SATURAO EM PESQUISA QUALITATIVA: ESTIMATIVA ...

  • Published on
    09-Jan-2017

  • View
    212

  • Download
    0

Transcript

  • PMKT HERMANO ROBERTO THIRY-CHERQUES

    20

    RESUMOA saturao o instrumento epistemolgico que determina quando as observaes deixamde ser necessrias, pois nenhum novo elemento permite ampliar o nmero de propriedadesdo objeto investigado.A dificuldade maior que o emprego do critrio de saturao apresen-ta o do dimensionamento ex-ante da pesquisa. No h como prognosticar com rigor o ta-manho e o tempo necessrios saturao. Neste texto discute-se a possibilidade de construiruma estimativa da extenso e do dispndio de recursos com observaes, a partir da prediodo ponto de saturao baseada em indicadores determinados empiricamente.

    PALAVRAS-CHAVE:Saturao, dimensionamento, pesquisa qualitativa.

    ABSTRACT

    Saturation is the epistemological model that defines when observations become unnecessary,

    since no new element allows increasing the number of properties of the object under observa-

    tion.The greatest difficulty presented by applying thesaturation criterion to research is the

    ex-ante sizing.The size and time required to reach the saturation point cannot be rigorously

    predicted. This article presents a discussion of the possibility of projecting the extension and

    spend of resources on observations, from the prediction of the saturation point based on em-

    pirically-determined indicators.

    KEY WORDS:

    Saturation, sizing, qualitative research.

    n HERMANO ROBERTO THIRY-CHERQUES

    GRADUADO EM ADMINISTRAO DE EMPRESASPELA ESCOLA BRASILEIRA DE ADMINIS-TRAO PBLICA E DE EMPRESAS DA FUN-DAO GETLIO VARGAS (RIO DE JANEI-RO); MESTRE EM FILOSOFIA PELO INSTITUTODE FILOSOFIA E CINCIAS SOCIAIS DA UNI-VERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO(IFCS-UFRJ) E DOUTOR EM CINCIAS PELACOPPE DA UNIVERSIDADE FEDERAL DORIO DE JANEIRO (COPPE-UFRJ). PROFES-SOR TITULAR DA ESCOLA DE ADMINISTRA-O PBLICA E DE EMPRESAS DA FUNDA-O GETULIO VARGAS (RIO DE JANEIRO);PESQUISADOR DO CNPQ; CONFERENCISTA ECONSULTOR NO CAMPO DOS VALORES HUMA-

    NOS PARA EMPRESAS, AGNCIAS GOVERNAMEN-

    TAIS E ORGANIZAES INTERNACIONAIS E MEM-

    BRO DE CONSELHOS EDITORIAIS, DENTRE OU-

    TROS DE COMUNICAO, MDIA E CONSUMO.

    E-MAIL: HERMANO.ROBERTO@FGV.BR

    SATURAO EM PESQUISA QUALITATIVA:ESTIMATIVA EMPRICA DE DIMENSIONAMENTO

    SATURATION IN QUALITATIVE RESEARCH: EMPIRICAL SIZING ESTIMATION

    Af-Revista PMKT 03 Completa 4 cores:Layout 1 10/9/09 4:08 PM Page 20

  • 10

    PMKTSATURAO EM PESQUISA QUALITATIVA: ESTIMATIVA EMPRICA DE DIMENSIONAMENTO

    21

    1. INTRODUO

    Este artigo apresenta um modelo de prognstico de dimensiona-mento de pesquisas qualitativas fundado na estimativa da cessaodo acrscimo de informaes novas nas observaes e experimen-tos: o ponto de saturao. O mtodo utilizado foi inteiramente em-prico.A partir de modelos tericos como o de Romney;Batcheldere Weller (1987) foram replicados os experimentos de vrios autoresrelatados por Guest; Bunce e Johnson (2006) sobre a base obser-vacional das prprias pesquisas.Verificou-se que em diferentes cam-pos com dimenses diversas o ponto de saturao atingido em,no mximo, quinze observaes. Concluiu-se que a no ocorrnciade saturao dentro desse limite indicativo de que o critrio delevantamento ou os quesitos escolhidos so inadequados e que de-vem ser revistos.

    A saturao designa o momento em que o acrscimo de dados einformaes em uma pesquisa no altera a compreenso do fen-meno estudado. um critrio que permite estabelecer a validadede um conjunto de observaes.

