Responsabilidade Social Empresarial RSE - o qu, como e porque

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    11-Jun-2015

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Teoria dos Dois Trinmios

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Responsabilidade Social Empresarial O Que, Como e Porque

Saint-Clair Cavenaghi, Jr.Combo Social 2005

Responsabilidade Social Empresarial Os dois trinmios As reas da Responsabilidade Social A Base A Responsabilidade Social das empresas refere-se a estratgias de sustentabilidade que, alm do desempenho financeiro, consideram tambm os efeitos sociais e ambientais das suas atividades. Na base est o princpio, do Desenvolvimento Sustentvel, de que o desenvolvimento econmico, a coeso social e a proteo do ambiente so interdependentes e indissociveis: para garantir s futuras geraes uma sociedade mais prspera e justa, o planeta mais limpo e qualidade de vida melhor, preciso, desde hoje, crescimento econmico que favorea o progresso social e respeite o meio ambiente. RSE Social Equidade e participao de todos os grupos sociais

dimenses

Econmica Riqueza para todos, atravs da produo e consumo durveis

Ambiental Conservao e gesto de recursos

Assim, a base da RSE tem trs dimenses, que definem o primeiro trinmio que, ao nosso ver, sustenta todo o arcabouo da atuao empresarial socialmente responsvel, de maneira includente e no-seletiva. Vale dizer que impossvel a uma empresa ter aes socialmente responsveis relativamente a apenas uma ou duas dessas dimenses. Mesmo que varie a intensidade numa ou outra, nenhuma delas ter impacto nulo, ainda que esse impacto seja no deliberado. De outra forma, caso uma ao empresarial, dita socialmente responsvel, seja nula ou negativa numa das trs dimenses, ento, certamente, essa ao ser qualquer outra coisa, mas no uma de responsabilidade social. Os trs P's ou a triple bottom line Na Agenda 21, o plano de sustentabilidade para o sculo XXI adotado na Cpula do Rio de Janeiro, em 1992, foram fixadas as trs reas do Desenvolvimento Sustentvel: a dimenso econmica, a dimenso ambiental, e a dimenso social, tambm conhecidas pela expresso triple bottom line ou ainda pelos 3 P's - People, Planet, Profit, como lhe chamou a Shell, no seu relatrio de sustentabilidade.

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O eixo econmico representa a criao de riqueza para todos, pelo modo de produo e de consumo durveis; o eixo ecolgico reporta-se conservao e gesto de recursos e a rea social reflete a eqidade e a participao de todos os grupos sociais. A dimenso econmica Para as empresas, a economia do desenvolvimento sustentvel tem a ver com uma viso de longo prazo e abrange a rea do ambiente (management ambiental, transio do produto para o servio, ecologia industrial etc.); o social e os recursos humanos (...); e por fim o territrio: desenvolvimento local e comportamento das multinacionais nos diferentes pases. A dimenso econmica da sustentabilidade diz respeito ao impacto das organizaes (as empresas) sobre as condies econmicas das suas partes interessadas (acionistas, empregados, fornecedores, clientes etc) e sobre o sistema econmico em todos os nveis. O desempenho econmico abrange todos os aspectos das interaes econmicas que podem existir entre uma organizao e as suas partes interessadas, incluindo os resultados tradicionalmente apresentados nos balanos contbil-financeiros. Estes balanos destacam prioritariamente os indicadores relacionados rentabilidade da empresa porque esto vocacionados para informar as direes e os acionistas. Os indicadores de Desenvolvimento Sustentvel respondem a outras prioridades e devem permitir perceber quais so as implicaes da atividade de uma organizao empresarial na sade econmica dos seus stakeholders - fornecedores, governo, clientes, bancos etc. Alm disso, oportuno referir que todas as organizaes devem ser econmicas, no sentido estrito do termo. Isto implica que uma empresa que faz economia de recursos (matrias primas, energia, gua, papel etc) no , s por isso, socialmente responsvel mas, uma empresa que se quer praticante da RSE, necessariamente, faz economia de recursos,a priori.

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Econmica Rentabilidade das empresas para acionistas e gestores; sade econmica de funcionrios, fornecedores e clientes. Dimenso mais quantificvel do que qualificvel. Todas as organizaes devem ser econmicas; devem se manter viveis e operar dentro de seu contrato social; devem prestar contas de forma certificada e regida por critrio acordado.

