REIS, Jos Carlos. Histria e Teoria. Historicismo, Modernidade ...

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    10-Jan-2017

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567REIS, Jos Carlos. Histria e Teoria. Historicismo, Modernidade, Temporali-dade e Verdade. 3 ed. Rio de Janeiro: ed. FGV, 2006. [1 ed. 2003]*MAURO DILMANN 1Mestrando em HistriaUNISINOS - Universidade do Vale do Rio dos SinosAv. Unisinos, 950 - Cristo Rei. CEP, 93022-000. So Leopoldo, RSmaurodillmann@terra.com.brNesta obra, Jos Carlos Reis transparece, com erudio, a importncia da filosofia e de suas construes tericas. Nas pginas finais do ltimo artigo, ele ressalta: Filosofia e histria so atitudes complementares toda pesquisa filosfica inseparvel da histria da filosofia e da histria dos homens e toda pesquisa histrica implica uma filosofia, porque o homem interroga o passado para nele encontrar respostas para as questes atuais (p. 240). O livro uma juno de ensaios do prprio autor, cada um com uma especificidade singular e, ao mesmo tempo, contnua, linear: todos tratam de teoria da histria. Valendo-se de uma abordagem dos principais par-metros contemporneos do contexto historiogrfico, Reis interroga, instiga, mostra caminhos, posicionamentos. Seu poder de sntese invejvel: diz muito em to pouco. Para quem j estava cansado ou mesmo entediado com as discusses sobre verdade, modelos epistemolgicos, historicismo, alm das que envolvem concepes de tempo histrico e das oposies entre modernidade e ps-modernidade, o autor demonstra que ainda possvel um pensamento crtico e um esforo reflexivo. No primeiro captulo, o autor traz a histria da histria, analisando desde a metafsica at a ps-modernidade. A preocupao dos historia-dores com a humanidade universal e o sentido histrico pautam sua anlise. Ele quer discutir a passagem modernidade/ps-modernidade e suas possveis repercusses na historiografia. Comea com os gregos, que no teriam construdo a idia de humanidade universal, tendo sido formulada com os romanos. Com o Cristianismo, a histria esteve dominada pela Pro-VARIA HISTORIA, Belo Horizonte, vol. 22, n 36: p.567-571, Jul/Dez 2006* Resenha recebida em 01/08/2005. Aprovado em 12/12/2005.1 Resenha publicada originalmente na revista eletrnica CANTAREIRAS, da Universidade Federal Fluminense.568Mauro Dilmannvidncia Divina e o futuro dependia da f. A partir do sculo XIII ele perde sua fora e surge uma outra representao da histria: a modernidade e sua busca da racionalizao.A modernidade trouxe uma nova conscincia do sentido histrico, uma nova representao da temporalidade histrica e, com ela, o mundo se fragmentou em valores distintos. O esprito capitalista (entenda-se burgus) moderno, desencantado, secularizado, racional, tenso.No sculo XVIII retorna a idia de histria universal. Pensa-se em direitos universais. Nesse momento, a modernidade atravs das filosofias da histria recolocaria histria a questo do sentido histrico: o desenvolvimento do processo de progresso, revoluo, utopia; a idia de histria est dominada pelos conceitos de razo, conscincia, sujeito, verdade e universal.No sculo XIX , a histria-conhecimento torna-se cientfica, o conhe-cimento histrico aspira a objetividade cientfica, a verdade. A eficcia da histria est em servir ao Estado e s instituies da sociedade burguesa. Nietzsche seria o primeiro a romper com o conhecimento histrico cient-fico e, a partir do sculo XX, aprofundariam-se as crticas, passando-se a recusar o determinismo, o reducionismo e o destino inescapvel. A ps-modernidade concretizou-se no ps-1945, no acreditando na razo, pois os sentidos so multiplicados o universal se pulveriza, fragmenta-se e a histria global descartada. Os interesses voltam-se ao pequenos dados, aos indivduos, o olhar em migalhas opera por fatos, biografias, mltiplas narraes: a desacelerao da histria. O estruturalismo aprofundou a revoluo cultural ps-moderna, desconfiando do sujeito, da conscincia, da revoluo, da razo. Para Reis, estamos vivendo a ps-modernidade. O novo ambiente cultural complexo e ambguo: os historiadores pensam em rupturas, fragmentao, individualismos em plena globalizao. O conhecimento histrico prioriza a esfera cultural, as idias, os valores, as representaes, linguagens, e a histria torna-se ramo da esttica, aproxi-mando-se da arte, da literatura, do cinema, da fotografia, da msica.No segundo captulo, Reis procura fazer um balano das possveis perdas e/ou dos possveis ganhos do percurso da histria do global s migalhas. Para tal, segue os pressupostos de Franois Dosse, o crtico francs dos Annales que destacou a descontinuidade presente nos se-guidores dos pais fundadores. Para