Quintana, Mario - II

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    01-Feb-2016

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Quintana

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************************************************************* =========================================================== MRIO QUINTANA =========================================================== ************************************************************* PEQUENO POEMA DIDTICO O tempo indivisvel. Dize Qual o sentido do calendrio? Tombam as folhas e fica a rvore, Contra o vento incerto e vrio. A vida indivisvel. Mesmo A que se julga mais dispersa E pertence a um eterno dilogo A mais inconseqente conversa. Todos os poemas so um mesmo poema, Todos os porres so o mesmo porre, No de uma vez que se morre... Todas as horas so extremas... E todos os encontros so adeuses! ========================================================= Eu agora que desfecho J nem penso mais em ti Mas ser que nunca deixo De lembrar que te esqueci? ========================================================= Da vez primeira em que me assassinaram Perdi um jeito de sorrir que eu tinha... Depois, de cada vez que me mataram, Foram levando qualquer coisa minha... E hoje, dos meus cadveres, eu sou O mais desnudo, o que no tem mais nada... Arde um toco de vela amarelada... Como o nico bem que me ficou! Vinde, corvos, chacais, ladres da estrada! Ah! Desta mo, avaramente adunca, Ningum h de arrancar-me a luz sagrada! Aves da Noite! Asas do Horror! Voejai! Que a luz, trmula e triste como um ai, A luz do morto no se apaga nunca! ========================================================= DAS UTOPIAS Se as coisas so inatingveis... ora! no motivo para no quere-las... Que tristes os caminhos, se no fora a mgica presena das estrelas! ========================================================= POEMINHA DO CONTRA Todos esses que a esto Atravancando o meu caminho, Eles passaro... eu passarinho! ========================================================= DA INQUIETA ESPERANA Bem sabes Tu, Senhor, que o bem melhor aquele Que no passa, talvez, de um desejo ilusrio. Nunca me d o Cu... quero sonhar com ele Na inquietao feliz do Purgatrio. ========================================================= POEMA O grilo procura no escuro o mais puro diamante perdido. O grilo com suas frgeis britadeiras de vidro perfura as implacveis solides noturnas. E se o que tanto buscas s existe em tua lmpida loucura - que importa? - isso exatamente isso o teu diamante mais puro! ========================================================= Minha morte nasceu quando eu nasci. Despertou, balbuciou, cresceu comigo... E danamos de roda ao luar amigo Na pequenina rua em que vivi. J no tem mais aquele jeito antigo De rir e que, ai de mim, tambm perdi! Mas inda agora a estou sentindo aqui, Grave e boa, a escutar o que lhe digo: Tu que s minha doce Prometida, Nem sei quando sero as nossas bodas, Se hoje mesmo... ou no fim de longa vida... E as horas l se vo, loucas ou tristes... Mas to bom, em meio s horas todas, Pensar em ti... saber que tu existes! ========================================================= PRA QUE PARTIR? Estou sentado sobre a minha mala No velho bergantin desmantelado... Quanto tempo, meu Deus, malbaratado Em tanta intil, misteriosa escala! Joguei a minha bssola quebrada s guas fundas... E afinal sem norte, como o velho Simbad de alma cansada, Eu nada mais desejo, nem a morte... Delcia de ficar deitado ao fundo do barco a vos olhar, velas paradas! Se em toda parte sempre o Fim do Mundo Pra que partir? Sempre se chega, enfim... Pra que seguir emps das alvoradas se, por si mesmas, elas vm a mim? ========================================================= COMUNICAO ... mas a Grande Mensagem - quem diria? Era mesmo a daquele profeta que todos pensaram que fosse um louco S porque saiu desfilando nu pelas ruas, Com um enorme cartaz inteiramente em branco... ========================================================= A PRIMEIRA AVENTURA O corpo se esfez na terra: o sopro que Deus lhe dera est livre como o vento. Nunca pensou que pudesse andar