Reforma poltica pra qu?

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Pesquisa FAPESP - Ed. 114

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  • PINA DE LASERCAPTURA CLULA VIVA

    AS INTRIGANTES DOENAS DO SANGUE

    Cincia e Tecnologia no BrasilA

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    Agosto 2005 N 114

    Reforma poltica para qu?

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  • 114-capa pesquisaassinante.qx 27/7/05 8:25 PM Page 3

  • PESQUISA FAPESP 114 AGOSTO DE 2005 3

    EXPLODIR PARA ENTENDER

    O tradicional 4 de julho, dia da independncia dos Estados Unidos, ganhou um pouco menos de ateno este ano. Nesse dia a sonda Deep Impact lanou contra o cometa Tempel 1 um projtil a 36 mil quilmetros por hora a 130 milhes de quilmetros da Terra. O objetivo da Nasa, a agncia espacial norte-americana, entender mais sobre a origem do sistema solar a partir da anlise do impacto com o cometa. Foram registradas a coliso, o material expelido, a estrutura e composio do interior da cratera, alm de mudanas no movimento do cometa.

    A IMAGEM DO MS

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    03-114-pesquisa-imagem do mes 27/7/05 8:00 PM Page 3

  • 80 CAPAEm projeto temtico, pesquisadores questionam a urgncia de uma ampla reforma poltica no pas

    24 INDICADORESDe acordo com o IBGE, retrao da economia limitou avano da inovao no pas

    POLTICA CIENTFICA E TECNOLGICA

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    www.revistapesquisa.fapesp.br

    REPORTAGENS

    Pases da bacia amaznicaarticulam medidas conjuntas para proteger a biodiversidade

    31 GOVERNO FEDERALSergio Rezende assume o Ministrio da Cincia e Tecnologia e diz que no mudar estratgias

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    12 ENTREVISTAO geneticista Oswaldo Frota-Pessoa, um cientista muito especial, fala de sua longa vivncia como pesquisador, professor e divulgador de cincia

    48 CLIMATOLOGIA

    Correntes de ar levam umidade ou fumaa da Amaznia at a bacia do Prata

    52 ZOOLOGIAPerereca exclusiva da Caatinga se defende de predadores usando o crnio com espinhos e glndulas de veneno

    32 PERFILCom 93 anos, Walter Accorsi participa da vida da Esalq e continua a difundir a fitoterapia

    42 GENMICACientistas agora entendem melhor a biologia de trs parasitas que infectam milhes de moradores de pases pobres

    46 VIROLOGIAHTLV-1 espalha-se como o vrus da Aids e causa disfuno ertil

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    CINCIA

    28 PROPRIEDADE INTELECTUAL

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    4 AGOSTO DE 2005 PESQUISA FAPESP 114

    04a05-114-indice 27/7/05 7:58 PM Page 4

  • 38 MEDICINAPesquisadores associammutaes genticas origem de doenas sangneas de idosos

    64 BIOFOTNICAPesquisadores unem pina ptica e espectroscopia para facilitar os estudos com clulas vivas 90 HISTRIA

    Estudo revela a vida em torno do rio Tiet no incio do sculo 20

    Capa e ilustrao: Hlio de Almeida

    SEES

    Novos materiais magnticos em escala molecular so desenvolvidos para uso na eletrnica e na medicina

    68 QUMICA

    54 ASTRONOMIARegies mais adensadas de galxias similares Via Lctea fornecem gs e poeira para a formao de estrelas

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    A IMAGEM DO MS . . . . . . . . . . . . . . . . . . 3CARTAS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 6CARTA DO EDITOR . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 9MEMRIA . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 10ESTRATGIAS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 18LABORATRIO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 34SCIELO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 58LINHA DE PRODUO . . . . . . . . . . . . . . .60RESENHAS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 94LIVROS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 95FICO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 96CLASSIFICADOS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 98

    70 ENGENHARIA BIOMDICASensor faz diagnstico mais preciso das imperfeies visuais

    72 ENGENHARIA DE MATERIAISNovo sistema melhora a produo de garrafas produzidas com polmeros

    76 RECICLAGEM Grupo de empresas monta unidade para processarembalagens do tipo longa-vida

    86 FILOSOFIAProjeto discute os perigos da mercantilizao da cincia

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    PESQUISA FAPESP 114 AGOSTO DE 2005 5

    HUMANIDADES

    TECNOLOGIA

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    04a05-114-indice 27/7/05 7:59 PM Pa ge 5

  • 6 AGOSTO DE 2005 PESQUISA FAPESP 114

    tem uma capacidade de 30, 40.000litros. Um reservatrio para produ-zir 1 m3/s, por ano, sem contar asperdas por evaporao, teria que ter31.536.000 m3 de capacidade deacumulao. Uma cisterna abastece-ria uma famlia de quatro pessoas,cada uma delas consumindo 50 li-tros por dia, durante 200 dias. Isso,se enchesse todos os anos, o que nemsempre acontece. As cisternas so,pois, medidas paliativas. No resol-vem, com segurana, o problema desuprimento hdrico. Sou favorvel sua construo, inclusive, por razessanitrias.

    4. Adicionalmente, tenho que fa-zer as seguintes consideraes sobreo projeto:

    Apregoa-se que os gastos deduas secas correspondem ao custo deexecuo do projeto, como se, apso mesmo, o problema da seca esti-vesse solucionado. O problema daseca se manifesta no abastecimentohumano, urbano e rural e, principal-mente, na produo agrcola, com aquebra da safra devido ocorrnciados chamados veranicos. Este, sim, o grande problema do semi-ridonordestino, no contemplado noprojeto de transposio como sever a seguir:

    o projeto considera que os300.000 hectares (ha) adjacentes aos600 quilmetros (km) de canais (2,5km de cada margem) so de interes-se pblico, devendo desapropriar es-ta rea para a promoo da reformaagrria e desenvolvimento da agri-cultura familiar;

    a estrutura agrria da rea a serdesapropriada composta, predomi-nantemente, de minifndios;

    nas bacias dos rios Tapero eAlto Paraba existem 2.805 imveiscom at 5 ha, 2.370 entre 5 e 10 ha,7.395 entre 10 e 50 ha, totalizandouma rea de 162.466 ha. Nas baciasdo Alto e Mdio Piranhas a situao a seguinte: 2.959 at 5 ha, 1.774 en-tre 5 e 10 ha e 3.869 entre 10 e 50 ha,

    As guas vo rolar

    Encaminho comentrios sobreas afirmaes de Joo Urbano Cag-nin, coordenador tcnico do projetode transposio do So Francisco, pu-blicadas na reportagem As guas vorolar, Pesquisa FAPESP, n 112, dejunho de 2005:

    1. A afirmao de que a rea doprojeto atinge 37% da populao dopolgono das secas mostra que o seualcance limitado. Como a popula-o da rea inclui os habitantes deCampina Grande e Fortaleza, con-clumos que o benefcio populaorural menor do que o apregoado.Os autores do projeto escondem queas frentes de emergncia emprega-ram nas ltimas secas 2,05 milhesde trabalhadores e que os empregosgerados pela transposio ascenderoaos 540 mil, 180 mil dos quais dire-tos. Qual o destino dos trabalhadoresrestantes nas pocas das secas?

    2. A afirmao de que entre os 70mil audes s cem valem a pena, ede que os demais so grandes eva-poradores de gua, improcedentee at leviana. No reconhecer a dis-ponibilidade hdrica acumulada nospequenos e mdios audes sem ca-pacidade de regularizao umerro absurdo e no aproveit-la, umdesperdcio inominvel. A vocaodo pequeno aude existe (como exis-te a dos mdios e dos recursos hdri-cos subterrneos contidos, principal-mente, nos aqferos aluviais) e noest sendo aplicada: uso na irrigaode salvao aquela que corrige asirregularidades pluviomtricas daestao chuvosa ou na irrigao decultivos de pequeno ciclo.

    3. O dr. Cagnin diz que o gover-no est implementando a constru-o de 1 milho de cisternas que pro-duziro 1 metro cbico por segundo(m3/s). Isso mostra que o coordena-dor tcnico do projeto no tem idiado que seja a relao reservat-rio/vazo produzida. Uma cisterna

    cartas@fapesp.br

    CARTAS

    total de 112.263 ha. So, portanto,12.570 pequenos proprietrios ru-rais naquela parte da bacia do rioParaba e 8.602 na parte paraibanado rio Piranhas que tero, em maiorou menor extenso de seus 274.829ha, suas terras desapropriadas, exa-tamente em sua parte mais valiosa eprodutiva, a que fica nas margens doscanais da transposio. Como umaboa parte da rea ser destinada aempresas, o que se pergunta se to-dos esses pequenos proprietrios se-ro reassentados ou se transforma-ro em novos sem-terras?

    no h uma poltica de abaste-cimento urbano adequada (disponi-bilidades 100% garantidas) nem pa-ra o abastecimento humano rural;

    no h uma poltica de irrigaocondizente com a Lei 9.433/97, queestabelece a adequao da gesto derecursos hdricos s diversidades f-sicas, biticas, demogrficas, econ-micas, sociais e culturais das diversasregies do pas;

    no h um programa de miti-gao dos efeitos das estiagens sobrea produo agrcola e, muito menos,uma poltica de aproveitamento hi-droagrcola da estao mida dosemi-rido nordestino, integrando-ano espao socioeconmico regionalem termos de:

    zoneamento do espao produ-tor, com substituio gradativa decultivos visando maior produtivida-de dos solos e agregao da produo;

    preos mnimos dos produtos; condies de armazenamento; viabilizao mercadolgica (es-

    coamento, comrcio etc.); finalmente, falta uma viso de

    desenvolvimento socioeconmico dofuturo, nos espaos nordestinos, es-taduais e de bacias hidrogrficas.

    JOS DO PATROCNIO TOMAZALBUQUERQUE

    Hidrogelogo e professor aposentado da Universidade Federal

    de Campina GrandeCampina Grande, PB

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  • PESQUISA FAPESP 114 AGOSTO DE 2005 7

    Nova doena

    Parabns a Pesquisa FAPESP pelareportagem sobre a sndrome deSpoan (edio 113). A reportagem semostra clara e objetiva, atingindo commaestria todas as classes de leitores.

    SOLANGE SOUSAInstituto Karolinska

    Estocolmo, Sucia

    Conquista espacial

    Na reportagem Espao paraconquistas (edio 113) que relata asnossas recentes conquistas no setorespacial junto com a empresa Fibra-forte, constou um erro cientfico notrecho A alumina ... para dar supor-te ao catalisador e ao irdio.... Na ver-dade, o conjunto alumina-irdio cons-titui o prprio catalisador. Tambm

    Pesquisa Brasil

    Somente posso ouvir o programaPesquisa Brasil, em parceria com aRdio Eldorado AM, por meio da in-ternet. Gravo o programa no compu-tador e depois converto em MP3 eouo no meu player. O programa devocs excelente, pois me acrescentamuitos conhecimentos.

    EDGAR OSMAR GRAZEFFEFlorianpolis, SC

    gostaramos de citar como colabora-dores da pesquisa os seguintes pesqui-sadores: Guy Pannetier e Grald Dj-ga-Mariadassou, da Universidade deParis VI, Gilberto Marques da Cruz,da Faculdade de Engenharia Qu-mica de Lorena (Faenquil), GustavoTorres Moure, do Centro de Pesqui-sas e Desenvolvimento (Cenpes) daPetrobras, Marisa Aparecida Zacha-rias e Turbio Gomes Soares Neto, am-bos do Instituto Nacional de Pesqui-sas Espaciais (Inpe).

    DEMTRIO BASTOS NETTOLaboratrio Associado de Combusto

    e Propulso do InpeCachoeira Paulista, SP

    Nota da Redao: veja nota no finaldesta seo.

    Combustvel na cermica

    Na reportagem Combustvel nacermica (edio 112) faltou constaro nome dos seguintes pesquisadoresque tambm colaboraram no proje-to: Daniel Z. de Florio, Fbio C. Fon-seca, Eliana N. S. Muccillo, Carlos M.Garcia, Marcos A. C. Berton, Yone V.Frana e Tatiane C. Porfrio.

    REGINALDO MUCCILLOInstituto de Pesquisas Energticas

    e Nucleares (Ipen) So Paulo, SP

    Acupuntura

    Venho na condio de leitor daPesquisa FAPESP e presidente da So-ciedade Brasileira de FisioterapeutasAcupunturistas (Sobrafisa) com o in-tuito de auxiliar e considerar algunspontos importantes na informaoem pesquisa fornecida pela revista nareportagem A qumica da acupuntu-ra (edio 113) :

    1) A Acupuntura no Brasil no somente uma especialidade mdica.Outros conselhos federais da rea dasade tambm a reconhecem comoespecialidade, a exemplo do de fisio-

    Oque a cincia brasileira produzvoc encontra aqui.

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    As reportagens de PesquisaFAPESP retratam a construo do conhecimentoque ser fundamental para o desenvolvimento do pas.Acompanhe essa evoluo.

    Nmeros atrasadosPreo atual de capa da revista acrescido do valor de postagem.Tel. (11) 3038-1438

    Assinaturas, renovao e mudana de endereoLigue: (11) 3038-1434Mande um fax: (11) 3038-1418Ou envie um e-mail: fapesp@teletarget.com.br

    Opinies ou sugestesEnvie cartas para a redao de Pesquisa FAPESPRua Pio XI, 1.500So Paulo, SP 05468-901pelo fax (11) 3838-4181 ou pelo e-mail: cartas@fapesp.br

    Site da revistaNo endereo eletrnico www.revistapesquisa.fapesp.brvoc encontra todos os textos de Pesquisa FAPESP na ntegra e um arquivo com todas as edies da revista, incluindo os suplementos especiais. No site tambm esto disponveis as reportagens em ingls e espanhol.

    Para anunciarLigue para: (11) 3838-4008

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  • terapia, sendo o primeiro desde de1980 a reconhecer a acupuntura comoespecialidade fisioteraputica;

    2) Consideramos importante ocrescimento da acupuntura no Brasilpor profissionais devidamente qua-lificados, mas os demais profissio-nais no-mdicos tambmdesenvolvem projetos depesquisa por todo o Brasil;

    3) O projeto Acupuntu-ra solidria, desenvolvidoem vrias cidades e capitaisdo pas, presta assistnciaem acupuntura a aproxima-damente 30 mil pacientesdesde 1990, sendo reconhe-cido em vrias localidadescom destaque pelo poderpblico e ainda mantmconvnio com prefeituras eorganizaes no-governa-mentais;

    4) Os alunos, na condi-o de pesquisadores, reali-zam trabalhos de cunho ci-entfico que so publicadosna revista trimestral A So-brafisa.

    JEAN LUIS DE SOUZAPresidente da Sobrafisa

    Braslia, DF

    surpreendente como mesmouma revista de divulgao cientficade uma fonte ntegra, como a Funda-o de Amparo Pesquisa do Estadode So Paulo (FAPESP), possa publi-car matrias pseudocientficas e su-perficiais. A reportagem A qumicada acupuntura (edio 113) da re-vista Pesquisa FAPESP faz afirmativasimpressionantes sobre o efeito deagulhas enfiadas na pele, alterandoneurotransmissores no crebro, semuma mnima evidncia emprica.No deveriam ter sido citados os taisartigos de pesquisas da UniversidadeFederal de So Paulo (Unifesp)? Te-riam sido pesquisas realizadas pelosmesmos cientistas que recentementepromoveram uma conferncia sobre

    dor no favorece o debate de idias.Por fim, a leitura feita pelo pesquisa-dor no corresponde ao real conte-do da matria publicada.

    Correes

    O porto de Hunting-ton, onde funcionou efeti-vamente a primeira usina deondas, fica nos Estados Uni-dos, e no na Inglaterra, co-mo foi publicado no qua-dro Sonho antigo (edio113).

    Na reportagem Espaopara conquistas (edio113) est incorreta a fraseA alumina extremamentedifcil de ser obtida com aspropriedades adequadas pa-ra dar suporte ao catalisa-dor e ao irdio.... O correto: o conjunto alumina-ir-dio extremamente difcilde ser obtido para funcio-nar como um catalisador.

    Na reportagem Duro de matar(edio 113) os desenhos de Henfil,tirados do livro Ubaldo, o paranico,saram sem a sua assinatura.

    criacionismo? No deveriam mostrar,numa matria que alega coisas poucocrveis, alguma mnima evidnciaemprica? H, ainda, mais na matria:... a energia vital Qi circula pelo orga-nismo ao longo de meridianos queterminam em pontos especficos da

    pele. O bom funcionamento do corpodepende do equilbrio entre as duasforas contrrias e complementares yin e yang que compem Qi. Se esseequilbrio se desfaz, o corpo adoece. um despropsito. Ensinam estetipo de medicina na Unifesp? , defato, constrangedor que o dinheiropblico (da FAPESP) seja usado paraeditar uma matria to precria emcientificidade.

    RENATO ZAMORA FLORESInstituto de Biocincias, UFRGS

    Resposta do pesquisador Luiz EugnioArajo de Moraes Mello:

    Os trabalhos referidos no artigoforam objeto de publicao em peri-dicos internacionais indexados e po-dem ser facilmente encontrados emdiversas bases de dados. A acupuntu-ra prtica mdica reconhecida porentidades mdicas no pas e no exte-rior. O tom adotado pelo pesquisa-

    8 AGOSTO DE 2005 PESQUISA FAPESP 114

    Cartas para esta revista devem ser enviadas para o e-mail cartas@fapesp.br, pelo fax (11) 3838-4181ou para a rua Pio XI, 1.500, So Paulo, SP, CEP 05468-901. As cartas podero ser resumidaspor motivo de espao e clareza.

    CARTAS

    EMPRESA QUE APIA APESQUISABRASILEIRA

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  • PESQUISA FAPESP 114 AGOSTO DE 2005 9

    m meio a turbulncias violentasque a partir das Comisses Par-lamentares de Inqurito instala-

    das em Braslia vm sacudindo a Rep-blica nas ltimas semanas,pode atsoar como provocao a afirmao deque o pas no tem nesse momento ne-nhuma necessidade urgente de umaampla reforma poltica bem ao con-trrio do julgamento do senso comum.No se trata,no entanto,de provoca-o,e sim de concluso pensada,frutode pesquisa longamente maturada aolargo e a salvo das imagens reiteradasda mdia que propem,dia aps dia,que uma corrupo sistmica e inven-cvel invadiu o pas e hoje corri seucorpo e sua alma inteiros.A reiteraomiditica,sabemos,costuma ser maisapta para espalhar sentimentos do quepara produzir boas reflexes.

    Infensos a ela,os pesquisadores quese dedicaram a examinar as estruturas ea ambincia polticas nacionais no pro-jeto Instituies polticas,padres de inte-rao Executivo-Legislativo e capacidadegovernativa,seguros de que n o so asinstituies que criam os corruptos,avi-sam que o Brasil precisa de alguma mu-dana na rea poltica,sim,mas nadaradical,sob pena de se cortar canais im-portantes de acesso da populao aosistema poltico.Feito isso,os quatropontos recorrentes na atual discussosobre reforma poltica fidelidade par-tidria,lista fechada de candidatos paraas eleies,cancelamento de registro dopartido que no conseguir eleger pelomenos um representante para o Con-gresso Nacional e financiamento pbli-co das campanhas eleitorais recebemuma anlise acurada dos pesquisadoresque termina por demonstrar que h al-go de ingnuo e de falacioso na nsiade alguns por tudo reformar para am-pliar a eficincia governamental.E essaanlise,extremamente oportuna nosdias que correm,que relatada entreoutros pontos,na reportagem de capadesta edio,pelo editor de humanida-des,Carlos Haag,a partir da p gina 80.

    Reflexes longe da turbulncia

    A populao brasileira,al m de ca-lejada em escndalos que s a demo-cracia destampa,tem se tornado maisvelha,com o aumento cont nuo da ex-pectativa de vida no pas. Infelizmenteisso se faz acompanhar da incidnciacrescente entre ns de doenas tpicasdos idosos,caso das mielodisplasias,sobre as quais os clnicos que atendemusualmente as pessoas mais velhas ataqui sabem muito pouco.Na verdade,mesmo os hematologistas,especialis-tas em doenas que afetam o sangue,s recentemente comearam a ter in-formaes mais precisas sobre osdefeitos genticos,produzidos auto-nomamente pelo prprio corpo ou re-sultante de agresses ambientais,queprovocam as mielodisplasias.Dessaforma,a reportagem do editor assis-tente de cincia,Ricardo Zorzetto,apartir da pgina 38, uma contribui-o importante de Pesquisa FAPESPpara disseminar um pouco mais o quej se sabe sobre mielodisplasias.Afinal,ante uma anemia intrigante num ido-so,acompanhada de queda no n me-ro de clulas brancas do sangue e deplaquetas,o cl nico cada vez mais pre-cisar pensar em mielodisplasias paraencaminhar o paciente ao tratamentocorreto que nem sempre, verdade,ter bons resultados.

    Nos domnios da tecnologia,valedestacar nesta edio a reportagem doeditor Marcos de Oliveira sobre umnovo instrumento que pe feixes invi-sveis de laser para trabalhar comopinas pticas que capturam clulas emicroorganismos vivos e,aliados a umsistema de espectroscopia,permitemexamin-los em seu funcionamentopleno e normal,analisando prote nas,lipdios, aminocidos e outros compo-nentes. claro que essa novidade tec-nolgica ter aplicao relevante namedicina,possivelmente no campo ali-mentar e em outras reas onde se mos-tre relevante o exame da clula viva.

    CARTA DO EDITOR

    GOVERNO DO ESTADO DE SO PAULO

    SECRETARIA DA CINCIA, TECNOLOGIA, DESENVOLVIMENTO ECONMICO E TURISMO

    FUNDAO DE AMPARO PESQUISA DO ESTADO DE SO PAULO

    FAPESP

    CARLOS VOGTPRESIDENTE

    MARCOS MACARIVICE-PRESIDENTE

    CONSELHO SUPERIORADILSON AVANSI DE ABREU, CARLOS VOGT, CELSO LAFER,

    HERMANN WEVER, HORCIO LAFER PIVA, HUGO AGUIRRE ARMELIN,JOS ARANA VARELA, MARCOS MACARI,

    NILSON DIAS VIEIRA JUNIOR, VAHAN AGOPYAN, YOSHIAKI NAKANO

    CONSELHO TCNICO-ADMINISTRATIVO

    RICARDO RENZO BRENTANIDIRETOR PRESIDENTE

    JOAQUIM J. DE CAMARGO ENGLERDIRETOR ADMINISTRATIVO

    CARLOS HENRIQUE DE BRITO CRUZDIRETOR CIENTFICO

    PESQUISA FAPESPCONSELHO EDITORIAL

    LUIZ HENRIQUE LOPES DOS SANTOS (COORDENADOR CIENTFICO ), CARLOS HENRIQUE DE BRITO CRUZ,

    FRANCISCO ANTONIO BEZERRA COUTINHO, JOAQUIM J. DE CAMARGO ENGLER,

    LUIZ EUGNIO ARAJO DE MORAES MELLO, PAULA MONTERO,RICARDO RENZO BRENTANI,

    WAGNER DO AMARAL, WALTER COLLI

    DIRETORA DE REDAOMARILUCE MOURA

    EDITOR CHEFENELDSON MARCOLIN

    EDITORA SNIORMARIA DA GRAA MASCARENHAS

    DIRETOR DE ARTEHLIO DE ALMEIDA

    EDITORESCARLOS FIORAVANTI (CINCIA), CARLOS HAAG( HUMANIDADES),

    CLAUDIA IZIQUE (POLTICA C&T), HEITOR SHIMIZU( VERSO ON-LINE), MARCOS DE OLIVEIRA( TECNOLOGIA)

    EDITORES ESPECIAISFABRCIO MARQUES, MARCOS PIVETTA

    EDITORES ASSISTENTESDINORAH ERENO, RICARDO ZORZETTO

    CHEFE DE ARTETNIA MARIA DOS SANTOS

    DIAGRAMAOJOS ROBERTO MEDDA, MAYUMI OKUYAMA

    FOTGRAFOSEDUARDO CESAR, MIGUELBOYAYAN

    COLABORADORESANA LIMA,

    ANDR SERRADAS (BANCO DE DADOS), BRAZ, DANILO VOLPATO, EDUARDO GERAQUE (ON-LINE),

    FRANCISCO BICUDO, LAURABEATRIZ, MRCIO GUIMARES DE ARAJO,MARG NEGRO, RENATA SARAIVA, SRGIO L. OLIVEIRA,

    THIAGO ROMERO (ON-LINE) E YURI VASCONCELOS

    ASSINATURASTELETARGET

    TEL. (11) 3038-1434 FAX: (11) 3038-1418e-mail: fapesp@teletarget.com.br

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    http://www.revistapesquisa.fapesp.brcartas@fapesp.br

    NMEROS ATRASADOSTEL. (11) 3038-1438

    Os artigos assinados no refletem necessariamente a opinio da FAPESP

    PROIBIDA A REPRODUO TOTALOU PARCIALDE TEXTOS E FOTOS SEM PRVIA AUTORIZAO

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    MARILUCE MOURA DIRETORA DE REDAO

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  • 10 AGOSTO DE 2005 PESQUISA FAPESP 114

    Desde o sculo 18 tenta-se gerar energia a partir do mar

    NELDSON MARCOLIN

    Difcil de domar

    s tentativas de tirarenergia do maraproveitando omovimento das ondasou das mars no so mero reflexo da

    busca incessante por fontes baratas e no-poluentes, intensificada nos ltimos 35 anos.A idia secular e est registrada emdocumentos, desenhos e fotos em vrios pasesdo mundo. Dois franceses do sculo 18 Phillip Girard e seu filho, cujo primeiro nome se perdeu depositaram a primeirapatente que se tem notcia de um motormovido por ondas. O texto francs datado de 12 de julho de 1799, mas no se sabe se os dois Girard tentaram colocar em prtica o prprio invento. Essa, alis, a regra para as patentes de mquinas pensadas parafuncionar como usinas martimas. Entre 1855 e 1973, os ingleses contaram 340 patentes

    apenas na Gr-Bretanha sobre o mesmoassunto. Nos Estados Unidos tambm houvenumerosos registros de patentes, boa partedeles ainda no sculo 19. L possvelencontrar colees de fotos com as diversasexperincias de inventores diletantes. A queilustra esta pgina de um motor construdoem 1891 por Henry P. Holland instalado emum grande rochedo na praia de San Francisco,Califrnia. As ondas movimentavam umagrande bia, que ativava uma bomba para fazerpassar a gua do mar por mecanismos quedeveriam gerar eletricidade. Foi provavelmenteo primeiro motor construdo naquela regiocom uma proposta comercial, mas nofuncionou como o planejado e o projeto foiabandonado nos anos seguintes. A estruturaperdurou encravada na rocha por 59 anosantes de ser definitivamente destruda por uma tempestade. A primeira usina a realmente funcionar foi instalada

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  • PESQUISA FAPESP 114 AGOSTO DE 2005 11

    no porto de Huntington,tambm na Califrnia, em1909, diz o engenheiro EliabRicarte Beserra, do Laboratriode Tecnologia Submarina daCoordenao dos Programasde Ps-graduao deEngenharia da Universidade doRio de Janeiro (Coope/UFRJ).Esse maquinrio terminoutambm destrudo pela forado mar. Depois da atividadeintensa no final do sculo 19 e comeo do 20, o problema s foi retomado com fora

    Fac-smile da primeirapatente, de 1799: trabalho conjunto

    de pai e filho

    Motor de Holland instalado em San Francisco (em foto de 1895, na pgina anterior) e patente de Charles Buckner, de 1873 (ao lado):dificuldade em sair do papel

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    AR durante a crise do petrleo

    dos anos 1970. Nesse perodo,o engenheiro britnico Stephen Salter, da Universidadede Edimburgo, Esccia,chamou para a academia a responsabilidade de projetaruma usina de ondas eficaz,duradoura e vivelcomercialmente. Graas em boa parte s experincias bem-sucedidas de Salter,por volta de 20 pases investemhoje em usinas de ondas,embora apenas Esccia,Portugal e Holanda tenhammodelos comerciais em operao. No Brasil,ainda este ano comear afuncionar uma usina piloto no Cear, a cargo depesquisadores da UFRJ.

    10a11-114-pesquisa-memoria 27/7/05 9:31 PM Page 11

  • CientistaMARILUCE MOURA

    25.500 po em que eraestudante na Faculdadede Medicina da Uni-versidade de So Paulo(FMUSP), no final dosanos 1940, Isaias Rawconviveu com dois ti-pos de fama: a deempreendedor e a debrigo. Ao unir os doisqualificativos, ele se

    transformou num extraordinrio agitador educaci-onal, com idias e projetos dirigidos a professores ealunos que iam do ensino mdio ao curso superior no caso, medicina. At ter seus direitos cassados peloregime militar, por meio do Ato Institucional n 5,Raw foi responsvel por grande movimentao nes-se setor. A nomeao para o Instituto Brasileiro deEducao, Cincia e Cultura (Ibecc), em 1952, o li-berou para organizar pioneiramente feiras, clubes decincia e museus, a elaborar currculos, treinamentode professores e produo de equipamentos de labo-ratrios. Raw tambm criou e liderou a fabricaoratrios. Raw tambm criou e liderou a fabricaodos famosos kits de qumica, eletricidade e biologia,caixas repletas de experincias que podiam ser reali-zadas em casa por estudantes comuns.

    Ainda nessa primeira fase, entre os anos 1950 e1969, Isaias Raw manteve um ritmo alucinante deatividades. Fundou a Editora da Universidade de SoPaulo e a da Universidade de Braslia, unificou osexames vestibulares de So Paulo (junto com o pro-fessor e sanitarista Walter Leser), dirigiu a FundaoBrasileira para o Desenvolvimento do Ensino de Ci-ncias (Funbec), criou a Fundao Carlos Chagas e oCurso Experimental de Medicina da FMUSP. Emmeio a gestes de programas e fundaes, continu-

    ENTREVISTA FROTA PESSOA

    Descanear a partirde cpia fotogr-fica.

    12a17-114-pesq-entr-FrotaPessoa 27/7/05 7:52 PM Page 12

  • bomde briga

    ou um pesquisador atuante em bioqumica, publi-cando em revistas especializadas no exterior.Quando de sua cassao, trabalhou em Israel e emuniversidades norte-americanas. Nos anos 1980 emdiante, de volta ao Brasil, Raw instalou-se no Institu-to Butantan e ajudou, de modo decisivo, a transfor-m-lo no maior centro produtor de vacinas do pas,com 200 milhes de doses anuais hoje o presiden-te da Fundao Instituto Butantan. Este ano ganhouo Prmio Conrado Wessel de Cincia e Cultura, edi-o 2004, na categoria Cincia Geral. Aos 78 anos,casado, com os trs filhos divididos entre os EstadosUnidos e Israel. e trs netos, ele ri quando percebe aquantidade de informao que despejou sobre os en-trevistadores: Sei que impossvel enquadrar, emuma nica entrevista, uma vida de 65 anos, contan-do o laboratrio na garagem, de atividades, onde mediverti fazendo cincia.

    Como o senhor se interessou por educao cientfi-ca? Comecei estimulando a observao em anliseexperimental, criando uma feira de cincias em SoPaulo nos anos 1950. A idia era ocupar um salo daGaleria Prestes Maia com uma exposio a cada trsou quatro meses. A feira de cincias, naquele tempo,era uma forma de estimular a crianada a fazer eapresentar seus trabalhos. Depois inventei de levardez estudantes selecionados, do ensino mdio, para areunio da SBPC [Sociedade Brasileira para o Pro-gresso da Cincia] e eles se apresentavam como sefossem pesquisadores que mostram seus resultados.A coisa comeou nos anos 1950 tambm porqueexistia um organismo chamado Instituto Brasileirode Educao, Cincia e Cultura, o Ibecc. Era a tra-duo do nome Unesco e representava esse organis-mo no Brasil. FOT

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  • 14 AGOSTO DE 2005 PESQUISA FAPESP 114

    Fundao Ford. Depois fui ao Minis-trio da Educao e vendi a idia parao Ansio Teixeira, um educador bri-lhante. A cada 15 dias eu ia l, paraconversar. O problema era que o An-sio no era cientista, mas filsofo. Tu-do o que ele dizia numa semana des-dizia 15 dias depois, com a mesmatranqilidade.

    O que um defeito grave, diga-se depassagem. No no, porque era uma conver-sa lgica, encadeada. O Ansio Teixeirafoi o primeiro sujeito que concebeu aescola como deveria ser: pblica, gra-tuita e universal.

    O senhor geria a fbrica de kits e fa-zia pesquisa ao mesmo tempo? Ao mesmo tempo. Fazia pesquisaem bioqumica. O foco da pesquisa foimudando. Antes da genmica o impor-tante era entender metabolismo e enzi-ma. Naquele tempo a grande promessaera que, se se conhecia a diferena en-tre, digamos, o homem e um parasita,voc era capaz ento de identificar umadroga que ia inibir a enzima do parasi-ta, que difere da do homem, e curava adoena. Foi naquele momento que secomeou a fazer bioqumica. Comeceicom o Tripanossoma cruzi quando eraaluno, nos anos 1940. Vi que aquelarea do conhecimento estava vazia ecomecei a trabalhar nisso.

    Como o senhor foi parar no Institutode Qumica? Havia a necessidade de criar massacrtica, com gente de todas as reasconversando e trocando experincias.A Faculdade de Medicina era muito fe-chada e no deixava contratar profissio-nais no-mdicos. A veio a idia, aindano tempo do Ulha Cintra, de pegarmoso Departamento de Bioqumica, que euchefiava, pr no caminho e levar parao Instituto de Qumica, cujo prdionem estava completamente construdo.A Faculdade de Medicina reagiu extre-mamente mal a isso. Mas foi essa aoque levou a criao, na prtica, da USP.At ento a universidade era apenasum condomnio. Mesmo j implanta-da, a Cidade Universitria era um con-domnio, as faculdades eram isoladas eningum falava com ningum. O Cin-tra me deu cobertura naquela ocasio.

    Ele mandou construir o Instituto deQumica, que era diretamente ligado Faculdade de Filosofia, Cincias e Le-tras. Depois que eu mudei para l, como tempo, mudou a Farmcia, pratica-mente inteira, e as outras. Houve umaevoluo clara da universidade depoisdessas mudanas.

    O senhor sempre quis ser pesquisador? Eu entrei na faculdade definitiva-mente interessado em fazer pesquisa,no em ser mdico. A Faculdade deMedicina era um dos poucos lugaresonde havia tempo integral, laborat-rios e permitia fazer pesquisa. Eu tinhaum tio que era um mdico de massa,atendia mil pessoas por ms. Ele tinhaalguns livros de qumica farmacuticaque me interessavam. Meu interesse evontade de pesquisar surgiram quasepor gerao espontnea.

    Mas foi a partir dessas leituras que oseu entusiasmo cresceu, no foi? . De alguns livros, um em especialsobre o Louis Pasteur, que ficou obsole-to, obviamente, ningum tinha desco-berto uma poro de coisas na poca.Mas era um livro muito bom, contavaas histrias do Pasteur, que foi outrosujeito que surgiu assim, quase por aca-so, tambm. Toda a cincia do sculo19 surgiu desse jeito, algum que se in-teressou por alguma coisa e foi fazer. OPasteur inventou um modelo, que achoque o modelo que tentei ressuscitarno Butantan. O Pasteur dizia vou fazerpesquisa, fazer desenvolvimento, pro-duzir o produto, ganhar dinheiro e fi-nanciar minha pesquisa.

    Seus caminhos como pesquisador noso nada convencionais. Vou dizer uma coisa: me divertimuito na minha vida. Eu assisti a pou-cas aulas na Faculdade de Medicina,sabe por qu? Porque eram sempre asmesmas aulas. Nada mudava. E voc,em metade do tempo, l um livro srioe aprende mais do que ouvindo umprofessor s vezes no muito compe-tente. Meu grande problema era saberque matria tinha sido dada, para po-der estudar para o exame. Olhando oscadernos dos meus colegas da primeirafila, que enchiam pginas e pginas,descobri que no chegava conclusosobre qual era o tema da aula. Quer di-

    O objetivo era atrair o jovem para acincia desde cedo? Se no atraamos os jovens no equi-valente, naquele tempo, ao colgio, pa-ra se dirigir a uma carreira cientfica, jperdamos o aluno. Tem que comearmuito cedo. Colocvamos dez ou 20 jo-vens escolhidos por ns para fazer ex-perincias construir aparelhos, porexemplo, com um torno que era da Es-cola Politcnica num tempo em queno tinha motor, que era com pedal,e iam fazer a experincia. Mas rapida-mente ficou claro para mim que 20pessoas no iam mudar o Brasil. Tnha-mos que achar um outro jeito de mul-tiplicar esse processo. E esse processoera o clube de cincia que foi redesco-berto muitos anos depois, no Rio de Ja-neiro, pelo bioqumico Leopoldo deMeis, da UFRJ [Universidade Federaldo Rio de Janeiro]. O problema quenossos clubes eram muito modestosem termos de nmero. Achei que, emvez de investir na formao de uma eli-te, deveria intervir na escola secundriae partir para a massificao usando oskits e minikits de qumica, eletricidade ebiologia.

