta razo, ela no pode ser representada como uma conformidade a fins objectiva, pois no consiste nem pode consistir na compreenso, por parte do entendimento daquilo que lhe fornecido pela faculdade da imaginao.151 A vivificao recproca das faculdades de conhecimento no envolve, nem pode envolver, ento, uma relao de submisso das intuies internas da imaginao ao conceito determinado do objecto e, portanto, uma relao de submisso da faculdade da apresentao ao entendimento. Ao ser representada como conforme a fins, ela tem de ser representada como uma conformidade a fins meramente subjectiva.152

    A questo qual devemos responder, por conseguinte, a de saber se, ao produzir representaes associadas a um conceito dado, a faculdade da imaginao se exerce livremente. Coloqu-mo-la unicamente por relao ao juzo: no obstante ter de reconhecer o conceito inicialmente dado, poder, aquele que ajuza, proferir um juzo no qual as suas faculdades de conhecimento se movimentem em liberdade? Uma ideia esttica , por definio, uma intuio associada a um conceito dado. Quando se trata de sentir um prazer no movimento das faculdades de conhecimento entre si por ocasio do fornecimento de ideias estticas para um conceito dado, esse conceito no suprimido. Apesar disso, quer na produo da obra de arte, quer no concernente ao movimento das faculdades de conhecimento daquele que a ajuza como bela, o exerccio da faculdade da imaginao tido por Kant como sendo 151 Se a aferio da adequabilidade das ideias estticas apresentao do conceito consistisse na observao da sua contribuio para o conhecimento objectivo, ento, tendo em conta que, no mbito desse conhecimento, o entendimento apenas considera as intuies objectivamente correspondentes aos seus conceitos, e quaisquer outras so tidas como meramente inadequadas, as ideias estticas seriam tidas como meramente inadequadas. A aplicao de um tal critrio, porm, ou levaria a que se ignorasse que h uma vivificao recproca das faculdades de conhecimento ou simplesmente impediria que se compreendesse a participao do entendimento na manuteno desse movimento entre as faculdades. 152 De resto, dessa vivificao do nimo, enquanto subjectivamente conforme a fins, s pode tomar-se conscincia esteticamente, atravs de um sentimento de prazer. Ora, num tal sentimento que o juzo de gosto se funda.

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    um exerccio livre. H vrias passagens que o atestam: recordemos que, no 49, Kant assinala que o uso que se faz da multiplicidade de representaes parciais que se ligam ideia esttica um uso livre (freier Gebrauch) e que, quanto a fornecer ideias estticas para um conceito dado, a faculdade da imaginao livre (ist frei) (Kant, 1998: 222); no 53, logo no incio da comparao que estabelece entre as belas-artes quanto ao valor esttico de cada uma, Kant afirma que a poesia alarga o nimo pelo facto de pr em liberdade a faculdade da imaginao (die Einbildungskraft in Freiheit setzt) (Kant, 1998: 233); na primeira observao que se segue ao 57, o nosso autor indica, como j citmos, que a ideia esttica uma representao da faculdade da imaginao em seu jogo livre (in ihrem freien Spiele) (Kant, 1998: 251); finalmente, no ltimo pargrafo da Crtica da Faculdade de Juzo Esttica (60) Kant refere que sem a prpria liberdade da faculdade da imaginao na sua conformidade a leis (die Freiheit der Einbildungskraft selbst in ihrer Gesetzmigkeit) no possvel nenhuma bela arte (keine schne Kunst), nem sequer um gosto prprio correcto que a ajuze (nicht einmal ein richtiger sie beurteilender eigener Geschmack) (Kant, 1998: 265).153 Se a representao fornecida pela faculdade da imaginao for alm daquilo que o conceito ao qual est associada ou que qualquer outro conceito que o entendimento lhe fornea for capaz de abranger, ento a faculdade da imaginao tida por Kant como exercendo-se livremente. Independentemente de aquele que ajuza ter de reconhecer o conceito ao qual a ideia esttica est associada e ele, de facto, tem de reconhecer um tal conceito o

    153 Estas so as passagens nas quais a posio de Kant mais evidente. Seja como for, ela indiciada desde a introduo da noo de bela arte, no 44. De resto, o simples facto de Kant falar de uma arte que bela constitui um indcio de que, no juzo atravs do qual uma obra de arte declarada bela, a faculdade da imaginao se exerce livremente. A razo pela qual no podemos usar esse facto para prov-lo bvia aquilo que estamos a avaliar precisamente a legitimidade de falar-se de bela arte, isto , a possibilidade de uma obra de arte ser declarada bela, a possibilidade de ajuizar-se uma obra de arte atravs de um juzo de gosto.

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    exerccio da faculdade da imaginao um exerccio livre.154 Assim, no que diz respeito liberdade dessa faculdade, o juzo atravs do qual se declara bela uma obra de arte pode ser um juzo de gosto. Ora, sendo a liberdade da faculdade da imaginao uma condio indispensvel para a declarao de um objecto como belo, no concernente satisfao dessa condio a obra de arte pode ser declarada bela. Por conseguinte, se mantivermos entre parntesis a passagem, do 48, de acordo com a qual no juzo atravs do qual se declara belo um objecto artstico tm de ser tidos em conta um conceito daquilo que o objecto deva ser e a perfeio (a conformidade a fins objectiva interna) deste relativamente quele (cf. Kant, 1998: 216), ento poderemos responder afirmativamente questo de saber se possvel ajuizar-se uma obra de arte atravs de um juzo esttico reflexivo, se uma obra de arte pode ser declarada bela, e, portanto, questo que tem conduzido a nossa investigao, a de saber se legtimo falar-se de bela arte.

    2.3. Expresso de ideias estticas

    Principalmente mediante uma explicitao da noo de ideia esttica, sustentmos, na subseco anterior, que o exerccio da faculdade da imaginao , no contexto da bela arte, um exerccio livre. Mostrmos que a faculdade da imaginao pode exercer-se livremente mesmo quando as representaes por ela fornecidas so representaes associadas a um conceito dado e o prazer sentido por ocasio do seu fornecimento pressupe o reconhecimento desse conceito.155 No mbito da bela arte, o exerccio da faculdade da imaginao livre precisamente porque tem ideias estticas (representaes inexponveis) como matria. Por ocasio

    154 Guyer assinala que a caracterizao de Kant de ideias estticas torna evidente que a nossa resposta a obras de arte que manifestam tais ideias sempre ligada a conceitos mas nunca determinada ou esgotada por esses conceitos (Guyer, 1997: 359). 155 Fizemo-lo mantendo entre parntesis a tese, do 48, de acordo com a qual no juzo atravs do qual se declara bela uma obra de arte tm de ser tidos em conta um conceito daquilo que o objecto deva ser e a perfeio da obra de arte segundo esse conceito (cf. Kant, 1998: 216).

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    do fornecimento de ideias estticas para um conceito dado, promovido um movimento livre das faculdades de conhecimento entre si.

    Devemos verificar, agora, se e como o exerccio referido est em harmonia com o entendimento, isto , se e como, ao exercer-se livremente, a faculdade da imaginao se exerce harmonicamente com o exerccio do entendimento. Uma obra de arte s pode ser declarada bela se o movimento das faculdades de conhecimento entre si for representado como conforme a fins; e esse movimento s pode ser representado como conforme a fins se for um movimento harmnico. Logo, s se o movimento das faculdades de conhecimento entre si for harmnico pode a obra de arte ser declarada bela, isto , ser uma bela obra de arte e s se uma obra de arte puder ser declarada bela, puder ser uma bela obra de arte, pode falar-se de bela arte. A questo de saber se, em face de uma obra de arte genial, o exerccio livre da faculdade da imaginao daquele que ajuza um exerccio que est em harmonia com o exerccio do entendimento, esta questo , ento, indispensvel para a elaborao de uma resposta suficientemente fundamentada questo de saber se um objecto artstico pode ser ajuizado atravs de um juzo de gosto, isto , se um objecto artstico pode ser declarado belo. Quando soubermos a resposta a essa questo, afirmativa ou negativa, estaremos em melhores condies de responder questo que nos tem acompanhado desde o incio deste trabalho a de saber se legtimo falar-se de bela arte.

    Em pleno contexto das suas consideraes acerca da bela arte, na parte final do 49, Kant afirma o seguinte:

    o gnio consiste na feliz relao, que nenhuma cincia pode ensinar e nenhuma diligncia pode aprender, de encontrar ideias para um conceito dado e por outro lado de encontrar para elas a expresso pela qual a disposio subjectiva do nimo da resultante, enquanto acompanhamento de um conceito, pode ser comunicada a outros (besteht das Genie eigentlich in dem glcklichen Verhltnisse, welches keine Wissenschaft lehren und kein Flei erlernen kann, zu einem

    gegebenen Begriffe Ideen aufzufinden und andrerseits zu diesen den

    Ausdruck zu treffen, durch den die dadurch bewirkte subjektive Gemtstimmung, als Begleitung eines Begriffs, anderen mitgeteilt

    werden kann) (Kant, 1998: 223).

  • BELA ARTE

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    O nosso autor associa comunicabilidade de uma disposio subjectiva do nimo, enquanto acompanhamento de um conceito, a expresso de ideias estticas. Aquele que dotado de gnio no apenas fornece ideias estticas, atravs da capacidade produtiva da sua imaginao, mas igualmente d a essas ideias uma expresso mediante a qual, enquanto acompanhamento de um conceito, o movimento das faculdades de conhecimento daquele que ajuza seja, por ocasio da representao que ele faz do objecto, um movimento universalmente comunicvel, ou seja, um movimento reciprocamente concordante, um movimento harmnico. O fornecimento de ideias estticas no , ento, suficiente para colocar o nimo daquele que ajuza numa disposio harmnica. Por conseguinte, a mera produo de representaes inexponveis da faculdade da imaginao no suficiente para que ele declare belo o objecto em causa, para que a obra de arte seja bela, pois uma livre disposio anmica no suficiente para a beleza alm de livre, a disposio das faculdades do nimo tem de ser concordante, consonante, harmnica. A produo de ideias estticas, sem mais, insuficiente para a beleza. Requer-se igualmente que a essas representaes (as ideias estticas) se d uma certa expresso. (tambm) a expresso, uma certa expresso, e no (meramente) a produo de ideias estticas, aquilo que gera, naquele que ajuza, o movimento conforme a fins das suas faculdades de conhecimento entre si para o conhecimento em geral por ocasio da representao que ele faz do objecto. Tal reforado, de resto, numa passagem posterior, a saber, aquela com que Kant inaugura o 51, na qual afirmada a possibilidade de denominao da beleza precisamente como expresso de ideias estticas (den Ausdruck sthetischer Ideen) (Kant, 1998: 226). O nosso autor afirma a possibilidade de denominar-se a beleza no como produo de ideias estticas, mas, precisamente, como expresso de ideias estticas.

    importante assinalar, desde j, que, no concernente liberdade da faculdade da imaginao, tambm no caso da expresso de ideias estticas, como no caso do seu fornecimento, o exerccio dessa faculdade tido por Kant como livre. Esta tese pode ser atestada na terceira concluso

  • SE E COMO PODER UMA OBRA DE ARTE SER BELA

    142 CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana

    apresentada pelo nosso autor por ocasio do olhar retrospectivo que ele lana sobre a explicao da noo de gnio. Afirma Kant, a, que o gnio

    se mostra no tanto na realizao do fim proposto na exibio de um conceito determinado, mas muito mais na exposio ou expresso de ideias estticas, que contm uma rica matria para aquele fim, por conseguinte ele representa a faculdade da imaginao na sua liberdade relativamente a toda a instruo de regras e no entanto como conforme a fins para a exibio do conceito dado (es sich nicht sowohl in der Ausfhrung des vorgesetzten Zwecks in Darstellung eines bestimmten

    Begriffs, als vielmehr im Vortrage, oder dem Ausdrucke sthetischer Ideen, welche zu jener Absicht reichen Stoff enthalten, zeige, mithin die Einbildungskraft in ihrer Freiheit von aller Anleitung der Regeln

    dennoch als zweckmig zur Darstellung des gegebenen Begriffs

    vorstellig mache) (Kant, 1998: 223-224).

    Esta passagem torna evidente a posio de Kant: mesmo quando envolve expresso de ideias estticas, e no apenas a produo, o fornecimento dessas ideias, a faculdade da imaginao exerce-se livremente. Alm disso, na medida em que menciona a representao da faculdade da imaginao como conforme a fins, ela torna tambm evidente a posio do nosso autor quanto harmonia das faculdades de conhecimento entre si.156 a essa harmonia, a essa concordncia, que agora pretendemos dedicar a nossa ateno.

    Tendo uma tal pretenso em conta, devemos regressar parte final do 49. Imediatamente a seguir ao excerto por ns citado no incio desta subseco, Kant indica que o talento atravs do qual se encontra a expresso de ideias estticas adequada beleza o esprito: [o] ltimo talento propriamente aquilo que se denomina esprito ([d]as letztere Talent ist eigentlich dasjenige, was man Geist nennt) (Kant, 1998: 223). No incio do mesmo pargrafo, a propsito da noo de esprito, o nosso autor declara o seguinte:

    156 De resto, na quarta concluso que apresenta por ocasio do olhar retrospectivo que lana sobre a explicao da noo de gnio, Kant refere uma concordncia livre da faculdade da imaginao com a legalidade do entendimento (freien bereinstimmung der Einbildungskraft zur Gesetzlichkeit des Verstandes) (Kant, 1998: 224).

  • JUZO DE GOSTO

    CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana 143

    Esprito, num sentido esttico significa o princpio vivificante no nimo. Aquilo porm pelo qual este princpio vivifica a alma, o material que ele utiliza para isso, o que conformemente a fins, pe em movimento as faculdades do nimo, isto um jogo que se mantm por si prprio e fortalece ainda as faculdades para o mesmo (Geist in sthetischer Bedeutung heit das belebende Prinzip im Gemte. Dasjenige aber, wodurch deses Prinzip die Seele belebt, der Stoff, den es dazu anwendet, ist das, was die Gemtskrfte zweckmig in Schwung versetzt, d. i. in ein solches Spiel, welches sich von selbst erhlt und selbst die Krfte dazu strkt) (Kant, 1998: 218-219).

    As ideias estticas activam as faculdades de conhecimento daquele que ajuza, do movimento ao nimo. Atravs do esprito, d-se a essas ideias uma expresso mediante a qual o mencionado movimento tornado conforme a fins. Por intermdio do esprito, aquele que dotado de gnio apresenta as ideias estticas, associadas a um conceito dado, de uma maneira que coloca as faculdades do nimo daquele que ajuza, por ocasio da representao que ele faz do objecto, numa disposio conforme a fins para o conhecimento em geral. O esprito no produz ideias estticas; ele apresenta-as: o esprito no nada mais que a faculdade da apresentao de ideias estticas (sei nichts anders, als das Vermgen der Darstellung sthetischer Ideen) (Kant, 1998: 219). Apresentar (darstellen) no pode ser identificado com fornecer (liefern) ou produzir (hervorbringen): a faculdade que fornece ideias estticas , como j vimos, a faculdade da imaginao enquanto faculdade de conhecimento produtiva; a faculdade responsvel pela maneira como essas ideias so apresentadas por outras palavras: o talento responsvel pela expresso das ideias estticas adequada beleza , diferentemente, o esprito.

    Recordemos que as ideias estticas no podem tornar-se conhecimento:

    por uma ideia esttica entendo () aquela representao da faculdade da imaginao que d muito que pensar, sem que contudo qualquer pensamento determinado, isto , conceito, possa ser-lhe adequado, representao que consequentemente nenhuma linguagem

  • SE E COMO PODER UMA OBRA DE ARTE SER BELA

    144 CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana

    alcana inteiramente nem pode tornar compreensvel (unter einer sthetischen Idee () verstehe ich diejenige Vorstellung der Einbildungskraft, die viel zu denken veranlasst, ohne da ihr doch irgend ein bestimmter Gedanke, d. i. Begriff, adquat sein kann, die folglich keine Sprache vllig erreicht und verstndlich machen kann) (Kant, 1998: 219).

    Alm disso, elas tentam apresentar o inefvel (das Unnennbare). de assinalar, neste contexto, que as ideias estticas substituem a apresentao lgica para ideias da razo. De facto, Kant afirma, na Observao geral sobre a exposio dos juzos reflexivos estticos, que [t]omadas literalmente e consideradas logicamente, as ideias no podem ser apresentadas ([b]uchstblich genommen und logisch betrachtet, knnen Ideen nicht dargestellt werden) e que no podemos realizar objectivamente (objektiv zu Stande bringen) a apresentao de algo supra-sensvel (Kant, 1998: 166). A explicao dessa impossibilidade dada poucas palavras depois, quando o nosso autor lembra que h uma inadequao objectiva da faculdade da imaginao na sua mxima ampliao em relao razo (enquanto faculdade das ideias) (objektive Unangemessenheit der Einbildungskraft in ihrer grten Erweiterung fr die Vernunft (als Vermgen der Ideen)) (Kant, 1998: 168). No podemos deixar de notar, no entanto, que a inadequao da faculdade da imaginao relativamente razo unicamente objectiva, que a realizao da apresentao de algo supra-sensvel s objectivamente impossvel e que as ideias da razo s no podem ser apresentadas quando tomadas literalmente e consideradas logicamente. tambm por as ideias estticas tentarem apresentar conceitos da razo que Kant as designa por ideias:

    Tais representaes da faculdade da imaginao podem chamar-se ideias, em parte porque elas pelo menos aspiram a algo situado acima dos limites da experincia e assim procuram aproximar-se de uma apresentao dos conceitos da razo (das ideias intelectuais) (Man kann dergleichen Vorstellungen der Einbildungskraft Ideen nennen: eines Teils darum, weil sie zu etwas ber die Erfahrungsgrenze hinaus Liegendem wenigstens streben und so einer Darstellung der

  • JUZO DE GOSTO

    CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana 145

    Vernunftbegriffe (der intellectuellen Ideen) nahe zu kommen suchen) (Kant, 1998: 219). 157

    157 Conceitos da razo de entes invisveis, o reino dos bem-aventurados, o reino do inferno, a eternidade, a criao, etc, os nossos conceitos da sublimidade e majestade da criao, a ideia racional de inteno cosmopolita (Kant, 1998: 221) eis alguns exemplos de ideias da razo que a bela arte, enquanto expresso de ideias estticas, pode tentar apresentar. Brigitte Sassen faz assentar o carcter estranho da concepo kantiana de ideia esttica na unificao, pela terceira Crtica, de duas noes outrora afastadas, a saber, a noo de ideia e a noo de esttico. Na teoria de conhecimento de Kant, afirma Sassen, uma ideia um conceito da razo. Exemplos de tais conceitos so os conceitos de Deus, liberdade ou imortalidade. Como conceitos supra-sensveis, eles no podem ser intudos ou conhecidos, e dado que conceitos sem intuies so vazios, eles podem ter no mximo uma funo reguladora. No entanto, na medida em que esttico tem a ver com a maneira na qual ns intumos, a conjuno peculiar de esttico e ideia sugere que as ideias estticas fornecem a contraparte intuitiva e o contedo das ideias intelectuais. Ao chamar estticas tais ideias, Kant torna bastante claro que o que quer que sejam mais, elas constituem um diverso intudo. Como tal, podem fazer sensveis ideias supra-sensveis e fornecer material intuitivo para ideias abstractas que similarmente no podem ser compreendidas por um conceito (Sassen, 2003: 173). A propsito da sensibilizao das ideias da razo, Moura indica que a ideia esttica funciona como interface entre a ideia racional e a imagtica da imaginao (e. g., a ideia imaginativa da guia como encarnao da encarnao de Jpiter das ideias de sublimidade e majestade) (Moura, 2006: 342), serve de mediao entre o material imaginativo e uma ideia racional (Moura, 2006: 343). No contexto da arte do gnio, a apresentao das ideias da razo , utilizando as palavras de Gilles Deleuze, uma apresentao positiva, mas secundria e feita por criao de outra natureza (Deleuze, 2000: 64). Igualmente devemos notar, entretanto, que uma tal apresentao envolve necessariamente a concesso de deformidades. Na sequncia do olhar retrospectivo que lana sobre a explicao dada por ele prprio acerca do gnio, Kant refere algo que enquanto deformidade o gnio somente teve que conceder, porque no podia elimin-la sem enfraquecer a ideia (was das Genie als Missgestalt nur hat zulassen mssen, weil es sich, ohne die Idee zu schwchen, nicht wohl wegschaffen lie) e acrescenta que esse desvio da regra comum (Abweichung von der gemeinen Regel) permanece em si sempre um erro que se tem que procurar extirpar (immer an sich ein Fehler, den man wegzuschaffen suchen muss) (Kant, 1998: 224). Quando se trata da apresentao de ideias da razo pela via artstica, quando se trata de torn-las sensveis numa obra de arte, o erro inevitvel. Um mesmo tipo de inevitabilidade esboado por Longino, no seu tratado sobre o sublime. Podemos abord-lo por intermdio de Jean-Franois Lyotard. No texto Reprsentation, prsentation, imprsentable, compilado em Linhumain Causeries sur le temps, Lyotard afirma que [q]uando procuramos apresentar que existe algo que

  • SE E COMO PODER UMA OBRA DE ARTE SER BELA

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    Ora, aquilo que o gnio faz, mediante o esprito, apresentar de uma maneira adequada a uma disposio anmica universalmente

    no apresentvel, necessrio martirizar a apresentao (Lyotard, 1997: 129). Ao esforar-se para apresentar que h qualquer coisa que no pode ser apresentada, a imaginao, faculdade da apresentao, martiriza a apresentao. Em Le sublime et lavant-garde, igualmente includo em Linhumain Causeries sur le temps, Lyotard acrescenta que [u]ma falha no ofcio () venial, se for o preo de uma verdadeira grandeza e que [a] grandeza do discurso verdadeira, quando testemunha da incomensurabilidade do pensamento com o mundo real (Lyotard, 1997: 100). Lyotard escreve essas palavras precisamente por referncia ao Peri Hypsous, de Longino. Conclumos, a partir delas, que o martrio acima sugerido no diminui a sublimidade da apresentao ele engrandece-a. De facto, no entender de Longino, a grandeza, mesmo correndo o risco de ser defeituosa, prefervel vulgaridade da s e imaculada correco. Justificando o carcter defeituoso dos grandes discursos precisamente no facto de remeterem para algo superior, o que no acontece com os discursos menores, ele assinala, primeiro, que, sendo quase impossvel que os engenhos humildes e medocres no sejam pela maior parte sem defeito e que deixem de discorrer com mais segurana; porque no se elevam jamais a coisas sumas, nem ainda se arriscam a entrar nelas, o sublime de si mesmo perigoso pela sua elevao e grandeza (Longino, 1984: 122), e, depois, que enquanto [a] iseno de defeitos impede a crise, aquilo que grande e maravilhoso excita de mais a admirao (Longino, 1984: 128). Ora, exactamente a remisso dos grandes discursos para algo superior aquilo que leva Longino a concluir que cada um daqueles Escritores com uma s sublimidade e perfeio resgatam todos os seus erros; e, sobretudo, [que] se algum colhesse todas as faltas de Homero, Demstenes, Plato e de quantos h clebres e da mesma grandeza, e as comparasse com as belezas que a cada passo se acham nesses mesmos Heris, acharia no fazerem a menor parte, ou, para melhor dizer, a mnima de suas obras (Longino, 1984: 128), ou, ainda antes, que as dolosas subtilezas da Retrica se ofuscam, se so cercadas por todas as partes da copiosa torrente da sublimidade (Longino, 1984: 96). Quando se trata de apresentar ideias da razo num objecto artstico, aquele que dotado de gnio concede deformidades, comete erros, a apresentao martirizada, o artista falha, a obra defeituosa, envolve faltas. O dolo , ainda assim, um mal menor. As deformidades e os erros que as obras de arte geniais carregam consigo podem ser sintomas que remetem para a impossibilidade de a faculdade da apresentao satisfazer a exigncia da razo, indcios do estado em que o nimo entra quando a imaginao fora maximamente os seus limites, figuras que sugerem que ela est a tentar eliminar as suas barreiras e tornar-se ilimitada. No desenvolveremos esta interpretao das deformidades e dos erros que as obras de arte de gnio necessariamente envolvem quando se trata de apresentarem ideias da razo, interpretao que, de resto, poderia conduzir-nos a pensar eventuais

  • JUZO DE GOSTO

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    comunicvel algo que no pode tornar-se conhecimento , nas palavras de Kant, expressar o inefvel, no estado do nimo por ocasio de uma certa representao, e torn-lo universalmente comunicvel quer a expresso consista na linguagem, na pintura ou na arte plstica (das Unnennbare in dem Gemtszustande bei einer gewissen Vorstellung auszudrcken und allgemein mitteilbar zu machen, der Ausdruck mag nun in Sprache, oder Malerei, oder Plastik bestehen) (Kant, 1998: 223). Pode afirmar-se, por conseguinte, que o esprito expressa ideias estticas e ideias da razo ao expressar ideias estticas, associadas a ideias da razo, ele expressa ideias da razo. O esprito expressa ideias da razo atravs de uma expresso de ideias estticas que faz com que a disposio livre das faculdades de conhecimento daquele que ajuza seja, por ocasio da representao que ele faz do objecto artstico, uma disposio reciprocamente harmnica.158 atravs do esprito, ento, que se d ao material fornecido pela faculdade produtiva da imaginao,

    ligaes entre o belo e o sublime, no contempladas de modo explcito pela Crtica da Faculdade do Juzo, mas, ainda assim, sugeridas sublinhe-se, por exemplo, que a apresentao do sublime () pertence bela arte (die Darstellung des Erhabenen gehrt zur schnen Kunst) (Kant, 1998: 232). A nossa tese movida pela questo de saber se e como poder falar-se de bela arte no contexto da terceira Crtica de Kant. a essa questo que nos propomos responder satisfatoriamente. Nesta fase, importa continuar a explicitar a noo de bela arte, enquanto arte do gnio, e clarificar quer a denominao da beleza artstica como expresso de ideias estticas, quer a importncia do esprito nessa expresso. 158 De resto, se, no mbito da bela arte, aquilo que o esprito expressa, atravs da expresso de ideias estticas, so ideias da razo, ento, nesse mesmo mbito, pode falar-se no de uma concordncia objectiva entre ideia esttica e conceito dado, pois este uma ideia da razo, mas de uma concordncia das faculdades de conhecimento entre si no seu jogo livre. Afirmar o contrrio significaria colocar em causa no apenas a definio de ideia esttica como representao inexponvel da faculdade da imaginao (inexponible Vorstellung der Einbildungskraft) (Kant, 1998: 250), mas igualmente a definio de ideia da razo como conceito ao qual nenhuma intuio (representao da faculdade da imaginao) pode ser adequada (Begriff, dem keine Anschauung (Vorstellung der Einbildungskraft) adquat sein kann) (Kant, 1998: 219), como conceito que no pode ser apresentado adequadamente (nicht adquat dargestellt werden kann) (Kant, 1998: 220), como conceito indemonstrvel da razo (indemonstrabeln Begriff der Vernunft) (Kant, 1998: 250).

  • SE E COMO PODER UMA OBRA DE ARTE SER BELA

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    nomeadamente s ideias estticas, a expresso pela qual as faculdades de conhecimento, enquanto acompanhamento de um conceito, so colocadas numa disposio conforme a fins para o conhecimento em geral. Para tal, o esprito apreende o jogo fugaz da faculdade da imaginao (das schnell vorbergehende Spiel der Einbildungskraft), isto , o fornecimento de representaes inexponveis por parte dessa faculdade em seu jogo livre, e rene-o num conceito que permite comunicar-se sem coero de regras (in einen Begriff, der sich ohne Zwang der Regeln mitteilen lsst) (Kant, 1998: 223). Salvaguarde-se, a esse propsito, que reunir (vereinigen) no o mesmo que compreender (zusammenfassen). A compreenso pressuporia a descoberta de um conceito determinado ao qual pudessem ser submetidas as ideias estticas. Acontece que no se pode encontrar para [a ideia esttica] nenhuma expresso que denote um conceito determinado (fr sie kann kein Ausdruck, der einem bestimmten Begriff bezeichnet, gefunden werden) (Kant, 1998: 222). As ideias estticas no so adequadamente alcanveis pelo entendimento, atravs dos seus conceitos. Assim, o conceito no qual o esprito rene o jogo da faculdade da imaginao no nem pode ser um conceito determinado. S pode tratar-se de um conceito indeterminado. Trata-se do conceito da conformidade a fins formal da natureza para as nossas faculdades de conhecimento, sob a forma de uma obra de arte genial, enquanto, por intermdio de um tal objecto, aquele que dotado de gnio, fornecendo ideias estticas para um conceito dado, atravs da capacidade produtiva da sua imaginao, e apresentando essas ideias de uma maneira adequada beleza, mediante o seu esprito, gera nas faculdades de conhecimento daquele que ajuza, por ocasio da representao que ele faz do objecto, um movimento simultaneamente livre e harmnico, isto , um movimento formalmente, subjectivamente, esteticamente conforme a fins, um movimento conforme a fins sem fim.

    Consideramos estar sinalizado e descrito aquilo que necessrio para que o movimento das faculdades de conhecimento daquele que ajuza seja, por ocasio da representao que ele faz de um objecto artstico genial, no apenas um movimento livre, mas tambm um movimento harmnico. Cumprida essa tarefa, e mantendo entre parntesis a tese, do 48, de

  • BELA ARTE

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    acordo com a qual no juzo atravs do qual se declara bela uma obra de arte tm de ser tidos em conta um conceito daquilo que o objecto deva ser e a perfeio da obra de arte segundo esse conceito (cf. Kant, 1998: 216), estamos em condies de afirmar que possvel ajuizar-se um objecto artstico atravs de um juzo de gosto, que uma obra de arte pode ser declarada bela, que legtimo falar-se de bela arte. O talento necessrio para que o movimento das faculdades de conhecimento daquele que ajuza seja, por ocasio da representao que ele faz de uma obra de arte de gnio, um movimento conforme a fins, embora sem fim, o esprito -o precisamente enquanto talento por intermdio do qual o gnio encontra, para as representaes inexponveis que a sua faculdade da imaginao produz, uma maneira de apresent-las, uma expresso, mediante a qual a disposio subjectiva do nimo da resultante, enquanto acompanhamento de um conceito, pode ser comunicada a outros (Kant, 1998: 223). O esprito , assim, a faculdade atravs da qual o gnio cumpre um dos aspectos essenciais do seu carcter, a saber, a exemplaridade.

    Desde logo nos primeiros pargrafos centrados na noo de gnio (46 e 47) Kant assinala que a originalidade (Originalitt) a primeira propriedade (erste Eigenschaft) (Kant, 1998: 212) e, por conseguinte, um aspecto essencial do carcter do gnio (wesentliches Stck vom Charakter das Genies) (Kant, 1998: 215). Aquele que dotado de gnio original se, atravs da capacidade produtiva da sua faculdade da imaginao, fornecer ideias estticas para um conceito dado. Ser original no , no entanto, o nico aspecto essencial da genialidade (cf. Kant, 1998: 215). Perante a possibilidade de uma extravagncia original (originalen Unsinn), o nosso autor ressalva que os produtos do gnio tm que ser ao mesmo tempo modelos, isto exemplares (Muster, d. i. exemplarisch) e, portanto, tm que servir a outros como padro de medida ou regra de julgamento (Richtmae oder Regel der Beurteilung) (Kant, 1998: 212)159. A originalidade do gnio

    159 J o tnhamos indiciado na subseco Gnio. Kant f-lo precisamente no pargrafo no qual introduz a noo de gnio (46).

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    tem de ser, ento, exemplar no 49, Kant define mesmo o gnio como a originalidade exemplar do dom natural de um sujeito no uso livre das suas faculdades de conhecimento (die musterhafte Originalitt der Naturgabe eines Subjekts im freien Gebrauche seiner Erkenntnisvermgen) (Kant, 1998: 224). Pois bem, mediante a introduo da noo de esprito, o nosso autor d ao gnio o instrumento em falta para que os seus objectos artsticos sejam exemplares.160 Cada um dos elementos da feliz relao na qual o gnio consiste corresponde, ento, a um dos aspectos essenciais do carcter do gnio: a capacidade de fornecer ideias estticas para um conceito dado, atravs da faculdade produtiva da imaginao, corresponde originalidade; a capacidade de apresentar essas ideias de uma maneira adequada beleza, por intermdio do esprito, corresponde exemplaridade. Carecendo de esprito, o gnio produziria extravagncias originais. Ele seria original, mas a sua originalidade seria extravagante. As ideias estticas seriam apresentadas de uma maneira inadequada beleza. Se assim fosse, o gnio no daria a regra bela arte. Ele seria um talento para a produo, mas no aquilo que o nosso autor diz que ele , a saber, um talento para produzir aquilo para o qual no se pode fornecer nenhuma regra determinada (Kant, 1998: 212).

    A no introduo da noo de esprito colocaria imediatamente em causa o ttulo do 46: Bela arte arte do gnio (Schne Kunst ist Kunst des Genies) (Kant, 1998: 211). Se o gnio no fosse dotado de esprito, a bela arte no seria a arte do gnio. Dotado de esprito, porm, o gnio produz necessariamente belas obras de arte.

    160 Makkreel explica a necessidade da introduo do esprito na proporo das faculdades de conhecimento inerente ao gnio: No h garantia de que as propores especiais das faculdades mentais caractersticas do gnio possam ser relacionadas com a proporo normal necessria para o conhecimento intersubjectivo. Assim, a originalidade do gnio na produo de ideias estticas tem de ser conciliada com um poder para comunic-las. Para tal, o gnio requer um talento especial a que Kant chama esprito (Makkreel, 1994: 122). Nesse sentido, o esprito o talento para dar expresso concreta s ideias estticas de maneira a que a vida da mente possa ser partilhada (Makkreel, 1994: 122).

  • BELA ARTE

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    Torna-se possvel, por conseguinte, a partir da introduo da noo de esprito na Crtica da Faculdade do Juzo, adoptar a tese segundo a qual uma obra de arte de gnio um objecto que, atravs de um juzo de gosto, no pode ser declarado seno como belo.161 J vimos que o esprito o talento mediante o qual se expressa o inefvel e se o torna universalmente comunicvel atravs de uma disposio subjectiva do nimo por ocasio de uma certa representao (cf. Kant, 1998: 223). Afirm-lo, equivale a afirmar que o esprito torna universalmente comunicvel o sentimento daquele que ajuza por ocasio da representao que ele faz do objecto artstico. Devemos recordar, agora, que a faculdade por intermdio da qual se ajuza quer aquilo que torna universalmente comunicvel o sentimento referido, quer a comunicabilidade desse sentimento, o gosto. Na parte final do 40, como tivemos oportunidade de citar no primeiro captulo da nossa dissertao, Kant comea por assinalar que [p]oder-se-ia at definir o gosto pela faculdade de julgamento daquilo que torna o nosso sentimento, numa representao dada, universalmente comunicvel, sem mediao de um conceito (durch das Beurteilungsvermgen desjenigen, was unser Gefhl an einer gegebenen Vorstellung ohne Vermittelung

    eines Begriffs allgemein mitteilbar macht) (Kant, 1998: 198). Entretanto, ele acrescenta, como tambm vimos, que o gosto a faculdade de ajuizar a priori a comunicabilidade dos sentimentos que so ligados a uma representao dada (sem mediao de um conceito) (das Vermgen, die Mitteilbarkeit der Gefhle, welche mit gegebener Vortsellung (ohne

    Vermittelung eines Begriffs) verbunden sind, a priori zu beurteilen) (Kant, 1998: 198). Assim, quando se trata de uma obra de arte de gnio, ajuza-se como belo, atravs do gosto, no apenas algo que s por 161 Referindo-se arte do gnio, bela arte, Fernando Gil afirma que a obra de arte autntica s pode ser um bom exemplo (Gil, 1998: 276) e que relativamente sua beleza a exigncia de adeso imperiosa (Gil, 1998: 277). No entanto, naquilo que pode ser entendido como uma salvaguarda, imediatamente a seguir a indicar que o gosto pode ser exemplar, Gil assinala que o gnio -o em princpio sempre (Gil, 1998: 273). A razo pela qual podemos dizer que s em princpio que o gnio sempre exemplar ser apresentada no ltimo captulo da nossa dissertao, precisamente por relao ao que nesta fase estamos a alegar.

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    intermdio de um juzo de gosto pode ser ajuizado como belo, mas aquilo que por intermdio de um juzo de gosto s pode ser ajuizado como belo. Compreende-se, dada a explicao que acabmos de dar, a afirmao de Kant, de acordo com a qual belas-artes necessariamente tm que ser consideradas como artes do gnio (schne Knste notwendig als Knste des Genies betrachtet werden mssen) (Kant, 1998: 211) e para a prpria arte, isto para a produo de [objectos belos], requer-se gnio (zur schnen Kunst selbst, d. i. der Hervorbringung solcher Gegenstnde, wird Genie erfordert) (Kant, 1998: 215)162. O gosto ajuza a beleza; o esprito o talento atravs do qual o inefvel expressado de uma maneira adequada beleza; se, numa obra de arte de gnio, por ocasio do fornecimento e de uma certa expresso de ideias estticas para um conceito dado, esse conceito apresentado de uma maneira adequada beleza, ento aquele que ajuza atravs do gosto tem de declarar bela a mencionada obra de arte. Pode repetir-se, por conseguinte, e convictamente, aquilo que est escrito no ttulo do 46: Bela arte arte do gnio (Kant, 1998: 211).163 162 Em bom rigor, no texto de Kant est escrito que o gnio requerido para a bela arte. Esta lacuna da traduo por ns utilizada no , no entanto, origem de qualquer problema, pois a identificao da referida arte com a produo de objectos belos faz com que aquilo que est em causa seja necessariamente a bela arte, no toda a arte. Ora, por esta altura no temos qualquer dificuldade em reconhecer que no para toda a arte que se requer gnio. Mais importante acrescentar que, dada a explicao supramencionada, tambm se compreendem as afirmaes segundo as quais se considera o gnio como o talento para a arte bela (man das Genie als Talent zur schnen Kunst betrachtet) (Kant, 1998: 215) e a possibilidade (Mglichkeit) da beleza da arte requer gnio (Genie erfordert) (Kant, 1998: 216). 163 Ainda assim, nossa obrigao ressalvar que a convico que sentimos est condicionada pela colocao entre parntesis da tese, do 48, de acordo com a qual no juzo atravs do qual se declara bela uma obra de arte tm de ser considerados um conceito daquilo que o objecto deva ser e a perfeio da referida obra de arte segundo esse conceito (cf. Kant, 1998: 216). S depois de retomarmos a passagem mencionada que estaremos em condies de apresentar uma resposta suficientemente justificada questo de saber se e como poder um objecto artstico ser ajuizado atravs de um juzo de gosto, se e como poder uma obra de arte ser declarada bela, se e como ser legtimo falar-se de bela arte. Ainda no este o momento no qual retomaremos essa passagem.

  • BELA ARTE

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    2.4. Referncia do juzo atravs do qual se declara bela uma obra de

    arte ao princpio da conformidade a fins formal da natureza

    A questo que move a nossa investigao a de saber se e como poder falar-se de bela arte no contexto da Crtica da Faculdade do Juzo. Temos vindo a indicar que responder a essa questo pressupe responder s questes de saber se e como poder um objecto artstico ser declarado belo, se e como poder ajuizar-se uma obra de arte atravs de um juzo de gosto, se e como poder o juzo atravs do qual se declara bela uma obra de arte ser um juzo de gosto. Para que o juzo atravs do qual se declara bela uma obra de arte seja um juzo de gosto, ele tem de referir-se ao princpio do gosto, a saber, o princpio da conformidade a fins formal da natureza para as nossas faculdades de conhecimento.

    Acabmos de ver, na subseco anterior, que, atravs do fornecimento de ideias estticas para um conceito dado, pela faculdade produtiva da imaginao, e da descoberta de uma certa expresso para essas ideias, pelo esprito, o gnio produz um objecto por ocasio da representao do qual as faculdades de conhecimento daquele que ajuza se dispem harmonicamente enquanto acompanhamento de um conceito. Dadas as caractersticas das ideias estticas, somos obrigados a afirmar que essa disposio harmnica das faculdades da imaginao e do entendimento entre si por ocasio da representao do objecto no plasma uma concordncia objectiva. A conformidade a fins do objecto representada como uma conformidade a fins subjectiva. No h uma submisso da faculdade da imaginao legalidade do entendimento. A faculdade da imaginao exerce-se livremente.

