Ritmanlise e potico-anlise em Gaston Bachelard: a ... ? Ritmanlise e potico-anlise em

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  • Anais do XXVI Simpsio Nacional de Histria ANPUH So Paulo, julho 2011 1

    Ritmanlise e potico-anlise em Gaston Bachelard:

    a palavra literria e a histria

    ANDR FABIANO VOIGT*

    1.

    O historiador, em seu ofcio, est em contato com um nmero cada vez maior de

    informaes e fontes a seu dispor. Desde a emergncia da papelada dos pobres, assim

    expressa por Fernand Braudel na dcada de 1950 (BRAUDEL, 2007, p. 14-15), o

    historiador ampliou cada vez mais o horizonte de suas investigaes. Entretanto, vamos

    tratar aqui de uma materialidade que, nas ltimas dcadas, tem instigado reflexes

    recorrentes acerca de seu uso pelos historiadores: a literatura.

    Tomada por vrios historiadores, sobretudo no meio acadmico brasileiro, ora

    como o espao de construo de representaes por parte de seus autores, ora como a

    representao da realidade de uma poca formas que tornariam possvel seu uso

    como fonte histrica , vemos que tais concepes acerca da literatura implicam na

    necessidade de rediscutir algumas observaes terico-metodolgicas relevantes, de

    modo a compreender seus limites como fonte histrica sob tais circunstncias.

    Embora haja autores que, a partir da dcada de 1960, tenham tomado outros

    rumos neste debate,1 vamos analisar brevemente algumas consideraes de um dos

    filsofos franceses que, a partir da dcada de 1930, fez importantes estudos a respeito

    da imaginao na literatura e na produo de imagens literrias, sobretudo a partir dos

    conceitos de ritmanlise e de potico-anlise: Gaston Bachelard.

    Com a inspirao nos livros de Bachelard acerca da literatura, pretendemos tecer

    aqui um pequeno nmero de consideraes acerca da seguinte questo: at que ponto

    possvel conceber as imagens literrias como representaes?

    2.

    * Professor Adjunto do Instituto de Histria da Universidade Federal de Uberlndia (UFU), Doutor em

    Histria Cultural pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). E-mail:

    voigtandre@hotmail.com

    1 Podemos citar, entre outros autores que tem tratado do tema, a partir de diferentes acepes da ideia de

    acontecimento (vnement), os nomes de Michel Foucault, Gilles Deleuze, Alain Badiou e Jacques

    Rancire.

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    Antes de evocar as consideraes de Bachelard a respeito da escrita literria,

    caberia aqui fazer uma breve anlise em torno da concepo da literatura como

    representao, utilizada por historiadores para compreender a literatura como fonte

    histrica.

    Em primeiro lugar, a palavra representao, desde a Crtica da Razo Pura, de

    Kant, utilizada como termo geral na escala de todos os atos cognitivos englobando

    percepo, sensao, conhecimento, intuio, conceito, noo e ideia (KANT, 2010, p.

    313). Portanto, a representao, tomada sem referncia a seu uso particular por um autor

    especfico, pode significar qualquer ato cognitivo. Em segundo lugar, no possvel

    afirmar que seu uso por autores da chamada Histria Cultural esteja relacionado

    concepo da literatura como espao da construo de representaes por parte do autor

    ou como representao da realidade de uma poca. Mesmo o conceito de

    representao, presente nos estudos de Roger Chartier, empregado pelo autor para

    definir duas coisas, a saber: a forma como as prticas sociais de leitura constroem

    diferentes vises de uma realidade social, de um lado; o estatuto sociolgico dos

    conflitos por diferentes leituras de uma determinada realidade social, de outro

    (CHARTIER, 1990, p. 13-28). O prprio autor, em seu conhecido artigo O Mundo

    como Representao, aponta que seu conceito de representao est mais relacionado

    ao conceito sociolgico de representaes coletivas, contra a ideia que o texto existe

    em si, separado de toda materialidade, como um conjunto de signos abstratos a serem

    interpretados fora de seu suporte material e das prticas sociais de leitura (CHARTIER,

    1991). O conceito de representao empregado por Chartier no coincide, portanto, com

    a concepo generalizada da literatura nem como espao de construo de

    representaes por parte dos seus autores, nem como representao da realidade de uma

    poca.

    No mximo, podemos relacionar ambas as concepes de maneira muito

    discutvel antiga questo da intencionalidade do autor na obra, discutida pela

    tradio hermenutica, inaugurada nas primeiras dcadas do sculo XIX por autores

    como Friedrich Schleiermacher, seguidos pela tradio historicista alem, por

    estudiosos como Wilhelm Dilthey.