    Como surgiram os kits de cincia? Eu tinha um laboratrio no quintalda minha casa. Naquele tempo se com-prava cido na esquina, na loja de fer-ragens. Tive a idia de fazer algo maisorganizado, que as pessoas pudessemcomprar um pacote de material, comreagentes e o que fosse necessrio paratrabalhar em casa, que pudesse ser fe-chado e guardado. Isso j existia comer-cialmente na Alemanha nos anos 1930.Criei uma mala, na verdade um caixotede madeira com uma ala. A surgiramos kits de qumica, de eletricidade, debiologia e at de matemtica.

    O senhor bolou os kits, mas quem fi-nanciava a fabricao? Fazamos na Faculdade de Medici-na, primeiro no 4 andar, depois ocu-pamos a garagem. Quando o UlhaCintra foi reitor da USP, de 1960 a1963, ganhamos um galpo na CidadeUniversitria e tudo passou a ser indus-trializado. Chegamos a ter 650 oper-rios. Quando sa do projeto, a EditoraAbril topou fazer isso comercialmente.Inicialmente recebamos doao daFundao Rockefeller e, logo aps, da

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  • Uma vez cassado o senhor fez o qu? Fui embora do Brasil. Primeiro, paraa Universidade Hebraica de Jerusalm,em Israel. Eles estavam atrs de mim ha-via muito tempo por causa do ensinoem cincias. Mas no funcionou. Inde-pendentemente do problema de lngua,que no fcil, muito difcil interferirna educao de um outro pas, se voc estrangeiro. No tem jeito.

    E para onde o senhor foi? Entrei no MIT [Massachusetts Insti-tute of Technology] primeiro, nos Es-tados Unidos. A vida l foi conturbadaporque ca de pra-quedas e sem mi-nha equipe de pesquisa. Pesquisa no uma atividade individual, mas de umgrupo que trabalha harmonicamente.Pensei, vou fazer aquilo que sei, que trabalhar com ensino em cincias. Eraum negcio que ns tnhamos comea-do no Brasil, onde ramos pioneiros.Nos Estados Unidos se dizia o seguinte:o ensino de cincias muito srio parase deixar nas mos de um professor. acomunidade cientfica que tem de dizerpara onde vai a cincia. No MIT tinhaalgo parecido com a Funbec e comea-mos um projeto, que chegou a ter umimpacto muito grande e era o reversodo que eu fazia no Brasil: como quevoc ia ensinar cincia para quem noquer aprender cincia? Ento ns inven-tamos um projeto. Como o americano louco para saber o que come, decidi-mos que cada estudante juntaria tudo oque comia num dia dentro de um ni-co saco: Coca-cola, hambguer, tudo. Edepois passamos meio ano analisandocom mtodo o que ele tinha comido

    PESQUISA FAPESP 114 AGOSTO DE 2005 15

    pela Opas [Organizao Pan-america-na de Sade] para rever o ensino de f-sica, de qumica, de biologia, assim pordiante, algumas delas em Washington,no fim dos anos 1950. E eu era o deno-minador comum, porque a Funbec[Fundao Brasileira para o Desenvol-vimento do Ensino de Cincias], que eudirigia, trabalhava em todas essas reas.

    Como foi sua cassao? Em 1969 j foi diferente. Quandome soltaram, em 1964, minha vidacontinuou normalmente. Fiz o concur-so para catedrtico, embora tentassemme impedir, assumi meu posto e conti-nuei trabalhando. Em 1969 fui aposen-tado pelo o AI-5 [Ato Institucional n5]. Mas entre 1964 e 1969 surgiu umaporo de coisas. O Ibecc tinha viradoFunbec, uma fundao muito impor-tante, no s para o ensino de cincia era a primeira indstria de eletrnicamdica. No Brasil ningum tinha equi-pamento mdico. S se tirava eletro-cardiograma quando o mdico tinharelho de eletrocardiograma. Monitor,desfibrilador, no tinha nada disso. Eutambm estava profundamente envol-vido com o vestibular unificado, queera feito pela Fundao Carlos Chagas.

    Isso foi na poca que o senhor era pre-sidente da Fundao Carlos Chagas? . Havia todo um complexo relacio-nado educao e ao ensino de cin-cias que funcionava harmonicamente.No fundo, isso representava poder. Em1969 eu tinha a soma desse poder todoe no era submisso. Era um peo quetinha que ser removido do caminho.

    zer, esse sujeito, por mais que ele estu-dasse aquele maldito caderno, no po-dia ter uma nota adequada porque notinha a viso do que foi ensinado.

    Em 1964 o senhor foi preso acusado desubverso. Como foi esse episdio? Fui preso como um sujeito altamen-te periculoso. Vinte e cinco soldadosvieram me prender s 11 horas da noi-te, quando estava entrando em casa. Foium momento terrvel porque, naquelapoca, minha sogra estava morrendo emeus trs filhos eram pequenos. E halgo muito srio: como que voc ex-plica para os seus filhos pequenos que apolcia est errada e voc certo? Noexiste isso. No tem explicao.

    O que alegaram para o senhor? Que eu era um violento e subversi-vo comunista. Fiquei 13 dias preso e fuilibertado por dois motivos. O primeirodeles que eu iria para um congressode bioqumica em Nova York e uns 12professores, incluindo sete ganhadoresde Prmio Nobel, escreveram um tele-grama de protesto para o presidente daRepblica, o marechal Castello Branco,e isso foi notcia na Folha de S.Paulo.Ento criou-se um caso. O segundo mo-tivo que o ento diretor de ensino decincias da Unesco, Albert Baez, estavano Brasil e tinha uma hora marcadapara conversar comigo sobre ensino decincias. Como estava preso, ele foi aoquartel. Esses dois fatos ajudaram a melibertar. Na verdade, minha priso ocor-reu porque o Exrcito era ignorante, mal-informado e foi enrolado. Na USP tinhaprofessores importantes que formaramuma comisso de extrema direita e en-volveram o Exrcito. Eu era candidatoimbatvel para professor catedrtico daFaculdade de Medicina e essa comissoenvolveu meu nome em atividadessubversivas para me tirar do preo.

    O senhor participava de organizaesde esquerda? No. Uma vez a antiga TV Recordnoticiou que eu era chefe de uma clulacomunista que se reunia em Washing-ton. O que houve que o programa deensino de cincia do qual eu estava frente foi assimilado pela Unesco, quetinha interesse muito grande pelo tema.Durante algum tempo houve uma sriede reunies internacionais financiadas

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  • pouco soro antiofdico que o Butantanfazia foi testado em um laboratrio cen-tral de controle de qualidade, no Rio deJaneiro, e descobriu-se que era inativo.Ento, o Brasil no tinha soro. A essa al-tura, eu j estava tentando resolver oproblema dentro do Butantan. Isso co-meou a abrir os caminhos e fui re-construindo instalaes e comprandomquinas com a ajuda do governo fe-deral. Da FAPESP ns conseguimosmuita ajuda com auxlios pontuais, in-dividuais, para os pesquisadores.

    Mas como o instituto se tornou umgrande centro de produo de vacinas? O oramento para fazer vacinas imu-nobiolgicas no Butantan era zero. Ogoverno do estado no financia cons-cientemente a produo de vacina. Seantes era zero e agora produzimos 200milhes de doses de vacina, de ondeveio esse dinheiro? Tivemos que criaruma estrutura onde esse dinheiro se re-troalimentasse. Essa era uma parte doproblema. A outra era desenvolver tec-nologia. O pesquisador da universidadeimagina que desenvolve tecnologia. Naverdade, ele desenvolve uma idia debancada. O pesquisador est sempresonhando com uma coisa que mesmono Primeiro Mundo leva muitos anos.Na rea de medicamento e vacina levadez anos depois de o produto estar es-tabelecido para se chegar no mercado.Outro conceito fundamental que, sevoc no faz o produto aparecer, no serealizou nada. Quer dizer, a medida detecnologia no o trabalho publicado,muito menos a discusso interna. Seno tem um produto, voc pouco fezdo ponto de vista industrial. E, se emuma instituio pblica esse produtono da sociedade como um todo, vocno fez sade pblica. Para fazer sadepblica tem que ter um custo que opas comporte. H um outro problema:no Brasil, aceitou-se a idia americanade que se o cientista tem uma partici-pao nos lucros ele tem mais interesseem criar tecnologia.

    Isso no verdade?Pode at ser. O negcio que, se for as-sim, ningum vai fazer nada que notenha perspectiva de lucro. Voc mata apesquisa. No d para imaginar que asoluo de todos os problemas passapela empresa lucrativa. Acredito que o

    naquele dia. Esse programa teve grandeimpacto e me deu a capa do ChemicalNews, o que naquela poca era um bru-tal prestgio. Esse trabalho acabou sain-do em livro em 1972.

    Quanto tempo o senhor ficou no MIT? Quatro anos. Quando o programamorreu, fui convidado para ir para aEscola de Sade Pblica da Universida-de Harvard, no Departamento de Nu-trio. L fiz um outro negcio que foimuito importante na poca e hoje vol-tou a ter importncia. Recentementefoi feita uma anlise das escolas de me-dicina, das inovaes do ensino mdicoe quem ganhou primeiro lugar? Lon-drina. O que Londrina fez? De certaforma repetiu o Curso Experimental deMedicina que fiz em 1969 na CidadeUniversitria. Naquela poca havia duasidias em jogo: trazer o curso de medi-cina para a Cidade Universitria e ino-var. No era para repetir a mesma coisa.Ento ns conseguimos aprovar na con-gregao da faculdade o curso experi-mental, que preparava os alunos para oestudo de uma medicina cientfica.

    Qual era o conceito do Curso de Me-dicina Experimental? Acabar com a separao das discipli-nas e tentar integrar cincia bsica, cl-nica e medicina social desde o primeirodia do curso. As matrias do curso m-dico so totalmente artificiais, porquecresceram alm dos limites delas. Tam-bm tinha um segundo porm: naque-le tempo, 40% do curso mdico era deanatomia descritiva, do mesmo jeitoque se ensinava no sculo 18. Hoje issomudou, naturalmente. Nossa idia eramisturar a medicina logo no primeiroano com as outras coisas de cincia b-sica. Ns, os professores que davam ocurso, nos reunamos uma vez por se-mana para decidir o que ensinar. Hojeeu tenho que ensinar citologia do fga-do, voc fala sobre mitocndria... Fun-cionou to bem que, no primeiro ano,escolheram Experimental. Mas, assimque eu sa, durou mais um ano e a fa-culdade acabou com o curso.

    Depois das experincias bem-sucedi-das nos Estados Unidos, por que voltoupara o Brasil? Porque o sistema americano de pes-quisa foi pervertido. Deixou de ter uma

    estrutura mais ou menos permanentepara ter uns tantos lderes geniais que fa-zem pesquisa e um exrcito de escravos,que trabalham sete dias por semana, 18horas por dia. Quando acaba a bolsa, seo pesquisador quiser ter famlia, hor-rios menos ruins, um ordenado maisdecente, tem de ir embora. O pesquisa-dor temporrio. Fazer propriamente apesquisa no mais uma atividade per-manente de ningum, a no ser de 1%que est no topo. O resto um exrcitode escravos. Isso ocorre por causa damquina poderosa que eles tm mon-tada l, da quantidade de dinheiro exis-tente. Agora, ningum interfere na pes-quisa, a liberdade total. O problema que h uma estrutura em que se tem detrabalhar muito, ser muito bom e cor-rer bea para ficar no mesmo lugar. E impessoal, totalmente impessoal.

    Na volta para o Brasil o senhor fez oque da vida? Tentei voltar para a Funbec, mastambm l o processo havia se perver-tido, num outro sentido. Eles estavamsem uma boa administrao e haviamperdido a inovao. Depois de uns doisanos surgiu a oportunidade de ir para oInstituto Butantan e comear do zero.Na poca, comeo dos anos 1980, nohavia permeabilidade entre o Butantane a USP e o instituto no tinha pesqui-sa nem aluno. Nesse momento, o WilliBeak era o diretor da instituio e pe-diu a contratao de dez professores dauniversidade. Eu j estava aposentado eno havia voltado para o Instituto deQumica por dois motivos. O primeiroera que a condio da Anistia, dos mili-tares, era de perdoar, no de reintegrar.Tinha de assinar um documento dizen-do que voc aceitou o perdo e eu noaceitei o perdo de ningum. O segundoe o Ricardo Brentani, diretor do Insti-tuto Ludwig de Pesquisa contra o Cn-cer e diretor presidente da FAPESP.

    O Butantan comeou a ser recompos-to com esses dez professores? Sim. Entrei em uma rea diferentedos outros, porque eu j tinha consegui-do que a Finep [Financiadora de Estu-dos e Projetos] me desse um pouquinhode dinheiro para fazer biotecnologia naFunbec. S que l no havia mais condi-es. Quando vim para c a coisa mudou.O mundo desabou em 1985 quando o

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    12a17-114-pesq-entr-FrotaPessoa 27/7/05 7:52 PM Page 16

  • ginado pelo menos um ano antes, se nodois anos antes, ento, se vem dinheiro, como se o governo dissesse: No te-nho nada previsto no meu oramento,portanto no aceito o dinheiro. com-pletamente esquizofrnico. Ento, a Fun-dao Instituto Butantan, criada em1985, resolveu esse problema. A funda-o opera como uma empresa privada,mas de modo muito mais flexvel.

    Apesar de andar na contramo, esseparece ser o caminho certo... o que acho. Dentro do modeloeconmico atual ns estamos na con-tramo. Qual o pas que d remdiopara Aids gratuitamente? O Brasil criouuma estrutura que permite fabricar oproduto que precisa para a sade p-blica a um preo que pode pagar. Aquina Fundao Instituto Butantan eu cui-do mais do preo do que o Ministrioda Sade. Ns estamos testando umaforma de usar um quinto da dose davacina da gripe para o ano que vem, oque permitir, com o mesmo dinheiro,baixar a vacinao para 50 anos paracima. Hoje vacinamos de 60 para cima.

    PESQUISA FAPESP 114 AGOSTO DE 2005 17

    Brasil est, na rea de motivo era que eutinha deixado cinco timos professoresl que no precisavam mais de mim eles eram melhores do que eu. Os maisconhecidos so o Walter Colli, hojetambm assessor adjunto da diretoriacientfica da FAPESP, sade, na contra-mo dessas idias.

    Por qu? Houve uma evoluo considervelda tecnologia, do controle da qualida-de, para fazer um produto como vaci-na. Quando descobriram que no tinhasoro bom aqui e no dava para impor-tar porque no era produzido usandoveneno extrado das cobras brasileirascriou-se um programa de auto-sufi-cincia de vacinas. Esse programa deri-vou para um monoplio estatal. Quan-do a instituio pblica faz a vacina, ogoverno compra sem questionamento,no entra em licitao. Claro que elepaga o preo mais baixo possvel e atra-sado, ainda por cima. Freqentementetenho de comprar matria-prima pre-viamente, antes da encomenda do go-verno para dar tempo de produzir a va-cina. No momento, estou devendo US$30 milhes usados para fabricar a vaci-na da gripe.

    Isso vale para todas as vacinas? No. As outras ns tambm faze-mos, mas sempre tem que ter dinheiro.Criamos uma estrutura que pblica,mas no pode ser pblica, porque se forpblica, stricto sensu, quando o dinhei-ro volta, volta para o Tesouro e desapa-rece. O governo pensa por causa daregulamentao e no por causa de va-cina em especial que, se ele est finan-ciando o instituto, se houver lucro, natural que v para o Tesouro. O dra-ma que a o dinheiro desaparece, no reinvestido no instituto.

    O dinheiro nunca fica no Butantan? No, no. O instituto pode ter essedinheiro, mas desde que o governo noo enxergue. Se enxergar o dinheiro, nodia seguinte ele recolhido ao Tesouro. uma questo de legislao. At os pri-meiros auxlios grandes que o Minist-rio da Sade nos deu desapareceram noTesouro. A Secretaria Estadual da Sa-de e o Butantan nunca receberam nada.Precisa ser muito burro para inventaruma lei desse tipo. O oramento ima-

    Tambm desenvolvemos, com a ajudada FAPESP, o surfactante para protegercrianas prematuras. O governo vai dis-tribuir para todas as maternidades p-blicas de graa. Isso porque consegui-mos tecnologia para fabricar a umpreo muito baixo. O Brasil o nicopas da Amrica Latina que produz va-cina publicamente.

    A inovao torna-se, ento, essencialdentro desse processo? Sem dvida. E para ter inovao preciso ter pesquisador que faz pesqui-sa bsica. A convivncia entre pesquisabsica e pesquisa aplicada fundamen-tal. A indstria faz de conta que inven-ta tudo. Ora, quem inventa o governoamericano, o governo ingls, o francse assim por diante. O grande financia-mento para desenvolvimento de medi-camento pblico, no privado. E parase receber dinheiro pblico precisouma estrutura que funcione para fazera pesquisa, que a indstria privada notem. O mundo no vai ser mais socialou socialista, mas precisa ser social-mente responsvel de algum jeito. Arelevncia social foi trocada pela filan-tropia uma concepo americana dotipo eu fiquei rico, fiz uma estrada deferro, vou fazer um museu tambm.

    Precisamos de um novo modelo? Eu acho que sim. No diria que omodelo do velho Pasteur seja um bommodelo, mas funciona. Tenho 25 dou-tores aqui na fundao e eles tm o di-reito de fazer a pesquisa que querem,desde que faam, em uma parte dotempo, o que foi definido como priori-dade. Ele acaba descobrindo que faz toboa pesquisa trabrelevncia social foitrocada pela filanalhando nas priorida-des do Butantan como nas idias dele.

    Como defensor dos alimentos geneti-camente modificados, o que o senhor pen-sou quando viu a notcia, em maio, sobreestudo da Monsanto relativo a anorma-lidades nos rins e no sangue de ratos ali-mentados com milho transgnico? Ora, quem inventa o governo ameri-cano, o governo ingls, o francs e as-sim por diante. O grande finandesen-volvimento de medicamento pblico,no privado. E para se receber dinheiropblico preciso uma estrutura quefuncione para fazer a pesquisa

    Nonononoonononononononononoonnonononononononoon

    12a17-114-pesq-entr-FrotaPessoa 27/7/05 7:52 PM Page 17

  • I POLTICA CIENTIFICA E TECNOLGICA

    i^lfe

    A China volta ao espao

    Liwei: em treinamento

    A China deve colocar dois as- tronautas em rbita entre se- tembro e outubro, numa nova etapa do programa espacial que busca levar o homem Lua. A dupla ser escolhida num grupo de seis astronau- tas em treinamento. Huang Chunping, artfice do pri- meiro vo tripulado da Chi- na em 2003, disse que os as- tronautas esto treinando em pares. A dupla com me- lhor desempenho ser esco-

    O rio Bramaputra, entre a ndia e Bangladesh, em maio de 2004.

    lhida para viajar na nave Shenzhou VI. Chunping anunciou que a China vai acelerar seu programa espa- cial e pretende construir sua prpria estao orbital em 2010. "At l a idia lanar um vo tripulado a cada ano", disse Chunping. Em outubro de 2003 a China mandou seu primeiro homem ao espao. Yang Liwei, hoje com 40 anos, deu 14 voltas ao redor da Ter- ra a bordo da nave Shenzhou V. Segundo Huang Chun- ping, Liwei um dos seis as- tronautas em treinamento. A China o terceiro pas, depois da Rssia e dos Estados Uni- dos, a enviar com sucesso um astronauta ao espao. O pro- grama chins fruto de um esforo de pesquisa de uma dcada, que mandou ao es- pao quatro cpsulas no tri- puladas. Com finalidades co- merciais e militares, tambm lanou 70 satlites. (China- news. com, 5 de julho)

    Previses censuradas O Departamento de Cincia e Tecnologia da ndia de- cidiu que apenas uma de suas agncias, o Departamen- to Meteorolgico, tem autoridade para divulgar previ- ses anuais sobre as mones, estao de chuvas torrenciais que vai de junho a setembro. O alvo da de- ciso o Centre for Mathematical Modelling and Com-

    de Pesquisa Cientfica e Industrial, que foi proibido de divulgar as previses que realiza a cada ano. O motivo da discrdia a divergncia entre os prognsticos do CMMACS e os oficiais, o que estaria causando "confu- so" na opinio pblica, segundo o governo. As discre- pncias so naturais, uma vez que os dois rgos va- lem-se de metodologias diferentes. A CCMACS utiliza redes neurais, em oposio abordagem estatstica do Departamento Meteorolgico. Tais descompassos, co- muns em previses climticas, costumam ajudar pes- quisadores a aperfeioar os modelos e alcanar prog- nsticos mais fidedignos. "A ndia resolveu a divergncia calando uma das instituies de pesquisa", diz R. Rama- chandran, editor de cincia da revista Fronline. Cu- riosamente, as previses do Departamento Meteoro- lgico tm alto ndice de erro, em torno de 65%. Se o

    os resultados para si. (The Hindu, 5 de julho)

    18 AGOSTO DE 2005 PESQUISA FAPESP 114

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    ... e dois meses depois, na enchente causada pelas chuvas das mones

    Veredas livres para os elefantes

    Uma populao de 130 mil elefantes africanos vai recu- perar um antigo corredor migratrio que corta pases como Angola, Zmbia e Bo- tsuana. Duas entidades nor- te-americanas, a Roots of Pe- ace (RoP) e a Conservation International, patrocinam a retirada de minas terrestres numa regio de 1.500 quil- metros quadrados no sudeste de Angola. As minas foram instaladas durante a guerra civil angolana e criaram uma

    barreira mortal para a popu- lao. Ao mesmo tempo, os elefantes que habitam o nor- te de Botsuana foram impe- didos de voltar a tradicionais reas de caa em Angola e Zmbia. A RoP vai contratar empresas especializadas em retirada de minas, com finan- ciamento do Departamento de Estado norte-americano. O Conservation Internatio- nal vai criar programas de explorao sustentvel, para garantir renda aos angola- nos e um ambiente saudvel para os elefantes. (Eureka- lert, 5 de julho)

    O homem que contava o carbono

    O cientista norte-americano Charles Keeling, que morreu de enfarte aos 77 anos no dia 22 de junho, dedicou a carrei- ra a fazer medies da quan- tidade de gs carbnico na at- mosfera. Na dcada de 1950 postou-se numa montanha no Hava, o pico do Mauna Loa, com um aparelho que media continuamente a quantidade de CO2. Descobriu que a concentrao aumentava no inverno e diminua no vero, como resultado da fotossn-

    Keeling: cada vez mais C02

    tese. Dez anos mais tarde, aps realizar medies cont- nuas, observou que o pico de quantidade de carbono au- mentava a cada ano, na pri- meira evidncia de que a queima de combustveis fs- seis inpulsionava o fenme- no. Professor do Centro de Pesquisas de Oceanografia Scripps, vinculado Universi- dade da Califrnia, San Die- go, Keeling deflagrou a preo- cupao com o aquecimento global, que daria lastro assi- natura do Protocolo de Kyo- to. Entre 1958, quando ele ini- ciou suas pesquisas, e hoje, a quantidade de CO2 aumentou 17%. Embora os Estados Uni- dos, seu pas natal, reneguem os esforos internacionais pa- ra reduzir as emisses de gs carbnico, Keeling aceitou re- ceber do presidente George W. Bush, em 2002, a Medalha Nacional das Cincias, maior condecorao dada a um cien- tista no pas.

    PESQUISA FAPESP114 AGOSTO DE 2005 19

  • ESTRATGIAS MUNDO

    O sonho da fuso nuclear

    O projeto do reator, que ser construdo na Frana

    Os pases participantes do projeto Iter (sigla em ingls para Reator Experimental Termonuclear Internacional) superaram um impasse que durou um ano e meio e esco- lheram o lugar onde ser er- guido o primeiro reator de fuso nuclear, tecnologia que encarna a promessa de pro- duzir energia limpa e em quantidade infinita. Cadara- che, no sul da Frana, venceu a cidade japonesa Rokkasho na disputa para abrigar a planta, que ficar pronta em dez anos. Enquanto a fisso nuclear controlada h d- cadas, a fuso uma tcnica ainda em desenvolvimento. Por meio dela busca-se fun- dir ncleos de hidrognio, produzindo um tomo de hlio e uma enorme quanti- dade de energia. Para obter tais reaes, necessrio al- canar temperaturas supe-

    riores a 100 milhes de graus Celsius, muito mais quente que o ncleo do Sol. Os de- safios tecnolgicos para con- trolar a reao so gigantes- cos. Mas os benefcios, caso o projeto d certo, so extre- mamente atraentes. O Iter o mais caro programa de coo- perao depois da Estao Es- pacial Internacional. Dispe de um oramento de 10 bi- lhes de euros. Quarenta por cento sero bancados pela Unio Europia e 10% cabe- ro Frana. Cada um dos outros membros (Estados Unidos, Rssia, Japo, Co- ria do Sul e China) deve con- tribuir com 10% dos custos. Para abrir mo da candida- tura, o Japo recebeu benef- cios. Ter direito a 20% dos contratos de construo e a 20% dos mil postos de tra- balho em Cadarache. (BBC News, 28 de junho)

    Cincia na web Envie sua sugesto de site cientfico

    para cienweb@trieste.fapesp.br

    sgS

    u.

  • ESTRATGIAS BRASIL

    FAPESP premiada A revista Pesquisa FAPESP mais uma vez teve destaque no Prmio de Reportagem sobre a Biodiversidade da Mata Atlntica concedido pela Aliana para a Con- servao da Mata Atlnti- ca, uma parceria entre as organizaes no-governa- mentais Conservao Inter- nacional e a Fundao SOS Mata Atlntica. O editor es- pecial Marcos Pivetta rece- beu meno honrosa com a reportagem "Encruzilhada gentica", capa da edio de fevereiro deste ano (ao la- do). O vencedor na catego- ria Impresso foi Reinaldo Jos Lopes, com a matria "Diversidade aos pedaos", publicada na Sentific Ame- rican Brasil. Em segundo lugar ficou Luiz Antnio Fi- gueiredo com "Jias de um reino (quase) oculto", pu- blicada em Terra da Gente. Maristela Machado Crispim ficou em terceiro lugar com "Mata Atlntica", que saiu

    no Dirio do Nordes- te. Na categoria Tele- viso, o primeiro lu- gar ficou com Jos Raimundo Oliveira e equipe, pela repor- tagem "Mata Atlnti- ca, solues e projetos - Corredores ecolgi- cos", do Jornal Nacio- nal, exibida na TV Bahia e Rede Glo- bo. Ernesto Paglia e equipe ficaram em segundo lugar e San- dro Dalpcolo e equi- pe em terceiro - ambos tambm da TV Glo- bo. Os vencedores em cada categoria participaro da Cpula Internacional de Mdia e Meio Ambiente, entre 30 de novembro e 2 de dezembro, em Kuching, na ilha de Bornu, na Malsia. A FAPESP tambm se desta- cou na internet: seu portal (www.fapesp.br) venceu a etapa brasileira do World Summit Award (WSA) na

    categoria e-Science. No Bra- sil, o WSA organizado pe- la Associao Mdia Intera- tiva e a Cmara Brasileira de Comrcio Eletrnico. A eta- pa mundial ocorrer entre os dias 16 e 18 de novembro em Tnis, na Tunsia. O pr- mio uma iniciativa da C- pula Mundial da Sociedade da Informao, realizada pe- la Organizao das Naes Unidas e pela Unio Interna-

    cional de Telecomunicaes. Na etapa classificatria bra- sileira, a Camara-e.net rece- beu a inscrio de mais de 400 sites e projetos digitais nas categorias e-Learning, e-Culture, e-Science, e-Go- vernment, e-Health, e-Busi- ness e e-Inclusion. O portal da FAPESP rene diversos servios e sites: o da revista Pesquisa FAPESP (www.re- vistapesquisa.fapesp.br), com o contedo completo de suas edies; a Agncia FAPESP (www.agencia. fapesp.br), um boletim di- rio enviado a 46 mil pesqui- sadores; a biblioteca virtual BV-CDi (www.bv.fapesp.br), que rene variadas fontes de informaes sobre cin- cia, tecnologia e inovao; e o FAPESRIndica (www. fapesp.br/indicadores), ser- vio que disponibiliza um conjunto de informaes sobre a produo e a anli- se de indicadores de cincia, tecnologia e inovao.

    Sol, calor e cincia

    A 57a Reunio Anual da So- ciedade Brasileira para o Pro- gresso da Cincia (SBPC), em Fortaleza, contou com a participao de 6.894 pessoas em 54 conferncias, 72 mini- cursos, 94 simpsios e 14 en- contros cientficos. A SBPC avalizou o nome de Srgio Rezende para a pasta de Cin- cia e Tecnologia. "Ele fez um trabalho muito importante

    DO SERTO OLHANDO O MAR CULTURA & CINCIA

    57J REUNIO ANUAL DA SBPC 17 a 22 de Julho de 2005

    Reunio de Fortaleza, no Cear, reuniu 6.894 pessoas em 54 conferncias, 72 minicursos, 94 simpsios e 14 encontros cientficos.

    frente da Finep", disse En- nio Candotti, presidente da SBPC, reempossado na reu- nio em Fortaleza. A chapa eleita para o prximo binio conta ainda, nas duas vice-pre- sidncias, com Dora Fix Ven- tura, da Universidade de So Paulo, e Celso Pinto de Melo, da Universidade Federal de Pernambuco. "Uma de nossas misses trabalhar para que os doutores consigam ser fi- xados em suas prprias reas de atuao", disse Melo.

    PESQUISA FAPESP 114 AGOSTO DE 2005 21

  • Recursos para o caf

    O governo federal liberou R$ 5,2 milhes - bloqueados desde o incio do ano - para dar continuidade aos traba- lhos de pesquisa e desenvolvi- mento do caf brasileiro. Os recursos - provenientes do Fundo de Defesa da Econo- mia Cafeeira (Funcaf) - fo- ram repassados para o Con- srcio Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento do Caf (CBP&D/Caf), coordenado pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuria (Em- brapa). Segundo o gerente- geral da Embrapa Caf, Ga- briel Bartholo, os recursos per- mitiro o desenvolvimento

    0 impacto do asfalto Numa parceria com o Ministrio da Sa- de, o Conselho Nacional de Desenvolvi- mento Cientfico e Tecnolgico (CNPq) vai lanar um edital que destinar R$ 2,5 milhes para pesquisas em sade na rea da BR-163, rodovia que liga Cuiab, em Mato Grosso, a Santarm, no Par. A es- trada foi aberta h trs dcadas e mobili- zou milhares de brasileiros para o plano do governo militar de ocupar a Amaz- nia. Em 2007, segundo os planos do go- verno federal, a Cuiab-Santarm dever ser asfaltada, dentro do programa de par- cerias pblico-privadas. A obra ter grande impacto econmico, pois ir faci- litar o escoamento da soja na fronteira agrcola do Mato Grosso. Certamente tambm ter um impacto ambiental ao atrair mais pessoas para a regio. Proje- es feitas por ecologistas sugerem que,

    num espao de duas dcadas, poder provocar um desmatamento de 30% a 40% da Amaznia. O edital do CNPq vai financiar pesquisas que reduzam os pre- juzos sade da populao local causa- dos pela obra. Sero apoiados projetos em vrias linhas, como avaliao das po- lticas, programas e servios; endemias; sade e ambiente; prejuzos associados a traumas e violncias; segurana alimen- tar; e saneamento ambiental. A seleo dos projetos ser feita em duas etapas. A primeira prev a avaliao de um plano de trabalho preliminar, que dever ser apresentado pelos candidatos at 26 de agosto. Num segundo momento sero avaliadas as verses completas dos proje- tos selecionados. A contratao deles est programada para acontecer na primeira quinzena de dezembro.

    de 28 projetos de pesquisa nas reas de produo sustentvel do caf e transferncia de tec- nologia e comunicao in- tegrada, entre outros. Outro projeto de grande importncia e que no pode parar, segun- do Bartholo, o do Genoma Caf, cujos resultados j co- locaram o Brasil na liderana das pesquisas sobre as carac- tersticas genticas da planta. Cientistas brasileiros, traba- lhando desde fevereiro de 2002 no projeto, concluram recentemente o primeiro se- qenciamento mundial do ge- noma do cafeeiro, construin- do um banco de dados com 200 mil seqncias de DNA. Isso permitiu a identificao de mais de 30 mil genes res-

    ponsveis pelos diversos me- canismos de crescimento e desenvolvimento da planta. Com esse resultado, os pes- quisadores brasileiros esto, no momento, trabalhando na decodificao do genoma do cafeeiro.

    Relaes de gnero

    O governo federal lana neste ms um pacote de incentivos produo de pesquisas so- bre a desigualdade entre ho- mens e mulheres. A principal iniciativa ser um edital de seleo de projetos de pesqui- sa sobre relaes de gnero, no valor de R$ 1,2 milho, sob a responsabilidade do Conse- lho Nacional de Desenvolvi- mento Cientfico e Tecnol- gico (CNPq). Tambm ser lanado um concurso de re- daes e monografias, aberto

    Genoma do Caf: o Brasil na liderana

    22 AGOSTO DE 2005 PESQUISA FAPESP 114

  • Mais espao *e,"^fc H15SI ,-*r^k | nativa da Amaznia, seu | acervo foi recolhido princi- para a flora V \ L***~ E^^^m | palmente nos estados e pa- | ses vizinhos, como Peru,

    * v"> 1 }r\sr- tf 1 Colmbia, Venezuela, Equa- 0 herbrio mais tradicional ^jSijfF\& J | dor, Guianas, e Amrica da Amaznia modernizou-

    -~3PA / / 1 Central. As primeiras cole- se e conquistou mais espao. < es foram adquiridas por Com 600 metros quadrados Ik. ^"^"^"'sl * \f \, M 1 Huber na Europa. Hoje de rea, foi inaugurado em w> wsL i %, i I acumula colees de plantas julho o novo prdio do Her- ^H* \ ^w^V WB jff mm ^ 1 superiores - angiospermas brio Joo Mura Pires, do dicotiledneas e monoco- Museu Paraense Emlio

    'm^ i f 1 "& s^L^ tiledneas e gimnospermas Goeldi, em Belm (PA). - e pteridfitas (samam- Criada em 1895 com o no- baias), com cerca de 174 mil me Herbarium Amazoni- exemplares, alm de 6 mil cum Musei Paraensis pelo W B' i amostras de brifitas (mus- botnico suo Jacques Hu- ^^its ' JmgF9k -' ""^''^iuJ Sos e hepticas), 3.778 de ber, a instituio agora est fungos e lquens e uma car- equipada para armazenar .f..r~:pY P** / jgm11*1!^ poteca com 7.500 frutos 300 mil amostras botnicas. preservados para fins cien- Celeiro de amostras da flora tficos.

    a estudantes de ensino mdio ou superior. As redaes dos estudantes secundaristas de- vero abordar temas como feminismo, homofobia e pa- ternidade. J as monografias dos universitrios devem tra- tar de assuntos como direitos sexuais e reprodutivos, mas- culinidade e arranjos familia- res. A terceira iniciativa a realizao de um Encontro Nacional de Ncleos e Gru- pos de Pesquisa sobre a desi- gualdade de gnero. Previsto para o final de setembro, ir mapear o campo de pesqui- sas sobre gnero e cincias no Brasil e propor aes que contribuam para a promoo das mulheres no campo das cincias e na carreira acad-

    mica. O pacote uma inicia- tiva do Ministrio da Cincia e Tecnologia e da Secretaria Especial de Polticas para Mu- lheres da Presidncia da Re- pblica.

    Produo cientfica cresce 15%

    A produo cientfica brasi- leira cresceu 15% em 2004, o pas passou a responder por

    1,7% da produo mundial de artigos publicados em re- vistas indexadas e assumiu a 17a posio entre os pases com atividade cientfica mais intensa, de acordo com o Ins- titute for Scientific Infor- mation. Os dados foram di- vulgados pelo presidente da Coordenao de Aperfeioa- mento Pessoal de Nvel Su- perior (Capes), Jorge de Al- meida Guimares, durante a 57a Reunio Anual da Socie- dade Brasileira para o Pro- gresso da Cincia (SBPC). Apesar de ter se colocado em situao de vantagem em re- lao a pases europeus como Blgica e ustria, o Brasil foi ultrapassado pela China e Co- ria do Sul.

    PESQUISA FAPESP 114 AGOSTO DE 2005 23

  • inovao tecnolgica poucoavanou no pas entre 2000 e2003, embora tenha cresci-do o nmero de empresasque realizam pesquisa edesenvolvimento (P&D)de forma contnua. Nes-se perodo, o nmerode indstrias que in-vestiram no desen-volvimento de novos

    produtos e processos cresceu, respectivamente, de31,5% para 33,3% entre as empresas consultadasna primeira e segunda edio da Pesquisa Indus-trial de Inovao Tecnolgica (Pintec), do Insti-tuto Brasileiro de Geografia e Estatstica (IBGE).

    Alm de registrar uma taxa de inovao bai-xa, a Pintec 2003 divulgada no final de junho credita esse incremento exclusivamente s peque-nas empresas, com 10 a 49 pessoas ocupadas, que,no intervalo desses trs anos, desenvolveram ino-vaes de carter imitativo, de menores custos e

    INDICADORES

    Retrao da economia limitou avano da inovao no pas, constata pesquisa do IBGE

    CLAUDIA IZIQUE

    Acidente de percurso

    POLTICA CIENTFICA E TECNOLGICA

    A

    24a27-114-pesquisa-pintec 27/7/05 7:40 PM Page 24

  • PESQUISA FAPESP 114 AGOSTO DE 2005 25

    BR

    AZ

    riscos. Nas demais, constatou-se, houvequeda nos gastos com a inovao.

