protestantismo, imprensa, poltica e educao no brasil

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  • Revista Brasileira de Histria das Religies. ANPUH, Ano III, n. 7, Mai. 2010 - ISSN 1983-2850

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    PROTESTANTISMO, POLTICA E EDUCAO NO BRASIL: A

    PROPAGANDA DO PROGRESSO E DA MODERNIZAO

    Mariana Ellen Santos Seixas*

    RESUMO: Repensando as estratgias de consolidao do Protestantismo no Brasil, este artigo

    tem por objetivo identificar alguns dos principais setores da sociedade oitocentista que foram

    alvos de investidas de grupos proselitistas, enfatizando a importncia de personagens que, ainda

    na primeira metade do sculo XIX, antes de comear a "pregar", se esmeraram em garantir

    condies mnimas de sobrevida jurdica e institucional para os missionrios que chegariam nas

    dcadas seguintes. A princpio, tratarei da construo da relao direta entre protestantismo e

    progresso, uma propaganda poltica que conseguiu adeptos importantes; num segundo

    momento, mostrarei como as deficincias educacionais do Brasil, foram tomadas como um

    problema que poderia ser suprido pelas iniciativas protestantes; e, por fim, como a educao

    feminina esteve presente no peridico protestante de maior circulao, mostrando as mulheres

    como parte fundamental do processo de modernizao e moralizao do Brasil.

    Palavras-Chave: Protestantismo; Poltica; Educao.

    PROTESTANTISM, POLITICS AND EDUCATION IN BRAZIL: ADVERTISING OF

    PROGRESS AND MODERNIZATION

    ABSTRACT: Rethinking strategies for consolidation of Protestantism in Brazil, this article

    aims to identify some of the major sectors of the nineteenth-century society that have been

    targets of law with proselytizing groups, emphasizing the importance of characters who, in the

    first half of the nineteenth century, before starting to "preach", to great pains to ensure minimum

    conditions of survival legal and institutional framework for the missionaries who arrived in the

    decades following. At first, I will discuss the construction of the direct relationship between

    Protestantism and progress, an advertising policy that managed major supporters, subsequently,

    show how the educational deficiencies of Brazil, were taken as a problem that could be supplied

    by the Protestant initiatives, and on the Finally, as female education was present in the journal's

    largest Protestant movement, showing women as part of the process of modernization and

    moralization of Brazil.

    Key-Words: Protestantism; Politics; Education.

    Um panorama

    A historiografia do protestantismo brasileiro comumente afirma que os esforos

    proselitistas explcitos das Juntas de Misses organizadas por denominaes norte-

    americanas datam o incio de sua efetiva participao nos assuntos concernentes

    sociedade brasileira; e que estes assuntos giravam em torno da adoo de uma nova f e

    da transformao de comportamento como um fim em si mesmas.

    * Mestranda em Histria Social do Brasil / Universidade Federal da Bahia. E-mail:

    seixas.marianas@gmail.com

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    No entanto, partindo de uma interpretao da obra de David Gueiros Vieira, O

    Protestantismo, a Maonaria e a Questo Religiosa no Brasil (1980), e auxiliada por

    uma srie de artigos no vinculados diretamente historiografia do protestantismo,

    pretendo identificar as principais iniciativas polticas de James C. Fletcher, um

    "missionrio" presbiteriano, que tinha como objetivo converter o Brasil ao

    protestantismo e ao "progresso" (j que considerava que esta vertente da f crist era

    equnime ao desenvolvimento econmico, cientfico e tecnolgico) e identificar suas

    peculiaridades.

    Em termos tericos, Fletcher no se diferenciou da maioria dos missionrios e

    das lideranas protestantes que vieram para o Brasil em nmero considervel a partir de

    meados do sculo XIX. Sua diferena estava em termos prticos. Fletcher se aproximou

    e se tornou amigo ntimo de importantes figuras do cenrio poltico brasileiro, mantendo

    contato inclusive com o jovem imperador D. Pedro II. Sua influncia sobre esses

    personagens (que sero destacados no trabalho a ser escrito) foi a porta de entrada para

    a luta por uma srie de prerrogativas legislativas para os acatlicos no Brasil. Fletcher

    esteve envolvido em uma srie de episdios que confirmam que o seu "jeito" de pregar

    o protestantismo foi muito sutil, conquistando, num primeiro momento, aliados e no

    fiis.

    O trabalho enfatizar os esforos de Fletcher e seus amigos do Partido Liberal e

    da imprensa na luta pelo casamento civil, pelas liberdades de conscincia e religio e

    pela modernizao do Brasil, com o auxlio, evidentemente, da tecnologia

    estadunidense. possvel destacar as iniciativas para a concesso de licena para a

    abertura de uma linha de navegao a vapor Belm - Nova Iorque, como parte da recm

    adotada poltica estadunidense de estreitar os laos de amizade com o Brasil, e os

    preparativos para a Expedio Thayer, para a qual Fletcher fez extensa propaganda.

    Outro ponto fundamental do qual tratarei so os incentivos dos lderes e da

    imprensa protestante para melhorar as condies educacionais do pas, construindo

    escolas, investindo na imprensa, com especial ateno para a educao das mulheres;

    enfatizarei que todas essas iniciativas compem o projeto de inserir o Brasil no mundo

    moderno e civilizado, atravs da "religio verdadeira", da educao e das melhorias

    tcnicas, tecnolgicas e cientficas.

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    Insero protestante e crtica das mazelas do Brasil

    Desde as primeiras tentativas de inserir a ideologia protestante na sociedade

    brasileira, aspectos como a escravido e a educao se destacavam entre as mazelas que

    precisariam ser retiradas antes que o proselitismo surtisse efeito considervel.

    Missionrios de todas as denominaes ditas "histricas" metodistas, presbiterianos,

    batistas e congregacionais insistiam em suas prdicas e atravs dos meios de

    comunicao posteriormente criados que a sociedade brasileira sofria desses problemas

    crnicos em decorrncia de sua dependncia de sculos de instituies ligadas Igreja

    Catlica, e que a "restaurao" e a imerso do Brasil no rol das sociedades modernas

    estariam sujeitas atuao de entidades ligadas ao protestantismo.

    A Igreja Metodista foi a primeira denominao a se preocupar oficialmente com

    misses para a Amrica Latina. Em 1835, o jovem pregador Fountain Pitts foi enviado

    para fazer uma viagem de reconhecimento s principais cidades da costa ocidental (Rio

    de Janeiro, Buenos Aires e Montevidu). Em seu relatrio final, documento citado por

    Duncan Reily (2003, p. 100-101), recomendou o envio de missionrios para o Brasil,

    antiga fortaleza de Satans:

    Estou nesta cidade (Rio de Janeiro) h duas semanas, e lamento que

    minha permanncia seja necessariamente breve. Creio que uma porta

    oportuna para a pregao do Evangelho est aberta neste vasto

    Imprio. Os privilgios religiosos permitidos pelo governo do Brasil

    so muito mais tolerantes do que eu esperava achar em um pas

    catlico.

    Porque esse governo avana to rapidamente no comrcio e nas artes,

    porque o mais liberal de todos os pases catlicos do mundo na

    tolerncia religiosa e porque abarca diversos portos populosos, tais

    como So Salvador, Rio Grande e Rio de Janeiro, esta ltima a maior

    cidade da Amrica do Sul, sou da opinio que ele apresenta um

    campo perante os servos do Senhor Jesus Cristo que pode ser

    corretamente descrito como pronto para a ceifa.

    Desta iniciativa surgiu a primeira misso metodista no pas, entre 1836-1841,

    sob os cuidados de Justin Spaulding que, logo aps chegar, organizou a primeira escola

    dominical do Brasil, e comeou a realizar cultos pblicos em sua casa. Segundo ele, a

    audincia aumentou tanto que teve que alugar um salo para acomodar ou ouvintes.

