Resenha Modernidade Líquida: Trabalho (Cap. 4)

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    04-Jul-2015

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Universidade Federal do Rio de Janeiro Escola de Comunicação Resenha: ³Modernidade Líquida´ ± Cap. 4 ³Trabalho´ Por Tales Yamaguchi ± DRE.: 108022227 Entregue à professora Maria Helena Junqueira. Rio de Janeiro 2011.1 No livro ³Modernidade líquida´ de Zygmunt Bauman, mais especificamente no capítulo 4, intitulado ³Trabalho´ , o autor inicia sua argumentação falando sobre o trabalho e suas primeiras significações. O termo labour, que inicialmente era usado para definir ³ o esforço físico para atender as necessidades materiais´, também passou a ser utilizado para designar ³o corpo geral de trabalhadores e operários´, além da própria política por estes exercida. Era a chamada ³trindade do trabalho´. Essas três definições que ascendem juntas irão, na sociedade moderna e líquida, cair, como mais a frente se fará presente no texto. No contexto da sociedade Fordista, o autor cita o próprio Henry Ford, que em determinado momento, aumentou o salário de seus funcionários, com a justificativa de que tal aumento estaria sendo oferecido para que seus funcionários pudessem adquirir os automóveis por eles produzidos. Essa justificativa era obviamente falsa, uma vez que os lucros gerados por tal compra feita pelos trabalhadores eram extre mamente insignificantes às vendas de modo geral. O que Ford estava na verdade fazendo, era reforçando uma das principais características da sociedade moderna sólida. Ao aumentar o salário de seu funcionário, ele estava na verdade fazendo com que o trabalhador ficasse dependente de sua empresa, gerando uma fidelidade eterna e fazendo com que os gastos feitos na construção e na aprendizagem da mão de obra do trabalhador fossem pagos através do esgotamento de toda sua força de trabalho. Esta modernidade sólida poderia ser classificada como o momento do capitalismo pesado, do engajamento entre capital e trabalho , fortificado pela mutualidade de sua dependência. O trabalho dependia do empregador e o empregador dependia do trabalhador, neste modelo sólido, onde a empresa estava fixa em um determinado local, a mobilidade era inexistente e financeiramente inviável. O ³Estado de bem-estar´ teria então um papel fundamental neste contexto de dependência mutua. Estando ³além da esquerda e da direita´ o Estado deveria garantir que os empregadores detivessem o capital, através de diminuição de impostos e etc. Outro ponto fu ndamental a este modelo era o chamado ³exercito reserva de trabalho´ onde os desempregados deveriam ser mantidos em estado de prontidão, caso fossem solicitados, pois se o desemprego não existisse, o valor do trabalho e conseqüentemente o poder de barganha do trabalhador, aumentaria consideravelmente. Neste Capitalismo pesado, aquele jovem que, por exemplo, iniciasse a sua carreira na empresa Ford, poderia ter a certeza que passaria o resto de sua vida trabalhando para aquela instituição. A idéia de ³longo prazo´ estava naturalmente embutida nos laços trabalhistas. Foi apenas após a Segunda guerra mundial, que começou a se conhecer um novo momento, caracterizado pela ³estabilidade relativa´. Esta nova fase surge com o conceito de ³curto prazo´. Ca samentos longos e duradouros passam a ser raridade. Os jovens que antes acreditavam na fidelidade de seus empregadores, hoje, possuem a certeza de que, ao longo de sua vida, irão circular por diversas empresas e inúmeros cargos. O que aconteceu foi que a nova mobilidade dos tempos atuais, fez com que o capital pudesse se deslocar livremente para qualquer parte do globo. Caso uma empresa se sentisse menos favorecida em determinada região, poderia rapidamente migrar para outro estado ou país que a oferecesse melhores condições de distribuição ou impostos mais baixos e etc. ³Flexibilidade´ é a palavra de ordem , os contratos estão feitos em curto prazo ou se tornam até mesmo inexistentes. Obviamente, a questão da instabilidade no trabalho sempre existiu, porém o que acontece agora é a individualização dos medos. A aleatoriedade, a falta de explicação dos motivos dados à uma demissão, fazem com que as angustias se tornem individuais e assim, aquela idéia de solidariedade coletiva, de corpo unido de trabalhadores se enfra quece cada vez mais. O trabalho se adapta então, ao esquema de curto prazo, o local de trabalho deixa de ser uma ³casa´ onde se deve aprender a conviver com os outros trabalhadores que lá habitam e passa a ser como um acampamento, onde se passa determinado período de tempo e caso este não satisfaça sua s