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RESENHA DE TRABALHO

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Ao invés de criar um espaço de resistência ao empobrecimento da experiência, e por consequência, ao empobrecimento da vida, o ensino de Filosofia o teria servido. Isso porque a Filosofia, tal como concebida enquanto disciplina, teria valorizado a transmissão e a reprodução, e não a experiência, do que teria sido dito pelos grandes filósofos da tradição. Essa é a tese que Rodrigo Gelamo em seu artigo Notas sobre o problema da explicação e da experiência no ensino de Filosofia, busca desenvolver ao destinar um olhar sobre o espaço educacional na sociedade contemporânea dita normalizada (Foucault) a partir da noção benjaminiana de declínio da experiência.
Frente às demandas de reprodução do capital e de coordenação das massas nas sociedades contemporâneas, a Filosofia, enquanto disciplina, se viu forçada a ocupar um papel bastante lateral na formação dos jovens. Buscando dar aplicação às exigências de um discurso tecnicista de progresso econômico e tecnológico, as políticas públicas para educação, se não excluíram por completo de seu horizonte a preocupação humanista de formar jovens para a autonomia, no mínimo a deslocou para um plano bastante secundário. O que é nítido em sua política de preencher currículos com conteúdos cada vez mais raquíticos, enxutos, precisos, objetivos, com a finalidade de responder agilmente às necessidades de reprodução de um corpo técnico massivo apto à servir aos anseios do mercado, e à preencher as engrenagens de funcionamento da máquina burocrática. Frente ao frenesi dessas exigências, o tempo da Filosofia, necessário para o exercício do pensamento reflexivo e crítico, estaria fatalmente comprometido.
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RESENHA: NOTAS SOBRE O PROBLEMA DA EXPLICAÇÃO E DA EXPERIÊNCIA NO ENSINO DE FILOSOFIA Rodrigo Juventino Bastos de Moraes Ao invés de criar um espaço de resistência ao empobrecimento da experiência, e por consequência, ao empobrecimento da vida, o ensino de Filosofia o teria servido. Isso porque a Filosofia, tal como concebida enquanto disciplina, teria valorizado a transmissão e a reprodução, e não a experiência, do que teria sido dito pelos grandes filósofos da tradição. Essa é a tese que Rodrigo Gelamo em seu artigo Notas sobre o problema da explicação e da experiência no ensino de Filosofia, busca desenvolver ao destinar um olhar sobre o espaço educacional na sociedade contemporânea dita normalizada (Foucault) a partir da noção benjaminiana de declínio da experiência. Frente às demandas de reprodução do capital e de coordenação das massas nas sociedades contemporâneas, a Filosofia, enquanto disciplina, se viu forçada a ocupar um papel bastante lateral na formação dos jovens. Buscando dar aplicação às exigências de um discurso tecnicista de progresso econômico e tecnológico, as políticas públicas para educação, se não excluíram por completo de seu horizonte a preocupação humanista de formar jovens para a autonomia, no mínimo a deslocou para um plano bastante secundário. O que é nítido em sua política de preencher currículos com conteúdos cada vez mais raquíticos, enxutos, precisos, objetivos, com a finalidade de responder agilmente às necessidades de reprodução de um corpo técnico massivo apto à servir aos anseios do mercado, e à preencher as engrenagens de funcionamento da máquina burocrática. Frente ao frenesi dessas exigências, o tempo da Filosofia, necessário para o exercício do pensamento reflexivo e crítico, estaria fatalmente comprometido. Não fosse o suficiente esse contexto epocal pouco propício ao filosofar, a própria filosofia, tal como é concebida como disciplina e ensinada nos raros espaços que ainda lhe restam, estaria também a serviço de uma lógica de reprodução de mentalidades reificadas. Isso, pois, sendo concebida como um corpus de conteúdos e conhecimentos a ser transmitido e ensinado, e, portanto, passível de ser avaliado — acaba por se converter em coveira da experiência. Diante do embaraço de ter que ensinar minimamente filosofia em um contexto tão adverso, o professor entende que sua missão é a de explicar o que ele conhece a respeito da filosofia. Daí que, enquanto aquele que explica, o professor passa a preencher um elo que indevidamente haveria entre o que o aluno leu, e o que ele deveria aprender a respeito do que disse o filósofo. Assumindo essa postura de explicador (Rancière), o professor não só recai numa lógica de transmissão operante na base de um saber técnico, como, por consequência disso, acaba também por tornar a experiência inviável. Aos olhos de Gelamo, isso tudo converteria a Filosofia num corpus que se sustentaria na relação entre o que pode ser explicado de um dado conteúdo, e algo que deve ser compreendido: algo que, antes de ser experimentado pelo aluno no seu corpo a corpo com o texto do filósofo, sofre toda sorte de mediações, que tanto podem ser de seu