Resistir a qu Ou melhor resistir o qu

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    28-Jan-2017

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23LUGAR COMUM No17, pp. 23-32Res is t i r a qu?Ou melhor, r es is t i r o qu?Tatiana RoqueNo sentido corriqueiro, resistir sempre resistir contra ou resistir a. Ouseja, se opor ou suportar: , em suma, lutar, coexistindo ou sucedendo certoexerccio de poder. Mas tambm resistir tentao, manter-se firme diante deuma fora contrria. O que pretendo neste texto pensar um sentido afirmativopara a idia de resistncia, partindo de trs mbitos distintos fsico, eti-molgico e matemtico e prosseguindo por uma via filosfica, de inspiraodeleuziana, para propor uma definio processual e uma articulao deste con-ceito que torne possvel pens-lo como um processo que est em curso antes dofato ao qual se resiste, que ser, de fato, condio de possibilidade da resistnciaefetiva que ir se instaurar a partir deste fato1. A resistncia tornar-se-, destemodo, constitutiva de um devir revolucionrio.Trs quadros, trs inflexes da palavra "resistncia"Comeo por explicar que os contextos que seguem, e nos quais meinspiro, no se prestam a justificar uma proposio filosfica por uma argu-mentao terico-cientfica. Ao partir de um mbito cientfico, pretendo, istosim, aproximar a teoria em questo de uma prtica; sem dever, para isto, aplic-laa um contexto prtico, tal como este usualmente concebido, mas fazendo-afuncionar - e ressoar - em mbitos diversos, por um modo distinto da aplicao.Resistncia na fsicaNo mbito fsico, a resistncia pode ser mecnica - uma fora que se ope aomovimento de um corpo - ou eltrica - propriedade de um condutor de se opor1 Esta anterioridade da resistncia j foi assinalada por Foucault, pelo prprio Deleuze em seutrabalho sobre Foucault e por alguns outros autores. O modo como o faremos neste texto per-corre, no entanto, um caminho distinto. RESISTIR A QU? OU MELHOR, RESISTIR O QU?24 passagem de corrente eltrica. Neste ltimo caso, ela se mede pelo quocienteda diferena de tenso aplicada s extremidades do condutor pela corrente quenele circula. O condutor pode ser denominado "resistor" e chamado freqen-temente, ele mesmo, de "resistncia" (" preciso trocar a resistncia do chuveiro").No podemos deixar de notar uma certa substantivizao do termo: no primeirocaso a resistncia uma fora; no segundo, uma propriedade de um resistor. O contedo afirmativo da noo de resistncia se torna ntido quandodistinguimos, no as suas definies, mas os seus sentidos mecnico e eltrico.Suponhamos que se queira colocar um motor em funcionamento, para moverqualquer coisa, um ventilador por exemplo. Ligamos um fio a uma fonte deenergia que far funcionar o ventilador, mas este fio possui uma resistncia, queser tanto maior quanto mais comprido e mais fino ele for. Guardando o objetivofinal de mover um motor, a resistncia do fio atua como se fosse uma resistnciamecnica, uma vez que se ope ao movimento, no caso, do ventilador. impor-tante salientar aqui que a expresso "como se fosse" j indica que no se trata, arigor, de uma resistncia mecnica, mas sim de uma resistncia que possui afuno negativa de se opor ao movimento, tal como a resistncia mecnica. H, ademais, um detalhe fundamental: o fio reduz a passagem da cor-rente porque esquenta, e este o modo como a resistncia do fio se exprime:pela produo de calor. Se o fio for muito longo e muito fino, podemos enrol-lovrias vezes e coloc-lo dentro de um recipiente de vidro, fabricando um dis-positivo que conhecemos bem e que chamamos de "lmpada". Quando estalmpada ligada a uma fonte de energia, o calor produzido pelo fio gera luz. Emoutros casos, a gerao de calor de uma resistncia pode servir para esquentar agua, como no caso da resistncia que faz funcionar os chuveiros eltricos.Esquecendo, portanto, por um momento, o objetivo mecnico de moverum motor ou de fazer funcionar o ventilador, a resistncia no mais atuacomo oposio e deixa de ser associada ao sentido negativo2 de que falvamosh pouco. Em sua produo eltrica, a resistncia afirmativa: pode produzirluz e calor. 