Raas humanas e raas biolgicas em livros didticos de Biologia ...

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  • LUIZ FELIPE PEANHA STELLING

    Raas humanas e raas biolgicas em livros

    didticos de Biologia de ensino mdio

    Dissertao apresentada ao Programa de Ps-Graduao em Educao da Universidade Federal Fluminense como parte dos requisitos para obteno do Grau de Mestre. Campo de Confluncia: Cincia, Sociedade e Educao

    ORIENTADORA: PROFa. DRa. SONIA KRAPAS TEIXEIRA

    Niteri 2007

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    LUIZ FELIPE PEANHA STELLING

    Raas humanas e raas biolgicas em livros

    didticos de Biologia de ensino mdio

    Dissertao apresentada ao Programa de Ps-Graduao em Educao da Universidade Federal Fluminense como parte dos requisitos para obteno do Grau de Mestre. Campo de Confluncia: Cincia, Sociedade e Educao

    Aprovada em 09 de novembro de 2007.

    BANCA EXAMINADORA

    __________________________________________________________

    PROFa. DRa. SONIA KRAPAS TEIXEIRA

    Universidade Federal Fluminense

    __________________________________________________________

    PROFa. DRa. NADIR FERRARI

    Universidade Federal de Santa Catarina

    __________________________________________________________

    PROFa. DRa. SANDRA ESCOVEDO SELLES

    Universidade Federal Fluminense

    __________________________________________________________

    PROFa. DRa. LANA CLAUDIA DE SOUZA FONSECA

    Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro

  • 3

    DEDICATRIA Aos meus pais Jos Carlos e Esmeralda, Ao meu irmo Alexandre, s minhas avs (in memoriam) Maria de Lourdes e Genilda.

  • 4

    AGRADECIMENTOS

    minha orientadora e amiga Sonia Krapas Teixeira, pela sua dedicao, pacincia,

    gentileza, compreenso, apoio firme, ensinamentos e exemplo de profissionalismo;

    professora Sandra Escovedo Selles, por participar de modo significativo e

    determinante, com suas valiosas contribuies, na produo desta pesquisa sobre

    currculo de Biologia;

    professora Nadir Ferrari, pelos seus relevantes comentrios e sugestes para a

    dissertao, e pela amvel participao na banca examinadora desta dissertao;

    Ao meu amigo e mestre Walmor Marcos Muniz Freitas, irmo salesiano, professor,

    modelo de carter e seriedade no magistrio e que sempre me motivou ao estudo;

    s professoras do Programa de Ps-Graduao em Educao da UFF, Glria Queiroz,

    Ceclia Goulart, pela convivncia gentil e lies pedaggicas;

    Aos meus amigos Marcelo Newton Ferreira Trotta, Luiz Felipe Areno de Souza,

    Marcellus Porto Aguiar, Humberto Maciel Nobre, e Alexandre Souza Werneck (in

    memoriam), que sempre me apoiaram e me motivaram;

    Aos meus amigos e colegas de mestrado Maicon Jeferson Azevedo e Roberto de

    Oliveira Beserra, queridos companheiros de jornada, com quem trabalhei e aprendi

    muito;

    Aos meus colegas de trabalho Teresa Cristina Martins, Delfim Sampaio Neves, Lcia

    Tropia Marotta, Cosme de Oliveira Leite, Ophelio W. de Castro Walvy, Tnia

    Goldbach, Margarete Friedrich, Suely Pessanha de Almeida, Isabel Vitria P. de Fraga

    Rodrigues, Dora Cristina Gustafson Fonseca, Marcos Antonio Carnavale de Barros;

    s bibliotecrias do Instituto de Fsica da UFF e do MAST, pela eficincia e presteza.

  • 5

    EPGRAFE

    Que so os ricos sem sabedoria seno porcos engordados com farelo? Que so os

    pobres sem compreenso das coisas seno burros condenados a transportar carga? Um

    homem formoso privado de cultura, que seno um papagaio de plumagem brilhante?

    ou, como disse algum , uma bainha de ouro com uma espada de chumbo?

    Comenius (Didactica Magna, 1632)

  • 6

    SUMRIO 1 Introduo 09 2 Reviso de literatura e referenciais tericos 13 2.1 O conceito de raa em obras de referncia 16 2.2 Raas humanas e raas biolgicas na Biologia e nas Cincias Sociais 19 2.2.1 Teorias de classificao dos seres vivos e conceitos de raa na Biologia 19 2.2.2 Concepes histricas de Biologia sobre raas humanas 25 2.2.3 Questes e tenses sobre raas humanas na atualidade 39 2.3 Livro didtico e o ensino de Cincias 42 2.3.1 Importncia do livro didtico 42 2.3.2 Livro didtico e o ambiente escolar 44 2.3.3 Contedo do livro didtico 45 2.3.4 Estrutura do livro didtico 46 2.3.5 Metodologias de seleo e anlise do livro didtico 46 2.4 Livro didtico e conceitos de raas humanas e raas biolgicas 51 3 Procedimentos metodolgicos 55 3.1 Definio da amostra 55 3.2 Metodologia de anlise 56 4 Resultados e discusso 59 4.1 As categorias 59 4.2 Os livros 65 4.2.1 Anlise qualitativa 65 4.2.2 Anlise quantitativa 108 4.2.3 Os livros segundo o catlogo do PNLEM de Biologia de 2007 114 5 Concluses, recomendaes e perspectivas 118 6 Obras citadas 122 7 Apndices 131 8 Anexos 143

  • 7

    RESUMO

    Historicamente, na Biologia e nas cincias sociais, as concepes de raas

    humanas e raas biolgicas so polissmicas, ambguas e sem consenso. Na atualidade,

    causam controvrsia e podem ser utilizadas com fortes vieses ideolgicos. A pesquisa

    avaliou tais concepes em livros didticos recentes de Biologia, seis recomendados

    pelo PNLEM e um de autor tradicional no mercado de textos didticos. O corpus

    analisado mostrou-se muito heterogneo no modo de desenvolvimento acerca das

    concepes de raas humanas: enquanto alguns livros apresentam textos no verbais

    (fotos, etc) que parecem evidenciar grupos raciais humanos, outros livros explicitamente

    negam a existncia de raas, mas utilizam o conceito cultural de grupos tnicos de

    forma intencional ou eufmica. Da anlise, emergiram categorias que permitiram dividir

    o corpus em dois grupos, um mais afim com as recomendaes dos PCN+ acerca de

    raas humanas, e outro grupo que se afasta delas.

    Palavras-chave: livro didtico, raas humanas, currculo de Biologia

  • 8

    ABSTRACT

    Historically, in Biology and Social Sciences, we can note that the conceptions of

    biological races and human races are polisemic, ambiguous and lack consensus.

    Nowadays, these conceptions cause controversy and can be used with strong ideological

    biases. This research examines how those concepts of race are expressed in recent

    biology school textbooks, six of them recommended by the PNLEM (National Program

    of Textbooks for High School) and one written by an author well-known in the editorial

    market of Biology textbooks. The analysed corpus is remarkably heterogeneous

    regarding the development of concepts of human races: while some books present non

    verbal texts (photos, etc) as evidence of the existence of human racial groups, other

    books explicitly deny the existence of races, but use the cultural concept of ethnic

    groups as an inappropriate synonym for racial groups, or as an intentional form of

    euphemism. From this analysis emerged categories dividing the corpus into two groups,

    one similar to the recommendations of PCN+ (National Curricula Parameters), and

    another group that is antithetical to those recommendations.

    Key-words: school textbook, human races, curriculum of Biology

  • 9

    1 Introduo

    Dentre as finalidades do ensino de nvel mdio, segundo as orientaes

    curriculares nacionais, preconiza-se, no processo formativo de cidados crticos, o

    desenvolvimento das competncias de representao, comunicao, investigao e

    compreenso acerca de temas de cincia e tecnologia. Na rea das cincias da natureza,

    notadamente na rea da Biologia, no currculo de nvel mdio, algumas questes

    mostram-se polmicas por contrastarem com preconceitos trazidos pelos alunos, como

    os relacionados sexualidade, a questes de natureza religiosa que implica na

    controvrsia evolucionismo versus criacionismo , e as polmicas envolvendo

    concepes de raas humanas1. Trabalhos acadmicos tm sido realizados no sentido de

    procurar compreender as tenses curriculares entre conceitos cientficos e valores que

    os alunos trazem ao ambiente escolar. O livro didtico, como importante componente do

    currculo escrito, tem sido investigado no que concerne a vrios temas polmicos2,

    incluindo o tema das raas humanas. Levy, Selles e Ferreira (2006) consideram que

    raa humana um conceito curricular que precisa ser entendido no apenas no domnio

    dos conhecimentos biolgicos, uma vez que envolve valores e encontra-se

    ideologicamente imerso em mltiplos debates que ocorrem na sociedade. Essa viso

    1 Preferi no usar ininterruptamente, ao longo da dissertao, a expresso raas humanas entre aspas. Com isso, tive o intuito de no cansar o leitor com um excesso destes sinais grficos; no obstante, mesmo quando ausentes, o valor de realce das aspas estar incluso, ressaltando as ambigidades e controvrsias de sentido referentes a raas humanas. 2 ANDRADE, Cristiane Pinto. Concepes sobre Diversidade de Orientaes Sexuais veiculadas nos Livros Didticos e Paradidticos de Cincias e Biologia. Salvador, 2004. 211 f. Dissertao (Mestrado em Ensino, Filosofia e Histria das Cincias) Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2004.

  • 10

    histrico-ideolgica sobre o conceito de raa humana tambm observada nas reflexes

    de Willinsky (19983). Para ele, h a necessidade de se alertar os estudantes sobre o

    contexto histrico da criao do termo raa, no apenas para que discutam a sua

    origem, mas as suas implicaes na atualidade.

    Historicamente, na rea de cincias biolgicas e das cincias sociais, os

    conceitos de raa humana so polissmicos, ambguos e sem consenso. Mesmo na

    atualidade, causam controvrsia e podem ser utilizados com fortes vieses ideolgicos

    (GOULD, 1991; PENA, 2002; KAMEL, 2006). Recentemente, a polmica se estendeu

    mdia por conta do projeto Razes Afro-brasileiras4 que investigou a composio

    gentica de personalidades autodenominadas ou consideradas negras (Cf. Anexo 1) ,

    e por conta do caso dos gmeos idnticos (Cf. Anexo 2)5, considerados, pela comisso

    do sistema de cotas do vestibular da UnB, um branco e o outro negro. Mesmo entre

    publicaes oficiais no h consenso. Por exemplo, a Caderneta de Sade da Criana,

    editada pelo Ministrio da Sade (2007, Cf. Anexos 3 e 4), admite uma viso tipolgica

    de raas. Em direo contrria, outras publicaes oficiais propem uma discusso

    sobre essa tipologia: os PCN+ recomendam aos alunos levantar dados sobre as

    caractersticas que historicamente so consideradas para definir os agrupamentos raciais

    humanos em caucasides, negrides e orientais, identificando-as como correspondentes

    a apenas uma frao mnima do genoma humano. (2002, p. 49)

    Por outro lado, em nossa prtica docente, testemunhamos uma tenso entre os

    valores que os alunos trazem tais como os relacionados ideologicamente identidade

    racial e os saberes acadmicos de referncia da Biologia, que no reconhecem a

    existncia de raas ou subespcies entre humanos (PENA, 2005).

    Tendo como base o conhecimento biolgico atual, pode parecer inapropriado

    procurar relacionar raas biolgicas a raas humanas. No entanto, a aproximao entre

    esses dois conceitos aparece em alguns livros didticos de nvel mdio, entrelaando-se

    por vezes, dependendo dos saberes acadmicos adotados pelos autores dos livros nos

    3 WILLINSKY, John. Cincia e origem da raa. In: Lopes A. C. e Macedo, E. Currculo de Cincias em debate. So Paulo: Papirus, 2004. cap. 3, p. 77-118. Traduo de: WILLINSKY, John. Learning to Divide the World: Education at Empires End. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1998. Observao: usei como base de consulta a traduo brasileira de 2004, mas esta foi cotejada com a edio original de 1998. Preferi mencionar a data da edio original para ser mais fiel ao situar o pensamento deste autor cronologicamente nos estudos acadmicos sobre raa humana, Educao e Biologia. 4 O projeto foi veiculado nos portais UOL, BBC Brasil, G1 Globo.com, nos jornais O Globo e O Dia, e no Jornal Nacional da Rede Globo, durante o perodo de 28 de maio a 2 de junho de 2007. 5 Raa no existe matria da capa da revista Veja de 6 de junho de 2007.

  • 11

    mbitos da classificao biolgica (taxonomia e sistemtica) da gentica e dos

    processos evolutivos.

    Como decorrncia dessas reflexes, foram formuladas algumas questes: Como

    a Biologia trata o conceito de raa humana? Podem-se relacionar raas humanas, raas

    biolgicas e subespcies? O que dizem as pesquisas de Gentica e de Evoluo acerca

    das raas humanas? A Sistemtica Biolgica considera diferentes raas humanas? O

    conceito de raa polissmico ou encontra-se definido em limites precisos?

    Historicamente, quais concepes de raas humanas foram construdas entre a Biologia

    e as Cincias Sociais6? H disputas e tenses no mbito da linguagem comum, da

    linguagem tcnica, entre discursos sociolgicos e biolgicos? Como a mdia em geral e

    as revistas de divulgao cientfica lidam com esses significantes e significados? Os

    termos identidade racial e igualdade racial so compatveis com os conhecimentos de

    Gentica da atualidade?

    Entendendo que o livro didtico constitui o discurso (verbal e no verbal) dos

    autores, que, por transposio didtica, selecionam parte do conhecimento acadmico da

    Biologia, trazendo-o para a sala de aula, sob a forma de um saber a ser ensinado,

    justifico a investigao de raas biolgicas e humanas em livros-texto.

    A pesquisa objetivou avaliar de que modo livros didticos recentes de Biologia,

    destinados ao nvel mdio, tratam de forma implcita ou explcita as concepes de

    raas humanas e de raas biolgicas, se ocorrem contradies ou aproximaes entre

    estes conceitos, que Gentica e aspectos scio-histricos so veiculados pelos livros.

    No captulo dois, apresentada uma reviso bibliogrfica tendo como base dois

    grupos de textos: os selecionados de forma no sistemtica e aqueles que foram

    encontrados a partir de busca em anais de congressos e revistas da rea. Iniciada com

    uma anlise do conceito raa em dicionrios de lngua portuguesa, a reviso

    bibliogrfica est subdividida em trs grandes temas: raas biolgicas e raas

    humanas na Biologia e nas Cincias Sociais; livro didtico e o ensino de Cincias;

    livro didtico e conceitos de raas humanas.

    Consta dos procedimentos metodolgicos, detalhados no captulo trs, uma

    anlise de contedo de livros de nvel mdio, anlise na qual se observam elementos de

    texto verbais e no-verbais, tais como: texto principal, intertextos (excertos de obras de

    6 H pesquisas acadmicas que admitem os conceitos de raa humana, identidade racial e diversidade racial, fundamentando-se em bases scio-antropolgicas (MUNANGA, 2006; SILVA, 2004; SILVA, 2005).

  • 12

    outros autores, geralmente apresentados como leitura suplementar), exerccios e

    atividades propostas, glossrios, sumrios, ndices remissivos, tabelas, fotos, esquemas,

    grficos, etc.

    Da anlise qualitativa dos textos, emergiram categorias relativas a raas

    humanas e raas biolgicas, descritas no captulo quatro. Uma anlise quantitativa

    permitiu dividir o corpus em dois grupos, um mais afim com as recomendaes dos

    PCN+ acerca de raas humanas, e outro grupo que se afasta delas. Minhas avaliaes

    sobre os livros foram cotejadas com as veiculadas pelo catlogo do PNLEM de

    Biologia.

    No captulo cinco, so feitas concluses, e so defendidas recomendaes ao

    currculo de Biologia no que se refere a raas, assim como se entrevem perspectivas de

    futuros trabalhos.

  • 13

    2 Reviso de literatura e referenciais tericos

    Com o objetivo de realizar uma reviso da literatura sobre o tema do meu

    trabalho de pesquisa, foi feita uma busca em cinco revistas e atas de trs congressos na

    rea de pesquisa em Ensino de Cincias compreendidos no perodo de 2001 a 2005.

    A reviso bibliogrfica foi realizada em revistas cientficas classificadas com o

    conceito Capes qualis A internacional na rea de Ensino de Cincias e Educao

    Matemtica7, compreendendo os seguintes ttulos: Enseanza de las Ciencias, Science

    Education, Science & Education, International Journal of Science Education e

    Investigaes em Ensino de Cincias. A revista Philosophy of Science no foi escolhida

    porque a sua temtica foge do foco de minha pesquisa. Os congressos de educao em

    cincias considerados so os de maior relevncia: na lngua inglesa European Science

    Education Research Association Conference (ESERA), na lngua espanhola Congreso

    Internacional sobre Investigacin en la Didctica de las Ciencias (CIIDC) e no

    cenrio nacional Encontro Nacional de Pesquisa em Educao em Cincias (ENPEC).

    A busca nas revistas e atas de congresso consistiu em uma varredura sistemtica

    em vrias etapas. Primeiramente os ttulos dos trabalhos (2960 ao todo) foram lidos na

    busca das seguintes palavras-chave: livro didtico de Biologia/Cincias, alfabetizao

    cientfica e temas polmicos de Biologia. Termos correlatos tais como divulgao

    cientfica, CTS, letramento cientfico, questes bioticas e scio-cientficas tambm

    foram buscados. Quando o ttulo do trabalho apresentava uma ou mais palavraschave,

    7 A classificao a que se encontrava disponvel em abril de 2006, data em que foi iniciada a presente reviso.

  • 14

    o resumo era lido (168 ao todo).

    Foram considerados temas polmicos aqueles que mais freqentemente tm

    aparecido em debates e matrias jornalsticas veiculados na televiso e na mdia

    impressa (revistas de divulgao cientfica e jornais e revistas de grande expresso),

    assim como os j presentes em livros didticos e os preconizados pelos PCN para o

    ensino mdio. Mecanismos de busca na internet tambm foram utilizados para compor

    um conjunto de temas polmicos relacionados Biologia. A princpio, foram

    selecionados temas que contm uma forte relao com questes ticas, morais, sociais,

    polticas e econmicas, como os do domnio da Biotecnologia (clonagem, organismos

    transgnicos, manipulao de embries e o uso de clulas-tronco). Tambm considerei

    temas como o embate entre criacionismo e evolucionismo e raas humanas. Na minha

    busca, no foram considerados temas relativos Ecologia, pois esses j esto muito

    presentes nos currculos de Biologia, sendo trabalhados com os educandos desde o

    ensino fundamental at o ensino mdio e tcnico. A rigor, os temas de Ecologia no so

    totalmente controversos, pois, ao lado de questes scio-poltico-econmicas (essas sim,

    muitas vezes polmicas), no h dvidas, por exemplo, quanto aos danos provocados

    pela poluio do ar (chuva-cida) e da gua (vazamentos de petrleo), quanto aos graves

    prejuzos do desmatamento e da extino de espcies, quanto destruio de

    ecossistemas como a mata atlntica e manguezais, quanto ao uso exagerado de

    pesticidas, etc. Os temas de Ecologia so desenvolvidos inclusive em livros didticos de

    Qumica, como em Novais8 (1999) assim como nos de Geografia e Histria.

    Durante a leitura dos resumos, vrios motivos, explicitados com detalhe no

    captulo 3, permitiram-me tomar uma deciso fundamental para a minha pesquisa: a

    escolha de qual tema controverso seria alvo da investigao nos livros didticos.

    Basicamente, o tema raas humanas se justifica, pois est presente em polticas

    pblicas de cotas, em questes ligadas a identidades raciais e, desde o sculo XIX at

    o presente, em idias racistas e de eugenia estas ltimas atingindo o ensino de

    Biologia9.

    Definido o tema, os textos selecionados sofreram outro crivo. Os critrios para a

    seleo, obtidos a partir de uma especificao das palavras-chave, foram: a presena do

    tema controverso raas humanas; a presena de tratamento analtico de livros

    8 NOVAIS, Vera L. D. de Qumica. So Paulo: Atual, 1999. 9 Cf. URECH, Sandra Suely Rodrigues. Pressupostos Eugnicos no Ensino de Biologia. Recife, 2001. 190f. Dissertao (Mestrado em Educao) Centro de Educao, Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2001.

  • 15

    didticos. Quando o resumo do trabalho cumpria um desses critrios, o trabalho era

    selecionado para ser lido na ntegra (11 ao todo). Disso resultou que a alfabetizao

    cientfica e os temas controversos que no fossem raas humanas nitidamente

    colocados em segundo plano s apareceram quando conjugados com os livros

    didticos.

    Os trabalhos selecionados foram lidos integralmente, tendo como intuito compor

    a reviso de literatura. Os 11 trabalhos so os seguintes: Clment et al. (2005);

    Detregiachi e Arruda (2003); Ferreira e Selles (2003); Leo e Megid Neto (2003);

    Massabni e Arruda (2003); Martinez-Gracia, Gil-Qulez e Osada (2003); Nascimento e

    Martins (2005); Resnik (2005); Ribeiro, Dazzi, Souza e Wortmann (2001); Sandrin,

    Puorto e Nardi (2005); Skoog (2005).

    Na tabela 1 encontram-se os dados numricos da busca realizada.

    Peridicos e atas de congressos Ttulos Resumos Textos na

    ntegra IV ESERA 2003 135 11 0 V ESERA 2005 422 27 2 IV ENPEC 2003 435 26 4 VI CIIDC 2001 455 28 1 VII CIIDC 2005 429 39 0 IENC 68 5 1 Science & Education 217 16 2 Science Education 246 4 0 Enseanza de las Ciencias 150 2 0 International Journal of Science Education 403 10 1 Total 2960 168 11

    Tabela 1 resultados da busca sistematizada em peridicos e atas de congressos.

    Para complementar a reviso de literatura, consultei textos obtidos por vias no

    sistemticas como Gonzlez e Sierra (2004), que trata da anlise de manuais didticos,

    Reznik (1995), que analisa historicamente o conceito de gene em livros didticos de

    Biologia, Levy, Selles e Ferreira (2006), que analisa livros didticos de Biologia e raas

    humanas. Tambm foram consultados livros de Biologia Geral, Evoluo, Gentica,

    Sistemtica, Histria das Cincias Biolgicas (LEWIN, 1999; GOULD, 1991,

    AMORIM, 2002, PENA et al., 2002, dentre outros).

  • 16

    2.1 O conceito de raa em obras de referncia

    Fundamentalmente, um discurso estruturado valendo-se de significantes

    (palavras, sinais10) que representam significados (idias, conceitos). Esta seo tem um

    carter introdutrio ao termo raa e examina acepes deste conceito encontradas em

    dicionrios recentes de lngua portuguesa (FERREIRA et al., 2004; HOUAISS et al.,

    2006), em um dicionrio especializado (SOARES, 1993) e em dois dicionrios

    escolhidos pelo seu valor histrico (MELLO-LEITO, 1946; CAMPAGNE, 1886).

    Pela proximidade semntica, o termo etnia tambm foi examinado. No foram

    realizadas consultas a enciclopdias nem a stios de internet, pela caracterstica no

    exaustiva desta dissertao.

    A necessidade do aprendizado de terminologia tcnica pelos alunos de curso

    mdio ressaltada pelos PCN+ (2002, p. 36). Muito bsico e fundamental o domnio

    dos termos tcnicos durante o aprendizado das Cincias Biolgicas. H muito, esta

    necessidade defendida; a ttulo de referncia, temos a afirmao de Melander (1937,

    pg. III): Uma das disciplinas do estudo da Biologia a aquisio de vocabulrio

    tcnico.11 A falta de domnio desta terminologia pode ser um entrave ao

    desenvolvimento do currculo de Biologia (STELLING, 1996).

    A seguir, de cada dicionrio, so reproduzidas as acepes12 mais gerais e as

    relativas Biologia e Antropologia.

    Do Novo Dicionrio Eletrnico Aurlio (2004):

    Raa [Do it. razza.] 1.Conjunto de indivduos cujos caracteres somticos, tais como a cor da pele, a conformao do crnio e do rosto, o tipo de cabelo, etc., so semelhantes e se transmitem por hereditariedade, embora variem de indivduo para indivduo. 2.Restr. Antrop. Cada uma das grandes subdivises da espcie humana, e que supostamente constitui uma unidade relativamente separada e distinta, com caractersticas biolgicas e organizao gentica prprias. [Diversos autores, seguindo critrios distintos de classificao, propuseram diferentes classificaes da humanidade

    10 No caso das lnguas de sinais das pessoas surdas, como a LIBRAS (Lngua Brasileira de Sinais). 11 MELANDER, Axel Leonard. Source Book of Biological Terms. New York: The City College, 1937. No original: One of the disciplines of the study of Biology is the acquirement of a technical vocabulary. 12 Foram suprimidas as expresses de cunho popular ou de gria, por se distanciarem em demasia das acepes cientficas. Ex.: Categoria, classe, espcie: Uma raa de motoristas imprudentes infestava a cidade.; Vontade firme, poderosa; grande determinao: Fluminense vence com raa e corao (Marcos Penido e Michel Laurence, em Jornal do Brasil, 7.3.1983); Acabar com a raa de. Bras. Pop. Matar, assassinar; Na raa. Bras. Gr. V. no peito e na raa. Ter raa. (Aurlio, 2004).

  • 17

    em termos raciais. A mais bsica e difundida a das trs grandes subdivises: caucaside (raa branca), negride (raa negra) e mongolide (raa amarela). Como conceito antropolgico, sofreu numerosas e fortes crticas, pois a diversidade gentica da humanidade parece apresentar-se num contnuo, e no com uma distribuio em grupos isolveis, e as explicaes que recorrem noo de raa no respondem satisfatoriamente s questes colocadas pelas variaes culturais.] 3.O conjunto dos ascendentes e descendentes de uma famlia, uma tribo ou um povo, que se origina de um tronco comum. 4.Ascendncia, origem, estirpe, casta. 5.Descendncia, prognie, gerao. 6.O conjunto dos indivduos com origem tnica, lingstica ou social comum: A Amrica recebeu, pela imigrao, europeus de diferentes raas. 11.Subespcie animal resultante do cruzamento de indivduos selecionados pelo homem para manuteno ou aprimoramento de determinados caracteres. [Aplica-se especialmente aos animais domsticos.]. Etnia [De etn(o)- + -ia1.] Substantivo feminino. Antrop. 1.Populao ou grupo social que apresenta relativa homogeneidade cultural e lingstica, compartilhando histria e origem comuns. [Neste sentido, tb us., a partir do incio do sc. XX, em substituio a termos como nao, povo e raa, para designar as sociedades e grupos at ento ditos primitivos.] 2.Grupo com relativa homogeneidade cultural, considerado como unidade dentro de um contexto de relaes entre grupos similares ou do mesmo tipo, e cuja identidade definida por contraste em relao a estes. [Sin., nesta acep.: grupo tnico.] (FERREIRA et al., 2004).

    Do Dicionrio Eletrnico Houaiss da lngua portuguesa (2006):

    Raa s.f. (datao: 1473) 1 diviso tradicional e arbitrria dos grupos humanos, determinada pelo conjunto de caracteres fsicos hereditrios (cor da pele, formato da cabea, tipo de cabelo etc.) [Etnologicamente, a noo de raa rejeitada por se considerar a proximidade cultural de maior relevncia do que o fator racial; certas culturas de raas diferentes esto muito mais prximas do que outras da mesma raa.] 2 conjunto de indivduos pertencentes a cada um desses grupos 3 o conjunto dos seres humanos; a humanidade 4 cada um dos grupos em que se subdividem algumas espcies animais, e cujos caracteres diferenciais se conservam atravs das geraes 5 BIO conjunto de populaes de uma espcie que ocupa uma regio particular, e que difere em uma ou mais caractersticas das populaes de outras regies [Termo freq. us. no mesmo sentido de subespcie.] 6 coletividade de indivduos que se diferencia por sua especificidade sociocultural, refletida principalmente na lngua, religio e costumes; grupo tnico cf. etnia 7 grupo tnico em relao com a nao, a regio 8 a ascendncia de um povo 9 o conjunto de antepassados de uma famlia ou de um indivduo; linhagem ETIM it. razza (sXV) conjunto de indivduos de uma espcie animal ou vegetal com caractersticas constantes e transmitidas aos descendentes; tradicionalmente considerado ora do lat. generato,nis gerao,

  • 18

    com afrese, ora do lat. rato,nis natureza; motivo, causa etc., no sXX foi levantada a hiptese de o voc. se der. do fr.ant. haraz (sXII), fr. haras estabelecimento destinado reproduo de cavalos; ver rat- SIN/VAR (e afins) cepa, estirpe, etnicidade, famlia, grupo, linhagem, nao, povo, prognie, prospia, ramo; ver tb. sinonmia de ascendncia ANT ver antonmia de ascendncia noo de raa, usar antepos. 1geno-; pospos. -gneo, -genia, -gnio e -geno; raa humana, usar antepos. etn(o)- Etnia s.f. (sXX cf. AGC) ANTRPOL coletividade de indivduos que se diferencia por sua especificidade sociocultural, refletida principalmente na lngua, religio e maneiras de agir; grupo tnico [Para alguns autores, a etnia pressupe uma base biolgica, podendo ser definida por uma raa, uma cultura ou ambas; o termo evitado por parte da antropologia atual, por no haver recebido conceituao precisa.] cf. etnicidade e 1raa ETIM etn(o)- + ia. (HOUAISS et al., 2006).

    Do Glossrio Biolgico (1946):

    Raa (s. f. ). Variedade fixada pelo homem. ____ geogrfica o mesmo que subespcie. [subespcie (s. f.) Variao geogrfica ou ecolgica da espcie.] Etnogenia (s. f.). Cincia que trata da origem das raas humanas. Etnografia (s. f.). Estudo e descrio das raas humanas. Etnologia (s. f.). Cincia que trata das raas humanas, sua distribuio, relaes e cultura. (MELLO-LEITO, 1946).

    Do Dicionrio etimolgico e circunstanciado de Biologia (1993):

    Raa (Do it. razza). Variedade de uma espcie. Subespcie. Em Antropologia, segundo conceituao da UNESCO (1951), as raas so grupos que apresentam diferenas condicionadas pela hereditariedade, pelas quais seus integrantes se distinguem dos de outros grupos da mesma espcie. Dobzhansky completa essa idia acrescentando que tais diferenas esto condicionadas presena ou freqncia de determinados genes nos grupos ou populaes interpretados como raas. Como a definio de raa, notadamente no que concerne espcie humana, muito complexa, j que a distino tradicional em caucaside (raa branca), negride (raa negra) e mongolide (raa amarela) no tem verdadeiro valor, quando se levam em conta outros caracteres, como, p. ex., formao lingstica e social ou distribuio de grupos sangneos, tem-se dado preferncia pela expresso grupos tnicos, que oferece uma diversidade maior, mais condizente com a heterogeneidade dos caracteres antropolgicos. Entre animais domsticos e plantas, todavia, o termo comum, inclusive para qualificar as subespcies resultantes da ao seletiva do homem, controlando os cruzamentos, a fim de obter o aprimoramento de certos caracteres e a proliferao dos tipos preferenciais. Etnologia (Do gr. thnos, raa, nao, povo; logos, estudo, tratado). Cincia que trata das raas humanas, sua distribuio,

  • 19

    relaes e cultura. Fundamenta-se na Antropologia, na Etnografia, Arqueologia, na Sociologia e na Lingstica. Modernamente, prefere-se no falar em raas humanas, mas em grupos tnicos, que so numerosamente espalhados pelos diversos continentes, caracterizando ou identificando melhor a grande diversidade que existe entre as populaes humanas. (SOARES, 1993).

    Do Diccionario de Educao e Ensino (1886):

    Raas humanas. A raa europa , sem dvida alguma, aquella que constitue as naes mais civilisadas e illustradas do mundo. Isto seria sufficiente para d'ahi concluirmos, sem que de outra prova carecessemos, que a agudeza de entendimento o caracter commum d'esta raa [...] (CAMPAGNE, 1886). [o texto completo desta acepo reproduzido nos anexos 5 e 6].

    O conjunto de acepes mostra vrias diferenas de significado para o mesmo

    significante raa, inclusive entre a linguagem coloquial e a linguagem cientfica, e que

    existe inexatido e falta de consenso para o uso deste termo, o que o torna dbio e

    movedio. Tambm se observam aproximaes e entrelaamentos entre os termos etnia

    e raa. Mais adiante, o item 2.3.2 que trata das concepes histricas de raa traz

    subsdios que do a conhecer as origens das concepes verificadas no verbete do

    dicionrio de Campagne (1886).

    2.2 Raas humanas e raas biolgicas na Biologia e nas Cincias Sociais

    Para desenvolver esta seo, aprecio os seguintes aspectos: teorias de

    classificao dos seres vivos e conceitos de raa na Biologia, concepes histricas de

    Biologia e Cincias Sociais sobre raas humanas, e questes e tenses sobre raas

    humanas na atualidade.

