RESUMO Sociologia - 2 Ano 1 Trimestre A ? RESUMO Sociologia - 2 Ano 1 Trimestre

  • Published on
    30-Aug-2018

  • View
    213

  • Download
    0

Transcript

  • RESUMO Sociologia - 2 Ano 1 Trimestre

    A populao brasileira: diversidade nacional e regional e a formao da diversidade brasileira

    A diversidade sociocultural que existe em nosso pas est tambm relacionada com a

    reflexo sobre a questo da raa, das etnias e do preconceito, bem como com a migrao e do

    estrangeiro. importante o desenvolvimento de um olhar crtico sobre a diversidade

    sociocultural brasileira e, com base nesse olhar, urge refletir sobre a prpria realidade. Pode-se

    abordar o tema da diversidade sociocultural sob os mais diferentes pontos de vista: histrico,

    geogrfico, socioeconmico, entre outros. Aqui, porm, enfocaremos a diversidade sob a

    perspectiva sociolgica, estabelecendo, sempre que possvel, um dilogo com outras disciplinas.

    Para tanto, a proposta de iniciar com uma reflexo sobre a diversidade brasileira para depois

    refletir sobre as tenses na formao dessa diversidade faz-se necessria.

    Compreendemos que a questo da diversidade no poder ser esgotada aqui. Ela o

    eixo transversal que corta a discusso sobre cultura, sobre o mercado de trabalho ou sobre a

    questo da violncia. No que tange formao de nossa diversidade sociocultural, abordaremos

    a migrao, refletindo sobre os motivos que levam os indivduos a deixar o seu lugar de

    nascimento. importante que tomemos conscincia de que a construo da diversidade no se

    d de forma tranquila e que disputas por poder esto, muitas vezes, camufladas por trs de certas

    atitudes.

    Para abordarmos a questo da diversidade sociocultural brasileira, trazemos pesquisas

    estatsticas com dados socioeconmicos, apresentando nmeros das diversas regies do pas, de

    modo a possibilitar uma comparao com os dados relativos ao Brasil.

    A populao brasileira: diversidade nacional e regional

    A diversidade construda, muitas vezes, com base na desigualdade de condies de

    vida. A questo da diversidade nacional e regional pode ser pensada tanto no mbito cultural

    como por meio do estudo de fatores socioeconmicos que condicionam o maior ou menor

    acesso a: educao, rendimentos, saneamento e energia eltrica. O tema da diversidade muito

    amplo e pode ser abordado sob os mais diferentes pontos de vista.

    Diversidade social Brasileira

    Ter maior conscincia da diversidade social brasileira imprescindvel para conhecer

    nosso pas. Observe como grande a diversidade social no Brasil, no apenas entre as regies,

    como em um mesmo municpio. Discutiremos, portanto a diversidade social no pas com base

    nos dados das tabelas apresentadas a seguir referentes s condies de vida da populao

    brasileira. Para tanto, utilizaremos os seguintes indicadores:

    Rendimento Famlias por classes de rendimento mdio mensal familiar per capita (%).

    Educao Taxa de analfabetismo das pessoas de 15 anos ou mais de idade por sexo (%).

    Saneamento e luz eltrica Domiclios por condio de saneamento e luz eltrica (%).

    Veja na tabela, o rendimento por famlia, a seguir:

  • Do ponto de vista dos rendimentos mdios mensais familiares, as regies do pas

    apresentam entre si grande diversidade de situaes e que em todas as regies tambm h,

    internamente, uma diversidade muito grande em termos de rendimentos.

    Vale ressaltar que a tabela apresentada aqui no plenamente satisfatria para anlise e

    compreenso da realidade social em sua totalidade, principalmente no que se refere

    disparidade de rendimento entre as regies. Voc pode, diante disso, complementar a leitura

    crtica dos dados, buscando aprofundar o contedo com outras fontes e outros recursos

    didticos.

    Veja agora a taxa de analfabetismo expressa na tabela abaixo:

    Pode-se concluir, portanto, que as taxas de analfabetismo, por sexo, variam mais entre

    as regies do que em uma mesma regio. exceo do Nordeste, cuja variao de analfabetos

    entre os sexos ficou em torno de 4,1% em 1999, diminuindo para 3,1% em 2011. Nas demais

    regies essa variao no chega a 2%, mesmo aps os perodos citados.