    O esquema de saturao objetivamente vlido medida que elesatisfaz as exigncias lgicas de julgamento em um universo deter-minado. Enquanto a validade emprica a correspondncia de umahiptese ou de uma teoria realidade factual, a validade objetiva a adequao de uma conjectura ou de uma teoria a uma explica-o lgica. alcanada mediante inferncias a partir de um argu-mento em que as premissas so consideradas legitimas (TRIBBLE;SAINTONGE:1999).

    A inferncia a operao pela qual a verdade de uma proposio aceita no diretamente, mas em virtude da sua ligao com outrasproposies. Uma inferncia vlida se a concluso que ela pro-duz dedutvel das suas premissas, seja atravs de uma implicaoprobabilstica, ou mediante inferncia indutiva, isto , mediante apassagem de premissas sobre um caso particular a uma conclusogeral (TOULMIN, 2001:175).

    O critrio de saturao pertence s esferas de validao objetivae de inferncia indutiva.Tem legitimidade lgica, mas apresentaalgumas limitaes de ordem tcnica.Aplica-se somente a casosespecficos no mbito das pesquisas de carter qualitativo, depen-de da conceitualizao precisa das categorias e das propriedadesinvestigadas e os seus limites no podem, por definio, ser dimen-sionados a priori.A alternativa de estimao, como aqui aventada,deve ser emprica, fundada na replicao dos experimentos.

    Nesse texto so apresentados os aspectos tericos essenciais dasaturao e procura-se contribuir para a superao da principaldificuldade de ordem prtica no seu emprego, a do dimensiona-mento da pesquisa mediante um modelo de estimativa do pontode saturao.

    Dividiu-se a exposio em trs partes, nas quais so tratadas:

    n A especificidade dos levantamentos nas pesquisas qualitativas.n A teoria e a prtica do critrio de saturao. n O dimensionamento do nmero de observaes, que levam

    discusso alguns elementos empricos sobre a aplicao vlidado critrio de saturao.

    2. OBSERVAO EM PESQUISA QUALITATIVA

    O termo observao designa qualquer tcnica idnea de aquisi-o de dados que iro constituir o banco de prova de pesquisas decarter cientfico. As hipteses e teorias factuais podem ser com-provadas mediante observao, medio ou experimentao. Aobservao limita-se constatao dos dados tal como se apre-sentam. Difere da medida porque a medida supe a fixao prviade um padro para determinar as dimenses ou o valor de umagrandeza da mesma espcie. Difere da experimentao porque oexperimento supe a interveno ativa sobre o objeto pesquisadopara a verificao das modificaes que resultam desta interven-o. O conhecimento derivado da observao apresenta-se por siprprio, enquanto o derivado da medida e do experimento frutode uma ao destinada a saber o que um objeto ou no .A ob-servao um momento necessrio da medio e do experimento,mas a recproca no verdadeira.

    A norma de validade das observaes em pesquisas de carterqualitativo difere substancialmente da de uma pesquisa de carterquantitativo. A lgica que rege a pesquisa quantitativa , em geral,a da implicao probabilstica a partir da hiptese, enquanto a l-gica da pesquisa qualitativa , geralmente, a da inferncia indutivaa partir de uma teoria.

    2.1 LEVANTAMENTO

    O rigor na pesquisa quantitativa decorre de juzos de validade e deconfiabilidade da adequao a uma realidade provvel. O rigor napesquisa qualitativa decorre da credibilidade da adequao a umarealidade possvel.

    O valor da pesquisa quantitativa reside na capacidade de univer-salizao dos resultados obtidos. O valor da pesquisa qualitativa funo da adequao dos resultados obtidos a grupos ou indivduosque guardam similaridades com os examinados.

    O critrio de saturao um processo de validao objetiva empesquisas que adotam mtodos, abordam temas e colhem informa-es em setores e reas em que impossvel ou desnecessrio otratamento probabilstico da amostra. uma das formas de lidarcom o paradoxo da amostragem.

    O paradoxo da amostragem se expressa da seguinte forma: a amos-tra intil se no for verdadeiramente representativa da populao.Para saber se a amostra representativa preciso conhecer as ca-ractersticas da populao, o que dispensa no s a amostra, masa realizao da pesquisa. O paradoxo se resolve pelo entendimento

    Af-Revista PMKT 03 Completa 4 cores:Layout 1 10/9/09 4:08 PM Page 21

  • de que representatividade no uma propriedade da amostra, masdo procedimento que leva sua determinao (KAPLAN,1975:245).

    Para que se discrimine cientificamente um objeto necessrio,portanto, conhecer ou conjeturar alguma coisa sobre ele. Com ba-se nesses conhecimentos ou nessas conjeturas se formulam as hi-pteses a serem testadas ou as teorias a serem validadas.

