Revoluo Cultura Brasileira

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cultura

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  • pESQUISA FApESp 206 z 81

    Nos anos 1950, cultura e poltica

    tiveram ligao de mo dupla

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    Partido Comunista

    Revoluo cultural

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    na dcada de 1950, o Brasil se moderniza-va e partidos e movimentos de esquer-da, bem como movimentos artsticos, acreditavam na possibilidade de uma

    revoluo brasileira, nacional-democrtica ou socialista. Artistas e intelectuais tiveram um papel expressivo na construo da utopia de uma brasilidade revolucionria, que permiti-ria realizar as potencialidades de um povo e de uma nao, diz Marcelo Ridenti, professor de sociologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Mas at hoje a compreenso dessa relao, entre poltica e cultura, complexa e inclui nomes de peso do panteo cultural que foram comunistas, como: Jorge Amado, Nelson Pereira dos Santos, Caio Prado Jr., Nora Ney, Dias Gomes, Jorge Goulart e Di Cavalcanti, en-tre outros. um problema que no cabe numa equao simples que supe a militncia comu-nista de artistas e intelectuais como parte de um desejo de transformar seu saber em poder. Tampouco se pode supor que houvesse mera manipulao dos intelectuais pelos dirigentes do Partido Comunista Brasileiro [PCB], explica o professor, que analisou a questo no projeto

    Carlos Haag

    O cineasta Nelson Pereira dos santos durante a filmagem de Como era gostoso o meu francs (1971)

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    que no fosse a Igreja ou o Estado, ento as principais instituies organizadas nos tempos em que a universidade ain-da estava em crescimento, lembra. Na maioria vindos da classe mdia que se expandia com a modernizao do pas, esses intelectuais no cabiam em ne-nhum dos dois espaos. O PCB foi uma chance de organizao, um frum de de-bate cultural e poltico, que permitia ter acesso a uma rede de revistas pelo Brasil e de contatos no exterior.

    LEgItImIdAdEA organizao no partido dava legitimida-de a certos grupos e indivduos que bus-cavam marcar posio (ou evitar perder prestgio) em suas atividades. O grande exemplo foi Jorge Amado, que teve seu talento potencializado pela ligao com o PCB, cuja rede de contatos internacionais facilitou a publicao de seus romances em vrios pases. Por sua vez, ele empres-tava o seu prestgio de escritor ao partido e acabou sendo eleito deputado pelo PCB na Constituinte de 1946, conta Riden-ti. No exlio na Frana, a partir de 1948, aderiu ao movimento internacional pela paz e ganhou notoriedade mundial. Sem desmerecer o talento de Amado, isso no teria acontecido se ele no fosse ligado ao partido. Foi por meio dessa relao que ele teve acesso a uma rede de contatos em diversos pases da Europa e viu seus romances traduzidos em vrios idiomas em razo disso. O mesmo aconteceu com Nelson Pereira dos Santos, que foi para a Frana e outros pases com apoio do PCB e pde conhecer vrios cineastas, diz o pesquisador.

    Amado se transformou em divulgador do realismo socialista no Brasil e mesmo quando se afastou do PCB nunca rom-peu oficialmente com os comunistas. Ele saiu francesa. S ganhou auto-nomia como autor depois de Gabriela, cravo e canela (1958), fala Ridenti. As recompensas, porm, colocavam dilemas para os artistas, que testemunhavam as perseguies aos militantes dissidentes em escala internacional. Eles tambm se inseriam nas redes comunistas co-mo reprodutores do pensamento e da poltica produzida no centro, no como formuladores originais, nota o autor. Realmente, entre os anos 1940 e 1950, durante o realismo socialista, houve um grande controle do partido sobre os ar-tistas e intelectuais brasileiros ligados ao

    1 Cena de O pagador de promessas, de Dias Gomes, em 1960

    2 a cantora Nora Ney no aeroporto do Galeo em 1969

    3 Jorge amado recepciona simone de Beauvoir e sartre em 1960

    Artistas e intelectuais comunistas na consolidao do campo intelectual e da indstria cultural no Brasil.

    Num momento como o atual, em que as pesquisas evitam a politizao dos temas, importante recuperar como cultura e poltica se aproximaram num perodo turbulento como aquele, entre os anos 1950 e 1970, observa o pesqui-sador. Segundo Ridenti, vrios campos artsticos e intelectuais consolidados a partir da dcada de 1950 s so pens-veis a partir das lutas em seu interior, em que os comunistas desempenharam um papel importante, por vezes levando os integrantes do PCB ou ex-militantes s posies de maior reconhecimento ou prestgio. Muitos mudaram de con-vico poltica ao longo do tempo. A maioria fez uma autocrtica sobre a sua atuao naquele perodo, mesmo os que continuaram se identificando como de esquerda ou sendo comunistas. Houve tambm muita reclamao posterior de que o partido mantinha com eles uma relao ornamental ou instrumental, ou seja, apenas para angariar prestgio ou divulgar uma linha poltica, sem fa-lar nas crticas sobre o despotismo da direo, pronta a vigiar o imaginrio dos militantes. S em parte isso verdade. Esses artistas s puderam conquistar posies a partir do histrico de militn-

    cia organizada, que, assim, esteve longe de significar mera manipulao de seus artistas e intelectuais. Era uma relao de mo dupla, observa o autor.