    Os nmeros representam um bom progresso do pas na busca pela erradicao do

    analfabetismo, mas ainda percebemos claramente as desigualdades vigentes entre as regies,

    como o fato de que quase um em cada cinco homens no Nordeste analfabeto.

    Veja agora a taxa de saneamento bsico e luz eltrica e expressa na tabela abaixo:

  • Para saneamento e luz eltrica, pode-se dizer que o principal problema do Brasil em

    termos de saneamento o esgotamento bsico, pois em 1999 apenas 52,8% dos domiclios

    tinham esgoto e fossa sptica. Em 2011 esse nmero subiu apenas 2,1% (54,9% em 2011).

    Como se pode ver, esse o item com as piores porcentagens em todas as regies do pas,

    chegando at a cair de um perodo para o outro, como no caso da regio Norte (de 14,8% em

    1999, para 13% em 2011). Alm disso, h uma disparidade muito grande entre as diferentes

    regies, situao ocultada pela mdia brasileira.

    A regio com as mais altas taxas de cobertura de esgotamento a Sudeste, com 79,6%

    em 1999 e 82,4% em 2011. A regio com dados mais prximos aos da Sudeste a Sul, mesmo

    que ainda de longe, com 44,6% em 1999, porm, apresentando uma baixa em fornecimento

    desse servio para 2011 (35,7%).

    Na pior posio encontra-se a regio Norte, como j citado, com apenas 14,8% dos

    domiclios com rede de esgoto em 1999 e 13% em 2011. No item lixo coletado, percebemos

    um avano da regio Nordeste, passando de 59,7% em um perodo para 77,3% no outro,

    chegando assim a superar a regio Norte, cuja porcentagem foi de 75,8% em 2011.

    A diferena na porcentagem de coleta de lixo entre a regio Sudeste para a regio Norte,

    no ltimo perodo considerado, de mais de 20%, o que mostra a diferena entre as regies. A

    luz eltrica o item com melhores porcentagens em todas as regies, superando 95% dos

    domiclios atendidos. Destaca-se o salto da regio Nordeste, que obteve um progresso de 13%

    nesse servio bsico. Vale a pena destacar, mais uma vez, que h uma diferena significativa

    entre as regies do pas. A regio Nordeste, que antes apresentava as piores porcentagens para

    quase todos os trs itens analisados, em 2011 conquistou melhorias em todos os servios, ao

    passo que a regio Norte apresentou piora em todos os aspectos analisados.

    A seguir reproduzimos duas anlises jornalsticas que exemplificam como as pesquisas

    estatsticas contribuem para a compreenso da realidade, atuando como instrumento no processo

    de reflexo a respeito da diversidade brasileira. A primeira foca a variao do rendimento mdio

    mensal do trabalho no perodo de 2009 a 2011 (Texto 1). E a segunda, as taxas de analfabetismo

    (Texto 2).

  • Texto 1 - Salrio de pobre sobe mais que o de rico, mas diferena ainda de 87

    vezes 1

    Entre 2009 e 2011, o rendimento mdio mensal do trabalho subiu em todos os nveis

    sociais do Brasil, e os pobres tiveram ganhos maiores. Os salrios deles subiram 6,5

    vezes mais que os dos ricos. Mesmo assim, a desigualdade continua grande: o salrio

    mdio dos ricos 87 vezes maior que o dos pobres. O ganho mdio dos 10% mais

    pobres era de R$ 144, em setembro de 2009, e subiu para R$ 186 em setembro de

    2011, uma alta de 29%. A renda do 1% dos brasileiros mais ricos era de R$ 15.437 em

    2009 e passou a R$ 16.121 em 2011 (elevao de 4,4%). A inflao entre setembro de

    2009 e setembro de 2011 foi de 12,36%, pelo IPCA. Os dados so da Pesquisa

    Nacional por Amostra de Domiclios (Pnad), divulgada [...] pelo IBGE (Instituto

    Brasileiro de Geografia e Estatstica). Apesar de os mais pobres terem tido um

    aumento maior que o dos ricos (29% contra 4,4%), a diferena de R$ 186 para R$

    16.121 de 87 vezes. Em 2009, essa desigualdade era pior: 107 vezes (R$ 144 em

    relao a R$ 15.437). Segundo o IBGE, todas as regies apresentaram aumento do

    rendimento mdio mensal real de trabalho entre 2009 e 2011, mas nenhuma teve pelo

    menos a mesma variao da inflao (12,36%). A maior alta no salrio ocorreu na

    regio Nordeste, com 10,7%, seguida pelo Centro-Oeste, com 10,6%. A variao mais

    baixa foi no Sul (4%). No Sudeste, o salrio subiu 7,9%; no Norte, foi 7,7%.