    A retrao econmica de 2003 pre-judicou muito a capacidade inovadoradas empresas no Brasil, analisa CarlosHenrique de Brito Cruz, diretor cient-fico da FAPESP. A primeira edio daPintec, em 2000, mapeou a inovaonum cenrio de ampliao de 4,4% doProduto Interno Bruto (PIB) e de ex-panso de 4,8% no setor industrial. Osdados da segunda edio da Pintec fo-ram coletados trs anos depois, quandoa economia refletia os resultados de po-lticas fiscais e monetrias restritivas,crescimento de 0,5% do PIB e de 0,1%da indstria. Apenas as exportaes ti-veram performance favorvel, impulsi-onadas pelo cmbio depreciado e pelaqueda da demanda domstica.

    Foram anos difceis, observa An-dr Tosi Furtado, professor do Depar-

    vao. No adianta ter polticas de es-tmulo quando o comportamento daeconomia de instabilidade, ponde-ra Furtado. Os dados da Pintec 2003revelam que as empresas assumiramposio mais cautelosa em relao aessa modalidade de investimento. Osgastos com inovao, que representa-vam 3,8% do faturamento das inds-trias em 2000, caram para 2,5% em2003. A queda foi ainda mais acentuadanas despesas com aquisio de conheci-mentos externos, compra de mquinase equipamentos e nos investimentos emprojetos industriais.

    A exceo ficou por conta de umafaixa muito pequena de empresas, com10 a 49 pessoas ocupadas, entre asquais a taxa de inovao cresceu de 27%para 31%. Na avaliao de Furtado, elasteriam sido obrigadas a adotar a ino-vao para sobreviver. Por representa-

    tamento de Poltica Cientfica e Tec-nolgica do Instituto de Geocinciasda Universidade Estadual de Campi-nas (Unicamp). Quase a metade das28 mil empresas inovadoras identifi-cadas pela Pintec afirmou ter tido di-ficuldades para viabilizar o desenvol-vimento de projetos. Em 2000 esseporcentual era maior, de 54,7%. Masentre 2000 e 2003 os principais obst-culos inovao seguem os mesmos:elevados custos, riscos econmicos ex-cessivos, escassez de financiamento, fal-ta de pessoal qualificado e de informa-o sobre tecnologia. A diferena entreas duas pesquisas que, em 2000, a di-ficuldade para se adequar aos padresocupava a dcima posio entre as jus-tificativas das empresas e, em 2003,passou para a sexta posio.

    O cenrio econmico negativo neu-tralizou as medidas de incentivo ino-

    24a27-114-pesquisa-pintec 27/7/05 7:40 PM Page 25

  • rem 79,7% das empresas pesquisadasna Pintec 2003, essas pequenas empre-sas afetam fortemente os indicadoresnacionais. Ele ressalva que a taxa deinovao medida pela Pintec um in-dicador de difuso tecnolgica.No ata-cado, houve uma adeso maior das pe-quenas. Mas as grandes empresas queso responsveis pelo maior investi-mento em inovao.

    Boa notcia - A boa notciada Pintec 2003 que o n-mero de empresas que rea-lizam pesquisa e desenvol-vimento de forma contnuacresceu de 42,9%, em 2000,para 49,2%, em 2003. Essamudana repercutiu nas es-tatsticas sobre pessoal ocu-pado. Em 2000, o IBGEconstatou que 31,4 mil pes-soas se ocupavam integral-mente das atividades deP&D, enquanto outras 32,9mil o faziam de forma oca-sional. Essa proporo agorainverteu: 32,6 mil pessoasestavam exclusivamente en-volvidas com atividade deP&D e apenas 19,4 mil de-dicavam-se parcialmente aessa atividade. O fenmenofoi observado em todas ascategorias de empresas.

    Cresceram tambm o nmero deps-graduados e de graduados nas em-presas. Em 2000, entre as 41,5 mil pes-soas ocupadas com P&D, 20 mil tinhamnvel superior. Em 2003, os ps-gradua-dos e graduados representavam 21,8 mil,num contingente de 38,5 mil pessoas.

    Mesmo assim, na avaliao de BritoCruz, o nmero de pessoas em P&D em-

    presarial ainda muito pequeno. Infe-lizmente a Pintec no levantou o indi-cador efetivamente relevante, o nme-ro de pesquisadores, que menor que onmero total de pessoas ocupadas emP&D. uma pena porque continuasendo impossvel comparar adequa-damente a situao brasileira com a deoutros pases. Sabemos apenas que menor que 21,8 mil, afirma Brito, lem-

    brando que na Coria o n-mero de pesquisadores nasempresas de 128 mil, nosEstados Unidos, de 800 mil ena Espanha, 20 mil. inte-ressante notar que, com essenmero de pesquisadores emempresas, a Espanha regis-tra anualmente 440 patentesno United States Patents andTrademark Office (USPTO),enquanto o Brasil, com me-nos de 21,8 mil pesquisado-res, conta com pouco maisde 100.

    Para Furtado, o cresci-mento do nmero de pes-soas com dedicao total P&D demonstra que as em-presas entenderam que a re-cesso da economia era con-juntural. Os custos foramcortados, os salrios carame as empresas mantiveramsuas equipes, analisa. As em-

    26 AGOSTO DE 2005 PESQUISA FAPESP 114

    Participao p0rcentual do nmero de empresas inovadoras, segundo faixa de pessoal ocupado Brasil 2000 e 2003

    Pessoal Taxa Produto Produto novo Processo Processo novo ocupado de inovao para o mercado para o setor

    nacional no Brasil

    2000 2003 2000 2003 2000 2003 2000 2003 2000 2003

    Total 31,5 33,3 17,6 20,3 4,1 2,7 25,2 26,9 2,8 1,2

    de 10 a 49 26,6 31,1 14,1 19,3 2,5 2,1 21,0 24,8 1,3 0,7

    de 50 a 99 43,0 34,9 24,5 19,1 6,3 2,3 33,6 28,6 4,4 0,8

    de 100 a 249 49,3 43,8 30,0 25,3 9,0 3,9 41,4 37,7 7,2 1,7

    de 250 a 499 56,8 48,0 34,4 28,4 10,6 5,8 48,6 38,8 9,7 3,4

    de 500 a mais 75,7 72,5 59,4 54,3 35,1 26,7 68,0 64,4 30,7 24,1

    Fonte: IBGE, Pintec

    Pessoas ocupadas nas atividades de P&D por nvel de qualificao

    Brasil 2000 e 2003, em%

    %

    60

    50

    40

    30

    20

    10

    0

    Ps-graduados Graduados Nvel mdio Outros

    Fonte: IBGE, Pintec

    7,1 8,1

    41,448,5

    35,931,9

    15,611,5

    20002003

    24a27-114-pesquisa-pintec 27/7/05 7:40 PM Page 26

  • presas que no tinham equipe fixa eque mantinham pessoal ocupado coma inovao apenas parte do tempo op-taram por realocar esses funcionriospara outras atividades.

    Aprendizado e difuso - Outro indica-dor importante para avaliar o avanoda inovao empresarial so as fontesde informao e relaes de coopera-o entre os agentes de inovao. Afi-nal, o fortalecimento da interao nombito do sistema nacional de inova-o tem papel fundamental no desen-volvimento tecnolgico: facilita o fluxode informaes e promove o aprendiza-do e a difuso de novas tecnologias.

    A estratgia de inovao adotadapela empresa se reflete na hierarquia dassuas fontes de informao. Nos dois pe-rodos avaliado, a situao das empre-sas brasileiras pouco mudou: as fontes

    mais citadas seguem sendo as reas in-ternas empresa (62,7%), fornecedores(59,1%), feiras e exposies (58,4%) eclientes ou concorrentes (53,4%). Aaquisio de licena, patentes e know-how est entre as menos utilizadas. Mascresceu significativamente de 33,1%para 46% a importncia das redes in-formatizadas na busca de informaes.

    O nmero de empresas que operamem cooperao tambm refletiu os tem-pos de recesso. A primeira edio daPintec identificou 2,5 mil empresas comprticas cooperativas. Em 2003 esse n-mero caiu para menos da metade: cer-ca de mil. No conjunto das indstriasinovadoras, o porcentual de empresascooperativas despencou de 11% para3,8%. Esse porcentual cresceu apenasentre as grandes, com 500 ou mais pes-soas ocupadas, que tm maior capaci-dade de operar em rede.

    interessante observar, para almdesses resultados negativos, que as em-presas consultadas colocaram as uni-versidades e institutos de pesquisa emterceiro lugar no ranking de seus par-ceiros privilegiados, atrs apenas dosfornecedores e dos clientes e consumi-dores. A universidade brasileira j temum papel importante na pesquisa e de-senvolvimento, observa Furtado.

    Apoio governamental - Para avaliar oimpacto dos programas oficiais de in-centivo inovao e conhecer o perfildas empresas que utilizam recursospblicos para a P&D, a pesquisa doIBGE incluiu perguntas sobre a aplica-o de financiamentos, bolsas, aportede capital de risco, entre outras. Cons-tatou-se que, no perodo analisado, oporcentual de empresas que receberamapoio do governo cresceu de 16,9%para 18,7%. Em 2003 esses incentivosoficiais beneficiavam cerca de 5 milempresas, pelo menos um tero delascom 500 ou mais empregados. Essa re-lao diretamente proporcional entreo tamanho da empresa e o uso de in-centivos pode ser observada em todosos tipos de programas ou linhas de fi-nanciamento.

    As linhas de crdito do Banco Na-cional de Desenvolvimento Econmicoe Social (BNDES), Banco do Brasil eCaixa Econmica Federal, entre outros,para a compra de mquinas e equipa-mentos lideram o ranking dos progra-mas mais demandados. So utilizadaspor 13,4% das pequenas empresas ino-vadoras e por 24,5% das grandes. Emsegundo lugar esto os recursos de pro-gramas oferecidos pelas Fundaes deAmparo Pesquisa, Conselho Nacionalde Desenvolvimento Cientfico e Tec-nolgico (CNPq), Financiadora de Es-tudos e Projetos (Finep), entre outros.Em terceiro lugar encontram-se os fi-nanciamentos a projetos de pesquisadesenvolvidos em parceria entre em-presas e universidades, realizados pormeio dos fundos setoriais. Essa moda-lidade de apoio, no entanto, utilizadaapenas por 1,4% das empresas inova-doras. Esse porcentual, no entanto, maior do que o 0,7% que se benefi-cia dos incentivos fiscais para P&D.Isso mostra como os instrumentos deapoio P&D em empresas so inefica-zes, diz Brito.

    PESQUISA FAPESP 114 AGOSTO DE 2005 27

    Importncia dos parceiros nas relaes de cooperao Brasil 2000 e 2003, em %

    Concorrentes

    Empresas de consultoria

    Centro de capacitaoprofissional e

    assistncia tcnica

    Outras empresas do grupo

    Universidades e institutos

    de pesquisa

    Clientes ou consumidores

    Fornecedores

    0 10 20 30 40 50 60

    Fonte: IBGE, Pintec

    6,715,4

    11,515,2

    15,114,4

    22,820,8

    29,725,6

    42,445,1

    55,655,4

    2001-20031998-2000

    24a27-114-pesquisa-pintec 27/7/05 7:40 PM Page 27

  • ases da bacia amaznica re-solveram juntar foras paraharmonizar suas legislaessobre propriedade intelec-tual, proteger recursos ge-nticos e os conhecimentos

    tradicionais a eles associados, e ainda combater abiopirataria. Representantes do Brasil, Bolvia,Colmbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname e Ve-nezuela reuniram-se pela primeira vez, no dia 26de junho, no Rio de Janeiro, para avaliar estrat-gias de atuao, num encontro articulado pela Or-ganizao do Tratado de Cooperao Amaznica(OTCA).Se no adotarmos um enfoque regionalconvergente, no teremos resultados, diz o em-baixador Roberto Jaguaribe, presidente do Insti-tuto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) esecretrio de Tecnologia Industrial do Minist-rio do Desenvolvimento e Comrcio Exterior, queparticipou da reunio.

    A OTCA foi criada em 2003 para implementaro Tratado de Cooperao Amaznica, assinado pe-los oito pases em 1978, com o objetivo de imple-mentar medidas para preservar o ambiente e osrecursos naturais da regio, que abriga umas dasmaiores biodiversidades do planeta.Todos temosproblemas com biopirataria, diz a equatorianaRosalia Arteaga, secretria-geral da organizao.

    No encontro do Rio de Janeiro foi definida umalista de oito aes conjuntas, entre elas a de coo-perao para a identificao de mecanismos queimpeam o registro indevido de nomes e expres-ses utilizadas por comunidades locais. No anopassado, por exemplo, organizaes no-governa-mentais brasileiras, capitaneadas pelo Grupo deTrabalho Amaznico (GTA), tiveram que se mobi-

    lizar para resgatar o nome cupuau Theobromagrandiflorum, uma rvore da mesma famlia do ca-cau e cuja semente fonte de alimento na regio ,registrado como marca pelas empresas transna-cionais Asahi Foods e Cupuau International em1998. Mais recentemente, a mesma Asahi Foodsperdeu o registro da patente do Cupulate, uma es-pcie de chocolate feito a partir de sementes do cu-puau com tecnologia patenteada pela EmpresaBrasileira de Pesquisa Agropecuria (Embrapa).

    Apropriao indbita - Os pases que integram aOTCA tm, isoladamente, tomado uma srie demedidas para proteger a sua biodiversidade deaes de apropriao de marca. No Brasil, o Mi-nistrio do Meio Ambiente concluiu um amplomapeamento das denominaes e usos conhe-cidos de cerca de 9 mil espcies animal e vegetal.Essa lista foi encaminhada ao Grupo Interminis-terial de Propriedade Intelectual (Gipi), ser ana-lisada pelo INPI e vai compor um banco de dadosque servir de fonte de consultas e orientao paraescritrios de patentes em todo o mundo.

    Apesar de no existir nenhum tratado inter-nacional estabelecendo critrios para registro demarcas, faz parte das regras internacionais rejei-tar denominaes conhecidas como o caso docupuau , j que no teriam um requisito essen-cial: a capacidade distintiva. No se registram, porexemplo, marcas com os nomes laranja, mamoou banana. No o caso do cupuau. A denomi-nao desses produtos da biodiversidade brasilei-ra e seu uso, no entanto, tm que estar dispon-veis num banco de dados acessvel aos escritriosde marcas e patentes de todo o mundo. A lista comas vrias denominaes da biodiversidade brasi-

    28 AGOSTO DE 2005 PESQUISA FAPESP 114

    PROPRIEDADE INTELECTUAL

    Pases da bacia amaznica articulam medidas conjuntas paraproteger a biodiversidade

    CLAUDIA IZIQUE

    P

    POLTICA CIENTFICA E TECNOLGICA

    Aunio faz a fora

    28a30-114-pesquisa-inpibio 27/7/05 7:39 PM Page 28

  • leira e suas utilizaes nas comunida-des locais vai integrar um banco de da-dos ainda maior com a listagem de pro-dutos de outros pases que est sendoorganizada pela OTCA.

    Quebra-pedra - A iniciativa brasileirano um caso isolado. O Peru, alm demontar um banco de dados semelhan-te, criou uma comisso para investigarregistros de patentes de produtos dabiodiversidade regional na Europa, Ja-po e Estados Unidos. Foram identifi-cados cerca de 500 registros de produ-tos relacionados a espcies autctonesem escritrios de patentes dos EstadosUnidos, da Unio Europia e do Japo,segundo informou Santiago Roca, pre-sidente do Instituto Nacional de Defesada Competio e da Proteo da Pro-priedade Intelectual do Peru, aos parti-cipantes da reunio da OTCA no Riode Janeiro.

    A denominao chancapiedra ouPhyllanthus niruri, por exemplo queno Brasil matria-prima do ch dequebra-pedra, utilizado no tratamentode problemas renais , aparece mencio-nada 26 vezes na pesquisa realizada noescritrio de patentes norte-america-no, 11 vezes na Europa e 15 no Japo,onde, alis, est relacionado, desde1991, ao registro de um agente anti-retroviral e, desde 1996, patente deum tnico capilar. Os outros produtospesquisados foram o hercampuri (Gen-

    PESQUISA FAPESP 114 AGOSTO DE 2005 29

    EDU

    AR

    DO

    CES

    AR

    O nome da plantaPhyllantus niruri, conhecido no Brasil comoquebra-pedra, aparecena denominao de 42produtos registrados nosEstados Unidos, UnioEuropia e Japo

    28a30-114-pesquisa-inpibio 27/7/05 7:39 PM Page 29

  • tianella alborosea fabris); ocamu-camu (Myrciaria du-bia); o yacon (Smallanthussonchifolius); caigua (Cylan-thera pedata L); e o sacha in-chi (Phyllantus niruri).

    Medida restritiva - O Perutem uma das legislaes paraa defesa da biodiversidademais avanadas entre os oitopases que integram a OTCA.Em 2002 foi promulgadauma lei estabelecendo regi-me de proteo para o conhe-cimento tradicional e dos po-vos indgenas associado aopatrimnio gentico. No Bra-sil, o patrimnio gentico pro-tegido pela Medida Provi-sria n 2.186, de 2001, quereconhece o direito das comu-nidades indgenas e locais dedecidirem sobre o uso de seuconhecimento associado aosrecursos genticos e prev arepartio de benefcios, sehouver uso e comercializao.A medida provisria, no en-tanto, considerada muitorestritiva, segundo Jaguaribe,e at o final do ano o gover-no federal pretende encami-nhar ao Congresso Nacionalum projeto de lei que, aomesmo tempo que combata abiopirataria, incentive o de-senvolvimento da capacitaotecnolgica e industrial para o aprovei-tamento da biodiversidade. Medidasrestritas apenas defesa do patrimniogentico so contraproducentes e a fis-calizao complicada. O melhor me-canismo de proteo da propriedadeintelectual a capacitao cientfica eacadmica. Isso sim tem capacidade ex-ponencial de produo.

    Enquanto a nova lei no vem, o go-verno busca amenizar o carter draco-niano da medida provisria por meiode resolues, como a de nmero 18,publicada em 2003, que permitiu oacesso de pesquisadores aos compo-nentes do patrimnio gentico at en-to vetado pela legislao. Essa flexi-bilizao, no entanto, no impediu aedio, no dia 7 de junho ltimo, doDecreto n 5.459 disciplinando saness atividades lesivas ao patrimnio ge-

    ntico previstas na medida provisria.De acordo com o decreto, so conside-radas infraes: o acesso a patrimniogentico para fins de pesquisa sem au-torizao do rgo competente; remes-sa ilegal de amostras para o exterior;omisso de informaes sobre as ativi-dades de pesquisa, bioprospeco oudesenvolvimento tecnolgico relaciona-dos biodiversidade; e a no repartiodos benefcios decorrentes da explora-o econmica de produtos desenvolvi-dos a partir dos recursos da biodiversi-dade ou dos conhecimentos tradicionaisassociados.

    Intercmbio de prticas - Os pases in-tegrantes da OTCA no tm a preten-so de fazer uma legislao comum. Ahomogeneizao impossvel, mas aharmonizao concebvel, afirma a

    secretria-geral da OTCA.Os pases com legislaomais avanada podem aju-dar. Tambm ser importan-te que estas afinidades este-jam presentes nos tratados delivre comrcio, como o queest sendo preparado pelaColmbia, Peru e Equador.Se a iniciativa partir de umconjunto de pases, ser maiseficaz.

    O intercmbio de normas,prticas e polticas nacionaissobre direitos da proprieda-de intelectual e sistemas na-cionais de inovao encabe-am a lista de aes conjuntasque os oito pases desejam im-plementar e que ser apre-sentada numa reunio dechanceleres convocada pelaOTCA, em Iquitos, no Peru.

    A coordenao de posi-es e harmonizao norma-tiva ser uma medida estra-tgica. Est havendo umaevoluo da globalizao. Huma tendncia de centrali-zao e homogeneizao denormas da propriedade in-telectual ditada pelos pasesmais ativos e desenvolvidos,analisa Jaguaribe. As medidasde proteo da propriedadeintelectual nos pases em de-senvolvimento, continua, de-pendem de uma estreita coo-

    perao e a convergncia da legislaoser um passo inevitvel.Deveramosnos mirar no exemplo europeu, que temescritrio de patentes conjunto.

    Entre as medidas comuns a seremadotadas pelos oito pases est previs-ta a criao e a valorizao de indica-es geogrficas amaznicas que agre-guem valor produo regional. Jexistem no mercado global produtos,como ervas e fitoterpicos, apresenta-dos como tendo origem na Amaznia.Queremos evitar que isso ocorra, ex-plica Jaguaribe. A idia criar uma in-dicao de procedncia, uma espciede selo como o que j utilizado paraidentificar vinhos do Vale do Vinhedo,o caf do Cerrado ou a cachaa de Mi-nas Gerais. Depois disso estabelecere-mos um conjunto de normas padro,diz o presidente do INPI.

    30 AGOSTO DE 2005 PESQUISA FAPESP 114

    O cupuau foi registrado como marca pela japonesa Asahi Foods

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    28a30-114-pesquisa-inpibio 27/7/05 7:39 PM Page 30

  • PESQUISA FAPESP 114 AGOSTO DE 2005 31

    ergio Rezende,f-sico pernambuca-no, o novo mi-nistro da Cincia eTecnologia. Dou-tor em Fsica Apli-

    cada pelo Massachusetts Institute ofTechnology (MIT) e graduado em en-genharia eletrnica na Pontifcia Uni-versidade Catlica do Rio de Janeiro,Re-zende um intelectual respeitado ereconhecido em todo o pas por seus es-foros em defesa de um sistema na-cional de cincia e tecnologia nopas.Sua atuao foi fundamental,por exemplo,nas articulaes quelevaram criao da Fundao deAmparo Cincia e Tecnologia dePernambuco (Facepe),em 1989,aprimeira entre as agncias estaduaisde fomento no Nordeste.No ltimogoverno Miguel Arraes,entre 1995 e1998,foi secretrio estadual de Cin-cia,Tecnologia e Meio Ambiente.Entre janeiro de 2001 e janeiro de2003,foi secretrio do Patrimnio,Cincia e Cultura da Prefeitura deOlinda,at assumir a presidncia daFinanciadora de Estudos e Projetos(Finep),agncia criada em 1967 como objetivo de financiar a inovaoe a pesquisa cientfica e tecnolgicaem empresas.

    Rezende,que membro titularda Academia Brasileira de Cincias,substitui o ex-ministro EduardoCampos,que volta Cmara dosDeputados para reforar a base par-lamentar do presidente Luiz IncioLula da Silva.Rezende j anunciouque no mudar as estratgias e

    prioridadese nem a equipe de seu an-tecessor no MCT.Prometeu manter,ese possvel intensificar,a articulao e par-cerias com entidades dos governos fede-ral e estaduais como o Banco Nacionalde Desenvolvimento Econmico e So-cial (BNDES) e a Caixa Econmica Fe-deral,entre outras,de forma a sintoni-zar as polticas de cincia e tecnologia.Na sua primeira entrevista como mi-nistro,por exemplo,Rezende anunciouque a Finep vai lanar,nas prximas se-

    GOVERNO FEDERAL

    Sergio Rezende assume a Cincia e Tecnologia e garante que nomudar estratgias do antecessor

    S

    POLTICA CIENTFICA E TECNOLGICA

    Um fsico frente do ministrio

    manas,o Programa Juro Zero,que des-tinar R$ 100 milhes para pequenasempresas inovadoras que no tm ga-rantias reais para contrair financiamen-tos no mercado.Os recursos ter o ori-gem numa parceria com o Fundo deAmparo ao Trabalhador (FAT).As em-presas,ele adiantou,j foram seleciona-das e cada uma delas receber emprsti-mos de at R$ 900 mil ou o equivalentea 1/3 do faturamento do ano anterior aserem pagos em cem parcelas.

    Vice-presidente da Internatio-nal Union for Pure and Applied Phy-sics desde 1977,ele prometeu tam-bm envolver mais fortemente osetor empresarial no esforo da pes-quisa,desenvolvimento e inova o,conforme afirmou em seu discursode posse,no dia 21 de julho. A Leida Inovao,as medidas da pol ticaindustrial e tecnolgica e a MedidaProvisria do Bem,s o importantesinstrumentos de incentivos s em-presas, disse.

    Rezende aposta que a a regula-mentao do Fundo Nacional de De-senvolvimento Cientfico e Tecno-lgico (FNDCT),j aprovada pelaCmara dos Deputados e em apre-ciao pelo Senado,garantir maisrecursos para os investimentos eminovao no pas. Os fundos seto-riais so instrumentos importantespara financiar aes de cincia e tec-nologia. H uma evoluo grandena disponibilidade dos recursos des-ses fundos,que em 2002 contavamcom R$ 32 milhes e agora,em2005, tm R$ 750 milhes para se-rem utilizados, avaliou. Sergio Rezende e Eduardo Campos (ao fundo)

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    31-114-pesquisa-rezende 27/7/05 7:38 PM Page 31

  • os 93 anos,o pro-fessor Walter Ra-dams Accorsicontinua os-tentando boasade e a fre-

    qentar quase diariamente o campusda Escola Superior de Agricultura Luizde Queiroz (Esalq) da Universidadede So Paulo (USP) em Piracicaba.Omestre de vrias geraes de agrno-mos prossegue com uma ao a que sededica desde a dcada de 1920:a divul-gao dos benefcios das plantas medi-cinais brasileiras.Aposentado da Esalqem 1982,aos 70 anos,pela compuls -ria,como gosta de ressaltar,ele passa osdias no conjunto de salas intitulado Se-tor de Plantas Medicinais,cedido pelainstituio assim que deixou de dar au-las e recebeu o ttulo de professor em-rito.Ali ele continua estudando e aten-dendo as pessoas que o procuram embusca de conhecimento sobre as ervasmedicinais. Eu no sou mdico, noposso receitar nada,mas sou um divul-gador da fitoterapia,diz ele. Conside-ro a medicina popular,que o conhe-

    cimento das plantas sob o ponto de vis-ta prtico,como fundamental para a fi-toterapia.

    A fitoterapia de fato reconhecidapela Organizao Mundial da Sade(OMS),desde 1978,como uma moda-lidade teraputica. A medicina popu-lar indica ao fitoterapeuta a parte daplanta que boa para determinadoproblema, diz. Ento ele vai examinarem laboratrio e verificar se de fato uma planta medicinal.Se come asse aestudar a planta sem referncia nenhu-ma,o trabalho de pesquisa deveria seriniciado pela raiz e ir at a flor. Para eles um mdico ou fitoterapeuta forma-do pode receitar os preparados complantas. O Brasil detentor da floramedicinal mais rica e diversificada doplaneta,e isso n o dito por ns.

    O gosto de Accorsi pelo estudo dasplantas medicinais comeou na facul-dade onde entrou,em 1929,para cur-sar engenharia agronmica.Foi o paiquem o induziu a estudar agronomia.Alm de uma propriedade em que pre-dominava o cultivo de caf,em Dobra-da,uma localidade,hoje munic pio,

    32 AGOSTO DE 2005 PESQUISA FAPESP 114

    PERFIL

    Com 93 anos, professoremritoda Esalq participa da vida da universidadee continua a difundir a fitoterapia

    A

    POLTICA CIENTFICA E TECNOLGICA

    O mestrede muitas geraes

    perto da cidade de Mato,no centro doEstado de So Paulo,a fam lia possuauma serraria,um curtume e uma ofici-na mecnica.Antes de entrar na Esalq,o pequeno Accorsi foi enviado a SoPaulo,onde concluiu o col gio em1927,e j em 1928 estava em Piracicabapara fazer o curso preparatrio para afaculdade,que ainda n o pertencia USP.Recebeu o t tulo de engenheiroagrnomo em 1933, como o terceiroaluno da turma,e o diploma recebidoem 1934 j tinha a rubrica da USP queacabara de nascer e acolher a Esalq.Re-cm-formado,foi convidado para serprofessor assistente na terceira cadeiradenominada Botnica Geral e Descritivado professor Pedro Moura de OliveiraSantos.Em 1936,fez a livre-doc ncia,e,em 1942,o concurso para catedr ti-co. Eu era professor de botnica. Na-quele tempo dvamos uma noo detudo:fisiologia,anatomia e sistem tica.Tinha queensinar um pouquinho decada,o que,para mim,foi muito bom.Hoje tudo separado.Al m da aula,eutambm passava informaes terapu-ticas das nossas plantas.

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  • divulgou, em 1967, uma entrevista como professor Accorsi. Depois disso, aplanta foi alvo de vrios estudos no ex-terior. No Japo, eles me homenagea-ram porque dei todas as orientaes so-bre a planta quando representantes daempresa estiveram no Brasil. Algunsdias antes da homenagem, o ministroda Agricultura, Roberto Rodrigues, alu-no de Accorsi no incio dos anos 1960,ficou sabendo do evento e ligou para aembaixada brasileira em Tquio paraque ela enviasse um representante aoevento com uma mensagem especialpara o professor Accorsi. Fiquei muitoemocionado porque o texto foi lido emjapons e em portugus diante de maisde mil pessoas, conta. Era a quarta vezque o professor ia ao Japo. Nas vezesanteriores, ele fizera palestras nas uni-versidades de Tquio e de Kyoto.

    Nascido em Taquaritinga (SP) em 9de outubro de 1912, o professor Accor-si no come carne h 60 anos.Sou her-bvoro. A filha Walterli Accorsi, admi-nistradora e farmacutica que comandaa farmcia de manipulao e produtosnaturais em Piracicaba que leva o nome

    PESQUISA FAPESP 114 AGOSTO DE 2005 33

    Ao longo de todos esses anos, Ac-corsi nunca deixou de considerar comomuito importante a farmacologia, queestuda a extrao dos princpios ativosdas plantas. Mas acredita que as plantasin natura tm muito a contribuir com asade pblica. A Alemanha tem umafitoterapia avanada, como a Rssia, osEstados Unidos e a China. Para o Bra-sil, o professor Accorsi diz que preci-so instalar vrios laboratrios no paspara estudo da biodiversidade e produ-o de fitoterpicos.

    Ip-roxo - De sua agenda cheia de con-vites para palestras, especialmente paraum homem de 93 anos, destacou-se noano passado uma visita ao Japo. Oconvite e a homenagem vieram da em-presa que produz o ch de ip-roxo oupau-darco (Tabebuia avellanedae), r-vore encontrada em vrios pontos daAmrica do Sul cuja casca usada paratratamento de tumores cancergenos,anemia, problemas estomacais e comoanalgsico. Essas propriedades do ip-roxo tornaram-se populares e rodaramo mundo quando a revista O Cruzeiro

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    ProfessorAccorsi: paixo, estudo e divulgaodas plantasmedicinais

    do professor, diz que ele toma muitasopa de aveia, come vrias sementes, gi-rassol entre elas, e, s vezes, come peixe.Vinho ele tomava regularmente mas...um mdico me proibiu e o outro libe-rou, diz o professor, que ainda nosabe se segue um ou outro. A proibio porque um dos mdicos prefere que oprofessor se livre primeiro de uma for-te dor de cabea, que lhe acompanha hmuitos anos. Para se manter em forma,Accorsi faz ginstica na academia dauniversidade.

    Como professor, ele chegou a ocu-par os cargos de diretor e vice-diretorda Esalq entre 1951 e 1954. Ao longo demais de 70 anos de vida acadmica par-ticipou e ainda continua participandodas reunies da congregao, que ela-bora as diretrizes normativas da Esalq eapresenta as listas trplices para diretorda instituio, e principalmente dasformaturas. Em uma delas, em 1964,ele foi convidado na ltima hora parapresidir a cerimnia da turma que esta-va recebendo o diploma. Era a nossaformatura e o governador do estado,Carlos Alberto de Carvalho Pinto, esta-va em Piracicaba como paraninfo, maso diretor no estava na cidade para pre-sidir a solenidade, conta o professor daEsalq, Joaquim Jos de Camargo En-gler, diretor administrativo da FAPESPe ex-aluno de Accorsi. O diretor, Hugode Almeida Leme, havia sido nomeadoministro da Agricultura, e o vice-dire-tor no pde comparecer ao evento.A,o resultado foi ligar para o decano daescola o professor mais antigo quej era o professor Walter Accorsi. Liga-mos para ele, que j estava de pijama,quase pronto para dormir, diz Engler.Mas ele foi e presidiu a cerimnia.Depois, muitas vezes quando nos en-contramos, ele diz lembra daquele diaque salvei vocs?

    Accorsi o ex-aluno e o ex-profes-sor mais antigo da escola. muito espe-cial, dedicado e, ao longo desses anos,contribuiu para a melhora da qualida-de de ensino na Esalq, diz Engler. Comduas filhas, dois netos e cinco bisnetos,Accorsi segue bradando neste incio desculo 21 em favor de sua causa: Aplanta sustenta a vida biolgica no pla-neta. Se ela tem os alimentos, por queno teria os medicamentos?

    MARCOS DE OLIVEIRA

    32a33-114-pesquisa-accorsi 27/7/05 7:36 PM Page 33

  • CINCIA

    O cheiro da me A habilidade de encontrar a me pelo odor - essencial para os recm-nascidos se alimentarem e se protege- rem - desenvolve-se lentamente, assim como a de reco- nhecer o mundo pela viso: poucas semanas depois do nascimento comea a se formar a rede de circuitos neu- rais ligados ao olfato, como resultado do treino de sen- tir a fragrncia materna. Alteraes nessa circuitaria tendem a, mais tarde, tornar menos perceptveis e rele- vantes o registro de odores, concluram Kevin Franks e Jeffry Isaacson, da Universidade de Califrnia, em San Diego, Estados Unidos, por meio de um estudo publicado na Neuron. Os pesquisadores identificaram no crebro de ratos duas protenas essenciais da rede de neurnios ligados percepo olfativa: os receptores Ampa e NMDA, que so ativados por mensageiros qu- micos chamados neurotransmissores - nesse caso, o glutamato. Nesse experimento, o grupo da Califrnia desativou uma narina de ratos recm-nascidos, deixan- do-lhes sem estmulos olfatrios em um lado do cre- bro. No lado do crebro que no recebeu estmulos, houve uma queda na atividade dos receptores NMDA. Essa reduo fez com que os neurnios se tornassem mais ativos, em conseqncia da interferncia dos ou- tros receptores, os Ampa.

    Benefcios do Viagra para as plantas

    Margarida Prado, do Insti- tuto Gulbenkian de Cincia, em Portugal, descobriu que os tubos polnicos dependem de oxido ntrico, que os guia at o lugar certo - e assim po- dem levar a fertilizao adiante. Em meio a subs- tncias como o princpio ativo de medicamentos como o Viagra, que ini- bem as enzimas que des- troem o oxido ntrico, a sensibilidade das plantas ao oxido ntrico eleva-se bastante, influenciando o encurvamento do tubo polnico, essencial ao en- contro das clulas mas- culinas e femininas das plantas. Margarida ofe- receu aos tubos polnicos do lrio branco (Lilium longiflorum) uma dose Lrio

    extra de oxido ntrico e en- to, removendo-o, notou que a reorientao do tubo pol- nico foi bloqueada. Essa pro- priedade, acredita a pesquisa- dora, poderia ser usada para bloquear o acesso de duas ou mais clulas sexuais masculi- nas a um s vulo.

    tubos polnicos mais ativos

    34 AGOSTO DE 2005 PESQUISA FAPESP 114

  • Idias novas contra o HIV "Ficarei desapontado se em cinco anos no surgirem no- vas formas de tratamento contra a Aids", comentou Ro- bert Gallo, diretor do Institu- to de Virologia Humana da Universidade de Maryland, Estados Unidos. Co-descobri- dor do vrus HIV, no ms pas- sado ele participou em So Paulo do Frum Aids: as no- vas descobertas e o modelo brasileiro de assistncia. Uma das novas possibilidades so as quimiocinas, peptdeos - fragmentos de protenas - produzidos naturalmente em resposta a processos inflama- trios. So tambm liberadas por um dos tipos de clulas do sangue, os linfcitos, ativa- dos mas no infectados pelo HIV. As trs quimiocinas j identificadas bloqueiam a en- trada do vrus ao se ligarem ao receptor CCR5, uma mo- lcula da superfcie dos linf- citos. Segundo Gallo, podem surgir frmacos no das pr- prias quimiocinas, mas a par- tir da habilidade, j testada por indstrias farmacuticas, de bloquear esse receptor. A CCR5 parece ter pouca im- portncia para os seres hu- manos, mas essencial para o HIV, que se liga nesse recep- tor antes de despejar seu ma- terial gentico nas clulas do sangue. Outros medicamen- tos podem emergir a partir de uma molcula que inibe a transformao de um dos ti- pos do vrus, o HIV-1, em partculas infecciosas. Essa molcula, descrita este ms em dois artigos cientficos pu- blicados na revista Nature Structural & Molecular Bio- logy, sugere que as formas imaturas do vrus podem ser vistas como outro alvo a ser combatido.