    2.2.1 Teorias de classificao dos seres vivos e conceitos de raa na Biologia

    Este item versa sobre os conceitos de raa na Biologia recente e como eles se

    entretecem com as concepes de classificao dos seres vivos, com as teorias

    evolutivas e com os conceitos de ancestralidade gentica. Foram consultados os textos

    de Dobzhansky (1968), Coon (1962), Queiroz (1991), Lewontin (1984), Amorim

  • 20

    (2002), Belk e Borden (2007), Barbujani (2007), Pena et al. (2000, 2002), Jablonski e

    Chaplin (2003) e Bamshad e Olson (2003).

    O estudo cientfico das raas humanas tem pelo menos dois sculos de idade.

    No obstante, provavelmente no h nenhum outro aspecto da natureza humana cujo

    estudo tenha se debatido com tanta freqncia em confuso e incompreenso

    (Dobzhansky, 1968, p. 282). Por volta do fim do sculo 19 e incio do 20, o nmero de

    diferentes classificaes de raas propostas era quase to grande quanto o nmero de

    classificadores. De fato, quanto mais se subdividem as raas, mais difcil se torna

    identific-las, porque sero encontradas algumas populaes intermedirias.

    Dobzhansky (ibid., p. 285) aventa que no h razo para pensar que a espcie humana

    jamais consistiu de raas uniformes com certas combinaes de traos (raas puras).

    O autor comenta que alguns antroplogos do incio do sculo 20 afirmaram que raa

    um conceito abstrato e que os antroplogos podem manufaturar tipos raciais a seus

    gostos. Para ele, o defeito mortal das tipologias raciais que se chega aos tipos

    morfolgicos por uma espcie de intuio, o que significa que so escolhidos

    arbitrariamente, mesmo quando escolhidos por pesquisadores experientes. Dobzhansky

    (ibid., p. 296 e 297) discorre sobre os propsitos do estudo de raas. Ele admite que a

    classificao e a sistematizao so recursos usados para tornar a diversidade inteligvel

    e manejvel. interessante a observao desse autor sobre as nomenclaturas utilizadas

    para se referirem os grupamentos humanos:

    O termo grupo tnico foi sugerido na dcada de 1930 para designar as raas humanas, quando os bilogos e antroplogos estavam ansiosos por se desligarem da prostituio [sic] hitleriana do conceito de raa. discutvel se um novo nome de muita utilidade no combate ao preconceito racial: pode-se odiar um grupo tnico to virulentamente quanto uma raa. Mas a convenincia de usar tais subterfgios na Cincia questionvel. Pode-se falar de grupos tnicos, se se desejar, mas uma afirmao do tipo o homem no tem raas, tem apenas grupos tnicos ilusria. (DOBZHANSKY, 1968, p. 299 e 300).

    Queiroz (1991, p. 334) registra que raa um termo a que no tem

    correspondido um significado preciso quer em linguagem corrente quer no discurso

    cientfico. Barbujani (2007, p. 163) considera que raa, porque suas bases biolgicas

    no so precisas, um conceito voltil. Queiroz (ibid.) refere que, por vezes, a Biologia

    identifica raa como subespcie, a nica categoria taxonmica infra-especfica. Segundo

  • 21

    a autora (ibid., p. 335), recentemente a validade e at a utilidade desta categoria de

    classificao tm sido postas em causa por muitos bilogos. E, contudo, perante a

    palavra raa no freqente as pessoas se interrogarem; pelo contrrio, utiliza-se e

    ouve-se como se se tratasse de um termo perfeitamente claro. Nota-se que raa, fora

    da academia, um conceito do senso comum.

    Por vezes, a percepo que o pblico leigo tem acerca da natureza diversa da

    tica dos enfoques cientficos. As classificaes biolgicas fundamentadas em hipteses

    de filogenia, como a que considera os crocodilianos e as aves sendo grupos afins

    evolutivamente, podem suscitar reaes de estranhamento em pessoas no versadas em

    Sistemtica Filogentica. O senso comum diria, por comparao de semelhanas

    aparentes, que os crocodilianos so mais afins com os rpteis em geral. Tal contraste de

    enfoques tambm parece ocorrer quando bilogos e geneticistas afirmam que no h

    raas humanas; muitas pessoas, sem base cientfica, afirmariam, em sentido contrrio,

    que raas humanas existem. Ainda em relao s subespcies (raas biolgicas) e as

    classificaes evolutivas, observa-se que, para a Sistemtica Filogentica13, a menor

    unidade de classificao a espcie, considerada um grupo monofiltico com

    caracterstica(s) derivadas exclusivas (AMORIM, 2002, p. 92); por este referencial

    terico de sistemtica cladstica, portanto, no h raas ou subespcies, inclusive na

    espcie humana.

    Dobzhansky (ibid., p. 300) tem a opinio de que raas podem ser espcies

    incipientes, ainda assim o homem preservou sua unidade especfica desde o estgio dos

    primeiros homindeos. Para ele, a civilizao causou a convergncia das raas, devido

    permuta de genes. Neste raciocnio, as raas humanas so como que relquias dos

    estgios pr-culturais da evoluo. O autor ainda relata que no clara a compreenso

    das origens e significao biolgica das diferenas entre populaes humanas (raas).

    As diferenas raciais poderiam ter surgido por meio de seleo natural como adaptaes

    aos ambientes fsicos; assim sendo, as caractersticas que distinguem as raas deveriam

    ser direta ou indiretamente propcias (adaptativas) sobrevivncia e/ou reproduo nos

    respectivos ambientes onde essas viviam. Obviamente, ele diz, no isso que acontece.

    Por exemplo, que diferena pode fazer o fato de ser o cabelo liso ou ondulado?

    Dobzhansky ainda cita a suposio de que as diferenas entre populaes possam ser

    devidas erraticidade gentica acidentes de amostragem do conjunto de genes (deriva

    13 Tambm conhecida por Cladstica e que na academia tem-se firmado no campo das classificaes zoolgicas.

  • 22

    gnica). Finalmente e no menos notoriamente, o autor diz que a idia das raas

    humanas diferirem em traos adaptativamente significativos emocionalmente

    repugnante a algumas pessoas (ibid., p. 301). Para ele, ser diferente no implica em ser

    superior ou inferior. Alm disso, as supostas adaptaes diferentes entre grupos

    populacionais muito provavelmente se referem a ambientes de um passado remoto,

    sobrepujados pelos ambientes criados pela civilizao recente.

    Um exemplo de adaptao racial ao ambiente sustentado por Coon (1962, p.

    59 a 70): as raas que vivem em ambientes frios tendem a ter corpos macios, grandes e

    pesados ou baixos e atarracados uma adaptao para evitar a perda de energia trmica

    por grandes reas de superfcie corporal , j as raas de regies quentes e

    desarborizadas tm inclinao a serem altas e magras ou mais leves e esguias uma

    adaptao que permite uma troca maior e eficiente de calor com o ambiente,

    favorecendo o abaixamento da temperatura corporal. Esse princpio adaptativo que

    envolve relao rea/volume corporal e dissipao de calor conhecido por regra de

    Allen. O livro de Coon apresenta duas fotografias que ilustram esta regra: uma foto de

    um ndio alakuf da Terra do Fogo, outra foto retrata duas meninas do Sudo (anexos 7 e

    8). Esta suposio determinista de adaptaoraaambiente foi contestada, na poca,

    por Dobzhansky (1968, p. 306), que cita crticas (Scholander, 195514) que se baseiam no

    fato de que so as vestimentas, habitaes e outros fatores culturais, e no a forma do

    corpo, que permitem ao homem viver em diversos climas. Alm disso, nem todas as

    diferenas de estatura e peso so unicamente genticas, pois o fentipo resultado da

    expresso gnica e da ao ambiental. Lewontin (1984, p. 129) tambm discorda das

    concepes genricas de adaptao racial ao meio ambiente. Para ele, deve-se valorar

    com precauo os relatos adaptativos como a relao rea/volume corporal pois,

    quando reunidos os elementos histricos e a variabilidade do ambiente, qualquer

    diferena pode ser, impropriamente, considerada como adaptao. Para ele, a

    reconstruo adaptativa das causas das diferenas raciais humanas segue sendo, em boa

    medida, um passatempo que entretm e que pe prova nossa engenhosidade e

    capacidade de imaginao.

    Em sentido contrrio a suposies superadas, como as de Coon, uma hiptese

    plausvel sobre os diferentes tons de pele humana e sua distribuio nos continentes

    foi explanada por Jablonski e Chaplin (2003, p. 72-79). Eles defendem a hiptese de

    14 SCHOLANDER, P. F. Evolution of climatic adaptations in homoeotherms. Evolution v. 9, p. 15-26, 1955.

  • 23

    que os primeiros homindeos, aps perderem seu plo, adquiriram pele pigmentada. A

    pele mais escura deve ter evoludo como proteo contra a quebra de folato (cido

    flico), um nutriente essencial para fertilidade e para o desenvolvimento fetal. Uma pele

    que fosse escura demais bloquearia a luz solar necessria para catalisar a produo de

    vitamina D, crucial para os ossos da me e do feto. Por conseqncia, os humanos

    devem ter evoludo para terem uma pele clara o suficiente para sintetizar vitamina D e

    escura o suficiente para proteger os estoques de folato. Como resultado de recentes

    migraes humanas, muitas pessoas atualmente vivem em reas que recebem mais (ou

    menos) radiao UV adequada sua tonalidade de pele. Esta suposio que relaciona

    metabolismo de folato s tonalidades de pele tambm encontrada em Belk e Borden

    (2007, p. 309).

    De modo amplo, as sistemticas de classificao se baseiam nos processos de

    evoluo de populaes que sofrem um isolamento (geogrfico e/ou reprodutivo).

    Segundo Gould (197715 apud QUEIROZ, 1991), exceto, talvez, em condies extremas,

    em que o isolamento permita a evoluo divergente de populaes, a subespcie uma

    categoria artificial que se insere na viso tipolgica e a qual no se deve recorrer. A

    espcie humana relativamente recente em termos evolutivos. Queiroz (ibid., p. 342 e

    343) expe que 40 mil anos um perodo demasiadamente curto para que pudesse ter

    havido evoluo divergente; ainda que tivesse existido um processo inicial de

    especiao (raciao), o movimento inter-migratrio generalizado, desencadeado no

    sculo 15 e que tem vindo se acentuando muito at nossos dias, contrariaria a formao

    de genomas populacionais com freqncias significativamente diferentes entre grupos

    de populaes. Como conseqncia, a variabilidade maior dentro de cada populao

    do que entre populaes (QUEIROZ, ibid.; PENA, 2002, BAMSHAD e OLSON,

    2003), por outras palavras, no existe fundamento biolgico que permita a subdiviso

    racial da espcie humana. Em sntese, o ser humano permanece substancialmente

    idntico apesar dos polimorfismos inclusive os de carter neutro e os de DNA no

    codificante , como as variaes na cor da pele, forma dos olhos, etc. A evoluo tem,

    no fundamental, unido mais do que dividido (QUEIROZ, ibid., p. 363; BARBUJANI,

    2007, p. 45).

    Recentemente, por meio de estudos de ancestralidade gentica, que tomam por

    base a distribuio de alelos nas regies geogrficas nas quais esto presentes

    15 GOULD, Stephen Jay. Ever since Darwin. London: Penguin Books, 1977.

  • 24

    atualmente, consegue-se reconstituir as principais migraes que levaram a difuso de

    nossa espcie (e de muitas outras) pelo planeta (BARBUJANI, ibid.). Esses estudos so

    denominados pelo termo filogeografia. As investigaes de Pena et al. (2000; 2002)

    sobre ancestralidade gentica evidenciaram que a populao brasileira altamente

    miscigenada e que caracteres fenotpicos fsicos, como cor da pele, tipo de cabelo, etc,

    no so suficientes para dividir a populao em grupos raciais ou tnicos. Pena et al.

    (ibid.) basearam-se no estudo de linhagens paternas (patrilinhagens16, via cromossomo

    Y) e maternas (matrilinhagens17, via DNA mitocondrial) em pessoas brancas e

    encontraram um surpreendente resultado: a grande maioria das linhagens paternas veio

    da Europa, mas que 60% das linhagens maternas so amerndias ou africanas. Pena et

    al. (ibid.) afirmam que, do ponto de vista gentico, no existem raas humanas.

    Entretanto, a inexistncia de raas humanas uma concepo hegemnica entre os

    bilogos, mas esta concepo no unnime, pois h autores que defendem a existncia

    de raas biolgicas humanas, como Pigliucci e Kaplan (2003).

    Os estudos de filogeografia realizados por Pena et al. em brasileiros tiveram

    grande repercusso na mdia: em dezembro de 2000, a revista Veja publicou resultados

    de pesquisas de ancestralidade gentica em personalidades como Paulo Zulu, Jos

    Sarney, Paulo Coelho, dentre outros (anexos 9 e 10); em maio de 2007, o stio BBC

    Brasil divulgou pesquisa de ancestralidade em personalidades negras, como Daiane

    dos Santos, Neguinho da Beija-Flor, Ildi Silva, dentre outros. As controvrsias

    estenderam-se a outras mdias, como o programa de televiso Fantstico, novamente a

    Veja (anexo 11), a revista Raa Brasil (anexo 12). Em face s presenas na grande

    mdia dos temas raa e miscigenao no Brasil, catalisadas pelos resultados das

    investigaes de filogeografia de Pena et al., como os livros didticos de Biologia

    tratam estes temas e do sua contribuio em um currculo que tem por objetivo o

    letramento cientfico dos alunos? o que observaremos nos resultados empricos

    apresentados na seo de Resultados e discusso.

    16 Os estudos filogeogrficos usando o cromossomo Y baseiam-se na teoria de que todos os hapltipos (blocos de genes que no se recombinam) do Y existentes hoje derivam de um hapltipo ancestral que estaria presente entre os primeiros Homo sapiens, ainda hoje encontrado em bosqumanos Kung, que vivem no Sul da frica. medida que os homens migraram para novas regies, o conjunto inicial de genes foi sofrendo mutaes, o que gerou novos hapltipos, cada um se comportando como uma linhagem evolutiva independente. Em geral, quanto mais antigo o hapltipo, maior sua distribuio geogrfica. (PENA et al., 2000, p. 21). 17 O DNAm (mitocondrial), assim como o cromossomo Y, permite estudar as linhagens maternas porque todas as mitocndrias de uma pessoa so originadas das mitocndrias do vulo. Somente o ncleo do espermatozide penetra no vulo; deste modo, as mitocndrias paternas no fazem parte da clula-ovo, ou zigoto, que se desenvolver no embrio.

  • 25

    2.2.2 Concepes histricas de Biologia sobre raas humanas

    Nesta seo, me oriento pelos textos Cincia e a origem da raa de Willinsky

    (1998) e A falsa medida do homem de Gould (1991), e revejo aspectos histricos

    correlatos cincia racial, no Brasil e em outros pases, desde o sculo 18 ao 20,

    enfocando concepes de Lineu, Gobineau, Galton, Haeckel, Lombroso, Nina

    Rodrigues, Coon, Dobzhansky, fazendo uma breve apreciao das representaes

    raciais em livros didticos e cientficos desde o incio do sculo 20, passando por textos,

    como o do BSCS (1976), at chegar dcada de 1990.

    Willinsky (ibid., p. 78) comenta que o conceito de raa foi a grande contribuio

    da cincia natural para classificar as diferenas humanas. No sculo 18, Lineu usou o

    conceito de raa para dividir a humanidade em sua grande taxonomia. Na dcima edio

    do seu Systema Naturae (1758), Lineu dividia a espcie Homo sapiens em subespcies

    que incluam no apenas Homo sapiens americanus (vermelho), Homo sapiens

    europaeus (branco), Homo sapiens asiaticus (amarelo), Homo sapiens afer (negro), mas

    tambm Homo sapiens monstrous (anes e gigantes) e os primatas [!] Homo sapiens

    ferus (quadrpede) e Homo sapiens troglodytes (incluindo Orang Utan).

    Na opinio de Willinsky (1998, p. 79), as construes de raa ofereceram a lio

    mais monstruosa do imperialismo tais concepes influenciaram mesmo at a poca

    em que ele era estudante; segundo este autor, ainda hoje alguns reflexos dessas

    construes podem ser observados nas escolas contemporneas. O primeiro ponto a se

    destacar nessa cincia da raa como os cientistas do sculo 19 pensavam que nela

    repousaria o segredo da natureza humana. A esse respeito, Nancy Stepan afirma:

    De fato, o que faz a histria da cincia da raa to interessante que tantos cientistas renomados do passado acreditassem que as raas biolgicas eram a chave para os problemas mais prementes da poca o futuro da Amrica, o destino dos europeus nos trpicos, a extino de povos, o papel da Inglaterra na Europa. (STEPAN18, 1982 apud WILLINSKY, 1998, p. 80)

    Stepan tambm esclarece que foi com o final da escravido no imprio britnico,

    em 1833, que o estudo cientfico da raa comeou efetivamente cabia s cincias

    18 STEPAN, Nancy L. The Idea of race in science: Great Britain, 1800-1960. London: Macmillan, 1982.

  • 26

    naturais restabelecer as fronteiras que demarcavam claramente a inequvoca

    superioridade da raa europia.

    Willinsky (ibid.) diz que a raa era um projeto profundamente interdisciplinar.

    Entre seus principais pilares encontra-se a obra Essai sur l'ingalit des races humaines,

    publicada entre 1853 e 1855, do conde Arthur de Gobineau (1816-1882). As concepes

    de Gobineau foram baseadas em filsofos, historiadores e antroplogos, tais como S. G.

    Morton, craniologista19 americano que correlacionava o tamanho do crebro e o

    desenvolvimento cultural (Cf. com as idias de Coon, mais adiante nesta seo), e

    Georges Cuvier, anatomista francs que diferenciava as raas branca, amarela e negra

    por meio de suas dimenses (Cf. com o excerto de Haeckel, nesta seo). Willinsky

    (ibid.) ressalta que a distino do argumento de Gobineau a preocupao que a cincia

    da raa lana sobre a ameaa da poluio racial: A civilizao [...] ir certamente

    terminar20 no dia em que a unidade primordial da raa [...] for quebrada e inundada pelo

    influxo de elementos estrangeiros. Willinsky aponta, como decorrncia dessa

    concepo, a necessidade de demarcar as fronteiras entre raas, estabelecer firmemente

    suas diferenas e evidenciar os riscos dos cruzamentos inter-raciais. Embora Gobineau

    acreditasse que uma fuso inicial entre raas fosse necessria para a civilizao com

    uma crucial infuso ariana disseminada por todas as grandes civilizaes do passado ,

    ele alertou sobre a ameaa de a predominncia branca ser invadida e dizimada pela

    adulterao racial do sangue.

    Gobineau viveu alguns anos no Brasil, servindo como embaixador da Frana.

    Seus comentrios sobre os brasileiros so singulares e fazem referncia a suas

    concepes sobre desigualdade de raas e sobre degenerao da populao, resultado de

    casamentos inter-raciais. Para ele, o imperador Pedro II era um ariano puro, ou quase,

    mas sobre o povo brasileiro ele comenta:

    Uma populao toda mulata, com sangue viciado, esprito viciado e feia de meter medo. [...] Nenhum brasileiro de sangue puro; as combinaes dos casamentos entre brancos, indgenas e negros multiplicaram-se a tal ponto que os matizes da carnao so inmeros, e tudo isso produziu, nas classes baixas e nas altas, uma

    19 Gould (1991, p. 63 a 108) relata o estudo das dimenses cranianas por Galton, Broca e outros cientistas do sculo 19. 20 No texto da edio americana: Civilization ... will certainly die on the day when the primordial race-unit is ... broken up and swamped by the influx of foreign elements (Willinsky, 1998, p. 164); mas no original francs de Gobineau de 1884: Il mourra dfinitivement [lhomme dgnr], et sa civilisation avec lui, le jour o llment ethnique primordial se trouvera tellement subdivis et noy dans des apports de races trangres [...].

  • 27

    degenerescncia do mais triste aspecto. [...] J no existe nenhuma famlia brasileira que no tenha sangue negro e ndio nas veias; o resultado so compleies raquticas que, se nem sempre repugnantes, so sempre desagradveis aos olhos. [...] A Imperatriz tem trs damas de honra: uma marrom, outra chocolate-claro, e a terceira, violeta. (GOBINEAU21, 1869 apud RAEDERS, 1988, p. 90)

    Em face da ameaa, alertada por Gobineau, dos cruzamentos inter-raciais, a

    cincia da raa procurou quantificar e qualificar as distines que garantiriam a

    explorao imperial enquanto fortalecia as fronteiras da diferena. Alguns cientistas

    partidrios dessas concepes propuseram que as raas constituam espcies diferentes

    (Cf. Haeckel no pargrafo a seguir).

    Em outro sentido, Darwin apontava trs fatores que sugeriam uma espcie nica

    na humanidade: a fcil associao de raas em lugares como o Brasil; a variabilidade

    das caractersticas raciais dentro de uma mesma raa; a forma como as raas convertem-

    se entre si. Contraditoriamente, Darwin estava preparado para alicerar a idia de raas

    selvagens para as quais humanidade uma virtude desconhecida, mesmo tendo ele

    separado dos europeus, em termos raciais, os judeus que viviam entre eles. Darwin

    acabou por apoiar seu primo Francis Galton, que defendia a eugenia (termo criado pelo

    prprio Galton em 1883) como cincia aplicada do aperfeioamento humano22

    (Willinsky, 1998, p. 83). Como mostrarei mais adiante, as idias de Galton chegaram a

    abarcar a patologia da raa judaica.

    Outro terico e cientista do sculo 19, Ernst Haeckel evolucionista alemo

    seguidor das idias de Darwin, Goethe e Lamarck , admitia que a classificao das

    diferentes espcies ou raas humanas oferecia as mesmas dificuldades que a das

    espcies animais e vegetais (HAECKEL, 1910, p. 550). Nos dois casos, os tipos

    aparentemente mais dessemelhantes eram entre si ligados por formas intermedirias.

    Segundo ele, o gnero humano se dividia em cinco grupos: raa etipica ou negra

    (negros africanos), raa malaia ou parda (malaios, polinsios, australianos), raa

    21 Carta de 19 de abril de 1869 para Caroline de Gobineau. 22 Algumas idias de eugenia encontram-se no livro Biologia Educacional de Almeida Jnior (1966): Segundo Galton, Eugenia o estudo dos meios subordinados ao social, capazes de melhorar ou de prejudicar as qualidades raciais das geraes futuras, quer fsica quer mentalmente. Com freqncia se estabelece confuso entre Eugenia e Higiene. So coisas distintas. O objetivo da Eugenia melhorar as qualidades hereditrias da espcie, mediante seleo do plasma germinativo. A Higiene protege o indivduo, procurando criar em torno dele condies favorveis de ambiente ambiente pr ou ps-natal, interior ou exterior. Impedir que um imbecil tenha filhos medida eugnica; proibir que um sifiltico se case antes de curado, providncia higinica [...] o fato da transmisso hereditria de bons e maus fatores reconhecido por todos, e assim a cincia de Galton continua solidamente apoiada (p. 451 e 452).

  • 28

    monglica ou amarela (a maioria dos asiticos e dos esquims), raas americanas ou

    vermelhas (indgenas da Amrica), raas brancas ou caucsicas (europeus, africanos do

    norte, asiticos do sudeste).

    No sculo 19, havia duas concepes sobre a origem da espcie humana: a

    monogenista admitia que as raas humanas foram produtos da degenerao da perfeio

    do Paraso, j a concepo poligenista prescindia da verso bblica e afirmava que as

    raas humanas eram espcies biolgicas separadas23 e descendiam de mais de um Ado

    (Gould, 1991, p. 26). Embora Haeckel rejeitasse a criao do homem segundo o gnesis

    bblico, ele se declarava monogenista:

    Sabeis que h duas faces digladiando-se sobre este assunto: os monofiletistas e os polifiletistas. Os primeiros ou monogenistas afirmam a origem unitria e a consanginidade de todas as espcies humanas. Os segundos ou poligenistas pensam que as diversas espcies ou raas humanas tiveram, cada uma delas, origem independente. Depois do que dissemos precedentemente sobre a genealogia do reino animal, no pareceria duvidoso que no sentido lato da palavra se no fundamentasse a opinio monofiltica. (HAECKEL24, 1910, p. 548)

    Sobre a diferena entre brancos e negros, Haeckel menciona a afirmao do

    paleontlogo Quenstedt: Se o Negro e o Caucsico fossem caracis, logo os zologos

    afirmariam que eram excelentes espcies, no podendo promanar nunca de um mesmo

    casal, de que gradualmente teriam se afastado (ibid.). Para classificar as raas

    humanas, explica Haeckel (ibid.), tomam-se por base a natureza dos cabelos, a

    colorao da pele, a forma do crnio. Por este ponto de vista, h dois tipos cranianos

    opostos: cabeas compridas e cabeas curtas. Os homens de cabea comprida

    (dolicocfalos), cujos tipos mais acentuados so os negros e os australianos, apresentam

    crnios alongados, estreitos e comprimidos lateralmente. Nos homens de cabea curta

    (braquicfalos), pelo contrrio, o crnio longo e curto, comprimido de diante para trs,

    como nos mongis. Entre estes dois extremos ficam os de cabea mdia (mesocfalos);

    23 Uma hiptese poligenista de raas encontra-se no esquema evolutivo do livro Biologia Educacional de Almeida Jnior (1966, p. 76) reproduzido no anexo 13. Notam-se os grupos australiano e negro em um caminho evolutivo distinto dos grupos mongol e branco. 24 A traduo americana traz o texto: As is well known, two great parties have for a long time been at war with each other upon this question; the monophylists (or monogenists) maintain the unity of origin and the blood relationship of all races of men. The polyphylists (or polygenists), on the other hand, are of opinion that the different races of men are of independent origin. According to our previous genealogical investigations we cannot doubt that, at least in a wide sense, the monophyletic opinion is the right one. (HAECKEL, 1876, vol. 2, p. 303).

  • 29

    especialmente o tipo craniano dos americanos. Em cada um desses trs grupos, h os

    prognatas, com os maxilares salientes para diante, lembrando o focinho dos animais. O

    autor continua seu discurso ressaltando os quatro grupos que considera como os mais

    inferiores, cujos cabelos so lanzudos:

    Cada cabelo considerado isoladamente chato, em fita e tem uma seo transversal elptica. [...] As quatro espcies humanas de cabelo lanzudo (ulotricos) dividem-se em dois grupos: os cabelos em tufos (lofocomos) e em velo (ericomos). Nos lofocomos, Papuas e Hotentotes, distribuem-se os cabelos desigualmente em tufos ou pequenas borlas. Nos ericomos, Cafres e Negros, esto igualmente repartidos por todo o couro cabeludo [...] Os ulotricos so prognatas e dolicocfalos. Neles, a cor da pele, dos cabelos e dos olhos sempre muito carregada. Todos os homens desse grupo habitam o hemisfrio meridional: s na frica ultrapassam o equador. So geralmente inferiores aos lissotricos [de cabelos lisos] e aproximam-se imenso do tipo simiano. No so os ulotricos susceptveis de verdadeira cultura cerebral, de um alto desenvolvimento intelectual, mesmo num meio social favorvel, como hoje se observa nos Estados Unidos da Amrica [nota-se aqui uma concepo de determinismo biolgico]. Nenhum povo de carapinha teve histria verdadeira. (HAECKEL25, 1910, p. 551)

    A proximidade evolutiva entre a raa negra e os smios, segundo Haeckel (1892,

    p. 180 e 181), evidenciada na figura reproduzida a seguir:

    25 A traduo americana traz o texto: [...] every hair is flattened like a tape, and thus its section is oval. These four species of woolly-haired men (Ulotrichi) we may reduce into two groups - tuft-haired and fleecy-haired. The hair on the head of tuft-haired men (Lophocomi), Papuans and Hottentots, grows in unequally divided small tufts. The wooly hair of fleecy-haired men (Eriocomi), on the other hand, in Caffres and Negroes, grows equally all over the skin of the head. All Ulotrichi, or woolly-haired men, have slanting teeth and long heads, and the colour of their skin, hair, and eyes is always very dark. All are inhabitants of the Southern Hemisphere; it is only in Africa that they come north of the equator. They are on the whole at a much lower stage of development, and more like apes, than most of the Lissotrichi, or straight-haired men. The Ulotrichi are incapable of a true inner culture and of a higher mental development, even under the favourable conditions of adaptation now offered to them in the United States of North America. No woolly-haired nation has ever had an important history. (HAECKEL, 1876, vol. 2, p. 307 a 310).

  • 30

    fig. 1 Chimpanz, gorila, orangotango e negro (HAECKEL, 1892, plate XIV).

    A idia de diferentes raas inferiores e superiores conjugava-se com as

    teorias evolutivas do sculo 19. Para Willinsky (1998, p. 84), a evoluo fez da histria

    natural o perfeito complemento do imperialismo. Se Darwin no a tivesse descoberto,

    outros ingleses estavam preparados para faz-lo. Thomas Malthus havia dito sobre a

    ocorrncia natural no controle das populaes, e Herbert Spencer usou a expresso

  • 31

    sobrevivncia do mais apto. Willinsky considera o darwinismo social e a inveno

    cientfica da raa afinados com o esprito europeu da poca. Ainda no sculo 19, o

    determinismo biolgico desenvolve-se de modo caracterstico: Cesare Lombroso realiza

    estudos de craniometria, relacionando criminosos e suas aes nefastas forma de

    seus crnios, trazendo a lume, em 1876, sua obra L'Uomo Delinquente. A teoria

    lombrosiana no seria somente uma vaga proclamao de que o crime hereditrio, mas

    uma teoria evolucionista especfica baseada em dados antropomtricos. Criminosos

    seriam casos de atavismo evolutivo, germes de um passado ancestral que

    permaneceriam adormecidos na hereditariedade. Em alguns indivduos desafortunados,

    esse passado iria se aflorar no presente. A identificao de criminosos natos poderia

    ser realizada atravs da apreciao dos seus sinais anatmicos. O atavismo presente

    neles seria tanto fsico quanto mental, sendo o primeiro o mais relevante.

    Comportamentos criminosos poderiam tambm aparecer em homens normais, contudo a

    anatomia teria os instrumentos necessrios para revelar o criminoso nato (Gould,

    1991, p. 123 a 133).

    Durante duas dcadas, as idias de Lombroso foram coroadas de xito, como se

    verifica pelas diversas edies de suas obras e a publicao de artigos. O sucesso do

    mdico italiano chegou ao auge em 1885, com o Primeiro Congresso Internacional de

    Antropologia Criminal, reunido em Roma, quando afirma sem rodeios que sua teoria

    do criminoso nato predisposto ao crime por sua constituio fsica no passvel de

    discusso por ser o resultado da observao positiva dos fatos. (Darmon 199126 apud

    Maio, 1995).

    As idias relativas miscigenao de raas e o determinismo biolgico criminal

    lombrosiano tiveram fortes ecos em nosso pas. De acordo com o mdico legista Nina

    Rodrigues27 (1862-1906):

    [...] na srie animal, as complicaes crescentes na composio histolgica ou bioqumica da massa cerebral s se operam com o auxlio da adaptao e da hereditariedade, de um modo muito lento e no decurso de muitas geraes. Assim tambm, os graus sucessivos do desenvolvimento mental dos povos. (RODRIGUES, 1957, p. 29)

    26 DARMON, P. Mdicos e Assassinos na Belle poque. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1991. 27 D'vila (2005, p. 30) faz referncia a Arthur Ramos, antroplogo que iniciou seus estudos sobre cultura afro-baiana com Nina Rodrigues e que se tornou diretor do Servio de Ortofrenologia e Higiene Mental do sistema escolar do Rio de Janeiro na dcada de 1930. Ramos considerava a higiene da raa em seu trabalho de preveno de problemas mentais em crianas.

  • 32

    O estudo das raas inferiores [de ndios] tem fornecido cincia exemplos bem observados dessa incapacidade orgnica, cerebral. (ibid. p. 33) Tem se afirmado, exato, que o cruzamento das raas ou espcies humanas no do hbridos. Mas os fatos demonstram que se ainda no est provada a hibridez fsica, certos cruzamentos do origem em todo caso a produtos morais e sociais evidentemente inviveis e certamente hbridos. (ibid., p. 126 e 127) [...] discutamos como a incapacidade das raas inferiores influiu no carter da populao mestia, transformando ou combinando em snteses variveis os predicados transmitidos pela herana. A escala vai aqui do produto inteiramente inaproveitvel e degenerado ao produto vlido e capaz de superior manifestao da atividade mental. (ibid. p. 134)

    Nina Rodrigues nos oferece alguns exemplos de seus estudos de criminalidade

    encontrada entre mestios brasileiros. notvel a relao causaefeito que ele

    estabelece entre conformao fsica inferior e condutas sociais reprovveis:

    um pardo em que os caracteres do mulato e do mameluco esto bem combinados. [...] No apresenta deformao ou estigma fsico, no canhoto, nem ambidestro. As medidas ceflicas tomadas do os seguintes resultados [...] donde calculamos um ndice ceflico hipercaquicfalo de 86,11 e um ndice nasal de 80,76. [...] Tambm consegui a confisso completa dos seus hbitos pederastas que at ento ele teimava em negar. (ibid., p. 192) [outro caso] mulato claro, com uma conformao craniana facial assimtrica, hiperbraquicfalo com um ndice ceflico de 88,13, as orelhas muito destacadas do crnio e mal conformadas, a abbada palatina profundamente escavada, gago em extremo. [...] tambm pederasta passivo, ladro, jogador e bbado. [...] este menor, apesar de muito claro, tem caracteres inferiores muito acentuados. [...] (ibid, p. 194 e 195).