    O texto informa que o rendimento mdio mensal subiu em todos os estratos, mas

    enquanto o rendimento dos 10% mais pobres subiu 29%, o rendimento do 1% dos mais ricos

    subiu apenas 4,4,%. Contudo, se a inflao subiu 12,36% e os rendimentos dos mais pobres,

    29%, o rendimento deles subiu acima da inflao, o que significa que eles tiveram um ganho

    real. J o 1% mais rico teve um aumento de apenas 4,4% nos rendimentos, ou seja, no houve

    aumento real, j que os 4,4% ficaram abaixo da inflao que subiu 12,36%.

    Isso significa que a desigualdade diminuiu totalmente? No, pois a diferena de renda

    entre os mais ricos e os mais pobres ainda de impressionantes 87 vezes. Em 2009 essa

    situao era pior, contabilizando 107 vezes. Pode-se concluir, portanto, a partir desses dados,

    que o Brasil ainda um pas marcado por uma grave desigualdade.

    Texto 2 - Pnad: Taxa de analfabetismo cai no pas, mas atinge 9,1% da

    populao com mais de 18 anos 2

    A pesquisa Pnad 2011 (Pesquisa Nacional por Amostra de Domiclios) aponta para a

    queda de 1% na taxa de analfabetismo das pessoas com dez anos ou mais de idade em

    relao ao ndice de 2009. O nmero agora de 7,9% dessa populao. Em 2004, os

    dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatstica) indicavam que 10,5%

    da populao com mais de dez anos de idade era analfabeta. Os nmeros [...]

    demonstram que entre os jovens de 10 a 14 anos, 1,9% analfabeto. Com 15 anos

    ou mais, a taxa de analfabetismo de 8,6% o que representa 12,9 milhes de

    brasileiros. O Nordeste a regio com os piores resultados em todas as faixas etrias.

    Ali, 15,3% da populao com mais de 10 anos no sabe ler nem escrever. Se

    considerados apenas aqueles com mais de 25 anos, o ndice chega a 21,3%. Na regio

    Norte, o analfabetismo entre os maiores de 10 anos de 9,2%. Na regio Sudeste, a

    1 Salrio de pobre sobe mais que o de rico, mas diferena ainda de 87 vezes. UOL, So Paulo, 29 out.

    2012. Folhapress. Disponvel em: . Acesso em: 24 jun.

    2013 . 2 Pnad: Taxa de analfabetismo cai no pas, mas atinge 9,1% da populao com mais de 18 anos. UOL,

    So Paulo, 29 out.2012. Folhapress. Disponvel em: http://educacao.uol.com.br/noticias/2012/09/21/taxa-

    de-analfabetismo-cai-nopais-mas-ainda-atinge-91-da-populacao-com-mais-de-18-anos.htm>. Acesso em:

    24 jun. 2013.

  • taxa de analfabetismo de 4,4% entre a populao com mais de dez anos de idade.

    Quando considerados, os jovens entre 15 e 17 anos, o ndice chega a 0,8%.

    Mais uma vez, a mdia nacional encobre a diversidade, tanto entre regies como entre

    pessoas de diferentes idades. Enquanto a mdia nacional de analfabetos entre as pessoas com 10

    anos ou mais era, em 2011, de 7,9%, no Nordeste, a proporo sobe para 15,3% da populao.

    A anlise tambm mostra que a taxa de analfabetismo maior entre as pessoas mais

    velhas. Se entre os jovens de 10 a 14 anos ela de 1,9%, entre as pessoas com 15 anos ou mais

    sobe para 8,6%.

    A taxa tambm varia entre regies: no Nordeste, 15,3% da populao com mais de 10

    anos era analfabeta em 2011, ao passo que na regio Norte era de 9,2%. Os dois casos esto

    acima da mdia nacional de 7,9%.

