Pesquisa quantitativa e qualitativa em sociolingustica: dadasmo ...

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  • 143Cadernos de Letras da UFFDossi: O lugar da teoria nos estudos lingusticos e literrios no 46, p. 143-156

    PESQuiSA QuANTiTATiVA E QuALiTATiVA Em SoCioLiNGuSTiCA: DADASmo

    mEToDoLGiCo?

    Caroline Rodrigues Cardoso

    RESUMOA confluncia entre pesquisas quantitativas e qualitativas na Sociolingustica um dadasmo metodolgico? O cerne da discusso aqui no a epistemologia, pois parto do pressuposto de que a Sociolingustica estuda a lngua atrelada ao social. Busco demonstrar que o enfoque metodolgico depende da pergunta de pesquisa, ou seja, do tema a respeito do qual se desenvolve uma tese.

    PALAVRAS-CHAVE: Sociolingustica; metodologia; pesquisa quali-quanti.

    Podemos dizer que o fato de existirem muitas formas de ver a realidade no implica necessariamente que existam muitas verdades alternativas.(BORGES NETO, 2004a)1

    As reflexes aqui apresentadas ganharam fora no segundo semestre de 2008, quando cursei a disciplina Metodologia: anlise de discurso e pesquisa etnogrfica, ministrada pela Profa. Dra. Cibele Brando, no Programa de Ps-graduao em Lingustica do Departamento de Lingustica, Lnguas Clssicas e Portugus da Universidade de Braslia (PPGL/LIP/UnB). Procuro pensar em uma possvel confluncia entre metodologia quantitativa e

    1 BORGES NETO, Jos. Ensaios de filosofia da lingustica. So Paulo: Parbola, 2004a.

  • 144 Cardoso, Caroline Rodrigues. Pesquisa quantitativa e qualitativa em sociolingustica: dadasmo metodolgico?

    qualitativa na pesquisa sociolingustica isso seria um dadasmo2 metodolgico? Borges Neto (2004a)3 fala em dadasmo epistemolgico remetendo a

    Feyerabend (1975), porque objetiva discutir de que trata a Lingustica. Aqui, o cerne da questo no a epistemologia, porque j se parte do pressuposto de que a Sociolingustica a cincia que estuda a lngua atrelada ao social. Sabe-se que o prprio surgimento desse ramo dentro da Lingustica subjaz a olhares diferenciados sobre o objeto de estudo e, consequentemente, impli-ca mtodos e/ou tcnicas tambm diferenciados. Assim, entende-se que se os pontos de partida so diversos, os resultados sero igualmente diversos (DEMO, 1987, p.15)4.

    Metodologia tem sido considerada um conjunto de mtodos e tcnicas utilizados para construo do conhecimento por meio de pesquisa (SILVA & SILVEIRA, 2007)5, ou seja, uma preocupao instrumental (DEMO, 1987)6. Alguns (socio)linguistas defendem que metodologias quali e quanti so excludentes. Outros, que tudo depende do tpico a ser investigado. En-tendo que um enfoque metodolgico x e/ou y depende da pergunta de pes-quisa, ou seja, do tema a respeito do qual se desenvolve uma tese. A pergunta levar ao uso de mtodos e/ou tcnicas abarcadas pela viso epistemolgica do pesquisador (JOHNSTONE, 20007; MASON, 20028). Assim, importante percebermos que a ideia que fazemos da realidade de certa maneira precede a ideia de como trat-la (DEMO, 1987, p. 19)9.

    2 O Dadasmo foi um movimento de vanguarda caracterizado pela oposio a qualquer tipo de equilbrio, pela combinao de pessimismo irnico e ingenuidade radical, pelo ceticismo absoluto e improvisao. Enfatizou o ilgico e o absurdo. Entretanto, apesar da aparente falta de sentido, o movimento protestava contra a loucura da guerra. Assim, sua principal estratgia era mesmo denunciar e escandalizar. Disponvel em: . Acesso em: 28 jun. 2009.

    3 BORGES NETO, Jos. Ensaios de filosofia da lingustica. So Paulo: Parbola, 2004a. 4 DEMO, Pedro. Introduo metodologia da cincia. So Paulo: Atlas, 1987.5 SILVA, Jos Maria da; SILVEIRA, Emerson Sena da. Apresentao de trabalhos aca-

    dmicos: normas e tcnicas. Petrpolis, RJ: Vozes, 2007.6 DEMO, Pedro. Introduo metodologia da cincia. So Paulo: Atlas, 1987.7 JONHSTONE, Barbara. Thinking about methodology. In: ______. Qualitative

    methods in Sociolinguistics. New York: Oxford University Press, 2000. p. 20-38. 8 MASON, Jennifer. Designing qualitative research. In: ______. Qualitative re-

    searching. London: Sage, 2002. p. 24-47.9 DEMO, Pedro. Introduo metodologia da cincia. So Paulo: Atlas, 1987.