conseguir um balano entre perdas e ganhos, Reis conceitua histria global e histria em migalhas. Histria global teria dois sentidos: histria de tudo e histria do todo. O primeiro sentido seria entendido por tudo histria, o segundo seria a inteno de apreender o todo de uma poca. Este ltimo sentido no teve espao na terceira gerao dos Annales. J as migalhas, podem significar a mul-tiplicao dos interesses e das curiosidades histricas; a fragmentao, a especializao extrema, a desarticulao dos tempos histricos. Ou, no sentido otimista, as migalhas significaram o amadurecimento do projeto 569Resenhainicial; a histria escrita no plural, mltipla, que analisa partes da realidade global. Por fim, nosso autor faz uma enumerao riqussima em termos de prs e contras dessa passagem do global s migalhas, colocando-se no lugar de quem avalia uma perda ou um ganho.O terceiro captulo, intitulado A especificidade lgica da histria, levan-ta questes que colocariam em dvida a possibilidade do conhecimento histrico, entre elas: A histria um conhecimento possvel?. Salienta a importncia da reflexo terica problematizante, alertando sobre a impos-sibilidade de ser historiador sem tomar o conhecimento histrico como problema. A questo a ser pensada seria a existncia de um conhecimento histrico reconhecvel. Esse conhecimento talvez estivesse na recusa da fico. Nessa luta contra a fico, a histria aproxima-se da cincia. Quanto a possibilidade de histria cientfica, Jos Reis apresenta quatro modelos: nomolgico, compreensivo, conceitual e narrativo. O modelo nomolgico, centrado em Hempel, defende a unidade da cincia, as explicaes causais; um modelo neopositivista, que busca encontrar leis gerais, da mesma forma que as cincias naturais. O modelo compreensivo tem dois expoen-tes: Dilthey e seu mtodo da compreenso e interpretao das cincias do esprito, e Weber com uma viso racionalista da compreenso. A sociologia compreensiva busca interpretao da conduta humana; para compreender, pode-se construir o tipo ideal de uma ao racional. Para Reis, Weber ainda sustenta uma viso racional da histria. O modelo conceitual est baseado na histria cientfica weberiana: ela racionalmente conduzida, fundamentada na compreenso e em conceitos. A compreenso e subjetividade includas na histria no abdicariam a abordagem cientfica da mesma, presentes atravs de tipos e conceitos. Paul Veyne, com influncia weberiana tam-bm defendeu a histria conceitual, que para ele estaria entre a cincia e a filosofia. Para o Veyne de O Inventrio das diferenas, a histria conceitual seria cientfica porque oferece uma inteligibilidade comparativa. J o Veyne de Como se escreve a histria, tem a histria como narrativa verdadeira, mas no cientfica. Franois Furet, tambm influenciado por Weber e Reis salienta que os Annales parecem dever mais a Weber do que querem admi-tir percebe a histria como oscilao entre arte da narrao, inteligncia do conceito e rigor das provas, mas no como cincia. Por fim, no modelo narrativo e atual (alguns autores sustentam que o discurso histrico sempre foi narrativa), espera-se uma relao mais estreita com o vivido, o tempo, os homens. A histria-problema entrou em crise por afastar-se dos homens e negar a temporalidade. Para Veyne, a histria uma narrativa que explica enquanto narra, compreenso, atividade intelectual. Paul Ricoeur escla-rece a estrutura de uma nova narrativa histrica, lgica e temporal, ou seja, temporalidade e a narratividade se reforam. Ricoeur defende o primado da compreenso narrativa em relao explicao, sendo a narrativa histrica VARIA HISTORIA, Belo Horizonte, vol. 22, n 36: p.567-571, Jul/Dez 2006570Mauro Dilmannuma representao construda pelo sujeito, que se aproxima da fico e re-torna ao vivido. A histria, em ltima anlise a narrativa do tempo vivido. No quarto captulo, Reis discute as posies da verdade sobre o conhe-cimento histrico. Os cticos em relao histria fazem vrias objees possibilidade da objetividade e verdade em histria, entre elas estaria o fato desse conhecimento estar ligado ao presente (que sempre reinterpreta o passado), subjetividade, compreenso e intuio; ainda ao fato de no produzir explicaes causais, de ser conhecimento indireto do passado, de utilizar a mesma linguagem da fico, de utilizar fontes lacunares, de ser interpretao e construo de um sujeito e ter o conhecimento ps-evento. O conhecimento objetivo seria aquele vlido para todos, universal, analti-co, problematizante, necessrio. Para Reis no h razo para o ceticismo. Ele cita Koselleck, para quem a histria precisa sustentar duas exigncias: produzir enunciados verdadeiros e admitir a relatividade. Na tentativa de indicar posies para o alcance da