Preconceito Lingustico - Marcos Bagno

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    16-Jul-2015

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  • MARCOS BAGNO, tradutor, escritor e lingista, Doutor em Filologia e Lngua Portuguesa pela Universidade de So Paulo (USP). Professor de Lingstica do Instituto de Letras da Universidade de Braslia, publicou A lngua dc Eullia: novela sociolingstica (Ed. Contexto, 1997; em 13 ed.); Preconceito lingstico: o que , como se faz (Ed. Loyola, 1999; em 15 ed.); Dramtica da lngua portuguesa (Ed. Loyola, 2000; em 2 ed.); Portugus ou brasileiro? Um convite pesquisa (Parbola Ed., 2001; em 2 ed.); Lngua materna: letramento, variao e ensino (Parbola Ed., 2002). Alm desses ttulos, autor de duas dezenas de obras literrias. Recebeu em 1988 o Prmio Nestl de Literatura Brasileira e, em 1989, o Prmio Carlos Drummond de Andrade de Poesia, entre outros. Selecionou e traduziu os artigos reunidos em Norma lingstica (Ed. Loyola, 2001). Traduziu Histria concisa da lingstica, de Barbara Weedwood (Parbola Ed., 2002), alm de dezenas de obras cientficas, filosficas e literrias de autores como Balzac, Voltaire, H. G. Wells, Sartre, Oscar Wilde, etc. Vem se dedicando investigao das implicaes socioculturais do conceito de norma, sobretudo no que diz respeito ao ensino de portugus nas escolas brasileiras.

    Obras do Autor: A inveno das horas (contos), Ed. Scipione, 1988 (IV Prmio Bienal

    Nestl de Literatura Brasileira) O papel roxo da ma (infantil), Ed. L, 1989 (Prmio Joo de Barro

    de Literatura Infantil) Um cu azul para Clementina (infantil), Ed. L, 1991 Frevo, amor & graviola (juvenil), Ed. Atual, 1991 Amor, amora (juvenil), Ed. Bagao, 1992 Os nomes do amor (juvenil) (co-autoria com Stela Maris Rezende),

    Editora Moderna, 1993 A vingana da cobra (juvenil), Ed. tica, 1995 Dia de branco (juvenil), Ed. L, 1995 Miguel, o cravo & a rosa (infantil), Ed. L, 1995 Rua da Soledade (contos), Ed. L, 1995 (Prmio Estado do Paran

    1989) A barca de Zo (infantil), Ed. Formato, 1995 Mirablia (contos), Editora Didtica Paulista, 1996 Uma vitria diferente (juvenil) Ed. L, 1997 Unhas de ferro (juvenil), Ed. L, 1997 A Lngua de Eullia (novela sociolingstica), Ed. Contexto, 1997 Pesquisa na escola o que , como se faz, Ed. Loyola, 1998 Machado de Assis para principiantes, Ed. Atica, 1998 Preconceito lingustico o que , como se faz, Ed. Loyola, 1999 Minimirim e o planeta que encolheu (infantil), Ed. lcone, 2000 O Processo de Independncia do Brasil, Ed. Atica, 2000 Dramtica da lngua portuguesa, Ed. Loyola, 2000 Portugus ou brasileiro? Um convite pesquisa, Parbola Editorial,

    2001 Norma lingstica, Ed. Loyola, 2001

  • Lngua materna: letramento, variao e ensino, Parbola Editorial, 2002

    O espelho dos nomes (juvenil) tica, 2002

  • Marcos Bagno

    Preconceito lingstico

    o que , como se faz

  • CCONTRAONTRA C CAPAAPADiz-se que o brasileiro no sabe Portugus e que Portugus muito difcil. Estes so alguns dos mitos que compem um preconceito muito presente na cultura brasileira: o lingstico. Tudo por causa da confuso que se faz entre lngua e gramtica normativa (que no a lngua, mas s uma descrio parcial dela). Separe uma coisa da outra com este livro, que um achado.

    Revista Nova Escola, maio de 1999.

    Eu gostaria que algum j tivesse escrito um livro como este sobre a lngua inglesa.

    Prof. Gregory Guy, Universidade de York (Canad)

  • http://groups.google.com/group/digitalsourcehttp://groups.google.com/group/digitalsource

  • Edies Loyola

    Rua 1822 n 347 Ipiranga 04216-000 So Paulo, SP Caixa Postal 42.335 04218-970 So Paulo, SP (0**11) 6914-1922 (0**11) 6163-4275 Home page e vendas: www.loyola.com.br Editorial: loyola@loyola.com.br Vendas: vendas@loyola.com.br

    Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ou quaisquer meios (eletrnico ou mecnico, incluindo fotocpia e gravao) ou arquivada em qualquer sistema ou banco de dados sem permisso escrita da Editora.

    ISBN: 85-15-01889-6

    48 e 49 edio: junho de 2007

    EDIES LOYOLA, So Paulo, Brasil, 1999

  • Sedule curavi humanas actiones non ridere, non lugere, neque detestare, sed intellegere.

    SPINOZA

    (Tenho-me esforado por no rir das aes humanas, por no deplor-las nem odi-las, mas por entend-las)

    CamilaRealce

  • Sumrio

    PRIMEIRAS PALAVRAS .................................................................... 9

    I. A MITOLOGIA DO PRECONCEITO LINGSTICO ........................... 13Mito n 1 A lngua portuguesa falada no Brasil apresenta uma unidade surpreendente ............................................................................. 15 Mito n 2 Brasileiro no sabe portugus / S em Portugal se fala bem portugus ..................................................................................... 20Mito n 3 Portugus muito difcil ........................................................... 35Mito n 4As pessoas sem instruo falam tudo errado ........................... 40Mito n 5O lugar onde melhor se fala portugus no Brasil o Maranho ........................................................................................................ 46Mito n 6 O certo falar assim porque se escreve assim ......................... 52Mito n 7 preciso saber gramtica para falar e escrever bem .............. 62

  • Mito n 8O domnio da norma culta um instrumento de ascenso social ........................................................................................................ 69

    II. O CRCULO VICIOSO DO PRECONCEITO LINGSTICO .............. 731. Os trs elementos que so quatro

    ............................................ 732. Sob o imprio de Napoleo

    ....................................................... 793. Um festival de asneiras

    ............................................................ 834. Beethoven no danado

    ......................................................... 94

    III. A DESCONSTRUO DO PRECONCEITO LINGSTICO ........... 1051. Reconhecimento da crise

    ........................................................ 1052. Mudana de atitude

    ................................................................ 1153. O que ensinar portugus

    ..................................................... 1184. O que erro

    ............................................................................ 1225. Ento vale tudo

    ....................................................................... 1296. A parania ortogrfica

    ........................................................... 1317. Subvertendo o preconceito lingstico

    ................................... 139

  • IV. O PRECONCEITO CONTRA A LINGSTICA E OS LINGISTAS .................................................................................................................. 1471. Uma religio mais velha que o cristianismo

    ...................... 1472. Portugus ortodoxo? Que lngua essa?

    ............................... 1543. Devaneios de idiotas e ociosos

    ............................................... 1574. A quem interessa calar os lingistas?

    ................................... 161

    ANEXO CARTA DE MARCOS BAGNO REVISTA VEJA ............. 167

    REFERNCIAS ................................................................................. 185

    Nota da digitalizadora: A numerao de pginas aqui refere-se a edio original, a paginao original, que encontra-se inserida entre colchetes no texto.Entende-se que o texto que est antes da numerao entre colchetes o que pertence aquela pgina e o texto que est aps a numerao pertence a pgina seguinte.

  • Primeiras palavras

    Existe uma regra de ouro da Lingstica que diz: s existe lngua se houver seres humanos que a falem. E o velho e bom Aristteles nos ensina que o ser humano um animal poltico. Usando essas duas afirmaes como os termos de um silogismo (mais um presente que ganhamos de Aristteles), chegamos concluso de que tratar da lngua tratar de um tema poltico, j que tambm tratar de seres humanos. Por isso, o leitor e a leitora no devero se espantar com o tom marcadamente politizado de muitas de minhas afirmaes. proposital; alis, inevitvel. Temos de fazer um grande esforo para no incorrer no erro milenar dos gramticos tradicionalistas de estudar a lngua como uma coisa morta, sem levar em considerao as pessoas vivas que a falam.

    O preconceito lingstico est ligado, em boa medida, confuso que foi criada, no curso da histria, entre lngua e gramtica normativa. Nossa tarefa mais urgente desfazer essa confuso. Uma receita de bolo no um bolo, o molde de um vestido no um vestido, um mapa-mndi no o mundo... Tambm a gramtica no a lngua.

    A lngua um enorme iceberg flutuando no mar do tempo, e a gramtica normativa a tentativa de descrever [pg. 09] apenas uma parcela mais visvel dele, a chamada norma culta. Essa descrio, claro, tem seu valor e seus

  • mritos, mas parcial (no sentido literal e figurado do termo) e no pode ser autoritariamente aplicada a todo o resto da lngua afinal, a ponta do iceberg que emerge representa apenas um quinto do seu volume total. Mas essa aplicao autoritria, intolerante e repressiva que impera na ideologia geradora do preconceito lingstico.

    Voc sabe o que um igap? Na Amaznia, igap um trecho de mata inundada, uma grande poa de gua estagnada s margens de um rio, sobretudo depois da cheia. Parece-me uma boa imagem para a gramtica normativa. Enquanto a lngua um rio caudaloso, longo e largo, que nunca se detm em seu curso, a gramtica normativa apenas um igap, uma grande poa de gua parada, um charco, um brejo, um terreno alagadio, margem da lngua. Enquanto a gua do rio/lngua, por estar em movimento, se renova incessantemente, a gua do igap/gramtica normativa envelhece e s se renovar quando vier a prxima cheia. Meu objetivo atualmente, junto com muitos outros lingistas e pesquisadores, acelerar ao mximo essa prxima cheia...

    Este livro traz os primeiros resultados, sempre provisrios, das reflexes que venho fazendo sobre o tema do preconceito lingstico. Ele rene as principais concluses a que cheguei, concluses que pude compartilhar e discutir com as pessoas que me ouviram falar nas diversas palestras que dei ao longo de 1998.

    Essas palestras, e o livro que delas nasceu, s foram possveis graas ao esforo e ao carinho das seguintes [pg. 10] pessoas: ngela Paiva Dionsio, Ariovaldo Guireli, Ataliba de Castilho, Cludia Maia Ricardo, Doris da Cunha, sio

    CamilaRealce

  • Macedo Ribeiro, Irand Antunes, Jos Lus Falotico Corra, Judith Hoffnagel, Loureno Chacon, Lucila Nogueira, Maral Aquino, Marcos Marcionilo Maria Amlia Almeida, Maria Marta Scherre, Maria da Piedade S, Margia Viana, Rosely Falotico Corra e Sonia Alexandre.

    Esta segunda edio traz mudanas bastante significa-tivas em comparao com a primeira: alguns trechos foram eliminados, outros foram acrescentados, muitos sofreram profunda reformulao. Isso se deve minha vontade de manter o livro sempre atualizado com a evoluo de minha prpria maneira de ver as coisas e sintonizado com as crticas, sugestes e comentrios que o trabalho recebeu da parte de leitores e leitoras atentos e dispostos a colaborar na divulgao destas idias.

    Agradeo muito especialmente a Manoel Luiz Gonalves Corra, que me ajudou a preparar esta reedio, alertando-me para determinadas inconsistncias tericas e conceituais, nascidas de uma tentativa de simplificar (talvez demais) os conceitos da Lingstica para torn-los acessveis a um pblico mais amplo. claro que ainda sobram falhas e imperfeies de minha inteira (ir)responsabilidade e por isso convido os que desejarem participar desta luta que se engajem nela enviando-me suas opinies.

    A capa deste livro tem uma histria que merece ser contada. As pessoas ali fotografadas so minha sogra, Alice Francisca, meu sogro, Jos Alexandre, e meu cunhado [pg. 11] mais novo, Sstenes, cerca de vinte anos atrs. Como este um livro que trata de discriminao e excluso, decidi homenagear meus sogros que so, como costumo dizer, um prato cheio para alguns dos preconceitos mais vigorosos da

  • nossa sociedade: negros, nordestinos, pobres, analfabetos. Alice Francisca tambm carrega o estigma de ser mulher numa cultura entranhadamente machista. Aprender a amar estas pessoas pelo que elas so, deixando de lado todos os rtulos discriminadores que tentam classific-las em categorias supostamente inferiores s que eu e pessoas de minha extrao social ocupamos, tem sido uma lio fundamental para toda a minha vida pessoal e profissional.

    com este amor que me defendo das acusaes que s vezes recebo de ser autor de um livro demaggico. No demagogia: opo consciente, poltica, declaradamente parcial. Peo simplesmente aos leitores e leitoras que meditem sobre esta situao que tanto me angustia: homenagear com um livro pessoas que jamais podero l-lo. Isso explica, decerto, a grande dose de indignao que em certos momentos passa frente da reflexo cientfica serena e me faz assumir o tom apaixonado de quem no tolera nenhum tipo de intolerncia, principalmente quando fruto de uma viso de mundo estreita, inspirada em mitos e supersties que tm como nico objetivo perpetuar os mecanismos de excluso social.

    MARCOS BAGNO mbagno@terra.com.br

    [pg. 12]

  • IA mitologia

    do preconceito lingstico

    Parece haver cada vez mais, nos dias de hoje, uma forte tendncia a lutar contra as mais variadas formas de preconceito, a mostrar que eles no tm nenhum fundamento racional, nenhuma justificativa, e que so apenas o resultado da ignorncia, da intolerncia ou da manipulao ideolgica.

    Infelizmente, porm, essa tendncia no tem atingido um tipo de preconceito muito comum na sociedade brasileira: o preconceito lingstico. Muito pelo contrrio, o que vemos esse preconceito ser alimentado diariamente em programas de televiso e de rdio, em colunas de jornal e revista, em livros e manuais que pretendem ensinar o que certo e o que errado, sem falar, claro, nos instrumentos tradicionais de ensino da lngua: a gramtica normativa e os livros didticos.

    O preconceito lingstico fica bastante claro numa srie de afirmaes que j fazem parte da imagem (negativa) que o brasileiro tem de si mesmo e da lngua falada por aqui. Outras afirmaes so at bem-intencionadas, mas mesmo assim compem uma espcie de preconceito positivo, que tambm se afasta da realidade. Vamos examinar [pg. 13] algumas dessas afirmaes falaciosas e ver em que medida elas so, na verdade, mitos e fantasias que qualquer anlise mais rigorosa no demora a derrubar.

  • Estou convidando voc, a partir de agora, a fazer junto comigo um pequeno passeio pela mitologia do preconceito lingstico. Quando o passeio acabar, isto , quando tivermos terminado de examinar os principais mitos, vamos tentar refletir juntos para encontrar os meios mais adequados de combater esse preconceito no nosso dia-a-dia, na nossa atividade pedaggica de professores em geral e, particularmente, de professores de lngua portuguesa. [pg. 14]

  • Mito n 1A lngua portuguesa falada no Brasil

    apresenta uma unidade surpreendente

    Este o maior e o mais srio dos mitos que compem a mitologia do preconceito lingstico no Brasil. Ele est to arraigado em nossa cultura que at mesmo intelectuais de renome, pessoas de viso crtica e geralmente boas observadoras dos fenmenos sociais brasileiros, se deixam enganar por ele. o caso, por exemplo, de Darcy Ribeiro, que em seu ltimo grande estudo sobre o povo brasileiro escreveu:

    de assinalar que, apesar de feitos pela fuso de matrizes to diferenciadas, os

    brasileiros so, hoje, um dos povos mais homogneos lingstica e culturalmente e

    tambm um dos mais integrados socialmente da Terra. Falam uma mesma lngua,

    sem dialetos [grifo meu, Folha de S. Paulo, 5/2/95].

    Existe tambm toda uma longa tradio de estudos filolgicos e gramaticais que se baseou, durante muito tempo, nesse (pre)conceito irreal da unidade lingstica do Brasil.

    Esse mito muito prejudicial educao porque, ao no reconhecer a verdadeira diversidade do portugus falado no Brasil, a escola tenta impor sua norma lingstica como se ela fosse, de fato, a lngua comum a todos os 160 milhes de brasileiros, independentemente de sua idade, de sua origem geogrfica, de sua situao socioeconmica, de seu grau de escolarizao etc. [pg. 15]

  • Ora, a verdade que no Brasil, embora a lngua falada pela grande maioria da populao seja o portugus, esse portugus apresenta um alto grau de diversidade e de variabilidade, no s por causa da grande extenso territorial do pas que gera as diferenas regionais, bastante conhecidas e tambm vtimas, algumas delas, de muito preconceito , mas principalmente por causa da trgica injustia social que faz do Brasil o segundo pas com a pior distribuio de renda em todo o mundo. So essas graves diferenas de status social que explicam a existncia, em nosso pas, de um verdadeiro abismo lingstico entre os falantes das variedades no-padro do portugus brasileiro que so a maioria de nossa populao e os falantes da (suposta) variedade culta, em geral mal definida, que a lngua ensinada na escola.

    Como a educao ainda privilgio de muito pouca gente em nosso pas, uma quantidade gigantesca de brasileiros permanece margem do domnio de uma norma culta. Assim, da mesma forma como existem milhes de brasileiros sem terra, sem escola, sem teto, sem trabalho, sem sade, tambm existem milhes de brasileiros sem lngua. Afinal, se formos acreditar no mito da lngua nica, existem milhes de pessoas neste pas que no tm acesso a essa lngua, que a norma literria, culta, empregada pelos escritores e jornalistas, pelas instituies oficiais, pelos rgos do poder so os sem-lngua. claro que eles tambm falam portugus, uma variedade de portugus no-padro, com sua gramtica particular, que no entanto no reconhecida como vlida, que desprestigiada, ridicularizada, [pg. 16] alvo de chacota e de escrnio por parte dos falantes do portugus-padro ou

  • mesmo daqueles que, no falando o portugus-padro, o tomam como referncia ideal por isso podemos cham-los de sem-lngua.

    O que muitos estudos empreendidos por diversos pes-quisadores tm mostrado que os falantes das variedades lingsticas desprestigiadas tm srias dificuldades em compreender as mensagens enviadas para eles pelo poder pblico, que se serve exclusivamente da lngua-padro. Como diz Maurizzio Gnerre1 em seu livro Linguagem, escrita e poder, a Constituio afirma que todos os indivduos so iguais perante a lei, mas essa mesma lei redigida numa lngua que s uma parcela pequena de brasileiros consegue entender. A discriminao social comea, portanto, j no texto da Constituio. claro que Gnerre no est querendo dizer que a Constituio deveria ser escrita em lngua no-padro, mas sim que todos os brasileiros a que ela se refere deveriam ter acesso mais amplo e democrtico a essa espcie de lngua oficial que, restringindo seu carter veicular a uma parte da populao, exclui necessariamente uma outra, talvez a maior.

    Muitas vezes, os falantes das variedades desprestigiadas deixam de usufruir diversos servios a que tm direito simplesmente por no compreenderem a linguagem em-pregada pelos rgos pblicos. Um estudo bastante revelador dessa situao foi empreendido por Stella Maris Bortoni-Ricardo na periferia de Braslia e publicado no [pg. 17] artigo Problemas de comunicao interdialetal. Diante do que descobriu, a autora pode afirmar:

    1 As referncias bibliogrficas completas de todas as obras citadas ao longo deste livro se encontram no final do volume.

  • A idia de que somos um pas privilegiado, pois do ponto de vista lingstico tudo

    nos une e nada nos separa, parece-me, contudo, ser apenas mais um dos grandes

    mitos arraigados em nossa cultura. Um mito, por sinal, de conseqncias danosas,

    pois na medida em que no se reconhecem os problemas de comunicao entre

    falantes de diferentes variedades da lngua, nada se faz tambm para resolv-los.

    A mesma autora alerta para que no se confunda a idia de monolingismo com a de homogeneidade lingstica. O fato de no Brasil o portugus ser a lngua da imensa maioria da populao no implica, automaticamente, que esse portugus seja um bloco compacto, coeso e homogneo. Na verdade, como costumo dizer, o que habitualmente chamamos de portugus um grande balaio de gatos, onde h gatos dos mais diversos tipos: machos, fmeas, brancos, pretos, malhados, grandes, pequenos, adultos, idosos, recm-nascidos, gordos, magros, bem-nutridos, famintos etc. Cada um desses gatos uma variedade do portugus brasileiro, com sua gramtica especfica, coerente, lgica e funcional.

    preciso, portanto, que a escola e todas as demais instituies voltadas para a educao e a cultura abandonem esse mito da unidade do portugus no Brasil e passem a reconhecer a verdadeira diversidade lingstica de nosso pas para melhor planejarem suas polticas de ao junto populao amplamente marginalizada dos falantes das variedades no-padro. O reconhecimento da [pg. 18] existncia de muitas normas lingsticas diferentes fun-damental para que o ensino em nossas escolas seja conse-qente com o fato comprovado de que a norma lingstica ensinada em sala de aula , em muitas situaes, uma verdadeira lngua estrangeira para o aluno que chega escola proveniente de ambientes sociais onde a norma

  • lingstica empregada no quotidiano uma variedade de portugus no-padro.

    Felizmente, essa realidade lingstica marcada pela diversidade j reconhecida pelas instituies oficiais en-carregadas de planejar a educao no Brasil. Assim, nos Parmetros curriculares nacionais, publicados pelo Ministrio da Educao e do Desporto em 1998, podemos ler que

    A variao constitutiva das lnguas humanas, ocorrendo em todos os nveis. Ela

    sempre existiu e sempre existir, independentemente de qualquer ao normativa.

    Assim, quando se fala em Lngua Portuguesa est se falando de uma unidade

    que se constitui de muitas variedades. [...] A imagem de uma lngua nica, mais

    prxima da modalidade escrita da linguagem, subjacente s prescries

    normativas da gramtica escolar, dos manuais e mesmo dos programas de difuso

    da mdia sobre o que se deve e o que no se deve falar e escrever, no se

    sustenta na anlise emprica dos usos da lngua2.

    So, de fato, boas novas! Espero que elas desam das altas esferas governamentais e se propaguem pelas salas de aula de todo o pas! [pg. 19]

    2 Parmetros curriculares nacionais, Lngua Portuguesa, 5a a 8a sries, p. 29.

  • Mito n 2Brasileiro no sabe portugus /

    S em Portugal se fala bem portugus

    Essas duas opinies to habituais, corriqueiras, comuns, e que na realidade so duas faces de uma mesma moeda enferrujada, refletem o complexo de inferioridade, o sen-timento de sermos at hoje uma colnia dependente de um pas mais antigo e mais civilizado.

    Podemos encontrar essa concepo expressa no livro Lngua viva, de Srgio Nogueira Duarte, que uma coletnea de suas colunas sobre lngua portuguesa publicadas no Jornal do Brasil. Ali a gente l, na pgina 65:

    Sempre me perguntam onde se fala o melhor portugus. S pode ser em Portugal!

    J viajei muito pelo Brasil e j estive em todas as regies. Sinceramente, no sei

    onde se fala melhor. Cada regio tem suas qualidades e seus vcios de linguagem.

    [grifo meu]

    Por isso no consigo concordar com o ttulo do livro que est longe de analisar a verdadeira lngua viva usada em nosso pas , nem com o subttulo: uma anlise simples e bem-humorada da linguagem do brasileiro. Seria mais acertado dizer que se trata de uma anlise preconceituosa e desinformada da lngua falada e escrita por aqui. Mas no podemos culpar o autor, que antes uma vtima do que propriamente um responsvel por esse preconceito: ele est

  • apenas exprimindo uma ideologia impregnada em nossa cultura h muito tempo. [pg. 20]

    a mesma concepo torpe segundo a qual o Brasil um pas subdesenvolvido porque sua populao no uma raa pura, mas sim o resultado de uma mistura negativa de raas, sendo que duas delas, a negra e a indgena, so inferiores do branco europeu, por isso nosso povinho s pode ser o que . Ora, h muito tempo a cincia destruiu o mito da raa pura, que um conceito absurdo, sem nenhuma possibilidade de verificao na realidade de nenhum povo, por mais isolado que seja.

    Assim, uma raa que no pura no poderia falar uma lngua pura. No difcil encontrar intelectuais renomados que lamentem a corrupo do portugus falado no Brasil, lngua de matutos, de caipiras infelizes, arremedo tosco da lngua de Cames. o que escreve, por exemplo, Arnaldo Niskier, presidente da Academia Brasileira de Letras, num artigo publicado na Folha de S. Paulo (15/1/98):

    [...] pode-se registrar o fato, facilmente comprovvel, de que nunca se escreveu e

    falou to mal o idioma de Ruy Barbosa.

    [...] A classe dita culta mostra-se displicente em relao lngua nacional, e a

    indigncia vocabular tomou conta da juventude e dos no to jovens assim, quase

    como se aqueles se orgulhassem de sua prpria ignorncia e estes quisessem voltar

    atrs no tempo.

    Para mostrar o quanto declaraes desse tipo se baseiam mais em posturas preconceituosas perpetuadas ao longo dos sculos pela desinformao ou m informao do que em anlises cientficas acuradas dos fatos lingsticos, vamos

  • ler o seguinte trecho do fillogo Cndido de Figueiredo: [pg. 21]

    Quanto mais progressiva a civilizao de um povo, mais sujeita a sua lngua a

    deturpaes e vcios, sob a variada influncia das relaes internacionais, dos novos

    inventos, das travancas da ignorncia, e at dos caprichos da moda. [...] Sbios e

    romancistas, poetas e prosadores, e nomeadamente a imprensa peridica, parece

    haverem conspirado para dar curso s mais extraordinrias invenes e enxertos de

    linguagem.

    Ora, essas palavras foram escritas em 1903 num livro chamado O que se no deve dizer (sim, o ttulo esse mesmo!). surpreendente como elas tm o mesmo tom de queixa e censura das palavras de Niskier, escritas noventa e cinco anos depois! Niskier tambm faz, neste artigo, uma referncia queixosa ao pouco apreo que devotamos ao gosto pela leitura. Nosso ndice per capita mal alcana dois livros por habitante; na Frana, por exemplo, oscila em torno de oito, e passa a elogiar os hbitos culturais dos franceses, que valorizam mais a leitura do que os brasileiros. Esqueceu-se, porm, de dizer que a Frana ocupa a 11 posio no quadro do IDH (ndice de Desenvolvimento Humano), estabelecido pela ONU para avaliar a qualidade de vida nos 175 pases do mundo. O Brasil, que em 1996 ocupava a 58a

    posio, caiu, em 1999, para a 79a, devido sensvel piora das condies sociais dos brasileiros como um todo. Diante de tamanha diferena, um ndice per capita de dois livros por ano, num pas com 60 milhes de analfabetos plenos e analfabetos funcionais (nmero igual ao da populao total da Frana), mesmo espantoso...

  • E da mesma forma como Niskier lamenta a invaso dos anglicismos, Figueiredo diz que o enxerto da francesia [pg. 22] frutificou com [...] exuberncia, classificando de mal-ria o uso de palavras estrangeiras. E se quisssemos recuar ainda mais no tempo, no teramos dificuldades em encontrar outros autores vociferando contra a runa da lngua portuguesa e profetizando o fim dela.

    Felizmente, nenhuma dessas profecias se concretizou. Os galicismos, na passagem do sculo XIX para o XX, e os anglicismos, na virada do terceiro milnio, no tm a fora destruidora to temida pelos puristas e conservadores. A lngua portuguesa, nesses noventa e cinco anos, se manteve muito bem, obrigada, falada e escrita por cada vez mais gente, produziu uma literatura reconhecida mundialmente, propagada tambm em nvel internacional pelo grande prestgio de que goza a msica popular brasileira entre tantas outras provas de sua vitalidade. E a avalanche (ai, um galicismo!) de palavras estrangeiras tem de ser analisada sob a perspectiva da dependncia poltico-econmica (e conseqentemente cultural) do Brasil (e de Portugal) para com os centros mundiais de poder. No adianta bradar contra a invaso de palavras na lngua portuguesa sem analisar essa dependncia. querer eliminar os efeitos sem atacar as verdadeiras causas.

    E essa histria de dizer que brasileiro no sabe portu-gus e que s em Portugal se fala bem portugus? Trata-se de uma grande bobagem, infelizmente transmitida de gerao a gerao pelo ensino tradicional da gramtica na escola.

  • O brasileiro sabe portugus, sim. O que acontece que nosso portugus diferente do portugus falado em [pg. 23] Portugal. Quando dizemos que no Brasil se fala portugus, usamos esse nome simplesmente por comodidade e por uma razo histrica, justamente a de termos sido uma colnia de Portugal. Do ponto de vista lingstico, porm, a lngua falada no Brasil j tem uma gramtica isto , tem regras de funcionamento que cada vez mais se diferencia da gramtica da lngua falada em Portugal. Por isso os lingistas (os cientistas da linguagem) preferem usar o termo portugus brasileiro, por ser mais claro e marcar bem essa diferena.

    Na lngua falada, as diferenas entre o portugus de Portugal e o portugus do Brasil so to grandes que muitas vezes surgem dificuldades de compreenso: no vocabulrio, nas construes sintticas, no uso de certas expresses, sem mencionar, claro, as tremendas diferenas de pronncia no portugus de Portugal existem vogais e consoantes que nossos ouvidos brasileiros custam a reconhecer, porque no fazem parte de nosso sistema fontico3. E muitos estudos tm mostrado que os sistemas pronominais do portugus europeu e do portugus brasileiro so totalmente diferentes.

    Por exemplo, os pronomes o/a, de construes como eu o vi e eu a conheo, esto praticamente extintos [pg. 24] no portugus falado no Brasil, ao passo que, no de Portugal, continuam firmes e fortes. Esses pronomes nunca aparecem na fala das crianas brasileiras nem na dos brasileiros no-

    3 Assistindo um dia desses a televiso portuguesa por cabo, ouvi os verbos uprar e dlibrar. Consegue adivinhar o que ? Sim, operar e deliberar. Tambm comum os portugueses evitarem hiatos como a gua introduzindo um [y] e pronunciando aygua. Alm disso, se uma palavra termina em s e a prxima comea com c, os portugueses fundem essas duas consoantes numa s, pronunciada como o x de xixi: outros cinco pronunciado otruxincu. So realizaes fonticas totalmente estranhas lngua do brasileiro.

  • alfabetizados e tm baixa ocorrncia na fala dos indivduos cultos, o que demonstra que so exclusivos da lngua ensinada na escola, sobretudo da lngua escrita, no fazendo parte, ento, do repertrio da lngua materna dos brasileiros. Nossas crianas usam sem problema me e te Ela me bateu, Eu vou te pegar , mas o/a jamais, que so substitudos por ele/ ela: Eu vou pegar ele, Eu vi ela. As formas lo e la peg-lo, v-la , ento, nem pensar. Se as crianas no usam porque no ouvem os adultos usar, e se os adultos no usam porque no precisam desses pronomes. E mesmo na lngua dos adultos escolarizados, esses pronomes s aparecem como um recurso estilstico, em situaes de uso mais formais, quando o falante quer deixar claro que domina as regras impostas pela gramtica escolar. A gramtica escolar, no entanto, desconhece essa transformao por que a lngua est passando e insiste em considerar erradas construes como Eu conheo ele, Voc viu ela chegar etc.

