Pesquisa Qualitativa em Educao

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    28-Mar-2016

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pesquisa qualitativa em educao

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  • 1

    REVISO DAS TENDNCIAS NO DEBATE DA PESQUISA QUALITATIVA E SUAS INFLUNCIAS NO CAMPO EDUCACIONAL

    SILVA, Assis Leo da

    Doutorando em educao CE/UFPE Ncleo de Planejamento e Poltica Educacional

    e-mail: assisleao33@gmail.com

    RESUMO

    Focalizando na problemtica das multiplicidades de abordagens do campo das metodologias da

    pesquisa social, o presente trabalho pretende identificar, revisar e analisar a influncia da evoluo das principais tipologias terico-conceituais metodolgicas da pesquisa qualitativa,

    por meio de uma breve construo histrica desta rea, analisando as suas principais influncias

    e contribuies nos debates do campo das pesquisas educacionais. Aponta as principais dificuldades e avanos na construo dos modelos metodolgicos propostos no desenho das

    pesquisas qualitativas, desvelando que estas so o resultado da dinmica e complexidade do

    contexto social. O objetivo do trabalho realizar uma reviso terico-conceitual das tendncias

    atuais no campo da pesquisa qualitativa e suas imbricaes na rea da educao. Constatou-se diante do exposto, que as discusses na rea, esto longe de serem esgotas, apresentando

    diversidade em fragilidades e lacunas.

    Palavras-chave: Pesquisa social; metodologia qualitativa; pesquisa em educao

    Introduo

    O contexto de crises cclicas do capitalismo tem desenvolvido uma dinmica

    ascendente de complexidade do sistema social ao longo do sculo XX, instigando o

    debate sobre a credibilidade, perspectivas e limites quanto adoo de metodologias

    quantitativas na anlise dos diversos problemas sociais. No centro deste debate,

    verifica-se a adoo cada vez mais recorrente da metodologia qualitativa no

    desenvolvimento de pesquisas no campo social; j que, so cada vez maiores entre

    pesquisadores sociais, agncias governamentais e de fomento, as percepes dos limites

    e possibilidades da realizao de pesquisas sociais amparadas apenas nos pressupostos

    da metodologia quantitativa.

  • 2

    No entanto, o uso da metodologia qualitativa, como forma de superar

    determinados limites do mtodo quantitativo ou de substitu-lo, no se apresenta numa

    perspectiva de linearidade; sofrendo, durante seu processo de desenvolvimento,

    inmeros avanos, recuos e rupturas quanto sua adoo; uma vez que, no debate dos

    pressupostos terico-metodolgico, na pesquisa social, levantaram-se certas

    desconfianas, por parte dos pesquisadores sociais quantitativistas, no que se refere aos

    critrios cientficos de confiabilidade e validade do mtodo qualitativo e dos impasses

    no tocante perspectiva de complementaridade de ambos os mtodos, quantitativo e

    qualitativo.

    Este debate, para muitos pesquisadores da rea social, tem desvelado a

    complexidade do processo de sistematizao das pesquisas, no tocante dificuldade em

    escolher e legitimar o mtodo de investigao a ser adotado diante do contexto social

    em que se vive, exigindo dos pesquisadores maior eficcia no trato do dilogo com os

    pressupostos terico-metodolgico das metodologias quantitativo e qualitativo;

    sobretudo em reas de gramticas fracas, como no caso do campo educacional.

    Por essa razo, este artigo tem como objetivo realizar uma reviso das diversas

    tendncias terico-metodolgicas do campo da pesquisa social que influenciaram

    diretamente na construo e desenvolvimento do mtodo qualitativo reconhecendo suas

    principais contribuies para a pesquisa em educao. Na execuo deste objetivo,

    estruturou-se o presente trabalho em quatro partes. Na primeira parte, identificam-se os

    argumentos em prol dos mtodos quantitativos e qualitativos, debatendo acerca do

    desenvolvimento da construo metodolgica na pesquisa social; Na segunda,

    sistematiza-se o percurso da evoluo histrica das tendncias em pesquisa qualitativa

    analisando seus avanos e limites; Na terceira, identificam-se as principais

    contribuies destas tendncias na caracterizao atual do mtodo qualitativo; Na

    quarta, especificam-se as principais contribuies do mtodo qualitativo para a pesquisa

    em educao; ao trmino do trabalho, discorrem-se as consideraes finais do tema.

  • 3

    1 A pesquisa social: o mtodo qualitativo versus o quantitativo, argumentos e

    contribuies para o debate

    O entendimento atual de diversos autores caminha no sentido de que a realizao

    da pesquisa social implica diretamente na escolha de procedimentos para descrever,

    explicar e compreender os fenmenos sociais a partir da fundamentao em teorias

    existentes com intuito de desenvolver o mtodo cientfico (SILVERMAN, 2009). Para

    Chizzotti (2006, p.24) no se pode acreditar que a cincia seja um padro uno e nico,

    fixo e imutvel para todos os cientistas, faz-se necessrio o entendimento da existncia

    de diversas vias de investigao, desvelando a variedade de meios de procurar, justificar

    e comunicar uma descoberta de que a cincia dispe.

    Richardson et al (2009) advoga que o trabalho de pesquisa deve ser realizado

    conforme as tcnicas requisitadas para cada mtodo de investigao1. Esses

    procedimentos podem ser agrupados em duas amplas classificaes, distintas quanto s

    sistemticas adotadas e a forma de abordagem dos problemas, por meio do mtodo

    quantitativo e qualitativo. Longe de esgotar as possibilidades de classificao, Guba e

    Lincoln (1994) adverte que este tipo de classificao restringe-se a descrio de tipos e

    mtodos de pesquisas, abarcando inmeras possibilidades de compreenso da realidade,

    descritas e analisadas por Chizzotti (2006) atravs de vrias denominaes, a saber:

    paradigmas (KUHN, 1963), tradies de pesquisa (LAUDAN, 1977; JACOB,

    1987; CRESWELL, 1998; STRAUSS E CORBIN, 1990; DENZI E LINCOLN, 2000),

    modelfos de pesquisa (QUELLET, 1994), programas de pesquisas rivais

    (LAKATOS, 1970), posturas de pesquisas (WOLCOTT, 1992).

    A literatura acadmica farta em construes de definies que a rigor

    apresentam as mesmas caractersticas acerca do mtodo quantitativo e qualitativo.