    Para que o objecto por ocasio da representao do qual as nossas faculdades de conhecimento se dispem livre e harmonicamente entre si seja declarado belo, necessrio que no juzo por intermdio do qual o objecto declarado como tal haja uma referncia ao princpio do gosto, isto , ao princpio da conformidade a fins formal da natureza para as nossas faculdades de conhecimento. O prazer que o sujeito sente por ocasio da sua representao tem de estar ligado a esse princpio. No

  • SE E COMO PODER UMA OBRA DE ARTE SER BELA

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    entanto, no caso da arte, o objecto em causa um objecto artstico, uma obra de arte, no um objecto da natureza. A questo que se coloca, por conseguinte, a de saber se e como num juzo acerca da beleza de um objecto artstico (o juzo atravs do qual se declara bela uma obra de arte) o prazer referido ao princpio de uma conformidade a fins formal da natureza para as faculdades de conhecimento daquele que ajuza.

    A resposta a essa questo dada por Kant na parte final da primeira observao que se segue ao 57. O nosso autor comea por afirmar algo que citmos por ocasio de uma primeira meno que fizemos da noo de gnio, a saber: podemos explicar o gnio tambm pela faculdade de ideias estticas ([m]an kann diesem zufolge Genie auch durch das Vermgen sthetischer Ideen erklren) (Kant, 1998: 251). Imediatamente a seguir, Kant acrescenta que com essa explicao ao mesmo tempo indicada a razo pela qual, em produtos do gnio, a natureza (do sujeito) e no um fim reflectido d a regra arte ( produo do belo) (zugleich der Grund angezeigt wird, warum in Produkten des Genies die Natur (des Subjekts), nicht ein berlegter Zweck der Kunst (der

    Hervorbringung des Schnen) die Regel gibt) (Kant, 1998: 251-252). Estando consciente de uma disposio concordante das suas faculdades de conhecimento entre si por ocasio da representao do objecto e sabendo que essa disposio livre (no pode ter sido determinada por um conceito dado, no correspondendo, por conseguinte, a uma submisso da faculdade da imaginao ao entendimento, a um acordo objectivo entre a intuio e o conceito, e, consequentemente, no plasmando uma conformidade a fins objectiva) aquele que ajuza concebe a possibilidade de ter sido a natureza a promover a mencionada concordncia. F-lo recorrendo a um princpio que, sendo subjectivo (subjektives), contudo universalmente vlido (doch allgemeingltiges), a saber, o princpio segundo o qual o fim ltimo dado pelo inteligvel nossa natureza tornar concordantes todas as nossas faculdades de conhecimento (alle unsere Erkenntnisvermgen zusammenstimmend zu machen, der letzte durch das Intelligible unserer Natur gegebene Zweck

    ist) (Kant, 1998: 252). Ao faz-lo, aquele que ajuza estabelece como

  • BELA ARTE

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    fundamento (Grunde) e padro de medida (Richtmae) da conformidade a fins esttica porm incondicionada na arte bela, que legitimamente deve reivindicar ter de aprazer a qualquer um (sthetischen, aber unbedingten Zweckmigkeit in der schnen Kunst, die jedermann

    gefallen zu mssen rechtmigen Anspruch machen soll) simplesmente aquilo que no sujeito simples natureza e no pode ser captado sob regras ou conceitos, isto o substracto supra-sensvel de todas as suas faculdades (o qual nenhum conceito do entendimento alcana) (das, was blo Natur in Subjekte ist, aber nicht unter Regeln oder Begriffe gefasst werden kann,

    d. i. das bersinnliche Substrat aller seiner Vermgen (welches kein

    Verstandesbegriff erreicht)) (Kant, 1998: 252). Devemos ressalvar, agora, que a referncia ao princpio segundo o qual

    a natureza tem como fim ltimo a concordncia das faculdades de conhecimento do sujeito no faz do juzo atravs do qual se declara bela uma obra de arte de gnio um juzo esttico logicamente condicionado. Esse princpio dado pela faculdade do juzo a si mesma, enquanto reflexiva como tal, ele um princpio regulativo. Afirma-se apenas que como se a natureza quisesse, acima de tudo, tornar concordantes todas as nossas faculdades de conhecimento. Na nica meno que faz do juzo esttico logicamente condicionado, no 48, Kant indica que, num tal juzo, a natureza ajuizada na medida em que ela efectivamente arte (embora sobre-humana) (sofern sie wirklich (obzwar bermenschliche) Kunst ist) (Kant, 1998: 216). Se quisermos continuar a usar as palavras do 48, diremos que, diferentemente, no juzo atravs do qual se declara bela uma obra de arte de gnio, a natureza ajuizada como ela aparece enquanto arte (wie sie als Kunst erscheint) (Kant, 1998: 216). Por outras palavras (as da Analtica do sublime) os fenmenos da natureza so ajuizados como pertencentes no simplesmente natureza no seu mecanismo sem fim, mas tambm analogia com a arte (als zur Analogie mit der Kunst gehrig) (Kant, 1998: 139).

    No mbito da reflexo (problematicamente) ajuizar a natureza por analogia com a arte legtimo: pode falar-se de uma tcnica da natureza (Technik der Natur) e no meramente de um mecanismo sem fim

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    (zwecklosen Mechanismus). Kant refere essa legitimidade desde a Primeira Introduo Crtica da Faculdade do Juzo, na qual anuncia que usar a noo de tcnica no s no que concerne s prescries da habilidade, mas tambm

    onde objetos da natureza, s vezes, so julgados somente como se sua possibilidade se fundasse em arte, casos em que os juzos () no determinam nada da ndole do objeto, nem do modo de produzi-lo, mas atravs deles a natureza mesmo julgada meramente por analogia com uma arte, e alis na referncia subjetiva a nossa faculdade-de-conhecimento, e no na referncia objetiva aos objetos (wo Gegenstnde der Natur bisweilen blo nur so beurteilt werden, als ob ihre Mglichkeit sich auf Kunst grnde, in welchen Fllen dir Urteile () nichts von der Beschaffenheit des Objekts, noch der art, es hervorzubringen,

    bestimmen, sondern wodurch die Natur selbst, aber blo nach der Analogie mit einer Kunst, und zwar in subjektiver Beziehung auf unser

    Erkenntnisvermgen nicht in objektiver auf die Gegenstnde beurteilt

    wird) (Kant, 1995: 36).

    Ajuizar a natureza por analogia com a arte significa ajuiz-la como arte, como se/que fosse arte. As expresses como (als) e como se/que (als ob), assim como a diferena entre ser (sein) e parecer (scheinen e aussehen), denotam um uso reflexivo da faculdade do juzo. Elas indicam que a faculdade do juzo est a exercer-se reflexivamente. Ao longo do seu texto, Kant recorre mltiplas vezes diferena e s expresses mencionadas: na Analtica do sublime, ao distinguir o sublime do belo, o nosso autor nota que, no caso do ltimo, o objecto, atravs da conformidade a fins da sua forma, parece predeterminado para a nossa faculdade de juzo (fr unsere Urteilskraft vorherbestimmt zu sein scheint) (Kant, 1998: 138); no 42, depois de referir uma linguagem cifrada pela qual a natureza em suas belas formas nos fala figuradamente, isto , uma linguagem que a natureza nos dirige e que parece ter um sentido superior (eine Sprache, die die Natur zu uns fhrt, und die einen hhern Sinn zu haben scheint), Kant ressalva que essa apenas a maneira como interpretamos () a natureza, quer seja essa a sua inteno quer no (Kant, 1998: 204-205); ainda no mesmo pargrafo, ao citar a admirao da natureza, Kant indica que ela se

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    mostra em seus belos produtos como arte (sich an ihren schnen Produkten als Kunst zeigt), no simplesmente por acaso, mas por assim dizer intencionalmente, segundo uma ordenao conforme a leis e como conformidade a fins sem fim (Kant, 1998: 204); essa tese vem a ser reforada no 45, onde o nosso autor assinala que [a] natureza era bela se ela ao mesmo tempo parecia ser arte ([d]ie Natur war schn, wenn sie zugleich als Kunst aussah) (Kant, 1998: 210); no primeiro pargrafo da Crtica da Faculdade de Juzo Teleolgica, por sua vez, Kant afirma que, entre os produtos da natureza, podemos esperar que sejam possveis alguns contendo formas especficas [adequadas faculdade do juzo humana] como se afinal estivessem dispostas para a nossa faculdade do juzo (als ob sie ganz eigentlich fr unsere Urteilskraft angelegt wren) (Kant, 1998: 273).164

    Ora, no juzo atravs do qual se declara bela uma obra de arte de gnio, a natureza ajuizada por analogia com a arte como se fosse arte. Ajuza-se a natureza como se ela tivesse um fim, nomeadamente o de gerar uma concordncia entre todas as faculdades de conhecimento do sujeito. Recorrendo a essa pressuposio, aquele que ajuza refere a conformidade a fins esttica promovida pelo gnio, atravs do fornecimento de ideias estticas para um conceito dado, pela faculdade produtiva da imaginao, e de uma certa expresso dessas ideias, pelo esprito ao princpio do gosto, a saber, ao princpio da conformidade a fins formal da natureza para as nossas faculdades de conhecimento. Por ocasio da representao de uma obra de arte do gnio, ele afirma que como se a natureza, na forma dessa obra de arte, estivesse disposta para as suas faculdades de conhecimento. O juzo atravs do qual se declara bela uma obra de arte do gnio (o juzo acerca da beleza da arte) , ento, um juzo referido ao princpio do gosto, a

    164 De resto, acerca dessas formas, ele acrescentar que atravs da sua multiplicidade e unidade, servem para simultaneamente fortalecer e entreter as faculdades do nimo (que esto em jogo por ocasio do uso desta faculdade) e que, por isso, atribuir-lhes-emos o nome de formas belas (schne Formen) (Kant, 1998: 273). Citmo-lo no primeiro captulo deste estudo.

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    saber, o princpio da conformidade a fins formal da natureza para as faculdades de conhecimento do sujeito, princpio cujo fundamento reside na ideia do supra-sensvel.165

    Entretanto, importa tambm ressalvar que nada do que dissemos transforma a obra de arte de gnio num efeito, num objecto da natureza. Ela no deixa de ser uma obra de arte e, como tal, um produto do homem. Recordemos, neste contexto, o que afirmado no 45, a saber, que [f]ace a um produto da bela arte temos que tomar conscincia que ele arte e no natureza ([a]n einem Produkte der schnen Kunst muss man sich bewusst werden, dass es Kunst sei und nicht Natur) (Kant, 1998: 210). Salvaguarda-se apenas que o fundamento para a conformidade a fins esttica incondicionada que se observa por ocasio da sua representao envolve uma referncia necessria possibilidade de a natureza ser tcnica, ter fins, uma referncia analogia da natureza com a causalidade segundo fins, isto , com a arte. Assim, enquanto [a] natureza era bela se ela ao mesmo tempo parecia ser arte, a arte bela se ao mesmo tempo parece ser natureza (sie zugleich Natur zu sein scheint), se temos conscincia de que ela arte (wir uns bewusst sind,

    165 Note-se, de resto, ser o prprio Kant quem, ainda na Introduo, estende arte o mbito de aplicao do princpio de uma conformidade a fins formal da natureza. Em primeiro lugar, na seco VII, ele nota que o fundamento para o prazer na beleza se encontra na condio universal, ainda que subjectiva, dos juzos reflexivos, nomeadamente na concordncia conforme a fins de um objecto (seja produto da natureza ou da arte (er sei Produkt der Natur oder der Kunst)) com a relao das faculdades de conhecimento entre si, as quais so exigidas para todo o conhecimento emprico (da faculdade de imaginao e do entendimento) (Kant, 1998: 76); ainda na mesma seco, ao afirmar que [a] receptividade de um prazer a partir da reflexo sobre as formas das coisas assinala uma conformidade a fins dos objectos, Kant identifica essas coisas como sendo da natureza, assim como da arte (der Natur sowohl als der Kunst) (Kant, 1998: 77); finalmente, na seco IX, ao indicar que [o] conceito da faculdade do juzo de uma conformidade a fins da natureza pertence ainda aos conceitos desta, mas somente como princpio regulativo da faculdade de conhecimento e que o juzo esttico que ocasiona esse conceito um princpio constitutivo com respeito ao sentimento do prazer ou desprazer, o nosso autor adianta que esse juzo esttico pode ser sobre objectos da natureza ou da arte (der Natur oder der Kunst) (Kant, 1998: 83).

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    sie sei Kunst) (Kant, 1998: 210) e podemos acrescentar, agora se na bela arte, da qual temos conscincia como arte, mas que parece natureza, a natureza parecer ser arte.

    igualmente de assinalar, finalmente, que a obra de arte de gnio, levando aquele que ajuza a ligar ao princpio da conformidade a fins formal da natureza para as nossas faculdades de conhecimento o prazer que sente por ocasio da sua representao, concretiza a definio, proposta no 44, segundo a qual a arte esttica , enquanto arte bela, uma arte que tem por padro de medida a faculdade de juzo reflexiva (ist sthetische Kunst als schne Kunst eine solche, die die reflektierende Urteilskraft zum Richtmae hat) (Kant, 1998: 210). O seu princpio o da faculdade de juzo reflexiva, a saber, o referido princpio da conformidade a fins formal da natureza para as faculdades de conhecimento do sujeito, no obstante as belas obras de arte serem produtos do homem, no efeitos da natureza. Fica reconhecido, assim, o estatuto quer do 44, quer do 45, no mbito da legitimao da noo de bela arte, estatuto que, na seco Belas obras de arte, no tnhamos chegado a justificar.

    3. FORMA

    3.1. Conformidade a fins da forma

    A possibilidade de denominao da beleza como expresso de ideias estticas acarreta uma consequncia relacionada com a importncia da forma na beleza da arte. Ela serve de argumento a favor da tese segundo a qual so vrios os elementos responsveis pelo movimento livre e harmnico das faculdades de conhecimento entre si por ocasio da representao que aquele que ajuza faz de um objecto artstico. Ao faz-lo, ela coloca em causa uma outra tese, que aparentemente se lhe ope, segundo a qual h um nico elemento responsvel por esse movimento a forma.

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    A conformidade a fins esttica a que temos vindo a fazer referncia ao longo da nossa investigao uma conformidade a fins formal.166 Tal deve significar que aquilo que se tem em conta num juzo de gosto apenas a condio formal da faculdade do juzo, na medida em que ela livremente alcanada.167 Entretanto, o facto de a beleza poder ser denominada expresso de ideias estticas parece indicar que o movimento recproco formalmente conforme a fins das faculdades de conhecimento daquele que ajuza por ocasio da representao que ele faz do objecto pode ser suscitado por mltiplos elementos.168 Algo diferente, porm, anunciado numa parte significativa da Crtica da Faculdade do Juzo. Analis-lo afigura-se indispensvel para prosseguirmos a nossa investigao acerca da legitimidade e das condies de legitimidade da noo de bela arte tendo como ponto assente a possibilidade de denominao da beleza como expresso de ideias estticas.

    166 Kant usa as expresses conformidade a fins (meramente) formal ((blo) formale Zweckmigkeit) (cf. Kant, 1998: 64, 74, 112 e 117) e (simples) forma da conformidade a fins ((bloe) Form der Zweckmigkeit) (cf. Kant, 1998: 110, 111, 112 e 187). 167 Sublinhe-se, nesse sentido, o segundo requisito que, numa nota do 38, Kant apresenta para que se tenha direito a reivindicar um assentimento universal num juzo da faculdade de juzo esttica, baseado simplesmente sobre fundamentos subjectivos, a saber, que no juzo se considere somente a condio formal da faculdade do juzo (die formale Bedingung der Urteilskraft) e que este no esteja mesclado nem com conceitos do objecto nem com sensaes enquanto razes determinantes (Kant, 1998: 268). Essa condio formal a relao das faculdades de conhecimento a postas em actividade com vista a um conhecimento em geral (Kant, 1998: 268). J o tnhamos sugerido, na seco Juzo esttico reflexivo. Nessa seco, tivemos oportunidade de assinalar que, constituindo a consonncia proporcionada, que exigimos para todo o conhecimento (Kant, 1998: 108), a relao mencionada corresponde condio subjetiva, meramente sensvel, do uso objetivo do Juzo (Kant, 1995: 60), condio subjectiva do conhecer (Kant, 1998: 130), condio formal subjectiva de um juzo em geral (subjektive formale Bedingung eines Urteils berhaupt) (Kant, 1998: 188). De resto, tivemos tambm oportunidade de chamar a ateno para as vrias passagens nas quais o nosso autor, mais explicitamente, nuns casos, menos, noutros, faz referncia a essa condio. 168 Importa recordar, neste contexto, que as ideias estticas so representaes da faculdade da imaginao associadas a conceitos dados (cf. Kant, 1998: 222).

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    Segundo o nosso autor, no juzo de gosto, o prazer est ligado simples apreenso (apprehensio) da forma de um objecto da intuio (mit der bloen Auffassung (apprehensio) der Form eines Gegenstandes der Anschauung) (Kant, 1998: 74).169 No juzo de gosto, o prazer relaciona-se com a forma do objecto, enquanto ela se mostra conforme a fins. Aquilo que conforme a fins a forma do objecto.170 H uma adequao desse produto (da sua forma) s nossas faculdades de conhecimento (Angemessenheit desselben (seiner Form) zu unseren Erkenntnisvermgen) (Kant, 1998: 80). Trata-se, portanto, de uma conformidade a fins segundo a forma (eine Zweckmigkeit der Form) (Kant, 1998: 110), isto , da conformidade a fins subjectiva (subjektive Zweckmigkeit) da forma (Form) do objecto (Gegenstande) (Kant, 1998: 191). essa conformidade a fins que o juzo de gosto tem como fundamento de determinao, essa conformidade a fins que ele

    169 Kant refora esta tese no apenas na Introduo, ao afirmar que o fundamento do prazer colocado simplesmente na forma do objecto (der Grund der Lust blo in der Form des Gegenstandes) (Kant, 1998: 75), que aquele que ajuza sente prazer na simples reflexo sobre a forma de um objecto ( in der bloen Reflexion ber die Form eines Gegenstandes Lust empfindet) (Kant, 1998: 76) ou que a representao da conformidade a fins assenta no prazer imediato na forma do objecto na simples reflexo sobre ela (auf der unmittelbaren Lust an der Form des Gegenstandes in der bloen Reflexion ber

    sie beruhe) (Kant, 1998: 78), mas tambm na Crtica da Faculdade de Juzo Esttica, nomeadamente nos 14, 30 e 38, ao indicar, respectivamente, que no juzo de gosto h um comprazimento na forma (Wohlgefallen an der Form) (Kant, 1998: 116), que o comprazimento ou desagrado concerne forma do objecto (Wohlgefallen oder Missfallen an der Form des Objekts betrifft) (Kant, 1998: 179) ou que o comprazimento no objecto (das Wohlgefallen an dem Gegenstande) est ligado ao simples julgamento da sua forma (mit der bloen Beurteilung seiner Form verbunden) (Kant, 1998: 191). No 15, o nosso autor faz referncia a uma satisfao para captar uma forma dada na faculdade da imaginao (eine Behaglichkeit eine gegebene Form in die Einbildungskraft aufzufassen) (Kant, 1998: 118). 170 Veja-se algo que, na Introduo, Kant afirma acerca do juzo de gosto, a saber, que nesta espcie de juzo a forma do objecto conforme a fins (die Form des Objekts zweckmig ist) (Kant, 1998: 77).

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    expressa.171 essa conformidade a fins que se situa no fundamento do juzo atravs do qual se declara belo um objecto.172 Por conseguinte, aquilo a que a beleza concerne a forma do objecto.173 Assim pode explicar-se, de resto, que Kant fale, no 14, de uma forma bela (schne Form) (Kant, 1998: 115 e 116), no 41, de belas formas (schne 171 Considere-se o 13, no qual Kant diz que um puro juzo de gosto tem como fundamento de determinao simplesmente a conformidade a fins da forma (blo die Zweckmigkeit der Form zum Bestimmungsgrunde hat) (Kant, 1998: 113), e o 31, onde o nosso autor refere que essa espcie de juzo expressa a conformidade a fins subjectiva de uma representao emprica da forma de um objecto (die subjektive Zweckmigkeit einer empirischen Vorstellung der Form eines Gegenstandes

    ausdrckt) (Kant, 1998: 181). Alm disso, recorde-se a seguinte referncia que, na seco VIII da Introduo, feita ao princpio do gosto: este princpio consiste em representar uma conformidade a fins da natureza, na relao subjectiva s nossas faculdades de conhecimento, na forma de uma coisa (an der Form eines Dinges) (Kant, 1998: 79). Como tivemos oportunidade de notar, Kant tambm lhe chama conceito de uma conformidade a fins subjectiva da natureza, nas suas formas (in ihren Formen) segundo leis empricas (Kant, 1998: 78). 172 Na Analtica do sublime, Kant sugere que no belo o juzo esttico dizia respeito forma do objecto (das sthetische Urteil die Form des Objekts betraf) (Kant, 1998: 141). Igualmente no segundo livro da Analtica da faculdade de juzo esttica, ao distinguir entre a sublimidade e beleza, o nosso autor afirma que naquela no se [situa] no fundamento [do julgamento] nenhuma conformidade a fins da forma do objecto (como no belo) (hier keine Zweckmigkeit der Form des Gegenstandes (wie beim Schnen) der Beurteilung zum Grunde liegt) (Kant, 1998: 148). Em jeito de comentrio lateral, devemos notar que, de facto, a ausncia de forma ou de figura pode ser conveniente ao sentimento do sublime como nota Kant, no 23: a natureza () no seu caos ou na sua desordem e devastao mais selvagem e desregrada que suscita as ideias do sublime, quando somente magnitude e poder se deixam ver (Kant, 1998: 140). 173 Se, no 13, Kant afirma que a beleza deveria concernir propriamente s forma (eigentlich blo die Form betreffen sollte) (Kant, 1998: 113), no 16, o nosso autor diz explicitamente que a beleza livre propriamente s concerne forma (eigentlich nur die Form betrifft) (Kant, 1998: 121). No mesmo pargrafo, Kant j tinha referido que a beleza ajuizada segundo a mera forma (der bloen Form nach) (Kant, 1998: 120); no 14, tinha assinalado que ela atribuda ao objecto em virtude da sua forma (die dem Gegenstande seiner Form wegen beigelegte Schnheit) (Kant, 1998: 115). Entretanto, no primeiro pargrafo da Analtica do sublime, ele sublinhar que [o] belo da natureza concerne forma do objecto, que consiste na limitao ([d]as Schne der Natur betrifft die Form des Gegenstandes, die in der Begrenzung besteht) (Kant, 1998: 137).

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    Formen) (Kant, 1998: 200), ou, no 42, de formas belas da natureza (schnen Formen der Natur) (Kant, 1998: 202).

    3.2. Figura

    Procuremos saber a que corresponde a noo forma (Form) na Crtica da Faculdade do Juzo. Desde logo no 16, encontra-se uma passagem que satisfaz a nossa inquietao:

    No julgamento de uma beleza livre (segundo a mera forma) o juzo de gosto puro. No pressuposto nenhum conceito de qualquer fim, para o qual o mltiplo deva servir ao objecto dado e o qual este ltimo deva representar, mediante o que unicamente seria limitada a liberdade da faculdade da imaginao, que joga por assim dizer na observao da figura (In der Beurteilung einer freien Schnheit (der bloen Form nach) ist das Geschmacksurteil rein. Es ist kein Begriff von irgend einem

    Zwecke, wozu das Mannigfaltige dem gegebenen Objekte dienen und

    was dieses also vorstellen sole, vorausgesetzt, wodurch die Freiheit der

    Einbildungskraft, die in Beobachtung der Gestalt gleichsam spielt, nur

    eingeschrnkt warden wrde) (Kant, 1998: 120-121).

    Forma corresponde a figura (Gestalt). De acordo com esta passagem, no juzo de gosto, o movimento livre e harmnico das faculdades de conhecimento entre si por ocasio da representao do objecto activado atravs da observao da figura.174 Esta tese vem a ser reforada, no 30, quando o nosso autor afirma que no juzo atravs do qual se declara belo um objecto natural

    a conformidade a fins tem ento o seu fundamento no objecto e na sua figura, conquanto ela no indique a relao do mesmo a outros objectos segundo conceitos (para o juzo de conhecimento), mas concerne simplesmente em geral apreenso desta forma, enquanto ela no nimo

    174 Considerando a posio que sustentmos na seco Juzo atravs do qual se declara bela uma obra de arte, continuamos a usar indistintamente as expresses juzo de gosto puro (reines Geschmacksurteil) e juzo de gosto (Geschmacksurteil), assim como beleza (Schnheit) e beleza livre (freie Schnheit). Note-se, alm disso, que mantemos entre parntesis a afirmao, do 48, de acordo com a qual no juzo atravs do qual se declara bela uma obra de arte tm de ser tidos em conta um conceito daquilo que o objecto deva ser e a perfeio da obra de arte segundo esse conceito.

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    se mostra conforme faculdade, tanto dos conceitos como da apresentao dos mesmos (que idntica faculdade de apreenso) (die Zweckmigkeit hat alsdann doch im Objekte und seiner Gestalt ihren

    Grund, wenn sie gleich nicht die Beziehung desselben auf andere

    Gegenstnde nach Begriffen (zum Erkenntnisurteile) anzeigt; sondern

    blo die Auffassung dieser Form, sofern sie dem Vermgen sowohl der Begriffe, als dem Darstellung derselben (welches mit dem der

    Auffassung eines und dasselbe ist) im Gemt sich gem zeigt,

    berhaupt betrifft) (Kant, 1998: 179-180).

    Pois bem, tal como associa a beleza forma, isto , figura do objecto, Kant associa a agradabilidade matria (Materie). Ora, como sabemos, a beleza independente da agradabilidade o juzo de gosto independente da sensao atravs da qual declaramos agradvel um objecto. Assim, de acordo com o nosso autor, aquilo que num juzo de gosto tem de ser considerado a forma do objecto, no a matria. Embora o sugira desde logo na Introduo Crtica da Faculdade do Juzo, nomeadamente ao indicar que tem de se ajuizar a forma do objecto (no o material da sua representao, como sensao) (Wessen Gegenstandes Form (nicht das Materielle seiner Vorstellung, als Empfindung)) na simples reflexo sobre a mesma (sem ter a inteno de obter um conceito dele), como o fundamento de um prazer na representao de um tal objecto (Kant, 1998: 75), nos 13, 39 e 40 que Kant mais claramente identifica a matria com a agradabilidade e, por conseguinte, a impede de servir de fundamento de determinao do juzo de gosto. As passagens em causa so as seguintes, respectivamente:

    atractivos frequentemente so, no apenas contados como beleza (que todavia deveria concernir propriamente s forma) como contribuio para o comprazimento esttico universal, mas at so feitos passar em si mesmos por belezas, por conseguinte a matria do comprazimento feita passar pela forma; um equvoco que, como muitos outros que entretanto sempre ainda tem algo verdadeiro por fundamento deixa-se remover mediante cuidadosa determinao destes conceitos (werden Reize doch fter nicht allein zur Schnheit (die doch eigentlich blo die

    Form betreffen sollte) als Beitrag zum sthetischen allgemeinen

    Wohlgefallen gezhlt, sondern sie werden wohl gar an sich selbst fr

    Schnheiten, mithin die Materie des Wohlgefallens fr die Form

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    ausgegeben: ein Missverstand, der sich so wie mancher andere, welcher

    doch noch immer etwas Wahres zum Grunde hat, durch sorgfltige

    Bestimmung dieser Begriffe heben lsst) (Kant, 1998: 113);

    aquele que julga com gosto (contanto que ele no se engane nesta conscincia e no tome a matria pela forma, o atractivo pela beleza) pode postular em todo o outro a conformidade a fins subjectiva, isto o seu comprazimento no objecto, e admitir o seu sentimento como universalmente comunicvel e na verdade sem mediao dos conceitos (darf der mit Geschmack Urteilende (wenn er nur in diesem Bewusstsein nicht irrt und nicht die Materie fr die Form, Reiz fr Schnheit nimmt)

    die subjektive Zweckmigkeit, d. i. sein Wohlgefallen am Objekte,

    jedem andern ansinnen und sein Gefhl als allgemein mitteilbar und

    zwar ohne Vermittelung der Begriffe annehmen) (Kant, 1998: 195);

    e

    simplesmente abstramos das limitaes que acidentalmente aderem ao nosso prprio julgamento: o que por sua vez produzido pelo facto que na medida do possvel se elimina aquilo que no estado da representao matria, isto sensao, e presta-se ateno pura e simplesmente s peculiaridades formais da sua representao ou do seu estado de representao (man blo von den Beschrnkungen, die unserer eigenen Beurteilung zuflliger Weise anhngen,abstrahiert: welches wiederum

    dadurch bewirkt wird, dass man das, was in dem Vorstellungszustande

    Materie, d. i. Empfindung ist, so viel mglich weglsst und lediglich auf

    die formalen Eigentmlichkeiten seiner Vorstellung oder seines

    Vorstellungszustandes Acht hat) (Kant, 1998: 196).

    De resto, precisamente por causa da identificao da matria com a agradabilidade que Kant exclui as cores assim como os sons do mbito daquilo que num juzo de gosto considerado. no 14 que o nosso autor procede a essa excluso.175

    175 Vejam-se, nesse sentido, as seguintes passagens: [u]ma simples cor, por exemplo a cor [verde] da relva, um simples som ( diferena do eco e do rudo), como porventura o de um violino, em si declarado belo pela maioria das pessoas, se bem que ambos paream ter por fundamento simplesmente a matria das representaes, a saber pura e simplesmente a sensao e por isso mereceram ser chamados somente agradveis ([e]ine bloe Farbe, z. B. die grne eines Rasenplatzes, ein bloer Ton (zum Unterschiede vom Schalle und Gerusch), wie etwa der einer Violine, wird von

    den Meisten an sich fr schn erklrt; obzwar beide blo die Materie der

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    166 CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana

    3.3. Jogo

    Ainda no pargrafo no qual exclui as cores e os sons do mbito do fundamento do juzo de gosto (14) Kant associa a noo de forma no apenas noo de figura, mas tambm noo de jogo (Spiel). Afirma ele que [t]oda a forma dos objectos dos sentidos (dos externos assim como mediatamente do interno) ou figura ou jogo; no ltimo caso, ou jogo das figuras (no espao: a mmica e a dana); ou simples jogo das sensaes (no tempo) ([a]lle Form der Gegenstnde der Sinne (der uern sowohl als mittelbar auch der innern) ist entweder Gestalt, oder Spiel; im letztern Falle entweder Spiel der Gestalten (im Raume die Mimik und der Tanz);

    oder bloes Spiel der Empfindungen (in der Zeit)) (Kant, 1998: 116). A forma de um objecto dos sentidos pode ser ou figura ou jogo. No caso de a forma ser figura, aquilo que importa no juzo de gosto o desenho (Zeichnung); se a forma for jogo seja jogo das figuras, seja jogo das sensaes o que importa na declarao do objecto como belo a composio (Komposition): o desenho na primeira e a composio no ltimo constitui o verdadeiro objecto do juzo de gosto puro (die Zeichnung in der ersten und die Komposition in dem letzten machen den eigentlichen Gegenstand der reinen Geschmacksurteil aus) (Kant, 1998: 116). Nesse ltimo caso, o juzo de gosto centra-se na maneira como as

    Vorstellungen, nmlich lediglich Empfindung, zum Grunde zu haben scheinen und

    darum nur engenehm genannt zu werden verdienten) (Kant, 1998: 114); e [a]s cores que iluminam o esboo pertencem ao atractivo; elas na verdade podem vivificar o objecto em si para a sensao, mas no o tornar digno de intuio e belo; elas at em grande parte so limitadas muito por aquilo que a forma bela requer, e mesmo l onde o atractivo admitido so enobrecidas unicamente por ela ([d]ie Farben, welche den Abriss illuminieren, gehren zum Reiz; den Gegenstand an sich knnen sie zwar fr die Empfindung belebt, aber nicht anschauungswrdig und schn machen; vielmehr

    werden sie durch das, was die schne Form erfordert, mehrentheils gar sehr

    eingeschrnkt und selbst da, wo der Reiz zugelassen wird, durch die erstere allein veredelt) (Kant, 1998: 115). Entretanto, no 41, Kant voltar a identificar as cores com aquilo que meramente atrai: como primeiro exemplo de atractivos (Reize) ele d cores para se pintar (rocou entre os caraibenhos e cinabre entre os iroqueses) (Farben, um sich zu bemalen (Rocou bei den Karaiben und Zinnober bei den Irokesen)) (Kant, 1998: 200).

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    figuras jogam no espao ou como as sensaes jogam no tempo, isto , na maneira como as figuras e as sensaes esto compostas respectivamente no espao e no tempo. enquanto enformadas, enquanto formalmente organizadas, enquanto submetidas forma, que as cores podem contribuir para a beleza. assim que elas podem mesmo ser belas:

    Se com Euler se admite que as cores sejam simultaneamente pulsaes (pulsus) do ter sucessivas umas s outras, como sons do ar vibrado na ressonncia e, o que o mais nobre, que o nimo perceba (do que absolutamente no duvido) no meramente pelo sentido o efeito disso sobre a vivificao do rgo, mas tambm pela reflexo o jogo regular das impresses (por conseguinte a forma na ligao de representaes diversas): ento cor e som no seriam simples sensaes, mas j determinaes formais da unidade de um mltiplo dos mesmos e neste caso poderiam ser tambm contados por si como belezas (wrde Farbe und Ton nicht bloe Empfindungen, sondern schon formale Bestimmung

    der Einheit eines Mannigfaltigen derselben sein und alsdann auch fr

    sich zu Schnheiten gezhlt werden knnen) (Kant, 1998: 114-115).

    Entretanto, Kant desenvolve a possibilidade de as cores serem belas atravs de uma associao entre pureza e forma:

    o elemento puro de um modo simples de sensao significa que a uniformidade da mesma no perturbada e interrompida por nenhum modo estranho de sensao e pertence meramente forma; porque neste caso se abstrai da qualidade daquele modo de sensao (seja que cor ou som ele represente). Por isso todas as cores simples, na medida em que so puras, so consideradas belas ([d]as Reine einer einfachen Empfindungsart bedeutet, dass die Gleichfrmigkeit derselben durch

    keine fremdartige Empfindung gestrt und unterbrochen wird, und

    gehrt blo zur Form: weil man dabei von der Qualitt jener

    Empfindungsart (ob und welche Farbe, oder ob und welchen Ton sie

    vorstelle) abstrahieren kann. Daher werden alle einfache Farben, sofern

    sie rein sind, fr schn gehalten) (Kant, 1998: 115).

    Assim,

    as sensaes da cor como as do som somente se consideram no direito de valer como belas na medida em que ambos so puras; o que uma determinao que j concerne forma e ao nico dessas representaes que com certeza pode comunicar-se universalmente (die Empfindungen der Farbe sowohl als des Tons sich nur sofern fr schn zu gelten

  • SE E COMO PODER UMA OBRA DE ARTE SER BELA

    168 CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana

    berechtigt halten, als beide rein sind; welches eine Bestimmung ist, die schon die Form betrifft, und auch das einzige, was sich von diesen

    Vorstellungen mit Gewissheit allgemein mitteilen lsst) (Kant, 1998: 114).176

    Quanto s cores mescladas, elas no tm esta prerrogativa precisamente porque, j que no so simples, no possumos nenhum padro de medida para o julgamento sobre se devemos cham-las puras ou impuras (haben diesen Vorzug nicht: eben darum weil, da sie nicht einfach sind, man keinen Mastab der Beurteilung hat, ob man sie rein

    oder unrein nennen solle) (Kant, 1998: 115). Sem prejuzo do que acabmos de assinalar, salvaguarde-se, ainda assim, que mesmo as cores puras s podem contribuir para a beleza enquanto podem contribuir para a forma:

    o facto que a pureza das cores assim como a dos sons, mas tambm a multiplicidade dos mesmos e o seu contraste, paream contribuir para a beleza, no quer significar que como se produzissem um acrscimo homogneo ao comprazimento na forma, porque so por si agradveis, mas somente porque elas tornam esta ltima mais exacta, determinada e completamente intuvel, e alm disso vivificam pelo seu atractivo as representaes, enquanto despertam e mantm a ateno sobre o prprio objecto (das die Reinigkeit der Farben sowohl als der Tne, oder auch die Mannigfaltigkeit

    derselben und ihre Abstechung zur Schnheit beizutragen scheint,

    will nicht so viel sagen, dass sie darum, weil sie fr sich angenehm

    sind, gleichsam einen glaichartigen Zusatz zu dem Wohlgefallen an

    der Form abgeben, sondern weil sie diese letztere nur genauer,

    bestimmter und vollstndiger anschaulich machen und berdem

    durch ihren Reiz die Vorstellung beleben, indem sie die

    Aufmerksamkeit auf den Gegenstand selbst erwecken und erhalten) (Kant, 1998: 116).

    176 O mesmo se passa com aquilo a que se chama ornamentos (parerga) (Zierraten (Parerga)) isto , [com aquilo] que no pertence inteira representao do objecto como parte integrante internamente, mas s externamente como acrscimo (Kant, 1998: 116). somente pela sua forma (nur durch seine Form), como as molduras dos quadros, ou as vestes em esttuas, ou as arcadas em torno de edifcios sumptuosos que um ornamento aumenta o comprazimento do gosto (das Wohlgefallen des Geschmacks vergrert) (Kant, 1998: 116).

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    Por isso que pode falar-se como Kant efectivamente fala, no 41 de flores, conchas, penas de pssaros belamente coloridas (schnfarbige) (Kant, 1998: 200). Outras haver que so coloridas, mas no belamente, isto , que no tornam a forma mais exacta, determinada e completamente intuvel, que no despertam nem mantm a ateno sobre o prprio objecto e que no vivificam pelo seu atractivo as representaes.

    Mais frente, no 42, Kant retomar as teses defendidas no 14. No pargrafo acerca do interesse intelectual pelo belo, o nosso autor afirma que [o]s atractivos ([d]ie Reize) que pertencem s modificaes da luz (na colorao) ou s do som (em tons) (sind entweder zu den Modifikationen des Lichts (in der Farbengebung) oder des Schalles (in

    Tnen) gehrig) so to frequentemente () encontrados como que amalgamados com a forma bela (so hufig mit der schnen Form gleichsam zusammenschmelzend angetroffen) (Kant, 1998: 205) porque aquelas

    so as nicas sensaes que no permitem simplesmente um sentimento sensorial, mas tambm reflexo sobre a forma destas modificaes dos sentidos, e assim contm com que uma linguagem que a natureza nos dirige e que parece ter um sentido superior (sind die einzigen Empfindungen, welche nicht blo Sinnengefhl, sondern auch Reflexion

    ber die Form dieser Modifikationen der Sinne verstatten und so

    gleichsam eine Sprache, die die Natur zu uns fhrt, und die einen hhern

    Sinn zu haben scheint, in sich enthalten) (Kant, 1998: 205).