RSE Social Equidade e participao de todos os grupos sociais

Ambiental Conservao e gesto de recursos

A dimenso ambiental Na perspectiva do Desenvolvimento Sustentvel, a questo ambiental vista no duplo aspecto dos recursos e das poluies. essencial tambm a preocupao com as "tragdias lentas", que no parecem ter forte impacto no curto prazo, mas que podem ter conseqncias dramticas a longo prazo. Para as empresas, a dimenso ambiental est relacionada com os seus impactos sobre os sistemas naturais vivos e no vivos ou orgnicos e inorgnicos, incluindo ecossistemas, solos, ar e gua. Uma empresa socialmente responsvel vai, assim, procurar minimizar os impactos negativos e ampliar os positivos. Dentro das reas da Responsabilidade Social, esta a mais consensual: tem impactos muito concretos, que se podem sentir em todos os pases; mais fcil de avaliar/medir que a dimenso social e se beneficiou da divulgao de eventos como a Cpula da Terra ou a Cpula de Joanesburgo.

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Econmica Riqueza para todos, atravs da produo e consumo durveis

RSE Social Equidade e participao de todos os grupos sociais

Ambiental Conservao e gesto de recursos. As organizaes devem operar de acordo com as leis. Devem ser e estar conscientes no apenas das restries legais, em geral e da legislao ambiental, especificamente, mas tambm das implicaes que suas operaes possam ter no ambiente, independentemente da legislao. Devem ser responsabilizadas e se autoresponsabilizar pelos impactos ambientais de suas operaes, produtos, emisses, emanaes e descartes.

A dimenso social A componente social do Desenvolvimento Sustentvel vai da implementao da eqidade at valorizao da identidade dos seres humanos na sua diversidade. A eqidade , em termos mundiais, a solidariedade com os pases do Sul (ajudas pblicas mas, tambm, desenvolvimento) e a luta contra a pobreza. O DS questiona tambm a eqidade entre geraes e a nossa responsabilidade para com as geraes futuras. O desenvolvimento humano tem a ver com o fortalecimento das capacidades individuais por meio da educao, da responsabilizao, da segurana etc A dimenso social, para as empresas, diz respeito ao seu impacto nos sistemas sociais onde operam. O desempenho social abordado por meio da anlise do impacto da organizao sobre as suas partes interessadas empregados, fornecedores, consumidores/clientes, comunidade, governo e sociedade em geral em nvel local, nacional e global. Assim, em relao aos empregados, a empresa socialmente responsvel faz compromissos para respeitar o equilbrio entre o trabalho e a vida privada; incentiva a participao dos empregados em sindicatos e outros rgos de representao coletiva; favorece o desenvolvimento pessoal atravs da formao etc. Em relao aos fornecedores, a empresa pode lutar contra as prticas do trabalho infantil, do trabalho forado etc. (vale dizer que a empresa 5

responsvel, tambm, por se suprir de insumos obtidos de maneira socialmente responsvel), como pode tambm desenvolver uma poltica de comrcio justo que garanta aos fornecedores rendimentos regulares. As medidas contra a corrupo fazem tambm parte das prticas que as empresas podem implementar. A rea social , assim, uma rea muito vasta, que toca problemticas s vezes dificilmente quantificveis e altamente delicadas. O que significa liberdade de associao ou liberdades sindicais em pases que no as reconhecem? O que significa a igualdade entre homens e mulheres em contextos sociais ou religiosos que negam esta igualdade? Em 1999, Kofi Annan, lanou o Global Compact, convidando as empresas a pararem com o dumping social, sem ficar espera da promulgao de leis e normas nos pases do Sul. Durante o Frum Econmico de Davos, Kofi Annan dirigiu-se aos dirigentes das maiores empresas mundiais dizendo que: (...) Na maneira como conduzem os seus negcios, podem favorecer diretamente o respeito pelos Direitos Humanos. No fiquem espera que todos os pases adotem leis que garantam a liberdade de associao: vocs podem, desde j, garantir o exerccio destes direitos e liberdades a todos os seus empregados ou aos que trabalham para os seus fornecedores. Devem ficar atentos, desde j, para a situao do emprego direto ou indireto de crianas (...); para o no favorecimento, nas polticas de recrutamento ou demisso, de distines discriminatrias baseadas na raa, no sexo, na origem tnica ou nas opinies. Desta forma, as empresas so chamadas a usar positivamente o seu poder para ajudar a resolver problemas sociais.