    Desse modo, apropriamo-nos de Lankshear e Knobel (2008), para definir que o mtodo

    quantitativo caracteriza-se pela utilizao da quantificao mensurao na pesquisa

    1 Silva (2003, p.39-45) distingue tcnica de mtodo, quando define mtodo como etapas dispostas

    ordenadamente para investigao da verdade, no estudo de uma cincia para atingir determinada

    finalidade, e tcnica como o modo de fazer de forma mais hbil, segura e perfeita alguma atividade, arte

    ou ofcio. Severino (2007, p.102) afirma: a cincia utiliza-se de um mtodo que lhe prprio, o mtodo

    cientfico, elemento fundamental do processo do conhecimento realizado pela cincia para diferenci-la

    no s do senso comum, mas tambm das demais modalidades de expresso da subjetividade humana,

    como a filosofia, a arte, a religio. Trata-se de um conjunto de procedimentos lgicos e de tcnicas

    operacionais que permitem o acesso s relaes causais constantes entre os fenmenos.

  • 4

    social nas fases de coleta de informaes e no tratamento dos dados atravs do emprego

    de tcnicas estatsticas, frequentemente aplicada em estudos do tipo descritivo2,

    abordando aspectos amplos de uma dada sociedade; e de Trivios (2008), para definir o

    mtodo qualitativo como uma expresso genrica, abrangendo diversas atividades de

    investigao que podem ser denominadas de especficas, caracterizadas por traos

    comuns, objetivando atingir uma interpretao mais aprofundada da realidade atravs de

    descries detalhadas de situaes do cotidiano que expressem as experincias, atitudes,

    crenas, pensamentos e reflexes dos sujeitos em seus ambientes sociais.

    Segundo Guba e Lincoln (1994) o debate metodolgico na pesquisa social tem

    direcionado crticas metodologia quantitativa, pela insistncia dos defensores deste

    mtodo em manter a concepo positivista de cincia, aplicando os modelos das

    cincias naturais s cincias humanas, reduzindo a cincia ao campo do observvel

    separando os fatos de seus contextos, valorizando-se os mtodos quantitativos

    mensurao de dados estatsticos; por enfatizar o dado emprico e sua reificao,

    defendendo que os dados so de natureza neutra e objetiva; alm de insistir na tese de

    uma cincia livre de valores para si evitar distorcer a objetividade da explicao dos

    fatos, associando cincia tcnica. Estes argumentos demonstram a concepo de

    mundo daqueles que defendem exclusivamente o mtodo quantitativo, visualizando as

    pessoas como objetos manipulveis e a sociedade como uma mquina que pode ser

    concertada a todo o instante pelos cientistas sociais.

    As discusses metodolgicas em pesquisas sociais, alm das crticas ao mtodo

    quantitativo, tm circunscrito orientaes bsicas, para o desenvolvimento de pesquisas

    na rea das cincias humanas e sociais. Por um lado, delimitam as pesquisas

    quantitativas como aquelas que privilegiam a relevncia dos objetos materiais e a

    constncia das ocorrncias, entendendo a natureza como uniforme e logicamente

    organizada, utilizando como instrumentos a matemtica e a lgica dedutiva. Por outro,

    demarcam as pesquisas qualitativas como aquelas que privilegiam a construo do

    conhecimento no contato com a realidade nas distintas interaes humanas e sociais,

    onde se busca a interpretao do fato, o sentido do evento, por meio da intuio humana

    e da inferncia interpretativa. (cf. STRAUSS E CORBIN, 2008).

    2 Tipo de estudo que busca descobrir e classificar a relao entre as variveis e investigar a relao das

    causas do fenmeno.

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    Tambm, o debate metodolgico na pesquisa social tem propagado argumentos

    para justificar a utilizao cada vez mais recorrente do mtodo qualitativo por entender

    que este mtodo no emprega, a princpio, um instrumental estatstico como base do

    processo de anlise de um problema, por no ter como objetivo numerar e mensurar

    unidades ou categorias hegemnicas; por possuir uma forma adequada para entender a

    natureza de um fenmeno social; possuindo instrumentos para se compreender aspectos

    psicolgicos cujos dados no podem ser adquiridos por mtodos estatsticos e por

    mergulhar no cotidiano e ambiente dos sujeitos investigados, tomando como referncia

    casos, problemas especficos, sendo usados como indicadores do funcionamento das

    estruturas sociais. (cf. RICHARDSON et al, 2009).

    Outro argumento bastante pertinente e que refora o uso do mtodo qualitativo

    apresentado por Bauer e Gaskell (2010) acerca da perspectiva de superao do paradoxo

    na construo do corpus terico, onde o espao compreendido em duas dimenses:

    estrato ou funes e representaes, quando afirma

    A dimenso horizontal abrange os estratos sociais, funes e categorias que

    so conhecidos e so quase que parte do senso comum: sexo, idade, atividade

    ocupacional, urbano/rural, nvel de renda, religio e assim por diante. Estas

    so variveis segundo as quais os pesquisadores sociais geralmente

    segmentam a populao [...]. O principal interesse dos pesquisadores

    qualitativos na tipificao da variedade de representaes das pessoas no

    seu mundo vivencial. As maneiras como as pessoas se relacionam com os

    objetos no seu mundo vivencial, sua relao sujeito-objeto, observada atravs de conceitos tais como opinies, atitudes, sentimentos, explicaes,

    esteretipos, crenas, identidades, ideologias, discurso, cosmovises, hbitos

    e prticas. Esta a segunda dimenso, ou dimenso vertical de nosso

    esquema. Esta variedade desconhecida e merece ser investigada. As

    representaes so relaes sujeito-objeto particulares, ligadas a um meio

    social. O pesquisador social que entender diferentes ambientes sociais no

    espao social, tipificando estratos sociais e funes [...] (p.57).

    A citao longa, mas a consideramos fundamental, para o entendimento da

    insistncia dos defensores do mtodo qualitativo em estudar as representaes sociais

    em diversos campos do conhecimento das cincias sociais ao longo das ltimas dcadas,

    sobretudo no campo educacional, como veremos mais adiante. Fica ntido o limite das

    relaes das variveis horizontais no entendimento dos problemas sociais. No entanto,

    esta argumentao abre espao para a compreenso de que em determinados objetos

    investigados focar em apenas uma das categorias horizontal ou vertical no seja

    suficiente para se compreender a complexidade da realidade social investigada.