    O mesmo se passa no 51. A, Kant nota que o ouvido e a vista

    com excepo da receptividade para sensaes, na medida do que requerido para obter por intermdio delas conceitos de objectos exteriores, so ainda capazes de uma sensao particular ligada a eles, sobre a qual no se pode decidir com certeza se ela tem por fundamento o sentido ou a reflexo (auer der Empfnglichkeit fr Eindrcke, so viel davon erforderlich ist, um von uern Gegenstnden vermittelst ihrer

    Begriffe zu bekommen, noch einer besondern damit verbundenen

    Empfindung fhig sind, von welcher man nicht recht ausmachen kann,

    ob sie den Sinn, oder die Reflexion zum Grunde habe) (Kant, 1998: 230),

    ou seja, que no se pode dizer com certeza se uma cor ou um tom (som) so simplesmente agradveis, ou se j em si um jogo belo de sensaes

  • SE E COMO PODER UMA OBRA DE ARTE SER BELA

    170 CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana

    e se como tal traz consigo, no julgamento esttico, um comprazimento na forma (man kann nicht mit Gewissheit sagen: ob eine Farbe oder ein Ton (Klang) blo angenehme Empfindungen, oder an sich schon ein schnes

    Spiel von Empfindungen sei und als ein solches ein Wohlgefallen an der

    Form in der sthetischen Beurteilung bei sich fhre) (Kant, 1998: 231). No obstante a afirmao da possibilidade de as cores contriburem

    para a beleza ou, at, de serem, elas mesmas, belas, desde que enformadas aquilo que num juzo de gosto se considera , segundo o nosso autor, a forma do objecto, isto , a sua figura ou o seu jogo, a composio deste ou o desenho daquela.177 Esses so os elementos essenciais quer para a beleza da natureza, quer para a beleza da arte, para as chamadas belas-artes (schne Knste):

    Na pintura, na escultura, enfim em todas as artes plsticas, na arquitectura, na jardinagem, na medida em que so belas-artes, o desenho o essencial, no qual no o que deleita na sensao, mas simplesmente o que apraz pela sua forma que constitui o fundamento de toda a disposio para o gosto (In der Malerei, Bildhauerkunst, ja allen bildenden Knsten, in der Baukunst, Gartenkunst, sofern sie schne

    Kunste sind, ist die Zeichnung das Wesentliche, in welcher nicht, was in der Empfindung vergngt, sondern blo was durch seine Form gefllt,

    den Grund aller Anlage fr den Geschmack ausmacht) (Kant, 1998: 115).

    Tambm no caso das belas-artes pode ser acrescido (hinzukommen) forma ( figura, ao jogo, ao desenho, composio) o atractivo das cores (Reiz der Farben) ou, se nos referirmos em particular arte do som (a msica) o atractivo de tons agradveis do instrumento (angenehmer Tne

    177 Veja-se, a este propsito, o que afirma Deleuze: Acontece por vezes a Kant perguntar: uma cor, um som, podem ser ditos belos por si mesmos? Talvez o fossem se, em lugar de apreendermos materialmente o seu efeito qualitativo sobre os nossos sentidos, fssemos capazes de reflectir pela nossa imaginao as vibraes de que eles se compem. Mas a cor e o som so demasiado materiais e acham-se demasiado impregnados nos nossos sentidos para se reflectirem assim na imaginao: so adjuvantes, mais do que elementos da beleza. O essencial o desenho, a composio, os quais so precisamente manifestaes da reflexo formal (Deleuze, 2000: 54).

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    CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana 171

    des Instruments) (Kant, 1998: 116).178 No entanto, aquilo em que o sujeito se fundamenta para declarar belo o objecto artstico , segundo Kant, a forma desse objecto. O juzo de gosto baseado, a, no na simples impresso dos sentidos (bloen Sinneneindruck), na sensao do efeito (Wirkung) dos estremecimentos (Zitterungen) provocados pelas vibraes do ar (Luftbebungen) nas partes elsticas de nosso corpo (elastischen Teile unsers Krpers), mas no apercebimento da diviso do tempo (Zeiteinteilung), isto , no matemtico que na msica e no seu julgamento se deixa expressar sobre a proporo dessas vibraes (Mathematische, welches sich ber die Proportion dieser Schwingungen in der Musik und ihre Beurteilung sagen lsst), ou seja, na composio (Komposition), na forma no jogo de muitas sensaes (Form im Spiele vieler Empfindungen) (Kant, 1998: 231). Nesse caso a msica pode ser definida como o jogo belo das sensaes (pelo ouvido) (das schne Spiel der Empfindungen (durch das Gehr)) (Kant, 1998: 231). Kant indica-o no 51. No 53, ele sublinha a separao entre forma, por um lado, e agradabilidade, atractivo, matria, por outro. Segundo o nosso autor,

    no atractivo e no movimento do nimo, que a msica produz, a matemtica no tem certamente a mnima participao; ela somente a condio indispensvel (conditio sine qua non) daquela proporo das impresses, tanto na sua ligao como na sua mudana, pela qual se torna possvel compreend-las e impedir que elas se destruam mutuamente, mas concordem com um movimento contnuo e uma vivificao do nimo atravs de afectos consonantes com ele, e assim concordem numa agradvel autofruio (am dem Reize und der Gemtsbewegung, welche die Musik hervorbringt, hat die Mathematik sicherlich nicht den

    mindesten Anteil; sondern sie ist nur die unumgngliche Bedingung

    (conditio sine qua non) derjenigen Proportion der Eindrcke in ihrer Verbindung sowohl als ihrem Wechsel, wodurch es mglich wird sie

    zusammen zu fassen und zu verhindern, dass diese einander nicht

    zerstren, sondern zu einer kontinuierlichen Bewegung und Belebung

    178 Recordemos a salvaguarda que feita na parte final do 13, segundo a qual atractivo e comoo (Reiz und Rhrung) se deixam ligar ao comprazimento no belo (mit dem Wohlgefallen am Schnen verbinden) (Kant, 1998: 113).

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    des Gemts durch damit konsonierende Affekten und hiemit zu einem

    behaglichen Selbstgenusse zusammenstimmen) (Kant, 1998: 235-236).

    para a beleza da msica que a matemtica tem importncia forma matemtica, embora no representada por conceitos determinados, unicamente se prende o comprazimento que a simples reflexo () conecta com este jogo das mesmas como condio da sua beleza, vlida para qualquer um (mathematischen Form, obgleich nicht durch bestimmte Begriffe vorgestellt, hngt allein das Wohlgefallen, welches

    die bloe Reflexion mit diesem Spiele derselben als fr jedermann

    gltige Bedingung seiner Schnheit verknpft) (Kant, 1998: 235); alm disso somente segundo tal forma o gosto pode arrogar-se um direito de pronunciar-se antecipadamente sobre o juzo de qualquer um (sie ist es allein, nach welcher der Geschmack sich ein Recht ber das Urteil von jedermann zum voraus auszusprechen anmaen darf) (Kant, 1998: 235).179

    3.4. Da Esttica transcendental da Crtica da Razo Pura ao

    Terceiro momento do juzo de gosto da Crtica da Faculdade do

    Juzo

    Nas passagens que temos vindo a citar dos 51 e 53 assim como, mais residualmente, na Analtica do sublime e nos 39-42 so reforadas as teses explicitadas por Kant ao longo do Terceiro momento do juzo de gosto, segundo a relao dos fins que neles considerada, muito em particular no 14. Crawford considera ser esse o momento no qual a

    179 No entender de Kant, ainda assim, se [a]juizada pela razo (durch Vernunft beurteilt), a arte do som possui valor menor que qualquer outra das belas-artes (hat weniger Wert, als jede andere der schnen Knste), pois, apesar de mover o nimo de modo mais variado e, embora s passageiramente, no entanto mais intimamente (das Gemt mannigfaltiger und, obgleich blo vorbergehend, doch inniglicher), essa arte certamente mais gozo que cultura (o jogo de pensamento, que incidentemente com isso suscitado, simplesmente o efeito de uma associao por assim dizer mecnica) (ist freilich mehr Genu als Kultur (das Gedankenspiel, was nebenbei dadurch erregt wird, ist blo die Wirkung einer gleichsam mechanischen

    Assoziation)) (Kant, 1998: 234).

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    experincia subjectiva do apreciador ligada s qualidades do objecto em apreciao (Crawford, 1974: 96).180 Na mesma linha de pensamento, Guyer toma o terceiro momento como mostrando o esforo feito por Kant com vista a associar a propriedades particulares dos objectos ou mesmo a tipos especficos de objectos a disposio formalmente conforme a fins das faculdades de conhecimento daquele que ajuza:

    [o] terceiro momento representa a tentativa de Kant para alcanar o objectivo tradicional da esttica: o de especificar directamente certas propriedades ou mesmo tipos de objectos que autorizem os juzos de gosto, sem necessidade de reflexo adicional acerca da nossa resposta a esses aspectos ou tipos de objectos (Guyer, 1997: 185).

    Aquilo que Kant tenta ao longo dos pargrafos relativos a esse momento , segundo o comentador, associar o conceito geral da forma da finalidade com um tipo de forma mais especfico (Guyer, 1997: 187). Ao faz-lo, Kant, ainda de acordo com Guyer, finalmente afirma uma doutrina do formalismo genuinamente restritiva (Guyer, 1997: 201). De facto, ao identificar a forma com a figura ou com o jogo, com o desenho ou com a composio, Kant coloca como fundamento de determinao do juzo de gosto o movimento harmnico das faculdades de conhecimento entre si enquanto suscitado por um elemento especfico do objecto e no independentemente dos elementos que possam suscitar essa disposio anmica nomeadamente pela figura ou pelo jogo, pelo desenho ou pela composio e no pela expresso de ideias estticas que a representao do objecto envolve. Interessa-nos saber no apenas por que razo Kant o faz, mas igualmente se a sua posio uma consequncia das exigncias por si estabelecidas para que um juzo seja um juzo de gosto. S assim poderemos saber se e, eventualmente, sob que condies ser a forma do objecto o elemento responsvel pelo movimento formalmente conforme a fins das faculdades de conhecimento daquele que ajuza por ocasio da representao que ele faz desse mesmo objecto.

    180 No entender do intrprete, nesse momento do juzo de gosto que Kant d substncia sua teoria esttica (Crawford, 1974: 96).

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    Faamos um percurso pelo primeiro pargrafo da Esttica transcendental da Crtica da Razo Pura. Nesse pargrafo, Kant define sensao (Empfindung) e distingue intuio emprica de intuio pura: a sensao [o] efeito de um objecto sobre a capacidade representativa, na medida em que por ele somos afectados ([d]ie Wirkung eines Gegenstandes auf die Vorstellungsfhigkeit, sofern wir von demselben afficiert werden) (Kant, 2001: 61); quanto aos tipos de intuio, Kant chama emprica (empirisch) intuio que se relaciona com o objecto, por meio de sensao (Anschauung, welche sich auf den Gegenstand durch Empfindung bezieht) (Kant, 2001: 61), implicando esta definio que a sensao esteja contida na intuio, e chama puras (no sentido transcendental) todas as representaes em que nada se encontra que pertena sensao (rein (im transzendentale Verstande) alle Vorstellungen in denen nichts,

    was zur Empfindung gehrt, angetroffen wird ) (Kant, 2001: 62).181 Alm de estabelecer a distino mencionada e de definir sensao, o nosso autor chama matria (Materie) precisamente ao que no fenmeno corresponde sensao ([i]n der Erscheinung was der Empfindung korrespondiert); quanto ao termo forma (Form), ele aplica-o ao que, porm, possibilita que o diverso do fenmeno possa ser ordenado segundo determinadas relaes (dasjenige aber, welches macht, dass das Mannigfaltige der Erscheinung in gewissen

    Verhltnissen geordnet werden kann) (Kant, 2001: 62).182 Ora, sendo, a forma, aquilo a que concerne a unidade do diverso emprico, a forma o elemento responsvel pelo estabelecimento de um movimento reciprocamente harmnico das faculdades de

    181 Tal no significa que entre a intuio pura e a representao sensorial no existe uma conexo. A intuio pura est relacionada com a percepo atravs da forma do fenmeno. 182 A prpria distino entre juzo emprico e juzo puro est dependente da diviso do fenmeno em matria e forma isto , em constituintes materiais, dados pela sensao, e constituintes formais pois o primeiro tipo de juzo depende de intuies empricas e o segundo depende de intuies puras.

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    conhecimento daquele que ajuza por ocasio da representao que ele faz do objecto.183

    Mantenhamo-nos no incio da primeira parte da Doutrina Transcendental dos Elementos. Kant afirma que se a matria de todos os fenmenos nos dada somente a posteriori, a sua forma deve encontrar-se a priori no esprito, pronta a aplicar-se a ela e portanto tem que poder ser considerada independentemente de qualquer sensao (ist uns zwar die Materie aller Erscheinung nur a posteriori gegeben, die Form derselben muss zu ihnen insgesamt im Gemte a priori bereit liegen und daher abgesondert von aller Empfindung knnen betrachtet werden) (Kant, 2001: 62).184 Existe, ento, a possibilidade de abstrair os aspectos formais da representao dos

    183 Sem prejuzo das definies de forma e de matria que aqui transcrevemos, devemos salvaguardar, com Crawford, que o uso dado por Kant distino entre essas duas noes , na Crtica da Razo Pura, um uso amplo (Crawford, 1974: 97). Segundo Crawford, Kant aplica essa distino (forma-matria, ou, alternativamente, forma-contedo) a quatro nveis (cf. Crawford, 1974: 97-98). Assim, como o comentador ressalva, o elemento material de uma aplicao da distino pode ele mesmo num outro nvel de aplicao ser analisado nos seus elementos formais e materiais. Por exemplo, ao nvel de uma dada cognio ou experincia, o elemento formal consiste em categorias e conceitos e o elemento material consiste nas intuies (apercepes particulares) dadas atravs da faculdade da sensibilidade. Mas qualquer destas intuies pode ela mesma ser analisada nos seus componentes formais e materiais. Logo, o que pode ser dito ser o elemento formal ou material depende do nvel de aplicao da distino forma-contedo (Crawford, 1974: 97). No entanto, Crawford no deixa de assinalar e isso o que mais nos interessa sublinhar que, em qualquer das quatro aplicaes da distino referida, a matria ou contedo consiste em certos elementos e a forma a maneira na qual, ou a estrutura em termos da qual, estes elementos so relacionados entre si (Crawford, 1974: 98). A forma mencionada como ordenando a matria, relacionando os elementos de uma maneira que lhes d unidade (Crawford, 1974: 98). 184 Na traduo que fazem da primeira Crtica, Manuela Pinto dos Santos e Alexandre Fradique Morujo fazem corresponder Gemte a esprito; na traduo por ns citada da terceira Crtica, assim como ao longo da nossa tese, esprito corresponde nica e exclusivamente a Geist. Importa no confundir o Geist da terceira Crtica, que apresentmos na subseco Expresso de ideias estticas, com o esprito da traduo que citamos da primeira Crtica esse esprito tem o nimo como termo correspondente na nossa tese.

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    objectos dos seus aspectos materiais. O juzo puro a priori incide sobre essa forma pura das intuies sensveis em geral (reine Form sinnlicher Anschauungen berhaupt) que dever encontrar-se absolutamente a priori no esprito (im Gemte a priori angetroffen werden) e na qual todo o diverso dos fenmenos se intui em determinadas condies (worin alles Mannigfaltige der Erscheinungen in gewissen Verhltnissen angeschauet wird) (Kant, 2001: 62).

    Em terceiro lugar, importa notar que Kant nos informa acerca das referidas condies: de acordo com o nosso autor, se apartarmos da intuio emprica tudo o que pertence sensao () se apurar que h duas formas puras da intuio sensvel, como princpios do conhecimento a priori, a saber, o espao e o tempo (alles, was zur Empfindung gehrt () wird sich finden, dass, es zwei reine Formen sinnlicher Anschauung als Prinzipien der Erkenntnis a priori gebe, nmlich Raum und Zeit) (Kant, 2001: 63). A forma a priori de todos os fenmenos , ento, espao e tempo. por isso, alis, que

    quando separo da representao de um corpo o que o entendimento pensa dele, como seja substncia, fora, divisibilidade, etc., e igualmente o que pertence sensao, como seja impenetrabilidade, dureza, cor, etc., algo me resta ainda dessa intuio emprica: a extenso e a figura (wenn ich von der Vorstellung eines Krpers das, was der Verstand davon denkt,

    als Substanz, Kraft, Teilbarkeit etc., imgleichen was davon zur

    Empfindung gehrt, als Undurchdringlichkeit, Hrte, Farbe, etc.,

    absondere, so bleibt wir aus dieser empirischen Anschauung noch etwas

    brig, nmlich Ausdehnung und Gestalt) (Kant, 2001: 62).

    Segundo Kant, a extenso e a figura pertencem intuio pura, que se verifica a priori no esprito, mesmo independentemente de um objecto real dos sentidos ou da sensao, como forma da sensibilidade (gehren zur reinen Anschauung, die a priori, auch ohne einen wirklichen Gegenstand der Sinne oder Empfindung, als eine bloe Form der Sinnlichkeit im

    Gemte stattfindet) (Kant, 2001: 62). O objecto do juzo puro a priori , por conseguinte, constitudo pelos aspectos espaciais e temporais dos objectos: no que concerne ao sentido externo, a extenso e a figura; no que concerne ao sentido interno, o jogo.

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    Percorrido nada mais do que o primeiro pargrafo da Esttica transcendental, e no deixando escapar aquilo que defendido por Kant no chamado terceiro momento do juzo de gosto, podemos concluir que Kant transfere para a Crtica da Faculdade do Juzo ou, pelo menos, para o mencionado momento do juzo de gosto quer a distino forma-matria, quer a teoria da percepo esboada no incio da primeira parte da Doutrina Transcendental dos Elementos da Crtica da Razo Pura. De facto, a partir de uma tal transferncia que se supem a figura e o jogo como sendo os objectos nicos do juzo de gosto. a partir dessa transferncia que matria e conceitos daquilo que o objecto deva ser so considerados como a ignorar num tal juzo. Assim, como assinala Guyer, o resultado da transferncia para a terceira Crtica da teoria exposta na Esttica transcendental a suposio de que um juzo de gosto material tem de ser ocasionado pela matria do fenmeno e que um juzo de gosto formal s pode ser ocasionado pela forma da sensao (Guyer, 1997: 201).

    Uma tal transferncia e uma tal suposio no so, no entanto, necessrias. No seu estudo acerca da base epistemolgica do formalismo esttico kantiano, Crawford chama a ateno para a importncia que a modificao que Kant faz da distino lockeana entre qualidades primrias e qualidades secundrias dos objectos tem sobre o estabelecimento desse formalismo.185 Modificada por Kant, a distino mencionada torna-se uma distino do mbito fenomnico paralela distino entre forma e matria. A estrutura resultante desse paralelismo consiste em duas colunas: de um lado, as qualidades primrias, entendidas como qualidades objectivas das coisas tal como nos aparecem, constituem a forma do fenmeno; do outro, as qualidades secundrias constituem a matria do fenmeno. De facto, submetidas a uma tal estrutura, as sensaes da cor ou do tom, enquanto qualidades atribudas por cada um s coisas tal como nos aparecem, enquanto dependentes das variaes

    185 Cf. Crawford, 1974: 102-105, para observar detalhadamente a descrio que Crawford apresenta das referidas distino e modificao.

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    178 CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana

    entre sujeitos e, portanto, enquanto jamais objectivas, no podem contribuir para o conhecimento nem ser objecto de um juzo dotado de validade universal a priori (o juzo de gosto).186 Acontece, porm, que, no contexto da primeira Crtica nota Crawford o espao e o tempo so relevados no para falar-se de relaes espaciais e temporais determinadas, mas como sendo objectos puros da intuio (e como as formas a priori que a intuio toma) (Crawford, 1974: 110). Ora, como acrescenta o comentador, na experincia de um objecto da beleza, como uma pintura, o que conta so as relaes determinadas, no a relacionalidade espacial em geral (Crawford, 1974: 110). De uma valorizao do espao e do tempo no tem de resultar, ento, uma valorizao de uma determinada organizao espcio-temporal de um objecto, como o seu desenho ou a sua composio, ou uma desvalorizao dos seus elementos materiais.187

    Pois bem, considerando que a valorizao da forma no necessariamente equivalente valorizao da figura ou do jogo e desvalorizao da cor ou do tom, devemos afirmar, com Crawford, que a aplicao da distino forma-matria, da Crtica da Razo Pura, Crtica da Faculdade do Juzo, nomeadamente identificao daquilo que motiva o movimento recproco formalmente conforme a fins das faculdades de conhecimento daquele que ajuza por ocasio da representao que faz de um objecto, uma aplicao precipitada (Crawford, 1974: 110). Kant no justifica satisfatoriamente a tese de acordo com a qual a forma 186 Crawford considera ser precisamente a atribuio de um estatuto epistemolgico inferior s chamadas qualidades secundrias, por parte de Kant, aquilo que leva excluso dessas qualidades do mbito do gosto (cf. Crawford, 1974: 110). 187 A este propsito, Crawford ressalva que dizer que qualquer conjunto particular de relaes espaciais ou temporais (isto , um conjunto de relaes determinadas) objectivo de uma qualquer maneira que as cores, os tons, os paladares e os cheiros no so, uma alegao adicional e mais forte do que a simples alegao de que espao e tempo so as formas necessrias dos fenmenos (Crawford, 1974: 105-106). Como continua o intrprete, [a] posio geral de Kant que qualquer fenmeno tem de ter algumas propriedades espaciais e temporais, no que qualquer fenmeno dado tem determinadas propriedades espaciais e temporais que podem ser verificadas a priori (Crawford, 1974: 106).

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    corresponde figura ou ao jogo, ao desenho ou composio do objecto; por conseguinte, ele no sustenta suficientemente a tese de acordo com a qual mediante esses elementos que as faculdades de conhecimento daquele que ajuza se movimentam entre si de uma maneira simultaneamente livre e harmnica por ocasio da representao que ele faz do objecto.

    3.5. Vrios Elementos

    A possibilidade de representao de uma conformidade a fins baseada no movimento livre e harmnico das faculdades de conhecimento entre si no depende de uma excluso da matria ou sequer est ligada a uma tal excluso. O facto de o comprazimento implicado na beleza ter de envolver reflexo sobre o diverso apresentado pela faculdade da imaginao no torna necessrio que as caractersticas desse diverso no possam ser sensaes, como a cor ou o tom.188 Efectivamente, nada do que afirmado por Kant acerca da beleza, nada da sua teoria do gosto ou mesmo da sua teoria de conhecimento, como acabmos de ver fundamenta devidamente a submisso do juzo de gosto aos constrangimentos formais previstos nos pargrafos relativos ao Terceiro momento do juzo de gosto, segundo a relao dos fins que neles considerada. As restries impostas nesse momento no so uma consequncia daquilo que dissemos serem os requisitos que um juzo tem de satisfazer para que atravs dele se declare belo um objecto, nomeadamente, a possibilidade de o ltimo ser representado como formalmente conforme a fins na medida em que a sua representao motiva um movimento recproco simultaneamente livre e harmnico nas faculdades de conhecimento daquele que ajuza. nessa capacidade do objecto que reside a sua conformidade a fins formal: a representao do 188 Neste contexto, Guyer sugere mesmo que precisamente o facto de que tais caractersticas dos objectos no so elementos puros a priori do seu fenmeno e assim no susceptveis ao esquematismo dos conceitos a priori do entendimento faz com que seja mais provvel que eles possam servir para a sntese sem conceitos sentida que funda a resposta esttica (Guyer, 1997: 205).

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    objecto pode satisfazer um fim meramente formal, a saber, o do conhecimento em geral por ocasio da representao que aquele que ajuza faz do objecto, as suas faculdades de conhecimento podem ser dispostas para o conhecimento em geral. Mas a ligao entre a beleza de uma coisa e a sua aptido representao de uma tal conformidade a fins no carrega consigo a dependncia dessa aptido relativamente a quaisquer propriedades da sua organizao espcio-temporal ou ao facto de essa coisa ser de um certo tipo.189 No h uma relao de causalidade entre a forma do objecto, enquanto sua organizao espcio-temporal, e o movimento recproco livre e harmnico das faculdades de conhecimento daquele que ajuza por ocasio da representao que ele faz desse objecto. No especialmente por causa do desenho ou da composio do objecto que podemos represent-lo como formalmente conforme a fins. No menos do que a forma a figura ou o jogo, o desenho ou a composio do objecto, que, numa parte significativa da Crtica da Faculdade do Juzo, Kant coloca como fundamento do juzo de gosto tambm a matria da sensao que Kant parece excluir do fundamento do referido juzo pode contribuir para que, por ocasio da representao do objecto, as faculdades da imaginao e do entendimento daquele que ajuza se disponham conformemente a fins para o conhecimento em geral. O fundamento de determinao do juzo de gosto o movimento recproco formalmente conforme a fins das faculdades de conhecimento daquele que ajuza por ocasio da representao que ele faz do objecto; esse movimento pode ser motivado por vrios elementos; o juzo de gosto no deixa de ser formal, isto , um juzo fundado num comprazimento assente no movimento conforme a fins das faculdades de conhecimento entre si na medida em que esse

    189 Como afirma Guyer, [a]tribuir finalidade formal a um objecto reivindicar que ele adequado para ocasionar este estado [de jogo livre], mas no reivindicar que ele o faz em virtude de quaisquer propriedades especficas (Guyer, 1997: 195). Assim, [o] conceito de mera forma da finalidade () no idntico a qualquer noo particular de forma esttica, e ele mesmo no implica uma restrio do gosto aos tipos de propriedades que Kant d como exemplos de forma esttica (Guyer, 1997: 195).

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    movimento alcanado livremente por ocasio da representao que aquele que ajuza faz do objecto.

    A tese de acordo com a qual so vrios e no apenas a forma, enquanto figura ou jogo, desenho ou composio os elementos que contribuem para que as faculdades de conhecimento daquele que ajuza se disponham livre e harmonicamente entre si por ocasio da representao que ele faz do objecto, tal tese reforada, de resto, pela introduo da noo de ideia esttica no texto de Kant mais precisamente: ela confirmada pela denominao da beleza como expresso de ideias estticas. Se a beleza expresso de ideias estticas, ento evidente que tambm as ideias estticas, e a expresso de tais ideias, podem contribuir para a beleza de um objecto. A sua contribuio , alis, necessria, pois no apenas a beleza da arte, como tambm a beleza da natureza, expresso de ideias estticas (cf. Kant, 1998: 226). So vrios, por conseguinte, os elementos em causa para que uma coisa seja declarada bela. Alm da forma do objecto e da matria da sensao, tambm as ideias estticas, suscitadas na sua representao, assim como a expresso dessas ideias, contribuem para que, por ocasio da referida representao, as faculdades da imaginao e do entendimento daquele que ajuza se disponham entre si conformemente a fins para o conhecimento em geral.

    Centremo-nos unicamente no mbito da arte. Mantenhamos entre parntesis a afirmao, do 48, de acordo com a qual no juzo atravs do qual se declara bela uma obra de arte tm de ser tidos em conta um conceito daquilo que o objecto deva ser e a perfeio da obra de arte segundo esse conceito (cf. Kant, 1998: 216). Aquele que ajuza um objecto artstico atravs do gosto considera o movimento harmnico das suas faculdades de conhecimento entre si por ocasio da representao que faz desse objecto. Um tal movimento pode ser suscitado por uma multiplicidade de elementos.190 Nenhum deles, nem mesmo um conceito, impede que o exerccio da faculdade da imaginao daquele que ajuza

    190 Lembremos, uma vez mais, que as ideias estticas so representaes associadas a conceitos dados.

  • SE E COMO PODER UMA OBRA DE ARTE SER BELA

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    seja um exerccio livre. Independentemente de as ideias estticas serem representaes associadas a conceitos dados, devemos recordar que, no fornecimento de tais ideias, a faculdade da imaginao daquele que ajuza exerce-se livremente. A beleza de uma obra de arte depende, ento, da participao de vrios elementos como causa de um sentimento de prazer que, no entanto, ou, melhor, por isso mesmo, no deixa de ser um sentimento de prazer num movimento simultaneamente livre e harmnico das faculdades de conhecimento entre si por ocasio da representao que aquele que ajuza faz do objecto em questo.191 Assim, tal como assinalmos no incio desta seco, a tese de acordo com a qual a beleza pode ser denominada expresso de ideias estticas tem como consequncia a colocao em causa da tese, que aparentemente se lhe ope, segundo a qual h um nico elemento responsvel pelo movimento livre e harmnico das faculdades de conhecimento entre si por ocasio da representao que aquele que ajuza faz de um objecto artstico a forma.

    3.6. Forma e expresso

    As duas teses so, no entanto, conciliveis. Por ocasio da explicitao que fizemos da noo de ideia esttica, dissemos que uma ideia esttica era fornecida por atributos estticos. De acordo com Allison, os atributos estticos constituem o que podemos chamar a matria da ideia esttica, mas igualmente essencial a uma ideia tal a sua forma (Allison: 2001: 283). Neste contexto, a forma da ideia esttica a organizao dos atributos estticos de maneira a constiturem no uma multiplicidade catica de imagens, mas, precisamente, uma ideia esttica. Ora, por

    191 a atribuio de uma tal importncia a diferentes elementos, de resto, aquilo que serve de base censura que Guyer faz das teorias reducionistas da bela arte, mais obviamente [daquelas] que colocariam a essncia da arte apenas na forma perceptiva, mas tambm [daquelas] que restringiriam a essncia da arte a qualquer outro factor singular (Guyer, 1997: 353). No entender de Guyer, a concepo de bela arte de Kant deve servir de inspirao queles que encontrariam o poder e o valor da arte precisamente na complexidade da resposta que ela pode provocar (Guyer, 1997: 353).

  • BELA ARTE

    CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana 183

    intermdio dessa forma que, segundo Allison, as ideias estticas se tornam universalmente comunicveis (cf. Allison, 2001: 284 e 288). A forma , ento, condio necessria da expresso bela de ideias estticas (cf. Allison, 2001: 284 e 288). O mesmo dizer que ela condio necessria da beleza. Assim, Allison refere um sentido largo, no restritivo de forma, implicado pela concepo kantiana da harmonia livre das faculdades de conhecimento entre si por ocasio da representao que aquele que ajuza faz do objecto, pois s uma tal ordem ou um tal arranjo do dado sensvel (qua apreendido pela imaginao) poderia ser adequado exibio de um conceito (embora nenhum conceito em particular) (Allison, 2001: 288). Interpretado deste modo, o formalismo compatvel e mesmo indispensvel denominao da beleza como expresso de ideias estticas.192 De resto, o sentido lato de formalismo , de alguma maneira, embora no de uma maneira explcita, proposto por Guyer. Veja-se, a propsito, a afirmao segundo a qual

    [n]a verdadeira teoria de Kant, a comprazedora liberdade da imaginao na sua resposta arte, que o que faz esttica essa resposta, no requer a supresso de quaisquer conceitos, mas emerge precisamente da complexidade da interaco entre a forma de uma obra de arte e o contedo e esprito a que d expresso (Guyer, 1997: 353).193

    De acordo com esta perspectiva, aquilo que num objecto artstico d expresso a um contedo a forma desse objecto forma que, neste caso,

    192 Consequentemente, ele coloca em causa a posio de D. W. Gotshalk, de acordo com a qual Kant tem duas teorias: uma, formalista, acerca da beleza da natureza; outra, expressionista, acerca da beleza da arte. Recordemos as palavras de Gotshalk: enquanto a forma absolutamente essencial para a Arte Bela, ela no suficiente e de facto a necessidade menor no que concerne a satisfazer valor esttico na arte (Gotshalk, 1967: 259). Deleuze prefere referir uma esttica formal do gosto, isto , a esttica da linha e da composio, e uma meta-esttica material, a meta-esttica das matrias, das cores e dos sons, concluindo que o classicismo acabado e o romantismo nascente encontram um equilbrio completo precisamente na Crtica da Faculdade do Juzo (Deleuze, 2000: 64). 193 Obviamente, nesta passagem, de Guyer, esprito no corresponde ao Geist por ns explicitado na subseco Expresso de ideias estticas.

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    dever ser interpretada no no sentido estreito de figura ou jogo, de desenho ou composio, mas num sentido alargado.

    Precisamente no contexto de uma interpretao alargada da noo de forma, importa destacar algumas passagens da Crtica da Faculdade do Juzo nas quais transparece uma grande proximidade entre essa noo e a noo de expresso. No 47, por exemplo, Kant afirma que [o] gnio somente pode fornecer uma matria rica para produtos da arte bela ([d]as Genie kann nur reichen Stoff zu Produkten der schnen Kunst hergeben) e que a elaborao da mesma e a forma requerem um talento moldado pela escola, para fazer dele uso que possa ser justificado perante a faculdade do juzo (die Verarbeitung desselben und die Form erfordert ein durch die Schule gebildetes Talent, um einen Gebrauch davon zu machen,

    der vor der Urteilskraft bestehen kann) (Kant, 1998: 215).194 A forma a que Kant faz referncia , no contexto da bela arte, a forma da apresentao de um conceito, pela qual este comunicado universalmente (die Form der Darstellung eines Begriffs, durch welche dieser allgemein mitgeteilt wird) (Kant, 1998: 217). Vemo-lo no 48. Entretanto, no 49, Kant descreve o gnio j o dissemos como consistindo

    na feliz relao, que nenhuma cincia pode ensinar e nenhuma diligncia pode aprender, de encontrar ideias para um conceito dado e por outro lado de encontrar para elas a expresso pela qual a disposio subjectiva do nimo da resultante, enquanto acompanhamento de um conceito, pode ser comunicada a outros (in dem glcklichen Verhltnisse, welches keine Wissenschaft lehren und kein Flei erlernen kann, zu einem

    gegebenen Begriffe Ideen aufzufinden und andrerseits zu diesen den

    Ausdruck zu treffen, durch den die dadurch bewirkte subjektive Gemtstimmung, als Begleitung eines Begriffs, anderen mitgeteilt

    werden kann) (Kant, 1998: 223).

    Se colocarmos lado-a-lado as passagens que acabmos de transcrever dos 47 e 49, podemos associar as noes de forma e de expresso. Apresentadas (expressadas/enformadas) de uma certa maneira, as ideias

    194 No nos preocupemos, agora, com as consequncias a retirar do facto de esse talento ser o gosto. Abordaremos esse assunto na ltima seco deste captulo.

  • BELA ARTE

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    estticas que constituem uma matria rica apresentam um conceito de uma maneira que promove um movimento harmnico das faculdades de conhecimento entre si por ocasio da representao do objecto. Aquilo que possibilita a referida apresentao do conceito a maneira como a matria rica expressada/enformada. Allison considera haver mesmo uma reciprocidade entre forma e expresso no texto de Kant (Allison, 2001: 289). Ele observa essa reciprocidade no 42 e, muito claramente, no 53, nas referncias feitas por Kant expresso de ideias estticas no contexto da arte do som (msica). Segundo Kant, o atractivo da arte do som repousa no facto, entre outros, de que

    assim como a modulao por assim dizer uma linguagem universal das sensaes compreensvel a cada homem, a arte do som exerce por si s esta linguagem no seu inteiro nfase, a saber como linguagem dos afectos, e assim comunica universalmente segundo a lei da associao as ideias estticas naturalmente ligadas a elas; mas que, pelo facto de aquelas ideias estticas no serem nenhum conceito e pensamento determinado, a forma da composio destas sensaes (harmonia e melodia) serve somente, como forma de uma linguagem, para, mediante uma disposio proporcionada das mesmas (a qual pode ser submetida matematicamente a certas regras, porque nos sons ela assenta sobre a relao do nmero das vibraes de ar, ao mesmo tempo, na medida em que os sons so ligados simultnea ou tambm sucessivamente), expressar a ideia esttica de um todo interconectado de uma inominvel profuso de pensamentos, em conformidade a um certo tema, que constitui na pea o afecto dominante (so wie die Modulation gleichsam eine allgemeine jedem Menschen verstndliche Sprache der

    Empfindugen ist, die Tonkunst diese fr sich allein in ihrem ganzen

    Nachdrucke, nmlich als Sprache der Affekten, ausbt und so nach dem

    Gesetze der Assoziation die damit natrlicher Weise verbundenen

    sthetischen Ideen allgemein mittheilt; das saber, weil jene sthetischen

    Ideen keine Begriffe und bestimmte Gedanken sind, die Form der

    Zusammensetzung dieser Empfindungen (Harmonie und Melodie) nur

    statt der Form einer Sprache dazu dient, vermittelst einer

    proportionierten Stimmung derselben (welche, weil sie bei Tnen auf

    dem Verhltnis der Zahl der Luftbebungen in derselben Zeit, sofern die

    Tne zugleich oder auch nach einander verbunden werden, beruht,

    mathematisch unter gewisse Regeln gebracht weden kann) die

    sthetische Idee eines zusammenhngen- den Ganzen einer

  • SE E COMO PODER UMA OBRA DE ARTE SER BELA

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    unnennbaren Gedankenflle einem gewissen Thema gem, welches den

    in dem Stcke herrschenden Affekt ausmacht, auszudrcken) (Kant, 1998: 235).

    Nesta passagem, Kant indica claramente que, na msica, aquilo que expressa uma ideia esttica a forma como as sensaes so compostas. Assim, no entender de Allison, muito dificilmente Kant poderia ter sido to claro no que concerne correlao entre forma e expresso na msica (Allison, 2001: 289). Ora, somente atravs desta correlao pode a forma do objecto ter a importncia que Kant lhe atribui na Crtica da Faculdade do Juzo.

    Em jeito de concluso, interessa-nos sublinhar, ento, serem vrios os elementos que contribuem para que a disposio recproca das faculdades de conhecimento daquele que ajuza seja, por ocasio da representao que ele faz do objecto, uma disposio formalmente conforme a fins. Se for outro o caso, se preferirmos defender que s um elemento contribui para essa disposio e que esse elemento a forma, ento deveremos interpretar a noo de forma no no sentido de figura ou jogo, de desenho ou composio, mas num sentido alargado. No obstante essa opo ser legtima, ela conduz-nos a uma afirmao tautolgica: o elemento que suscita, naquele que ajuza, um movimento formalmente conforme a fins das suas faculdades de conhecimento entre si por ocasio da representao que ele faz do objecto o elemento que suscita, naquele que ajuza, um movimento formalmente conforme a fins das suas faculdades de conhecimento entre si por ocasio da representao que ele faz do objecto. A esse elemento poderemos chamar forma ou expresso. Em qualquer dos casos fica salvaguardada a correco da denominao da beleza da arte como expresso de ideias estticas.195 A relevncia da compreenso dessa denominao para

    195 Kant igualmente considera possvel que assim se denomine a beleza da natureza, como tivemos oportunidade de assinalar. No entanto, para responder questo de saber se e como poder falar-se de bela arte, importa-nos mais imediatamente saber que a beleza da arte pode denominar-se, segundo o nosso autor, expresso de ideias estticas.

  • BELA ARTE

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    responder questo de saber se e sob que condies ser legtimo falar-se de bela arte revelar-se- plenamente no captulo seguinte.

    3.7. Importncia da forma no sentimento do sublime

    Antes de avanarmos, porm, ser pertinente ressalvarmos que a problematizao da importncia da forma na beleza de um objecto, ou mesmo a reinterpretao que apresentmos da noo de forma, no coloca em causa a importncia dada por Kant forma ou ausncia de forma na ocorrncia do sentimento do sublime (das Erhabene), igualmente no colocando em causa, por conseguinte, a necessidade da Analtica do sublime, isto , a necessidade de pensar um sentimento de prazer universalmente vlido numa forma que, sob um certo ponto de vista, no conforme a fins, aparecendo mesmo como contrria a fins.196 Tambm no concernente ao sentimento do sublime, aquilo que est em causa a forma da conformidade a fins, isto , a relao das faculdades de conhecimento entre si por ocasio da representao que o sujeito faz do objecto.197 O eixo a partir do qual cada uma das Analticas (a do belo e a do sublime) se desenha um eixo comum, a saber, a observao de uma conformidade a fins sem fim por ocasio da representao do objecto em causa no juzo. Acontece que, enquanto no belo imediatamente se representa uma conformidade a fins sem fim, no caso do sentimento do sublime, a representao de uma tal conformidade antecedida pela representao de uma inconformidade. esta ltima peculiaridade que o torna especfico.

    Afirma Kant, ainda numa fase inicial da Observao geral sobre a exposio dos juzos reflexivos estticos: Pode-se descrever o sublime da seguinte maneira: ele um objecto (da natureza), cuja representao

    196 Tanto no caso da confrontao com uma medida maximamente grande, como no caso da confrontao com um poder e uma fora irresistveis, parece no haver (e de facto, sob um certo ponto de vista, no h) uma conformidade a fins das coisas da natureza. 197 No caso do sublime, as faculdades em movimento so a faculdade da imaginao e a razo.