  • 145Cadernos de Letras da UFFDossi: O lugar da teoria nos estudos lingusticos e literrios no 46, p. 143-156

    Um pesquisador maduro deve ter conscincia dos seus objetivos, das suas hipteses, do caminho a ser percorrido, com potencialidades e possveis limi-taes. A mudana de caminho, se necessria for, nem sempre implica mudan-a de objetivos, mas a mudana de objetivos implica mudana de caminhos.

    Segundo Demo (1987), a cincia intrinsecamente a atitude questio-nadora frente realidade, e a metodologia seria a forma de captar respostas. Portanto, no h amadurecimento cientfico sem amadurecimento metodo-lgico (DEMO, 1987, p. 25)10. Uma possvel inquietao acadmica leva esse pesquisador mais maduro a experimentaes dadastas, entendidas como agitao, insatisfao, rompimento de um status quo, abertura ao novo.

    Estudos epistemolgicos tm demonstrado que, durante muito tempo, vigorou, no mundo acadmico, o paradigma cartesiano, responsvel pelo de-senvolvimento de doutrinas e pressupostos materialistas, fundamentado em um pensamento filosfico positivista, que parte do princpio da neutralidade e da objetividade de leis e fenmenos mensurados matematicamente.

    Descartes (1596-1650) propunha um fazer cientfico essencialmente prtico e no especulativo a partir de um bom mtodo, universal e inspira-do no rigor matemtico e racionalista. O mtodo seria um instrumento que, bem manejado, levaria o homem verdade. Esse mtodo consistia em acei-tar apenas o que objetivo e irrefutvel e, consequentemente, eliminar todo o conhecimento subjetivo ou sujeito a controvrsias. Essa postura cartesiana objetivava abranger, numa perspectiva de conjunto unitrio e claro, todos os problemas sujeitos investigao cientfica.

    Quanto ao Positivismo (Augusto Comte, 1798-1857), este se ocupa da-quilo que verificvel empiricamente, e isso significa aquilo que medido matematicamente. Seu sentido est no prprio nome positivo , cujo signi-ficado real em oposio a ideal, objetivo em oposio a subjetivo, relativo em oposio a absoluto, preciso em oposio a impreciso. Desse ponto de vista, no campo de estudos da linguagem, uma sentena s verdadeira se for empi-ricamente verificada, ou seja, se est correlacionada com os fatos da realidade. Por exemplo, considerando a contextualizao do incio deste texto, a senten-a (1) Caroline Cardoso aluna de ps-graduao da UnB verdadeira, j que empiricamente verificvel, mas a sentena (2) Cibele Brando aluna

    10 DEMO, Pedro. Introduo metodologia da cincia. So Paulo: Atlas, 1987.

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    de ps-graduao da UnB no verdadeira por no ser verificvel no mundo real. Assim sendo, a anlise do significado pressupe uma condio objetiva e uma verificao possvel no mundo real.

    De outro ponto de vista, a sentena (2) poderia ser verdadeira, depen-dendo do contexto. Tambm poderia se considerar que a professora Cibele algum dia foi aluna da ps-graduao na UnB e algum no sabe que ela j defendeu tese. Ento, essa sentena poderia certamente ser produzida como verdadeira, pois Cibele um dia foi aluna da ps-graduao da UnB (BORGES NETO, 2004a11, 2004b12; DENZIN & LINCOLN, 200613; SCHWANDT, 200614; SOUZA, 200715).

    No paradigma positivista, dominante na cincia por muito tempo, pes-quisar significa centralizar-se num programa de investigao cientfica baseado em um conjunto de proposies/hipteses testveis, seguindo uma metodo-logia especfica e mtodos estatsticos que possam validar numericamente as hipteses (BORGES NETO, 2004a16, 2004b17; SILVA & SILVEIRA, 200718; SOUZA, 200719).

    No segundo quarto do sculo XX, tem incio uma crise interior da cincia mecanicista, racionalista e ideal. Outra postura passou a ocupar destaque no campo cientfico a partir de transformaes como a passagem da fsica clssica

    11 BORGES NETO, Jos. Ensaios de filosofia da lingustica. So Paulo: Parbola, 2004a. 12 BORGES NETO, Jos. O empreendimento gerativo. In: MUSSALIM, Fernanda; BEN-

    TES, Anna Christina. Introduo lingustica: fundamentos epistemolgicos. So Paulo: Cor-tez, 2004b. p. 93-129.

