Partials - Dan Wells

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    19-Jan-2016

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  • PARTE I

  • RCAPTULO UM

    ecm-nascido #485GA18M, mortoem 30 de junho de 2076, s 6h07 da

    manh. Tinha trs dias de vida. O tempomdio de sobrevivncia de uma criana,no perodo ps-Break, era de cinquentae seis horas. Elas sequer recebiamnomes.

    Kira Walker assistia impotente ao Dr.Skousen examinar o pequeno corpo. Asenfermeiras metade das quaisigualmente grvidas anotavam osdetalhes da vida e da morte do beb,annimas nos macaces e mscaras de

  • gs. A me lamentava desesperadamenteno corredor, o som abafado pelo vidro.Ariel McAdams, mal acabara decompletar dezoito anos. A me de umcadver.

    Temperatura corporal interna 37,2graus ao nascer disse a enfermeira,conferindo os dados no termmetro. Suavoz saa fraca atravs da mscara; Kirano sabia seu nome. Outra enfermeiratranscrevia cuidadosamente os nmerosnuma folha de papel amarelo. Nosegundo dia, 36,7 graus prosseguiu aenfermeira. s quatro da manh dehoje, 37,2. Ao morrer, 43,1. Moviam-se vagarosamente pelo quarto, plidassombras verdes na terra dos mortos.

    S quero segurar meu beb gritou

  • Ariel. A voz spera e embargada. Squero segurar meu beb.

    As enfermeiras a ignoravam. Era oterceiro nascimento da semana, e aterceira morte. Era mais importantedocumentar a morte, para aprender comela e assim prevenir, se no aprxima, ao menos a que viria emseguida, pela centsima ou milionsimavez. Encontrar um meio, seja qual for,de ajudar uma criana a sobreviver.

    Batimento cardaco? perguntououtra voz.

    No posso mais fazer isto, pensouK i r a . Estou aqui para ser umaenfermeira, no um agente funerrio

    Batimento cardaco perguntou

  • novamente a enfermeira Hardy, chefe damaternidade.

    Kira recobrou a ateno; monitorar ocorao era funo dela. Batimentocardaco estvel at s quatro da manhde hoje, saltando de 107 para 133.Batimento cardaco s cinco da manhera de 149. Batimento cardaco s seis,154. Batimento cardaco s 6h06 72.

    Ariel gritou de novo. Meus dados confirmam disse

    outra enfermeira.A enfermeira Hardy anotou os

    nmeros, fechando a cara para Kira. Voc precisa permanecer focada

    disse, rspida. H muitos residentes demedicina que dariam o olho direito paraestar no seu lugar.

  • Kira assentiu com a cabea. Sim, senhora.Dr. Skousen, no centro da sala,

    entregou o beb morto enfermeira etirou a mscara de gs. Seus olhospareciam to mortos quanto a criana.

    tudo que podemos aprender, poragora. Limpem tudo isso e faam umaanlise completa do sangue. Ele saiuda sala e, em volta de Kira, asenfermeiras continuaram o frenesi dasatividades, enrolando o beb para oenterro, esfregando o equipamento,colhendo sangue. A me chorava,esquecida e sozinha Ariel forainseminada artificialmente; no havianem marido nem namorado para

  • confort-la. Kira, obediente, recolheu osrelatrios para serem analisados earquivados, mas no conseguia tirar osolhos da menina que soluava do outrolado do vidro.

    Mantenha a cabea no jogo,estagiria disse a enfermeira Hardy.Ela tambm tirou a mscara, o cabeloempastado de suor na testa. Kira olhou-aem silncio. A enfermeira Hardy aencarou de volta, ento levantou asobrancelha.

    O que o aumento drstico natemperatura nos informa?

    Que o vrus passou do ponto desaturao respondeu Kira, recitandode memria. Ele replicou-se osuficiente para saturar o sistema

  • respiratrio da criana, o corao ficousobrecarregado tentando compensar adeficincia pulmonar.

    A enfermeira Hardy balanou acabea, e, pela primeira vez, Kira notouos olhos vermelhos e irritados da chefe.