    Em seu livro, intitulado Hermenutica e Crtica, Schleiermacher afirma, quando

    trata da interpretao psicolgica de uma obra:

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    [...] quanto mais uma obra se formou a partir do ser interior do autor,

    tanto menos importantes so para a tarefa hermenutica as

    circunstncias externas e, inversamente, quanto mais o autor foi

    levado obra por algo exterior, tanto mais necessrio conhecer as

    motivaes externas (SCHLEIERMACHER, 2005, p. 223).

    Assim, a partir desta regra extrada de suas reflexes, Schleiermacher acaba por

    enunciar o princpio que poderia ser utilizado para medir as duas possibilidades de

    interpretao de uma obra literria: em primeiro lugar, quais so as representaes

    construdas pelo autor na obra entendidas aqui como motivadas pelo seu ser

    interior; em segundo, de que maneira sua obra representa a realidade de sua poca

    motivada por algo exterior.

    Em outro axioma de Hermenutica e Crtica, o autor afirma:

    O acervo lingustico e a histria da poca de um autor como o todo a

    partir do qual seus escritos precisam ser compreendidos como algo

    singular, e aquele todo novamente a partir deles

    (SCHLEIERMACHER, 2005, p. 116).

    A partir deste axioma hermenutico, torna-se possvel fazer o jogo interpretativo

    entre a obra de um autor e o contexto de sua poca. A contextualizao do momento

    histrico-social de sua produo seria, portanto, o artifcio pelo qual uma obra seria

    compreendida. Isto seria possvel mesmo com as obras de arte, pois no conjunto das

    observaes de Schleiermacher, a compreenso hermenutica se estende a todo tipo de

    obra, inclusive as artes.

    De acordo com Hans-Georg Gadamer, o princpio hermenutico do todo e da

    parte, elaborado por Schleiermacher, foi ampliado e transformado numa historiografia

    apenas com Dilthey, em seus escritos acerca da metodologia das chamadas cincias do

    esprito, j no final do sculo XIX. A reciprocidade entre a especificidade do texto e o

    contexto a partir do qual ele foi produzido foi aplicada por Dilthey, realizando o que

    Gadamer chama de transferncia da hermenutica para a historiografia, constituindo,

    assim, um conjunto de princpios sob os quais seria possvel compreender toda e

    qualquer manifestao de acordo com sua poca (GADAMER, 2008, p. 271).

    Este preceito historicista foi aplicado para a leitura de todo e qualquer vestgio

    que pudesse ser analisado como fonte histrica. Dcadas mais tarde, quando um grupo

    de historiadores franceses, ligados revista Annales, constata a necessidade de

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    ampliao da ideia de fonte histrica, deslocando o interesse das fontes oficiais para a

    papelada dos pobres, na expresso de Braudel, houve sem maior reflexo terico-

    metodolgica e conceitual uma aplicao muda do preceito historicista. Em alguns

    casos, fez-se uma confuso ainda maior, ao acreditar que o emprego de novas fontes e a

    metodologia para sua interpretao eram, todas elas, descobertas exclusivas dos

    historiadores dos Annales.

    Destarte, dentro de uma atmosfera muito confusa e sem maiores reflexes

    tericas e, sobretudo, conceituais, adotou-se como regra a ideia que a literatura, para

    servir como fonte histrica, deveria ser lida ou como espao de construo de

    representaes por parte do autor, ou como representao da realidade de uma poca,

    relacionando-a sempre ao contexto histrico-social de sua produo. Nota-se, na

    argumentao de toda esta parte, que a ideia de realidade est sempre relacionada ao

    contexto social de uma poca, reduzindo o real to-somente a sua esfera social.

    3.

    Mas seria a literatura uma fonte histrica que evidencia a intencionalidade do

    autor e o contexto histrico-social de sua produo? Para responder esta pergunta,

    vamos analisar o que Bachelard entende acerca da criao de imagens literrias. Em

    seus ltimos escritos, publicados sob o ttulo Fragmentos de uma potica do fogo,

    Bachelard faz um exerccio interessante de comparao literria.