    Destes excertos de antropologia criminal, novamente me reporto ao texto de

    Willinsky, para quem a cincia da raa provou a si mesma sua utilidade pblica e lucrou

    com o patrocnio recebido por servir s polticas oficiais. Este autor relembra os casos

    do movimento eugnico americano e do alemo este tendo explodido na dcada de

    1930. Os Estados Unidos realizaram programas de esterilizao recomendados

    cientificamente (Willinsky, 1998, p. 86; Gould, 1991, p. 359). Essas concepes de

    determinismo biolgico, racismo cientfico e eugenia tambm se estenderam s polticas

    raciais da Alemanha nazista, como diz Mller-Hill:

    fcil descrever a ideologia do nacional-socialismo: a diversidade dos seres humanos fundamentada biologicamente [...] O

  • 33

    que torna judeus os judeus, ciganos os ciganos, anti-sociais os anti-sociais e doentes mentais os doentes mentais encontra-se no sangue, ou seja, nos genes. Todas as criaturas citadas, e outras mais, so inferiores. Ora, claro que no pode haver igualdade de direitos para inferiores e superiores. [...] Por conseguinte, os inferiores devem ser segregados, esterilizados, exterminados, isto , devem ser mortos, caso contrrio somos culpados do naufrgio da cultura. (MLLER-HILL, 1993, p. 32).

    Tambm na ustria do sculo 19, a cincia da raa teve reflexos diretos. No

    jovem Freud, que cresceu em Viena, naquela poca, a categoria de raa teve um

    significado real: ser judeu significava ser visto como diferente, como doente, como

    culturalmente incompleto (GILMAN, 1994, p. 32). Num perodo inicial de sua carreira,

    em 1889, em uma resenha de um estudo do psiquiatra suo Auguste Forel cujas

    concepes radicais sobre pureza racial e eugenia eram amplamente aceitas , Freud

    atacou a difundida suposio de que nacionalidade, raa e latitude geogrfica de um

    cientista atestavam a verdade ou falsidade de sua cincia; desse modo, um cientista

    judeu nunca poderia se tornar um cientista ariano. E aqueles rotulados como

    diferentes so, segundo Freud, odiados por causa dessa noo de diferena: No nos

    espantamos mais com o fato de que maiores diferenas levariam a uma quase

    insupervel repugnncia, tal como a que o povo gauls sente pelo alemo, o ariano pelo

    semita, e as raas brancas pelas escuras. (ibid., p. 33). Um exemplo das idias racistas

    sobre os judeus, que afligiram Freud, pode ser ilustrado pela montagem de vrias

    fotografias realizada por Francis Galton:

  • 34

    Fig. 2 Fotomontagem de judeus realizada por Galton (de GILMAN, 1994, p. 91).

    Ele afirmou que era capaz de penetrar em um tipo representativo da essncia

    psicolgica e fisiolgica dos judeus. Falando sobre dois trabalhos, a serem apresentados

    no Instituto de Antropologia, sobre as caractersticas raciais dos judeus, Galton

    acreditava que tinha apreendido os aspectos tpicos da face judaica moderna. Segundo

    ele, no olhar dos judeus que a patologia de suas almas pode ser encontrada um

    argumento fisiognomnico e de determinismo biolgico (GILMAN, 1994, p. 90).

    Neste percurso histrico acerca de raas humanas, vale realar como eram as

    representaes de tipos raciais em livros didticos editados no Brasil no incio do sculo

    20 neles encontramos reflexos das concepes de desigualdade racial, correntes no

    sculo anterior. Na Historia Natural de Langlebert, uma ilustrao semelhante a uma

    esttua grega representa a raa branca (anexos 14 e 15). Na Terra Illustrada, a raa

  • 35

    negra caracterizada por possuir uma inteligncia aptica (anexos 16 e 17). J a

    Historia Natural FTD (1924) exibe uma concepo monogenista, que ressalta a unidade

    da espcie humana, considerando todas as suas raas como igualmente nobres, sem

    permitir distino de raas superiores e inferiores (anexos 18 e 19). Antes da Segunda

    Guerra Mundial, vemos no Curso Elementar de Histria Natural de Mello-Leito

    (1933) detalhadas descries raciais com medidas antropomtricas, das quais os anexos

    20 e 21 reproduzem as fotografias ilustrativas da raa branca ou caucsica e da raa

    negra ou etipica.

    Aps a Segunda Guerra Mundial, a UNESCO afirmava, com seu Estatuto da

    Raa, que a humanidade uma s: todos os homens pertencem mesma espcie,

    Homo sapiens (Willinsky, 1998, p. 87). Mesmo assim, as concepes racistas,

    antropomtricas e tipolgicas estenderam-se at os anos 1960, como atesta o livro The

    Origin of Races (1962) de Carleton Coon, professor da Universidade da Pensilvnia,

    como menciona Willinsky (ibid., p. 90 a 95).

    O livro de Coon foi, sem dvida, contestado por proeminentes figuras da poca

    como o ltimo suspiro de uma cincia moribunda, mesmo assim teve seus defensores e

    permanece como um influente relato sobre a natureza das raas (Willinsky, ibid., p. 90).

    O discurso de Coon entremeado de fotos de pigmeus, aborgines, macacos do passado,

    diagramas cranianos e estatsticas antropomtricas. Segundo Coon, as intransponveis

    diferenas e distncias entre as raas eram explicadas pelo argumento da especiao, e,

    na histria da origem da humanidade, as vrias raas foram transformadas em perodos

    diferentes, passando de Homo erectus a Homo sapiens.

    De acordo com as concepes de Coon, se a frica foi o bero da civilizao,

    foi apenas um jardim-de-infncia medocre. Europa e sia foram nossas melhores

    escolas28. As idias de Coon so evidentes na seguinte justaposio de fotografias, que

    compara as capacidades cranianas de uma mulher aborgine e de um sbio chins:

    28 No original americano de Willinsky (1998, p. 172) e em Coon (1962, p. 656): If Africa was the cradle of mankind, it was only an indifferent kindergarten. Europe and Asia were our principal schools.

  • 36

    Fig. 3 Capacidades cranianas (COON, 1962, plate XXXII).

    Ainda, para este autor, encorajador que a bioqumica nos divida nas mesmas

    subespcies que h muito reconhecemos baseados em outros critrios (COON, 1962, p.

    662). Essa capacidade de distinguir raas quase de relance (ibid.), com a confivel e

  • 37

    inequvoca testemunha do olhar como todos podem ver , permanece como a base da

    transcendente verdade do empirismo (Willinsky, ibid., p. 93). Embora a teoria de Coon

    no tenha sobrevivido ao tempo, ela ainda serve como um sinalizador do patrocnio

    cientfico do qual se beneficiou o racismo (ibid., p. 94). O geneticista Dobzhansky em

    sua crtica ao livro de Coon na Scientific American (1963, p. 169) afirmou que o

    professor Coon estabelece algumas de suas concluses de uma forma que torna seu

    trabalho suscetvel de manipulao pelos racistas e defensores da supremacia branca e

    de outras causas pouco convencionais (Willinsky, ibid., p. 94). Dobzhansky assevera

    que diversidade nunca deve ser confundida com desigualdade; igualdade e desigualdade

    so fenmenos sociolgicos, e identidade e diversidade so fenmenos biolgicos, e,

    ainda, afirma: diversidade um fato observvel, igualdade, um preceito tico

    (DOBZHANSKY, 196829, p. 79).

    As concepes de determinismo biolgico e de raas humanas alcanaram as

    reas de Educao e Psicologia ainda na dcada de 1970, como evidencia este excerto

    que descreve relaes diretas entre raa e desenvolvimento infantil:

    A precocidade prematura de crianas negras, e seu desvanecimento posterior, foram tambm observados por Bayley em seus estudos em larga escala de crianas e seu desenvolvimento percepto-motor; interessante que vrios observadores verificaram que crianas japonesas e chinesas so menos precoces nestes testes que as caucasianas. Nas idades mais avanadas, as crianas orientais fazem [sic] significativamente melhor que as brancas em testes percepto-motores tpicos tal como o da tarefa de copiar a figura; as crianas negras fazem pior. Esta superioridade das crianas orientais sobre as crianas brancas surpreendente quando se considera que o status scio-econmico delas est bem abaixo do das crianas brancas; juntando isto com a superioridade dos adultos orientais nos testes de raciocnio abstrato (a despeito da mesma inferioridade em status scio-econmico) poder-se-ia concluir que os orientais podem ter pools de genes geneticamente superiores para o desempenho em testes de QI elaborados pelos brancos! (EYSENCK, 1971, p. 95)

    interessante ressaltar que o texto do BSCS (1976, Verso Verde) se distancia

    da viso tradicional de Coon, e, em sentido inverso, traz um texto no absoluto e no

    dogmtico em relao a raas humanas. Embora o livro apresente algumas fotografias

    29 DOBZHANSKY, T. Na introduo do captulo Biological aspects of race in man In: MEAD, M.; DOBZHANSKY, T.; TOBACH, E.; LIGHT, R. E. (editores). Science and the concept of race. New York: Columbia University Press, 1968.

  • 38

    de tipos raciais tradicionais (reproduzidas no anexo 22), o texto principal do BSCS

    desenvolve-se numa perspectiva de discusso e relatividade:

    AS RAAS HUMANAS [...] Com base nessas diferenas [de aparncia fsica],

    fizeram-se vrias tentativas para classificar as populaes humanas, mas no se chegou a um acordo geral sobre essa classificao. A mais simplista separa as populaes em branca, negra e amarela, enquanto a mais complexa considera cerca de trinta grupos diferentes. [...]

    Recentemente, os antroplogos comearam a usar as freqncias gnicas das populaes como base da classificao e passaram a falar em distncia biolgica, que um modo simples de expressar o grau de semelhana entre as freqncias gnicas de duas ou mais populaes. [...] Naturalmente decidir qual a distncia biolgica mnima para que duas populaes sejam consideradas raas diferentes ainda apenas um critrio antropolgico.

    [...] Discusses sobre raas humanas freqentemente envolvem argumentos sobre superioridades ou inferioridade de uma ou outra raa. Na realidade, esses argumentos carecem de bases biolgicas. Se considerarmos a questo do ponto de vista fsico, poderamos dizer que os mais evoludos so os mongolides, pois possuem menos plos; ou os negrides, porque os lbios, peculiaridade humana, so mais desenvolvidos entre eles; ou os caucasides, por causa da pele muito clara.

    Entretanto, geralmente a argumentao mais cultural do que biolgica. [...] Os caucasides tornaram-se presunosos porque a civilizao europia tem sido a mais poderosa nos ltimos quatrocentos ou quinhentos anos, mas iso no garante que continuar a ser. H trs mil anos, os chineses possuam um grande imprio, enquanto os brbaros das Ilhas Britnicas estavam pintando seus corpos de azul e cultuando carvalhos. (BSCS, 1976, v. 3, p. 357 a 360).

    Contrastando com esse discurso do BSCS, mesmo no final do sculo 20,

    vestgios da cincia da raa e do determinismo biolgico so encontrados,

    principalmente, na rea da Sociobiologia. Willinsky (1994, p. 96) cita o livro The bell

    curve: Intelligence and class in American Life (199430) por Richard Herrnstein,

    psiclogo de Harvard, e Charles Murray, cientista social. Esta obra extrai srias

    implicaes polticas de correlaes entre Q.I. e grupos raciais, compreendendo

    vrios agrupamentos humanos, de asiticos a judeus asquenazes.

    30 HERRNSTEIN, R. J.; MURRAY, C. The bell curve: Intelligence and class in American Life. New York: Free Press, 1994.

  • 39

    Como mostrarei adiante, na seo Resultados e discusso, a cincia da raa

    por meio da obra de Coon, por exemplo , teve repercusso em livros didticos de

    Biologia recentemente editados no Brasil.

    2.2.3 Questes e tenses sobre raas humanas na atualidade

    Esta seo uma concisa reviso bibliogrfica sobre algumas questes relativas

    a conceitos de raa e ancestralidade humana na Biologia particularmente na Gentica

    recente e a discusses e tenses poltico-sociais, como as aes afirmativas, e a

    medicina racial. A reviso se vale do texto sobre aes afirmativas nos Estados

    Unidos (RESNIK, 2005), alm de outras fontes obtidas por vias no sistemticas.

    Na histria do Brasil, podemos notar vrias questes histrico-sociais

    relacionadas s concepes de raa: os debates e lutas abolicionistas do sculo 19, o

    questionamento da existncia ou no de uma democracia racial, o racismo velado ou

    explcito e os movimentos polticos tnicos e raciais nos sculos 20 e 21, dentre outras

    situaes e atritos que envolvem disputa de poder e valores. Recentemente, o acesso

    universidade por meio de cotas raciais para negros tem sido tema de relevo na mdia e

    nos meios acadmicos (KAMEL, 2006; FRY et al., 2007). O conhecimento da Biologia

    sobre raa ensinado nas escolas e pesquisado pela academia se entrelaa com estas

    questes sociais. No s em nosso pas os conhecimentos cientficos imbricam-se com

    tais tenses sociais.

    Uma breve referncia histrica da situao dos conceitos de raa nos Estados

    Unidos, na dcada de 1960, pode ser realizada com o texto de Robert Light, no qual ele

    comenta o entendimento dos conceitos cientficos de raa naquela poca:

    Trs dcadas atrs, quando Adolf Hitler proclamou para o mundo a superioridade de sua raa, cientistas americanos procuraram refutar o absurdo do nazismo e assegurar que o pblico em geral obtivesse um sensato conhecimento sobre o conceito de raa. Eles realizaram especiais esforos para alcanar o pblico por meio de palestras e por meio do rdio e em artigos, panfletos, e livros para explicar o que a cincia sabia sobre raa e sua relevncia contra as alegaes de superioridade ou inferioridade inata das pessoas. Muita informao teve como veculo a sala de aula. [...] Desafortunadamente, o grau de informao sobre raa tem declinado agudamente neste pas. Hoje, muitas tolices so ditas sobre raa, muitas vezes por pessoas que tiveram educao. Questione um aluno universitrio por uma definio de raa, e ele ir gaguejar uma resposta incoerente; lderes polticos e muitos professores

  • 40

    universitrios no faro melhor. A mdia de massa regularmente usa de modo indevido o termo e dissemina informaes erradas. (LIGHT In: MEAD et al., 1968, p. vii)

    Ainda enfocando os Estados Unidos, mas trazendo as questes raciais para um

    tempo mais recente, passo a apreciar o artigo de Resnik (2005), que examina as bases

    legais e morais das aes afirmativas nas reas da cincia e da engenharia. Segundo ele,

    ao afirmativa uma resposta institucional a problemas de discriminao na sociedade

    e a efeitos decorrentes e prolongados de discriminao em pocas passadas. O sistema

    de cotas um mtodo para obter uma determinada porcentagem de pessoas que se

    baseia em classificaes raciais, tnicas ou de gnero (ibid. p. 77, grifo meu). Resnik

    traz vrios argumentos que criticam as aes afirmativas, como a considerao de que

    elas so uma discriminao reversa. Em referncia s polticas de cotas universitrias, o

    autor faz destaque Suprema Corte Americana que determinou que raa, etnia e gnero

    podem ser usados como critrios entre outros na adoo de programas de ao

    afirmativa, mas que raa, etnia e gnero no devem ser os fatores decisivos em tais

    processos. Resnik (ibid.) reconhece que aes afirmativas podem promover criatividade,

    produtividade e sucesso na cincia e na engenharia, mas que isto no justifica o uso de

    fortes aes preferenciais ou cotas. O autor conclui que programas que estabelecem e se

    baseiam em cotas raciais, tnicas ou de gnero no so legal ou moralmente

    justificveis, e que tais programas devem avaliar cada candidato individualmente,

    considerando sua potencial contribuio diversidade intelectual nas escolas,

    programas e profisses. Kamel (2006), Fry (2007), Ventura e Maio (2007), Goldemberg

    e Durham (2007), dentre outros, ponderam vrios argumentos sociais e legais contra as

    cotas nas universidades. Como mostra a reviso bibliogrfica sobre Biologia, teorias de

    classificao e raas humanas (seo 2.2.2), os caracteres fenotpicos no so suficientes

    e adequados para uma classificao em raas humanas, fato que reitera a impropriedade

    prtica dos sistemas de cotas raciais.

    Outra questo recente, que ocorre no Brasil e nos Estados Unidos, uma suposta

    medicina racial ou tnica. A mdia impressa vem trazendo informaes como a notcia

    Classificao por raa atrapalha medicina (O Globo, 25 de setembro de 2007, Cf.

  • 41

    anexo 23) e a matria de capa Racial Medicine da revista de divulgao Scientific

    American (Aug. 200731) e da sua verso brasileira (set. 2007) (Cf. anexos 24 e 25).

    A revista Histria, Cincias, Sade Manguinhos dedicou uma edio especial

    denominada Dossi raa, gentica, identidades e sade (v. 12, n. 2, maio-ago. 2005).

    Dos vrios artigos, destaco o de Pena (2005), para quem o conceito de raa deve ser

    banido da medicina:

    O conceito de raa faz parte do arcabouo cannico da medicina, associado idia de que cor e/ou ancestralidade biolgica so relevantes como indicadores de predisposio a doenas ou de resposta a frmacos. Essa posio decorre de uma viso tipolgica de raas humanas. O baixo grau de variabilidade gentica e de estruturao da espcie humana incompatvel com a existncia de raas como entidades biolgicas e indica que consideraes de cor e/ou ancestralidade geogrfica pouco ou nada contribuem para a prtica mdica, especialmente no cuidado do paciente individual. Mesmo doenas ditas raciais, como a anemia falciforme, decorrem de estratgias evolucionrias de populaes expostas a agentes infecciosos especficos. Para Paul Gilroy32, o conceito social de raa txico, contamina a sociedade como um todo e tem sido usado para oprimir e fomentar injustias, mesmo dentro do contexto mdico. (PENA, 2005, p. 321)

    Controvrsias recentes acerca de medicina racial tambm so expressas em

    Braun et al. (2007), que relatam vigorosos debates provocados pelo uso de categorias de

    raa em epidemiologia, sade pblica e pesquisa mdica. Os autores dizem que, ao

    longo do sculo 20, raa no teve uma definio nos servios pblicos mdicos

    americanos. Na epidemiologia, raa vagamente referida a pessoas que so

    relativamente homogneas no que se refere herana biolgica. Em sntese, Braun et

    al. concluem que no h consenso de como raa pode ser um fator de diagnstico, pois

    categorias raciais so histricas, e no, biolgicas.

    A controvrsia sobre medicamentos raciais ou tnicos o foco do artigo de Kahn

    (2007). Ele tece observaes sobre o BiDil, medicamento que combate a insuficincia

    cardaca congestiva e que foi aprovado em 2005 para tratamento apenas de afro-

    americanos. O autor afirma que no existe nenhuma evidncia de que o BiDil funcione

    melhor em afro-americanos que em brancos e comenta que organizaes como a

    31 interessante destacar a traduo dos ttulos das matrias de capa e dos artigos: enquanto no original, tem-se Racial Medicine: The Weak Science behind Ethnic Drugs Race in a bottle, na edio brasileira, l-se: Medicina tnica: A Cincia duvidosa dos Medicamentos Especializados Medicamentos tnicos. 32 GILROY, P. Against Race Imagining Political Culture Beyond the Color Line. Cambridge: Harvard University Press, 2000.

  • 42

    Associao de Cardiologistas Negros e a Conveno Parlamentar de Negros defenderam

    firmemente o uso do BiDil. O autor conclui que a aprovao desta droga como

    especfica para uma raa cria um precedente imprudente de medicina racial.

    Alm das referncias supracitadas, vrios textos relativos s controvrsias entre

    raa e sade so encontrados no livro Divises perigosas (FRY et al., 2007), do qual

    cito, aleatoriamente, estes dois exemplos: Sobre cor/raa e Aids no Brasil

    (TRAVASSOS, 2007) e O SUS racista? (MAIO, MONTEIRO e RODRIGUES,

    2006).

    2.3 - Livro didtico e o ensino de Cincias

    A apresentao a seguir focalizou os seguintes aspectos: histria e importncia

    do livro didtico, livro didtico e o ambiente escolar, contedo do livro didtico,

    estrutura do livro didtico, metodologias de seleo e anlise do livro didtico.

    2.3.1 Importncia do livro didtico

    Tradicionalmente, o livro didtico esteve sempre presente nas instncias formais

    de ensino, fazendo parte do currculo escrito desenvolvido no ambiente escolar.

    Pesquisas investigam os fatores que interferem na produo desses materiais de ensino e

    como o uso desses manuais didticos pode vir a influenciar o trabalho docente e a

    formao dos educandos.

    Muitos pesquisadores em educao registram que o livro didtico o principal

    recurso utilizado no sistema de ensino, seja como fonte de pesquisa bibliogrfica, seja

    como fonte de consulta para o aluno e para o professor, como proposta de exerccio e

    projetos e, muitas vezes, como a nica fonte de informao que o docente dispe para

    trabalhar com seus educandos (Detregiachi e Arruda, 2003; Leo e Megid Neto, 2003).

    Nascimento e Martins (2005) afirmam que o livro didtico influencia nos diferentes

    estgios do planejamento e no desenvolvimento das aulas, alm de ser material de

    referncia para os professores.

    Sandrin, Puorto e Nardi (2005), citam o Programa Nacional do Livro Didtico

    do MEC (2003) ao comentar que o livro didtico uma das principais formas de

    documentao e consulta empregados por professores e alunos, o que, s vezes, termina

    por influenciar o trabalho pedaggico e o cotidiano da sala de aula. Ressaltam que o

    livro didtico tem um papel excepcional na veiculao de conhecimentos cientficos.

  • 43

    Gonzlez e Sierra (2004) confirmam a importncia do livro didtico, cujos

    papis no ensino so: objeto de estudo, material de consulta, registro das atividades dos

    alunos, colees de exerccios propostos e problemas a resolver. Isto originou uma

    prtica escolar determinada pelo uso do livro didtico assim como uma organizao do

    ensino, que se mantm na atualidade. Os autores ressaltam que os livros-texto tm, por

    um lado, uma funo comunicativa e de interpretao que lhes dotar um carter

    subjetivo por parte do autor e tambm do leitor e, por outro, uma estrutura materializada

    do conhecimento de um carter eminentemente objetivo. Essa dupla face dos livros

    didticos faz com que sua investigao produza relevantes informaes tanto acerca das

    concepes em relao ao contedo que desenvolvem, como acerca do processo

    educativo com o qual esto relacionados.

    Leo e Megid Neto (2003) afirmam que a questo do livro didtico, sua

    qualidade e finalidades tornam-se muito complexas por sofrerem influncias de

    diferentes instncias: organismos internacionais (como o Banco Mundial), pesquisas

    acadmicas sobre esses textos didticos, editores (que sobrevivem da venda dos livros),

    polticas pblicas para a educao, programas do Ministrio da Educao de avaliao

    dos livros (PNLD), professores que escolhem e usam os livros.

    Segundo Nascimento e Martins (2005), pesquisas caracterizam os livros

    didticos como mediadores de interaes discursivas na sala de aula. Os livros-texto

    tm sido considerados como objetos culturais, apresentando um entrelaamento de

    vozes que corresponde aos diferentes horizontes conceituais relacionados aos discursos

    da cincia, da pedagogia e da mdia.

    Para Gonzlez e Sierra (2004), o livro escolar um elemento cultural reflexo da

    manipulao social que seleciona uns contedos frente a outros, que impe uma

    determinada forma de estrutur-los e que prope gerao seguinte certo tipo de

    problemas com certas ferramentas semiticas e no outras. Esses autores citam

    Choppin33 (1980), para quem o livro-texto impe uma distribuio e uma hierarquia dos

    conhecimentos e contribui para forjar os alicerces intelectuais tanto de alunos como de

    professores; instrumento de poder, dado que contribui para a uniformizao lingstica

    da disciplina, o nivelamento cultural e a propagao de idias dominantes. Os mesmos

    autores ressaltam a importncia da pesquisa sobre livros didticos, que so uma fonte de

    investigao para os interessados na histria da educao, j que permitem estudar os

    33 CHOPPIN, A. Lhistoire des manuels scolaires. Um bilan bibliomtrique de la recherche franais. Histoire de lEducation, 58: 165-185, 1980.

  • 44

    enfoques que se tem dado, ao longo da histria, a uma disciplina ou conceito e extrair

    informaes sobre difuso e evoluo dos saberes em uma poca determinada e

    interpretar fenmenos que tm relao com os processos de ensino-aprendizagem.

    2.3.2 Livro didtico e o ambiente escolar

    Ferreira e Selles (2003) referenciam-se em Chevallard34 (1985), para quem o

    conhecimento cientfico-acadmico (denominado por ele saber sbio) passa por

    modificaes, mediadas por contextos poltico-histricos, denominadas transposio

    didtica, e se transforma em um saber a ser ensinado, caracterstico do ambiente

    escolar, encontrado, por exemplo, nos livros didticos. Por conseguinte, os livros

    didticos so produtos culturais, construdos de modo especfico para atender s

    finalidades sociais prprias da escolarizao. Gonzlez e Sierra (2004) tambm se

    reportam a Chevallard (1985) salientando que, entre o saber sbio e o saber ensinado,

    existe um nvel intermedirio correspondente ao saber a ensinar, que se reflete no texto

    de saber. Esse texto de saber o que o professor considera que necessrio ensinar. O

    mais prximo a esse texto de saber, ou saber a ensinar, o livro didtico, cujo contedo

    e estrutura refletem essas transformaes do saber sbio. Clment et al. (2005), ao

    tratarem da transposio didtica, desdobram-na em duas perspectivas complementares:

    a transposio didtica externa, que enfoca a escolha do que ser ensinado (definio

    do contedo dos currculos e estratgias envolvidas nessas escolhas por aqueles que

    decidem os currculos) e a transposio didtica interna, que transforma o

    conhecimento de referncia cientfico em propsitos educacionais, transformao

    efetuada em livros-texto (escolhas realizadas pelos editores e autores), em outros

    documentos usados durante o ensino35 e pelo prprio professor. Skoog (2005) comenta

    a influncia externa sobre os livros ao citar a afirmao de Apple e Christian-Smith36

    (1991) para os quais o manual didtico resultado de atividades, disputas e

    compromissos polticos, econmicos e culturais. Afirmam igualmente que o

    conhecimento (a ser trabalhado como currculo na escola) o resultado de complexas

    relaes de poder e lutas entre grupos de classe, raa (grifo meu), gnero/sexo e de

    34 CHEVALLARD, Y. La Transposition Didactique. Du Savoir Savant au Savoir Enseign. Grenoble: La Pense Sauvage, 1985 35 Os autores no esclarecem que tipo de documentos se trata, mas que podem ser: apostilas, roteiros de aula prtica ou excurses, estudos dirigidos, textos complementares, etc. 36 APPLE, M. e CHRISTIAN-SMITH, L. The Politics of the Textbook. New York: Routledge, Chapman and Hall, 1991

  • 45

    religio, e que ingnuo o pensamento de que o currculo um conhecimento de carter

    neutro.

    Ribeiro, Dazzi, Souza e Wortmann (2001) afirmam a importncia da anlise de

    livros didticos ao se investigar as limitaes das linguagens que esto nos textos, os

    modos de subjetividade, o papel do imaginrio e dos valores culturais presentes em

    determinado contexto scio-histrico, assuntos que necessitam ser discutidos e

    problematizados pelos professores com seus alunos.

    2.3.3 Contedo do livro didtico

    Leo e Megid Neto (2003), ao dissertarem sobre os programas governamentais

    de avaliao de livros didticos de Cincias, comentam que os manuais didticos, h

    dcadas, vm sendo objeto de debate e investigao, de onde se originaram inmeras

    crticas. Citam como problemas dos livros didticos: induo ou reforo de

    preconceitos e esteretipos raciais e sociais (grifo meu); difuso ou reforo de

    equvocos ou mitificaes em relao concepo de cincia, ambiente, sade, ser

    humano e tecnologia; proposio de atividades que mais estimulam a obteno de

    informaes e memorizao, em detrimento do desenvolvimento de capacidades como

    reflexo, anlise e sntese, curiosidade e criatividade; no valorizao do conhecimento

    prvio dos estudantes e ausncia de tratamento de situaes concretas de seu cotidiano.

    Massabni e Arruda (2003) ressaltam que pesquisas sobre livros-texto

    evidenciaram erros e inadequaes tanto em seu contedo quanto na viso de cincia

    que veiculam. Nos livros, a cincia vista como algo esttico, desvinculada das razes

    sociais que levaram a descobertas e estando apenas ao alcance de gnios e grandes

    cientistas. Comentam que os docentes usam os livros de modo acrtico e que estes

    materiais so o principal recurso pedaggico efetivamente usado pelos professores de

    Biologia em sala de aula. Os livros analisados em sua pesquisa tratam superficialmente

    os contedos relacionados sade e ao enfoque CTS, no estando nem sociedade nem

    tecnologia abordados adequadamente.

  • 46

    2.3.4 Estrutura do livro didtico

    Segundo Jacobi37 (1987) apud Clment et al. (2005), cada pgina de um livro

    didtico uma estrutura escrito-visual (scripto-visual frame) que compreende texto

    e/ou imagens que podem ser analisadas individualmente, mas que produzem efeitos

    globalizantes, que geram estratgias de leitura pelo destinatrio-alvo do texto, o

    educando.

    Nascimento e Martins (2005) afirmam que, segundo referenciais tericos de

    semitica e educao em cincias, os livros didticos so hbridos semiticos e

    materializaes de discursos do conhecimento escolar que so compostos da integrao

    entre linguagem verbal (texto) e imagens. Observam uma relao entre imagens

    veiculadas no livro didtico e o contedo da cincia, notadamente em imagens

    cannicas como a dupla hlice do DNA e a estrutura celular (uma das representaes

    didticas mais tradicionais). Os autores consideram que tais imagens tm a propriedade

    de produzir fortes relaes entre o discurso cientfico e o discurso pedaggico e

    auxiliam na construo da estabilidade do discurso cientfico escolar.

    2.3.5 Metodologias de seleo e anlise do livro didtico

    Leo e Megid Neto (2003) tomaram como referncia os dados de teses e

    dissertaes sobre ensino de Cincias no Brasil disponveis no Centro de Documentao

    em ensino de Cincias da Faculdade de Educao da UNICAMP e encontraram 50

    pesquisas sobre livro didtico na rea de Cincias, nos vrios nveis escolares. Os

    trabalhos analisaram livros didticos sob diferentes ngulos: contedos especficos; as

    atividades, em especial a experimentao; concepo de cincia, de sade, de ambiente;

    ilustraes; integrao de temas; ideologia; transposio didtica. Os autores comentam

    que artigos publicados em peridicos nacionais analisam os livros a partir de critrios

    similares: correo e atualidade dos contedos, articulao desses, ilustraes,

    abordagem do cotidiano, concepo de ambiente, entre outros.

    Gonzlez e Sierra (2004) mencionam vrios tipos de investigao de livros

    didticos, dentre os quais enumero os seguintes: pesquisas sobre transposio didtica,

    sobre a linguagem e a compreenso dos textos, e sobre anlise histrica, que ressalta a

    37 JACOBI, D. Images et discours de la vulgarisation scientifique. Berne: Peter Lang, 1987.

  • 47

    necessidade de uma abordagem global que analisa as mudanas nas sucessivas edies

    de um livro e as modificaes respectivas a outros livros didticos num contexto

    cronolgico comparativo entre os ttulos considerados.

    Ferreira e Selles (2003) analisaram a produo acadmica brasileira sobre livros

    didticos de Cincias publicada em peridicos nacionais em ensino de Cincias. Nos

    dezessete artigos encontrados, observaram que a maior parte das anlises centrava-se

    em aspectos conceituais. As autoras apontam outros problemas encontrados em livros

    didticos: contedos de carter abstrato e que priorizam a memorizao excessiva;

    contedos que reforam concepes alternativas dos alunos; contedos que, de modo

    equivocado, confundem as afirmaes da cincia com descries exatas da realidade

    concreta (realismo ingnuo) que trazem representaes visuais em desacordo com os

    processos de construo do conhecimento cientfico, podendo ser prejudiciais aos

    alunos, impedindo-os de compreender a natureza da cincia. Ressaltam que as cincias

    de referncia no devem ser o nico critrio de anlise de livros didticos. Para elas,

    desejvel que, para alm dos erros conceituais, e o que falta nos livros (rigor,

    historicidade, contextualizao, uma viso da natureza da cincia), deve-se investigar os

    livros-texto buscando compreend-los em seus contextos tanto de produo quanto de

    utilizao. Como exemplo deste tipo de investigao, Skoog (2005) realizou uma ampla

    investigao de carter histrico procurando identificar como o tema evoluo biolgica

    foi desenvolvido em livros norte-americanos de nvel mdio ao longo das dcadas do

    sculo 20. Seus resultados mostram que os currculos de Biologia dos estados

    americanos e o contedo dos livros didticos refletiam, ora de modo hegemnico, ora

    com uma menor influncia, concepes antievolucionistas (criacionistas) e de eugenia,

    o que evidencia uma persistente controvrsia sobre o lugar das teorias evolutivas nos

    currculos e nos livros-texto. Ao investigar o tema evoluo biolgica no material verbal

    dos livros, o autor procurou identificar passagens textuais que caracterizavam o conceito

    de evoluo e objetivou coletar dados nos ndices e sumrios, assim como nos

    glossrios dos livros pesquisados (113 ttulos ao todo).