    O nico nvel em que ainda possvel uma compreenso quase total entre brasileiros e portugueses o da lngua escrita formal, porque a ortografia praticamente a mesma, com poucas diferenas. Mas um mesmo texto lido em voz alta por um brasileiro e por um portugus vai soar completamente diferente, ou melhor, difrent! Alis, faa voc mesmo a experincia: tente tirar a letra de uma msica cantada por um cantor ou uma cantora da terrinha e veja [pg. 25] como difcil!4 E por incrvel que parea, um dos principais obstculos 4 Eu mesmo uma vez passei por uma situao embaraosa: um amigo meu, francs, me enviou uma fita cassete com msicas do compositor portugus Jos Afonso (por sinal, maravilhoso) e me pediu para tirar a letra de uma delas, de que ele gostava muito. Depois de algumas tentativas, acabei desistindo, porque havia muitas frases inteiras das quais eu no pescava simplesmente nada. Ele, espantado, me perguntou: Mas ele no canta em portugus? Tive de explicar ao meu amigo que havia grandes diferenas entre o

  • para a difuso no Brasil do cinema feito em Portugal justamente... a lngua alm das dificuldades de distribuio, ligadas ao quase monoplio do cinema americano. Como os brasileiros tm dificuldades em entender o portugus de Portugal, e como ficaria no mnimo estranho colocar legendas em filmes portugueses, o resultado que praticamente nunca se v filme portugus nos cinemas daqui. Temos a impresso de que Portugal no produz cinema, o que falso: h bons cineastas portugueses, um dos quais, Manuel d'Oliveira, reconhecido internacionalmente como um grande diretor.

    No que diz respeito ao ensino do portugus no Brasil, o grande problema que esse ensino at hoje, depois de mais de cento e setenta anos de independncia poltica, continua com os olhos voltados para a norma lingstica de Portugal. As regras gramaticais consideradas certas so aquelas usadas por l, que servem para a lngua falada l, que retratam bem o funcionamento da lngua que os [pg. 26] portugueses falam. a concepo que impera, por exemplo, no livro No erre mais!, de Luiz Antonio Sacconi, que na pgina 64 explica:

    A Lua mais pequena que a Terra

    Eis a uma frase corretssima, que muitos imaginam o contrrio. Mais pequeno

    expresso legtima, usada por todos os portugueses, que usam menor quando se

    trata de idia de qualidade: poeta menor, escritor menor etc. [grifo meu]

    Fica implcito, ento, que para considerar uma expresso legtima basta que ela seja usada por todos os por-tugueses, como se eles ditassem a norma lingstica vlida portugus do Brasil e o de Portugal. Mas eu tive a minha vingana. Pedi a esse mesmo amigo, pouco depois, que transcrevesse a letra de uma cano gravada por uma cantor canadense, e ele teve a mesma dificuldade, porque o francs do Canad s vezes pode ser incompreensvel para um falante do francs da Frana...

  • para todos os povos que falam portugus. Ora, todos sabe-mos que mais pequeno no funciona no Brasil, uma expresso rejeitada pela norma culta brasileira, que usa menor em todas as circunstncias em que h comparao.

    O mesmo esprito guiou a revista poca que, em sua edio de 14 de junho de 1999, estampou uma grande reportagem sobre A cincia de escrever bem, acerca da redao no vestibular. Entre as melhores redaes apre-sentadas naquele ano ao vestibular da Universidade de So Paulo estava a de Henrique Suguri, 17 anos, que em determinado momento assim se expressou (p. 81):

    O Brasil hoje no europeu, africano, asitico, indgena. Ns somos a mistura

    exata de tudo isso, completamente diferentes das nossas origens, nicos. E apesar

    disso, estamos indiscutivelmente atrelados aos princpios da nossa matriz. Talvez o

    ano 2000 possa servir para abrirmos os olhos e, em vez de comemorarmos os

    nossos cinco sculos coloniais, enterrarmos o que sobrou deles. [pg. 27]

    Essa belssima declarao de independncia, essa conscincia da especificidade cultural do povo brasileiro, essa valorizao de nossa identidade nacional, nica, parece que no foi totalmente compreendida pelos autores da reportagem. Pois estes, em vez de aceitar o convite do jovem vestibulando para enterrar o que sobrou dos cinco sculos de colonizao, fizeram questo de comprovar, ao contrrio, que ainda estamos indiscutivelmente atrelados aos princpios da nossa matriz, incluindo a, claro, os princpios lingsticos. Digo isso porque, na pgina 84 da mesma reportagem, aparece um quadro chamado Como escrever bem, que tem como subttulo:Dicas que valem para brasileiros de todas as

  • idades. Acontece que a primeirssima destas dicas a seguinte:

    O uso do gerndio empobrece o texto. Lembre que no existe gerndio no

    portugus falado em Portugal.

    Ora, se so dicas para brasileiros que querem escrever bem, por que motivos eles tm de se lembrar do que existe ou no existe no portugus de Portugal? A dica, alm de deixar mostra sua inspirao neocolonialista, tambm afirma uma inverdade lingstica: no portugus de Portugal existe, sim, o gerndio. A ttulo de curiosidade, lembro-me do Fado do cime sucesso na voz de Amlia Rodrigues, uma das maiores cantoras portuguesas de todos os tempos , cuja letra a certa altura diz: antes prefiro morrer / do que contigo viver / sabendo que gostas dela. Esse sabendo outra coisa no seno um gerndio. (Aproveito para chamar ateno para o antes [pg. 28] prefiro...do que, indcio de que os portugueses tambm erram na hora de usar o verbo preferir...)

    O que no existe no portugus falado em Portugal a construo do tipo estou comendo, ela est telefonando, Pedro esteve trabalhando muito situaes em que os portugueses usam a preposio a seguida do verbo no infinitivo. Imagine agora se algum de ns, brasileiros, disser por a frases como estou a comer, ela est a telefonar,Pedro esteve a trabalhar muito, que so uma das caractersticas mais marcantes do portugus de Portugal! Como no me canso de repetir, so simplesmente diferenas de uso e diferena no deficincia nem inferioridade. Quanto tempo ainda teremos de esperar para nos darmos

  • conta, de uma vez por todas, de que somos completamente diferentes das nossas origens, nicos, como to brilhantemente escreveu Henrique Suguri em sua redao de vestibular?

    Por causa desse preconceito que somos obrigados a ensinar e aprender que o certo dizer e escrever D--me um beijo e no Me d um beijo, e que errado dizer e escrever Assisti o filme e Aluga-se casas, porque l em Portugal no assim que se faz.

    O mito de que brasileiro no sabe portugus tambm afeta o ensino de lnguas estrangeiras. muito comum verificar entre professores de ingls, francs ou espanhol um grande desnimo diante das dificuldades de ensinar o idioma estrangeiro. E mais comum ainda ouvi-los dizer: Os alunos j no sabem portugus, imagine se vo conseguir aprender outra lngua, fazendo a velha confuso entre [pg. 29] lngua e gramtica normativa. muito fcil atribuir aos outros a culpa do nosso prprio fracasso. Assim, em vez de buscar as causas da dificuldade de ensino na metodologia empregada, nas diferenas de aptido individual para o aprendizado de lnguas ou na competncia do prprio professor, muito mais cmodo jogar a culpa no aluno ou na incompetncia lingstica inata do brasileiro.

    curioso como muitos brasileiros assumem esse mesmo preconceito negativo tambm em relao a outras lnguas, defendendo sempre a lngua da metrpole contra a lngua da ex-colnia. o nosso eterno trauma de inferioridade, nosso desejo de nos aproximarmos, o mximo possvel, do cultuado padro ideal, que a Europa. Todo santo dia tenho de ouvir algum me dizer que prefere o ingls britnico, porque acha o

  • ingls americano muito feio. A essas pessoas eu dou sempre a mesma resposta: aprenda o ingls britnico se quiser ler Shakespeare; mas se quiser dominar uma lngua de uso internacional, aceita em todos os cantos do mundo como veculo de intercmbio cultural, comercial, diplomtico, tecnolgico, cientfico etc., aprenda o ingls americano.

    Se algum de ns disser a um norte-americano que ele no sabe ingls ou que o ingls falado nos Estados Unidos errado ou feio, ele decerto vai ficar chocado com nossa ignorncia. Afinal, existe um argumento mais do que convincente para rebater essa acusao: o tamanho do pas e a quantidade de falantes de ingls que ali vivem, alm da importncia dos Estados Unidos no panorama mundial. [pg. 30]

    O mesmo argumento vale para o portugus do Brasil. Nosso pas 92 vezes e meia maior que Portugal, e nossa populao quase 15 vezes superior! Quando se trata de lngua, temos de levar em conta a quantidade: s na cidade de So Paulo vivem mais falantes de portugus do que em toda a Europa! Alm disso, o papel do Brasil no cenrio poltico-econmico mundial , de longe, muito mais importante que o de Portugal. No tem sentido nenhum, portanto, continuar alimentando essa fantasia de que os portugueses so os verdadeiros donos da lngua, enquanto ns a utilizamos (e mal!) apenas por emprstimo.

    Existe, embutida nesse mito, a iluso de que os portu-gueses falam e escrevem tudo certo e que seguem rigo-rosamente as regras da gramtica ensinada na escola. A professora Irand Antunes, de quem tive a honra de ser aluno na Universidade Federal de Pernambuco, me contou que

  • quando estava para embarcar para Portugal, onde viveria alguns anos preparando seu doutorado, muitas pessoas no Brasil lhe disseram: Voc vai morar em Portugal? Ento agora suas filhas vo aprender a falar direito!

    No nada disso. Assim como ns aqui cometemos nossos pecados contra a gramtica normativa, os portu-gueses tambm cometem os deles, s que, mais uma vez, diferentes dos nossos. Em Portugal, por exemplo, o plural de tu no vs, como querem as gramticas normativas. O plural de tu vocs. Pois bem, na hora de usar os possessivos, os portugueses usam vosso/vossa, que, teoricamente, s poderiam ser usados com referncia a vs: Vocs trouxeram os vossos filhos? E num livro editado [pg. 31] em Portugal encontrei a seguinte pergunta: No vos sucede sentirem-se por vezes um pouco indefinidos? a famosa mistura de tratamento, que causa tanto arrepio e dor de estmago nos gramticos conservadores mistura que, em termos cientficos e no-preconceituosos, deve ser analisada, de fato, como uma reorganizao do sistema pronominal da lngua, tanto a de l como a de c.

    Ento, no h por que continuar difundindo essa idia mais do que absurda de que brasileiro no sabe portugus. O brasileiro sabe o seu portugus, o portugus do Brasil, que a lngua materna de todos os que nascem e vivem aqui, enquanto os portugueses sabem o portugus deles. Nenhum dos dois mais certo ou mais errado, mais feio ou mais bonito: so apenas diferentes um do outro e atendem s necessidades lingsticas das comunidades que os usam,necessidades que tambm so... diferentes!

  • Em seu livro Emlia no Pas da Gramtica, publicado em 1934, Monteiro Lobato j chamava a ateno para esse tipo de preconceito (que no entanto continua firme e forte no Brasil de hoje!). Numa conversa com as crianas do Stio do Pica-pau Amarelo, a velha Dona Etimologia lhes diz (pp. 100-101):

    [...] Uma lngua no pra nunca. Evolui sempre, isto , muda sempre. H certos

    gramticos que querem fazer a lngua parar num certo ponto, e acham que erro

    dizermos de modo diferente do que diziam os clssicos.

    Quem vem a ser clssicos? perguntou a menina [Narizinho].

    Os entendidos chamam clssicos aos escritores antigos, como o padre

    Antnio Vieira, Frei Lus de Sousa, o padre [pg. 32] Manuel Bernardes e outros.

    Para os carranas, quem no escreve como eles est errado. Mas isso curteza de

    vistas. Esses homens foram bons escritores no seu tempo. Se aparecessem agora

    seriam os primeiros a mudar, ou a adotar a lngua de hoje, para serem entendidos.

    A lngua variou muito e sobretudo aqui na cidade nova [o Brasil]. Inmeras

    palavras que na cidade velha [Portugal] querem dizer uma coisa, aqui dizem outra.

    [...] Tambm no modo de pronunciar as palavras existem muitas variaes. Aqui,

    todos dizem PEITO; l, todos dizem PAITO, embora escrevam a palavra da mesma

    maneira. Aqui se diz TENHO e l se diz TANHO. Aqui se diz VERO e l se diz V'RO.

    Tambm eles dizem por l VATATA, VACALHAU, BACA, VESOURO lembrou

    Pedrinho.

    Sim, o povo de l troca muito o v pelo B e vice-versa.

    Nesse caso, aqui nesta cidade se fala mais direito do que na cidade velha

    concluiu Narizinho.

    Por qu? Ambas tm o direito de falar como quiserem, e portanto ambas

    esto certas. O que sucede que uma lngua, sempre que muda de terra, comea a

    variar muito mais depressa do que se no tivesse mudado. Os costumes so outros,

    a natureza outra as necessidades de expresso tornam-se outras. Tudo junto

    fora a lngua que emigra a adaptar-se sua nova ptria.

  • A lngua desta cidade [Brasil] est ficando um dialeto da lngua velha. Com

    o correr dos sculos bem capaz de ficar to diferente da lngua velha como esta

    ficou diferente do latim. Vocs vo ver.

    Monteiro Lobato, que morreu em 1948, estava muito mais por dentro das noes da lingstica moderna do que muito autor de gramtica que est por a hoje, vivo e bulindo, como se diz no Nordeste... [pg. 33]

    espantoso que a figura do gramtico autoritrio e intolerante ridicularizado por Lobato na personagem do professor Aldrovando Cantagalo, em seu delicioso conto O colocador de pronomes, de 1924 (!) tenha voltado cena neste fim de sculo, sob a roupagem enganosamente moderna da televiso, do computador e da multimdia. [pg. 34]

  • Mito n 3Portugus muito difcil

    Essa afirmao preconceituosa prima-irm da idia que acabamos de derrubar, a de que brasileiro no sabe portugus. Como o nosso ensino da lngua sempre se baseou na norma gramatical de Portugal, as regras que aprendemos na escola em boa parte no correspondem lngua que realmente falamos e escrevemos no Brasil. Por isso achamos que portugus uma lngua difcil: porque temos de decorar conceitos e fixar regras que no significam nada para ns. No dia em que nosso ensino de portugus se concentrar no uso real, vivo e verdadeiro da lngua portuguesa do Brasil bem provvel que ningum mais continue a repetir essa bobagem.

    Todo falante nativo de uma lngua sabe essa lngua. Saber uma lngua, no sentido cientfico do verbo saber, significa conhecer intuitivamente e empregar com naturalidade as regras bsicas de funcionamento dela.

    Est provado e comprovado que uma criana entre os 3 e 4 anos de idade j domina perfeitamente as regras gramaticais de sua lngua! O que ela no conhece so su-tilezas, sofisticaes e irregularidades no uso dessas regras, coisas que s a leitura e o estudo podem lhe dar. Mas nenhuma criana brasileira dessa idade vai dizer, por exem-plo: Uma meninos chegou aqui amanh. Um estrangeiro, porm, que esteja comeando a aprender portugus, poder

  • se confundir e falar assim. Por isso aquela piadinha que muita gente solta quando v uma criancinha estrangeira falando To pequeno e j fala to bem [pg. 35] ingls [ou outra lngua] tem seu fundo de verdade: muito pouca gente conseguir falar uma lngua estrangeira com tanta desenvoltura quanto uma criana de cinco anos que tem nela sua lngua materna! Por qu? Porque toda e qualquer lngua fcil para quem nasceu e cresceu rodeado por ela! Se existisse lngua difcil, ningum no mundo falaria hngaro, chins ou guarani, e no entanto essas lnguas so faladas por milhes de pessoas, inclusive criancinhas analfabetas!

    Se tanta gente continua a repetir que portugus difcil porque o ensino tradicional da lngua no Brasil no leva em conta o uso brasileiro do portugus. Um caso tpico o da regncia verbal. O professor pode mandar o aluno copiar quinhentas mil vezes a frase: Assisti ao filme. Quando esse mesmo aluno puser o p fora da sala de aula, ele vai dizer ao colega: Ainda no assisti o filme do Zorro! Porque a gramtica brasileira no sente a necessidade daquela preposio a, que era exigida na norma clssica literria, cem anos atrs, e que ainda est em vigor no portugus falado em Portugal, a dez mil quilmetros daqui! um esforo rduo e intil, um verdadeiro trabalho de Ssifo, tentar impor uma regra que no encontra justificativa na gramtica intuitiva do falante.

    A prova mais visvel disso que aquelas mesmas pessoas que, por causa da presso policialesca da escola e da gramtica tradicional, usam a preposio a depois do verbo assistir, tambm dizem que o jogo foi assistido por vinte mil pessoas. Ora, se o verbo assistir pede uma preposio

  • porque ele no transitivo direto, e s os verbos transitivos diretos podem, segundo as gramticas, assumir a voz passiva. Desse modo, quem diz assisti ao [pg. 36] jogo no poderia, teoricamente, dizer o jogo foi assistido. S que essa esquizofrenia gramatical acontece o tempo todo. Basta ler jornais como a Folha de S. Paulo e o Estado de S. Paulo, cujos manuais de redao decretam que o verbo assistir tem que vir obrigatoriamente seguido da preposio a. Na voz ativa, a preposio aparece: Vinte mil pagantes assistiram ao jogo, porque assim manda o manual da redao. Mas na hora de usar a voz passiva, a gramtica intuitiva brasileira do redator se manifesta, e a gente encontra milhares de exemplos do tipo o jogo foi assistido por vinte mil pagantes. Essas pes-soas, ento, ficam em cima do muro: acertam na voz ativa, por causa do patrulhamento lingstico, mas erram na passiva, porque se deixam levar pelo uso normal do portugus brasileiro. Tudo isso por causa da cobrana indevida, por parte do ensino tradicional, de uma norma gramatical que no corresponde realidade da lngua falada no Brasil. O professor Sirio Possenti, da UNICAMP, em seu excelente livro Por que (no) ensinar gramtica na escola, classifica a regncia assistir a como um arcasmo, uma forma sinttica que j caiu em desuso, mas continua sendo cobrada injustificadamente pelo ensino tradicionalista, que se recusa a admitir a extino desse e de muitos outros dinossauros lingsticos.

    Por isso tantas pessoas terminam seus estudos, depois de onze anos de ensino fundamental e mdio, sentindo-se incompetentes para redigir o que quer que seja. E no toa: se durante todos esses anos os professores tivessem

  • chamado a ateno dos alunos para o que realmente interessante e importante, se tivessem desenvolvido [pg. 37] as habilidades de expresso dos alunos, em vez de entupir suas aulas com regras ilgicas e nomenclaturas incoerentes, as pessoas sentiriam muito mais confiana e prazer no momento de usar os recursos de seu idioma, que afinal um instrumento maravilhoso e que pertence a todos! Falaremos disso na terceira parte deste livro.

    Se tantas pessoas inteligentes e cultas continuam achando que no sabem portugus ou que portugus muito difcil porque esta disciplina fascinante foi trans-formada numa cincia esotrica, numa doutrina cabalstica que somente alguns iluminados (os gramticos tradicionalistas!) conseguem dominar completamente. Eles continuam insistindo em nos fazer decorar coisas que nin-gum mais usa (fsseis gramaticais!), e a nos convencer de que s eles podem salvar a lngua portuguesa da deca-dncia e da corrupo. Hoje em dia, alis, alguns deles esto at fazendo sucesso na televiso, no rdio e em outros meios de comunicao, transformando essa suposta dificuldade do portugus num produto com boa sada comercial. Para o j citado Arnaldo Niskier, trata-se de uma saudvel epidemia que tomou conta da imprensa brasileira. Que epidemia, concordo, mas quanto a ser saudvel, tenho muitas e srias dvidas... livro, curso em vdeo-cassete, CD-ROM, Manual de Redao do Jornal Tal, consultrio gramatical por telefone... Eles juram que quem no souber conjugar o verbo apropinquar-se vai direto para o inferno! Na segunda parte deste livro tratarei de explicar por que no considero saudvel essa epidemia. [pg. 38]

  • No fundo, a idia de que portugus muito difcil serve como mais um dos instrumentos de manuteno do status quo das classes sociais privilegiadas. Essa entidade mstica e sobrenatural chamada portugus s se revela aos poucos iniciados, aos que sabem as palavras mgicas exatas para faz-la manifestar-se. Tal como na ndia antiga, o conhecimento da gramtica reservado a uma casta sacerdotal, encarregada de preserv-la pura e intacta, longe do contato infeccioso dos prias.

    A propaganda da suposta dificuldade da lngua , como diz Gnerre no livro j citado,o arame farpado mais poderoso para bloquear o acesso ao poder (p. 6). Sustentar que portugus muito difcil cavar uma profunda trincheira entre os poucos que sabem a lngua e a massa enorme de asnos (termo usado por Luiz Antonio Sacconi em seu livro No erre mais!) que necessitam, assim, do auxlio indispensvel daqueles mestres para saltar com segurana por sobre o abismo da ignorncia.

    Em termos mais brandos, a embalagem do CD-ROM Nossa lngua portuguesa oferece o produto como uma ajuda a evitar as armadilhas da lngua. Ora, no a lngua que tem armadilhas, mas sim a gramtica normativa tradicional, que as inventa precisamente para justificar sua existncia e para nos convencer de que ela indispensvel.

    No seria a hora de acionar a Lei de Defesa do Consu-midor contra essa reserva de mercado? [pg. 39]

  • Mito n 4As pessoas sem instruo falam tudo

    errado

    O preconceito lingstico se baseia na crena de que s existe, como vimos no Mito n 1, uma nica lngua portuguesa digna deste nome e que seria a lngua ensinada nas escolas, explicada nas gramticas e catalogada nos dicionrios. Qualquer manifestao lingstica que escape desse tringulo escola-gramtica-dicionrio considerada, sob a tica do preconceito lingstico, errada, feia, estropiada, rudimentar, deficiente, e no raro a gente ouvir que isso no portugus.

    Um exemplo. Na viso preconceituosa dos fenmenos da lngua, a transformao de I em R nos encontros consonantais como em Crudia, chicrete, praca, broco, pranta tremendamente estigmatizada e s vezes considerada at como um sinal do atraso mental das pessoas que falam assim. Ora, estudando cientificamente a questo, fcil descobrir que no estamos diante de um trao de atraso mental dos falantes ignorantes do portugus, mas simplesmente de um fenmeno fontico que contribuiu para a formao da prpria lngua portuguesa padro. Basta olharmos para o seguinte quadro: [pg. 40]

    PORTUGUS PADRO ETIMOLOGIA ORIGEMbranco > blank germnicobrando > blandu latim

  • cravo > clavu latimdobro > duplu latim

    escravo > sclavu latimfraco > flaccu latimfrouxo > fluxu latimgrude > gluten latim

    obrigar > obligare latimpraga > plaga latimprata > plata provenalprega > plica latim

    Como fcil notar, todas as palavras do portugus--padro listadas acima tinham, na sua origem, um I bem ntido que se transformou em R. E agora? Se fssemos pensar que as pessoas que dizem Crudia, chicrete e pranta tm algum defeito ou atraso mental, seramos forados a admitir que toda a populao da provncia romana da Lusitnia tambm tinha esse mesmo problema na poca em que a lngua portuguesa estava se formando. E que o grande Lus de Cames tambm sofria desse mesmo mal, j que ele escreveu ingrs, pubricar, pranta, frauta, frecha na obra que considerada at hoje o maior monumento literrio do portugus clssico, o poema Os Lusadas. E isso, craro, seria no mnimo absurdo.

    Existem, evidentemente, falantes da norma culta urbana, pessoas escolarizadas, que tm problemas para [pg. 41] pronunciar os encontros consonantais com L. Nesses casos, sim, trata-se realmente de uma dificuldade fsica que pode ser resolvida com uma terapia fonoaudiolgica. No dessas pessoas que estamos tratando aqui, mas dos brasileiros falantes das variedades no-padro, em cujo sistema fontico simplesmente no existe encontro consonantal com L, independentemente de terem ou no dificuldades

  • articulatrias. Quando, na escola, se depararem com os encontros consonantais com L, preciso que o professor tenha conscincia de que se trata de um aspecto fontico estrangeiro para eles, do mesmo tipo dos que encontramos, por exemplo, nos cursos de ingls, quando nos esforamos para pronunciar bem o TH de throw ou o I de live. preciso separar bem os dois aspectos do fenmeno.

    Se dizer Crudia, praca, pranta considerado errado, e, por outro lado, dizer frouxo, escravo, branco, praga considerado certo, isso se deve simplesmente a uma questo que no lingstica, mas social e poltica as' pessoas que dizem Crudia, praca, pranta pertencem a uma classe social desprestigiada, marginalizada, que no tem acesso educao formal e aos bens culturais da elite, e por isso a lngua que elas falam sofre o mesmo preconceito que pesa sobre elas mesmas, ou seja, sua lngua considerada feia,pobre,carente, quando na verdade apenas diferente da lngua ensinada na escola.

    Ora, do ponto de vista exclusivamente lingstico, o fenmeno que existe no portugus no-padro o mesmo que aconteceu na histria do portugus-padro, e [pg. 42] tem at um nome tcnico: rotacismo. O rotacismo participou da formao da lngua portuguesa padro, como j vimos em branco, escravo, praga, fraco etc., mas ele continua vivo e atuante no portugus no-padro, como em broco, chicrete, pranta, Crudia, porque essa variedade no-padro deixa que as tendncias normais e inerentes lngua se manifestem livremente. Assim, o problema no est naquilo que se fala, mas em quem fala o qu. Neste caso, o preconceito lingstico decorrncia de um preconceito social. Este tipo especfico

  • de preconceito o que abordei em meu livro A lngua de Eullia.

    Minha herona literria predileta, a boneca Emlia, de Monteiro Lobato, no quis saber desse tipo de preconceito. Ao visitar, no Pas da Gramtica, a priso onde Dona Sintaxe mantinha enjaulados os vcios de linguagem, revoltou-se ao ver atrs das grades o Provincianismo, isto , os vcios da fala rural, do caipira (p. 120):

    Emlia no achou que fosse caso de conservar na cadeia o pobre matuto. Alegou

    que ele tambm estava trabalhando na evoluo da lngua e soltou-o.

    V passear, seu Jeca. Muita coisa que hoje esta senhora condena vai ser

    lei um dia. Foi voc quem inventou o VOC em vez de TU, e s isso quanto no

    vale? Estamos livres da complicao antiga do Tuturututu.

    Como se v, do mesmo modo como existe o preconceito contra a fala de determinadas classes sociais, tambm existe o preconceito contra a fala caracterstica de certas regies. um verdadeiro acinte aos direitos humanos, por exemplo, o modo como a fala nordestina retratada [pg. 43] nas novelas de televiso, principalmente da Rede Globo. Todo personagem de origem nordestina , sem exceo, um tipo grotesco, rstico, atrasado, criado para provocar o riso, o escrnio e o deboche dos demais personagens e do espectador. No plano lingstico, atores no-nordestinos expressam-se num arremedo de lngua que no falada em lugar nenhum do Brasil, muito menos no Nordeste. Costumo dizer que aquela deve ser a lngua do Nordeste de Marte! Mas ns sabemos muito bem que essa atitude representa uma forma de marginalizao e excluso.

  • Para mostrar que a fala nordestina nada tem de engra-ada ou ridcula, vamos fazer uma pequena comparao. Na pronncia normal do Sudeste, a consoante que escreve-mos T pronunciada [t] (como em tcheco) toda vez que seguida de um [i]. Esse fenmeno fontico se chama palatalizao. Por causa dele, ns, sudestinos, pronunciamos [titia] a palavra escrita TITIA. E todo mundo acha isso perfeitamente normal, ningum tem vontade de rir quando um carioca, mineiro ou capixaba fala assim.

    Quando, porm, um falante do Sudeste ouve um falante da zona rural nordestina pronunciar a palavra escrita OITO como [oytu], ele acha isso muito engraado, ridculo ou errado. Ora, do ponto de vista meramente lingstico, o fenmeno o mesmo palatalizao , s que o elemento provocador dessa palatalizao, o [y], est antes do [t] e no depois dele.

    Ento, se o fenmeno o mesmo, por que na boca de um ele normal e na boca de outro ele engraado, [pg. 44] feio ou errado? Porque o que est em jogo aqui no a lngua, mas a pessoa que fala essa lngua e a regio geogrfica onde essa pessoa vive. Se o Nordeste atrasado, pobre, subdesenvolvido ou (na melhor das hipteses) pitoresco, ento, naturalmente, as pessoas que l nasceram e a lngua que elas falam tambm devem ser consideradas assim...

    Ora, faa-me o favor, Rede Globo! [pg. 45]

  • Mito n5O lugar onde melhor se fala

    portugusno Brasil o Maranho

    No sei quem foi a primeira pessoa que proferiu essa grande bobagem, mas a realidade que at hoje ela continua sendo repetida por muita gente por a, inclusive gente culta, que no sabe que isso apenas um mito sem nenhuma fundamentao cientfica. De onde ser que veio essa idia? Esse mito nasceu, mais uma vez, da velha posio de subservincia em relao ao portugus de Portugal.

    sabido que no Maranho ainda se usa com grande regularidade o pronome tu, seguido das formas verbais clssicas, com a terminao em -s caracterstica da segunda pessoa: tu vais, tu queres, tu dizes, tu comias, tu cantavas etc. Na maior parte do Brasil, como sabemos, devido reorganizao do sistema pronominal de que j falei, o pronome tu foi substitudo por voc. Alis, nas palavras da boneca Emlia, o tu j est velho coroco e o que ele deve fazer, na opinio dela, ir arrumando a trouxa e pondo-se ao fresco, e mudar-se de vez para o bairro das palavras arcaicas. De fato, o pronome tu est em vias de extino na fala do brasileiro, e quando ainda usado, como por exemplo em alguns falares caractersticos de certas camadas sociais do Rio de Janeiro, o verbo assume a forma da terceira pessoa: tu vai, tu fica, tu quer, tu deixa disso etc., que caracteriza

  • tambm a fala informal de algumas outras regies. Em Pernambuco, por [pg. 46] exemplo, muito comum a interjeio interrogativa tu acha? para indicar surpresa ou indignao.

    Ora, somente por esse arcasmo, por essa conservao de um nico aspecto da linguagem clssica literria, que coincide com a lngua falada em Portugal ainda hoje, que se perpetua o mito de que o Maranho o lugar onde melhor se fala o portugus no Brasil.

    Acontece, porm, que os defensores desse mito no se do conta de que, ao utilizarem o critrio prescritivista de correo para sustent-lo, se esquecem de que os mesmos maranhenses que dizem tu s, tu vais, tu foste, tu quiseste, tambm dizem: Esse um bom livro para ti ler, em vez da forma correta, Esse um bom livro para tu leres. Ou seja, eles atribuem ao pronome ti a mesma funo de sujeito que em amplas regies do Brasil, nas mais diversas camadas sociais (cultas inclusive), atribuda ao pronome mim quando antecedido da preposio para e seguido de verbo no infinitivo: Para mim fazer isso vou precisar da sua ajuda uma construo sinttica que deixa tanta gente de cabelo em p.

    O que acontece com o portugus do Maranho em relao ao portugus do resto do pas o mesmo que acontece com o portugus de Portugal em relao ao portugus do Brasil: no existe nenhuma variedade nacional, regional ou local que seja intrinsecamente melhor, mais pura, mais bonita, mais correta que outra. Toda variedade lingstica atende s necessidades da comunidade de seres humanos que a empregam. Quando deixar de

  • atender, ela inevitavelmente sofrer transformaes para [pg. 47] se adequar s novas necessidades. Toda variedade lingstica tambm o resultado de um processo histrico prprio, com suas vicissitudes e peripcias particulares. Se o portugus de So Lus do Maranho e de Belm do Par, assim como o de Florianpolis, conservou o pronome tu com as conjugaes verbais lusitanas, porque nessas regies aconteceu, no perodo colonial, uma forte imigrao de aorianos, cujo dialeto especfico influenciou a variedade de portugus brasileiro falado naqueles locais. O mesmo acontece com algumas caractersticas italianizantes do portugus da cidade de So Paulo, onde grande a presena dos imigrantes italianos e seus descendentes, ou com castelhanismos evidentes na fala dos gachos, que mantm estreitos contatos culturais com seus vizinhos argentinos e uruguaios.