    13 DENZIN, Norman K.; LINCOLN, Yvonna S. A disciplina e a prtica da pesquisa qualita-tiva. In: ______. O planejamento da pesquisa qualitativa: teorias e abordagens. Porto Alegre: Artmed, 2006. p. 15-39.

    14 SCHWANDT, Thomas A. Interpretativismo, hermenutica e construcionismo social. In: DENZIN, Norman K.; LINCOLN, Yvonna S. O planejamento da pesquisa qualitativa: teo-rias e abordagens. Porto Alegre: Artmed, 2006. p. 193-217.

    15 SOUZA, Denizard de. Ensaios de espiritualidade e cultura contempornea. Braslia: LGE, 2007.

    16 BORGES NETO, Jos. Ensaios de filosofia da lingustica. So Paulo: Parbola, 2004a. 17 BORGES NETO, Jos. O empreendimento gerativo. In: MUSSALIM, Fernan-

    da; BENTES, Anna Christina. Introduo lingustica: fundamentos epistemolgi-cos. So Paulo: Cortez, 2004b. p. 93-129.

    18 SILVA, Jos Maria da; SILVEIRA, Emerson Sena da. Apresentao de trabalhos acadmicos: normas e tcnicas. Petrpolis, RJ: Vozes, 2007.

    19 SOUZA, Denizard de. Ensaios de espiritualidade e cultura contempornea. Braslia: LGE, 2007.

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    newtoniana para a fsica quntica, da biologia organicista para a biologia mo-lecular, da fragmentao do saber para a interdisciplinaridade, da cerebrologia para a no localidade quntica da mente, da tecnologia analgica para a digital.

    A postura cartesiana d lugar a outras interpretaes do mundo natural no mbito das prprias cincias positivas. Da uma reviso crtica da cin-cia por parte dos cientistas, dividida em duas fases principais: uma de crtica cincia e ao positivismo; outra de reconstruo filosfica em relao com exigncias mais ou menos metafsicas ou espiritualistas (GILL, 200220; DEN-ZIN & LINCOLN, 200621; SCHWANDT, 200622; SOUZA, 200723).

    Ento, as cincias tidas como factuais culturais, como a Psicologia Social, a Sociologia, a Economia, a Histria e as cincias humanas de modo geral, passam por um perodo de reflexo e reformulao de metodologias e prticas de pes-quisa, combinando uma tradio de conhecimento fragmentado e analtico com uma nova realidade humana e social. Essa reformulao pretende na contempo-raneidade um fazer cientfico holstico, interpretativo, sistmico, subjetivo e, ao mesmo tempo, orientado para uma racionalidade complexa e integrativa.

    Como enfatiza Levy (1999)24, tende-se a uma suplantao dos antigos critrios de objetividade e universalidade abstrata para tratar do holismo e da complexidade do pensamento (MORIN, 2006)25. Assim, podemos considerar que h pelo menos duas posturas cientficas vigorando no meio acadmico atualmente: uma com foco na especialidade, na descontextualizao e nas ge-neralizaes; outra em busca do holismo, de uma viso do todo, do conjunto, como bem enfatizam Levy (1999)26 e Bauman (2008)27.

    20 GILL, Rosalind. Anlise de discurso. In: BAUER, M. W.; GASKELL, G. (Orgs.). Pesquisa qualitativa com texto, imagem e som. Um manual prtico. Petrpolis, RJ: Vozes, 2002.

    21 DENZIN, Norman K.; LINCOLN, Yvonna S. A disciplina e a prtica da pesquisa qualita-tiva. In: ______. O planejamento da pesquisa qualitativa: teorias e abordagens. Porto Alegre: Artmed, 2006. p. 15-39.

    22 SCHWANDT, Thomas A. Interpretativismo, hermenutica e construcionismo social. In: DENZIN, Norman K.; LINCOLN, Yvonna S. O planejamento da pesquisa qualitativa: teo-rias e abordagens. Porto Alegre: Artmed, 2006. p. 193-217.

    23 SOUZA, Denizard de. Ensaios de espiritualidade e cultura contempornea. Braslia: LGE, 2007.24 LEVY, Pierre. Cibercultura. So Paulo: Ed. 34, 1999.25 MORIN, Edgar. Introduo ao Pensamento Complexo. Porto Alegre: Sulina, 2006. 26 LEVY, Pierre. Cibercultura. So Paulo: Ed. 34, 1999.27 BAUMAN, Zygmunt. A sociedade individualizada: vidas contadas e histrias vividas. Rio de

    Janeiro: Zahar, 2008.