    Clment et al. (2005) informam que, na Frana, a maior parte das pesquisas

    focaliza, principalmente, a transposio didtica interna. Em essncia, esse mtodo

    compara o contedo dos livros didticos com os principais textos de referncia

    cientfica e tambm investiga os livros-texto quanto no contextualizao do

    conhecimento, dogmatizao do conhecimento cientfico, etc. Sugerem um novo

    enfoque de pesquisa que analisa se os conceitos, transpostos didaticamente, so o

  • 48

    resultado da interao entre conhecimento cientfico, valores e prticas sociais. Os

    autores tambm enumeram uma srie de anlises semitico-lingsticas que podem ser

    usadas para avaliar o impacto de um determinado captulo de livro nos alunos: anlise

    de ttulos, subttulos, sumrios, palavras-chave, redundncia e/ou freqncia de texto

    e/ou imagens, identificao do contedo e de campos semnticos de cada captulo,

    identificao do estilo pedaggico (aquisio de conhecimento ou de competncias),

    uso de discurso afirmativo ou interrogativo, apresentao de certezas ou dvidas,

    referncias para leituras adicionais, categorizao do uso de imagens (se a funo da

    imagem puramente esttica, ilustrativa ou demonstrativa), se tem como objetivo

    questionar ou surpreender o leitor, se h legendas para interpretar as imagens, anlise

    retrica do texto (se ele narrativo, explicativo, descritivo, argumentativo). Os autores

    tambm procuram avaliar quanto o conhecimento cientfico, transposto didaticamente,

    faz referncia a prticas sociais em relao a um campo especfico ou mesmo

    sociedade em geral em relao a tpicos fortemente ligados a disputas sociais e/ou a

    sentimentos pessoais como educao em sade, educao sexual, evoluo humana e

    suas origens, determinismo biolgico. No modo de proceder s suas pesquisas,

    primeiramente, conduzem anlises epistemolgicas e histricas para estabelecer a

    evoluo do conhecimento referente a cada tpico. Isto inclui analisar interaes, para

    cada perodo, entre o conhecimento factual e as disputas de interesses que podem ter

    sido obstculos ao desenvolvimento em um campo em uma certa poca. Este enfoque

    epistemolgico tambm explora as mais recentes perspectivas em relao aos tpicos

    selecionados. Os autores tambm procuram identificar e analisar obstculos

    significativos na transposio do conhecimento, como o uso de supersimplificaes

    reducionistas (tais como: uma caracterstica sendo condicionada por um nico gene;

    uma doena sendo causada por um nico microorganismo) e a ausncia de aspectos

    prvios de um tpico que so essenciais para o seu entendimento. Salientam que o mais

    difcil aspecto desse enfoque identificar e analisar as mensagens implcitas dos livros

    didticos.

    Detregiachi e Arruda (2003) citando Bizzo38 (1996) referenciam-se em

    estudos do MEC que apontam muitos livros-texto desatualizados quanto a informaes

    e teorias importantes e que contm erros inaceitveis e veiculam valores incompatveis

    com a construo da cidadania. Valorizam, principalmente, a correo conceitual nos

    38 BIZZO, N. Graves erros conceituais em livros didticos de cincias. Cincia Hoje, 121 (21): 26-35, junho, 1996.

  • 49

    livros didticos ao fazer referncia aos PCN de Cincias Naturais que afirmam a

    adequao de contedos como verdadeira condio de aprendizagem significativa. As

    autoras propem um instrumento de anlise de livros didticos de cincias que identifica

    a presena ou ausncia de contedos mnimos, e quando presentes, avalia a sua correo

    cientfica. Os dados obtidos so distribudos em uma tabela simples que identifica a

    presena ou ausncia de contedos e se esses esto desenvolvidos de modo correto ou se

    apresentam erros conceituais.

    Massabni e Arruda (2003), para a escolha do corpus de livros a serem

    investigados em seu trabalho, elaboraram questionrios nos quais se perguntava aos

    professores de Biologia de ensino mdio da rede pblica se usavam livros didticos e

    qual(ais) eram utilizados. J Nascimento e Martins (2005) compuseram um conjunto de

    ttulos selecionando-os segundo dois critrios: aprovao pelo Programa Nacional de

    Avaliao de Livros Didticos (PNLD) e nmero significativo de professores que o

    adotam.

    Para investigar os papis que as imagens desenvolvem no ensino de cincias,

    Nascimento e Martins (2005) baseiam suas anlises em referenciais tericos de

    semitica. Essas anlises do nfase na relao que se observa na produo de imagens

    e na recepo destas em relao a determinada cultura. Sua pesquisa considera

    fotografias, diagramas, desenhos e tabelas, os quais, segundo as autoras, expandem e

    elaboram idias, freqentemente adicionando informaes novas ao estudante. De modo

    comparativo, os dados empricos as imagens de cada livro so tratados de forma

    estatstica em relao ao nmero de pginas de cada ttulo. Para Martins39 (2002) apud

    Nascimento e Martins (ib.), a anlise funcional das imagens evidencia as relaes entre

    o texto, atividades realizadas pelos alunos e a prpria cincia. Citam os PCN de

    Cincias Naturais, para os quais as imagens didticas so elementos importantes no

    desenvolvimento formativo dos educandos, e mencionam que as imagens so um dos

    critrios da avaliao dos livros-texto pelo PNLD - Programa Nacional do Livro

    Didtico do MEC, pois elas podem atuar de vrios modos, como por exemplo:

    estabelecer relaes entre o contexto cientfico e do cotidiano, promover enfoques

    interdisciplinares, familiarizar o estudante com uma variedade de gneros textuais,

    construir valores de cidadania. Contextos do cotidiano provem uma base para o

    39 MARTINS, I. Visual imagery in school science textbooks. In: GRAESSER, A.; OTERO, J. e DE LEON, J. A. The psychology of science text comprehension. Hillsdale, N.J.: Lawrence Erlbaum Associate Publ., 2002.

  • 50

    entendimento de conceitos cientficos que incluem, por exemplo, o conceito de

    fentipo, que pode ser trabalhado por meio de fotografias de grupos de pessoas que

    tm baixa estatura, relacionando-as com deficincia nutricional, e referncias

    diversidade tnica. (grifo meu).

    Sandrin, Puorto e Nardi (2005) referenciam o Programa Nacional do Livro

    Didtico (PNLD) do MEC como um instrumento de avaliao dos ttulos a serem

    adquiridos (ou no), em milhes de exemplares, para a distribuio em escolas pblicas.

    Este programa iniciou-se em 1985 e, a partir da dcada de 1990, o MEC publicou os

    primeiros guias de livros didticos em um esforo de auxiliar o professor a selecionar os

    livros mais adequados sua prtica pedaggica. Os autores afirmam que, embora

    algumas orientaes governamentais que orientavam o PNLD, no final da dcada de

    1990, possam ser questionadas em diversos aspectos, indiscutvel o avano que tais

    normas promoveram em relao qualidade dos livros. Especificamente, no caso do

    livro de Cincias, foram mencionados problemas conceituais e metodolgicos graves,

    alm de desrespeito s diferentes etnias (grifo meu), gneros, classes sociais e descuido

    com a segurana e integridade fsica do aluno, entre outros. Os resultados das anlises

    realizadas por equipes de especialistas geraram a excluso de parcela significativa de

    ttulos da lista de compras pelo MEC. Os autores fundamentaram suas anlises na

    correo cientfica dos conceitos veiculados nos manuais didticos. Para dar suporte

    sua anlise, procederam a extensa reviso bibliogrfica em livros de referncia. O

    tratamento analtico dos problemas conceituais e metodolgicos consistiu de leitura

    rigorosa dos textos e observao meticulosa das ilustraes. Em relao correo

    cientfica foram analisadas a terminologia cientfica, preciso e atualizao conceitual.

    A anlise metodolgica procurou verificar a presena/ausncia de contedos relevantes

    e o tipo de abordagem realizada, incluindo a preocupao com a contextualizao, uso

    de idias alternativas, proporo entre texto e ilustrao. Ressaltam a diferena

    encontrada entre livro de volume nico e coleo de trs volumes: a anlise mostrou a

    omisso preponderante de conhecimentos relevantes em livros de ensino mdio de

    volume nico; neles o contedo apresentado de forma exageradamente sinttica. A

    escassez de informaes que caracteriza diversas publicaes pode ser potencialmente

    prejudicial ao trabalho de reflexo e anlise crtica preconizados pelo ensino

    comprometido com a cidadania. Os autores salientam que, embora alguns ttulos no

    tenham sido recomendados pelo PNLD, as escolas possuem ainda disposio de

  • 51

    alunos e professores, tanto livros antigos quanto as obras mais recentes. Nues40 (2001)

    apud Sandrin, Puorto e Nardi (ib.) afirma que nem todos os livros excludos pelo MEC

    deixaram de circular pelas escolas; muitos deles ainda so parte do acervo bibliogrfico

    das instituies de ensino. Por isso, os autores compuseram sua amostra de anlise

    orientando-se pelo critrio da disponibilidade dos mesmos nas bibliotecas de duas

    escolas estaduais da cidade de Bauru, SP.

    2.4 Livro didtico e conceitos de raas humanas e raas biolgicas

    Esta seo fundamentada nos textos de Willinsky (1998)41 Levy (2005), e

    Levy, Selles e Ferreira (2006) e abrange observaes sobre conceitos de raa em livros-

    texto recentes de Biologia de nvel mdio.

    Para ver como a raa vem sendo tratada no ensino mdio norte-americano e no

    canadense, Willinsky (1998) analisou quinze livros didticos de Biologia da dcada de

    1980. Foi constatado que o conceito de raa raramente aparece nesses livros-texto. Em

    apenas trs dos doze livros americanos e em nenhum dos livros canadenses ele

    encontrou referncias feitas raa42. Ele tem a opinio de que a negao tem sido, h

    muito, a resposta das escolas controvrsia, e o resultado que mentes jovens so

    freqentemente foradas a lidar com idias altamente contestveis de forma

    exclusivamente extracurricular. Neste caso, para o autor, a negao significa tanto uma

    oportunidade perdida de trabalhar o comprometimento intelectual nas implicaes

    sociais da cincia como uma falha em lidar com as experincias dos alunos, que

    convivem com questes raciais.

    Ele faz comentrios sobre os livros de Creager et al. (1986), de Mader (1988),

    mas nada fala sobre o do BSCS43 (1987). Sobre a primeira obra, Willinsky identifica

    contradies quando o livro afirma que o conceito de raa se tornou cada vez mais

    40 NUES, I. B. et al. O livro didtico para o ensino de cincias. Selecion-los: um desafio para os professores do ensino fundamental. In: III Encontro Nacional de Pesquisa em Educao em Cincias. 2001. Atibaia, SP. Atas... 1 CD-ROM. Associao Brasileira de Pesquisa em Educao em Cincias, Atibaia, 2001. 41 Willinsky tambm disserta sobre investigaes de conceitos de raa em livros universitrios de Biologia, de Antropologia Fsica, assim como sobre concepes de professores de nvel superior, mas suas concluses a esse respeito no so consideradas nesta dissertao. 42 Os trs livros que fazem referncia ao conceito de raa so: Creager, J. G. et al. Macmillan Biology. New York: Macmillan, 1986; Mader, S. S. Inquiry into Life. Dubuque: Brown, 1988, e BSCS Biological Sciences Curriculum Study. Biological science: An ecological approach. 6. ed. Dubuque, Iowa: Kendall Hunt, 1987 [o ttulo e a edio do livro do BSCS so mencionados na edio original, mas ausentes na edio brasileira]. 43 Tal omisso foi tambm verificada na edio original.

  • 52

    difuso nos ltimos milhares de anos ao mesmo tempo em que procura questionar a

    classificao racial, tentativa que neutralizada pelo grupo de quatro fotografias que

    representam, cada uma, uma famlia moderna, nas quais fica evidente a inteno de

    acondicionar diferentes tipos raciais. Ele conclui que as diferenas raciais

    apresentadas nas fotografias e a declarao inicial sobre o carter difuso das raas levam

    o estudante a ter dificuldade em responder questo ao final da seo que indaga por

    que a definio biolgica de raa baseada na freqncia gnica, e no na aparncia

    fsica. Sobre o manual didtico de Mader (1988), Willinsky ressalta que a autora no

    tem o desejo de velar o conceito de raa, pois utiliza fotografias de pessoas de tipo

    caucaside, australide, negride, indgena americano e oriental com legenda

    que reitera que todos os seres humanos pertencem mesma espcie, mas existem

    vrias raas44.

    Mesmo estando entre os trs livros que abordam o tema raa, Willinsky observa

    que, nesses dois volumosos livros, a questo da raa toma um espao mnimo.

    Assim, o autor conclui defendendo a idia de que os alunos precisam de uma melhor

    compreenso do papel da cincia na construo do conceito de raa. Cita alguns

    exemplos de educadores da cincia que se recusam a evitar ou obscurecer a questo

    racial, como um grupo de professores londrinos, na dcada de 1980, que assumiram a

    responsabilidade de no apenas ensinar cincias, mas de ensinar sobre o lugar que as

    cincias ocupam no atual sistema ideolgico e econmico, chamando a ateno dos

    estudantes para as causas e conseqncias polticas da adoo de conceitos cientficos

    tais como raa.

    Willinsky, ao comentar livros didticos de Biologia mais recentes (como Bullard

    et al., 199245), preconiza contedos curriculares sobre raa, tais como: histria do

    movimento eugnico incluindo suas origens no trabalho de Galton ; leis de

    esterilizao e antimiscigenao dos anos 1920 e 1930 nos Estados Unidos e Europa;

    surgimento da eugenia na Alemanha nazista misturada s idias de uma raa superior;

    informao explcita de que no existem raas puras; dvidas sobre qualquer

    determinao cientfica confivel de fronteiras raciais; e raa como um dos princpios

    organizadores do imperialismo. Para este autor, os alunos devem tratar raa como uma

    forma de trabalhar a natureza da disciplina e de suas implicaes sociais. Willinsky

    salienta que tudo que est nomeado e classificado um esforo para tornar evidente a

    44 Willinsky informa que a stima edio do texto de Mader (1994) elimina muito a discusso sobre raa. 45 BULLARD, J. et al. Science Probe nr. 10. Toronto: Wiley, 1992.

  • 53

    diferena, para organizar a realidade por meio da linguagem46. O autor reconhece que a

    compreenso do que a cincia fez ao conceituar raa pode ou deve colocar um fim na

    auto-identificao racial de quem quer que seja. Ele afirma que seu objetivo fornecer

    aos alunos um registro de como a cincia, trabalhando conjuntamente com outras foras

    sociais, nos leva a esse ponto do complexo e polissmico significado de raa. Willinsky

    finaliza afirmando que um currculo de cincias que obscurea a contribuio da

    disciplina ao significado de raa incompleto e irresponsvel.

    Em sua monografia de graduao, Levy (2005) analisou o conceito de raa

    humana em seis livros didticos de curso mdio e em oito livros de ensino fundamental.

    A autora relata que somente um dentre os oito livros-texto de cincias abordava o

    conceito; os outros livros evitavam tocar no assunto raa. Na maioria dos livros de

    ensino mdio, de alguma maneira, o conceito estava presente, embora os autores

    tivessem tratado o tema de maneira evasiva e no questionadora (LEVY, ib., p. 62).

    Levy, Selles e Ferreira (2006) investigaram como o conceito de raa humana

    encontra-se expresso em livros escolares de Biologia. Com esta pesquisa, procuraram

    entender como os saberes escolares materializam as tenses envolvidas nas decises

    curriculares sobre quais conhecimentos e valores ensinar na disciplina Biologia. As

    autoras analisaram seis livros didticos de Biologia para o ensino mdio, publicados

    entre os anos de 1997 e 2003. Para pesquisar o carter tensionado do conceito de raa

    humana nos livros-texto, empregaram categorias analticas que focalizaram: (i) a

    ambigidade na abordagem do tema, com nfase em aspectos biolgicos ou culturais,

    (ii) o carter ideolgico e histrico dessa abordagem. Na primeira categoria analtica,

    consideraram: como o conceito de raa humana definido, se ocorrem tipologias

    raciais, se a noo de grupo tnico considerada como sinnimo de raa humana. Na

    segunda categoria, observaram: como os aspectos scio-histricos relativos construo

    do conceito de raa humana so apresentados, o papel da cincia e dos cientistas nessa

    construo, a abordagem acerca do imperialismo e do determinismo biolgico. Do

    corpus analisado, cinco livros tratam explicitamente do tema raa no texto principal, nas

    ilustraes, nas leituras complementares e nos exerccios. A exceo um livro47 que,

    embora aborde aspectos relacionados ao conceito de raa, opta pela omisso de

    temticas que envolvem a espcie humana. Um dos livros investigados Soares (1997)

    associa o conceito de gene pool a traos morfolgicos humanos, o que, segundo as

    46 Cf. seo 2.1 desta dissertao O conceito de raa em obras de referncia. 47 LOPES, Snia. Bio Volume nico. So Paulo: Saraiva, 2000.

  • 54

    autoras, refora, junto aos estudantes do Ensino Mdio, a idia de que o conceito de raa

    humana possui fundamentos biolgicos que justificam sua insero no currculo escolar.

    Justaposta a esse texto de gene pool, Soares apresenta uma ilustrao, que evidencia

    uma viso tipolgica de raas humanas, composta de trs fotografias: a primeira de

    uma pessoa de raa negra, a segunda, de uma pessoa de raa branca, a ltima, de

    uma pessoa da raa amarela ou monglica. A ilustrao acompanhada de uma

    legenda na qual a expresso grupos tnicos humanos empregada como sinnimo de

    raas humanas. Levy, Selles e Ferreira (ibid.) identificaram em Soares (1997) outra

    representao tipolgica de raas composta de quatro fotografias de pessoas de

    fisionomia negra, morena, ndia e ruiva igualmente acompanhada de legenda

    com a expresso grupos tnicos correspondendo a raas humanas, mas neste caso, a

    legenda adiciona o conceito de miscigenao, que vem modificando os grupos tnicos

    e impedindo o desmembramento da espcie humana em diversas outras. Para as autoras,

    o emprego da expresso grupos tnicos pode ser entendida como um eufemismo que

    suaviza a abordagem e retira do contexto a questo racial. Dentre outras observaes e

    concluses, as autoras ressaltam que, nos livros analisados, os autores tangenciam as

    questes que focalizam o papel da cincia na construo do conceito de raa humana.

    Apenas dois livros assumem mais criticamente as articulaes entre conhecimento

    cientfico e diferenciao econmica e social dos indivduos baseada em distines

    biolgicas hereditrias, mas, ainda assim, o fazem em leituras complementares

    intertextos ainda que de forma defensiva. Levy, Selles e Ferreira concluem que os

    livros didticos expressam tenses ao selecionarem conhecimentos de Biologia,

    Histria, Antropologia, Sociologia e Geografia. Ao abordarem conhecimentos que se

    encontram enraizados em campos disciplinares com diferentes tradies metodolgicas

    scio-crticas, os livros didticos de Biologia parecem ter dificuldade em abandonar

    suas prprias tradies metodolgicas de ensino, marcadamente com menor teor crtico.

    Esta pode ser uma forma de entender porque silenciam o debate sobre raas humanas,

    formatando os contedos curriculares dentro dos limites da neutralidade.

  • 55

    3 Procedimentos metodolgicos

    A seguir, passo a explanar escolhas que fiz em relao ao corpus de livros

    investigados e s metodologias de anlise utilizadas nesta pesquisa. As decises

    metodolgicas foram ponderadas em relao reviso bibliogrfica.

    3.1 Definio da amostra

    O Catlogo do PNLEM Programa Nacional do Livro para o Ensino Mdio ,

    referente Biologia, foi divulgado pelo MEC, em 2006, para orientar a compra de

    exemplares para o ano seguinte. Justifico a escolha dos livros recomendados pelo

    PNLEM para fazerem parte do corpus de minha pesquisa porque milhares de

    exemplares dos mesmos foram adquiridos com verba do estado para serem distribudos

    em instituies pblicas de ensino. Jos Lus Soares48 um autor tradicional de livros

    de Biologia que teve seus ttulos excludos da lista de recomendao do MEC. Esse

    autor teve uma presena marcante na histria nos livros didticos de Biologia e de

    Cincias para o ensino fundamental; seus numerosos ttulos tiveram vrias edies,

    alm dele ter escrito vrios livros paradidticos e um dicionrio de Biologia. Ainda que

    os livros desse autor no tenham sido indicados pelo PNLEM 2007, um ttulo foi

    includo na anlise. Vrias edies dos livros de Soares tambm foram objeto de anlise

    48 SOARES, Jos Luis (1934 2001), Mdico, bilogo e professor, notabilizou-se por mais de vinte anos como escritor de livros didticos de Cincias e Biologia no Brasil. [dados biogrficos fornecidos pela editora Scipione, via email].

  • 56

    por Reznik (1995), Stelling (1996), Sandrin, Puorto e Nardi (2005) e por Levy, Selles e

    Ferreira (2006).

    Embora Ferreira e Selles (2003) preconizem a pesquisa de livros didticos nos

    contextos de sua produo, como elemento no estudo da histria do currculo49

    (caracterizando investigao de transposio didtica externa, tal como o trabalho de

    Skoog, 2005), por motivo de tempo de execuo desta dissertao, limitei o corpus de

    pesquisa a livros recomendados pelo PNLEM 2007, adicionando um ttulo de Soares,

    como justificado acima. Por conseqncia, no analisei as sucessivas edies de um

    mesmo livro, procedimento mencionado por Gonzles e Sierra (2004). O corpus de

    livros sendo composto pelos ttulos do PNLEM tambm foi um critrio adotado por

    Nascimento e Martins (2005). Embora haja diferenas da profundidade e extenso do

    contedo veiculado em livros de volume nico (com um contedo condensado em um

    nmero limitado de pginas) e as colees de trs volumes, conforme apontam Sandrin,

    Puorto e Nardi (2005), minha pesquisa valeu-se de livros recomendados pelo PNLEM,

    de modo que foi realizada a anlise da coleo em trs volumes de Amabis e Martho,

    embora haja no mercado um ttulo de volume nico desses autores.

    Por motivos de tempo de execuo da pesquisa, o corpus foi limitado a 7

    ttulos50, que foram escolhidos por terem sido disponibilizados pelas editoras:

    Adolfo, Crozetta e Lago (2005); Laurence (2005); Linhares e Gewandsznajder

    (2005); Lopes e Rosso (2005); Amabis e Martho (2004); Frota-Pessoa (2005) e Soares

    (1997).

    3.2 Metodologia de anlise

    A pesquisa priorizou a anlise de contedo dos livros, considerada como um

    estudo de transposio didtica interna (Clment et al. 2005). Assim como procederam

    Sandrin, Puorto e Nardi (2005) e Clment et al. (2005), foi realizada a comparao do

    contedo dos livros didticos com os principais textos de referncia cientfica. Tal como

    Skoog (2005), procurei identificar passagens textuais que caracterizam o tema

    pesquisado coletando dados nos ndices, sumrios e glossrios dos livros. Igualmente ao

    49 Reznik (1995) tambm pesquisou histria do currculo ao analisar a evoluo do conceito de gene ao longo do sculo 20 em livros didticos de Biologia de nvel mdio. 50 O PNLEM 2007 recomendou 9 ttulos. Os 3 livros no analisados foram: FAVARETTO, J. A. e MERCADANTE, C. Biologia. So Paulo: Moderna, 2005; PAULINO, W. R. Biologia. So Paulo: tica, 2005; SILVA Jr., C. da e SASSON, S. Biologia. 8. ed. So Paulo: Saraiva, 2005.

  • 57

    mtodo de Clment et al. (2005), foram analisados ttulos, subttulos, sumrios,

    palavras-chave, redundncia e/ou freqncia de texto e/ou imagens, referncias para

    leituras adicionais, legendas de imagens, e quanto o conhecimento cientfico, transposto

    didaticamente, faz referncia a tpicos ligados sociedade em geral, fortemente ligados

    a disputas sociais e/ou a sentimentos pessoais, como educao em sade, evoluo

    humana, a questo racial e o determinismo biolgico. A anlise de material imagtico e

    no verbal foi realizada como recomenda o trabalho de Nascimento e Martins (2005).

    Realizei a coleta de dados por meio de um modo sistematizado de varredura em

    certos locais determinados, definidos pela estrutura dos livros (volumes, unidades,

    captulos, anexos, etc) e pela distribuio do contedo curricular. Por atuar

    ininterruptamente, desde 1988, em turmas de ensino mdio, tenho experincia

    profissional que me possibilita fazer certas escolhas de recorte quanto ao procedimento

    de leitura e anlise do material emprico. Pelo conhecimento acumulado no uso de

    vrios ttulos didticos, constato que h uma maneira tradicional de distribuio dos

    assuntos nos livros (geralmente, na seguinte seqncia: Biologia celular, Histologia,

    Embriologia, Os Seres Vivos, Gentica, Evoluo, Ecologia). Assim, mesmo antes de

    lidar com o material emprico, j me ocorria uma previso do modo como os livros

    desenvolvem o currculo de Biologia. Existem certos tpicos nos quais mnima a

    probabilidade de ocorrer o conceito de raa, tais como: fotossntese, digesto humana,

    fecundao dos gametas vegetais, estudo de certos grupos animais (as guas-vivas,

    corais, etc), diviso celular (mitose e meiose), etc. Outros tpicos tm uma alta

    probabilidade de se encontrar o assunto investigado, como: classificao dos seres

    vivos, gentica de populaes, gentica humana, evoluo biolgica, formao de

    espcies, etc. que se localizam, em geral, no volume sobre Gentica, Evoluo e

    Ecologia. Esse meu prvio saber docente me possibilitou proceder da seguinte maneira:

    ao considerar a subdiviso dos livros e ao avaliar a probabilidade da ocorrncia (ou no)

    dos termos raa e correlatos, defini as seguintes aes:

    1 no leitura do tpico.

    2 leitura dos ttulos das sees e subsees.

    3 leitura em diagonal (varredura rpida procura de palavras relacionadas ao tema

    pesquisado) do tpico.

    4 leitura integral do tpico.

    5 leitura do ndice remissivo.

  • 58

    Como a anlise dos livros foi seqencial, a cada livro examinado, revi as

    categorias de tpicos e de locais de ocorrncia, com o objetivo de atualizar os critrios

    de estabelecimento dessas categorias. A busca de dados empricos foi realizada por

    meio destas aes:

    1 Toda vez que se identificava um local de ocorrncia (dos elementos textuais),

    foi examinado o conjunto de exerccios, atividades e projetos do captulo respectivo. Ao

    final da varredura sistemtica do livro-texto, foram consultados o glossrio e o ndice

    remissivo (quando presentes) para procurar palavras e expresses relacionadas ao

    conceito de raa, as quais, se encontradas, remeteram-me a outras pginas; nesse

    processo, novamente, foi realizada uma conferncia. Deste modo, foi realizado um

    cruzamento de informaes que, ciclicamente, realimentava e reavaliava a coleta de

    dados empricos e sua interpretao.

    2 A numerao das categorias de local foi efetuada medida que estas iam

    aparecendo nos livros analisados.

    3 Nas colees de trs volumes, a coleta de dados por varredura sistemtica foi

    realizada no livro que desenvolvia currculo relacionado a Gentica e Evoluo.

    Do processo de ordenao e comparao dos dados empricos, foram construdas

    categorias de anlise que exprimem onde e como o conceito investigado aparece nos

    livros. Inicialmente, a construo das categorias foi realizada a partir da anlise dos

    livros didticos de Amabis e Martho (2004) e de Frota-Pessoa (2005). O conjunto das

    categorias foi submetido anlise crtica de dois pares (professores de Biologia, alunos

    do Curso de Mestrado e de Doutorado em Educao da UFF), da professora orientadora

    e de uma professora da rea de Cincias, Sociedade e Educao do programa de Ps-

    Graduao em Educao da UFF. medida que se aplicavam as categorias prvias nos

    outros elementos do corpus, estas eram reavaliadas e ajustadas em suas caractersticas

    descritivas; estas aes se estenderam at o final do processo, quando as categorias se

    estabilizaram.

    O cotejo entre os meus dados empricos com as informaes do catlogo do

    PNLEM 2007 foi realizado aps as anlises qualitativas e quantitativas terem sido

    concludas, ou seja, as anlises do referido catlogo do MEC no interferiram nas etapas

    de coleta de dados, elaborao de categorias e nas anlises por mim realizadas.

  • 59

    4 Resultados e discusso

    Todas as ocorrncias, identificadas ao longo do processo de varredura

    sistemtica dos livros, esto registradas em tabelas na seo Apndices. Os resultados

    mais relevantes so classificados em categorias analticas e discutidos nas subsees

    dedicadas a cada livro didtico, a comear pelos livros de volume nico, seguidos dos

    livros em trs volumes.

    4.1 As categorias

    A heterogeneidade de abordagens dos conceitos de raa humana e seus

    entrelaamentos com conceitos de raas animais e variedades vegetais pode ser

    visualizada pela diviso dos dados empricos dos livros-texto nas seguintes categorias

    de raas biolgicas e raas humanas:

    - Categoria Fentipos e Biodiversidade humana [FB]

    Grande variabilidade e riqueza de fentipos humanos, resultado das inmeras

    combinaes de caractersticas genticas encontradas nas diversas populaes e nos

    indivduos. Tais caracteres e fentipos no so utilizados como critrio para a

    determinao de raas humanas.

  • 60

    Exemplos:

    Observe, no quadro de Tarsila do Amaral, a biodiversidade de nossa espcie: diferenas como cor dos olhos, cor da pele, bico-de-viva, espessura das sobrancelhas e superando todas as outras o sexo. [legenda que comenta a reproduo da pintura Operrios da referida artista] (FROTA-PESSOA, 2005, p. 8).

    O modelo mais simples para explicar a herana da cor da pele na espcie humana classifica as pessoas em cinco fentipos bsicos: negro, mulato-escuro, mulato-mdio, mulato-claro e branco. Essas cinco classes fenotpicas seriam controladas por dois genes, cada um com dois alelos (Aa e Bb). (AMABIS e MARTHO, 2004, p. 84).

    - Categorias Taxonomia e Classificao

    Diviso dos organismos (seres humanos includos) em espcies e subespcies,

    segundo referenciais tericos de classificao biolgica. Os termos linhagem51,

    variedade e raa entrelaam-se com os conceitos de espcie e subespcie. Estas

    categorias so as seguintes:

    [TC1] Raas de animais e variedades vegetais definidas como subespcies naturais ou

    artificiais consistindo de populaes isoladas geograficamente ou por outra barreira

    (reprodutiva, etc). Nomenclatura trinomial de subespcie (incluindo as subespcies

    humanas).

    Exemplos:

    [...] Frangos hbridos desenvolvem-se mais depressa que as raas puras52. (FROTA-PESSOA, 2005, p. 120).

    [...] Mendel isolou 22 variedades de ervilhas, que originavam linhagens puras, ou seja, produziam descendncia homognea ao longo de muitas geraes analisadas. (LAURENCE, 2005, p. 595).

    [...] todos os indivduos da espcie humana so biologicamente muito semelhantes e pertencem a uma nica raa: Homo sapiens sapiens [...] (ADOLFO, CROZETTA e LAGO, 2005, p. 299).

    51 No considerei o termo linhagem nas expresses relacionadas evoluo: linhagem humana, linhagens de gorilas e chimpanzs, linhagens de mamferos monotremados, marsupiais e placentrios. 52 No considerei o adjetivo puro caso ocorresse isolado. Ex.: Como resultado do cruzamento entre plantas puras de ervilhas [...] e A gerao F1, portanto, no pura [...] (LAURENCE, 2005, p. 597)

  • 61

    [TC2] Diversidade de fentipos usada como critrio para definir ou descrever raas

    humanas, considerando uma taxonomia ou classificao racial. Reconhecimento de

    grupos raciais ou tnicos segundo critrios arbitrrios. Representao tipolgica das

    raas humanas.

    Exemplos:

    Olhos oblquos (como na raa amarela) so um carter dominante. Olhos no oblquos (como na raa branca) so um carter recessivo. (FROTA-PESSOA, 2005, p. 80).

    Os recm-nascidos de etnia caucasiana apresentam sempre olhos claros, que podem se tornar progressivamente mais escuros medida que os melancitos da ris produzem melanina. Os recm-nascidos latinos e de etnias negride e asitica j apresentam olhos escuros ao nascer. (AMABIS e MARTHO, 2004, p. 88).

    [TC3] Declarao expressa da no existncia de raas humanas por motivo de nfima

    diferena gentica, inclusive entre indivduos de grupos tnicos diferentes;

    argumentos e discusso sobre a impreciso, arbitrariedade e ambigidade do conceito de

    raa humana.