    Numa entrevista revista Veja (10/9/97), Pasquale Cipro Neto disse que pura lenda a idia de que o Maranho o lugar do Brasil onde melhor se fala portugus. Ponto para ele. Infelizmente, continuando a tratar do assunto, no hesitou em afirmar que no cmputo geral, o carioca o que se expressa melhor sob a tica da norma culta e que

    a So Paulo que fala 'dois pastel' e acabou as ficha' um horror. No acredito que

    o fato de ser uma cidade com grande nmero de imigrantes seja uma explicao

    suficiente para esse portugus esquisito dos paulistanos. Na verdade, inexplicvel.

    Faltam argumentos cientficos rigorosos, por parte do entrevistado, que nos expliquem como chegou ao cmputo [pg. 48] geral que lhe permitiu atribuir ao carioca uma expresso melhor sob a tica da norma culta, nem com que

  • critrios metodolgicos chegou concluso de que o por-tugus paulistano esquisito. O uso de expresses to generalizadoras como o carioca (de que classe social, de que faixa etria, com que nvel de instruo?) ou a So Paulo que fala (quase vinte milhes de habitantes, duas vezes a populao de Portugal!) acaba reforando indiretamente (devido influncia inegvel de quem as formulou como formador de opinio) a idia de que o falar carioca melhor e digno de maior prestgio que os demais falares brasileiros idia que, no passado, levou at a se querer impor a pronncia carioca como a oficial no teatro, no canto lrico e nas salas de aula do Brasil inteiro!

    As pesquisas sociolingsticas que se baseiam em coleta de dados por meio de gravaes da fala espontnea, viva, dos usurios nativos da lngua confirmam uma suposio bvia: as pessoas das classes cultas de qualquer lugar dominam melhor a norma culta do que as pessoas das classes no-cultas de qualquer lugar. Falantes cultos do Rio de Janeiro, do Recife, de Porto Alegre, de So Paulo, de Catol do Rocha ou de Guaratinguet se expressaro igualmente bem sob a tica da norma culta. Basta consultar, por exemplo, o enorme acervo de centenas de horas de gravao da fala urbana culta recolhido pelos pesquisadores do Projeto NURC5

    para confirmar que, [pg. 49] apesar das inevitveis variaes regionais, existe uma norma urbana culta geral brasileira. 5 O material do Projeto NURC pode ser consultado nos vrios livros publicados com as transcries das fitas gravadas nas cincos diferentes cidades que compem o projeto (Recife, Salvador, Rio de Janeiro, So Paulo e Porto Alegre). Alguns desses livros so: CASTILHO & PRETI, A linguagem falada culta na cidade de So Paulo (So Paulo, T. A. Queiroz/FAPESP, 1987 - vol. 1 - e 1988 - vol. 2); CALLOU & LOPES, A linguagem falada culta na cidade do Rio de Janeiro (Rio de Janeiro, UFRJ, 1992 - vol. 1 -, 1993 - vol. 2 - e 1994 - vol. 3); HILGERT, A linguagem falada culta na cidade de Porto Alegre (UFRS, 1997, vol. 1); MOTA & ROLLEMBERG, A linguagem falada culta na cidade do Salvador (UFBA, 1994, vol. 1); S, CUNHA, LIMA & OLIVEIRA, A linguagem falada culta na cidade do Recife (UFPE, 1996).

  • Muitos aspectos dessa norma urbana culta esto descritos nos seis volumes da Gramtica do portugus falado, uma grande obra coletiva publicada pela Editora da UNICAMP, resultado do trabalho de investigao e anlise de dezenas de lingistas das mais diversas regies do pas.

    De igual modo, fenmenos de concordncia do tipo dois pastel e acabou as ficha so facilmente encontrveis na fala carioca, como podemos ouvir nas fitas gravadas do Projeto CENSO, que investiga o uso da lngua no Rio de Janeiro nas classes sociais no-cultas (isto , pessoas que no cursaram universidade)6. Alm disso, esse tipo de concordncia se verifica de Norte a Sul do Brasil e tambm em Portugal, segundo pesquisas recentes da professora Maria Marta Scherre. Essa mesma pesquisadora defendeu, na Universidade Federal do Rio de Janeiro, uma tese de doutorado com o ttulo Reanlise da concordncia [pg. 50] nominal em portugus, com 555 pginas, que hoje uma referncia obrigatria para quem se aventurar a emitir opinies a respeito. Scherre mostra que, ao contrrio do que pensa Cipro, aqueles fenmenos de concordncia so, na verdade, altamente explicveis. Portanto no representam uma mera esquisitice dos paulistanos, muito menos um horror.

    Convm salientar que a determinao das normas culta e no-culta uma questo de grau de freqncia das variantes (o que os normativistas considerariam erros ou acertos). Por exemplo, coisas como os menino tudo ou houveram fatos podem aparecer na fala de brasileiros cultos.6 A anlise de alguns fenmenos variveis do portugus falado na cidade do Rio de Janeiro, com base no acervo do Projeto CENSO, se encontra no livro organizado por SILVA & SCHERRE, Padres sociolingsticos, Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro/UFRJ, 1996.

  • preciso abandonar essa nsia de tentar atribuir a um nico local ou a uma nica comunidade de falantes o melhor ou o pior portugus e passar a respeitar igualmente todas as variedades da lngua, que constituem um tesouro precioso de nossa cultura. Todas elas tm o seu valor, so veculos plenos e perfeitos de comunicao e de relao entre as pessoas que as falam. Se tivermos de incentivar o uso de uma norma culta, no podemos faz-lo de modo absoluto, fonte do preconceito. Temos de levar em considerao a presena de regras variveis em todas as variedades, a culta inclusive. [pg. 51]

    Mito n 6O certo falar assim

    porque se escreve assim

    Diante de uma tabuleta escrita COLGIO provvel que um pernambucano, lendo-a em voz alta, diga Clgio, que um carioca diga CUlgio, que um paulistano diga Clgio. E agora? Quem est certo? Ora, todos esto igualmente certos. O que acontece que em toda lngua do mundo existe um fenmeno chamado variao, isto , nenhuma lngua falada do mesmo jeito em todos os lugares, assim como nem todas as pessoas falam a prpria lngua de modo idntico.

    Infelizmente, existe uma tendncia (mais um precon-ceito!) muito forte no ensino da lngua de querer obrigar o aluno a pronunciar do jeito que se escreve, como se essa fosse a nica maneira certa de falar portugus. (Imagine se

  • algum fosse falar ingls ou francs do jeito que se escreve!) Muitas gramticas e livros didticos chegam ao cmulo de aconselhar o professor a corrigir quem fala muleque, bjo, minino, bisro, como se isso pudesse anular o fenmeno da variao, to natural e to antigo na histria das lnguas. Essa supervalorizao da lngua escrita combinada com o desprezo da lngua falada um preconceito que data de antes de Cristo!

    claro que preciso ensinar a escrever de acordo com a ortografia oficial, mas no se pode fazer isso tentando criar uma lngua falada artificial e reprovando como erradas as pronncias que so resultado natural das [pg. 52] foras internas que governam o idioma. Seria mais justo e democrtico dizer ao aluno que ele pode dizer BUnito ou BOnito, mas que s pode escrever BONITO, porque necessria uma ortografia nica para toda a lngua, para que todos possam ler e compreender o que est escrito, mas preciso lembrar que ela funciona como a partitura de uma msica: cada instrumentista vai interpret-la de um modo todo seu, particular!

    O pintor belga Ren Magritte (1898-1967) tem um quadro famoso, chamado A traio das imagens, no qual se v a figura de um cachimbo e embaixo dela a frase escrita: Isto no um cachimbo.

  • Em que esse exemplo pode servir nossa discusso? Isso no um cachimbo de verdade, mas simplesmente a representao grfica, pictrica de um cachimbo. O mesmo acontece com a escrita alfabtica, em sua regulamentao ortogrfica oficial. Ela no a fala: uma tentativa [pg. 53] de representao grfica, pictrica e convencional da lngua falada. (Falarei mais detidamente da parania ortogrfica na terceira parte deste livro.)

    Quando digo que a escrita uma tentativa de repre-sentao porque sabemos que no existe nenhuma orto-grafia em nenhuma lngua do mundo que consiga reproduzir a fala com fidelidade.

    Algumas ortografias, como a do espanhol, tm regras mais generalizveis, mais simples e mais coerentes, que facilitam o ato de ler e escrever. Mesmo assim, no castelha-no-padro da Espanha, pode sempre haver dvidas: Z ou C? B ou V? G ou J?

    Outras lnguas, como o ingls, tm mais excees do que regras, e preciso aprender a escrever (e a pronunciar)

  • praticamente cada palavra, pois a generalizao das regras ortogrficas tem boa chance de falhar: para um falante de portugus, estranho imaginar que as palavras jail e gaol tenham a mesma pronncia! Outras, ainda, como o chins, no buscam reproduzir a lngua falada, e optam pela escrita ideogrfica.

    Esta relao complicada entre lngua falada e lngua escrita precisa ser profundamente reexaminada no ensino. Durante mais de dois mil anos, os estudos gramaticais se dedicaram exclusivamente lngua escrita literria, formal. Foi somente no comeo do sculo XX, com o nascimento da cincia lingstica, que a lngua falada passou a ser con-siderada como o verdadeiro objeto de estudo cientfico. Afinal, a lngua falada a lngua tal como foi aprendida pelo falante em seu contato com a famlia e com a comunidade, [pg. 54] logo nos primeiros anos de vida. o instrumento bsico de sobrevivncia. Um grito de socorro tem muito mais eficcia do que essa mesma mensagem escrita.

    A lngua escrita, por seu lado, totalmente artificial, exige treinamento, memorizao, exerccio, e obedece a regras fixas, de tendncia conservadora, alm de ser uma representao no exaustiva da lngua falada.

    Faa voc mesmo o teste: pegue uma palavra bem simples fogo, por exemplo e pronuncie-a com todas as inflexes e tons de voz que conseguir: espanto, medo, alegria, tristeza, saudade, ira, remorso, horror, felicidade, histeria, pavor... Depois tente reproduzir por escrito essas mesmas inflexes e tons de voz. impossvel. O mximo que a lngua escrita oferece so os sinais de exclamao e de interrogao! A mera forma escrita no capaz de traduzir as

  • inflexes e as intenes pretendidas pelo falante. Por isso, os autores de textos teatrais indicam, entre parnteses, a emoo, sensao ou sentimento que o ator deve expressar numa dada fala.

    A importncia da lngua falada para o estudo cientfico est principalmente no fato de ser nessa lngua falada que ocorrem as mudanas e as variaes que incessantemente vo transformando a lngua. Quem quiser, por exemplo, conhecer o estado atual da lngua portuguesa do Brasil precisar investigar empiricamente a lngua falada (como fazem os pesquisadores dos projetos NURC e CENSO, que j citei, entre outros). Afinal, a escola, as gramticas normativas e os livros didticos at hoje afirmam que os pronomes-sujeitos de segunda pessoa so [pg. 55] tu e vs, que o pronome voc simplesmente uma forma de tratamento, que a mesclise (dar-vo-lo-ei, di-lo-amos, amar-nos-emos) ainda uma opo para a colocao dos pronomes oblquos, ou que o futuro do subjuntivo do verbo ver vir. Essa, porm, j no a realidade de boa parte da lngua escrita no Brasil, que dir da lngua falada!

    Do ponto de vista da histria de cada indivduo, o aprendizado da lngua falada sempre precede o aprendizado da lngua escrita, quando ele acontece. Basta citar os bilhes de pessoas que nascem, crescem, vivem e morrem sem jamais aprender a ler e a escrever! E no entanto ningum pode negar que so falantes perfeitamente competentes de suas lnguas maternas.

    Do ponto de vista da histria da humanidade a mesma coisa. A espcie humana tem, pelo menos, um milho de anos. Ora, as primeiras formas de escrita, conforme a

  • classificao tradicional dos historiadores, surgiram h apenas nove mil anos. A humanidade, portanto, passou 990.000 anos apenas falando!

    Quando o estudo da gramtica surgiu, no entanto, na Antigidade clssica, seu objetivo declarado era investigar as regras da lngua escrita para poder preservar as formas consideradas mais corretas e elegantes da lngua liter-ria. Alis, a palavra gramtica, em grego, significa exata-mente a arte de escrever.

    Infelizmente, essas mesmas regras da lngua literria comearam a ser cobradas da lngua falada, o que um disparate cientfico sem tamanho! [pg. 56]

    H cientistas que se dedicam especificamente a estudar as diferenas, semelhanas, inter-relaes e interaes que existem entre as duas modalidades. O ensino tradicional da lngua, no entanto, quer que as pessoas falem sempre do mesmo modo como os grandes escritores escreveram suas obras. A gramtica tradicional despreza totalmente os fenmenos da lngua oral, e quer impor a ferro e fogo a lngua literria como a nica forma legtima de falar e escrever, como a nica manifestao lingstica que merece ser estudada.

    Veja-se, por exemplo, o caso da Nova gramtica do portugus contemporneo, de Celso Cunha e Lindley Cintra. Ao definirem o objetivo de seu trabalho, os autores declaram, no prefcio:

    Trata-se de uma tentativa de descrio do portugus atual na sua forma culta, isto

    , da lngua como a tm utilizado os escritores portugueses, brasileiros e africanos

    do Romantismo para c. [grifo meu]

  • Essa obra, portanto, s pode ser consultada por quem tiver dvidas no momento de escrever um texto literrio, j que, segundo os prprios autores, no sero abordados fenmenos caractersticos de outras normas escritas, como a jornalstica ou a da produo cientfica, muito menos os fenmenos tpicos da lngua falada.

    A gramtica de Celso Cunha e Lindley Cintra louvvel pela honestidade com que declara seu objeto de estudo (embora, por diversas razes que no cabe aqui enumerar, eles no cumpram o que prometem no prefcio [pg. 57] e acabem tratando de fatos da lngua oral ao lado de fenmenos caractersticos da escrita).

    A maioria das outras obras desse gnero, porm, no faz assim: seus autores assumem a norma literria como a nica digna de ser estudada, ensinada e praticada, e acham isso to natural que nem se do ao trabalho de defini-la como seu objeto de estudo. Fica evidente que para eles s essa norma literria conservadora merece o ttulo de lngua portuguesa. O que dito ali vale para todas as variedades do portugus, em qualquer lugar do mundo, em qualquer momento histrico, em qualquer classe social, em qualquer faixa etria. Portanto, no uma gramtica, uma panacia...

    Essa nfase no texto literrio tem produzido uma viso redutora da lngua, identificando-a freqentemente apenas com a regulamentao ortogrfica.

    Como se no bastasse, os autores de compndios gra-maticais, inclusive os mais recentes, no fazem a distino bsica, elementar, entre ortografia e fontica, isto , entre as regras da lngua escrita e os fenmenos da lngua oral. Alis,

  • por mais incrvel que parea, muitos deles classificam a ortografia como uma das subdivises da fontica! o mesmo que querer incluir os ursinhos de pelcia na classe dos mamferos carnvoros!

    Gramtico muito mais criterioso e atento o rinoceronte Quindim personagem do Stio do Pica-pau Amarelo, de Monteiro Lobato , que levando as crianas do stio a passear pelo Pas da Gramtica, insistiu muito para que seus alunos no confundissem letra e som (p. 6): [pg. 58]

    Trotou, trotou e, depois de muito trotar, deu com eles numa regio onde o ar

    chiava de modo estranho.

    Que zumbido ser este? indagou a menina [Narizinho]. Parece que

    andam voando por aqui milhes de vespas invisveis.

    que j entramos em terras do Pas da Gramtica explicou o

    rinoceronte. Estes zumbidos so os Sons Orais, que voam soltos no espao.

    No comece a falar difcil que ns ficamos na mesma observou

    Emlia. Sons Orais, que pedantismo esse?

    Som Oral quer dizer som produzido pela boca. A, E, I, O, U so Sons

    Orais, como dizem os senhores gramticos.

    Pois diga logo que so letras! gritou Emlia.

    Mas no so letras! protestou o rinoceronte. Quando voc diz A ou

    O, voc est produzindo um som, no est escrevendo uma letra. Letras so

    sinaizinhos que os homens usam para representar esses sons. Primeiro h os Sons

    Orais; depois que aparecem as letras, para marcar esses sons orais. Entendeu?

    O ar continuava num zunzum cada vez maior. Os meninos pararam, muito

    atentos, a ouvir.

    Estou percebendo muitos sons que conheo disse Pedrinho, com a mo

    em concha ao ouvido.

    Todos os sons que andam zumbindo por aqui so velhos conhecidos seus,

    Pedrinho.

    Querem ver que o tal alfabeto? lembrou Narizinho. E mesmo!...

    Estou distinguindo todas as letras do alfabeto...

  • No, menina; voc est apenas distinguindo todos os sons das letras do

    alfabeto corrigiu o rinoceronte com uma pachorra igual de dona Benta. Se

    voc escrever cada um desses sons, ento, sim; ento surgem as letras do alfabeto.

    [pg. 59]

    Esse livro de Monteiro Lobato foi publicado em 1934. Mas as lies do rinoceronte Quindim ainda precisam ser lembradas e relembradas, pois a literatura gramatical per-petua at hoje a confuso entre letra e fonema.

    assim que procedem, por exemplo, Pasquale Cipro Neto e Ulisses Infante em sua Gramtica da lngua portuguesa, publicada no final de 1997. Por isso a gente no deve se surpreender quando esses autores explicam que a letra x representa o fonema // depois de um ditongo, e do como exemplo de palavras com ditongo: ameixa, caixa, peixe, eixo, frouxo, trouxa, baixo, sem fazer a menor meno ao fenmeno de monotongao que j atingiu essas palavras na lngua falada no Brasil, inclusive em sua norma culta urbana, resultando nas pronncias amxa, caxa, pxe, xo, frxo e baxo. O termo ditongo (dois sons), que se aplica a um fenmeno fontico, no cabe nesses exemplos, que retratam simplesmente a conveno ortogrfica que ainda conserva, na escrita, as duas letras vogais antes do X. O que acontece que esses monotongos podem vir a se ditongar em situaes bem especficas, tal como a reduo da velocidade da fala com finalidade de dar nfase ao enunciado. Pensemos, por exemplo, no uso das palavras louco e loucura quando usadas de modo afetado para indicar coisas surpreendentes ou muito boas: Foi uma louuucura!

    Os mesmos autores dizem que na palavra QUAL existe um ditongo crescente, quando qualquer brasileiro de ouvido

  • mais afinado vai reconhecer a, na verdade, um tritongo. muito restrita, no portugus do Brasil, a pronncia [pg. 60] /l/ ou // para o L que aparece em final de slaba. Na grande maioria dos falares brasileiros, esse L se pronncia como a semivogal /w/.

    o velho preconceito grafocntrico, isto , a anlise de toda a lngua do ponto de vista restrito da escrita, que impede o reconhecimento da verdadeira realidade lingstica.

    Por isso, temos de desconfiar desses livros que se autodenominam Gramtica da lngua portuguesa sem especificar seu objeto de estudo. A lngua portuguesa que eles abordam uma variedade especfica, dentre as muitas existentes, que tem de ser designada com todos os seus qualificativos: Gramtica da lngua portuguesa escrita, literria, formal, antiga. Todos os demais fenmenos vivos da lngua falada e de outras modalidades da lngua escrita so deixados de fora desses livros. [pg. 61]

  • Mito n 7 preciso saber gramticapara falar e escrever bem

    difcil encontrar algum que no concorde com a declarao acima. Ela vive na ponta da lngua da grande maioria dos professores de portugus e est formulada em muitos compndios gramaticais, como a j citada Gramtica de Cipro e Infante, cujas primeirssimas palavras so: A Gramtica instrumento fundamental para o domnio do padro culto da lngua.

    muito comum, tambm, os pais de alunos cobrarem dos professores o ensino dos pontos de gramtica tais como eles prprios os aprenderam em seu tempo de escola. E no faltam casos de pais que protestaram veementemente contra professores e escolas que, tentando adotar uma prtica de ensino da lngua menos conservadora, no seguiam rigorosamente o que est nas gramticas. Conheo gente que tirou seus filhos de uma escola porque o livro didtico ali adotado no ensinava coisas indispensveis como antnimos, coletivos e anlise sinttica...

    Por que aquela declarao um mito? Porque, como nos diz Mrio Perini em Sofrendo a gramtica (p. 50), no existe um gro de evidncia em favor disso; toda a evidncia disponvel em contrrio. Afinal, se fosse assim, todos os gramticos seriam grandes escritores (o que est longe de ser

  • verdade), e os bons escritores seriam especialistas em gramtica. [pg. 62]

    Ora, os escritores so os primeiros a dizer que gramtica no com eles! Rubem Braga, indiscutivelmente um dos grandes de nossa literatura, escreveu uma crnica deliciosa a esse respeito chamada Nascer no Cairo, ser fmea de cupim.

    Carlos Drummond de Andrade (preciso de adjetivos para qualific-lo?), no poema Aula de Portugus tambm d testemunho de sua perturbao diante do mistrio das figuras de gramtica, esquipticas, que compem o amazonas de minha ignorncia. Drummond ignorante?

    E o que dizer de Machado de Assis que, ao abrir a gramtica de um sobrinho, se espantou com sua prpria ignorncia por no ter entendido nada? Esse e outros casos so citados por Celso Pedro Luft em Lngua e liberdade (pp. 23-25). E esse mesmo autor nos diz (p. 21):

    Um ensino gramaticalista abafa justamente os talentos naturais, incute insegurana

    na linguagem, gera averso ao estudo do idioma, medo expresso livre e

    autntica de si mesmo.

    Mrio Perini, no livro que citamos acima, chama a ateno para a propaganda enganosa contida no mito de que preciso ensinar gramtica para aprimorar o desempenho lingstico dos alunos:

    Quando justificamos o ensino de gramtica dizendo que para que os alunos

    venham a escrever (ou ler, ou falar) melhor, estamos prometendo uma mercadoria

    que no podemos entregar. Os alunos percebem isso com bastante clareza, embora

    talvez no o possam explicitar; e esse um dos fatores do descrdito da disciplina

    entre eles. [pg. 63]

  • E Sirio Possenti, j citado, lembra-nos que as primeiras gramticas do Ocidente, as gregas, s foram elaboradas no sculo II a. C, mas que muito antes disso j existira na Grcia uma literatura ampla e diversificada, que exerce influncia at hoje em toda a cultura ocidental. A Ilada e a Odissia j eram conhecidas no sculo VI a. C, Plato escreveu seus fascinantes Dilogos entre os sculos V e IV a. C, na mesma poca do grande dramaturgo Esquilo, verdadeiro criador da tragdia grega. Que gramtica eles consultaram? Nenhuma. Como puderam ento escrever e falar to bem sua lngua?

    O que aconteceu, ao longo do tempo, foi uma inverso da realidade histrica. As gramticas foram escritas precisamente para descrever e fixar como regras e pa-dres as manifestaes lingsticas usadas espontanea-mente pelos escritores considerados dignos de admirao, modelos a ser imitados. Ou seja, a gramtica normativa decorrncia da lngua, subordinada a ela, dependente dela. Como a gramtica, porm, passou a ser um instrumento de poder e de controle, surgiu essa concepo de que os falantes e escritores da lngua que precisam da gramtica, como se ela fosse uma espcie de fonte mstica invisvel da qual emana a lngua bonita, correta e pura. A lngua passou a ser subordinada e dependente da gramtica. O que no est na gramtica normativa no portugus. E os compndios gramaticais se transformaram em livros sagrados, cujos dogmas e cnones tm de ser obedecidos risca para no se cometer nenhuma heresia. [pg. 64]

    O resultado dessa inverso dos fatos histricos visvel, por exemplo, na Gramtica de Cipro e Infante que, na p. 16, afirma:

  • A Gramtica normativa estabelece a norma culta, ou seja, o padro lingstico que

    socialmente considerado modelar [...] As lnguas que tm forma escrita, como

    o caso do portugus, necessitam da Gramtica normativa para que se garanta a

    existncia de um padro lingstico uniforme [...].

    Ora, no a gramtica normativa que estabelece a norma culta. A norma culta simplesmente existe como tal. A tarefa de uma gramtica seria, isso sim, definir, identificar e localizar os falantes cultos, coletar a lngua usada por eles e descrever essa lngua de forma clara, objetiva e com critrios tericos e metodolgicos coerentes. Sem isso no podemos confiar em gramticas como a de Domingos Paschoal Cegalla, que afirma simplesmente:

    Este livro pretende ser uma Gramtica Normativa da Lngua Portuguesa do Brasil,

    conforme a falam e escrevem as pessoas cultas na poca atual [Novssima

    gramtica da lngua portuguesa, p. xix].

    Mas quem so essas pessoas cultas na poca atual? Com que critrios o autor as classificou de cultas? Com que metodologia precisa identificou o modo como elas falam e escrevem? Pois disso precisamente que mais necessitamos hoje no Brasil: da descrio detalhada e realista da norma culta objetiva, com base em coletas confiveis que se utilizem dos recursos tecnolgicos mais avanados, para que ela sirva de base ao ensino/aprendizagem [pg. 65] na escola, e no mais uma norma fictcia que se inspira num ideal lingstico inatingvel, baseado no uso literrio, artstico, particular e exclusivo dos grandes escritores. Afinal, um instrutor de auto-escola quer formar bons motoristas, e no campees internacionais de Frmula 1. Um professor de portugus quer

  • formar bons usurios da lngua escrita e falada, e no provveis candidatos ao Prmio Nobel de literatura!

    Por outro lado, no a gramtica normativa que vai garantir a existncia de um padro lingstico uniforme. Esse padro lingstico (que pode chegar a certo grau de uniformidade, mas nunca ser totalmente uniforme, pois usado por seres humanos que nunca ho de ser criaturas fsica, psicolgica e socialmente idnticas), como j dissemos, existe na sociedade, independentemente de haver ou no livros que o descrevam.

    As plantas s existem porque os livros de botnica as descrevem? claro que no. Os continentes s passaram a existir depois que os primeiros cartgrafos desenharam seus mapas? Difcil acreditar. A Terra s passou a ser esfrica depois que as primeiras fotografias tiradas do espao mostraram-na assim? No. Sem os livros de receitas no haveria culinria? Eu sei muito bem que no: a melhor cozinheira que conheo, capaz de preparar centenas de pratos diferentes, os mais sofisticados, uma pernambucana de quase oitenta anos, cem por cento analfabeta.

    Esse mito est ligado milenar confuso que se faz entre lngua e gramtica normativa. Mas preciso desfaz-la. [pg. 66] No h por que confundir o todo com a parte. Lembra-se do que eu falei na abertura do livro sobre a gramtica normativa ser um igap? Acho que vale a pena repetir aqui. Na Amaznia, igap uma grande poa de gua estagnada s margens de um rio, sobretudo depois da cheia. Acho uma boa metfora para a gramtica normativa. Como eu disse, enquanto a lngua um rio caudaloso, longo e largo, que nunca se detm em seu curso, a gramtica normativa

  • apenas um igap, uma grande poa de gua parada, um charco, um brejo, um terreno alagadio, margem da lngua. Enquanto a gua do rio/lngua, por estar em movimento, se renova incessantemente, a gua do igap/gramtica normativa envelhece e s se renovar quando vier a prxima cheia.

    a mesma coisa que nos explica, em termos cientficos, Luiz Carlos Cagliari em Alfabetizao & lingstica7:

    A gramtica normativa foi num primeiro momento uma gramtica descritiva de

    um dialeto de uma lngua. Depois a sociedade fez dela um corpo de leis para reger

    o uso da linguagem. Por sua prpria natureza, uma gramtica normativa est con-

    denada ao fracasso, j que a linguagem um fenmeno dinmico e as lnguas

    mudam com o tempo; e, para continuar sendo a expresso do poder social

    demonstrado por um dialeto, a gramtica normativa deveria mudar.

    Se no o ensino/estudo da gramtica que vai garantir a formao de bons usurios da lngua, o que vai garanti-la? Existe muito debate a respeito entre os lingistas [pg. 67] e os pedagogos. O certo que eles so praticamente unnimes em combater aquele mito. H lugar para a gramtica na escola? Parece que sim. Mas tambm parece ser. um lugar bastante diferente do que lhe era atribudo na prtica tradicional de ensino da lngua. Na terceira parte deste livro, tentarei expor algumas opinies a respeito.

    De todo modo, algumas pessoas muito competentes j explicaram tudo isso melhor do que eu seria capaz. Por isso, ao leitor e leitora interessados nesse tema recomendo a leitura, entre outros, dos j citados Sofrendo a gramtica, de Mrio Perini, Por que (no) ensinar gramtica na escola, de

    7 Citado por Ernani Terra, Linguagem, lngua e fala, p. 46.

  • Srio Possenti, e Lngua e liberdade, de Celso Pedro Luft, e tambm Linguagem, lngua e fala, de Ernani Terra; Contradies no ensino de portugus, de Rosa Virgnia Mattos e Silva, e Gramtica na escola, de Maria Helena de Moura Neves. Esses livros nos ajudam a compreender melhor os mecanismos de excluso que agem por trs da imposio das normas gramaticais conservadoras no ensino da lngua e de que modo poderamos, em nossa prtica pedaggica, tentar desmont-los. [pg. 68]

  • Mito n8O domnio da norma culta

    um instrumento de ascenso social

    Este mito, que vem fechar nosso circuito mitolgico, tem muito que ver com o primeiro, o mito da unidade lingstica do Brasil. Esses dois mitos so aparentados porque ambos tocam em srias questes sociais. muito comum encontrar pessoas muito bem-intencionadas que dizem que a norma padro conservadora, tradicional, literria, clssica que tem de ser mesmo ensinada nas escolas porque ela um instrumento de ascenso social. Seria ento o caso de dar uma lngua queles que eu chamei de sem-lngua?

    Ora, se o domnio da norma culta fosse realmente um instrumento de ascenso na sociedade, os professores de portugus ocupariam o topo da pirmide social, econmica e poltica do pas, no mesmo? Afinal, supostamente, ningum melhor do que eles domina a norma culta. S que a verdade est muito longe disso como bem sabemos ns, professores, a quem so pagos alguns dos salrios mais obscenos de nossa sociedade. Por outro lado, um grande fazendeiro que tenha apenas alguns poucos anos de estudo primrio, mas que seja dono de milhares de cabeas de gado, de indstrias agrcolas e detentor de grande influncia poltica em sua regio vai poder falar vontade sua lngua de caipira, com todas as formas sintticas consideradas erradas pela gramtica [pg.

  • 69] tradicional, porque ningum vai se atrever a corrigir seu modo de falar.

    O que estou tentando dizer que o domnio da norma culta de nada vai adiantar a uma pessoa que no tenha todos os dentes, que no tenha casa decente para morar, gua encanada, luz eltrica e rede de esgoto. O domnio da norma culta de nada vai servir a uma pessoa que no tenha acesso s tecnologias modernas, aos avanos da medicina, aos empregos bem remunerados, participao ativa e consciente nas decises polticas que afetam sua vida e a de seus concidados. O domnio da norma culta de nada vai adiantar a uma pessoa que no tenha seus direitos de cidado reconhecidos plenamente, a uma pessoa que viva numa zona rural onde um punhado de senhores feudais controlam extenses gigantescas de terra frtil, enquanto milhes de famlias de lavradores sem-terra no tm o que comer.

    Achar que basta ensinar a norma culta a uma criana pobre para que ela suba na vida o mesmo que achar que preciso aumentar o nmero de policiais na rua e de vagas nas penitencirias para resolver o problema da violncia urbana.

    A violncia urbana est intimamente ligada a uma si-tuao social de profunda injustia, que d ao Brasil, como eu j disse, o triste segundo lugar entre os pases com a pior distribuio de renda de todo o mundo, perdendo apenas para Botswana, um pas africano desrtico, muito menor e muito menos desenvolvido.

    preciso garantir, sim, a todos os brasileiros o reco-nhecimento (sem o tradicional julgamento de valor) da [pg.