    Nos mtodos quantitativos a investigao considerada efetivaquando os levantamentos e as anlises permitem generalizao.Nos mtodos qualitativos, que tm raiz na fenomenologia e no es-truturalismo, a investigao considerada efetiva quando permitedescrever o objeto em seu contexto.

    Os mtodos qualitativos servem compreenso do fenmeno es-tudado e a transferibilidade (MANTZOUKAS, 2004),a capacidadede transferncia para outros grupos e indivduos dos resultadosobtidos, no generalizao.

    2.2 SELEO INTENCIONAL DAS OBSERVAES

    As tcnicas probabilsticas operam a partir de uma amostragemcorrespondente frao de um universo estatstico. Podem ser sim-ples, quando se considera o grupo como um todo, ou estratificadaem subgrupos, quando no possvel colher dados suficientes so-bre o universo considerado. So compostas por elementos quais-quer da populao, selecionados ao acaso. Obedecem a critriosde representatividade de um conjunto ideal de indivduos de umgrupo, em que se podem encontrar as caractersticas fundamentaisque devem ser estudadas em todo o grupo.

    Nas tcnicas no probabilsticas os indivduos so selecionados deacordo com critrios julgados relevantes para um objeto particularde investigao estabelecido indutivamente. No se trabalha comamostragem, mas com elementos (unidades elementares,bsicas)e com categorias (unidades de informao) que atendem requisitosestabelecidos de acordo com as necessidades e o escopo da pes-quisa (COHEN; MANION; MORRISON, 1989:89).

    Os dois tipos mais usuais de seleo de categorias so:

    1. Seleo acidental ou por convenincia, em que os sujeitos so osque se podem acessar e os dados so os possveis de se obterem.

    2. Seleo intencional ou por julgamento, em que sujeitos-tipo soselecionados por representarem as caractersticas relevantes dapopulao em estudo.

    As estratgias mais comuns de seleo intencional (parcialmentebaseado em PATTON, 1990:181-187) so:

    n Determinao da variao mxima, isto , dos casos-limite, a par-tir do qual o projeto qualitativo ser revisto ou abandonado. Avariao pode ser demogrfica (uma frao da populao), fe-nomnica (a amplitude da categoria) ou terica (as propriedades

    de uma categoria) (SANDELOWISKI,1985:181).n Seleo de casos tpicos, extremos, desviantes, chave e crticos,

    ou seja, a limitao do campo de pesquisa de modo a fazer comque o universo pesquisado possa ser inteiramente conhecido edescrito sem que sejam necessrias tcnicas de estatsticas, co-mo a da amostragem.

    n Foco em padres de variao, subgrupos homogneos e cadeiasde informao (snowball) em que os informantes indicam outrosinformantes.

    n Triangulao ou combinao de vrias estratgias e tcnicas,inclusive probabilsticas.

    A tcnica de saturao uma das formas de validao de seleointencionalmente determinada, qualquer ou quaisquer que seja(m)a(s) estratgia(s) utilizada(s) para sua constituio.

    3. SATURAO

    3.1 CONCEITO

    Um fenmeno um objeto tal como captado pela sensibilidade oureconhecido pela conscincia imediata. Uma categoria cada umdos conceitos genricos,abstratos,fundamentais,de que se podeservir a mente para elaborar e expressar juzos. A pesquisa prticaou terica trata de elucidar e trazer evidncia fenmenos e cate-gorias.

    Os fenmenos e as categorias representam unidades de informa-o compostas de eventos, dados, elementos e instncias.A seleointencional estabelecida por saturao considerada representativaquando a entrevista ou a observao no acrescenta nada ao quej se conhece sobre o fenmeno ou categoria investigado (saturaoterica), suas propriedades e suas relaes com outras categorias.

    O conceito de saturao deriva das Cincias Naturais. Na Qumica,indica o limite em que a maior quantidade possvel de uma subs-tncia foi absorvida por uma soluo em uma temperatura dada.Na Fsica, denomina a condio de um material ou substncia cujaintensidade do campo magntico foi suficientemente aumentada,a ponto de um novo aumento dessa intensidade no alterar o seuestado. Em tica, indica o grau de uma cor que determina a suapureza e a diferencia de outras de idntico matiz.

    A ideia de saturao usada em Economia e em Marketing no ter-mo saturao de mercado(market saturation) para descrever ograu de difuso (distribuio) de um produto em um dado univer-so. O nvel de saturao de mercado calculado a partir do poderde consumo, da competio, dos preos e da tecnologia.