    Exemplo:

    No caso da espcie humana, a diferena gentica entre as populaes muito pequena.Entre duas pessoas escolhidas ao acaso, a diferena entre seus genes de apenas 0,2%, independentemente da origem geogrfica ou tnica. Como dizem os evolucionistas John Tooby e Leda Cosmides: [...] a diferena gentica mdia entre um fazendeiro peruano e seu vizinho ou entre um aldeo suo e seu vizinho pode ser 12 vezes maior que a diferena entre o gentipo mdio da populao sua e o da populao peruana. [...] Do ponto de vista biolgico, no faz sentido falar em raas, uma vez que no houve entre os indivduos da espcie humana atual isolamento geogrfico por tempo suficiente para formar raas ou subespcies. (LINHARES e GEWANDSZNAJDER, 2005, p. 447).

    - Categorias Processo Evolutivo

    nfase nos processos evolutivos como mecanismos que modificam, no tempo e

    no espao, populaes atuais ou de espcies fsseis (como Homo neanderthalensis e

    Homo floriensis), entrelaando tais processos com os conceitos de raas humanas,

    raas de animais e variedades de plantas. Estas categorias so as seguintes:

  • 62

    [PE1] Raas de animais e variedades vegetais (subespcies) originadas por meio de

    seleo artificial, transgenia, ou por meio de fatores evolutivos (mutao, recombinao

    gnica, seleo natural, influncia do clima e ambiente, isolamento geogrfico).

    Gentica de populaes destas raas e variedades.

    Exemplo:

    Em um concurso de ces, duas caractersticas so condicionadas por genes dominantes [...] Um criador, desejando participar do concurso, cruzou um macho e uma fmea, ambos heterozigotos para dois genes, obtendo uma descendncia com todos os gentipos possveis. (LAURENCE, 2005, p. 627).

    [PE2] Concepes sobre a origem das raas humanas por meio de fatores evolutivos

    (mutao, recombinao gnica, seleo natural, influncia do clima e ambiente,

    isolamento geogrfico).

    Exemplo:

    Suponhamos, agora, que, vencendo certas barreiras naturais, como rios ou montanhas, um grupo de indivduos [humanos] tenha conseguido colonizar uma zona limtrofe, de clima diferente.

    A seleo natural entrou em ao, alterando a distribuio das freqncias gnicas. Alelos que eram inferiores no antigo ambiente puderam mostrar utilidade e aumentaram de freqncia. Novas mutaes e combinaes de alelos, trabalhadas pela seleo natural, foram tornando a populao cada vez mais adaptada ao novo ambiente e mais diferente da populao da qual se separou. Formaram-se, assim, duas raas, com caractersticas genticas um tanto diferentes. (FROTA-PESSOA, 2005, p. 155 e 156).

    [PE3] Migrao, miscigenao, deriva gnica e efeito do fundador em populaes

    humanas. Anlise genmica de ancestralidade (DNA nuclear e DNA mitocondrial) de

    indivduos e populaes, sem relacion-la a raas humanas.

    Exemplo:

    [...] Construram um barco e se foram, 100 deles, entre homens e mulheres, para nunca mais voltar. Havia apenas um emigrante de olhos azuis53 (aa), os outros 99 tinham olhos negros e eram homozigotos AA. [...] Por acaso, a nica pessoa de olhos azuis que emigrou no teve filhos, de modo que a freqncia do alelo a tornou-se zero e assim permaneceu mesmo depois de inmeras geraes. (FROTA-PESSOA, 2005, p.148).

    53 O autor incorre em erro, pois cor de olhos herana polignica, e aqui considerada como monognica.

  • 63

    - Categoria Antropologia Cultural [AC]

    Antropologia cultural versus concepes biolgicas de raas humanas: os grupos

    tnicos (culturais) como contraponto s idias de raas (antropologia fsica).

    Exemplos:

    Na espcie humana, duas populaes no so consideradas raas diferentes s porque falam lnguas diferentes ou hbitos, culturas, crenas ou rituais diversos. S so raas populaes da mesma espcie que diferem nas freqncias de seus genes. [...] Chamamos de etnias ou grupos tnicos duas populaes que diferem culturalmente, tenham ou no a mesma composio gentica. imprprio, embora comum, usar esses termos como sinnimos de raas. (FROTA-PESSOA, 2005, p. 153).

    Etnia grupo de populao que difere gentica (sic) e culturalmente de outro. Esse termo pode ser impropriamente usado como sinnimo de raa. (FROTA-PESSOA, 2005, p. 273).

    - Categorias Ideologia e Histria

    Aspectos ideolgicos, histricos, polticos e sociais e as raas humanas.

    Concepes sobre desigualdade entre raas humanas. Estas categorias so as

    seguintes:

    [IH1] Racismo, preconceito, discriminao, escravido e dio racial. Suposta existncia

    de raas superiores e inferiores desigualdade das raas humanas. Darwinismo

    social, determinismo biolgico, imperialismo.

    Exemplos:

    [...] No sculo 19, a moral, tanto dos costumes como da lei, aceitava a escravido, o racismo, a discriminao sexual. Entretanto, as ideologias libertrias incendiaram o povo, a partir da Revoluo Francesa, e prepararam o caminho para a abolio da escravatura, o sufrgio universal, a revoluo sexual, o divrcio, as leis anti-racistas, o respeito s minorias e as delegacias da mulher.[...] (FROTA-PESSOA, 2005, p. 101).

    [...] Certos esteretipos a atitudes tradicionais no Brasil indicam menosprezo pelo negro e pelo mulato. So tambm conhecidas as barreiras que se opem ascenso social das pessoas de cor, descendentes dos escravos. A discriminao crescente em centros como So Paulo e Rio de Janeiro fez com que o Congresso Nacional

  • 64

    votasse uma lei que tornou a discriminao racial criminosa. (WAGLEY54, 1952 apud FROTA-PESSOA, 2005, p. 166).

    No sculo XX, a deturpao do darwinismo culminou com a idia, defendida por alguns, de que entre os seres humanos existiam raas superiores e inferiores. A aplicao das idias de Darwin na sociedade humana ficou conhecida como darwinismo social. (LAURENCE, 2005, p. 535).

    [IH2] Idias de eugenia quanto espcie humana e suas raas, melhoramento da

    espcie humana por controle e manipulao de populaes, concepes de pureza

    racial, nazismo.

    Exemplos:

    Se nossa espcie fosse submetida a uma seleo artificial rigorosa, o que eticamente inadmissvel, seriam formadas raas puras, com indivduos muito parecidos. Mas a seleo natural s consegue formar raas homogneas quanto a poucos alelos, e no impede que, quanto aos demais, a diversidade seja quase to grande dentro de uma raa quanto entre elas. Por isso, no existem, nem nunca existiram, raas humanas puras. Na espcie humana, existem raas naturais, mas no raas puras. (FROTA-PESSOA, 2005, p. 155).

    A idia de raa pura no apenas absurda, em relao espcie humana, como indesejvel [...]. (LINHARES e GEWANDSZNAJDER, 2005, p. 447).

    [IH3] O mito da democracia racial brasileira; aes afirmativas e poltica de cotas

    raciais, movimentos histricos e polticos de identidade racial e de igualdade

    racial55.

    Exemplo:

    O Brasil famoso no mundo por sua democracia racial. Atravs de sua enorme rea de meio continente, o preconceito e a discriminao raciais so tnues comparados com a situao em muitos outros pases. Trs estoques raciais o ndio americano, o negro e o caucasise europeu misturaram-se e cruzaram-se no Brasil para formar uma sociedade em que as tenses e conflitos raciais so especialmente brandos, a despeito da grande variabilidade racial da populao. [...] No obstante, a maioria dos brasileiros sente-se orgulhosa de sua tradio de igualdade racial e da heterogeneidade racial de seu povo. [...] (WAGLEY56, 1952 apud FROTA-PESSOA, 2006, p. 166).

    54 WAGLEY, C. na introduo de Race and class in rural Brazil. Paris: UNESCO, 1952. 55 Esta categoria foi criada a partir do cenrio sociopoltico recente nacional, para abarcar suas possveis referncias na interdisciplinaridade (preconizada pelos PCN) entre os currculos de Biologia e de Cincias Sociais. 56 op. cit.

  • 65

    4.2 Os livros

    O corpus analisado compe-se de livros recomendados pelo Programa Nacional

    do Livro para o Ensino Mdio do MEC de 2007: Adolfo, Crozetta e Lago, IBEP, 2005;

    Laurence, Nova Gerao, 2005; Linhares e Gewandsznajder, tica, 2005; Lopes e

    Rosso, Saraiva, 2005; Amabis e Martho, Moderna, 2004; Frota-Pessoa, Scipione, 2005

    e de um livro de Soares, Scipione, 1997, perfazendo um total de sete ttulos.

    Primeiramente, so apresentados os resultados qualitativos, a comear pelos livros de

    volume nico e seguidos pelas colees de trs volumes. Aps, seguem-se as anlises

    quantitativas. Por fim, as anlises so cotejadas com as avaliaes do catlogo do

    PNLEM 2007.

    4.2.1 Anlise qualitativa

    4.2.1.1 Biologia: volume nico Adolfo, Crozetta e Lago (2005).

    O livro no relaciona os fentipos da pele humana e da cor dos olhos

    existncia de raas, o que caracteriza a categoria FB. Exemplos disso so os excertos e

    as tabelas da p. 282, reproduzidas a seguir:

    Vejamos alguns exemplos [de herana quantitativa]: a cor da pele e a cor dos olhos (determinada pela quantidade do pigmento melanina), a estatura, o peso e o grau de inteligncia [sic] na espcie humana; a produo de leite pelas vacas [...] (ADOLFO, CROZETTA e LAGO, 2005, p. 282).

  • 66

    Quando esto presentes os quatro genes que contribuem para a produo de pigmentos, a cor manifestada o negro; quando esto presentes trs genes, o fentipo mulato escuro; quando esto presentes dois, o fentipo mulato mdio; quando est presente apenas um desses genes, o fentipo mulato claro e, finalmente, quando no h esses genes [dominantes], o fentipo branco. (ADOLFO, CROZETTA e LAGO, 2005, ib.).

    Para exemplificar, vamos supor o cruzamento entre indivduos mulatos mdios, ambos heterozigotos para os dois pares de genes. [...] (ADOLFO, CROZETTA e LAGO, 2005, ib.).

    O termo variedade, com o significado de descendncia modificada de uma

    populao, mencionado na parte histrica do captulo sobre teorias evolutivas, o que

    caracteriza a categoria TC1: [...] Alfred Russel Wallace (1823-1913), em seu ensaio

    intitulado A tendncia das variedades de se afastarem indefinidamente do tipo

    original, chegou s mesmas concluses que Darwin. (ADOLFO, CROZETTA e

    LAGO, 2005, p. 288).

    Os autores tambm empregam o termo variedade para denominar populaes

    com diferentes freqncias gnicas resultantes de seleo natural (categoria TC1). O

    exemplo utilizado o melanismo industrial na mariposa Biston betularia, na legenda de

    duas fotos dessa espcie: Inicialmente, a variedade cinza-clara de mariposas conseguia

    sobreviver ao dos predadores. Com a industrializao, ela tornou-se um alvo mais

    fcil para a ao dos predadores. (ADOLFO, CROZETTA e LAGO, 2005, p. 292).

  • 67

    Causa um estranhamento a colagem de fotos que se situa abaixo do ttulo do

    captulo 2:

    (ADOLFO, CROZETTA e LAGO, 2005, p. 293).

    As pessoas retratadas parecem pertencer a grupos populacionais distintos e no

    so identificadas as suas origens ou localizaes geogrficas. Como o ttulo do captulo

    Especiao, o leitor pode ser levado a pensar que os diferentes indivduos das fotos

    ilustram os processos de especiao e raciao na espcie humana, o que caracteriza a

    categoria PE2. O texto situado abaixo das fotos confirma a possvel relao entre as

    fotos e tais conceitos (categoria PE1):

    A formao de novas espcies um processo fundamental dentro da evoluo, sendo que esse processo consiste em etapas gradativas, decorrentes de contnuas modificaes na estrutura gentica e de alteraes no ambiente. Essa soma de modificaes, ao longo do tempo, resulta em uma populao to diferente da original que pode ser considerada uma nova espcie. (ADOLFO, CROZETTA e LAGO, 2005, p. 293).

    Ainda na mesma pgina, os autores ressaltam o isolamento geogrfico como um

    fator no mecanismo da especiao, mencionando a formao de raas. Esta informao

    pode levar o aluno a realizar uma relao entre o isolamento geogrfico com os tipos

    humanos representados na colagem de fotos mencionada acima:

    O primeiro passo para a formao de uma nova espcie o isolamento geogrfico de uma populao. [...] O acmulo dessas mutaes e a ao da seleo natural, agindo de maneira diferente

  • 68

    em populaes agora distintas, levam ao processo de raciao, ou seja, formao de novas raas (subespcies) As raas so populaes naturais da mesma espcie que diferem em determinadas caractersticas e esto adaptadas a ambientes diferentes. O acmulo gradativo de novas mutaes levam os organismos de raas distintas a evolurem para diferenas cada vez mais marcantes, no s morfologicamente mas, tambm, em nvel cromossmico, fisiolgico e at comportamental, levando essas raas ao isolamento reprodutivo. Mesmo que o isolamento geogrfico desaparea e elas venham a se encontrar existem tantas diferenas que mesmo sendo possvel o cruzamento, os descendentes so abortados ou ento so estreis, estabelecendo a a formao de novas espcies ou especiao. (ADOLFO, CROZETTA e LAGO, 2005, p. 293).

    Uma ilustrao, com o emprego do termo raa nas legendas, esquematiza os

    mecanismos de isolamento geogrfico e reprodutivo:

    (ADOLFO, CROZETTA e LAGO, 2005, p. 293).

  • 69

    Os autores reiteram o conceito de raa geogrfica relacionado especiao

    quando o texto explica a ilustrao:

    [...] Com o passar do tempo, o estoque de genes (pool gnico) vai se alterando, de maneira a estabelecer certas divergncias genticas entre as duas populaes (B e C). A acentuao dessas divergncias determina a formao de raas geogrficas e posteriormente novas espcies. (ADOLFO, CROZETTA e LAGO, 2005, p. 294).

    Observamos um relevante contraste no modo com que os autores tratam o tema

    raa ao compararmos o grupo de fotos da p. 293 com o seguinte exerccio, que se

    caracteriza pelas categorias TC3, IH1 e IH2:

    Racismo injustificado Os estudos de Biologia Molecular nos provam que no

    existem raas ou subespcies diferentes entre os seres humanos. Isso significa que todos os indivduos da espcie humana so biologicamente muito semelhantes e pertencem a uma nica raa:

    Na verdade, podemos observar apenas pequenas variaes, que no justificam nenhum tipo de discriminao ou de superioridade dentro da nossa raa. Historicamente, as desigualdades raciais surgiram por razes econmicas, quando se achou conveniente escravizar e desmoralizar as pessoas por apresentarem certos traos genticos, como o tipo de cabelo, a cor dos olhos ou a tonalidade da pele.

    Para refletir, elaborar um texto e discutir. Com base no exposto acima e utilizando os seus

    conhecimentos cotidianos, elabore um texto que responda s seguintes questes:

    . Que fatos histricos marcam a discriminao racial na espcie humana?

    . Qual sua opinio pessoal sobre o racismo que existe nos dias de hoje?

    . Como a cincia foi usada ao longo da histria para justificar as prticas de discriminao e do aprimoramento racial (eugenia humana)?

    No se esquea de dar um ttulo ao seu texto e pedir a ajuda de seus professores de Histria, Geografia, Filosofia e Biologia.

    Uma boa sugesto assistir o filme GATTACA a experincia gentica. (itlico no original)

    Aps a produo dos textos, sugerimos um debate, mediado pelo professor. (ADOLFO, CROZETTA e LAGO, 2005, p. 299).

  • 70

    Neste exerccio, os autores consideram que a populao humana atual no se

    divide em vrias raas (categoria TC3); ao invs, seus indivduos pertencem a uma s

    raa denominada Homo sapiens sapiens (categoria TC1). Esta informao pode

    confundir o aluno, porque no texto h uma relao direta entre os termos raa e

    subespcie. Em contrapartida, neste exerccio, identificamos uma ocorrncia de FB, seis

    ocorrncias de IH1 e uma de IH2. Na minha opinio, a relevncia da presena destas

    categorias pode ser atenuada porque elas no ocorrem no texto principal, e sim num

    exerccio, que pode passar despercebido pelo professor e seus alunos.

    O livro incorre em uma contradio ao apresentar as categorias TC2 e TC3

    simultaneamente, e ao considerar uma nica raa humana (categoria TC1). No h

    meno s caractersticas tnico-culturais (categoria AC). Ressalta-se a freqncia da

    categoria IH1 (assim como de uma referncia eugenia, categoria IH2), o que torna o

    livro relevante para o desenvolvimento curricular relativo a racismo, preconceito racial

    e demais temas de carter ideolgico e histrico.

    4.2.1.2 Biologia: ensino mdio, volume nico Laurence (2005).

    O autor, valendo-se do recurso do intertexto, usa um artigo de Costa e

    Massarani57 (1997) que menciona fentipos referentes presena de plos no corpo

    que caracterizam determinados grupos populacionais: [...] fatores raciais tambm so

    importantes: os indgenas quase no tm plos; j os rabes so muito peludos.

    (LAURENCE, 2005, p. 216). Nota-se uma discrepncia do autor em escolher um texto

    no qual a expresso fatores raciais est presente (categoria TC2), diferentemente do

    que ocorre nas demais pginas do livro.

    As informaes do quadro Darwinismo social so relevantes para

    desenvolvimento de currculo interdisciplinar com as Cincias Sociais. Distingue-se

    nesse excerto a categoria IH1, o que ressalta este livro como uma obra apropriada para a

    discusso dos problemas histrico-polticos relacionados s teorias evolucionistas e ao

    racismo cientfico:

    57 COSTA, R. O. e MASSARANI, L. Pele, unha e cabelo. Cincia Hoje na escola O corpo humano, SPBC, 1997.

  • 71

    (LAURENCE, 2005, p. 535).

    Laurence apresenta uma foto, que sugere um casal e seus filhos, na qual cada

    pessoa apresenta um fentipo diferente de cor de pele O autor no faz referncia a tipos

    raciais ou tnicos no texto principal nem na legenda da foto. O autor usa os termos

    branco, negro e mulato para denominar fentipos, igualmente, sem relacion-los a

    grupos raciais ou tnicos. Nota-se o cuidado do autor ao se referir aos indivduos de pele

    branca [e no raa branca]:

  • 72

    (LAURENCE, 2005, p. 631).

    [...] como o caso da cor da pele humana, em que os fentipos variam de forma contnua do branco ao negro. [...]

    Recorrendo s iniciais das palavras negro e branco, vamos representar esses genes pelas letras N e B, onde as letras maisculas representam os alelos efetivos [...]

    O fentipo negro puro e condicionado pelo gentipo NNBB, homozigoto constitudo somente pelos alelos efetivos. Cada um desses alelos contribui igualmente para a sntese de pigmentos, de maneira que a cor da pele ser o resultado da soma da ao desses alelos (efeito cumulativo).

    O fentipo branco tambm puro, porm condicionado pelo gentipo nnbb, constitudo pelos alelos no-efetivos. Os indivduos de pele branca possuem pigmentos na pele, mas em pequena quantidade em relao aos demais fentipos para a cor da pele, pois esses alelos determinam uma sntese pequena de pigmentos.

    Os fentipos intermedirios entre o negro e o branco so representados pelos mulatos, que podem ser escuros, mdios e claros. (LAURENCE, 2005, p. 631 e 632).

    Segue-se o tradicional quadro de fentipos e gentipos relativos cor da pele

    humana:

  • 73

    (LAURENCE, 2005, p. 632).

    O livro, no quadro Genoma: desafios filosficos para nossa gerao, sugere ao

    leitor a reflexo sobre o determinismo gentico, e utiliza novamente o recurso do

    intertexto ao reproduzir um excerto de artigo de Matt Ridley58. As informaes entre

    ancestralidade genmica e o parentesco de grupos populacionais identificam a categoria

    PE3; a caracterizao de grupos tnicos assinala a categoria AC. O embate acerca do

    determinismo biolgico faz o excerto incidir na categoria IH1, o que propicia uma

    oportunidade de discusso pelos alunos:

    Conhecer o genoma conjunto de genes de um indivduo no gera apenas a questo de como esses genes so transmitidos e expressos no organismo. Surgem tambm questes ticas e filosficas, que constituem um desafio para o presente e o futuro: at que ponto algumas de nossas caractersticas so determinadas geneticamente? At que ponto o fentipo influenciado pelo ambiente? Para ajudar a pensar nisso, leia o texto a seguir.

    O genoma como um registro autobiogrfico, escrito na linguagem dos genes [...]. Com as informaes fornecidas pelos genes, ficamos sabendo que os chimpanzs so nossos parentes mais prximos [...], que os espanhis bascos no tm laos de parentesco com outros euroasiticos e talvez sejam descendentes de caadores indgenas da Europa. [os genes] determinam nossa capacidade de linguagem e parte de nossa habilidade intelectual. [...] E onde entra o livre-arbtrio nessa histria? Segundo algumas teorias, ele nasce na sociedade. A liberdade surgiria de parte de nossa natureza que no determinada pelo material gentico [...] Alguns insistem, porm, que possvel superar esse determinismo gentico e agarrar a flor mstica da liberdade. Mas esse raciocnio no passa

    58 Escritor cientfico de gentica e comportamento humano.

  • 74

    de uma substituio do determinismo gentico pelo determinismo

    social, o que me parece desolador. (RIDLEY, 200059)

    Escolha trechos desse texto que mais tenham chamado sua ateno e elabore uma argumentao para ser discutida com seus colegas e professores. (LAURENCE, 2005, p.641).

    Laurence usa uma fotografia (ocupando quase a metade da rea da pgina) que

    retrata a diversidade fenotpica da espcie humana, mas no se vale dos termos raa ou

    etnia. A no ocorrncia dos termos raa/etnia um indcio de que o autor tinha o

    propsito de no induzir ou reforar a idia de raas na espcie humana, o que evidencia

    a categoria FB:

    (LAURENCE, 2005, p. 679).

    A discusso do conceito de espcie biolgica dentro do item especiao do

    captulo sobre teorias evolutivas um ponto positivo do discurso do autor, que, ao

    invs de trazer um conhecimento pronto, procura fazer com que o aluno, ao refletir

    sobre os diversos conceitos de espcie, construa seu prprio conhecimento. Dos

    59 RIDLEY, M. trecho de artigo publicado na revista Time e traduzido em encarte do jornal Folha de S. Paulo, 24 de fevereiro de 2000.

  • 75

    variados conceitos de espcie, o autor inclui o conceito filogentico60, que deriva de um

    campo relativamente recente da Biologia, a Sistemtica Filogentica ou Cladstica61.

    Embora tal conceito no seja fundamental nesta dissertao sobre raas biolgicas e

    raas humanas, ressalto que Laurence procura trazer para o livro didtico informaes

    acadmicas atualizadas.

    A categoria PE1 evidenciada quando o autor emprega o termo populao (ao

    invs de utilizar os termos raa ou subespcie) para tratar do isolamento geogrfico e

    reprodutivo, no texto principal e na ilustrao:

    (LAURENCE, 2005, p. 686).

    Embora o livro de Laurence no explicite a relao entre DNA mitocondrial e

    processos evolutivos (o que configuraria a categoria PE3), positiva a presena da

    informao sobre a herana materna exclusiva do DNA mitocondrial (p. 137),

    permitindo ao docente utiliz-la ao se referir a estudos de gentica populacional

    humana, tais como os de Pena (2000; 2002).

    Em sntese, o livro apresenta duas ocorrncias de TC2 que so contrabalanadas

    pela ausncia de PE2; alm disso, h a presena das categorias AC e IH1, o que so

    pontos positivos no livro-texto de Laurence.

    60 Uma espcie formada por populaes de indivduos que compartilham uma ou mais condies derivadas. 61 Desenvolvida teoricamente a partir da dcada de 1950 por W. Hennig (Cf. AMORIM, 2002).

  • 76

    4.2.1.3 Livro Biologia: volume nico Linhares e Gewandsznajder (2005).

    Os autores utilizam com freqncia, ao longo do texto principal e em exerccios,

    termos como subespcie, variedade e raa num contexto de classificao biolgica e de

    processo evolutivo, o que assinala a categoria TC1.

    Em dois momentos de seu discurso, os autores ressaltam concepes relativas a

    raas humanas. No primeiro momento, ocorre uma discrepncia conceitual entre

    excertos situados em pargrafos distintos e tambm, internamente, no primeiro

    excerto:

    [...] a diferena de DNA entre dois seres humanos muito pequena menos de 0,2% - mesmo que sejam de grupos tnicos diferentes. Essa uma prova de que o conceito de raa biologicamente insustentvel. (LINHARES e GEWANDSZNAJDER, 2005, p. 95).

    O exame de ancestralidade genmica capaz de revelar as origens de uma pessoa. (LINHARES e GEWANDSZNAJDER, ibid.).

    No primeiro excerto, ao mesmo tempo em que os autores apontam a inexistncia

    de raas (categoria TC3), afirmam que h grupos tnicos diferentes. Na falta de uma

    definio do que vem a ser grupo tnico, configura-se uma situao de discrepncia

    conceitual que confunde o leitor. No segundo excerto, os autores informam que as

    origens de uma pessoa podem ser descobertas por exame de ancestralidade genmica.

    Em primeiro lugar, no fica esclarecido de quais origens se tratam. Sero origens

    geogrficas? Em segundo lugar, no detalham o dito exame, como realizado, se a

    referncia o DNA mitocondrial ou nuclear. Alm disso, h uma incongruncia entre os

    conceitos da inexistncia de raas explcito no primeiro excerto e um exame que

    capaz de informar a origem de uma pessoa.

    No segundo momento, que ressaltado num quadro intitulado Biologia e

    Sociedade Raas na espcie humana?, os autores se posicionam mais uma vez sobre a

    no existncia de raas humanas (categoria TC3). Afirmam a possibilidade de

    considerar a existncia de raas [!] biolgicas ou humanas se houvesse um nmero

    de caractersticas exclusivas ou bem mais freqentes numa populao em relao a

    outra. Embora no utilizem diretamente o recurso do intertexto, citam dois

    pesquisadores evolucionistas estrangeiros para os quais a diferena gentica entre duas

  • 77

    pessoas muito pequena. Nesse trecho, distingo novamente a ambigidade entre

    conceitos de raa, origem geogrfica e etnia:

    Para afirmar que duas populaes pertencem a raas ou subespcies diferentes, tem que haver certo nmero de caractersticas genticas que, em conjunto, sejam exclusivas de uma das populaes ou, pelo menos, bem mais freqentes em uma populao do que na outra. No caso da espcie humana, a diferena gentica entre as populaes muito pequena. Entre duas pessoas escolhidas ao acaso, a diferena entre seus genes de apenas 0,2%, independentemente da origem geogrfica ou tnica. [...]

    Do ponto de vista biolgico, no faz sentido falar em raas, uma vez que no houve entre os indivduos da espcie humana atual isolamento geogrfico por tempo suficiente para formar raas ou subespcies. Na realidade, h apenas uma raa humana. (LINHARES e GEWANDSZNAJDER, 2005, p. 447).

    Logo a seguir, os autores frisam a diversidade da espcie humana como uma

    vantagem sob o ponto de vista evolutivo, ao mesmo tempo em que tecem comentrios

    tico-ideolgicos:

    A idia de raa pura no apenas absurda, em relao espcie humana, como indesejvel, pois a variedade gentica em uma espcie importante para a sua sobrevivncia, como tambm absurdo falar em raa superior ou raa inferior, ignorando a grande diversidade gentica em cada populao. Qualquer tentativa de formar uma raa pura, de fazer com que todos os indivduos da espcie humana sejam geneticamente muito parecidos, ameaaria sua sobrevivncia. O racismo, isto , a idia de que h raas superiores a outras, no tem base cientfica. Ele serviu apenas de pretexto para justificar a dominao e a explorao de um grupo por outro. Alm de injusta, essa atitude discriminatria acaba levando violncia e intolerncia. Por isso o racismo deve ser combatido com leis severas.

    importante ainda lembrar que ns, da espcie humana, somos capazes de, conscientemente, compreender que a cooperao importante para todos independentemente da cor da pele, do sexo, da religio ou da classe social de cada um.

    Uma educao que aproxime as pessoas, que valorize a diversidade, que elimine preconceitos, funciona como um antdoto contra o racismo e todos ganham com isso. (LINHARES e GEWANDSZNAJDER, ibid.).

    Na minha opinio, os autores perderam duas oportunidades de se posicionar

    mais claramente sobre temas to controversos relacionados a raas humanas: a primeira,

    quando poderiam ter dito que reprovvel qualquer tentativa de formar uma raa pura,

  • 78

    no somente pela questo da ameaa da sobrevivncia da espcie humana, mas,

    principalmente, por questes ticas; a segunda, quando poderiam citar casos histricos

    de racismo, como os do nazismo e da escravido no nosso pas, quando populaes a

    serem exterminadas ou escravizadas eram cientificamente classificadas como

    inferiores, pois, naquela poca, o racismo no era apenas um pretexto, mas, sim, uma

    concepo apoiada pela cincia dominante da poca.

    O livro reproduz uma questo de vestibular que menciona a pouca possibilidade

    de efetuar-se especiao em Homo sapiens. Tal exerccio pode levar o aluno a supor que

    a espcie humana, una geneticamente h milhares de anos, poderia facilmente ter

    sofrido diviso em subespcies geogrficas, num processo de raciao (categoria

    PE2):

    (Vunesp) A especiao do Homo sapiens tem pouca chance de ocorrer, considerando a atual condio da espcie humana. Assinale a afirmao que melhor sustenta essa hiptese:

    a ) A cincia moderna tem eliminado as mutaes humanas b ) Os medicamentos atuais diminuem a incidncia de

    doenas. c ) Os postulados de Darwin no se aplicam espcie

    humana. d ) As alteraes ambientais que favorecem a especiao so

    cada vez menores. e ) Os meios modernos de locomoo e comunicao tm

    diminudo ou eliminado os isolamentos geogrficos. (LINHARES e GEWANDSZNAJDER, 2005 p. 449).

    O livro usa vrias vezes os conceitos de raa e subespcie, muitas vezes os

    relacionando a processos evolutivos, o que verificado nas altas freqncias das

    categorias TC1 e PE1. A presena de TC3 e TC2 e a ausncia de AC no mesmo local (p.

    95) sugerem que os autores utilizaram o termo grupo tnico num sentido eufmico,

    como assinalam Levy, Selles e Ferreira (2006). A presena de TC3, IH1 e IH2

    relevante para o desenvolvimento curricular de conceitos ideolgicos e histricos

    referentes a raas humanas, racismo, etc.

    4.2.1.4 Biologia: volume nico Lopes e Rosso (2005).

    O livro considera subespcie [geogrfica e/ou raa?] como uma categoria de

    classificao: Outra categoria taxonmica no-obrigatria e que inferior espcie

    a subespcie.(LOPES e ROSSO, 2005, p. 181). Mesmo que os autores considerem a

  • 79

    subespcie como uma categoria no-obrigatria, ocorre uma contradio entre esse

    conceito e o excerto a seguir, que trata da Sistemtica Filogentica, para a qual no h

    subespcies:

    Espcie uma populao ou grupo de populaes definidas por uma ou mais condies derivadas, constituindo o menor agrupamento taxonmico reconhecvel. (LOPES e ROSSO, 2005, p. 184).

    Destaca-se no livro a exposio das duas principais escolas de classificao62, o

    que evidencia que a sistemtica uma rea da Biologia em constante modificao _

    exemplo de que o conhecimento cientfico no absoluto e dogmtico, mas se altera, no

    tempo, com a reviso, refutao e superao de mtodos, tecnologias, hipteses e

    teorias.

    Os autores no mencionam os conceitos de raa, variedade ou linhagem ao

    comentar sobre a seleo artificial em tcnicas de reproduo seletiva que objetivam o

    melhoramento gentico de espcies comercialmente importantes (p. 429).

    Num quadro intitulado Genoma o que e o que tem sido feito, Lopes e Rosso

    informam que o texto foi uma adaptao realizada por eles (a partir do stio

    www.ufrgs.br e de artigo publicado na Revista USP no. 24, 1995), o que no configura,

    na minha opinio, um caso de intertexto. Nota-se o emprego dos termos raa e etnia,

    sem explicao ou comentrio: [...] O princpio da igualdade rege o acesso igual aos

    testes [genticos], independentemente de origem geogrfica, raa, etnia e classe

    socioeconmica. (LOPES e ROSSO, 2005, p. 431).

    Pode-se distinguir a categoria FB em dois quadros (p. 469) que representam os

    fentipos e gentipos de cor da pele humana (NNBB, negro; nnbb, branco, etc),

    encontradios nos livros de ensino mdio e j comentados anteriormente nesta

    dissertao.