  • 70] variao lingstica, porque o mero domnio da norma culta no uma frmula mgica que, de um momento para outro, vai resolver todos os problemas de um indivduo carente. preciso favorecer esse reconhecimento, mas tambm garantir o acesso educao em seu sentido mais amplo, aos bens culturais, sade e habitao, ao transporte de boa qualidade, vida digna de cidado merecedor de todo respeito.

    Como fcil perceber, o que est em jogo no a simples transformao de um indivduo, que vai deixar de ser um sem-lngua padro para tornar-se um falante da variedade culta. O que est em jogo a transformao da sociedade como um todo, pois enquanto vivermos numa estrutura social cuja existncia mesma exige desigualdades sociais profundas, toda tentativa de promover a ascenso social dos marginalizados , seno hipcrita e cnica, pelo menos de uma boa inteno paternalista e ingnua.

    Por isso eu me pergunto: ser que doando a lngua padro a um indivduo das classes subalternas ele vai, automaticamente, tornar-se um patro? No mera coin-cidncia etimolgica o fato de padro e patro serem duas formas divergentes de uma mesma origem comum: o latim patronu-, que tem tambm a mesma raiz de paternalismo e patriarcalismo.

    Valer mesmo a pena promover a ascenso social para que algum se enquadre dentro desta sociedade em que vivemos, tal como ela se apresenta hoje? Basta pensar um pouco nos indivduos que detm o poder no Brasil: no so (quando so) apenas falantes da norma culta, mas so sobretudo, em sua grande maioria, homens, [pg. 71]

  • brancos, heterossexuais, nascidos/criados na poro Sul-Sudeste do pas ou oriundos das oligarquias feudais do Nordeste.

    Como eu j tinha avisado na abertura do livro, falar da lngua falar de poltica, e em nenhum momento esta reflexo poltica pode estar ausente de nossas posturas tericas e de nossas atitudes prticas de cidado, de pro-fessor e de cientista. Do contrrio, estaremos apenas contribuindo para a manuteno do crculo vicioso do preconceito lingstico e do irmo gmeo dele, o crculo vicioso da injustia social. [pg. 72]

  • IIO crculo vicioso

    do preconceito lingstico

    1. Os trs elementos que so quatroOs mitos que acabamos de examinar so transmitidos e

    perpetuados em nossa sociedade, cada um deles em grau maior ou menor, por um mecanismo que podemos chamar de crculo vicioso do preconceito lingstico. Esse crculo vicioso se forma pela unio de trs elementos que, sem desrespeitar meus amigos telogos, costumo denominar Santssima Trindade do preconceito lingstico. Esses trs elementos so a gramtica tradicional, os mtodos tradicionais de ensino e os livros didticos:

    Como que se forma esse crculo? Assim: a gramtica tradicional inspira a prtica de ensino, que por sua [pg. 73] vez provoca o surgimento da indstria do livro didtico, cujos autores fechando o crculo recorrem gramtica tradicional como fonte de concepes e teorias sobre a lngua.

  • gramtica tradicional, em sua vertente normativo-prescritivista, continua firme e forte, como fcil verificar nos compndios gramaticais mais recentes. As prticas de ensino variam muito de regio para regio, de escola para escola, e at de professor para professor, de acordo com as concepes pedaggicas adotadas. A tendncia atual, mencionada no incio deste livro, crtica dos preconceitos e ao exerccio da tolerncia tem tornado o ambiente escolar bastante mais respirvel e democrtico do que, por exemplo, na poca em que estudei, em plena ditadura militar. Como j vimos, a mais alta instncia educacional do pas, o Ministrio da Educao, tem feito esforos louvveis para provocar uma reflexo sobre os temas relativos tica e cidadania plena do indivduo, para estimular uma postura menos dogmtica e mais flexvel, por parte, pelo menos, das escolas pblicas. Os j citados Parmetros curriculares nacionais reconhecem que existe

    muito preconceito decorrente do valor atribudo s variedades padro e ao estigma

    associado s variedades no-padro, consideradas inferiores ou erradas pela

    gramtica. Essas diferenas no so imediatamente reconhecidas e, quando so,

    so objeto de avaliao negativa.

    Para cumprir bem a funo de ensinar a escrita e a lngua padro, a escola

    precisa livrar-se de vrios mitos: o de que [pg. 74] existe uma forma correta de falar, o de que a fala de uma regio melhor do que a de outras, o de que a fala

    correta a que se aproxima da lngua escrita, o de que o brasileiro fala mal o

    portugus, o de que o portugus uma lngua difcil, o de que preciso

    consertar a fala do aluno para evitar que ele escreva errado.

    Essas crenas insustentveis produziram uma prtica de mutilao cultural

    [...]8

    8 Ministrio da Educao e do Desporto (1998): Parmetros curriculares nacionais, Lngua Portuguesa, 5 a 8a sries, p. 31.

  • Temos ainda de esperar para ver em que medida esses esforos se refletiro na prtica quotidiana, efetiva, dos professores em sala de aula. Acompanhando esse movimento, muitas editoras vm tentando produzir um material didtico mais compatvel com as novas concepes pedaggicas, e o sistema oficial de avaliao dos livros didticos, apesar de muito criticado, tem contribudo para uma reviso das formas tradicionais de elaborao desse tipo de livro.

    Mas os preconceitos, como bem sabemos, impregnam-se de tal maneira na mentalidade das pessoas que as atitudes preconceituosas se tornam parte integrante do nosso prprio modo de ser e de estar no mundo. necessrio um trabalho lento, contnuo e profundo de conscientizao para que se comece a desmascarar os mecanismos perversos que compem a mitologia do preconceito. E o tipo mais trgico de preconceito no aquele que exercido por uma pessoa em relao a outra, mas o preconceito [pg. 75] que uma pessoa exerce contra si mesma. Infelizmente, ainda existem muitas mulheres que se consideram inferiores aos homens; existem negros que acreditam que seu lugar mesmo de subservincia em relao aos brancos; existem homossexuais convictos de que sofrem de uma doena que pode, inclusive, ser curada...

    Do mesmo modo, muitos brasileiros acreditam que no sabem portugus, que portugus muito difcil ou que a lngua falada aqui toda errada. E ao contrrio dos demais preconceitos, que vm sendo atacados com algum sucesso com diversos mtodos de combate, o preconceito lingstico prossegue sua marcha. Se j existe uma mudana de atitude

  • nos livros didticos e na pedagogia oficial, por que o crculo vicioso do preconceito lingstico continua girando?

    Intrigado com isso, comecei a prestar ateno minha volta e cheguei concluso de que o crculo vicioso no estava completo. Descobri que, assim como os Trs Mosqueteiros de Alexandre Dumas so quatro, tambm existe um quarto elemento oculto dentro daquele crculo. Como este quarto elemento no to compactamente institucionalizado quanto os demais, a gente deixa de perceb-lo.

    Mas, afinal, que quarto elemento esse? aquilo que resolvi chamar de comandos paragramaticais. todo esse arsenal de livros, manuais de redao de empresas jornalsticas, programas de rdio e de televiso, colunas de jornal e de revista, CD-ROMS, consultrios gramaticais [pg. 76] por telefone e por a afora... a saudvel epidemia a que se refere Arnaldo Niskier no artigo que citei ao falar do Mito n 2, epidemia que, para mim, nada tem de saudvel, e vou explicar por qu. O que os comandos paragramaticais poderiam representar de utilidade para quem tem dvidas na hora de falar ou de escrever acaba se perdendo por trs da espessa neblina de preconceito que envolve essas manifestaes da (multi)mdia. Assim, tudo o que elas fazem de concreto perpetuar as velhas noes de que brasileiro no sabe portugus e de que portugus muito difcil.

    uma pena que seja assim. Todo esse formidvel poder de influncia dos meios de comunicao e dos recursos da informtica poderia ser de grande utilidade se fosse usado precisamente na direo oposta: na destruio dos velhos mitos, na elevao da auto-estima lingstica dos brasileiros,

  • na divulgao do que h de realmente fascinante no estudo da lngua. Mas no assim. Toda vez que algum se pe a falar da situao lingstica do Brasil, para repetir as mesmas queixas e lamrias de cem anos atrs ou mais.

    Um exemplo. Na entrevista de Pasquale Cipro Neto revista Veja, que citamos na primeira parte deste livro, o texto que antecede a entrevista propriamente dita repisa aqueles mesmos chaves bolorentos:

    [...] professor de portugus um idioma que, de to maltratado no dia-a-dia dos

    brasileiros, precisa ser divulgado e explicado para os milhes que o tm como

    lngua materna. [pg. 77]

    E a primeira pergunta, como era de prever diante de uma abertura to pessimista, s podia ser: Por que o portugus to mal falado e to mal escrito no Brasil? E o entrevistado parte logo para a explicao das causas visveis dessa situao, sem contestar em momento algum a afirmao, fcil de negar, contida na pergunta. E da mesma forma como Cndido de Figueiredo, em 1903, e Arnaldo Niskier, em 1998, ele investe contra os estrangeirismos declarando que

    o sujeito que usa um termo em ingls no lugar do equivalente em portugus , na

    minha opinio, um idiota.

    Ora, se ele mesmo reconhece que o uso de estran-geirismos a face mais irritante de um pas colonizado culturalmente como o nosso, injusto chamar de idiota a pessoa que , de fato, uma vtima dessa colonizao cultural. Se nosso comrcio est repleto de nomes em ingls porque os comerciantes e os industriais sabem que isso atrai mais o

  • pblico, que qualquer produto com aparncia de estrangeiro tem maior aceitao por parte do consumidor.

    Quanto aos comandos paragramaticais, no faltam exemplos do preconceito lingstico que os orienta. Como o espao de que disponho neste livro muito pequeno, no ser possvel fazer um exame pormenorizado de muitas dessas manifestaes preconceituosas, por isso me limitarei a algumas mais gritantes, que merecem ser denunciadas. [pg. 78]

    2. Sob o imprio de NapoleoO mais respeitado e renomado propagador do preconceito

    lingstico por meio de comandos paragramaticais no Brasil foi, durante longas dcadas, o professor Napoleo Mendes de Almeida, at falecer no comeo de 1998, aos 87 anos. Ele nunca escondeu sua intolerncia e seu autoritarismo em suas colunas de jornal, e fcil verific-lo nas mais de 600 pginas de seu Dicionrio de questes vernculas. Como ele foi (e ainda ) aclamado por muitos como um defensor intransigente da lngua, parece-me oportuno mostrar de que maneira ele exerceu essa sua defesa.

    O verbete VERNCULO do citado Dicionrio comea assim:

    Os delinqentes da lngua portuguesa fazem do princpio histrico quem faz a

    lngua o povo verdadeiro moto para justificar o desprezo de seu estudo, de sua

    gramtica, de seu vocabulrio, esquecidos de que a falta de escola que ocasiona

    a transformao, a deteriorao, o apodrecimento de uma lngua. Cozinheiras,

    babs, engraxates, trombadinhas, vagabundos, criminosos que devem figurar,

    segundo esses derrotistas, como verdadeiros mestres de nossa sintaxe e legtimos

    defensores do nosso vocabulrio.

  • Basta esse pargrafo para demonstrar que, alm do preconceito lingstico, est a manifestado um profundo preconceito social. Em outras passagens do livro, ele fala novamente de lngua de cozinheiras e de infelizes caipiras. [pg. 79]

    Para Napoleo Mendes de Almeida, a literatura brasileira morreu em 1908, junto com Machado de Assis. Toda a vasta produo do Modernismo e dos perodos seguintes merecedora de seu mais profundo desprezo:

    Escritor o que tem forma e contedo; aquela ter quem conhecer o idioma; este,

    quem tiver erudio e, principalmente, cultura. Se somente a forma, temos o

    frvolo; se somente o contedo, temos o tcnico; se as duas coisas, temos o

    escritor; se nenhuma delas, teremos o... modernista.

    Recusa-se a escrever o nome de Carlos Drummond de Andrade, a quem nega o ttulo de poeta e escritor por ter usado o verbo ter no lugar de haver no clebre poema No meio do caminho, pecado suficiente para conden-lo ao inferno dos gramticos!

    As explicaes de Napoleo se baseiam exclusivamente em comparaes com o latim e o grego, e freqentemente atribuem a origem dos supostos erros da sintaxe dos brasileiros imitao servil do francs ou do ingls, desconsiderando sistematicamente todas as contribuies da cincia lingstica moderna. Alis, no verbete LINGSTICA, ele deixa transparecer sua desinformao acerca do que realmente essa cincia:

    A lingstica no estuda idioma nem gramtica nenhuma, a lingstica estuda a

    fala, explica fatos naturais de articulao, de formas de expresso oral do ser

    humano; como estudo da estrutura das lnguas em geral, no vai alm da fontica.

  • Enganam-se os pais, enganam-se os filhos quando pensam estar a escola, a

    faculdade ensinando gramtica, ensinando a lngua da terra porque no programa

    consta lingstica. O objeto da lingstica [pg. 80] a lngua no sentido da fala,

    de dom de expressar o homem por palavras o pensamento; um estudo sem

    utilidade especfica para este ou aquele idioma. [...] um dos grandes enganos de

    certas faculdades de letras fazer alunos acreditar que esto a aprender a lngua de

    sua terra com explanaes de estrutura da fala do homem. a lingstica um dos

    estorvos do aprendizado da lngua portuguesa em escolas brasileiras.

    Para ele, estudar lingstica fixar inteis, pretensiosas e ridculas bizantinices. Fica evidente por essas palavras que o professor Napoleo jamais ps os ps numa boa universidade depois que o ensino da lingstica foi institudo nos cursos de letras do Brasil. E que tampouco leu um nico sequer dos muitssimos livros intitulados Introduo lingstica para saber qual o verdadeiro objeto de estudo dessa cincia. Acreditar que a lingstica no vai alm da fontica de uma ingenuidade imperdovel em algum que julgava ter autoridade suficiente para policiar a lngua dos jornalistas e dos escritores, para decretar o que certo e errado no portugus brasileiro, para afirmar, sem papas na lngua, no verbete VERNCULO, que

    portugus estropiado que no Brasil se fala, lngua de gria, lngua sem peias

    sintticas, lngua de flexo arbitrria, lngua do 'deix v', do 'mande ele', do 'j te

    disse que voc', do no lhe conheo', do 'fiz ele estudar', do 'vi os meninos sarem'.

    Esse seu total desconhecimento da lingstica que lhe permite fazer conjecturas sem nenhum fundamento cientfico ou de qualquer outra natureza como: [pg. 81]

    A gramtica, no que diz respeito funo da palavra, internacional. O que

    sujeito em portugus sujeito em chins; o que objeto direto em nosso idioma

  • objeto direto em qualquer outro, e o mesmo se diga de todas as funes sintticas

    e de todas as classes de palavras.

    Essa gramtica internacional pura fico, fruto da ignorncia lingstica do autor. Para comprovar isso, e usando o exemplo que ele mesmo sugeriu o chins basta um breve exame da literatura cientfica especializada:

    [em chins] no existe nenhuma morfologia de casos que assinale diferenas entre

    relaes gramaticais como sujeito, objeto direto ou objeto indireto, nem existe

    qualquer concordncia ou flexo verbal para indicar o que sujeito e o que

    objeto. No chins, de fato, h poucas razes gramaticais para se postular relaes

    gramaticais, embora haja, claro, meios de distinguir quem fez o qu a quem, tal

    como existem em todas as lnguas9.

    Alm disso, o mesmo estudo diz que em chins no h nada que se possa classificar de adjetivos, desmentindo, portanto, o que Napoleo pensa acerca da internacionalidade das classes de palavras.

    No caso de Napoleo Mendes de Almeida, a carga de preconceito lingstico j no a neblina espessa a que me referi mais acima: uma verdadeira parede de rocha impermevel e intransponvel, que impede o acesso a [pg. 82] qualquer eventual utilidade que suas explicaes possam ter. Seu Dicionrio de questes vernculas, da perspectiva da tica mais elementar, desrespeita os direitos lingsticos dos cidados brasileiros.

    3. Um festival de asneirasNa mesma linha de conduta preconceituosa se encontra o

    livro No erre mais!, de Luiz Antonio Sacconi. A edio que 9 LI, Charles & THOMPSON, Sandra. Chinese, in COMRIE, B. (ed.), The World's Major Languages, London, Routledge, 1987, pp. 824-825.Traduo minha.

  • tenho a 23a, de 1998, o que mostra o amplo sucesso da obra, um verdadeiro best-seller. Trata-se, contudo, de um prato cheio (420 pginas!) para quem desejar ver, em letra impressa, a perpetuao de todos os preconceitos que examinamos na primeira parte deste livro.

    Quais so os problemas de No erre mais!?. Para comear, o livro no tem o mais remoto critrio de orga-nizao: os supostos erros so encadeados caoticamente, um aps o outro, sem nenhuma distribuio baseada em tipos de erros (ortogrficos, fonticos, sintticos, morfolgicos) nem na mais elementar ordem alfabtica de assunto.

    Em seguida, tenta ensinar coisas perfeitamente inteis, como a pronncia correta do nome ingls do modelo de um carro que, por sinal, j deixou de ser fabricado (Monza Classic SE) e tambm das siglas FNM e DKW (igualmente extintas), a grafia correta do apelido da apresentadora de televiso Xuxa (que, segundo ele, deveria se escrever Chucha), ou a conjugao do verbo apropinquar--se, que ningum em s conscincia usa no Brasil, a menos que queira provocar risos ou passar por pedante... [pg. 83]

    Alm disso, corrige erros cometidos por uma nica pessoa, em determinada ocasio, em determinado momento, que no tm, portanto, a freqncia de uma regra varivel (o que os prescritivistas chamam de erro comum), mas lapsos cometidos por algum, o que no justifica sua incluso num livro desse tipo.

    Mas o pior de tudo a enxurrada de expresses preconceituosas que inundam o livro de ponta a ponta. Apesar de Sacconi atribu-las sua ndole espirituosa e dizer que isso nada tem que ver com desprezo ou me-

  • nosprezo aos ignorantes, o uso mesmo do termo igno-rantes j constitui um sinal desse desprezo ou menos-prezo. Porque, lendo o livro, o leitor descobre que todos os brasileiros, com exceo do autor, so ignorantes no que diz respeito lngua: a cada pgina surge uma invectiva contra uma entidade amorfa e indefinida chamada povo, contra os jornalistas em bloco, contra os autores de dicio-nrios, contra a Academia Brasileira de Letras, contra escri-tores clssicos, contra outros gramticos, contra especialistas nas mais diversas cincias e tcnicas... Fica claro, ento, que a norma culta uma flor nica, que s germina no jardim da casa dele. Afinal, se todos os mapas e livros de geografia trazem a forma Antrtida, que autoridade tem Sacconi para dizer que isso lamentvel e que a forma certa Antrtica?

    Vamos examinar apenas as primeiras cem pginas de No erre mais! (ir alm disso seria maltratar demais o estmago do leitor). Nelas aparecem doze palavras derivadas [pg. 84] de asno (asinino,asneira,asnice) para se referir queles mesmos ignorantes mencionados no texto de abertura do livro. Sendo ao todo 420 pginas, podemos imaginar quantas mais no aparecero! (Lngua de jacu outra das expresses favoritas dele.)

    Sacconi se revela, desse modo, um discpulo fiel e imitador perfeito de Cndido de Figueiredo, que em O que se no deve dizer (de 1903!) declara:

    Em geral, os espritos fortes... na asneira julgam microscpicas as questes de

    letras, e at as questes de palavras (vol. 1, p. 17).

  • Os jornalistas so o alvo preferido das tiradas precon-ceituosas do autor de No erre mais!:

    [...] essa mesma imprensa, para no fugir sua regra maior, que ignorar a

    coerncia, pe os ps pelas mos (p. 30).

    Essa gente que escreve em jornais uma gracinha! (p. 40).

    Alguns de nossos jornais e jornalistas se tornaram um problema a mais para todos

    os professores de Portugus. At quando? (p. 45).

    [...] excrescncias comuns na boca e na pena de certos jornalistas versados em

    esporte. (p. 52).

    H jornalistas que, de fato, inventam a toda a hora, aprontam com todo o

    mundo... (p. 54).

    Os jornalistas usam: o aumento do funcionalismo, o aumento da gasolina, o

    aumento da carne. o mais puro aumento da incompetncia... (p. 68). [pg. 85]

    Os brasileiros, por exemplo, vivem mal e parcamente num pas onde os jornalistas

    escrevem muito mal e parcamente... (p. 77).

    Pra quem no sabe, redao de jornal um lugar aonde s deveria ir gente que

    conhecesse um pouquinho a lngua. S um pouquinho... (p. 78).

    Essa gente ainda vai um dia inventar uma nova lngua, inteligvel s para si

    mesmos (p. 82).

    No vamos aumentar o diapaso de crticas que temos feito a alguns jornalistas...

    (p. 86).

    A qualidade de nossos jornais piora ( preciso acrescentar ainda mais?) (p. 94)

    No bastasse esse ataque aos jornalistas, Sacconi no hesita em ofender preconceituosamente outros segmentos sociais. Para ele, a regncia namorar com coisa de italianos (p. 7). Para ele, a forma peozada s pode existir na

  • fala, pois o correto na escrita peonada, e aconselha os pees a que tenham o bom-senso de trocar essa forma pela outra quando escrevem. Se que escrevem... (p. 8), mostrando que, na sua opinio, todo peo necessariamente analfabeto. O mesmo acontece em relao aos erros supostamente cometidos por caminhoneiros: Camioneiros, contudo, incansveis trabalhadores, merecem todo o perdo deste mundo... (p. 21).

    Seu iderio poltico tambm fica manifesto em decla-raes do tipo:

    Hoje em dia existem pessoas que fazem curso superior em greves, formam-se no

    assunto e mostram-se to competentes [pg. 86] no ofcio, que decidem em nome

    de toda a classe que representam: pela continuidade da greve! (p. 10).

    Recentemente, todavia, um comentarista de futebol, membro do PT, corintiano,

    resolveu dizer, no ar, mais asneiras do que comumente diz sobre aquilo que diz

    entender: futebol (p. 13).

    H declaraes preconceituosas para quase todos os segmentos da sociedade:

    Costumo dizer que algarismo romano como vizinho: devemos evit-lo tanto

    quanto possvel (p. 65).

    Leu-se, porm, num jornal: Martins quase um octogenrio. Certamente, quem

    escreveu isso estaria bem para l disso... (p. 68).

    So os [dicionrios] que j passam dos setecentos anos, seno a obra, o seu autor...

    (p. 68).

    Na Bahia, porm, na sempre formidvel Bahia, as pessoas se acordam. O mais

    interessante que se acordam e vo direto praia... (p. 73).

  • Sacconi aceita a crena primitiva e ingnua de que a palavra e o objeto a que ela se refere so uma e a mesma coisa: se a forma da palavra est errada, o objeto no existe. Falando do nome Antrtida (p. 15) ele diz: Eis a uma regio do globo que, em verdade, no existe. Ao comentar o deslize de um reprter de televiso que pronunciou ibero em lugar de ibro ao referir-se a um festival de rock, Sacconi afirma: Esse festival, garantimos, no existiu. E ao condenar o uso do artigo a diante do nome da cidade de Franca (conforme tradio [pg. 87] antiga entre os l nascidos) na frase Moro na Franca, ele rebate: No mora.

    Numa atitude totalmente oposta de um cientista da linguagem cuja tarefa principal seria a descrio dos fatos da lngua ou de um professor que se esforaria em justificar, com explicaes razoveis, a preferncia por esta ou aquela forma de uso da lngua ele, aps decretar o que certo ou errado, reafirma nosso Mito n 3:

    No perca nenhum tempo em perguntar por qu, caro leitor: basta no esquecer

    que estamos estudando a lngua portuguesa. Com certeza... (p. 14).

    Ou seja, a lngua portuguesa difcil e cheia de mistrios inexplicveis, como reza a mitologia do pre-conceito lingstico.

    Do ponto de vista das concepes lingsticas do autor, o livro tambm um desastre. Condena usos que j esto h muito consagrados na norma culta real (e no na fictcia, que s ele conhece), abonados nos mais diversos dicionrios e na obra de muitos escritores de reconhecido talento. Tenta impor formas arcaicas, que causariam estranheza a qualquer falante bem instrudo, e abolir construes que so perfeitamente

  • aceitveis, resultantes das inevitveis transformaes por que a lngua passa.

    Sua desinformao acerca das noes bsicas de lin-gstica, sobretudo de sociolingstica e de histria da lngua, levam-no a atribuir obsessivamente Bahia e a uma suposta influncia africana uma srie de variantes do [pg. 88] portugus do Brasil que se encontram documentadas nas mais diversas regies do pas, inclusive naquelas em que a presena negra foi ou mnima. O que ele diz a respeito das lnguas indgenas carece igualmente de toda fundamentao cientfica:

    Alguns preferem usar taio, no lugar de talho, transformando o lh em i, fato

    comum em certas regies do Pas, mormente naquelas que receberam influncia

    do elemento africano (p. 32).

    Em algumas regies do Brasil (na Bahia, principalmente), o d dos gerndios no

    soa. Dizem, ento: correno, andano, cano, em vez de correndo, andando, caindo.

    Trata-se de um caso tpico de influncia africana, que a Bahia recebeu

    enormemente. Tambm ao elemento negro devemos o fato de pronunciarmos

    muitas vezes:

    a) os infinitivos sem o r final (cas, vend, menti);

    b) apenas o el tnico final (pap, an, coron);

    c) tamm (em vez de tambm), ful (em vez de flor), sinh, sinh (em vez de

    senhor, senhora) fed (em vez de fedor), etc.;

    d) mui (em vez de mulher), paiao (em vez de palhao) (p. 38).

    Ocorre que, nas regies banhadas pelo legendrio rio Tiet, utilizado pelos

    bandeirantes, as pessoas realmente trocam o l pelo r (arto, iguar, tarco, etc.), por

    influncia da lngua dos indgenas, que no conheciam o som l, mas apenas o

    som r brando, de caro, barato. Os bandeirantes, preocupados em se aproximar

    dos ndios (e das suas riquezas), faziam o que podiam para serem compreensveis,

    para serem amveis, gentis. Assim, toda palavra que tinha l sofria a natural

  • modificao [...] Comeou, ento, dessa forma, o hbito de trocar o l por r,

    fenmeno conhecido pelo nome de rotacismo, muito comum [pg. 89] nas cidades

    paulistas de Tatu, Piracicaba, Tiet, Laranjal, Porto Feliz, Itu, Salto, Capivari, etc.

    (p. 98).

    A vocalizao do fonema //, que representamos graficamente com o LH, um fenmeno que se verificou na histria do francs e que est amplamente representado em diferentes variedades do castelhano faladas na Espanha e em pases da Amrica Central e do Sul. No me consta que essas lnguas tenham recebido influncia negra nem muito menos baiana. Alm disso, esse fenmeno no acontece apenas em certas regies do Pas: ele est presente em todas as variedades no-padro do portugus brasileiro, do Amazonas ao Rio Grande do Sul. Ele tem explicaes fonticas e sociolingsticas muito mais complexas do que a mera influncia africana.

    Quanto assimilao do tipo -nd- > -nn- > -n-, sobretudo nos gerndios, ela se verifica tambm no dialeto napolitano, falado numa regio (o sul da Itlia) onde, at que os historiadores me desmintam, no houve escravido de negros africanos nem colonizao baiana. Ela existe amplamente documentada, mais uma vez, em todas as variedades no-padro do portugus brasileiro e at mesmo na fala descontrada de muitas pessoas das camadas urbanas cultas. Trata-se, novamente, de um fenmeno fontico muito natural, que um rpido exame da histria da lngua esclarece sem dificuldades.

    Por seu turno, a explicao dada pelo autor ao fenmeno do rotacismo um verdadeiro disparate cientfico. Primeiro, porque os bandeirantes simplesmente no falavam [pg. 90]

  • portugus: a lngua que a grande maioria deles empregava era o que ento se chamava lngua geral, lngua braslica ou nheengatu, uma lngua de base tupi que funcionava como instrumento de comunicao entre as diferentes naes indgenas em todo o litoral brasileiro e parte do interior. No sculo XVII, em cada cinco habitantes da cidade de So Paulo, apenas dois conheciam o portugus. O bandeirante paulista convocado para destruir o quilombo de Palmares, Domingos Jorge Velho, foi descrito pelo bispo de Pernambuco como um brbaro que nem falar sabe, e as autoridades pernambucanas que o contrataram tinham de usar um intrprete para se comunicar com ele, que s falava a lngua geral.

    Como nos explicam os historiadores, os bandeirantes, em sua maioria, eram mamelucos, isto , filhos de pai portugus e me ndia, desconheciam totalmente a lngua paterna e s falavam a materna:

    Nos primeiros dois sculos aps a chegada de Cabral, o que se falava por estas

    bandas era o tupi mesmo. O idioma dos colonizadores s conseguiu se impor no

    litoral no sculo XVII e, no interior, no XVIII. Em So Paulo, at o comeo do

    sculo passado, era possvel escutar alguns caipiras contando casos em lngua

    indgena. No Par, os caboclos conversavam em nheengatu at os anos 40. [...]

    Era o idioma do povo,enquanto o portugus ficava para os governantes e para os

    negcios com a metrpole.

    [...] Derivado do dialeto de So Vicente, o tupi de So Paulo se desenvolveu e se

    espalhou no sculo XVIII, graas ao isolamento geogrfico da cidade e atividade

    pouco crist dos [pg. 91] mamelucos paulistas: as bandeiras, expedies ao serto

    em busca de escravos ndios.10

    10 Superinteressante, dezembro de 1998, pp. 82 e 84. Essa matria da revista, muito bem elaborada, apia-se em depoimentos de alguns importantes conhecedores das lnguas indgenas brasileiras, inclusive aquele considerado o maior deles, o professor Aryon Rodrigues, da Universidade de Braslia.

  • Por isso, os bandeirantes no precisavam fazer o que podiam para serem compreensveis, para serem amveis, gentis. Muito pelo contrrio, o que a histria nos conta que os bandeirantes eram de uma crueldade desumana para com os ndios, a quem buscavam escravizar a toda fora, despojando-os de suas terras, de suas riquezas e, muitas vezes, de suas vidas. Conta-se de uma expedio bandeirante que capturou, no serto, 500 ndios para escraviz-los, mas que desses s 50 chegaram a So Paulo, por causa dos esforos dos bandeirantes para serem amveis, gentis.

    Segundo, o rotacismo que se verifica em alto > arto tambm aconteceu na lngua portuguesa padro, em seu perodo de formao. Assim, do rabe AL-MAKHAZAN deriva o portugus armazm. O que acontece, de fato, que as consoantes /l/ e /r/ so, do ponto de vista articulatrio, parentas muito prximas, o que faz com que, na histria de muitas lnguas (e no s do portugus das regies banhadas pelo legendrio rio Tiet) elas se substituam uma outra indiferentemente. So as chamadas consoantes lquidas, que tambm tm muito parentesco com as vogais (o que faz tambm com que, em algumas variedades, [pg. 92] sejam substitudas por vogais, como o caso do L. de final de slaba que em quase todo o Brasil pronunciado como um /w/).

    Assim, o nome prprio Guilherme nos veio de um germnico WILHEL M, enquanto nosso Geraldo veio do tambm germnico GEHRHAR DT. Na lngua culta coexistem as formas aluguel e aluguer, e nosso papel se originou do provenal papr (e este do grego papyros). No portugus medieval ao lado de flor havia a forma frol, cujo plural, fres, sobreviveu como nome de famlia. A cidade do norte da frica que em

  • francs se chama Alger (do rabe al-jazird) em portugus Argel, donde o nome do pas, Arglia (em francs, Algrie). E a nossa palavra poro deriva do latim planu-: deve ter ocorrido primeiro o rotacism pl- > pr- e depois a quebra do grupo consonantal com a introduo de uma vogai o, exatamente como acontece na forma dialetal brasileira ful. E tudo isso uns bons sculos antes da descoberta da Bahia!