  • 148 Cardoso, Caroline Rodrigues. Pesquisa quantitativa e qualitativa em sociolingustica: dadasmo metodolgico?

    Deve-se ressaltar que essas posturas no so totalmente excludentes. H cientistas que buscam equilibrar a viso objetivista com a subjetivista, obtendo resultados satisfatrios dentro daquilo que se propem a fazer. Essa postura leva em considerao que realmente se pode lanar mo da subjetividade ob-jetiva. Nas palavras de Schwandt (2006, p.197)28, possvel compreender o significado subjetivo da ao (entender as crenas do ator, seus desejos, etc.), porm, de uma maneira objetiva.

    H bastante perigo em ser subjetivo ou objetivo em demasia. O pes-quisador precisa ter o cuidado de saber balancear sua postura metodolgica ao investigar um assunto, pois os nmeros s adquirem significado quando colocados em contextos mais amplos, dentro de uma teoria, de conceitos; caso contrrio so apenas nmeros e podem servir a propsitos de manipulao (SILVA & SILVEIRA, 2007, p. 149)29; e, tambm,

    Para no interpretar equivocadamente o significado original, os intrpretes devem empregar algum tipo de mtodo que lhes possibilite um afastamento de seus referenciais histricos. Quando corretamente empregado, o mtodo um meio que permite aos intrpretes alegar uma atitude puramente terica de observador. (SCHWANDT, 2006, p. 197)30

    A Lingustica sofre dos mesmos problemas epistemolgicos que as ou-tras cincias tidas como sociais. Os cientistas dessa rea, em geral, buscam uma bssola para estabelecer detalhadamente o caminho a percorrer numa investigao de cunho lingustico. E, em geral, tm a opo de homogeneizar o objeto de estudos e autonomizar a lingustica ou a opo de heterogenei-zar o objeto de estudos e interdisciplinarizar a lingustica (BORGES NETO,

    28 SCHWANDT, Thomas A. Interpretativismo, hermenutica e construcionismo social. In: DENZIN, Norman K.; LINCOLN, Yvonna S. O planejamento da pesquisa qualitativa: teo-rias e abordagens. Porto Alegre: Artmed, 2006. p. 193-217.

    29 SILVA, Jos Maria da; SILVEIRA, Emerson Sena da. Apresentao de trabalhos acadmicos: normas e tcnicas. Petrpolis, RJ: Vozes, 2007.

    30 SCHWANDT, Thomas A. Interpretativismo, hermenutica e construcionismo social. In: DENZIN, Norman K.; LINCOLN, Yvonna S. O planejamento da pesquisa qualitativa: teo-rias e abordagens. Porto Alegre: Artmed, 2006. p. 193-217.

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    2004a, p. 59)31. A histria da aquisio do status de cincia, atribudo aos estudos lingusticos no incio do sculo XX, coincidiu com a vigncia do pen-samento positivista lgico. Isso contribuiu para que Saussure e seus seguidores considerassem a lngua de um ponto de vista estrutural, afirmando que o ponto de vista que cria o objeto (SAUSSURE, 1993, p. 15)32 e que

    a Lingustica tem relaes bastante estreitas com outras cincias, que tanto lhe tomam emprestados como lhe fornecem dados. [...] Por exemplo, a Lingustica deve ser cuidadosamente distinguida da Etnografia e da Pr-Histria, onde a lngua no intervm seno a ttulo de documento [...]. (SAUSSURE, 1993, p. 13-14)33

    Em geral, a pesquisa lingustica tem se pautado no paradigma empirista por se utilizar basicamente de mtodos experimentais para captao e anlise de dados lingusticos sem levar em considerao algumas questes importan-tes, como a insero da lngua num contexto humano e social com o fim bsico de levar comunicao ou, ainda mais partidariamente, interao (inter+ao). Essa postura baseada numa tradio saussuriana de anlise es-trutural, pautada em dicotomias, focada em fatores internos prpria lngua e dimensionada na homogeneidade lingustica.

    Na dcada de 60, William Labov implementou um novo vis de estudos da lngua, adicionando viso essencialmente estruturalista o componente da heterogeneidade lingustica. O que exatamente isso quis dizer? Que a lngua passa a ser vista como um sistema heterogneo, mutvel, varivel e dinmico. E que estudar esse sistema significa considerar que fatores sociais podem afetar a estrutura lingustica, alm dos prprios fatores internos ao sistema.