    O livro menciona de forma heterognea os diversos agrupamentos humanos na

    seo Programas de triagem populacional. Ora os autores valem-se de termos relativos

    a raa ou etnia (caucasiano, afro-americano), ora utilizam o local onde as populaes

    habitam (judeus de Israel; indivduos do Chipre):

    62 A Sistemtica Evolutiva ou Gradista, que a mais antiga e tradicional, e a Sistemtica Filogentica ou Cladstica.

  • 80

    [...] H muitos anos foi criado o programa de triagem populacional para adolescentes judeus ortodoxos ashkenazim, originrios da Europa central e do Leste europeu. Nesse grupo alta a incidncia da doena de Tay-Sachs, causada por alelo recessivo. [...] Cerca de 50 mil jovens desse grupo de judeus de Israel, dos estados Unidos, do Canad e de vrios pases da Europa j foram testados. Alguns centros de Inglaterra esto realizando testes para fibrose cstica, uma doena autossmica recessiva grave, particularmente comum entre caucasianos. Um programa considerado um sucesso foi o de triagem populacional realizado em Chipre, para se identificarem portadores da talassemia [...] Entretanto, nem sempre o programa de triagem populacional bem aceito. Foi o que ocorreu na dcada de 1970 nos Estados Unidos, quando o governo instituiu para os afro-americanos um programa de triagem para a doena anemia falciforme. Essa doena, comum em pessoas de ascendncia africana, causada por alelos com dominncia incompleta [...] Pela falta de informaes e de aconselhamento, o programa levou a uma discriminao contra os portadores do gene na comunidade negra, alterando as possibilidades de emprego e seguro-sade. (LOPES e ROSSO, 2005, p. 503).

    interessante observar que os autores voltam a citar a anemia falciforme no

    captulo sobre teorias de evoluo, mas sem se referirem expressamente comunidade

    negra:

    Em condies normais, o alelo para anemia falciforme sofre forte efeito seletivo negativo, ocorrendo com baixa freqncia nas populaes. Observou-se, no entanto, alta freqncia desse alelo em extensas regies da frica, onde h grande incidncia de malria. (LOPES e ROSSO, 2005, p. 518).

    O livro reproduz questo de vestibular63 que menciona a pouca possibilidade de

    se efetuar especiao em Homo sapiens (LOPES e ROSSO, 2005, p. 537). Tal exerccio

    pode levar o aluno a supor que nossa espcie poderia se dividir em subespcies

    geogrficas por um processo de raciao, o que caracteriza a categoria PE2.

    O manual didtico de Lopes e Rosso apresenta as categorias no desejveis TC2

    e PE2; alm disso, h a ausncia das categorias propcias ao desenvolvimento de

    racismo, darwinismo social e eugenia (IH1, IH2, IH3), o que torna o livro pouco

    indicado para tratar do tema curricular raa.

    63 Questo da Vunesp, que ocorre igualmente no livro de Linhares e Gewandsznajder (2005) e reproduzida na p. .

  • 81

    4.2.1.5 Biologia: volume nico Soares (1997).

    O livro, na legenda do quadro sobre herana polignica no homem (p. 246),

    considera a cor da pele como um trao tnico; isso evidencia que Soares considera a

    existncia de raas humanas (categoria TC2), as quais se subdividem, segundo ele, em

    grupos tnicos (categoria AC), embora no haja comentrios explcitos das

    caractersticas [culturais] desses grupos:

    (SOARES, 1997, p. 246).

    Contrastando com o quadro acima, no texto a seguir, que desenvolve o conceito

    de gene pool64 (ilustrado pela fig. 459), identifica-se a presena das categorias TC2 e

    AC:

    64 A expresso gene pool pode ser substituda, preferencialmente, pela expresso genoma populacional, como preconizava o prof. Johann Becker nas suas aulas de Gentica Ecolgica, durante minha graduao em Cincias Biolgicas na UFRJ em 1987.

  • 82

    (SOARES, 1997, p. 264).

    A expresso gene pool, ou fundo gentico comum, designa o quadro geral de genes comuns aos indivduos de uma certa populao ou de uma raa. Por exemplo: os genes para pele escura, cabelos grossos e crespos, nariz largo, lbios grossos e pouco desenvolvimento dos cabelos so integrantes do gene pool raa negra, mas no so comuns nas raas branca e monglica. Voc pode concluir que os genes para cabelos louros, para olhos azuis e para lbios finos no fazem parte do gene pool da raa negra, mas, em contrapartida, esto presentes em larga percentagem no fundo gentico comum de muitos grupos tnicos da raa branca (nrdicos, por exemplo). O gene pool da raa amarela ou monglica (chineses, japoneses, coreanos, vietnamitas, esquims) bem caracterstico, sendo comuns nele os genes para olhos rasgados, arcadas orbitrias pouco profundas, malares (ossos da face) proeminentes, cabelos negros e muito lisos, rosto amendoado etc. [...] (SOARES, 1997, p. 264).

    Este trecho parece no ser um caso de eufemismo do tipo mencionado por Levy,

    Selles e Ferreira (2006), pois Soares no explicita e, sim, confunde a distino entre

    etnias e raas ao usar as expresses grupos tnicos da raa branca e raa amarela ou

    monglica (chineses, japoneses, [...] (Cf. o verbete raa do Dicionrio de Soares,

    1993, p. 404, mencionado na seo 2.2 desta dissertao).

    O livro incorre na categoria FB ao apresentar uma fotografia com pessoas de

    diferentes fentipos:

  • 83

    (SOARES, 1997, p. 281).

    Esta fotografia pode levar o leitor a valorizar a aparncia das pessoas como

    critrio de distino racial fentipo visvel , que est intimamente ligada s

    definies tradicionais de raas humanas.

    Causa estranhamento o excerto no qual Soares comenta que olhos azuis e

    cabelos louros so bastante interessantes para a nossa espcie (categorias FB, PE1 e

    IH2):

    Na espcie humana tambm ocorrem mutaes. Em algum momento do passado, num lugar qualquer do mundo, durante a cadeia de transformaes que levou ao aparecimento do homem na face da Terra a partir de tipos primitivos, talvez bem parecidos com os atuais macacos, seguramente surgiu um mutante com olhos azuis. E no h como negar que, nos dias em que vivemos, as pessoas portadoras de olhos azuis so todas descendentes daquele mutante. O mesmo podemos dizer com relao aos cabelos louros. No foram essas mutaes bastante interessantes para a espcie? J ao contrrio, quando voc v um portador da sndrome de Down (mongolismo), est diante de um mutante. Mas esse mutante revela uma mutao em nada adaptativa. (SOARES, 1997, p. 284).

    O fator evolutivo isolamento (geogrfico e/ou reprodutivo) parece ser

    considerado por Soares (ib. p. 287) como um fenmeno que aproxima, por semelhana

    da sua ao sobre as populaes, a evoluo das espcies domesticadas (de animais e

    vegetais) com a evoluo da espcie humana. A miscigenao apontada como um

  • 84

    mecanismo que homogeneza as populaes humanas. Tais concepes configuram as

    categorias TC1, TC2, AC, PE1 e PE2. Sobre isso, o livro exibe dois conjuntos de

    fotografias (fig. 486 e 487) e o seguinte texto:

    (SOARES, 1997, p. 287).

    [...] Quando um mutante se reproduz e generaliza o seu novo fentipo, pode ocorrer que um grupo de indivduos com essa nova caracterstica se segregue dos demais indivduos da populao. O grupo segregado pode isolar-se apenas sexualmente (o homem tem provocado essa segregao intensamente em animais domsticos e em plantas, com o fim de procriar ou cultivar variedades especiais comercializveis) ou, ento, naturalmente, por migrao para regies afastadas. [...] Se no ocorrer o isolamento, a nova caracterstica mutante se diluir entre as outras caractersticas preexistentes na espcie e no haver uma bifurcao para dois tipos de indivduos. Foi o que sucedeu com a espcie humana. Inicialmente, vinha ela se diversificando em numerosos grupos tnicos. Seguramente, se tivesse ocorrido segregao sexual ou geogrfica entre esses grupos, eles continuariam evoluindo para espcies distintas. Mas a civilizao, incentivando o contato entre os povos e facilitando a miscigenao entre eles, parou com o processo de especiao. Agora, qualquer

  • 85

    mutao que ocorra num indivduo da raa negra, por exemplo, poder em breve estar presente num outro da raa branca ou da raa monglica, porque os indivduos dessas raas cruzam-se entre si. E assim sendo, os grupos tnicos humanos, ainda que possam evoluir, estaro sempre evoluindo no sentido da transformao da espcie Homo sapiens, mas nunca no sentido da diversificao dessa espcie em trs ou mais novas espcies. (SOARES, 1997, p. 286 e 287).

    Soares considera vrias subespcies fsseis que compuseram a histria evolutiva

    da espcie Homo sapiens. Tais subespcies, como Homo sapiens sapiens (nossa

    subespcie atual), Homo sapiens neanderthalensis, Homo sapiens rhodesiensis, so

    enumeradas em figuras nas p. 298, 299 e 302, o que configura a categoria TC1.

    A categoria TC1 a mais freqente, pois o livro considera subespcies dentro de

    Homo sapiens, assim como raas animais e variedades vegetais. H uma relao entre

    PE1 e PE2 e os mecanismos de isolamento geogrfico, inclusive na espcie humana. H

    uma coerncia entre a ausncia de TC3 e a ocorrncia de TC2, o que corrobora a crena,

    pelo autor, na existncia de grupos raciais humanos, que vai de encontro ao que

    preconizam os PCN+. As categorias IH1, IH2 e IH3 no ocorreram neste livro,

    evidncia de que Soares no verbaliza sobre racismo, eugenia e a democracia racial

    brasileira, embora mencione a miscigenao que ocorreu no pas. Ao invs de Soares

    comentar os nefastos efeitos das concepes eugnicas sobre as sociedades, causa

    estranhamento o seu discurso que ressalta o valor das mutaes que originaram os

    olhos azuis e os cabelos louros nos ancestrais da nossa espcie, e isto parece indicar que

    o autor era partidrio de idias eugnicas ou, pelo menos, que ele reforava valores

    eurocntricos.

    4.2.1.6 Biologia: volume 3: Biologia das populaes Amabis e Martho (2004).

    O livro ressalta a variabilidade de fentipos nas espcies do homem e do co,

    assim como diversas tonalidades de pele em pessoas que tiveram diferentes exposies

    ao sol, o que caracteriza a categoria FB:

  • 86

    (AMABIS e MARTHO, 2004, p. 34).

    Quando desenvolvem a gentica humana da cor da pele e dos olhos, os autores

    no mostram um enfoque homogneo: ora verbalizam o aspecto fenotpico, ora esse

    aspecto acompanhado de referncias raciais-tnicas (categorias FB e TC2):

    Herana da cor da pele na espcie humana O modelo mais simples para explicar a herana da cor da pele na espcie humana classifica as pessoas em cinco fentipos bsicos: negro, mulato-escuro, mulato-mdio, mulato-claro e branco. Essas cinco classes fenotpicas seriam controladas por dois genes, cada um com dois alelos (Aa e Bb). (AMABIS e MARTHO, 2004, p. 84).

    Quadro Gentica da cor dos olhos na espcie humana Os recm-nascidos de etnia caucasiana apresentam sempre

    olhos claros, que podem se tornar progressivamente mais escuros medida que os melancitos da ris produzem melanina. Os recm-nascidos latinos e de etnias negride ou asitica j apresentam olhos escuros ao nascer. (AMABIS e MARTHO, 2004, p. 86).

    Amabis e Martho mencionam raas puras de ces (a foto a seguir ilustra o

    excerto), o que caracteriza uma ocorrncia de TC1:

    As raas puras, das quais muito se ouve falar, so linhagens altamente homozigticas que produzem indivduos com mesmas caractersticas fenotpicas, gerao aps gerao. Os indivduos dessas raas so semelhantes entre si porque possuem gentipos semelhantes, homozigticos para muitos dos seus genes. (AMABIS e MARTHO, 2004, p.161).

  • 87

    (AMABIS e MARTHO, 2004, p. 161).

    Observa-se o termo raa quando os autores introduzem a histria das idias

    evolucionistas, ao citar o ttulo da obra de Darwin Sobre a origem das espcies por

    meio da seleo natural, ou a preservao das raas favorecidas na luta pela

    sobrevivncia. (AMABIS e MARTHO, 2004, p. 184). Ao mencionar as concluses de

    Darwin sobre a fauna e flora do arquiplago de Galpagos, utilizam o conceito de

    variedade em contexto de processo evolutivo por seleo natural (categoria PE1): Em

    cada uma das ilhas, as populaes colonizadoras sofreram adaptaes especficas,

    originando variedades ou espcies. (AMABIS e MARTHO, 2004, p. 189). A mesma

    acepo deste conceito ocorre na p. 190. Ainda nesta pgina, os autores citam o termo

    raa numa analogia entre os conceitos de seleo artificial e natural:

    Da mesma forma que os criadores selecionam reprodutores de uma determinada variedade ou raa, permitindo que se reproduzam apenas os que tm as caractersticas desejadas, a natureza seleciona, nas espcies selvagens, os indivduos mais adaptados s condies reinantes. (AMABIS e MARTHO, 2004, p. 190).

    O excerto supracitado relaciona-se com a figura na qual so citadas as

    variedades artificiais de pombos produzidas pelo prprio Darwin:

  • 88

    (AMABIS e MARTHO, 2004, p. 190).

    O livro exibe uma fotografia com pessoas de diferentes fentipos (categoria FB),

    mas os autores no mencionam a inexistncia de raas humanas, nem mesmo na legenda

    trazendo a informao de que as diferenas individuais na espcie humana so da ordem

    de 0,1% do DNA. A foto parece retratar pessoas que correspondem tradicional

    diviso em raas caucaside, negride e mongolide:

  • 89

    (AMABIS e MARTHO, 2004, p. 209).

    Pode-se supor uma dificuldade dos autores em tratar o tema, porque, se fazem

    meno nfima diferena gentica entre as pessoas, no explicitam a inexistncia de

    raas biolgicas na espcie humana (categoria TC3) e valem-se da referida foto que

    sugere uma viso tipolgica de raas.

    No captulo sobre teoria moderna da evoluo, Amabis e Martho, ao tratarem da

    anemia falciforme (siclemia) e da malria, parecem considerar a existncia de grupos

    raciais ao utilizar os termos populaes negras e afro-americanos. Nesse local,

    observo a ocorrncia de duas categorias, relativas seleo natural (PE2) e migrao

    de populaes (PE3):

    [...] Na ausncia da doena, o alelo s ser progressivamente eliminado da populao, pois as pessoas homozigticas para a siclemia continuaro a morrer de anemia. Foi o que aconteceu com populaes negras que viviam em reas de malria endmica, na frica, e que foram levadas como escravas para a Amrica do Norte, onde a doena praticamente inexistente. Nos afro-americanos descendentes dessas populaes, a freqncia do alelo s vem diminuindo progressivamente ao longo das geraes. (AMABIS e MARTHO, 2004, p. 219).

    Os autores relatam, como exemplo para o princpio do fundador (categoria PE3),

    o caso da migrao de comunidades religiosas alems para os Estados Unidos. Pode-se

    notar um contraste ao excerto anterior, pois, em relao quelas comunidades, so

  • 90

    ressaltados valores culturais, mas no so usados termos de conotao racial (raa

    causaside, populao branca):

    [...] Devido a seus costumes e religio, os membros dessas comunidades, chamadas Dunker, mantiveram-se isolados da populao norte-americana. [...] As diferenas de freqncia gnica na populao Dunker no podem ser atribudas a fatores seletivos ambientais, pois esses tambm teriam agido sobre a populao norte-americana. A explicao mais plausvel que os Dunker norte-americanos, oriundos da Alemanha, no eram amostra representativa da populao alem, no tocante s freqncias dos genes analisados. [...] (AMABIS e MARTHO, 2004, p. 230).

    Por um lado, ao apresentar o conceito de cladognese processo pelo qual duas

    populaes isoladas diferenciam-se no decorrer do tempo, originando duas novas

    espcies , os autores parecem usar o termo linhagem filogentica em uma acepo

    prxima aos conceitos de raa geogrfica e de subespcie: As duas populaes, ou

    linhagens filogenticas, que originalmente pertenciam a uma mesma espcie, so

    chamadas de clados. (AMABIS e MARTHO, 2004, p. 241). Por outro lado, ao

    tratarem do conceito de espcie biolgica, comentam sobre o conceito tipolgico de

    espcie, que consiste na existncia de um padro bem definido para cada espcie de ser

    vivo, e utilizam o termo raa:

    [...] Em alguns casos, esse conceito ainda empregado; por exemplo, em concursos de animais, utilizam-se vrios critrios morfolgicos para escolher o vencedor, que seria o representante mais tpico de uma raa ou espcie. (AMABIS e MARTHO, 2004, p. 243).

    Na mesma pgina, h foto de trs ces de raas diferentes com a seguinte

    legenda:

  • 91

    (AMABIS e MARTHO, 2004, p. 243).

    Ces de raas distintas so capazes de se cruzar e produzir descendentes frteis. Apesar de as diferenas de tamanho limitarem certos cruzamentos entre raas, os cruzamentos intermedirios possibilitam, potencialmente, que alelos originalmente surgidos em um co Golden Retriever possam se reunir aos de um Chiuaua. (AMABIS e MARTHO, 2004, p. 243).

    Quando Amabis e Martho destacam o conceito de subespcie, relacionando-o

    explicitamente ao termo raa, do como exemplo o caso de duas subespcies de girafas

    africanas e se valem de um exemplo esquemtico no qual representam uma espcie

    ancestral formando duas raas, uma adaptada montanha, e outra, a um lago (categoria

    PE1). Neste ponto do livro, os autores no mencionam a inexistncia (ou existncia) de

    raas ou subespcies humanas:

  • 92

    (AMABIS e MARTHO, 2004, p. 244).

    O conceito de subespcie [subttulo de captulo] Subespcies, ou raas, so populaes de mesma espcie que

    diferem entre si quanto a determinadas caractersticas. [...] A formao de subespcies representa uma etapa de transio na origem de novas espcies, como veremos adiante. (AMABIS e MARTHO, 2004, p. 244).

    O livro faz referncia ao homem de Neandertal (no quadro denominado Os

    neandertalenses, p. 278) quando trata ancestralidade humana. Os autores no

    consideram esses homindeos como uma subespcie humana65 (Homo sapiens

    neanderthalensis, o que configuraria a categoria TC1), mas, sim, como uma outra

    espcie, o Homo neanderthalensis. O texto faz uma relao direta entre o clima e a

    65 Diferentemente do que escreveram em obra anterior: [...] Atualmente, entretanto, admite-se que o homem de Neandertal constituiu apenas uma raa diferenciada dentro da espcie humana. Assim, considera-se este grupo como uma subespcie extinta da raa humana, denominada Homo sapiens neanderthalensis. AMABIS, J. M. e MARTHO, G. R. Curso Bsico de Biologia: Gentica, Evoluo e Ecologia. So Paulo: Moderna, 1985. p. 246.

  • 93

    compleio fsica dos neandertalenses (categoria PE2): As caractersticas fsicas, como

    o corpo e os membros curtos e compactos, indicam adaptao ao clima frio da Europa,

    na poca em que viveram. (AMABIS e MARTHO, 2004, p. 278). O excerto

    mencionado pode sugerir aos alunos a suposio simplista e superficial de que o clima e

    o ambiente moldaram, por seleo natural, as diversas raas humanas, como afirmava

    Coon66 (1962), idia que incorre na categoria PE2. Uma figura representa a irradiao

    do Homo sapiens para as diversas partes do mundo ao longo de milhares de anos (p.

    279); a esta figura os autores no fazem nenhuma meno sobre pesquisas de

    ancestralidade gentica baseadas em estudos de DNA (PENA, 2000; 2002), o que

    poderia contrastar com concepes raciais humanas apresentadas em outros pontos do

    livro:

    (AMABIS e MARTHO, 2004, p. 279).

    Ainda em referncia s espcies fsseis relacionadas ao Homo sapiens, Amabis

    e Martho valem-se de um intertexto67 sobre o Homo floriensis, onde tambm ocorre a

    66 Concepo que parece ser partilhada pelos autores, citada sob forma de intertexto reproduzido no anexo 26 (palestra de CUNHA, A. B. da, O homem e a raa, Conferncias do Instituto Brasileiro de Altos Estudos - IBRAE, 1987) em dois livros didticos anteriores: AMABIS, J. M. e MARTHO, G. R. Biologia das Populaes: Gentica, Evoluo e Ecologia. Vol.3. So Paulo: Moderna, 1994, p. 285, e AMABIS, J. M. e MARTHO, G. R. Conceitos de Biologia: Gentica, Evoluo e Ecologia. Vol.3. So Paulo: Moderna, 2001, p. 128. Os anexos 27 e 28 reproduzem representaes de variabilidade fenotpica e de concepo tipolgica de raas do livro de AMABIS, J. M. e MARTHO, G. R. A cincia da Biologia. v. 3. So Paulo: Moderna, 1983. 67 ANGELO, Cludio. Primo ano do homem habitou Indonsia. Folha de S. Paulo, 28 out. 2004.

  • 94

    mesma idia do ambiente moldando populaes (categoria PE2) mas por um

    raciocnio lamarckista:

    [...] uma raa de pessoas de um metro de altura conviveu em tempos passados com o homem moderno. Trata-se do mais novo membro do gnero humano, cujos fsseis foram desenterrados numa caverna na Ilha de Flores, Indonsia. [...] o H. floriensis era uma espcie an, cujos adultos no passavam de um metro de altura. Seu crnio abrigava o menor crebro j visto entre homindeos do tamanho do de um chimpanz. [...] Segundo os cientistas, o nanismo do H. floriensis foi uma adaptao ao ambiente da ilha. Esse fenmeno comum entre mamferos ilhus, que reduzem seu tamanho em resposta escassez de comida. [Lamarck!] H ilhas em que elefantes ficam do tamanho de um porco em 5.000 anos, diz Brown. [...] A hiptese preferida do antroplogo que uma populao de H. erectus tenha chegado ilha e encolhido com o tempo. (AMABIS e MARTHO, 2004, p. 282 e 283).

    Os autores, na seo Evoluo e cultura, comentam o desenvolvimento da

    linguagem simblica em paralelo ao desenvolvimento do encfalo na linhagem

    evolutiva homindea, e ressaltam as representaes mentais, a escrita e a cultura como

    caractersticas do Homo sapiens. Causa estranhamento a ausncia do conceito de etnia

    no momento em que os autores apresentam uma definio de cultura: [...] conjunto de

    conhecimentos e experincias acumulados pelas populaes humanas e transmitidos ao

    longo das geraes. (AMABIS e MARTHO, 2004, p. 280), o que contrasta com a

    ocorrncia do termo etnia, como uma concepo prxima e talvez eufmica do

    conceito de raa humana, em outros pontos do livro.

    Autores como Amabis e Martho, assim como Soares, tiveram livros editados ao

    longo de dcadas68. Suponho que os dois primeiros autores efetuaram modificaes

    relativas aos conceitos de raa humana, por exemplo , com o intuito de afinar seus

    textos com as recomendaes dos PCN e PCN+. Este seria um caso de transposio

    didtica externa interferindo no currculo escrito, no caso, o livro didtico. Caso que no

    pode ocorrer com Soares devido ao seu falecimento em 2001, antes da edio dos

    PCN+.

    O livro se caracteriza por no se aproximar do que preconizam os PCN+ em

    relao a raas humanas, por no haver nenhuma ocorrncia da categoria TC3. Ao

    68 AMABIS, Jos Mariano; MARTHO, Gilberto Rodrigues; MIZUGUCHI, Yoshito. Biologia: volume trs: Gentica, Evoluo e Ecologia. So Paulo: Moderna, 1974.

  • 95

    contrrio, no texto se sucedem vrias concepes de tipos raciais (categoria TC2) e no

    so observadas as desejveis categorias IH1, IH2 e IH3.

    4.2.1.7 Biologia: volume 3 Frota-Pessoa (2005).

    O livro inicia-se com uma parte introdutria denominada Ver, fazer, pensar que

    sugere atividades prticas individuais ou em grupo. reproduzida em cores, tomando

    rea correspondente metade da pgina, a pintura Operrios de Tarsila do Amaral, com

    a seguinte legenda Observe, no quadro de Tarsila do Amaral, a biodiversidade de nossa

    espcie: diferenas como cor dos olhos, cor da pele, bico-de-viva, espessura das

    sobrancelhas e superando todas as outras o sexo. (FROTA-PESSOA, 2005,p. 8). O

    autor ressalta a diversidade entre pessoas, mas sem utilizar uma viso tipolgica de

    raas, o que caracteriza a categoria FB:

    (FROTA-PESSOA, 2005, p. 8).

    Frota-Pessoa sugere projetos aos alunos com o objetivo de que eles,

    individualmente ou em grupo, sejam incentivados a resolver questes relacionadas s

    unidades que compem o livro. No sumrio, vemos dois projetos relativos Gentica

    molecular:

  • 96

    (FROTA-PESSOA, 2005, p. 6).

    Causa estranheza a omisso do projeto Miscigenao brasileira: ele inexiste na

    p. 51, ao contrrio do que ocorre com o projeto relativo a alimentos transgnicos.

    Entretanto, o texto do projeto encontrado na edio anterior do livro (2001), excerto

    que se enquadra nas categorias TC2 e PE3:

    Projeto 1. Miscigenao brasileira O jornal Folha de S. Paulo comentou, em 16 de abril de 2000, a pesquisa de Srgio D. Pena e colaboradores da Universidade Federal de Minas Gerais que compara o DNA mitocondrial (situado nas mitocndrias e no no ncleo das clulas) de 200 homens e mulheres brancos de vrias regies do Brasil e diferentes nveis sociais. De acordo com os marcadores de DNA que utilizaram, de cada 100 pessoas brancas estudadas, apenas 39 descendem exclusivamente de europeus, 33 tm ascendncia ndia e 28 ascendncia africana. A predominncia indgena se explica, porque, por mais de um sculo, os cruzamentos se deram sem a presena negra. Os pesquisadores concluem que se os muitos brancos brasileiros que tm DNA mitocondrial amerndio ou africano se conscientizassem disso valorizariam mais a exuberante diversidade gentica do nosso povo e, quem sabe, construiriam no sculo 21 uma sociedade mais justa e harmoniosa. Discuta com seus colegas e com seu professor de histria que aspectos sociais, culturais e econmicos contriburam para nossa miscigenao. (FROTA-PESSOA69, 2001, p. 54).

    O texto de Frota-Pessoa se categoriza em TC2 quando relaciona caracteres

    dominantes e recessivos diretamente a raas humanas, na seguinte tabela70:

    69 FROTA-PESSOA, O. Os caminhos da vida: Biologia no ensino mdio: Gentica e Evoluo. So Paulo, Scipione, 2001.

  • 97

    (FROTA-PESSOA, 2005, p. 80).

    O autor faz um comentrio sobre tica, leis e comportamentos humanos que

    caracteriza a categoria IH1. O excerto de interesse est num conjunto de sete pargrafos,

    os quais recebem ttulo em destaque grfico:

    As leis emanam dos cidados, que, por isso, devem ponderar e opinar [...] No sculo 19, a moral, tanto dos costumes como da lei, aceitava a escravido, o racismo, a discriminao sexual. Entretanto, as ideologias libertrias incendiaram o povo, a partir da Revoluo Francesa, e prepararam o caminho para a abolio da escravatura, o sufrgio universal, a revoluo sexual, o divrcio, as leis anti-racistas, o respeito s minorias e as delegacias da mulher.[...] (FROTA-PESSOA, 2005, p. 101).

    Na seo A cincia em marcha, no item Os genes e o ambiente, observada uma

    incongruncia entre TC2 e PE3: [...] Obtenha dados sobre a freqncia da siclemia em

    negros e brancos do Brasil para verificar se os antepassados dos negros vindos da frica

    para o Brasil viveram, por muito tempo, em zonas de malria endmica. (FROTA-

    PESSOA, 2005, p. 103).

    Ao discorrer sobre Engenharia Gentica, o autor menciona o conceito de raa

    relacionado a evoluo de homindeos (categorias TC2 e PE2):

    A amplificao gnica por PCR [...] Verificou-se, recentemente, pela comparao do DNA do homem atual (Homo sapiens) com o DNA tirado de fsseis do Homo neanderthalensis, que as diferenas so grandes demais para que as duas formas tenham sido raas da mesma espcie. (FROTA-PESSOA, 2005, p. 122).

    70 O autor, erroneamente, considera olhos escuros e cabelos negros como caracteres dominantes; tais caractersticas tm herana complexa, no monognica.

  • 98

    No texto introdutrio Unidade 5 do livro, Frota-Pessoa menciona, de forma

    abrangente, a formao de raas, o que configura as categorias PE1 e PE2: [...] e a

    macroevoluo, que o processo que cria raas, espcies, gneros e grupos maiores a

    partir de uma nica espcie. (FROTA-PESSOA, 2005, p. 136).

    O captulo 14 do livro abarca a formao de raas e espcies, dando nfase ao

    processo de especiao. Estas ocorrncias so representativas das categorias TC1, TC2,

    PE1, PE2. O ttulo do captulo, reproduzido abaixo, apresenta um evidente realce

    grfico:

    (FROTA-PESSOA, 2005, p. 147).

    O autor desenvolve o princpio de Hardy-Weinberg e o conceito de deriva

    utilizando-se de um exemplo hipottico que enfoca freqncias gnicas relativas a olhos

    azuis e negros em populaes humanas que se distribuem em ilhas. Neste ponto, h o

    uso expresso do conceito de raa, o que caracteriza a categoria TC2, assim como so

    identificadas ocorrncias de PE2 e PE3:

    [...] Assim, as duas ilhas iniciaram um processo de formao de raas: a menor no possua mais o alelo a depois da morte da nica pessoa de olhos azuis. Na ilha maior, a freqncia de a continuava em torno de 1%. Em teoria, as duas populaes passaram a constituir duas raas, j que possuam pelo menos um alelo com freqncias distintas, devido perda acidental do alelo a. [...] a deriva gentica atua com igual eficcia sobre alelos neutros, que tm o mesmo valor adaptativo de seu antagnico. A deriva pode, portanto, ser a causa de diferenas entre populaes ou raas, que a seleo natural no capaz de explicar. possvel que a deriva gentica tenha produzido diferenas de freqncias allicas entre pequenos grupos tribais, como os que constituem as populaes de ndios brasileiros. [...] At o incio da colonizao da Amrica do Sul, a populao amerndia estava em processo de formao de raas menores, isoladas por barreiras geogrficas [...] A imigrao dos europeus e dos africanos conturbou esse processo, contrariando a tendncia de formao de muitas raas de ndios, muito semelhantes, e estabelecendo as bases para a formao de uma raa brasileira que apresenta polimorfismo (grande variabilidade). Com o avano da miscigenao, as freqncias gnicas tendem a ficar cada vez mais semelhantes em toda a rea nacional. Nossa biodiversidade aumentou

  • 99

    e se espalha por todo o pas. (FROTA-PESSOA, 2005, p. 148 e 149).

    digna de nota a nfase aos conceitos de raa (em geral), raa geogrfica e raas

    humanas no intervalo compreendido entre as p. 152 a 156, o qual se compe de uma

    longa seqncia de subttulos e subsees. Dado o ostensivo destaque que o autor

    dedica ao tema raa, passarei a reproduzir, quase que na ntegra, os referidos excertos.

    Frota-Pessoa relaciona e entrelaa explicitamente os conceitos de raa biolgica, raa

    geogrfica, raas humanas e processos de raciao. Nos fragmentos a seguir [com seus

    subttulos reproduzidos], podem-se identificar ocorrncias de TC1, TC2, PE2 e AC:

    Raas so subgrupos de uma mesma espcie que diferem significativamente na freqncia de certos caracteres hereditrios e, portanto, na freqncia dos genes que os produzem. Muitas espcies domsticas, como a do co e a da galinha, tm inmeras raas que resultaram de seleo artificial. (FROTA-PESSOA, 2005, p. 152).

    Mas tambm existem, na natureza, espcies divididas em raas, que ocupam reas geogrficas diferentes. Raas geogrficas so as que vivem relativamente isoladas por barreiras, mas que, postas em contato, se cruzam dando prole frtil. (FROTA-PESSOA, 2005, p. 153).

    Na espcie humana, duas populaes no so consideradas raas diferentes s porque falam lnguas diferentes ou hbitos, culturas, crenas ou rituais diversos. S so raas populaes da mesma espcie que diferem nas freqncias de seus genes.

    Quando dizemos que os pigmeus da frica e os noruegueses so de raas diferentes, referimo-nos aos traos fsicos, como estatura e cor da pele, sabiamente produzidos, pelo menos em parte, por alelos diferentes. Certamente eles diferem tambm pela freqncia de alelos que comandam caracteres bioqumicos, como grupos sangneos e muitos outros. A lngua que falam ou a religio que adotam so traos culturais.

    Chamamos de etnias ou grupos tnicos duas populaes que diferem culturalmente, tenham ou no a mesma composio gentica. imprprio, embora comum, usar esses termos como sinnimos de raas.

    As raas no so grupos estticos. Elas so estgios da evoluo, em mudana constante, a longo prazo. Seu destino se tornarem espcies distintas, se permanecerem isoladas, ou se fundirem em uma espcie nica, de variabilidade maior, no caso de se romperem as barreiras que as separavam. (FROTA-PESSOA, 2005, p. 153).

  • 100

    Podemos batizar com nomes especiais apenas duas ou trs raas humanas, ou vinte, ou trinta, e em todos os casos estaremos certos.[!] O importante reconhecer que a espcie humana, como as demais [espcies biolgicas], dividida em alguns grupos raciais maiores; estes, por sua vez, se subdividem em raas menos distintas, e a subdiviso continua at chegarmos a populaes que no apresentam quase nenhuma diferena.