    0 vrus: pequena esfera sobre a superfcie de um linfcito

    As causas da necrose da seringueira

    A seringueira {Hevea brasilien- sis) freqentemente abalada pela sndrome da necrose da casca, que reduz a produo de ltex e atinge um tero das rvores na frica, na sia e nas Amricas. Cogitou-se que essa doena, diagnosticada pela primeira vez em 1983, fosse causada por um agente patognico especfico - fun- go, vrus ou bactria -, mas um grupo internacional de pesquisas concluiu que se tra- ta do resultado da combina- o de muitas causas, que

    desregulam o funcionamento da planta. Uma delas a com- pactao do solo, que reduz a absoro de gua pelas razes. Como se observou, as serin- gueiras atacadas pela necrose tm, de fato, razes atrofiadas e a sndrome se desenvolve es- pecialmente em plantas com deficincia de gua, especial- mente durante as pocas de seca. O estresse hdrico induz morte das clulas e conse- qente liberao de compos- tos qumicos que causam o espalhamento da necrose para as partes superiores do tron- co. Este um dos primeiros estudos abrangentes sobre

    Nova York: prdios mudam os ventos e o regime de chuvas

    essa sndrome: reuniu espe- cialistas em solo, em vrus, em fisiologia e em doenas de plantas de 12 pases, incluin- do o Brasil, com coordenao do Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento (IRF) da Frana.

    Cidades interferem no clima e no tempo

    Os loteamentos e a constru- o de prdios e de estacio- namentos alteram dramati- camente a rugosidade da superfcie, o fluxo de calor e de gua, a reflexo de luz e a cobertura vegetal das cidades, de modo mais intenso em me- trpoles como So Paulo, No- va York, Paris ou Tquio, com impactos sobre o clima. Ain- da que a interferncia das ci- dades no seja considerada na maioria dos modelos de pre- viso de clima, edifcios co- mo o Empire State Building, em Nova York, podem alterar a qualidade do ar, a tempera- tura, a distribuio de nuvens e os padres de chuva, de acordo com um estudo publi- cado no Bulletin of the Ame- rican Meteorological Society. "Para qualquer pessoa", co- mentou Marshall Shepherd, pesquisador da Nasa e um dos autores desse estudo, " im- portante saber que a urbani- zao afeta coisas com que todos nos preocupamos, co- mo a quantidade e a freqn- cia de chuvas e quo fria ou quente a temperatura da rua pode ser." As mudanas at- mosfricas prximas s cida- des j podem ser registradas por satlites da prpria Na- sa, como o Aqua, Landsat e o Terra. Atualmente, as reas urbanas cobrem somente 0,2% da superfcie terrestre, mas abrigam aproximada- mente a metade da popula- o mundial.

    PESQUISA FAPESP114 AGOSTO DE 2005 35

  • Encontrado fungo letal no Brasil Agora h evidncias de que chegou ao Brasil um fungo que em outros pases da Am- rica Latina e da sia elimi- nou populaes de anfbios e, em conseqncia, quebrou o equilbrio ecolgico, favo- recendo a multiplicao de insetos, dos quais esses ani- mais se alimentam, e prejudi- cando a alimentao de aves, de rpteis e de mamferos, pe- los quais so predados. Zo- logos da universidade Esta- dual Paulista (Unesp) de Rio Claro e do Museu de Zoolo- gia de Vertebrados, de Berke- ley, Estados Unidos, encon- traram pela primeira vez o fungo Batrachoclytrium den- drobatidis na r-de-corredei- ra (Hylodes magalhaesi), uma espcie de 3 centmetros, pele castanho-escuro e ventre es- curo com pintas brancas, que

    A r-de-corredeira, que vive em riachos na Serra da Mantiqueira: provvel reservatrio de um fungo que devastou populaes de anfbios em outros pases

    vive em riachos no alto de morros da Serra da Manti- queira cobertos por Mata Atlntica, na divisa entre So Paulo e Minas Gerais. Identi- ficado na fase larval dessa es- pcie por meio de seqncias especficas de DNA, esse fun- go causa deformaes na boca dos girinos e, supe-se, prejudica a metamorfose, a ponto de levar os animais morte. "O Hylodes magalhae- si pode ser um reservatrio do fungo, que assim pode contaminar outras espcies", diz Clio Haddad, pesquisa- dor do Instituto de Biocin- cias da Unesp e um dos auto- res da descoberta. Segundo ele, os dados so preocupan- tes tambm porque a r-de- corredeira uma espcie ameaada de desaparecimen- to por causa da fragmenta-

    o de seu hbitat natural. J houve relatos de extino lo- cal de outra espcie do mes- mo gnero, o Hylodes asper, a 300 quilmetros do ponto de coleta do H. magalhaesi. Em- bora esse episdio tenha sido atribudo s mudanas cli- mticas, os pesquisadores no descartam a hiptese de que possa tratar-se de um impac- to desse fungo, que se propa- ga por meio das guas frias dos riachos que correm nas montanhas. Essa espcie de fungo, embora tenha sido detectada s agora, pode ter se instalado no pas h muito tempo. "Desde 1980, quando eu ainda fazia estgio na gra- duao", conta Haddad, "j encontrava girinos com a boca deformada, um dos si- nais mais caractersticos dei- xados por esse fungo."

    36 AGOSTO DE 2005 PESQUISA FAPESP114

  • Uma cratera em Santa Catarina

    Nunca viu um astroblema? No, no um problema as- tronmico, mas gigantescas crateras deixadas pelo impac- to de meteoritos na superfcie da Terra. No Brasil, o mais re- cente o Domo de Vargeo, no oeste de Santa Catarina, com cerca de 12 quilmetros de dimetro e um desnvel de at 150 metros. Descrito pela equipe do gelogo lvaro Crsta, da Universidade Esta- dual de Campinas, o Domo de Vargeo integra a lista dos 60 principais stios paleonto- lgicos e geolgicos mapea- dos pela Comisso Brasileira de Stios Geolgicos e Paleo- biolgicos (Sigep). Os stios dessa lista - como o Arenito Mata, no Rio Grande do Sul, com fsseis de troncos de conferas com 30 metros de comprimento, ou a Toca da Boa Vista, na Bahia, com 84 quilmetros de extenso - so candidatos a integrar o Patri- mnio Mundial da Humani- dade da Unesco.

    A gua extinta de Marte Hoje uma poeira fina e brilhante co- bre a superfcie marciana, espalhada por ventos constantes, mas j houve gua por l, embora nem sempre abundante, de acordo com seis arti- gos de pesquisadores da Nasa publi- cados na Nature. Outra novidade que a cratera Gusev, onde pousou o jipe-rob Spirit, nunca foi um imen- so lago, como se pensava. Abaixo da poeira o solo escuro, de origem vulcnica, e as rochas contm oxido de ferro e enxofre, incorporados em um processo que necessita de pouca gua, segundo a equipe da Nasa, da qual participa o fsico brasileiro Pau- lo de Souza Jnior, da empresa de minerao Vale do Rio Doce. Do ou- tro lado do planeta, os dados do jipe Opportunity indicam que o Meridi- ani Planum j foi um mar: ali h he- matita, mineral que s se forma com gua. Os jipes tambm seguiram a rbita das duas luas marcianas: Dei- mos, que est se afastando de Marte, e Phobos, que deve se chocar com Marte em 40 milhes de anos.

    PESQUISA FAPESP 114 AGOSTO DE 2005 37

  • 38 AGOSTO DE 2005 PESQUISA FAPESP 114

    inte anos atrs alguns casos incomunsde anemia comearam a chamar a

    ateno no Hemocentro da Universi-dade Estadual de Campinas (Unicamp).

    Em vez de adultos jovens, como habitual-mente, eram os idosos que apresentavam

    uma expressiva reduo na taxa de hemoglobina,molcula encontrada no interior das clulas verme-lhas responsvel pelo transporte de oxignio e pelovermelho vivo do sangue. Mais intrigante: a anemiados idosos no cedia ao tratamento convencional, base de vitaminas e suplementos de ferro. As mdi-cas hematologistas Irene Lorand Metze e Sara Saad,que trataram esses casos, constataram: a causa dessaanemia no era a carncia de nutrientes essenciais produo das clulas vermelhas ou hemcias como oferro e as vitaminas do complexo B. A origem do pro-blema era bem mais complexa: estava nas clulas-tronco da medula ssea, da qual se originam as trsfamlias de clulas sangneas as vermelhas, asbrancas e as plaquetas. No se tratava, portanto, deanemias resistentes a tratamento, mas de uma dasformas de um grupo de doenas raras chamadassndromes mielodisplsicas ou mielodisplasias, cujo

    MEDICINA

    V

    Defeitos genticos comeama explicar a origem de doenassangneas de idosos

    Estudos em vermelho

    RICARDO ZORZETTOFOTOS HELIO DE ALMEIDA

    CINCIA

    tratamento at hoje desafia a cincia mdica, embo-ra suas causas sejam mais bem conhecidas.

    Com caractersticas semelhantes s da leucemiamielide aguda a forma mais freqente de leuce-mia aguda em adultos , as mielodisplasias alteram acomposio sangnea por dois mecanismos opos-tos. Ambos ocorrem na medula ssea, o tecido quepreenche os grandes ossos do corpo, no qual as clu-las do sangue se formam e se desenvolvem antes deserem lanadas s veias e artrias. O primeiro meca-nismo provoca a morte em massa das clulas precur-soras do sangue. O segundo leva essas clulas a semultiplicarem de modo descontrolado e as clu-las da gerao seguinte chegam corrente sangneaimaturas e incapazes de funcionar como deveriam. Oefeito o mesmo: o sangue contm clulas vermelhasmaduras em nmero insuficiente para abastecer ostecidos com oxignio; tambm no h a quantidadeadequada de clulas brancas, que combatem mi-croorganismos invasores; nem de pedaos de clulasconhecidos como plaquetas, que bloqueiam he-morragias. por isso que quem desenvolve mielodis-plasia sente-se cansado e apresenta infeces freqen-tes ou sangramentos de difcil conteno.

    38a41-114-pesquisa-hematologia 27/7/05 7:33 PM Page 38

  • PESQUISA FAPESP 114 AGOSTO DE 2005 39

    A anlise dos mais de 200 casos jatendidos no Hemocentro da Unicampest ajudando a compreender como es-ses problemas surgem e evoluem. Emtestes de laboratrio com medula sseade portadores de mielodisplasia, Irene eSara descobriram alteraes na expres-so de trs genes que controlam a morteprogramada ou apoptose das clu-las do sangue. Por esse motivo, no in-cio da doena a taxa de apoptose geral-mente elevada e impede a produode clulas vermelhas, brancas e plaque-tas em nveis adequados ao funciona-mento normal do organismo. Nos est-gios mais avanados, porm, ocorre ooposto: a apoptose diminui e so as c-lulas precursoras do sangue chamadasblastos que alcanam a circulao ainda h casos em que os blastos soproduzidos em quantidade adequada,mas no geram clulas maduras dosangue. No se sabe se esse desequil-brio na mortalidade celular conse-

    qncia apenas de distrbios genticosnas clulas doentes ou se, ao menos emparte, decorrente da atuao do siste-ma de defesa do organismo, voltada eliminao dessas clulas, comenta Sa-ra, que detectou outro comportamentoanormal das clulas na mielodisplasia:cultivadas em laboratrio, as clulasbrancas eram capazes de se multiplicarmesmo na ausncia de sinais qumicosque induzem diviso celular, diferen-temente das clulas sadias.

    Resistncia morte - Enquanto essa d-vida permanece, o certo que h umareduo dos sinais qumicos que dispa-ram a morte programada dos blastos eum aumento dos comandos que a im-pedem, como constataram Irene, Eli-sangela Ribeiro, Carmen Lima e Kon-radin Metze, em um estudo publicadoem 2004 na Leukemia & Lymphoma. medida que a doena progride essasclulas contendo alteraes se tornam

    menos suscetveis apoptose, explicaIrene, uma das principais pesquisado-ras brasileiras que estudam as sndro-mes mielodisplsicas. Num trabalhoque deve sair em breve na Leukemia Re-search desenvolvido com pesquisado-res espanhis da Universidade de Sala-manca e do Hospital Miguel Servet, emSaragoa , Irene e sua equipe detecta-ram indcios de que as alteraes nodesenvolvimento celular caractersti-cas da mielodisplasia podem ocorrerat mesmo em um estgio anterior aosblastos, nas prprias clulas-troncopluripotentes. um achado que ajuda aexplicar por que tanto a taxa das clulasvermelhas e das plaquetas como a dasclulas brancas podem se encontrarabaixo dos nveis normais nessas sn-dromes.

    Ainda no se conhecem todos osdefeitos genticos associados s mielo-displasias, mas estima-se que essas alte-raes como a perda de parte dos cro-

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  • 40 AGOSTO DE 2005 PESQUISA FAPESP 114

    mossomos 5, 7 e 20 ou a presena deuma cpia extra do cromossomo 8 contribuam para quase metade dos ca-sos dessas doenas. Em geral, as leses nomaterial gentico das clulas no sur-gem de uma hora para outra.Esses de-feitos genticos, detec-tados em 40% a 50%das mielodisplasias,so fruto de uma sriede leses que se acu-mulam ao longo davida e se manifestampor volta dos 60 anos,explica a hematologis-ta Maria de LourdesChauffaille, da Univer-sidade Federal de SoPaulo e do InstitutoFleury, que investiga as caractersticasgenticas dessas doenas.

    Hoje se sabe que alguns medicamen-tos utilizados no tratamento de cncerpodem danificar o material gentico(DNA) das clulas e levar ao desenvol-vimento de mielodisplasia. Tambm sesuspeita que a exposio prolongada fumaa do cigarro, a agrotxicos, a sol-ventes como o benzeno e radiaodanifiquem o DNA das clulas precur-soras do sangue e, em 10% dos casos,originem essas sndromes.

    Depois dos 60 - Esses efeitos cumulati-vos explicam por que as mielodispla-sias so mais comuns aps os 60 anos.Estima-se que, antes dessa idade, cincoadultos em cada grupo de 100 mil de-senvolvam uma das formas de mielo-displasia. Apartir dos 60 anos, essas sn-dromes se tornam de quatro a dez vezesmais freqentes: atingem de 20 a 50 in-divduos em cada grupo de 100 mil.Segundo especialistas, nos Estados Uni-dos surgem 15 mil novos casos de mie-lodisplasia por ano, uma indicao deque essas sndromes so to freqentesquanto a forma mais comum de leuce-mia nos pases ocidentais, a leucemialinfoctica crnica. Ainda que de modoindireto, a etnia e as condies socioe-conmicas e ambientais parecem in-fluenciar a idade de incio da doena.Na Europa e nos Estados Unidos as mie-lodisplasias se manifestam por volta dos70 anos, enquanto no Brasil elas sur-gem mais cedo, antes dos 60.A tendn-cia que o nmero de casos aumente medida que nossa populao envelhe-

    ce, afirma Sara, da Unicamp. Estima-tivas do IBGE apontam que nos pr-ximos 15 anos a populao brasileiramaior de 60 anos deve crescer 74% epassar dos atuais 16,3 milhes para28,3 milhes de pessoas.

    as nem sempre o pro-blema est com as c-lulas precursoras dosangue. O grupo coor-denado por MariaMitzi Brentani, da Uni-

    versidade de So Paulo, Radovan Boro-jevic, da Universidade Federal do Riode Janeiro, e Luiz Fernando Lopes, doHospital do Cncer AC Camargo, emSo Paulo, investigou outro conjunto declulas encontradas no interior dos os-sos: a clulas do estroma, o tecido nu-tritivo no qual esto mergulhadas as c-lulas precursoras do sangue. Como aterra que sustenta e nutre uma rvore,o estroma fixa essas clulas e regula odesenvolvimento delas. A concluso que a sade do estroma pode fazer to-da a diferena, de acordo com o estudopublicado em agosto de 2004 na Leuke-mia Research. Em uma placa de vidrocom estroma de portadores de mielodis-plasia clulas precursoras do sangue sau-dveis passaram a se comportar comoas clulas mielodisplsicas: prolifera-vam-se sem controle e no amadure-ciam possivelmente pela produo desinalizadores qumicos que induzem apoptose, como o fator de necrose tu-moral alfa e o interferon gama. Tam-bm se verificou o oposto: clulas damedula de pessoas com mielodisplasiaapresentaram desenvolvimento saud-vel quando cultivadas em estroma depessoas sem a doena.

    Analisados em conjunto, os estudosdos ltimos dez anos ajudam a enten-der por que em alguns casos de mielo-displasia os exames, feitos com sanguecolhido de uma veia do brao, apresen-tam contagem baixa das clulas madu-ras, enquanto em outros aparece umnmero elevado de blastos. Esse desa-juste reprodutivo que pode surgir emumas poucas clulas se amplifica du-

    Mrante a fabricao do sangue. Formadopor cerca de 20 tipos de clulas distin-tas, diludas em uma sopa de gua eprotenas, o sangue est em constanterenovao. Quando tudo vai bem noorganismo, 1% das clulas sangneasso substitudas diariamente. A cada 24horas a medula dos ossos fabrica cercade 200 bilhes de clulas vermelhas, 10bilhes de clulas brancas e 400 bilhesde plaquetas, em substituio quelasque se tornaram velhas e foram destru-das pelo bao.

    Nesse processo natural de reposio,as clulas-tronco da medula ssea se di-videm sucessivas vezes, produzindo ini-cialmente cpias idnticas de si mesmas.Mas em determinado ponto desse pro-cesso reprodutivo essas clulas deixamde se autocopiar e passam a gerar clu-las especializadas em uma determinadafuno, mas com menor capacidade dese reproduzirem e de originarem ou-tros tipos de clulas. que a capaci-dade de gerar qualquer tipo de clulasangnea, a pluripotncia, privilgiodas clulas-tronco mais primordiais.

    procura de sadas - Diante das des-cobertas recentes sobre a origem e aevoluo das mielodisplasias, as alter-nativas de tratamento continuam res-tritas, motivo de desconforto entre osmdicos. A nica maneira de curar amielodisplasia o transplante de me-dula ssea, procedimento em que as c-lulas-tronco extradas do osso do qua-dril de um doador sadio so injetadasno esterno do portador da doena.Aps a eliminao das clulas anormaispor quimioterapia, as clulas saudveisrepovoam o sangue. Mas o uso de me-dicamentos altamente txicos e de ra-diao para eliminar as clulas anor-mais da medula limitam a aplicao dotransplante, em geral realizado em pes-soas com menos de 60 anos os resul-tados so melhores antes dos 40 anos. que depois dos 60 anos as pessoas noresistem aos efeitos indesejveis do tra-tamento feito antes de receber a me-dula. Mesmo quando o transplante possvel, a taxa de sucesso baixa: emapenas 40% dos casos a pessoa perma-nece livre da doena por cinco anos.

    Nem entre as crianas os resultadosso animadores. Nesses casos, a maiordificuldade encontrar doadores commedula compatvel em uma popula-

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  • Estudo da fisiologia do sistema imune nas neoplasias, na auto-imunidade e nas imunodeficincias por citometria de fluxo

    MODALIDADELinha Regular de Auxlio a Projeto de Pesquisa

    COORDENADORAIRENE LORAND METZE Unicamp

    INVESTIMENTOR$ 1.345.226,42

    O PROJETO

    PESQUISA FAPESP 114 AGOSTO DE 2005 41

    zes de elimin-las, como a citarabina ea daunoblastina, usadas no tratamen-to das leucemias. Com a diminuiodas clulas vermelhas do sangue, umadas opes tratar o portador da mie-lodisplasia com um hormnio de cres-cimento celular chamado eritropoieti-na, produzido por bactrias Escherichiacoli que receberam uma cpia do genedessa protena. Outro hormnio o fa-tor estimulante de colnias de granul-citos, utilizado para estimular a produ-o de clulas brancas. Dependendo do

    grau de anemia, transfuses de sanguemensais ou mesmo semanais po-dem se tornar necessrias.

    Atualmente, dezenas de medicamen-tos que combatem as clulas doentesou estimulam a proliferao das clu-las sangneas saudveis encontram-seem avaliao em ensaios clnicos feitosprincipalmente nos Estados Unidos ena Europa. Mas ainda no se chegou aum remdio que rena trs qualidadesfundamentais: ser eficaz, pouco txicoe barato. Nos ltimos 20 anos, vriosmeteoros teraputicos atravessaram osnegros cus dos tratamentos das sn-dromes mielodisplsicas, mas apenaspara desaparecer em seguida, escreve-ram os hematologistas italianos MarioCazzola e Luca Malcovati, em um co-mentrio publicado em fevereiro desteano no New England Journal of Medici-ne sobre a mais recente promessa demedicamento capaz de aumentar as c-lulas vermelhas, a lenalidomida, umderivado da talidomida menos txicoe mais eficaz. Os resultados animam,mas ainda cedo para comemorar.Es-peramos que outros estudos clnicosconfirmem os efeitos promissores dalenalidomida, concluram.

    o miscigenada quanto a nossa, dizo oncologista peditrico Luiz FernandoLopes, do Hospital do Cncer, que nofinal da dcada de 1980 identificou osprimeiros casos de mielodisplasia in-fantil no pas e coordena o grupo que jatendeu quase 250 crianas com o pro-blema. Muito raras at os 18 anos afe-tam quatro crianas e jovens em cadamilho , as sndromes mielodisplsi-cas so mais agressivas nessa faixa et-ria: oito em cada dez casos evoluem emmeses para a leucemia mielide aguda,em que uma torrente de clulas brancasimaturas chega ao sangue e deixa o or-ganismo vulnervel a infeces. Hojeconhecemos razoavelmente bem ascausas e a evoluo das mielodispla-sias, diz Lopes. Mas ainda no sabe-mos como trat-las de modo eficiente.

    Nos casos em que o transplante no vivel, a sada combater as manifesta-es graves da enfermidade, que variamsegundo o tipo de mielodisplasia hsete tipos de mielodisplasia, segundo aclassificao mais recente. Quando oprincipal efeito dessa reproduo celu-lar anormal o aumento da quantidadede clulas imaturas no sangue, os mdi-cos administram medicamentos capa-

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  • 42a45-114-pesquisa-genoma 27/7/05 7:31 PM Page 42

  • bioqumica Santuza Teixeira te-ve de interromper por duas ve-zes suas frias no ms passadoe correr ao seu laboratriono Instituto de Cincias Bio-mdicas da Universidade

    Federal de Minas Gerais (UFMG). Por sorte, no pararesolver problemas, mas para comemorar com sua equi-pe dois acontecimentos que fogem da rotina. No dia 5Santuza soube que sua proposta de estudar a variabilida-de gentica do protozorio Trypanosoma cruzi, causadorda doena de Chagas, foi selecionada pelo Instituto Ho-ward Hughes, dos Estados Unidos, e receber um finan-ciamento de US$ 70 mil por ano, nos prximos cincoanos privilgio concedido a poucos grupos de pesquisano Brasil. Dez dias depois saa na revista Science um ar-tigo cientfico de amplo interesse mdico e cientfico, doqual seu grupo havia participado, esmiuando o conjuntode genes o genoma do parasita retratado ao lado.

    O genoma do Trypanosoma cruzi o mais complexoentre os trs descritos na edio de 15 de julho da Scien-ce l estavam tambm o Trypanosoma brucei, causadorda doena do sono, e a Leishmania major, responsvelpor um dos tipos de leishmaniose. Resultado de um es-foro internacional de pesquisa liderado por especialis-

    GENMICA

    ACientistas detalham as estratgiasde sobrevivncia de trs parasitas que infectam milhes de moradores de pases pobres

    Fascnio e terror

    CINCIA

    CARLOS FIORAVANTIFOTOS RENATO MORTARA

    42a45-114-pesquisa-genoma 27/7/05 7:32 PM Page 43

  • 44 AGOSTO DE 2005 PESQUISA FAPESP 114

    tas norte-americanos, ingleses e suecos,com a participao de grupos de Mi-nas, de So Paulo e do Rio de Janeiro,esses trabalhos devem nortear, daquipara a frente, os estudos dedicados a es-ses protozorios, j que uma srie de se-melhanas, de peculiaridades e de prov-veis vulnerabilidades de cada um delesse tornaram mais claras.

    Essas descobertas podem acelerar abusca de mtodos e reagentes diagns-ticos ou de medicamentos que redu-zam o alcance das doenas causadaspor esses parasita o T. cruzi, transmiti-do pelo inseto conhecido como barbei-ro, infecta 18 milhes de pessoas naAmrica Latina, podendo provocarproblemas cardacos; o T. brucei, que seespalha por meio da mosca ts-ts, ins-talou-se no organismo de 500 mil pes-soas de 36 pases africanos, causandofebre, dor de cabea, distrbios do sonoe problemas neurolgicos; j a Leish-mania major, igualmente transmitidapor mosquitos, serviu como modelo deestudo para as cerca de 30 espcies queafetam 12 milhes de moradores de 88pases, entre os quais o Brasil, e podemprovocar leses desfigurantes ou atacaras vsceras. Juntas, as trs doenas ma-tam cerca de 150 mil pessoas por anono mundo.

    O fato de os genes desses parasitasterem sido identificados um incenti-vo para que as companhias farmacu-ticas e mesmo as empresasestatais de medicamentosinvistam no desenvolvi-mento de novas drogas an-tiparasitrias, porque po-deriam comear em umestgio mais avanado, dizJos Franco da Silveira Fi-lho, pesquisador da Uni-versidade Federal de SoPaulo (Unifesp), que tra-balhou na identificaodos telmeros as pontasdos cromossomos do Trypanosomacruzi. Justamente nos telmeros quese concentram os genes responsveis pe-la produo de protenas de superfcie,que facilitam a invaso das clulas demamferos e ajudam a burlar as defesasdos organismos em que se instalam.

    Os trs parasitas, embora tenham seseparado de um ancestral comum hcerca de 200 milhes de anos, apresen-tam 6.158 genes em comum, associados

    a funes metablicas e estruturaisbsicas os genes exclusivos de cada es-pcie so relativamente poucos, varian-do de 910 na Leishamia major a 3.736no Trypanosoma cruzi. A partir dessencleo comum, possvel comear apensar em compostos que sirvam paraos trs, diz Angela Cruz, da Faculdadede Medicina de Ribeiro Preto, da Uni-versidade de So Paulo (USP), que par-ticipou do seqenciamento e da anlisedo cromossomo 2 da Leishamia major.

    Mas o maior problema, acrescen-ta, que estamos falando de doenasnegligenciadas, de pases pobres. Atagora as indstrias farmacuticas tmmostrado pouco interesse em desenvol-ver medicamentos mais eficazes e me-nos txicos que os raros hoje em usoporque os ganhos poderiam no cobriros gastos, j que os compradores seriamos governos ou os habitantes de pasespobres. De acordo com uma reporta-gem publicada em 3 de julho no jornalNew York Times, os custos de desenvol-vimento de um novo medicamentopassaram de US$ 800 milhes em 2000para quase US$ 1 bilho. O salto nasdespesas est fazendo com que as in-dstrias se concentrem na busca devariaes de produtos nos quais j te-nham experincia ou que contem comum mercado assegurado, como diabe-tes, cncer, distrbios mentais e algunsproblemas cardacos.

    ntre os pesquisadores diferente. Para ns, e pa-ra muitos outros cientis-tas que trabalham comtripanossomas, h um in-teresse genuno em enga-

    jar-se na luta contra as doenas negli-genciadas, comenta a esta revista NajibEl-Sayed, bilogo molecular do Insti-tuto de Pesquisa Genmica (Tigr), dosEstados Unidos, que nessa edio daScience assinou dois artigos como pri-meiro autor e outro como pesquisadorsnior alm dos trs estudos descre-vendo os genomas, havia outro compa-rando-os e mais dois comentando asdescobertas. Essa pesquisa impor-

    E

    tante do ponto de vista mdico, porqueno existem bons medicamentos dis-ponveis, diz Bjorn Andersson, do Ins-tituto Karolinska, da Sucia, que estudaa doena de Chagas desde 1996.Tenhoesperanas de que realmente surjam no-vos frmacos.

    Dessa empreitada participaram 235pesquisadores de 21 pases no s doBrasil, Argentina e Venezuela, onde es-ses problemas so antigos, mas tam-bm da Frana, Esccia, Estados Uni-dos ou Cingapura, nos quais um casode leishmaniose causaria mais espantoque a chegada de um marciano. Esseconsrcio de instituies comeou a seformar em 1994 quando a OrganizaoMundial da Sade (OMS) aprovou umfinanciamento modesto, de US$ 20 mil,o chamado seed money, para a propos-ta de seqenciamento do genoma deparasitas causadores de doenas tro-picais, apresentada por Carlos Morel,da Fundao Oswaldo Cruz (Fiocruz),do Rio de Janeiro, que liberou outrosUS$ 20 mil. A partir da o desafio foiagregando mais cientistas e em 1998seduziu a Tigr, que se tornaria uma dasinstituies lderes do consrcio. Aoreceber um financiamento estimadoem US$ 32 milhes, essencialmentedos Institutos Nacionais de Sade(NIH), dos Estados Unidos, e do Well-come Trust, do Reino Unido, o traba-lho deslanchou.

    Seres de transio - Tamanha mobili-zao deve-se tambm, verdade, aointeresse pela biologia desses microor-ganismos unicelulares. Alguns fen-menos, como a edio de RNA e a varia-o antignica, foram identificados oubem caracterizados em tripanossomas,exemplifica El-Sayed, com quem traba-lha a brasileira Daniela Bartholomeu.Embora sejam eucariotos (clulas do-tadas de ncleos, como os animais e asplantas superiores), eles apresentamalgumas caractersticas dos procario-tos, como so chamados os organis-mos unicelulares sem ncleo, mais pri-mitivos, como as bactrias.

    Esses parasitas so extremamentefascinantes, diz Franco da Silveira, quetrabalha em colaborao com outrosgrupos da Unifesp, como o de NobukoYoshida e Renato Mortara. So umaespcie de fsseis vivos, como se fossemexperincias da natureza que tenham

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  • PESQUISA FAPESP 114 AGOSTO DE 2005 45

    sobrevivido e originado seres muitomais refinados. Nos trs, mostrou-sebastante conservada a ordem dos genes ou sintenia , em escala mais acen-tuada na L. major, como se ela fosse o or-ganismo mais antigo e de seus cromos-somos, devidamente embaralhados ousegmentados, tivessem se originado asoutras duas espcies de protozorios.

    Um dos achados surpeendentes noTrypanosoma cruzi uma famlia degenes chamada Masp, sigla de protenasde superfcie associadas mucina, jcom 1.300 integrantes, mas cujas fun-es ainda so desconhecidas. Esse foi,por sinal, o mais indomvel dos trsparasitas, a ponto de ter exigido modi-ficaes nos programas de montagem eanlise de genes. O genoma do T. cru-zi altamente complexo e repetitivo,mais que o usual, reconhece Anders-son. Pelo menos metade das seqnciasgenticas tem uma cpia e a outra me-tade pode ter mais de duas cpias. Porcausa dessas seqncias repetitivas,conta Santuza, no foi possvel fazer amontagem completa do genoma. Ou-tra razo pela qual no se pde dar aogenoma a forma de uma longa fita que no se sabe ao certo quantos so os

    cromossomos as estruturas que con-tm os genes do T. cruzi: deve ser algoprximo a 28; o problema que algunscromossomos tm s uma cpia e ou-tros, duas ou mais.

    Driblando anticorpos - Essas repetiesde genes e de cromossomos, cogitaSantuza, devem facilitar a recombina-o gentica e o aperfeioamento de ar-tifcios que permitem a esses parasitasescapar das defesas dos organismos queinvadem mesmo com um vasto tre-cho do genoma em comum, os tritryps,como foram chamados, guardam dife-renas sutis, mas essenciais. O Trypano-soma brucei vive no sangue de mamfe-ros e escapa dos anticorpos produzindodiferentes protenas de superfcie avariao antignica: os anticorpos re-conhecem os invasores que tenhamuma protena A, digamos, mas deixamescapar os que j trocaram a protena Apor uma B qualquer. Curiosamente, osgenes ligados s protenas de superfcieso geralmente truncados s 7% fun-cionam direito.

    J o T. cruzi invade as clulas pri-meiro as da pele e depois as do corao e se vale da chamada variabilidade

    antignica: o causador da doena deChagas produz, ao mesmo tempo, de-zenas de variantes de protenas de su-perfcie, que lhe permitem no s dri-blar os anticorpos como tambm seligar com as clulas de mamferos nasquais vive ao longo de seu ciclo de vida.

    Talvez estejamos mais perto deentender como esses parasitas tm tan-to sucesso e sobrevivem em organis-mos to diferentes, comenta AngelaCruz, da USP de Ribeiro Preto, mastemos de usar esse conhecimento paraalgo til. Quem trabalha com a genti-ca desses organismos deveria se unircom aqueles que trabalham com estru-tura de protenas ou fazem desenhosde medicamentos, para otimizar a bus-ca de melhores alvos nos parasitas e ge-rar compostos para serem testados. Te-mos de fazer um esforo concentrado econcertado para chegar a medicamen-tos ou a mtodos preventivos factveisno combate a essas doenas.

    Momento inicial da infeco: T. cruzi invadem uma clula de mamfero

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  • 46 AGOSTO DE 2005 PESQUISA FAPESP 114

    alvador,a capital da Bahia,amarga a maior incidncia deportadores do vrus HTLV-1no Brasil.Em cada grupo demil habitantes,20 esto con-taminados com o vrus linfo-trpico de clulas T humanas,um mal silencioso que,em5% dos casos,causa um tipogravssimo de leucemia ouuma mielopatia,doena neu-

    rolgica que provoca problemas de locomoo eperda de controle muscular.A incidncia da mols-tia em Salvador cinco vezes maior do que a obser-vada em So Paulo e sete vezes superior do Rio deJaneiro.No Brasil,estima-se que 2 milhes de pes-soas estejam contaminadas.Tais nmeros tm oaval dos bancos de sangue do pas,que desde 1993realizam obrigatoriamente testes anti-HTLV-1 emtodo o sangue doado.Tamanha expresso da mo-lstia transformou a capital baiana num ambientepropcio para pesquisas sobre o HTLV-1,um retro-vrus que tem parentesco distante com o HIV,cau-sador da Aids.

    Um estudo publicado na edio de maro doInternational Journal ofImpotence Research d con-ta de que o comprometimento da atividade sexualentre as vtimas da doena em Salvador mais co-mum do que se calculava e que a disfuno ertil,associada a outros sintomas urinrios, um impor-tante marcador do incio da molstia.Assinado pelourologista Neviton Castro,do Servi o de Imuno-logia do Hospital Universitrio Professor EdgardSantos, vinculado Universidade Federal da Bahia(UFBA),a pesquisa acompanhou um grupo de 79pacientes atendidos no Ambulatrio Multidiscipli-nar de HTLV-1 da instituio,por onde j passarammais de 800 vtimas da doena desde 2000.O ndi-

    Golpes abaixo da cinturaHTLV-1 espalha-se como o vrus da Aids e causa disfuno ertil

    FABRCIO MARQUES

    CINCIA

    VIROLOGIA

    S

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  • ce dos que no conseguiram erees sa-tisfatrias em mais da metade das ten-tativas de fazer sexo chegou a 36,7% e45,5% responderam que tiveram poucaou nenhuma satisfao sexual, levan-do-se em conta o espao de tempo de30 dias anteriores pesquisa. A maioriadas vtimas tinha de 35 a 50 anos.

    Em 95% dos indivduos infectadoso HTLV-1 no apresenta nenhum sin-toma, embora os portadores do vruscontinuem espalhando a doena. Nos5% restantes, depois de um perodo delatncia que pode durar at 20 anos, po-dem eclodir duas molstias distintas.Uma a leucemia das clulas T, que,uma vez instalada, implica uma sobre-vida de no mximo 24 meses. Graas auma enzima, a transcriptase reversa, ogenoma do HTLV-1 se integra ao daclula hospedeira. Essa integrao fazcom que, em alguns casos, a clula in-fectada sofra processo de malignizao.O linfcito T, responsvel em grandeparte pela imunidade mediada por viacelular, o alvo do vrus.

    A disfuno ertil e a dificuldade decontrolar a mico esto associadas auma das manifestaes da molstia, amielopatia chamada paraparesia es-pstica tropical. Conduz a um proces-so inflamatrio que leva destruioda bainha de mielina, isolante das clu-

    las nervosas. Outros sintomas obser-vados so a perda progressiva dos mo-vimentos dos membros inferiores, in-flamaes do globo ocular e at umaforma grave de escabiose, a sarna. Te-mos casos raros em que pacientes jo-vens pararam de andar e passaram a terproblemas de ereo e de controle doato de urinar, diz o mdico Castro.Trata-se de uma doena incapacitante,para a qual h poucas opes de trata-mento, afirma. No existe cura. As te-rapias para impedir a proliferao dovrus e reduzir a velocidade degenera-tiva renem corticosterides, vitami-na C e interferon. Tambm no h va-cina contra esse retrovrus, que sofreconstantes mutaes. Os remdios dafamlia do Viagra so eficientes paraamenizar boa parte dos casos de dis-funo ertil, mas a estratgia no fun-ciona para os pacientes mais graves.