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Econmica Riqueza para todos, atravs da produo e consumo durveis

RSE Social Ambiental Equidade: a disposio de Conservao reconhecer o direito de cada e gesto de um; o tratamento justo e com recursos retido. Valorizao da identidade dos indivduos, na sua diversidade, e das coletividades, em suas peculiaridades. Dimenso mais qualificvel que quantificvel. Todas as organizaes devem trabalhar dentro da lei e devem ser e estar conscientes das restries prprias dos ambientes sociais onde operam. Consideraes ticas, filantrpicas, comunitrias so essenciais no impacto social de suas operaes.

A dificuldade de medir resultados Medir este desempenho, o impacto da atividade da empresa nestas trs reas, um processo-chave para a implementao efetiva de uma estratgia e de um plano de Responsabilidade Social Empresarial (RSE). Mas esta avaliao levanta muitas questes: como medir os desempenhos econmicos, sociais e ambientais? Com base em quais indicadores? Como gerir um volume e uma diversidade crescente de informao ou ainda os riscos de enfrentar uma opinio pblica crtica acerca das informaes dadas pela empresa, que podem ser consideradas ou incompletas ou inapropriadas? Estas questes demonstram a complexidade do trabalho de elaborar uma matriz global que reflita a responsabilidade social, razo pela qual muitas empresas ainda no aderiram elaborao de um Relatrio de Responsabilidade Social e, menos ainda, a um instrumento auditvel como a Norma Internacional SA 8000. A Precedncia Uma discusso filosoficamente interessante mas que, ao nosso ver, tem sido incua na prtica empresarial, diz respeito ao que precede e ao que sucede, quando se trata de Desenvolvimento Sustentvel (DS) e Responsabilidade Social Empresarial.

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Assim, pode-se argumentar que o DS que leva as empresas a terem RSE de maneira deliberada, consciente. Ao contrrio, pode-se tambm supor que a Responsabilidade, presente a priori, faz com que empresas se dediquem sustentabilidade a mdio e longo prazos. A prtica empresarial demonstra que ambas as abordagens so verdadeiras e que, portanto, no h, necessariamente, relao fixa de causa e efeito, se no que algumas empresas, sendo responsveis de maneira geral, tm, por isso mesmo, sensibilidade mais acurada que outras para o Desenvolvimento Sustentvel. Outras, em funo de razes como localizao geogrfica ou segmento de atuao, por exemplo, tm determinadas necessidades relativas a alguma das variveis do DS, ambientais, por exemplo, com relao a matrias primas ou recursos como gua ou energia, ou ainda ligadas a variveis de processo, como efluentes ou emanaes fugitivas e que, no trato do atendimento dessas necessidades, acabam por se sensibilizar para a RSE. As Vigas O Segundo Trinmio A atuao empresarial, qualquer que seja, impacta e impactada no e pelo entorno social onde existe e, no limite, sobre todo o mundo. No entanto, esses impactos podem ser melhor percebidos onde maior for sua magnitude. A geologia sismolgica, por exemplo, usa de referenciais relativos para determinar a potncia de um terremoto de tal forma que a magnitude assumida pelo mximo impacto, mas cada pessoa e cada instrumento a percebe cada vez menor, quanto mais afastada do epicentro. Da mesma forma, a atuao empresarial impacta mais diretamente seus clientes, empregados, fornecedores, acionistas e a comunidade onde ela est, e menos as pessoas, organizaes e comunidades mais afastadas dela. Isto sugere que se deva analisar o mximo impacto que determinada atuao empresarial implique. Da mesma forma, h que se distinguir quem afetado por tal atuao e, tambm aqui, identificamos trs agentes/pacientes, interativos e interdependentes: a Empresa, o Indivduo e a Sociedade. A Empresa Organizaes que se valem do trabalho humano e de recursos naturais para gerar bens e servios, as empresas no so, a rigor, nem virtuosas nem vils a priori. Da mesma forma que determinados tratamentos mdicos s so possveis caso se tolerem e/ou se corra o risco de certos efeitos colaterais, da mesma forma, o empreendimento produtivo consome, necessariamente, certos recursos e gera, necessariamente, alguns resduos. Esse consumo e gerao desagradveis ou at prejudiciais, so mais ou menos tolerados, na medida em que as relaes custo/benefcio sejam favorveis.