    Ao analisar as figuras da Fnix, de Prometeu e de Empdocles, comparando o

    trabalho dos arquelogos e mitlogos criao livre dos poetas, faz uma distino

    importante para introduzir uma caracterstica singular da literatura: a sua independncia

    da necessidade de significar. Afirma que

    Inventar na ordem das ideias e imaginar imagens so proezas

    psicolgicas muito diferentes. No se inventam ideias sem retificar um

    passado. [...] A imaginao potica no tem passado. [...] A

    imaginao potica , verdadeiramente, um instante da palavra,

    instante que se apreende mal se se quer coloc-lo na ilacervel

    continuidade de uma conscincia bergsoniana (BACHELARD, 1990,

    p. 29).

    Ao afirmar que a imaginao potica no tem passado, o filsofo francs

    assevera que a abordagem histrica e arqueolgica dos mitos est embasada na ordem

    das ideias, e no das imagens. Para o autor,

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    Os trabalhos incessantes retomados pelos arquelogos determinam as

    filiaes, as transmisses de mitos atravs das idades. Eles resgatam

    uma continuidade de organizao na transmisso dos mitos, ao mesmo

    tempo que uma adeso renovada s crenas e aos ritos. [...] O

    devaneio potico, em compensao, no conseguiria percorrer uma to

    longa e to complexa histria como a que traada pelos mitlogos.

    Ns s podemos receber incitaes poticas atravs de fragmentos

    (BACHELARD, 1990, p. 89).

    Novamente, possvel notar em Bachelard uma diferenciao temporal

    fundamental entre a histria e a literatura: a abordagem histrica dos mitos um

    trabalho da continuidade; a imaginao literria, contudo, fragmentria e instantnea.

    A descontinuidade, fundamentada na ideia de instante, o movimento temporal sem o

    qual a literatura seria impossvel.

    Em suas obras que fazem o elogio da descontinuidade na literatura e na criao

    potica, Bachelard expe melhor a relao entre o instante, a temporalidade descontnua

    e a palavra literria. Tanto em A Intuio do Instante, quanto em A Dialtica da

    Durao, ambos da dcada de 1930, o autor entende a partir da inspirao nos escritos

    de Gaston Roupnel que a verdadeira realidade do tempo o instante, atribuindo

    continuidade a categoria de construo, desprovida de realidade (BACHELARD, 2007,

    p. 29). Por isso, Bachelard concebe a durao no como um dado, uma consequncia da

    continuidade temporal, mas sim, uma obra realizada pelo homem a partir da

    descontinuidade. Portanto, para o autor, a durao consiste na formao de sistemas de

    instantes organizando ritmos (BACHELARD, 1988, p. 9).

    Ora, a palavra literria organiza ritmos em sua concatenao. Mencionemos um

    exemplo curioso. Na concluso do livro A gua e os Sonhos, Bachelard escreve a

    respeito da unidade vocal da poesia da gua, na qual identifica uma linguagem fluida,

    que proporciona uma matria uniforme a ritmos diferentes (BACHELARD, 1997, p.

    193). Aps dar um exemplo de poesia que constri ritmos com consoantes lquidas (Life

    wihtin life in laid, trecho de um poema de Paul de Reul), assevera: Nossa tese no se

    detm nas lies da poesia imitativa. De fato, a poesia imitativa parece-nos condenada a

    permanecer superficial (BACHELARD, 1997, p. 194). Para o filsofo, a poesia da

    gua no quer representar a gua: ela cria poeticamente uma liquidez que lhe

    prpria. A liquidez o prprio desejo da linguagem (BACHELARD, 1997, p. 194).

    Nota-se que a linguagem potica, ao criar ritmos na descontinuidade dos instantes

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    poticos, cria tambm imagens literrias que so independentes da necessidade de

    compar-las negativamente a uma realidade emprica. A imaginao, para Bachelard,

    a faculdade de formar imagens que ultrapassam a realidade, que cantam a realidade.

    uma faculdade de sobre-humanidade (BACHELARD, 1997, p. 18).

    4.

    Falar dos ritmos da palavra literria falar de dois conceitos, empregados por

    Bachelard para analisar a literatura fora do padro hermenutico e psicanaltico:

    ritmanlise e potico-anlise.