  • SE E COMO PODER UMA OBRA DE ARTE SER BELA

    188 CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana

    determina o nimo a imaginar o carcter inalcanvel da natureza como

    apresentao de ideias (es ist ein Gegenstand (der Natur), dessen Vorstellung das Gemt bestimmt, sich die Unerreichbarkeit der Natur als Darstellung von Ideen zu denken) (Kant, 1998: 166). Essa determinao sobre o nimo exercida na medida em que o julgamento esttico [do objecto] aplica at aos seus limites a faculdade da imaginao, seja ampliao (matematicamente) ou ao seu poder sobre o nimo (dinamicamente) (dessen sthetische Beurteilung die Einbildungskraft bis zu ihrer Grenze, es sei der Erweiterung (mathematisch), oder ihrer Macht

    ber das Gemt (dynamisch), anspannt) (Kant, 1998: 167). Quando um objecto demasiado grande para que o compreendamos esteticamente, ou quando ele demasiado forte para que possamos resistir-lhe enquanto entes da natureza, quando, portanto, somente magnitude ou poder se deixam ver e, por conseguinte, a faculdade da imaginao matemtica ou dinamicamente ampliada, nesses casos aquilo que obriga essa faculdade a manter o seu esforo em direco superao dos seus limites a razo, ao impor-lhe que represente sensivelmente as suas ideias, racionais.198 Pois bem, embora um tal esforo seja vo, na medida em que entre a faculdade da imaginao e a razo h uma inadequao objectiva, , no entanto, exactamente esse esforo enquanto, ao ser sentido, apresenta sensivelmente a referida inadequao que activa e chama ao nimo as ideias da razo. Apesar de no haver uma sensificao das ideias da razo, o esforo do nimo de tornar-lhes adequada a representao dos sentidos, esse esforo remete-nos para um plano supra-sensvel, torna-nos conscientes da nossa ligao a um domnio prtico, a um domnio

    198 Kant afirma que se ampliamos metemtica ou dinamicamente a nossa faculdade emprica de representao para a intuio da natureza, ento inevitavelmente se juntar a ela a razo como faculdade da independncia da totalidade absoluta e produz o esforo do nimo, se bem que vo, de lhes tornar adequada a representao dos sentidos (wenn wir unser empirisches Vorstellungsvermgen (mathematisch, oder dynamisch) fr die Anschauung der Natur erweitern: so tritt unausbleiblich die Vernunft hinzu, als Vermgen der Independenz der absoluten Totalitt, und bringt

    die, obzwar vergebliche, Bestrebung der Gemts hervor, die Vorstellung der Sinne

    dieser angemessen zu machen) (Kant, 1998: 166).

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    incondicionado. Por esse motivo, o objecto ajuizado como subjectivamente conforme a fins.199 Perante objectos que desafiam a faculdade da imaginao a confrontar os seus limites, o sujeito, consciente do incondicionado, obrigado a pensar subjectivamente a prpria natureza, na sua totalidade, como apresentao de algo supra-sensvel (die Natur selbst in ihrer Totalitt, als Darstellung von etwas bersinnlichem,

    zu denken), isto , como apresentao da ideia do supra-sensvel, e lembrado que apenas tem a ver com uma natureza enquanto fenmeno, e que esta mesma ainda tem que ser considerada como simples apresentao de uma natureza em si (que a razo tem na ideia) (mit einer Natur als Erscheinung zu tun haben, und diese selbst noch als bloe Darstellung

    einer Natur an sich (welche die Vernunft in der Idee hat) msse angesehen

    werden) (Kant, 1998: 166). Por isso o sublime parecer ser considerado como apresentao de um conceito [indeterminado] da razo (die Darstellung eines dergleichen Vernunftbegriffs) (Kant, 1998: 138) e por isso poder falar-se de um esforo da faculdade da imaginao em tratar a natureza como um esquema para as ideias (Anspannung der Einbildungskraft, die Natur als ein Schema fr die letztern zu behandeln) (Kant, 1998: 162).

    H, ento, tambm no caso do sublime, uma conformidade a fins das coisas da natureza: o objecto ajuizado como conforme a fins enquanto a faculdade do juzo o considera apto exposio de uma sublimidade que pode ser encontrada no nimo (zur Darstellung einer Erhabenheit tauglich

    199 Na Observao geral sobre a exposio dos juzos reflexivos estticos, Kant refere precisamente uma conformidade a fins subjectiva do nosso nimo no uso da faculdade da imaginao para o seu destino supra-sensvel (subjektiven Zweckmigkeit unseres Gemt im Gebrauche der Einbildungskraft fr dessen

    bersinnliche Bestimmung) (Kant, 1998: 166) e um sentimento de um destino [do nimo], que ultrapassa totalmente o domnio da faculdade da imaginao (quanto ao sentimento moral), com respeito ao qual a representao do objecto ajuizada subjectivamente conforme a fins (Gefhle einer Bestimmung desselben, welche das Gebiet der ersteren gnzlich berschreitet (dem moralischen Gefhl), in Ansehung

    dessen die Vorstellung des Gegenstandes als subjektiv-zweckmig beurteilt wird) (Kant, 1998: 167).

  • SE E COMO PODER UMA OBRA DE ARTE SER BELA

    190 CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana

    sei, die im Gemte angetroffen werden kann) (Kant, 1998: 139). O sensvel representado como conforme a fins enquanto julgado como susceptvel a um uso supra-sensvel.200 Na medida em que provoca um jogo consonante201, embora mediante contraste, atravs de um conflito, de violncia, entre a imaginao e a razo, ou seja, na medida em que provoca um acordo entre a faculdade da apresentao e a faculdade dos conceitos da razo, sem determinar estes, mas promovendo a faculdade a que concernem, o objecto representado como subjectivamente conforme a fins, como conforme a fins sem fim, assim como o o juzo que lhe diz respeito e a disposio das faculdades anmicas, a relao entre as faculdades de conhecimento.202 Ora, precisamente por isso que o objecto apraz por a desconformidade a fins da faculdade da imaginao a ideias da razo e ao seu suscitar (die Unzweckmigkeit des Vermgens der Einbildungskraft doch fr Vernunftideen und deren Erweckung) ser 200 Kant diz mesmo que [o] sublime consiste simplesmente na relao em que o sensvel, na representao da natureza, ajuizado como apto a um possvel uso supra-sensvel do mesmo ([d]as Erhabene besteht blo in der Relation, worin das Sinnliche in der Vorstellung der Natur fr einen mglichen bersinnlichen Gebrauch desselben

    als tauglich beurteilt wird) (Kant, 1998: 165). 201 certo que, enquanto comoo, o sentimento do sublime envolve seriedade na ocupao da faculdade da imaginao (Ernst in der Beschftigung der Einbildungskraft) (Kant, 1998: 138). Kant nota-o logo no 23. No podemos esquecer, porm, que igualmente o prprio Kant quem, mais frente, no 27, e referindo-se ao juzo esttico acerca do sublime, fala de um jogo subjectivo das faculdades do nimo (imaginao e razo) (subjektive Spiel der Gemtskrfte (Einbildungskraft und Vernunft)) e diz que esse jogo representado como harmnico (als harmonisch) (Kant, 1998: 154). 202 Acerca da disposio das faculdades anmicas, veja-se o 27, no qual dito que faculdade da imaginao e razo produzem aqui, atravs do seu conflito, a conformidade a fins subjectiva das faculdades do nimo (bringen Einbildungskraft und Vernunft hier durch ihren Widerstreit subjektive Zweckmigkeit der Gemtskrfte hervor) (Kant, 1998: 154-155); a propsito do juzo, note-se, no mesmo pargrafo, que o prprio juzo esttico torna-se subjectivamente conforme a fins para a razo como fonte das ideias, isto de uma tal compreenso intelectual, para a qual toda a compreenso esttica pequena (wird das sthetische Urteil selbst subjektiv-zweckmig fr die Vernunft, als Quell der Ideen, d. i. einer solchen

    intellektuellen Zusammenfassung, fr die alle sthetische klein ist) (Kant, 1998: 156).

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    efectivamente representada como conforme a fins (als zweckmig vorgestellt) (Kant, 1998: 156).

    Kant claro: o sublime apraz (das Erhabene gefllt) (Kant, 1998: 141). Mas ele precisa de avanar uma explicao, pois como pode ser caracterizado com uma expresso de aprovao o que em si apreendido como contrrio a fins? (wie kann das mit einem Ausdrucke des Beifalls bezeichnet werden, was an sich als zweckwidrig aufgefasst wird?) (Kant, 1998: 139), [q]uem quereria denominar sublimes tambm massas informes de cordilheiras amontoadas umas sobre outras em desordem selvagem, com as suas pirmides de gelo, ou o sombrio mar furioso, etc.? ([w]er wollte auch ungestalte Gebirgsmassen, in wilder Unordnung ber einander getrmt, mit ihren Eispyramiden, oder die dstere tobende See

    usw. erhaben nennen?) (Kant, 1998: 152). Por outras palavras: como chamar sublime a algo cuja contemplao horrvel (Anblick ist grlich) (cf. Kant, 1998: 139), a algo cujo aspecto (Anblicke) aterrorizante (abschrecken) (cf. Kant, 1998: 194)? O que se passa que

    o conceito do sublime da natureza () em geral no denota nada que seja conforme a fins na prpria natureza, mas somente no uso possvel das suas intuies, para suscitar em ns prprios o sentimento de conformidade a fins totalmente independente da natureza (der Begriff des Erhabenen () berhaupt nichts Zweckmiges in der Natur selbst, sondern nur in dem mglichen Gebrauche ihrer Anschauungen, um eine von der Natuz ganz unabhngige Zweckmigkeit in uns selbst fhlbar

    zu machen, anzeige) (Kant, 1998: 140).

    Esta tese, proposta no 23, indispensvel para a compreenso de todo o processo que leva ao sentimento do sublime. O que est em causa o uso que se faz das representaes dos objectos da natureza. isso que est em causa quer ao nvel do sublime matemtico, onde absolutamente grande o uso que a faculdade do juzo naturalmente faz de certos objectos para o fim daquele (sentimento), com respeito ao qual todavia todo e qualquer outro uso pequeno (der Gebrauch, den die Urteilskraft von gewissen Gegenstnden zum Behuf des letzteren (Gefhls)

    natrlicher Weise macht, gegen ihn aber jeder andere Gebrauch klein

    ist) (Kant, 1998: 145), quer ao nvel do sublime dinmico, onde a fora

  • SE E COMO PODER UMA OBRA DE ARTE SER BELA

    192 CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana

    maior no a das coisas da natureza, por mais poderosas que sejam, mas a nossa fora (que no natureza) (unsere Kraft (die nicht Natur ist)) (Kant, 1998: 159). Trata-se da maneira de pensar adequada: o fundamento para o sublime tem de ser procurado simplesmente em ns e na maneira de pensar que introduz sublimidade (blo in uns und der Denkungsart, die Erhabenheit hineinbringt) (Kant, 1998: 140). Kant chega mesmo a dizer, na Observao geral sobre a exposio dos juzos reflexivos estticos, que o sublime sempre tem que se referir maneira de pensar, isto a mximas, para conseguir o domnio do intelectual e das ideias da razo sobre a sensibilidade (muss das Erhabene jederzeit Beziehung auf die Denkungsart haben, d. i. auf Maximen, dem Intellektuellen und den Vernunftideen ber die

    Sinnlichkeit Obermacht zu verschaffen) (Kant, 1998: 173). Assim, o prazer do sentimento do sublime s possvel mediante um

    desprazer (nur vermittelst einer Unlust mglich ist) (Kant, 1998: 156). Embora alcanado mediante um prvio desprazer203, o sentimento de que o nosso nimo pode ultrapassar a sensibilidade, o sentimento de que no nosso nimo h algo de superior natureza, esse sentimento da nossa superioridade em relao natureza204, , ento, um sentimento de prazer. Trata-se de um prazer indirecto, de um prazer que, para surgir, implica que no julgamento do objecto haja um movimento do nimo.205 Esse

    203 H um desprazer na medida em que h um apercebimento de uma inadequao da imaginao exigncia da razo, dado que a primeira incapaz de cumprir o que a ltima lhe exige. 204 H um sentimento de superioridade em relao natureza na medida em que h um despertar da nossa determinao supra-sensvel. , alis, precisamente nessa medida que, quer o objecto, quer o juzo e a relao entre as faculdades, so considerados conformes a fins. 205 Em jeito de comentrio lateral, devemos lembrar que, em A Philosophical Enquiry into the Origin of our Ideas of the Sublime and the Beautiful, Burke associa o sublime no a um prazer positivo, um prazer que simplesmente , sem qualquer relao, mas a um prazer relativo, um prazer que s existe por relao, particularmente por relao com as ideias de dor ou perigo (Burke, 2008: 34). Ora, a noo burkeana de deleite (Delight) expressa precisamente a sensao que acompanha a remoo de dor ou perigo (Burke, 2008: 34). Entretanto, Burke acabar por afirmar que o deleite

  • BELA ARTE

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    movimento descrito, no 23, como momentnea inibio das foras vitais e () efuso imediatamente consecutiva e tanto mais forte das mesmas (augenblicklichen Hemmung der Lebenskrfte und () darauf sogleich folgenden desto strkern Ergieung derselben) (Kant, 1998: 138), e comparado, mais frente, no 27, a um abalo, isto a um repelir rapidamente varivel e a um atrair do mesmo objecto (mit einer Erschtterung, d. i. mit einem schnellwechselnden Abstoen und

    Anziehen eben desselben Objekts) (Kant, 1998: 154). esta alternncia anmica entre repulso e atraco pelo objecto, de resto, aquilo que leva Kant a ligar o prazer do sentimento do sublime comoo, isto , a uma sensao em que o agrado produzido somente atravs da inibio momentnea e subsequente efuso mais forte da fora vital (Empfindung, wo Annehmlichkeit nur vermittelst augenblicklicher Hemmung und

    darauf erfolgender strkerer Ergieung der Lebenskraft gewirkt wird) (Kant, 1998: 116).

    Aquilo que mais importa reter da descrio que acabmos de fazer do sentimento do sublime o facto de a representao de uma conformidade a fins formal somente ser possvel mediante a representao de uma desconformidade a fins da forma do objecto. Ora, se esta representao , no contexto do sentimento do sublime, condio necessria daquela, ento a forma ou a ausncia dela um elemento indispensvel para a

    no um prazer, mas uma espcie de horror delicioso, uma espcie de tranquilidade tingida com terror (Burke, 2008: 123). Embora a afeco seja indubitavelmente positiva, a causa um tipo de Privao (Burke, 2008: 33): a dor ou perigo de nos vermos privados de algo de extrema importncia (a luz, o som, as coisas, os outros, a sade, a vida, etc). Note-se que, em seu entender, o terror em qualquer caso, de modo mais aberto ou latente, o princpio regulador do sublime (Burke, 2008: 54), isto , o tronco comum de tudo o que sublime (Burke, 2008: 59). Sem prejuzo do que afirmado neste comentrio lateral, no cedamos, no entanto, a qualquer eventual tentao de aproximar demasiado as posies de Burke e de Kant: no entender deste, a permanncia na exposio meramente emprica do sublime elaborada por Burke, que faz assentar o comprazimento no sublime inteiramente no facto de que ele deleita mediante comoo, impede a pretenso de que qualquer outro d seu assentimento ao juzo esttico que ns proferimos e o conhecimento de como se deve julgar (Kant, 1998: 177-178).

  • SE E COMO PODER UMA OBRA DE ARTE SER BELA

    194 CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana

    ocorrncia desse sentimento. Podemos afirmar, sendo assim, que nem a problematizao da importncia da forma na beleza de um objecto, nem a reinterpretao que apresentmos da noo de forma, nenhuma dessas opes retira forma ou sua ausncia a importncia que Kant lhe atribui para a ocorrncia do sentimento do sublime. Devemos concluir, por conseguinte, que nenhuma delas coloca em causa a necessidade da Analtica do sublime na Crtica da Faculdade do Juzo. Feita esta incurso, em jeito de salvaguarda, pelo segundo livro da Analtica da faculdade de juzo esttica, consideramo-nos em condies de regressar questo que motiva a nossa investigao: saber se e como ser legtimo falar-se de bela arte.

    4. BELEZA ADERENTE COMO BELEZA

    4.1. Beleza da arte como beleza aderente

    Aquilo que move a nossa investigao a questo de saber se e sob que condies poder falar-se de bela arte no mbito da Crtica da Faculdade do Juzo. Poder um objecto artstico ser declarado belo? Poder um objecto artstico ser ajuizado atravs de um juzo de gosto? Poder o juzo atravs do qual se declara bela uma obra de arte ser um juzo de gosto? Eis algumas das ramificaes da questo qual temos vindo a tentar responder ao longo deste estudo.

    Para elaborarmos uma resposta devidamente sustentada a essas questes, temos vindo a colocar entre parntesis o excerto, do 48, segundo o qual

    [s]e () o objecto dado como um produto da arte e como tal deve ser declarado belo, ento tem que ser posto antes no fundamento um conceito daquilo que a coisa deva ser, porque a arte sempre pressupe um fim na causa (e na sua causalidade); e visto que a consonncia do mltiplo numa coisa com vista a uma determinao interna da mesma enquanto fim a perfeio da coisa, assim no julgamento da beleza da arte tem que ser tida em conta ao mesmo tempo a perfeio da coisa ([w]enn () der Gegenstand fr ein Produkt der Kunst gegeben ist und

  • BELA ARTE

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    als solches fr schn erklrt werden soll: so muss, weil Kunst immer

    einen Zweck in der Ursache (und deren Kausalitt) voraussetzt, zuerst

    ein Begriff von dem zum Grunde gelegt werden, was das Ding sein soll;

    und da die Zusammenstimmung des Mannigfaltigen in einem Dinge zu

    einer innern Bestimmung desselben als Zweck die Volkommenheit des

    Dinges ist, so wird in der Beurteilung der Kunstschnheit zugleich die

    Volkommenheit des Dinges in Anschlag gebracht werden mssen) (Kant, 1998: 216).

    Temo-lo feito com o objectivo, especfico, de tornar clara a possibilidade de a faculdade da imaginao quer do criador de uma obra de arte, quer daquele que a ajuza como bela, se exercer livremente mesmo que ele tenha de reconhecer o conceito dado a partir do qual se inicia esse exerccio. Se retomarmos o excerto transcrito, ver-nos-emos obrigados a recusar a possibilidade de uma obra de arte ser ajuizada atravs de um juzo de gosto, de um objecto artstico ser declarado belo, de falar-se de bela arte.206 No entanto, na seco Belas obras de arte, tivemos oportunidade de mencionar vrios factos que favorecem a aceitao dessa possibilidade. Devemos continuar a procurar saber sob que condies poder ela ser aceite.

    Imediatamente antes do excerto supracitado, Kant afirma o seguinte: Um beleza da natureza uma coisa bela; a beleza da arte uma representao bela de uma coisa (Eine Naturschnheit ist ein schnes Ding; die Kunstschnheit ist eine schne Vorstellung von einem Dinge) (Kant, 1998: 216). Aceitemos ambas as passagens do 48 e adoptemos a identificao da beleza da arte como representao bela de uma coisa como novo ponto de partida para pensar o juzo atravs do qual se declara bela uma obra de arte. Suspendamos, ento, a total independncia do juzo de gosto em relao perfeio, imposta pelo ttulo do 15 (cf. Kant, 1998: 117). No juzo atravs do qual se declara bela uma obra de arte tm de ser

    206 Se aquele que ajuza tem de considerar a conformidade a fins objectiva interna da coisa, ento a sua imaginao no se exerce livremente. O exerccio livre dessa faculdade , contudo, condio indispensvel ao proferimento de um juzo de gosto. Um juzo no qual se considera necessariamente a perfeio no um juzo totalmente independente do conceito de perfeio; logo, ele no um juzo de gosto.

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    considerados um conceito daquilo que o objecto deva ser e a perfeio da obra de arte segundo esse conceito. Devemos procurar saber que conceito poder ser esse.

    Suponhamos que uma dada obra de arte deve representar belamente a ideia racional de inteno cosmopolita. Se para o cumprimento de tal fim se recorre expresso de ideias estticas, como tem de ser feito para que a representao seja bela, ento aquele que ajuza no pode observar uma conformidade a fins objectiva por conseguinte, uma perfeio. No pode faz-lo porque as representaes fornecidas pela faculdade da imaginao em seu jogo livre, a saber, as ideias estticas, so representaes inexponveis da mesma faculdade. Sendo elas representaes inexponveis da faculdade da imaginao, nenhum conceito pode ser-lhes inteiramente adequado. Por conseguinte, no concernente relao entre a ideia racional de inteno cosmopolita e a representao bela dessa mesma ideia, no pode ser observada uma conformidade a fins objectiva interna.207 O conceito daquilo que o objecto deva ser, enquanto fim que a bela obra de arte tem de satisfazer, no pode ser identificado com aquilo que pretende representar-se belamente.

    Temos de colocar uma segunda hiptese quanto finalidade a ser considerada no juzo atravs do qual se declara bela uma obra de arte. Os exemplos que Kant fornece a propsito das possibilidades abertas pela bela arte, no 48, indiciam que por representao (Vorstellung) dever entender-se descrio (Beschreibung). Desde logo, a explicao da preeminncia da bela arte assenta no facto que ela descreve belamente as coisas que na natureza seriam feias ou desaprazveis (dass sie Dinge, die in der Natur hlich oder missfllig sein wrden, schn beschreibt) (Kant, 1998: 217). Assim, mesmo essas coisas podem ser descritas muito belamente, at mesmo ser representadas em pinturas (knnen sehr schn beschrieben, ja sogar im Gemlde vorgestellt werden) (Kant, 1998: 217). 207 De resto, quando se trata de conceitos da razo, h uma segunda explicao para a impossibilidade de observar-se uma perfeio. J a tnhamos referido: nenhuma intuio pode ser inteiramente adequada a um conceito da razo, pois, como vimos, um tal conceito indemonstrvel.

  • BELA ARTE

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    No entanto, o sentido de descrio no esgota todos os sentidos que ao longo da Crtica da Faculdade do Juzo podem ser dados noo de representao.

    Um dos comentadores que chamam a ateno para o uso opaco e ambivalente que Kant faz de representao, na terceira Crtica, Eva Schaper (cf. Schaper, 2003: 113 e 116). Segundo Schaper, no sempre no mesmo sentido que os objectos so representativos (cf. Schaper, 2003: 115). Assim, a comentadora salienta serem vrios os casos nos quais a noo de representao no pode ter o sentido usual de retrato ou descrio (Schaper, 2003: 107) e, portanto, considera necessrio divorciar representao de descrio (Schaper, 2003: 110). No entanto, Schaper no remete a mencionada chamada de ateno para o 48. Por conseguinte, ela no aborda a questo de saber se pode falar-se de bela arte.

    Allison tambm salienta que Kant usa representao em sentidos muito diferentes, embora relacionados, sem parar para informar o leitor acerca desse facto (Allison, 2001: 292). O comentador prope que a noo de representao seja interpretada em trs sentidos, consoante as passagens em causa. O primeiro sentido por ele mencionado precisamente o sentido descritivo (cf. Allison, 2001: 294). Acabmos de citar duas passagens, do 48, que autorizam uma interpretao de representao nesse sentido (cf. Kant, 1998: 217). Alm do sentido descritivo, Allison prope a interpretao de representao em mais dois sentidos: no sentido exemplificativo ou como expresso de ideias estticas (cf. Allison, 2001: 294). Ainda no 48, Kant identifica a representao bela de um objecto com a forma de apresentao de um conceito, pela qual este comunicado universalmente (die Form der Darstellung eines Begriffs, durch welche dieser allgemein mitgeteilt wird) (Kant, 1998: 217). Essa forma , segundo Kant, o veculo da comunicao e uma maneira por assim dizer da exposio (das Vehikel der Mitteilung und eine Manier gleichsam des Vortrages) do conceito (Kant, 1998: 218). Se recordarmos aquilo que, na parte final do 49, o nosso autor afirma acerca do gnio, a saber, que, atravs do esprito, ele encontra para ideias estticas

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    198 CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana

    a expresso pela qual a disposio subjectiva do nimo () enquanto acompanhamento de um conceito, pode ser comunicada a outros (den Ausdruck, durch den die subjektive Gemtsstimmung, als Begleitung eines Begriffs, anderen mitgeteilt werden kann) (Kant, 1998: 223), podemos concluir que representar belamente expressar ideias estticas belamente.208

    Entre os sentidos propostos por Allison para representao, aquele que agora mais nos interessa , no entanto, o sentido exemplificativo. Nesse sentido, um objecto representar algo significa ser um excelente exemplar de um tipo, exemplificar a perfeio peculiar desse tipo, ser bom para (Allison, 2001: 293). Desde logo no 16, encontra-se uma passagem na qual pode interpretar-se representar no sentido exemplificativo: no chamado puro juzo de gosto, de acordo as palavras de Kant, [n]o pressuposto nenhum conceito de qualquer fim, para o qual o mltiplo deva servir ao objecto dado e o qual este ltimo deva representar ([e]s ist kein Begriff von irgend einem Zwecke, wozu das Mannigfaltige dem gegebenen Objekte dienen und was deses also

    vorstellen solle, vorausgesetzt) (Kant, 1998: 120-121). Representar um conceito de fim pode significar, neste contexto, exemplificar esse conceito. Ora, transportando o sentido exemplificativo de representao para a passagem, do 48, segundo a qual no juzo atravs do qual se declara bela uma obra de arte tm de ser tidos em conta um conceito daquilo que o objecto deva ser e a perfeio da obra de arte segundo esse conceito (cf. Kant, 1998: 216), Allison prope que o conceito daquilo que o objecto deva ser (Begriff, was der Gegenstand fr ein Ding sein solle) seja identificado com o tipo de obra que [o objecto] deve ser visto como sendo para o seu pblico (Allison, 2001: 295). Assim, no contexto da bela arte, o que exemplificado, e por conseguinte representado,

    208 De resto, esta concluso contribui para alicerar a tese, considerada na seco Forma, segundo a qual h uma reciprocidade entre as noes de forma e de expresso. A forma das ideias estticas adequada beleza a expresso de ideias estticas adequada beleza. Ambas so representaes adequadas beleza representaes belas.

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    apenas a forma de arte ou gnero (Allison, 2001: 296). Uma obra de arte representa (exemplifica) necessariamente um tipo, uma forma, um gnero de arte. No juzo atravs do qual ela declarada bela, o conceito desse tipo e a conformidade objectiva interna da obra a esse conceito tm de ser considerados. No entender de Allison, sem algum conhecimento desse tipo, que em muitos casos pode ser praticamente minimal, no pode comear a avaliar-se uma obra de arte, pois no se est consciente do que o artista est a tentar fazer (Allison, 2001: 295).209

    Pensemos, ento, numa forma de arte a poesia, por exemplo. Como arte que , a poesia obedece a regras determinadas. No 43, Kant faz referncia a algumas dessas regras: a correco e a riqueza da linguagem, igualmente a prosdia e a mtrica (die Sprachrichtigkeit und der Sprachreichtum, imgleichen die Prosodie und das Silbenma) (Kant, 1998: 208). S cumprindo essas regras que a obra de arte pode ser uma representao potica de uma coisa. Assim, se o fim pressuposto na causa da obra de arte for que ela seja uma bela representao potica de uma coisa, ento no juzo atravs do qual se declara bela essa obra de arte tem de ser tida em conta a perfeio da mesma segundo o conceito de poesia. Suponhamos, ento, que o conceito daquilo que o objecto deva ser corresponde forma de arte. Mantendo entre parntesis a afirmao que intitula o 15, a primeira questo que se coloca a de saber se quanto a ser uma poesia pode ser observada uma conformidade a fins objectiva

    209 Embora no lhe chamando sentido exemplificativo, Schaper prope claramente um tal sentido de representao. Sem deixar de referir que, em algumas passagens do texto de Kant, representar pode ser identificado com descrever ou retratar, e, portanto, que [o] sentido estreito de representao como descrever ou retratar tem algum tipo de aplicao (Schaper, 2003: 114), a comentadora acrescenta que o significado central seria reservado para a exemplificao do que quer que seja que uma coisa pudesse ser considerada capaz de ser, isto , a sua perfeio (Schaper, 2003: 117). Assim, representar pode significar encarnar [um] fim de maneira a que a sua possvel perfeio, o que o objecto deva ser, brilhe atravs disso (Schaper, 2003: 111). Neste contexto, Schaper fala de um sentido alargado de representao (Schaper, 2003: 115). No sentido alargado, os objectos representarem algo significa os objectos representarem aquilo que eles podem ser vistos como sendo, nomeadamente retratos, narrativas e por a em diante (Schaper, 2003: 115).

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    interna por ocasio da representao que aquele que ajuza faz da obra de arte. A resposta a essa questo no envolve dificuldade: se o objecto cumprir as regras que um objecto tem de cumprir para ser uma poesia se nele no houver falhas quanto correco e riqueza da linguagem, se nele no houver erros respeitantes prosdia e mtrica, se ele satisfizer essas e todas as outras condies indispensveis poesia ento ele considerado perfeito. No concernente ao conceito daquilo que o objecto deva ser enquanto forma de arte ele ser uma representao potica, por exemplo pode ser tida em conta uma perfeio. Assim, no juzo atravs do qual se declara bela uma representao potica de uma coisa, tm de ser tidos em conta um conceito daquilo que o objecto deva ser e a perfeio da representao segundo esse conceito tm de ser tidos em conta, respectivamente, o conceito de poesia e a conformidade objectiva da obra de arte a esse conceito. Alm disso, para declarar bela a obra de arte, potica, aquele que ajuza ter de sentir um comprazimento num movimento simultaneamente livre e harmnico das suas faculdades de conhecimento entre si por ocasio da representao que faz dessa mesma obra.

    A segunda questo a colocar ainda antes de regressarmos ao ttulo do 15 prende-se com a possibilidade ou impossibilidade de aquele que ajuza observar uma conformidade a fins subjectiva mesmo quando tem de observar uma conformidade a fins objectiva interna. Mais concretamente, importa saber se a faculdade da imaginao daquele que ajuza pode exercer-se livremente mesmo tendo ele em conta, necessariamente, um conceito daquilo que o objecto deva ser e a perfeio da obra de arte segundo esse conceito. Decidir acerca desta questo reveste-se de importncia capital para a questo de saber se e como poder falar-se de bela arte porque s um juzo no qual o exerccio da faculdade da imaginao livre pode ser um juzo de gosto. A liberdade da faculdade da imaginao , como temos vindo a repetir, uma condio necessria para o proferimento de um juzo de gosto.

    Acerca daquilo que se requer para que o exerccio da faculdade da imaginao seja um exerccio livre, tecemos algumas consideraes por

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    ocasio da descrio da maneira de proceder na arte do gnio, concretamente por intermdio da explicitao que fizemos do fornecimento de ideias estticas para um conceito dado e da expresso de tais ideias no contexto dessa arte. Salientmos, nessa altura, que o exerccio da faculdade da imaginao quer do criador de uma obra de arte, quer daquele que a ajuza como bela, tido por Kant como sendo um exerccio livre, independentemente de tanto na criao dessa obra, como no juzo atravs do qual ela declarada bela, ter de reconhecer-se o conceito a que as ideias estticas fornecidas esto associadas e ao qual a expresso de tais ideias, ela prpria, d expresso.210 No seguimento, pudemos assumir que o juzo atravs do qual se declara bela uma obra de arte um juzo de gosto. Fizemo-lo, porm, condicionalmente: sob a condio de colocarmos entre parntesis o excerto, do 48, de acordo com o qual num tal juzo tm de ser considerados no apenas um conceito concretamente, um conceito daquilo que o objecto deva ser, que, como entretanto vimos, pode corresponder a uma forma de arte mas igualmente a perfeio da obra segundo esse conceito, isto , a conformidade a fins objectiva interna do objecto artstico ao referido conceito (Kant, 1998: 216). Assim, o que agora nos interessa conhecer a posio de Kant relativamente liberdade da faculdade da imaginao quer do criador, quer, principalmente, daquele que ajuza a obra de arte, quando embora no apenas, certamente tambm tm de ser tidos em conta um conceito daquilo que o objecto deva ser, enquanto representao

    210 Para o justificarmos, citmos vrias passagens da Crtica da Faculdade do Juzo que mostram ser essa a posio do nosso autor. A este propsito, Guyer nota que a discusso detalhada da bela arte mostra que no caso paradigmtico de uma obra de gnio (por exemplo, a encarnao infinitamente sugestiva de uma ideia da razo inesgotvel num poema ou smbolo visual) ns podemos ser conscientes da concepo que encarnada numa obra de arte e dos conceitos que tipicamente constituem o seu contedo sem sacrificarmos a liberdade da imaginao, que a fonte do nosso prazer na beleza e que a liberdade da imaginao tanto do artista como do pblico de uma obra assenta precisamente na maneira como a forma de uma obra de arte d expresso a um conceito mas vai alm do que quer que seja que pudesse ser deduzido de alguma regra providenciada por esse ou qualquer outro conceito (Guyer, 1996: 149).

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    atravs de uma certa forma de arte, e a perfeio da obra de arte segundo esse conceito, enquanto satisfao das condies para ser uma representao atravs da forma de arte em causa.

    Pois bem, tambm no concernente a esse caso, Kant considera que o exerccio da faculdade da imaginao um exerccio livre. Depois de afirmar que a representao bela de uma coisa a forma de apresentao de um conceito, pela qual este comunicado universalmente (Kant, 1998: 217), o nosso autor acrescenta que, relativamente a essa forma, em certa medida ainda se permanece livre, embora ela de resto esteja comprometida com um determinado fim (man noch in gewissen Mae frei bleibt, wenn er doch brigens an einen bestimmten Zweck gebunden ist) (Kant, 1998: 218). Tal como a ideia racional de inteno cosmopolita ou outra ideia da razo no esgota as ideias estticas que a ela esto associadas, tambm a satisfao daquilo que se requer para que algo seja uma representao potica da mencionada ou de outra ideia racional e, portanto, a observao de uma perfeio no esgota a liberdade da faculdade da imaginao e, por conseguinte, o tipo de conformidade a fins que pode observar-se a par da considerao dessa satisfao. Atravs de uma certa capacidade produtiva da sua imaginao, aquele que dotado de gnio fornece ideias estticas para um conceito dado; por intermdio do seu esprito, ele d a essas ideias uma expresso mediante a qual as faculdades de conhecimento daquele que ajuza se movimentam livre e harmonicamente entre si por ocasio da representao que ele faz do objecto.211 Ora, mediante a observao de um tal movimento, atravs de um sentimento de prazer, que aquele que ajuza declara belo o objecto. Assim, no juzo atravs do qual se declara bela uma obra de arte, embora tenham de ser considerados um conceito daquilo que o objecto deva ser e a perfeio da obra de arte segundo esse conceito, igualmente considerado aquilo que de incompreensvel por conceitos a faculdade da

    211 assim que aquele que dotado de gnio torna universalmente comunicvel o conceito dado, independentemente de a expresso consistir na linguagem, na pintura ou na arte plstica (in Sprache, oder Malerei, oder Plastik) (Kant, 1998: 223).

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    imaginao livremente fornece e o que a expresso de um tal material promove nas faculdades de conhecimento daquele que ajuza, a saber, uma disposio harmnica que, sendo livre, isto , no determinada pelo conceito daquilo que o objecto deva ser, representada como subjectivamente conforme a fins.

    Quer quando se impe o reconhecimento de um conceito dado um conceito da razo como a ideia racional de inteno cosmopolita, por exemplo quer quando tem de considerar-se um conceito daquilo que o objecto deva ser enquanto forma de arte poesia, por exemplo e a perfeio da obra de arte segundo esse conceito no caso de uma obra potica, o cumprimento das regras que um objecto tem de cumprir para ser uma poesia o exerccio da faculdade da imaginao pode ser, do ponto de vista de Kant, um exerccio livre. isso que mostram no apenas o supracitado excerto, do 48, no qual Kant nota que, apesar de a forma de apresentao de um conceito mediante a qual este tornado universalmente comunicvel estar comprometida com um fim determinado, a liberdade permanece, mas tambm todas as referncias quelas belas-artes na definio das quais pressuposto que a faculdade da imaginao se exera livremente. Assim, no 51, Kant define poesia como arte de executar um jogo livre da faculdade da imaginao como um ofcio do entendimento (die Kunst, ein freies Spiel der Einbildungskraft als ein Geschft der Verstandes

    auszufhren) (Kant, 1998: 227), assinala, em nota de rodap, que a jardinagem tem como condio da sua composio () simplesmente o jogo livre da faculdade da imaginao na contemplao (zur Bedingung ihrer Zusammenstellung hat, blo das freie Spiel der

    Einbildungskraft in der Beschauung) (Kant, 1998: 269) e acrescenta que a pintura est a simplesmente para ser vista, para entreter a faculdade da imaginao no jogo livre com ideias e ocupar a faculdade do juzo esttica sem um fim determinado (blo zum Ansehen da ist, um die Einbildungskraft im freien Spiele mit Ideen zu unterhalten und

    ohne bestimmten Zweck die sthetische Urteilskraft zu beschftigen ) (Kant, 1998: 230). Entretanto, no 53, o nosso autor afirma que as artes

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    204 CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana

    figurativas transpem a faculdade da imaginao para um jogo livre e contudo ao mesmo tempo conforme ao entendimento (die Einbildungskraft in ein freies und doch zugleich dem Verstande

    angemessenes Spiel versetzen) (Kant, 1998: 236). No obstante todas essas indicaes dadas pelo texto de Kant, a letra

    do 16 obriga-nos a lembrar que um juzo de gosto no qual se pressupe um conceito daquilo que o objecto deva ser e a perfeio do objecto segundo esse conceito um juzo de gosto aplicado ou, equivalentemente, uma beleza que pressuponha um tal conceito e a perfeio da coisa segundo o mesmo uma beleza aderente. Ora, a letra do 15, nomeadamente o seu ttulo, que temos vindo a colocar entre parntesis, impede-nos de admitir o chamado juzo de gosto aplicado e a chamada beleza aderente nos mbitos do juzo de gosto e da beleza, respectivamente. Ei-lo novamente: O juzo de gosto totalmente independente do conceito de perfeio (Das Geschmacksurteil ist von dem Begriffe der Vollkommenheit gnzlich unabhngig) (Kant, 1998: 117). Se assim for, no pode proferir-se um juzo de gosto acerca de uma obra de arte, uma obra de arte no pode ser declarada bela, no pode falar-se de bela arte. Pensar a possibilidade de falar-se de bela arte impe uma reviso dos contedos desses dois pargrafos.

    Por ocasio da primeira referncia que fizemos distino entre beleza livre e beleza aderente e, equivalentemente, entre puro juzo de gosto e juzo de gosto aplicado apresentmos uma justificao para a ilegitimidade de chamar-se beleza chamada beleza aderente e de chamar-se juzo de gosto ao chamado juzo de gosto aplicado. Enquanto nada houver a acrescentar, essa justificao revela-se suficiente: os critrios do chamado juzo de gosto aplicado afiguram-se contraditrios com os critrios do juzo de gosto; os critrios da chamada beleza aderente afiguram-se contraditrios com os critrios da beleza.212 Apesar disso, em

    212 De resto, como lembra Guyer, a descrio de Kant de beleza dependente no est longe da explicao da beleza tpica da esttica racionalista e de pelo menos alguma esttica empirista (Guyer, 1997: 400).

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    nenhum momento propusemos uma explicao para a opo de Kant por algo que aparenta ser uma contradio.213

    Uma explicao plausvel para tal opo prende-se com a questo de saber o que necessrio para que o exerccio da faculdade da imaginao seja suficientemente livre para que aquele que ajuza profira um juzo de gosto. de conceber que Kant pense que, no chamado juzo de gosto aplicado, a liberdade da faculdade da imaginao limitada pela considerao do conceito daquilo que o objecto deva ser e da perfeio desse objecto segundo o mesmo conceito mas no esgotada. A partir da introduo da noo de bela arte, vrias so as passagens indicadoras de que essa a posio de Kant. A mesma abundncia no se constata no que antecede essa parte da Crtica da Faculdade do Juzo. Ainda assim, h pelo menos uma passagem que no-lo indicia. Ela pertence ao 16 precisamente o pargrafo no qual Kant introduz as noes de beleza aderente e juzo de gosto aplicado. J a citmos. Acerca do juzo atravs do qual livremente se declara belo um objecto o chamado puro juzo de gosto Kant afirma que nesse juzo [n]o pressuposto nenhum conceito de qualquer fim, para o qual o mltiplo deva servir ao objecto dado e o qual este ltimo deva representar, mediante o que unicamente seria limitada a liberdade da faculdade da imaginao (wodurch die Freiheit der Einbildungskraft nur eingeschrnkt werden wrde) (Kant, 1998: 121). Por contraste, no chamado juzo de gosto aplicado, pressuposto um conceito de fim para o qual o mltiplo deva servir ao objecto dado e o qual este ltimo deva representar. A liberdade da faculdade da imaginao

    213 Schaper identifica claramente o que est em causa. Ela afirma, primeiro, que [o] que surpreendente no que, tendo distinguido dois tipos de beleza, Kant devesse estabelecer uma distino entre dois tipos de juzo, mas que ele devesse estabelecer uma distino entre dois tipos de juzo de gosto, e prossegue, logo a seguir, registando que [a] ideia de que apreciaes estticas de um objecto sejam conectadas ou mesmo baseadas num conceito do seu fim ou propsito pareceriam uma contradio nos termos (cf. 15) (Schaper, 2003: 104). Em The Genesis of Kants Critique of Judgment, John H. Zammito coloca explicitamente a questo: O problema , em que sentido a beleza aderente (pulchritudo adhaerens) ainda beleza? (Zammito, 1992: 126). Infelizmente, o intrprete no lhe d resposta.