  • 6

    Por essa razo, muitos autores, burlando a tradio, tm defendido a articulao3

    entre os mtodos quantitativos e qualitativos, mesmo cientes de que estes mtodos so

    mais que apenas [diferentes] estratgias de pesquisas e procedimentos de coleta de

    dados. [E que] esses enfoques representam [...] diferentes referenciais epistemolgicos

    no processo de conhecimento dos fenmenos sociais; contudo, entendem que no

    desenvolvimento da pesquisa social no h quantificao sem qualificao e no h

    anlise estatstica sem interpretao (BAUER E GASKELL, 2010, p.29). Argumentam

    tambm a favor, por compreenderem que no processo de pesquisa h instncias de

    integrao entre ambos os mtodos no que se refere ao planejamento da pesquisa, a

    coleta de dados e anlise da informao obtida (RICHARDSON et al, 2009);

    entendendo que a combinao de mtodos pode ser feita por razes suplementares,

    complementares, informativas, de desenvolvimento e outras [...], e que, a contagem,

    mensurao e at mesmo procedimentos estatsticos podem ser teis para suplementar,

    estender ou testar suas formas de pesquisa, atestando que esses mtodos so

    complementares (STRAUSS E CORBIN, 2008, p. 40).

    Esses argumentos de longe no esgotam as discusses, mas so considerados

    referencias no debate metodolgico da pesquisa social acerca do mtodo quantitativo e

    qualitativo. Desvelam os contornos do percurso traado pelo debate em torno dos

    procedimentos metodolgicos nas pesquisas sociais. Entendemos que a construo

    destes argumentos no externa ao contexto histrico-social. Por essa razo,

    passaremos a seguir a tratar da evoluo histrica das tendncias em pesquisa

    qualitativa.

    2 A evoluo histrica das tendncias em pesquisa qualitativa

    Trivios (2008) reconhece na evoluo histrica das tendncias em pesquisa

    qualitativa a existncia de pelo menos duas dificuldades para se definir o entendimento

    3 H trs maneiras segundo Silverman (2009, p. 55) para se articular o mtodo quantitativo e qualitativo:

    usar a pesquisa qualitativa para explorar um tema particular visando a montar um estudo quantitativo;

    comear com um estudo quantitativo a fim de estabelecer uma amostra de respondentes e de estabelecer

    os contornos amplos do campo, e engajar-se em um estudo qualitativo que utilize dados quantitativos para

    localizar os resultados em um contexto mais amplo.

  • 7

    real do que esta representa. Uma dificuldade encontra-se na abrangncia do conceito no

    tocante s suas especificidades de ao e dos limites deste campo de investigao; a

    outra reside na busca de uma concepo precisa da idia de pesquisa qualitativa. Essas

    dificuldades desvelam as tenses tericas subjacentes ao campo, marcado

    tradicionalmente por rupturas metodolgicas e epistemolgicas.

    (cf. Chizzotti, 2006). Mesmo assim, diante deste percurso sinuoso, diversos autores tm

    desenvolvido o esforo de mapear as tendncias da pesquisa qualitativa no campo da

    pesquisa social, entre eles, Denzi e Lincoln (1994), Vidich e Lyman (1994), Bogdan e

    Biklen (1994)4. A rigor estes autores estabeleceram suas delimitaes acerca da

    pesquisa qualitativa tomando como referncia o sculo XX, momento de maior

    expresso deste tipo de pesquisa.

    Vidich e Lyman (1994) optando por uma perspectiva ampla e distinta da

    demarcao habitual das etapas da pesquisa qualitativa; ultrapassam as barreiras do

    sculo XX e XIX, amparando-se nas disciplinas da antropologia e da sociologia por

    meio de um percurso supostamente histrico linear. Apontam como origem da pesquisa

    qualitativa o momento do desenvolvimento da etnografia primitiva demarcada pela

    descoberta do outro; desenvolvendo-se em uma segunda etapa, para um tipo de

    etnografia colonial, caractersticos dos viajantes exploradores dos mundos coloniais

    dos sculos XVII, XVIII e XIX; desdobrando-se numa terceira etapa, a fase da

    etnografia do ndio americano realizada pela antropologia norte-americana do final do

    sculo XIX e comeo do XX; numa quarta etapa, desenvolvida pela etnografia dos

    outros cidados, estudos de comunidades e as etnografias dos imigrantes americanos,

    do incio do sculo XX aos anos de 1960; numa quinta etapa, a recorrncia dos estudos

    sobre a etnicidade e a assimilao, entre os meados do sculo XX e a dcada de 1980; e

    uma sexta etapa, ainda em andamento, marcada pelas mudanas epistemolgicas e

    metodolgicas propostas pela ps-modernidade.

    Bogdan e Biklen (1994), tomando como referencia o campo educacional,

    estabeleceram quatro fases fundamentais no desenvolvimento da pesquisa qualitativa.

    Esses autores, diferentemente de Vidich e Lyman (1994), restringem a sua delimitao

    classificatria aos fins do sculo XIX e o sculo XX, adotando uma perspectiva de

    4 Ver, tambm, conforme Chizzotti (2006): Erikson (1986); Kirk e Miller (1986); Le Compte, Millroy e

    Preissle (1992).

  • 8

    anlise no linear, mas reconhecendo e identificando os elementos caractersticos de

    cada fase potencialmente capazes de influenciar a maneira como se faz pesquisa

    qualitativa atualmente. Para Bogdan e Biklen (1994) as fases da pesquisa qualitativa,

    delimitam-se, num primeiro momento ao final do sculo XIX at a dcada de 1930,

    quando so formulados os primeiros trabalhos qualitativos, adotando como

    instrumentos de pesquisa a observao participante, a entrevista com detalhe e/ou

    documentos pessoais; num segundo momento, compreende o perodo da dcada de

    1930 aos anos de 1950, caracterizado por um declive do enfoque qualitativo; num

    terceiro perodo, da dcada de 1960 influenciado por intensas mudanas sociais

    proporciona o ressurgimento dos mtodos qualitativos; numa quarta fase, a partir dos

    fins dos anos de 1960 e, sobretudo, na dcada de 1970, a pesquisa qualitativa passa a ser

    ascendentemente utilizada por pesquisadores da rea de educao, no se restringindo

    aos socilogos.