    A ritmanlise tem como princpio a ideia que a matria no est inerte,

    indiferente ao tempo, tampouco numa durao uniforme. A matria existe no plano do

    ritmo, em tempo ondulante, cuja nica uniformidade possvel a regularidade de sua

    frequncia (BACHELARD, 1988, p. 119). Dito de outro modo, no h dissociao

    entre matria e ritmo, entre matria e movimento. O ritmo, elemento introduzido na

    anlise bachelardiana a partir da primazia do instante, mais um ponto-chave em seu

    pensamento. Bachelard acrescenta, neste livro, a necessidade de construir ritmos entre a

    descontinuidade dos instantes, ou seja: o ritmo seria a continuidade do descontnuo

    (BACHELARD, 2007, p. 70). Poderia surgir, a partir destas constataes, uma

    indagao: nesta combinao entre instante e ritmo, que lugar ocuparia o repouso? O

    repouso, dentro da anlise que Bachelard faz de Pinheiro dos Santos, seria uma forma

    de movimento, na medida em que uma vibrao (BACHELARD, 1988, p. 9).

    Portanto, no pensamento bachelardiano, o repouso , em si, uma forma de movimento.

    Combinando as noes de instante, ritmo e vibrao, o filsofo francs aplica-as

    a muitas situaes, sobretudo teraputicas, pois a ritmanlise serviria para conceber a

    prpria vida como uma ondulao (BACHELARD, 1988, p. 126), alm de figurar como

    uma forma alternativa psicanlise para a cura (BACHELARD, 1988, p. 128-130).

    Embora no seja um mtodo nem uma referncia terica para analisar a literatura,

    Bachelard consegue, com a ajuda da ritmanlise, apreender o dinamismo das imagens

    na imaginao potica, pois para o autor, somente a imaginao pode viver esse

    paradoxo de um movimento que quer o seu contrrio (BACHELARD, 1985, p. 130).

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    Ora, a imaginao potica, na concepo bachelardiana, tem como elemento principal o

    movimento, movimento este que possvel de ser captado nas imagens literrias.

    Por sua vez, a potico-anlise uma das noes mais complexas do pensamento

    bachelardiano. Em seus Fragmentos de uma potica do fogo, o autor caracteriza a

    potico-anlise como um

    dimtodo unindo dois mtodos contrrios, um voltando para trs, o

    outro assumindo as imprudncias de uma linguagem no vigiada, um

    dirigido para as profundezas, o outro para as alturas, ofereceria

    oscilaes teis (BACHELARD, 1990, p. 45).

    Estes dois mtodos contrrios a que o autor se refere seriam a psicanlise e a

    fenomenologia. A primeira, dirigida para o passado das imagens, aprofundando seus

    significados; a segunda, impulsionando para o futuro, na projeo das imagens para

    alm de sua significao. Noo que possui um franco dilogo com a ritmanlise

    embora no seja possvel confundir ambas como se fosse a mesma , procura captar os

    diversos ritmos da escrita literria, opondo as imagens da tradio s imagens sem

    passado.

    Voltemos ao exemplo das figuras mitolgicas tratadas por Bachelard dentro da

    potico-anlise. Quando escreve acerca da imagem da Fnix em Fragmentos de uma

    Potica do Fogo, o autor compara a Fnix dos mitlogos com a Fnix dos poetas. Nas

    imagens da tradio, utilizadas pelos mitlogos, observa-se na Fnix um ser de dupla

    fbula: ela se inflama em seus prprios fogos; ela renasce de suas prprias cinzas

    (BACHELARD, 1990, p. 52). Para questionar o alcance da abordagem de uma imagem

    pelo seu passado, supe um psiclogo investigador, fazendo testes de imaginao pela

    aproximao das palavras, formando, por exemplo, a expresso pssaro de fogo. A

    resposta do autor:

    intil acrescentar: o que nos sugere essa expresso? O verbo fica

    agitado quando duas palavras, duas grandes palavras, se chocam. A

    palavra ento descondicionada. Ela libertada de seu hbito de

    rematar frases sem desfrutar bem os seus impulsos para falar

    (BACHELARD, 1990, p. 53).

    Como um contraponto abordagem psicolgica, cita o exemplo do livro Les

    Sables de la Mer (As areias do mar), de John Cowper Powys. O livro, quando narra a

    passagem de dois hospitalizados de que fogem de uma casa de sade, traz, na fala de

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    um deles, que no se pode deixar de pensar na iluso de ser uma fnix (POWYS,

    1858, apud BACHELARD, 1990, p. 66). Bachelard, ao analisar a fala do livro de

    Powys, faz a seguinte indagao: A que mundo pertence a Fnix de Powys?

    (BACHELARD, 1990, p. 67). O filsofo responde que se trata de uma imagem livre, de

    uma imagem que deve ser vista como atribuindo ao personagem que a enuncia um

    carter proftico, caracterizando-o em seu preciso diferencial de loucura

    (BACHELARD, 1990, p. 67). O autor continua:

    Enquanto a Fnix do louco Profeta est na dimenso de uma

    embriaguez da imaginao, a Fnix do pobre de esprito uma

    realidade imediata, quase intangvel (BACHELARD, 1990, p. 67).