    Trs meses aps sua chegada, fez um relatrio minucioso sobre seu trabalho e, ao l-lo,

    podemos destacar o ponto que chamou mais a ateno do americano - a escravido

    (IBID, p. 102):

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    Qual ser o resultado final da escravido e quando ela terminar neste

    pas, impossvel dizer. Muito embora o trfico de escravos seja

    contra a lei da nao, mesmo assim estou informado de que nunca foi

    explorado em to grande escala como agora. Navios continuamente

    se preparam e zarpam deste porto com destino s margens sangrentas

    da frica, nesse negcio de pirata. Os magistrados, solenemente

    juramentados a fazer cumprir as leis, freqentemente fecham os olhos

    e recebem subornos. Ningum ousa cumprir as leis, e ningum

    poderia se quisesse, to fraco o princpio moral neste governo.

    Tudo o que podemos fazer usar diligentemente e mui discretamente

    os meios, observar os sinais dos tempos, e entrar por toda porta aberta

    pela Providncia, para prestar-lhes servio...

    Outro motivo de espanto para o missionrio foi a ignorncia do povo

    brasileiro. Seria extremamente vlido, segundo ele, abrir escolas para a populao, pois

    esta s no era mais culta por causa do clero catlico, que ao deixar de cumprir seu

    papel de educar o povo, relegava-o a uma existncia obscura. Alm disso, o prprio

    clero representava o ltimo exemplo a ser seguido, pois era flagrante o descumprimento

    do celibato, havendo padres com numerosas famlias que no sofriam nenhuma espcie

    de repreenso. O cmulo teria ocorrido quando surgiu um projeto de lei para acabar

    com o celibato, e um dos mais importantes argumentos ou razes apresentadas em

    abono da medida foi a necessidade de redimir e salvar a conduta moral do clero e do

    povo....

    A misso Spaulding acabou em 1841, e entre os principais motivos de seu

    trmino estavam a falta de pessoal missionrio, a dificuldade de acesso direto ao povo

    brasileiro, e as dificuldades financeiras advindas da crise econmica nos EUA chamada

    de Pnico de 37. Entretanto, o fervor missionrio em relao ao Brasil estava apenas

    em seu perodo inicial.

    Os missionrios de outras denominaes, que chegariam nos anos seguintes,

    recrudesceram o discurso e continuaram apostando na exposio dos problemas do

    Brasil e na necessidade de modernizao das estruturas pblicas, das leis e dos

    costumes, continuando a apresentar o catolicismo como um grande vilo e o

    protestantismo como o verdadeiro protagonista das grandes mudanas que o mundo

    daquela poca estava vendo em termos cientficos, tecnolgicos e culturais. Contou,

    para isso, com a ajuda de membros da elite poltica, que desejavam urgentemente a

    separao da Igreja e do Estado.

    Uma das estratgias mais utilizadas para que o protestantismo se estabelecesse

    no Brasil, ainda no sculo XIX, foi a adoo de "identidades" que o vinculassem a

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    causas como o progresso, a civilizao e a modernidade. Esse discurso se disseminou

    entre os missionrios e os principais rgos de comunicao religiosa criados com a

    finalidade de apresentar a "verdadeira religio" como a "tbua de salvao" do Brasil,

    que nesse perodo oscilava entre a desintegrao e a consolidao de um Estado

    Nacional.

    As investidas missionrias que mais se destacaram foram a de grupos norte-

    americanos como os presbiterianos e os metodistas, que apresentaram os Estados

    Unidos como o pice a que uma nao moderna poderia chegar. James Fletcher,

    missionrio que ostensivamente pregou as vantagens de uma aproximao do Brasil

    com a nao confederada, foi o precursor daqueles que usariam o discurso que aliava o

    protestantismo ao progresso das naes. David Gueiros Vieira (1980. p. 62-63) toma

    Fletcher como um dos personagens centrais de sua obra acerca do protestantismo e o

    desenrolar da Questo Religiosa no Brasil. O apresenta como o "pioneiro do trabalho

    protestante missionrio no Brasil e um dos que, mais ativamente, contriburam para o

    movimento de protestantizao do Imprio e para as lutas em favor da completa

    liberdade de culto."

    Um ponto para o qual Vieira (p. 63) chama ateno o fato de que Fletcher

    muito rapidamente se sentiu responsvel como pastor no s dos marinheiros e

    americanos residentes no Rio, mas via a necessidade de "converter o Brasil ao

    protestantismo e ao 'progresso'. Para ele, o protestantismo equalizava-se ao

    desenvolvimento econmico, cientfico e tecnolgico."

    James Cooley Fletcher nasceu na cidade de Indianpolis, capital do Estado de

    Indiana, nos Estados Unidos, em 1823. J adulto, adquiriu vasto conhecimento

    intelectual formando-se pela Phillips Exeter Academy, Brown University e Princeton

    Theological Seminary, alm de ter estudado na Sua e na Frana, aprimorando-se no

    idioma francs visto que tinha por objetivo trabalhar como missionrio no Haiti; surgiu,

    todavia, a oportunidade de assumir o posto de Capelo da Legao Americana no Rio

    de Janeiro, onde assumiu seu posto em 13 de fevereiro de 1851. Quem negociou com o

    Governo Brasileiro as condies de suas atividades religiosas foi Robert Cumming

    Schenck, Enviado Extraordinrio e Ministro Plenipotencirio dos Estados Unidos para o

    Brasil e Argentina, que nomeou o missionrio com o ttulo de "Adido", para que assim

    obtivesse "proteo oficial".

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    a atuao de Fletcher junto diplomacia estadunidense, poltica brasileira e

    s aventuras comerciais por ele protagonizadas que denuncia o tipo de sensibilidade que

    ele tinha acerca de qual o melhor mtodo pelo qual o Brasil seria convertido ao

    protestantismo; na concluso de Vieira (p. 67):

    o conceito de Fletcher quanto sua misso, era fazer amigos entre os

    da alta sociedade a fim de obter proteo oficial para si e para seus

    colegas. Ainda mais, por suas outras declaraes e por aes

    posteriores, evidente que queria levar o Brasil para o mundo

    'moderno' e do 'progresso' (sempre enfatizando a idia de que tal

    'progresso' vinha das naes protestantes), ajudando-o a chegar a

    condies de igualdade com o adiantamento tecnolgico e cientfico

    que estava ocorrendo na Europa e nos Estados Unidos.

    Tendo retornado aos Estados Unidos em 1853 em decorrncia dos problemas de

    sade de sua mulher, Fletcher voltaria ao Brasil no ano seguinte, mudando de estratgia

    e apresentando-se como um "amigo da nao" e "filantropo". Organizou uma exposio

    industrial americana no Rio de Janeiro, inaugurada por D. Pedro II no Museu Nacional

    e visitada com grande entusiasmo; fez contatos com o Visconde de Itabora, Inspetor

    Geral do Departamento de Educao Primria e Secundria com o intuito de "introduzir

    no Brasil livros escolares americanos"; foi um elo forte entre o poeta americano Henry

    Wadsworth Longfellow e o Imperador, que muito o admirava; e fez uma ostensiva

    propaganda do Brasil atravs de seu livro O Brasil e os Brasileiros, que teve sucessivas

    edies atualizadas nos Estados Unidos e que, durante muito tempo, foi a principal obra

    consultada quando se queria saber algo sobre o pas e seus costumes.

    A partir dessas observaes que vai se tornando claro que os planos de

    Fletcher envolviam, mais uma vez segundo Vieira (p. 74):

    Aumentar o prestgio dos Estados Unidos, que ele apresentava no

    Brasil como uma nao 'protestante' com leis, costumes, sistema

    educacional, economia e religio dignos de serem imitados, e criar

    um forte elo entre o Brasil e aquela nao. O progresso americano e o

    seu extraordinrio desenvolvimento que, na mente de Fletcher foram

    produzidos pelo protestantismo, fluiriam ento para o Brasil na forma

    de comrcio e emigrao de empresrios de todos os tipos,

    negociantes, industriais, agricultores pioneiros, mecnicos,

    engenheiros, que trariam consigo sua religio, desse modo trazendo o

    'verdadeiro progresso' para o Imprio Brasileiro. Enfim, seria a

    conquista do Brasil pela cultura, 'progresso' e comrcio americanos.

    (...) Assim, o que Fletcher obviamente tentou foi apresentar os

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    Estados Unidos como o supra-sumo de um tipo de 'progresso' que

    tambm podia ser alcanado pelo Brasil.