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Esse favorecimento se d, em certos casos, apenas e to somente aos acionistas e investidores do empreendimento e, em outros, por exemplo, no caso de determinadas organizaes sem fins lucrativos, ao favorecimento mximo das pessoas que se beneficiam do produto ou servio gerado. A empresa que adota e pratica a RSE faz essa anlise de impactos, e procura maximizar os benefcios e minimizar os custos no apenas financeiros e econmicos, mas de toda ordem, envolvendo as outras duas vigas de sustentao da RSE, Indivduo e Sociedade. O Indivduo Indivduos, pessoas fsicas, so todas as que so afetas atividade empresarial, com toda sua diversidade de interesses. Ento, o empregado, o consumidor, o investidor, o vizinho, podem ser, s vezes, a mesma nica pessoa. Alm dela ou delas, h que se considerar os empregados das empresas fornecedoras, os das empresas clientes, a vizinhana dos entornos empresariais fornecedor e consumidor; os aplicadores em fundos que investem nas empresas e, por que no, as pessoas todas que convivem com os restos e embalagens dos produtos, respiram o ar que recebe as emanaes e utilizam a gua que recebe efluentes resultantes dos processos produtivos. Essa considerao faz-se, tambm, em termos de relao custo-benefcio. Por exemplo, pode-se assumir que todo avano tecnolgico excludente de mode-obra. Os incrementos de produtividade geram levas de desempregados. Esses indivduos, que tm sua sobrevivncia muitas vezes ameaada, devem ser objeto da considerao das empresas ou da sociedade? Ou de ambos? Exemplo comum de relao custo/benefcio controversa diz respeito indstria fumageira, que gera empregos e tributos, bem como doenas e despesas econmico-financeiras e custo social pelo consumo de seus produtos. Fumar ou no fumar uma deciso individual? Ou social e coletiva? Ou empresarial? De toda forma, o indivduo deve ser, sempre, levado em conta por organizaes adeptas da RSE, em todas suas esferas de influncia, independentemente de consideraes ticas de princpio ou de resultado. At porque, nos nossos termos, se no por outros motivos, um CNPJ composto por inmeros CPFs. A Sociedade Mais de que mera soma ou conjunto aleatrio de pessoas fsicas e jurdicas, a sociedade deve, necessariamente, estar e ter de maneira organizada as relaes entre seus membros fsicos e jurdicos (pessoas e organizaes), bem como polticos.

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Regras de convivncia explcitas (leis, regulamentos etc) e implcitas (educao, costumes, cultura etc) devem ser estabelecidas e respeitadas. Nestes termos, preciso que as organizaes, principalmente as transnacionais, entendam quais so essas regras, no que elas se diferenciam daquelas prprias de sua sociedade de origem e, sem julg-las, possam adotlas e propor mudanas, antes de impor, depois de discutidas e achadas apropriadas essas mudanas. Ainda, essas organizaes devem saber diferenciar sociedades de contrato das sociedades de contexto, evitando pr-julgamentos e preconceitos, mesmo quando considere que a prtica social seja inadequada ou, de alguma forma, menos boa que aquelas que tenham como prtica usual. Assim, em alguns pases, que caracterizamos por terem sociedades de contrato, as atitudes diante do convencionado so mantidas tal como seriam se houvesse um contrato entre as partes, sociedade e indivduo. Neste sentido, por exemplo, h que se considerar que algo universal, como o semforo de trnsito, que tem em todo mundo as mesmas trs cores, com os mesmos significados, implicam atitudes diferentes em diferentes sociedades. Numa sociedade de contrato, diante de uma luz vermelha no semforo, os motoristas param seus carros, independentemente da hora do dia, de haver ou no pedestres atravessando a rua ou outros veculos passando. O contrato entre motorista e sociedade diz que diante da luz vermelha, pra-se! Em outras sociedades, o mesmo contrato coletivo contextualizado, relativizado: dependendo da situao, faz-se ou no o que se previu fazer. Assim, diante da mesma luz vermelha, em algumas sociedades de contexto, dependendo do horrio, os motoristas param ou apenas diminuem a velocidade e, se der, passam, se no, param. As organizaes praticantes da RSE necessitam entender essas caractersticas e conformarem-se. Isto no significa que no devam tentar mudar para melhor determinadas prticas, mas que isto deva ser feito com determinados cuidados, sem os quais o custo da mudana pode ser muito maior do que os benefcios dela esperados. A Matriz dos dois trinmios

indivduo trabalho empresa retorno sociedade tributos econmico

educao higidez profissionais insumos cidadania social perenidade ambiental

Em termos simples temos, nas interseces dos elementos de cada trinmio, das bases e das vigas que sustentam a RSE, que Indivduo, Empresa e