    A formao da diversidade brasileira

    Procuraremos aqui refletir sobre a formao da diversidade social no Brasil a partir da

    figura do estrangeiro tal como analisada por Georg Simmel e discutir: quem o estrangeiro do

    ponto de vista sociolgico, como o estrangeiro tambm pode ser visto como o estranho e qual

    a diferena entre o olhar do estrangeiro para a realidade e o olhar dos que ali se encontram h

    mais tempo. Aps, abordaremos os conceitos de migrao, imigrao e emigrao, importantes

    para refletir sobre a diversidade, e estabelecer uma reflexo sobre por que as pessoas saem de

    um lugar para morar em outro. Veja os significados de migrao, imigrao e emigrao,

    conforme definies do Dicionrio Aurlio. 3

    Emigrante: Que ou quem emigra; emigrado. Emigrar: Deixar um pas para

    estabelecer-se em outro. Sair (da ptria) para residir em outro pas.

    Imigrante: Que ou pessoa que imigra. Imigrar: Entrar (num pas estranho) para nele

    viver.

    Migrante: Que ou quem migra. Migrar: Mudar periodicamente ou passar de uma

    regio para outra, de um pas para outro.

    O estrangeiro

    Muitos so os autores que tratam o tema da migrao, imigrao e emigrao.

    Desenvolveremos a reflexo a partir da anlise que o socilogo Georg Simmel faz do

    estrangeiro, com o objetivo de pensar como a mobilidade espacial de pessoas provoca mudanas

    nas sociedades e nas relaes sociais. Quem Georg Simmel (1858-1918)?

    Ele nasceu na Alemanha, filho de judeus convertidos ao protestantismo religio em

    que Georg Simmel foi batizado. O fato de vir de uma famlia com origem judaica, mesmo que

    convertida, era motivo de preconceito. Em virtude de tal preconceito e do fato de ser um crtico

    dos valores dominantes em sua poca, s conseguiu o cargo de professor contratado em tempo

    integral em 1914, apenas quatro anos antes de morrer de cncer, em 1918. Antes disso,

    permaneceu durante muitos anos como professor no contratado. S recebia se os alunos se

    inscrevessem nos seus cursos. Ainda assim, suas aulas estavam sempre repletas, pois era visto

    como um bom professor e homem brilhante. Era assim que ele conseguia algum ganho, apesar

    de seu sustento vir muito mais de uma herana que recebera pelo falecimento do seu tutor

    (MORAES FILHO, 1983).

    Simmel no procurou criar uma grande teoria. Na verdade, era a favor de escrever

    ensaios (pequenos textos instigantes sobre um tema) e por isso trabalhou os mais diferentes

    3 Dicionrio Aurlio da Lngua Portuguesa. 5. ed. Verso eletrnica. Curitiba: Positivo, 2010.

  • temas, como: a ponte e a porta, o adorno, o jarro, a coqueteria, a filosofia de uma forma geral

    (do dinheiro e do amor, por exemplo), entre muitos outros. O mais importante enfatizar que,

    de certa maneira, por ser ex-judeu, Simmel sentia-se um estrangeiro, pois era tratado como tal.

    Compreende-se, assim, a importncia do estrangeiro no apenas em sua obra, como tambm em

    sua vida.

    Destacamos, ainda, que, Simmel distinguiu o viajante do estrangeiro. O estrangeiro,

    para Simmel, aquele que chega e no vai embora. Logo, no um mero viajante. a figura

    que se muda de um lugar para outro, para ali residir, e no o turista. Como estrangeiro, sua

    posio em relao ao grupo marcada pelo fato de no pertencer ao grupo desde o incio do

    mesmo ou desde que nasceu.

    Simmel no aborda esse aspecto, mas vlido destacar que, em alguns casos, voc pode

    at ter nascido no lugar e mesmo assim sentir-se e ser considerado pelos outros como

    um estrangeiro. Isso pode ocorrer por conta de seu biotipo, de hbitos e costumes que o

    diferem dos demais. A mudana tambm no precisa ser necessariamente de pas. Pode

    ser de Estado, cidade ou bairro. por isso, por exemplo, que muitos jovens loiros no

    Brasil recebem o apelido de alemo mesmo que, muitas vezes, no tenham nenhuma

    ascendncia alem. H ainda outros que so chamados de japoneses por terem traos

    que lembram os orientais, embora tenham nascido aqui e no tenham antepassados

    japoneses.