    Escravos - Tanto o HTLV-1 como o HIVso transmitidos por via sexual, sanguecontaminado, compartilhamento de se-ringas ou por amamentao. As coinci-dncias terminam a. O HIV infecta oslinfcitos T e os destri, provocandouma severssima imunodepresso. Jo HTLV-1 causa uma multiplicaoanmala dos linfcitos, associada ecloso de processos inflamatrios.

    Tambm provoca depresso do sistemaimunolgico, embora de forma bemmais amena que o HIV. Uma tese dedoutoramento a ser defendida por RitaMascarenhas, da Escola Baiana de Me-dicina e Sade Pblica e do Laborat-rio Avanado de Sade Pblica da Fun-dao Oswaldo Cruz (Fiocruz), emSalvador, evidenciou uma queda na res-posta imunolgica mesmo em vtimasdo HTLV-1 que no tinham sofrido aproliferao anmala dos linfcitos T.Rita pertence a um outro grupo de pes-quisadores, liderado pelo patologistaBernardo Galvo, com um trabalhodestacado na anlise do HTLV em Sal-vador. Eles tambm criaram, em 2002,um ambulatrio que acompanha cercade 400 pacientes, o Centro HTLV, e sededicam a pesquisas no campo da imu-nologia e do estudo da origem do vrus.Cada vez mais, o HTLV-1 visto comouma sndrome com indcios de imunos-supresso e diferentes manifestaes cl-nicas inflamatrias, diz Fernanda Gras-si, mdica e pesquisadora da Fiocruzem Salvador. As pesquisas realizadaspelos grupos da Fiocruz e da UFBAcomplementam-se. O carter imunos-supressor do HTLV-1 j havia sido evi-denciado em pesquisas do mdico Ed-gar Carvalho, da UFBA, mostrandoque as vtimas so mais suscetveis amolstias como tuberculose e esquis-tossomose e sofrem o agravamento doquadro provocado pela parasitose in-testinal estrongiloidase.

    Um trabalho realizado por Luiz Car-los Alcntara, pesquisador do Labora-trio Avanado de Sade Pblica e pro-fessor da Escola Baiana de Medicina eSade Pblica, encontrou respostas pa-ra a prevalncia exagerada de HTLV-1em Salvador. O fenmeno, que mesclagentica e histria, resultaria de mlti-plas introdues de linhagens do vrusprovenientes do sul da frica. Escravosbantos trazidos de Angola e Madagas-car entre os sculos 17 e 19 teriam tra-zido os subtipos mais disseminados emSalvador. Da mesma forma, o vrus es-pecialmente prevalente no sudeste dosEstados Unidos onde h agrupamen-to de negros. No se trata, contudo, deuma doena vinculada etnia africana.A infeco pelo HTLV-1 endmica nasilhas do sul do Japo, com 40% da po-pulao contaminada, e no Caribe, ondeo contgio chega a 10%.

    Atleta em descanso,Joo Batista Ferri

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  • 48 AGOSTO DE 2005 PESQUISA FAPESP 114

    ntre dezembro de 2002 efevereiro de 2003, os pes-quisadores que partici-param da etapa brasilei-ra do projeto SALLJEX(South American Low-

    Level Jet Experiment) lanaram nos cus da Ama-znia cerca de 700 bales semelhantes aos usadospara decorar festas infantis. Alguns deles, em umacaixa, transportavam sensores que mediam a pres-so atmosfrica, a temperatura, a umidade do are a velocidade dos ventos.

    A anlise dos dados armazenados em com-putadores no Brasil, na Bolvia, na Argentina eno Paraguai est detalhando as caractersticas eas trajetrias dos chamados jatos de baixos nveisda Amrica do Sul (South American Low-LevelJet, ou SALLJ), alm de apontar os fenmenosque ajudam a desencadear. Identificados na dca-da de 1960, os jatos nascem na Regio Norte ecruzam o pas em direo ao sul, estabelecendouma relao direta entre os ventos que sopram naAmaznia para o sul, ao leste dos Andes, e as chu-vas que caem na bacia do Prata, vasta rea que,alm de So Paulo e dos estados do Sul, abrangeo Uruguai e o norte da Argentina e do Paraguai.

    Correntes de ar levam umidade ou fumaa da Amaznia at a bacia do Prata

    O mapa dos ventos

    CLIMATOLOGIA

    FRANCISCO BICUDO

    EImpacto remoto: massas de ar prximas superfcie transportamgases de desmatamentos como este que podem reduzir as chuvas ao sul

    CINCIA

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  • PESQUISA FAPESP 114 AGOSTO DE 2005 49

    NA

    SA

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  • Esses jatos so como rios voado-res, que carregam umidade do nortepara o sul, explica Jos Antonio Ma-rengo Orsini, do Centro de Previso deTempo e Estudos Climticos (CPTEC)do Instituto Nacional de Pesquisas Es-paciais (Inpe) e coordenador do tra-balho.Os jatos se localizam nas cama-das mais baixas da atmosfera, a at 3quilmetros de altitude, e viajam comvelocidades que podem atin-gir 50 quilmetros por hora,acrescenta Maria AssunoFaus da Silva Dias, pesquisa-dora do CPTEC e integrantedesse estudo. Quando che-gam ao Prata, completa Ca-rolina Vera, da Universidadede Buenos Aires, outra parti-cipante do projeto, os jatosso um dos responsveis pelaocorrncia de fortes chuvas,especialmente no vero.

    Marengo, Assuno e Carolina in-tegraram uma equipe de cerca de 50pesquisadores de oito pases: Brasil,Argentina, Paraguai, Uruguai, Bolvia,Chile, Peru e Estados Unidos. O SALL-JEX integra o Programa Internacionalde Variabilidade do Sistema de Mon-o da Amrica (Vamos, Variability ofAmerican Monsoon System), patroci-nado pelo Programa Internacional deVariabilidade e Previsibilidade de Cli-ma (Clivar, Climate Variability andPredictability), associado Organiza-o Meteorolgica Mundial. Para Ma-rengo, esse trabalho ajuda a estimar ospossveis impactos causados pelo des-matamento da Floresta Amaznica so-bre o clima na poro sul da AmricaLatina, alm de contribuir para me-lhorar a previso do tempo para essasreas.

    A origem dos jatos de baixos nveisest associada aos ventos alsios vindosdo oceano Atlntico, que invadem o ter-ritrio brasileiro pela ponta superiorda Regio Nordeste. Quando chegam Amaznia, absorvem muito vapordgua, liberado pelas folhas da florestapor meio da transpirao. J na frontei-ra do Estado do Acre com a Bolvia en-contram a cordilheira dos Andes. Asmontanhas funcionam simultaneamen-te como um acelerador e uma barreira,j que aumentam a velocidade de cir-culao dos jatos e os desviam rumo aosul. Os jatos passam ento pelos esta-

    dos de Mato Grosso, Mato Grosso doSul e So Paulo. Ao chegar bacia doPrata, interagem com o relevo e comfrentes frias nascidas no plo Sul, fa-zendo surgir os Complexos Convecti-vos de Mesoescala. So nuvens extre-mamente espessas, que atingem at 18quilmetros de altitude e mil quilme-tros de dimetro, com ciclo de vida quepode durar at 36 horas.

    ormadas normalmente du-rante a noite e principalmen-te no vero, essas nuvens soresponsveis por tempesta-des e por descargas eltricasverificadas no sul do pas e

    no norte da Argentina e do Paraguai.Graas aos jatos de baixos nveis, quan-do comea a ventar l, bom j se pre-parar para chuvas bem fortes por aqui,compara Pedro Leite da Silva Dias, pro-fessor do Instituto de Astronomia, Geo-fsica e Cincias Atmosfricas (IAG) daUniversidade de So Paulo (USP) e par-ticipante do projeto. Dias lembra que ainfluncia dos jatos mais evidente du-rante o vero, quando a umidade in-tensa; no inverno, estao mais seca, oimpacto tende a diminuir.

    Os jatos que representam as fontesde chuvas, no entanto, podem servircomo meio de deslocamento para ele-mentos nem to bem-vindos. O pro-

    blema que os jatos tambm podemtransportar a fumaa das queimadas,alerta Marengo, principal autor dosartigos cientficos que detalham essesresultados, publicados na revista Cli-mate Dynamics em janeiro deste ano ena Journal of Climate em junho de2004. Com o desmatamento aumen-tando, diz ele, supe-se que a reduoda contribuio do vapor dgua da ve-getao da Amaznia para a atmosfe-ra afete sensivelmente o transporte deumidade para a bacia do Prata, comconseqncias diretas sobre as estaeschuvosas, embora ainda no seja poss-vel quantificar essa mudana. O alertafaz sentido. Entre 2003 e 2004, o Inperegistrou o segundo maior ndice dedesmatamento da Floresta Amaznica,desde que a srie de acompanhamentofoi criada, em 1988. Foram 26.130 qui-lmetros quadrados de rvores destru-das, uma rea semelhante ao Estado deAlagoas.

    Fumaa e poeira - O impacto das quei-madas, uma das principais estratgiasutilizadas para a expanso das frontei-ras agrcolas, bem conhecido: ameaade extino de espcies de animais e deplantas e eroso do solo, que fica menosprotegido. A fumaa e os gases libera-dos como o monxido de carbono eo oznio concentram-se no ar e tor-nam o clima mais seco e as temperatu-ras, mais altas. Por causa dos jatos debaixos nveis, possvel afirmar quemesmo quem vive nas regies Sul ouSudeste do pas e mesmo em pases vi-zinhos no est livre dessas conseqn-cias. Embora a emisso de fumaa sejalocalizada, seu impacto global. Comas queimadas, os jatos tornam-se me-nos caudalosos e, em vez do vapordgua, ajudam a transportar poeira egases poluentes para o Prata.

    As alteraes sobre o clima da Re-gio Sul podem ser significativas. Se-gundo o Inpe, em janeiro de 2002 aquantidade mdia de chuvas nos esta-dos do Rio Grande do Sul e de SantaCatarina foi de 100 a 150 milmetros;em 2003, no mesmo perodo, a mdiafoi mantida com a diferena que, emuma longa faixa territorial localizadano sul gacho, esse valor caa para 50-100 milmetros. No ano seguinte, osdois estados registraram chuvas totaisde 50-100 milmetros, sendo que, no

    50 AGOSTO DE 2005 PESQUISA FAPESP 114

    O PROJETO

    Componente Brasileira do Experimento de Campo do Jato de Baixos Nveis a Leste dos Andes:Interaes em Meso e Grande Escala entre as Bacias Amaznica e do Prata (Salljex-Brasil)

    MODALIDADEProjeto Temtico

    COORDENADORJOS ANTONIO MARENGO ORSINI CPTEC/Inpe

    INVESTIMENTOR$ 1.150.742,09 (FAPESP)

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  • noroeste gacho, a quantidade chegavaa apenas 25-50 milmetros. A situaomelhorou em janeiro ltimo, quandoRio Grande do Sul e Santa Catarina vol-taram a anotar quantidade de chuvasentre 100 e 150 milmetros. verdadeque os jatos de baixos nveis no so osnicos responsveis pelas chuvas, asso-ciados tambm s massas de ar frio quepartem do plo Sul e s correntes ma-rtimas, alm do El Nio, que esquentaas guas do oceano Pacfico.

    Menos chuva - A economia da bacia doPrata depende basicamente da agricul-tura e da pecuria, que por sua vez de-pendem das estaes chuvosas, dizTercio Ambrizzi, professor do IAG daUSP que participou do projeto. Essapreocupao tambm se justifica. A sa-fra da Regio Sul em 2003/2004 foi deaproximadamente 49 milhes de tone-ladas, mas a previso que caia para 45milhes em 2004/2005. Os especialistasespeculam que a alterao no perfil daschuvas, causada pela variabilidade na-

    tural de clima e pela ao humana, es-pecialmente as queimadas da Amaz-nia, pode ser uma das responsveis poressa queda da produtividade, j que area cultivada manteve-se estvel.

    Esse tipo de transporte de umidadecomeou a ser estudado h quatro d-cadas, quando o norte-americano Wil-liam Bonner estabeleceu a relao entreos jatos de baixos nveis nascidos nogolfo do Mxico e o clima mido dasplancies centrais dos Estados Unidos.Depois o alemo Gordon Gutman, quevivia na Argentina, identificou ventossemelhantes que caminhavam ao longodos Andes, mas foi o tanzaniano Has-san Virji, radicado nos Estados Unidos,quem demonstrou a existncia dos ja-tos tambm na Amrica do Sul, j noincio dos anos 1980.

    Vinte anos depois, no dia 19 de ja-neiro de 2003, em Santa Cruz, na Bol-via, o avio emprestado pelo NationalOceanic and Atmospheric Administra-tion, dos Estados Unidos, usado com osbales na coleta de dados, detectou jatos

    de baixos nveis em quantidade eleva-da, viajando a uma velocidade prximaa 40 quilmetros por hora. No dia 20atingiam 50 km/h. Um dia depois enor-mes nuvens cobriam os cus da Argen-tina e do Paraguai eram os Comple-xos Convectivos de Mesoescala. Fortestempestades atingiram esses dois pa-ses nos dias 22 e 23 de janeiro. Acom-panhamos todo o processo, desde a for-mao dos jatos na Amaznia at astempestades do Prata, comemora Ma-ria Assuno.

    Mas nem sempre os jatos de baixosnveis aparecem nos boletins de previ-so do tempo. O problema no est naresoluo dos modelos meteorolgicos,mas no fato de haver poucas estaesde observao na Regio Norte do pas.A Organizao Meteorolgica Mundialrecomenda uma estao a cada 500 qui-lmetros, mas na Amaznia a distnciapode chegar a mil quilmetros. Por isso,os jatos muitas vezes passam desperce-bidos e as tempestades no Prata no soprevistas com tanta antecedncia.

    PESQUISA FAPESP 114 AGOSTO DE 2005 51

    A dupla funo da cordilheira dos Andes: barreira e aceleradora dos ventos rumo ao sul

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  • Enquanto achuvano chega

    52 AGOSTO DE 2005 PESQUISA FAPESP 114

    o sentir os primeiros sinaisde que a terra est esquen-

    tando e a gua escassean-do,a jia-de-parede se

    enfia de costas numestreito buraco de r-

    vore e se fecha usando como tampa suacabea chata e ossuda em forma deescudo.Essa perereca de pelelisa e mida,que mede de 10a 15 centmetros de compri-mento com as patas estica-das,pode ficar alojada alidentro durante meses ouanos,dependendo da in-tensidade da seca,pra-ticamente sem perdergua,at a chuva voltar.Passa os dias imvel,meiozonza de sono,e s acorda noite,caso detecte alguminseto por perto.Nesse caso,rapidamente o abocanha e,sa-ciada,retorna ao estado de dor-mncia,com o organismo funcionan-do lentamente.A Corythomantis greeningi um exemplo notvel de adaptao de anfbios crnica falta dgua do serto nordestino.

    Por dcadas se pensou que sua habilidade depoupar gua se devesse somente sua cabea secae dura como uma pedra,que fecha a entrada doburaco ou das fendas de rochas em que se esconde.

    ZOOLOGIA

    Mas uma equipe do Instituto Butantan coordena-da pelo bilogo Carlos Jared demonstrou que a ca-bea por si s,mesmo funcionando como tampa,colabora pouco para a economia de gua. O pr-prio ato de esconder-se e de criar uma barreiracom parte do corpo permite uma brutal economia

    hdrica,diz.Em um artigo publicado narevista inglesa Journal ofZoology ,

    Jared e outros pesquisadores doButantan,da Universidade de

    So Paulo (USP) e da Uni-versidade Federal de SoPaulo (Unifesp) demons-tram que essa cabea ra-ra tem um papel muitomais importante:pro-teger a perereca contrapredadores. Alm de serum capacete, coberta

    por espinhos e glndulasde veneno,liberado por

    meio de protuberncias se-melhantes a verrugas escuras,

    bem maiores na cabea que norestante do corpo.

    Mesmo sabendo do veneno,Jared,como propsito de mostrar quo dura e magra a ca-bea dessa perereca,segura com a m o um dos 16exemplares trazidos de Angicos, no Rio Grande doNorte,e mantidos no biot rio do Butantan.Sen-tindo-se preso,o animal imediatamente come a agirar e a esfregar o crnio entre os dedos de Jared,

    Perereca exclusiva da Caatinga vive em buracos de rvore que fecham com sua cabea dura e espinhosa

    CARLOS FIORAVANTIFOTOS CARLOS JARED

    CINCIA

    A

    52a53-114-pesquisa-perereca 27/7/05 7:27 PM Page 52

  • liberando um lquido esbranquiado eviscoso, cuja letalidade se aproxima do veneno da jararaca, como uma equi-pe do Butantan atestou. Di um pou-co, mas foi superficial, no entrou nacorrente sangnea, diz o bilogo antesde lavar as mos apressadamente. Jaredhavia sugerido em um estudo publica-do em 1999 que a secreo da pele des-sa espcie teria tambm uma ao an-tibitica, j que o animal permaneciamuito tempo fechado em um ambien-te mido, provavelmente povoado porfungos e bactrias. Como outra equipedo Butantan comprovou, h de fato umantibitico nessa secreo da pele.

    Camuflagem natural - Na luta contraos predadores, a jia-de-parede contatambm com os espinhos que formamuma camada ssea na pele e cobremtoda a cabea, at mesmo as plpebras.Com esses espinhos, diz Jared, ficamuito difcil para os predadores aboca-nhar a perereca ou tir-la de seu escon-derijo. Ele acredi-ta que os espinhose as glndulas deveneno funcionemat contra animaispequenos como osinsetos hemat-fagos que tenhamdescoberto sua ca-muflagem a ca-bea tem a mesmatextura e cor dascascas de rvore e queiram tirar-lhealgum sangue.

    Identificada em1896 pelo bilogobelga George Al-bert Boulanger apartir de exemplares mantidosno British Museum, em Londres,essa espcie exclusiva da Caatin-ga ganhou o nome popular de jia-de-parede porque s vezes aparecegrudada nas paredes dos banhei-ros das casas do norte de MinasGerais at o Maranho. tambmuma forma de diferenciar da jia ver-dadeira, tambm chamada de r-pi-menta (Leptodactylus labyrinthicus),de porte mais impressionante, dez ve-zes mais pesada que a jia-de-parede ecapaz de comer dois camundongos in-teiros com uma s abocanhada.

    Outros anfbios se valem de artif-cios at mesmo opostos que lhes permi-tem resistir ao atordoante calor dosemi-rido. o caso do sapo-cururu(Bufo jimi), um grandalho exibido:pode ser visto caando insetos at mes-mo sob um sol intenso. Ele resiste por-que, segundo Jared, sua pele consti-tuda por uma espessa camada degrnulos de clcio que barra a sada degua. Essa armadura parece estar au-sente s na regio da virilha, intensa-mente vascularizada, por onde a guapenetra no corpo dos anfbios. Umsapo sentado sobre uma regio midapode estar bebendo gua sua manei-ra, diz o bilogo do Butantan.

    J as rs Proceratophrys cristiceps,outra espcie exclusiva da Caatinga,abrem caminho procura de umidadecom as patas traseiras na areia do leitode rios temporrios, cuja superfcie jsecou. Podem ficar enterradas em umacoluna de at 1 metro de areia e res-surgir adormecidas quando os mora-

    dores locais cavam um poo nos riossecos em busca de gua. O estado detorpor com que a Proceratophrys se exi-be nessas horas o equivalente dos tr-picos hibernao a chamada esti-vao, acionada pela seca ao invs dofrio, quando o metabolismo dos ani-mais praticamente pra.

    Quando a chuva volta, nos primei-ros meses do ano, as plantas renascemde um dia para o outro, a terra se cobrede verde e as pererecas, as rs e os sapossaem do estado de torpor: comea en-to o roc-roc-roc dos machos pro-cura das fmeas para o acasalamento.As Proceratophrys machos cantam emunssono e criam um som forte quemesmo as fmeas mais distantes con-seguem escutar. No se pode perdertempo: preciso reproduzir-se e ali-mentar-se com rapidez, antes que apoca das chuvas termine e a seca voltea assolar o serto.

    Fugindo da seca: a jia-de-parede

    passa meses escondida ( esquerda), protegend0-se

    com sua cabea cheia de espinhos (no detalhe).

    S reaparece com as primeiras chuvas do ano

    52a53-114-pesquisa-perereca 27/7/05 7:28 PM Page 53

  • onaldo de Sou-za e DimitriGadotti, astr-nomos da Uni-versidade de SoPaulo (USP),

    dispuseram-se nos ltimos cinco anosa investigar como e quando se forma-ram as galxias.Hoje no tm todas asrespostas,claro,mas conseguem expli-car melhor a formao e o desenvolvi-mento de cerca de um tero do 1 bilhode galxias existentes no Universo.Aobservao de quase uma centena des-ses aglomerados de estrelas,aliada perspiccia de recorrer a um antigoteorema da mecnica clssica,permitiuaos dois astrnomos elaborar um pro-grama de computador que calcula aidade e as dimenses de estruturas pe-culiares de galxias similares Via Lc-tea,que abriga o Sistema Solar.Souza eGadotti constataram que essas estrutu-ras com a forma aproximada de retn-gulos ou barras podem ser relativa-mente recentes ou,nos casos extremos,quase to antigas quanto as prpriasgalxias chamadas de barradas.So asbarras,como eles verificaram,que ali-mentam a regio central dessas gal-xias com poeira e gs que formaro no-vas estrelas.O modelo matemtico quecriaram est ajudando a reclassificar atmesmo outros tipos de galxias.

    ASTRONOMIA

    R As galxias barradas so similares Via Lctea,classificada como gal xiaespiral,porque tamb m apresentamcentenas de milhes de estrelas na re-gio central em forma de esfera o n-cleo e outras centenas de milhes dis-persas em um fino disco de gs e poeirasemelhante a um redemoinho csmi-co. Uma caracterstica das barradas que,naquela faixa luminosa em formade retngulo,a densidade de estrelas maior que no disco,mas inferior doncleo, tambm chamado de bojo.

    Uma srie de estudos tericos atri-bua s barras o papel de fermento ga-lctico.Formadas em regi es de maiorconcentrao de estrelas no disco,es-sas estruturas crescem como um pono forno,mas muito lentamente emat bilhes de anos. medida que setornam mais espessas que o disco,asbarras alimentam o bojo das galxiascom poeira e gs, matrias-primas pa-ra a produo de estrelas,contribuindopara o acmulo de matria no ncleo.Mas esse era um panorama construdoa partir de simulaes em computador.Faltavam dados de observao diretapara confirmar se o comportamento doCosmo era mesmo esse. Cinco anosatrs,quase nada se sabia sobre a idade,as dimenses e a evoluo das barras,comenta Souza,coordenador dessa li-nha de estudos que integra um projeto

    Regies mais adensadas de galxias similares Via Lctea fornecem gs e poeirapara a formao de outras estrelas

    Fermento csmico

    CINCIA

    temtico sobre a evoluo de galxias,conduzido por Sueli Viegas,do Institu-to de Astronomia,Geof sica e CinciasAtmosfricas (IAG) da USP.

    Os primeiros sinais de que o mode-lo estava certo surgiram em 2001.Emparceria com a astrnoma Sandra dosAnjos, tambm do IAG,Gadotti anali-sou imagens de 257 galxias espirais.Constatou que realmente h uma con-centrao maior de estrelas jovens nobojo das galxias barradas como aNGC 4314 direita do que no ncleodaquelas sem barra.Era um ind cio deque as barras alimentam a regio cen-tral dessas galxias,uma vez que as es-trelas em geral se formam em regiesdistantes dali,no disco.

    Medidor de galxias - Com o auxlio deum telescpio no hemisfrio Norte ede outro no hemisfrio Sul,os astr -nomos da USP observaram as carac-tersticas de 14 galxias que aparecemno cu prximas projeo da linha doEquador,o chamado Equador Celeste.Ao longo de dez noites de 1999,2000 e2002,Souza e Gadotti registraram empontos do disco,da barra e do bojo decada galxia a mdia das velocidadescom que as estrelas se deslocam,apro-ximando-se ou se afastando do obser-vador em Terra medida conhecidacomo disperso de velocidades.Desco-

    54 AGOSTO DE 2005 PESQUISA FAPESP 114

    54a55-114-pesquisa-galaxias 27/7/05 6:59 PM Page 54

  • PESQUISA FAPESP 114 AGOSTO DE 2005 55

    RO

    NA

    LDO

    DE

    SO

    UZA

    / IA

    G-U

    SPbriram que, no disco, as estrelas se mo-

    vimentam a velocidades que, em m-dia, variam de 5 a 20 quilmetros porsegundo (km/s), enquanto esses valoresso prximos a 100 km/s no bojo.

    Foram essas medidas que permiti-ram aos pesquisadores estimar a idadedas barras. Identificamos barras bas-tante jovens, formadas h 1 bilho deanos, e outras mais evoludas, quaseto antigas quanto as prprias galxias,formadas cerca de 10 bilhes de anosatrs, afirma Gadotti, atualmente no la-boratrio da astrnoma grega Lia Atha-nassoula, no Observatrio Astronmicode Marselha-Provena, na Frana. Iso-lados, porm, esses dados eram insufi-cientes para determinar a espessura e otempo de formao dessas estruturas.

    Para definir a espessura das barras,os astrnomos recorreram a um antigoteorema da mecnica clssica o Teo-rema de Virial, proposto em 1870 pelofsico alemo Rudolf Clausius , pormeio do qual associaram a dispersodas velocidades das estrelas massadas diferentes regies das galxias. Feitosos clculos, concluram: a formaodas barras dura de 1 a 2 bilhes de anos,quando elas atingem sua espessura m-xima, correspondente a duas ou trsvezes do disco. Em uma galxia bar-rada com a dimenso da Via Lctea, aespessura do disco seria de cerca de 9,5

    quatrilhes de quilmetros e a da barra,de 19 a 27 quatrilhes de quilmetros o tripulante de uma nave capaz de via-jar a velocidades prximas da luz le-varia entre 19 mil e 27 mil anos parapercorrer a espessura da barra. Tambmobservaram que essas barras podemdesaparecer e depois ressurgir, numprocesso cclico que alimenta continua-mente o bojo da galxia.

    Novas formas - Outro achado surpreen-dente: duas galxias com uma barrabastante desenvolvida, mas sem o discoque a teria originado uma estruturainusitada. Uma avaliao mais deta-lhada revelou que, na realidade, a re-gio interna do disco havia desapareci-do, restando apenas seu resqucio: umanel que envolvia a barra e o bojo. Ain-da no existe uma explicao consen-sual para a ausncia de disco. Em umartigo publicado no Astrophysical Jour-nal em 2003, Souza e Gadotti propu-seram duas possibilidades: ou essas ga-lxias so exemplos extremos em que aformao da barra consumiu quasetodo o disco, ou estariam envoltas emum halo ligeiramente achatado deuma forma de matria que no emiti-ria luz e, portanto, no poderia ser ob-servada pelos telescpios a chamadamatria escura. Testamos o modeloda matria escura e constatamos que o

    halo com forma elptica pode induzir formao das barras mesmo sem aexistncia do disco, explica Gadotti.

    O programa de computador que ele,Souza e Sandra criaram deve tambmfacilitar a vida dos astrnomos que sededicam classificao das galxias se-gundo sua forma. Esse mtodo, criadopelo astrnomo Edwin Hubble em1926, separa as galxias em dez catego-rias, que incluem das esferides, combojo semelhante a uma esfera perfeita esem disco, s elpticas e s espirais comou sem barras. Chamado Budda (siglaem ingls para Anlise da Decomposi-o Bojo/Disco), o programa usa equa-es desenvolvidas pela equipe do IAGpara analisar 11 parmetros relacio-nados luminosidade e geometriado disco e do bojo da galxia antesobservavam-se s trs parmetros. Noprimeiro teste foram examinadas ima-gens de 51 galxias observadas no La-boratrio Nacional de Astrofsica, emMinas Gerais. E o Budda impressionouao identificar estruturas ocultas comodiscos que no podiam ser observadosou a existncia de barras secundrias e detectar incorrees na classificaode 15 galxias. Estima-se que de 10% a15% das galxias estejam classificadasem categorias erradas.

    Sementes de estrelas:faixa luminosa de poeira e

    gs alimenta a regiocentral da galxia NGC 4314

    RICARDO ZORZETTO

    54a55-114-pesquisa-galaxias 27/7/05 6:59 PM Page 55

  • O Comit Consultivo SciELO Brasil aprovou o pedido de incluso de quatro novos ttulos que, em breve, estaro disponveis no site SciELO Brasil. Em Cincias Biolgicas entrou Entomologia y Vectores e, em Cincias Humanas, Krteron: Revista de Filosofia, RAE Eletrnica e Revista Brasileira de Educao. Informao complementar sobre o processo de seleo e avaliao de peridicos da coleo SciELO Brasil pode ser acessada a partir do endereo: www.scielo.br/avaliacao/ avaliacao_pt.htm

    Biblioteca de Revistas Cientficas disponvel na internet www.scielo.org

    Notcias Histria

    Paixo pela cincia A relevncia do

    arquivo de Carlos Chagas Filho para os estudos da his- tria da cincia no sculo 20 o mote do artigo "Cincia, poltica e paixo: o arquivo de Carlos Chagas Filho", de Ana Luce Giro Soares de Lima, Francisco dos Santos Loureno e Ricardo Augusto dos San- tos, da Casa de Oswaldo Cruz (COC), e Ceclia Chagas de Mesquita e Leonardo Arruda Gon- alves, da Universidade Federal Fluminense, no Rio de Janeiro. O estudo tem como base docu- mentos referentes s instituies em que Chagas Filho atuou, tais como a Organizao das Na- es Unidas para a Educao, a Cincia e a Cul- tura (Unesco) e a Academia Pontifcia de Cin- cias do Vaticano, alm daquelas em que ele foi o criador, como o Instituto de Biofsica da Uni- versidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A inteno desse trabalho resgatar facetas da trajetria do cientista dentro dos processos de formulao de polticas pblicas de desenvolvi- mento e valorizao da prtica cientfica no Brasil e no exterior. "Vivemos um perodo em que, com a valorizao da histria cultural, os pesquisadores debruam-se cada vez mais so- bre as biografias, entendidas no apenas como um gnero literrio, mas tambm como aque- las que nos so descortinadas pelos arquivos, esses nossos velhos conhecidos", afirmam os pesquisadores. O estudo defende que um ar- quivo pessoal est longe de ser uma biografia, mesmo porque lhe falta a retrica, inerente ao trabalho do historiador, ou o estilo literrio do escritor. "Entretanto, no pode ser tratado como um mero vestgio espera de quem lhe d sentido, pois rico portador de uma infini- dade de registros, a verdadeira dimenso mate- rial da memria." Chagas Filho nasceu no Rio de Janeiro em 12 de setembro de 1910. Mdico, formado pela Faculdade de Medicina da Uni- versidade do Rio de Janeiro, teve como lega- do uma fortssima herana cientfica, carregada at mesmo no nome. Dentre os grandes blocos

    temticos presentes no arquivo, destacam-se: a fundao do Instituto de Biofsica em 1945, ma- triz para a elaborao de uma poltica cientfi- ca no Brasil, e as pesquisas com o peixe-eltrico ou poraqu, Electrophorus electricus, e o curare, substncia com ao farmacolgica comprova- da, extrada de vrias espcies de vegetais, am- bos originrios da regio Amaznica.

    HISTRIA, CINCIAS, SAODE-MANGUINHOS - VOL. 12 - N 1 - Rio DE JANEIRO - JAN./ABR. 2005

    www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=Soi04- 5970200500oioooio&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt

    Educao

    Anlise crtica da psiquiatria A alegria de passar na residncia mdica de

    psiquiatria talvez seja comparvel, em intensida- de, ao desespero sentido pelo residente quando se d conta da quantidade de informao que o espera. E pior: ter apenas dois anos para ab- sorver tudo. " difcil entender como uma das especialidades que mais crescem com a medici- na pode ser assimilada em to curto perodo de tempo", dizem os autores do artigo "Residncia em psiquiatria no Brasil: anlise crtica", Bruno Coelho, Marcus Zanetti e Francisco Lotufo Ne- to, da Faculdade de Medicina da Universidade de So Paulo (USP). "A psiquiatria evoluiu mui- to nas ltimas dcadas e seu estudo tornou-se, conseqentemente, mais complexo", explica o es- tudo. "Os avanos em neurocincias, aliados aos estudos clssicos de psicopatologia, psicofar- macologia, psicoterapia e neurologia, influen- ciaram grandemente o diagnstico e o trata- mento psiquitricos. Apesar disso, a residncia em psiquiatria no Brasil no se adequou a essa nova realidade", apontam os pesquisadores. Par- tindo das recomendaes da World Psychiatry Association (WPA), o artigo compara diversos programas de residncias brasileiros com os de pases das Amricas e Europa. A idia foi pro- por um currculo mnimo para a residncia em psiquiatria no Brasil. Segundo o estudo, alguns pontos se destacam na maioria dos programas pesquisados. Entre eles: durao mnima de trs anos, estgio integral em neurologia por no mnimo um ms, ensino e prtica das diversas

    58 AGOSTO DE 2005 PESQUISA FAPESP114

  • linhas psicoterpicas e abrangncia das vrias etapas da vida (crianas, adultos e idosos). "Porm, o modelo brasileiro de residncia em psiquiatria encontra-se de- fasado em relao formao proposta pela WPA. A residncia necessita, respeitando as diferenas regio- nais de cada escola, prover o mnimo para uma boa formao do psiquiatra", citam os autores. Levando em considerao as atuais limitaes do modelo pedag- gico e curricular, o artigo prope uma reestruturao dos programas de residncia mdica em psiquiatria no Brasil, a comear pelo tempo de formao mnimo exigido. "A especializao fruto do desenvolvimento, mas, como o paciente um todo, necessria a inte- grao. Para isso preciso tempo."

    REVISTA DE PSIQUIATRIA DO RIO GRANDE DO SUL - VOL. 27 - N 1 - PORTO ALEGRE - JAN./ABR. 2005

    www.scielo.br/scielo.ph p?script = sci_a rttext&pid = Soioi- 8io820050ooioooo2&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt

    Protocolo Combate desnutrio infantil Avaliar a evoluo antropomtrica, terapia nutricio-

    nal e mortalidade de crianas desnutridas hospitali- zadas em um centro de referncia da cidade de So Paulo. Este foi o objetivo do estudo "Tratamento da desnutrio em crianas hospitalizadas em So Paulo". "Tem sido observada uma significativa reduo na prevalncia da desnutrio energtico-protica em di- versas partes do mundo, incluindo o Brasil. Apesar dis- so, tal doena ainda se configura como importante problema de sade pblica, especialmente em crianas menores de 5 anos", apontam os pesquisadores. Por conta disso, o estudo retrospectivo avaliou 98 prontu- rios de crianas desnutridas, sem doena crnica asso- ciada. Foram coletadas informaes como diagns- tico e tempo de internao, tipo, via e tolerncia da dieta, alm de peso e estatura na internao e na alta. O artigo alerta para os elevados ndices de letalidade, inalterados nas ltimas dcadas, ocorrendo especial- mente nas formas graves de desnutrio. "Uma das causas provveis para esse fato reside no desconheci- mento dos profissionais de sade com relao fisio- patologia da desnutrio energtico-protica (DEP) grave. E, conseqentemente, a instituio aplica terapias inadequadas que resultam em srias complicaes lo- go nos primeiros dias da internao hospitalar, culmi- nando com a morte." Tendo em vista a necessidade de atualizao e adequada capacitao dos profissionais de sade envolvidos na assistncia a crianas grave- mente desnutridas, a Organizao Mundial da Sade (OMS) publicou e divulgou, em 1999, um manual com essa finalidade. "O protocolo da OMS efetivo no tratamento de crianas gravemente desnutridas, pro- piciando recuperao nutricional satisfatria com bai- xo ndice de letalidade", conclui o estudo. Experincias positivas dessa reduo j foram observadas em re-

    gies como Bangladesh, frica do Sul e Brasil. Segun- do o artigo, a facilidade de implantao deste protoco- lo, que pode ser efetuado em cerca de uma semana, jus- tifica sua utilizao em larga escala.

    REVISTA DA ASSOCIAO MDICA BRASILEIRA - VOL. 51 - N 2 - SO PAULO - MAR./ABR. 2005

    www.scielo.br/scielo. prip?script=sci_arttext&pid=Soio4- 423020050oo20ooi8&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt

    Agronegcio Os poderes da soja O consumo de soja

    tem sido associado reduo do risco de doenas crnicas. As isoflavonas, compostos fenlicos encontrados na soja, esto envolvi- das em atividade anti- carcinognica, reduo da perda de massa s- sea e diminuio do colesterol do sangue. O artigo "Isoflavonas em produtos comerciais de soja" mostra que no Brasil, o segundo produtor mundial de soja, cerca de 70% do farelo de soja destinado ex- portao e os 30% restantes utilizados em rao ani- mal. Com o crescente aumento da procura por alimen- tos base de soja no pas, diversos produtos tm sido lanados no mercado e pouco se conhece quanto presena e a concentrao das isoflavonas. Por conta disso, o estudo, assinado por Silvana Favoni e Adelaide Belia, da Universidade Estadual de Londrina (UEL), e Mercedes Panizzi e Jos Mandarino, ambos do Centro Nacional de Pesquisa da Soja (Embrapa Soja), procu- rou identificar a concentrao de isoflavonas em pro- dutos base de soja produzidos no Brasil. Foram ana- lisados cinco tipos de farinha de soja, quatro tipos de protenas texturizadas, dois extratos hidrossolveis em p e quatro tipos de formulados infantis. A distribui- o do teor total de isoflavonas nos produtos analisa- dos variou em funo das condies de processamen- to, sendo a temperatura durante o desenvolvimento do gro o fator mais importante. Em farinha de soja e em protena texturizada, por exemplo, predominaram os compostos malonil-conjugados, enquanto em ex- tratos hidrossolveis e formulados infantis predomi- naram os b-glicosdeos. Em formulados infantis base de soja, o teor de agliconas foi proporcionalmente su- perior ao apresentado pelas farinhas analisadas.