    Assim foram estabelecidos os parmetros da propaganda protestante no Brasil. O

    Brasil s alcanaria o patamar de uma nao civilizada e moderna se aceitasse os

    investimentos norte-americanos (e protestantes) na melhoria das condies tcnicas e

    tecnolgicas das estruturas pblicas (transporte, navegao), na descaracterizao da

    escravido (os primeiros missionrios norte-americanos a vir para o Brasil eram da parte

    abolicionista dos Estados Unidos), e na valorizao da educao formal, considerada o

    ponto de partida para o avano da sociedade brasileira.

    preciso destacar que Fletcher iniciou um "estilo" de propaganda protestante

    muito copiado ao longo das dcadas seguintes pelos grupos ligados ao chamado

    "protestantismo histrico" a "denncia" das mazelas sofridas pela populao

    brasileira, a falta de educao formal, a chaga da escravido e o desprestgio do trabalho

    manual, todos atrasos ligados supremacia catlica no pas. Um exemplo a crtica

    feita pelos editores do jornal A Imprensa Evanglica , em 16 de maro de 1872, e em 6

    de novembro de 1875:

    A igreja que se ope liberdade e ao progresso no a igreja de

    Cristo. (...)

    A religio crist, cuja sombra se tm formado as sociedades

    modernas, com a sua civilizao e com o seu progresso, nunca foi

    inimiga da liberdade civil, que a suma do progresso do nosso

    sculo.

    O protestantismo o verdadeiro amigo da instruo, sempre a

    favorece e protege, e isso com o nico fim de desenvolver a nova

    gerao segundo as regras do Evangelho, e de habilit-la a bem

    preencher os deveres que a aguardam.

    E, numa prola pela elegibilidade dos acatlicos, em 29 de novembro de 1879, j

    no perodo posterior promulgao do dogma da infalibilidade papal, citando outro

    jornal (O Cruzeiro):

    A est. A lei civil exclui da elegibilidade para a representao os

    acatlicos: ora so justamente os catlicos os menos prprios para

    exercerem o cargo de representantes do povo.

    fcil de demonstrar.

    Ningum pode ser catlico sem aceitar o Syllabus em toda a sua

    ntegra. O Syllabus inteiramente contrrio civilizao moderna,

    sujeita o Estado igreja, afirma a supremacia do papa sobre o governo

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    de todas as naes, proclama a necessidade da inquisio, isto , o

    direito da igreja de compelir pelos castigos corporais, pelos tormentos,

    pela fogueira, os homens a crerem nos princpios e fatos relatados pelo

    clero etc. (grifo meu)

    Ora, ningum dir que um homem possa sustentar tais princpios e

    exercer dignamente o papel de representante da nao.

    Quem os sustentasse na tribuna, provavelmente havia de ter um

    acompanhamento um pouco incmodo ao sair da casa do parlamento.

    Como , pois, que se diz que s os catlicos so competentes para a

    representao nacional, quando so justamente os acatlicos quem est

    (sic) inteiramente livre de tais ligaes, de toda a obrigao de se

    submeter a um poder estrangeiro?

    Em vista de tais consideraes no poderia sustentar-se que um

    secretrio de Vishnu pode dar um muito melhor cidado de que um

    catlico?

    Assim, o que se v que a tradicional oposio entre catolicismo (atraso) e

    protestantismo (progresso) foi construda paulatinamente a partir da iniciativa de

    homens como Daniel Kidder e James Fletcher, sobretudo o ltimo, que teve mais anos

    de atuao no Brasil. Surge com eles a propaganda do "progresso" aliado ao

    protestantismo e principalmente com Fletcher a conquista de aliados entre a aristocracia

    brasileira em busca de privilgios.

    Os amigos do Progresso

    Uma lista preliminar apresentada por David Vieira (p. 84-85) das amizades

    feitas por Fletcher no Brasil indica que ele se aliou a um nmero razovel de homens

    que se consideravam "amigos do progresso" e que compartilhavam com ele o desejo de

    trazer melhorias tcnicas, polticas e culturais para o Brasil. Entre esses amigos se

    encontravam o Ministro Joaquim Maria Nascente de Azambuja (1812-1896), educador

    e diplomata, que, ao que tudo indica, foi um cooperador de Fletcher nas iniciativas de

    imigrao de confederados e imigrantes acatlicos da Europa para o Brasil, alm dos

    interesses que envolviam a instruo pblica; e o Deputado Francisco Leite de

    Bittencourt Sampaio (1807-1892), um homem de letras altamente influenciado pela

    literatura anglo-saxnica, adepto do espiritismo e um dos primeiros a lutar pela causa

    comum com os protestantes da inteira liberdade de culto.

    Outra amizade importante foi a de Francisco Otaviano de Almeida Rosa (1825-

    1889), lder liberal na cmara dos deputados, diplomata, muito bem relacionado com

    jovens intelectuais como Urbano Pessoa, Tavares Bastos e Jos Bonifcio (o moo) e

    um dos jornalistas apaixonadamente liberais de quem James Fletcher se tornou amigo.

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    Segundo Vieira (p. 89-90), em 1854, comeou a editar o jornal Correio Mercantil, no

    Rio de Janeiro, de propriedade de seu sogro, o baiano Francisco Alves Branco Muniz

    Barreto, que foi financiado a partir de 1849 pela Legao Britnica, embora esse dado

    definitivamente no signifique que suas posies polticas tenham sido assim

    determinadas. Almeida Rosa era amante da literatura inglesa, entusiasta da emancipao

    dos escravos, da abertura navegao estrangeira do Amazonas e da melhoria da

    instruo pblica. Estas posturas podem t-lo aproximado de Fletcher, que tinha as

    mesmas opinies. Foi esse jornal que deu apoio incondicional ao Rev. Robert Kalley

    (que trazia cartas de recomendao de Fletcher), publicando artigos seus, ganhando as

    caractersticas de uma publicao altamente anti-catlica.

    Outros amigos de Fletcher no Brasil foram Dr. Caetano Furquim de Almeida

    (1816-1879), grande homem de negcios que era favorvel separao entre Igreja e

    Estado; Dr. Manoel Pacheco da Silva (1812-1889), educador e cientista a quem Fletcher

    enviava os missionrios protestantes que estavam chegando ao Brasil; e o Senador Jos

    Incio da Silva Mota (1807-1893), senador de Gois, anticlerical, ferrenhamente anti-

    escravista e entusiasta do casamento civil. Nenhum deles se tornou protestante; todos

    ajudaram, em sua medida, a abrir as portas do Brasil ao protestantismo.

    Um destaque dado amizade entre Fletcher e o alagoano Aureliano Cndido

    Tavares Bastos (1839-1875), advogado, jornalista, poltico e publicista, que, mais do

    que explicitamente, admirava os Estados Unidos, amava o "progresso", pleiteando apoio

    para causas como a "abertura do Rio Amazonas ao trfico internacional, o comrcio

    livre, a liberalizao das leis comerciais, a descentralizao do governo", bem como

    estimulava a imigrao de ingleses, americanos e alemes, defendendo medidas que a

    tornassem mais vivel, como a melhoria do sistema de transporte internacional, o

    casamento civil e a liberdade de culto, que ele considerava o remdio para todas as

    mazelas do Brasil. (VIEIRA, 1980, p. 95)

    A questo da abertura do Rio Amazonas navegao internacional suscitou

    alguns embates que envolveram at a garantia da soberania nacional. Desde a dcada de

    20 do sculo XIX, os Estados Unidos demonstravam interesse na regio amaznica,

    recrudescendo os esforos de aproximao a partir de 1840. Para o governo

    estadunidense, a Amaznia era uma regio de riquezas inesgotveis que deveria ser

    aberta a todos, o que obrigou o Brasil a adotar uma rgida poltica externa, cuidando

    para que no atrapalhasse suas relaes econmicas com o pas norte-americano, o que

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    desagradou a grande maioria dos liberais brasileiros que viam como extremamente

    vantajosa a aproximao com os Estados Unidos, considerada a "nao do progresso"

    (PAZZINATO, FREITAS e FERREIRA, 2000, p. 84).