    Denzin e Lincoln (1994) distintamente dos autores citados, porm, tomando

    como mesmo norte de referncia o sculo XX, restringem sua classificao a este

    perodo. E semelhantemente a Bogdan e Biklen (1994) no adotam uma perspectiva de

    analise linear, delimitando a evoluo da pesquisa qualitativa em cinco perodos: o

    tradicional (1900-1950), o modernista ou idade do ouro (1950-1970), os gneros

    imprecisos (1970-1986), a crise da representao (1986-1990) e a ps-modernidade

    (1990 at o momento atual). Mesmo com possibilidades e enfoques de classificao

    distintos, mas apresentando a mesma lgica de delimitao; os autores citados parecem

    compartilhar do ponto de vista de que a pesquisa qualitativa tem suas origens nas

    prticas desenvolvidas primeiramente pelos antroplogos e posteriormente pelos

    socilogos, nos estudos realizados acerca da vida em comunidades; somente mais tarde

    esta perspectiva foi introduzida na investigao do campo educacional.

    Com o objetivo de aprofundarmos um pouco mais a discusso, apresentamos a

    seguir um quadro sinttico, com as principais caractersticas das fases da pesquisa

    qualitativa, considerando as contribuies dos autores citados, e tomando como

    referncia a classificao de Denzi e Lincoln (1994), comparando-as com o

    desenvolvimento da pesquisa em educao.

  • 9

    Tabela 1 Tendncias (fases) da pesquisa qualitativa FASES PERODO PESQUISA QUALITATIVA CAMPO EDUCACIONAL

    PERODO TRADICIONAL

    1900-1930

    1930-1950

    Intensificao dos problemas sociais (crises do capitalismo)

    Movimento dos levantamentos sociais desenvolve multimtodos para abordar os problemas sociais articulando o quantitativo e o qualitativo

    Surgem as primeiras discusses prticas da

    pesquisa qualitativa

    Surgimento da antropologia e a influncia da Escola de Chicago estudos etnogrficos

    Hiato na abordagem qualitativa

    Declnio do departamento de sociologia de Chicago

    A pesquisa educacional era monopolizada pela sociologia e

    psicologia da educao

    Interesse inexistente nos mtodos qualitativos; grande nfase da sociologia da educao nos mtodos das cincias naturais e na avaliao quantitativa

    Pouco interesse da Escola de Chicago pela educao

    A pesquisa era restrita a abordagem quantitativa e experimental (grande influncia da psicologia)

    Aumento do interesses dos antroplogos pela educao

    PERODO MODERNISTA

    (IDADE DO OURO)

    1950-1970 Intensas mudanas sociais (auge da Guerra Fria)

    Mtodos qualitativos adquirem popularidade, fase urea, consolida-se como modelo de pesquisa, revigora-

    se o debate quali-quanti

    Modificaes nas disciplinas de Antropologia e sociologia (Etnometodologia)

    Influncia do ps-positivismo, marximo, fenomenologia, hermenutica e teorias crticas

    Emergncia dos problemas educacionais

    Certo interesse dos pesquisadores educacionais e das agncias estatais pelo mtodo qualitativo

    Aumento das pesquisas qualitativas no campo

    PERODO

    GNEROS IMPRECISOS

    1970-1986 Intensificao do debate quali-quanti

    Os pesquisadores quantitativistas reconhecem relativamente a metodologia qualitativa (Clima de dilogo)

    Tenses estilsticas, novas perspectivas emergentes (ps-

    estruturalismo (Barthes), neopositivismo (Philips), neomarxismo (Althusser), descritivsmo micro-macro (Geertz), etnometodologia (Garfinkel)

    Mesmo na marginalidade, a pesquisa qualitativa adquiria maior nmero de adeptos

    Interesse crescente das agncias governamentais da perspectiva qualitativa na rea de avaliao, surgimento da avaliao institucional

    Influncia dos paradigmas ps-positivista e do construtivismo

    PERODO

    CRISE DE REPRESENTAO

    1986-1990 Novos modelos causam a eroso das normas clssicas na antropologia

    Tericos da educao ainda discutem as diferenas entre a investigao quantitativa e qualitativa e suas possibilidades de articulao

    PERODO

    PS-MODERNIDADE

    1990 -... Influncia do feminismo e ps-modernismo

    Uso da TIC na anlise dos dados

    Persistncia da tendncia de formalizao da anlise dos dados nas pesquisas qualitativas

    Fonte: Denzi e Lincoln (1994); Bogdan e Biklen (1994)

  • 10

    Analisando o quadro e ampliando as discusses acerca destas fases, por meio das

    contribuies dos autores citados, pode-se comentar que a primeira fase, o perodo

    tradicional, foi marcada por um contexto histrico que atravessou duas grandes guerras

    e uma grande depresso econmica. E este contexto trouxe inmeras implicaes para a

    pesquisa social, sobretudo na adoo pelo movimento dos levantamentos sociais de

    novas tcnicas de investigao, com a aplicao das metodologias de observao

    participante (LePlay, Frederick - FRA), histria de vida e as entrevistas exaustivas

    (Mayhew, Henry - ING), para investigar uma realidade social mais complexa. Nesta

    fase, destaca-se a tentativa de aplicar o mtodo cientfico ao estudo dos problemas

    sociais, utilizando entrevistas, desenhos e fotografias, articulando a metodologia

    quantitativa e qualitativa. Tambm, com o aparecimento da antropologia e sua

    influncia na Escola de Chicago, desenvolvem-se os fundamentos para se estudar o

    outro, criando mtodos interpretativos realistas, onde o pesquisador assumia uma

    postura emptica com o ambiente, as pessoas e o problema. O que marca esta fase a

    ausncia de interesse do campo educacional nas discusses e desenvolvimento da

    metodologia qualitativa.

    A segunda fase, o perodo modernista, foi enormemente influenciada pelo

    contexto da Guerra Fria e por intensas mudanas sociais. Ficou conhecida como o

    momento ureo da metodologia qualitativa, assinalando-a como modelo de pesquisa.

    Para isso, foram reelaborados os conceitos de objetividade, validade e fidedignidade,

    procurando definir a formalizao e a anlise rigorosa dos estudos qualitativos,

    admitindo-se o discurso da falseabilidade, ps-positivista. Vrias mudanas ocorreram

    nas disciplinas da antropologia e da sociologia contribuindo para que vigorassem os

    mtodos clnicos de observao participante, a coleta partilhada de dados e a

    interpretao participante; a arte de interpretao sobrepuja-se a estatstica. Alm disso,

    o contexto social emergente exigiu uma nova postura dos pesquisadores sociais, frente

    aos problemas sociais, as questes de ordem de emancipao humana e transformao

    social, revigorando o debate qualitativo versus quantitativo. A popularidade da pesquisa

    qualitativa acabou atraindo certo interesse dos pesquisadores educacionais e das

    agncias governamentais de fomento da pesquisa.