    CINCIA E TECNOLOGIA DE ALIMENTOS - VOL. 24 - N 4 - CAMPINAS - OUT./DEZ. 2004

    www.scie lo.br/scielo. php?scri pt=sci_arttext&pid=Soioi- 2o6i200Z)0004oooi7&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt

    PESQUISA FAPESP 114 AGOSTO DE 2005 59

  • I TECNOLOGIA

    Um laptop barato e revolucionrio

    O laptop popular, de US$ 100, que seria capaz de revolucio- nar o ensino pblico em pa- ses pobres, ainda no existe. Mas o idealizador da verso supereconmica de um PC porttil, Nicholas Negropon- te, fundador e coordenador do Laboratrio de Mdia do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), no se cansa de procurar parceiros de peso dispostos a abraar a idia. Sobretudo os governos de pases em desenvolvimen- to, como a China e a ndia, que, em tese, poderiam com- prar milhes de mquinas para seus alunos e, assim, dar economia de escala ao proje- to. No final de junho, Negro- ponte esteve no Brasil, onde foi recebido pelo presidente Lula. O professor norte-ame- ricano, que lanou o projeto do laptop popular em janeiro

    passado, durante o Frum Mundial Econmico na cida- de sua de Davos, explicou como seria o microporttil e props ao governo brasilei- ro a aquisio de 1 milho de unidades da engenhoca para uma experincia piloto. En- quanto o Brasil e outros gi- gantes subdesenvolvidos no respondem se aderem ou no iniciativa, os pesquisadores do MIT garantem que a tec-

    nologia para construir o PC de US$ 100 j est disponvel. Sem fios e com conexo para celulares, o laptop popular, segundo Negroponte, no te- ria "gorduras", mas faria qua- se tudo o que um laptop bem mais caro faz. Somente sua capacidade de armazenar da- dos seria bem menor do que a dos micros atuais. Seu disco rgido teria cerca de 1 gigaby- te, pouco mais do que o con-

    Eficincia com eletrnica simples e pouca memria

    tedo de um CD-ROM. Essa caracterstica, no entanto, no afetaria o desempenho da mquina, que viria equipada com um microprocessador de 500 megahertz (MHz). Sua tela de 12 polegadas cus- taria no mximo US$ 25 e usaria uma forma alternativa - e barata - de projetar ima- gens. Apenas programas de uso livre e gratuito seriam usados no laptop.

    Papel eletrnico flexvel e colorido

    A empresa japonesa Fujitsu desenvolveu um papel eletr- nico flexvel e colorido que possui memria para arma- zenar as imagens mostradas. O novo papel, que funciona com baixo consumo de ener- gia eltrica, constitui-se de um filme de polmero super- fino, formado por trs cama- das nas cores vermelha, azul e verde e recoberto com circui-

    60 AGOSTO DE 2005 PESQUISA FAPESP114

  • Hidrognio no ar As pesquisas para uso de hidrognio nos motores de avies comeam a crescer. A primeira foi a Boeing, que anunciou os primeiros estudos de clulas a combustvel nas turbinas dos avies. Esses geradores semelhantes a bateria de carros transformam hidrognio e oxignio em energia eltrica produzindo menos poluio, alm de serem mais silencio- sos e mais eficientes, como mostram as provas de quase to- das as montadoras de automveis que testam esse equi- pamento. Agora foi a vez da empresa norte-americana AeroVironment, que construiu e testou com sucesso um avio no-tripulado com 15 metros de envergadura chama- do de Global Observer Hale. O prottipo da empresa fun- ciona com hidrognio lquido, embora a empresa no re- vele se o propulsor uma clula a combustvel. Isso provavelmente acontece porque o avio faz parte de um projeto confidencial e poder ser usado pelo governo nor- te-americano em misses militares. Mas o equipamento, que poder voar na altitude de 19 quilmetros, tambm servir para monitorar furaces, tempestades, incndios florestais e reas de agricultura e pecuria, alm de fazer imagens areas.

    tos eletrnicos. Ao anunciar a nova tecnologia, a empresa informou que, como no necessrio o uso de filtros de cores, elas so reproduzidas de maneira mais intensa que nas telas convencionais de cristal lquido. Entre as apli- caes previstas para o novo papel, que a empresa pretende colocar no mercado at 2007, est o uso em painis publici- trios, alm de transferncia de textos ou imagens de tele- fones celulares ou outros dis- positivos portteis para telas

    maiores, sem a necessidade de cabos. Outras aplicaes do papel eletrnico incluem os cardpios de restaurantes, cartazes em lojas e manuais. A memria desenvolvida per- mite que uma mesma ima- gem seja mostrada continua- mente, sem consumo de eletricidade. Alm de superar todas as mdias utilizadas atualmente, a maioria basea- da em LEDs, ou diodos emis- sores de luz, o papel eletrni- co tambm pode ser aplicado sobre superfcies curvas.

    Superfino, o novo papel eletrnico

    possui memria para armazenar

    imagens

    BRASIL

    Cores precisas no consultrio

    Refletor com luz fria e baixo consumo de energia

    Um novo refletor desenvolvi- do para o mercado odontolo- gia), em fase final de testes, permitir aos dentistas enxer- gar as cores exatas de dentes e gengivas. O equipamento uti- liza a tecnologia chamada LED, sigla em ingls para dio- do emissor de luz, que pro- duz uma luz totalmente bran- ca. "O LED permite revelar com bastante fidelidade o que o dentista est vendo", diz o professor Vanderlei Salva- dor Bagnato, do Instituto de Fsica da Universidade de So Paulo (USP) de So Carlos, que desenvolveu o novo apa- relho em parceria com a em- presa Gnatus, fabricante de equipamentos mdico-odon- tolgicos. As lmpadas hal- genas usadas atualmente nos refletores dos consultrios tm uma tonalidade mais amarelada e, por isso, dificul- tam a visualizao. Como o diodo emissor tem um prin- cpio de produo de luz di- ferente da lmpada de fila- mento, ele no emite calor e, portanto, no causa descon-

    forto ao paciente. Outra van- tagem que, como se trata de uma luz fria, baixo o consu- mo de energia, sem contar que a lmpada tem uma vida til muito maior.

    Prmio incentiva a inovao

    A Siemens lanou a primeira edio do Prmio Werner von Siemens de Inovao Tecno- lgica, para comemorar os cem anos em que est instala- da no Brasil. A iniciativa abre espao para projetos de estu- dantes e pesquisadores das reas de telecomunicaes, tecnologia da informao, automao e controle, gerao, transmisso e distribuio de energia, solues eletromdi- cas, transporte metroferrovi- rio, iluminao e tcnica au- tomotiva, as mesmas em que a empresa atua. Os primeiros colocados recebero R$ 15 mil e um trofu. As inscries, que se encerram no dia 2 de se- tembro, podem ser feitas pelo site www.siemens.com.br.

    PESQUISA FAPESP 114 AGOSTO DE 2005 61

  • Hidrognio no ar As pesquisas para uso de hidrognio nos motores de avies comeam a crescer. A primeira foi a Boeing, que anunciou os primeiros estudos de clulas a combustvel nas turbinas dos avies. Esses geradores semelhantes a bateria de carros transformam hidrognio e oxignio em energia eltrica produzindo menos poluio, alm de serem mais silencio- sos e mais eficientes, como mostram as provas de quase to- das as montadoras de automveis que testam esse equi- pamento. Agora foi a vez da empresa norte-americana AeroVironment, que construiu e testou com sucesso um avio no-tripulado com 15 metros de envergadura chama- do de Global Observer Hale. O prottipo da empresa fun- ciona com hidrognio lquido, embora a empresa no re- vele se o propulsor uma clula a combustvel. Isso provavelmente acontece porque o avio faz parte de um projeto confidencial e poder ser usado pelo governo nor- te-americano em misses militares. Mas o equipamento, que poder voar na altitude de 19 quilmetros, tambm servir para monitorar furaces, tempestades, incndios florestais e reas de agricultura e pecuria, alm de fazer imagens areas.

    tos eletrnicos. Ao anunciar a nova tecnologia, a empresa informou que, como no necessrio o uso de filtros de cores, elas so reproduzidas de maneira mais intensa que nas telas convencionais de cristal lquido. Entre as apli- caes previstas para o novo papel, que a empresa pretende colocar no mercado at 2007, est o uso em painis publici- trios, alm de transferncia de textos ou imagens de tele- fones celulares ou outros dis- positivos portteis para telas

    maiores, sem a necessidade de cabos. Outras aplicaes do papel eletrnico incluem os cardpios de restaurantes, cartazes em lojas e manuais. A memria desenvolvida per- mite que uma mesma ima- gem seja mostrada continua- mente, sem consumo de eletricidade. Alm de superar todas as mdias utilizadas atualmente, a maioria basea- da em LEDs, ou diodos emis- sores de luz, o papel eletrni- co tambm pode ser aplicado sobre superfcies curvas.

    Superfino, o novo papel eletrnico

    possui memria para armazenar

    imagens

    BRASIL

    Cores precisas no consultrio

    Refletor com luz fria e baixo consumo de energia

    Um novo refletor desenvolvi- do para o mercado odontolo- gia), em fase final de testes, permitir aos dentistas enxer- gar as cores exatas de dentes e gengivas. O equipamento uti- liza a tecnologia chamada LED, sigla em ingls para dio- do emissor de luz, que pro- duz uma luz totalmente bran- ca. "O LED permite revelar com bastante fidelidade o que o dentista est vendo", diz o professor Vanderlei Salva- dor Bagnato, do Instituto de Fsica da Universidade de So Paulo (USP) de So Carlos, que desenvolveu o novo apa- relho em parceria com a em- presa Gnatus, fabricante de equipamentos mdico-odon- tolgicos. As lmpadas hal- genas usadas atualmente nos refletores dos consultrios tm uma tonalidade mais amarelada e, por isso, dificul- tam a visualizao. Como o diodo emissor tem um prin- cpio de produo de luz di- ferente da lmpada de fila- mento, ele no emite calor e, portanto, no causa descon-

    forto ao paciente. Outra van- tagem que, como se trata de uma luz fria, baixo o consu- mo de energia, sem contar que a lmpada tem uma vida til muito maior.

    Prmio incentiva a inovao

    A Siemens lanou a primeira edio do Prmio Werner von Siemens de Inovao Tecno- lgica, para comemorar os cem anos em que est instala- da no Brasil. A iniciativa abre espao para projetos de estu- dantes e pesquisadores das reas de telecomunicaes, tecnologia da informao, automao e controle, gerao, transmisso e distribuio de energia, solues eletromdi- cas, transporte metroferrovi- rio, iluminao e tcnica au- tomotiva, as mesmas em que a empresa atua. Os primeiros colocados recebero R$ 15 mil e um trofu. As inscries, que se encerram no dia 2 de se- tembro, podem ser feitas pelo site www.siemens.com.br.

    PESQUISA FAPESP 114 AGOSTO DE 2005 61

  • LINHA DE PRODUO DRASIL

    A prova da economia

    ^^^^B

    1 San- Wlackenzie, com o Evolution ( esq.), ficou em primeiro na pista da GM, e a UFMG, com o CEA M-i, em segundo

    difcil imaginar um car- ro capaz de percorrer 396,5 quilmetros com apenas 1 litro de gasolina. O de- safio de projetar um ve- culo to econmico foi vencido por estudantes de engenharia mecnica da Universidade Macken- zie, com o projeto Evolu- tion, coordenado pelo professor Jos Pucci. A equipe vencedora da Ma- ratona da Economia para Carros, realizada no ms de julho no campo de pro- vas da General Motors, em Indaiatuba, no interior de So Paulo, concorreu com outros 12 grupos, repre- sentantes de oito institui- es de ensino superior. A Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), segunda colocada, levou para a pista o prottipo CEA M-l, que atingiu a marca de 227,6 quilme- tros por litro. O terceiro lugar coube ao prottipo Revolution, tambm do

    Mackenzie, com 186,5 qui- lmetros. A prova consiste de quatro voltas na pista circular de 4.300 metros, no total de 17.200 metros, com um tanque abasteci- do com 200 mililitros de gasolina. Na direo, pi- lotos com estatura mdia de 1,45 metro e peso m- ximo de 45 quilos. Com- pletado o percurso, os tanques so removidos e o combustvel restante pesado em uma balana de preciso. Com base nes- ses dados, feita uma pro- jeo de quanto o veculo percorreria com 1 litro de gasolina. Esta a segun- da edio da prova, reali- zada pela primeira vez em 2004 e vencida tambm pelo Mackenzie. "O car- ro, feito com fibra de vi- dro e alumnio, foi monta- do com pneus de bicicleta de 26 polegadas, com pres- so bastante alta para di- minuir a resistncia ao ro- lamento", diz Pucci.

    Simbiose entre pessoas e mquinas

    Dentro de um museu os visi- tantes correm os olhos sobre uma pintura ou escultura e imediatamente recebem infor- maes relacionadas obra que podem ser compartilha- das e debatidas com outras pessoas que se encontrem a quilmetros de distncia, pois elas podem ver e ouvir a mes- ma coisa. Para adentrar esse cenrio futurista basta colo-

    Capacete capta imagens

    car um capacete, equipado com duas cmeras e dois mi- crofones, que captam imagens e sons. Os dados so proces- sados e transmitidos por um laptop carregado em uma mo- chila pelo usurio que est presente no museu. No pro- ttipo desenvolvido no pro- jeto de doutorado de Glauco Todesco, do Laboratrio de Sistemas Integrados (LSI) da Escola Politcnica da Univer- sidade de So Paulo (USP), ele carregado em uma mochila pelo usurio. "Informaes relacionadas obra, como mapas indicativos de outras obras do mesmo artista, apa- recem projetadas na tela de culos especiais usados pelo usurio", diz Todesco. O siste- ma, chamado de simbiose di- gital, possibilita explorar no- vas formas de interao entre homens e mquinas e pode tambm ser configurado para vrios tipos de espectadores, com informaes adaptadas a pblicos especficos. Um pro- fessor, por exemplo, teria aces-

    62 AGOSTO DE 2005 PESQUISA FAPESP 114

  • so a um contedo diferente do destinado a uma criana. Essa aplicao est sendo es- tudada pela Petrobras, para ser utilizada nas plataformas de extrao de petrleo. Dessa forma, o tcnico especializa- do em manuteno no pre- cisa se deslocar at alto-mar, em locais de difcil acesso.

    Caa a vrus de computadores

    Um laboratrio criado espe- cialmente para analisar vrus desenvolvidos na Amrica La- tina, que infectam os compu- tadores de empresas e usurios comuns, foi inaugurado no ms de julho pelo Instituto de Pesquisas Tecnolgicas (IPT) e pela empresa Hauri do Bra- sil, subsidiria da sul-coreana Hauri, especializada no desen- volvimento de softwares de se- gurana. Qualquer pessoa que tenha um arquivo suspeito po- der acessar o sfewww.labora- torioantivirus.com.br, preen-

    cher o cadastro e envi-lo pa- ra que seja analisado, sem cus- to algum. Uma rede fechada e isolada da internet, composta por oito mquinas, vai rodar os arquivos e verificar os efei- tos causados. O acesso s ins- talaes do laboratrio, que fica dentro do IPT, na Cidade Universitria, em So Paulo, ser restrito exclusivamente aos pesquisadores, para evitar

    que os arquivos com vrus se espalhem para outros com- putadores.

    Apoio para empresa de base tecnolgica

    O Inovar Semente, programa da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), vai investir R$ 300 milhes em empresas nascentes de base tecnolgica.

    O programa prev a criao de 25 fundos de capital semente em todo o Brasil, cada um com montante inicial de R$ 12 mi- lhes. E pretende apoiar cerca de 340 empreendimentos em seis anos. A proposta que os fundos sejam organizados por cidades, privilegiando aquelas com vocao tecnolgica. O Rio de Janeiro e So Paulo te- ro seus fundos, mas tambm Santa Rita do Sapuca (MG), Petrpolis (RJ), So Jos dos Campos (SP), Campinas (SP), Campina Grande (PB), Lon- drina (PR), Caxias do Sul (RS), So Carlos (SP), entre outras. Cada fundo vai apoiar entre 12 e 15 empresas, com investimentos entre R$ 500 mil e R$ 1 milho. Os recursos tm como objetivo viabilizar a construo de prottipos e a contratao de executivos, entre outras aes necessrias para empresas em estgio pr- operacional, muitas das quais se encontram em incubado- ras e universidades.

    Patentes Inovaes financiadas pelo Ncleo de Patenteamento e Licenciamento

    de Tecnologia (Nuplitec) da FAPESP. Contato: nuplitec@fapesp.br

    Limpeza com ultra-som

    Desenvolvimento de um transdutor bifreqencial para sistemas de limpeza u- ltra-snicos. Esse dispositi- vo converte energia eltrica em energia mecnica na forma de ultra-som, em fre- qncias inaudveis para o ouvido humano. Emitido pelo transdutor num lqui- do, o ultra-som induz o fe- nmeno da cavitao, que gera diferenas de presses e temperaturas capazes de promover a limpeza de su-

    jeiras em instrumentos la- boratoriais, equipamentos de dentistas e de mdicos- cirurgies. Tambm podem ser usados na rea industrial, na limpeza de placas eletr- nicas e de peas automobils- ticas. A novidade desenvolvi- da no Grupo de Cermicas Ferroeltricas do Departa- mento de Fsica da Univer- sidade Federal de So Carlos (UFSCar) tem como inova- o a gerao de duas fre- qncias de ultra-som, 25

    kilohertz (kHz) e 40 kHz, com um nico transdutor. A maioria dos equipamen- tos existentes no mercado apresenta apenas uma fre- qncia, o que limita a fai- xa de tamanho de partcu- las que so eficientemente removidas pelo ultra-som. O aparelho multifreqen- cial de limpeza que ser de- senvolvido para o mercado ter os mesmos custos de produo dos existentes atualmente.

    Ttulo: Transdutor ultra-snico de potncia tipo Langevin bifreqencial otimizado para operar nos modos de ressonncia lambda/2 e lambda para aplicaes em sistemas de limpeza por ultra-som Inventores: Jos Antnio Eiras e Antnio Henrique Alves Pereira Titularidade: UFSCar e FAPESP

    PESQUISA FAPESP 114 AGOSTO DE 2005 63

  • a tela de uma televiso nomeio de um laboratrio api-nhado de lasers microsc-pios e computadores, pos-svel ver uma hemcia, aclula vermelha do sangue,

    sendo esticada, e at um parasita vivo, o protozorioLeishmania amazonensis, que provoca a doena leish-maniose, se debatendo para escapar de uma armadilhainvisvel que o impede de continuar se movimentandoem uma placa de cultura de microorganismos. O quefaz esticar a hemcia e prender o microorganismo uni-celular so feixes invisveis de laser que trabalham co-mo pinas pticas. Um equipamento montado noInstituto de Fsica Gleb Wataghin (IFGW) da Univer-sidade Estadual de Campinas (Unicamp) usa essaspinas num trabalho que est em desenvolvimento des-de o incio da dcada de 1990. A mais recente inovaodo Laboratrio de Aplicaes Biomdicas de Lasers doinstituto foi unir a pina ptica com um sistema deespectroscopia para anlise de protenas, lipdios, ami-nocidos, clcio e outras substncias qumicas existen-tes em clulas e em microorganismos. Tudo isso como

    Espectros da vidaPesquisadores unem pina ptica e espectroscopia para facilitar os estudos em clulas vivas

    MARCOS DE OLIVEIRA

    BIOFOTNICA

    TECNOLOGIA

    N

    64a67-114-pesquisa-pincas 27/7/05 9:42 PM Page 64

  • EDU

    AR

    DO

    CES

    AR

    se fosse um filme e com as anlises sendo realizadasem tempo real nos organismos vivos capturados e semexendo.

    A diferena com os sistemas atuais de espectros-copia comparvel a uma fotografia que congela umdeterminado momento, enquanto o filme mostra oprocesso ao longo de um determinado tempo. Nos-sa inteno foi juntar pina ptica, lasers e espectros-copia para que vrios tipos de anlise sejam realizadosde forma simultnea sem destruir o material analisa-do, diz Carlos Lenz Cesar, coordenador do grupo quedesenvolve as pinas pticas. Ele descobriu a pina p-tica por meio do seu criador, o fsico Arthur Ashkin,quando fazia ps-doutorado nos laboratrios Bell daempresa de telecomunicaes AT&T, no perodo 1988a 1990, nos Estados Unidos. Os trabalhos com arma-dilhas pticas comearam no incio dos anos 1970.No incio, Ashkin usava o laser para movimentar e es-tudar partculas slidas, primeiro com microesferas deltex e depois com tomos. Os primeiros estudos commaterial biolgico em nvel celular tambm foramfeitos por Ashkin com a bactria Escherichia coli e he-mcias e publicados em 1987 na revista Nature.

    Ao lado, nanocristais quantumdots dissolvidos em gua. Abaixo, protozorio Leishmania fluorescente pela aco dos quantum dots e por feixes de laser

    O sistema de espectroscopia vem complementarcom sua capacidade de microanlise as propriedadesmecnicas de manipular microorganismos e clulasvivas da pina ptica. Dessa forma, a fora de adesoentre um parasita e a superfcie de uma clula no exa-to momento da infeco pode ser observada tanto doponto de vista mecnico quanto bioqumico. Outrosexemplos de medidas mecnicas com pinas pticasso a anlise de foras de impulso dos microorganis-mos, a viscosidade de fluidos e a elasticidade de mem-branas celulares.

    O trabalho de juno da espectroscopia com apina ptica fez parte da tese de doutorado da fsicaAdriana Fontes e foi aceito para publicao na revistaPhysical Review E. O trabalho tambm rendeu umapremiao de melhor pster apresentado no Congres-so Photonics West, nos Estados Unidos, que reuniu,em janeiro deste ano, 15 mil participantes das reasde fotnica e biofotnica. Adriana, hoje ps-douto-randa no IFGW, trabalha h oito anos, desde a inicia-o cientfica, com lasers no mesmo laboratrio e estvinculada, como toda a equipe do professor Lenz, aoCentro de Pesquisa em ptica e Fotnica, um dos dezCentros de Pesquisa, Inovao e Difuso (Cepid) fi-nanciados pela FAPESP.

    Na prtica, os pesquisadores uniram um micros-cpio ptico convencional, que possui uma cmerade vdeo acoplada e usado para observao de mi-croorganismos, com um espectrmetro instalado aolado desse instrumento clssico de laboratrio. A pin-a consiste de um feixe de laser focalizado pela obje-tiva em um ponto da imagem. Pela tela do monitor possvel observar partculas sendo aprisionadas nofoco do laser e movidas com grande preciso, sem da-nos celulares. O feixe de laser invsivel, operando noinfravermelho, exatamente para evitar a absoro daluz e a produo de calor, que causaria danos trmi-cos. O laser usado como pina no IFGW base deneodmio, um dos elementos conhecidos como terrararas, cuja luz emitida no comprimento de onda de1.064 nanmetros (nm). A absoro necessria, poroutro lado, quando se deseja destruir corpsculos oufurar paredes celulares atravs de um bisturi ptico.Nesse caso, os pesquisadores utilizam outro laser basede neodmio com luz emitida na metade do compri-

    IFG

    W/U

    NIC

    AM

    P

    64a67-114-pesquisa-pincas 27/7/05 9:43 PM Page 65

  • descobrir as assinaturas ou impres-ses digitais que cada substncia oumolcula emite quando interage com aluz. Uma dessas assinaturas resulta dasvibraes moleculares, cuja freqnciadepende das massas e das foras entreos tomos de uma molcula. O resul-tado um espectro no qual se observa aintensidade das ondas eletromagnticasemitidas em cada freqncia. Desco-brimos a presena de uma determinadamolcula atravs do pico de intensidadeda sua freqncia de vibrao, diz Lenz.

    Vibraes visveis - Como materiais bio-lgicos possuem muitas molculas que,por sua vez, apresentam muitos picos, aidentificao das substncias feita pormeio de uma comparao com uma bi-blioteca de espectros. Essas vibraesmoleculares tambm aparecem comouma modulao em um feixe espalha-do de luz vsivel e pode ser detectadapor meio da chamada espectroscopiaRaman. Esse um processo de espalha-mento com um fton incidente e umfton espalhado, mas tambm poss-vel ocorrer processos com dois ftonsincidentes e um fton espalhado, cha-mados de espalhamentos ou espectros-copia hiper Rayleigh. Processos multi-fotnicos como esses s acontecem setodos os ftons envolvidos colidiremcom a mesma partcula ao mesmo tem-po. Por isso esses processos necessitamde lasers pulsados, nos quais os ftonsso emitidos ao mesmo tempo em lu-

    66 AGOSTO DE 2005 PESQUISA FAPESP 114

    mento de onda infravermelho, 532 nm,que danifica a clula apenas na regiodesejada.

    o se comportar co-mo uma partcu-la, a luz transfereimpulso sempreque o feixe lu-minoso des-

    viado ou absorvido, permitindo queum cone de raios de luz capture outrapartcula. Esse comportamento da luzfoi descoberto por Albert Einstein em1905 no estudo sobre efeito fotoeltri-co. Ele chamou essas partculas lumi-nosas de ftons (do grego photos, luz) emostrou que elas transportam energia,alm de impulso. Foi com esse trabalhoque Einstein ganhou o Prmio Nobelem 1921, e no pela famosa teoria da re-latividade.

    As foras geradas por essa armadi-lha ptica so muito pequenas. Uma ex-celente pina ptica capaz de gerarforas com valores mximos em tornode 200 picoNewtons (pN), equivalen-te a 1 bilionsimo de 1 peso de 1 quilo.Nessas dimenses, as pinas pticas socapazes de capturar partculas com ta-manhos de 40 e 50 nanmetros (1 na-nmetro 1 milmetro dividido por 1milho de vezes) at 20 ou 30 micr-metros (1 micrmetro igual a 1 mil-metro dividido por mil). Para capturarum microorganismo vivo, com foramotora prpria tentando escapar daarmadilha, uma pina deve ser capaz defornecer, no mnimo, foras de 50 pN.Um excelente teste da qualidade de umapina ptica mostrar que ela capazde capturar um espermatozide vivo.Embora essas foras pticas sejam mui-to pequenas, elas so da mesma ordemde grandeza das foras que atuam nasclulas e microorganismos. Por isso, apina ptica a ferramenta ideal paramedir intensidades de foras, alm deoutras propriedades mecnicas, no uni-verso microscpico.

    No mbito da espectroscopia, o tra-balho foi realizado com vrias tcnicas,mas sempre com o mesmo objetivo de

    gar da emisso constante de ftons doslasers contnuos.

    A luz espalhada pelos processos deespectroscopia capturada na mesmaobjetiva da pina ptica e enviada parao espectrmetro, onde ser decompos-ta e analisada para se descobrir as vibra-es moleculares.Assim, sabemos quaisas molculas que esto naquela clulaou ser vivo, diz Adriana. uma infor-mao qumica. Com esse sistema possvel coletar os espectros de um para-sita, como o protozorio Leishmania, porexemplo,enquanto a pina ptica o man-tm capturado em uma mesma posi-o, mas vivo e se mexendo. Tambm se-ria possvel acompanhar modificaesbioqumicas que ocorram quando outrapina o aproximar da clula que gostade infectar.

    Para espectroscopias de um fton,como Raman, os pesquisadores utili-zaram um laser contnuo de titnio-sa-fira, cuja emisso pode ser selecionadana regio do infravermelho entre 780 e1.000 nm. J para as espectroscopiasmultiftons, utilizaram um laser de ti-tnio-safira com pulsos de durao tocurta quanto 100 femtossegundos (fs),tempo para a luz percorrer uma distn-cia de apenas um tero do dimetro deum fio de cabelo. Um femtossegundo igual a 1 segundo dividido por 1 qua-trilho de vezes.

    Outra assinatura de molculas mui-to utilizada a fluorescncia, um pro-cesso no qual certas molculas emitem

    Na pina ptica, hemcia esticada em teste de flexibilidade por meiode feixes de laserinvisveis.Na outra pgina, hemcias fluorescentes na cor vermelha por meio de quantumdots. Ao lado,clulas cerebrais chamadas de gliasmarcadas por quantum dotsna cor verde

    IMA

    GEN

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  • PESQUISA FAPESP 114 AGOSTO DE 2005 67

    a UFRJ envolve estudos com neurniose glias, que so clulas do crebro, en-quanto estudos com o protozorio Leish-mania amazonensis so feitos em con-junto com o Instituto de Biologia daUnicamp. As aplicaes das pinas p-ticas na Unicamp se iniciaram na cola-borao com o Centro de Hematolo-gia, com a equipe da mdica Sara Saad,para caracterizar as propriedades me-cnicas das hemcias, relacionando-ascom doenas como a anemia falcifor-me e tempo de estocagem em bancosde sangue (veja Pesquisa Fapesp n 58).

    A integrao da pina ptica comespectroscopias de um ou mais ftons ecom o uso de pontos qunticos comomarcadores unifica quase todas as tc-nicas mais modernas de biofotnica emum s sistema e abre vrios novos cam-pos de pesquisa. um mar de possibi-lidades, diz Lenz.So processos biol-gicos que podem ser observados com amanipulao em nvel celular. Por exem-plo, um pesquisador norte-americanoganhou um financiamento de quaseUS$ 1 milho para auxiliar uma inds-tria de laticnios na determinao, compina ptica, das foras com que bact-rias existentes no leite se ligam nas pa-redes de embalagens tipo longa-vida equanto tempo l permanecem. Com osistema integrado, possvel observar,alm das foras, quais as substnciasso liberadas no leite. Tudo isso semmatar a bactria ou destruir as substn-cias que se deseja estudar.

    mente, no Departamento de Qumicada Universidade Federal de Pernambu-co (UFPE).

    Estudo amplo - Atualmente, os traba-lhos cientficos e acadmicos levaram auma colaborao mais ampla com aUFPE, envolvendo no IFGW os profes-sores Lenz e Luiz Carlos Barbosa, almde Selma Giorgio, da Biologia, Sara Saade Fernando Costa, do Hemocentro, to-dos da Unicamp. Na UFPE participamRicardo Ferreira e Gilberto S, do De-partamento de Qumica Fundamental,Beate Santos, da Farmcia, e Patrcia Fa-rias, da Biofsica. Tambm colaboram,os professores Vivaldo Moura Neto eJane Amaral, do Departamento de Ana-tomia da Universidade Federal do Riode Janeiro (UFRJ). A colaborao com

    O PROJETO

    Pinas pticas e espectroscopia

    MODALIDADECentros de Pesquisa, Inovaoe Difuso (Cepid)

    COORDENADORHUGO FRAGNITO IFGW, Centro de Pesquisa em ptica e Fotnica(CePof ) na Unicamp

    INVESTIMENTOR$ 1.000.000,00 por ano para todo o CePof (FAPESP)

    uma luz tpica quando iluminadas porftons com maior energia do que os f-tons emitidos. Entretanto, como sopoucas as substncias com fluorescn-cia eficiente, comum a introduo decorantes como marcadores. O proble-ma que esses corantes tendem a ser t-xicos, ou citotxicos, e a emitir luz porpouco tempo devido fotodegradao,diz Adriana. Uma soluo para esses pro-blemas o chamado ponto quntico, ouquantum dot, que so nanocristais desemicondutores, chamados de sulfeto,seleneto e telureto de cdmio indicadosnas aplicaes biolgicas. A maior van-tagem do ponto quntico em relao aoscorantes sua grande fotoestabilidade,que permite aquisio de imagens porhoras seguidas sobre iluminao inten-sa. Alm disso, apresenta citotoxicidademuito baixa. Outra grande vantagem que o tamanho do ponto quntico con-trola a cor da fluorescncia emitida porele. possvel obter fluorescncia depontos qunticos de telureto de cdmio,por exemplo, em azul, verde, amarelo evermelho variando seu dimetro entre1 e 5 nanmetros.

    O grupo da Unicamp produz pon-tos qunticos desde 1989, mas em vi-dros, visando ao desenvolvimento dedispositivos ultra-rpidos para comu-nicaes pticas. O trabalho com pon-tos qunticos em solues comeou naUnicamp em 1999, inicialmente parauma comparao com pontos qunti-cos produzidos em vidro, e, simultanea-

    64a67-114-pesquisa-pincas 27/7/05 9:43 PM Page 67

  • primeira vista,asmatrias-primasutilizadas por umgrupo de pesqui-sadores da Uni-versidade Fe-

    deral de Minas Gerais (UFMG) nopoderiam ser mais prosaicas.So ferri-tas,basicamente o mesmo tipo de com-posto metlico presente nos ms e usa-do h milnios pela humanidade.H,no entanto,uma diferena fundamen-tal.A pesquisadora Nelcy Della SantinaMohallem e seus colegas do Departa-mento de Qumica esto usando essesvelhos conhecidos,mas em escala na-nomtrica,medida equivalente a 1 mi-lmetro dividido por 1 milho de vezes.Nesse tamanho,as ferritas podem gerarmateriais e dispositivos inovadores emcampos to diversos como a eletrnica,a qumica industrial e a medicina.

    Nelcy explica que o principal inte-resse dos pesquisadores ao manipularas ferritas xidos de ferro que tam-bm podem incluir outros metais,como zinco,nquel e cobalto,em suacomposio se deve rapidez da res-posta das suas propriedades magnti-cas. por isso que,h vrias dcadas,os

    ms so muito utilizados em motores,sistemas de radar e de telecomunica-es.Ao longo do tempo,o tamanhodos dispositivos foi diminuindo,contaa pesquisadora.No entanto,abaixo deum certo limite,a utilizao das ferritascomea a enfrentar problemas devido sua resistncia eltrica,que limita umamaior miniaturizao de equipamen-tos eletrnicos. a que entra a nano-tecnologia.

    Nelcy e colegas como Juliana Batis-ta da Silva,do Centro de Desenvolvi-mento de Tecnologia Nuclear (CDTN),de Belo Horizonte,e Miguel Novak,daUniversidade Federal do Rio de Janeiro(UFRJ),com suporte do LaboratrioNacional de Luz Sncrotron (LNLS),em Campinas,esto desenvolvendo na-nocompsitos que so materiais hbri-dos,com tamanho variando entre 5 e100 nanmetros.Eles combinam umncleode ferrita com uma matriz iner-te,que pode ser composta de slica oualumina,por exemplo.A matriz,chama-da de densa pelos pesquisadores,criavrios nanoms separados.Dessa for-ma, possvel eliminar a interferncia eas perdas e aumentar a resistncia eltri-ca,alm de produzir um acoplamento

    68 AGOSTO DE 2005 PESQUISA FAPESP 114

    QUMICA

    Novos materiais magnticos em escala molecular seroteis na eletrnica e na medicina

    NanoTECNOLOGIA

    A entre as nanopartculas vizinhas,crian-do melhores propriedades magnticas,explica a pesquisadora.Memria turbinada - Uma das aplica-es promissoras desse tipo de nanopar-tcula o disco rgido dos computado-res:usar unidades nanom tricas paraarmazenar informao em forma mag-ntica aumenta o potencial de miniatu-rizao dos computadores,e o materialtambm poderia turbinar a rapidez comque a memria acessada.Nesse caso,o nanocompsito estaria disposto emforma de filme ou pelcula. Ns tam-bm somos capazes de moldar a micro-estrutura desses compsitos em peasde alguns milmetros,conforme a ne-cessidade de cada aparelho,diz Nelcy. uma vantagem quando se consideraque hoje a maioria desses compsitoss existe em forma de p.

    Alteraes na estrutura da matrizpermitem que os nanocompsitos sejamutilizados para um fim completamentediferente:facilitar rea es qumicas.Esse o papel dos chamados catalisado-res,e a escala nanom trica,mais umavez,ajuda a tornar esse trabalho maiseficiente.Para fins de cat lise,a equipe

    `

    68a69-114-pesquisa-particulas 27/7/05 6:29 PM Page 68

  • No caso de um tumor, por exemplo,haveria dois modos de levar os msnanoscpicos a seu destino. Um campomagntico poderia conduzi-los ma-nualmente at o tecido afetado pelocncer, ou a eles seriam acoplados anti-corpos especficos para o tipo de tumorque se deseja atacar, de forma que os na-noms aderissem ao tecido doente. Ter-minada essa fase do processo, a idia aplicar de forma rpida e alternada ocampo magntico externo. O movimen-to das partculas geraria calor suficien-te para matar as clulas cancergenas.Outros trabalhos do grupo sugeremque um sistema como esse seria parti-cularmente til para tratar tumores emfase inicial, ainda pequenos.