    Como critrio de aprovao da amostragem em pesquisa qualitati-va, o conceito de saturao deriva da Fsica e, mais proximamente,da Estatstica, onde indica o grau em que um fator aparece em re-lao a uma dada varivel numa anlise de correlao entre essefator e um conjunto de variveis aleatrias.

    PMKT HERMANO ROBERTO THIRY-CHERQUES

    22

    Af-Revista PMKT 03 Completa 4 cores:Layout 1 10/9/09 4:09 PM Page 22

  • A noo fundamental a de saturao terica que ocorre quando

    Nenhum dado adicional encontrado que possibilite ao pesqui-

    sador acrescentar propriedades a uma categoria. (...), isto , (...)

    quando o pesquisador torna-se empiricamente confiante de que

    a categoria est saturadaGlaser e Strauss (1967:65).

    3.2 PONTO DE SATURAO

    No uso prtico do critrio de saturao os objetos de estudo soinvestigados em suas propriedades at o surgimento de um pontode saturao.

    Associado ao conceito de saturao est a noo de competnciacultural, fartamente explorada dentro da teoria do habitus, porPierre Bourdieu (THIRY-CHERQUES, 2006a), que explica comoe por que o adestramento social leva a harmonizao com a cul-tura em que se vive.A ideia, comprovada empiricamente, de quea sobrevivncia em uma esfera social ou campo se d mediante aaquisio e incorporao de condutas determinadas, inerentes que-le campo especfico.Aqueles que no incorporam o habitus docampo ou que o contestam so excludos.

    Outra associao pode ser feita com aTeoria do Consenso (ROM-

    NEY; BATCHELDER; WELLER, 1987), que demonstra, matema-ticamente, que em um dado contexto, os especialistas tendem a con-cordar entre si, mais do que os novios e os leigos sobre o temada sua expertise.Trata-se de uma tendncia conformidade, de umaadeso natural ao estabelecido e verificado. , em linhas gerais, umaideia paralela a da dicotomia campo-habitus da filosofia social deBourdieu. Os entrantes e os alheios esfera de conhecimento con-siderada so incapazes de identificar as regras do jogo e os sabe-res estabelecidos.

    As categorias ou fenmenos representativos da cultura, do habituse do consenso so considerados estabelecidos quando se atinge oponto de saturao da pesquisa. O ponto de saturao aquele emque o nmero de respostas no pode ser acrescido mediante oacrscimo no nmero de observaes/entrevistas. Conforme de-monstrado no Grfico 1, o ponto em que a inclinao da curvade saturao de novas respostas e de acrscimo de propriedades,se mantm constante.

    As garantias da representatividade so dadas pelas condies ge-nricas de investigao:

    n As observaes/entrevistas so feitas isolada e privadamente.n Os participantes no conhecem as respostas uns dos outros.n As questes formuladas esto circunscritas a um domnio coe-

    rente de conhecimentos.

    A forma de utilizao mais comum do critrio de saturao a daaplicao de entrevistas semi-estruturadas de forma sequencial,com respostas em aberto. O pesquisador identifica os tipos de res-

    posta e anota as repeties. Quando nenhuma nova informao ounenhum novo tema registrado, atingiu-se o ponto de saturao. Oesquema de investigao simples, porm, na prtica, apresentaa dificuldade de se fundamentar o critrio para cessao do levan-tamento ou interrupo das entrevistas, isto , da adequao daamostra.

    4. TAMANHO E ADEQUAO

    O tamanho da amostra probabilstica estimado matematicamente.Com base em parmetros pr-selecionados (intervalo de confiana)e nvel de erro mximo admissvel.

    O tamanho ou nmero de observaes da seleo intencional obe-dece a critrios ex-post. funo das respostas obtidas.

    Sendo assim, no existem instrumentos matemticos ou lgicosde delimitao prvia do ponto de saturao e, por consequncia,do nmero de observaes requerido. Tambm no h como afir-mar com certeza absoluta se o ponto de saturao ser atingido emum nmero praticvel de observaes (MORSE et al., 2002).O que possvel fazer , mediante a acumulao de experincias, estimaro ponto em que as informaes de observaes saturam, sejam elasrealizadas mediante entrevistas abertas, semi-estruturadas, estru-turadas, questionrios ou observaes de contedos e de discursos.

    A maior parte das dificuldades no dimensionamento dos levanta-mentos resulta de erros na formulao dos quesitos e m constru-o do protocolo de pesquisa. Para que a tcnica de saturao dresultado preciso eliminar, mediante ensaios, os fatores que im-

    PMKTSATURAO EM PESQUISA QUALITATIVA: ESTIMATIVA EMPRICA DE DIMENSIONAMENTO

    23

    NME

    RO A

    CUMU

    LADO

    DE

    NOVA

    S RES

    POST

    AS

    PONTO DE SATURAO

    NMERO DE ENTREVISTAS

    GRFICO 1Curva de saturao.