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Sociedades tm esses ganhos ou vantagens apontados, nas vertentes Econmica, Social e Ambiental: - o Indivduo tem, em termos econmicos, trabalho; em termos sociais, educao e, em termos ambientais, higidez ou sade; e assim por diante. De novo, isto se coloca em termos simples. claro que quando dizemos que o indivduo tem trabalho, ele pode t-lo numa organizao adepta da RSE como pode t-lo de uma que seja completamente avessa a esses princpios e prticas. A questo no se resume, portanto, a ter trabalho, mas qualidade do trabalho que se tem, forma de tratamento, ao respeito ao trabalhador, remunerao, s condies de trabalho e de qualidade de vida no trabalho e assim por diante ou, se quisermos, aos preceitos todos da SA 8000, por exemplo, e/ou legislao especfica e/ou s convenes internacionais da OIT e, at, eqidade, quando se tratar de empresas multinacionais, das prticas, pela mesma organizao, em diferentes sociedades. Da mesma forma, os profissionais para a Empresa no so quaisquer pessoas, mas pessoas educadas, qualificadas, convictas do valor do trabalho, capazes de agir como profissionais competentes e no mera mo-de-obra, o que se consegue se o indivduo tiver educao e condies de seguridade social necessrias e suficientes para tanto, o que garantir, para a Sociedade, cidados na melhor acepo. Vale dizer, tais vantagens ou benefcios no so mutuamente excludentes, seno, ao contrrio, reforadores e apoiadores uns dos outros. Assim, a RSE se sustenta, gerando benefcios que sustentam as empresas que sustentam as pessoas que formam sociedades onde as empresas tm sustentao e assim por diante. Ainda em termos simples e objetivamente, um programa de reciclagem de embalagens (metlicas, plsticas, de papel), por exemplo, pode ser apontado na matriz acima, como identificvel nas vertentes de: Trabalho para indivduos ocupados na coleta, separao e reciclagem; Retorno para empresas recicladoras e consumidoras de materiais reciclados; Tributos para a sociedade, gerados pela comercializao dos reciclveis e reciclados; Seguridade/Educao para os indivduos, graas ao rendimento do trabalho de coleta e de reciclagem; Profissionais para as empresas, capacitados para distinguir matrias primas virgens ou recicladas, sua seleo e aplicao com as melhores economias e resultados;

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Cidadania, dada pela conscientizao das pessoas em separar e recuperar materiais, reduzindo ou eliminando poluio/contaminao, riscos ambientais e de segurana; Higidez para os indivduos, pelas mesmas razes de reduo de oportunidades de contaminao ambiental e de riscos fsicos; Insumos para as empresas, que tm a possibilidade de utilizar total ou parcialmente, matrias-primas no virgens, a custos menores e/ou com menos utilizao de outros insumos de transformao, tempo e desgaste de equipamentos; Perenidade de atividades socialmente relevantes, quer pela reutilizao seguida de recursos finitos, quer pela manuteno de estoques de recursos estratgicos ou, ainda, pela no utilizao de recursos escassos em atividades de recuperao da sade e/ou do ambiente. No entanto, nem todas as atividades ou programas ditos de RSE tm essa simplicidade, ou essa abrangncia ou identidade. Tomemos, outro exemplo, um programa de voluntariado em que so voluntrios os empregados de determinada organizao, patrocinados por ela, quer pelo tempo cedido, quer por recursos financeiros ou ambos. Ser que um programa dessa ordem traz, automaticamente, todos aqueles retornos e vantagens, apontados em nossa matriz? Impossvel dizer a priori! Depende das aes empreendidas. Dizer-se voluntrio no basta, preciso que se tenha, com clareza, o atendimento de determinados pr-requisitos, para se ter um programa de Responsabilidade Social Empresarial, verdadeiramente, mais do que um programa de marketing social ou de filantropia ou de planejamento fiscal ou outros, que acabam passando por RSE, (sendo os piores os de mera hipocrisia empresarial). A Prtica Construir um projeto de Responsabilidade Social Desenvolver um projeto de Responsabilidade Social na empresa no difere muito do desenvolvimento de um outro qualquer projeto que a empresa tenha levado a efeito, como por exemplo, um relativo qualidade. Alis, trata-se aqui tambm de qualidade, s que vista de uma forma ainda mais ampla. Os passos fundamentais: 1. Formar uma equipe Ningum comea sozinho um projeto com implicaes em todos os nveis de uma empresa. preciso sensibilizar e envolver as pessoas necessrias (as que tm poder e influncia), como, por exemplo, a administrao e as chefias; deve-se ser capaz de ultrapassar todas as resistncias e ceticismos eventualmente existentes e, depois, criar uma equipe de trabalho.