    A troca de /r/ por /l/ se chama lambdacismo. Ela ocorre, no portugus no-padro, em variantes como calvo, celveja, galfo. O que as pesquisas dos sociolingistas e dos foneticistas nos explicam que tanto o rotacismo quanto o lambdacismo ocorrem em ambientes fonticos especficos, isto , diante de determinadas consoantes (quem diz calvo, por exemplo, no diz calta, mas sim carta) ou de acordo com a posio do fonema na palavra.

    A vocalizao do //, a assimilao -nd- > -nn- > -n- e o rotacismo so fenmenos que caracterizam as variedades [pg. 93] no-padro (sobretudo rurais) do portugus do Brasil e que, por isso, recebem uma forte carga de estigmatizao, isto , sofrem um grande preconceito por parte dos falantes das variedades urbanas. Tentei explic-los cientificamente e (espero) sem preconceitos no meu livro A lngua de Eullia.

    Como fcil concluir, o livro No erre mais! est repleto de erros erros de descrio dos fenmenos lingsticos e, sobretudo, erros de conduta: preconceituosa e nada tica. Podemos dizer, portanto, usando as palavras do prprio Sacconi (p. 63), que se trata de um verdadeiro festival de asneiras.

  • 4. Beethoven no danado!Nossa ltima investigao da presena epidmica (para

    usar de novo o termo proposto por Arnaldo Niskier) do preconceito lingstico nos comandos paragramaticais usar como material de anlise uma coluna de jornal chamada Dicas de Portugus, assinada por Dad Squarisi.

    Vamos reproduzir o texto tal como publicado no Dirio de Pernambuco de 15/11/98. Essa mesma coluna, porm, j tinha sido estampada no Correio Braziliense algum tempo antes (22/6/96), poca em que o presidente Fernando Henrique Cardoso, numa visita a Portugal, acusou os brasileiros de serem todos caipiras, declarao infelicssima e desastrosa (caipira no pode ser usado como ofensa), com a qual, todavia, Squarisi parece concordar plenamente, j que qualifica o presidente de iluminado. [pg. 94]

    A republicao da coluna mais de dois anos depois prova que se trata de material distribudo por agncia de notcias, com possibilidade de j ter sido ou de ainda vir a ser publicado em outros jornais uma perspectiva que, confesso, me d arrepios. Por qu? Leia voc mesmo e descubra:

    Portugus ou Caipirs?

    Dad Squarisi

    Fiat lux. E a luz se fez. Clareou este mundo cheinho de jecas-tatus. direita, esquerda, frente, atrs, s se v uma paisagem. Caipiras, caipiras e mais caipiras. Alguns deslumbrados, outros desconfiados. Um s um iluminado. Pobre peixinho fora d'gua! To longe da Europa,

  • mas to perto de paulistas, cariocas, baianos e maranhenses.

    Antes tarde do que nunca. A definio do carter tupiniquim lanou luz sobre um quebra-cabea que atormenta este pas capiau desde o sculo passado. Que lngua falamos? A resposta veio das terras lusitanas.

    Falamos o caipirs. Sem nenhum compromisso com a gramtica portuguesa. Vale tudo: eu era, tu era, ns era, eles era. Por isso no fazemos concordncia em frases como No se ataca as causas ou Vende-se carros.

    Na lngua de Cames, o verbo est enquadrado na lei da concordncia. Sujeito no plural? O verbo vai atrs. Sem choro nem vela. Os sujeitos causas e carros esto no plural. O verbo, vaquinha de prespio, deveria acompanh-los. Mas se faz de morto. O matuto, ingnuo, passa batido. Sabe por qu?

    O sujeito pode ser ativo ou passivo. Ativo, pratica a ao expressa pelo verbo: Os caipiras (sujeito) desconhecem (ao) [pg. 95] o outro lado. Passivo, sofre a ao: O outro lado (sujeito) desconhecido (ao) pelos caipiras. Reparou? O sujeito o outro lado no pratica a ao.

    H duas formas de construir a voz passiva:a. com o verbo ser (passiva analtica): A cultura caipira

    estudada por ensastas. Os carros so vendidos pela con-cessionria.

    b. com o pronome se (passiva sinttica): estuda-se a cul-tura caipira. Vendem-se carros. No caso, no aparece o agente. Mas o sujeito est l. Passivo, mas firme.

  • Dica: use o truque dos tabarus cuidadosos: troque a passiva sinttica pela analtica. E faa a concordncia com o sujeito. Vende-se casas ou vendem-se casas? Casas so vendidas (logo: Vendem-se casas). No se ataca ou no se atacam as causas? As causas no so atacadas (no se atacam as causas). Fez-se ou fizeram-se a luz? A luz foi feita (fez-se a luz). Firmou-se ou firmaram-se acordos? Acordos foram firmados (firmaram-se acordos).

    Na dvida, no bobeie. Recorra ao truque. S assim voc chega l e ganha o passaporte para o mundo. Adeus, Caipirolndia.

    O que mais me impressionou nesse texto foi seu poder de sntese: em poucos pargrafos, a autora conseguiu reunir praticamente todos os chaves ranosos que compem o preconceito lingstico. Os preconceitos sociais e tnicos tambm foram contemplados.

    O preconceito se manifesta j no ttulo: Portugus ou caipirs? A partir da, como milho de pipoca em leo quente, pululam as palavras de contedo semntico fortemente preconceituoso: mundo, jecas-tatus, caipiras, caipiras e mais caipiras, deslumbrados, tupiniquim, [pg. 96] capiau, caipirs, matuto, tabarus, Caipirolndia. ou no um poderoso trabalho de sntese? Dispensa comentrios.

    Isso quanto forma. Quanto ao contedo gramatical abordado pela autora, encontramos, mais uma vez, a atitude preconceituosa da pessoa que, conhecendo uma nica variedade da lngua, se arroga o direito de ofender, desprezar

  • e ridicularizar os falantes das outras dezenas (seno centenas) de variedades. Mas j sabemos que o preconceito fruto da ignorncia, e o que Squarisi faz questo de afirmar em seu texto seu absoluto desconhecimento da complexidade dos fenmenos lingsticos. Temerosa de se aventurar na corrente vertiginosa do rio que a lngua, ela prefere continuar presa gua estagnada e malcheirosa de seu igap...

    A questo da partcula se em enunciados do tipo Vende-se casas vem sendo investigada h muito tempo nos estudos gramaticais e lingsticos brasileiros. O que todos os estudiosos concluem que, na lngua falada no Brasil, no portugus brasileiro, ocorreu uma reanlise sinttica nesse tipo de enunciado, isto , o falante brasileiro no considera mais esses enunciados como oraes passivas sintticas.

    O que a gramtica normativa insiste em classificar como sujeito a gramtica intuitiva do brasileiro interpreta como objeto direto. Respeitados fillogos e lingistas da primeira metade do sculo XX, como Manuel Said Ali, Antenor Nascentes e Joaquim Mattoso Camara Jr., reconheceram o fenmeno. Muitas pesquisas cientficas, baseadas [pg. 97] em coleta de dados da lngua real, em levantamentos estatsticos rigorosos e em teorias lingsticas consistentes, mostram que a imensa maioria dos brasileiros de todas as classes sociais, cultos ou no, na lngua falada e na lngua escrita usam verbos no singular nos enunciados em que aparece o se com um verbo transitivo e um substantivo no plural: Vende-se casas, Aluga-se salas, Joga-se bzios, Avia-se receitas...

  • Mas no porque somos caipiras, jecas-tatus, matutos ou tabarus. porque a lngua muda com o tempo, segue seu curso, transforma-se. Afinal, se no fosse desse modo, ainda estaramos falando latim... Na verdade, falamos latim, um latim que sofreu tantas transformaes que deixou de ser latim e passou a ser portugus. Da mesma forma, o portugus do Brasil queiram os gramticos ou no tambm est se transformando, e um dia, daqui a alguns sculos, ser uma lngua diferente da falada em Portugal mais diferente do que j ...

    Em meu livro A lngua de Eullia, tratei com bastante detalhe das questes relativas s assim chamadas oraes passivas sintticas (que na minha opinio e na de muitos lingistas simplesmente no existem). Me ocuparei aqui apenas do esfarrapado truque, com o qual a autora da coluna Portugus ou caipirs? acredita, ingenuamente, resolver todos os problemas da fala dos caipiras, caipiras e mais caipiras.

    Falar construir um texto, num dado momento, num determinado lugar, dentro de um contexto de fala definido, visando um determinado efeito. Quando o falante usa [pg. 98] uma frase com a partcula se, ele quer se valer dos recur-sos que esse tipo de construo sinttica lhe oferece para chegar ao efeito que visa provocar naquele determinado contexto. Trocar essa frase por outra trocar, tambm, ao mesmo tempo, o efeito visado.

    H situaes em que s as oraes com se funcionam. Imagine um carro em cujo vidro traseiro lemos um cartaz escrito: Vende-se. Se fssemos aplicar o truque sugerido pelas gramticas normativas teramos: vendido. Que efeito

  • pode ter uma frase assim, afixada num carro? Como disse Manuel Said Ali, ela s servir para fazer o leitor duvidar da sanidade mental de quem a escreveu.

    Em outras ocasies, apenas as oraes na voz passiva atingem o efeito desejado: Animais mortos foram trazidos com a enchente. Aplicando o truque: Animais mortos se trouxeram com a enchente... Algum diz isso assim?

    Podemos tambm perguntar por que Vende-se esta casa igual a Esta casa vendida e somente a isso? Por que no dizer que tambm igual a Esto vendendo esta casa, Algum est vendendo esta casa etc.?

    Alm disso, a substituio de mo nica: Alugam-se salas igual a Salas so alugadas, mas a substituio no sentido contrrio no funciona: De que so feitos esses doces? pode ser substitudo por De que se fazem esses doces? ou por De que esses doces se fazem? sero essas construes naturais, espontneas, caractersticas da lngua portuguesa? Me parece que no. [pg. 99]

    Se na capa de uma revista sobre telenovelas est escrito Henrique preso isso equivale a Henrique se prende?

    Uma reportagem intitulada O que fazer quando se tem problemas com o vizinho tambm poderia chamar-se O que fazer quando so tidos problemas com o vizinho?

    Onde est, portanto, a alegada equivalncia?Um dia desses, meu filho de 9 anos chegou em casa

    revoltado porque a professora queria que, numa festa da escola, as meninas danassem uma msica de Beethoven. Sua reao foi dizer: No se dana Beethoven! Na mesma hora pensei em como ficaria essa frase substituda por sua equivalente na voz passiva analtica: Beethoven no

  • danado! Faz algum sentido para voc? Para mim tambm no, mas talvez ns sejamos demasiado capiaus para atingir o nvel de iluminao a que s a professora Squarisi e o presidente Fernando Henrique Cardoso tm acesso.

    O truque tambm falha porque, na obteno do efeito desejado, a colocao dos termos na orao importan-tssima:

    (1) Com este mtodo, mistura-se a gua com a areia.

    (2) Com este mtodo, a gua mistura-se com a areia.

    Est claro que em (1) temos uma orao na voz ativa em que o sujeito indeterminado e o objeto de MISTURA--SE GUA. J em (2) o sujeito passa a ser GUA e a partcula se indica que se trata de um verbo reflexivo. [pg. 100]

    A posio dos elementos no enunciado, quando alterada, altera tambm a interpretao de seu significado, desviando-se do efeito pretendido pelo falante. o que acontece com

    (3) No se encontra Joo no prdio.

    (4) Joo no se encontra no prdio.

    Em (3) JOO o objeto do verbo ENCONTRA, ao passo que em (4) JOO o sujeito.

    Compare-se ainda esses trs enunciados:

    (5) Muita gente demitiu-se da Ford.

    (6) Demitiu-se muita gente da Ford.

    (7) Muita gente foi demitida da Ford.

    Em (5) est claro que a demisso foi voluntria porque o sujeito evidente da orao MUITA GENTE. Em (6) o sujeito indeterminado, e essa indeterminao est indicada pela

  • partcula se, sendo MUITA GENTE O objeto da demisso. As oraes (5) e (6) podem ser perfeitamente classificadas de ativas. J em (7) temos, sim, uma verdadeira orao na voz passiva em que o sujeito, MUITA GENTE, sofre a ao praticada: demitir. Se no lugar de MUITA GENTE tivssemos MUITOS OPERRIOS e quisssemos fazer a mesma anlise, obteramos:

    (8) Muitos operrios demitiram-se da Ford.

    (9) Demitiu-se muitos operrios da Ford.

    (10) Muitos operrios foram demitidos da Ford.

    A frase (9) no teria o mesmo efeito se o verbo estivesse no plural: Demitiram-se muitos operrios da Ford [pg. 101] seria simplesmente a mesma frase (8) com o sujeito colocado depois do verbo, ao contrrio da ordem natural do portugus, que a do sujeito antes do verbo. Se a inteno do falante dizer que muitos operrios perderam, a contragosto, seus empregos, o verbo tem de ser conjugado no singular porque os operrios, neste caso, so o objeto da demisso, sofreram com essa ao, no a praticaram.

    Minhas explicaes levam em conta, como fcil per-ceber, trs critrios de anlise dos enunciados lingsticos:

    1) o sinttico a colocao dos termos na orao;

    2) o semntico o significado que cada tipo de enunciado assume segundo a

    posio ocupada pelos termos na orao;

    3) o pragmtico o efeito visado pelo falante ao escolher enunciar uma orao

    na voz ativa, passiva ou reflexiva.

    A anlise de Dad Squarisi bem mais pobre, pois s leva em conta o critrio sinttico, reduzindo-o a um jogo de supostas equivalncias. a atitude comum do gramtico

  • tradicionalista, que encara a lngua como um objeto descontextualizado, inerte, congelado, morto, fora do tempo, fora do espao, independente das pessoas que a falam. Para ela e para outros membros dos comandos para-gramaticais, defensores intransigentes da norma oculta, no h diferena nenhuma entre No se dana Beethoven e Beethoven no danado, diferena que uma criana de 9 anos conhecedora, como todas as crianas de sua idade, das regras constitutivas de sua lngua materna [pg. 102] soube reconhecer intuitivamente no momento de enunciar sua reao, alcanando em cheio o efeito desejado.

    A autora da coluna diz que no temos nenhum com-promisso com a gramtica portuguesa. Talvez ela no saiba e se soubesse decerto ficaria muito triste , mas nem mesmo os portugueses tm esse compromisso. Lendo anncios publicados no jornal lisboeta Dirio de Notcias de 22/07/97, a lingista Maria Marta Scherre11 verificou que ali havia alternncia entre verbos no plural e no singular, embora todos os substantivos estivessem no plural:

    Vendem-se lotes de prdios c/ licenas a pagamento

    Vende-se magnficas instalaes loja com armazm

    Vendem-se andares novos

    Vende-se lotes de terreno

    Vende-se andares no lumiar

    Aluga-se escritrios Laranjeiras

    Compra-se dois espaos de garagem

    Procura-se reas at 150 m2

    11 A professora Scherre analisou detalhadamente o preconceito contido nessa e em outras colunas assinadas por Dad Squarisi no texto Preconceito lingstico: doa-se lindos filhotes de poodle, a ser publicado brevemente em obra coletiva organizada pelo professor Dermeval da Hora, da Universidade Federal da Paraba. Agradeo a ela a gentileza de ter-me possibilitado ler seu excelente ensaio antes de entreg-lo publicao.

  • Teremos de incluir Portugal entre as provncias da Caipirolndia?

    Por fim, Dad Squarisi apia-se no nome glorioso de Cames (e glorioso mesmo!) para justificar seus ataques [pg. 103] grosseiros contra quem no se enquadra na lei da concordncia. Ora, n'Os Lusadas encontra-se os seguin-tes versos:

    E como por toda frica se soa, / lhe diz, os grandes feitos que fizeram (canto II,

    103).

    Seria o caso de incluir Cames entre os jecas-tatus? Afinal, pelas regras sintticas da lngua da professora Squarisi, os GRANDES FEITOS o sujeito de SE SOA, e por isso o verbo deveria estar no plural... S que no est.

    Parece incrvel que, depois de tanto tempo em vigor na lngua falada no Brasil, esta regra de uso do pronome SE ainda seja rejeitada pelos gramticos prescritivistas. Eles continuam agindo como o professor Aldrovando Cantagalo, do conto O colocador de pronomes de Monteiro Lobato, publicado em 1924. Ao ver uma placa com os dizeres Ferra-se cavalos, o histrico gramtico tentou explicar ao ferreiro que o verbo deveria estar no plural porque o sujeito da frase era cavalos. E foi obrigado a receber esta aula perfeita de sintaxe brasileira:

    V. Sa. me perdoe, mas o sujeito que ferra os cavalos sou eu, e eu no sou plural.

    Aquele SE da tabuleta refere-se c a este seu criado.

    Algum j viu um cavalo pr ferradura em si mesmo? Talvez o professor Aldrovando Cantagalo em seus delrios

  • normativistas, que ainda acometem muita gente hoje em dia! [pg. 104]

  • IIIA desconstruo

    do preconceito lingstico

    1. Reconhecimento da criseDe que modo poderemos romper o crculo vicioso do

    preconceito lingstico? Como conseguiremos escapar do igap estagnado e mergulhar nas guas dinmicas e vivificantes do grande rio da lngua?

    Uma coisa no podemos deixar de reconhecer: existe atualmente uma crise no ensino da lngua portuguesa. Muitos professores, alertados em debates e conferncias ou pela leitura de bons textos cientficos, j no recorrem to exclusivamente gramtica normativa como nica fonte de explicao para os fenmenos lingsticos. Por outro lado, sentem falta de outros instrumentos didticos que possam, seno substituir, ao menos complementar criticamente os compndios gramaticais tradicionais. Muita gente acredita e defende que a norma culta que deve constituir o objeto de ensino/aprendizagem em sala de aula. Mas o que e onde est essa norma culta?

    No difcil perceber que a norma culta por diversas razes de ordem poltica, econmica, social, cultural algo reservado a poucas pessoas no Brasil. Vimos isso no Mito n 1 e no n 8. o mesmo que acontece com a alimentao, [pg. 105] a sade, a educao, a habitao, o transporte, o acesso s novas tecnologias etc. Uns poucos privilegiados se

  • locomovem em carros importados, enquanto a grande maioria usa um transporte pblico deficiente, precrio e, se no bastasse, caro demais conheo pessoas humildes que vo a p para o trabalho, despertando no meio da madrugada e caminhando durante horas da periferia at os bairros centrais, porque seu salrio no lhes permite tomar nibus, trem nem metr.

    Podemos identificar trs problemas bsicos a esse respeito.

    Primeiro, e mais bvio, a quantidade injustificvel de analfabetos que existe neste pas. Estatsticas oficiais, do IBGE, falam de 18 a 20 milhes de analfabetos com mais de 15 anos de idade duas vezes a populao de Portugal! Some-se a isso os milhes de crianas em idade escolar que no freqentam nenhuma escola. Temos tambm um alto ndice de analfabetos funcionais, isto , pessoas que freqentaram a escola por um perodo insuficiente para desenvolver plenamente as habilidades de leitura e redao. A mdia nacional de educao da fora de trabalho de 3,9 anos de escola: seriam, no total, 45 milhes de analfabetos funcionais ou semi-analfabetos. Analfabetos plenos e analfabetos funcionais seriam, ao todo, mais de 60 milhes de brasileiros: duas vezes a populao da Argentina!

    Numa lista de 175 pases elaborada pela ONU, o Brasil ocupa o 93 lugar em ndice de escolarizao, ficando atrs at mesmo de pases como a Etipia e a ndia, exemplos clssicos de subdesenvolvimento crnico. S que o Brasil [pg. 106] uma das dez maiores economias do planeta! Ocupamos tambm o 80 lugar em investimentos na educao. E ningum pode alegar que isso se deve ao

  • tamanho do pas ou da populao: a China, bem maior que o Brasil e com uma populao de 1,2 bilho de habitantes, tem 6 % de analfabetos, enquanto o Brasil tem 18,4 %, segundo o Banco Mundial. E na China esses analfabetos vivem em reas muito remotas, nas montanhas ou nos desertos, enquanto os nossos esto na periferia das grandes cidades e at mesmo trabalhando dentro de nossas casas. Tudo isso num pas cuja Constituio diz que a educao dever do Estado.

    A norma culta, como vimos, est tradicionalmente muito vinculada norma literria, lngua escrita. Com tantos analfabetos, lamentar a decadncia ou a corrupo da norma culta no Brasil , no mnimo, uma atitude cnica.

    Segundo, por razes histricas e culturais, a maioria das pessoas plenamente alfabetizadas no cultivam nem desenvolvem suas habilidades lingsticas no nvel da norma culta. Ler e, sobretudo, escrever no fazem parte da cultura das nossas classes sociais alfabetizadas. Isso se prende aos velhos preconceitos de que brasileiro no sabe portugus e de que portugus difcil, veiculados pelas prticas tradicionais de ensino. Esse ensino tradicional, como eu j disse, em vez de incentivar o uso das habilidades lingsticas do indivduo, deixando-o expressar-se livremente para somente depois corrigir sua fala ou sua escrita, age exatamente ao contrrio: interrompe o fluxo natural da expresso e da comunicao com a atitude corretiva (e muitas vezes punitiva), cuja conseqncia [pg. 107] inevitvel a criao de um sentimento de incapacidade, de incompetncia.

    Em minha experincia de tradutor profissional, j me deparei algumas vezes com situaes que poderamos

  • classificar de surrealistas. Pessoas que fizeram doutorado no exterior me procuram para que eu traduza para o portugus teses escritas originalmente em ingls ou francs. Quando pergunto pessoa por que ela mesma no faz a traduo, a resposta que eu recebo chocante: porque eu no sei portugus. Como possvel? Uma pessoa que escreveu uma tese de 500 ou 600 pginas num idioma estrangeiro, e que obteve assim o seu grau de doutor, de Ph.D., em sua especialidade cientfica, tem receios de escrever em sua prpria lngua materna? Existe algum problema a, e eu no posso aceitar a explicao dada por tantos professores de que os alunos que so preguiosos e no conseguem aprender, ou, pior ainda, que portugus muito difcil. O problema certamente est no modo como se ensina portugus e naquilo que ensinado sob o rtulo de lngua portuguesa.

    Terceiro, o dilema relativo norma culta se prende ao fato de que esse termo usado pela tradio gramatical conservadora para designar uma modalidade de lngua que, como j vimos na primeira parte deste livro, no corresponde lngua efetivamente usada pelas pessoas cultas do Brasil nos dias de hoje, mas sim a um ideal lingstico inspirado no portugus de Portugal, nas opes estilsticas dos grandes escritores do passado, nas regras sintticas que mais se aproximem dos modelos da gramtica latina, ou simplesmente no gosto pessoal do gramtico [pg. 108] para Napoleo Mendes de Almeida, por exemplo, o certo dizer eu odio e no EU ODEIO...12

    12 Outros termos empregados indistintamente pelos prescritivistas so: norma padro, lngua padro, lngua culta, padro culto. Todos eles, porm, carecem de uma definio terica rigorosa, sendo usados basicamente como um sinnimo geral de bom portugus, em contraste com tudo o que no portugus.

  • Dentro desse conceito de norma culta, a proibio de comear um perodo com pronome oblquo (Me empreste seu livro) justificada com a afirmao de que em Portugal (!) ningum fala assim. De igual modo, a recusa dos gramticos conservadores em aceitar que em frases como Vende-se casas o pronome se desempenha uma funo semelhante de sujeito se baseia no fato de que, em latim (!!), o pronome se nunca exercia essa funo. Dizer ou escrever eu prefiro mais X do que Y um pecado, na opinio deles, porque o prefixo prae- em latim (!!!) funcionava para formar superlativos analticos, contendo em si mesmo a idia de muito ou mais do que... Alm disso, errado dizer outra alternativa porque alter em latim (!!!!) j significava outro. Mas desde quando ns falamos latim no Brasil?

    A distncia entre norma culta real e norma culta ideal pode ser medida em afirmaes como esta, de Rocha Lima, em sua Gramtica normativa da lngua portuguesa (p. 15):

    Em extensas faixas do Brasil, e especialmente no Rio de Janeiro, a consoante /l/,

    quando em final de slaba, apresenta uma pronncia relaxada, que a aproxima da

    semivogal /w/. Este [pg. 109] fato faz que desapaream oposies como as de mal

    e mau, alto e auto, servil e serviu oposies que a lngua culta procura

    cuidadosamente observar [grifo meu].

    Basta ouvir os locutores de rdio, os apresentadores de telejornal e os professores universitrios trs profisses que exigem educao de nvel superior e, portanto, domnio da norma culta para verificar que a afirmao de Rocha Lima no se baseia na realidade empiricamente analisvel. provvel que nenhum falante da lngua culta se preocupe, hoje em dia, em fazer a distino entre as palavras por ele

  • citadas. No acervo de gravaes da lngua urbana culta coletado pelo Projeto NURC, a que j me referi no Mito n 5, no se percebe essa suposta preocupao em distinguir as duas pronncias. A pronncia do L como /l/ e no como /w/ s se verifica na fala de pessoas bastante idosas ou de falantes de variedades bem especficas de portugus, como a gacha (e, mesmo assim, no de modo geral).

    Essa mesma idealizao da norma culta como um padro lingstico 100% puro como uma pedra preciosa sem nenhuma jaa, como uma pepita de ouro livre de toda ganga se verifica, por exemplo, num texto publicado por Pasquale Cipro Neto em sua pgina na revista Cult (n 11, junho de 1998, p. 44). Para ele, os usos no-normativos de onde constituem uma praga. E o uso feito por Chico Buarque, numa cano, de onde no lugar de quando indica que o poeta-compositor caiu na esparrela.

    Lemos no texto de Cipro que a diferena entre onde e aonde tambm deixa muita gente de cabelo em p. [pg. 110] Depois de explicar o uso correto de cada uma das duas formas, ele diz que mesmo em escritores renomados se v o emprego de onde e aonde sem critrio, e cita o exemplo do poema A onda de Manuel Bandeira, que escreveu: Aonde anda a onda. E chama a ateno para o fato de que em termos de lngua culta, para cada 99 ocorrncias corretas de onde, h uma de aonde. Diante dessa estatstica (que ele cita sem indicar a fonte de seus dados nem a metodologia empregada para colet-los), a lgica nos leva a concluir que o problema ento no est na falta de critrio dos falantes da norma culta, mas sim na concepo que o autor do texto tem de lngua culta. Afinal, se Chico Buarque, Manuel Bandeira e

  • Machado de Assis (que no poema Nini, parte III, estrofe 2, escreveu:Mas aonde te vais agora, / Onde vais, esposo meu?) no servem como exemplos de usurios da lngua culta, quem servir?

    Em seu livro Com todas as letras (que tem o sugestivo subttulo de o portugus simplificado, que nos remete logo ao Mito 3), o jornalista Eduardo Martins tenta ensinar o uso correto do verbo pedir. Depois de ler as explicaes dadas ali, na pgina 16, passei a aplicar um teste para controlar se o que ele chama de norma culta realmente merece esse nome. Assim, toda vez que vou dar uma palestra em congressos e seminrios ou conversar com professores de portugus, escrevo o seguinte enunciado na lousa e pergunto o que h de errado com ele:

    Joo est doente, por isso me pediu para vir aqui no lugar dele. [pg. 111]

    Deixo que as pessoas reflitam e dem suas opinies. Cada uma arrisca uma hiptese, mas ningum detecta o erro denunciado por Martins em seu livro. E voc, j descobriu qual ? Pois saiba, caro leitor, cara leitora, que a construo pedir para s pode ser empregada quando o sentido o de pedir permisso, licena ou autorizao. Segundo o autor de Com todas as letras, se a idia de permisso ou licena no estiver implcita ou subentendida, o certo usar pedir que + subjuntivo: Joo est doente, por isso me pediu que viesse aqui no lugar dele. E ele abre suas explicaes afirmando:

    A locuo pedir para um dos melhores exemplos do abismo existente entre a

    linguagem coloquial e a norma culta do idioma.

  • E eu me vejo obrigado a reagir dizendo: Nada disso, senhor jornalista! A locuo pedir para um exemplo do abismo que existe, sim, mas entre a verdadeira norma culta usada pelas pessoas cultas do Brasil e aquilo que ele e outros no-especialistas em lingstica, que se baseiam exclusivamente na norma gramatical mais conservadora e prescritiva, chamam de norma culta. O que Martins rotula de linguagem coloquial (termo, alis, que quase sempre empregado com sentido pejorativo) , na verdade, uma manifestao da norma culta objetiva, real, empiricamente coletvel e analisvel. E a prova maior disso que os falantes cultos (professores de portugus!) a quem ofereo meu teste reconhecem tranqilamente a gramaticalidade, a aceitabilidade de construes como a do enunciado que escrevo na lousa. Como possvel, [pg. 112] ento, falar de erro se a construo no causa estranheza a falantes cultos e perfeitamente assimilada do ponto de vista semntico e pragmtico, se no h nenhuma ambigidade em sua interpretao (que o argumento quase sempre apresentado pelos prescritivistas, que normalmente analisam a lngua sem levar em conta o contexto da enunciao)?

    De onde vem esse abismo entre o conceito sociolingstico de norma culta e a noo vaga (e preconceituosa) de lngua culta exibida pelos comandos paragramaticais? Como tantos especialistas de verdade vm insistindo em mostrar, esse abismo nasce da recusa dos defensores da gramtica tradicional de acompanhar os avanos da cincia da linguagem. Consultando, por exemplo, a bibliografia do livro Com todas as letras, de Eduardo Martins, lanado no incio de 1999, verifica-se que dos 26

  • ttulos consultados por ele nenhum de obra cientfica especializada: 10 so comandos paragramaticais em forma de livros que listam no-sei-quantos-mil erros de portugus (entre os quais o Manual de Redao e Estilo do jornal O Estado de S. Paulo, de autoria do mesmo Martins); 11 so dicionrios de lngua e/ou de regncias verbais e nominais (obras escritas moda antiga e no segundo os critrios da lexicografia contempornea), e 5 so gramticas normativas. Como todo comando para-gramatical digno do nome, este tambm se caracteriza por sua inflexvel endogamia: para conservar a pureza de sua lngua, s aceita manter relaes com indivduos de sua prpria casta. [pg. 113]

    Como reconhece o prprio Ministrio da Educao, no documento j citado,

    no se pode mais insistir na idia de que o modelo de correo estabelecido pela

    gramtica tradicional seja o nvel padro de lngua ou que corresponda variedade

    lingstica de prestgio (p. 31).

    Para separar o ideal do real, como eu j disse, ne-cessrio empreender a identificao e a descrio da verdadeira lngua falada e escrita pelas classes cultas do Brasil. uma tarefa que tem de ser feita, e que est sendo feita. Infelizmente, os resultados j obtidos na execuo dessa tarefa so de acesso difcil maioria das pessoas porque se encontram expostos em livros e teses escritos em linguagem extremamente tcnica como de fato exige o rigor cientfico , e recorrem, em suas anlises e interpretaes, a diferentes modelos tericos, todos eles muito sofisticados e de difcil compreenso para o leitor comum no familiarizado com eles.

  • preciso escrever uma gramtica da norma culta brasileira em termos simples (mas no simplistas), claros e precisos, com um objetivo declaradamente didtico--pedaggico, que sirva de ferramenta til e prtica para professores, alunos e falantes em geral. Sem essa gramtica que nos descreva e explique a lngua efetivamente falada pelas classes cultas, continuaremos merc das gramticas normativas tradicionais, que chamam erradamente de norma culta uma modalidade de lngua que no culta, mas sim cultuada: no a norma culta como ela , mas a norma [pg. 114] culta como deveria ser, segundo as concepes antiqua-das dos perpetuadores do crculo vicioso do preconceito lingstico.