2 Cabe notar que as palavras "negativo" e "afirmativo" so empregadas aqui em seus sentidosmais literais, sem que nenhuma questo moral ou de valor esteja envolvida.Tatiana Roque 25Cabe lembrar, por fim, que um movimento, executado por uma foramecnica, possui uma extenso, sendo medido por uma unidade de medidaextensiva, que pode ser caracterizada pela sua possibilidade de ser dividida empartes. Por exemplo, se ligamos um objeto unidimensional de um metro a umoutro com o mesmo tamanho, obtemos um objeto de dois metros. J a temper-atura no uma grandeza extensiva, mas intensiva. Para compreender esta pro-priedade, basta observar que o grau uma unidade de medida de intensidade;isto , se acrescentamos uma poro de gua com temperatura de 100 graus auma igual poro com a mesma temperatura, obteremos o dobro de gua, masno o dobro de temperatura. Em resumo, a produo mecnica da resistncia extensiva, ao passo que sua produo eltrica intensiva. Divagaes inspiradas pela etimologiaH sempre o perigo, ao se iniciar uma argumentao de tipo etimolgico,de suscitar a desconfiana de que h um sentido mais verdadeiro para aspalavras, associado ao seu sentido primeiro ou mais antigo. Evidentemente, aspalavras se definem tambm pelo seu uso, porm, isto no nos impede, porm,de buscar algo de sua origem que permanece, ainda que de um modo novo,esculpido pelo tempo. Se invoco a etimologia da palavra "resistncia", apenaspara mostrar que esta palavra se presta, desde o princpio, s inflexes que pre-tendo produzir sobre ela. E que a deciso de mant-la no nem casual, nemmotivada pela falta de outro termo mais apropriado. sempre possvel, e mesmodesejvel, inventar novas palavras para novos conceitos. No caso da "resistncia",todavia, prefiro manter a palavra, tentando fazer com que, em sua permanncia,possibilidades esquecidas possam ser sublinhadas ou alguns de seus deviresacabem aparecendo. Espero mesmo que deste procedimento possa surgir umaforma de resistncia.Na palavra resistncia h, antes de tudo, o prefixo re, que aponta parauma duplicao, uma insistncia, um desdobramento, uma dobra, "outra vez".Do que o segue, lemos um substantivo derivado do verbo sistere: parar, per-manecer, ficar, ficar de p, estar presente. A esse verbo se associa tambm astantia da palavra resistncia, que invoca a estadia, idia perfeitamente expressaRESISTIR A QU? OU MELHOR, RESISTIR O QU?26pela transitoriedade do verbo estar, uma das preciosas singularidades do portugus.At aqui, portanto, resistir insistir em estar - em permanecer, em ficar de p 3.Avanaremos apenas um pouco mais nesta linha de associaes(tornando-a quase uma licena potica) para chegar at a palavra "existncia" 4.Ora, se o ser , na eternidade, as coisas esto, no tempo, e por isso mesmo, existem.E por isso precisam afirmar, a cada instante, a sua existncia. Porm, mais doque a afirm-la confirmando-a, precisam desdobr-la, trazer tona suas pro-dues, seus efeitos, suas conseqncias; no conseqncias como se a existnciafosse delas a causa, mas suas seqncias, suas sries. Se h o prefixo re na palavra resistir, ele no aponta para a necessidadede se acrescentar em seguida a preciso daquilo contra o que a resistncia sevolta. O prefixo se volta para a prpria existncia, ou para a prpria stantia. Seh uma duplicao, uma dobra, trata-se da dobra da existncia, do estar pleno;pleno de seus desdobramentos e de suas sries; pleno de suas conseqncias, oudas seqncias que sero, com nossa prpria estadia neste mundo, compossveis.a resistncia a dobra da existnciaE assim no precisamos mais de inimigos, ou de opositores; no somos refnsda ocupao. Opomo-nos, verdade, mas nos opomos a conceber a vida comoalgo desprovido de sentido.A existncia existe? A existncia resiste. Pois ela s existe em constanteprocesso de diferenciao em relao a si mesma. Ela s existe dobrando-senica condio para que existir no seja apenas o lado sombrio do ser."a matemtica real porque resiste"No me demorarei quase nada neste item e pouco me aprofundarei sobre o con-tedo preciso deste ttulo . Fao questo de salientar, contudo, que a noo deresistncia, tal como pensada aqui, profundamente inspirada pelo pensamento3 Este sentido possui seus ecos tambm na linguagem usual, onde resistir pode significar reer-guer-se, ressurgir, dar a volta por cima.4 O prosseguimento do rigor etimolgico nos levaria a uma anlise por demais tcnica, poisseramos