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    limitada por esse conceito de fim. Tal, porm, no quer dizer que seja esgotada. A explicao proposta sugere que, podendo a faculdade da imaginao exercer-se livremente em alguma medida, pode o juzo no ser totalmente determinado pela considerao do conceito daquilo que o objecto deva ser e da perfeio desse objecto segundo o mesmo conceito, podendo, por essa razo, ser ainda um juzo esttico e, no sendo um juzo esttico dos sentidos, ser um juzo de gosto, apesar de condicionado, precisamente pela considerao do conceito daquilo que o objecto deva ser e da perfeio desse objecto segundo um tal conceito.

    Esta explicao tem a vantagem imediata de legitimar as noes de juzo de gosto aplicado e de beleza aderente: o chamado juzo de gosto aplicado um juzo de gosto e a chamada beleza aderente uma beleza. No proferimento de um juzo de gosto aplicado e, equivalentemente, na declarao condicionada de algo como belo, na declarao de algo como condicionadamente belo presta-se ateno ao fim do objecto (auf den Zweck des Gegenstandes sieht), considera-se o que se tem no pensamento (in Gedanken hat) (Kant, 1998: 122). Nada disso impede, contudo, que o exerccio da faculdade da imaginao daquele que ajuza seja um exerccio livre. Trata-se da explicao sugerida por Guyer para a manuteno dos termos beleza e juzo de gosto quando esto em causa juzos nos quais considerado um conceito daquilo que o objecto deva ser e a conformidade a fins interna do objecto a esse conceito. Guyer sublinha que Kant no nega de todo que a beleza aderente seja um tipo de beleza (Guyer, 1996: 155). Assim, no entender do intrprete, no obstante o conceito daquilo que o objecto deva ser impor algum constrangimento na liberdade da imaginao com respeito ao fenmeno [do objecto], ele ainda deixa a essa faculdade uma tal latitude dentro deste constrangimento que o prazer pode ainda ser produzido pela sua livre harmonia com a exigncia do entendimento por unidade (Guyer, 1997: 219). Ora, se o comprazimento sentido por ligao a um movimento recproco livre e harmnico das faculdades de conhecimento daquele que ajuza por ocasio da representao que ele faz do objecto, ento o juzo ser um juzo esttico e, no sendo um juzo acerca do agradvel, ser um

  • BELA ARTE

    CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana 207

    juzo de gosto. Assim, numa parte posterior do seu texto, relacionando a distino estabelecida por Kant, no 16, entre beleza livre e beleza aderente, com a passagem, do 48, que motivou a nossa indagao, Guyer assinala o seguinte:

    de maneira a avaliar adequadamente uma obra de arte, tem de reconhecer-se no meramente que essa obra um produto da inteno geral de produzir prazer atravs do engajamento das faculdades de conhecimento, mas tambm que se pretendeu que essa obra fosse um objecto de algum tipo particular embora, obviamente, o conceito desse tipo de objecto no possa ser visto como um que determina totalmente a forma do objecto particular, pois ento no haveria espao para resposta e juzo estticos (Guyer, 1997: 356-357).214

    Partindo da letra da Crtica da Faculdade do Juzo concretamente da letra do 16, no qual se chama beleza beleza aderente e juzo de gosto ao juzo de gosto aplicado libertamo-nos das concluses que apresentmos na seco Juzo atravs do qual se declara bela uma obra de arte. A partir de uma interpretao da noo de beleza aderente baseada numa considerao de uma razo plausvel para que Kant tenha decidido manter o termo beleza mesmo quando est em causa um juzo no qual tido em conta um conceito daquilo que o objecto deva ser e a perfeio desse objecto segundo esse conceito afirma-se a possibilidade de uma obra de arte ser ajuizada atravs de um juzo aplicado mas legitimamente de gosto, afirma-se a possibilidade de uma obra de arte ser, condicionada mas legitimamente, declarada bela afirma-se, por conseguinte, a legitimidade de falar-se de uma arte que bela, isto , de bela arte.

    certo que tais afirmaes no podem ser proferidas sem uma consequncia para o texto de Kant: a negao do ttulo do 15 (cf. Kant,

    214 Entretanto, o comentador prosseguir afirmando que os conceitos so manifestos mas nunca sentidos como constrangedores ou determinantes. Apesar da sugesto enganadora da discusso de Kant acerca da beleza livre e da beleza aderente (16), ento, a arte no tem de carecer de contedo para que produza uma resposta puramente esttica, nem ns temos de abstrair desse contedo para desfrutar de uma tal resposta (Guyer, 1997: 357-358).

  • SE E COMO PODER UMA OBRA DE ARTE SER BELA

    208 CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana

    1998: 117). Se aceitarmos a colocao no mbito do juzo de gosto de um

    juzo no qual so considerados um conceito daquilo que o objecto deva

    ser e a perfeio do objecto segundo esse conceito, ento somos obrigados

    a afirmar que o juzo de gosto no (no tem de ser) totalmente

    independente do conceito de perfeio. Ele poder s-lo, aparentemente,

    no caso de tratar-se de um puro juzo de gosto, acerca da beleza de um

    objecto natural; mas no o necessariamente se for um juzo de gosto

    aplicado, se for o juzo condicionado atravs do qual se declara bela uma

    obra de arte (o juzo atravs do qual condicionadamente se declara bela

    uma obra de arte, o juzo atravs do qual se declara condicionadamente

    bela uma obra de arte), ento ele no totalmente independente do

    conceito de perfeio.

    Tal, porm, no significa confundir a beleza com a perfeio, dissolver

    a beleza na perfeio ou fazer corresponder a beleza a um conceito

    confuso de perfeio (cf. Kant, 1998: 117 e 119).215 O juzo de gosto

    aplicado e, portanto, o juzo atravs do qual se declara bela uma obra de

    arte no um juzo de conhecimento. Por isso que ele pode ser um

    juzo de gosto. Ele apenas pressupe um juzo de conhecimento. No

    deixa, contudo, de ser um juzo esttico. O juzo atravs do qual se declara

    bela uma obra de arte um juzo cujo fundamento de determinao no

    nenhum conceito, mas sim o sentimento (do sentido interno) daquela

    unanimidade no jogo das faculdades do nimo, na medida em que ela pode

    ser somente sentida (Bestimmungsgrund kein Begriff, sondern das Gefhl

    (des innern Sinnes) jener Einhelligkeit im Spiele der Gemtskrfte ist,

    sofern sie nur empfunden werden kann) (Kant, 1998: 119). Nele

    considerado um conceito; mas o conceito no o seu fundamento de

    determinao.216 Nele considerado um conceito daquilo que o objecto

    215 Se quisermos remeter para o 57, afirmaremos que o juzo de gosto aplicado no se funda num conceito intelectual confuso como o de perfeio (verworrener

    Verstandesbegriff etwa von Vollkommenheit) (Kant, 1998: 247). 216 Remetendo para o 46, confirmamos, agora, que o juzo atravs do qual se

    declara belo um objecto artstico no deduzido de qualquer regra que tenha

    um conceito como fundamento determinante, por conseguinte que ponha no

  • BELA ARTE

    CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana 209

    deva ser e a perfeio do objecto segundo esse conceito; mas nem o

    referido conceito, nem a conformidade a fins objectiva interna da obra de

    arte ao mesmo servem de fundamento de determinao do juzo. Se

    remetermos para o 58, afirmaremos que o juzo atravs do qual se declara

    bela uma obra de arte tem a ver teoricamente, por conseguinte tambm

    logicamente () com a perfeio do objecto (theoretisch, mithin auch

    logisch auf die Vollkommenheit des Objekts) (Kant, 1998: 255). No

    entanto, aquilo que importa para a determinao desse juzo a

    concordncia da [representao do objecto] na faculdade da imaginao

    com os princpios essenciais da faculdade do juzo em geral (die

    bereinstimmung seiner Vorstellung in der Einbildungskraft mit den

    wesentlichen Prinzipien der Urteilskraft berhaupt) (Kant, 1998: 255).

    Tal assim porque, como Kant nota, no mesmo pargrafo, o

    comprazimento mediante ideias estticas no tem que depender do alcance

    de fins determinados (enquanto arte mecanicamente intencional) (das

    Wohlgefallen durch sthetische Ideen nicht von der Erreichung

    bestimmter Zwecke (als mechanisch absichtliche Kunst) abhngen

    msse) (Kant, 1998: 259). Assim, no obstante estar necessariamente

    contido, no juzo atravs do qual se declara bela uma obra de arte, um

    comprazimento interessado a saber, um prazer na exibio de um

    conceito daquilo que o objecto deva ser e, portanto, um prazer na

    representao, lgica, de uma conformidade a fins objectiva o prazer que

    lhe serve de fundamento de determinao um comprazimento sem

    interesse, independente de qualquer interesse, desinteressado o

    comprazimento na representao, esttica, de uma conformidade a fins

    formal. Logo, embora o juzo atravs do qual se declara bela uma obra de

    arte no seja um puro juzo de gosto, ele um juzo esttico e, portanto,

    no sendo um juzo acerca do agradvel, um juzo de gosto, mesmo que

    fundamento um conceito da maneira como ele possvel (von irgend einer Regel abgeleitet werde, die einen Begriff zum Bestimmungsgrunde habe,

    mithin einen Begriff von der Art, wie es mglich sei, zum Grunde lege) (Kant,

    1998: 211).

  • SE E COMO PODER UMA OBRA DE ARTE SER BELA

    210 CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana

    aplicado.217 Estamos, ento, em condies de responder afirmativamente questo que move a nossa investigao a questo de saber se e como pode falar-se de bela arte no contexto da Crtica da Faculdade do Juzo. Se o juzo de gosto aplicado um juzo de gosto e o juzo atravs do qual se declara bela uma obra de arte um juzo de gosto aplicado, ento o juzo atravs do qual se declara bela uma obra de arte um juzo de gosto. Uma obra de arte pode ser ajuizada atravs de um juzo de gosto se esse juzo for um juzo de gosto aplicado; uma obra de arte pode ser declarada bela se essa declarao for condicionada. No contexto da Crtica da Faculdade do Juzo, legtimo falar-se de bela arte enquanto arte, condicionada mas legitimamente, declarada bela, enquanto arte declarada bela atravs de juzos aplicados mas legitimamente de gosto.

    4.2. Beleza da arte como beleza livre

    Legitimadas que esto as noes de juzo de gosto aplicado, enquanto espcie de juzo de gosto, e de beleza aderente, enquanto espcie de beleza, pode falar-se de bela arte.218 O juzo atravs do qual condicionadamente se declara bela uma obra de arte um juzo de gosto aplicado por conseguinte, um juzo de gosto. Ainda assim, no obstante, ento, o sucesso alcanado na resoluo da questo de saber se pode falar-se de bela arte, no podemos afirmar que todas as nossas dificuldades esto ultrapassadas. O principal facto a que recorremos para mostrar a relevncia dessa questo consiste na referncia de Kant a objectos artsticos como belezas livres. Importa recordar que, de acordo com o nosso autor, os desenhos la grecque, a folhagem para molduras ou sobre papel de parede (die Zeichnungen la grecque, das Laubwerk zu Einfassungen oder auf Papiertapeten), todos esses objectos so belezas livres (sind freie Schnheiten) (Kant, 1998: 120). Alm desses, pode

    217 Se tivermos em conta os critrios apresentados no incio do 14, podemos afirmar que o juzo atravs do qual se declara bela uma obra de arte um puro juzo esttico e, por conseguinte, um autntico juzo de gosto. 218 Pode falar-se de arte aderentemente bela, se preferirmos.

  • BELA ARTE

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    igualmente ser contado como beleza livre o que na msica se denomina fantasias (sem tema), e at toda a msica sem texto (was man in der Musik Phantasieen (ohne Thema) nennt, ja die ganze Musik ohne Text) (Kant, 1998: 120). Tal implica que esses objectos artsticos possam ser declarados belos atravs de puros juzos de gosto, no atravs de juzos de gosto aplicados.

    A razo que Kant apresenta para que os objectos mencionados possam ser livremente declarados belos a seguinte: eles por si no significam nada: no representam nada, nenhum objecto sob um conceito determinado (bedeuten fr sich nichts: sie stellen nichts vor, kein Objekt unter einem bestimmten Begriffe) (Kant, 1998: 120). Se representar for identificado com descrever, no h qualquer dificuldade em aceitar a tese segundo a qual esses objectos nada representam. Podemos conceber que os desenhos la grecque, a folhagem para molduras ou sobre papel de parede, o que na msica se denomina fantasias e a msica sem texto no descrevem o que quer que seja. A referida identificao no , no entanto, suficiente para sustentar que esses objectos so belezas livres. Considerando a identificao da beleza da arte como representao bela de uma coisa (Kant, 1998: 216), que adoptmos no incio desta seco, somos obrigados a afirmar que tambm os objectos mencionados representam alguma coisa, no obstante eles nada descreverem.

    Retomemos os sentidos de representao propostos por Allison: sentido descritivo, sentido exemplificativo e expresso de ideias estticas. Qualquer objecto belo expressa ideias estticas. Expressar ideias estticas condio da beleza, seja ela artstica ou natural (cf. Kant, 1998: 226).219 Por conseguinte, os objectos mencionados representam algo no sentido em que expressam ideias estticas. Acontece que uma reduo do carcter representativo da beleza da arte expresso de ideias estticas resultaria

    219 Note-se, lateralmente, que, como salvaguarda Allison, no h contradio entre a posio [de Kant] relativamente ao gnio e a [sua] concepo de beleza natural como expressando ideias estticas. Uma contradio emergiria unicamente se o gnio fosse tido como sendo uma condio para a produo de ideias estticas, mas Kant no est comprometido com qualquer tese desse tipo (Allison, 2001: 286-287).

  • SE E COMO PODER UMA OBRA DE ARTE SER BELA

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    numa indistino entre uma tal beleza e a beleza da natureza.220 Devemos averiguar a hiptese de os objectos mencionados representarem no sentido de exemplificarem algo. Eles so, de facto, objectos de um certo tipo. Enquanto tal, cada um deles um exemplo de um objecto desse tipo. Um desenho la grecque um exemplo do tipo desenho la grecque. Nesse sentido, ele representa o seu tipo, exemplifica o seu tipo. Est confirmada a hiptese de os objectos mencionados representarem no sentido de exemplificarem algo. Assim, embora nada descrevam, eles expressam ideias estticas e exemplificam.

    O problema com que nos defrontamos (saber se e como os desenhos la grecque, a folhagem para molduras ou sobre papel de parede, o que na msica se denomina fantasias e a msica sem texto podem ser belezas livres mais geralmente, saber se e sob que condies poder uma obra de arte ser livremente declarada bela, saber se e sob que condies poder uma obra de arte ser declarada bela atravs de um puro juzo de gosto, saber se e como ser legtimo falar-se de bela arte enquanto arte livremente declarada bela, enquanto arte declarada bela atravs de puros juzos de gosto) no est, porm, resolvido. De acordo com o que temos vindo a defender, um juzo no qual tenham de ser considerados um conceito daquilo que o objecto deva ser mesmo que esse conceito corresponda a um tipo de objecto, a uma forma de arte e a perfeio do objecto segundo esse conceito mesmo correspondendo essa perfeio satisfao das condies para que um objecto seja um exemplar do tipo mencionado, da forma de arte referida s pode ser um juzo de gosto aplicado, no um puro juzo de gosto. S condicionadamente pode declarar-se belo o objecto em causa. A sua beleza s pode ser uma beleza aderente, no uma beleza livre. Ora, segundo o 16, um desenho la

    220 O prprio Allison o assinala: na medida em que quer a beleza natural, quer a beleza artstica, consiste na expresso de ideias estticas, toda a beleza (incluindo a variedade natural) representa neste sentido. Consequentemente, ele no providencia um meio para compreender a distino entre uma coisa bela e uma representao bela de uma coisa, na qual supostamente baseada toda a referncia de Kant bela arte (Allison, 2001: 295).

  • BELA ARTE

    CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana 213

    grecque, uma folhagem para molduras ou sobre papel de parede, uma fantasia musical ou uma msica sem texto, qualquer destes objectos artsticos pode ser livremente declarado belo, isto , pode ser declarado belo atravs de um puro juzo de gosto.

    Perante esta dificuldade, poderia perguntar-se o que distingue objectos dos tipos mencionados das belas obras de arte dos tipos que Kant refere a partir da sua abordagem da noo de bela arte. Concretamente, perguntar-se-ia o que faz com que os primeiros sejam belezas livres e, as segundas, belezas aderentes. Esta pergunta seria, contudo, precipitada. Em bom rigor, Kant nunca afirma que a beleza da bela arte (a beleza da arte do gnio) ou necessariamente uma beleza aderente. Pelo contrrio, embora tambm nunca afirmando explicitamente que a beleza das belas-artes ou de algumas dessas artes livre, ele indicia-o em vrias passagens. F-lo por diversas vezes no 51. Em primeiro lugar, Kant afirma que, na escultura, o objectivo principal a simples expresso de ideias estticas (ist der bloe Ausdruck sthetischer Ideen die Hauptabsicht) (Kant, 1998: 228-229) e que uma simples obra de figurao () feita apenas para ser olhada e deve aprazer por si prpria (ein bloes Bildwerk () lediglich zum Anschauen gemacht ist und fr sich selbst gefallen soll) (Kant, 1998: 229)221. Seguidamente, o nosso autor nota que a jardinagem no tem como condio da sua composio nenhum conceito do objecto e do seu fim (como talvez a arquitectura) (keinen Begriff von dem Gegenstande und seinem Zwecke (wie etwa die Baukunst) zur Bedingung ihrer Zusammenstellung hat), mas, sim, como j assinalmos, simplesmente o jogo livre da faculdade da imaginao na contemplao (blo das freie Spiel der Einbildungskraft in der 221 Kant afirma-o por oposio quilo que afirma relativamente arquitectura, bela-arte na qual o principal um certo uso do objecto artstico a cuja condio as ideias estticas so limitadas (ist ein gewisser Gebrauch des knstlichen Gegenstandes die Hauptsache, worauf als Bedingung die sthetischen Ideen eingeschrnkt werden) (Kant, 1998: 228). Segundo o nosso autor, a conformidade do produto a um certo uso constitui o essencial de uma obra de construo (die Angemessenheit des Produkts zu einem gewissen Gebrauche das Wesentliche eines Bauwerks ausmacht) (Kant, 1998: 229).

  • SE E COMO PODER UMA OBRA DE ARTE SER BELA

    214 CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana

    Beschauung) (Kant, 1998: 269). Finalmente, Kant indica que a pintura dada somente para o olho (nur fr das Auge gegeben) (Kant, 1998: 229) ou, como tambm j vimos, que ela est a simplesmente para ser vista, para entreter a faculdade da imaginao no jogo livre com ideias e ocupar a faculdade do juzo esttica sem um fim determinado (blo zum Ansehen da ist, um die Einbildungskraft im freien Spiele mit Ideen zu

    unterhalten und ohne bestimmten Zweck die sthetische Urteilskraft zu

    beschftigen) (Kant, 1998: 230). Entretanto, no 53, o nosso autor volta a indiciar que a beleza das belas-artes uma beleza livre f-lo ao identificar a pintura como arte do desenho (Zeichnungskunst) (Kant, 1998: 237). Alm disso, pelo menos uma das belas-artes abordadas por Kant nos 51 e 53 corresponde a uma forma de arte mencionada no 16: a msica.222 Dados estes indcios, assim como a passagem, do 16, segundo a qual objectos artsticos de certos tipos so belezas livres, a questo que se coloca a de saber o que permite ou impede ajuizar como livremente belos, atravs, portanto, de puros juzos de gosto, objectos artsticos de certos tipos, e no objectos artsticos de outros tipos.

    Para responder a essa questo, recorreremos novamente a Allison.223 No interior do sentido exemplificativo da noo de representao, Allison

    222 Devemos admitir, porm, que, no 53, as referncias feitas msica do a entender que Kant est a abordar msica com tema, no a msica sem tema ou a msica sem texto, mencionadas no 16. 223 A proposta de Schaper no minimamente satisfatria. A comentadora limita-se a aceitar que [m]esmo os papis de parede tm uma funo a de cobrirem as nossas paredes prazenteiramente e apropriadamente e que essa funo no tem lugar na nossa avaliao deles como livremente belos (Schaper, 2003: 110), isto , que os padres dos papis de parede tm um propsito ou uma funo como papis de parede, mas sem que esses fins sejam relevantes para a avaliao (Schaper, 2003: 111). Nesse caso, segundo Schaper, [a]valiar como livremente belo um objecto feito pelo homem seria, como no caso dos objectos naturais, avali-lo sem considerao do conceito de um fim sob o qual ele pode ou pode no se encontrar, e consequentemente como nada representando (Schaper, 2003: 111). No entanto, tal no pode ser aceite se considerarmos a passagem, do 48, de acordo com a qual no juzo atravs do qual se declara bela uma obra de arte tm de ser tidos em conta um conceito daquilo que o objecto deva ser e a perfeio da obra de arte segundo esse conceito. Ora, como j referimos, Schaper no relaciona a sua anlise da distino

  • BELA ARTE

    CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana 215

    estabelece uma distino entre propsitos e constrangimentos estticos, por um lado, e propsitos e constrangimentos extra-estticos, por outro (cf. Allison, 2001: 296). precisamente luz desta distino que ele considera dever ser lida a distino estabelecida por Kant entre beleza livre e beleza aderente. O que est em causa na beleza aderente , segundo Allison, um propsito extra-esttico que a obra [] suposta servir, propsito que, ainda segundo o comentador, impe constrangimentos extra-estticos quanto ao que apropriado (Allison, 2001: 296).

    Observe-se a seguinte passagem, do 16:

    Poder-se-ia colocar num edifcio muita coisa de aprazvel imediatamente na intuio, desde que no se tratasse de uma igreja: poder-se-ia embelezar uma figura com toda a sorte de floreados e com linhas leves porm regulares, assim como o fazem os neozelandezes com a sua tatuagem, desde que no se tratasse de um homem; e este poderia ter traos muito mais finos e uma fisionomia com um perfil mais aprazvel e suave, desde que no devesse representar um homem ou mesmo um guerreiro (Man wrde vieles unmittelbar in der Anschauung Gefallende an einem Gebude anbringen knnen, wenn es nur nicht eine Kirche sein

    sollte; eine Gestalt mit allerlei Schnrkeln und leichten, doch

    regelmigen Zgen, wie die Neuseelnder mit ihrem Tettowiren tun,

    verschnern knnen, wenn es nur nicht ein Mensch wre; und dieser

    knnte viel seinere Zge und einen geflligeren, sanftern Umri der

    Gesichtsbildung haben, wenn er nur nicht eine Mann, oder gar einen

    kriegerischen vorstellen sollte) (Kant, 1998: 121).

    Nesta passagem, representar pode ser interpretado no sentido exemplificativo. Se o que est em causa representar um homem, ou um guerreiro, se o que est em causa fornecer um exemplar do conceito homem, ou do conceito guerreiro, a figura, de acordo com as palavras de Kant, no pode ser embelezada com toda a sorte de floreados e com linhas leves e regulares, nem pode ter traos muito mais finos e uma fisionomia com um perfil mais aprazvel e suave. Neste contexto, a representao bela de um homem ou de um guerreiro envolve necessariamente a considerao

    entre beleza livre e beleza aderente nem sequer o seu estudo acerca do uso feito por Kant da noo de representao com o que est escrito no 48 da Crtica da Faculdade do Juzo.

  • SE E COMO PODER UMA OBRA DE ARTE SER BELA

    216 CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana

    de um conceito daquilo que um homem ou um guerreiro deva ser e a perfeio da representao segundo esse conceito. Os constrangimentos inerentes a essa considerao so, segundo Allison, constrangimentos extra-estticos. Por essa razo, o juzo atravs do qual se declara belo o objecto artstico em causa um juzo de gosto aplicado e a beleza desse objecto s pode ser uma beleza aderente. Diferentemente, a forma de arte, ainda de acordo com o que afirmado pelo comentador, impe constrangimentos quanto ao que apropriado; mas estes j no so extra-estticos (Allison, 2001: 296).

    Pois bem, no entender de Allison, o que Kant pretende com a distino entre beleza livre e beleza aderente, estabelecida no 16, precisamente distinguir entre juzos estticos que consideram constrangimentos estticos e juzos estticos que consideram constrangimentos extra-estticos (cf. Allison, 2001: 298). Se lermos a distino estabelecida por Kant luz da distino proposta por Allison, ento colocaremos, de um lado, o juzo atravs do qual se declara belo um objecto, natural, independentemente de um conceito daquilo que esse objecto deva ser e, por conseguinte, da perfeio desse objecto independentemente, portanto, de qualquer propsito ou constrangimento, esttico ou extra-esttico e o juzo atravs do qual se declara belo um objecto, artstico, considerando um conceito daquilo que esse objecto deva ser e a perfeio desse objecto segundo um tal conceito correspondendo esse conceito ao tipo de obra, isto , ao propsito esttico, e correspondendo a perfeio satisfao de tudo aquilo a que esse tipo de obra obriga, isto , satisfao dos constrangimentos estticos derivados do referido propsito esttico e, de outro lado, o juzo atravs do qual se declara belo um objecto tendo em conta um conceito daquilo que esse objecto deva ser e a perfeio desse objecto neste caso, correspondendo o conceito daquilo que o objecto deva ser a um propsito extra-esttico e correspondendo a perfeio satisfao dos constrangimentos extra-estticos derivados do referido propsito extra-esttico. Mais simplesmente, dividiremos os juzos de gosto da seguinte maneira: do lado do puro juzo de gosto, os juzos de gosto que no consideram qualquer conceito daquilo que o objecto deva

  • BELA ARTE

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    ser, que s podem referir-se a objectos naturais, e os que consideram um conceito daquilo que o objecto deva ser enquanto propsito esttico, que s podem referir-se a obras de arte; do lado do juzo de gosto aplicado, os juzos que consideram um propsito no esttico. A distino entre puro juzo de gosto e juzo de gosto aplicado, ou, equivalentemente, a distino entre beleza livre e beleza aderente, corresponder a uma distino entre, por um lado, juzos/belezas nos/nas quais no se considera um conceito daquilo que o objecto deva ser ou nos quais apenas se considera um conceito daquilo que esse objecto deva ser, enquanto propsito esttico, e a sua perfeio, enquanto satisfao dos constrangimentos estticos derivados do referido propsito esttico; e, por outro lado, juzos/belezas nos/nas quais se considera um conceito daquilo que o objecto deva ser, enquanto propsito no esttico, e a sua perfeio, enquanto satisfao dos constrangimentos no estticos derivados do referido propsito no esttico.

    De acordo com a proposta interpretativa lanada por Allison, o conhecimento daquilo que uma obra de arte deva ser, um tal conhecimento, por si s, no torna aplicado o juzo atravs do qual se declara bela essa obra de arte. A necessidade de uma obra de arte satisfazer um propsito esttico, precisamente para que seja declarada bela, no faz da sua beleza uma beleza aderente.224 Quando se trata de satisfazer aquilo a que a forma, o gnero, o tipo de obra obriga, o prazer ou desprazer sentidos por ocasio da representao do objecto

    224 Esta a vertente mais ambiciosa da proposta em causa. Tambm importante perceber que, no segundo sentido exemplificativo de representao, a saber, o que comporta apenas propsitos e constrangimentos estticos, apenas as obras de arte representam algo: esse sentido aplicvel a todas as obras de bela arte, mas no s belezas naturais (Allison, 2001: 296). Tal importante porque preserva a distino entre beleza da natureza e beleza da arte. Recorde-se que, enquanto expressando ideias estticas, qualquer objecto belo natural ou artstico, portanto representativo. Ora, se entendermos representao como exemplificao de algo submetida a propsitos e constrangimentos meramente estticos, mesmo um desenho la grecque representativo neste sentido (h algo que o artista tem de ser visto como tentando fazer), enquanto um belo pr-do-sol no o (Allison, 2001: 296).

  • SE E COMO PODER UMA OBRA DE ARTE SER BELA

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    dependente de um conceito daquilo que esse objecto deva ser e da conformidade objectiva interna do ltimo ao referido conceito. Aquilo que est em causa neste contexto a perfeio do objecto. A considerao dessa perfeio, porm, no s no coloca em causa o proferimento de um juzo de gosto e a declarao do objecto como belo, como nem sequer coloca em causa o proferimento de um puro juzo de gosto e a livre declarao do objecto como belo. Assim sendo, o juzo atravs do qual se declara bela uma obra de arte pode ser um puro juzo de gosto, uma obra de arte pode ser ajuizada atravs de um puro juzo de gosto, uma obra de arte pode ser livremente declarada bela, pode falar-se de bela arte enquanto arte que livremente declarada bela, enquanto arte declarada bela atravs de um puro juzo de gosto. Algumas obras de arte so belezas livres.

    4.3. Gostos

    Sem prejuzo dos seus mritos, a proposta de Allison carece de uma explicao relativa aos critrios segundo os quais propsitos e constrangimentos podem ser divididos em estticos e extra-estticos. Devemos recordar, antes de mais, que, na Crtica da Faculdade do Juzo, esttico (sthetisch) aquilo cujo fundamento de determinao no pode ser seno subjectivo (dasjenige, dessen Bestimmungsgrund nicht anders als subjektiv sein kann) (Kant, 1998: 89). Por conseguinte, para algo ser designado esttico tem de ter como fundamento de determinao o sentimento de prazer ou desprazer ligados sua representao. O que so propsitos e constrangimentos estticos? Por que que o so? Por que que tais propsitos e constrangimentos permitem que o juzo seja um puro juzo de gosto? A explicao supracitada indispensvel, pois, no interior da tese de Allison, a partir da distino entre propsitos e constrangimentos estticos, por um lado, e propsitos e constrangimentos extra-estticos, por outro, que o juzo atravs do qual se declara bela uma obra de arte considera um conceito daquilo que essa obra de arte deva ser, tem em conta a perfeio do objecto e, ainda assim, pode no deixar de ser um puro juzo de gosto.

  • BELA ARTE

    CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana 219

    Segundo Allison, os constrangimentos estticos, associados a um tipo, um gnero ou uma forma de arte, podem ser vistos como envolvendo as normas acadmicas ou os padres de medida da correco para essa forma (Allison, 2001: 296). Um dos pargrafos da Crtica da Faculdade do Juzo para o qual esta identificao pode remeter o 17, concernente ao ideal da beleza. Concretamente, ela pode remeter para a noo de ideia normal esttica (sthetische Normalidee). A ideia normal esttica , como tivemos oportunidade de assinalar, na subseco Ideia esttica, uma intuio singular (da faculdade da imaginao), que representa o padro de medida do [julgamento de uma coisa] como de uma coisa pertencente a uma espcie (eine einzelne Aufschauung (der Einbildungskraft), die das Richtma seiner Beurteilung, als eines zu einer besonderen Tierspezies

    gehrigen Dinges) (Kant, 1998: 124). Ainda de acordo com as palavras de Kant, ela a regra [die Regel], somente a forma, que constitui a condio imprescindvel de toda a beleza, por conseguinte simplesmente a correco na exposio da espcie (nur die Form, welche die unnachlaliche Bedingung aller Schnheit ausmacht, mithin blo die

    Richtigkeit in Darstellung der Gattung) (Kant, 1998: 126). Como tal, a ideia normal esttica no pode conter nada especificamente caracterstico; pois de contrrio no seria ideia normal para a espcie (kann nichts Spezifisch-Charakteristisches enthalten; denn sonst wre sie nicht Normalidee fr die Gattung) (Kant, 1998: 126). Assim, tal como admite o nosso autor, [a] sua apresentao to pouco apraz pela beleza, mas simplesmente porque no contradiz nenhuma condio, sob a qual unicamente uma coisa desta espcie pode ser bela ([i]hre Darstellung gefllt auch nicht durch Schnheit, sondern blo weil sie keiner

    Bedingung, unter welcher allein ein Ding dieser Gattung schn sein kann,

    widerspricht) (Kant, 1998: 126-127). Na ideia normal esttica, [a] apresentao apenas academicamente correcta ([d]ie Darstellung ist blo schulgerecht) (Kant, 1998: 127). Por contraste com a ideia da razo, podemos afirmar, ento, que a ideia normal esttica permite apenas um comprazimento negativo na correco acadmica da apresentao (cf. Kant, 1998: 127). Poder ser na ideia normal esttica de cada tipo, gnero

  • SE E COMO PODER UMA OBRA DE ARTE SER BELA

    220 CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana

    ou forma de arte, por conseguinte, que residem os constrangimentos estticos impostos pelo propsito, esttico, inerente a uma obra de arte que se pretende que seja de um tipo, gnero ou forma particular.

    Ainda que tambm possam remeter para a noo de ideia normal esttica, os constrangimentos estticos referidos por Allison remetem certamente para a componente mecnica, coerciva e escolstica inerente a qualquer arte mesmo s artes livres e, portanto, bela arte qual Kant faz referncia explcita nos 43, 45, 47 e 49. Na seco Juzo atravs do qual se declara artstico um objecto, tivemos oportunidade de citar algumas das menes feitas por Kant a essa componente. Assim, no 43, criticando aqueles mais recentes pedagogos (neuere Erzieher) que crem promover da melhor maneira uma arte livre quando eliminam dela toda a coero e a convertem de trabalho em simples jogo (eine freie Kunst am besten zu befrdern glauben, wenn sie allen Zwang von ihr

    wegnehmen und sie aus Arbeit in bloes Spiel verwandeln) (Kant, 1998: 208), Kant lembra que

    em todas as artes livres se requer todavia algo coercivo ou, como se diz, um mecanismo, sem o qual o esprito, que na obra tem de ser livre e o qual unicamente vivifica a obra, no teria absolutamente nenhum corpo e volatilizar-se-ia integralmente (in allen freien Knsten dennoch etwas Zwangsmiges, oder, wie man es nennt, ein Mechanismus erforderlich sei, ohne welchen der Geist, der in der Kunst frei sein muss und allein das Werk belebt, gar keinen Krper haben und gnzlich verdunsten

    wrde) (Kant, 1998: 208).

    No 45, o nosso autor menciona a forma escolstica (die Schulform) que uma bela obra de arte no pode deixar que transparea (durchblickt) (Kant, 1998: 211). No 47, Kant refora que no h nenhuma arte bela na qual algo mecnico, que pode ser captado e seguido segundo regras, e portanto algo escolstico, no constitua a condio essencial da arte (gibt es keine schne Kunst, in welcher nicht etwas Mechanisches, welches

    nach Regeln gefat und befolgt werden kann, und also etwas

    Schulgerechtes die wesentliche Bedingung der Kunst ausmachte) e aproveita para criticar aquelas pessoas superficiais (seichte Kpfe) que crem que no poderiam mostrar melhor que seriam gnios florescentes

  • BELA ARTE

    CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana 221

    do que quando renunciam coero escolar de todas as regras e acreditam que se desfile melhor sobre um cavalo desvairado do que sobre um cavalo treinado (glauben, dass sie nicht besser zeigen knnen, sie wren aufblhende Genies, als wenn sie sich vom Schulzwange aller Regeln

    losfagen, und glauben, man paradiere besser auf einem kollerichten

    Pferde, als auf einem Schulpferde) (Kant, 1998: 215).225 Finalmente, no 49, Kant nota que no produto de um gnio h algo atribuvel ao possvel aprendizado ou escola (der mglichen Erlernung oder der Schule) (Kant, 1998: 224).

    Igualmente de assinalar, ainda a propsito da componente mecnica, coerciva e escolstica da bela arte, so os exemplos que o nosso autor fornece dos constrangimentos mecnicos, coercivos e escolsticos derivados dos diferentes tipos, gneros ou formas de arte a que se pretende que uma obra particular pertena. No caso da poesia, por exemplo, Kant cita, no 43, a correco e a riqueza da linguagem, igualmente a prosdia e a mtrica (die Sprachrichtigkeit und der Sprachreichtum, imgleichen die Prosodie und das Silbenma) (Kant, 1998: 208); relativamente arte de falar bem (Wohlredenheit) e arte do som (Tonkunst), ele menciona,

    225 Nesse contexto, o nosso autor acrescenta que aquele que fala e decide como um gnio at em assuntos da mais cuidadosa investigao da razo, ento torna-se completamente ridculo (sogar in Sachen der sorgfltigsten Vernunftuntersuchung wie ein Genie spricht und entscheidet, so ist es vollends lcherlich) (Kant, 1998: 215). Quando assim , diz Kant que no se sabe bem se se deve rir mais do impostor que difunde tanto fumo em torno de si e em que no se pode ajuizar nada claramente, mas muito mais se imagina, ou se se deve rir mais do pblico, que candidamente imagina que a sua incapacidade de reconhecer e captar claramente a obra-prima da perspicincia provm de que verdades novas lhe so lanadas s mos cheias e contra o que a mincia (atravs de explicaes pontuais e exame sistemtico dos princpios) lhe parece ser somente obra de ignorante (man wei nicht recht, ob man mehr ber den Gaukler, der um sich so viel Dunst verbreitet, wobei man nichts deutlich

    beurteilen, aber desto mehr sich einbilden kann, oder mehr ber das Publicum lachen soll, welches sich treuherzig einbildet, dass sein Unvermgen, das Meisterstck der

    Einsicht deutlich erkennen und fassen zu knnen, daher komme, weil ihm neue Wahrheiten in ganzen Massen zugeworfen werden, wogegen ihm das Detail (durch

    abgemessene Erklrungen und schulgerechte Prfung der Grundstze) nur

    Stmperwerk zu sein scheint) (Kant, 1998: 215).

  • SE E COMO PODER UMA OBRA DE ARTE SER BELA

    222 CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana

    no 53, respectivamente as regras de eufonia da lngua ou da convenincia da expresso para ideias da razo (Regeln des Wohllauts der Sprache, oder der Wohlanstntigkeit des Ausdrucks fr Ideen der

    Vernunft) (Kant, 1998: 234) e a harmonia (Harmonie), a melodia (Melodie) e a forma matemtica (mathematischen Form) a elas ligada (Kant, 1998: 235); finalmente, no 54, Kant indica que o objecto da bela arte seja ele do tipo, gnero ou forma que for requer uma certa seriedade na apresentao (ein gewissen Ernst in der Darstellung erfordert) (Kant, 1998: 243).

    O mais interessante a notar, porm, a associao que Kant estabelece entre os referidos constrangimentos e, portanto, entre a componente mecnica, coerciva e escolstica da bela arte e o gosto. Os critrios enunciados no incio do 49 a saber, a graciosidade e a elegncia de uma poesia, a preciso e o ordenamento de uma histria, a profundidade e o requinte de um discurso festivo, a dotao de entretenimento de uma conversao ou a boniteza, a comunicatividade e a correco de uma mulher so concernentes ao gosto. Acerca dos produtos que os satisfazem, Kant afirma que no que concerne ao gosto no se [encontra] neles nada censurvel (man an ihnen, was den Geschmack betrifft, nicht zu tadeln findet) (Kant, 1998: 218). Assim, se, na produo de uma obra de arte, apenas os mencionados constrangimentos forem satisfeitos, essa obra, embora possa ser um produto pertencente arte til e mecnica ou at mesmo cincia segundo determinadas regras que podem ser apreendidas e tm que ser rigorosamente seguidas (ein zur ntzlichen und mechanischen Kunst, oder gar zur Wissenschaft gehriges Produkt nach

    bestimmten Regeln sein, die gelernt werden knnen und genau befolgt

    werden mssen), como salvaguardado pelo nosso autor, na parte final do 48, nem por isso uma obra de arte bela (ist darum eben nicht ein Werk der schnen Kunst) (Kant, 1998: 218).