expectativas, pode-se naturalmente largá-lo e procurar uma nova opção. E é dai, portanto, que surge o conceito de ³laços fracos´. Nesta nova fase, que pode ser intitulada de Capitalismo leve, flutuante, aq ueles laços fortes de dependência mutua, entre empregador e trabalhador, estão saturados. Como já citado anteriormente, a própria instituição do casamento também sofre suas modificações. O ³viver junto´, a coabitação passa a ser cada dia mais comum, e assim como no caso do trabalho, a partir do momento que alguma das parte não se de por satisfeita com qualquer aspecto do relacionamento, pode então, partir a procura de novas opções. Outra forte característica desse novo modelo, é que não sem vendem mais objetos de consumo, e sim idéias. Idéias a serem consumidas, e é este consumidor o novo foco do sistema capitalista. Onde quer que haja novas possibilidades de consumo, as empresas irão migrar para que o mercado continue sempre ativo. Após analisar tais características desta nova modernidade líquida, Bauman nos apresenta uma breve história sobre a procrastinação. O ato de procrastinar seria afirmar que alguma coisa pertence ao futuro, ou seja não ao presente, seria basicamente esse ato de adiar, manipular sua atitudes em função de adiar, prolongar a espera de determinado acontecimento ou coisa. A idéia da vida como uma peregrinação, faz com que o presente atual faça sentido, pois para que determinado futuro almejado se faça possível, o presente deve ser de determinada maneira. Mas a partir do momento em que essa distancia entre presente e futuro desejado é eliminada, o presente passa a não mais fazer sentido. A vida do peregrino seria então uma viagem continua em direção a realização, onde presente e futuro matem sempre uma distancia para que se possa continuar caminhando. É nesta idéia de peregrinação que se baseia o conc eito de adiamento da satisfação, onde ³arar e semear´ estão à cima de ³colher e ingerir´ um produto, o investimento está à cima do lucro e etc. Quanto maior fosse a espera, maior seria o premio. A idéia da espera cont ínua enobrece seu próprio ato e faz com que a colheita, mesmo que muito distante, seja infinitamente maior. Neste contexto, o adiamento do ³gozo´, em outras pala vras, do consumo, mantém o produtor nas mãos do consumidor, o que mudou completamente na nova modernidade fluida. Nesta nova liquidez que nos é característica, esta longa espera entre desejo e gozo, não é mais valorizada. George Steiner nos define como a ³cultura do cassino´ onde a espera é curta, porém a realização também. Como em um cassino, o gozo pelo fato de se ganhar deve durar apenas até se surgir um novo desejo de se fazer novas apostas. Estes seriam, portanto, o começo e o fim da procrastinação. Mais a frente, o autor cita Pierre Bourdieu, que em um de seus livros, menciona a precariedade, a instabilidade e a vulnerabilidade como algumas das principais características desta nova modernidade. Em uma sociedade onde empregos seguros parecem fazer parte de contos imaginados por nossos avôs, é muito difícil encontrar aqueles que se sintam complemente seguros em seus empregos. Em um mundo em que a insegurança é central, o adiantamento do gozo, do prazer, se faz uma opção muito plausível. A partir do moment o em que nada é certo, de nada valeria a pena esperar e adiar a satisfação, pois no fim, esta poderia nunca ser alcançada. O mundo passa a ser então, um local que nos apresenta diversos objetos descartáveis, que devem ser consumidos e imediatamente trocados. Esse ideal não serve apenas para objetos de consumos, mas também para as próprias relações humanas. A partir disso, a própria relação para com os trabalhadores também muda. O operário é treinado apenas para exercer uma determinada função específica dentre de um processo de montagem, não possuindo a noção de todo, se tornando cada vez mais descartável e substituível. Nesta esfera onde o futuro se apresenta de maneira, nebulosa e cheia de riscos, optar pelo bem coletivo em detrimento da satisfação imedia ta e individual não parece uma opção razoável. Para finalizar, aborda -se a questão da confiança. Anteriormente os trabalhadores reivindicavam seus direitos aos empregadores, o que representa de certa forma, a existência de uma confiança no poder que os empregadores detinham, a partir do momento que estes passavam a idéia de segurança, da oferta de um emprego ³estável´. Na modernidade liquida o distanciamento desta confiança, o enfraquecimento dos laços, faz com que qualquer tipo de engajamento fique enfraquecido. Não valeria, portanto, lutar pelos direitos de algo que seria passageiro e sem base concreta.