forados a pensar o ex da existncia.5 Para quem estiver realmente muito interessado neste assunto, indico minha Tese de Doutorado(Ensaio Sobre a Gnese das Idias Matemticas, COPPE/UFRJ).Tatiana Roque 27de Jean Cavaills e Albert Lautman. Estes dois filsofos e matemticos francesesse inserem em um momento particularmente brilhante da filosofia da matemtica,que teve lugar na Frana antes da Segunda Guerra Mundial. O trao comum desuas filosofias consiste em percorrer as inflexes do pensamento matemticopara desvelar sua necessidade profunda, escondida por entre o encadeamentolgico de seus enunciados. Cavaills era professor na Sorbonne quando da ocupao alem quedeu origem Resistncia Francesa. Naquele momento, apesar de bastantejovem, era j considerado um grande filsofo e, justamente por isto, sofreupresses para que no se arriscasse. Elas no surtiram efeito: Cavaills se engajoude corpo e alma ao lado da Resistncia e acabou assassinado. Durante aqueleperodo, foi entregue aos nazistas seu amigo Albert Lautman, com quem, almda viso sobre a matemtica, possua muitas afinidades polticas. As razes evocadas para demover Cavaills da deciso de se integrar Resistncia se baseavam na discusso da eficcia desta luta e da importncia daparticipao de algum que tanto teria ainda a contribuir se permanecesse vivo.A tais argumentos, Cavaills respondia apenas que no podia agir de outromodo; que no fazia isto por escolha, mas por necessidade. Uma de suas frasesme particularmente cara, uma frase contra a qual nenhuma argumentaopoderia prosseguir e que constitui quase uma frmula para exprimir a posiolgica de sua resistncia: "Eis a minha posio, respondia Cavaills, eu no possofazer de outro jeito". Este filsofo, surpreendentemente, mantinha a posio de que era estamesma necessidade que comandava as proposies cientficas e o rumo quetomava, naquele momento, a sua vida: "Necessrios os encadeamentos das matemticas, necessrias mesmo asetapas da cincia matemtica, necessria tambm esta luta que ns travamos" 6.Tal necessidade nada tem de pr-determinao. Trata-se, ao contrrio,de um puro devir: o pensamento matemtico um devir singular porque 6 Declarao de Cavaills a Raymond Aron, relatada por este ltimo em seu prefcio ao livropstumo de Cavaills Philosophie mathmatique.RESISTIR A QU? OU MELHOR, RESISTIR O QU?28impossvel reduzi-lo a outra coisa que no seja ele mesmo. Sobre a Resistncia,a resposta de Cavaills obedecia ao mesmo rigor interno, mais do que a qualquerimperativo externo. Talvez por este motivo, ao comentar a vida e a obra deCavaills fundamentalmente inseparveis, Georges Canguilhem chega aafirmar que Jean Cavaills a lgica da resistncia vivida at a morte.Herdeiros tericos de uma filosofia da matemtica que afirmava suaobjetividade a partir do esforo da inteligncia para vencer as resistncias que amatria matemtica lhes impunha, Cavaills e Lautman foram mais longe, afir-mando uma objetividade prpria ao pensamento matemtico, a partir da neces-sidade dos encadeamentos e das ligaes que o constituem. Necessidade, certa-mente; mas tambm a noo de resistncia que perpassa a justificativa dessaobjetividade, uma vez que o rigor matemtico destes encadeamentos se desdobraem aes que se colocam efetivamente para alm da especulao. Teorias parti-culares que so inventadas, e eventualmente parecem se opor, se tornam casosparticulares de teorias mais amplas, em um movimento to imprevisvel quantonecessrio. A inveno eventual percebida, a posteriori, como um gestonecessrio dentro de um sistema que ela, ao mesmo tempo, funda e integra. Com um pensamento que no independente dessas suas proposiessobre o estatuto das idias matemticas, Cavaills nos faz pensar que a resistnciaultrapassa o dever de um engajamento motivado pelo valor moral dos fins,tornando-se, sobretudo, um modo necessrio que afirma uma maneira de estarno mundo, de fazer um mundo.Cavaills, Lautman, e muitos outros que no eram, de modo algum,filsofos, pensaram somente que era preciso dizer a situao, pelo que ela era,e logo arriscar que h riscos, e sempre h, grandes ou pequenos, quando o pensa-mento abre a possveis. porque hoje, onde pensar que seja preciso pensar oreal se faz raro porque o consenso que nos celebrado o seguinte: o no-pensamento como pensamento nico, ns podemos nos voltar, com reconhe-cimento, para os resistentes . 