    A terceira fase, perodo dos gneros imprecisos, foi marcada inicialmente pela

    ampliao dos investimentos pblicos e privados nas pesquisas. Surgiram novas

    orientaes e paradigmas de pesquisa com a propagao de mtodos e tcnicas de

  • 11

    pesquisa em todas as reas do conhecimento5. No campo educacional os investigadores

    qualitativos realizaram trabalhos de campo, atravs de observao participante,

    entrevistas em profundidade nos locais de investigao, com os sujeitos ou documentos.

    So postas de lado as certezas unvocas da pesquisa em cincia sociais e originam-se

    novos temas e problemas de pesquisa, como classe, gnero, etnia, raa e culturas

    trazendo novas questes terico-metodolgicas aos estudos qualitativos.

    Na quarta fase, perodo da crise da representao, estruturalismo, ps-

    estruturalismo (ps-modernismo) e o feminismo introduzem crticas autoridade

    privilegiada de teorias, certezas, paradigmas, narrativas e mtodos de pesquisa. Destes

    destacam-se as influncias do feminismo, evidenciando os papis psicossexuais nas

    investigaes sociais, os tipos de sujeitos a serem estudados; ressignificam as

    interpretaes das mulheres na sociedade; afetou as questes de ordem metodolgica no

    tocante a questo do poder na relao de entrevista, desenvolvendo a etnografia

    institucional, contribuindo para que os pesquisadores qualitativos revissem suas

    relaes com os sujeitos e reconhecessem as implicaes polticas de suas opes

    metodolgicas. Nesta perspectiva, as pesquisas desvinculam-se dos referenciais

    positivistas direcionando o foco de pesquisa para as questes de ordem local,

    apreendendo os sujeitos no ambiente natural.

    Na quinta fase, o perodo do ps-modernismo, a ascendncia da globalizao, do

    neoliberalismo e o ressurgimento das teses da sociedade do conhecimento e o fim

    das ideologias influenciaram enormemente a pesquisa qualitativa ressignificando as

    metodologias com o entendimento da natureza da interpretao no papel do investigador

    como intrprete, enfatizando a interpretao e a escrita como elementos proeminentes

    da pesquisa. Vrios aspectos so evidenciados, como a posio social do autor da

    pesquisa, a onipotncia do texto cientfico, a credibilidade da transcrio objetiva da

    realidade, a influncia da realidade social sobre o pesquisador, implicando na

    compreenso na perspectiva de que a observao impregnada pela teoria e pelo

    comprometimento do sujeito com determinada realidade.

    Todas essas fases trouxeram contribuies para o entendimento atual da

    pesquisa qualitativa, sendo marcada por rupturas, muitas vezes abruptas, e avanos

    significativos. O que tentamos realizar aqui foi um esboo geral destas tendncias

    5 Estudo de desing, estudo de caso, etnografia (observao participante), fenomenologia

    (etnometodologia), teoria fundamentada, mtodo biogrfico, mtodo histrico, pesquisa clnica.

  • 12

    reduzindo-as a um processo didtico de compreenso, mesmo sabendo das dificuldades

    de mapeamento. Para um melhor entendimento do que seja a pesquisa qualitativa hoje,

    passaremos a seguir, a caracterizar seus principais pressupostos terico-metodolgicos.

    3 Caractersticas da pesquisa qualitativa

    A crescente e recorrente opo dos pesquisadores pelos mtodos qualitativos

    tem levado a literatura acadmica a empreender esforos no sentido de identificar as

    caractersticas peculiares deste mtodo diante do cenrio de inmeras tendncias da

    pesquisa qualitativa e social. Compreendemos que tais caractersticas, permitem, a

    princpio, identificar elementos cristalizados desta metodologia ao longo dos debates e

    discusses sobre a metodologia qualitativa na pesquisa social. Essa tentativa torna-se

    relevante, pelo fato de que entend-las, significa construir diversas possibilidades de

    compreenso e apropriao acerca da lgica de construo das metodologias com o

    objetivo de delimitar o rigor, o contexto, os limites, os avanos e perspectivas das

    pesquisas sociais.

    Neste caso, diversos autores tm apontado que para si fundamentar a opo

    quanto ao mtodo a ser utilizado na pesquisa, necessrio entender a natureza do objeto

    investigado; dentre estes, destacamos Richardson et al (2009), quando afirma sobre a

    pesquisa qualitativa

    Os estudos que empregam uma metodologia qualitativa podem descrever a

    complexidade e classificar processos dinmicos vividos por grupos sociais,

    contribuir no processo de mudana de determinado grupo e possibilitar, em

    maior nvel de profundidade, o entendimento das particularidades do

    comportamento dos indivduos. H, naturalmente, situaes que implicam

    estudos de conotao qualitativa e, nesse sentido, alguns estudiosos tm

    identificado, pelo menos, trs: situaes em que se evidencia a necessidade de substituir uma simples informao estatstica por dados qualitativos [...];

    situaes em que se evidencia a importncia de uma abordagem qualitativa

    para efeito de compreender aspectos psicolgicos cujos dados no podem ser

    coletados de modo completo por outros mtodos [...]; situaes em que

    observaes qualitativas so usadas como indicadores do funcionamento de

    estruturas scias. (p.80).

    Segundo este autor, os argumentos enunciados desvelam aspectos importantes

    da natureza dos objetos que so investigados pela pesquisa qualitativa; no caso dos

  • 13

    estudos comparativos estes so tratados a partir de uma abordagem funcionalista para

    explicar os elementos culturais caractersticos de um grupo; no caso de si tratar de

    estudos sobre a personalidade, atitudes e motivaes; no caso de si tratar da importncia

    das metodologias de observao qualitativa na explicao do funcionamento das

    estruturas sociais, pois podem revelar inesperados resultados, obter informaes sobre

    fenmenos e problemas novos.