por tantas lonjuras como anda o pensamento. Mas no era de turismos... Voltou, ficou por ali... leu o resto de uma pgina que deixara interrompida... Sentou no topo da escada. Sentou beira da estrada. Morte - que grande estopada! At que um Anjo Glorioso passou olhou no viu nada ... um anjo to esplendente que a prpria luz o cegava! ========================================================= DA FALTA DE TROCO Quase nunca ao mais alto dos talentos Um prtico sucesso corresponde: Se s tens uma nota de quinhentos Como conseguirs andar de bonde? ========================================================= DAS PENAS DE AMOR s por teu egosmo impenitente Que o sentimento se transforma em dor. O que julgas, assim, penas de amor, So penas de amor prprio, simplesmente... ========================================================= DO RISO As setas de ouro de teu riso inflige sombra que te quer amedrontar. Um canto muros erige; Um riso os faz desabar. ========================================================= DA OBSERVAO No te irrites, por mais que te fizerem... Estuda a frio, o corao alheio. Fars, assim, do mal que eles te querem, Teu mais amvel e sutil recreio... ========================================================= A OFERENDA Eu queria trazer-te uns versos muito lindos... Trago-te estas mo vazias Que vo tomando a forma do teu seio. ========================================================= NOTURNO Os grandes animais invisveis e silenciosos da insnia Vigilam meu corpo para me devassarem. Adivinho que so felinos por sua incansvel pacincia. Enfaixo-me de medo como um fara em seus panos morturios. Inteis conchas acsticas Os meus ouvidos tm no escuro a angustiosa forma de um ponto de interrogao. Mas ainda escuto. At o grande relgio-de-pndulo parou. O tempo est morto de p dentro dele como um chefe asteca. Tento imaginar-lhe o rosto cheio de rugas como o solo gretado de um deserto. Os felinos farejam-me... Antes eu estivesse morto e no sentiria nada... Mas A primeira coisa que um morto faz depois de enterrado abrir novamente os olhos... Como que eu sei disso, meu Deus?! To fcil acender a luz... Estendo a mo Para a lmpada de cabeceira e toco Uma parede fria mida Musgosa... ========================================================= A ADOLESCENTE Arvorezinha crescendo crescendo at brotarem dois pomos... ========================================================= LIBERTAO A morte a libertao: A morte quando a gente pode, afinal, Estar deitado de sapatos... ========================================================= O AUTO-RETRATO No retrato que me fao - trao a trao - s vezes me pinto nuvem, s vezes me pinto rvore... s vezes me pinto coisas de que nem h mais lembrana... ou coisas que no existem mas que um dia existiro. e, desta lida em que busco - pouco a pouco - minha eterna semelhana, no final, que restar? Um desenho de criana... Corrigido por um louco! ========================================================= Recordo ainda... E nada mais me importa... Aqueles dias de uma luz to mansa Que me deixavam, sempre, de lembrana, Algum brinquedo novo minha porta... Mas veio um vento de Desesperana Soprando cinzas pela noite morta! E eu pendurei na galharia torta Todos os meus brinquedos de criana... Estrada a fora, aps segui... Mas, ai, Embora idade e senso eu aparente, No vos iluda o velho que aqui vai: Eu quero os meus brinquedos novamente! Sou um pobre menino... acreditai... Que envelheceu, um dia, de repente!... ========================================================= MUNDOS Um elevador lento e de ferragens Belle poque me leva ao antepentimo andar do Cu, cheio de espelhos baos e de poltronas como o hall de qualquer um antigo Grande Hotel, mas deserto, deliciosamente deserto de jornais falados e outros fantasmas da TV, pois s se v ali, o que ali se v e s se escuta mesmo o que est bem perto: um mundo nosso, de tocar com os dedos, no este - onde a gente nunca est, ao certo, no lugar em que est o prprio corpo mas noutra parte, sempre do lado de l! no, no este mundo - onde um perfil paralelo ao outro e onde nenhum olhar jamais se encontrar... ========================================================= IMPOSSVEL