7 Alain Badiou, Abrg de mtapolitique.Tatiana Roque 29Re( )sistnciaPara postular que resistncia possui uma potncia afirmativa, como foifeito at aqui, preciso, ao invs de associ-la a uma negao, comear a pensarqual o estatuto da negao propriamente dita (em tudo aquilo que for dito nosprximos dois pargrafos, estarei seguindo algumas poucas pginas de Dife-rena e Repetio, de Gilles Deleuze, que se encontram no quarto captulo,dedicado "Sntese ideal da diferena"). Na obra de Deleuze, mais importante do que a separao entre virtual eatual, sobre a qual muito se refere - no sem certo aodamento -, o modo comoesses dois mbitos se comunicam. O virtual uma parte ideal do objeto, nosendo, contudo - e isto fundamental-, nem abstrato nem indeterminado. A reali-dade do virtual a realidade do conjunto de relaes que o compem: relaesdiferenciais que conferem completa determinabilidade ao virtual. O que ocupaDeleuze sobremaneira neste captulo no a separao entre o virtual e o atual,mas as linhas de determinao prprias a cada um e suas correlaes; linhasestas que tendem, em um caso, para a atualizao e, em outro, para a determi-nao completa dos elementos virtuais. A esses processos, a traduo brasileirachamou, respectivamente, diferenciao e diferenao.Fao questo de repetir que o objeto pode ser completamente determi-nado, em sua poro virtual, sem ser ainda atual, isto , sem existir. A dife-renao determina o contedo da parte virtual do objeto como um problema,ao passo que a diferenciao exprime a atualizao desse virtual ao constituirsolues, diz Deleuze. O problema, por ser perfeitamente determinado comoproblema, uma positividade virtual que no desaparece na atualizao doscasos de soluo. Sendo assim, a um caso de soluo, como objeto individuadoatual, corresponde uma poro problemtica o no-ser do prprio objeto. Esteno-ser, todavia, no o ser do negativo, mas o ser do problema como elementogentico do objeto que no cessa de participar de sua produo, no podendo seresgotado pela atualizao. O no-ser , portanto, mais uma suspenso do objetodo que uma negao, e seria conveniente, por este motivo, denomin-lo ( )-ser.Trocando em midos, o processo de atualizao, que produz a poro existentedo objeto em questo, engendra apenas alguns casos de soluo, deixando RESISTIR A QU? OU MELHOR, RESISTIR O QU?30sombra todos os outros casos que poderiam ter sido produzidos. Este "deixar delado" a gnese do negativo; negativo que ser, to somente, a sombra do pro-blema no domnio das solues. No h negao em nenhum dos dois processosde diferenciao pois a negao se insere, a posteriori, na atualizao, desdeque seu processo j esteja em curso.Mesmo que Deleuze nada tenha dito sobre a resistncia neste contexto,mas sim em um outro, gostaria de fazer funcionar, no pensamento da resistncia,este maquinrio de sua filosofia. S ento ser possvel pensar a noo deresistncia a partir de uma anterioridade da qual a negao no participa, umavez que a negao jamais gera, jamais produz ou move, sejam atualizaes,aes ou mecanismos: eis a minha posio, no posso fazer de outro jeito. Para afirmar que resistir no , ao menos em princpio, resistircontra, preciso conceber este verbo como afirmao de uma pura positivi-dade, no inscrita na negao, mesmo que sua atualizao possa compreenderuma contra-riedade instantnea de algo. Quanto a esta contrariedade, ela apenas uma parada no processo, o qual ser imediato e constantementerecolocado em funcio-namento por mecanismos interiores ao prprio processo,como dizia Cavaills, por necessidade. A poro de contrariedade que experi-mentamos no ato de resistir seria, assim, a sombra da resistncia em suaporo problemtica e virtual.Parece pertinente pensar, a partir do que acaba de ser dito, que aresistncia comporta tambm duas metades inseparveis e independentes, umavirtual e outra atual, que podem ser concebidas, respectivamente, segundo suapossibilidade de afirmao de uma positividade ou sua inscrio em umarelao de contrariedade. No se trata, pois, de dois tipos de resistncia, comopareceu ter sido esboado no incio deste artigo, mas de duas linhas paralelas eressonantes de diferenciao da idia de resistncia. Em