    A tentativa de estabelecer uma linha de navegao a vapor entre os Estados

    Unidos e o Brasil no era nova. A primeira notcia conhecida anterior a 1850 e a

    proposta de William Wheelwright, fundador da Pacific Mail Steamship Line, que no

    vingou; a proposta seguinte (1851-1852) a de John Gardiner, feita ao Congresso

    Americano, proposta essa que atraiu o interesse de Fletcher e ganhou divulgao dele

    nos Estados Unidos e no Brasil. Entretanto, foi a proposta do ex-seminarista

    presbiteriano, antigo poltico e jornalista Thomas Rainey que mais chamou ateno de

    Tavares Bastos e foi objeto de ostensiva propaganda sua. A partir de 1854, Rainey

    envidou esforos para estabelecer uma linha de navegao entre Nova Iorque e Belm,

    conseguindo no ano seguinte o apoio do Correio Mercantil e dos polticos liberais da

    regio amaznica. O governo brasileiro, temendo que essa fosse uma estratgia para se

    apossar da Amaznia, considerou que o ideal seria estender a linha de navegao at o

    Rio de Janeiro. O subsdio para essa linha foi aprovado sob a liderana do 20 Gabinete,

    presidido pelo lder manico paraense Senador Francisco Jos Furtado, aps a

    torrencial propaganda feita por Tavares Bastos e Fletcher, que acreditaram que a partir

    de ento a imigrao americana promoveria o "progresso" e a "elevao moral" do

    Brasil.

    Um episdio tambm ligado questo amaznica a expedio do Prof. Louis

    Agassiz, entre 1865-1866. De acordo com Maria Helena Pereira Toledo Machado (2007

    p. 72-73):

    Os objetivos da expedio ao Brasil no se esclarecem totalmente se

    no levamos em conta os aspectos menos aparentes desse

    empreendimento. Por trs do discurso pblico do cientista-viajante

    tecia-se um outro discurso que ligava Agassiz aos interesses norte-

    americanos na Amaznia, conectado a duas linhas de ao

    diplomtica e de grupos de interesses: uma primeira, poltica da

    navegao fluvial e abertura do Amazonas navegao internacional,

    e uma segunda, aos projetos de assentamento da populao negra

    norte-americana, como colonos ou aprendizes, na vrzea amaznica.

    No que Agassiz tenha pessoalmente montado o esquema da viagem

    para realizar um trabalho diplomtico de proselitismo dos interesses

    norte-americanos na Amaznia. Mas, bem ao seu estilo, ele no

    perdeu a oportunidade de colocar-se em posio de influncia,

    tornando a viagem ao Brasil, organizada no contexto da Guerra Civil,

    ocasio para influenciar positivamente Pedro II, com o qual Agassiz

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    trocava correspondncia desde 1863, com relao aos projetos de

    abertura da Amaznia.

    James Fletcher tambm esteve envolvido na propaganda da Expedio Thayer.

    Quando da chegada de Agassiz e aproveitando-se de seu prestgio, o "amigo do

    progresso" teve mais uma oportunidade de estabelecer uma relao direta

    (explicitamente no verdadeira) entre o desenvolvimento cientfico dos Estados Unidos

    e bandeiras como a emancipao dos escravos, a Sociedade de Imigrao Internacional,

    as linhas de navegao a vapor, e, claro, o protestantismo. De acordo com David

    Gueiros Vieira (1980, p. 79):

    A causa, entretanto, que mais se beneficiou com a presena de

    Agassiz foi a campanha de publicidade empreendida por Fletcher, e

    por um grupo variado de 'amigos do progresso', que h muito tentava

    impressionar os brasileiros com o 'progresso' que o protestantismo

    podia trazer-lhes. Para onde quer que Agassiz fosse, era seguido de

    perto por Fletcher ou por seus amigos, tais como Dr. Thomas Rainey,

    Dr. Pacheco Manoel da Silva e Tavares Bastos. Assim, uma srie de

    acontecimentos pblicos ligaram (sic) o cientista de Harvard a

    Fletcher, ou a seus amigos, desta maneira trazendo uma glria

    refletida sobre eles e sua causa.

    A passagem de Agassiz pelo Brasil suscitou tambm a suspeita de que o pas

    seria alvo de uma "invaso" protestante, que incentivaria a alterao da ordem

    estabelecida baseada na oficialidade do catolicismo como religio do Estado. Isso se

    deveu expectativa de uma emigrao em massa dos Estados Unidos para o Brasil,

    entre 1866 e 1867, em alguma medida pelo fato de que o trmino da Guerra de Secesso

    no havia eliminado as rivalidades entre as partes Norte e Sul do pas. Vieira (p. 212-

    214) explica que quando os nortistas passaram o dominar o territrio sulista, algo

    parecido com um novo xodo foi pregado; se j no havia espao para os escravocratas

    no pas, era necessrio ocupar um novo territrio, e o Brasil no deixou de se tornar um

    destino desejvel queles que queriam reconstruir seu mundo ideal fora da Amrica do

    Norte.

    No aconteceu necessariamente uma "invaso", mas um nmero considervel de

    imigrantes (e no s estadunidenses) chegou e se estabeleceu no Brasil. E

    paulatinamente as questes acerca de seus direitos civis foram sendo apresentadas ao

    governo brasileiro por polticos liberais que incluam em suas peties a liberdade de

    culto para todos os acatlicos. Entre eles estavam, claro, Tavares Bastos e Incio de

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    Barros Barreto com suas Doze Proposies Sobre a Legitimidade Religiosa da

    Verdadeira Tolerncia dos Cultos. Alm deles se destacou tambm o juiz Antnio

    Joaquim Macedo Soares que publicou o polmico panfleto Da Liberdade Religiosa no

    Brasil: Estudo de Direito Constitucional, em 1866. (VIEIRA, 1980, p. 218-219)

    A exclusividade do catolicismo como nica religio do Imprio comeou a ser

    questionada e "a audcia dos que clamavam pela liberdade de culto estava ficando mais

    acentuada cada dia, e os ultramontanos sentiam-se acossados neste assunto tanto pelos

    protestantes quanto pelos liberais." (p. 219) A reao ultramontana props a educao

    dos fiis, atravs de panfletos que descaracterizavam o protestantismo e atravs da ao

    intensa dos frades capuchinhos que percorreram os sertes pregando contra a "falsa

    religio". interessante notar que as disputas entre protestantes e capuchinhos, que

    possuam ideais de civilidade e moralidade muito semelhantes, duraram muitas dcadas,

    sendo que aqueles utilizaram seu jornal de maior circulao no Brasil para criticar

    chistosamente os frades, como neste trecho em que A Imprensa Evanglica comenta a

    notcia de um outro jornal, em 16 de dezembro de 1871:

    Sem comentrio. O jornal Sete de Setembro, folha que se publica na

    importante vila do Pillar, na Provncia de Alagoas, deu a seguinte e

    importantssima notcia no seu nmero de 29 de Outubro ltimo.

    digna de leitura e meditao.

    Ei-la:

    'Ontem houve nesta vila uma procisso de penitncia, promovida pelo

    Rev. Capuchinho Frei Jos Maria de Catanisseta.

    'Reunindo o povo pelas 5 horas da tarde em frente da igreja do

    Rosario, em nmero de 5.000 pessoas, pouco mais ou menos, os

    homens trazendo uma coroa de espinhos e uma corda ao pescoo, e

    as mulheres um vu branco sobre a cabea com esta inscrio:

    I.B.M.V.C. Sit nobis salus et protectio, saram em procisso,

    conduzindo os homens os grande cruzeiro que se devia arvorar em

    frente da nova matriz, e o andor do Senhor dos Passos, e as mulheres

    os andor de Nossa Senhora das Dores. Ia tambm sob o palio o

    Sagrado Lenho, conduzido pelo Rev. Vigrio da freguesia.

    'Todas as pessoas que acompanhavam a procisso conduziam uma

    vela acesa, e o efeito dessas 5.000 luzes ou mais era o mais belo e

    arrebatador.