    A cobertura dos nanoms para tor-n-los biocompatveis feita com umtipo de acar chamado de ciclodex-trina. Essa composio foi desenvol-vida junto com o professor Rubn Si-nisterra, do mesmo Departamento de

    Qumica da UFMG, dando origem auma patente. Temos o material muitobem caracterizado quimicamente, dizNelcy. A inteno agora fazer parceriasque permitam, no mbito cientfico, tes-tar o produto em seres vivos.

    Segundo Nelcy, grande a corridano mundo todo para transformar ma-teriais como esses nanocompsitos emcomponentes de equipamentos usadosno dia-a-dia. Governos como os dosEstados Unidos reconhecem que o po-tencial deles estratgico. As nossaspropostas no ficam nada a dever aoque feito fora do Brasil. Quando asapresentamos em congressos cientfi-cos, comum o pessoal ficar impres-sionado, diz a pesquisadora da UFMG.Mas, com os problemas de financia-mento que enfrentamos, muitas vezesacabamos no sendo os primeiros a pu-blicar em revistas cientficas. Ela cita ointeresse, ainda um tanto incipiente, deempresas brasileiras pela incorporaode algum componente nanotecnolgicoem seus produtos e sugere que elas po-deriam ser mais ousadas.Eles esto in-teressados em coisas que fazamos hdez anos, e no na nanotecnologia deponta, relata.

    PESQUISA FAPESP 114 AGOSTO DE 2005 69

    da UFMG montou as nanopartculasde ferrita dentro de uma matriz extre-mamente porosa, e no densa como nocaso dos discos de computadores. Po-deramos dizer que 95% da matriz ar,afirma Nelcy. Isso significa que as par-tculas ganham um volume proporcio-nalmente muito grande. A superfcie decontato que esse volume expandido pro-porciona faz com que elas promovamreaes qumicas com maior eficincia.Usando muito menos material do queusaria normalmente, possvel mantere at aumentar a velocidade das reaesqumicas catalisadas pelo nanocomp-sito, explica a pesquisadora.

    Contra o cncer - Outra das idias dogrupo envolve um ambiente ainda maisdelicado que o interior dos computa-dores ou a qumica industrial: o corpohumano. Assim como outros pesqui-sadores no Brasil e no exterior, Nelcye seus colegas esto explorando a pos-sibilidade de que nanoms ataquemdoenas como cncer e infeces. Fun-cionaria assim: partculas magnticasem forma de fluido, envoltas por ummaterial biocompatvel, seriam injeta-das na corrente sangnea do doente.

    Imagens de nanocompsitos de ferrita com distribuio de tomos de ferro e cobalto (acima),e envoltos em uma matriz de slica (ao lado)

    IMA

    GEN

    S U

    FMG

    68a69-114-pesquisa-particulas 27/7/05 6:29 PM Page 69

  • 70 AGOSTO DE 2005 PESQUISA FAPESP 114

    s cirurgias paracorrigir proble-mas de viso,como astigma-tismo, mio-pia e hiper-

    metropia,so uma prtica corriqueiranos consultrios oftalmolgicos brasi-leiros.Essas intervenes so feitas hojecom a ajuda de medidas personalizadasde cada olho do paciente,baseadas eminformaes obtidas nos exames pr-operatrios por meio de aparelhos cha-mados de wavefront ou frente deonda que analisam a luz que atingeo globo ocular.Atualmente,todos osaparelhos desse tipo usados no Brasilso importados.Mas em pouco tempoisso pode mudar,porque a Eyetec Equi-pamentos Oftlmicos,uma empresa deSo Carlos (SP),prepara-se para dispu-tar esse mercado com um novo apare-lho,tambm baseado na tecnologia wa-vefront,mas com um sensor que utilizaum princpio diferente dos outros.

    Em vez de vrias pequenas lentesquadradinhas,simtricas,uma ao ladoda outra,foi criada uma lente circular,com foco contnuo que aponta a defor-mao do olho ponto a ponto,diz ooftalmologista Paulo Schor,chefe doSetor de Bioengenharia Ocular da Uni-versidade Federal de So Paulo (Uni-

    fesp).O mapeamento feito pelo novosensor,em cada ponto do olho,possibi-lita fazer diagnsticos mais detalhados,o que aumenta a preciso e a flexibili-dade nas cirurgias.

    Schor e o tambm oftalmologistaWallace Chamon levaram a proposta dedesenvolver o equipamento no Brasilao professor Jarbas Caiado de CastroNeto,do Grupo de ptica do Institutode Fsica da Universidade de So Paulo(USP) de So Carlos e um dos scios daEyetec.A empresa recebeu financiamen-to da FAPESP na modalidade Progra-ma Inovao Tecnolgica em Peque-nas Empresas (PIPE),projeto que temCastro Neto como coordenador.O novoaparelho foi patenteado no Brasil e noexterior e recebeu informalmente o no-me de sensor Castro,em homenagemao professor da USP responsvel pelasoluo tecnolgica inovadora.

    Estrelas e galxias - O sistema wave-front foi usado inicialmente,e durantemuito tempo,na astronomia para an -lise e correo das distores da luz dasestrelas e galxias,permitindo que,mes-mo a milhares de anos-luz,sejam vistasna Terra com excelente qualidade.Em1994 vislumbrou-se a possibilidade dea tecnologia wavefront ser usada tam-bm na oftalmologia.Nesse ano,um

    ENGENHARIA BIOMDICA

    Sensor faz diagnsticomais detalhado das imperfeies visuais

    DINORAH ERENO

    Olharaguado

    TECNOLOGIA

    grupo de pesquisadores da Universida-de de Heidelberg,na Alemanha,publi-cou um primeiro trabalho que tratavado uso de sensores pticos para mediras deformidades visuais.Foi o pontap inicial para os instrumentos oftalmol-gicos baseados nessa tecnologia come-arem a ser desenvolvidos por europeuse norte-americanos.

    Os sensores de frentes de onda dis-ponveis comercialmente so compos-tos por centenas de pequenas lentes,cha-madas de lentculas,similares ao olhode um inseto.Uma microc mera atrsdas lentculas produz pontos espaados,distribudos de forma regular.A regula-ridade determina se a imagem que che-ga retina e,conseq entemente, formaa viso ou no normal,porque paraum olho sem problemas possvel iden-tificar a distribuio regular dos pon-tos.Mas nos olhos com defeitos ou ir-regularidades no possvel identificaressa regularidade.C lculos e grficos fei-tos por um software apontam a formaexata da frente de onda que sai do olhoe,com isso, possvel fazer as medidasde astigmatismo,miopia e hipermetro-pia e tambm das irregularidades maissutis.Ns partimos do princpio de queas irregularidades do olho tm uma si-metria circular,diz Castro.Por isso fo-ram criadas vrias lentes circulares para

    A

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  • PESQUISA FAPESP 114 AGOSTO DE 2005 71

    Os avanos obtidos com o equipa-mento wavefront nacional, que mapeiaas irregularidades em cada ponto do olho,fruto da parceria entre pesquisadoresda Unifesp e da USP, no so o nico re-sultado do trabalho conjunto dos doisgrupos de pesquisa. O primeiro foi o de-senvolvimento de um aparelho para me-dir a curvatura da crnea, o topgrafocorneano, lanado pela Eyetec em 1998para uso nas cirurgias de miopia. Na-quela poca s existiam similares im-portados que eram muito caros para opadro brasileiro, diz Schor. O top-grafo vendeu cerca de 400 unidades nomercado nacional. Se importado, cadatopgrafo custaria ao pas cerca de US$20 mil. Portanto a economia de divisasfoi de aproximadamente US$ 8 milhes,contabiliza Castro. O trabalho que resul-tou no aparelho foi tambm uma dasbases para se estabelecer h seis anos naUnifesp o Setor de Bioengenharia Ocu-lar, criado para desenvolver tecnologiamultidisciplinar. Com o novo sensor,em fase de testes pr-clnicos, os parcei-ros esperam tambm bons resultados,j que, alm da inovao, pelo produtono estar associado a um tipo de laserespecfico, como os outros aparelhos emuso atualmente, pode ser vendido paradiagnsticos e utilizado nos consult-rios e nas clnicas oftalmolgicas.

    mapear os problemas ponto a ponto.Quando a luz jogada no fundo do olhodurante o exame, ela acompanha a si-metria e pega todas as nuances, apon-tando para o local exato em que seencontra a irregularidade. A inovaotecnolgica a capacidade de mapearos defeitos oculares em cada ponto comalta preciso e simplicidade, diz Schor.

    Viso ideal - Antes de a tcnica de fren-te de onda ser utilizada em cirurgiasrefrativas, assim chamadas porque mu-dam o grau, ou refrao do olho do pa-ciente, a nica possibilidade era corrigirproblemas como miopia, astigmatismoe hipermetropia pela mudana da cur-vatura ocular para mais ou para me-nos. Hoje, muda-se a forma da crneapara melhorar a qualidade e a quanti-dade da viso, diz Castro.

    O analisador da frente de onda de-fine e corrige o grau do paciente de for-ma muito mais precisa do que os tradi-cionais aparelhos utilizados para dar asmedidas das receitas de culos mensu-radas em mltiplos de 0,25 grau. Comoo sensor ptico captura e quantifica asdeformidades que as imagens dos obje-tos sofrem ao serem observadas por cadaponto no olho, a correo feita na ci-rurgia pode melhorar em alguns pa-cientes a viso noturna, porque as pupi-

    las se dilatam no escuro e as irregulari-dades existentes na periferia da visotornam-se mais evidentes nesse perodo.Realizado no perodo pr-operatrio, oexame reproduz um mapa tridimen-sional das irregularidades pticas que transferido para o laser no momentoda cirurgia. Como resultado da utiliza-o do wavefront, as imagens passam aser captadas sobre a retina com maiorresoluo e nitidez, sem irregularidadesou aberraes sutis, antes no detecta-das nem corrigidas. E muitos pacien-tes, aps a cirurgia refrativa, podem teruma qualidade de viso superior ao dacirurgia convencional.

    EDU

    AR

    DO

    CES

    AR

    Desenvolvimento de um equipamento para determinao de aberraes oculares utilizando a medida de wavefront

    MODALIDADEPrograma Inovao Tecnolgica emPequenas Empresas (PIPE)

    COORDENADORJARBAS CAIADO DE CASTRO NETO Eyetec

    INVESTIMENTOR$ 325.750,00 e US$ 12.250,00(FAPESP)

    O PROJETO

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  • EDU

    AR

    DO

    CES

    AR

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  • m novo processo industrial irpermitir que garrafas descart-veis para refrigerantes e guamineral, entre outros produtosfabricados com polmeros, pos-sam ser produzidas em menor

    tempo, reduzindo os custos industriais e, quem sabe, opreo final ao consumidor. A inovao que est prestes asair dos laboratrios do Departamento de Engenhariade Materiais da Universidade Federal de So Carlos(DEMa/UFSCar) formada por um sistema ptico paramonitorar e controlar a cristalizao de materiais poli-mricos durante o processo de produo. O sistema po-der trazer ganhos importantes de produtividade paraas indstrias especializadas na fabricao de garrafasproduzidas com o polmero poli (tereftalato de etileno),mais conhecido como PET, alm de outras peas molda-das por injeo, a tcnica de moldar algo plstico a partirde matria-prima fundida que empregada na produode pra-choques de automveis, carcaas de computado-res, de impressoras e de celulares. O processo, segundoos pesquisadores, permite identificar o momento exatoem que o polmero cristalizado dentro do molde, le-vando economia de preciosos segundos no processode fabricao. Estimativas feitas pelos pesquisadores doDEMa revelam, por exemplo, que uma fbrica com ca-pacidade para produzir anualmente 160 milhes de gar-rafas PET poderia ter um ganho adicional de US$ 600mil, caso o sistema reduzisse em 1 segundo parte do ci-clo de moldagem das garrafas de 2 litros de PET, quedura, em mdia, 22 segundos.

    Plstico sobcontroleSistema desenvolvido na UFSCar melhora a produo de garrafas feitas com polmeros

    YURI VASCONCELOS

    ENGENHARIA DE MATERIAIS

    U

    TECNOLOGIA

    72a75-114-pesquisa-polimeros 27/7/05 6:26 PM Page 73

  • 74 AGOSTO DE 2005 PESQUISA FAPESP 114

    es revelam o momento exato da cris-talizao. Hoje no h exatido do mo-mento em que a garrafa de PET, porexemplo, est pronta.

    esmo quando opolmero no cris-taliza ou quandoos seus cristais somuito pequenos,como no caso do

    PET sob algumas condies de produ-o, o novo sistema permite que se de-tecte o momento do descolamento dapea dentro do molde ou ento falhasno preenchimento de pontos especfi-cos da cavidade, evitando assim defei-tos no produto. O processo, desenvol-vido no DEMa pela professora Rosarioe dois alunos de doutorado, MarceloFarah e Alessandra Marinelli, poderem breve estar disponvel para o mer-cado. A empresa Quantum Tech, deSo Carlos, se mostrou interessada emdesenvolv-lo para uso comercial emindstrias de transformao. impor-tante dizer que no existem sensoresiguais no Brasil ou no exterior e mes-mo os similares ainda no so empre-gados comercialmente, diz Rosario.

    O desenvolvimento do sistema p-tico para a indstria de moldagem porinjeo de polmeros foi apenas umdos avanos conseguidos pela equipede Rosario durante a realizao de umprojeto temtico financiado pela FA-PESP. O grupo tambm realizou dentrodesse projeto um estudo centrado naviabilidade de incorporar borracha des-vulcanizada por meio de ultra-som aopoliestireno, outro tipo de polmero,para produzir blendas. Blenda o no-me dado a um material polimrico fei-to a partir da mistura de dois ou maispolmeros. Um dos usos mais comunsdesse tipo de material a fabricao deboxes de banheiro, que so conhecidospopularmente como boxes de plsticoou acrlico. A finalidade da pesquisa foiadicionar a borracha desvulcanizada,oriunda de pneus usados e descartados,ao poliestireno para melhorar sua resis-tncia ao impacto. A desvulcanizaopor ultra-som da borracha foi realizadana Universidade de Akron, nos EstadosUnidos, por outro aluno de doutoradodo grupo, Carlos Scuracchio.

    Normalmente, utiliza-se uma bor-racha sinttica de polibutadieno vir-gem para reforar o poliestireno, o qued origem a uma blenda conhecida co-mo poliestireno de alto impacto. A van-tagem de usar a borracha desvulcani-zada por ultra-som conferir um fimnobre aos pneus usados, que consti-tuem um grave problema ambiental,afirma Rosario. Nossas pesquisas ain-da esto em andamento, mas j sabe-mos que a mistura da borracha desvul-canizada com o polmero aumentousua resistncia, embora no no mesmonvel da mistura com borracha de po-libutadieno. Acreditamos que o tama-nho das partculas de borracha desvul-canizada misturada ao poliestireno nofoi ainda suficientemente pequeno pa-ra elevar de forma significativa sua re-sistncia ao impacto.

    Outra pesquisa relacionada mor-fologia de polmeros envolveu o uso deredes neurais artificiais, um conceitode inteligncia artificial que visa traba-lhar de forma semelhante ao crebrohumano, acumulando informaes,processando-as e tomando decises.Neste trabalho foram investigadas blen-das formadas por poli (sulfeto de pa-rafenileno), conhecida como PPS, e umelastmero ou borracha termoplstica.

    1. Estudo e simulao do desenvolvimento da microestruturade blendas e compsitos polimricosdurante o processamento2. Inveno de um mtodo e sistemapara monitorar a cristalizao de materiais polimricos durante a moldagem por injeo

    MODALIDADE1. Projeto Temtico2. Programa de Apoio PropriedadeIntelectual (PAPI)

    COORDENADORAROSARIO ELIDA SUMAN BRETAS UFSCar

    INVESTIMENTO1. R$ 183.578,92 e US$ 80.698,52(FAPESP)2. R$ 6.000,00 (FAPESP)

    OS PROJETOS

    A grande novidade do sistema, cujoregistro de patente j foi encaminhadoao Instituto Nacional de PropriedadeIndustrial (INPI), conseguir fazer omonitoramento da cris-talizao do polmero e,ao mesmo tempo, o con-trole de produo de cadapea, independentementede seu tamanho, volumeou forma. A cristalizao um mecanismo fsicopelo qual um polmerosemi cristalino no esta-do fundido se solidifica.Atualmente, o monitora-mento da cristalizao no feito ao longo do processo de molda-gem por injeo do polmero, mas so-mente depois de sua concluso, com ouso de vrias tcnicas como microsco-pia ptica e eletrnica. Segundo a enge-nheira qumica Rosario Elida SumanBretas, coordenadora das pesquisas queresultaram no desenvolvimento da no-va tecnologia, o estudo da cristalizaodo polmero importante porque to-das as propriedades mecnicas, pticase eltricas desse material dependem desua cristalinidade. por meio da mor-fologia e do volume de cristalinidadeexistente no polmero, desenvolvidosdurante o processo de cristalizao, quese determinam as caractersticas de ri-gidez, flexibilidade, resistncia mecni-ca e transparncia, diz a pesquisadora.

    Laser na safira - Composto por ummolde metlico, um laser, duas fibraspticas, um detector e um atenuadorde laser, o sistema pode ser adaptado aqualquer mquina injetora, que mol-da as peas, possibilitando a reduodo tempo de trabalho do equipamentoe do processo. Ele funciona assim: den-tro da cavidade do molde da garrafa oude qualquer outra pea inserida umafibra ptica que envia, atravs de umajanela de safira, um feixe de laser. A sa-fira usada porque transparente aolaser e suporta as altas temperaturas epresses existentes dentro do molde. Ofeixe atravessa o polmero, que injeta-do no estado fundido, e o sinal coleta-do do outro lado do molde por outra fi-bra ptica. O resultado mostrado pormeio de um software que analisa a in-tensidade da luz, a presso e a tempera-tura dentro da cavidade. Essas informa-

    M

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  • PESQUISA FAPESP 114 AGOSTO DE 2005 75

    uma enorme quantidade de peas paraconseguir informaes sobre essaspropriedades, o que consumiria tempoe dinheiro. Com o uso do sistema deredes neurais, o nmero de peas inje-tadas e testadas caiu para 5% do queseria necessrio em um processo tradi-cional, afirma Rosario. As redes neu-rais nunca antes haviam sido usadaspara relacionar os parmetros do pro-cesso de moldagem por injeo com a

    O PPS normalmente usado nafabricao de conectores eltri-cos de computadores e de certoscomponentes da indstria auto-mobilstica. Por ser muito rgido,esse material tem baixa resistn-cia ao impacto, mas, em compen-sao, suporta temperaturas mui-to elevadas, de at 250C. Adoutoranda Cybele Lotti mistu-rou ao PPS uma borracha termo-plstica, conhecida como Sebs,um terpolmero, ou polmero for-mado por trs monmeros, feitode estireno, etileno e butadieno.Nosso objetivo foi melhorar a flexi-bilidade e a resistncia ao impacto dablenda polimrica, explica Rosario.Com o auxlio de redes neurais artifi-ciais, os pesquisadores conseguirampredizer propriedades como a morfo-logia, a quantidade ou volume de cris-talinidade da blenda, resistncia ao im-pacto e as propriedades mecnicas emsituao de trao. No processo con-vencional, teramos que injetar e testar

    Monitoramento dacristalizao do

    polmero por meiode laser (acima).Ao lado, material

    fomado pelospolmeros PET e LCP

    microestrutura e as propriedades deblendas polimricas.

    Tigela de cobras - Outra vertente do te-mtico envolveu o estudo da orienta-o molecular em blendas formadaspor PET e vrios cristais lquidos poli-mricos, conhecidos pela sigla LCP (deLiquid Crystal Polymer), que so mate-riais resistentes a altas temperaturas eusados na produo de bobinas, conec-tores eltricos, sensores, equipamentoscirrgicos, embalagens de lquidos cor-rosivos, vesturio de astronautas etc. OLCP tambm possui como caractersti-ca uma relativa organizao molecularquando fundido, ao contrrio da maio-ria dos polmeros tradicionais que notm nenhuma organizao no estadolquido. Para usar uma metfora, os po-lmeros fundidos se assemelham a umatigela cheia de cobras de diferentes ta-manhos, em permanente movimento,enquanto o LCP mantm-se organiza-do, com estruturas retas e paralelas, naforma de uma caixa de lpis. O objeti-vo dessa pesquisa foi melhorar a pro-priedade de impermeabilidade da blen-da, porque o LCP possui baixssima taxade permeabilidade, uma das menoresentre os polmeros, sendo impermevel maioria dos gases. O problema, noentanto, que ele ainda muito caro,cerca de US$ 25 o quilo.

    Entender a orientao moleculardessa blenda foi fundamental para com-preendermos as propriedades mecni-cas e de permeabilidade desse material,diz Rosario. Para compreender essascaractersticas, as blendas polimricasforam submetidas a estudos de orienta-o molecular na UFSCar e no Labora-trio Nacional de Luz Sncrotron, emCampinas, pela ps-doutoranda Mar-cia Branciforti. Para produzir as blen-das de PET e LCP, o grupo superou ou-tro desafio: construir um acessrio queconfere o formato final a um produto,porque no existiam no mercado equi-pamentos especficos para essa finali-dade. Essa matriz foi construda peladoutoranda Lucineide da Silva. Perce-bemos que a nossa matriz proporcio-nou orientao molecular ao PET emelhorou a do LCP, diz Rosario. Ago-ra a equipe do DEMa est realizandoestudos de permeabilidade para melho-rar essa propriedade das pelculas dePET e LCP.

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    72a75-114-pesquisa-polimeros 27/7/05 6:26 PM Page 75

  • odos os anos cerca de 160mil toneladas de embala-gens longa-vida so produ-zidas no Brasil para acon-dicionar leite,sucos,massade tomate e at gua-de-

    coco.Desse total,apenas 25% reciclado num pro-cesso que aproveita apenas o papel e direciona paraos aterros sanitrios os dois outros componentesdessas pequenas caixas,o plstico e o alumnio.Umcenrio que comeou a mudar a partir de maio des-te ano com a inaugurao em Piracicaba (SP) deuma unidade fabril para o processamento total des-ses materiais.A fbrica dotada de um processotecnolgico indito no mundo capaz de fazer a se-parao total do alumnio e do plstico que fazemparte das paredes das embalagens longa-vida,tam-bm chamadas de cartonadas.O desenvolvimentoda nova tcnica foi possvel com a unio de quatroempresas:Alcoa,que produz alumnio,a TSL,deengenharia ambiental,a Klabin,produtora de pa-pel,e a Tetra Pak,fabricante das embalagens.Elasesperam que o porcentual de reciclagem aumente,inicialmente,para 65% do total produzido no pas.

    Foram sete anos de pesquisa e desenvolvimen-to para chegarmos a esse novo processo,diz Nel-son Findeiss,presidente da Tetra Pak.Para ficarpronta,a nova fbrica de Piracicaba consumiu in-vestimentos de R$ 12 milhes,divididos entre asquatro empresas da parceria.A TSL,que construiue opera a unidade de 2,2 mil metros quadrados,temquatro anos para devolver o dinheiroinvestido pe-las outras trs empresas.Ela a responsvel peloprocessamento do material e pela venda dos produ-tos resultantes como lingotes de alumnio,papele parafina obtida do plstico.A fbrica capaz de

    processar 8 mil toneladas de plstico e alumniopor ano,o equivalente a 32 milhes de toneladas deembalagens longa-vida.Segundo Fernando von Zu-ben,diretor de meio ambiente da Tetra Pak,com oincio de operao da planta ser possvel elevar ovolume desse tipo de reciclagem,incrementando acadeia que participa dessa atividade,com geraode emprego e de renda.Acreditamos que,com aimplantao da reciclagem total,o valor das emba-lagens longa-vida recolhidas pelos catadores,hojeem cerca de R$ 250 a tonelada,aumentar 30%,dizVon Zuben.A unidade de reciclagem em Piracica-ba ser abastecida com material coletado por coo-perativas de catadores,pequenos sucateiros e pelosprogramas municipais de coleta seletiva de lixo.

    Plasma na matria - Baseada no desenvolvimentosustentvel,a tecnologia criada pela TSL utiliza oplasma como principal agente da reciclagem.O plas-ma um gs produzido em alta temperatura,par-cialmente ionizado,com perda de el trons e modi-ficaes moleculares e atmicas. So caractersticasque o deixam diferente dos demais estados existen-tes,como o s lido,o l quido e o gasoso.Portanto,umquarto estado da mat ria.O g s indutor doplasma,nesse caso, o argnio. Tambm conheci-do como plasma qumico ou industrial,ele age emtemperaturas elevadas,de cerca de 15.000 C, gera-das pelo uso de eletricidade nas chamadas tochasde plasma,presentes num reator.

    Para entender como funciona o processo de re-ciclagem ao plasma, preciso saber que as embala-gens longa-vida,compostas por papel (75%),pl s-tico do tipo polietileno (5%) e alumnio (20%),s oinicialmente processadas em um equipamento co-nhecido como hydra-pulper,que faz a separao do

    76 AGOSTO DE 2005 PESQUISA FAPESP 114

    RECICLAGEM

    Grupo de empresas montaunidade para processarembalagens do tipo longa-vida

    Aproveitamento total

    TECNOLOGIA

    T

    76a77-114-pesquisa-longa vida 27/7/05 6:22 PM Page 76

  • parafina, que pode ser vendido para in-dstrias petroqumicas, onde utiliza-do como aditivo para lubrificante, en-tre outros usos. O alumnio presente nomaterial, constitudo por filmes de 6micra de espessura (1 micra correspon-de milsima parte do milmetro), derretido e recuperado na forma delingotes de alta pureza. Ele vendido Alcoa, que o reemprega na produodas folhas de alumnio das novas em-balagens longa-vida.

    Alm de fazer a reciclagem total,com inegveis ganhos ambientais, so-ciais e econmicos, a tecnologia a plas-ma tem outra vantagem: o processo limpo, porque no h emisso de ne-nhum tipo de poluente. Isso aconteceporque o processamento do plstico e o

    alumnio no reator feito sem uso deoxignio e de qualquer tipo de queima.Os eventuais efluentes lquidos resul-tantes do processamento, por sua vez,so tratados para remoo de impure-zas e a gua pode ser reutilizada na mes-ma fbrica. A eficincia energtica doprocesso, de quase 90%, outro atrati-vo da tecnologia.A transferncia de ca-lor da chama de plasma para os produ-tos que esto sendo reciclados (plstico ealumnio) de 90%. Para ter uma idiade como essa transferncia alta, bastasaber que quando esquentamos gua nofogo a eficincia energtica de ape-nas 30%, explica Fernando von Zuben.

    Segundo o engenheiro RobertoSzente, do Instituto de Pesquisas Tecno-lgicas do Estado de So Paulo (IPT),contratado para avaliar a nova tecnolo-gia, o processo de reciclagem a plasma uma variante do processo de trata-mento de borras de petrleo e soloscontaminados com hidrocarbonetos,desenvolvido h cinco anos pela TSLAmbiental. A adaptao para o trata-mento de material plstico e alumniofoi analisada e comprovada pelo Grupode Plasma do IPT. Depois que o usoda tecnologia para o processamento doplstico e do alumnio das embalagenscartonadas mostrou-se tcnica e eco-nomicamente vivel, foi feita a parceriaentre as quatro empresas para a cons-truo e instalao da unidade de reci-clagem no interior de So Paulo, afir-ma Szente. A TSL possui a patente doprocesso nos Estados Unidos e j deuentrada de pedido idntico em vriospases europeus.

    O sucesso da tecnologia j desper-tou interesse no exterior e, at o finaldo ano, dever ser inaugurada a pri-meira planta industrial fora do Brasil. ATSL est construindo uma unidade emValncia, na Espanha, em parceria coma fabricante de papel Nessa, que realizaa reciclagem do papel das embalagenslonga-vida. Alm disso, misses de di-versos pases, como Sucia, China e n-dia, j visitaram a unidade industrial dePiracicaba e a planta piloto da TSL Am-biental em Osasco, na Grande So Pau-lo, demonstrando interesse em asso-ciar-se empresa para construo denovas unidades de reciclagem em seusrespectivos pases.

    PESQUISA FAPESP 114 AGOSTO DE 2005 77

    papel. Depois de separadas, as fibrasde papel so recicladas e utilizadas nafabricao de papelo. Essa primeiraetapa da reciclagem feita por uma f-brica da Klabin, localizada ao lado daunidade de reciclagem a plasma. A em-presa possui capacidade para produode 400 mil toneladas de papel recicladopor ano.

    Na segunda etapa do processo, o alu-mnio e o plstico resultantes da sepa-rao so encaminhados para o reatorde plasma trmico da TSL Ambiental.Os compostos plsticos so quebradosem cadeias menores e volatilizados,deixando o reator na forma de vapores.Depois esses vapores de hidrocarbone-tos gerados no processo a plasma socondensados, gerando um composto de YURI VASCONCELOS

    HL

    IO D

    E A

    LMEI

    DA

    76a77-114-pesquisa-longa vida 27/7 /05 6:22 PM Pa ge 77

  • reforma poltica a me de todas asreformas, afirmou o presidente doSenado, Renan Calheiros. A partirda recente CPMI dos Correios, oapreo filial por mudanas no sis-tema poltico nacional est pre-sente no discurso de acusadose acusadores, incluindo-se opolmico deputado RobertoJefferson, que, em seu de-poimento, a invocou como

    panacia para a corrupo. Instituies no criamcorruptos. Precisamos de algumas mudanas, masnada radical, sob pena de, na contramo do esperado,cortarmos canais de acesso importantes da popula-o ao sistema poltico, avisa Argelina Figueiredo,coordenadora do projeto Instituies polticas, pa-dres de interao Executivo-Legislativo e capacidadegovernativa (que tem apoio da FAPESP), em parce-ria com Fernando Limongi.A performance do siste-ma poltico brasileiro no to negativa e no justifi-ca propostas de reforma poltica, ao menos no comesta urgncia e/ou profundidade com que o tema tratado ante a opinio pblica. Reformas no so an-tdotos para as crises e seu efeito sobre a composioda classe poltica duvidoso e incerto, diz.

    A discusso sobre uma reforma poltica multi-facetada, mas tem quatro pontos recorrentes e sobreos quais no existe consenso: a fidelidade partidria,a fim de diminuir a migrao entre partidos; a ado-o de uma lista fechada, ou seja, os partidos ordena-

    POLTICA

    ASer que o pas precisa mesmo de uma reformade seu sistema eleitoral?

    Aemendado

    soneto

    CARLOS HAAGILUSTRAES HLIO DE ALMEIDA

    CAPA

    80a85-114-pesquisa-limongi 27/7/05 8:10 PM Page 80

  • riam a lista de seus candidatos antes das eleies,restando ao eleitor apenas votar na legenda, o quesupostamente terminaria com o individualismoeleitoral; a clusula de barreira, que prev o cancela-mento do registro do partido que no conseguisseeleger ao menos um representante para o Congres-so Nacional, ou que no obtivesse ao menos 50 milvotos; um sistema de financiamento pblico decampanhas, que poria fim ao chamado caixa dois.Precisamos tomar cuidado com o hiperinstituciona-lismo ingnuo que acredita que tudo pode ser modi-ficado por instituies pblicas, apenas pela existn-cia de regras, analisa Limongi. Para os autores, aemenda poderia sair pior do que o soneto: Emnome da governabilidade e da eficincia governa-mental no necessrio mudar o sistema de gover-no e restringir ainda mais os direitos parlamentarese, muito menos, estabelecer barreiras de entrada nosistema poltico, impedindo que demandas sociaissejam canalizadas pelo Legislativo, dizem os pes-quisadores. No h razo para diminuir o nmerode partidos e dar maiores vantagens aos lderes par-tidrios. As reformas restringiriam o papel do Con-gresso na definio da agenda governamental e suainfluncia autnoma na formulao de polticas p-blicas, observam.

    As crticas ao sistema atual so conhecidas: a de-mocracia brasileira ainda estaria em processo deconsolidao e se veria sempre ameaada por uma cri-se de governabilidade por causa do multipartidaris-mo e da representao proporcional. Para os reformis-

    tas, a incorporao crescente das massas ao proces-so poltico resultaria num excesso de demandas que,no atendidas, levariam a um radicalismo que mi-naria as bases da democracia. Seria preciso sacrificaras muitas escolhas possveis em nome da criao damaioria, da convergncia da vontade do eleitor parao centro. O metro usado para distinguir a vitalida-de das instituies dado pelo grau de restrio im-posto s preferncias dos eleitores. Segundo esse ra-ciocnio, so fracas as instituies que espelham ourefletem essas preferncias. So fortes as que atuamsobre os eleitores, impedindo que estes levem pola-rizao e radicalizao, analisa Limongi. Poucospartidos e partidos fortes: diminuindo as opes doseleitores e restringindo suas vontades, a democraciasairia fortalecida. Os pesquisadores discordam. No verdade que o governo brasileiro se encontra imo-bilizado por excessivas demandas da sociedade quese expressam sem filtros no sistema poltico, assegu-ram. Os autores tambm discordam das crticas auma suposta fraqueza do presidencialismo, que, numregime de muitos partidos, acabaria sempre gerandogovernos minoritrios que se veriam obrigados a bar-ganhas individuais com membros do Legislativo, fa-zendo concesses em detrimento do bem-estar gerale da agenda governamental.

    Essas crticas equivocadas partem do princpiode que o presidencialismo de coalizo, ao contrriodo parlamentarismo, impossvel, diz Limongi.Mas as evidncias no sustentam a afirmao deque o apoio obtido pelo Executivo tenha resultado

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    fundamentalmente da barganha individual com par-lamentares. Os partidos se comportam disciplina-damente, na contramo do que se afirma, e comoatores coletivos. Verificamos que os presidentes doperodo ps 1988 comandaram coalizes partid-rias que foram responsveis pela aprovao da agen-da legislativa do governo, avisam os autores. Segun-do eles, o sistema poltico brasileiro no opera deforma muito diferente do parlamentarismo, pois ospresidentes formam o governo da mesma maneiraque os primeiros-ministros: distribuindo minist-rios aos partidos e formando uma coalizo que asse-guraria os votos necessrios no Legislativo. Temosum presidente forte e um sistema decisrio fechadoque impede o individualismo congressual, observaArgelina. As excees confirmariam a regra.

    Lula - Collor estava em minoria e acreditava que po-deria enfrentar o Congresso com o apoio popular.Lula, no seu primeiro ano de governo, tambm op-tou por um governo minoritrio, chegando a desau-torizar Jos Dirceu a negociar uma coalizo efetivacom o PMDB. Ele pensava que conseguiria apoioapenas em funo de sua agenda, sem ceder espaono governo, avalia a autora. E nisso, completa ela,aproximou-se da poltica parlamentarista, at por-que, de incio, contou com o apoio dos partidos deoposio. Foi, porm, obrigado a voltar atrs. A coa-lizo de Lula diferente da feita por FHC. Em seusmandatos, a unio entre PSDB e PFL funcionoubem, at porque o governo soube controlar os parti-

    dos, que se reuniram em torno da agenda de estabi-lizao monetria e da insero no mercado interna-cional. J a relao do PT de Lula com o PL, de or-ganizao mais fraca do que o PFL (inserido h umlongo tempo na engrenagem governamental), deli-cada. Ao contrrio do PSDB, o PT tem em seu inte-rior vertentes ideolgicas muito diferentes, o que di-ficulta o controle do partido pelo presidente. Aresultante desses fatores foi a necessidade de agregarmuitos parceiros numa coalizo heterognea quecomplica a vida poltica do governo, fala Argelina.Para ela, independentemente do sistema de governo,uma coalizo funciona melhor quanto menor for onmero de parceiros e a diversidade entre eles.

    Segundo os resultados da pesquisa, isso poderiaser diferente, pois, afirmam os autores, os nossospartidos so atores coletivos e as bancadas, ao con-trrio do mito to propalado, so disciplinadas. De1989 a 1999, nas 675 votaes acontecidas na C-mara dos Deputados, observou-se a indicao dolder partidrio e nove em cada dez parlamentaresvotou com o seu partido. Assim, cada vez mais, o go-verno se v obrigado a conversar com o partido emvez do deputado individual.O sistema poltico bra-sileiro no gera as condies motivacionais e nemmesmo institucionais para que polticos baseiemsuas carreiras polticas exclusivamente em vnculospessoais e apartidrios com os eleitores e com o Exe-cutivo, revelam os autores. Mais um fator que, asse-veram os professores, vai de encontro necessidadede uma lista fechada, como a preconizada pelos re-

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    mente neutralizado, seja pela concentrao dos po-deres nas mos do Executivo, seja pelo aumento dopoder das lideranas partidrias. Mas o excesso decertos remdios pode provocar outras doenas. Al-gumas propostas de reforma poltica sugerem elevarainda mais o poder das lideranas. Hoje a fora des-ses lderes no Congresso to grande que os depu-tados so obrigados a obedec-los totalmente parapoder atuar. So esses dirigentes que definem a par-ticipao dos parlamentares em mesas, secretariasetc. e, dessa forma, controlam a atuao dos colegasde bancada, nota Argelina. Se, por um lado, observa,isso garante uma atuao partidria coesa, por outro,estimula a mal-afamada troca de siglas, o troca-tro-ca partidrio. As trocas, por paradoxal que possaparecer, no so provas do individualismo da nossaclasse poltica. Antes o contrrio. O estmulo para asmigraes no perodo recente vem das lideranaspartidrias. So os lderes partidrios que tm in-centivos para atrair deputados para suas siglas, afir-ma Limongi. Seria preciso, ento, amarrar as mosdeles, retirar-lhes a tentao de atrair quadros parao partido. preciso outros incentivos para que odeputado fique no partido em que foi eleito, maisdo que a fidelidade artificial por fora de lei, refor-a Argelina.