    Diferentemente do que afirma Pagotto (2004, p. 49)34, o captulo 8 do clssico livro de Labov (2008)35 pode ajudar a entender que o fulcro de toda a discusso a respeito da superao de um paradigma saussuriano nos estudos

    31 BORGES NETO, Jos. Ensaios de filosofia da lingustica. So Paulo: Parbola, 2004a.32 SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de lingustica geral. So Paulo: Cultrix, 1993. 33 SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de lingustica geral. So Paulo: Cultrix, 1993. 34 PAGOTTO, Emilio Gozze. Variao e () identidade. Macei: EDUFAL, 2004.35 LABOV, William. Padres sociolingusticos. So Paulo: Parbola, 2008.

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    lingusticos uma interpretao equivocada. Na verdade, foi superada a viso de lngua como entidade homognea e predominante sobre a fala:

    No podemos nos permitir qualquer passo atrs: quem quer que deseje seguir adiante no estudo da lngua certamente tem que ser capaz de trabalhar neste nvel de abstrao [paradigma gerativista]. Ao mesmo tempo, difcil evitar a concluso sensata de que o objeto da lingustica tem de ser, ao fim e ao cabo, o instrumento de comunicao usado pela comunidade de fala [...]. (LABOV, 2008, p. 219-220)36

    Labov (2008, p. 215)37 afirma, por um lado, que uma rea de pesquisa que tem sido includa na sociolingustica talvez seja rotulada mais adequada-mente de sociologia da linguagem. Lida com fatores sociais de larga escala e sua interao mtua com lnguas e dialetos e, por outro, que este captulo tratar do estudo da estrutura e da evoluo da lngua dentro do contexto social da comunidade de fala. Isso quer dizer que havia, naquele momento, a necessidade de no mais se considerar apenas a estrutura lingustica, como fa-zia Saussure, mas tambm como o falante faz uso dessa estrutura no momento da comunicao e que, sendo assim, ao passo que a sociedade muda, a lngua muda com ela.

    As pesquisas sociolingusticas de cunho essencialmente qualitativo so provenientes de tradies antropolgicas sociais anglo-saxs e da etnologia francesa (SILVA & SILVEIRA, 2007)38 com preocupaes culturais e psicol-gicas muito fortes, com vistas a entender o outro (DENZIN & LINCOLN, 2006)39. Por isso, Labov (2008)40 as considera distintas do projeto sociolin-gustico a que ele se props.

    36 LABOV, William. Padres sociolingusticos. So Paulo: Parbola, 2008.37 LABOV, William. Padres sociolingusticos. So Paulo: Parbola, 2008.38 SILVA, Jos Maria da; SILVEIRA, Emerson Sena da. Apresentao de trabalhos acadmicos:

    normas e tcnicas. Petrpolis, RJ: Vozes, 2007.39 DENZIN, Norman K.; LINCOLN, Yvonna S. A disciplina e a prtica da pesquisa qualita-

    tiva. In:______. O planejamento da pesquisa qualitativa: teorias e abordagens. Porto Alegre: Artmed, 2006. p. 15-39.

    40 LABOV, William. Padres sociolingusticos. So Paulo: Parbola, 2008.

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    Segundo Flick et. al. (apud GNTHER, 2006)41, a pesquisa qualitati-va caracteriza-se pela compreenso como princpio do conhecimento, pela construo da realidade, pela descoberta e construo de teorias e pela cincia baseada em textos, o que Gnther (2006)42 no concebe como ca-ractersticas sui generis da metodologia qualitativa.

    No que no haja essas preocupaes nas pesquisas variacionistas. Boa parte da tradio de estudos lingusticos hoje, especialmente no Brasil, deve muito de suas lucubraes aos estudos dialetolgicos e variacionistas que, mesmo sendo tachados de positivistas (CAMERON et al., 2006), mapearam as variedades brasileira e europeia do portugus, alm das diversidades do prprio portugus brasileiro, acabando por contribuir (direta ou indiretamente) para que se entenda a cultura, a sociedade, a educao, a histria de um povo. No en-tanto, a Sociolingustica Variacionista no uma rea assumidamente crtica e politicamente engajada como o so a Anlise de Discurso (cf. FAIRCLOUGH, 2001)43 e o Feminismo (cf. HEYL, 2007)44, para citar apenas dois exemplos.

    A investigao clssica de Labov (2008, p. 19-62)45 sobre a mudana sonora em uma ilha de Massachussets, Estados Unidos, apresenta-se como um exemplo de pesquisa com design quali-quanti. Labov (2008, p. 19)46 escreve: o trabalho relatado neste captulo diz respeito observao direta de uma mudana sonora no contexto de vida da comunidade na qual ela ocorre. O texto segue descrevendo a cultura, a histria, a sociedade e a lngua da comu-nidade da ilha. Ao mesmo tempo, so apresentados resultados obtidos por mtodos estatsticos sobre a centralizao dos ditongos /aw/ e /ay/.