    O alicerce da mencionada associao reside numa tese que surge no 47 e que tem a sua concretizao no 48. J citmos algumas das passagens que em seguida citaremos. No 47, Kant assinala o seguinte: O gnio pode somente fornecer uma matria rica para produtos da arte

  • BELA ARTE

    CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana 223

    bela; a elaborao da mesma e a forma requerem um talento moldado pela escola, para fazer dele uso que possa ser justificado perante a faculdade do juzo ([d]as Genie kann nur reichen Stoff zu Produkten der schnen Kunst hergeben; die Verarbeitung desselben und die Form erfordert ein durch die Schule gebildetes Talent, um einen Gebrauch davon zu machen,

    der vor der Urteilskraft bestehen kann) (Kant, 1998: 215). Que esse talento o gosto, confirmamo-lo no pargrafo seguinte, como j mostrmos. A, depois de estabelecer uma distino entre beleza da natureza e beleza da arte, chamando beleza da arte uma representao bela de uma coisa (eine schne Vorstellung von einem Dinge) (Kant, 1998: 216), Kant afirma que a representao bela de um objecto (schnen Vorstellung eines Gegenstandes) apenas a forma da apresentao de um conceito, pela qual este comunicado universalmente (die Form der Darstellung eines Begriffs, durch welche dieser allgemein mitgeteilt

    wird), acrescentando, logo a seguir, que para dar esta forma ao produto da bela arte requer-se simplesmente gosto ([d]iese Form dem Produkte der schnen Kunst zu geben, dazu wird blo Geschmack erfordert) (Kant, 1998: 217). Entretanto, ainda no 48, o nosso autor ressalva que a forma citada somente o veculo da comunicao e uma maneira por assim dizer da exposio, com respeito qual em certa medida ainda se permanece livre, embora ela de resto esteja comprometida com um determinado fim (ist nur das Vehikel der Mitteilung und eine Manier gleichsam des Vortrages, in Ansehung dessen man noch in gewissen Mae

    frei bleibt, wenn er doch brigens an einen bestimmten Zweck gebunden

    ist) (Kant, 1998: 218). Por isso que a forma encontrada pelo artista tornada adequada ao pensamento, sem todavia prejudicar a liberdade no jogo daquelas faculdades (dem Gedanken angemessen und doch der Freiheit im Spiele derselben nicht nachteilig werden zu lassen) (Kant, 1998: 218). Assim, a partir de uma distino entre gnio e gosto, surgida no 47 e concretizada no 48, se pode perceber, numa obra que deve ser de arte bela, frequentemente um gnio sem gosto, e numa outra um gosto sem gnio (kann man an einem seinsollenden Werke der schnen Kunst oftmals Genie ohne Geschmack, an einem andern Geschmack ohne Genie

  • SE E COMO PODER UMA OBRA DE ARTE SER BELA

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    wahrnehmen) (Kant, 1998: 218). A distino enunciada , de resto, reforada no 50. A, ao mesmo tempo que coloca o gnio do lado da riqueza de esprito enquanto liberdade da faculdade da imaginao para produzir disparates atravs do fornecimento de ideias estticas originais, Kant liga o gosto faculdade do juzo enquanto faculdade de ajustamento da liberdade, riqueza e originalidade da faculdade da imaginao legalidade do entendimento (cf. Kant, 1998: 225-226).

    Associar a componente mecnica, coerciva e escolstica da bela arte ao gosto , necessariamente, associ-la beleza. Assim, ainda no 50, Kant indica que unicamente em relao ao gosto [uma arte] merece ser chamada uma bela arte (eine Kunst in Ansehung des zweiten allein eine schne Kunst genannt zu werden verdient) e que o gosto , pelo menos, enquanto condio indispensvel (conditio sine qua non), o mais importante que se tem de considerar no julgamento da arte como bela arte (ist wenigstens als unumgngliche Bedingung (conditio sine qua non) das Vornehmste, worauf man in Beurteilung der Kunst als schne Kunst zu sehen hat) (Kant, 1998: 225). Tal reforado no 53. No contexto das suas referncias msica, o nosso autor sugere ser a forma matemtica o elemento ao qual se prende o comprazimento que a simples reflexo acerca de um to grande nmero de sensaes que se acompanham ou sucedem umas s outras conecta com este jogo das mesmas como condio da sua beleza (hngt das Wohlgefallen, welches die bloe Reflexion ber eine solche Menge einander begleitender oder

    folgender Empfindungen mit diesem Spiele derselben als Bedingung

    seiner Schnheit verknpft) (Kant, 1998: 235).226 Entretanto, no ltimo pargrafo da Crtica da Faculdade de Juzo Esttica (60) Kant sublinha que em cada arte o cientfico, que se refere verdade na apresentao de seu objecto, com efeito a condio indispensvel (conditio sine qua non) da bela arte (was das Wissenschaftliche in jeder Kunst anlangt, welches auf Wahrheit in der Darstellung ihres Objekts geht, so ist deses zwar die unumgngliche Bedingung (conditio sine qua

    226 A matemtica ser, neste contexto, a condio indispensvel da beleza.

  • BELA ARTE

    CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana 225

    non) der schnen Kunst) (Kant, 1998: 264). Todas estas passagens exprimem uma associao da componente mecnica, coerciva e escolstica da arte beleza. De resto, elas so concordantes com a designao que Kant d, no 48, da forma da apresentao de um conceito, pela qual este comunicado universalmente (Form der Darstellung eines Begriffs, durch welche dieser allgemein mitgeteilt

    wird), forma que dissemos requerer apenas gosto. Nas palavras de Kant, ela a forma da arte bela (Form der schnen Kunst) (Kant, 1998: 218).

    Tendo em conta a maneira como inicimos a nossa tese, a saber, salientando que a faculdade atravs da qual se ajuza o belo o gosto e que os juzos provenientes do gosto so juzos estticos, afirmaramos, agora, que, estando associada ao gosto e beleza, a componente mecnica, coerciva e escolstica da bela arte geradora de constrangimentos meramente estticos. Por serem concernentes ao gosto, beleza, os constrangimentos derivados do tipo, gnero ou forma de obra de arte que uma obra de arte particular suposto ser podem chamar-se estticos. Uma tal afirmao pode ser proferida. No entanto, ela tem de envolver uma salvaguarda.

    Considerando aquilo que mostrmos na seco Juzo atravs do qual se declara artstico um objecto, torna-se claro que, antes de associar a componente mecnica, coerciva e escolstica da bela arte ao gosto e beleza algo que faz a partir do 48 Kant associa-a ao lado artstico da bela arte. No 43, Kant lembra que nas artes livres e, portanto, na bela arte todavia (dennoch) se requer uma componente coerciva, mecnica (cf. Kant, 1998: 208). De acordo com o 47, essa componente mecnica, escolstica, condio essencial no da vertente bela da beleza da arte, no da beleza da bela arte, mas da sua vertente artstica, da sua arte (Kunst) (cf. Kant, 1998: 215). para designar-se artstico (knstlich), segundo as palavras do 46, e no para designar-se belo, que um objecto pressupe regras (cf. Kant, 1998: 211). Assim, a questo que importa colocar a de saber que gosto e que beleza so esses, associados por Kant ao lado artstico da bela arte, que gosto e que beleza so esses, apresentados pelo nosso autor como determinando toda uma componente mecnica, coerciva

  • SE E COMO PODER UMA OBRA DE ARTE SER BELA

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    e escolstica, que gosto e que beleza so esses, ligados a regras determinadas, ao entendimento, cincia.227

    No pode tratar-se do gosto (Geschmack) que a Crtica da Faculdade do Juzo critica e que pode ser aprimorado e consolidado pela crtica.228 Esse gosto, aprimorvel e consolidvel, eventualmente aprimorado e consolidado com a terceira Crtica, unicamente uma faculdade de juzo, esttica; o seu juzo baseia-se no em regras determinadas, mas num sentimento de prazer no movimento recproco simultaneamente livre e harmnico das faculdades de conhecimento daquele que ajuza por ocasio da representao que ele faz de um objecto, na medida em que esse movimento formalmente conforme a fins. Tambm no pode tratar-se do gosto (Geschmack) de cada um, enquanto faculdade de juzo esttica de um indivduo, isto , enquanto instncia, num indivduo, da faculdade de juzo criticada no texto de Kant. Se a faculdade de juzo de um

    227 Zammito apercebe-se da dificuldade em causa. Em primeiro lugar, ele assinala o seguinte: Esprito e vida, na ordem das coisas kantiana normal, deveriam condizer com forma. Mecanismo e corpo deveriam, na ordem das coisas kantiana normal, condizer com matria. Mas mecanismo tem sido associado com gosto, e gosto com forma, enquanto gnio tem sido associado com matria. No entanto, esprito e vida claramente caem para o lado do gnio (Zammito, 1992: 144-145). Depois, afirma que tomando o gosto isoladamente apenas pode produzir-se um produto mecnico, academicamente correcto, mas sem vida (Zammito, 1992: 145). Entretanto, em nota de rodap, Zammito acrescenta que isso que tem apenas gosto, mas nenhum vestgio de gnio, , certamente, na medida em que se conforma a regras, correcto e, Kant parece mesmo sugerir, belo (Zammito, 1992: 381). De facto, isso que uma parte significativa da Crtica da Faculdade do Juzo nos leva a concluir. O problema que, mais preocupado com a consistncia da descrio kantiana do gnio e do gosto, o intrprete no pensa qualquer consequncia da associao da beleza ao carcter coercivo, mecnico e escolstico da arte. 228 Na Primeira Introduo Crtica da Faculdade do Juzo, imediatamente antes de mencionar a perspectiva surpreendente (auffallende Aussicht) e muito promissora, em um sistema completo de todos os poderes-da-mente (viel verheiende in ein vollstndiges System aller Gemtskrfte) que uma tal crtica abre, ao preencher uma lacuna no sistema de nossas faculdades-de-conhecimento (erffnet, dadurch, dass sie eine Lcke im System unserer Erkenntnisvermgen ausfllt), Kant refere-a como usada para o aprimoramento ou consolidao do prprio gosto (zur Verbesserung oder Befestigung des Geschmacks selbst gebraucht wird) (Kant, 1995: 83).

  • BELA ARTE

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    indivduo for por ele exercida esteticamente, ento o seu fundamento de determinao o fundamento de determinao da faculdade de juzo esttica, no, portanto, uma regra determinada. Por excluso de partes, s pode tratar-se do gosto (Geschmack) referido na parte final do Prlogo primeira edio da Crtica da Faculdade do Juzo. Afirma Kant, a, que

    a investigao da faculdade do gosto, enquanto faculdade de juzo esttica, no aqui empreendida para a formao e cultura do gosto (pois esta seguir como at agora o seu caminho, mesmo sem todas aquelas perquisies), mas simplesmente com um propsito transcendental (die Untersuchung des Geschmacksvermgens, als sthetischer Urteilskraft,

    hier nicht zur Bildung und Kultur des Geschmacks (denn diese wird auch

    ohne alle solche Nachforschungen, wie bisher, so hernerhin, ihren Gang

    nehmen), sondern blo in transzendentaler Absicht angestellt wird) (Kant, 1998: 48).

    Trata-se desse gosto (Geschmack) cuja formao e cultura independente de uma crtica do gosto enquanto crtica da faculdade de juzo esttica, independente, por conseguinte, daquilo que se faz na Crtica da Faculdade do Juzo. Essa formao e cultura seguem um caminho prprio porque, independentemente da legitimao de uma faculdade de juzo esttica, tm vindo a constituir um corpus. Um tal corpus tem como contedo objectos artsticos que satisfazem os constrangimentos gerados pela componente mecnica, coerciva e escolstica da bela arte, isto , objectos que cumprem regras determinadas pela forma de arte que representam.229 Esses objectos artsticos so mencionados naquelas cincias histricas s quais tambm se chama, habitual mas equivocadamente, cincias belas (schne Wissenschaften). Compreendemo-lo atravs da explicao que, no 44, Kant d dessa designao:

    O que ocasionou a expresso habitual cincias belas no foi sem dvida outra coisa que o ter-se observado bem correctamente que para a bela arte em sua inteira perfeio se requer muita cincia, como por exemplo o conhecimento de lnguas antigas, conhecimento literrio de autores que so considerados clssicos, histria, conhecimento das antiguidades,

    229 J citmos algumas dessas regras: por exemplo na poesia a correco e a riqueza da linguagem, igualmente a prosdia e a mtrica (Kant, 1998: 208).

  • SE E COMO PODER UMA OBRA DE ARTE SER BELA

    228 CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana

    etc., e por isso estas cincias histricas, pelo facto de constiturem a preparao necessria e a base para a bela arte, em parte tambm porque nesse conceito foi compreendido mesmo o conhecimento dos produtos da mesma (oratria e poesia), por um equvoco terminolgico foram mesmo chamadas cincias belas (Was den gewhnlichen Ausdruck schne Wissenschaften veranlat hat, ist ohne Zweifel nichts anders, als dass man ganz richtig bemerkt hat, es werde zur schnen Kunst in ihrer

    ganzen Vollkommenheit viel Wissenschaft, als z. B. Kenntnis alter

    Sprachen, Belesenheit der Autoren, die fr Klassiker gelten, Geschichte,

    Kenntnis der Altertmer usw., erfordert, und deshalb diese historischen

    Wissenschaften, weil sie zur schnen Kunst die notwendige Vorbereitung

    und Grundlage ausmachen, zum Teil auch weil darunter selbst die

    Kenntnis der Produkte der schnen Kunst (Beredsamkeit und

    Dichtkunst) begriffen worden, durch eine Wortverwechselung selbst

    schne Wissenschaften genannt hat) (Kant, 1998: 208-209).

    Independentemente do contra-senso (Unding) que a designao implica, as chamadas cincias belas contm referncias a produtos da bela arte, isto , a obras de arte que cumprem regras ligadas componente mecnica, coerciva e escolstica da bela arte.230 nessas cincias histricas que so referidos os modelos da bela arte (Muster der schnen Kunst), acerca dos quais Kant diz serem os nicos meios de orientao para conduzir a arte posteridade (die einzigen Leitungsmittel, diese auf die Nachkommenschaft zu bringen) (Kant, 1998: 214). Numa nota a uma passagem do 17, Kant chamava-lhes [m]odelos do gosto (Muster des Geschmacks) (Kant, 1998: 267). As habitual mas equivocadamente chamadas cincias belas plasmam aquele corpus no qual o gosto tem vindo a constituir-se independentemente da legitimao de uma faculdade de juzo esttica.

    Assim, embora os constrangimentos gerados pela componente mecnica, coerciva e escolstica da bela arte sejam constrangimentos aos quais pode chamar-se estticos, precisamente porque ligados ao gosto, essa designao baseia-se num uso indistinto da noo de gosto em sentidos diferentes. Para ser livremente declarada bela, isto , para ser

    230 tambm enquanto tal que essas cincias so to importantes para a bela arte como, na passagem citada, Kant afirma que elas so.

  • BELA ARTE

    CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana 229

    declarada bela atravs de um puro juzo de gosto, uma obra de arte tem de satisfazer constrangimentos ligados ao gosto.231 Mas o gosto a que tais constrangimentos esto associados no corresponde ao gosto enquanto faculdade de juzo esttica.

    Ainda assim, devemos notar ser o prprio Kant quem usa indistintamente a palavra gosto. Esse facto, por si s, possibilita que a beleza de alguma arte seja uma beleza livre, uma beleza declarada atravs de puros juzos de gosto. Talvez seja essa a razo pela qual, na Crtica da Faculdade do Juzo, nunca colocada pelo menos explicitamente a questo de saber se pode falar-se de bela arte enquanto arte livremente declarada bela, isto , enquanto arte declarada bela atravs de puros juzos de gosto.232 No entanto, pertinente ressalvar que aceit-lo significa resolver atravs de uma coincidncia meramente terminolgica uma questo cuja dificuldade assenta nas exigncias estabelecidas pelo gosto enquanto faculdade de juzo esttica.

    ***

    Consideramos ter respondido de maneira suficientemente fundamentada questo de saber se e como pode falar-se de beleza artstica no contexto da Crtica da Faculdade do Juzo, se e sob que condies legtimo usar-se essa expresso no mbito da terceira Crtica de Kant. Est legitimada a noo de bela arte.

    Para o fazermos, fomos obrigados a partir da sua definio como arte do gnio, da explicitao da noo de ideia esttica e da denominao da beleza como expresso de ideias estticas. Essa opo permitiu-nos

    231 No constituindo uma condio suficiente para tal, essa condio , ainda assim, uma condio necessria. 232 De resto, de modo explcito, Kant no coloca sequer a questo de saber se pode falar-se de bela arte enquanto arte condicionadamente declarada bela, enquanto arte declarada bela atravs de juzos de gosto aplicados.

  • SE E COMO PODER UMA OBRA DE ARTE SER BELA

    230 CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana

    concluir que, de acordo com Kant, o exerccio da faculdade da imaginao daquele que ajuza pode ser no apenas um exerccio harmnico com a actividade do entendimento, mas igualmente um exerccio livre, mesmo quando no seu juzo ele obrigado a reconhecer um conceito dado. Conclumos tambm que, de novo no entender de Kant, o exerccio da faculdade da imaginao daquele que ajuza pode ser um exerccio livre mesmo se for tida em conta a perfeio do objecto artstico.

    precisamente essa possibilidade que autoriza que a beleza aderente seja beleza e que o juzo de gosto aplicado seja juzo de gosto. Assim sendo, atravs dela que justificamos a possibilidade de ajuizar-se um objecto artstico atravs de um juzo de gosto, a possibilidade de declarar-se bela uma obra de arte, a possibilidade de falar-se de bela arte a possibilidade de ajuizar-se um objecto artstico atravs de um juzo de gosto aplicado, a possibilidade de condicionadamente se declarar bela uma obra de arte, a possibilidade de falar-se de bela arte enquanto arte condicionadamente declarada bela, a possibilidade de falar-se de bela arte enquanto arte declarada bela atravs de juzos de gosto aplicados.

    No ela, porm, que autoriza que a beleza da arte seja uma beleza livre. A possibilidade de livremente se declarar bela uma obra de arte, a possibilidade de declarar-se bela uma obra de arte atravs de um puro juzo de gosto, tal possibilidade depende de uma interpretao do termo representao num sentido exemplificativo ligado ao gosto, de uma nova releitura das distines beleza livre beleza aderente e puro juzo de gosto juzo de gosto aplicado, que as entenda como distines entre belezas ou juzos de gosto nos quais apenas so considerados propsitos e constrangimentos do mbito do gosto e belezas ou juzos de gosto nos quais so tidos em conta propsitos e constrangimentos que no pertencem a esse mbito, e, finalmente, da aceitao da plurivocidade de sentido da noo de gosto.233

    233 Para uma compreenso esquemtica das condies de possibilidade de se declarar livremente bela uma obra de arte, remetemos o leitor para o anexo 3. Livre Declarao da Obra de Arte como Bela.

  • BELA ARTE

    CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana 231

    Legitimada a noo de bela arte, quer enquanto arte condicionadamente declarada bela, isto , arte declarada bela atravs de juzos de gosto aplicados, quer enquanto arte livremente declarada bela, isto , arte declarada bela atravs de puros juzos de gosto, estamos em condies de tentar responder questo de saber o que necessrio para a produo de belas obras de arte.

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    Captulo IV: Para a Produo de Bela Arte

    1. EDUCAO DO GNIO

    A questo que at aqui moveu a nossa investigao foi a de saber se e como pode falar-se de bela arte no contexto da Crtica da Faculdade do Juzo. Respondida essa questo, apresentadas as condies sob as quais legtimo falar-se de bela arte no mbito da terceira Crtica de Kant, nossa tarefa responder questo de saber o que necessrio para a produo de bela arte, o que necessrio para a produo de objectos artsticos belos.

    Na subseco Expresso de ideias estticas, reproduzimos e justificmos a afirmao de Kant segundo a qual [b]ela arte arte do gnio ([s]chne Kunst ist Kunst des Genies) (Kant, 1998: 211).

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    questo de saber o que necessrio para a produo de obras de arte belas seria de prever que, legitimada a noo de bela arte, respondssemos com uma nica palavra: gnio. Uma tal resposta seria precipitada. H vrias passagens da Crtica da Faculdade do Juzo que nos impedem de d-la. Devemos dedicar-lhes a nossa ateno.

    Na parte final do 47, Kant assinala que [o] gnio pode somente fornecer uma matria rica para produtos da arte bela ([d]as Genie kann nur reichen Stoff zu Produkten der schnen Kunst hergeben) (Kant, 1998: 215). Essa matria rica constituda por ideias estticas, que aquele que dotado de gnio fornece atravs da capacidade produtiva da sua imaginao. Numa nota a uma passagem do 17 tambm j lhe fizemos referncia o nosso autor indica que naquilo que se denomina gnio () a natureza parece afastar-se das relaes normais das faculdades do nimo em benefcio de uma faculdade s (dem, was man Genie nennt () die Natur von ihren gewhnlichen Verhltnissen der Gemtskrfte zum

    Vorteil einer einzigen abzugehen scheint) (Kant, 1998: 268). A faculdade beneficiada a imaginao, faculdade atravs do qual o gnio fornece a mencionada matria rica para obras de arte belas. Acontece que, como Kant vem a acrescentar, no 50, toda a riqueza da [faculdade da imaginao] no produz, na sua liberdade sem leis, seno disparates (aller Reichtum der ersteren bringt in ihrer gesetzlosen Freiheit nichts als Unsinn hervor) (Kant, 1998: 225). Se assim , ento, considerar o exerccio do gnio, por si s, suficiente para a produo de belas obras de arte tem como consequncia identificar a bela arte com uma produo disparatada de matria. Mas, visto que uma tal identificao no , de todo, aceitvel, o nosso autor conclui que [s]e portanto no conflito de ambas as espcies de propriedades algo deve ser sacrificado num produto, ento isto ter que ocorrer antes do lado do gnio ([w]enn also im Widerstreite beiderlei Eingeschaften an einem Produkte etwas aufgeopfert werden soll,

    so msste es eher auf der Seite des Genies geschehen) (Kant, 1998: 226). O sacrifcio no pode incidir sobre o gosto ou sobre a faculdade do juzo em geral, que ajusta a riqueza da faculdade da imaginao ao entendimento.

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    De certa maneira, as passagens que acabmos de citar contrariam uma outra, j transcrita por ns, segundo a qual

    o gnio consiste na feliz relao, que nenhuma cincia pode ensinar e nenhuma diligncia pode aprender, de encontrar ideias para um conceito dado e por outro lado de encontrar para elas a expresso pela qual a disposio subjectiva do nimo da resultante, enquanto acompanhamento de um conceito, pode ser comunicada a outros (besteht das Genie eigentlich in dem glcklichen Verhltnisse, welches keine

    Wissenschaft lehren und kein Flei erlernen kann, zu einem gegebenen

    Begriffe Ideen aufzufinden und andrerseits zu diesen den Ausdruck zu treffen, durch den die dadurch bewirkte subjektive Gemtstimmung, als

    Begleitung eines Begriffs, anderen mitgeteilt werden kann) (Kant, 1998: 223).234

    Nesta passagem, da parte final do 49, Kant sugere que o gnio tem mais poderes do que aqueles que lhe so atribudos ou aos quais associado nas passagens que acima citmos. O gnio no apenas encontra ideias estticas, mas igualmente encontra para essas ideias uma expresso mediante a qual as faculdades de conhecimento daquele que ajuza se dispem conformemente a fins para o conhecimento em geral.235

    No s a noo de gosto usada por Kant em sentidos diferentes e sem que haja qualquer explicao ou sequer aviso para tal uso, ento, como vimos no captulo anterior; igualmente o a noo de gnio. A partir da descrio do gnio proposta no 49, conclui-se que para a bela arte necessrio apenas gnio. Por intermdio do esprito, o gnio apresenta as ideias estticas de uma maneira adequada beleza. Tal concordante com a primeira consequncia por ns observada, na subseco Expresso de ideias estticas, precisamente a partir da descrio da noo de esprito elaborada por Kant no 49. Dissemos ns, nessa altura, que uma obra de arte de gnio um objecto que atravs de um juzo de gosto no pode ser declarado se no como belo. No entanto, acabmos de citar algumas

    234 Essa expresso assinalmo-lo encontrada pelo esprito. 235 Da assinalar Gilles Deleuze que [o] acordo da imaginao e do entendimento, nas artes, s vivificado pelo gnio, e sem ele ficaria incomunicvel (Deleuze, 2000: 63).

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    passagens da Crtica da Faculdade do Juzo que sugerem uma insuficincia do gnio para a bela arte.236 Alm disso, a descrio do gnio proposta no 49 parece contraditria com algo afirmado por Kant no 48, a saber, que o gosto a faculdade atravs da qual se d a uma obra de arte a forma da apresentao de um conceito, pela qual este comunicado universalmente (die Form der Darstellung eines Begriffs, durch welche dieser allgemein mitgeteilt wird) (Kant, 1998: 217). De acordo com esta passagem, no contexto da bela arte, um conceito torna-se universalmente comunicvel atravs do gosto; segundo aquela, do 49, atravs do gnio nomeadamente, por intermdio do esprito que tal acontece.237

    Uma tentativa de ultrapassar os conflitos evidenciados pela confrontao das passagens por ns mencionadas consiste na tese de acordo com a qual, entre o 47 e o 49, Kant ter alterado a sua posio concernente s capacidades do gnio. Essa tese privilegia a posio de Kant plasmada no 49, na medida em que este pargrafo est mais prximo do final da Crtica da Faculdade do Juzo ou do trmino de uma parte da mesma. Uma tal tomada de partido consonante com muito do que afirmado no 48, quer acerca do gosto, quer acerca do gnio. Respectivamente, no incio e no fim desse pargrafo, Kant salienta que [p]ara o julgamento de objectos belos enquanto tais requer-se gosto ([z]ur 236 Henry E. Allison chega a considerar que o 50 pode ser interpretado como uma parte do texto de Kant na qual o nosso autor parece insinuar que o gosto constitui condio suficiente para que se produzam obras de arte belas. Diz o comentador que Kant parece sugerir ao mesmo tempo que o gnio necessrio para a produo de bela arte (46) e que o gosto sem gnio suficiente (50) (Allison, 2001: 273). 237 Os conflitos para os quais aqui chamamos a ateno ocorrem no interior da Crtica da Faculdade do Juzo, mediante a contraposio de algumas passagens da obra. Num mbito mais alargado, a saber, o do inteiro trabalho filosfico de Kant, a plurivocidade de sentido da noo de gnio ainda mais evidente. A nossa inteno no passa, contudo, por descrever o desenvolvimento da noo de gnio ao longo do trabalho filosfico de Kant. queles que pretendam satisfazer um tal fim, sugere-se desde logo a leitura do artigo Kants Early Theory of Genius (1770-1779), no qual Giorgio Tonelli tenta reconstruir o desenvolvimento das ideias de Kant acerca do gnio utilizando os materiais contidos no seu Nachlass, publicado por Adickes (Tonelli, 1966: 109), assim como de Kants Lehre von Genie und die Entstehung der Kritik der Urteilskraft, texto no qual Otto Schlapp recorre aos Kolleghefte.

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    Beurteilung schner Gegenstnde als solcher wird Geschmack erfordert) (Kant, 1998: 215) e que [o] gosto () simplesmente uma faculdade de julgamento e no uma faculdade produtiva (Geschmack ist blo ein Beurteilungs-, nicht ein produktives Vermgen) (Kant, 1998: 218). No mesmo pargrafo, o nosso autor lembra que para a prpria arte, isto para a produo de [objectos belos], requer-se gnio (zur schnen Kunst selbst, d. i. der Hervorbringung solcher Gegenstnde, wird Genie erfordert) (Kant, 1998: 215)238,e assim repete o primeiro ponto que ele prprio assinalou na sua primeira explicao da noo de gnio, a saber, que o gnio um talento para produzir aquilo para o qual no se pode fornecer nenhuma regra determinada (ein Talent sei, dasjenige, wozu sich keine bestimmte Regel geben lsst, hervorzubringen) (Kant, 1998: 212). O gosto, ento, uma faculdade para ajuizar; o gnio, por sua vez, um talento para a produo. O gosto no produz; o gnio no ajuza. No obstante ambos serem necessrios para a bela arte, um para produzir, o outro para ajuizar, no haver, nesse contexto, qualquer relao entre eles.

    Embora possa ser tentadora, a proposta que acabmos de apresentar de acordo com a qual Kant ter alterado a sua posio concernente s capacidades do gnio, tendo passado a consider-lo condio suficiente para a produo de bela arte e a defender a inexistncia de quaisquer relaes entre esse talento e o gosto no pode ser admitida. Ela entra em conflito desde logo com o ttulo do 48: Da relao do gnio com o gosto (Vom Verhltnisse des Genies zum Geschmack) (Kant, 1998: 215). Mesmo que este ttulo fosse encarado como uma impreciso decorrente de uma hesitao de Kant at pela sua colocao, como ttulo do pargrafo que medeia aqueles nos quais a posio do nosso autor relativamente s capacidades do gnio alegadamente se altera facto que o ttulo do 50, a saber, Da ligao do gosto com o gnio em produtos da bela arte (Von der Verbindung des Geschmacks mit Genie in Produkten der schnen

    238 J tivemos o cuidado de assinalar que, no concernente a esta passagem, a traduo elaborada por Antnio Marques e Valrio Rohden incompleta. O gnio requerido unicamente para a bela arte, no para toda e qualquer arte.

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    Kunst) (Kant, 1998: 225) refora a relao entre os dois talentos em causa no contexto da beleza artstica. Alm disso, os contedos do 50 plasmam uma insuficincia do gnio para a bela arte. A frase com que Kant fecha esse pargrafo indica-o claramente: para a arte bela requerer-se-iam faculdade da imaginao, entendimento, esprito e gosto ([z]ur schnen Kunst wrden Einbildungskraft, Verstand, Geist und Geschmack erforderlich sein) (Kant, 1998: 226), sendo que [a]s trs primeiras faculdades obtm a sua unificao antes de tudo pela quarta ([d]ie drei ersteren Vermgen bekommen durch das vierte allererst ihre

    Vereinigung) (Kant, 1998: 269), isto , pelo gosto. Perante a dificuldade com que nos confrontamos, poderia

    simplesmente admitir-se a inconsistncia da Crtica da Faculdade do Juzo no que concerne s noes de gosto e de gnio por conseguinte, relativamente quilo que necessrio para a bela arte e assumir-se que h duas concepes, incompatveis, sem adiantar qualquer explicao para elas.239 Em nosso entender, porm, h uma perspectiva a partir da qual aquilo que de aparentemente contraditrio Kant nota acerca do gnio no carece de compatibilidade. Essa perspectiva assenta na tese segundo a qual nem todos os homens dotados de gnio esto no mesmo patamar de prontido para produzir belas obras de arte.

    Ser dotado de gnio corresponde a possuir um talento outorgado pela natureza sob a forma de uma proporo especial das faculdades do nimo. No entanto, apesar de todos os gnios (todos os homens dotados de gnio) possurem, por definio, um tal dom, nem todos esto nas mesmas condies para a produo de objectos artsticos belos. Desde logo no 47, ao elucidar e confirmar a introduo da noo de gnio feita no pargrafo anterior, Kant menciona a figura do aprendiz (Lehrling) (cf. Kant, 1998: 214). Entretanto, no 60, no mbito das suas ltimas consideraes relativas bela arte, o nosso autor faz referncia s figuras do mestre

    239 essa a tese de Allison, de novo, para quem no texto de Kant podem observar-se duas concepes de gnio: uma concepo grossa e uma concepo fina (Allison, 2001: 301).

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    (Meister) e do discpulo (Schler) (cf. Kant, 1998: 264). Se recorrermos explicitao do processo de sucesso entre gnios, isto , entre mestre e aprendiz ou discpulo, compreendemos que o simples facto de este ltimo possuir um dom natural ao qual se chama gnio no suficiente para que ele produza uma bela obra de arte. Um outro talento necessrio para a produo de objectos artsticos belos.240

    Quando, no 46, refere que os produtos do gnio tm de ser exemplares e, portanto, servir de padro de medida ou regra de julgamento, Kant assinala que eles prprios no surgiram por imitao (selbst nicht durch Nachahmung entsprungen) (Kant, 1998: 212). Assim como no surgiram por imitao, os produtos do gnio no podem servir de padro de medida ou regra de julgamento para aqueles que os acolhem se estes os encararem como prottipos e optarem pela cpia, pela imitao. Nesse caso, asfixia-se (erstickt man) a liberdade da faculdade da imaginao, perde-se o mpeto espiritual (Geistesschwunges), anula-se o carcter genial da obra (cf. Kant, 1998: 224 e 265).241 A imitao revela apenas habilidade.242 No mbito da imitao, h, como indicado no 47, diferenas de grau (Grade), no diferenas especficas (spezifische Unterschiede) (cf. Kant, 1998: 213). Os maiores descobridores, como Newton, que no apenas apreendem aquilo que por outros foi pensado, mas tambm pensam e

    240 Por isso que deve afirmar-se que s em princpio que o gnio sempre exemplar (cf. Gil, 1998: 273). 241 Segundo Kant, o exerccio do gnio nem sequer deve envolver uma precauo receosa (ngstliche Behutsamkeit) (Kant, 1998: 224). Ele deve envolver coragem, mesmo que tal resulte na concesso de deformidades (Missgestalten): Unicamente num gnio esta coragem mrito; e uma certa audcia na expresso e em geral algum desvio da regra comum fica-lhe bem (Dieser Mut ist an einem Genie allein Verdienst; und eine gewisse Khnheit im Ausdrucke und berhaupt manche Abweichung von der gemeinen Regel steht demselben wohl an) (Kant, 1998: 224). Esta tese pode ser encarada como de alguma maneira j sugerida em O Belo e o Sublime, de 1764, onde Kant refere os movimentos livres e naturais do gnio, cuja beleza resultaria somente desfigurada por uma correco trabalhosa dos defeitos (Kant, 1943: 74). 242 Como dito no 17, acerca do ideal da beleza, quem () imita um modelo, na verdade mostra, na medida em que o consegue, habilidade (wer ein Muster nachahmt, zeigt, sofern als er es trifft, zwar Geschicklichkeit) (Kant, 1998: 123).

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    imaginam, eles prprios, so grandes cabeas (groe Kpfe); os mais laboriosos imitadores e aprendizes, so, no entender de Kant, patetas (Pinsel) (cf. Kant, 1998: 212-213). Para as grandes cabeas, o exemplo do gnio produz uma escola, isto um ensinamento metdico segundo regras, na medida em que se tenha podido extra-lo daqueles produtos do esprito e da sua peculiaridade (eine Schule, d. i. eine methodische Unterweisung nach Regeln, soweit man sie aus jenen Geistesprodukten

    und ihrer Eigentmlichkeit hat ziehen knnen), mas, mesmo para elas, a bela arte uma imitao para a qual a natureza deu, atravs do gnio, a regra (Nachahmung, der die Natur durch ein Genie die Regel gab) (Kant, 1998: 224). Quanto aos patetas, que copiam tudo, at aquilo que enquanto deformidade o gnio somente teve que conceder, porque no podia elimin-la sem enfraquecer a ideia (alles, was das Genie als Missgestalt nur hat zulassen mssen, weil es sich, ohne die Idee zu

    schwchen, nicht wohl wegschaffen lie), para esses aquela imitao torna-se macaquice (diese Nachahmung wird Nachffung) (Kant, 1998: 224).243 Segundo Kant, uma obra de arte de gnio serve de produto exemplar e, assim, de padro de medida ou regra de julgamento para aquele que a acolhe, se este a encarar como modelo da sucesso (cf. Kant, 1998: 214).244 243 Uma espcie de macaquice o maneirismo (das Manierieren), imitao da simples peculiaridade (originalidade) em geral, para distanciar-se o mais possvel dos imitadores, sem contudo possuir o talento para ser ao mesmo tempo exemplar (der bloen Eigentmlichkeit (Originalitt) berhaupt, um sich ja von Nachahmern so weit als mglich zu entfernen, ohne doch das Talent zu besitzen, dabei zugleich musterhaft zu sein) (Kant, 1998: 224-225). Trata-se de um produto amaneirado unicamente se a apresentao da sua ideia visar nele a singularidade e no for adequada ideia ([a]llein manieriert nur alsdann, wenn der Vortrag seiner Idee in demselben auf die Sonderbarkeit angelegt und nicht der Idee angemessen gemacht wird) (Kant, 1998: 225). 244 Notam Marques e Rohden, que [n]o manuscrito de Kant constou Nachahmung Nachahmung (imitao imitao), sendo que [c]pia e imitao so expresses devidas a Kiesewetter (Kant, 1998: 214). A edio da Preuische Akademie der Wissenschaften preserva o que se l no manuscrito. O mais importante, porm, assinalar, precisamente como fazem os autores da traduo por ns utilizada da Kritik der Urteilskraft para o Portugus, que Kant teria querido escrever

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    O que que significa sucesso (Nachfolge) como que, no contexto da bela arte, se sucede? Embora, no mbito dos 46 e 47, depois de afirmar que a regra tem que ser abstrada do acto, isto do produto, no qual outros queiram testar o seu prprio talento (die Regel muss von der Tat, d. i. vom Produkt, abstrahiert werden, an welchem

    andere ihr eigenes Talent prfen mgen), Kant admita que [] difcil explicar como isto seja possvel e acrescente apenas que [a]s ideias do artista provocam ideias semelhantes no aprendiz, se a natureza o proveu com uma proporo semelhante de faculdades do nimo ([d]ie Ideen des Knstlers erregen hnliche Ideen seines Lehrlings, wenn ihm

    die Natur mit einer hnlichen Proportion der Gemtskrfte versehen

    hat) (Kant, 1998: 214); apesar disso, muito antes, no 32, logo depois de ter descrito a sucesso como sendo a influncia que produtos de um autor original podem ter sobre outros (Einflu, welchen Produkte eines exemplarischen Urhebers auf Andere haben knnen), ele afirma que tal somente quer dizer haurir das mesmas fontes das quais aquele prprio hauriu e apreender do seu predecessor somente a maneira de proceder nesse caso (aus denselben Quellen schpfen, woraus jener selbst schpfte, und seinem Vorgnger nur die Art, sich dabei zu

    benehmen, ablernen) (Kant, 1998: 184). Que maneira essa? Embora no seja possvel ensinar

    metodicamente o modo de proceder na bela arte, tal modo passvel de sucesso se o discpulo tiver como padro de medida aquilo a que Kant chama o sentimento da unidade na apresentao (das Gefhl der Einheit in der Darstellung) (Kant, 1998: 225). esse o padro

    Nachahmung Nachfolge (imitao sucesso) (Kant, 1998: 214). Tal tese muito significativamente reforada por uma passagem do olhar retrospectivo que Kant lana sobre a explicao da noo de gnio, na qual o nosso autor afirma que o produto de um gnio (de acordo com o que nele atribuvel ao gnio e no ao possvel aprendizado ou escola) um exemplo no para a imitao () mas para a sucesso por um outro gnio (ist das Produkt eines Genies (nach demjenigen, was in demselben dem Genie, nicht der mglichen Erlernung oder der Schule zuzuschreiben ist) ein

    Beispiel nicht der Nachahmung, sondern der Nachfolge fr ein anderes Genie) (Kant, 1998: 224).