    No sistema de nomenclatura usado pelos bilogos, s se acrescenta um terceiro nome latino ao nome de espcie quando as raas j esto bastante diferenciadas, muito isoladas e habitam regies geogrficas distintas, isto , quando esto em isolamento geogrfico. Tais raas geogrficas se chamam subespcies. Elas representam o ltimo estgio evolutivo antes do estabelecimento dos mecanismos de isolamento reprodutivo. Apenas no se cruzam porque esto isoladas, mas, se colocadas juntas, so capazes de produzir hbridos frteis. [...] (FROTA-PESSOA, 2005, p. 153).

    S se pode reconhecer a existncia de uma raa contrastando seus traos hereditrios com os de outra, da mesma espcie. Durante o longo e contnuo processo de formao de raas, vo-se formando raas dentro de raas, que vo ficando cada vez mais diferentes entre si.

    Que grau de diferena suficientemente grande para que duas populaes sejam consideradas raas distintas? Essa deciso arbitrria, porque as diferenas so, de incio, insignificantes e vo aumentando gradualmente, enquanto persistir o relativo isolamento entre as populaes. Assim, podemos considerar os habitantes da Itlia e da Grcia como pertencentes a uma raa mediterrnea, em contraste com as populaes escandinavas. Ou ento, em um estudo mais minucioso, que revele diferenas significativas, por exemplo, nas freqncias dos grupos sangneos, igualmente vlido considerar as populaes da Itlia e da Grcia como pertencentes a raas diferentes. [!] (FROTA-PESSOA, 2005, p. 154).

    A enorme diversidade gentica entre as pessoas de uma mesma raa deixa claro que raa um termo coletivo. Raa caucaside designa uma populao e no uma pessoa. A rigor, portanto, dizer que fulano nrdico s aceitvel como

  • 101

    condensao de fulano pertence raa nrdica. Um sueco braquicfalo, de estatura baixa e cabelos e olhos escuros, pertence raa nrdica tanto quanto seu vizinho que apresente traos opostos, apesar de os nrdicos se parecerem, em sua maioria, com o vizinho.

    A diferenciao de raas (raciao) pode levar especiao (formao de espcies). No caso humano, isso no aconteceu porque o avano da tecnologia abalou as barreiras geogrficas e facilitou as migraes em massa e a miscigenao. Dentro do futuro previsvel, continuaremos formando uma nica espcie, enriquecida pela diversidade gentica que a raciao promoveu.

    As grandes migraes produziram alteraes rpidas das freqncias gnicas de muitas populaes. Antes da descoberta das Amricas, os brasileiros pertenciam ao tronco racial mongolide (amarelo), junto com vrias populaes asiticas, mas os imigrantes vindos da Europa e da frica alteraram radicalmente a raa brasileira, introduzindo nela as freqncias gnicas dominantes naqueles continentes.

    Porm a migrao africana para a Argentina foi pequena, de modo que suas freqncias gnicas ficaram diferentes das nossas, o que justifica diferenciar-se raa Argentina e raa brasileira. [!] (FROTA-PESSOA, 2005, p. 154).

    Em seu relacionamento social, o homem apresenta duas tendncias opostas e complementares: a da solidariedade e a do antagonismo. Ambas tm base gentica, reforada pela cultura. A solidariedade representa uma extenso do instinto de proteo prole, sem o qual a humanidade no sobreviveria. O antagonismo deriva da agressividade contra o estranho, para preservar e favorecer a famlia.

    O desenvolvimento da cultura ampliou o crculo da solidariedade para abarcar, sucessivamente, parentes mais distantes, a tribo, a nao e o total da humanidade, de modo que, embora mais solidrios com os ntimos, no negamos apoio a associados mais afastados. Portanto, pelo menos at certo ponto, natural que sejamos protetores de parentes, bairristas e solidrios com os membros de nossa profisso.

    Ao longo da evoluo social, embora com altos e baixos, a solidariedade vem sobrepujando a agressividade. Aboliram-se a inquisio e o colonialismo, a monarquia absoluta e a escravido fsica. A tica hoje dominante exige o respeito s minorias, em uma atmosfera democrtica, sem discriminaes. Entretanto, ainda se insinuam, aqui ou ali, atitudes racistas, que destoam dessas tendncias. (FROTA-PESSOA, 2005, p. 155).

    No fragmento a seguir, Frota-Pessoa no faz meno a genes recessivos e a

    genes em baixa freqncia, que poriam por terra uma raa pura. No h referncia,

    tambm, pureza e supremacia racial idealizada pelos nazistas, nem s idias

  • 102

    eugnicas. O autor no faz aluso a pesquisas de ancestralidade genmica focadas em

    humanos, mas cita estudos71 com DNA mitocondrial de papagaios, araras e outros

    psitacdeos que evidenciam os parentescos filogenticos entre estes animais. (p. 157).

    So observadas ocorrncias das categorias TC2, TC3 e PE2 no trecho:

    Aplicado aos animais, o conceito de raa pura uma raa cujos representantes so geneticamente muito semelhantes realstico e til. As raas puras de cavalos, porcos, galinhas e outros animais premiados em exposies so produzidas por intensa e persistente seleo artificial. Consegue-se. Assim, notvel uniformidade de muitos traos fsicos e de tendncias de temperamento a ponto de ser habitual cham-las de raas puras.

    Se nossa espcie fosse submetida a uma seleo artificial rigorosa, o que eticamente inadmissvel, seriam formadas raas puras, com indivduos muito parecidos. Mas a seleo natural s consegue formar raas homogneas quanto a poucos alelos, e no impede que, quanto aos demais, a diversidade seja quase to grande dentro de uma raa quanto entre elas. Por isso, no existem, nem nunca existiram, raas humanas puras.

    Na espcie humana, existem raas naturais, mas no raas puras. (FROTA-PESSOA, 2005, p. 155).

    Os excertos abaixo descrevem um modelo explicativo para a formao de raas e

    h um destaque em relao espcie humana, o que denota as categorias TC1, TC2,

    PE1 e PE2:

    [...] Alelos que eram inferiores no antigo ambiente puderam mostrar utilidade e aumentaram de freqncia. Novas mutaes e combinaes de alelos, trabalhadas pela seleo natural, foram tornando a populao cada vez mais adaptada ao novo ambiente e mais diferente da populao da qual se separou. Formaram-se, assim, duas raas, com caractersticas genticas um tanto diferentes.

    Duas raas geograficamente isoladas evoluem independentemente e se diversificam cada vez mais. Chegam a um ponto em que as diferenas nos rgos reprodutores, ou nos instintos sexuais, ou no nmero de cromossomos, so to grandes que o cruzamento entre elas se torna impossvel. Estabeleceu-se o isolamento reprodutivo e as duas raas se tornaram duas espcies (especiao), incapazes de trocar genes.

    Da por diante, mesmo que as barreiras desapaream e as espcies passem a compartilhar o mesmo territrio, no haver mais cruzamentos viveis entre elas [...]. (FROTA-PESSOA, 2005, p. 156).

    71 do Instituto de Biocincias da USP.

  • 103

    (FROTA-PESSOA, 2005, p. 156).

    [...] Por outro lado, se o isolamento geogrfico entre as raas desaparece aps algum tempo, antes que a especiao se complete, o cruzamento entre elas volta a fundir os dois grupos em um s com maior variabilidade gentica. isto que est acontecendo com a nossa espcie.

    As raas humanas se diferenciaram enquanto as barreiras naturais eram muito difceis de vencer e quase chegaram ao ponto de formar espcies distintas. Mas os meios de transporte se aperfeioaram antes de se instalarem mecanismos de isolamento reprodutivo entre as raas. Os cruzamentos interraciais se tornaram freqentes e a humanidade tende a tornar-se cada vez mais miscigenada.

    Dentro do futuro previsvel, continuaremos formando uma nica espcie, enriquecida pela diversidade gentica que a raciao promoveu. (FROTA-PESSOA, 2005, p. 156).

    Ainda em relao a raas, mas sob um prisma ideolgico, o livro apresenta um

    intertexto (WAGLEY, 1952) que tem por assunto a democracia racial72.

    interessante registrar que Frota-Pessoa j tinha utilizado o discurso de Wagley (ibid.) na

    72 Noo elaborada pelo antroplogo Gilberto Freyre, nos anos 1930, para quem o Brasil era uma nao racial e culturalmente miscigenada, concepo que passou a vigorar como uma ideologia no oficial do Estado. (SCHWARCZ, 1993, p. 248).

  • 104

    forma de um intertexto em seu livro Biologia na Escola Secundria (1972, p. 587 e

    58873). No livro didtico em anlise (2005), Frota-Pessoa reutiliza grande parte do texto

    de Wagley de 1952, no qual identificam-se as categorias TC2, IH1, IH2 e IH3:

    O problema racial no Brasil O Brasil famoso no mundo por sua democracia racial.

    Atravs de sua enorme rea de meio continente, o preconceito e a discriminao raciais so tnues comparados com a situao em muitos outros pases. Trs estoques raciais o ndio americano, o negro e o caucasise europeu misturaram-se e cruzaram-se no Brasil para formar uma sociedade em que as tenses e conflitos raciais so especialmente brandos, a despeito da grande variabilidade racial da populao.

    Alm disso, no Brasil, no se desenvolveu, parte desses primrdios escravocratas, uma sociedade de castas com barreiras rgidas entre os grupos raciais, como aconteceu nos Estados Unidos e nas Ilhas Ocidentais Britnicas. No Brasil, medida que o negro e o mulato ganhavam sua liberdade, eram tambm investidos de direitos de cidadania e passavam a tomar parte na visa pblica. Numerosas figuras de ascendncia negra completa ou parcial tornaram-se importantes na vida cultural e poltica brasileira e hoje ocupam posies altas numa sociedade em que as tenses e os conflitos raciais no impem um custoso tributo vida nacional ou aos indivduos. Pode-se dizer que, hoje, o Brasil no tem um problema racial, no mesmo sentido dos que existem em muitas outras partes do mundo; pessoas de trs estoques raciais e misturas de todas as variedades desses estoques vivem no que se pode considerar como relaes essencialmente pacficas. Todos so brasileiros, orgulhosos de sua imensa nao, e compartilham seus numerosos problemas e potencialidades.

    Isso no significa, entretanto, que todos os brasileiros tm direitos e vantagens iguais. Na verdade o Brasil um pas de impressionantes contrastes sociais. (...)

    Alm disso, os brasileiros, conscientes das realidades sociais em seu pas, no negam a existncia de certo preconceito racial e de uma forma atenuada de discriminao racial, crescente em certas reas. Certos esteretipos a atitudes tradicionais no Brasil indicam menosprezo pelo negro e pelo mulato. So tambm conhecidas as barreiras que se opem ascenso social das pessoas de cor, descendentes dos escravos. A discriminao crescente em centros como So Paulo e Rio de Janeiro fez com que o Congresso Nacional votasse uma lei que tornou a discriminao racial criminosa. No obstante, a maioria dos brasileiros sente-se orgulhosa de sua tradio de igualdade racial e da heterogeneidade racial de seu povo. Eles consideram as relaes essencialmente pacficas que existem em seu pas entre as pessoas de diversos grupos raciais como uma grande vantagem que o Brasil leva sobre a maioria das naes ocidentais. Ser mais fcil superar o atraso industrial, tecnolgico e mesmo

    73 Para comparao, estas pginas so reproduzidas nos anexos 27 e 28. Do mesmo Biologia na Escola Secundria (1972), so reproduzidas fotografias que ilustram a falta de preconceito racial e a democracia racial no Brasil e dois extremos raciais da espcie humana [anexos 29 e 30].

  • 105

    educacional no Brasil, do que em regies do mundo onde a populao dividida por clivagens raciais. Os brasileiros tm a preservar uma importante tradio quanto aos seus padres interraciais. WAGLEY, C., na introduo de Race and class in rural Brazil. Paris: UNESCO, 1952. (FROTA-PESSOA, 2005, p. 166 e 167).

    O livro de Frota-Pessoa d nfase, mais uma vez, aos conceitos de raa humana

    e migrao ao desenvolver o isolamento e o fluxo gnico como importantes fatores

    evolutivos. Registram-se as categorias TC2, PE2 e PE3:

    Antes de 1500, o Brasil era habitado exclusivamente por ndios. Com a chegada dos portugueses, abriu-se o caminho para uma imigrao macia de europeus e africanos. Hoje as caractersticas da populao brasileira so radicalmente diferentes das que compunham a populao autctone. Sua composio gentica se modificou por causa dos genes trazidos pelos imigrantes. Esse exemplo de fluxo gnico mostra como a migrao, fazendo confluir diferentes estoques raciais, um fator importante na modificao gentica das raas. [...] Se os ancestrais dos nossos ndios no tivessem se isolado geograficamente do resto da populao monglica, no teria sido possvel a diferenciao da raa amerndia. (FROTA-PESSOA, 2005, p. 186).

    O discurso prossegue ainda insistindo nas concepes de raa, migrao,

    barreiras geogrficas e miscigenao, mas novamente se identifica a ausncia de

    comentrios sobre pesquisas de ancestralidade gentica, alm de o autor citar cultura,

    mas no referenciar o conceito de etnia. Sucedem-se as categorias TC2, PE2 e PE3:

    Quando o progresso nutico dos europeus conseguiu superar a barreira do Atlntico, houve uma invaso [...] e muitas plantas e animais exticos aqui se estabeleceram. Os amerndios foram aniquilados em extensas reas. Nesse caso, o fator decisivo foi a cultura e no o patrimnio hereditrio. Tendo o choque ocorrido entre raas de uma mesma espcie, a reduo do nmero de ndios foi acompanhada por uma parcial incorporao de seus genes ao patrimnio hereditrio do grupo dominador, por meio de intercruzamentos. [...] Os movimentos migratrios bem-sucedidos tm grandes conseqncias evolutivas. O novo ambiente orienta a seleo natural por novos rumos e, se a comunicao com a populao principal difcil, a espcie pode dividir-se. (FROTA-PESSOA, 2005, p. 187).

    Frota-Pessoa faz um comentrio sobre estudos de Freire-Maia sobre uma

    populao com alta freqncia de albinismo em uma ilha no Maranho (ibid., p. 191).

    Observa-se o conceito de efeito do fundador (categoria PE3), mas se estranha a ausncia

  • 106

    do uso do termo raa, ressaltado em exemplo anterior que tratava de deriva gnica com

    populaes com olhos azuis e olhos negros (ibid., p. 148).

    A categoria IH1 observada no excerto a seguir, que uma introduo

    Unidade 8 do livro:

    Partimos da mais simples monera e eis que estamos voc e eu certos de sermos o resultado aperfeioado de 4,5 bilhes de anos de evoluo. H animais muito maiores e menores que ns, mas nenhum to esperto. [...] Ainda existem violncia, crueldade, racismo, fome, doena e injustia. Isso nos enche de culpa e nos incentiva a proceder melhor. O orgulho por nossos feitos no obscurece a humildade que nos faz reconhecer e corrigir nossas deficincias. (FROTA-PESSOA, 2005, p. 230).

    O livro traz um esquema que representa as duas grandes migraes do Homo

    sapiens que ocuparam as Amricas. No texto principal, as categorias TC2, PE2 e PE3

    fazem-se presentes:

    (FROTA-PESSOA, 2005, p. 257).

    A primeira onda migratria deve ter colonizado amplamente as Amricas. [...] Com o tempo, as populaes humanas do Norte da sia adquiriram os traos da raa mongolide, que representam, em parte, uma adaptao ao clima frio. Foi esse segundo grupo racial mongolide que integrou as migraes subseqentes que originaram os indgenas atuais.

  • 107

    Assim como seus predecessores no-mongolides eles vieram da Sibria, provavelmente passando pelo estreito de Bering, no extremo noroeste da Amrica do Norte. (FROTA-PESSOA, 2005, p. 258).

    Vale ressaltar o intertexto74 que comenta sobre pesquisas que investigam o

    cromossomo Y do Ado africano, ancestral comum a todos os humanos. Embora aqui

    Frota-Pessoa (2005, p. 260) trate de ancestralidade genmica, a referncia usada no

    recente (1997).

    As concepes de origem das raas humanas por influncia de fatores

    ambientais, como defendia Coon (1962), aparecem neste fragmento, o que evidencia as

    categorias TC2 e PE2. Existe a referncia a cultura, mas no a etnia:

    [...] Basta considerar como o frio intenso desconfortvel para ns, mas no para um urso polar, para concluir que nossa espcie se formou em climas amenos (na frica). Os esquims adaptaram-se s regies polares culturalmente, construindo iglus, vestindo peles e usando trens puxados por ces. Mas seu fsico, comparado com os europeus e africanos, mostra adaptaes genticas ao frio, como nariz menos saliente e olhos protegidos por plpebras grossas, que deixam fendas estreitas. (FROTA-PESSOA, 2005, p. 264).

    Frota-Pessoa mostra um discurso ideolgico que evidencia claramente a

    categoria IH1:

    Essa disposio de esprito varia na populao, cobrindo todas as transies, desde o egosta mais mesquinho at os que se despojam para entregar-se caridade. O racista est no extremo agressivo da escala. [...] Hoje a tica majoritria exige respeito pessoa e a seus direitos, em uma atmosfera democrtica, sem discriminaes. O racismo foi parcialmente controlado, mas ainda representa perigo e, contra ele, a sociedade deve precaver-se. (FROTA-PESSOA, 2005, p. 265).

    Por fim, o livro apresenta um trecho sobre evoluo (categoria PE3) o qual, se

    no enuncia explicitamente, insinua a inexistncia de raas por motivo de nfima

    diferena gentica entre as pessoas, o que configura a categoria TC3:

    [...] nossa espcie relativamente recente. A populao atual de 6 bilhes de pessoas descende de algumas centenas de milhares de ancestrais que viviam na frica h uns 150 mil a 200 mil anos. Uma

    74 GIBBONS, A. O Ado africano [ttulo traduzido]. Science, 278, 31 out. 1997.

  • 108

    populao to pequena s consegue manter uma diversidade gentica limitada, formada por uns poucos alelos comuns nas seqncias de cada gene. Alm disso, as milhares de geraes de crescimento exponencial da populao foram insuficientes, na escala evolutiva, para alterar substancialmente o espectro da variao comum. O resultado que a humanidade moderna apresenta muito menos variao gentica intraespecfica do que, por exemplo, os chimpanzs. Estudos experimentais recentes confirmaram a exigidade de variantes comuns de genes tpicos. Isso sugere que ser possvel catalogar todas as variantes (alelos) comuns de todos os genes humanos. (FROTA-PESSOA, 2005, p. 268 e 269).

    Em relao ao caso atpico do livro de Frota-Pessoa, suponho que as ocorrncias

    de TC2 e PE2 derivem de uma dificuldade do autor em alterar suas opinies sobre raas

    em nossa espcie. Suas concepes, hoje anacrnicas, sobre raas humanas e

    democracia racial no Brasil, presentes no seu livro-texto de 2005, so muito

    semelhantes s encontradas em dois livros didticos da dcada de 1960. Salta vista o

    texto O problema racial no Brasil que reproduzido no livro de 2005 a partir dos seus

    livros de 196075 e 197276 (Cf. Anexos 29 e 30). Estes volumosos e reiterados resultados

    qualitativos alta freqncia de TC2 e PE2; incongruncia conceitual entre TC2 e TC3;

    freqentes menes de combate ao racismo por meio de IH1 caracterizam fortemente

    o livro de Frota-Pessoa como singular e distinto entre todo o corpus analisado.

    4.2.2 Anlise quantitativa

    Nesta seo, apresento os grficos relativos s ocorrncias das categorias

    observadas na pesquisa emprica, cujos dados numricos encontram-se detalhados em

    tabelas respectivas na seo Apndices. A seguir, os livros so agrupados segundo seus

    perfis, e minha avaliao cotejada com os dados encontrados no catlogo do Programa

    Nacional do Livro para o Ensino Mdio de 2007.

    75 FROTA-PESSOA, Oswaldo. Manual de Biologia. Rio de janeiro: Fundo de Cultura, 1960. 2 v. 76 FROTA-PESSOA, Oswaldo. Biologia na Escola Secundria. So Paulo: Companhia Editora Nacional, 1972. 2 v.

  • 109

    0

    20

    40

    60

    80

    100

    120

    FB TC1 TC2 TC3 PE1 PE2 PE3 AC IH1 IH2 IH3

    Grfico 1: Nmero de ocorrncias das categorias no livro Amabis e Martho

    0

    2

    4

    6

    8

    10

    12

    14

    FB TC1 TC2 TC3 PE1 PE2 PE3 AC IH1 IH2 IH3

    Grfico 2: Nmero de ocorrncias das categorias no livro Lopes e Rosso

  • 110

    0

    5

    10

    15

    20

    25

    FB TC1 TC2 TC3 PE1 PE2 PE3 AC IH1 IH2 IH3

    Grfico 3: Nmero de ocorrncias das categorias no livro Soares

    0

    10

    20

    30

    40

    50

    FB TC1 TC2 TC3 PE1 PE2 PE3 AC IH1 IH2 IH3

    Grfico 4: Nmero de ocorrncias das categorias no livro Frota-Pessoa

  • 111

    0

    5

    10

    15

    20

    25

    30

    FB TC1 TC2 TC3 PE1 PE2 PE3 AC IH1 IH2 IH3

    Grfico 5: Nmero de ocorrncias das categorias no livro Laurence

    0

    1

    2

    3

    4

    5

    6

    7

    FB TC1 TC2 TC3 PE1 PE2 PE3 AC IH1 IH2 IH3

    Grfico 6: Nmero de ocorrncias das categorias no livro Adolfo, Crozetta e Lago

  • 112

    0

    2

    4

    6

    8

    10

    12

    FB TC1 TC2 TC3 PE1 PE2 PE3 AC IH1 IH2 IH3

    Grfico 7: Nmero de ocorrncias das categorias no livro Linhares e Gewandsznajder

    Em relao s categorias IH1 e IH2, so semelhantes os perfis dos livros de

    Amabis e Martho, Lopes e Rosso, e Soares, onde estas categorias so quase nulas, ao

    contrrio de Frota-Pessoa, Adolfo, Crozetta e Lago, e Linhares e Gewandsznajder, que

    apresentam um nmero expressivo de ocorrncias nestas categorias.

    Em relao categoria TC3, novamente os livros de Lopes e Rosso, Soares, e

    Amabis e Martho encontram-se agrupados pela ausncia desta categoria, que os

    distancia de materiais didticos que discutem biolgica e historicamente o conceito de

    raa humana. Juntamente com Laurence, esses livros mais uma vez se diferenciam de

    Frota-Pessoa, Adolfo, Crozetta e Lago, e Linhares e Gewandsznajder, nos quais TC3

    mostra-se presente.

    O agrupamento de Frota-Pessoa, Adolfo, Crozetta e Lago, e Linhares e

    Gewandsznajder desfeito quando se consideram as categorias TC2 e PE2, quase

    ausentes nos dois ltimos, mas muito freqentes em Frota-Pessoa, freqncia que

    supera inclusive a de livros como Lopes e Rosso, Soares, e Amabis e Martho. Em Frota-

    Pessoa, TC2 sobressai de modo to relevante que faz com que o perfil do seu grfico

    seja diferente dos demais onde a categoria mais freqente TC1. Vale notar que

    Laurence, que se agrupava com Lopes e Rosso, Soares, e Amabis e Martho, nestas

    categorias se aproxima de Adolfo, Crozetta e Lago, e Linhares e Gewandsznajder,

    grupamento de autores que no evidenciam uma classificao racial no homem.

  • 113

    Esse primeiro agrupamento dos livros, aponta, de modo amplo, para dois

    grandes grupos: o primeiro grupo se destaca pela presena de categorias muito positivas

    tais como TC3, IH1, IH2, IH3 e ausncia de categorias negativas como TC2 e PE2; no

    segundo grupo o contrrio ocorre.

    Em relao a TC2 e TC3, vale lembrar que os PCN+ pem em xeque a

    classificao tradicional historicamente datada que definia os agrupamentos raciais

    humanos em caucasides, negrides, orientais (PCN+, 2002, p. 49). Na mesma direo,

    Willinsky (2004, p.109), ao fazer uma apreciao positiva de um livro didtico,

    comenta: o livro sustenta explicitamente que no existem raas puras, e ainda lana

    dvidas sobre qualquer determinao cientfica confivel de fronteiras raciais. Em

    relao a IH1, IH2 e IH3, Willinsky enfatiza que os conceitos de raas humanas tiveram

    um aspecto histrico (ibid., p. 108 e 109) e que o currculo de cincias deve trabalhar a

    natureza da disciplina e de suas implicaes sociais (ibid., p.112). Em relao a PE2,

    Shipman (apud Willinsky, ibid., p.106) aponta para o fato de que apesar de as

    distines entre os povos, antigamente isolados, terem diminudo, o conceito de raa se

    tornou cada vez mais preciso em seu uso cientfico, comeando h pouco mais de dois

    sculos.

    O primeiro grupo de livros compreende Adolfo, Crozetta e Lago, e Linhares e

    Gewandsznajder; o segundo, engloba Lopes e Rosso, e Amabis e Martho, e Soares.

    Laurence mostra-se numa posio de transio entre os dois grupos com tendncia de se

    aproximar dos perfis de Adolfo, Crozetta e Lago, e Linhares e Gewandsznajder,

    enquanto Frota-Pessoa um caso atpico, pois apresenta alta freqncia de categorias

    desejveis ao lado de uma tambm alta freqncia de categorias negativas, o que torna

    este livro-texto um recurso didtico ambguo, que admite interpretaes diversas e at

    contraditrias referentes s raas humanas.

    A categoria TC1, porque neutra, no discrimina os diferentes livros didticos,

    o que torna incua a alta freqncia notada em Amabis. O mesmo acontece com PE1,

    uma vez que est intimamente relacionada a TC1, ambas caracterizando raas,

    variedades e subespcies em animais e plantas.

    As categorias FB, PE3 e AC, em comparao s categorias TC3, IH1, IH2 e IH3,

    so menos positivas. Vejamos suas ocorrncia nos livros. FB semelhante em todos os

    livros, com exceo de Laurence onde mais freqente, fato que o aproxima do grupo

    de livros mais positivos, uma vez que esta categoria valoriza a diversidade fenotpica

    sem correlacion-la a uma tipologia de raas humanas. A categoria PE3, positiva porque

  • 114

    no relaciona a ancestralidade gentica a raas humanas, igualmente no produz

    contraste entre os livros, com exceo de Frota-Pessoa, o que refora a condio atpica

    deste livro didtico. A categoria AC, que diferencia os conceitos de etnia e de raa,

    igualmente no discrimina os livros.

    4.2.3 Os livros segundo o catlogo do PNLEM de Biologia de 2007

    Nesta seo, minhas avaliaes sobre os livros com exceo de Soares, que

    no faz parte do conjunto de obras recomendadas pelo MEC so cotejadas com as

    avaliaes do Programa Nacional do Livro para o Ensino Mdio apresentadas no

    catlogo do PNLEM 2007.

    Das avaliaes realizadas pelo PNLEM, ressalto o seguinte critrio de excluso

    utilizado: veicular preconceitos de origem, cor, condio econmico-social, etnia,

    gnero, orientao sexual, linguagem ou qualquer outra forma de discriminao

    (BIOLOGIA: catlogo do PNLEM/2007, 2006 [verso em pdf], p. 15). Ao final do

    catlogo, h a reproduo da ficha utilizada no processo avaliativo, da qual saliento o

    seguinte item:

    Na obra, perceptvel: a) tratamento privilegiado a determinados grupos sociais ou regies particulares do pas. b) preconceitos ou esteretipos relacionados a gnero, cor, origem, condio econmico-social, etnia, orientao sexual, linguagem ou qualquer outra forma de discriminao.

    ( ) Sim (Apresentar os argumentos, exemplificando-os) ( ) No (BIOLOGIA: catlogo do PNLEM/2007, 2006 [verso em pdf], p. 102).

    Em relao ao mesmo item da ficha de avaliao, observei uma diferena entre a

    verso supracitada (disponvel no stio do MEC) e a verso impressa (distribuda para as

    escolas):

    Abordagem crtica das questes de gnero, de relaes tnico-raciais e de classes sociais. [grifo meu] Quanto ao aspecto acima, a obra avaliada como: O ( ) B ( ) R ( ) I ( )

    Justificar a meno. Exemplificar. (BIOLOGIA: catlogo do PNLEM/2007, 2006, p. 103)

  • 115

    Segue-se o cotejo entre as avaliaes do PNLEM e os meus resultados

    avaliativos:

    Em relao ao livro de Linhares e Gewandsznajder, o catlogo do PNLEM

    consoante com minha avaliao, que ressalta a ocorrncia das categorias TC3, AC e

    IH1:

    Em relao construo da cidadania, no so encontrados preconceitos ou esteretipos relacionados a gnero, cor, etnia, origem, orientao sexual, condio socioeconmica. [...] quando trata de relaes tnico-raciais, aborda criticamente a existncia ou no de raas na espcie humana, destacando que a idia de que existiriam raas superiores a outras no possui base cientfica. (Biologia: catlogo do PNLEM, 2006, p. 25)

    Acerca do livro-texto de Laurence, o catlogo do PNLEM faz uma avaliao

    positiva, com a qual concordo parcialmente, pois apesar de fazer meno a aspectos

    histricos ideolgicos como o darwinismo social , e exibir fotografias de diversidade

    fenotpica humana sem se referir a raas, este autor considera, algumas vezes, a

    existncia de raas humanas. Sobre o livro, l-se no catlogo:

    De maneira geral, a obra Biologia, de Laurence, colabora para a construo da cidadania dos alunos, no que diz respeito s questes tnicas e raciais, de gnero e de classes sociais. Ela apresenta iniciativas de promoo ou insero das minorias sociais e de valorizao da diversidade: [...] fotografias que representam os elementos que compem nossa diversidade tnica. Porm, vale chamar a ateno dos alunos para o fato de que no h representaes de povos ou de elementos indgenas nas ilustraes. (Biologia: catlogo do PNLEM, 2006, p.40)

    Causa estranhamento a aluso a povos ou elementos indgenas num texto do

    PNLEM, porque se ope ao que preconizam os PCN+ acerca da diviso da populao

    em raas. Outro ponto controverso: a denominao diversidade tnica ser uma

    linguagem eufmica para raas humanas ou ser referente a valores culturais?

    Segundo a avaliao do PNLEM, a obra de Adolfo, Crozetta e Lago se omite no

    que toca discusso do tema raas humanas:

    A obra no traz, contudo, uma abordagem crtica sobre as

    questes de gnero, classe ou tnico-raciais; nem tratamentos que

    promovam minorias sociais. Para essa tarefa, professora e professor

    precisaro estar atentos. (Biologia: catlogo do PNLEM, 2006,

    p.48)

  • 116

    Discordo da avaliao do PNLEM porque h seis ocorrncias de IH1, uma de

    IH2, e quatro de FB e a ausncia de PE2, aspectos positivos do livro, ainda que tenha

    sido identificada uma incongruncia entre uma ocorrncia de TC2 e uma de TC3.

    O livro de Amabis e Martho tem o seguinte perfil segundo o catlogo do

    PNLEM:

    No que diz respeito construo da cidadania, a obra evita o fortalecimento de preconceitos ou esteretipos. Contudo, no aborda explicitamente questes de gnero, tnico-raciais e econmico-sociais que desempenham papel importante na formao da cidadania, e tampouco h aes afirmativas para a promoo das minorias. (Biologia: catlogo do PNLEM, 2006, p.66)

    Discordo porque o livro apresenta ocorrncias de TC2 e PE2, paralelamente a

    uma ausncia de TC3 e das categorias IH, o que pode levar o leitor a revigorar possveis

    preconceitos quanto a raas humanas.

    Em relao ao livro de Lopes e Rosso, o catlogo do PNLEM comenta:

    Em relao construo da cidadania, no so encontrados

    preconceitos ou esteretipos relacionados a gnero, cor, etnia, origem, orientao sexual e condio socioeconmica. (Biologia: catlogo do PNLEM, 2006, p.83)

    Discordo da avaliao do MEC porque o texto dos autores considera raas

    humanas (categoria TC2) e no apresenta comentrios referentes s categorias TC3,

    IH1, IH2.

    O excerto do catlogo do PNLEM relativo ao livro de Frota-Pessoa o seguinte:

    Em relao construo da cidadania, no so observados na obra preconceitos ou esteretipos relacionados a gnero, cor ou condio socioeconmica. Alm disso, ela prope discusses interessantes sobre temas polmicos, como o futuro dos povos indgenas, a diversidade racial e a virgindade, e trata adequadamente de questes importantes na formao dos alunos, como o alcoolismo e o fumo. (Biologia: catlogo do PNLEM, 2006, p.94)

    Discordo fortemente da avaliao positiva realizada pelo MEC. O discurso de

    Frota-Pessoa, embora exiba algumas ocorrncias de PE3 e AC, e poucas de IH1 e IH2,

    eivado por uma alta freqncia TC2 a admisso do conceito de raas humanas e de

    PE2 associando processos evolutivos formao de raas em nossa espcie, inclusive

  • 117

    na poca atual [!]. A avaliao positiva do PNLEM, no fundo, encontra-se em sintonia

    com o discurso do autor do livro, uma vez que utiliza expresses como diversidade

    racial.