    2. Mudana de atitudeEnquanto essa gramtica no chega, temos de combater

    o preconceito lingstico com as armas de que dispomos. E a primeira campanha a ser feita, por todos na sociedade, a favor da mudana de atitude. Cada um de ns, professor ou no, precisa elevar o grau da prpria auto-estima lingstica: recusar com veemncia os velhos argumentos que visem menosprezar o saber lingstico individual de cada um de ns. Temos de nos impor como falantes competentes de nossa lngua materna. Parar de acreditar que brasileiro no sabe portugus, que portugus muito difcil, que os habitantes da zona rural ou das classes sociais mais baixas falam tudo errado. Acionar nosso senso crtico toda vez que nos depararmos com um comando paragramatical e saber filtrar as informaes realmente teis, deixando de lado (e

  • denunciando, de preferncia) as afirmaes preconceituosas, autoritrias e intolerantes.

    Da parte do professor em geral, e do professor de lngua em particular, essa mudana de atitude deve refletir-se na no-aceitao de dogmas, na adoo de uma nova postura (crtica) em relao a seu prprio objeto de trabalho: a norma culta.

    Do ponto de vista terico, esta nova postura pode ser simbolizada numa simples troca de slaba. Em vez de REPETIR alguma coisa, o professor deveria REFLETIR sobre [pg. 115] ela. Diante da velha doutrina gramatical normativa, o professor no deveria limitar-se a transmiti-la tal e qual ela se encontra compendiada nos manuais gramaticais ou nos livros didticos.

    necessrio lanar dvidas sobre o que est dito ali, questionar a validade daquelas explicaes, filtr-las, to-mando inclusive como base seu prprio saber lingstico, devidamente valorizado: Eu no falo assim, no escrevo assim; meus colegas tambm no; escritores que tenho lido no seguem essa regra ser que ela pertence de fato norma culta?

    Posta a dvida, passa-se investigao, ao levantamento de hipteses, busca de explicaes que esclaream o fenmeno que provocou o questionamento. Se milhes de brasileiros de norte a sul, de leste a oeste, em todas as regies e em todas as classes sociais falam e escrevem Aluga-se salas ou se h flutuao no uso de onde e aonde, o problema, evidentemente, no est nesses milhes de pessoas, mas na explicao insuficiente (errada, at, nesses casos) dada a esses fenmenos pela gramtica tradicional.

  • Nessa nova postura de reflexo, indispensvel que o professor procure, tanto quanto possvel, estar sempre a par dos avanos das cincias da linguagem e da educao: lendo literatura cientfica atualizada, assinando revistas especializadas, filiando-se a associaes profissionais, fre-qentando cursos em universidades, aderindo a projetos de pesquisa, participando de congressos, levantando suas dvidas e inquietaes em debates e mesas-redondas... [pg. 116]

    Do ponto de vista prtico, a nova postura pode ser representada na eliminao de uma nica slaba tambm. Em vez de REPRODUZIR a tradio gramatical, o professor deve PRODUZIR seu prprio conhecimento da gramtica, transformando-se num pesquisador em tempo integral, num orientador de pesquisas a serem empreendidas em sala de aula, junto com seus alunos. Parar de querer entregar regras (mal descritas) j prontas, e comear a descobrir mtodos inteligentes e prazerosos para que os prprios aprendizes deduzam essas regras em textos vivos, coerentes, bem construdos, interessantes, tanto de lngua escrita como de lngua falada. Tentei dar uma contribuio inicial a esse processo na segunda parte do meu livro Pesquisa na escola: o que , como se faz.

    A gramtica tradicional tenta nos mostrar a lngua como um pacote fechado, um embrulho pronto e acabado. Mas no assim. A lngua viva, dinmica, est em constante movimento toda lngua viva uma lngua em decom-posio e em recomposio, em permanente transformao. uma fnix que de tempos em tempos renasce das prprias cinzas. uma roseira que, quanto mais a gente vai podando,

  • flores mais bonitas vai dando. E o professor tambm deve preferir ser uma metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinio formada sobre tudo, como cantava Raul Seixas (contrariando, nesses mesmos versos, a velha opinio formada de que o verbo preferir no pode ser usado com a construo do que...).

    Tudo muda no universo, e a lngua tambm. A compa-rao da lngua a um rio me faz lembrar do filsofo grego [pg. 117] Herclito que disse que ningum se banha duas vezes no mesmo rio: na segunda vez, j no a mesma pessoa, j no o mesmo rio.

    No precisamos ter medo disso quando formos dar aula de portugus. Um professor de qumica, fsica, biologia ou histria sabe perfeitamente que muito do que ele est ensinando hoje pode vir a ser reformulado ou at negado amanh por alguma nova descoberta, por algum novo avano tecnolgico que permitir ver coisas que antes no se via. Toda cincia, para merecer esse nome, tem que ser, como se diz em ingls, work in progress, um trabalho em andamento, uma construo ininterrupta, uma obra aberta. E a lingstica (dentro da qual se inclui a gramtica) uma cincia assim. Por isso,

    no h razo para que o professor de gramtica seja dispensado da formao

    cientfica que se exige de um professor de biologia ou de psicologia. [...]

    definitivamente necessrio comear a conceber a gramtica como uma disciplina

    viva, em reviso e elaborao constante.

    Essas palavras de Mrio Perini em sua Gramtica des-critiva do portugus (pp. 16 e 17) sintetizam o que eu disse

  • mais acima a respeito de uma nova postura terica e prtica por parte do professor de lngua portuguesa.

    3. O que ensinar portugus?Para romper o crculo vicioso do preconceito lingstico no

    ponto em que temos mais poder para atac-lo a prtica de ensino , precisamos rever toda uma srie [pg. 118] de velhas opinies formadas que ainda dominam nossa maneira de ver nosso prprio trabalho.

    Logo de incio, convm fazer a pergunta: o que ensinar portugus? Que objetivo pretendemos alcanar com nossa prtica em sala de aula?

    Os mtodos tradicionais de ensino da lngua no Brasil visam, por incrvel que parea, a formao de professores de portugus! O ensino da gramtica normativa mais estrita, a obsesso terminolgica, a parania classificatria, o apego nomenclatura nada disso serve para formar um bom usurio da lngua em sua modalidade culta. Esforar-se para que o aluno conhea de cor o nome de todas as classes de palavras, saiba identificar os termos da orao, classifique as oraes segundo seus tipos, decore as definies tradicionais de sujeito, objeto, verbo, conjuno etc. nada disso garantia de que esse aluno se tornar um usurio competente da lngua culta.

    Quando algum se matricula numa auto-escola, espera que o instrutor lhe ensine tudo o que for necessrio para se tornar um bom motorista, no ? Imagine, porm, se o instrutor passar onze anos abrindo a tampa do motor e explicando o nome de cada pea, de cada parafuso, de cada correia, de cada fio; explicando de que modo uma parte se

  • encaixa na outra, o lugar que cada uma deve ocupar dentro do compartimento do motor para permitir o funcionamento do carro e assim por diante... Esse aluno tem alguma chance de se tornar um bom motorista? Acho difcil. Quando muito, estar se candidatando a um emprego de mecnico de automveis... Mas quantas pessoas existem por a, dirigindo tranqilamente seus [pg. 119] carros, tirando o mximo proveito deles, sem ter a menor idia do que acontece dentro do motor?

    Hoje em dia, cada vez mais pessoas esto usando um computador. A retumbante maioria delas consegue fazer um bom uso de sua mquina conhecendo apenas os programas, os softwares. O hardware, isto , a parte mecnica do computador, a estrutura fsica das placas, dos chips, das conexes etc., fica para os especialistas, os tcnicos.

    E ento? O que pretendemos formar com nosso ensino: motoristas da lngua ou mecnicos da gramtica? Devemos insistir nos componentes hard ou devemos dar preferncia ao bom manejo dos soft?13

    Ns, sim, professores, temos que conhecer profunda-mente o hardware da lngua, a mecnica do idioma, porque ns somos os instrutores, os especialistas, os tcnicos. Mas no os nossos alunos. Precisamos, portanto, redirecionar todos os nossos esforos, volt-los para a descoberta de novas maneiras que nos permitam fazer de nossos alunos bons motoristas da lngua, bons usurios de seus programas.

    13 Hard em ingls significa duro, rgido, enquanto soft significa macio, malevel. Qual dessas duas opes de ensino voc acha que nossos alunos escolheriam se tivessem chance?

  • Por isso que Srio Possenti, depois de exibir argumentos com os quais concordo integralmente, diz nas pginas 53-54 de Por que (no) ensinar gramtica na escola:

    Todas as sugestes feitas nos textos anteriores s faro sentido se os professores

    estiverem convencidos ou puderem ser convencidos de que o domnio

    efetivo e ativo de uma lngua [pg. 120] dispensa o domnio de uma

    metalinguagem tcnica. Em outras palavras, se ficar claro que conhecer uma

    lngua uma coisa e conhecer sua gramtica outra. Que saber uma lngua uma

    coisa e saber analis-la outra. Que saber usar suas regras uma coisa e saber

    explicitamente quais so as regras outra. Que se pode falar e escrever numa

    lngua sem saber nada sobre ela, por um lado, e que, por outro lado,

    perfeitamente possvel saber muito sobre uma lngua sem saber dizer uma frase

    nessa lngua em situaes reais.

    Quando digo coisas assim em pblico, algumas pessoas levantam a objeo de que o ensino da nomenclatura tra-dicional, das definies, das classificaes, da anlise sin-ttica necessrio porque so essas coisas que sero cobradas ao aluno no momento de fazer um concurso ou de prestar o vestibular. Se assim, cabe a ns, professores, pressionar pelos meios de que dispomos associaes profissionais, sindicatos, cartas imprensa para que as provas de concursos sejam elaboradas de outra maneira, trocando as velhas concepes de lngua por novas. No temos de nos conformar passivamente com uma situao absurda e prosseguir na reproduo dos velhos vcios gramatiqueiros simplesmente porque haver uma cobrana futura ao aluno.

    Quanto ao vestibular Deus seja mil vezes louvado! , ele est desaparecendo. Diversas universidades pblicas e privadas esto encontrando novos meios de seleo e

  • admisso de alunos aos cursos superiores. Afinal, poucas instituies houve no Brasil to obtusas, nefastas, injustas, antidemocrticas e perniciosas quanto o vestibular. Nunca consegui entender por que uma pessoa [pg. 121] que quer estudar Direito precisa fazer prova de fsica, qumica, biologia e matemtica, se o que ela aprendeu dessas matrias j foi avaliado na concluso do 2 grau.

    Com o fim do vestibular, desaparecer tambm assim esperamos ardentemente toda a indstria que se formou em torno dele: os nefandos cursinhos onde ningum aprende nada, onde no h nenhuma produo de conhecimento mas apenas reproduo de informaes desconexas, onde centenas de alunos se apinham numa sala, onde tudo o que se faz entupir a cabea do aluno com truques e macetes que em nada contribuem para a sua verdadeira formao intelectual e humanstica.

    4. O que erro?Outro modo interessante de romper com o crculo vicioso

    do preconceito lingstico reavaliar a noo de erro. A noo tradicional (eu diria at folclrica) de erro que permite que pessoas como Sacconi escrevam livros absurdos como No erre mais! e vendam milhares de exemplares deles.

    Como vimos na primeira parte do livro, o Mito 6 expressa a prtica milenar de confundir lngua em geral com escrita e, mais reduzidamente ainda, com ortografia oficial. A tal ponto que uma elevada porcentagem do que se rotula de erro de portugus , na verdade, mero desvio da ortografia oficial. O vigor desse mito se depreende, por exemplo, num exerccio de pesquisa sugerido por um livro didtico de publicao

  • recente (Carvalho & Ribeiro, 1998: 125). Aps apresentar o poema [pg. 122] Erro de portugus, de Oswald de Andrade, os autores pedem ao aluno:

    1. Procure localizar erros de portugus em cartazes, placas, ou at mesmo na fala

    de pessoas que voc conhece. Transcreva-os em seu caderno.

    Ora, em cartazes e placas no aparecem erros de portugus e, sim, erros de ortografia. Escrever, digamos, LOGINHA DE ARTEZANATO onde a lei obriga a escrever LOJINHA DE ARTESANATO em nada vai prejudicar a inteno do autor da placa: informar que ali se vende objetos de artesanato. Neste caso, nem mesmo a realizao fontica da placa certa e da placa errada vai apresentar diferena. O fato tambm de haver erro na placa no significa de forma nenhuma que os objetos ali vendidos sejam de qualidade inferior, errados ou feios.

    Se mais acima escrevi lei porque se trata exatamente disso. A ortografia oficial fruto de um gesto poltico, determinada por decreto, resultado de negociaes e presses de toda ordem (geopolticas, econmicas, ideolgicas). No incio do sculo XX o certo era escrever: EM NICTHEROY ELLE POUDE ESTUDAR SCIENCIAS NATURAES, CHIMICA E PHYSICA. Se hoje o certo escrever: EM NITERI ELE PDE ESTUDAR CINCIAS NATURAIS, QUMICA E FSICA, isso no altera a sintaxe nem a semntica do enunciado: o que mudou foi s a ortografia.

    O exerccio proposto por Carvalho & Ribeiro, alm de confundir portugus com ortografia do portugus, tambm admite implicitamente a existncia de erros na [pg. 123] fala de pessoas que voc conhece. O problema aqui ainda mais grave porque, do ponto de vista cientfico, simplesmente

  • no existe erro de portugus. Todo falante nativo de uma lngua um falante plenamente competente dessa lngua, capaz de discernir intuitivamente a gramaticalidade ou agramaticalidade de um enunciado, isto , se um enunciado obedece ou no s regras de funcionamento da lngua.

    Ningum comete erros ao falar sua prpria lngua materna, assim como ningum comete erros ao andar ou ao respirar. S se erra naquilo que aprendido, naquilo que constitui um saber secundrio, obtido por meio de treinamento, prtica e memorizao: erra-se ao tocar piano, erra-se ao dar um comando ao computador, erra-se ao falar/escrever uma lngua estrangeira. A lngua materna no um saber desse tipo: ela adquirida pela criana desde o tero, absorvida junto com o leite materno. Por isso qualquer criana entre os 3 e 4 anos de idade (se no menos) j domina plenamente a gramtica de sua lngua. O resultado disso , como diz Perini (1997:11), que nosso conhecimento da lngua ao mesmo tempo altamente complexo, incrivelmente exato e extremamente seguro.

    E o mesmo autor prossegue, afirmando (p. 13) que

    qualquer falante de portugus possui um conhecimento implcito altamente

    elaborado da lngua, muito embora no seja capaz de explicitar esse

    conhecimento. E [...] esse conhecimento no fruto de instruo recebida na

    escola, mas foi adquirido de maneira to natural e espontnea quanto a nossa

    habilidade de andar. Mesmo pessoas que nunca estudaram [pg. 124] gramtica

    chegam a um conhecimento implcito perfeitamente adequado da lngua. So

    como pessoas que no conhecem a anatomia e a fisiologia das pernas, mas que

    andam, danam, nadam e pedalam sem problemas.

    Assim, podemos at dizer que existem erros de por-tugus, s que nenhum falante nativo da lngua os comete!

  • Por exemplo, seriam errados os enunciados abaixo (o asterisco indica construo agramatical):

    (1) *Aquela garoto me xingou

    (2) *Eu nos vimos ontem na escola

    (3) *Jlia chegou semana que vem

    (4) *No duvido que ele no queira no vir aqui

    (5) *Que o livro que a moa que Lus que trabalha comigo me apresentou

    escreveu bom no nego.

    Esses enunciados, precisamente por serem agramaticais, isto , por no respeitarem as regras de funcionamento da nossa lngua, no aparecem na fala espontnea e natural de falantes nativos do portugus do Brasil, mesmo que sejam crianas pequenas que ainda no freqentam escola ou adultos totalmente iletrados.

    O que est em jogo aqui, evidentemente, a noo de erro e seu estreito vnculo com o que tradicionalmente chamado de portugus. Como j mostrei, existe, no nvel da lngua escrita, a confuso entre portugus e ortografia oficial da lngua portuguesa. No nvel da lngua falada, os termos que se confundem, ou que so tomados como equivalentes, so portugus, gramtica normativa e variedade padro. [pg. 125]

    Em relao lngua escrita, seria pedagogicamente proveitoso substituir a noo de erro pela de tentativa de acerto. Afinal, a lngua escrita uma tentativa de analisar a lngua falada, e essa anlise ser feita, pelo usurio da escrita no momento de grafar sua mensagem, de acordo com seu perfil sociolingstico. Uma pessoa com poucos anos de escolarizao, pouco habituada prtica da leitura e da

  • escrita, tendo como quadro de referncia apenas uma suposta equivalncia unvoca entre som e letra, far uma anlise dotada de reduzido instrumental terico, empregando como ferramenta bsica a analogia. Assim, quem escreveu CHCARA em vez de XCARA no fez isso porque quis errar, mas sim porque quis acertar. Se existe CHINELO, CHICOTE, CHIQUEIRO, CHICLETE, por analogia se chega possibilidade de tambm haver CHCARA. importante notar que os erros de ortografia so constantes: troca de J por G, de S por Z, de CH por X e assim por diante justamente por serem casos em que necessrio fazer uma anlise da relao fala-escrita que ultrapassa os limites tericos da suposta equivalncia som-letra. Dificilmen-te algum vai tentar escrever XCARA usando um J, um G, um S no lugar do X oficial, porque faltam dados de experincia para uma analogia razovel. Por outro lado, uma pessoa que tenha freqentado a escola por muitos anos, que leia e escreva assiduamente, que se tenha familiarizado com o uso do dicionrio, que tenha sido despertada para a existncia das regularidades e irregularidades da lngua escrita, saber que a simples analogia no ser suficiente como guia no momento de escrever outros quadros de referncia tero de ser acessados: a cultura [pg. 126] erudita, a etimologia das palavras, as reformas ortogrficas, os critrios de normativizao da ortografia etc.

    Quanto lngua falada, fica bvio que o rtulo de erro aplicado a toda e qualquer manifestao lingstica (fontica, morfolgica e sinttica, principalmente) que se diferencie das regras prescritas pela gramtica normativa, que se apresenta como codificao da lngua culta, embora na verdade seja a codificao de um padro idealizado, que no coincide com a

  • verdadeira variedade culta objetiva. Dentro dessa conceituao, so igualmente errados os enunciados abaixo

    (6) A Joana uma menina que ela sabe o que faz

    (7) *A Joana que ela sabe uma menina o que faz,

    muito embora (6) seja perfeitamente inteligvel, decodificvel, interpretvel e, portanto, gramatical, aceitvel, enquanto (7) claramente agramatical e, por conseguinte, no ocorre na fala normal de nenhum brasileiro. No entanto, (6) considerado to errado quanto (7) porque nenhum dos dois enunciados se enquadra nas prescries da gramtica normativa (e de seus autoproclamados defensores, os comandos paragramaticais). O enunciado (6), porm, tem uma sintaxe, uma semntica e uma pragmtica que qualquer falante nativo do portugus do Brasil (sem preocupaes normativistas) aceita com tranqilidade, e a prova disso que enunciados desse tipo so proferidos aos milhes diariamente em todos os cantos do pas, por pessoas de todas as classes sociais, inclusive as consideradas cultas. ( certo que construes [pg. 127] desse tipo no aparecem em textos cultos escritos, mas preciso distinguir as variedades cultas faladas das variedades cultas escritas, coisa que os prescritivistas em geral no fazem.) Trata-se, aqui, de uma regramaticalizao do pronome que, de toda uma complexa perda de casos gramaticais, fenmeno que vem sendo estudado h bastante tempo, tendo sido j tema de muitos ensaios, dissertaes e teses cientficas. Mas a prova oferecida pelo uso intenso de construes sintticas como a de (6) no convence os defensores da gramtica normativa e

  • os membros dos comandos paragramaticais, que no con-seguiriam sobreviver sem a noo de erro.

    preciso ter sempre em mente que tudo aquilo que considerado erro ou desvio pela gramtica tradicional tem uma explicao lgica, cientfica, perfeitamente demonstrvel. S por isso que os agentes dos comandos paragramaticais podem falar de erros comuns. Os gramticos conservadores no se do conta de que o prprio adjetivo comum usado por eles mostra que se trata de um fenmeno amplo de variao, de uma transformao que est se processando nos mecanismos de funcionamento geral da lngua. Em sua cegueira dogmtica, eles falam de vcio comum, erro vulgar, praga, corrupo muito difundida, sem perceber que esto, na verdade, reconhecendo que aquilo que eles consideram certo que deve apresentar algum problema, alguma disfuno, alguma impossibilidade de uso que impede que a maioria das pessoas obedea quela regra. A nica explicao inaceitvel (embora seja a preferida dos conservadores) a de que essas pessoas so asnos, ignorantes ou idiotas. [pg. 128]

    A nova postura terica e prtica consiste em procurar conhecer as regras que esto levando os falantes da lngua a usar X onde se esperaria Y, identificar essas regras, descrev-las, pesquisar explicaes cientficas para elas, e, se possvel, apresent-las a seus alunos. Foi o que tentei fazer em meu livro A lngua de Eullia, e foi tambm o que fiz neste livro ao contestar a explicao paleozica de Dad Squarisi para a alta freqncia de Vende-se casas em lugar de Vendem-se casas.

    O bom professor age como o filsofo Spinoza, que escreveu:

  • Tenho-me esforado por no rir das aes humanas, por no deplor-las nem odi-

    las, mas por entend-las.

    Pessoas como Napoleo Mendes de Almeida, Luiz Antonio Sacconi e Dad Squarisi agem exatamente ao contrrio de Spinoza. Sacconi, ao recorrer a um humor de gosto duvidoso, chega mesmo a escrever, preto no branco:Eu, porm, odeio gente que s diz asneiras... (p. 43). De um verdadeiro professor devemos sempre esperar compaixo, solidariedade, empatia, nunca o dio muito menos o riso deplorador.

    5. Ento vale tudo?Algumas pessoas me dizem que a eliminao da noo de

    erro dar a entender que, em termos de lngua, vale tudo. No bem assim. Na verdade, em termos de lngua, tudo vale alguma coisa, mas esse valor vai depender de uma srie de fatores. Falar gria vale? Claro que [pg. 129] vale: no lugar certo, no contexto adequado, com as pessoas certas. E usar palavro? A mesma coisa.

    Uma das principais tarefas do professor de lngua conscientizar seu aluno de que a lngua como um grande guarda-roupa, onde possvel encontrar todo tipo de vestimenta. Ningum vai s de mai fazer compras num shopping-center, nem vai entrar na praia, num dia de sol quente, usando terno de l, chapu de feltro e luvas...

    Usar a lngua, tanto na modalidade oral como na escrita, encontrar o ponto de equilbrio entre dois eixos: o da adequabilidade e o da aceitabilidade.

    Quando falamos (ou escrevemos), tendemos a nos adequar situao de uso da lngua em que nos encontra-

  • mos: se uma situao formal, tentaremos usar uma lin-guagem formal; se uma situao descontrada, uma lin-guagem descontrada, e assim por diante. Essa nossa tenta-tiva de adequao se baseia naquilo que consideramos ser o grau de aceitabilidade do que estamos dizendo por parte de nosso interlocutor ou interlocutores. Podemos representar tudo isso graficamente mais ou menos assim:

    totalmente inadequado, por exemplo, fazer uma palestra num congresso cientfico usando gria, expresses [pg. 130] marcadamente regionais, palavres etc. A platia dificilmente aceitar isso. claro que se o objetivo do palestrante for precisamente chocar seus ouvintes, aquela linguagem ser muito adequada... No adequado que um agrnomo se dirija a um lavrador analfabeto usando uma terminologia altamente tcnica e especializada, a menos que queira no se fazer entender. Como sempre, tudo vai depender de quem diz o qu, a quem, como, quando, onde, por qu e visando que efeito...

  • 6. A parania ortogrficaA atitude tradicional do professor de portugus, ao

    receber um texto produzido por um aluno, procurar imediatamente os erros, direcionar toda a sua ateno para a localizao e erradicao do que est incorreto. uma preocupao quase exclusiva com a forma, pouco importando o que haja ali de contedo. sobretudo aquilo que chamo de parania ortogrfica: uma obsesso neurtica para que todas as palavras tragam o acento grfico, que todos os tenham sua cedilha, que todos os J e G estejam nos lugares certos... e assim por diante. Alis, uma porcentagem enorme do que todo mundo chama de erro de portugus diz respeito a meras incorrees ortogrficas.

    Ora, saber ortografia no tem nada a ver com saber a lngua. So dois tipos diferentes de conhecimento. A orto-grafia no faz parte da gramtica da lngua, isto , das regras de funcionamento da lngua. Como vimos no Mito n 6, muitas pessoas nascem, crescem, vivem e morrem sem jamais aprender a ler e a escrever, sendo, no entanto, conhecedores perfeitos da gramtica de sua lngua. [pg. 131]

    A ortografia oficial fruto de um decreto, de um ato institucional por parte do governo, e fica muitas vezes sujeita aos gostos pessoais ou s interpretaes dos fenmenos lingsticos por parte dos fillogos que ajudam a estabelec-la. Por isso, na virada do sculo XIX para o XX se escrevia ELLE; na primeira metade do sculo XX se escreveu LE e agora, no limiar do sculo XXI, se escreve ELE.

    Por isso, a lei nos manda escrever HUMO OU HMUS, mas MIDO e UMIDADE, embora sejam todas palavras da mesma famlia (em Portugal todas essas palavras tm H).

  • Por isso tambm temos de escrever ESTRANHO e ESTRANGEIRO, com s, embora sejam palavras formadas com base no prefixo EXTRA-, presente em EXTRAORDINRIO, EXTRAVAGANTE, EXTRAPOLAR etc. (em espanhol se escreve EXTRNEO e EXTRANJERO).

    Por isso o adjetivo EXTENSO e o substantivo EXTENSO apresentam um x, mas o verbo ESTENDER (v l saber por qu!) se escreve com um s. E o adjetivo MACIO se escreve com c embora seja derivado de MASSA, com SS.

    Se os legisladores da lngua podem ser to incoerentes no momento de definir a ortografia oficial, no h por que estranhar (ou extranhar) que as pessoas em geral tambm se confundam. Mas no o que pensam Pasquale Cipro Neto e Ulisses Infante, que na p. 33 de sua Gramtica, escrevem:

    No admissvel que com um alfabeto to restrito (apenas 23 letras!) se cometam

    tantos erros ortogrficos pelo Brasil afora. Estude com cuidado este captulo para

    integrar o grupo de cidados que sabem grafar corretamente as palavras da lngua

    portuguesa. [pg. 132]

    Essa Gramtica filia-se tradio que atribui ao domnio da escrita um elemento de distino social, que na verdade um elemento de dominao por parte dos letrados sobre os iletrados.

    Existe um mito ingnuo de que a linguagem humana tem a finalidade de comunicar, de transmitir idias mito que as modernas correntes da lingstica vm tratando de demolir, provando que a linguagem muitas vezes um poderoso instrumento de ocultao da verdade, de manipulao do outro, de controle, de intimidao, de opresso, de emudecimento. Ao lado dele, tambm existe o mito de que a escrita tem o objetivo de difundir as idias.

  • No entanto, uma simples investigao histrica mostra que, em muitos casos, a escrita funcionou, e ainda funciona, com a finalidade oposta: ocultar o saber, reserv-lo a uns poucos para garantir o poder queles que a ela tm acesso.

    Como nos informa Leda Tfouni em seu livro Adultos no alfabetizados: o avesso do avesso, a escrita na ndia esteve profundamente ligada aos textos sagrados, a que s tinham acesso os sacerdotes, os iniciados, os que passavam por um longo processo de preparao: no fundo, a garantia de que poderiam ler aqueles textos guardando-os em segredo. De fato, a clebre gramtica de Panini (sculo V a. C), que esmiua toda a estrutura da lngua snscrita clssica, tinha um objetivo especfico: permitir a leitura correta e a interpretao exata dos textos sagrados. Era, portanto, a filologia a servio da casta sacerdotal. Convm lembrar que foi necessria a Reforma protestante, no sculo [pg. 133] XVI, para que a Igreja catlica romana permitisse a popularizao da Bblia, tolerando que as Escrituras fossem lidas e estudadas em outras lnguas vivas e no somente em latim. A primeira traduo da Bblia para o portugus, por exemplo, s aconteceu em 1719, por obra de um protestante, Joo Ferreira de Almeida.

    Na China, o sistema ideogrfico de escrita exerceu durante sculos a funo de assegurar o poder aos burocratas e aos religiosos. Realmente, a grande quantidade de ideogramas, juntamente com o alto grau de sofisticao de seus desenhos, eram obstculos para que as pessoas do povo pudessem aprender a ler e escrever. Pesquisadores citados por Tfouni relatam que apesar de os chineses conhecerem a escrita alfabtica desde o sculo II d.C, eles se recusaram a

  • aceit-la at a poca atual, provavelmente porque seu cdigo antigo, mais complexo e pouqussimo prtico, h sculos se estabelecera como o meio de expresso de uma vasta produo literria, alm de estar inextricavelmente ligado s instituies religiosas e de ser aceito como marca distintiva das classes educadas (grifos de Tfouni).

    A mesma autora (p. 12) atribui introduo da escrita alfabtica na Grcia, no sculo V-VI a.C, todo um processo de radicais transformaes culturais, polticas e sociais:

    O aparecimento, entre outras coisas, do pensamento lgico-emprico e filosfico, a

    formalizao da Histria e da Lgica enquanto disciplinas intelectuais, e a prpria

    democracia grega tm ntima relao com a expanso e solidificao da escrita

    fontica na Grcia e na Jnia. [pg. 134]

    Por qu? Porque, ao contrrio de outras civilizaes suas contemporneas, a grega no tem uma casta sacerdotal monopolizadora dos livros sagrados. A prpria escrita no um segredo dos governantes e escribas, mas de domnio pblico e comum, possibilitando, agora sim, a ampla difuso e discusso de idias.

    Assim, se por um lado a escrita pode ser apontada como uma das causas fundamentais do surgimento de civilizaes modernas e do desenvolvimento cientfico, tecnolgico e psicossocial das sociedades em que foi adotada, por outro, no convm negligenciar fatores como as relaes de poder e dominao que governam a utilizao restrita ou generalizada de um cdigo escrito.

    Ao convidar o leitor a fazer parte do grupo de cidados que sabem grafar corretamente as palavras da lngua portuguesa, Cipro e Infante afirmam, implicitamente, que

  • esse conhecimento no amplo e generalizado (nem poderia ser: 60 milhes de analfabetos!), mas sim restrito a um grupo de cidados.

    Outra idia ingnua dos autores achar inadmissvel o nmero de erros de ortografia cometidos pelo Brasil afora j que nosso alfabeto tem apenas 23 letras! Ora, o alfabeto tem 23 letras, sim, mas elas podem se juntar em centenas (seno milhares) de combinaes diferentes, criando a riqueza inumervel das palavras da lngua portuguesa. E essas combinaes possveis nada tm de coerentes: nosso sistema ortogrfico, como explica Miriam Lemle, , ao mesmo tempo, um sistema de representao fonmica, um sistema de representao [pg. 135] morfofonmica, um sistema com memria etimolgica e um sistema que privilegia uma variedade dialetal em detrimento de outra14.

    Para termos uma idia das complexas combinaes possveis entre as letras de nosso alfabeto e os sons que elas podem representar, vamos ver as relaes que existem entre os fonemas [k], [s], [] (este o som da letra x em xixi) e [z] e suas possveis representaes ortogrficas15

    14 Ver o interessante prefcio de Miriam Lemle ao livro Leitura, ortografia e fonologia, de Myrian Barbosa da Silva.15 Este quadro inspira-se no da p. 32 do livro de Myrian Barbosa da Silva, com pequenas alteraes.