    'O prstito seguiu na melhor ordem, e voltou igreja donde saiu sem

    incidente algum desagradvel, antes notava-se em todos sinais do

    mais profundo recolhimento e verdadeira compuno, e em tudo a

    gravidade digna do ato.'

    Isto no precisa comentrio.

    Conseguir que uma populao se apresente aos olhos do mundo de

    coroas de espinhos e corda ao pescoo t-la conduzido ao supremo

    grau de civilizao.

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    Mais 50 Catanissetas espalhados pelo Brasil, e dentro de dez anos

    seremos a primeira nao do mundo.

    A chamada "Questo Racial" tambm discutida por David Gueiros Vieira

    que a apresenta como tema freqente da preocupao dos liberais brasileiros, que viam

    na imigrao de homens brancos, uma sada para a preguia, lascvia e atraso causados,

    segundo eles, pela maioria da populao de cor e sua adoo da religio romana. Diz o

    autor (1980, p. 239), num pargrafo central do livro:

    Parece-nos, tambm, pela evidncia mo, que o raciocnio dos

    liberais era de que os imigrantes brancos protestantes seriam uma

    arma de mltiplo propsito, com a qual se combateria todo tipo de

    'atraso': (1) os imigrantes brancos protestantes trariam conhecimento

    tcnico para desenvolver o pas; (2) a populao branca por fim

    superaria a negra e (3) o imigrante protestante seria, afinal,

    econmica e politicamente bastante forte para contrabalanar o poder

    poltico e a influncia da Igreja Catlica.

    Essas afirmaes demonstram a correspondncia de interesses entre esses

    liberais e missionrios como Fletcher, que ensinou aos proselitistas protestantes que

    chegavam ao Brasil a "alma do negcio". Ambos os grupos queriam ocupar espaos da

    sociedade que usualmente haviam sido entregues ao domnio cultural do catolicismo, e

    para obter xito investiram na propaganda da incompetncia e imoralidade do clero, do

    carter obsoleto de um "Estado Moderno" manter uma religio oficial, e das vantagens

    trazidas por pases mais "civilizados" e "moralizados" como os Estados Unidos.

    Usaram, inexoravelmente, a imprensa, sem a qual se poderia questionar o sucesso da

    empreitada. Aliaram-se em torno de suas mtuas necessidades.

    Estabelecer o antagonismo entre o protestantismo e o catolicismo, mostrando o

    primeiro como defensor da liberdade de idias e culto, mola propulsora do progresso,

    vanguarda da modernidade e da cincia, e o ltimo como o smbolo do atraso, pobreza,

    ignorncia e superstio foi fundamental para manipular suas identidades ante

    nascente opinio pblica e demarcar os limites entre os quais agiriam ambos os entes

    polticos.

    James Cooley Fletcher foi embora do Brasil provavelmente em 1869. Sua

    atuao no Brasil se deu, em grande medida, num momento de consolidao do

    pensamento liberal, momento do qual se alimentou e pelo qual foi tambm alimentado,

    lanando as bases do que seria o ponto central da propaganda protestante no Brasil e

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    ganhando vantagens legislativas para ele e seus colegas pregadores da "verdade" e do

    "progresso".

    Educao e Civilizao

    Esta associao foi fundamental na construo da identidade dos lderes

    protestantes no Brasil. Foi-se estabelecendo, ao longo de seu proselitismo, a oposio

    direta entre o catolicismo, representando o atraso, a ignorncia, a superstio e o

    preconceito com o trabalho manual, e o protestantismo, defensor da liberdade de ideias

    e culto, mola propulsora do progresso, e vanguarda da modernidade e da cincia.

    O principal veculo de comunicao protestante no sculo XIX foi o jornal

    Imprensa Evanglica. O objetivo mais explcito do peridico presbiteriano era

    representar a comunidade protestante, mostrando seus ideais e sua opinio sobre os mais

    variados assuntos, com nfase naqueles de cunho religioso, teolgico e espiritual.

    Organizado no Rio de Janeiro, em 1864, pela iniciativa, entre outros, do missionrio

    estadunidense Ashbell Green Simonton, A Imprensa... , at onde se sabe, o primeiro

    peridico protestante em lngua portuguesa. Sua circulao no foi pequena, se

    levarmos em considerao o alcance das misses presbiterianas no Brasil, ao final do

    sculo XIX, e o fato de que os missionrios eram os responsveis por divulgar entre os

    fiis conquistados a iniciao no mundo dos letrados e, obviamente, a possibilidade de

    fazer a assinatura do jornal, o que pode significar tambm a alternativa de consumir um

    produto que lhes conferiria a noo de pertencimento comunidade e a identificao

    com a nova f adquirida pela converso ao protestantismo.

    O que chama ateno, entretanto, o cunho pedaggico de muitas das matrias

    publicadas em suas pginas. Os pastores e leigos responsveis pela redao do peridico

    utilizavam-se desse mecanismo-chave de transmisso de idias que a imprensa para

    veicular as concepes de vida consideradas adequadas aos verdadeiros cristos,

    discutir questes muito variadas, como a poltica imperial (e, posteriormente,

    republicana), a "decadncia moral do catolicismo" brasileiro, a tica do trabalho, o

    modelo ideal contido na famlia nuclear, cuidados para com a infncia e a juventude,

    alm, claro, de discusses teolgicas que objetivavam descaracterizar o Catolicismo

    como religio crist, apresentando o Protestantismo como o nico agente capaz de guiar

    o Brasil pelo caminho do progresso, modernizao e moralidade nacionais. Nesse

    sentido, tambm so apresentados os principais delitos pelos quais os "cristos

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    verdadeiros" seriam disciplinados pela hierarquia eclesistica protestante que estava

    sendo formada concomitantemente expanso do jornal e do proselitismo da

    denominao.

    O jornal fez muitas crticas ao sistema educacional brasileiro em suas pginas.

    Em 2 de julho de 1870, discutia os nmeros relativos educao apresentados por um

    Ministro do Imprio Assemblia Geral, que afirmava haverem apenas 3.962

    estabelecimentos de instruo primria e secundria, para um nmero de 126.846

    indivduos, enquanto que nos Estados Unidos havia duzentas mil escolas para sete

    milhes de alunos, com instruo de alto nvel. O peridico disparou: "No Brasil existe

    um estabelecimento de instruo pblica por 2.019 habitantes, ao passo que nos Estados

    Unidos cada escola pblica est na razo de 185 habitantes."

    O que chama ateno neste trecho que a comparao estabelecida entre os

    Estados Unidos e o Brasil em questes educacionais feita, de acordo com o jornal,

    pelo prprio ministro, o que bastante plausvel se levarmos em considerao o que j

    foi afirmado anteriormente: muitos polticos brasileiros se tornaram amigos de

    missionrios protestantes e tambm adotaram a perspectiva de que uma aproximao

    com a nao confederada traria mais benefcios (como a modernizao educacional) ao

    Brasil.

    Rosalind Thomas (2005, p. 21-30), desconfiou da associao direta entre

    letramento e civilizao e perguntou: "At que ponto o letramento um agente de

    mudana?". Segundo a autora, muito cmoda e incorreta a "correlao entre valores

    ocidentais, modernidade, desenvolvimento econmico e letramento." Concordo com

    todas essas observaes. Uma afirmao, em particular, me chama ateno (p. 30):

    A busca do letramento tem muitas vezes uma funo religiosa

    totalmente desvinculada dos ideais de progresso econmico ou

    cultural. Isso sugere que suas aplicaes e usos podem ser to

    variados quanto a cultura humana. (...) O princpio por trs disso era

    o ideal luterano de que todos tinham de ser capazes de ler a Palavra

    de Deus por si mesmos. Ele pode ter tido outros efeitos colaterais,

    mas as metas e conseqncias imediatas eram religiosas (e

    protestantes).