    41 GNTHER, Hartmut. Pesquisa qualitativa versus pesquisa quantitativa: esta a questo? (Srie: Planejamento de Pesquisa nas Cincias Sociais, n 07). Braslia: UnB, Laboratrio de Psicologia Ambiental, 2006. Disponvel em: www.psi-ambiental.net/pdf/07QualQuant.pdf, Acessado em: 17/06/ 2009.

    42 GNTHER, Hartmut. Pesquisa qualitativa versus pesquisa quantitativa: esta a questo? (Srie: Planejamento de Pesquisa nas Cincias Sociais, n 07). Braslia: UnB, Laboratrio de Psicologia Ambiental, 2006. Disponvel em: www.psi-ambiental.net/pdf/07QualQuant.pdf, Acessado em: 17/06/ 2009.

    43 FAIRCLOUGH, Norman. Discurso e mudana social. Braslia: Editora Universidade de Bra-slia, 2001.

    44 HEYL, Barbara Sherman. Ethnographic interviewing. In: ATKINSON, P.A. et al. (Orgs.). Handbook of Ethnography. London: Sage, 2007.

    45 LABOV, William. Padres sociolingusticos. So Paulo: Parbola, 2008.46 LABOV, William. Padres sociolingusticos. So Paulo: Parbola, 2008.

  • 152 Cardoso, Caroline Rodrigues. Pesquisa quantitativa e qualitativa em sociolingustica: dadasmo metodolgico?

    Para entender o fenmeno, o pesquisador lanou mo de artefatos quantitativos e, para interpretar os resultados numricos, precisou conhecer e compreender aquela comunidade e sua histria por meio da imerso naquele ambiente. Segundo o prprio Labov (2008 [1972], p. 62)47, a tcnica de entrevista no foi controlada com o rigor que se esperaria: foram feitas mui-tas mudanas na estrutura da entrevista medida que o estudo progredia, postura comum em estudos qualitativos. Houve uma abordagem dialtica de pesquisa para se chegar s concluses sobre a mudana lingustica em Marthas Vineyard.

    O contrrio tambm acontece. Pesquisadores tidos como de uma tra-dio de estudos qualitativos dialogam com tcnicas e mtodos da pesquisa quantitativa. Essa a postura adotada por Bortoni-Ricardo (2008, p. 10, gri-fos da autora)48. A autora escreve que a pesquisa em sala de aula insere-se no campo da pesquisa social e pode ser construda de acordo com um paradigma quantitativo, que deriva do positivismo, ou com um paradigma qualitativo, que provm da tradio epistemolgica conhecida como interpretativismo, e refora com exemplo de conciliao entre pesquisa quantitativa e pesquisa qualitativa (BORTONI-RICARDO, 2008, p. 33)49.

    Mais adiante, Bortoni-Ricardo apresenta um modelo de projeto de pesquisa qualitativa, cuja metodologia qualitativa e interpretativista (BORTONI-RICARDO, 2008, p. 79)50, em que a autora se vale de dados censitrios percentuais do SAEB para auxiliar no alcance do objetivo especifi-cado no projeto, qual seja identificar, descrever e analisar rotinas no trabalho pedaggico, voltadas para o desenvolvimento de habilidades lingusticas, que sejam produtivas, isto , que resultem na aprendizagem dos alunos, manifesta em sua fala ou texto escrito (BORTONI-RICARDO, 2008, p. 80)51.

    47 LABOV, William. Padres sociolingusticos. So Paulo: Parbola, 2008.48 BORTONI-RICARDO, Stella Maris. O professor pesquisador: introduo pesquisa qualita-

    tiva. So Paulo: Parbola, 2008. 49 BORTONI-RICARDO, Stella Maris. O professor pesquisador: introduo pesquisa qualita-

    tiva. So Paulo: Parbola, 2008. 50 BORTONI-RICARDO, Stella Maris. O professor pesquisador: introduo pesquisa qualita-

    tiva. So Paulo: Parbola, 2008. 51 BORTONI-RICARDO, Stella Maris. O professor pesquisador: introduo pesquisa qualita-

    tiva. So Paulo: Parbola, 2008.

  • 153Cadernos de Letras da UFFDossi: O lugar da teoria nos estudos lingusticos e literrios no 46, p. 143-156

    Realizei estudo (CARDOSO, 2005)52 sobre a variao lingustica em funo das dimenses social e estilstica com dados obtidos de uma nica falante, em seis entrevistas no estruturadas, em ambientes diversos de inte-rao familiares e no familiares para a colaboradora , levando em conta pressupostos tericos de Labov (200853; 200154) e de Bell (198455; 200156) sobre variao intrafalante.