    Af-Revista PMKT 03 Completa 4 cores:Layout 1 10/9/09 4:09 PM Page 23

  • pedem exaurir as possibilidades de variao dos temas em um con-junto dado de informaes.

    Basicamente esses fatores abrangem:

    n Formulao dbia dos quesitos. n Amplitude das respostas ou das observaes possveis. n Grau de variabilidade de diferenciao (nuance) das respostas

    ou observaes.

    Essas providncias ajudam a aumentar o rigor e a reduzir o nmerode observaes necessrias saturao, mas no resolvem o pro-blema de se determinar com segurana o quanto investigar e quan-do interromper os levantamentos.

    4.1 QUANTO INVESTIGAR

    A limitao das observaes tem implicaes de prazo e de ora-mento. Tem, tambm, implicaes na economia interna das pesqui-sas. No cotidiano dos trabalhos de campo as decises sobre quandoprosseguir e quando desistir de uma linha de investigao, quandoreformular ou quando abandonar os quesitos podem ser extrema-mente penosas.

    tido como certo que um escopo de pesquisa de maior amplitudeir requerer mais observaes para que se alcance a saturao. Oestreitamento do foco reduz, logicamente, o nmero de observa-es necessrias, mas no permite estimar o ponto em que a cate-goria satura, isto , o ponto alm do qual no intil seguir reali-zando observaes ou entrevistas.

    No possvel, teoricamente, determinar quantas observaes se-ro necessrias nem existem elementos tericos que informem so-bre quando cessar as observaes. Em tese, uma nova propriedadeda categoria investigada pode ser identificada tanto na primeira,quanto na milionsima observao.A prtica, no entanto, tem pro-piciado algumas indicaes empricas sobre o nmero de obser-vaes/entrevistas necessrias e suficientes para saturar uma ca-tegoria; sobre quanto investigar e quando interromper.

    O tema tem sido exaustivamente estudado. O estado da arte re-portado por Guest; Bunce e Johnson (2006) que, estudando o visna desejabilidade social, procuraram determinar quantas entrevistasseriam necessrias para tornar confivel a pesquisa. Examinandoas experincias internacionais em vrias disciplinas,verificaram queas recomendaes da literatura tcnica para o tamanho mnimode observaes variavam entre 6 e 200. Cruzando esses relatos comas suas prprias experincias de campo, concluram que a satura-o ocorre,geralmente, at a12entrevista, e que os elementos b-sicos de metatemas aparecem at a 6entrevista.Avariabilidade dosdados segue o mesmo padro.

    4.2 QUANDO INTERROMPER

    Nas pesquisas realizadas no campo das Cincias da Gesto soconfirmados esses resultados. Mais do que isso, foi verificado que,combinando as diversas sugestes sobre o dimensionamento doslevantamentos experincia do autor deste artigo no emprego datcnica de saturao, foi possvel estimar com bastante seguranao momento em que o ponto de saturao foi atingido.

    Constatou-se que, considerando as recomendaes de no realizarmenos do que 6 observaes e de no estender alm do limite de12 o nmero de observaes, com a prtica de estreitar o foco de-pois da terceira observao, as categorias saturam quando o equi-valente a1/3 das observaes j efetuadas no acrescenta novaspropriedades.

    5. RESULTADOS

    Foram realizadas trs pesquisas para verificar empiricamente quaisseriam os pontos de saturao.

    O Grfico 2 representa os resultados dessas pesquisas de carterdiversos em termos de pontos de saturao mais 1/3.

    PMKT HERMANO ROBERTO THIRY-CHERQUES

    24

    1

    14

    12

    10

    8

    6

    4

    2

    03 5 7 9 11 13 15 17 19 21 23 25 27

    PONTOS DE SATURAO+ 1/3 DAS OBSERVAES

    1 PESQUISA

    3 PESQUISA

    2 PESQUISA

    NME

    RO A

    CUMU

    LADO

    DE

    NOVA

    S CAT

    EGOR

    IAS

    NMERO DE OBSERVAES

    GRFICO 2Pontos de saturao.