    Destaca-se ainda a ambiguidade do estrangeiro em relao ao grupo. Ele um elemento

    do grupo, mesmo que no se veja como um, ou que no seja visto como parte dele pelos demais

    membros. Ou seja, um elemento do conjunto, assim como so os indigentes ou os mendigos e

    toda espcie de inimigos internos (MORAES FILHO, 1983, p. 183).

    Com isso, Simmel quis dizer que mesmo aqueles que no so queridos por um grupo,

    ou no so tratados como iguais, tambm fazem parte dele. O estrangeiro tem com o grupo, ao

    mesmo tempo, uma relao de proximidade e envolvimento e de distncia e indiferena. Ele

    vive cotidianamente com aquelas pessoas; logo, est relativamente prximo e envolvido com

    elas.

    Contudo, como, com frequncia, tratado tal qual um de fora, e se sente parte do

    grupo, pode, muitas vezes, desenvolver um sentimento de distncia e indiferena (MORAES

    FILHO, 1983, p. 184-186). O estrangeiro , portanto, o estranho portador de sinais de diferena,

    como a lngua, os costumes, a alimentao, os modos e as maneiras de se vestir.

    Ele no partilha tantos hbitos, costumes e ideias com o grupo; em face disso, tampouco

    partilha certos preconceitos e no se sente forado a agir como um de seus membros. Os laos

    que o unem so muitas vezes mais frouxos do que aqueles que unem os outros membros que ali

    esto desde o seu nascimento (MORAES FILHO, 1983, p. 184-185).

    Tenses na formao da diversidade

    Aqui vamos refletir sobre as tenses que podem ser geradas entre os novos e os velhos

    habitantes de uma localidade na composio da diversidade. Mas no pretendemos fazer uma

    anlise histrica da questo no Brasil, pois essa j trabalhada pelo professor de Histria.

    A ideia promover uma reflexo a respeito de alguns conceitos importantes para

    aprofundar o tema da diversidade, como aculturao e assimilao. Tais noes so

    fundamentais na anlise das tenses decorrentes da formao da diversidade, pois a insero de

    novos atores na realidade social nem sempre se d de forma tranquila.

    Todos os grupos que aqui vieram sofreram preconceito, mas nenhum grupo sofreu tanto

    quanto o dos negros. Para compreender os conceitos de aculturao e assimilao, enfatizamos

  • que alguns temas relacionados adaptao daqueles que migraram, como a religio, a lngua, a

    alimentao, os costumes e outros mais esto diretamente relacionados com a formao da

    diversidade. Vamos explorar aqui as tenses que podem se desenvolver a partir disso.

    Os conceitos de aculturao e assimilao

    O termo aculturao foi criado em 1880 por um antroplogo chamado J. W. Powell

    para designar as transformaes dos modos de vida e pensamento dos imigrantes em contato

    com a sociedade estadunidense (CUCHE, 2002, p. 114).

    A aculturao no significa deculturao simplesmente. Pois o a no incio da

    palavra no pressupe falta de ou privao, como ocorre com outras palavras. Por exemplo:

    amorfo, sem forma, ou amoral, que significa algum que no tem moral. No esse o caso da

    palavra aculturao. O a no incio da palavra vem etimologicamente do latim ad, que indica

    um movimento de aproximao. Com o passar do tempo, a palavra se transformou em conceito

    para explicar o contato entre diferentes povos. E a partir de ento o termo ganha outra

    significao:

    A aculturao4 o conjunto de fenmenos que resultam de um contato contnuo e direto

    entre grupos de indivduos de culturas diferentes e que provocam mudanas nos

    modelos (patterns) culturais iniciais de um ou dos dois grupos.

    A aculturao, portanto:

    No necessariamente sinnimo de mudana cultural;

    No apenas difuso de traos culturais;

    No pode ser confundida com assimilao.

    A ideia de aculturao no necessariamente sinnimo de mudana cultural.

    Salientamos que toda cultura muda. No h cultura que permanea esttica, que no se

    transforme, pois a cultura um eterno processo. A mudana cultural parte de toda cultura.

    Entretanto, algumas mudam mais rpido, outras mais devagar. Veja, por exemplo, os muitos

    grupos indgenas que, segundo o senso comum, do a impresso de no mudar. Mas isso ocorre,

    ns que no os conhecemos direito. As culturas mudam no s devido a causas externas, isto

    , elas no mudam apenas pelo contato com outras culturas, mas tambm devido a fatores

    internos prpria cultura.