    O foco era a colaboradora da pesquisa: se ela monitorava a prpria fala, se seu comportamento lingustico mudaria em funo dos diversos ambientes de interao e se a pouca exposio dela ao ensino formal influenciaria na variao da concordncia e na variao estilstica. Para tanto, tambm levantei traos importantes da vida da colaboradora e me tornei uma figura constante em seu cotidiano. Ao longo do processo, ela conheceu minha orientadora de pesquisa, com quem tambm teve pelo menos trs encontros. Neles, pde--se observar que houve grande empatia e identificao de histrias de vida: colaboradora e orientadora eram provenientes de zona rural, casadas, com um casal de filhos e bastante extrovertidas.

    As conversas com a pesquisada giravam em torno de temas como famlia, educao dos filhos, casamento, lazer, estudo e lngua, de forma agradvel e espontnea. Algo importante a ser ressaltado que, na primeira gravao, foi dado um gravador para a colaboradora, que gravou sua voz sozinha, enquanto fazia o almoo dos patres. O mais interessante que ela conversava com o gravador como se ele fosse sua patroa.

    O trabalho enfatiza a histria de vida da colaboradora e apresenta traos muito sutis de entrevista etnogrfica, como gravao de conversas no estru-

    52 CARDOSO, Caroline R. Variao da concordncia verbal no indivduo: um confronto entre o lingustico e o estilstico. Dissertao (Mestrado em Lingustica) Braslia: Universidade de Braslia, 2005.

    53 LABOV, William. Padres sociolingusticos. So Paulo: Parbola, 2008.54 LABOV, William. The anatomy of style-shifting. In: ECKERT, Penelope; RICKFORD,

    John R. (Orgs.). Style and Sociolinguistic variation. Cambridge: Cambridge University Press, 2001. p. 85-108.

    55 BELL, Allan. Language style as audience design. Language in society, v. 13, n. 2, p. 145-204, 1984.

    56 BELL, Allan. Back in style: reworking audience design. In: ECKERT, Penelope; RICK-FORD, John R. (Orgs.). Style and Sociolinguistic variation. Cambridge: Cambridge Univer-sity Press, 2001. p. 139-169.

  • 154 Cardoso, Caroline Rodrigues. Pesquisa quantitativa e qualitativa em sociolingustica: dadasmo metodolgico?

    turadas previamente, sem preocupao com o tempo da pesquisadora, mas sim com o da pesquisada e de acordo com a disponibilidade e interesse desta, mantendo certa proximidade entre as interlocutoras (HEYL, 2007)57.

    No h como negar que toda pesquisa, independentemente da meto-dologia adotada pelo pesquisador, apresenta vis pessoal e ideolgico, pois a realidade no diz como que quer ser abordada e toda abordagem que se puder propor vai sempre parecer parcial e arbitrria (BORGES NETO, 2004a, p. 20)58. Tambm no h como negar nem a importncia do pen-samento cartesiano para a humanidade nem a importncia da implantao de novos paradigmas em cincia na contemporaneidade. No h como ne-gar que a mudana de paradigmas afeta no s o mundo das cincias, mas tambm da educao, da religio, da poltica, da famlia. Portanto, a cin-cia, assim como todas as reas do conhecimento humano, necessita de uma busca incessante do dilogo, do holismo, da aceitao e da compreenso da complexidade do pensamento cientfico, do respeito s tradies e da aber-tura ao novo.

    Segundo Gnther (2006)59, dificilmente um pesquisador adjetivado como quantitativo exclui o interesse em compreender as relaes complexas. Portanto, imprescindvel que o pesquisador empirista, especialmente da rea da Sociolingustica, busque dosar suas hipteses e preocupaes racionalistas com uma mudana de postura em relao aos sujeitos de pesquisa, em relao tica, em relao ao desenvolvimento de pesquisas com resultados prticos para as comunidades e/ou diretamente para os seus colaboradores. E impor-tante ressaltar o quanto as porcentagens, as generalizaes, o objetivismo so importantes suportes para entender determinados contextos particulares. Nas palavras de Naro (2003, p. 25)60, o progresso da cincia lingustica no est

    57 HEYL, Barbara Sherman. Ethnographic interviewing. In: ATKINSON, P.A. et al. (Orgs.). Handbook of Ethnography. London: Sage, 2007.

    58 BORGES NETO, Jos. Ensaios de filosofia da lingustica. So Paulo: Parbola, 2004a. 59 GNTHER, Hartmut. Pesquisa qualitativa versus pesquisa quantitativa: esta a questo?