    Infelizmente, no podemos reproduzir aqui toda a anlise que o autor faz de

    todas as imagens literrias da Fnix que expe. Mas, a partir deste pequeno exemplo

    dado, faamos uma breve reflexo. Bachelard afirma que, quando se interroga as

    imagens literrias a partir de um ponto de vista do significado que elas evocam, perde-

    se o prprio ritmo da palavra, alm de coloc-la no falso problema de sua verdade. A

    palavra literria livre da necessidade de uma significao emprica diretamente

    relacionada. Por isso, o filsofo recorre fenomenologia para afirmar: Na

    fenomenologia, preciso que se creia numa imagem inacreditvel, sem, no entanto, se

    entregar credulidade (BACHELARD, 1990, p. 52).

    Outra passagem que faz a comparao entre os dois mundos da palavra:

    Os fatos, cada vez mais numerosos, acumulados pelos arquelogos,

    pelos historiadores das religies, pelos mitlogos, o tornaro, com

    maior perfeio, objetivo, segundo a boa regra das cincias

    arqueolgicas. Mas, correlativamente a essa objetividade, que

    aumenta com o nmero de fatos bem classificados, voc se arrisca a

    ver se fechar para si a dimenso dos sonhos (BACHELARD, 1990, p.

    59).

    Faamos, novamente, uma breve pausa para analisar essa ltima passagem. Se,

    na histria, a palavra ainda est condicionada sua necessidade de significar, de

    representar, perde-se, por outro lado, o prprio ser da palavra literria. Quando o

    historiador, o arquelogo, o mitlogo, prendem-se a uma imagem literria para fazer

    dela um documento, descaracteriza-se completamente o ritmo prprio da palavra feita

    literatura. Existem duas formas de ver um documento: ou se est preso abordagem

    objetiva do documento, ou se adere subjetivamente aos impulsos recebidos desses

    documentos (BACHELARD, 1990, p. 59).

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    Quando o historiador procura, em uma interpretao da literatura como

    representao, que realidade est sendo construda a partir de sua intencionalidade,

    acaba-se por perder a verdade inerente literatura, que est justamente em seu

    paradoxo.

    5.

    Como possvel utilizar a literatura sendo historiador? Ela no , como se

    pensava, um documento que representa a inteno do autor nem a poca em que

    escreveu? Esta inquietao, que pode surgir a algumas pessoas, to-somente um

    resqucio da permanncia historicista que se encontra, confusamente, no uso da

    literatura como fonte histrica.

    Se olharmos para a literatura em seu passado, encontraremos apenas um

    contexto histrico e uma possvel intencionalidade. Colocaremos, portanto, uma

    simples, porm desconcertante pergunta: o que determina o contexto histrico e a

    intencionalidade do autor nos efeitos que uma imagem literria pode ter? No

    encontraremos uma resposta objetiva. Mais uma vez: a literatura no um documento

    pelas suas possibilidades de interpretao pela intencionalidade, mas sim, pelo seu

    prprio carter de singularidade. Portanto, a literatura deve ser compreendida, de

    acordo com Bachelard, como produto da imaginao no instante impulsionando-a

    para o futuro sempre em situao de descontinuidade com o autor e/ou a poca.

    Referncias bibliogrficas

    BACHELARD, Gaston. A gua e os Sonhos. So Paulo: Martins Fontes, 1997.

    BACHELARD, Gaston. A Dialtica da Durao. So Paulo: tica, 1988.

    BACHELARD, Gaston. A Intuio do Instante. Campinas: Verus, 2007.

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    BACHELARD, Gaston. O Direito de Sonhar. So Paulo: DIFEL, 1985.

    BRAUDEL, Fernand. Escritos sobre a histria. So Paulo: Perspectiva, 2007.

    CHARTIER, Roger. A Histria Cultural: entre prticas e representaes. Rio de

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    CHARTIER, Roger. O Mundo como Representao. Estudos Avanados, So Paulo,

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    GADAMER, Hans-Georg. Verdade e Mtodo. Petrpolis: Vozes, 2008.

    KANT, Immanuel. Crtica da Razo Pura. Lisboa: Calouste Gulbenkian, 2010.

    SCHLEIERMACHER, Friedrich D. E. Hermenutica e Crtica. Iju: Ed. UNIJU,

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