  • [pg. 136]

    Contando o nmero de flechas, identificamos ao todo 21 relaes entre realizao fontica e representao grfica. Mas se fssemos levar em conta toda as diversidades de pronncia que existem no universo da lngua portuguesa, no Brasil e fora dele, certamente encontraramos muitas mais16. Vamos dar exemplos s das 21 relaes do nosso esquema:

    1. QU [ku]: obliqe

    16 Gosto de propor o seguinte desafio s pessoas que ainda se iludem com o mito de que o certo escrever assim porque se fala assim: voc sabia que a letra s pode representar o som do J em j? Depois de alguns momentos de reflexo, dou a resposta: na pronncia do Rio de Janeiro, de Belm ou de Lisboa, numa palavra como MESMO O S tem som de J, e o prprio nome de Lisboa na fala de seus nativos se pronuncia lijboa. Nessas pronncias, uma frase como AS MESMAS BOAS GAROTAS soa aj mejmaj boaj garotax, por causa de caractersticas fonticas tpicas do portugus (culto inclusive) falado nesses locais. Alm disso, na fala no-culta do Rio de Janeiro comum a pronncia mermo ou me'mo para o que se escreve MESMO. A complexidade da relao letra-som, como se v, muito maior do que as pessoas em geral pensam, sobretudo quando se leva em conta todas as variedades nacionais, regionais, sociais, estilsticas etc. da lngua.

  • 2. QU [kw]: quase

    3. QU [k]: quero

    4. C [k]: casa

    5. C [s]: cu

    6. S [s]: sol

    7. S []: festa (na pronncia carioca, paraense, lisboeta, entre outras)

    8. S [z]: rosa

    9. Z [z]: azul

    10. Z []: raiz (nas mesmas pronncias citadas em 7)

    11. X [s]: prximo

    12. X [ks]: fixo [pg. 137]

    13. X [z]: exame

    14. X []: xcara

    15. [s]: ao

    16. SS [s]: osso

    17. XC [s]: exceto

    18. XS [s]: exsudar

    19. SC [s]: descer

    20. S [s]: cresa

    21. CH []: chave

    Parece complicado? E ! Diante de uma situao dessas, que apenas uma das muitas sries de inter-relaes entre letra e som que existem na lngua portuguesa, no nos parece nem um pouco inadmissvel a existncia de dvidas e hesitaes por parte dos brasileiros, inclusive dos bem alfabetizados, no momento de escrever.

    Vamos abandonar, portanto, a idia (preconceituosa) de que quem escreve tudo errado um ignorante da lngua. O aprendizado da ortografia se faz pelo contato ntimo e freqente com textos bem escritos, e no com regras mal elaboradas ou com exerccios pouco esclarecedores.

  • Ao recebermos um texto escrito por algum (ou ao ouvir algum falar), vamos procurar ver, antes de tudo, o que ele/ela est querendo comunicar, para s depois nos preocuparmos com os detalhes de como ele/ela est se comunicando. Vamos fazer a ns mesmos as seguintes perguntas:

    Esse texto (ou esse discurso) coerente?

    Traz idias originais? [pg. 138]

    Ofende algum princpio tico?

    preconceituoso?

    Reproduz idias autoritrias ou intolerantes?

    Mostra um esprito crtico e/ou criativo?

    Demonstra um senso esttico?

    Comunica que sentimentos?

    Ensina-me alguma coisa?

    Desperta minhas emoes? Quais?

    ...

    E assim por diante. Isso que educar: dar voz ao outro, reconhecer seu direito palavra, encoraj-lo a manifestar-se... Sem isso, no de admirar que a atividade de redao seja to problemtica na escola.

    Eu confesso que sinto muito maior prazer ao ler (ou ouvir) um texto cheio de erros de portugus mas com idias originais, inovadoras, coerentes, bem expressas , um texto isento de preconceitos e de idias ranosas, do que ao ler um texto com todas as vrgulas no lugar, com todas as regncias cultas respeitadas, todas as concordncias verbais e nominais, mas repleto de intolerncia, de deboche, de sarcasmo, de concepes degradantes e por a afora.

    7. Subvertendo o preconceito lingstico

  • Por mais que isso nos entristea ou irrite, preciso reconhecer que o preconceito lingstico est a, firme e forte. No podemos ter a iluso de querer acabar com ele de uma hora para outra, porque isso s ser possvel [pg. 139] quando houver uma transformao radical do tipo de sociedade em que estamos inseridos, que uma sociedade que, para existir, precisa da discriminao de tudo o que diferente, da excluso da maioria em benefcio de uma pequena minoria, da existncia de mecanismos de controle, dominao e marginalizao. Apesar disso, acredito tambm que podemos praticar alguns pequenos atos subversivos, uma pequena guerrilha contra o preconceito, sobretudo porque ns, professores, somos muito importantes como formadores de opinio. E quais so estes pequenos atos de sabotagem contra o preconceito?

    Primeiro, formando-nos e informando-nos. No me canso de insistir: preciso que cada professor de lngua assuma uma posio de cientista e investigador, de produtor de seu prprio conhecimento lingstico terico e prtico, e abandone a velha atitude repetidora e reprodutora de uma doutrina gramatical contraditria e incoerente.

    Segundo, fazendo a crtica ativa da nossa prtica diria em sala de aula. Por questo de sobrevivncia (s vezes at sobrevivncia fsica mesmo!), talvez tenhamos de continuar ensinando aquelas coisas que nos so cobradas pela sociedade, pela direo das escolas, pelos pais dos nossos alunos. Mas podemos ensinar essas coisas criticando-as ao mesmo tempo e deixando bem claro que aquilo ali no tudo o que se pode saber a respeito da lngua, que h um milho

  • de outras coisas muito mais [pg. 140] interessantes e gostosas para descobrir no universo da linguagem.

    Terceiro, diante das cobranas de pais, diretores ou donos de escola, mostrar que as cincias todas evoluem, e que a cincia da linguagem tambm evolui. Que as mentalidades mudam, que as posturas do prprio Ministrio da Educao hoje so outras. No se pode negar que os Parmetros Curriculares Nacionais representam um grande avano para a renovao do ensino da lngua portuguesa. Vamos tentar adquirir, copiar, ter sempre mo esses Parmetros para nos defender das pessoas que nos cobram um ensino moda antiga: Olha aqui, , o Ministrio da Educao t dizendo que a gente deve ensinar de uma maneira diferente, nova, atualizada. Ou voc quer que seu filho continue aprendendo coisas que no servem mais para nada?.

    H algumas boas comparaes que nos ajudam a ar-gumentar melhor. Quando eu estava na escola, o certo em astronomia era que somente o planeta Saturno tinha anis. Hoje, graas s inovaes tecnolgicas, j sabemos que Urano e Netuno tambm tm anis. A cada ano so descobertas dezenas de espcies novas de animais e plantas (no mesmo ritmo, infelizmente, das que so extintas para sempre). Recentemente, encontrou-se o fssil de um dinossauro carnvoro maior e mais forte que o tiranossauro, considerado durante muito tempo o maior predador que jamais existiu. Os achados dos arquelogos a todo momento nos fazem rever e reformular nossas idias sobre [pg. 141] a histria dos povos antigos. Os mapas com as divises polticas da Europa de dez anos atrs j no tm nenhuma utilidade prtica hoje em dia, a no ser para o pesquisador investigar o

  • que mudou de l para c. Se tantas mudanas acontecem nas outras reas do conhecimento, decorrentes das transformaes do universo, da natureza e da sociedade, sendo acolhidas como naturais e inevitveis, por que s o estudo-ensino da lngua estaria isento de crtica e reformulao?

    Quarto, assumir uma nova postura, usando como matria de reflexo as seguintes noes, que chamei de DEZ CISES, porque representam de fato uma ciso, um corte do cordo umbilical que sempre nos prendeu s velhas doutrinas gramaticais (o smbolo de infinito no final da lista um convite a quem quiser acrescentar outras cises):

    DEZ CISESpara um ensino de lngua

    no (ou menos) preconceituoso

    1) Conscientizar-se de que todo falante nativo de uma lngua um usurio competente dessa lngua, por isso ele SABE essa lngua. Entre os 3 e 4 anos de idade, uma criana j domina integralmente a gramtica de sua lngua. Sendo assim,

    2) aceitar a idia de que no existe erro de portugus. Existem diferenas de uso ou alternativas de uso em relao regra nica proposta pela gramtica normativa. [pg. 142]

    3) No confundir erro de portugus (que, afinal, no existe) com simples erro de ortografia. A ortografia arti-ficial, ao contrrio da lngua, que natural. A ortografia uma deciso poltica, imposta por decreto, por isso ela

  • pode mudar, e muda, de uma poca para outra. Em 1899 as pessoas estudavam psychologia e histria do Egypto; em 1999 elas estudam psicologia e histria do Egito. Lnguas que no tm escrita nem por isso deixam de ter sua gramtica.

    4) Reconhecer que tudo o que a Gramtica Tradicional chama de erro na verdade um fenmeno que tem uma explicao cientfica perfeitamente demonstrvel. Se milhes de pessoas (cultas inclusive) esto optando por um uso que difere da regra prescrita nas gramticas normativas porque h alguma regra nova sobrepondo-se antiga. Assim, o problema est com a regra tradicional, e no com as pessoas, que so falantes nativos e perfeitamente competentes de sua lngua. Nada por acaso.

    5) Conscientizar-se de que toda lngua muda e varia. O que hoje visto como certo j foi erro no passado. O que hoje considerado erro pode vir a ser perfeitamente aceito como certo no futuro da lngua. Um exemplo: no portugus medieval existia um verbo leixar (que aparece at na Carta de Pero Vaz de Caminha ao rei D. Manuel I). Com o tempo, esse verbo foi sendo pronunciado deixar, porque [d] e [l] so consoantes aparentadas, o que permitiu a troca de uma pela outra. Hoje quem pronunciar leixar vai estar cometendo um erro (vai ser acusado de desleixo), muito embora essa forma seja mais prxima da origem [pg. 143] latina, laxare (compare-se, por exemplo, o francs laisser e o italiano lasciare). Por isso bom evitar classificar algum

  • fenmeno gramatical de erro: ele pode ser, na verdade, um indcio do que ser a lngua no futuro.

    6) Dar-se conta de que a lngua portuguesa no vai nem bem, nem mal. Ela simplesmente VAI, isto , segue seu rumo, prossegue em sua evoluo, em sua transformao, que no pode ser detida (a no ser com a eliminao fsica de todos os seus falantes).

    7) Respeitar a variedade lingstica de toda e qualquer pessoa, pois isso equivale a respeitar a integridade fsica e espiritual dessa pessoa como ser humano, porque

    8) a lngua permeia tudo, ela nos constitui enquanto seres humanos Ns somos a lngua que falamos. A lngua que falamos molda nosso modo de ver o mundo e nosso modo de ver o mundo molda a lngua que falamos. Para os falantes de portugus, por exemplo, a diferena entre ser e estar fundamental: eu estou infeliz radicalmente diferente, para ns, de eu sou infeliz. Ora, lnguas como o ingls, o francs e o alemo tm um nico verbo para exprimir as duas coisas. Outras, como o russo, no tm verbo nenhum, dizendo algo assim como: Eu - infeliz (o russo, na escrita, usa mesmo um travesso onde ns inserimos um verbo de ligao). Assim,

    9) uma vez que a lngua est em tudo e tudo est na lngua, o professor de portugus professor de TUDO. (Algum j me disse que talvez por isso o professor de portugus devesse receber um salrio igual soma dos salrios de todos os outros professores!) [pg. 144]

  • 10) Ensinar bem ensinar para o bem. Ensinar para o bem significa respeitar o conhecimento intuitivo do aluno, valorizar o que ele j sabe do mundo, da vida, reconhecer na lngua que ele fala a sua prpria identidade como ser humano. Ensinar para o bem acrescentar e no suprimir, elevar e no rebaixar a auto-estima do indivduo. Somente assim, no incio de cada ano letivo este indivduo poder comemorar a volta s aulas, em vez de lamentar a volta s jaulas!

    [pg. 145]

  • IVO preconceito contra a lingstica

    e os lingistas

    1. Uma religio mais velha que o cristianismoO ensino de lngua na escola a nica disciplina em que

    existe uma disputa entre duas perspectivas distintas, dois modos diferentes de encarar o fenmeno da linguagem: a doutrina gramatical tradicional, surgida no mundo helenstico no sculo III a.C, e a lingstica moderna, que se firmou como cincia autnoma no final do sculo XIX e incio do XX. Qualquer pessoa bem informada acharia no mnimo estranho se um professor de biologia ensinasse a seus alunos que as moscas nascem da carne podre, ou se um professor de cincias dissesse que a Terra plana e o Sol gira em torno dela, ou ainda se um professor de qumica afirmasse que a mistura dos quatro elementos (ar, gua, terra e fogo) pode resultar em ouro! So idias mais do que ultrapassadas e que comearam a ser substitudas por novas concepes mais verossmeis a partir do perodo da histria do conhecimento ocidental conhecido como o nascimento da cincia moderna (sculo XVI em diante). Ningum se espanta, porm, quando um professor de lngua ensina que os substantivos [pg. 147] so palavras que representam os seres em geral, ou que sujeito o ser do qual se diz alguma coisa, ou que verbo a palavra que exprime ao ou movimento. So afirmaes to imprecisas e incoerentes (para no dizer francamente

  • falsas) quanto a de que as avestruzes enterram a cabea na areia ou que apontar para as estrelas faz nascer verruga nos dedos! E no entanto elas continuam sendo estampadas nos manuais de gramtica, nos livros didticos, nas apostilas, e cobradas em testes, exames e provas de vestibular!

    A doutrina gramatical tradicional, mais velha que a religio crist, passou inclume pela grande revoluo cientfica que abalou os fundamentos do conhecimento e do pensamento ocidental a partir do sculo XVI. Basta examinar o que acontece na escola. muito comum o ensino das outras disciplinas fazer uma abordagem crtica dos saberes do passado, mostrando de que maneira a evoluo da sociedade, da cincia e da tecnologia levou o ser humano a abandonar velhas crenas e supersties. Em livros didticos de biologia, fsica, qumica, histria, geografia etc., freqente encontrar afirmaes do tipo: Durante muito tempo se acreditou que [...], mas os avanos da pesquisa e do conhecimento revelaram que [...]. Quem no se lembra de algum professor contando a histria de Coprnico, Galileu, Newton, Darwin, Pasteur e outros que revolucionaram o conhecimento humano? Isso s no acontece nas aulas de lngua! Os termos e conceitos da Gramtica Tradicional estabelecidos h mais de 2.300 anos! continuam a ser repassados praticamente [pg. 148] intactos de uma gerao de alunos para outra, como se desde aquela poca remota no tivesse acontecido nada na cincia da linguagem. O ensino tradicional opera as-sim uma imobilizao do tempo, um apagamento das condies sociais e histricas que permitiram o surgimento e a permanncia da Gramtica Tradicional.

  • A Gramtica Tradicional permanece viva e forte porque, ao longo da histria, ela deixou de ser apenas uma tentativa de explicao filosfica para os fenmenos da linguagem humana e foi transformada em mais um dos muitos elementos de dominao de uma parcela da sociedade sobre as demais. Assim como, no curso do tempo, tem se falado da Famlia, da Ptria, da Lei, da F etc. como entidades sacrossantas, como valores perenes e imutveis, tambm a Lngua foi elevada a essa categoria abstrata, devendo, portanto, ser preservada em sua pureza, defendida dos ataques dos barbarismos, conservada como um patrimnio que no pode sofrer runa e corrupo. Nessa concepo nada cientfica, lngua no toda e qualquer manifestao oral e/ou escrita de qualquer ser humano, de qualquer falante nativo do idioma: a Lngua, com artigo definido e inicial maiscula, somente aquele ideal de pureza e virtude, falado e escrito, claro, pelos puros e virtuosos que esto no topo da pirmide social e que, por isso, merecem exercer seu domnio sobre as demais camadas da populao. A lngua deixou de ser fato concreto para se transformar em valor abstrato.

    Querer cobrar, hoje em dia, a observncia dos mesmos padres lingsticos do passado querer preservar, [pg. 149] ao mesmo tempo, idias, mentalidades e estruturas sociais do passado. A Gramtica Tradicional, funcionando como uma ideologia lingstica, foi e ainda , como toda ideologia, o lugar das certezas, uma doutrina slida e compacta, com uma nica resposta correta para todas as dvidas. Por isso, o que no est abonado na gramtica normativa erro ou simplesmente no portugus, e se alguma palavra no se

  • encontra no dicionrio porque simplesmente ela no existe! A lingstica moderna, ao encarar a lngua como um objeto passvel de ser analisado e interpretado segundo mtodos e critrios cientficos, devolveu a lngua ao seu lugar de fato social, abalando as noes antigas que apresentavam a lngua como um valor ideolgico. Assim, a lingstica, como toda cincia, o lugar das surpresas, das descobertas, do novo, da substituio de paradigmas, da reformulao crtica das teorias.

    Ora, o novo assusta, o novo subverte as certezas, compromete as estruturas de poder e dominao h muito vigentes. No por acaso que, mesmo entre profissionais que deveriam ter a lingstica como seu corpo terico e prtico de referncia, a doutrina gramatical tradicional ainda encontre um apoio e uma defesa quase irracionais. o que se v, hoje em dia, na imprensa e na mdia brasileira, com os comandos paragramaticais analisados neste livro, essa enxurrada de programas de televiso e de rdio, colunas de jornal e revista que tentam preservar as noes mais conservadoras do certo e do errado, desprezando o saber acumulado por mais de um sculo [pg. 150] de cincia lingstica moderna, que tem no Brasil centros de pesquisa de excelncia reconhecida internacionalmente. Isso para no falar tambm dos grupos de pessoas que dizem promover ridculos movimentos de defesa da lngua portuguesa, como se fosse necessrio defender a lngua de seus prprios falantes nativos, a quem ela pertence de fato e de direito. A matria de capa da revista Veja de 7/11/2001 (Falar e escrever bem) e a estria de Pasquale Cipro Neto no programa Fantstico da Rede Globo no mesmo ano so exemplos perfeitos do obscu-

  • rantismo anticientfico que envolve, nos meios de comunicao, tudo o que diz respeito lngua e ao ensino da lngua. A participao de Pasquale no Fantstico faz regredir em pelo menos 25 anos os grandes avanos j obtidos pela Lingstica na renovao do ensino de lngua na escola brasileira.

    O grande problema est na confuso que reina na mentalidade das pessoas que atribuem uma crise lngua, quando, de fato, a crise existe na escola, no sistema educacional brasileiro, classificado entre os piores do mundo, apesar de nosso pas ser o mais rico e industrializado do Hemisfrio Sul, alm de ser a dcima economia capitalista do planeta. A lngua no est em crise, muito pelo contrrio: nunca em toda a sua histria o portugus foi to falado, to escrito, to impresso e to difundido mundo afora pelos mais diferentes meios de comunicao. E a participao do Brasil, com seus 170 milhes de falantes nativos, de longe a mais relevante [pg. 151] e a mais importante. Crise existe, sim, na escola pblica brasileira, de todos os nveis, desde o pr-primrio at a universidade, sobretudo depois que o duplo governo presidido por Fernando Henrique Cardoso passou a empregar todos os esforos possveis para demolir, sistematicamente, o j cambaleante e sucateado sistema de ensino pblico do Brasil (como tem feito, alis, com todo o patrimnio pblico dos brasileiros). essa escola arruinada, com professores despreparados e pessimamente remunerados, que no oferece aos alunos as mnimas condies de letramento necessrias para o pleno exerccio da cidadania. Tentar atribuir as deficincias dos brasileiros no uso mais formal da lngua aos prprios brasileiros que no

  • tm amor ao idioma ou, pior ainda, ao prprio idioma, no querer ver a realidade, lanar a culpa sobre quem, de fato, a vtima maior deste processo perverso.

    Desse modo, achar que a lngua est em crise e que para superar essa crise necessrio sustentar a doutrina gramatical sem submet-la a uma crtica serena e bem-fundada , a meu ver, uma atitude que s pode ter duas explicaes: a ignorncia cientfica (a pessoa nunca ouviu falar de lingstica) ou a desonestidade intelectual (tendo entrado em contato com a cincia lingstica, finge que no a conhece) pior ainda quando essa atitude se sustenta num indisfarado e indisfarvel preconceito social. No podemos aceitar nenhuma dessas explicaes para justificar o trabalho daqueles que se proclamam especialistas em questes de linguagem. Que um leigo continue a repetir os mitos preconceituosos e as idias [pg. 152] infundadas que circulam na sociedade sobre lngua e linguagem algo que podemos compreender e explicar com base numa anlise sociolgica e histrica. Mas que assim proceda um autoproclamado especialista que, ainda por cima, se atribui o papel de julgar e condenar o comportamento lingstico de seus semelhantes... algo que no podemos aceitar e que devemos, sim, denunciar e combater.

    Pelas mesmas razes que levaram transformao da Gramtica Tradicional num instrumento de dominao e excluso social que a atividade dos lingistas brasileiros vem sofrendo ataques grosseiros por parte de auto-intitulados filsofos que representam, na verdade, a reao mais conservadora (e muitas vezes com acentos claramente fascistas) contra qualquer tentativa de democratizao do

  • saber e da sociedade. a mesma ira que leva os fundamentalistas (pseudo)cristos a querer impedir o ensino da teoria evolucionista de Darwin em escolas norte-americanas. Assim como esses fundamentalistas, para de-fender seu ponto de vista obscurantista, acusam Darwin de afirmar que o homem descende do macaco (coisa que ele jamais escreveu em nenhuma de suas obras: sua teoria a de que os humanos e os demais primatas descendem de um ancestral comum), tambm os atuais detratores da cincia lingstica acusam os estudiosos da linguagem de defenderem o no-ensino das formas padronizadas do portugus, numa tentativa de transformar toda uma argu-mentao detalhada e sofisticada em duas ou trs afirmaes toscas e propositadamente deturpadas. [pg. 153]

    2. Portugus ortodoxo? Que lngua essa? fcil mostrar de que modo essa oposio cincia

    lingstica est viva e ativa no Brasil nos dias de hoje. Para comear, vamos invocar novamente o espectro daquele que se tornou uma espcie de arqutipo folclrico do gramtico autoritrio, conservador e intolerante: Napoleo Mendes de Almeida. Tudo o que ele escreveu constitui um material suculento e abundante para diversos tipos de investigao sobre idias no-cientficas: como j vimos na segunda parte deste livro, dos textos de Napoleo gotejam preconceitos sociais, raciais, lingsticos entre outros; ao mesmo tempo, pululam neles as afirmaes mais estapafrdias possveis sobre lngua, gramtica e ensino. Vamos repetir aqui o que ele escreveu no Dicionrio de Questes Vernculas, no verbete lingstica:

  • Para fixar inteis, pretensiosas e ridculas bizantinices, perde o estudante o tempo

    que deveria dedicar ao conhecimento efetivo da lngua. [...] Que adorno cultural

    representa um diploma de lingstica a quem escreve, ou deixa meia dzia de

    vezes passar num mesmo artigo de jornal, os mais tolos erros de gramtica?

    [...] Enganam-se os pais, enganam-se os filhos quando pensam estar a escola, a

    faculdade ensinando gramtica, ensinando a lngua da terra porque no programa

    consta 'lingstica'. O objeto da lingstica a lngua no sentido da fala, de dom de

    expressar o homem por palavras o pensamento; um estudo sem utilidade

    especfica para este ou aquele idioma. [...] a lingstica um dos estorvos do

    aprendizado da lngua portuguesa em escolas brasileiras. [pg. 154]

    Como j comentei esse texto mais atrs (pp. 80-81), vou apenas chamar a ateno para o seguinte fato: Napoleo Mendes de Almeida morreu em 1998 (aos 87 anos). Se tivesse escrito esse verbete at 1930, seria mais fcil entender sua postura anticientfica, analisando-a dentro do contexto das idias e das concepes de lngua e linguagem que vigoravam naquela poca, em que a cincia lingstica ainda no tinha se instalado definitivamente nos grandes centros de ensino e de pesquisa. Mas, em 1998, muita gua j tinha passado debaixo da ponte cientfica, os estudos da linguagem j tinham enfrentado diversas revolues epistemolgicas, amplamente divulgadas nos meios acadmicos e at nas escolas fundamental e mdia. No h nada que possa justificar esse conceito to mesquinho e tacanho, essa idia tola de que a lingstica s estuda os sons da fala...

    Volto a falar de Napoleo Mendes de Almeida porque sua morte mereceu um artigo assinado por Pasquale Cipro Neto na Folha de S. Paulo, jornal onde Pasquale consultor de portugus. Nesse artigo, depois de falar do estilo rebuscado

  • e barroco de Napoleo, Pasquale escreveu o seguinte (27/4/1998):

    Talvez por isso, os lingistas autoproclamados de vanguarda o tm como

    conservador e consideram intil o estudo de sua obra. Meticuloso, Napoleo era

    essencialmente gramtico e como tal deve ser encarado. Muita gente o admira e

    respeita, sobretudo por seu curso de portugus e latim por correspondncia. [pg.

    155]

    E conclui o artigo com estas palavras:

    Uma coisa, porm, incontestvel: quem quiser estudar o portugus ortodoxo

    para prestar concurso pblico, advogar, exercer a magistratura ou carreira

    diplomtica certamente precisar consultar a obra de Napoleo.

    muito interessante aqui o uso da expresso portugus ortodoxo. Como se sabe, a noo de ortodoxia foi inventada pouco depois da instituio do cristianismo como religio oficial do imprio romano para definir os dogmas oficiais da Igreja, as nicas maneiras certas e admissveis de acreditar em Deus, em Cristo, na Virgem Maria, na Santssima Trindade etc. Quem se desviasse desses dogmas era acusado de heresia e condenado s mais diversas punies, como o exlio, a priso, a tortura e a morte na fogueira. O conceito de ortodoxia se relaciona com uma srie de outras noes do mesmo campo semntico: dogma, intolerncia, inflexibilida-de, pecado, penitncia, castigo, excomunho e outras aparentadas. Ao erro do hertico corresponde a infa-libilidade do ortodoxo. Se possvel falar em portugus ortodoxo porque certamente tambm deve existir, na mentalidade de seus defensores e em oposio a ele, um portugus hertico, um portugus pecador, que merece

  • castigo e excomunho... E ns sabemos que precisamente essa mentalidade de perseguio, acusao e condenao que est por trs, at hoje, da ao dos defensores intransigentes dessa nebulosa ortodoxia gramatical. [pg. 156]

    3. Devaneios de idiotas e ociososMas o que ser, afinal, o portugus ortodoxo de

    Pasquale Cipro Neto? No muito difcil descobrir, basta ler com ateno as coisas que ele escreve. Analisando, por exemplo, a fala do poltico Francisco Rossi, candidato ao governo de So Paulo em 1998, Pasquale escreveu, na mesma Folha de S. Paulo (21/8/1998):

    Referindo-se a Gilson Menezes, Rossi disse que o prefeito de Diadema foi um

    dos que levantou bandeira. Alguns lingistas perdem seu precioso tempo em

    devaneios com que tentam explicar por que o falante brasileiro prefere o singular

    nesses casos. Dizem que essa opo ocorre porque o que se quer colocar em

    evidncia o elemento de que se fala. Balela. Por que no se aceita que se diga Ela

    uma das moas bonita da sala, ou Ele um dos deputados inscrito para falar?

    Porque no se quer dizer que ela a nica moa bonita, nem que o deputado o

    nico inscrito. Das moas bonitas, ela uma. Dos deputados inscritos para falar,

    ele um. Dos que levantaram bandeira, Gilson um. Ento Gilson foi um dos que

    levantaram bandeira.

    Temos aqui uma das muitas ocasies em que Pasquale, sistematicamente, s menciona os lingistas para lanar sobre eles as mais diversas acusaes. Nesse texto, temos a associao de lingistas com devaneios e balela. Mas sempre assim. Quem consultar, por exemplo, o cd-rom que rene todas as edies do jornal Folha de S. Paulo entre os anos de 1994 e 2000, vai ver que nas colunas assinadas por

  • Pasquale, a palavra lingista vem sempre [pg. 157] acompanhada de alguma nota depreciativa. Tambm na revista Cult, onde escreve regularmente, Pasquale j chamou os lingistas de deslumbrados.

    Sobre o fato gramatical que ele analisa, detectando erro comum na fala de Francisco Rossi, muito instrutivo ler o que o fillogo e gramtico Evanildo Bechara afirmou numa entrevista ao jornal UERJ em questo (n 72, fevereiro/abril de 2001). Para justificar a suposta necessidade de elaborao de uma gramtica normativa com a chancela da Academia Brasileira de Letras, Bechara declarou:

    Vejamos um exemplo: a expresso um dos que. A lngua permite que voc diga:

    Carlos um dos alunos que trabalha; ou um dos alunos que trabalham. H

    professores que consideram mais lgica a concordncia do verbo no plural. Outros

    acham que a concordncia deve ser no singular. Mas a lngua admite as duas

    possibilidades. O que no se pode fazer optar por uma forma e considerar a outra

    errada, como muitas vezes fazem as bancas examinadoras.

    Evanildo Bechara , sem a menor possibilidade de dvida, o mais importante gramtico brasileiro vivo. Apesar de sua inegvel competncia como estudioso da lngua, suas posturas polticas e pedaggicas no tm nada de revolucionrias, e o simples fato de pertencer Academia Brasileira de Letras exemplo de sua filiao a um iderio conservador e elitista ele j declarou, por exemplo, que a funo da escola levar os alunos a falar melhor e com os melhores porque na sua opinio existe uma necessidade da vigncia da hierarquizao e da [pg. 158] normatividade, esquecendo-se de que a hierarquizao s pode parecer necessria para os que ocupam, evidentemente, o topo da

  • hierarquia e se consideram, naturalmente, os melhores...17

    Ora, Pasquale Cipro Neto consegue ser mais conservador e elitista ainda do que Bechara. Para o gramtico profissional, a lngua admite as duas possibilidades. Para o colunista da Folha, a admisso dessas possibilidades representa devaneios e balela. Agora fica mais fcil entender o que Pasquale chama de portugus ortodoxo: um conceito de lngua certa que mais certa ainda do que a lngua dos gramticos profissionais, da prpria Academia Brasileira de Letras.

    Em outra coluna (28/5/1998) ele fala de lingistas defensores do vale-tudo, numa absoluta distoro do verdadeiro papel do lingista como investigador de todos os fenmenos da lngua, e no s como caador de erros e juiz do uso.

    Vejamos um ltimo exemplo dessa concepo obscu-rantista que Pasquale Cipro Neto divulga da lingstica e dos lingistas, e que em nada difere da opinio de Napoleo Mendes de Almeida. A nica diferena entre os dois que Napoleo nunca escondeu suas posies retrgradas, tendo-as assumido com toda franqueza e nitidez ao longo de sua vida, ao passo que Cipro Neto tenta dar verniz moderno sua atividade, posando de progressista. O abismo entre seu discurso e sua prtica, no [pg. 159] entanto, amplo, largo e fundo. Numa coluna publicada em 20/11/1997, comentando a fala de representantes do governo numa entrevista na televiso, Pasquale escreveu:

    17 Evanildo Bechara, A sobrevivncia da lngua culta, in Academia Brasileira de Letras na Imprensa 1999, Rio de Janeiro, ABL, 1999, pp. 63-70.

  • Quem assistiu entrevista coletiva concedida pela equipe econmica no ltimo

    dia 10 deve ter tido congesto de de que. Um dos membros da equipe, cujo

    nome melhor no citar, abusou do direito de usar a bendita expresso: O gover-

    no considera de que; No nos parece de que esse caso; Penso de que no ser

    etc.

    Santo Deus! De onde o homem, graduadssimo, professor, tirou tanto de? Os

    verbos considerar, pensar e parecer pedem a preposio de? bvio que no.

    Algum pensa algo, algum considera algo, algo parece a algum. Onde est o de?

    Perguntem ao homem.