    Af-Revista PMKT 03 Completa 4 cores:Layout 1 10/9/09 4:09 PM Page 24

  • A primeira pesquisa refere-se a uma investigao que relacionoua percepo sobre o sistema de carreiras ao individualismo e produo de bens e servios. Perguntou-se sobre o efeito positivo,neutro ou negativo dos planos de carreira sobre a produo/gera-o em termos da eficincia, eficcia, efetividade, produtividade,rentabilidade e/ou valor agregado da produo. Foram realizadas10 entrevistas preparatrias e preenchidos 85 questionrios con-siderados vlidos (THIRY-CHERQUES, 2006b). Os percentuais

    obtidos so os que constam na Tabela1.

    Na primeira linha consta o nmero de entrevistas, nas demais onmero acumulado de respostas positivas para os quesitos do le-vantamento. Na ltima linha consta o surgimento de novas respos-tas. O ponto assinalado nesta linha indica que, a partir da entrevistareferida na coluna, no foi introduzida mais nenhuma resposta di-ferente das anteriores.

    A segunda pesquisa, demonstrada na Tabela 2, refere-se a uma pes-quisa no campo da semiologia, que correlacionou os signos quecompem as Intranets com a ordenao poltica das organizaes.

    Foram consideradas 22 Intranets empresariais e de organismosgovernamentais e 6 sistemas de construo de Intranets (THIRY-

    CHERQUES, 2006c).

    PMKTSATURAO EM PESQUISA QUALITATIVA: ESTIMATIVA EMPRICA DE DIMENSIONAMENTO

    25

    1

    1

    1

    0

    0

    0

    0

    3

    2

    2

    2

    2

    0

    0

    0

    1

    7

    3

    3

    3

    2

    0

    1

    0

    2

    11

    4

    4

    3

    3

    0

    2

    1

    3

    16

    5

    5

    4

    4

    0

    3

    1

    3

    20

    5

    6

    4

    4

    1

    4

    2

    3

    24

    6

    7

    5

    4

    2

    4

    3

    4

    29

    6

    8

    6

    5

    3

    4

    3

    5

    34

    6

    9

    7

    5

    4

    5

    4

    6

    40

    6

    10

    8

    5

    4

    5

    5

    5

    42

    6

    Entrevistas

    Eficincia

    Eficcia

    Efetividade

    Produtividade

    Rentabilidade

    Valor agregado

    Total

    Novas categorias

    TABELA 11 Pesquisa Saturao das respostas sobre efeitos dos planos de carreira.