    No que concerne instalao do protestantismo no Brasil, entretanto, todo o

    processo de incentivo leitura e de estmulo modernizao da educao brasileira

    demonstra que para aqueles homens, o letramento da populao brasileira estava, sim,

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    vinculado aos ideais de progresso. Obviamente, nos dias atuais, saber ler e escrever j

    no requisito indispensvel prtica religiosa protestante, tome-se como exemplo os

    grupos pentecostais e neo-pentecostais, que valorizam muito mais aspectos msticos da

    relao com o sagrado. No sculo XIX, contudo, aquele "ideal luterano" foi

    ressignificado pelos lderes protestantes no Brasil. No se estimulava a leitura "apenas"

    para que o fiel pudesse exercer a prtica da livre interpretao das Escrituras; havia

    tambm a expectativa de que as sociedades se tornassem mais sadias, moralizadas,

    modernas, e civilizadas pelo "poder do conhecimento"; o trabalho manual seria mais

    valorizado e, por conseqncia, mais produtivo. Este o ideal apresentado pel'A

    Imprensa Evanglica, em 16 de agosto de 1873:

    O trabalho dirigido pela inteligncia constri nossas casas, pontes,

    caminhos de ferro, navios; fabrica nossos relgios, pianos, imprensa;

    em uma palavra, engendra a civilizao.

    A educao eleva o trabalhador: quando ele for to instrudo e to

    bem educado como as classes no sujeitas a trabalhos manuais,

    gozar da mesma considerao.

    Cincinato lavrando seu campo, Franklyn compondo em sua

    tipografia, Hugh Miller trabalhando o granito em uma pedreira, no

    eram inferiores a ningum, ao menos aos olhos daqueles cuja estima

    vale alguma coisa.

    A instruo no inspira desamor ao trabalho: incita a fazer cumprir

    pela mquina a parte do trabalho que s exige fora.

    Dizem: 'Mas se todos os homens forem instrudos, quem trabalhar?'

    A resposta simples: todos.

    Somente a maior parte dos trabalhos sero executados (sic) por foras

    naturais, dirigidas pelo esprito humano, e pelas foras musculares da

    humanidade.

    A instruo conduz-nos ao bem estar, porque 'knowledge is power,

    porque cincia potncia e a potncia gera riqueza.'

    A instruo aumenta nossas fruies, nossa ventura. O ignorante

    apenas conhece os grosseiros gozos corporais, efmeros prazeres,

    alis compensados pela necessidade, que sofrimento.

    O homem ilustrado goza das belezas da natureza e das artes, da

    poesia, da msica, do comrcio intelectual com seus semelhantes, da

    permuta dos sentimentos nobres, prazeres estes durveis, e tanto mais

    vivazes quanto mais divididos, tanto mais isentos de dissabor, quanto

    mais puros e dignos de uma alma imortal. (grifos meus)

    E em 6 de novembro de 1875:

    O protestantismo o verdadeiro amigo da instruo, sempre a

    favorece e protege, e isso com o nico fim de desenvolver a nova

    gerao segundo as regras do Evangelho, e de habilit-la a bem

    preencher os deveres que a aguardam.

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    importante destacar que as atividades literrias, bem como a utilizao da

    imprensa foram aliadas importantssimas para alimentar a idia de que os protestantes

    eram os guardies da liberdade de expresso e de ideologia religiosa, reivindicao que

    contou com a colaborao de homens como o Deputado Francisco Leite de Bittencourt

    Sampaio (1807-1892), de acordo com David Vieira (p. 84-85) um homem de letras

    altamente influenciado pela literatura anglo-saxnica, adepto do espiritismo e um dos

    primeiros a lutar pela causa comum com os protestantes da inteira liberdade de culto.

    Alm do peridico A Imprensa Evanglica, tambm foram criados outros jornais

    em outras cidades do Brasil, como o Plpito Evanglico (1874-1875/ 1888-1900), que

    compilava os sermes dos pastores; o Pregador Cristo (1877-1887); Salvao de Graa

    (1875-1876), o primeiro peridico protestante do Nordeste; e o Estandarte (1893- dias

    atuais), que se tornou o rgo oficial da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil,

    criada em 1903. O contedo central dessas publicaes era basicamente o mesmo:

    apresentar as vantagens da adoo da "verdadeira religio" e os erros da religio oficial.

    De acordo com Alderi Souza de Matos (2007, p. 18):

    O protestantismo era um movimento de origem estrangeira, anglo-

    saxnica, que buscava espao num pas de tradio latina e catlica

    romana. O fato de que o Brasil era, h sculos, um pas

    nominalmente cristo, tornava imperioso que os novos grupos

    justificassem sua presena no pas. Da o fato de grande parte das

    publicaes ter o intuito de demonstrar as debilidades da religio

    majoritria e os valores tidos como superiores, tanto religiosos quanto

    ticos, das igrejas evanglicas. Essa mentalidade era partilhada pelos

    presbiterianos.

    No que se refere s instituies de ensino propriamente ditas, o mesmo autor, em

    outro texto (1999, p. 3), mostra a diferenciao bsica que se fez entre as escolas

    "dominicais" e as escolas "paroquiais", ainda que ambas, em princpio, fossem

    construdas ao lado dos templos religiosos. Nas primeiras, o ensino era eminentemente

    voltado para assuntos de religio, estudos da Bblia e teologia, e tinha como pblico os

    filhos dos fiis membros das Igrejas. Zzimo Trabuco (2009, p. 47-48) fez uma anlise

    do significado da Escola Dominical para os grupos protestantes, em especial os batistas:

    A Escola Bblica Dominical (EBD) foi desde o incio um instrumento

    fundamental para a construo da identidade religiosa dos fiis entre

    os protestantes, em especial os batistas. A EBD era fundamental

    enquanto Escola porque a educao constitua-se um valor

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    importante no pensamento missionrio como elemento evangelizador

    e civilizatrio. Era importante por ser Bblica, ou seja, voltada

    principalmente ao estudo dos textos bblicos que fundamentavam as

    crenas batistas e a viso de mundo do grupo sobre a sociedade. E

    por ser Dominical, uma vez que a guarda do Domingo de acordo com

    a interpretao batista do quarto mandamento, era a evidncia de uma

    vida genuinamente crist, e o descumprimento injustificado desse

    mandamento era motivo de disciplina e at excluso. Assim como

    entre catlicos e demais grupos protestantes o domingo, dia da

    Ressurreio de Cristo, foi interpretado pelos batistas como o

    sbado cristo, enquanto os Adventistas do Stimo Dia guardavam o

    sbado de acordo com a interpretao literal do quarto mandamento,

    mas todos usavam o mesmo texto para ensinar a guarda do dia de

    repouso e consagrao aos servios religiosos.

    As escolas paroquiais, contudo, tinham o objetivo de alcanar famlias de

    pessoas que no eram ligadas s denominaes protestantes; ensinavam matrias como

    Lngua Portuguesa, Histria, Etiqueta, Msica, etc.; tinham mulheres ensinando; e

    tinham um programa voltado para a valorizao do trabalho nos moldes do

    pragmatismo americano, representando uma alternativa s famlias abastadas que no

    queriam colocar seus filhos em escolas catlicas e confiavam na melhor qualidade do

    ensino protestante. Paul Pierson (1974, p. 108) faz uma lista dos alvos das instituies

    educacionais missionrias, que corroboram com a idia de ter a melhoria da educao

    como uma bandeira protestante que geraria frutos no s "espirituais", mas tambm

    morais, sociais e culturais:

    Auxiliar na propagao do evangelho, especialmente entre as classes

    superiores; preparar os crentes para viverem em um nvel econmico

    mais elevado, o que lhes permitiria sustentar a igreja e exercer maior

    influncia na sociedade; proporcionar um ambiente educacional de

    nvel espiritual e moral mais elevado do que o encontrado nas escolas

    pblicas e catlicas; preparar lderes para a igreja; e contribuir de

    maneira geral para a cultura e o progresso da nao ensinando os

    alunos a usarem seus recursos de modo mais eficiente.

    Em um dos primeiros relatrios escritos por Francis Joseph Christopher

    Schneider, o primeiro missionrio presbiteriano a trabalhar em Salvador, h a

    informao de que ele e sua mulher comearam a ensinar alguns meninos a ler em sua

    prpria casa, ainda no mesmo ano em que chegaram cidade. Ele diz, em 19 de agosto

    de 1872:

    Minha mulher h quase um ano estabeleceu uma pequena escola de

    alguns meninos e meninas que costumam reunir duas vezes na

    semana e aos domingos para estudar a Bblia, o Breve Catecismo e o

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    Catecismo para meninos, aprendendo alguns a ler, O nmero dos

    discpulos varia de 4 a 12.