Impossvel fazer um poema neste momento. No, minha filha, eu no sou a msica - sou o instrumento. Sou, talvez dessas mscaras ocas num arruinado momento: empresto palavras loucas voz dispersa do vento... ========================================================= UM DIA ACORDARS Um dia acordars num quarto novo sem saber como foste para l e as vestes que achars ao p do leito de to estranhas te faro pasmar, a janela abrirs, devagarinho: far nevoeiro e tu nada vers... Hs de tocar, a medo, a campainha e, silenciosa a porta se abrir. E um ser, que nunca viste, em um sorriso triste, te abraar com seu maior carinho e h de dizer-te para o teu assombro: - No te assustes de mim, que sofro h tanto! Quero chorar - apenas - no teu ombro e devorar teus olhos, meu amor... ========================================================= AH, MUNDO Perdo! Eu distra-me ao receber a Extrema-Uno. Enquanto a voz do padre zumbia como um besouro eu pensava era nos meus primeiros sapatos que continuam andando - rotos e felizes! - por essas estradas do mundo. ========================================================= SONETO PSTUMO - Boa tarde... - Boa tarde! - E a doce amiga E eu, de novo, lado a lado, vamos! Mas h um no sei qu, que nos intriga: Parece que um ao outro procuramos... E, por piedade ou gratido, tentamos Representar de novo a histria antiga. Mas vem-me a idia... nem sei como a diga... Que fomos outros que nos encontramos! No h remdio: separar-nos, pois. E as nossas mos amigas se estenderam: - At breve! - Ate breve! - E, com espanto Ficamos a pensar nos outros dois. Aqueles dois que h tanto j morreram... E que, um dia, se quiseram tanto! ========================================================= DOS NOSSOS MALES A ns bastem nossos prprios ais, Que a ningum sua cruz pequenina. Por pior que seja a situao da China, Os nossos calos doem muito mais... ========================================================= ESTE QUARTO... Este quarto de enfermo, to deserto de tudo, pois nem livros eu j leio e a prpria vida eu a deixei no meio como um romance que ficasse aberto... que me importa esse quarto, em que desperto como se despertasse em quarto alheio? Eu olho o cu! imensamente perto, o cu que me descansa como um seio. Pois o cu que est perto, sim, to perto e to amigo que parece um grande olhar azul pousado em mim. A morte deveria ser assim: um cu que pouco a pouco anoitecesse e a gente nem soubesse que era o fim... ========================================================= OS DEGRAUS No desas os degraus do sonho Para no despertar os monstros No subas aos stos - onde Os deuses, por trs das suas mscaras, Ocultam o prprio enigma. No desas, no subas, fica O mistrio est na tua vida! E um sonho louco este nosso mundo... ========================================================= A IMAGEM E OS ESPELHOS Jamais deves buscar a coisa em si, a qual depende to-somente dos espelhos. A coisa em si nunca: a coisa em ti. Um pintor, por exemplo, no pinta uma rvore: ele pinta-se uma rvore. E um grande poeta - espcie de rei Midas sua maneira - um grande poeta, bem que ele poderia dizer: - Tudo o que eu toco se transforma em mim. ========================================================= QUEM AMA INVENTA Quem ama inventa as coisas que ama... Talvez chegaste quando eu te sonhava. Ento de sbito acendeu-se a chama! Era a brasa dormida que acordava... e era um revo sobre a ruinaria, No ar atnito bimbalhavam sinos Tangidos por uns anjos peregrinos Cujo dom fazer Ressurreies... Um ritmo divino? Oh! Simplesmente O palpitar de nossos coraes Batendo juntos e festivamente, Ou sozinhos, num ritmo tristonho... ! meu pobre, meu grande amor distante, Nem sabes tu o bem que faz gente Haver sonhado... e ter vivido o sonho! ========================================================= DE REPENTE Olho-te espantado: Tu s uma Estrela-do-Mar. Um minrio estranho. No sei... No entanto, O livro que eu lesse, O livro na mo. Era sempre o teu seio! Tu estavas no morno da grama, Na polpa saborosa do po... Mas agora encheram-se de sombra os cntaros E s o meu cavalo pasta na solido. =========================================================