verdade histrica, Reis busca as teses de alguns autores. Divide-os em realistas metafsicos e nominalistas. Come-ando pelos primeiros, tem-se que para Ranke a histria produziria verdade atravs do mtodo crtico. Nesse sentido o sujeito no se anula, apenas se esconde, se autocontrola. Weber no v a possibilidade de abordar o real em si, apenas aspectos, partes. O sujeito divide-se em esferas lgicas autnomas. Duas subjetividades buscam a verdade, que conhecimento emprico. Em Marx, o sujeito deve assumir sua subjetividade. A verdade no universal, mas de um grupo social. O conhecimento histrico produzido objetivo, mas parcial, relativo, pois o historiador precisa tomar partido. Para Ricoeur, a verdade traduzida pelo sujeito de forma comunicvel a partir de uma objetividade que exige a presena da subjetividade. Na mesma direo, Marrou declara ser a objetividade histrica, especfica, subjetiva, atravs de valores ticos universais. Todos procuram critrios universais para a verdade, todos so construes totalizantes da verdade histrica. Nos nominalistas, a subjetividade plena, o universal impensvel. Em Foucault a verdade construo de um sujeito particular e expressa relaes de poder: essas relaes criam linguagens e saberes para se legitimarem. Michel de Certeau tem a histria como fabricao do historiador, um discurso que emerge de uma prtica e de um lugar institucional e social. Duby assume a histria subjetiva, que estaria prxima da literatura e do cinema, onde a imaginao e o sonho no so proibidos. Por fim, Koselleck sustenta a verdade histrica caleidoscpica, se relaciona com a histria da histria, examina a historio-grafia anterior. O passado selecionado, reconstrudo em cada presente. Reis conclui esse captulo ressaltando que a verdade histrica obtida com exame exaustivo do objeto, com todas as leituras possveis.O quinto captulo traz a discusso sobre o tempo histrico em Ricoeur, Koselleck e nos Annales. O historiador tem interesse no temporal, na alte-ridade humana, no deseja conhecer o que est fora do tempo, o que no 571Resenhamuda, deseja sim, conhecer a mudana, logo o tempo da histria seria um terceiro tempo. Para Ricoeur, o tempo histrico refere-se vida humana e o calendrio indispensvel, pois ele que numera e em cada marca dessa numerao existiu um homem individual (social). Outro conceito o de gerao, trata-se de vida compartilhada. O tempo histrico representa permanncia de geraes e seqncia de geraes. A terceira conexo so os vestgios, os arquivos, pois as geraes deixam sinais, marcas, que so buscadas pelo historiador. Koselleck critica o conceito de tempo calendrio, mas no o descarta, advertindo para o conhecimento interior do mundo humano, a idade interna de uma sociedade, ou seja, a relao estabelecida entre seu passado e seu futuro. Na perspectiva dos Annales, o tempo histrico estrutural influncia das Cincias Sociais que compre-endiam o tempo como estrutura social existindo a recusa da mudana, em favor do modelo, da quantidade, da permanncia. A influncia foi o aparecimento na histria do mundo mais durvel, mais estrutural (estruturas econmicas, sociais, mentais), de movimentos lentos, com desacelerao das mudanas, e justamente o conceito de longa durao que permitiu maior consistncia ao terceiro tempo do historiador. O sexto e ltimo captulo dedicado contribuio de Dilthey para a histria, que, alis, considerado como o pensador que redescobriu a histria. Dilthey associado ao historicismo, embora seja difcil enqua-dr-lo em algum rtulo. Ele estaria entre um historicismo romntico e um epistemolgico por buscar compreender o homem enquanto ser histrico, compreender a alteridade e todos os aspectos da vida de um povo; a histria em Dilthey mudana e o que permanece compreenso, comunicao entre homens diferentes, sendo o homem experincia vivida e a verdade, o processo histrico. No contexto do sculo XIX, Dilthey apontou o caminho da histria, da vida, tendo por misso da histria apreender o mundo dos homens atra-vs do estudo das suas experincias no passado (p. 241). Reis diz que em Dilthey filosofia e histria esto unidas. Talvez esse fato tenha cativado nosso autor a ponto de despertar tanto seu interesse por Dilthey. De fato, Reis cativa o leitor com sua narrativa, sua exposio, sua paixo pela teoria. Este livro mais uma referncia obrigatria a todos que se pre-ocupam em pensar o papel da teoria na contemporaneidade; ele incita os historiadores ao conhecimento dos paradigmas atuais das cincias sociais. Se Jos Reis pretendia com este livro, fazer circular, renovar, estimular e transmitir cultura (p. 13), parece-nos que ele conseguiu!VARIA HISTORIA, Belo Horizonte, vol. 22, n 36: p.567-571, Jul/Dez 2006