    Esse modelo, ainda um tanto quanto hbrido, que mesclava a educao religiosa

    com o ensino da leitura, no surtiu muito efeito em Salvador, que s construiria um

    colgio presbiteriano, mas de forte tendncia laica, j no sculo XX. J no interior do

    Estado da Bahia, muitos esforos no sentido de civilizar a populao foram feitos pela

    denominao presbiteriana. Ester Fraga Villas Boas Carvalho do Nascimento (2007, p.

    103) afirma que

    O projeto civilizador presbiteriano para o hinterland brasileiro

    possua trs eixos de ao: religio, educao e sade. Criando

    instituies nas trs reas, os mensageiros de Deus pretendiam

    transformar o hinterland brasileiro numa regio 'civilizada',

    procurando produzir um novo modo de viver na sociedade em que se

    estabeleceram. E a educao serviria de veculo para a

    implementao de sua proposta.

    Para complementar estas informaes, h um relato de um missionrio batista

    que indica a explcita conexo feita pelas lideranas protestantes entre o investimento na

    educao e a proselitismo:

    simplesmente impossvel que a religio evanglica concorra com o

    catolicismo sem se munir do poder e da influncia da educao. Cada

    sistema tem a sua ideologia e as suas vantagens. Ns evanglicos,

    estamos plenamente convencidos da superioridade dos nossos ideais,

    mas o povo culto em geral no aceita o Evangelho antes de ficar

    convencido da superioridade da cultura evanglica. (grifo meu)

    Afinal de contas a evangelizao do Brasil implica no conflito dos

    dois sistemas e o resultado depender da possibilidade de

    demonstrar a superioridade do cristianismo evanglico. No ser

    fcil no Brasil onde a vantagem do treinamento de sculos est com

    os catlicos. Os ideais, o modo de pensar, as instituies polticas e

    domsticas, os costumes e hbitos sociais do povo, o coletivismo

    social, so influenciados e formados pela religio catlica, e

    naturalmente existem entre os prprios evanglicos os princpios de

    democracia e individualismo. (...) justamente no campo da

    educao que o Evangelho produz os seus frutos seletos e superiores,

    homens preparados para falar com poder conscincia nacional.

    (CRABTREE: 1962. 139-140 pp.)

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    Um parntesis importante: a educao da mulher

    O peridico A Imprensa Evanglica tambm contribuiu para uma discusso

    acerca da educao das mulheres, pois elas eram as educadoras por excelncia no seio

    familiar; sua influncia sobre a formao do carter infantil era de tamanha importncia

    que j no poderiam ser mais ignorantes, supersticiosas ou alienadas. O seu papel era

    colaborar para que as futuras geraes se apegassem ao amor ao trabalho, ao progresso

    e moralizao da sociedade, segundo o jornal.

    Uma srie de artigos foi publicada tratando desse assunto, entretanto, o que

    chama ateno o carter ainda bastante conservador dado ao propsito pelo qual as

    mulheres deveriam ser educadas. A esfera da famlia nunca abandonada. Nestas

    palavras do ex-padre e primeiro pastor protestante brasileiro, Jos Manoel da

    Conceio, escritas em 17 de dezembro de 1880, esta idia se torna bastante clara:

    Com o aperfeioamento do ensino, e o desenvolvimento da

    educao, espera-se procriar uma gerao melhor do que foi a de

    outrora. O muito que nos mtodos seguidos at aqui, muito

    principalmente quanto aos meninos, faltava, o muito que por outro

    lado era suprfluo, ou menos necessrio, bem como os

    inconvenientes e absurdos respectivamente ao tratamento dos alunos,

    tem excitado a ateno e reflexo dos homens filantrpicos e

    inteligentes.

    ()

    Os progressos dos povos em experincias, descobertas e vrias

    cincias contriburam principalmente para a necessidade do

    melhoramento do ensino pblico da mocidade, para que o tempo de

    compreender tantas coisas dignas de se saber, de granjear to vrios

    conhecimentos teis e necessrios na vida civil, no seja muito

    limitado, ou fique com esforos e fadigas de aprender amargurada a

    idade mais prazenteira, e descuidadosa da vida humana,

    primitivamente consagrada ao desenvolvimento das foras do corpo.

    Mas, a fora adestrada, a variedade das faculdades, riqueza dos

    vrios conhecimentos, que hoje em dia no podem faltar ao homem

    em todas as condies do mundo social, so mais indispensveis

    mulher.

    Os requisitos do homem de hoje, visto que o campo de todas as artes,

    ofcios, negcios, ramos do comrcio, cincias e outras precises, se

    aumentou, tornaram-se mais amplos do que foram anteriormente.

    Porm a mulher conservou ainda as mesmas relaes para com o

    mundo e a vida, que teve nos tempos remotos.

    O crculo e o gnero das obrigaes da mulher demarcadas pelas

    eternas leis da natureza, em nada se aumentou nem diminuiu.

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    No obstante isto, julgava-se dever promover a civilizao feminina,

    e aperfeioar o ensino desse sexo.

    Tambm esta tendncia era louvvel, e o ser enquanto a instruo se

    limitar quilo que convm ao destino natural da mulher.

    Esposa amorosa, companheira alegre, me cuidadosa da casa,

    primeira ama da mocidade, eis a o emprego da mulher. (grifo meu)

    A idia central do texto do pastor a crtica s instituies dedicadas

    exclusivamente ao ensino de meninas, em regime de internato. Para ele, esse tipo de

    escola privava as meninas de um tipo de aprendizado que seria fundamental para o

    cumprimento de seu papel na sociedade: o de esposa e me cuidadosa; a vida domstica

    era a escola da mulher, de onde ela no deveria ser retirada. A convivncia e o servio a

    pais, avs, irmos, seria seu exerccio dirio e despertaria a sua verdadeira natureza,

    algo que no aconteceria se a menina ficasse durante anos somente convivendo com

    outras meninas, sem experimentar a realidade da vida em famlia.

    Outro texto que chama ateno no jornal escrito por uma mulher

    declaradamente catlica, mas que rejeita o ultramontanismo e a superstio, segundo

    ela, exacerbada de alguns setores da Igreja. Amlia C. da Silva Couto, que escreveu

    para o jornal Colombo, de onde A Imprensa transcreveu o artigo intitulado A mulher e a

    religio, em 4 de setembro de 1880,

    evidentemente sabido que a mulher a base primordial da famlia

    e conseqentemente da sociedade. A ela que est afeta a obrigao

    de preparar os cidados, por isso que me e como tal educadora.

    Desde que a mulher seja ignorante, viciosa, fantica ou

    supersticiosa, educar pessimamente os filhos e pssima ser a

    sociedade em que influrem eles.

    A crena religiosa, seja ela qual for, uma necessidade para o

    esprito feminino, na nossa idade, mas essa crena deve ser aquela

    que brota espontnea no corao, como as flores silvestres na agrura

    dos campos incultos; necessrio que seja a crena sem fanatismo,

    sem superstio, que o que abate o esprito.

    necessrio demonstrarmos que no somos essas estpidas, essas

    fracalhonas, que, como dizem os homens, deixam-se facilmente

    iludir, deixam-se escravizar.

    A mulher de hoje tambm estuda, tambm pensa, sabendo conhecer

    o que til e o que mau para a famlia. Ela tambm quer o

    progresso, tambm quer o engrandecimento da humanidade, pela

    realizao das idias modernas. (grifo meu)

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    A preocupao da autora foi mobilizar as mulheres que leriam o artigo a no se

    deixarem mais controlar por artifcios como a confisso, que dariam aos padres o

    controle sobre a opinio feminina, e lembrar que o pior inimigo das mentes ilustradas

    era a superstio, que subjugava as mentes e os espritos da poca, segundo ela.