  • 118

    5 Concluses, recomendaes e perspectivas

    O corpus de livros-texto analisado mostrou-se muito heterogneo em termos de

    extenso, profundidade e modo de apresentao e desenvolvimento das concepes de

    raas humanas e raas biolgicas. Alguns livros apresentam textos no verbais que

    evidenciam uma viso tipolgica de raas humanas. Alguns autores parecem evitar o

    termo raa ou explicitamente negam a existncia de raas humanas, mas,

    contraditoriamente, no mesmo texto, utilizam o conceito cultural de grupos tnicos

    como sinnimo de grupos fenotipicamente distintos, de forma intencional, eufmica ou

    no. Enquanto alguns livros apresentam discursos que se referem a aspectos histricos e

    polticos relacionados s raas humanas, outros no expem nem problematizam

    tenses sociais, como o racismo, nem mencionam aspectos histricos, como o uso

    indevido do darwinismo social, a suposta desigualdade de raas e as idias eugnicas,

    tampouco problematizam o conhecimento cientfico como no absoluto e suscetvel de

    influncia histrico-poltica.

    Da anlise qualitativa realizada, emergiram as seguintes categorias referentes a

    raas humanas e a raas biolgicas:

    - Categoria Fentipos e Biodiversidade humana [FB]

    - Categorias Taxonomia e Classificao [TC]

    - Categorias Processo Evolutivo [PE]

    - Categoria Antropologia Cultural [AC]

    - Categorias Ideologia e Histria [IH]

  • 119

    Fundamentando-me na reviso de literatura, que considera um currculo de

    Biologia comprometido com a formao de alunos crticos, as categorias podem ser

    agrupadas em quatro conjuntos. O primeiro composto de categorias relativas no

    existncia de raas humanas, ancestralidade gentica de populaes e a conhecimentos

    histrico-polticos sobre concepes de raa humana compreende categorias muito

    positivas e altamente desejveis: TC3, PE3, IH1, IH2 e IH3. O segundo conjunto que

    diz respeito variabilidade fenotpica no homem (sem correlacion-la a raas humanas)

    e a conceitos de Antropologia cultural compe-se de categorias positivas, porm

    menos relevantes do que as do conjunto anterior: FB e AC. O terceiro conjunto que

    evidencia vises tipolgicas de raas humanas, processos evolutivos e suposta

    influncia do ambiente na formao de raas humanas abrange categorias negativas e

    indesejveis no desenvolvimento do currculo de Biologia: TC2 e PE2. O quarto

    conjunto que abarca conceitos de classificao e processos evolutivos relacionados a

    raas animais e variedades vegetais contm conhecimentos de Biologia que podem ser

    considerados neutros: TC1 e PE1.

    Como resultado da anlise quantitativa dos dados empricos, o corpus pode ser

    subdividido, de modo amplo, em dois grupos de livros didticos em relao ao

    tratamento da questo raas: um grupo compe-se de textos que apresentam categorias

    positivas e ausncia de categorias no desejveis (Adolfo, Crozetta e Lago; Linhares e

    Gewandsznajder); o outro, formado de livros com categorias negativas e ausncia de

    categorias desejveis (Amabis e Martho; Lopes e Rosso; Soares). Entre estes grupos

    distintos, situam-se dois livros, um que tende a aproximar-se do primeiro grupo

    (Laurence), e outro (Frota-Pessoa) que apresenta alta freqncia de categorias tanto

    positivas quanto negativas, fato que o torna contraditrio e ambguo no tratamento do

    tema raa.

    Os resultados das anlises dos livros foram cotejados com as avaliaes do

    Catlogo do Programa Nacional do Livro para o Ensino Mdio (PNLEM). Em relao

    ao livro de Linhares e Gewandsznajder, o catlogo do PNLEM consoante com minha

    avaliao. Acerca do livro de Laurence, o catlogo do PNLEM faz uma avaliao

    positiva, com a qual concordo parcialmente. Segundo a avaliao do PNLEM, a obra de

    Adolfo, Crozetta e Lago se omite no que toca discusso do tema raas humanas,

    opinio com a qual discordo. No que se refere ao livro de Amabis e Martho, e ao livro

  • 120

    de Lopes e Rosso, discordo da avaliao do MEC. Acerca do ttulo de Frota-Pessoa,

    discordo fortemente da avaliao positiva realizada pelo MEC.

    Como entender a discrepncia entre as avaliaes? Uma primeira explicao

    vem do fato de que algumas categorias, como IH1 e IH2, foram identificadas por mim

    em exerccios, os quais, conjeturo, passaram despercebidos pelos avaliadores do MEC.

    Mas essa discrepncia pode ter razes mais profundas, na prpria concepo sobre raa

    por parte dos avaliadores. No caso do livro de Frota-Pessoa, por exemplo, a avaliao

    positiva do MEC, no fundo, encontra-se em sintonia com o discurso do autor do livro,

    uma vez que so utilizadas expresses tal como diversidade racial (BIOLOGIA:

    catlogo do PNLEM, 2006, p. 94).

    Adiciona-se a isso, a meno a povos ou elementos indgenas no texto do

    PNLEM (ibid., p. 40), porque se ope ao que preconizam os PCN+ acerca da diviso da

    populao em raas. Outro problema: a denominao diversidade tnica (ibid., p. 40)

    ser um eufemismo para raas ou ser relativa a valores culturais? Se esta segunda

    probabilidade corresponder ao que preconiza o excerto, questiono se um livro de

    Biologia deve se referir a diversidades culturais.

    Consideraes finais

    Defendo que o currculo de Biologia no ensino mdio deva desenvolver os

    seguintes pontos:

    A espcie humana, mesmo apresentando grande diversidade fenotpica,

    geneticamente una e indecomponvel em subgrupos, o que se contrape a uma

    viso tipolgica de raas;

    O estudo de ancestralidade gentica de populaes humanas (envolvendo DNA

    mitocondrial e nuclear) mostra que os caracteres aparentes (fenotpicos) no so

    adequados para dividir a populao em tipos raciais.

    incorreto relacionar grupos culturais (tnicos) a raas humanas, uma vez que

    estas so inexistentes para a Biologia. De modo anlogo, inadequado o uso do

    termo etnia como sinnimo ou eufemismo para raa humana;

    A populao do Brasil, formada pela miscigenao de vrios grupos

    populacionais migratrios, una e indecomponvel em subgrupos raciais, tal

    como a populao humana global.

  • 121

    Historicamente, o conceito cientfico de raa foi utilizado como justificativa

    ideolgica e poltica para dominao de certos grupos humanos sobre outros,

    incluindo episdios racistas e eugnicos.

    Concluo vislumbrando algumas perspectivas de pesquisa a partir das concluses

    desta dissertao: Os resultados se manteriam caso fosse expandida a anlise para os

    outros ttulos recomendados pelo PNLD? E se a investigao inclusse outros livros

    didticos recentes de Biologia, incluindo livros estrangeiros? Quais seriam os resultados

    de pesquisa qualitativa que investigasse as categorias de raas humanas e raas

    biolgicas em livros de Histria Natural e Biologia ao longo do sculo 20? As

    categorias de raa humana e raas biolgicas observadas nos livros didticos seriam

    semelhantes s categorias que emergissem da anlise de revistas de divulgao

    cientfica como Superinteressante, Galileu, Cincia Hoje e Scientific American Brasil?

    Que resultados seriam encontrados se fosse realizada uma investigao sobre

    exposies montadas em espaos de educao no formal, como museus e centros de

    cincia? Como poderiam ser desenvolvidos trabalhos formativos interdisciplinares,

    envolvendo Biologia, Cincias Sociais e a rea de Cdigos e Linguagens, em relao s

    concepes histricas de raas humanas e de etnias? Em que medida movimentos

    polticos, orientaes oficiais e informaes veiculadas na grande mdia causam

    impacto no desenvolvimento de currculos de Biologia para o nvel mdio no que se

    refere a Gentica e conceitos histricos de raas humanas?

  • 122

    6 Obras citadas

    ALMEIDA JNIOR, A. Biologia Educacional: Noes fundamentais. 19. ed. rev. e

    aum. So Paulo: Companhia Editora Nacional, 1966. (Atualidades pedaggicas, 35).

    AMORIM, Dalton de S. Fundamentos de Sistemtica Filogentica. Ribeiro Preto:

    Holos, 2002.

    BAMSHAD, Michael J.; OLSON, Steve E. Does race exist? Scientific American, v.

    289, n. 6, p. 78-85, September 2003.

    BARBUJANI, Guido. A inveno das raas. So Paulo: Contexto, 2007.

    BELK, Colleen; BORDEN, Virginia. Biology: Science for Life with Physiology. 2. ed.

    Upper Saddle River: Pearson/Prentice Hall, 2007.

    BIOLOGIA: catlogo do Programa Nacional do Livro para o Ensino Mdio:

    PNLEM/2007. Secretaria de Educao Bsica, Fundo Nacional de Desenvolvimento da

    Educao. Braslia: Ministrio da Educao, Secretaria de Educao Bsica, 2006.

    ________. catlogo do Programa Nacional do Livro para o Ensino Mdio:

    PNLEM/2007. Secretaria de Educao Bsica, Fundo Nacional de Desenvolvimento da

    Educao. Braslia: Ministrio da Educao, Secretaria de Educao Bsica, 2006.

  • 123

    [verso em arquivo pdf]. Disponvel em:

    Acesso em: 26 maio 2006.

    BRAUN, Lundy; FAUSTO-STERLING, Anne; FULLWILEY, Duana; HAMMONDS,

    Evelynn M.; NELSON, Alondra et al. Racial Categories in Medical Practice: How

    Useful Are They? PLoS Medicine v. 4 n. 9, p. 1423-1428, Sept. 2007. Disponvel em:

    Acesso em: 01 outubro 2007.

    BSCS [Biological Sciences Curriculum Study]. Biologia. [texto adaptado pela equipe da

    FUNBEC, com a colaborao dos Centros de Treinamento de Professores de Cincias]

    So Paulo: EDART, Fundao Brasileira para o Desenvolvimento do Ensino de

    Cincias, 1976. 3 v. (BSCS. Verso Verde).

    CAMPAGNE, E. M. Diccionario Universal de Educao e Ensino. Util mocidade de

    ambos os sexos, s mes de familia, aos professores, aos directores e directoras de

    collegios e aos alumnos que se preparam para exame, contendo o mais essencial da

    sabedoria humana e toda sciencia quotidianamente applicavel, especialmente ao ensino

    [trasladado a portuguez e ampliado ... por Camillo Castello Branco] Porto: Ernesto

    Chardron, 1886. 3 v.

    CLMENT, Pierre; BERNARD, Sandie; QUESSADA, Marie-Pierre; ROGERS, Crane;

    BRUGUIRE, Catherine. Different theorethical backgrounds for different didactical

    analyses of biology school textbooks. In: ESERA - European Science Education

    Research Association Conference. 2005, Barcelona. Anais... 1 CD-ROM.

    COON, Carleton, S. The Origin of Races. New York: Alfred A. Knopf, 1962.

    DVILA, Jerry. As relaes entre raa e estado no Brasil: contribuies para discusso

    no Ensino de Biologia. In: MARANDINO, Martha; SELLES, Sandra Escovedo;

    FERREIRA, Marcia Serra; AMORIM, Antonio Carlos (orgs.) Ensino de Biologia:

    conhecimentos e valores em disputa. Niteri: EdUFF, 2005. p. 15 a 36.

  • 124

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    didticos de cincias: proposta de um instrumento de anlise. In: ENPEC Encontro

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  • 131

    7 Apndices

    7.1 Tabela de locais de ocorrncia de categorias nos livros: Categoria Local de ocorrncia L1 Classificao (taxonomia e sistemtica), raas geogrficas, subespcies L2 Introduo Gentica, histria da Gentica L3 Variabilidade de fentipos L4 Herana polignica (de cor da pele, de cor dos olhos, de tipo de cabelo) L5 DNA mitocondrial relacionado a processos evolutivos L6 Gentica de populaes (inclui a populao humana) L7 Malria e siclemia (anemia falciforme) relacionadas aos negros da frica77 L8 Histrico das teorias evolutivas L9 Projeto genoma humano L10 Evoluo humana (inclui primatas antropides e homindeos fsseis) L11 Primeira lei de Mendel monoibridismo L12 Histologia melancitos e pigmentao da pele e cabelos humanos L13 Segunda lei de Mendel segregao independente de genes, polialelia,

    genes letais, herana e sexo, gentica posterior a Mendel L14 Aplicaes da Gentica, Biotecnologia, Engenharia gentica, clonagem,

    melhoramento gentico (que no seja por seleo artificial e cruzamentos controlados)

    L15 Expresso gnica: transcrio e traduo L16 Teoria moderna ou sinttica da evoluo, processos de especiao L17 Origem das espcies e evoluo dos grandes grupos de seres vivos,

    evidncias da evoluo L18 Sumrio ou ndice L19 ndice remissivo L20 Introduo ao livro e sua estrutura (unidades, captulos, etc), proposio de

    atividades prticas

    77 Este um item relativo categoria L16, mas, como relevante isoladamente, foi considerado como categoria de local.

  • 132

    7.2 Tabelas de ocorrncias das categorias por livro 7.2.1 Adolfo, Crozetta e Lago (2005):

    Pgina Categoria Local Nmero de

    ocorrncias Forma de ocorrncia

    282 FB L4 ** Texto principal, duas tabelas cor da pele em humanos

    284 FB L4 * Exerccio Um estudante de 23 anos, [...], moreno, [...]

    288 TC1 L8 * Texto principal A. R. Wallace e variedades

    292 TC1 L8 * Legenda de fotos de Biston betularia

    293 TC1/PE1/TC2 L16 ***/**/* Colagem de fotos / texto principal / texto principal / ilustrao isolamento reprodutivo

    294 TC1/PE1 L16 */* Texto principal isolamento e formao de raas geogrficas

    299 FB/TC1/TC3/IH1/IH2 L16 */*/*/******/* Exerccio racismo injustificado, questes histricas, racismo e discriminao, eugenia

  • 133

    7.2.2 Biologia: ensino mdio, volume nico Laurence (2005):

    Pgina Categoria Local Nmero de vezes

    Forma de ocorrncia

    216 FB/TC2 L12 */* Quadro com intertexto Pele, unha e cabelo fatores raciais

    524 TC1 L10 * Texto principal Homo sapiens neanderthales (sic)

    535 IH1 L10 ** Quadro Darwinismo social 595 TC1 L2 ** Texto principal linhagens puras 596 TC1 L11 ** Texto principal linhagens puras 597 TC1 L11 ****** Texto principal/Esquema linhagens

    puras 598 TC1 L11 *** Texto principal linhagens puras 605 TC1 L11 ** Texto principal/fotos e legenda raa

    de gado shorthorn 609 TC1 L11 *** Exerccios - linhagens 625 TC1 L13 *** Quadro/foto com legenda raas e

    variedades 627 PE1 L13 * Exerccio seleo artificial em ces 631 FB L4 ** Texto principal/foto e legenda

    herana da cor da pele humana 632 FB L4 ****** Texto principal/tabela herana da cor

    da pele humana 641 TC2/AC/IH1 L9 */*/* Quadro com intertexto Genoma:

    desafios filosficos para nossa gerao

    643 FB L4 * Exerccio herana da cor da pele humana

    652 TC1/PE1 L14 */* Texto principal melhoramento gentico e obteno de variedades

    653 TC1 L14 * Texto principal variedades transgnicas vegetais

    659 TC1 L14 * Exerccio variedade de algodo transgnico

    660 TC1 L14 * Exerccio raa de gado nelore 679 FB L8 * Foto e legenda variabilidade

    fenotpica na espcie humana 681 TC1/PE1 L8 */* Foto e legenda raa de gado belgian

    blue 685 e 686 PE1 L8 ** Texto principal e esquema com legenda

    especiao e isolamento geogrfico

  • 134

    7.2.3 Linhares e Gewandsznajder (2005):

    Pgina Categoria Local Nmero de vezes

    Forma de ocorrncia

    95 TC3/TC2 L9 */* Texto principal inexistncia de raas humanas; ancestralidade genmica

    140 TC1 L1 * Texto principal subespcies animais 142 TC1 L1 ** Exerccio subespcies animais 370 TC1 L1 * Exerccio galinhas da raa andaluza 378 TC1 L11 * Quadro variedades de plantas, ces etc 393 FB L4 ** Tabelas fentipos de pele humana 397 FB L4 * Exerccio fentipos de pele humana 398 TC1 L1 * Exerccio ces da raa labrador 422 TC1/PE1 L8 */* Fotos e legenda ces das raas dlmata,

    pointer e chinese crested toy 425 TC1/PE1 L8 */* Texto principal raas geogrficas ou

    subespcies; isolamento geogrfico 430 TC1 L8 * Quadro Biologia e Histria

    variedades e A. R. Wallace 432 TC1/PE1 L8 */* Exerccio especiao e formao de

    raas 445 TC1 L10 * Texto principal Homo sapiens

    neanderthalensis 446 TC1 L10 * Texto principal Homo sapiens sapiens 447 FB/TC1/TC3/IH1/IH2 L10 */*/*/***/** Quadro Biologia e Sociedade 449 PE2 L10 * Exerccio especiao e isolamento

    geogrfico

  • 135

    7.2.4 Lopes e Rosso (2005):

    Pgina Categoria Local Nmero de

    ocorrncias Forma de ocorrncia

    181 TC1 L1 * Texto principal - subespcie 190 TC1 L1 * Exerccio - subespcie 431 TC2/AC L9 */* Quadro Genoma _ o que e o que tem sido

    feito raa e etnia humana 446 TC1 L11 * Texto principal raa de gado 463 TC1 L13 * Exerccio raa animal 465 TC1 L13 * Exerccio laranja da baa (variedade

    triplide) 469 FB L4 **** Texto principal e esquema fentipos de

    cor de pele 496 TC1 L14 * Texto principal raas de ces e gatos 501 TC1 L14 ** Texto principal raas de ovelha 503 AC/TC2/PE2 L14 */***/* Texto principal judeus ashkenazim,

    caucasianos, afro-americanos 515 TC1 L8 ** Texto principal ttulo do livro de Darwin;

    raas de ces e gatos 533 TC1 L10 * Texto principal Homo sapiens

    neanderthalensis 534 TC1 L10 * Texto principal Homo sapiens sapiens 536 TC1 L6 ** Quadro Texto para discusso variedades

    de milho, trigo, soja, tomate; raas puras de ces

    537 PE2 L6 * Exerccio meios de locomoo diminuindo ou eliminando isolamento geogrfico em Homo sapiens

  • 136

    7.2.5 Biologia: volume nico Soares (1997):

    Pgina Categoria Local Nmero de

    ocorrncias Forma de ocorrncia

    5 TC2 L18 * Sumrio O gene pool das populaes [humanas]

    344 TC1 L1 *** Texto principal denominao trinomial para subespcie; ex. das subespcies de ema (Rhea)

    233 TC1 L13 * Texto principal raa de gado Polled angus

    242 TC1 L13 * Texto principal raa de gado sueca Lowland

    246 FB/TC2 L4 */* Quadro - Polialelia em cor da pele humana. Legenda cor da pele como trao tnico

    249 TC1 L4 ** Exerccios raa de galinha Leghorn; raa de ces cocker spaniel

    264 TC2 L6 ** Texto principal raas negra, branca, monglica associadas ao conceito de gene pool. Figura com legenda grupos tnicos humanos

    281 FB L8 * Fotografia com legenda indivduos da espcie humana com diferentes fentipos

    283 PE1/TC1 L8 */* Texto principal carneiros da raa ancon, derivada por seleo artificial. Foto com legenda raa ancon

    284 FB/PE2/IH2 L8 */*/* Texto principal mutacionismo mutaes que originaram olhos azuis e cabelos louros como bastante interessantes (sic) para a espcie humana

    287 PE1/TC1 L16 */* Texto principal segregao artificial de animais domsticos e plantas para obter ou procriar variedades. Figura com legenda isolamento reprodutivo e raas de gatos, ces e plantas.

    287 TC1/PE1/PE2/TC2 L10 */*/*/* Texto principal desenvolvimento de grupos tnicos pelos fatores evolutivos. Figura com legenda isolamento e aparecimento de grupos tnicos e sua posterior miscigenao

    294 TC1/PE1 L17 */* Texto principal variedades de banana e de trigo

    298, 299 e 302

    TC1 L10 ***** Figuras com legenda subespcies Homo sapiens sapiens, Homo sapiens neanderthalensis, Homo sapiens rhodesiensis

    443 TC1 L11 * Exerccio raa de galinhas andaluza 444 TC1 L13 * Exerccio raas de cavalos

  • 137

    446 TC1 L13 * Exerccio raa de gado Shorthorn 446 FB L13 * Exerccio genes na espcie humana para

    cabelos escuros ou claros; lbios grossos ou finos; nariz largo ou afilado; [...]

    453 TC1 L13 * Exerccio raas de galinha 453 FB L4 * Exerccio cor da pele: casamento entre

    mulatos mdios 454 TC1 L13 * Exerccio variedades de aveia 455 TC1 L13 * Exerccio raa de galinhas Leghorn 467 TC1/PE1 L16 */* Exerccio raas isoladas

    geograficamente; cruzamentos inter-raciais

    468 TC1 L10 * Exerccio Homo sapiens heidelbergensis

    479 e 480

    TC1 L1 ** Exerccios nomenclatura trinomial (subespcie)

  • 138

    7.2.6 Biologia Amabis e Martho (2004), volume 3:

    Pgina Categoria Local Nmero de

    ocorrncias Forma de ocorrncia

    2 TC1/PE1 L2 */* Texto principal seleo produzindo variedades de animais e plantas domsticos

    19 TC1/PE1 L11 **/* Quadro Quem foi Gregor Mendel? hibridizao com variedades de ervilhas

    25 TC1 L11 ** Texto principal linhagens de coelhos 26 TC1 L11 *** Texto principal / esquema linhagens de

    coelhos 32 TC1 L11 * Exerccio linhagens puras de ervilha 33 FB L11 ** Texto principal fentipos de cor de pele

    e textura de cabelo humanos 34 FB/TC1 L11 **/** Texto principal / foto com legenda

    fentipos humanos ao lado de ces de raas diferentes

    38 TC1 L11 * Texto principal raa de galinhas andaluza

    39 TC1 L11 * Esquema raa de galinhas andaluza 42 TC1 L11 ** Texto principal raa de galinhas

    andaluza 44 TC1 L11 * Texto principal ces da raa beagle 45 TC1 L11 * Ilustrao com legenda ces da raa

    beagle 58 TC1 L11 * Exerccio raa de gado shorthorn 63 TC1 L13 * Foto com legenda variedades de milho 74 TC1 L13 ** Texto principal raas e linhagens puras

    de galinhas 75 TC1 L13 **** Texto principal linhagens puras de

    galinhas 79 TC1 L13 *** Texto principal linhagens e raa de ces

    labrador 80 TC1 L13 * Foto com legenda raa de ces labrador 84 TC1/FB L13/L4 **/* Texto principal linhagens puras de trigo /

    fentipos de pele humana: negro, mulato-escuro, etc

    86 TC1 L13 * Quadro variedades de cevada 86 a 88 FB/TC2 L13 */** Quadro Gentica da cor dos olhos na

    espcie humana 89 TC1/PE1 L13 **/** Quadro com intertexto melhoramento

    gentico de vegetais 90 TC1/FB L13 */* Exerccios raa de ces labrador /

    diferentes cores de olhos em humanos 92 TC1 L13 * Exerccio variedades puras de ervilha 109 TC1 L13 * Exerccio linhagem de coelhos 127 TC1 L13 * Quadro com intertexto linhagens puras

    de abelhas

  • 139

    129 TC1 L13 * Exerccio linhagens puras em animais 155 TC1 L15 * Exerccio linhagens puras em animais 157 TC1 L14 ******** Texto principal / duas fotos com legenda

    raas de ces; variedades de couve, brcolis, etc

    158 TC1 L14 ******** Texto principal / foto com legenda raas de gado; variedades de milho

    159 TC1 L14 ******* Texto principal / quadro com foto e legenda Origem e propagao da laranja-da-baa

    160 TC1 L14 ** Texto principal linhagens e endogamia em plantas

    161 TC1 L14 *********** Texto principal / duas fotos com legenda definio de raa pura; ces da raa dachmund; variedades de vegetais

    173 TC1 L14 ** Texto principal variedades transgnicas de soja e de milho

    179 TC1 L14 ** Exerccios linhagens de animais 184 e 186

    TC1 L8 ** Texto principal e foto ttulo do livro de Darwin: On the origin [...] favoured races [...] raas favorecidas [...]

    189 TC1/PE1 L8 */* Texto principal evoluo em Galpagos com origem de variedades e espcies

    190 TC1/PE1 L8 ***/*** Texto principal / fotos e legenda / figura e legenda seleo artificial produzindo variedades ou raas de animais domsticos

    209 FB L16 * Foto com legenda variabilidade gnica na espcie humana e nfima diferena gentica entre pessoas

    219 PE2/PE3 L7 */* Texto principal anemia falciforme e populaes negra e afro-americana descendentes

    220 e 221

    TC1/PE1 L16 ********/** Texto principal linhagens de insetos

    230 AC/PE3 L16 */** Texto principal / esquema com legenda princpio do fundador, comunidades religiosas Dunker

    243 TC1 L17 ** Texto principal / foto com legenda conceito tipolgico de espcie e representantes tpicos de espcie ou raa; raas de ces

    244 TC1/PE1 L17 *******/** Texto principal / esquema com legenda definio de subespcies ou raas

    278 PE2 L10 * Quadro Os neandertalenses corpo e membros curtos e compactos como adaptao ao clima frio da Europa

    282 e 283

    PE2 L10 * Intertexto Homo floriensis como resultado de isolamento geogrfico e evoluo lamarckista [!]

  • 140

    7.2.7 Biologia Frota-Pessoa (2005). Volume 3: Pgina Categoria Local Nmero de

    ocorrncias Forma de ocorrncia

    8 FB L20 * Ilustrao com legenda reproduo da pintura Operrios

    51 Texto existente na edio anterior projeto Miscigenao brasileira

    75 TC1 L2 ** Texto principal vida de Mendel raas de milho e de ervilha

    84 e 85

    FB L4 ** Texto principal e esquema cor da pele em humanos

    101 IH1 ** Texto principal comentrio histrico sobre racismo e leis anti-racistas

    103 TC2/PE3 */* Texto principal siclemia em negros oriundos de regies de malria endmica na frica

    113 TC1/PE1 */* Texto principal seleo artificial originado raas ou cultivares de plantas

    114 TC1/PE1 **/* Texto principal cruzamentos entre raas de gado

    116 TC1 * Foto e legenda raa de galinha 120 TC1 * Texto principal hbridos e raas

    puras de galinha 122 PE2 * Texto principal diferenas

    genticas significantes entre humanos e neandertalenses, de modo que no seriam raas da mesma espcie

    128 e 129

    PE1 ** Texto principal reconhecimento de vrias espcies de roedores por j terem ultrapassado o nvel de raas

    136 PE1/PE2 */* Texto introdutrio ( unidade 5) macroevoluo como processo que cria raas, espcies, gneros e grupos maiores a partir de uma nica espcie

    146 TC1/PE1 */* Texto principal raas de galinha 147 TC1/TC2/PE1/PE2 */*/*/* Texto principal raas e

    especiao em geral; raas humanas e princpio de Hardy-Weinberg

    148 TC2/PE2/PE3 **/**/*** Texto principal deriva gentica; raas humanas e princpio de Hardy-Weinberg; populao amerndia da Amrica do Sul formando raas

  • 141

    149 TC2/PE1/PE2/PE3 **/*/*/* Texto principal imigrao de europeus e africanos e raas indgenas produzindo uma raa brasileira;barreiras geogrficas e migraes e animais e plantas

    151 PE1 * Texto principal raas e especiao

    152 TC1 ** Texto principal definio do conceito de raa (animal); fotos (com legenda) de raas de ces

    153 TC1/PE1 */* Texto principal definio de raas geogrficas

    153 TC2/PE2/AC ****/*/* Texto principal reconhecimento de raas humanas por diferenas genticas; raas humanas como estgios da evoluo; conceito de etnia

    153 TC1/TC2/PE1 ***/****/* Texto principal diviso da humanidade em raas, tal como ocorre com as demais espcies; nomenclatura trinomial de subespcie (raa geogrfica)

    154 TC2 **** Texto principal populaes da Itlia, Grcia e da Escandinvia como raas diferentes

    154 TC2/PE2/PE3 ********/*/* Texto principal raa caucaside, raa nrdica; raciao como mecanismo de especiao, o que no ocorreu com humanos; migraes; tronco racial mongolide, raa brasileira, raa argentina

    154 e 155

    IH1 *** Texto principal racismo e atitudes racistas; solidariedade e antagonismo (instintos agressivos) com base gentica

    155 TC1/TC2/PE1/IH2 ***/**/*/* Texto principal na espcie humana, h raas naturais que no so puras; analogia entre seleo artificial em animais e uma inadmissvel seleo artificial em humanos

    155 e 156

    TC1/TC2/PE1/PE2/PE3

    *****/****/**/*/*

    Texto principal / foto com legenda raciao como mecanismo de especiao; miscigenao entre raas humanas

    157 PE1 * Texto principal estudo de populaes de papagaios, araras e similares por meio de anlise de DNA mitocondrial

  • 142

    159 TC1 * Texto principal raas animais e variedades vegetais

    162 PE1 * Texto principal seleo natural e influncia do clima

    165 TC1/PE1 */* Texto principal seo A cincia em marcha Darwin e seleo artificial

    166 e 167

    TC2/IH1/IH3 ******/***/** Seo A cincia em marcha intertexto O problema racial no Brasil, democracia racial

    186 TC2/PE2/PE3 **/**/** Texto principal isolamento e fluxo gnico e as raas amerndias e populaes monglicas

    187 TC2/PE3 */** Texto principal invaso europia 191 PE3 * Texto principal princpio do

    fundador em ilha do Maranho 230 IH1 * Texto introdutrio - racismo 258 TC2/PE2/PE3 **/*/** Texto principal migrao de

    mongolides (adaptados ao clima frio) originando indgenas

    260 TC2 * Seo A cincia em marcha intertexto raas primitivas em Homo sapiens

    264 TC2/PE2/AC */**/* Texto principal esquims tendo adaptaes genticas ao frio, e adaptaes culturais (iglus)

    265 IH1 ** Texto principal racismo 268 e 269

    TC3/PE3 */* Texto principal populao humana originada da frica e com limitada diversidade gentica

    273 e 277

    TC1 * Glossrio definies de etnia e de raa

    286 TC1/TC2/PE1 */*/* Exerccio teoria de Darwin e raas de animais versus raas humanas

    304 TC1/PE1 **/* ndice remissivo raa, raa geogrfica, raciao

  • 143

    8 Anexos

    Anexo 1. (stio BBC Brasil, 2007).

  • 144

    Anexo 2. (revista Veja, 6 de junho de 2007).

  • 145

    Anexo 3. (Caderneta de Sade da Criana, 2006).

  • 146

    Anexo 4. (Caderneta de Sade da Criana, 2006).

  • 147

    Anexo 5. (CAMPAGNE, 1886).

  • 148

    Anexo 6. (CAMPAGNE, 1886).

  • 149

    Anexo 7. (COON, 1962, plate VII).

  • 150

    Anexo 8. (COON, 1962, plate VI).

  • 151

    Anexo 9. (revista Veja, 20 de dezembro de 2000).

  • 152

    Anexo 10. (revista Veja, 20 de dezembro de 2000).

  • 153

    Anexo 11. (revista Veja, 6 de junho de 2007).

  • 154

    Anexo 12. (revista Raa Brasil, agosto de 2007).

  • 155

    Anexo 13. (ALMEIDA JNIOR, 1966, p. 76).

  • 156

    Anexos 14 e 15. (LANGLEBERT).

  • 157

    Anexo 16. (TERRA ILLUSTRADA).

  • 158

    Anexo 17. (TERRA ILLUSTRADA).

  • 159

    Anexo 18. (HISTORIA NATURAL FTD, 1924).

  • 160

    Anexo 19. (HISTORIA NATURAL FTD, 1924).

  • 161

    Anexo 20. (MELLO-LEITO, 1933).

  • 162

    Anexo 21. (MELLO-LEITO, 1933).

  • 163

    Anexo 22. (BSCS, 1976).

  • 164

    Anexo 23. (O GLOBO, 25 de setembro de 2007).

  • 165

    Anexo 24. (SCIENTIFIC AMERICAN, setembro e August, 2007).

  • 166

    Anexo 25. (SCIENTIFIC AMERICAN, setembro e August, 2007).

  • 167

    Anexo 26. (AMABIS e MARTHO, 1994, p. 285 e 286).

  • 168

    Anexo 27. (AMABIS e MARTHO, 1983, p. 231).

    Anexo 28. (AMABIS e MARTHO, 1983, p. 252).

  • 169

    Anexo 29. (FROTA-PESSOA, 1972, p. 587).

  • 170

    Anexo 30. (FROTA-PESSOA, 1972, p. 588).

  • 171

    Anexo 31. (FROTA-PESSOA, 1972, p. 577).

    Anexo 32. (FROTA-PESSOA, 1972, p. 575).