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    do modus aestheticus, isto , da maneira (Manier).245 o sentimento da unidade na apresentao, ento, aquilo que possibilita que a faculdade da imaginao do discpulo seja despertada para a conformidade com um conceito dado (zur Angemessenheit mit einem gegebenen Begriffe) (Kant, 1998: 264); e por intermdio de um tal sentimento, por conseguinte, que experimentando o seu gnio, atravs da produo de ideias estticas, no produto de outro gnio o discpulo despertado para o sentimento da sua prpria originalidade, exercitando na arte uma tal liberdade em relao coero de regras, que a prpria arte obtm por este meio uma nova regra, pela qual o talento se mostra como exemplar (zum Gefhl seiner eigenen Originalitt aufgeweckt wird, Zwangsfreiheit von

    Regeln so in der Kunst auszuben, dass diese dadurch selbst eine

    neue Regel bekommt, wodurch das Talent sich als musterhaft zeigt ) (Kant, 1998: 224). O processo de sucesso s se efectiva se, em face da obra do mestre, o aprendiz, alm de ser original, sentir a unidade na apresentao, padro do modus aestheticus, nico modo de composio dos pensamentos vlido para a bela arte.

    Enunciado o carcter decisivo da sucesso para a produo de belas obras de arte, aquilo que agora importa notar que o sentimento da unidade na apresentao pode ocorrer unicamente se o aprendiz exercer a sua faculdade de juzo esttica, isto , se ele

    245 A clarificao da distino entre mtodo e maneira apresentada por Kant no final da reviso da noo de gnio, depois do 49: Na verdade h na exposio dois modos (modus) em geral de composio dos seus pensamentos, um dos quais chama-se maneira (modus aestheticus) e o outro, mtodo (modus logicus), que se distinguem entre si no facto que o primeiro modo no possui nenhum outro padro que o sentimento da unidade na apresentao, enquanto que o outro segue princpios determinados; para a arte bela vale portanto s o primeiro modo (Zwar gibt es zweierlei Art (modus) berhaupt der Zusammenstellung seiner Gedanken des Vortrages, deren die eine Manier (modus aestheticus), die andere Methode (modus logicus) heit, die sich darin von einander unterscheiden: dass die erstere kein anderes Richtma hat, als das Gefhl der Einheit in der Darstellung, die andere aber hierin bestimmte Prinzipien befolgt; fr die schne Kunst gilt also nur die erstere) (Kant, 1998: 225).

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    exercer o seu gosto. Estamos autorizados a afirmar, ento, que s exercendo o seu gosto pode o discpulo tornar-se mestre; s assim pode ele impedir que a sua faculdade da imaginao, enquanto produtora, se exera num regime de liberdade sem leis e, consequentemente, de produo de meros disparates; s exercendo o seu gosto pode o discpulo averiguar e melhorar a adequabilidade das suas ideias e da maneira como as apresenta, a qualidade da sua expresso, verificar se essa expresso dispe as faculdades da imaginao e do entendimento conformemente a fins para o conhecimento em geral, se a maneira de apresentar o material fornecido pela capacidade produtiva da faculdade da imaginao adequada para comunicar universalmente o inefvel, se ela adequada comunicabilidade universal da disposio subjectiva do nimo por ocasio da representao do objecto, podendo melhor-la se no for; s assim pode aquele que dotado de gnio avaliar e possibilitar o reforo da consistncia das suas ideias, da capacidade de as suas ideias serem universal e duradouramente aprovadas, pode ele avaliar e possibilitar o reforo da capacidade que essas ideias tero de promover a sucesso de outros e o crescimento da cultura; s se o gnio exercer o seu gosto podem os seus produtos ser no apenas originais, mas tambm exemplares e, por conseguinte, servir de padro de medida ou regra de julgamento para outros. Por outras palavras, s atravs do exerccio do gosto pode ser desenhado o crculo produtivo, pode ser feita a sucesso entre mestre e discpulo, pode o novo gnio ser a originalidade exemplar do dom natural de um sujeito no uso livre das suas faculdades de conhecimento (Kant, 1998: 224), pode ele ser aquele que original e ao mesmo tempo inaugura uma nova regra, que no pde ser inferida de quaisquer princpios ou exemplos anteriores (original ist und zugleich eine neue Regel erffnet, die aus keinen vorhergehenden Prinzipien oder

    Beispielen hat gefolgert werden knnen) (Kant, 1998: 223). S se o gnio exercer o seu gosto podem os seus produtos ser exemplos para a sucesso por gnios subsequentes; s assim pode ele

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    inaugurar uma nova regra. S se o gnio exercer o seu gosto pode a natureza, atravs dele, dar a regra bela arte; s assim podem as suas obras de arte ser belas.246

    Mediante a proposta que acabmos de apresentar para salvar as consideraes que Kant faz acerca do gnio da queda numa contradio, proposta que encara como decisiva a distino estabelecida por Kant entre mestre, por um lado, e aprendiz ou discpulo, por outro, assim como a importncia do gosto para a efectivao do processo de sucesso entre artistas dotados de gnio, pode ser compreendida, finalmente, e reconhecida como feliz, a analogia sugerida por Gary Banham, para quem

    [s]e o gnio nos providencia a noo de uma segunda natureza, o gosto como um segundo juzo dentro dessa segunda natureza, regulando a nossa dieta de maneira a que a nova natureza se mantenha numa condio saudvel. O gosto o mdico da segunda natureza (Banham, 2000: 113).

    O exerccio do gnio pode levar, de facto, a uma produo disparatada de matria. Mas se o exerccio do gnio, enquanto um tal talento um talento para a bela arte, no pode ser identificado com uma produo disparatada de matria, se, portanto, a arte do gnio, enquanto bela arte, no o resultado de uma produo desse tipo, ento aquele que dotado de gnio tem de exercer o seu gosto. O exerccio do gnio no sentido da produo de objectos belos depende do exerccio do gosto para produzir belas obras de arte, aquele que dotado de gnio tem de exercer a sua faculdade de juzo esttica. A razo disso que ele (aquele que dotado de gnio, no o prprio gnio, enquanto talento) tem de ajuizar, sendo que a faculdade atravs da qual se ajuza o belo no outra que no o gosto, faculdade de juzo esttica.

    246 Respondemos deste modo questo, lanada por Fernando Gil, de saber [c]omo se concilia a exemplaridade do gosto e do gnio com a subjectividade do juzo de gosto e com a originalidade do gnio (Gil, 1998: 273).

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    2. CULTIVO, EXERCITAMENTO E CORRECO DO GOSTO

    Numa tentativa inicial de responder questo de saber o que necessrio para a produo de bela arte, acabmos de mostrar que, sendo condio indispensvel, o gnio no condio suficiente para tal. Para produzir objectos artsticos belos igualmente necessrio gosto aquele que dotado de gnio tem de exercer a sua faculdade de juzo esttica. Sem prejuzo desta afirmao, devemos notar, porm, haver vrias passagens da Crtica da Faculdade do Juzo a indicar que, assim como nem todos aqueles que so dotados de gnio esto no mesmo patamar de prontido para produzir belas obras de arte, tambm nem todos aqueles que so dotados de gosto esto nas mesmas condies para ajuizar correctamente uma obra de arte como bela. Tais passagens devero ser consideradas numa tentativa de fornecer uma resposta mais completa questo de saber o que necessrio para produzir objectos artsticos belos. F-lo-emos sem negar que um gnio que exera o seu gosto indispensvel produo de bela arte.

    No Terceiro momento do juzo de gosto, segundo a relao dos fins que neles considerada, Kant indica que o gosto cultivado. F-lo no 14, ao mencionar a cultura (Kultur) do gosto (Kant, 1998: 115). No mesmo pargrafo, o nosso autor refere um gosto autntico, incorrompido e slido (echten, unbestochenen, grndlichen) e sugere diferentes fases do gosto, por exemplo aquela na qual ele ainda rude e no exercitado (noch roh und ungebt), ainda fraco e no exercitado (schwach und ungebt) (Kant, 1998: 115).247 O gosto (a faculdade de juzo esttica) uma faculdade cultivvel e exercitvel.248 Entretanto, no 48, Kant acrescenta que o gosto exercitado e corrigido atravs de diversos

    247 Tal vai ao encontro do pargrafo anterior (13) no qual Kant refere um gosto ainda brbaro (noch barbarisch) (Kant, 1998: 113). 248 A afirmao de um gosto que se desenvolve no uma novidade da Crtica da Faculdade do Juzo. Em O Belo e o Sublime, Kant refere um gsto que por vezes se afina (Kant, 1943: 60). Esse gosto, inicialmente rude (Kant, 1943: 60), pode transformar-se num gsto muito apurado (Kant, 1943: 63).

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    exemplos da arte ou da natureza (durch mancherlei Beispiele der Kunst oder der Natur gebt und berichtigt) (Kant, 1998: 217). Essa afirmao vai ao encontro de uma outra, proferida no fecho do 32:

    entre todas as faculdades e talentos o gosto aquele que, porque o seu juzo no determinvel mediante conceitos e preceitos, maximamente precisa de exemplos daquilo que na evoluo da cultura durante maior tempo recebeu aprovao, para no se tornar logo de novo grosseiro e recair na rudeza das primeiras tentativas (unter allen Vermgen und Talenten ist der Geschmack gerade dasjenige, welches, weil sein Urteil

    nicht durch Begriffe und Vorschriften bestimmbar ist, am meisten der

    Beispiele dessen, was sich im Fortgange der Kultur am lngsten in

    Beifall erhalten hat, bedrftig ist, um nicht bald wieder ungeschlacht zu

    werden und in die Rohigkeit der ersten Versuche zurckzufallen) (Kant, 1998: 184-185).

    Em primeiro lugar, importa salientar que o gosto uma faculdade cultivvel, exercitvel e corrigvel atravs de exemplos.249 tambm importante notar, em segundo lugar, ser enquanto faculdade cujo fundamento de determinao um sentimento, no um conceito ou um preceito, que o gosto mais precisa de exemplos. Finalmente, deve ser assinalado que os exemplos daquilo que na evoluo da cultura durante maior tempo recebeu aprovao so os objectos referidos nas cincias

    249 A propsito da noo de exemplo ou, melhor, a propsito das noes de Exempel e Beispiel, traduzidas para Portugus atravs do termo exemplo de observar a distino identificada por Fernando Gil. Sem prejuzo da admisso de que Kant no sempre fiel ao princpio da distino, e notando que a existncia, em alemo, de um s adjectivo, exemplarisch, para os dois nomes do exemplo presta confuso (Gil, 1998: 267), Gil considera que, enquanto Exempel est ligado exemplificao entendida como simples instanciao de uma regra geral, como caso particular da regra, tratando-se, portanto, somente de uma quantificao existencial, sem qualquer acrscimo de inteligibilidade relativamente regra, Beispiel, diferentemente, no representa a instanciao de uma regra, tratando-se antes a inveno de um modelo (Gil, 1998: 266-267). Nesse sentido, o Beispiel introduzido (o verbo anfhren) isto , produzido, comparado com outros exemplos possveis (Gil, 1998: 266). Ele est estreitamente ligado ao objectivo de contribuir para a compreenso de uma expresso (zur Verstndlichkeit eines Ausdrucks), e por isso requerido quando h um dfice de compreenso (Gil, 1998: 266-267).

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    246 CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana

    histricas mencionadas por Kant no 44 (cf. Kant, 1998: 208-209). Assim sendo, as habitual mas equivocadamente chamadas cincias belas podem contribuir para o gosto enquanto faculdade de juzo esttica de que cada indivduo dotado, para o cultivo dessa faculdade em cada indivduo, para o seu exercitamento, para a sua correco.

    Uma chamada de ateno poder ser-nos feita imediatamente. Ela apontar para a eventualidade de surgir uma contradio se nossa tese juntarmos a afirmao de que o gosto (faculdade de juzo esttica) reivindica simplesmente autonomia. De facto, no 32, como j citmos, Kant afirma que [o] gosto reivindica simplesmente autonomia ([d]er Geschmack macht blo auf Autonomie Anspruch) (Kant, 1998: 183). Essa afirmao , de resto, reforada nos pargrafos seguintes (33 e 34). O prazer que aquele que ajuza tem por ocasio da representao do objecto um prazer imediato; logo, no atravs de um argumento, seja esse um argumento emprico ou um argumento a priori, que ele o sente. O fundamento do juzo de gosto a reflexo do sujeito sobre o seu prprio estado (de prazer ou desprazer), com rejeio de todos os preceitos e regras (Reflexion des Subjekts ber seinen eigenen Zustand (der Lust oder Unlust) mit Abweisung aller Vorschriften und Regeln) (Kant, 1998: 187). No prprio 44, antes de usar a expresso cincias belas, Kant sustenta a tese segundo a qual no pode haver uma cincia do belo (cf. Kant, 1998: 208).250 Entretanto, nos 58 e 59, o nosso autor assinala, respectivamente, que o juzo de gosto livre (frei) e tem autonomia 250 Nesse pargrafo, Kant diz apenas que [n]o h ([e]s gibt weder) uma tal cincia, assim como no h uma cincia bela (noch schne Wissenschaft) (Kant, 1998: 208). Veja-se, no entanto, a sua justificao: se houvesse uma cincia do belo, deveria ento ser decidido nela cientificamente, isto por argumentos, se algo deve ser tido por belo ou no; portanto se o juzo sobre a beleza pertencesse cincia, ele no seria nenhum juzo de gosto (so wrde in ihr wissenschaftlich, d. i. durch Beweisgrnde, ausgemacht werden sollen, ob etwas fr schn zu halten sei oder nicht; das Urteil ber Schnheit wrde also, wenn es zur Wissenschaft gehrte, kein Geschmacksurteil

    sein) (Kant, 1998: 208). Por essa razo, no s no h, como tambm no pode haver uma cincia do belo. exactamente isso que Kant salienta no 60: no h nem pode haver uma cincia do belo (es keine Wissenschaft des Schnen gibt noch geben kann) (Kant, 1998: 264). J tnhamos transcrito estas passagens.

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    por fundamento (Autonomie zum Grunde) (Kant, 1998: 259) e que a faculdade do gosto d a si prpria a lei com respeito aos objectos de um comprazimento to puro, assim como a razo o faz com respeito faculdade da apetio (gibt in Ansehung der Gegenstnde eines so reinen Wohlgefallens ihr selbst das Gesetz, so wie die Vernunft es in Ansehung

    des Begehrungsvermgens tut) (Kant, 1998: 263). Dadas estas restries, duas questes devem ser levantadas: a primeira a de saber se as cincias mencionadas por Kant no 44 podem contribuir para uma faculdade que reivindica simplesmente autonomia (o gosto); a segunda depende de uma resposta afirmativa primeira e a questo de saber em que medida podero tais cincias contribuir para essa faculdade.

    primeira questo responde-se ressalvando que a afirmao segundo a qual o gosto reivindica simplesmente autonomia no impede que aquele que ajuza tenha em conta o conhecimento que possui de lnguas antigas, o conhecimento literrio de autores clssicos, a histria e o conhecimento das antiguidades, entre outros. No necessariamente que h contradio entre essa tese e a possibilidade de aquele que ajuza ter em conta objectos que ao longo da histria foram ou tm vindo a ser considerados belos, isto , coisas que foram ou tm vindo a ser consideradas exemplos de beleza. S h contradio se o facto de esses objectos terem sido ou terem vindo a ser considerados exemplos de beleza for o fundamento em que aquele que os ajuza se baseia para os ajuizar como belos. No juzo de gosto, esse no , contudo, o caso.

    O facto de tais objectos terem sido ou terem vindo a ser considerados exemplos de beleza deve servir e assim iniciamos a resposta segunda questo to-somente de incentivo a que aquele que ajuza procure e encontre mais facilmente em si os princpios do gosto, o que seria mais difcil se ele ajuizasse a partir de uma ndole bruta, grosseira e rude. Note-se que, no pargrafo no qual indica que a faculdade de juzo esttica reivindica simplesmente autonomia, Kant acrescenta que

    [n]o h absolutamente nenhum uso das nossas foras, por livre que ele possa ser, e mesmo da razo [que tem de haurir todos os seus juzos da fonte comum a priori] que no incidiria em falsas tentativas se cada

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    248 CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana

    sujeito sempre devesse comear totalmente da disposio bruta da sua ndole, se outros no o tivessem precedido com as suas tentativas, no para fazer dos seus sucessores simples imitadores, mas para pr outros a caminho pelo seu procedimento, afim de procurarem em si prprios os princpios e assim tomarem o seu caminho prprio e frequentemente melhor (Es gibt gar keinen Gebrauch unserer Krfte, so frei er auch sein mag, und selbst der Vernunft (die alle ihre Urteile aus der

    gemeinschaftlichen Quelle a priori schpfen muss), welches, wenn jedes Subjekt immer gnzlich von der rohen Anlage seines Naturells anfangen

    sollte, nicht in fehlerhafte Versuche geraten wrde, wenn nicht andere

    mit den ihrigen ihm vorgegangen wren, nicht um die Nachfolgenden zu

    bloen Nachahmern zu machen, sondern durch ihr Verfahren andere auf

    die Spur zu bringen, um die Prinzipien in sich selbst zu suchen und so

    ihren eigenen, oft besseren Gang zu nehmen) (Kant, 1998: 184).251

    Procurar os princpios (die Prinzipien suchen) significa tentar descobrir em que se baseia um juzo de maneira a que possa ajuizar-se fundamentando o juzo nesses princpios. Ora, as cincias referidas por Kant no 44, ao providenciarem quele que ajuza um conhecimento daquilo que foi ou tem vindo a ser considerado exemplo de beleza, convidam-no a ser o mais correcto possvel no que concerne maneira como ajuza. Se ele no considerar belo um objecto, mas tiver conhecimento de que esse objecto foi ou tem vindo a ser considerado belo, ento possvel ser mesmo plausvel ou at provvel que ele hesite relativamente correco do seu juzo, isto , que tenha dvidas quanto quilo no qual est a fundar o seu juzo. No 33, Kant chama a ateno para essa possibilidade:

    [s]e algum no considera belo um edifcio, uma vista, uma poesia, ento ele () pode at comear a duvidar se tambm formou suficientemente o seu gosto pelo conhecimento de um nmero satisfatrio de objectos de

    251 No mesmo sentido, veja-se a seguinte passagem do texto Ideia de uma Histria Universal com um Propsito Cosmopolita, de 1784: A razo numa criatura uma faculdade de ampliar as regras e intenes do uso de todas as suas foras muito alm do instinto natural, e no conhece limites alguns para os seus projectos. No actua, porm, instintivamente, mas precisa de tentativas, de exerccio e aprendizagem, para avanar de modo gradual de um estdio do conhecimento para outro (Kant, 2004: 23).

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    CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana 249

    uma certa espcie ([w]enn jemand ein Gebude, eine Aussicht, ein Gedicht nicht schn findet, so kann er sogar zu zweifeln anfangen, ob er

    seinen Geschmack durch Kenntnis einer genugsamen Menge von

    Gegenstnden einer gewissen Art auch genug gebildet habe) (Kant, 1998: 185).

    Um tal conhecimento pode contribuir para o gosto precisamente na medida em que pode contribuir para que aquele que ajuza se questione quanto correco do seu juzo, isto , quanto ao fundamento, aos princpios, no qual o seu juzo se baseia ou, por outras palavras, quanto a estar a proferir um juzo de gosto ou um juzo de outro tipo.252 nesse sentido que [o] juzo de outros que nos desfavorvel na verdade pode com razo tornar-nos hesitantes com respeito ao nosso ([d]as uns ungnstige Urteil anderer kann uns zwar mit Recht in Ansehung des

    unsrigen bedenklich machen) (Kant, 1998: 185). Esse juzo, desfavorvel, pode tornar-nos hesitantes no que concerne ao nosso, precisamente enquanto pode levar a que questionemos se, de facto, estaremos a ajuizar segundo os princpios do gosto.

    No unicamente para o gosto, no entanto, que os conhecimentos sublinhados por Kant, no 44, podem contribuir. Melhor: no directamente que eles podem faz-lo. Antes de mais, esses conhecimentos

    252 tambm no interior deste contexto que pode compreender-se algo afirmado por Kant no 60, a saber, parece evidente que a verdadeira propedutica para a fundao do gosto seja o desenvolvimento de ideias morais e a cultura do sentimento moral (leuchtet ein, dass die wahre Propdeutik zur Grndung des Geschmacks die Entwicklung sittlicher Ideen und die Kultur des moralischen Gefhls sei) (Kant, 1998: 266). Na medida em que tambm no caso da moralidade se requer que o sujeito supere aquilo que meramente agrada aos sentidos e, portanto, que ele no se deixe levar por inclinaes, nessa medida, o desenvolvimento de ideias morais e a cultura do sentimento moral podem ser teis no encaminhamento daquele que ajuza para a procura e descoberta em si mesmo dos princpios do gosto. O mesmo se passa e, de resto, de maneira ainda mais clara relativamente ao juzo acerca do sublime. Na medida em que o seu fundamento reside precisamente na disposio ao sentimento para ideias (prticas), isto ao sentimento moral (in der Anlage zum Gefhl fr (praktische) Ideen, d. i. zu dem moralischen) (Kant, 1998: 163), a preparao para ajuizar acerca do sublime dever consistir no desenvolvimento de ideias morais e na cultura do sentimento moral.

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    250 CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana

    podem contribuir para a faculdade do juzo. Aquilo que pode ser directamente cultivado, exercitado e corrigido atravs da recorrncia s obras de arte referenciadas nas equivocadamente chamadas cincias belas a faculdade do juzo. Esta nossa ressalva assenta numa passagem do j citado 32. Nessa passagem, Kant refere que, apesar de inicialmente um jovem poeta no se [deixar] demover, nem pelo juzo do pblico nem pelo dos seus amigos, da persuaso de que sua poesia seja bela (lsst sich ein junger Dichter von der berredung, dass sein Gedicht schn sei, nicht

    durch das Urteil des Publikums, noch seiner Freunde abbringen), ele pode acabar por alterar o seu juzo pode faz-lo, nas palavras do nosso autor, mais tarde, quando a sua faculdade do juzo tiver sido mais aguada pelo exerccio (spterhin, wenn seine Urteilskraft durch Ausbung mehr geschrft worden) (Kant, 1998: 183)253.

    A faculdade do juzo , ou, pelo menos, pode ser, aguada (geschrft). Uma faculdade do juzo mais aguada uma faculdade do juzo mais preparada para proporcionar um juzo correcto (seja ele de gosto, seja ele de outro tipo) do que o uma faculdade do juzo menos aguada.254 253 Como assinala Maria Filomena Molder: eis que a apreciao esttica se descobre susceptvel de ser aperfeioada, capaz de afinao (Molder, 2007: 381). certo que [a] autonomia, isto , a indiferena apreciao alheia, a regra da apreciao esttica, mas [s]e a apreciao esttica deve ser de cada vez autnoma, a fim de que o juzo seja verdadeiramente puro, isso no quer dizer que no haja possibilidade legtima de alterao, isso no impede a inverso do juzo (Molder, 2007: 381). Referindo-se especificamente passagem que acabmos de citar da Crtica da Faculdade do Juzo, Molder acrescenta que a autonomia do juzo integrada, e no ameaada e que ela mesmo vivificada no campo tensional baptizado como exerccio, o elemento da Ausbung, cujos efeitos se mostram no gesto de colocar-se no caminho dos outros poetas (Molder, 2007: 381). Assim, no entender de Molder, da Ausbung, do exerccio, que deriva a legitimidade da mudana da apreciao, o que significa que [s]e o jovem poeta se comprometer num verdadeiro exerccio potico, ento a mudana de opinio mostra-se legtima (Molder, 2007: 382). 254 Em 1785, na Fundamentao da Metafsica dos Costumes, a propsito das leis a priori, Kant assinala que elas exigem, para alm do mais, uma faculdade de juzo aguada pela experincia que, por um lado, permita discernir em que situaes elas se tornam aplicveis e, por outro, lhes faculte um acesso vontade humana e eficcia no seu exerccio prtico, pois que o homem, afectado como por tantas inclinaes, bem capaz de conceber a ideia de uma razo pura, mas no ter to facilmente o poder

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    Quanto ao exerccio (Ausbung) que a agua, esse exerccio qualquer um que possa contribuir para que aquele que ajuza ajuze atravs da faculdade de juzo adequada para a questo em causa e segundo os princpios dessa mesma faculdade. Se, por exemplo, a questo em causa for a de ajuizar se um objecto belo, nesse caso ele tem de ajuizar atravs da faculdade de juzo esttica (o gosto) e segundo os seus princpios. Ora, como acabmos de mostrar, para que tal acontea pode ser til o conhecimento de um nmero satisfatrio de objectos de uma certa espcie, referido por Kant no 33, conhecimento que pode ser adquirido atravs das cincias citadas pelo nosso autor no 44.255 Esse conhecimento pode aguar a faculdade do juzo pode faz-lo enquanto pode contribuir para que aquele que ajuza procure em si prprio os princpios do gosto e descubra em que que um juzo de gosto se baseia, por conseguinte na medida em que pode contribuir para que ele ajuze correctamente. Aquilo que se usa correcta ou incorrectamente no o gosto, mas a faculdade do juzo. Cultivar, exercitar e corrigir o gosto significa, mais geralmente, aguar a faculdade do juzo, de maneira a que, quando se pretende ajuizar se um objecto belo, se o faa atravs da faculdade de juzo esttica (o gosto) e segundo os seus princpios.

    de notar, entretanto, que nem o facto de a faculdade do juzo ser algo que aguado, nem o facto de as cincias belas poderem ter importncia para o proferimento do juzo de gosto, nenhum desses factos interfere na validade de que Kant tenta dotar a referida espcie de juzo. Se a ignorncia quanto aos contedos das cincias mencionadas por Kant no

    de a tornar eficaz in concreto no seu comportamento (Kant, 2003: 55). Ainda na mesma obra, de resto, ele fala de um juzo amadurecido pela experincia e aguado pela observao (Kant, 2003: 75). A faculdade do juzo uma faculdade passvel de aguamento; e o aguamento da faculdade do juzo contribui para o seu uso correcto, por conseguinte para o proferimento de juzos correctos, sejam eles de gosto ou de outro tipo. 255 Entretanto, se recorremos Crtica da Razo Pura, vemos afirmado que a faculdade de julgar um talento especial, que no pode de maneira nenhuma ser ensinado, apenas exercido (Kant, 2001: 177) e que [a]guar a faculdade de julgar () a grande e nica utilidade dos exemplos (Kant, 2001: 178).

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    44 levar a que aqueles que os ignoram discordem dos que conhecem tais contedos, aquilo de que deveremos falar no de uma discrdia patente em juzos de gosto, mas simplesmente de uma incorreco, por parte de um dos grupos, na aplicao da faculdade do juzo. A diferena que um nvel superior de desenvolvimento da faculdade do juzo pode fazer em relao a um nvel inferior resume-se maior probabilidade de, quando pretende ajuizar se um objecto belo, aquele que possui uma faculdade menos desenvolvida ajuizar atravs de algo que no o gosto e os princpios do gosto, o que constitui to-s e apenas uma incorreco quanto quilo mediante o qual se ajuza.256

    256 Esta tese pode ser perspectivada como estando presente desde logo em O Belo e o Sublime, de 1764, ainda que noutros termos. Afirma Kant, a, que [q]ualquer que seja o gnero das sensaes tam delicadas de que tratamos at aqui, sublimes ou belas, sofrem o destino comum de aparecerem como falsas e absurdas aos olhos de todo aqule cuja sensibilidade no concorda com elas (Kant, 1943: 36). Tal acontece porque [a]inda que no falte por completo uma sensibilidade apropriada, existem graus muito diferentes, e v-se que um encontra nobre e digno uma coisa que para outros extravagante (Kant, 1943: 37). Mas o que est em causa sempre aquilo no qual o juzo baseado. Da o nosso autor acrescentar que [n]o se tem razo quando se acusa de no entender a quem no v o valor ou a formosura do que nos comove ou encanta, pois [t]rata-se aqui no tanto do que o entendimento compreende como do que o sentimento experimenta (Kant, 1943: 38). Coerentemente, no texto Investigao sobre a Clareza dos Princpios da Teologia Natural e da Moral, tambm de 1764, Kant assinala que [o]s erros () no decorrem unicamente do facto de no se saber certas coisas, mas de se ousar julgar, mesmo que ainda no se saiba tudo o que para tal seria necessrio (Kant, 2006: 87). A este propsito, igualmente relevante fazer uma referncia a Donald W. Crawford. Questionando-se acerca do lugar que a apresentao de razes poder ter na teoria esttica de Kant, Crawford prope a possibilidade de discrdia relativamente beleza de um objecto sem que os juzos em causa deixem de ser juzos de gosto. Segundo Crawford, essa discrdia parece ser o resultado no do tipo de ateno errado ou da atitude (impura como oposta a pura, interessada como oposta a desinteressada), mas de uma ateno ou de um apercebimento incompleto das caractersticas esteticamente relevantes da obra a ser considerada (Crawford, 1974: 168). Exemplificando, o comentador afirma que algum pode ter falhado em notar e incorporar nos fundamentos do seu juzo acerca da Nona Sinfonia de Beethoven a importante estrutura da abertura do movimento final a justaposio do baixo de cordas recitativo com o tema principal de cada um dos movimentos precedentes em jogo, dando espao a uma voz baixa recitativa e finalmente a uma afirmao completa do tema principal do movimento

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    Algo anlogo se passa no que diz respeito validade do sublime. No concernente quantidade, Kant informa, logo no pargrafo inaugural da Analtica do sublime (23) que os juzos acerca do sublime, tal como os juzos acerca do belo, so singulares (einzeln) (Kant, 1998: 137). So-no porque reivindicam simplesmente o sentimento de prazer e no o conhecimento do objecto (blo auf das Gefhl der Lust und auf kein Erkenntnis des Gegenstandes) (Kant, 1998: 137). Ao mesmo tempo, porm, eles so, segundo Kant, juzos que se anunciam como universalmente vlidos com respeito a cada sujeito (sich fr allgemeingltig in Ansehung jedes Subjekts ankndigende Urteile) (Kant, 1998: 137). Essa tese reforada e complementada no pargrafo seguinte: o comprazimento no sublime, assim como no belo, tem que ser, segundo a quantidade, de modo universalmente vlido (muss das Wohlgefallen am Erhabenen eben sowohl als am Schnen der Quantitt nach allgemeingltig machen) (Kant, 1998: 140); e segundo a modalidade (der Modalitt nach) esse comprazimento tem de representar a conformidade a fins subjectiva como necessria (als notwendig) (Kant, 1998: 140). O comprazimento no sublime , ento, de acordo com o que Kant sugere, quer no 25, quer na Observao geral sobre a exposio dos juzos reflexivos estticos, universalmente comunicvel (cf. Kant, 1998: 143 e 175); o juzo sobre o sublime pretender quilo a que o nosso autor chama, no 30, validade universalmente necessria (allgemein-notwendige Gltigkeit) (Kant, 1998: 181).

    Ainda no 23, Kant afirma que

    final (Crawford, 1974: 168). No entanto, como o prprio Crawford bem acaba por sugerir, a discrdia pode ser meramente aparente cada um dos juzes pode referir-se a um objecto diferente: o este em cada um dos seus juzos de gosto refere-se a diferentes objectos de apercebimento (Crawford, 1974: 168), no havendo, portanto, uma base comum de juzo, isto , um objecto comum (intersubjectivo) de experincia e por conseguinte de avaliao (Crawford, 1974, 169). Citando S. Krner, diramos que nestes casos h uma falha para identificar o todo final, com o qual se confrontado com alguma obra de arte cuja estrutura se nos desvenda apenas depois de muita ateno, trabalho e pacincia (Krner, 1984: 187-188).

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    j se tem que ter preenchido o nimo com muitas ideias se atravs de uma tal intuio [a saber, a intuio do extenso oceano, revolto por tempestades] nos devemos dispor a um sentimento, o qual ele mesmo sublime, enquanto o nimo incitado a abandonar a sensibilidade e ocupar-se com ideias que possuem uma conformidade a fins superior (man muss das Gemt schon mit mancherlei Ideen angefllt haben, wenn es durch eine solche Anschauung zu einem Gefhl gestimmt werden soll,

    welches selbst erhaben ist, indem das Gemt die Sinnlichkeit zu

    verlassen und sich mit Ideen, die hhere Zweckmigkeit enthalten, zu

    beschftigen angereizt wird) (Kant, 1998: 139).

    Entretanto, no 25, o nosso autor acrescenta que o sublime no deve ser procurado nas coisas da natureza, mas unicamente nas nossas ideias (das Erhabene nicht in den Dingen der Natur, sondern allein in unsern Ideen

    zu suchen sei) (Kant, 1998: 144). Uma maior clarificao dessa tese encontra-se no pargrafo que especificamente diz respeito ao sublime dinmico (28) e naquele que imediatamente se lhe segue e que tem como assunto a modalidade do juzo sobre o sublime da natureza (29). Se no primeiro se fala de uma efectiva impotncia momentnea (gegenwrtigen wirklichen Ohnmacht) da qual o sujeito pode ser consciente (bewusst sein) (Kant, 1998: 159); contudo no segundo que se percebe que essa s ultrapassada sob a pressuposio de ideias, pois s sob a pressuposio das mesmas (nur unter der Voraussetzung derselben) que o terrificante para a sensibilidade (das Abschreckende fr die Sinnlichkeit) se torna ao mesmo tempo atraente (zugleich anziehend) (Kant, 1998: 162). A que ideias se refere Kant nesses dois pargrafos? Se no 28 o nosso autor adianta que a disposio sublimidade se encontra na nossa natureza, enquanto o desenvolvimento e exerccio [da faculdade espiritual] nos confiado e permanece obrigao nossa (in unserer Natur ist; indessen dass die Entwickelung und bung desselben uns berlassen und obliegend bleibt) (Kant, 1998: 159); no pargrafo seguinte que ele concretiza a sua perspectiva, nomeadamente ao referir que o fundamento do juzo acerca do sublime reside na natureza humana e, na verdade, naquela que com o so entendimento se pode ao mesmo tempo imputar e exigir de qualquer um, a saber na disposio ao

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    sentimento para ideias (prticas), isto ao sentimento moral (in der menschlichen Natur und zwar demjenigen, was man mit dem gesunden

    Verstande zugleich jedermann ansinnen und von ihm fordern kann,

    nmlich in der Anlage zum Gefhl fr (praktische) Ideen, d. i. zu dem

    moralischen) (Kant, 1998: 163). Pressupondo, ento, que o nimo est preenchido com ideias prticas e, na medida em que nossa obrigao, enquanto homens, cultivar (desenvolver e exercitar) a faculdade espiritual, pressupondo que da natureza humana estar disposto ao sentimento moral, assim tenta Kant sustentar aquilo que diz ser a necessidade do assentimento do juzo de outros com o nosso acerca do sublime, o qual ao mesmo tempo inclumos neste juzo (die Notwendigkeit der Beistimmung des Urteils anderer vom Erhabenen zu dem unsrigen, welche wir in diesem

    zugleich mit einschlieen) (Kant, 1998: 163). de ressalvar, porm, que no obstante o cultivo (a cultura) da

    faculdade espiritual tratar-se de algo a que estamos obrigados, no obstante, ento, devermos proceder ao desenvolvimento de ideias morais, isso no significa que sempre o faamos. Como o prprio Kant nota, j depois da Analtica do sublime, no 39,

    [n]o estou absolutamente autorizado a pressupor que outros homens tomem esse sentimento [a saber, o sentimento do seu destino supra-sensvel, o qual, por mais obscuro que possa ser, tem uma base moral] em considerao e encontrem na contemplao da grandeza selvagem da natureza um comprazimento (que verdadeiramente no pode ser atribudo ao seu aspecto e que antes aterrorizante) ([d]as aber andere Menschen darauf Rcksicht nehmen und in der Betrachtung der rauhen

    Gre der Natur ein Wohlgefallen finden werden (welches wahrhaftig

    dem Anblicke derselben, der eher abschreckend ist, nicht zugeschrieben

    werden kann), bin ich nicht schlechthin vorauszusetzen berechtigt) (Kant, 1998: 194).

    Aqueles que mais facilmente tomam o sentimento do seu destino supra-sensvel em considerao so os homens a que, no 29, o nosso autor chama preparados pela cultura (durch Kultur vorbereitet), e por isso as reaces que eles tm perante as demonstraes de violncia da natureza em sua destruio e na grande medida do poder desta

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    256 CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana

    (Beweistmern der Gewalt der Natur in ihrer Zerstrung und an dem groen Mastabe ihrer Macht) so completamente diferentes das do homem inculto (rohen Menschen) (Kant, 1998: 162). Onde os homens preparados pela cultura descobrem a sublimidade, o homem inculto v puro sofrimento, perigo e privao (lauter Mhseligkeit, Gefahr und Not) (Kant, 1998: 162). De resto, igualmente a tese segundo a qual o sentimento do sublime pressupe a tomada em considerao de ideias morais aquilo que leva Kant a afirmar que com os nossos juzos sobre o sublime na natureza no podemos iludir-nos to facilmente [como com os nossos juzos sobre o belo na natureza] sobre a adeso de outros (mit unserm Urteile ber das Erhabene in der Natur knnen wir uns nicht so

    leicht Eingang bei andern versprechen) e que no caso do sublime parece exigvel uma cultura de longe mais vasta (es scheint eine bei weitem grere Kultur erforderlich zu sein) para que possamos imputar, e tambm sem errar muito, [possamos] esperar directamente de qualquer um, unanimidade do juzo com o nosso (Einstimmigkeit des Urteils mit dem unsrigen jedermann geradezu ansinnen und auch, ohne

    sonderlich zu fehlen, erwarten knnen) (Kant, 1998: 162).257 No caso do belo, o mbito o daquela maneira de pensar a que Kant chama, no 40, maneira de pensar alargada (erweiterten Denkungsart) (cf. Kant, 1998: 196-197); no caso do sublime, trata-se do mbito da maneira de pensar consequente (konsequenten Denkungsart), acerca da qual Kant diz que a mais difcil de se alcanar (ist am schwersten zu erreichen) (Kant, 1998: 198). A emergncia do sentimento do sublime facilitada por um maior desenvolvimento de ideias morais, isto , pelo alcance de uma cultura vasta. A possibilidade de algum ser inculto e no considerar o seu destino supra-sensvel, porm, no enfraquece as razes que aquele que sente um comprazimento perante a supracitada grandeza selvagem da natureza tem, segundo o nosso autor, para postular em

    257 Essa posio reforada, ainda no mesmo pargrafo, quando Kant assinala que o juzo acerca do sublime necessita cultura (mais do que o juzo sobre o belo) (Kultur (mehr als das ber das Schne) (Kant, 1998: 163).

  • PARA A PRODUO DE BELA ARTE

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    qualquer um aquele comprazimento (jenes Wohlgefallen jedermann ansinnen) (Kant, 1998: 194). Embora nem todos os homens cumpram sempre a obrigao de ter em vista as referidas disposies morais, a observao dessas disposies no deixa de ser sua obrigao.

    A ligao entre o sentimento do sublime, as ideias morais e a cultura permite-nos compreender, de resto, duas concluses, elas prprias ligadas entre si. A validade universal de que o comprazimento no sublime dotado, embora seja uma validade universal subjectiva, no deixa de ser uma validade universal a priori. uma validade universal subjectiva porque a pressuposio que sustenta a exigncia de comprazimento universal uma pressuposio subjectiva (einer subjektiven Voraussetzung) (Kant, 1998: 163); uma validade universal a priori porque, sendo a observao das disposies morais, e portanto o sentimento moral, um dever de todos os homens, aquela pressuposio subjectiva uma pressuposio subjectiva que porm nos cremos autorizados a poder postular de qualquer um (die wir aber jedermann ansinnen zu drfen uns berechtigt glauben) (Kant, 1998: 163). Esta a primeira concluso que agora se compreende.258 Uma segunda concluso tambm se refere validade do juzo acerca do sublime. No caso deste juzo esttico, a faculdade do juzo, como assinalado no 29, refere a faculdade da imaginao razo como faculdade das ideias (die Einbildungskraft auf Vernunft als Vermgen der Ideen bezieht) (Kant, 1998: 163). Ora, enquanto a considerao dessas ideias constitui um dever, a pretenso do juzo acerca do sublime validade universal a priori no carece, segundo o nosso autor, de uma deduo isto , nas palavras do 30, de uma legitimao da sua presuno (einer Legitimation seiner Anmaung) (Kant, 1998: 179), de uma deduo da sua pretenso a algum princpio a priori (subjectivo) (eine Deduktion seines Anspruchs

    258 a universalidade subjectiva a priori do comprazimento no sublime, alis, aquilo que, segundo Kant, nos leva a dizermos que no tem nenhum sentimento aquele que permanece insensvel junto ao que julgamos ser sublime (von dem, der bei dem, was wir erhaben zu sein urteilen, unbewegt bleibt, er habe kein Gefhl) (Kant, 1998: 163).