    Em 13 de maro de 1886, outro artigo sobre a educao feminina foi publicado

    pela Imprensa. Numa espcie de manual para a formao do carter das moas, o autor

    (no identificado) lista uma srie de medidas a serem tomadas pelos pais para garantir

    que suas filhas se tornassem o "impulso" para o progresso e modernizao da sociedade

    brasileira, que, como j disse, foi a bandeira levantada pelos protestantes ao longo de

    sua fase proselitista no sculo XIX. uma lista bastante longa, que enfatiza a

    responsabilidade paterna para com a educao moral das meninas no seio da famlia:

    Apenas a menina tiver atingido sete anos, deve-se ir ensinando a ler e

    escrever.

    leitura se deve juntar a moral, amor ao trabalho, amor fraternal,

    amor filial, qual a importncia da economia domstica.

    Todos os dias devem as mes e os pais, como os mestres, ir

    conduzindo pacientemente o esprito da menina para estes princpios,

    com a teoria como a prtica, a fim de formar-se o corao nobre da

    moa.

    Uma menina educada com doutrinas morais, com o costume do

    trabalho at a idade de 16 anos, ficar preparada para o necessrio da

    vida e para o belo.

    ()

    S por estes dois meios moralidade e instruo superior, que a

    moa chegar ao imprio das boas qualidades, impondo-se

    considerao da sociedade que aprecia o bom e o belo.

    Juntando-se educao domstica e moral a instruo superior,

    teremos moas com a energia capaz de resistir s desatenes

    prejudiciais reputao daquelas que querem primar pela moral.

    A moa pode ser amvel, dedicada, conversar agradavelmente com

    todos que privam com ela, porque com estas qualidades que privar

    a efetividade do sexo, que nobilitar a famlia e far certamente a

    glria de sua ptria.

    A planta quando nova presta-se a amoldar-se vontade do

    cultivador, assim a moa que, para ser virtuosa, ou moa assisada,

    deve ser preparada desde a infncia.

    O que ser de uma menina de temperamento prprio para assomos

    grosseiros e inquietudes, de desvanecimento para o luxo, se no tiver

    uma educao moral exemplar, se no se infiltrar no esprito juvenil

    a necessidade do trabalho, da economia, de docilidade, da pacincia

    e do estudo das letras?

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    Quando as moas compreenderem que devem elevar-se pelas

    virtudes e pelo cultivo da inteligncia, sero o mecanismo delicado

    que h de mover a sociedade pela sntese do progresso humano,

    sendo o belo sexo parte do impulso. (grifo meu)

    O ltimo texto sobre esse assunto que quero mencionar (e que tambm escrito

    por uma mulher) bastante caracterstico do que tenho dito at agora. A constncia

    desse tema no peridico, contendo textos escritos pelas prprias mulheres, indica que o

    incentivo para uma ateno especial para com a educao feminina visava no a sua

    emancipao, ou sua participao mais ativa na sociedade, muito menos a igualdade

    entre os sexos, mas tinha, eminentemente, o objetivo de transformar as futuras mes e

    esposas em mestras dentro do domiclio, transferindo para elas e atravs delas os

    valores a serem cultivados pelos futuros trabalhadores. Enquanto o Brasil no se

    mobilizava por construir mais escolas e atender a um nmero maior de indivduos,

    preparando-os para um futuro modernizador, s mes caberia o papel de

    disseminadoras deste ideal. E elas mereciam uma educao mais acurada porque seriam

    responsveis tambm pela moralizao daqueles indivduos, desde a sua infncia, pelo

    poder da sua persuaso. O texto de Maria Amlia Vaz de Carvalho forte e claro, ainda

    que conservador

    Educar a mulher arranc-la na infncia ao seu bero fofo e tpido

    de beijos, e lev-la por caminho de uma majestade austera que ela

    nunca criou.

    prepar-la para a grande luta moral que a vida, com os cuidados

    com que Esparta, a guerreira cidade antiga, preparava os seus filhos

    para a luta do corpo, para a vitria da destreza fsica.

    associ-la pela compreenso e pela simpatia a todos os trabalhos e

    investigaes do homem moderno; dar-lhe ao lado deste um lugar

    honroso e definido, no igual, pois que so diversas as atribuies

    de ambos mas equivalente em direitos e em deveres.

    fazer-lhe compreender bem claro que as sedues do corpo seu

    orgulho supremo e seu constante desvanecimento quando no so

    reflexo da formosura e da robustez da alma, no passam de um lao

    ignbil, armado ao animal malfico e bravio que todo o homem

    encerra em si.

    Educar a mulher [] lev-la a compenetrar-se do seu papel

    providencial na famlia, e ach-la grande, til, elevada, digna de

    saciar as mais levantadas ambies, e tambm o que de uma

    importncia capital de pesar como uma responsabilidade tremenda

    no nimo mais altivo.

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    dar-lhe uma idia perfeita do dever e da justia, um ideal a que

    tendam incessantemente as aspiraes do seu esprito, uma religio

    que a hipocrisia e os clculos interesseiros no maculem nem

    amesquinhem, que se resuma para ela no sacrifcio sem

    voluptuosidades dissolventes e amor sem xtases histricos e sem

    raptos de paixo sensual.

    No basta, porm, exprimir tudo que se ousa esperar da mulher de

    amanh, preciso tambm lanar um olhar demorado e justo ao que

    a mulher de hoje.

    S assim podero compreender-se os erros que preciso desarraigar,

    os preconceitos que indispensvel destruir, a distncia enorme que

    temos de transpor para chegar ao momento da sua completa e salutar

    transformao.

    O que se pode inferir, tambm, que ao publicar os textos sobre e destas

    mulheres, sendo que uma era declaradamente catlica, os lderes protestantes

    apresentavam a sua religio como aquela que daria s brasileiras a oportunidade de uma

    espcie de ascenso, de visibilidade, tornando-as as "musas" inspiradoras do progresso

    no Brasil, bem como as militantes no lar da modernizao do ainda Imprio. O

    protestantismo, segundo eles, poderia resgatar as mulheres da obscuridade e ignorncia.

    Consideraes Finais

    Os dados apresentados ao longo deste trabalho objetivam ampliar as discusses

    que tm sido feitas a respeito dos desdobramentos da insero protestante na cultura e

    na sociedade brasileira. So incurses que comeam a partir de anseios da elite, como

    uma legislao de cunho mais liberal, que garantisse a abertura do sistema jurdico do

    Brasil aos imigrantes que trabalhariam j na nova ordem econmica mundial o

    trabalho livre assalariado, bem como trariam ao Brasil mo-de-obra mais "qualificada" e

    preparada tecnicamente para construir uma nao moderna aos moldes das grandes

    naes como a norte-americana.

    Logo, os lderes e rgo de comunicao protestantes assumiram a postura de

    combatentes da instituio da escravido no Brasil, tambm tomada como uma das

    causas de atraso e desmoralizao da nao. Um aspecto to caracterstico da sociedade

    brasileira do sculo XIX tambm foi polmico para as comunidades protestantes, que se

    viam, por vezes, encurraladas entre o discurso e a prtica anti-escravistas.

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    Contudo, um cuidado mais que especial foi dado s questes relativas

    educao no Brasil. Diversos textos aqui apresentados demonstram a preocupao que

    os missionrios tinham em melhorar as condies educacionais tanto para fazer valer

    sua mxima de livre interpretao das Escrituras quanto como instrumento de

    modernizao do Brasil.

    Na exposio dos documentos pesquisados, a nfase foi dada aos projetos de

    educao da mulher, que retificavam a sua posio de me e esposa, s que incumbidas

    da misso de educar seus filhos pelos parmetros da busca do progresso e da

    moralizao da sociedade. Elas seriam as militantes desse ideal dentro da famlia.

    Assim, meu objetivo aqui foi apresentar novos dados que colaboram para

    explicar os meios pelos quais a propaganda protestante foi se difundindo no Brasil:

    identificando problemas e apresentando "solues", buscando aliados desde entre os

    polticos liberais at as "mes de famlia", criando escolas, discursando sobre o

    progresso da nao e estabelecendo uma associao direta entre o protestantismo e a

    nova fase de modernizao proposta para o Brasil.

    REFERNCIAS

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