    1

    1

    0

    0

    0

    0

    0

    0

    1

    0

    0

    0

    0

    1

    3

    2

    2

    0

    0

    1

    1

    0

    0

    2

    0

    0

    0

    0

    2

    5

    3

    3

    0

    0

    2

    1

    0

    0

    3

    0

    0

    1

    0

    3

    6

    4

    4

    0

    0

    3

    2

    0

    0

    4

    1

    1

    2

    0

    4

    8

    5

    5

    1

    0

    4

    3

    0

    0

    5

    2

    2

    3

    0

    5

    9

    6

    6

    2

    1

    5

    4

    0

    0

    6

    3

    3

    4

    0

    6

    10

    7

    7

    2

    2

    6

    5

    0

    0

    7

    4

    4

    5

    0

    7

    10

    8

    8

    3

    2

    7

    6

    0

    0

    8

    5

    5

    6

    0

    8

    10

    9

    9

    3

    3

    8

    7

    0

    0

    9

    6

    6

    7

    0

    9

    10

    10

    10

    3

    4

    9

    8

    1

    1

    10

    7

    7

    8

    0

    10

    12

    11

    11

    3

    5

    10

    9

    1

    2

    11

    8

    8

    9

    0

    11

    12

    12

    12

    3

    5

    11

    10

    1

    3

    12

    9

    9

    10

    1

    12

    13

    13

    13

    4

    5

    12

    11

    2

    4

    13

    10

    10

    11

    2

    13

    13

    14

    14

    4

    6

    13

    12

    2

    5

    14

    11

    11

    12

    2

    14

    13

    15

    15

    4

    7

    14

    13

    2

    6

    15

    11

    12

    13

    3

    15

    13

    16

    16

    4

    8

    15

    14

    3

    7

    16

    12

    13

    14

    3

    16

    13

    17

    17

    5

    9

    16

    15

    4

    8

    17

    13

    14

    15

    3

    17

    13

    18

    18

    6

    10

    17

    16

    5

    9

    18

    14

    15

    16

    3

    18

    13

    19

    19

    7

    11

    18

    17

    6

    10

    19

    14

    16

    17

    4

    19

    13

    20

    20

    7

    12

    19

    18

    6

    11

    20

    14

    17

    18

    4

    20

    13

    21

    21

    7

    12

    20

    19

    7

    12

    21

    14

    18

    19

    5

    21

    13

    22

    22

    8

    13

    21

    20

    7

    13

    22

    15

    19

    20

    5

    22

    13

    23

    23

    9

    14

    22

    21

    8

    14

    23

    16

    20

    21

    6

    23

    13

    24

    24

    10

    14

    23

    22

    8

    15

    24

    17

    21

    22

    7

    24

    13

    25

    25

    10

    15

    24

    23

    8

    16

    25

    18

    22

    23

    8

    25

    13

    26

    26

    10

    16

    25

    24

    8

    17

    26

    19

    22

    24

    8

    26

    13

    27

    27

    10

    16

    26

    25

    8

    18

    27

    20

    22

    25

    8

    27

    13

    28

    28

    10

    16

    27

    26

    9

    19

    28

    20

    23

    26

    8

    28

    13

    Signos

    Desktop,portal,home

    Posto de trabalho virtual (e-office ou e-buro)

    Boletim de notcias (event calendar)

    Ferramenta de busca

    Diretrio

    Endereos

    Contatos

    Correio

    Formulrios de gesto de RH

    Organizador de tarefas

    Bloco de notas

    Sub-sites (chat rooms, e-rooms, comment trails)

    Lixeira

    Novos signos

    TABELA 22 Pesquisa Saturao dos sintagmas constantes nas Intranets.

    Af-Revista PMKT 03 Completa 4 cores:Layout 1 10/9/09 4:09 PM Page 25

  • A terceira e ltima pesquisa, demonstrada na Tabela 3, refere-sea uma pesquisa que analisou 9 modelos de trabalho (individual,equipe, virtual e suas combinaes) em relaes prospectivas.Diferentemente das anteriores, as alternativas foram pr-

    determinadas. Consideraram-se as respostas de 129 executivosrepresentantes de 122 empresas atuantes no Rio de Janeiro(THIRY-CHERQUES, 2005). Foram realizadas 15 entrevistaspreparatrias.

    ATabela 4 sintetiza a saturao e a margem de segurana de 1/3das observaes, com base nas trs pesquisas realizadas, sem quenovos elementos, categorias ou modelos fossem acrescentados.

    6. CONCLUSES

    Esses resultados indicam que, para que se atinja a saturao, ne-cessrio que o protocolo de pesquisas contemple:

    n Um mnimo de 8 observaes, correspondentes ao mnimo das 6recomendadas, acrescidas das2 necessrias confirmao da sa-turao.

    n Um mximo de15 observaes, correspondentes ao limite das12recomendadas, acrescidas de1/3 de observaes.

    Ultrapassado esse limite, evidencia-se que o ponto de saturao imprevisvel e que, portanto, o critrio inapropriado.

    7. REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS

    BERTAUX, D. Lapproche biographique: sa validit mthodologi-que, ses potentialits. Cahiers Internationaux de Sociologie,v. LXIX,p. 198-115,1980.

    COHEN, Louis; MANION, Lawrence; MORRISON, Keith. Research

    methods in education. London: Routledge Falmer, 1989.

    GLASER, Barney G.; STRAUSS, Anselm.The discovery of groun-ded theory. New York: Aldine Publishing,1967.

    GUEST, Greg; BUNCE, Arwen; JOHNSON, Laura. How many in-terviews are enough: an experiment with data saturation and va-riability. Field Methods: Sage, 2006 [18; 58-82]. Recupervel em:.

    KAPLAN,Abrahan. A conduta na pesquisa: metodologia para ascincias do comportamento. Traduo de Lenidas Hegenberg eOctanny Vieira da Mota. So Paulo: Edusp, p. 245, 1975.

    MANTZOUKAS, Stefanos. Issues of representation within quali-tative inquiry. Qualitative Research Health,p.14, 994, 2004.

    MORSE, Janice M.; BARRET, Michael; MAGRI, Maria; OLSEN,Karin; SPIERS, Jude. Verification strategies for establishing relia-bility and validity in qualitative research. International Journal ofQualitative Methods.1 (2), Spring, p.1-18, 2002.

    PMKT HERMANO ROBERTO THIRY-CHERQUES

    26

    1

    2

    3

    1

    2

    3

    5

    2

    3

    4

    6

    3

    4

    5

    8

    3

    5

    5

    9

    3

    6

    6

    10

    4

    7

    6

    10

    5

    8

    6

    10

    5

    9

    6

    10

    6

    10

    6

    12

    7

    11

    12

    8

    12

    13

    9

    13

    13

    9

    14

    13

    9

    15

    13

    9

    16

    13

    9

    17

    13

    9

    18

    13

    19

    13

    20

    13

    21

    13

    22

    13

    23

    13

    24

    13

    25

    13

    26

    13

    27

    13

    28

    13

    OBSERVAES

    Novas categorias de efeito sobre a produo

    Novos signos na Intranet

    Novos modelos de trabalho

    TABELA 4Pontos de saturao e margem de segurana.