    (Srie: Planejamento de Pesquisa nas Cincias Sociais, n 07). Braslia: UnB, Laboratrio de Psicologia Ambiental, 2006. Disponvel em: www.psi-ambiental.net/pdf/07QualQuant.pdf, Acessado em: 17/06/ 2009.

    60 NARO, Anthony Julius. Modelos quantitativos e tratamento estatstico. In: MOLLICA, Maria Ceclia; BRAGA, Maria Luiza (Orgs.). Introduo Sociolingustica: o tratamento da variao. So Paulo: Contexto, 2003. p. 15-25.

  • 155Cadernos de Letras da UFFDossi: O lugar da teoria nos estudos lingusticos e literrios no 46, p. 143-156

    nos nmeros em si, mas no que a anlise dos nmeros pode trazer para nosso entendimento das lnguas humanas.

    Entende-se, dessa forma, como possvel, desejvel e perfeitamente acei-tvel uma relao entre a postura quantitativa e a qualitativa em pesquisas sociolingusticas. Porque, no final das contas, segundo Nelson et al. (apud DENZIN & LINCOLN, 2006, p. 18)61, a escolha das prticas da pesquisa depende das perguntas que so feitas, e as perguntas dependem de seu contex-to e, ainda, do que est disponvel no contexto e do que o pesquisador pode fazer naquele cenrio (DENZIN & LINCOLN, 2006, p. 18)62.

    De certo modo, essas discusses epistemolgicas no so privilgio da contemporaneidade. Desde os gregos, h pelo menos duas vertentes quanto relao entre o conhecimento humano e a realidade conhecida. Uma ver-tente que considera que h uma verdade nica e objetiva, que o objetivo da cincia; outra vertente que considera a interdependncia entre conhecimento e contexto, momento histrico e circunstncias.

    No tocante linguagem, os gregos discutiam se ela se relacionava com a realidade de forma natural ou de forma convencional o nome podia ser uma imagem natural da coisa nomeada; o nome podia ser arbitrado ao gosto de cada um; o nome podia ser estabelecido por um legislador (BORGES NETO, 2004a, p. 71-74)63. O que se verifica, ao longo da histria das cincias, que uma ou outra vertente vigorou no fazer cientfico.

    Chega-se, ento, ao ponto crucial dessas reflexes:

    considerando os recursos materiais, temporais e pessoais disponveis para lidar com uma determinada pergunta cientfica, coloca-se para o pesquisador e para sua equipe a tarefa de encontrar e usar a abordagem terico-metodolgica que permite, num mnimo de tempo, chegar a um resultado

    61 DENZIN, Norman K.; LINCOLN, Yvonna S. A disciplina e a prtica da pesquisa qualita-tiva. In: ______. O planejamento da pesquisa qualitativa: teorias e abordagens. Porto Alegre: Artmed, 2006. p. 15-39.

    62 DENZIN, Norman K.; LINCOLN, Yvonna S. A disciplina e a prtica da pesquisa qualita-tiva. In: ______. O planejamento da pesquisa qualitativa: teorias e abordagens. Porto Alegre: Artmed, 2006. p. 15-39.

    63 BORGES NETO, Jos. Ensaios de filosofia da lingustica. So Paulo: Parbola, 2004a.

  • 156 Cardoso, Caroline Rodrigues. Pesquisa quantitativa e qualitativa em sociolingustica: dadasmo metodolgico?

    que melhor contribua para a compreenso do fenmeno e para o avano do bem-estar social (GNTHER, 2006)64.

    Do contrrio, assume-se uma nica postura metodolgica e no se reco-nhece a possibilidade de caminhos alternativos para lidar com a infinidade de comportamentos, olhares e [inter]aes existentes a respeito do objeto de estudo.

    QUALiTATiVE AND QUANTiTATiVE RESEARCH iN SOCiOLiNGUiSTiCS: METHODOLOGiCAL DADAiSM?

    ABSTRACTThe confluence between quantitative and qualitative research in Sociolinguistics is a methodological Dadaism? The issue here is not epistemology, because I assume that the Sociolinguistics studies the language linked to social. I want to demonstrate that the methodological approach depends on the research question, ie, the subject about which a thesis is developed.

    KEY WORDS: Sociolinguistics; methodology; quali-quanti research.

    Recebido em: 27/06/2012Aprovado em: 29/01/2013

    64 GNTHER, Hartmut. Pesquisa qualitativa versus pesquisa quantitativa: esta a questo? (Srie: Planejamento de Pesquisa nas Cincias Sociais, n 07). Braslia: UnB, Laboratrio de Psicologia Ambiental, 2006. Disponvel em: www.psi-ambiental.net/pdf/07QualQuant.pdf, Acessado em: 17/06/ 2009.

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