    No nosso entendimento, restringir-se apenas a natureza do objeto no

    suficiente, para se caracterizar a pesquisa qualitativa. preciso ter cincia de outros

    elementos integrantes deste processo. A rigor diversos autores tm buscado a

    delimitao e compreenso destes elementos caractersticos do mtodo qualitativo na

    pesquisa social, dentre estes, destacamos: Trivios (2008), Gonzaga (2006) e Bogdan e

    Biklen (1994). Dos autores citados, a contribuio mais relevante para o campo, recai

    sobre os ltimos, por se destacarem historicamente no debate sobre os elementos

    caractersticos da pesquisa qualitativa influenciando inmeros pesquisadores em todo o

    mundo.

    Esses autores concordam, enquanto elementos caractersticos da pesquisa

    qualitativa que:

    1) A pesquisa qualitativa tem o ambiente natural como fonte direta dos dados e o pesquisador como instrumento-chave.

    2) A pesquisa qualitativa descritiva. 3) Os pesquisadores qualitativos esto preocupados com o processo e no

    simplesmente com os resultados e o produto.

    4) Os pesquisadores qualitativos tendem a analisar seus dados indutivamente. 5) O significado de importncia vital na abordagem qualitativa.

    A estes elementos, Gonzaga (2006) acrescenta:

    6) Na pesquisa qualitativa, o pesquisador v o cenrio e as pessoas a partir de uma perspectiva holsticas.

    7) Os pesquisadores qualitativos so sensveis aos efeitos que eles mesmos causam sobre as pessoas que so objetos de seus estudos;

    8) Os pesquisadores qualitativos tratam de compreender as pessoas dentro do marco de referncia delas mesmas.

    9) O pesquisador qualitativo suspende ou afasta suas prprias crenas, perspectivas e predisposies, v as coisas como se estivessem ocorrendo pela primeira vez.

    10) Os mtodos qualitativos so humanistas. 11) Os mtodos qualitativos nos mantm prximos ao mundo emprico. 12) O pesquisador qualitativo um arteso, pois instigado a criar seu prprio

    mtodo.

  • 14

    Alm destas caractersticas, h no campo da pesquisa qualitativa a compreenso

    de que esta abordagem ampla, oferecendo uma variedade de mtodos, dos quais

    mencionamos alguns, apropriando-nos de Gonzaga (2006, p.75): estudos de caso,

    investigao-ao, antropologia cognitiva, anlise de contedo, investigao holstica,

    anlise conversacional, estudos Delphi, pesquisa descritiva, pesquisa direta, anlise

    do discurso, estudo de documentos, psicologia ecolgica, criticismo educativo,

    etnografia educativa, etnometodologia, hermenutica, avaliao interpretrativa, estudos

    sobre biografias ou histrias de vida, pesquisa participante, avaliao qualitativa,

    interacionismo simblico, entre outras. Devido s limitaes do trabalho, no ser

    possvel reportar comentrios a cada tipo de pesquisa enunciado, uma vez que nosso

    intuito o de apenas caracterizar em linhas gerais a pesquisa qualitativa.

    No entendimento de Bauer e Gaskell (2010) a maneira como a pesquisa

    qualitativa vem sendo delineada ao longo de sua evoluo emblemtica, permitiu

    desenvolver algumas possibilidades na elaborao de pesquisas, sobretudo no tocante a

    construo do corpus nas cincias sociais, pois medida que a pesquisa qualitativa vai

    ganhando magnitude crtica, a seleo das entrevistas, dos textos e de outros materiais

    exige um tratamento mais sistemtico comparvel ao da pesquisa por levantamento

    (p.54). Para esses autores, a contribuio da abordagem qualitativa reside no fato de que

    possvel ter um entendimento do corpus como um sistema crescente, desde que

    observados critrios de relevncia, homogeneidade e sincronicidade. Alm disso,

    lembram e acrescentam a perspectiva histrica, pois os materiais estudados devem ser

    escolhidos dentro de um ciclo natural, sincrnicos. A fim de sintetizar as idias

    apresentadas nesta seo, resolvemos trazer em trs anexos, um quadro comparativo das

    principais caractersticas da pesquisa qualitativa. A seguir, abordaremos acerca das

    influncias destas caractersticas da pesquisa qualitativa na pesquisa em educao.

  • 15

    4 O mtodo qualitativo e suas contribuies para a pesquisa em educao

    Cada vez mais a pesquisa educacional ao longo das ltimas dcadas vem sendo

    influenciada pela pesquisa qualitativa. Esse fenmeno, por um lado, pode ser explicado

    pela razo da adoo e interesse mais recorrentes por parte dos pesquisadores em

    educao dos mtodos qualitativos em suas pesquisas; e, por outro lado, pelo

    reconhecimento dos limites do mtodo quantitativo no trato da interpretao dos

    fenmenos educativos, devido s dinmicas que estes tm adquirido na sociedade do

    conhecimento e no mundo globalizado.

    Bogdan e Biklen (1994) apontam trs contribuies da pesquisa qualitativa para

    o campo educacional. A primeira refere-se ao fato de que a pesquisa qualitativa tem

    sido frequentemente usada em estudos que visam melhoria da eficcia do trabalho

    docente. A segunda refere-se ao fato de que a pesquisa qualitativa vem sendo usada nos

    estudos de formao inicial e continuada do professor. A terceira refere-se aos estudos

    acerca de mtodos qualitativos introduzidos, para facilitar a adequao das novas

    propostas curriculares no cotidiano escolar. Essa utilizao almeja tornar os agentes

    docentes, tcnicos administrativos, gestores, discentes, famlias mais prximos do

    processo educacional, refletindo sobre suas prticas cotidianas.

    Tambm, num contexto mais amplo, a pesquisa qualitativa tem contribudo na

    construo de novas abordagens nos estudos acerca do entendimento das polticas

    educacionais. A exemplo, vrios autores, entre eles, Azevedo (2004), propem uma

    interseco de abordagens, para se estudar as representaes sociais dos envolvidos no

    processo educacional. Esta tentativa visa superar, alm dos limites do mtodo

    quantitativo, as abordagens macro-explicativas das polticas educacionais. Assim, esta

    proposta de abordagem de interseo busca entender, atravs do estudo da poltica

    pblica, qual a perspectiva (significado/sentido) de sociedade que os fazedores de uma

    poltica possuem, quando tomam determinadas decises em relao definio e

    formulao da prpria poltica pblica. Procura, tambm, compreender o referencial

    normativo valores que a representao social de toda a sociedade, considerando a

    dimenso cognitiva (conhecimento tcnico-cientfico e a representao social dos

    fazedores da poltica), e instrumental (medidas de adotadas para resolver os problemas

    instituies, princpios, normas, critrios...) do fenmeno da poltica educacional.