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2. Fazer um levantamento Listar as diversas reas da empresa, cruz-las com os indicadores de Responsabilidade Social, ver o que existe e o que h a fazer. Nesta fase, conveniente recorrer ao apoio de especialistas, como o Combo Social . fundamental, tambm, no esquecer a parte social e tomar o pulso, ouvindo as partes envolvidas, principalmente os empregados, consumidores, clientes, para saber qual a imagem e expectativas que tm da empresa. Este levantamento, alm de permitir uma viso clara da situao da empresa, permite tambm tomar conhecimento e inventariar aspectos positivos e negativos para o projeto. 3. Comunicar internamente sobre os resultados do levantamento Comunicar tornar visvel que as pessoas foram ouvidas e que a sua opinio foi levada em conta. Significa tambm, nesta fase, tornar mais claro que h um projeto em andamento e anunciar as prximas fases. 4. Definir objetivos e metas Uma vez feito o levantamento, com uma idia clara do cenrio, possvel definir os objetivos e as metas, ou seja, os objetivos de curto e mdio prazo. Estes, naturalmente, tero de ser sujeitos a uma regular reavaliao. Paralelamente definio de objetivos e metas, devero ser igualmente definidos os indicadores de sucesso e as metodologias de avaliao que permitiro verificar se o que se pretendeu foi atingido e em que medida. 5. Fazer um plano importante que este plano seja global. No tem de ser demasiado ambicioso, mas fundamental que as reas social, ambiental e econmica estejam nele consideradas. Muitas empresas tendem para comear por uma rea (regra geral, a ambiental), mas esta abordagem revela uma perspectiva muito limitada da Responsabilidade Social Empresarial e, sobretudo, muito distante, s vezes, das preocupaes cotidianas dos empregados, supostos de participao ativa no projeto. 6. Comunicar sobre os objetivos e o plano Uma vez que este projeto vai envolver muitas reas dentro da empresa e eventualmente mudar procedimentos e metodologias de trabalho, importante que ele seja comunicado a todas as partes envolvidas e que sejam divulgados os objetivos que a empresa se comprometeu a atingir. 7. Pr o plano em ao 8. Fazer balanos regulares e comunicar Face aos resultados medidos pelos indicadores inicialmente definidos, importante fazer balanos peridicos e comunicar sobre eles para que todas as

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partes envolvidas estejam a par e sintam a importncia real do projeto para a empresa.

As caractersticas da empresa socialmente responsvel Forte envolvimento, baseado em valores; Vontade de progresso contnuo e atitude baseada na humildade; Compreenso e aceitao da interdependncia da empresa com os seus meios envolventes; Viso de longo prazo, baseada na responsabilidade face s geraes futuras; O princpio de precauo como regra de deciso; Prtica regular de dilogo e de consulta de todas as partes envolvidas, inclusive sobre os temas mais delicados; Vontade de informao e transparncia; Capacidade de responder pelos seus atos e de prestar contas sobre as conseqncias diretas e indiretas da sua atividade.

Fontes primrias e secundrias: SDC Sair da Casca Comunicao e Responsabilidade Social OCDE Organizao para a Cooperao e Desenvolvimento Econmico; CEEPA - SA8000 Social Accountability International; Reviso crtica e colaborao: Membros do Combo Social, especialmente Regina Roveri

Saint-Clair Cavenaghi, Jr. Combo Social outono 2005

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