    1

    0

    0

    0

    0

    1

    0

    0

    0

    0

    1

    2

    0

    0

    0

    0

    1

    1

    0

    0

    0

    2

    3

    0

    0

    1

    0

    1

    1

    0

    0

    0

    3

    4

    0

    0

    1

    0

    2

    1

    0

    0

    0

    3

    5

    0

    0

    1

    0

    2

    2

    0

    0

    0

    3

    6

    0

    0

    1

    0

    2

    2

    0

    1

    0

    4

    7

    0

    0

    1

    0

    2

    2

    0

    1

    1

    5

    8

    0

    0

    1

    0

    3

    2

    0

    1

    1

    5

    9

    0

    1

    1

    0

    3

    2

    0

    1

    1

    6

    10

    0

    1

    1

    0

    3

    2

    1

    1

    1

    7

    11

    0

    1

    1

    1

    3

    2

    1

    1

    1

    8

    12

    1

    1

    1

    1

    3

    2

    1

    1

    1

    9

    13

    1

    1

    1

    1

    4

    2

    1

    1

    1

    9

    14

    1

    1

    2

    1

    4

    2

    1

    1

    1

    9

    15

    1

    1

    2

    1

    4

    3

    1

    1

    1

    9

    16

    1

    1

    2

    1

    4

    3

    1

    2

    1

    9

    17

    1

    1

    2

    1

    4

    3

    2

    2

    1

    9

    Entrevistas

    Individual (1)

    Combinao Individual / equipe (1&2)

    Combinao Equipe / individual (2&1)

    Equipe (2)

    Combinao Equipe / virtual (2&3)

    Combinao Virtual / equipe (3&2)

    Virtual (3)

    Combinao Virtual / individual (3&1)

    Combinao Individual / virtual (1&3)

    Meno a uma nova categoria

    TABELA 33 Pesquisa Saturao das alternativas de modelos de trabalho.

    Af-Revista PMKT 03 Completa 4 cores:Layout 1 10/9/09 4:09 PM Page 26

  • PANDIT, Naresh R. The creation of theory: a recent application of thegrounded theory method. The Qualitative Report, v. 2, n. 4, Dec. 1996.Disponvel em: .

    PATTON, Michael Quinn. Qualitative evaluation and research me-thods. London: Sage Publications, 1990.ROMNEY, A. Kinball; BATCHELDER,William H.; WELLER, Su-san C. Recent applications of cultural consensus theory. AmericanBehavioral Scientist, n. 11, p.31, 163-177, 1987.

    SANDELOWISKI, Margarete. Sample size in qualitative methods.Research in Nursing & Health.USA: John Wiley, n. 18, p. 179-183, 1985.

    THIRY-CHERQUES, Hermano Roberto. Pierre Bordieu: a teoria naprtica. Revista de Administrao Pblica, n. 40, p. 27-56, 2006a..

    ____. Individualismo e carreira: o duplo constrangimento. In: Ges-to e carreiras: dilemas e perspectivas. Moiss Balassiano (org.).So Paulo: Atlas, 2006b.

    ____. A segregao virtual: uma aplicao do instrumental da se-mitica estruturalista anlise do impacto da Intranet sobre a vidano trabalho. In: XXX ENAMPAD. Salvador, 2006c.

    ____.O trabalho individualizado: uma discusso estruturalista daaplicao da categoria da ddiva de Marcel Mauss nas relaes or-ganizacionais. In: 4Th International Meeting of the IberoamericanAcademy of Management. Lisboa, p. 8-11, 2005.

    TRIBBLE, Denise St-Cyr; SAINTONGE, Line. Ralit, subjectivitet crdibilit en recherche qualitative: quelques questionnements.Recherches Qualitatives,v. 20, 1999 [113-125].

    TOULMIN, Stephen. Os usos do argumento.Traduo de ReinaldoGuarany. So Paulo: Martins Fontes, 2001.

    PMKTSATURAO EM PESQUISA QUALITATIVA: ESTIMATIVA EMPRICA DE DIMENSIONAMENTO

    27

    PMKT

    Af-Revista PMKT 03 Completa 4 cores:Layout 1 10/9/09 4:09 PM Page 27