    De fato, o partido tinha uma linha poltica estreita e dogmtica, dava pou-co espao a seus intelectuais, quase no contribua para pensar a especificidade da sociedade brasileira, era marcado pelo centralismo e por relaes autoritrias. Mas havia contrapartidas que mantive-ram os artistas e intelectuais no partido apesar de tudo isso, fala Ridenti. Para ele, no se deve caricaturar a ao cultu-ral do PCB nos anos 1950, um elemento expressivo constituinte da cultura bra-sileira. A indstria cultural ainda no estava de todo estabelecida no pas. Com a modernizao, muitos artistas e inte-lectuais estavam em busca de um espao

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    tido foi autoritrio com os artistas, fica a pergunta: por que muitos deles seguiram na militncia ainda assim? Havia o senti-mento de pertencer a uma comunidade que se imaginava na vanguarda mundial e podia dar apoio e organizao a artis-tas e intelectuais em luta por prestgio e poder, distino e consagrao em seus campos de atuao, para si e para o par-tido, diz o autor. Com esse movimento, os artistas comunistas prepararam o ter-reno para a renovao futura. O Cinema Novo, dos anos 1960, no seria possvel sem a histria anterior de disputas no campo do cinema fomentada pelos ci-neastas comunistas, nota Ridenti.

    O mesmo vale para o desenvolvimen-to das novelas e da TV brasileira como um todo. Aps o golpe de 64, a hegemo-nia do PCB entre intelectuais e artistas

    Os artistas no eram inocentes teis para o pCB, tambm ganhavam com essa relao, nota Ridenti

    PCB. Mas, no geral, essa relao foi flex-vel, porque o partido no se interessava muito pela cultura, o que explica por que, nos anos 1970, os artistas tentaram cons-truir uma poltica cultural para o PCB, que no tinha uma, lembra o historiador Marcos Napolitano, da Universidade de So Paulo (USP), autor do estudoPol-ticas culturais e resistncia democrtica no Brasil nos anos 1970.

    Houve umentusiasmadomovimento em que os intelectuais e o partido con-vergiram para pensar um projetorevo-lucionriode nao. O partido e os in-telectuais de esquerda foram as grandes referncias, por exemplo, paraos cineas-tasdispostos afazer uma arte poltica e, em tese, politizadora. Infelizmente, o partido poderia ter usado mais e me-lhor os diagnsticos feitos pelos artis-tas, observa a sociloga Clia Tolenti-no, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), de Marlia, que estudao tema emO pensamento social na literatura e no cinema, com apoio da FAPESP. Os artistas no eram inocentes teis para o PCB, tambm ganhavam com essa re-lao, nota Ridenti.

    AUtOnOmIAA maior ou menor autonomia do partido dependia da carreira paralela poltica. Figuras como Dias Gomes ou Oscar Nie-meyer, para citar dois exemplos, lembra o pesquisador, no sofreram nenhuma ingerncia do PCB em sua vida e obra. Essa influncia atingia mais (embora de forma desorganizada) os menos conhe-cidos. Assim, se h casos em que o par-

    foi cortada e a partir de 1968 eles acabam abrigados na Rede Globo, apesar de a emissora ser partidria da ditadura. Fi-guras como Dias Gomes, Ferreira Gullar, Gianfrancesco Guarnieri, entre outros, alm de encontrarem proteo, viram a TV como uma continuidade program-tica, acreditavam que era uma forma de falar com o povo. Por isso chegaram a ser rotulados de vendidos, quando estavam continuando a sua poltica cultural, diz o historiador Francisco Alambert, da USP, autor, entre outros, do artigo Mario Pedrosa: art and revolution. Aos pou-cos, com o desenvolvimento da socieda-de civil e da indstria cultural, as classes populares vo assumindo sua voz, no precisando mais de intelectuais falando em nome delas. A produo cultural vai se ligar ao mercado e ao espao univer-sitrio, esvaziando os partidos e a ideia de revoluo, rompendo a aproximao entre cultura e poltica, diz Ridenti.

    No se pode, porm, esquecer o que houve no passado. preciso compreen-der os dilemas e contradies das figuras humanas daquele tempo que no raro aparecem mitificadas nos escritos sobre elas, finaliza o pesquisador. n

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