realidade, ganharamosmuito pouco ao falar de uma resistncia ativa em vez de uma resistncia passiva,ou de uma resistncia afirmativa em vez de uma resistncia negativa. No hdois tipos de resistncia mas uma resistncia, com sua metade de positividade esua metade de contrariedade, porque ambas precedem a sntese do negativo.Para resistir a algo preciso supor este algo ao mesmo tempo presente eausente. E, por isso mesmo, a ao aponta para o futuro. Tatiana Roque 31Por constituir um movimento ritmado entre as duas linhas, a resistncia um gesto que pode ser denominado re( )sistncia, deixando que o parntesisseja preenchido segundo a necessidade de um ato preciso, em um momentodeterminado. Isto garante que o gesto possa ser desdobrado em ao, sem queseja preciso esquecer sua outra metade, aquela que permanece e insiste na ao,mas nela no se esgota; aquela que no se capta na ao; nem se captura e nemse compreende. Compreender captar o gesto para poder continuar, dizia Cavaills.Pode-se no compreender a resistncia, o que no se pode deixar de desdobr-la,intu-la, faz-la proliferar. Se se diz da resistncia que ela primeira - o que diferente de dizer que ela vem primeiro -, porque ela s existe em seus desdo-bramentos. Por isso dissemos que a resistncia uma dobra dobra que devemobilizar a existncia por completo, desdobrando-a, isto , transformando-a emvida, em retomada da subjetividade como criao, ou melhor, como em criao.o movimento dos movimentosPara falar de um movimento dos movimentos, sem que o primeiro"movimento" se refira a um conjunto de movimentos, o que nos levaria, maisuma vez, a um paradoxo lgico, precisamos nos servir do maquinrio conceitualque acaba de ser esboado. Do mesmo modo em que se falou h pouco de duaslinhas de diferenciao - uma de diferenciao do objeto atual (objeto diferen-ciado) e outra de diferenciao da diferena, possvel pensar em um movi-mento dos movimentos a partir de duas metades: diferena e movimento. Paraque um movimento produza diferenas, preciso que, para alm de sua poroconstituda, haja outra, que constituinte do movimento e sem a qual qualquermovimento correria o risco de cristalizar-se, estagnar-se e se deixar capturar.Associando ao movimento dos movimentos as duas metades daresistncia, talvez se possa compreender melhor a questo. Pode acontecer, porexemplo, de um movimento surgir de uma contrariedade - digamos, contra oG-8 -, partindo de uma resistncia a um certo modo de dominao e controleda vida de muitos pelo interesse de poucos. No entanto, se este movimentocontentar-se com o momento de parada que a contrariedade exprime, constituindo-RESISTIR A QU? OU MELHOR, RESISTIR O QU?32se em um movimento contra alguma coisa, ele no pode criar diferena. preciso resistir captura do processo de resistncia pela linguagem e pelosparmetros quantitativos que impregnam a atualidade. O movimento dos movi-mentos se insere na ordem qualitativa da inveno e no na ordem quantitativados resultados. por isso que a discusso da eficcia neste contexto umaarmadilha: o movimento dos movimentos necessariamente aberto. A diferena s pode ser produzida com o desdobramento do processode constituio do prprio movimento, pelas diferenciaes que da surgiro eque o faro prosseguir, no necessariamente em linha reta, mas com tropeos eretomadas, momentos de fraqueza e de potncia. Essa segunda movimentao,que se processa concomitantemente primeira, exprime a outra metade daresistncia, sua poro virtual, criativa, que diferencia os movimentosnoentre si mas para si, fundando um verdadeiro movimento dos movimentos.Tatiana Roque Professora do Instituto de Matemtica da UFRJ e da rea Interdis-ciplinar de Histria e Filosofia da Cincia e da Tcnica da COPPE/UFRJ. Pesquisadora do Col-lge International de Philosophie-Paris. As reflexes contidas neste artigo partiram, em grandeparte, das discusses da equipe que participa da organizao do Colquio Resistncias.Gostaria de agradecer a colaborao de: Alexandre Vogler, Brbara Santos, Cristina Rauter,Ericson Pires, Fernando Santoro, Giuseppe Cocco, Luis Andrade, Luis Pinguelli Rosa, MariciPassini, Peter Pal Pelbart, Ronald Duarte, Silvia Ulpiano, Suely Rolnik e Viviane de Lamare.

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