    Nada de de que: No nos parece que, Penso que, O governo considera

    que.

    E agora, ao ataque:

    Alguns lingistas (alguns), idiotas, diro que a lngua falada no merece reparo,

    que a fala sempre boa etc. Esses ociosos no conseguem perceber que os homens

    no estavam na mesa de um boteco, batendo papo. Estavam falando para o pas,

    sobre um assunto tcnico, usando linguagem teoricamente culta. Quem assiste a

    esse tipo de transmisso normalmente acredita nessas pessoas, tem-nas como

    modelo. Adolescentes que vo fazer vestibular ouvem o cidado dizendo de que,

    de que, de que e acham que isso o mximo. A Fuvest faz uma questo a

    respeito, como j fez h dois ou trs anos. E muitos, ingenuamente, erram. E

    alguns idiotas, ociosos, dizem que a fala sempre boa, que isso e aquilo. [pg. 160]

    Esse tipo de afirmao to chocante, reveladora de um tamanho desconhecimento, de uma ignorncia to manifesta, que leva mesmo a pensar que Pasquale no acredita no que escreve. Que deve haver alguma razo secreta para ele publicar coisas que depem to abertamente contra sua prpria inteligncia! Afinal, o fenmeno do dequesmo j tem merecido, nos ltimos quinze anos pelo menos, a ateno de diversos pesquisadores, j foi tema de dissertaes e de teses, de artigos publicados em livros e

  • revistas cientficas... (alm disso, tambm ocorre no espanhol culto falado na Amrica Latina, no sendo, portanto, inveno de brasileiro burro...). Ser que custava tanto assim ele procurar ler, informar-se sobre o fenmeno? E quem so afinal esses lingistas idiotas e ociosos que dizem que a lngua falada no merece reparo, que a fala sempre boa etc.? Pasquale nunca d nome aos bois. Por isso, apesar de sempre escrever alguns lingistas, ele nunca diz quem, onde e quando. Assim, fica fcil deduzir que esse alguns um mero disfarce para seu preconceito contra todos os lingistas.

    4. A quem interessa calar os lingistas?Finalmente, vamos ver um caso interessante de pre-

    conceito contra os lingistas, no por discriminao explcita, como no caso de Pasquale Cipro Neto, mas por absoluta desconsiderao, por omisso.

    Em seu to debatido projeto de lei (de 1999) sobre a promoo, a proteo, a defesa e o uso da lngua portuguesa, [pg. 161] o deputado Aldo Rebelo (PCdoB/SP), embora tratando de assuntos que dizem respeito ao campo de investigao da lingstica terica e aplicada, em nenhum momento faz referncia aos cientistas da linguagem, s pessoas que se dedicam profissionalmente ao estudo da lngua. Dos pouqussimos autores citados na justificativa do projeto, nenhum lingista. Um Machado de Assis por sinal, numa citao que o deputado, parece, no soube ler corretamente, porque nela Machado desmente, em poucas linhas, cada uma das idias contidas no projeto. Dois outros so jornalistas que publicaram, na poca da redao do

  • projeto, artigos em que se queixavam do atual estado de crise da lngua.

    E a Academia Brasileira de Letras? Seu esprito elitista, conservador e feudal o deputado no critica: muito pelo contrrio, Aldo Rebelo escreve que Academia Brasileira de Letras continuar cabendo o seu tradicional papel de centro maior de cultivo da lngua portuguesa no Brasil e que Academia Brasileira de Letras incumbe, por tradio, o papel de guardi dos elementos constitutivos da lngua portuguesa usada no Brasil afirmaes que no significam rigorosamente coisa nenhuma, fazendo a gente at se perguntar se esse projeto de lei mesmo para ser levado a srio ou se no passa de uma pea de prosa surrealista... A Academia Brasileira de Letras nem de longe pode ser chamada de centro maior de cultivo da lngua portuguesa no Brasil: afinal, por que atribuir essa qualidade a um reduzido grupo de 40 indivduos (dos quais, para piorar, somente um nmero nfimo composto de [pg. 162] verdadeiros escritores), quando o portugus do Brasil falado (ou seja, de fato cultivado) por mais de 170 milhes de pessoas? Alm disso, os elementos constitutivos de uma lngua pertencem ao grupo social que fala essa lngua, pertencem a seus falantes nativos, e no precisam de guardies... alis, novamente, os nmeros voltam a gritar: podem 40 senhores e senhoras defender a lngua contra o suposto ataque de seus 170 milhes de falantes? Somente uma ideologia ultraconservadora, colonialista e elitista ao extremo que pode justificar a pretenso de defender o portugus contra os seres humanos que tm ele como sua prpria lngua materna!

  • O nico autor citado no projeto de Aldo Rebelo que tem alguma coisa a ver com o estudo e o ensino da lngua , novamente, Napoleo Mendes de Almeida. No entanto, muito divertido ver que, no texto, Napoleo apresentado como um dos nossos maiores lingistas. Ora, conhecendo a opinio de Napoleo sobre a lingstica, s podemos rir da piada (involuntria?) do deputado. Chamar Napoleo de lingista um desrespeito sua memria, uma vez que para ele a lingstica era um estorvo e uma coleo de bizantinices.

    Fechamos assim mais um crculo preconceituoso que comea em Napoleo, com seus ataques contra a lingstica, passa por Pasquale Cipro Neto, que elogia Napoleo e segue suas concepes obscurantistas sobre a cincia da linguagem, e termina com Aldo Rebelo, que novamente recorre a Napoleo para justificar seu projeto insustentvel de uma lei impraticvel. [pg. 163]

    muito curiosa a situao desse projeto de lei do deputado Aldo Rebelo. A retumbante maioria dos lingistas tem se manifestado nas mais diversas ocasies contra o projeto, denunciando seus equvocos lingsticos, polticos, histricos, sociolgicos etc. A indignao dos lingistas profissionais se concretizou at na forma de um livro coletivo Estrangeirismos: guerras em torno da lngua (So Paulo, Parbola Editorial, 2001), organizado por Carlos Alberto Faraco. Mas ningum d ouvido aos lingistas. O projeto continua sua marcha vitoriosa pelo Congresso Nacional, e tudo indica que vir a ser aprovado para se tornar mais uma lei que ningum vai cumprir, at porque seu cumprimento invivel.

  • o caso de perguntar: se um deputado sem formao em medicina inventasse um projeto de lei que tivesse relao com a prtica cirrgica e se todos os mdicos do pas se manifestassem contra o projeto, ser que ele conseguiria ser aprovado? Por que toda e qualquer pessoa se acha no direito de dar palpites infundados e preconceituosos sobre as questes que dizem respeito lngua? Por que os profissionais de outras reas conseguem se fazer ouvir, mas os lingistas permanecem no ouvidos? Ser que os lingistas, apesar de se dedicarem ao estudo da lngua, no falam? Ser que no se do conta de seu papel social e poltico, ou, mesmo conscientes desse papel, h outras foras que no nos deixam falar? A quem interessa manter calados os estudiosos da linguagem? Por que o discurso gramatical tradicional, j to amplamente criticado pelos cientistas da linguagem com base em teorias [pg. 164] e mtodos consistentes e coerentes, ainda tem tanto vigor e obtm tanta defesa? Que ameaa ao tipo de sociedade em que vivemos representa a democratizao do saber lingstico, a divulgao ampla das descobertas deste campo cientfico, a liberao da voz de tantos milhes de pessoas condenadas ao silncio por no saber portugus ou por falar tudo errado? A quem interessa defender o portugus ortodoxo de uns pouqussimos melhores contra a suposta heresia gramatical de muitos milhes de outros?

    Espero que a discusso feita neste livro ajude voc a encontrar suas prprias respostas para perguntas to inquietantes. [pg. 165]

  • ANEXOCarta de Marcos Bagno

    revista Veja

    Em seu nmero 1725 (novembro de 2001), a revista Veja publicou uma extensa reportagem, anunciada na capa, com o ttulo Falar e escrever bem, eis a questo. O texto, assinado por Joo Gabriel de Lima, deixou a comunidade dos educadores e lingistas estarrecida por causa da quantidade de absurdos, distores e acusaes grosseiras que continha. Em reao a isso, Marcos Bagno escreveu e enviou uma longa carta ao editor da revista, no para ser publicada, mas para marcar a posio dos pesquisadores comprometidos com o avano da cincia brasileira diante de atitudes to assumidamente obscurantistas e retrgradas.

    So Paulo, 4 de novembro de 2001. Sr. Editor,Em 1990, o lingista e educador britnico Michael Stubbs

    escrevia que toda a rea da lngua na educao est impregnada de supersties, mitos e esteretipos, muitos dos quais tm persistido por sculos e, s vezes, com distores deliberadas dos fatos lingsticos e pedaggicos por parte da mdia. triste constatar que essas palavras, publicadas h mais de uma dcada, se [pg. 167] aplicam com preciso impressionante ao que ainda ocorre hoje em dia no Brasil. Afinal, de que outro modo qualificar a reportagem de capa do nmero 1725 de VEJA seno como uma srie de distores deliberadas dos fatos lingsticos e pedaggicos por parte da mdia?

  • O texto assinado pelo Sr. Joo Gabriel de Lima demonstra o quanto nossos meios de comunicao de massa se encontram, perdoe-me o lugar-comum, na contramo da Histria quando o assunto lngua. H um absoluto despreparo de jornalistas e comunicadores para tratar do tema (um exemplo gritante disso veio a pblico em outra edio recente de VEJA, a de nmero 1710, com a reportagem Todo mundo fala assim).

    Se falo de contramo porque passados mais de cem anos de surgimento, crescimento e afirmao da Lingstica moderna como cincia autnoma , a mdia continua a dar as costas investigao cientfica da linguagem, preferindo consagrar-se divulgao e sustentao das supersties, mitos e esteretipos que circulam na sociedade ocidental h mais de dois mil anos. Isso ainda mais surpreendente quando se verifica que, na abordagem de outros campos cientficos, os meios de comunicao se mostram muito mais cuidadosos e atenciosos para com os especialistas da rea. Quando o assunto lngua, porm, o espao maior invariavelmente ocupado por alguns oportunistas que, apoderando-se inteligentemente dessas supersties, mitos e esteretipos, conseguem transformar esse folclore lingstico em bens de consumo que lhes rendem muito lucro financeiro, alm [pg. 168] de fama e destaque na mdia. Basta comparar o espao dedicado, no ltimo nmero de VEJA, ao Prof. Luiz Antnio Marcuschi (reconhecido hoje no Brasil como um dos nomes mais importantes da cincia lingstica entre ns) e aos atuais pregadores da tradio gramatical que infestam o cotidiano dos brasileiros com suas quinquilharias multimiditicas sobre o que certo e errado na lngua.

    Seria espantoso ver uma matria de VEJA em que apa-recessem zologos falando mal da Biologia, ou engenheiros criticando a Fsica, ou cirurgies maldizendo da Medicina. No

  • entanto, ningum se espanta (e muitos at aplaudem) quando o Sr. Joo Gabriel de Lima, fazendo eco aos detratores da Lingstica (como o Sr. Pasquale Cipro Neto), fala da existncia de certa corrente relativista e escreve absurdos como trata-se de um raciocnio torto, baseado num esquerdismo de meia-pataca, que idealiza tudo o que popular inclusive a ignorncia, como se ela fosse atributo, e no problema, do povo'. O que esses acadmicos preconizam que os ignorantes continuem a s-lo. Seria muito fcil retrucar que estamos aqui diante de um direitismo de meia-pataca que acredita na existncia de uma ignorncia popular, mas, como cientista, prefiro recorrer a outro tipo de argumento, baseado na reflexo terica serena e na experincia conjunta de muitas pessoas que h anos se dedicam ao estudo e ao ensino da lngua portuguesa no Brasil.

    Segundo a reportagem, as crticas que o Sr. Pasquale Cipro Neto recebe dessa corrente relativista deixam-no [pg. 169] irritado. Ora, o que parece realmente irritar o Sr. Pasquale o fato de que, apesar de obter tanto sucesso entre os leigos, nada do que ele diz ou escreve levado a srio nos centros de pesquisa cientfica sobre a linguagem, sediados nas mais importantes universidades do Brasil centros de pesquisa lingstica, diga-se de passagem, reconhecidos internacionalmente como entre alguns dos melhores do mundo. Muito pelo contrrio, se o nome do Sr. Pasquale mencionado nas nossas universidades, sempre como exemplo de uma atitude anticientfica dogmtica e at obscurantista no que diz respeito lngua e seu ensino (em vrios de seus artigos em jornais e revistas ele j chamou os lingistas de idiotas,ociosos, defensores do vale-tudo e deslumbrados).

  • Se o Sr. Pasquale se irrita com os cientistas da linguagem, porque sabe que no tem como responder s crticas que recebe por parte dos pesquisadores, dos tericos e dos educadores empenhados num conhecimento maior e melhor da realidade lingstica do nosso pas. Digo isso com base na experincia de j ter participado de trs debates junto com o Sr. Pasquale e ter conhecido sua estratgia de nunca responder com argumentos consistentes s crticas a ele dirigidas, preferindo sempre retrucar com arrogncia, prepotncia, grosserias e ataques pessoais (chamando os lingistas de ortodoxos seja isso l o que for e de bichos-grilos) ou fazendo-se de vtima de alguma perseguio (num desses encontros ele declarou sentir-se como um boi de piranha). [pg. 170]

    A razo para essa falta de argumentos consistentes muito simples: o Sr. Pasquale no tem formao cientfica para tratar dos assuntos de que trata. Suas opinies se baseiam exclusivamente na arcaica doutrina gramatical normativo-prescritiva, cuja inconsistncia terica e cujos problemas epistemolgicos graves vm sendo demonstrados e criticados pela Lingstica moderna desde pelo menos o final do sculo XIX. As concepes do Sr. Pasquale de certo e de errado esto em franca oposio, no s com as teorias cientficas mais atuais, mas at mesmo com a postura investigativa dos gramticos profissionais de slida formao filolgica (coisa que ele definitivamente no ), para no mencionar as diretrizes pedaggicas das instncias superiores da Educao nacional. O documento do Ministrio da Educao chamado Parmetros Curriculares Nacionais, por exemplo, bem explcito em seu volume dedicado ao ensino da lngua portuguesa:

  • A imagem de uma lngua nica, mais prxima da modalidade escrita da

    linguagem, subjacente s prescries normativas da gramtica escolar, dos

    manuais e mesmo dos programas de difuso da mdia sobre 'o que se deve e o que

    no se deve falar e escrever', no se sustenta na anlise emprica dos usos da

    lngua.

    E este mesmo documento enftico ao afirmar que:

    h muitos preconceitos decorrentes do valor social relativo que atribudo aos

    diferentes modos de falar: muito comum se considerarem as variedades

    lingsticas de menor prestgio [pg. 171] como inferiores ou erradas. O problema

    do preconceito disseminado na sociedade em relao s falas dialetais deve ser

    enfrentado, na escola, como parte do objetivo educacional mais amplo de

    educao para o respeito diferena. Para isso, e tambm para poder ensinar

    Lngua Portuguesa, a escola precisa livrar-se de alguns mitos: o de que existe uma

    nica forma 'certa' de falar a que se parece com a escrita e o de que a escrita

    o espelho da fala e, sendo assim, seria preciso 'consertar' a fala do aluno para

    evitar que ele escreva errado. Essas duas crenas produziram uma prtica de

    mutilao cultural que, alm de desvalorizar a forma de falar do aluno, tratando

    sua comunidade como se fosse formada por incapazes, denota desconhecimento

    de que a escrita de uma lngua no corresponde inteiramente a nenhum de seus

    dialetos, por mais prestgio que um deles tenha em um dado momento histrico.

    provvel, no entanto, que o Sr. Pasquale Cipro Neto e o Sr. Joo Gabriel de Lima acreditem que os Parmetros Curriculares Nacionais sejam obra de membros daquela corrente relativista que conseguiram se infiltrar no Mi-nistrio da Educao e se apoderar da redao do documento oficial. Vamos, ento, deixar de lado as propostas oficiais de ensino e lanar um olhar sobre a prpria prtica normativo-prescritiva de pessoas como o Sr. Pasquale assim ficar mais fcil descobrir por que ele no encontra argumentos para reagir s crticas bem-fundadas dos lingistas e educadores srios e por que s consegue fazer sucesso entre

  • os leigos e os que se recusam (certamente por motivaes ideolgicas) a aceitar uma concepo de lngua mais democrtica. [pg. 172]

    Consultando a gramtica que Pasquale Cipro Neto assina em parceria com Ulisses Infante (Gramtica da Lngua Portuguesa, Editora Scipione, So Paulo, 1998), encontra-se, s pp. 521-522, a seguinte explicao para o uso supostamente correto do verbo custar:

    Custar, no sentido de ser custoso, ser penoso, ser difcil tem como sujeito

    uma orao subordinada substantiva reduzida. Observe:

    Ainda me custa aceitar sua ausncia.

    Custou-nos encontrar sua casa.

    Custou-lhe entender a regncia do verbo custar.

    No Brasil, na linguagem cotidiana, so comuns construes como Zico custou a

    chutar ou Custei para entender o problema [...]

    Na lngua culta, essas construes em que custar apresenta um sujeito indicativo

    de pessoa so rejeitadas. Em seu lugar, devem-se utilizar construes em que surja

    objeto indireto de pessoa: Custou a Zico chutar (= Custou-lhe chutar).

    Quero chamar a ateno, aqui, para a seguinte afirmao dos autores: Na lngua culta, essas construes [...] so rejeitadas. Aqui est um exemplo claro e ntido de uma concepo abstrata da lngua, tratada como uma espcie de entidade viva, de sujeito animado, capaz de rejeitar alguma coisa. Ora, que lngua culta essa que supostamente rejeita essas construes? Ser a lngua dos nossos grandes escritores, que sempre serviu de material para o trabalho dos gramticos normativistas? Basta investigar para descobrir que no , porque os exemplos de [pg. 173] uso do verbo custar com sujeito so mais do que abundantes na nossa melhor literatura:

    (1) Seixas custou a conter-se (Jos de Alencar)

  • (2) ... as moas custavam a se separar (Clarice Lispector)

    (3) Renato custou a acordar (Carlos Drummond de Andrade)

    (4) Felicidade, custas a vir e, quando vens, no te demoras (Ceclia Meireles)

    Ser que Alencar, Clarice Lispector, Drummond e Ceclia Meireles no so bons exemplos de usurios da lngua culta? Se no na literatura, quem sabe, ento, se recorrermos imprensa contempornea? Ser que l que mora a famosa lngua culta que rejeita essas construes? Ora, consultando o jornal onde o prprio Pasquale Cipro Neto escreve (Folha de S. Paulo) e onde presta servios de consultor de portugus (seja isso l o que for), encontramos:

    (5) Quem foi ao show de Maria Bethnia, anteontem noite, depois de assistir o sbrio concerto de Joo Gilberto, custou a crer que estivesse na mesma cidade (22/6/1998, pp. 5-10).

    (6) O tcnico colombiano, Hernn Daro Gmez, [...] custou a admitir a superioridade rival (16/6/ 1998, pp. 4-14).

    (7) O nome Kubitschek era complicado de pronunciar, custou a ser assimilado pela fontica eleitoral (21/11/1997, pp. 4-3). [pg. 174]

    Se lembrarmos que Jos de Alencar morreu em 1877, fica muitssimo claro que essa construo est viva e presente na nossa lngua h muito mais de um sculo! Os autores da gramtica esto proferindo uma inverdade ao dizer que essa construo tpica do Brasil quotidiano. Os Srs. Pasquale e Ulisses, em vez de se curvar realidade concreta dos fatos, tentam nos convencer de que a opo que eles preferem, s

  • porque a tradicional, que deve ser considerada a melhor. uma atitude essencialmente dogmtica, que se recusa a empreender a pesquisa emprica mnima necessria para afirmaes sobre o que existe e o que no existe na lngua. Alm disso, essa atitude ainda mais conservadora do que a posio assumida por gramticos de geraes anteriores deles, como Celso Pedro Luft e Domingos Paschoal Cegalla, que reconhecem a vitria da construo eu custo a crer que...

    Esse apenas um pequeno exemplo de como fcil, para um pesquisador munido de instrumental terico consistente e de metodologia cientfica adequada, desautorizar uma a uma, e de modo convincente, as afirmaes presentes no trabalho do Sr. Pasquale Cipro Neto e de outros atuais defensores da doutrina gramatical tradicional mais normativa e mais prescritiva possvel. Por causa de tudo isso que a estria do Sr. Pasquale no programa Fantstico da Rede Globo representa, para a grande maioria dos cientistas da linguagem e dos educadores conscientes, mais um exemplo de como o nosso trabalho ainda est no comeo, apesar de tudo o que j temos dito e feito. O quadro do Sr. Pasquale no Fantstico faz regredir [pg. 175] em pelo menos 25 anos os grandes avanos j obtidos pela Lingstica na renovao do ensino de lngua na escola brasileira. No consigo, portanto, deixar de repetir o chavo: ele se encontra na contramo da Histria.

    Como j enfatizei acima, pessoas como o Sr. Pasquale s conseguem fazer sucesso entre os leigos, porque dizem exatamente o que as pessoas desejam ouvir: os mitos, as supersties e as crenas infundadas que, h mais de dois mil anos, guiam o senso comum ocidental no que diz respeito lngua. Refiro-me ao senso comum ocidental porque essa situao de embate entre uma cincia lingstica moderna e

  • uma doutrina gramatical arcaica tambm se verifica em outros pases basta ler os livros Language Myths, publicado na Inglaterra sob organizao de L. Bauer e P. Trudgill, e o Catalogue des ides reues sur le langage, publicado na Frana por Marina Yaguello. por isso que escrevi, acima, que nossa luta ainda est no comeo. uma pena que no possamos contar com a ajuda dos meios de comunicao para dissipar todos esses mitos e preconceitos, que impedem a formao, no Brasil em particular, de uma auto-estima lin-gstica, uma vez que tudo o que os brasileiros ouvem e lem so os mesmos chaves, repetidos h sculos, de que brasileiro no sabe portugus e que a lngua que falamos portugus estropiado. (O pesquisador canadense Christophe Hopper localizou lamrias e queixas sobre a runa e a decadncia do francs em textos publicados em 1933, 1905, 1730 e 1689, o que prova a [pg. 176] antiguidade desse discurso alarmista e preconceituoso sobre o fenmeno da mudana das lnguas ao longo do tempo!)

    Outro fato lamentvel, na reportagem de VEJA, que seu autor no tenha prestado o grande favor sociedade de identificar quem so os membros dessa certa corrente relativista, para que todos, pblico leitor em geral e lingistas profissionais em particular, pudssemos nos precaver contra o suposto raciocnio torto de um esquerdismo de meia-pataca dos que acreditam que ensinar a norma-padro no seria til para as classes sociais desfavorecidas. Minha curiosidade ficou especialmente aguada porque, como pesquisador dedicado h muitos anos ao estudo das relaes entre lngua, ensino de lngua e fenmenos sociais, at hoje no encontrei uma nica obra assinada por lingista de formao ou por educador profissional que negasse a importncia do ensino da norma-padro na escola brasileira, que pregasse a idia torpe

  • de que no se deve ensinar as formas prestigiosas da lngua, ou que preconizam que os ignorantes continuem a s-lo, para citar as palavras infelizes da reportagem de VEJA.

    Entre os membros da comunidade acadmico-cientfica que no se intimidam diante da presso esmagadora das supersties, mitos e esteretipos sobre a lngua podemos citar a Profa. Magda Soares (reconhecida como uma das mais importantes educadoras brasileiras de todos os tempos) e o Prof. Srio Possenti (que nunca teve papas na lngua para denunciar e demolir cientificamente os absurdos proferidos por gente como Pasquale Cipro [pg. 177] Neto). Ora, j em 1986, Magda Soares, em seu livro (um clssico da educao brasileira) Linguagem e Escola (Editora tica), escrevia, sem hesitao (p. 78):

    Um ensino de lngua materna comprometido com a luta contra as desigualdades

    sociais e econmicas reconhece, no quadro dessas relaes entre a escola e a

    sociedade, o direito que tm as camadas populares de apropriar-se do dialeto de

    prestgio, e fixa-se como objetivo levar os alunos pertencentes a essas camadas a

    domin-lo, no para que se adaptem s exigncias de uma sociedade que divide e

    discrimina, mas para que adquiram um instrumento fundamental para a parti-

    cipao poltica e a luta contra as desigualdades sociais.

    Tambm em seu muito divulgado livro Por que (no) ensinar gramtica na escola (Ed. Mercado de Letras, 1996), Srio Possenti faz questo de enfatizar (pp. 17-18):

    O PAPEL DA ESCOLA ENSINAR LNGUA PADRO

    [...] adoto sem qualquer dvida o princpio (quase evidente) de que o objetivo da

    escola ensinar o portugus padro, ou, talvez mais exatamente, o de criar

    condies para que ele seja aprendido. Qualquer outra hiptese um equvoco

    poltico e ideolgico.

  • E eu mesmo, que no tenho hesitado em combater abertamente a manuteno das concepes arcaicas e preconceituosas de lngua, escrevi em meu mais recente livro publicado (Portugus ou Brasileiro? Um convite pesquisa, Parbola Editorial, 2001):

    [...] como responder a pergunta (invariavelmente presente na fala dos professores

    de lngua): qual o objeto de ensino nas [pg. 178] aulas de portugus? O que

    devemos ensinar a nossos alunos em sala de aula?

    Uma resposta concisa e rpida seria: devemos ensinar a norma-padro. J que s

    se pode ensinar algo que o aprendiz ainda no conhece, cabe escola ensinar a

    norma-padro, que no lngua materna de ningum, que nem sequer lngua,

    nem dialeto, nem variedade, como enfatizei acima. Ensinar o padro se justificaria

    pelo fato dele ter valores que no podem ser negados em sua estreita associao

    com a escrita, ele o repositrio dos conhecimentos acumulados ao longo da

    histria. Esses conhecimentos, assim armazenados, constituiriam a cultura mais

    valorizada e prestigiada, de que todos os falantes devem se apoderar para se

    integrar de pleno direito na produo/conduo/transformao da sociedade de

    que fazem parte.

    Tenho, portanto, a conscincia muito tranqila (como decerto tambm a tm Magda Soares, Srio Possenti e, de fato, a maioria dos lingistas e educadores brasileiros comprometidos com a democratizao de nossa sociedade) de no fazer parte daquela corrente relativista e de no poder ser acusado de ter um raciocnio torto. Por isso, volto a lamentar que o Sr. Joo Gabriel de Lima no tenha dado nome aos bois, para que, juntos, pudssemos combater esse suposto esquerdismo de meia-pataca. No nomear seus adversrios no plano intelectual, no entanto, prtica corrente de pessoas como Pasquale Cipro Neto que, embora alegando referir-se a alguns lingistas, nunca se d ao trabalho de dizer quem so os idiotas, ociosos e deslumbrados a que se refere. [pg. 179]

  • A grande diferena entre os lingistas e educadores que defendem o ensino da norma-padro e os apregoa-dores da doutrina gramatical arcaica est no fato de que j se sabe hoje em dia que, para aprender as formas mais padronizadas e prestigiosas da lngua, no necessrio conhecer a nomenclatura gramatical tradicional, as definies tradicionais, nem praticar a velha e mecnica anlise lexical e muito menos a torturante anlise sinttica. Em seu depoimento a VEJA, O Sr. Pasquale Cipro Neto lamenta que ningum mais saiba diferenciar sujeito de predicado, nem mesmo os professores. Ora, todo um longo trabalho de investigao terica e de pesquisa em sala de aula no Brasil e no resto do mundo , trabalho que se faz h pelo menos trinta anos, j deixou muito claro que no decorando as pginas da gramtica normativa que uma pessoa ser capaz de falar, ler e escrever adequadamente s diversas situaes. O j citado M. Stubbs escrevia, em 1987, que

    Muita gente lamenta o fim do ensino da gramtica formal (anlise sinttica e

    coisas assim), alegando que ele ajudava as crianas a escrever melhor, com mais

    preciso e assim por diante. [...] duvidoso que aquele ensino jamais tenha

    ajudado muita gente a escrever melhor, e ntido que ele afugentou um grande

    nmero de pessoas. A relao entre anlise e compreenso, e entre compreenso

    consciente e produo de linguagem efetiva, difcil de demonstrar.

    E o pedagogo canadense Gilles Gagn, em 1983, j dizia:

    O uso da lngua procede da inteno para a conveno [...] ao passo que a escola

    procede infelizmente ao contrrio, isto [pg. 180] , das convenes lingsticas

    para as intenes de comunicao; intenes, alm disso, quase sempre artificiais

    e impostas ou sugeridas pelo mestre.

    E aquele que considerado hoje, inclusive internacio-nalmente, como o nome mais importante da pesquisa cientfica sobre o portugus brasileiro contemporneo o

  • Prof. Ataliba T. de Castilho, da USP, atual presidente da Associao de Lingstica e Filologia da Amrica Latina e coordenador do grande Projeto da Gramtica do Portugus Falado (projeto apresentado de maneira distorcida e preconceituosa no nmero 1710 de VEJA) escreve com toda clareza em seu livro A lngua falada e o ensino de portugus (Ed. Contexto, 1998):

    [...] os recortes lingsticos devem ilustrar as variedades socioculturais da Lngua

    Portuguesa, sem discriminaes contra a fala verncula do aluno, isto , de sua

    fala familiar. A escola o primeiro contato do cidado com o Estado, e seria bom

    que ela no se assemelhasse a um bicho estranho, a um lugar onde se cuida de

    coisas fora da realidade cotidiana. Com o tempo o aluno entender que para cada

    situao se requer uma variedade lingstica, e ser assim iniciado no padro

    culto, caso j no o tenha trazido de casa.

    Desse modo, prossegue o autor,

    a gramtica deixar de ser vista pelos alunos como a disciplina do certo e do

    errado, reassumindo sua verdadeira dimenso, que a de esquadrinhar atravs dos

    materiais lingsticos o funcionamento da mente humana. [pg. 181]

    Afinal, o que aconteceu, ao longo dos sculos, segundo Castilho, foi que

    a gramtica, que no era uma disciplina autnoma, assumiu na escola uma vida

    prpria, desgarrada de suas origens, e concentrada apenas na sentena, na palavra

    e no som, obscurecendo-se sua argumentao e empobrecendo-se seu alcance.

    Se existe, porm, uma grande resistncia contra o redimensionamento do lugar do ensino da gramtica na escola porque todos sabemos que, ao longo do tempo, o conhecimento mecnico da doutrina gramatical se trans-formou num instrumento de discriminao e de excluso social. Saber portugus, na verdade, sempre significou

  • saber gramtica, isto , ser capaz de identificar por meio de uma terminologia falha e incoerente o sujeito e o predicado de uma frase, pouco importando o que essa frase queria dizer, os efeitos de sentido que podia provocar etc. Transformada num saber esotrico, reservado a uns poucos iluminados, a gramtica passou a ser reverenciada como algo misterioso e inacessvel da surgiu a necessidade de mestres e guias, capazes de levar o ignorante a atravessar o abismo que separa os que sabem dos que no sabem portugus...

    Em concluso, Sr. Editor, gostaria de lhe pedir que, uma vez que to amplo espao foi concedido aos defensores da idia medieval de que os brasileiros no sabem falar bem, caberia agora a VEJA conceder igual espao aos verdadeiros especialistas, s pessoas que dedicam toda sua energia, toda sua inteligncia, toda sua vida, enfim, ao [pg. 182] estudo dos fenmenos da linguagem humana e proposio de novos mtodos de ensino, capazes de dar voz aos que, por fora de tantas estruturas sociais injustas, sempre foram mantidos no silncio. Talvez assim VEJA possa se livrar do risco de ser acusada de promover distores deliberadas dos fatos lingsticos e pedaggicos.

    Atenciosamente,

    MARCOS BAGNO[pg. 183]

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