    Efetivamente, no h lgica em forar um depu-tado a permanecer no seu partido como forma decoibir a migrao entre partidos por parlamentaresque buscam interesses particulares. Afinal, algumque supostamente se venderia no PL continuaria

    formistas. Se os partidos agem disciplinadamenteno Congresso, a lista aberta um falso problema.Alm disso, a lista fechada eliminaria a participaodo eleitor na competio intrapartidria, diminuin-do sua chance de interveno. O sistema atual me-lhor, pois se d em dois estgios: uma eleio no in-terior do partido e depois a escolha do candidatopelo eleitor, observa Limongi.

    m outro bom exemplo de que exa-gerada a viso pessimista sobre o sis-tema poltico nacional o novo pro-cesso oramentrio, que conseguiuminorar as chances de corrupo.As emendas individuais no so pri-

    vilegiadas pelo Legislativo. Os regulamentos inter-nos ao Congresso garantem s emendas coletivas aapropriao da maior parcela dos recursos alocados.Tudo ocorre sem a interveno do Executivo. Issocoloca sob suspeio a noo de que o processo or-amentrio orientado basicamente para atenderinteresses locais ou particularistas de clientelas dosparlamentares, avaliam os pesquisadores.

    Para eles, a soma desses e outros fatores umaprova de que o voto pessoal est sendo gradativa-

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  • aberto a negociaes caso debandasse para o PFL,por exemplo. O problema, como notam os autores,parece mesmo estar nos lderes. Hoje, lembram, elese o presidente da Mesa estabelecem a pauta dos tra-balhos e tm direitos procedimentais que lhes per-mitem controle estreito sobre o processo legislativoe sobre o comportamento do plenrio. Do outro la-do da Esplanada, o Executivo tem a seu favor o poderda edio de medidas provisrias. A MP capaz demodificar a estrutura da escolha parlamentar e fazdo presidente o principal legislador da nao. Aindaque as MPs precisem ser aprovadas pela maioria dosparlamentares, o Executivo consegue uma alta taxade sucessos na aprovao de seus projetos, no sdeterminando a pauta dostrabalhos legislativos comoinfluindo em seus resultados.O padro de produo legis-lativa observado no Brasil nose encontra muito distanteda performance dos regimesparlamentaristas, seja peloprisma da iniciativa, seja emrelao ao grau de sucessodas proposies do chefe doExecutivo, afirmam os pes-quisadores. Assim, o que re-formar?

    Um dos pontos em dis-cusso a favor das mudanas o financiamento das cam-

    panhas.H um novo mito no mercado: diz-se que ascampanhas brasileiras so as mais caras do mundo.No creio que saibamos qual o custo real das campa-nhas em todos os pases do mundo. Os dados sobreo Brasil vm de estimativas, quando no de puros chu-tes, pondera Limongi. Dessa forma, nada garante quea proposta do financiamento pblico de campanhasseja uma medida eficaz contra o mal maior e atual docaixa dois. Pblico ou privado, no ser com essetipo de alterao que acabaremos com essa prtica.Adotar o caixa um no garantiria o fim do dois. Oque necessrio incentivar os financiadores a fazerdoaes legais por meio de incentivos fiscais. Pode-se tambm fazer uma previso de gastos dos partidos

    e exercer maior fiscalizaosobre eles. Mas levando emconta um teto de financia-mento realista, no ideal, dizArgelina. O que, talvez, evi-tasse os embates atuais noCongresso, em que deputa-dos e senadores acusam unsaos outros de subestimar noTribunal Superior Eleitoral(TSE) os gastos reais feitosem suas campanhas. Os 20anos de autoritarismo, emque a sociedade foi proibidade se expressar, contriburampara a ampliao da corrup-o, acredita a pesquisadora.

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    O PROJETO

    Instituies polticas, padres de interao Executivo-Legislativo e capacaidade governativa

    MODALIDADEProjeto Temtico

    COORDENADORESFERNANDO LIMONGI Cebrape ARGELINA FIGUEIREDO USP

    INVESTIMENTOR$ 228.739, 26 (FAPESP)

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  • PESQUISA FAPESP 114 AGOSTO DE 2005 85

    inda assim, ela no acredita nochamado mensalo. Seria umprocedimento irracional e semgarantias para o governo. Osistema no movido a cor-rupo e patronagem. Se h

    algo, no ocorre entre governo e deputados emparticular, mas via partidos. O que pode ter ocor-rido foi a distribuio de dinheiro para alguns par-tidos que, por sua vez, o repartiram entre os seusmembros. O mais razovel, segundo a professora, que houve um imenso caixa dois feito com baseem doaes ilegais de empresas, no superfatura-mento dos contratos do governo ou ainda pormeio dos bnus de veiculao, o dinheiro de cam-panhas publicitrias devolvido para as agncias depublicidade como forma de atrair anncios. bom que essas prticas estejam sendo julgadas nes-se momento, o que pode levar a uma mudana nocontrole do financiamento dos partidos e das lici-taes do Executivo.

    No caso especfico das acusaes feitas ao PT,Argelina afirma ainda no ser possvel avaliar o im-pacto da revelao de um suposto caixa dois dopartido. Mas muitos petistas esto satisfeitos com

    esse processo, pois ele pode ajudar a consolidar opartido. Ele cresceu muito e rapidamente e seriaidealismo imaginar que no fosse afetado por al-gum tipo de corrupo. A exposio positiva dasmazelas do PT no deve, no entanto, ser compara-da, diz a pesquisadora, com o sucesso miditicode Roberto Jefferson. O nico objetivo das suasdenncias tentar emplacar a idia de que todos ospolticos so corruptos como ele. Isso desanima apopulao, que tomada por um cinismo, um ce-ticismo sobre os polticos e o sistema poltico. Jef-ferson no cumpre nenhum papel importante paranossa democracia. Apenas um corrupto que norecebeu o que queria e sentiu-se inseguro com oseu esquema nos Correios, alerta. Outro aviso im-portante da pesquisadora para a opinio pblica exercer o direito de controle sobre a CPMI em cur-so. No verdade que todas as CPIs acabem empizza. Muitas foram fundamentais e efetivas, ape-nas no viraram manchete dos jornais. No caso daatual, est havendo um grande jogo de cena e, seno existir uma presso da sociedade, os parla-mentares no iro aos fatos, mas se perdero emexibies para seus eleitores. Mas, lembra a autora,o sistema sobreviveu ao affair Collor e vai sobrevi-ver crise atual com a mesma fora. Deveramosestar comemorando o sucesso de nossa democra-cia, e no nos lamentando, diz Limongi. No hsistemas polticos a salvo de crises. No refor-mando o sistema que se resolvem conflitos e desa-venas. Eles ocorrem e so normais.

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    o cunhar a frase natureza ator-mentada, no incio do sculo17, numa referncia ao objetodo conhecimento cientfico,Francis Bacon no imaginouque esse ideal iria, no sculo

    21, atormentar filsofos e cientistas. O tormento domundo natural, para ele, significava conhec-lo, nopelo saber desinteressado, mas para dominar, trans-formar e, ento, utilizar esse universo da maneira maiseficiente. E de forma precisa. O instrumento eleitopara essa tarefa foi dado por outro pensador daqueletempo, Galileu, que assegurou serem as qualidades dosobjetos naturais redutveis matemtica e mecnica.O bero da cincia moderna trazia a estrutura paraque o ideal de controle da natureza pudesse ser reali-zado. frente do italiano surgiu a Igreja, com suas su-persties e obscurantismos, e logo foi preciso separarfato, privilgio do pensamento cientfico, dos valores,ligados autoridade e ao social. O recm-nascido seriaimparcial, neutro e autnomo.

    A cincia precisa assumir que possui tambm oseu lado engajado, pois, apesar de se declarar despro-vida de valores, traz em si o ideal do controle donatural, que j um valor. Nada contra, pois essa von-tade faz parte intrnseca do ser humano. Mas preci-

    FILOSOFIA

    HUMANIDADES

    Projeto discute os perigos da mercantilizao da cincia

    Natureza atormentada

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  • 88 AGOSTO DE 2005 PESQUISA FAPESP 114

    so sempre levar em conta que, s ve-zes, h um problema: como controlarquem controla a natureza, afirma Pa-blo Ruben Mariconda, coordenador doProjeto Temtico Estudos de filosofia ehistria da cincia, apoiado pela FA-PESP, um espao de discusso e anlise,histrica e filosfica, dos caminhos tri-lhados pela cincia, dos seus primr-dios no sculo 17 at o momento atual.

    O projeto j resultou numa revista,a Scientia Studia (verso on-line www.scientiaestudia.org.br), que traz textoscrticos e analticos de vrios pesquisa-dores e tambm obras cientficas hist-ricas (cartas, tratados etc.), traduzidas ecomentadas. Alm do foco histrico, apesquisa se debrua sobre a chamadapolmica da tecnocincia, a unio decincia e tecnologia. A tecnocincia,por vezes, une a supervalorizao do as-pecto aplicado do conhecimento com adesvalorizao da pesquisa pura e doconhecimento como um fim em si mes-mo, diz Mariconda. O princpio da difu-so por toda a sociedade dos produtostericos e intelectuais pode, em algunscasos, dar lugar a uma intensa privati-zao do saber em troca de lucros.

    Hoje, em vrios setores, quase im-possvel separar pesquisa cientfica deinteresses e no se cumprem mais osvalores de eqidade e benefcio geral,atributos natos da cincia, diz Mari-conda. Esse estado de mercantilizaopode colocar em risco a cincia como aentendemos e desejamos. Foi, no en-tanto, um processo lento. O ideal dedominao da natureza nasceu no s-culo 17, mas no se realizou a no serna gerao do conceito de cincia til.Era a resoluo de um impasse iniciadono Humanismo renascentista, que pre-conizava o poder do homem em co-nhecer e dominar a realidade. Haviaento duas formas de pensar o valorda cincia. Uma entendia a teoria cien-tfica como a busca do conhecimentopelo conhecimento, pela ampliao dosaber sobre o desconhecido, sem queisso implicasse a aplicao prtica dasdescobertas. Ao lado disso estava o uti-litarismo, que defendia a valorao dacincia em funo da quantidade deaplicaes prticas que uma dada des-coberta pudesse permitir. No se podiaperder tempo, pois era preciso dar or-dem ao mundo e control-lo pratica-mente. A deciso mais acertada dentre

    vrias escolhas possveis num experi-mento seria aquela com a maior efi-cincia de garantir uma finalidadepragmtica. No sculo 17, o julgamentode Galileu foi um ponto nevrlgicodessa mudana pois, fato e valor foramenfim dissociados. No tribunal, de umlado estava um homem da razo que viuseu pensamento ser confrontado coma f. Naquele momento foi necessrioento que a incipiente cincia fosse to-talmente desprovida dos chamados valo-res sociais para distanciar-se ao mximodo que no fosse racional, cognitivo.

    A cincia adotou a matematizao,mas a realizao do paradigma do con-trole s se daria no sculo 19, com osurgimento das condies sociais e eco-nmicas necessrias. A Primeira Revo-luo Industrial reuniu, pela primeiravez, produo de conhecimento e pro-duo de mercadorias. A partir de en-to, essa relao entre cincia e tcnicafoi naturalmente se estreitando. O fimda Segunda Guerra Mundial marcouainda mais a confluncia entre cinciae tecnologia que, em tempos mais re-centes, desembocou na chamada tec-nocincia.

    Negao - A reao, afirma Mariconda,foi excessiva, a ponto de inspirar crti-cas radicais, ps-modernistas, que con-denam a cincia e as patentes na sua to-talidade, sem racionalizao. O projetode Mariconda no caminha no sentidodessa negao total, mas, dentro domelhor esprito cientfico, defende a va-lidade das pesquisas cientficas, apenasprefere avisar sobre o perigo da valora-o excessiva do controle da naturezasobre outras formas de relacionamentocom os objetos naturais. Nesse contex-to, a cincia moderna seria uma abor-dagem possvel entre outras tantas, semradicalizao dos elementos de neutra-lidade e autonomia, preservando a suaimparcialidade.

    Mas, reconhece o pesquisador, estcada vez mais complicada essa amplia-o do leque de escolhas, na medida emque, de forma crescente, a pesquisa mi-grou das universidades para as corpo-raes econmicas, que tambm apli-cam recursos no desenvolvimento denovos conhecimentos. O nmero de pa-tentes revela a desproporo: no mun-do todo, apenas 3% delas so concedi-das a pesquisadores vinculados a uma

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  • PESQUISA FAPESP 114 AGOSTO DE 2005 89

    O PROJETO

    Estudos de filosofia e histria da cincia

    MODALIDADEProjeto Temtico

    SUPERVISOPABLO RUBEN MARICONDA USP

    INVESTIMENTOR$ 116.332,00 (FAPESP)

    instituio acadmica. Essa questo um ponto nevrlgico, pois restringe oacesso de procedimentos biolgicos aum grupo de pessoas que tem a paten-te. No longo prazo, isso pode acarretaro retalhamento do campo cientfico emum sem-nmero de patentes, o que im-possibilitaria o conhecimento univer-sal. Esse ficaria limitado pelas reasreguladas pelas patentes e ser difcilfazer pesquisa independente, avisaMariconda. Precisamos nos conscien-tizar de que no se pode ficar apenas napesquisa aplicada. Felizmente, alertaMariconda, o Brasil um dos poucospases da Amrica Latina que no abriumo da pesquisa bsica.

    Conhecimento - Temos muitos institu-tos que, embora de ponta para a pes-quisa aplicada, canalizam esforos nabusca de conhecimento cientfico quesolucione problemas fundamentais dasociedade brasileira, elogia o pesqui-sador, que ressalta o valor do trabalhode fundaes de fomento pesquisa,como a FAPESP, a Fundao de Ampa-ro Pesquisa do Rio de Janeiro (Fa-perj), o Conselho Nacional de Desen-volvimento Cientfico e Tecnolgico(CNPq) e a Comisso de Aperfeioa-mento do Ensino Superior (Capes), en-tre outras. Um dado novo a se analisarverifica-se na polmica da quebra daspatentes, em especial das drogas usa-das no tratamento da Aids. O governotem suas razes para tanto, mas apenasem casos extremos como esse, pois setrata de uma situao em que os pro-dutos so caros e deveriam estar bene-ficiando a todos. Em casos de vida emorte, o lucro no pode se sobrepor snecessidades da populao, defende.A propriedade difusa, pblica e coleti-va, associada ao conhecimento dos po-vos e das comunidades em geral e mes-mo da comunidade cientfica emparticular, comea a competir de modoperigoso com a propriedade privada,associada a um conhecimento tecnol-gico avanado, cujo desenvolvimentodepender cada vez mais de grandes in-vestimentos que s existiro com a ga-rantia de retorno ainda maior, avalia opesquisador.

    Para Mariconda, no mbito da cin-cia, pode-se, no limite, estabelecer queh um empobrecimento cultural e inte-lectual: a tecnocincia contempornea,

    se predatria, leva o conhecimentopblico, ideal da cincia moderna, atornar-se conhecimento privado. Aodefendermos a imparcialidade da pes-quisa cientfica, como a feita nas fun-daes e nas universidades, falamos afavor de um conhecimento livre deingerncias externas que se mascaramde humanistas e progressistas para im-por uma ideologia que se volta contra ohomem e inibe a liberdade de pensa-mento, avalia o pesquisador. Afinal,advoga Mariconda, a presena de valo-res no impede a cincia de atingir umconhecimento objetivo e imparcial.

    Ter a chance de conhecer a fundoos fenmenos e, dessa forma, controlara natureza em si no um mal. O pro-blema a utilizao estritamente ma-terialista dessa conquista. O mesmo co-nhecimento pode ser usado de vriasformas, avalia.

    J controlar os cientistas umaquesto delicada. Muitos insistem natese da neutralidade e na idia de que omau uso de suas descobertas respon-sabilidade do capitalismo e do Estado, eno deles. Essa no uma atitude sau-dvel. Sempre que produzimos conhe-cimento somos responsveis pelos efei-tos colaterais dessa criao, avisa oautor. Mariconda lembra o exemplo deEinstein, que, apesar de ciente das conse-qncias de suas descobertas, no pa-rou as suas pesquisas. O que no o im-pediu de usar a sua figura pblica parapropagar o pacifismo. Afinal, naqueledia do julgamento, apesar da violnciacom que era ameaado, Galileu no sedeixou levar. O eppur se muove era to-talmente verdade.

    CARLOS HAAG

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  • 90 AGOSTO DE 2005 PESQUISA FAPESP 114

    magine chegar bem perto das guasdo rio Tiet, ver seus peixes abrindo es-pao para uma embarcao e crianasnadando enquanto, ao fundo, dois clu-bes disputam uma regata. Cena impos-svel de se ver hoje, mas que pode ser

    vislumbrada, por meio da histria, nas pginas datese de doutorado O rio que a cidade perdeu O Tie-t e os moradores de So Paulo 1890-1940, defendidapor Janes Jorge no Departamento de Histria da USPem abril.

    Bolsista da FAPESP de 1999 a 2003, Jorge enfren-tou o desafio de realizar um trabalho de histria socialdo cotidiano que dialogasse com os estudos sobre aurbanizao de So Paulo e com a nascente histriaambiental, frmula inevitvel perante as profundasdiscusses contemporneas sobre o papel do Tiet navida da metrpole. Parti do pressuposto de que no possvel ter idia dos custos sociais e ambientais daurbanizao paulistana no sculo 20 sem que a pes-quisa histrica nos informe, ainda que parcialmen-

    HISTRIA

    Estudo revela a vida em torno da principal via hdrica de So Paulo no incio do sculo 20

    Em busca do

    Tiet perdido

    RENATA SARAIVA

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  • PESQUISA FAPESP 114 AGOSTO DE 2005 91

    HUMANIDADES

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    Aquarela de Chanderlain (1820) mostrando ao longe o pico do Jaragu e, no primeiro plano, a vrzea da Lapa

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  • sobre o que fazer com o rio permanece-ram nos anos seguintes at que, no finaldos anos 1930, o ento prefeito PrestesMaia deu incio ao processo de retifi-cao que deu origem forma que oTiet tem hoje.

    Nos anos 1920, ganhou fora aidia de que as margens dos rios deviamacolher grandes vias de circulao dacidade. E, ao contrrio de alguns planosque antecederam o seu, o de Prestes Maiano contemplava reas de lazer no en-torno do Tiet, conta Jorge. EnquantoPrestes Maia queria que as laterais do riofossem grandes avenidas, a Light andPower Co., empresa que detinha o mo-noplio da eletricidade e transportes em

    92 AGOSTO DE 2005 PESQUISA FAPESP 114

    te, sobre o que existia antes disso, diz opesquisador.

    Tambm a experincia pessoal con-tou para a escolha do tema. Como suafamlia vive na Vila Maria, um dos bair-ros vizinhos ao Tiet, Jorge tinha namemria relatos sobre transformaesdrsticas do ambiente em torno do rioocorridas na simples passagem de umagerao para a outra.

    rocurei dar uma vi-so abrangente dasrelaes sociais en-tre os diversos gru-pos sociais paulista-nos e o rio naquele

    perodo, investigando diferentes di-menses da vida social. A documenta-o pesquisada, no entanto, possibilitainmeras pesquisas especficas, como ahistria da pesca em So Paulo ou o im-pacto social das grandes obras urbanasna vida dos moradores e no meio am-biente, afirma Jorge.

    Pois a pesca foi apenas uma das ati-vidades desenvolvidas pelas populaesestudadas por Jorge. O que se v nesseperodo que se trata do momento emque o rio foi mais utilizado, por contado rpido crescimento da cidade e dosinmeros recursos que oferecia. Aomesmo tempo, ele j est caminhandopara a sua triste condio atual, diz ohistoriador.

    Propostas de interveno geral nocurso do Tiet na cidade de So Pauloganharam fora a partir de 1890, data

    que d incio ao perodo estudado porJorge. O governo do estado instituiuuma comisso de saneamento com oobjetivo de evitar, principalmente, asepidemias que ameaavam a expansoda economia cafeeira, conta o pesqui-sador. Na poca havia controvrsiascientficas sobre a origem das doenas eacreditava-se que muitas delas eram cau-sadas por miasmas, que se formavamdevido umidade excessiva e s guasestagnadas.

    Em 1893, um projeto de retifica-o do rio foi apresentado, mas no foilevado adiante devido a problemas po-lticos e econmicos enfrentados pela eli-te cafeeira, diz Jorge. Mas as discusses

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  • So Paulo, tratava de afastar o poder p-blico da administrao efetiva do Tie-t e seus afluentes, como forma de evi-tar concorrentes no uso das guas ourestries ao seu modo de operar.

    O poder pblico e a Light no eramos nicos interessados no potencial eco-nmico do Tiet. Ao lado deles, outrosagentes da frentica urbanizao explora-vam sua bacia, extraindo areia e pedre-gulho para a construo civil ou usandoas guas para o transporte das cargas quechegavam metrpole em formao.

    Houve uma explorao intensa doTiet no perodo analisado por Jorge. Ese o Tiet era um grande negcio paramuitos, no extremo oposto, para os tra-

    balhadores pobres, era o local de ondese tirava sustento, fosse por meio dapesca e da caa, da retirada de areia epedregulho ou do trabalho em chca-ras s margens do rio e seus afluentes.

    Predatria - Era inevitvel que tal cen-rio resultasse em todo tipo de conflito,como entre chacareiros e loteadores ur-banos; entre barqueiros novos e anti-gos; entre pessoas que praticavam pescapredatria e aquelas que condenavamessa atividade ou aqueles referentes sdesapropriaes que precisavam ser fei-tas para as obras de retificao.

    Os rios eram to importantes para avida da cidade que uma das figuras que

    se destacavam no cenrio urbano noincio do sculo 20 era a do fiscal derios. A ele eram atribudas diversas fun-es. De verificar e regulamentar as con-dies de pesca e da extrao da areia aprestar socorro s populaes ribeiri-nhas nos casos de enchentes sim, jnaquela poca elas existiam.

    A anlise de alguns relatrios deixa-dos por esses fiscais permite identificara realidade ambgua das condies am-bientais e sociais no entorno do Tiet. E nas palavras de um deles, Jos Joa-quim de Freitas, em carta ao prefeitoAntonio Prado, em 1903, que se podeter a dimenso exata de quanto o Tietj estava condenado a ser o que hoje:Esta corrente de importncia vitalpara a cidade de So Paulo. Do seu lei-to extraem a areia e o pedregulho; dasmargens, o tijolo e a telha; das vrzeas,muita da hortalia que abastece o mer-cado; d o transporte mais econmi-co a todos esses produtos. (...) O Tiet,puro, capaz de transportar as imun-dices que lhe so confiadas, o sanea-mento, poludo, sobrecarregado de de-tritos que se vo sedimentando eputrefando (...). De h muito me arre-ceio pela poluio do Tiet, e esperopelo remdio contra esse mal. Mas hdois anos que esse receio se tornou pa-vor, e hoje sinto necessidade de chamara zelosa ateno do sr. Dr. Prefeito, pa-ra que reclame dos poderes competen-tes a soluo desse problema de vidaou morte para S. Paulo.

    Pelo mesmo esperam, at hoje, ospaulistanos, no s os que vivem smargens do rio, mas em todas as reasprejudicadas cada vez que seu leito de-cide reapropriar-se do espao que suasguas perderam com a urbanizaoda cidade.

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    Clube de Regatas beira do rio Tite numa vista tomada por volta de 1905: na mensagem l-se O pequeno Tmisa de So Paulo

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  • 94 AGOSTO DE 2005 PESQUISA FAPESP 114

    s militares,mesmocom o fim do re-gime de exceo,

    ainda se mantm como umestigma dentro da socieda-de brasileira.Para muitos,eles seriam inteis nessesnovos tempos,sem guerrasfrias ou ameaas externasao Brasil.Para outros,elesso lembrados com umaponta de saudosismo,res-ponsveis por um pas ple-no de ordem,disciplina eprogresso.A verdade que,apesardo papel fundamental que sempreexercitaram na histria nacional,pouco sabemos sobre os militares.Esse novo estudo de Jos Murilo deCarvalho uma honrosa exceo,em especial por reunir textos com-postos pelo historiador ao longo de

    30 anos.Dessa forma,escritos de1964,em que o autor se perguntavapor que no estudamos os milita-resantes que eles fizessem o golpe,so complementados por outros,re-centes,que nos avisam da necessida-de de rediscutir o papel dos militaresnos novos tempos,sob pena,alerta o

    Uma velha histria sem final feliz

    O historiador, de corrermoso risco de sermos surpreen-didos pelos acontecimentoscomo em 1964 e sermos,novamente,atropelados pe-la roda da fortuna.O queesperar do Exrcito hoje? Operigo mora no desinteres-se por esse dilema,tanto doExecutivo quanto do Legis-lativo.Murilo de Carvalhoobserva que o episdio re-cente do pronunciamentomilitar favorvel repres-

    so,e que levou queda do ministroda Defesa, uma prova de que nemtudo foi resolvido.Para Jos Murilode Carvalho,as manchas do passadoforam,cedo demais,esquecidas.

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    Foras Armadas e poltica no Brasil

    Jos Murilo de Carvalho

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    224 pginas / R$ 38,00

    m perodo de crisespolticas,um fan-tasma ronda o ima-

    ginrio de todos:CarlosLacerda.O inventor do cha-mado mar de lama, ape-sar de polmico, no podeser comparado com a bo-alidade dos denunciantese moralistas de planto dostempos atuais.Uma boaprova de seu talento apare-ce nessa interessante cole-o de cartas escritas porele e para ele num perodo que se es-tende de 1939 at 1968,incluindo,aparte mais saborosa,todo um volu-me dedicado s epstolas que falamde sua relao com o regime militar.Nisso,temos direito mesmo a sur-presas,como um telegrama em queo defensor ferrenho do golpe de 1964

    se transforma em crtico da ditadu-ra,pregando a anistia aos cassadosdaquele ano. Respondendo ao seutelegrama entendo tema deve abran-ger,segundo penso,exame.Revolu-o em face tentativa dividir-nos.Promover restaurao.Processar vol-ta de homens banidos pelo movi-

    Cordialmente, Carlos Lacerda

    E

    mento. Mas nem tudo poltica eh vrias cartas para escritores e in-telectuais,como Carlos Drummondde Andrade,JK,Erico Verissimo,Gilberto Freyre,M rio de Andrade.

    Editora UnB (61) 3035-4200 www.unb.br

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    Minhas cartas e as dos outros

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    2 volumes

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  • De perto e de longeDidier Eribon/Claude Lvi-StraussCosac Naify272 pginas, R$ 26,90

    Uma conversa imperdvel em que o grande antroplogo francs conta a sua trajetria,definindo-se como um Dom Quixote da antropologia.

    A entrevista traz em cena as grandes figuras intelectuaise artsticas do sculo 20,como Lacan,Duchamp,Ernst, Jakobson, Braudel, Boas, Merleau-Ponty, amigose influncias de Lvi-Strauss.Partindo da sua infncia,o antroplogo conta a sua formao acadmica,a descoberta de Marx,os tempos passados no Brasilcom Braudel e Bastide,na fundao da USP em 1935.

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    PESQUISA FAPESP 114 AGOSTO DE 2005 95

    Vencer ou morrer:futebol, geopoltica e identidade nacionalGilberto AgostinoMauad/Faperj272 pginas, R$ 38,90

    Esporte capaz de arrebatar paixes e tambm de fazer histria.Nessa obra,GilbertoAgostino mostra o futebol por um ngulo diferenciado:a interao do jogo com os modelos e sistemas polticos,bem como sua participa o no processo de construo de identidades nacionais no Brasil e no globo.O t tulo remete a uma frase de Mussolini,dita aos seus soldados antes de entrarem em batalhas.

    Mauad (21) 2533-7422www.mauad.com.br

    A hidra e os pntanos: mocambos, quilombos e comunidades de fugitivos no Brasil (sculos XVII-XIX)Flvio dos Santos GomesEditora Unesp464 pginas, R$ 58,00

    O Brasil pode se orgulhar de ter na histria da resistncia escrava nas Amricas o maior nmero de povoamentos de cativos fugidos.Segundo o autor,assenzalados e aquilombados trabalharam juntos numa inusitada e pouco conhecida resistncia contnuacontra o sistema de escravido.

    Editora Unesp (11) 3242-7171www.editora.unesp.br

    O Brasil e a economia internacionalPaulo Nogueira Batista Jr. Editora Campus162 pginas, R$ 35,00

    Um livro importante nesses tempos em que o quadro econmico varia comgrande velocidade,em especial no

    terreno internacional.Nogueira Batista discute a dimenso cambial e financeira do relacionamento externo da economia brasileira.Ao mesmo tempo,o pesquisador avalia as negociaes comerciais do Brasil,em especial a delicada questo da implementao da Alca,tema que gera um debate intenso entre governos.

    Editora Campus (11) 5105-8555www.campus.com.br

    A histria do diaboVilm FlusserAnnablume214 pginas, R$ 38,00

    possvel a afirmativa de que o tempo comeou com o Diabo,que oseu surgir ou a sua queda representamo incio do drama do tempo,e que

    diabo e histria sejam dois aspectos do mesmo processo,afirma Flusser no seu delicioso e pol micolivro,um elogio ao prncipe das trevas, escrito com pardias a textos sagrados.Para Flusser,influ ncia divina tudo o que procura superar o tempo e influncia diablica,tudo o que quer preservar o mundo no tempo.

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    Identidades, discurso e poder:estudos da arqueologia contemporneaPedro Paulo Funari, Charles Orser Jr.e Solange Nunes de Oliveira (org.)Annablume/FAPESP246 pginas, R$ 40,00

    Uma interessante e importantecoletnea de artigos que mostra a dimenso e o trabalho da arqueologia brasileira.Entre os temastratados nessa reunio de textos: Os espaos da resistncia escrava em Cuba,de Gabino Cozo;Questo tnica no discurso arqueolgico,de Oliveira.

    Editora Annablume (11) 3812-6764www.annablume.com.br

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  • 96 AGOSTO DE 2005 PESQUISA FAPESP 114

    omecei a me afeioar a esse lugar no dia em que derrubei quase meia xcara decaf sobre um dos meus cadernos.Quando terminei a ltima linha da dcimafolha,meu brao tremia tanto que acabei esbarrando na xcara e derrubando o

    caf.O lquido quase meia xcara de caf! cobriu as palavras e,quando eu tive certe-za de que no conseguiria ler nada por baixo da mancha escura,at porque meia xcarade caf no pouca coisa,comecei a chorar.Na mesma hora,a moa do caixa veio meconsolar:fazia questo de trazer para mim outra xcara de caf.Alis,eu no precisariapagar de novo.O problema era o caderno,expliquei.A garota pediu desculpas e disseque esse problema ela no tinha como resolver,j que vendiam caf,caf com leite,lei-te e at mesmo refrigerante,mas no cadernos.No devia custar grande coisa,conti-nuou,um caderno,s que talvez seja mais caro que uma xcara de caf,ou meia,j queeu tinha tomado uma parte,possivelmente um pouco mais da metade,muito emboratenha sobrado caf suficiente para cobrir a folha e deixar tudo completamente ilegvel.Se eu tivesse escrito a caneta,talvez conseguisse ler alguma coisa,j que o caf,mesmose for muito,quase meia xcara,costuma fazer contraste com a tinta azul.Finalmente elacompreendeu,mas mesmo assim,talvez porque fosse do caixa e no trabalhasse no balco(e,portanto,no estava cansada,o que lhe dava mais energia para consolar os clientes,principalmente aqueles que derrubam meia xcara de caf em cima do rascunho de suatese de doutorado,motivo mais do que suficiente para tomar muito caf,o que um pa-radoxo,j que se tomasse menos caf possivelmente haveria mais lquido na xcara e oestrago seria maior e talvez at cobrisse as anotaes para as notas de rodap,fato maisdesesperador,porque banca alguma aceita uma tese de doutorado com menos de trezen-tas notas,no por nada,mas porque as notas demonstram o conhecimento bibliogr-fico indispensvel para qualquer um que esteja querendo ostentar o ttulo de doutor),oque a deixava mais disposta para consolar os clientes que,por qualquer motivo,derru-bam quase meia xcara de caf em cima de um caderno com dez folhas de anotaes alpis,sim,porque se fosse a caneta,a cor do caf se misturaria ao azul da tinta e o efeitoseria muito bonito:at mesmo as notas de rodap ficariam elegantes,o que um sinalvalioso para a banca,principalmente porque isso,a elegncia da nota de rodap e no ocontraste da cor do caf com o azul da tinta da caneta,demonstra horas de estudo,o que indispensvel para qualquer um que deseje ostentar o ttulo de doutor.Para no per-der o fio, importante lembrar que se aquela moa trabalhasse no balco,possivelmen-te estaria cansada e sem nenhuma disposio para consolar os clientes que,por motivosvariados,derrubam quase meia xcara de caf sobre um caderno com dez folhas escri-tas a lpis.Se estivessem a caneta,possivelmente a moa que trabalha no balco tambmno se animaria a consolar o fulano,mas ocorre que o fulano,por sua vez,tambm nocomearia a chorar,porque o caf,mesmo que seja quase meia xcara,no esconde pa-lavras escritas a caneta,pelo contrrio,acaba tornando o tom do azul mais bonito. quese o fulano,no caso eu,tivesse escrito a caneta o caf no teria coberto as palavras eele,muito possivelmente,no comearia a chorar,j que o conhecimento novo que uma das principais exigncias para uma tese de doutorado,alm das seiscentas notas derodap,no seria destrudo por causa de meia xcara de caf que acabou virando por-

    Caf

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    que o fulano, no caso eu mesmo, estava muito emocionado por ter finalmente escritodez folhas com um conhecimento genuinamente novo, um dos pr-requisitos para aaprovao de uma tese de doutorado, alm das novecentas notas de rodap, que de-monstrariam que o candidato tinha pleno domnio da bibliografia referente ao assuntoda sua tese. S que como o fulano, ou, o que me di muito ter que admitir, eu mesmo,tinha escrito a lpis e nada mais lhe restava do que chorar em cima do caf derramadosobre o conhecimento novo que eu, ou melhor, o fulano, tinha acabado de perder. O queme afeioou a esse lugar no foi a atitude da garota que trabalha no caixa eu tenho cer-teza de que se ela trabalhasse no balco a coisa teria sido muito diferente, ainda que euadmita claramente que sua gentileza rara nos dias de hoje: ningum mais quer saberda tragdia dos outros, nem mesmo quando o fulano perde mil e duzentas notas de ro-dap, praticamente uma livre-docncia! Eu sei que ningum est a salvo de derrubarquase meia xcara de caf em cima de dez pginas de sua (ou, no caso, minha) tese dedoutorado. Alis, pode at acontecer com a prpria banca, bem no momento em que ela,a banca, e no a moa que trabalha no balco (sim, porque se fosse a do caixa), vai lem-brar o candidato de que o conhecimento novo, e no um amontoado sem nexo de no-tas de rodap, s pode ser obtido a partir da combinao de determinados fatores dife-rentes na forma de um texto qualquer, por mais que ele, o texto qualquer e no oconhecimento novo, esteja embasado por mil e quinhentas notas de rodap. Nesse mo-mento, se o membro da banca no tiver escrito uma tese com mil e oitocentas notas derodap, ele pode vacilar, j que seu argumento ser mais frgil e portanto sujeito fcilrefutao pelo candidato, e terminar derrubando meia xcara, ou mesmo uma inteira,sobre a tese. Evidentemente que nesse caso no h motivo para choro, j que o conheci-mento novo no estar perdido, pois o membro da banca pode muito bem pedir em-prestado para o colega de argio (esse um pouquinho mais seguro, pois fez uma tesecom duas mil e cem notas de rodap) seu exemplar para continuar desenvolvendo o ra-ciocnio. Claro que da em diante tudo ficar prejudicado, pois o candidato j no ternimo nenhum para ouvir as consideraes do membro da banca, que sequer teve o cui-dado de deixar a xcara de caf longe do exemplar da tese, preveno bsica para qual-quer um que sabe que no todo texto que constitui um conhecimento novo, muito me-nos os que terminam manchados por quase meia xcara de caf, mesmo que ela tenhasido derrubada por um professor que redigiu, sua poca, uma tese de doutorado comduas mil e quatrocentas notas de rodap, o que demonstra indiscutivelmente um conhe-cimento novo, mas no a segurana para tomar direito um gole de caf, at porque o co-lega de banca que vai falar logo a seguir escreveu uma tese, por sua vez, com duas mil esetecentas notas de rodap, o que demonstra que seu conhecimento novo mais genu-no que o do outro, coisa que naturalmente deixa todo mundo inseguro, a ponto de der-rubar o caf. A menos, claro, que a pessoa tenha, ela mesma, escrito uma tese com trsmil notas de rodap. Mas a pedir demais.

    RICARDO LSIAS escritor, autor de, entre outros, Duas praas (Editora Globo).

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  • 98 AGOSTO DE 2005 PESQUISA FAPESP 114

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