  • 16

    Na realidade, a contribuio da pesquisa qualitativa rompe com a abordagem

    seqencial da avaliao das polticas pblicas, uma vez que o foco da pesquisa reside na

    identificao do referencial normativo; como tambm na dinmica que este adquire no

    seu processo de implementao quanto s representaes sociais na qual os seus

    formuladores e implementadores vo apreendendo este processo, entendendo as

    polticas como espaos de disputas para inserir suas estratgias na soluo dos

    problemas indutores destas polticas. Por essa razo, possvel afirmar que esses

    autores propem um percurso metodolgico que provoque uma ruptura paradigmtica,

    migrando de uma anlise pautada na neutralidade, adotada pelo pressuposto positivista;

    para uma anlise baseada numa concepo terico-analtica, que avance, articulando

    alm da anlise dos aspectos macro e micro das polticas pblicas, para a anlise dos

    sentidos que a ao do Estado adquire neste processo.

    Outra contribuio da abordagem qualitativa importante, refere-se ao

    delineamento das discusses, formulaes e implementao das polticas avaliativas

    educacionais no Brasil no contexto das reformas educacionais. No caso da avaliao da

    educao superior, as discusses em torno da qualidade deste nvel de ensino

    potencializaram a avaliao como ferramenta principal da organizao e implementao

    das reformas que marcaram este perodo de reestruturao, desencadeando modificaes

    nos modelos de regulao, gesto e controle da produo acadmica das IES. (cf.

    CATANI, OLIVEIRA E DOURADO, 2004).

    Essas reformas constituram distintas concepes acerca do papel da educao

    superior desvelando tenses paradigmticas6 no campo da avaliao, alterando a

    perspectiva de avaliao institucional7. Essas tenses paradigmticas materializam-se no

    embate entre os que defendem os testes estandardizados e padronizados aplicados pelos

    6 Essa tenso paradigmtica configura a avaliao da educao superior como um campo poltico, pois mais que uma simples confrontao terica ou meramente acadmica de grupos em disputa por uma

    hegemonia semntica, um lugar em que se geram, na concorrncia entre agentes [...] produtos polticos, problemas, programas, anlises, comentrios, conceitos, acontecimentos, entre os quais os cidados

    comuns, reduzidos ao estatuto de consumidores devem escolher (BOURDIEU, 1989, p. 164). Desse modo, observa-se numa perspectiva a preponderncia do controle e verticalizao da qualidade

    articulado ao desempenho e eficincia do sistema de educao superior, reduzindo o conceito de

    avaliao s dimenses de superviso e controle baseado num processo externo de verificao de cursos e

    instituies; e noutra, o exerccio de prticas avaliativas constitudas a partir da horizontalizao da

    qualidade, construdas coletivamente, articulando os processos internos institucionais. 7 Essas tenses desvelam-se nas duas ltimas dcadas em trs momentos distintos da avaliao da educao superior no Brasil, no Programa de Avaliao Institucional das Universidades Brasileiras

    (PAIUB), no Exame Nacional de Cursos (ENC/PROVO), e no Sistema Nacional de Avaliao da

    Educao Superior (SINAES).

  • 17

    governos, baseados no paradigma objetivista/quantitativista (caracterizado pela

    mensurao de desempenho e resultados, com o estabelecimento de hierarquias e

    rankings entre as IES, na nfase ao controle tcnico-burocrtico e aos instrumentos

    elaborados exteriormente, testes de larga escala) e os que defendem a avaliao

    realizada pela comunidade acadmica, baseada no paradigma subjetivista/qualitativo

    (caracterizado pela perspectiva formativa, emancipatria, transformadora, com nfase

    ao respeito identidade institucional e a participao democrtica significando os

    processos e as atividades da comunidade acadmica) (DIAS SOBRINHO, 2004;

    PEIXOTO, 2004).

    Consideraes finais

    Os argumentos acerca da metodologia qualitativa levantados neste trabalho

    desvelam as opes, das quais dispem os pesquisadores sociais, quanto construo

    metodolgica de suas pesquisas. No incio, afirmamos que a complexidade da vida

    social levou vrios pesquisadores a questionarem os mtodos quantitativos. Talvez, no

    seja apenas esta afirmativa a nica parte da verdade; mas, tambm, o reconhecimento

    das limitaes humanas em conhecer a realidade social, tenha contribudo

    decisivamente para o crescimento e consolidao da abordagem qualitativa nas ltimas

    dcadas e sua adoo no campo educacional.

    No entanto, preciso reconhecer que esta opo, quanto aos desvios do mtodo

    quantitativo, no se desenvolveu sem lacunas e obstculos, mesmo sabendo que

    ocorreram inmeros avanos. H ainda uma longa estrada a percorrer, pois existe a

    persistncia da proeminncia do mtodo quantitativo na pesquisa social, sobretudo

    naquelas ligadas diretamente aos interesses de legitimao do Estado e do mercado. A

    forma como as tendncias da pesquisa qualitativa foram delineadas no ltimo sculo,

    demonstram os seus limites, dificuldades, as recusas e os avanos por parte dos

    pesquisadores sociais na aceitao desta via metodolgica.

    Sem dvida, reconhecido que a pesquisa educacional avanou com as

    contribuies do mtodo qualitativo por aproximar pesquisadores dos ambientes de

    pesquisa e de eliminar a frieza e neutralidade dos dados estatsticos, realizando uma

  • 18

    anlise interpretativa de cunho vertical no dizer de Bauer e Gaskell (2010). No entanto,

    esses aspectos tm trazido uma carga de maior responsabilidade dos pesquisadores

    qualitativos, sobretudo no campo da educao. E realizar a pesquisa qualitativa em

    cursos de ps-graduao, que cada vez mais tem seus prazos para a pesquisa reduzidos,

    tem se constitudo um grande desafio ao campo. Outro aspecto importante, que cada

    vez mais perceptvel as possibilidades de articulao entre os mtodos quantitativos e

    qualitativos nas pesquisas. Por fim, compreendemos que a polmicas geradas neste

    debate esto longe do fim e que a cada momento podem surgir rupturas abruptas no

    desenvolvimento metodolgico das pesquisas sociais.