próprio professor que lhe explica e lhe cobra entendimento acerca do que foi transmitido, ou mesmo de uma cadeia de mediações que rementem às explicações ou comentários que também formaram seus professores, e os professores de seus professores... Desse ponto de vista, de nada valeria o contato do aluno com um dado filósofo, se este estivesse marcado pela crueza de um alguém nada experimentado. Interessa ao aluno que ele esteja consciente de que seu contato com o autor deva ser feito em vista de uma compreensão correta da evolução de suas ideias. Mostrando que o aluno não pode ser capaz de compreender por si só o texto filosófico, o explicador acaba por fomentar no jovem estudante a busca por explicações que ponham fim ao conflito de suas ideias, que seja anterior à experiência do texto. A explicação da filosofia se antecipa a experiência de ser afetada por ela: o filósofo cede lugar ao comentador, ao professor: “ao longo de todo esse processo, a capacidade de o aluno experimentar as coisas e atribuir-lhes sentido é debilitada pela releitura do mundo que tem como modelo a leitura feita por um filósofo, muitas vezes mediada por um comentador e explicada por um professor, fechada em si mesma. A relação entre o aluno, o filósofo, o mundo e o problema passa, assim, a constituir-se por uma forma de mediação: parte-se da relação que determinado filósofo criou com o mundo, assumindo-a como modelo para, assim, relacionar-se com o problema Recusando a tese de Agamben de que teríamos sido totalmente expropriados da experiência, Gelamo prefere se alinhar à noção benjaminiana de empobrecimento da experiência, conforme desenvolve em seu Experiência e Pobreza. Incapazes de extrair sentido da experiência de horror e de violência extremada às quais estiveram sujeitos nas trincheiras, os homens que regressavam da guerra se viam empobrecidos de uma experiência comunicável. Isso, entretanto, não seria restrito a homens que retornaram da guerra, Benjamin fala de uma nova barbárie que caracterizaria nosso século XX, uma espécie de alargamento da pobreza da experiência que consistiria de uma não vinculação da experiência à vida. Desse ponto de vista, a própria Filosofia, tal como é ensinada hoje, seria vitimada por esse empobrecimento do qual Benjamin fala quando trata da distinção entre mímesis e imitação. Ao contrário da primeira, enquanto faculdade que permite nos apropriarmos da experiência numa relação de si para consigo, e imitação, seria um modo de se relacionar com a experiência, não por assimilação, mas de vive-la enquanto experiência do outro. Precisamente esse problema estaria na base da Filosofia entendida como transmissão de ensinamentos. Uma vez que a filosofia é encarada como um corpus a ser transmitido por um professor que explica e exige determinado entendimento de um conteúdo que ele mesmo tria, recorta, ao sabor de seu arbítrio, é experiência mesma que é empobrecida —: “nesse processo não ocorre um exercício filosófico acerca de um conhecimento que tem como ponto de partida uma experiência do aluno, mas, ao contrário, apenas se repete o pensamento de um filósofo (de seu comentador ou do professor-explicador), fechado sobre si mesmo, sem que seja possível a abertura à experiência de pensar um problema que afeta filosoficamente a vida do aluno, isto é, a partir da experiência com o próprio filosofar” —. Aqui o pensamento aparece dissociado da vida; sua relação com a filosofia se resume a recepção de toda sorte de pensamentos, recortados arbitrariamente, entremeado por um sem número de mediações, fechado em si. Visando se recuperar a possibilidade da experiência — por um choque experiencial (Erlebnis) que se desdobre numa experiência mais profunda e durável (Erfahrung), Gelamo cita a parábola do vinheteiro que recupera mais uma vez de Benjamin: entremeando seus últimos suspiros de vida, o vinheteiro teria dito a seus filhos que terra que levrara por toda vida guardava um suntuoso tesouro. Tendo cavado a terra, seus filhos nada teriam encontrado — mas até aí a metáfora do velho lavrador já teria cumprido sua função: não transmitir aos filhos, em abstrato, o que fazer com o vinhedo, como lavrar, etc., mas que fizessem, para fins experienciais, bastando a si mesmos apenas; de possibilitar a experiência autêntica de lavrar a terra sem que essa mesma experiência do pai interviesse. Essa experiência imediata seria aquela nos abre uma “ferida em nosso corpo/pensamento” e que faria com que ficássemos “profundamente marcados por uma cicatriz, que dificilmente se apaga, e que muito diferente disso é termos acesso a determinadas informações sobre a experiência de outra pessoa”. Com isso, a filosofia hoje, vitimada por essa lógica de transmissão, também estaria a serviço de um empobrecimento da experiência, de um saber desconectado da vida; nesse contexto de empobrecimento, em que a relação com o conhecimento acumulado, e alheio ao espaço e ao tempo vivido pelo individuo, 4
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