    E se a aculturao vem do contato com outros povos, confundi-la com mudana cultural

    deixar de lado uma parte da mudana cultural que a transformao por fatores internos

    prpria cultura. Portanto, a aculturao no somente a difuso de traos culturais. Pois ela

    um processo maior e mais complexo do que tal difuso, que pode ocorrer sem que povos entrem

    em contato direto entre si (por exemplo, por meio de livros, revistas, filmes etc.).

    A aculturao pressupe justamente o contato direto de pessoas de diferentes grupos.

    A aculturao no pode ser confundida com assimilao. Povos aculturados no so

    necessariamente assimilados, pois nem todo processo de aculturao resulta na assimilao total

    de um grupo por outro:

    [...] no se pode confundir aculturao e assimilao. A assimilao5 deve ser

    compreendida como a ltima fase da aculturao, fase alis raramente atingida. Ela

    implica o desaparecimento total da cultura de origem de um grupo e na interiorizao

    completa da cultura do grupo dominante.

    4 CUCHE, Dennys. A noo de cultura nas Cincias Sociais. 2. ed. Bauru: Edusc, 2002. p. 115.

    5 Idem, p. 116.

  • De fato, a assimilao seria a ltima etapa de todo o processo de aculturao devido ao

    contato de dois grupos, pois implica o fim da cultura de um dos grupos, uma vez que a cultura

    do segundo grupo totalmente assimilada pelo primeiro. Ora, a assimilao total de um grupo

    por outro algo muito difcil de ocorrer. E, assim, a aculturao, na grande maioria das vezes,

    no provoca o fim de uma das culturas.

    Na verdade, em geral, ambos os grupos se modificam. verdade que as modificaes

    costumam ser maiores em um grupo do que no outro. Os novos costumes, ou caractersticas, so

    sempre internalizados de acordo com a sua lgica interna. Apesar das modificaes, a lgica

    interna permanece com frequncia. Com isso, mantm-se a forma de raciocinar do grupo.

    Compreende-se, portanto, as razes que levam um grupo de jovens a usar cala jeans:

    por conta dos processos de aculturao e assimilao.

    Observe que o uso de roupas ocidentais por grande parte da humanidade no faz que os

    grupos deixem de pensar como sempre pensaram. A incorporao do jeans e da camiseta como

    quase um uniforme por todos os jovens no os leva a pensar da mesma forma ou a deixar de

    apresentar seus valores de acordo com a cultura em que esto inseridos. Isso, porm, no

    significa que no sejam influenciados pelos valores de outra cultura.

    verdade tambm que, s vezes, as mudanas so to intensas que um dos grupos pode

    realmente acabar. De qualquer forma, sempre bom destacar que praticamente no h cultura

    que no se modifique pelo contato com outra. O que significa que o processo de aculturao

    quase sempre se d dos dois lados. por isso tambm que h autores que criticam a ideia de

    aculturao porque ela parece no dar conta de que o processo recproco, mesmo que raras

    vezes seja simtrico. Normalmente um processo assimtrico. Uma cultura quase sempre se

    transforma mais do que a outra, visto que elas no esto em p de igualdade.

    A Era Vargas pode ser um exemplo. Os estrangeiros aqui residentes foram proibidos de

    falar suas lnguas de origem, seus jornais foram fechados e muitos locais tiveram que mudar

    seus nomes. Durante esse perodo, os estrangeiros que aqui viviam foram forados a passar

    por um processo de assimilao da cultura brasileira. Por qu? o caso de mostrar que isso

    ocorreu mais intensamente com os alemes e japoneses, pois o Brasil estava em guerra com

    esses pases.

    O contrrio tambm ocorreu no processo de colonizao pela qual passou o Brasil. Os

    ndios foram domesticados a falar a lngua portuguesa, a adotar a religio europeia e o modo de

    vida europeu. Os indgenas sofreram um processo de assimilao da cultura europeia de forma

    que o Brasil, embora, preserve ou se reinvente culturalmente, possui uma lngua europeia, uma

    religio hegemnica europeia e uma mentalidade europeia, pois a maioria dos autores estudados

    nas escolas oriunda da Europa.

Recommended

View more >