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    258 CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana

    auf irgend ein (subjektives) Prinzip a priori) (Kant, 1998: 180). Essa presuno estar legitimada precisamente enquanto o postular em qualquer outro do comprazimento no sublime somente possvel, conforme salvaguardado no 39, atravs da lei moral, que por sua vez fundada sobre conceitos da razo (vermittelst des moralischen Gesetzes, welches seinerseits wiederum auf Begriffen der Vernunft gegrndet ist) (Kant, 1998: 194).

    A dispensa de uma deduo para o caso do juzo acerca do sublime explicada por Kant no primeiro pargrafo da Deduo dos juzos estticos puros, o j citado 30, cujo ttulo , precisamente, A deduo dos juzos estticos sobre os objectos da natureza no pode ser dirigida

    quilo que nesta chamamos sublime (Die Deduktion der sthetischen Urteile ber die Gegenstnde der Natur darf nicht auf das, was wir in dieser erhaben nennen, sondern nur auf das Schne gerichtet werden) (Kant, 1998: 179). Embora logo no primeiro pargrafo da Analtica do sublime (23) Kant adiante que o fundamento para o sublime tem de ser procurado simplesmente em ns e na maneira de pensar que introduz sublimidade (blo in uns und der Denkungsart, die Erhabenheit hineinbringt) (Kant, 1998: 140), apesar de, alm disso, na Observao geral sobre a exposio dos juzos reflexivos estticos, o nosso autor afirmar que o sublime sempre tem que se referir maneira de pensar, isto a mximas, para conseguir o domnio do intelectual e das ideias da razo sobre a sensibilidade (muss das Erhabene jederzeit Beziehung auf die Denkunsart haben, d. i. auf Maximen, dem Intellektuellen und den Vernunftideen ber die Sinnlichkeit Obermacht zu verschaffen) (Kant, 1998: 173); s no 30, porm, que ele concretiza essa afirmao: o sublime da natureza s impropriamente chamado assim e propriamente s tem que ser atribudo maneira de pensar, ou muito antes ao fundamento da mesma na natureza humana (das Erhabene der Natur nur uneigentlich so genannt werde und eigentlich blo der Denkungsart, oder

    vielmehr der Grundlage zu derselben in der menschlichen Natur beigelegt

    werden msse) (Kant, 1998: 180). Essa maneira de pensar , como j vimos, a maneira de pensar consequente, e a sua mxima, que incita a

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    [p]ensar sempre de acordo consigo prprio ([j]ederzeit mit sich selbst einstimmig denken) (Kant, 1998: 196), no outra que no a mxima da razo (der Vernunft) (Kant, 1998: 198). O seu fundamento na natureza humana, por sua vez, a lei moral, e, por conseguinte, a disposio ao sentimento moral. Ora, aquilo que Kant assinala no 30 que [a] apreenso de um objecto, alis sem forma e no conforme a fins, d meramente motivo para nos tornarmos conscientes deste fundamento [da maneira de pensar na natureza humana] ([d]ieser sich bewusst zu werden, gibt die Auffassung eines sonst formlosen und unzweckmigen

    Gegenstandes blo die Veranlassung) (Kant, 1998: 180). Pois bem, sendo isso o que acontece no processo que conduz ocorrncia do sentimento do sublime, Kant conclui que a nossa exposio dos juzos sobre o sublime da natureza era ao mesmo tempo a sua deduo (war unsere Exposition der Urteile ber das Erhabene der Natur zugleich ihre

    Deduktion) (Kant, 1998: 180), pois, como continua imediatamente a seguir,

    quando decompusemos nos mesmos a reflexo da faculdade do juzo, encontramos neles uma relao conforme a fins das faculdades do conhecimento, que tem de ser posta a priori no fundamento da faculdade dos fins (a vontade) e por isso ela mesma a priori conforme a fins; o que contm pois imediatamente a deduo, isto a justificao da pretenso de um semelhante juzo validade universalmente necessria (wenn wir die Reflexion der Urteilskraft in denselben zerlegten, so fanden wir in ihnen ein zweckmiges Verhltnis der

    Erkenntnisvermgen, welches dem Vermgen der Zwecke (dem Willen)

    a priori zum Grunde gelegt werden muss und daher selbst a priori zweckmig ist: welches denn sofort die Deduktion, d. i. die

    Rechtfertigung des Anspruchs eines dergleichen Urteils auf allgemein-

    notwendige Gltigkeit, enthlt) (Kant, 1998: 180-181).

    Ficam, assim, respondidas as duas questes que aparecem no final do 26:

    Visto que tudo o que deve aprazer sem interesse faculdade do juzo meramente reflexiva tem de comportar, na sua representao, uma conformidade a fins subjectiva e como tal universalmente vlida, se bem que aqui no se situe no fundamento nenhuma conformidade a fins da forma do objecto (como no belo), pergunta-se: qual esta

  • SE E COMO PODER UMA OBRA DE ARTE SER BELA

    260 CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana

    conformidade a fins subjectiva? E atravs de que ela prescrita como norma, para na simples apreciao da grandeza e na verdade daquela que foi levada at inadequao da nossa faculdade da imaginao na exposio do conceito de uma grandeza fornecer um fundamento para o comprazimento universalmente vlido? (Weil alles, was der blo reflektierenden Urteilskraft ohne Interesse gefallen soll, in seiner

    Vorstellung subjektive und als solche allgemein-gltige

    Zweckmigkeit bei sich fhren muss, gleichwohl aber hier keine

    Zweckmigkeit der Form des Gegenstandes (wie beim Schnen) der

    Beurteilung zum Grunde liegt, so fragt sich: welches ist diese

    subjektive Zweckmigkeit? und wodurch wird sie als Norm

    vorgeschrieben, um in der bloen Grenschtzung und zwar der,

    welche gar bis zur Unangemessenheit unseres Vermgens der

    Einbildungskraft in Darstellung des Begriffs von einer Gre

    getrieben worden, einen Grund zum allgemeingltigen Wohlgefallen

    abzugeben?) (Kant, 1998: 148).

    A conformidade a fins pela qual se pergunta a conformidade a fins em referncia aos fins da razo prtica.259 Ela prescrita como norma atravs do interesse moral. No caso do juzo acerca do sublime, a comunicabilidade universal do nosso sentimento comporta em si um interesse para ns o interesse moral. Por essa razo que a sua pretenso, segundo Kant, no carece de uma deduo a algum princpio a priori (subjectivo) (auf irgend ein (subjektives) Prinzip a priori) (Kant, 1998: 180).

    Feita esta digresso pelo sentimento do sublime, nomeadamente pela temtica da validade de um tal sentimento, para mostrar que o facto de esse sentimento aconselhar cultura no tem qualquer influncia sobre a validade de que Kant o tenta dotar, devemos regressar faculdade do juzo e ao seu aguamento. Mais concretamente, devemos observar a contribuio que esse aguamento poder ter para a bela arte.

    259 Esta tese est plasmada na Observao geral sobre a exposio dos juzos reflexivos estticos, onde Kant nota que o sublime, como explicao do julgamento esttico universalmente vlido (sthetischer allgemeingltiger Beurteilung), refere-se a fundamentos subjectivos () em oposio sensibilidade para os fins da razo prtica (sich auf subjektive Grnde wie sie wider dieselbe, dagegen fr die Zwecke der praktischen Vernunft bezieht) (Kant, 1998: 166).

  • PARA A PRODUO DE BELA ARTE

    CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana 261

    Aguada a faculdade do juzo daquele que dotado de gnio, cultivado, exercitado e corrigido o seu gosto, atravs do julgamento de objectos que foram ou tm vindo a ser considerados exemplos de beleza, torna-se mais fcil para ele no apenas ajuizar correctamente o que, quando se trata de beleza, significa ajuizar segundo os princpios do gosto mas, atravs de um juzo correcto, avaliar a capacidade que a sua obra tem de fazer com que qualquer outro possa melhor procurar, em si mesmo, por ocasio da representao dela, os princpios do gosto. Fica, assim, compreendido em que medida para a bela arte em sua inteira perfeio se requer muita cincia (es werde zur schnen Kunst in ihrer ganzen Vollkommenheit viel Wissenschaft erfordert) (Kant, 1998: 208) e as equivocadamente chamadas cincias belas constituem a preparao necessria e a base para a bela arte (zur schnen Kunst die notwendige Vorbereitung und Grundlage) (Kant, 1998: 209). Ao mostrarmos a importncia dessas cincias para a faculdade do juzo, e consequentemente para o gosto, mostramos, ao mesmo tempo, a sua importncia para a bela arte.260

    260 De acordo com Maria Filomena Molder, aquilo que um poeta tem de fazer para se tornar poeta [a]prender a reconhecer a poesia graas leitura dos outros poetas, conseguir a maestria do talento, desdobr-lo, expandi-lo (Molder, 2007: 383). Molder est a falar da educao, do progresso do sentimento naquele que produz obras poticas, obras de arte (Molder, 2007: 382). Diz ela que [o] poeta tem de cultivar a poesia a fim de purificar, firmar, afinar o seu prprio juzo, quer dizer, educar o seu prprio sentimento (Molder, 2007: 382). Trata-se de educao sentimental, trata-se daquilo que a intrprete diz ser a tarefa mais humana: aprender a aceitar a beleza (Molder, 2014: 118), pois [m]esmo se sabemos ler, mesmo se ouvimos e vemos muito bem, mesmo se os nossos ouvidos e os nossos olhos preenchem a sua funo, podemo-nos descobrir surdos e cegos, incapazes de ouvir a palavra dos poetas, incapazes de ver uma pintura ou uma escultura (Molder, 2014: 116). O poeta educa-se no plano sentimental atravs de um movimento de olhar para trs [que] se manifesta como descoberta do outro, procura das fontes, acto de rememorao: o sentido de realizar um gesto, de acenar para o sentido, de receber e de transmitir (Molder, 2007: 383). No entender de Molder, a tradio a atmosfera nutritiva da actividade potica e, alm disso, a actividade potica apresenta-se como a imagem originria da histria; dito de outro modo, a poesia como tradio revela ser o modelo da histria sob todas as suas formas (Molder, 2007: 383).

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    262 CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana

    No apenas enquanto os objectos artsticos mencionados nas cincias referidas por Kant no 44 so exemplos do cumprimento das regras associadas componente mecnica, coerciva e escolstica do tipo de arte que representam que essas cincias so importantes para a bela arte.261 Para que aquele que ajuza seja ele um gnio ou no o seja ajuze correctamente, aconselhvel que a sua faculdade do juzo esteja aguada. Acabmos de ver que e como para o aguamento da faculdade do juzo podem contribuir os juzos acerca de belas obras de arte. Tendo em conta que muitas belas obras de arte esto referenciadas nas equivocadamente chamadas cincias belas, o conhecimento dos contedos dessas cincias importante para o aguamento da faculdade do juzo e, portanto, para o uso correcto dessa faculdade por exemplo, para o proferimento de um juzo de gosto quando se pretende ajuizar se algo belo. Sendo assim, estamos em condies de afirmar que tais cincias podem contribuir para a bela arte na medida em que podem contribuir para o aguamento da faculdade do juzo e, portanto, para o proferimento de juzos correctos, nomeadamente da parte do artista genial.262 Devemos recordar que o gnio 261 Nesse sentido, eles, assim como as cincias que os mencionam, plasmam o gosto enquanto corpus. O conhecimento das referidas regras, atravs do conhecimento de objectos que as cumprem, promove a criao de obras de arte nas quais essas regras igualmente so cumpridas. 262 Compreende-se, tambm neste contexto, algo que Kant afirma no ltimo pargrafo da Crtica da Faculdade de Juzo Esttica (60), a saber, que [a] propedutica a toda a bela arte, na medida em que est disposta para o mais alto grau da sua perfeio, no parece encontrar-se em preceitos, mas na cultura das faculdades do nimo atravs daqueles conhecimentos prvios que se chamam humaniora ([d]ie Propdeutik zu aller schnen Kunst, sofern es auf den hchsten Grad ihrer Vollkommenheit angelegt

    ist, scheint nich in Vorschriften, sondern in der Kultur der Gemtskrfte durch

    diejenigen Vorkenntnisse zu liegen, welche man humaniora nennt) (Kant, 1998: 265). Ajudando a que aquele que ajuza se questione quanto correco do seu juzo, isto , quanto a estar a ajuizar atravs da faculdade adequada e considerando os princpios dessa faculdade, o conjunto de conhecimentos supracitado possibilita-lhe o aguamento da sua capacidade de ajuizar e, por conseguinte, se ele, alm de fruidor, criador, um embelezamento da sua arte. Note-se, alis, que no mesmo pargrafo, ainda antes das palavras que acabmos de citar, Kant indica que a efectivao do processo de sucesso entre artistas dotados de gnio requer uma crtica penetrante (scharfe Kritik) (Kant, 1998: 265).

  • PARA A PRODUO DE BELA ARTE

    CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana 263

    educvel concretamente, ele educado pelo gosto (cf. Kant, 1998: 226). Assim, para produzir objectos artsticos belos, aquele que dotado de gnio tem de exercer o seu gosto, e o seu gosto tem de ser um gosto exercitado, uma faculdade do juzo aguada. S exercitando o seu gosto, s aguando a sua faculdade do juzo, s recorrendo a uma faculdade do juzo aguada, s exercendo um gosto exercitado, s assim pode ele produzir uma bela obra de arte.

    ***

    Consideramos ter respondido de maneira suficientemente fundamentada questo de saber o que necessrio para a produo de bela arte, isto , para a produo de objectos artsticos belos.

    Para tal, fomos obrigados a conciliar os indcios contraditrios dados na Crtica da Faculdade do Juzo relativamente aos talentos necessrios para a produo de belas obras de arte. Fizemo-lo atravs de uma chamada de ateno para o carcter educvel do gnio, para o carcter cultivvel, exercitvel e corrigvel do gosto e para o carcter aguvel da faculdade do juzo.

    Aquele que dotado de gnio s est pronto para produzir belas obras de arte se exercitar o seu gosto e se o seu gosto estiver suficientemente cultivado, exercitado e corrigido. O seu gosto cultivado, exercitado e corrigido atravs do aguamento da sua faculdade do juzo. A sua faculdade do juzo aguada mediante o conhecimento de obras de arte que ao longo da histria foram ou tm vindo a ser consideradas exemplos de beleza. Essas obras de arte fazem parte dos contedos das equivocadamente chamadas cincias belas. Assim sendo, o conhecimento (de objectos que compem os contedos) dessas cincias contribui especialmente para a produo de belos objectos artsticos, para a produo de obras de arte belas, para a produo de bela arte.

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    Concluso

    Ao longo deste estudo, tentmos responder a duas questes: a de saber se e como pode falar-se de bela arte, no obstante uma tal noo atravessar a primeira parte da Crtica da Faculdade do Juzo, e a de saber o que necessrio para a produo de obras de arte belas, sem prejuzo da afirmao segundo a qual a bela arte a arte do gnio.

    A elaborao de uma resposta suficientemente fundamentada primeira questo obrigou-nos a convocar vrias outras. Entre elas, ainda na primeira metade da nossa tese, as questes de saber o que um juzo de gosto, qual o princpio do gosto, como tenta Kant justificar que o juzo de gosto seja um juzo esttico universalmente vlido a priori, quais os requisitos que um juzo tem de cumprir para que atravs dele se declare artstico um objecto ou que exigncias tem um juzo de satisfazer para que atravs dele se declare bela uma obra de arte.

  • CONCLUSO

    CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana 265

    Foi precisamente a enunciao das exigncias que um juzo pretendido ser de gosto tem de satisfazer para que atravs dele uma obra de arte seja declarada bela que nos levou a questionar o significado e a legitimidade da noo de bela arte. Colocada lado-a-lado com a apresentao dos requisitos que um juzo tem de cumprir para ser um juzo de gosto, aquela enunciao torna a noo de bela arte uma contradio nos termos, levando-nos a concluir que no pode ajuizar-se uma obra de arte atravs de um juzo de gosto, declarar-se belo um objecto artstico, falar-se de bela arte.

    Uma tal concluso , no entanto, precipitada. Kant no apenas ocupa uma parte significativa do seu texto a falar de bela arte, como menciona mesmo obras de arte declaradas belas.

    Procurando compreender o significado da noo de bela arte, legtima ou no, a partir da sua definio como arte do gnio, e, muito particularmente, a partir da explicitao da noo de ideia esttica e da denominao da beleza como expresso de ideias estticas, fomos levados a considerar que, no entender de Kant, o exerccio da faculdade da imaginao daquele que ajuza, mesmo quando no seu juzo ele considera conceitos determinados, pode ser no meramente um exerccio harmnico com a actividade do entendimento, mas tambm um exerccio livre. possvel um exerccio livre da faculdade da imaginao, alis, mesmo se for tida em conta uma perfeio do objecto, isto , uma conformidade a fins objectiva interna. Trata-se de um exerccio livre mas limitado.

    Pois bem, na medida em que essa possibilidade que legitima as noes de beleza aderente como beleza e de juzo de gosto aplicado como juzo de gosto, ela que sustenta a possibilidade de ajuizar-se uma obra de arte atravs de um juzo de gosto, a possibilidade de declarar-se belo um objecto artstico, a possibilidade de falar-se de bela arte, enfim, a legitimidade desta noo. Entretanto, a partir de uma interpretao do termo representao e de uma segunda releitura das distines estabelecidas por Kant entre beleza livre e beleza aderente e entre puro juzo de gosto e juzo de gosto aplicado assim como da aceitao da plurivocidade de sentido da noo de gosto na Crtica da Faculdade do

  • SE E COMO PODER UMA OBRA DE ARTE SER BELA

    266 CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana

    Juzo sustentmos aquilo que de mais exigente o 16 nos solicita: a admisso da possibilidade de ajuizar-se uma obra de arte atravs de um puro juzo de gosto, a admisso da possibilidade de declarar-se livremente belo um objecto artstico, a legitimidade de falar-se de bela arte como beleza livre.

    Recapitulemos, ento, as condies para responder questo de saber se legtimo falar-se de bela arte. A essa questo pode responder-se afirmativa ou negativamente. A nossa investigao mostrou que uma resposta negativa deve ser recusada.263 Ainda assim, importante recordar as suas condies. Entre as respostas positivas, h duas respostas devidamente fundamentadas. Resumiremos aquilo no qual cada uma delas assenta.

    Uma resposta questo de saber se pode falar-se de bela arte baseada no ttulo do 15, de acordo com o qual [o] juzo de gosto totalmente independente do conceito de perfeio ([d]as Geschmacksurteil ist von dem Begriffe der Vollkommenheit gnzlich unabhngig) (Kant, 1998: 117), e na tese, do 48, segundo a qual no juzo atravs do qual se declara bela uma obra de arte tem que ser posto antes no fundamento um conceito daquilo que a coisa deva ser (muss zuerst ein Begriff von dem, was das Ding sein soll) e tem que ser tida em conta ao mesmo tempo a perfeio da coisa (wird zugleich die Volkommenheit des Dinges in Anschlag gebracht werden mssen) (Kant, 1998: 216), uma tal resposta tem de ser negativa. Se o juzo atravs do qual se declara belo um objecto um juzo de gosto e se o juzo atravs do qual se declara bela uma obra de arte no pode ser um juzo de gosto, ento uma obra de arte no pode ser declarada bela mais simplesmente: uma obra de arte no pode ser bela. Por conseguinte, no legtimo falar-se de bela arte.

    263 Embora seja a letra da Crtica da Faculdade do Juzo, nomeadamente o ttulo do 15, a possibilitar essa resposta, negativa, igualmente a letra da terceira Crtica, nomeadamente a manuteno dos termos beleza e juzo de gosto, no 16, quando se trata, respectivamente, de beleza aderente e de juzos de gosto aplicados, a indiciar a carncia de justificaes satisfatrias para uma tal resposta. O esprito da obra de Kant d fora tese segundo a qual pode falar-se de bela arte.

  • CONCLUSO

    CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana 267

    Ao dar essa resposta, considera-se ilegtima a distino estabelecida por Kant, no 16, entre beleza livre e beleza aderente ou, equivalentemente, entre puro juzo de gosto e juzo de gosto aplicado.264 H um conflito entre os critrios da beleza aderente e os critrios da beleza, entre os critrios do juzo de gosto aplicado e os critrios do juzo de gosto: se a beleza aderente pressupe um conceito daquilo que o objecto deva ser e a perfeio do objecto segundo esse conceito, ento ela no pode ser uma beleza; se num juzo de gosto aplicado se considera o fim do objecto, e, portanto, o que se tem no pensamento, ento um juzo de gosto aplicado no pode ser um juzo de gosto. Embora alicerada precisamente no ttulo do pargrafo anterior (15) uma tal recusa da distino estabelecida por Kant supe uma no considerao de quais sero as razes para o nosso autor chamar beleza beleza aderente e juzo de gosto ao juzo de gosto aplicado. Alm disso, ela entra em conflito com qualquer referncia de Kant beleza da arte, beleza de obras de arte, bela arte. Ora, ao longo da Crtica da Faculdade de Juzo Esttica, com especial destaque para os 44-53, so inmeras as referncias do nosso autor a uma bela arte.265

    Uma segunda resposta questo de saber se e sob que condies legtimo falar-se de bela arte pode ter como ponto de partida precisamente a procura das razes pelas quais Kant chama beleza beleza aderente e juzo de gosto ao juzo de gosto aplicado e as inmeras referncias a uma arte bela feitas pelo nosso autor. No caso de se considerar que um juzo no qual a faculdade da imaginao se exerce livremente, mesmo que limitada, pode ser um juzo de gosto, nesse caso pode falar-se de bela arte. A

    264 Igualmente se consideram ilegtimas as noes de beleza fixada e juzo de gosto em parte intelectualizado, introduzidas no 17, e de juzo esttico logicamente condicionado, mencionada no 48. 265 Tivemos oportunidade de salientar esse facto do texto de Kant como segundo facto a ter em conta para no limitar a resposta questo de saber se pode falar-se de bela arte a uma considerao do ttulo do 15 e da passagem, do 48, de acordo com a qual no juzo atravs do qual se declara bela uma obra de arte tm de ser tidos em conta um conceito daquilo que o objecto deva ser e a perfeio da obra de arte segundo esse conceito.

  • SE E COMO PODER UMA OBRA DE ARTE SER BELA

    268 CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana

    afirmao da correco dessa premissa legitima as distines estabelecidas por Kant no 16. F-lo em detrimento do ttulo do 15. Esse ttulo tem de ser refutado: num juzo de gosto (num juzo atravs do qual se declara belo um objecto) pode ser tida em conta a perfeio do objecto. Nesse caso, o juzo de gosto aplicado, a beleza do objecto aderente, o objecto condicionadamente declarado belo.

    Pois bem, as consideraes que, ao longo dos 44-53, Kant profere acerca do exerccio da faculdade da imaginao, tais consideraes indicam que o exerccio dessa faculdade , no contexto da bela arte, um exerccio livre. Embora Kant no nos informe explicitamente daquilo que necessrio para que o exerccio da faculdade da imaginao seja um exerccio livre, embora ele no elenque as condies da liberdade dessa faculdade, o que ele afirma na parte mencionada da Crtica da Faculdade de Juzo Esttica indica que, quando se trata de produzir ou ajuizar obras de arte do gnio, o exerccio da faculdade da imaginao um exerccio suficientemente livre para que se profira um juzo de gosto, no obstante condicionado pelo reconhecimento de um conceito dado por exemplo, uma ideia da razo assim como pelo reconhecimento de um conceito daquilo que o objecto deva ser e pela observao da perfeio da obra de arte segundo esse conceito. A liberdade da faculdade da imaginao limitada, mas no esgotada.

    A segunda resposta questo de saber se legtimo falar-se de bela arte assenta, ento, na tese de acordo com a qual uma obra de arte pode ser condicionadamente declarada bela, isto , na tese segundo a qual um objecto artstico pode ser declarado belo atravs de um juzo de gosto aplicado. Trata-se de uma resposta afirmativa: pode falar-se de bela arte. Quando se fala de bela arte, est a falar-se de uma arte condicionadamente declarada bela, de uma arte declarada bela atravs de juzos de gosto aplicados. A beleza da arte , no contexto desta resposta, uma beleza aderente; o juzo atravs do qual se declara bela uma obra de arte , neste mbito, um juzo de gosto aplicado.

    Importa notar, porm, que uma resposta afirmativa questo de saber se pode falar-se de bela arte no tem de ser acompanhada pela afirmao

  • CONCLUSO

    CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana 269

    segundo a qual a beleza da arte uma beleza aderente ou, equivalentemente, o juzo atravs do qual se declara bela uma obra de arte um juzo de gosto aplicado. Essa necessidade no pode ser admitida se tivermos em conta o facto principal por ns apresentado como a considerar para uma legitimao da noo de bela arte: h obras de arte que so belezas livres, h objectos artsticos que so livremente declarados belos, que so declarados belos atravs de puros juzos de gosto (cf. Kant, 1998: 120).

    Conceber esse facto supe, em primeiro lugar, interpretar o termo representao num sentido exemplificativo ligado ao gosto. Alm disso, supe que, no contexto da bela arte, a distino entre beleza livre e beleza aderente ou, equivalentemente, entre puro juzo de gosto e juzo de gosto aplicado seja interpretada como uma distino entre, respectivamente, declaraes de beleza nas quais apenas so considerados propsitos e constrangimentos do mbito do gosto e declaraes de beleza nas quais so tidos em conta propsitos e constrangimentos que no pertencem a esse mbito. As obras de arte que semelhana dos objectos artsticos mencionados no 16 como sendo belezas livres representam apenas o tipo de obra de arte que devem ser, tais obras so livremente declaradas belas, isto , declaradas belas atravs de puros juzos de gosto. Assim, entre as respostas afirmativas questo de saber se pode falar-se de bela arte, h uma que afirma a possibilidade de falar-se de bela arte enquanto arte livremente declarada bela, enquanto arte declarada bela atravs de puros juzos de gosto. Algumas obras de arte so belezas livres, a beleza de alguma arte uma beleza livre, a beleza da arte pode ser uma beleza livre.

    Recapituladas as condies para responder questo de saber se pode falar-se de bela arte, voltemo-nos de novo para a resposta questo de saber o que necessrio para a produo de obras de arte belas. A elaborao de uma resposta suficientemente fundamentada a esta questo obrigou-nos a examinar e de alguma maneira conciliar as consideraes aparentemente contraditrias que, em especial nos pargrafos directamente concernentes bela arte, Kant profere acerca do gnio, do gosto e da relao entre esses dois talentos. A chave dessa conciliao

  • SE E COMO PODER UMA OBRA DE ARTE SER BELA

    270 CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana

    reside no carcter educvel do gnio e no carcter cultivvel, exercitvel e corrigvel do gosto.

    No obstante vrios artistas poderem ter em comum entre si o facto de serem dotados de gnio, o nosso estudo mostrou que esse facto no suficiente para que cada um deles produza objectos artsticos belos. Um aprendiz ou discpulo no est no mesmo patamar de prontido que um mestre para produzir uma bela obra de arte. Para que passe a estar, -lhe necessrio atravessar um processo de sucesso no qual a sua faculdade de juzo esttica, enquanto ajuizando a partir do sentimento da unidade na apresentao, desempenha um papel crucial. S exercendo o seu gosto pode o aprendiz ou discpulo dotado de gnio sentir a unidade na apresentao, suceder, tornar-se um mestre e, por conseguinte, passar a estar efectivamente pronto para produzir objectos artsticos que, alm de originais, sejam exemplares obras de arte de gnio, obras de arte geniais, belas obras de arte.

    Mas a nossa investigao no mostrou apenas que nem todos os artistas dotados de gnio esto no mesmo patamar de prontido para produzir belas obras de arte. Ela mostrou igualmente que nem todos aqueles que so dotados de gosto esto nas mesmas condies para ajuizar correctamente uma obra de arte como bela. Por conseguinte, nem apenas o gnio, nem sequer o gnio e o gosto, constituem condio suficiente para a produo de objectos artsticos belos. S um gnio educado e um gosto cultivado, exercitado e corrigido compem uma tal condio.

    Pois bem, o cultivo, o exercitamento e a correco do gosto correspondem ao aguamento da faculdade do juzo, nomeadamente de maneira a que, quando se trata de belas obras de arte, aquele que ajuza ajuze atravs dos princpios da faculdade de juzo esttica. Ora, assim como o gnio educado pelo gosto, a faculdade do juzo aguada para o julgamento da beleza da bela arte mediante objectos que ao longo da histria foram ou tm vindo a ser considerados exemplos de beleza, objectos esse que fazem parte dos contedos das equivocadamente chamadas cincias belas. Por conseguinte, o conhecimento (de objectos que compem os contedos) de tais cincias, ao contribuir para o

  • CONCLUSO

    CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana 271

    aguamento da faculdade do juzo, contribui especialmente para a produo de bela arte.

    Esto respondidas as questes que conduziram a nossa investigao Se e como poder falar-se de bela arte? O que necessrio para a produo de belas obras de arte? Esto recapituladas as nossas respostas. Vrias perguntas foram deixadas em aberto ao longo deste estudo necessariamente. Uma outra deve agora ser lanada.

    Cultivada, exercitada e corrigida a sua faculdade do juzo, aguada a sua faculdade do juzo atravs do conhecimento de objectos que foram ou tenham vindo a ser considerados exemplos de beleza, aquele que ajuza seja ele um gnio ou no o seja est mais apto a proceder a uma crtica do gosto j no como cincia, pois, enquanto tal, a Crtica da Faculdade do Juzo j critica o gosto, e assim o aprimora e consolida, mas como arte. No 34, logo a seguir a afirmar que a crtica do gosto arte (ist Kunst) se mostrar somente em exemplos (nur an Beispielen) a relao recproca do entendimento e da sensibilidade na representao dada (sem referncia sensao ou conceito precedentes), por conseguinte a unanimidade ou no unanimidade de ambos (wechselseitige Verhltnis des Verstandes und der Einbildungskraft zu einander in der gegebenen Vorstellung (ohne

    Beziehung auf vorhergehende Empfindung oder Begriff), mithin die

    Einhelligkeit oder Misshelligkeit derselben) (Kant, 1998: 187)266, Kant acrescenta que

    [a] crtica como arte procura meramente aplicar as regras fisiolgicas (aqui psicolgicas), por conseguinte empricas, segundo as quais o gosto efectivamente procede (sem reflectir sobre a sua possibilidade), ao julgamento dos seus objectos e critica os produtos da bela arte ([d]ie Kritik als Kunst sucht blo die physiologischen (hier psychologischen),

    mithin empirischen Regeln, nach denen der Geschmack wirklich

    266 No lugar de sensibilidade, deve escrever-se faculdade da imaginao. A palavra usada por Kant Einbildungskraft, como pode ser confirmado por intermdio da transcrio que fazemos do texto da Preuische Akademie der Wissenschaften.

  • SE E COMO PODER UMA OBRA DE ARTE SER BELA

    272 CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana

    verfhrt, (ohne ber ihre Mglichkeit nachzudenken) auf die Beurteilung

    seiner Gegenstnde anzuwenden und kritisiert die Produkte der schnen

    Kunst) (Kant, 1998: 187-188).

    Pois bem, ao aplicar as referidas regras e ao criticar as obras de arte que ao longo da evoluo da cultura foram ou tm vindo a ser aprovadas durante mais tempo, a crtica do gosto como arte pode colocar em causa os contedos das cincias mencionadas no 44.

    O princpio do gosto o princpio da conformidade a fins formal da natureza para as nossas faculdades de conhecimento. A observao de uma tal conformidade a fins possvel mediante um sentimento de prazer no movimento simultaneamente livre e harmnico das faculdades de conhecimento entre si por ocasio da representao do objecto. Proferir um juzo de gosto proferir um juzo baseado nesse princpio, isto , na observao de uma conformidade a fins formal do objecto, seja ele natural ou artstico, para as nossas faculdades de conhecimento. Se, por ocasio da representao de uma obra de arte referenciada nas equivocadamente chamadas cincias belas, aquele que ajuza no observar uma conformidade a fins formal desse objecto para as suas faculdades de conhecimento, ento ele pode questionar que tal objecto seja parte dos contedos dessas cincias. Pode question-lo pela simples razo de que no considera belo o objecto em causa. O mesmo acontece em sentido inverso. Se, mediante o proferimento de um juzo de gosto, aquele que ajuza declarar bela uma obra de arte, ento ele pode defender que essa obra de arte passe a fazer parte dos contedos das referidas cincias.

    Alm de termos mostrado a importncia de tais cincias para o gosto para o seu cultivo, para o seu exerccio, para a sua correco e, derivadamente, para a bela arte, mostramos, agora, a influncia que o cultivo, o exerccio e a correco do gosto podero ter sobre elas, sobre o que nelas afirmado. Considerando essa influncia, a questo que deixamos em suspenso a de saber se legtimo defender-se que a bela arte ser conduzida posteridade unicamente atravs de modelos de gosto de condies bem definidas consoante a

  • CONCLUSO

    CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana 273

    espcie de bela-arte em causa267 ou se essa conduo depender da inaugurao de uma nova regra de cada vez que um artista genial produz uma bela obra de arte268. Possam os nossos estudos ser conduzidos posteridade, possamos responder a essa questo em investigaes posteriores.

    267 No 47, Kant assinala que [o]s modelos da bela arte so () os nicos meios de orientao para conduzir a arte posteridade ([d]ie Muster der schnen Kunst sind die einzigen Leitungsmittel, diese auf die Nachkommenschaft zu bringen), como j notmos, e acrescenta que no ramo das artes do discurso () somente podem tornar-se clssicos os modelos em lnguas antigas, mortas e agora conservadas apenas como lnguas cultas (im Fache der redenden Knste knnen nur die im alten, toten und jetzt nur als gelehrte aufbehaltenen Sprachen klassisch werden) (Kant, 1998: 214). Antes, numa nota a uma passagem do 17, o nosso autor refere que [m]odelos do gosto com respeito s artes elocutivas tm que ser compostos numa lngua morta e culta: primeiro, para no ter que sofrer uma alterao, a qual atinge inevitavelmente as lnguas vivas, de modo que expresses habituais tornam-se arcaicas e expresses recriadas so postas em circulao por somente um curto perodo de tempo; segundo, para que ela tenha uma gramtica que no seja submetida a nenhuma mudana caprichosa da moda, mas possua a sua regra imutvel ([M]uster des Geschmacks in Ansehung der redenden Knste mssen in einer toten und gelehrten Sprache abgefat

    sein: das erste, um nicht die Vernderung erdulden zu mssen, welche die lebenden

    unvermeidlicher Weise trifft, dass edle Ausdrcke platt, gewhnliche veraltet und neugeschaffene in einen nur kurz dauernden Umlauf gebracht werden; das zweite,

    damit sie eine Grammatik habe, welche keinem mutwilligen Wechsel der Mode

    unterworfen sei, sondern ihre unvernderliche Regel hat) (Kant, 1998: 267). 268 Recordemos que no processo de sucesso a arte obtm uma nova regra (eine neue Regel) (Kant, 1998: 224) atravs de cada nova obra produzida pelo artista dotado de gnio, regra essa que no pde ser inferida de quaisquer princpios ou exemplos anteriores (die aus keinen vorhergehenden Prinzipien oder Beispielen hat gefolgert werden knnen) (Kant, 1998: 223).

  • 274 CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana

    Bibliografia

    Obras de Kant

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    Outras obras

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  • Anexos

  • 284 CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana

    1. TTULOS

    Crtica da Faculdade do Juzo Prlogo Primeira Introduo Introduo Crtica da Faculdade de Juzo Esttica (primeira parte)

    Analtica da faculdade de juzo esttica (primeira seco) Analtica do belo (primeiro livro)

    Primeiro momento do juzo de gosto, segundo a qualidade

    explicao do belo inferida do primeiro momento

    Segundo momento do juzo de gosto, a saber segundo a sua quantidade

    explicao do belo inferida do segundo momento

    Terceiro momento do juzo de gosto, segundo a relao dos fins que neles considerada

    explicao do belo deduzida deste terceiro momento

    Quarto momento do juzo de gosto segundo a modalidade do comprazimento no objecto

    explicao do belo inferida do quarto momento

    Observao geral sobre a primeira seco da analtica* Analtica do sublime (segundo livro) A. Do matemtico-sublime B. Do dinmico-sublime da natureza

    Observao geral sobre a exposio dos juzos reflexivos estticos Deduo dos juzos estticos puros

    Dialctica da faculdade de juzo esttica (segunda seco) Crtica da Faculdade de Juzo Teleolgica (segunda parte)

    Analtica da faculdade de juzo teleolgica (primeira diviso) Dialctica da faculdade de juzo teleolgica (segunda diviso) Doutrina do mtodo da faculdade de juzo teleolgica (apndice) Observao geral sobre a teleologia

    * No existe uma primeira seco da analtica; existe uma primeira seco da Crtica da Faculdade de Juzo Esttica e um primeiro livro da Analtica da faculdade de juzo esttica (cf. Kant, 1998: 469 e 471). A Observao geral sobre a primeira seco da analtica uma observao geral sobre o primeiro livro da Analtica da faculdade de juzo esttica, denominado Analtica do belo.

  • CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana 285

    2. ARTICULAO

    (Representao do) Objecto

    Sensus Communis Aestheticus, Gosto, Faculdade de Juzo Esttica

    Movimento Livre e Harmnico das Faculdades de Conhecimento

    Princpio da Conformidade a Fins Formal da Natureza para a

    nossa Faculdade de Conhecimento

    Conceito Racional Transcendental do Supra-Sensvel

    - condio do entendimento da legalidade do princpio da conformidade a fins formal da natureza para a nossa faculdade de conhecimento - fundamento da conformidade a fins subjectiva da natureza para a nossa faculdade do juzo

    Prazer

  • 286 CTK E-Books Serie Hermeneutica Kantiana

    3. LIVRE DECLARAO DA OBRA DE ARTE COMO BELA

    Obra de Arte

    Puro Juzo de Gosto

    Propsito Esttico** / Propsito do mbito do Gosto***

    - conceito do que a coisa deva ser enquanto tipo de obra

    Constrangimentos Estticos** / Constrangimentos do mbito do

    Gosto***

    - exigncias inerentes ao tipo de obra

    Perfeio

    - cumprimento das exigncias inerentes ao tipo de obra

    Declarao da Obra de Arte como Livremente Bela

    ** Esttico aquilo cujo fundamento de determinao no pode ser seno subjectivo

    *** Gosto faculdade de juzo esttica

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    Roberto R. Aramayo (IFS/CSIC, Spain): Main Editor of the Translatio

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    Mara Julia Bertomeu (Univ. Nacional de La Plata, Argentina): Main

    Editor of Quaestiones Kantianas Series

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    Monique Castillo (Univ. Paris XII, France)

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    Bernd Drflinger (Univ. of Trier, Germany)

    Jean Ferrari (Univ. de Bourgogne, France)

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    Joel Klein (UFRN, Brazil)

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    Robert Louden (Univ. of Southern Maine, USA)

    Carlos Mendiola (Univ. Iberoamericana, Mexico)

    Pablo Oyarzn (Univ. of Chile, Chile)

    Lismaco Parra (Univ. Nacional de Colombia, Colombia)

    Claude Pich (Univ. of Montreal, Canada)

    Hernn Pringe (UBA, Argentina)

    Grard Raulet (Univ. Paris IV, France)

    Claudio La Rocca (Univ. of Genua, Italy)

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    The Translatio Kantiana Series seeks to make available to Kant

    scholars and PhD students commented translations of different Kants

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    Quaestiones Kantianas Series aims at retrieving classical

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    critical thought.

    Dialectica Kantiana E-Book Series

    Dialectica Kantiana Series promotes essays of the Kantian legacy,

    gathered in collective volumes, focusing on subjects tackling key

    ethical, political and social challenges that may help us to better

    assess the problems of our present time.

  • Este primer libro de la Biblioteca Digital de Estudios Kantianos,

    que inaugura la serie Hermeneutica kantiana de CTK E-Books, fue terminado por Ediciones Alamanda

    el da 10 de febrero de 2017

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