    REFERNCIAS

    AZEVEDO, Janete M. Lins de. A educao como poltica pblica. 3 ed. Campinas,

    SP: Autores associados, 2004.

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    imagem e som: um manual prtico. Traduo de Pedrinho A. Guareschi, 8 Ed.

    Petrpolis, RJ: Vozes, 2010.

    BOGDAN, Robert; BIKLEN, Sari. Investigao qualitativa em educao: uma

    introduo teoria e aos mtodos. Porto, Portugal: Porto Editora, 1994.

    BOURDIEU, Pierre. O poder simblico. Lisboa: Difel, 1989.

    CATANI, Afrnio Mendes; OLIVEIRA, Joo Ferreira; DOURADO, Luiz Fernandes.

    As polticas de gesto e de avaliao acadmica no contexto da reforma da educao

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    (Orgs.) Universidade: polticas, avaliao e trabalho docente. So Paulo: Cortez, 2004.

    CHIZZOTTI, Antnio. Pesquisa qualitativa em cincias humanas e sociais.

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    DENZIN, N; LINCOLN, Y. Entering the Field of qualitative research. In: DENZIN, N

    et al. Handbook of qualitative research. London, Sage 1994.

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    direito pblico ou como mercadoria? Educao & Sociedade, Campinas, vol. 25, n. 88

    p. 703-725, Especial Out. 2004. Disponvel em . Acesso em: ago. 2007.

    GONZAGA, Amarildo Menezes. A pesquisa em educao: um desenho metodolgico

    centrado na abordagem qualitativa. In: PIMENTA, Selma Garrido; GHEDIN, Evandro;

    FRANCO, Maria Amlia Santoro (orgs.). Pesquisa em educao: alternativas

    investigativas com objetos complexos. So Paulo: Edies Loyola, 2006.

  • 19

    GUBA, E; LINCOLN, Y. Competing paradigms in qualitative research. In: DENZIN,

    Norman K. et. Al. Handbook of qualitative research. London, 1994.

    LANKSHEAR, Colin; KNOBEL, Michele. Pesquisa pedaggica: do projeto

    implementao. Traduo Magda Frana Lopes. Porto Alegre: Artmed, 2008.

    PEIXOTO, Maria do Carmo de Lacerda. O debate sobre avaliao da educao

    superior: regulao ou democratizao? In: MANCEBO, Daise; e FVERO, Maria de

    Lourdes de Albuquerque. (Org.). Universidade: polticas, avaliao e trabalho

    docente. So Paulo: Cortez, 2004.

    RICHARDSON, Roberto Jarry. Pesquisa social: mtodos e tcnicas. 3 ed. So Paulo:

    Atlas, 2009.

    SILVA, Antnio Carlos Ribeiro de. Metodologia da pesquisa aplicada

    contabilidade: orientaes de estudos, projetos, relatrios, monografias,

    dissertaes, teses. So Paulo: Atlas, 2003.

    SILVERMAN, David. Interpretao de dados qualitativos: mtodos para anlise

    de entrevistas, textos e interaes. Traduo Magda Frana Lopes. Porto Alegre:

    Artmed, 2009.

    STRAUSS, Anselm; CORBIN, Juliet. Pesquisa qualitativa: tcnicas e procedimentos

    para o desenvolvimento de teoria fundamentada. 2 Ed. Traduo Luciane de

    Oliveira da Rocha. Porto Alegre: Artmed, 2008.

    TRIVIOS, Augusto N. S. Introduo pesquisa em cincias sociais: a pesquisa

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    VIDCH, A. J.; LYMAN, S. M. Qualitative methods. Their hitory in sociology and

    antropology. In: DENZIN, N. K.; LINCOLN, Y. S (orgs.). Handbook of qualitative

    research. Londres, Sage, 1994.

  • 20

    ANEXO 01

    Quadro 1 Expresses, conceitos, afiliao terica e acadmica da pesquisa qualitativa

    Expresses/frases associadas

    com a abordagem

    Etnogrfico; trabalho de campo; dados qualitativos;

    interao simblica; perspectiva interior; naturalista;

    etnometodolgico; descritivo; observao participante;

    fenomenolgico; escola de Chicago; documentrio;

    histria de vida; estudo de caso; ecolgico

    Conceitos-chave associados

    com a abordagem

    Significado; compreenso de senso comum; pr entre

    parnteses; compreenso; definio da situao; vida

    quotidiana; processo; ordem negociada; para todos os

    propsitos prticos; construo social; teoria

    fundamentada

    Afiliao terica Interao simblica; etnometodologia; fenomenologia;

    cultura; idealismo

    Afiliao acadmica Sociologia; histria; antropologia

    Fonte: adaptado de Bogdan e Biklen (1994)

    ANEXO 02

    Quadro 2 Objetivos, plano, propostas de investigao, dados, amostra, tcnicas ou mtodos da pesquisa qualitativa

    Objetivos

    Desenvolver conceitos sensveis; teoria fundamentada;

    descrever realidades mltiplas; desenvolver a

    compreenso

    Plano Progressivo, flexvel, geral; intuio relativa ao modo

    de avanar

    Elaborao das propostas de

    investigao

    Breves; especulativas; sugere reas para as quais a

    investigao possa ser relevante; normalmente escritas

    aps a recolha de alguns dados; parcas em reviso da

    literatura; descrio geral da abordagem

    Dados

    Descritivos; documentos pessoais; notas de campo;

    fotografias; o discurso dos sujeitos; documentos

    oficiais e outros

    Amostra Pequena; no representativa; amostragem terica

    Tcnicas ou mtodos Observao; estudo de vrios documentos; observao

    participante; entrevista aberta

    Fonte: adaptado de Bogdan e Biklen (1994)

  • 21

    ANEXO 03

    Quadro 3 Relao com os sujeitos, instrumentos, anlise dos dados, problemas com o uso da abordagem qualitativa

    Relao com os sujeitos Empatia; nfase na confiana; igualdade; contato

    intenso; o sujeito como amigo

    Instrumentos Gravador; transcrio; frequentemente a pessoa do

    investigador o nico instrumento

    Anlise dos dados Contnua; modelos, temas, conceitos; indutivo; induo

    analtica; mtodo comparativo constante

    Problemas com o uso da

    abordagem

    Demorada; difcil a sntese dos dados; garantia; os

    procedimentos no so estandardizados; dificuldade

    em estudar populaes de grandes dimenses

    Fonte: adaptado de Bogdan e Biklen (1994)

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