    Um dia os pesquisadoresencontraro um padro nestes dados edescobriro a cura. Mas s voconseguir isso se ns? Pausou,esperando, e Kira completou a frase.

    Rastrearmos o curso da doena emcada criana, o melhor possvel, eaprendermos com os nossos erros.

    A descoberta da cura depende dosdados que esto nas suas mos. Aenfermeira Hardy apontou para os

  • papis que Kira segurava. Fracasseem documentar isso e esta criana termorrido em vo.

    Kira balanou a cabea outra vez,arrumando, com indiferena, os papisna pasta suspensa.

    A enfermeira-chefe virou-se de costase Kira tocou-lhe o ombro; quando ficoude frente, Kira no ousou olhar em seusolhos.

    Perdo, senhora, mas se o mdico jexaminou o corpo, Ariel no poderiasegur-lo? S um minutinho?

    A enfermeira Hardy suspirou, ocansao alquebrando sua rgida fachadaprofissional.

    Olhe, Kira disse , sei como vocprogrediu rpido no programa de

  • estgio. Est claro que possui aptidopara a virologia e a anlise RM, mas ahabilidade tcnica apenas metade dotrabalho. Precisa estar preparada,emocionalmente, ou a maternidade vai teengolir. Voc est conosco h trssemanas, esta sua dcima crianamorta. a minha criana nmero 982.Eu me lembro de cada uma delas. Ficou quieta, seu silncio se arrastandopor mais tempo que o esperado porKira. Precisa aprender a seguir emfrente.

    Kira olhou na direo de Ariel,chorando e batendo na janela de vidroespesso. Sei que voc perdeu muitasdelas, senhora. Kira engoliu. Mas

  • esta a primeira de Ariel.A enfermeira Hardy olhou-a

    fixamente por um longo perodo, umasombra distante em seus olhos.Finalmente, virou-se.

    Sandy?Outra jovem enfermeira, que

    carregava o pequeno corpo, levantou oolhar.

    Desembrulhe a beb disse aenfermeira Hardy. A me vai segur-la.

    Kira terminou os relatrios cerca deuma hora depois, bem a tempo decomparecer assembleia no Senado.Marcus a recebeu no saguo de entradacom um beijo, e ela tentou deixar para

  • trs a tenso da noite anterior. Marcussorriu e ela devolveu-lhe um sorrisodelicado. A vida era sempre mais fcilcom ele por perto.

    Deixaram o hospital e Kira piscou aoreceber a exploso de luz natural emseus olhos. O hospital era como umbastio tecnolgico no centro da cidade,to diferente das casas em runas e ruascom o mato alto, que at poderia serconfundido com uma nave espacial.Claro que a pior parte de toda aquelasujeira j havia sido limpa, mas ossinais do Break ainda estavam em todolugar, mesmo onze anos depois: carrosabandonados tornaram-se barracas depeixe e vegetais; os gramados dianteirosforam transformados em hortas e

  • galinheiros. Um mundo outroracivilizado o mundo antigo, o mundoantes do Break era agora uma runaemprestada de uma cultura apenas umdegrau acima da Idade da Pedra. Ospainis solares que alimentavam ohospital eram um luxo que a maior parteda populao de East Meadow apenassonhava possuir.

    Kira chutou uma pedra na rua. Acho que no consigo fazer isso. Voc quer um jinriquix[1]?

    perguntou Marcus. No estamos longedo coliseu.

    No quis dizer caminhar respondeu Kira. Quis dizer o hospital,os bebs. Minha vida. Lembrou-se dos

  • olhos das enfermeiras, sem vida,avermelhados e cansados, toexageradamente cansados. Voc sabequantos bebs vi morrer? perguntoumansamente. Bem ali na minha frente?

    Marcus segurou sua mo. A culpa no sua. Faz alguma diferena de quem a

    culpa? perguntou Kira. Elescontinuaro mortos do mesmo jeito.

    Ningum salvou uma criana desdeo Break disse Marcus , ningum.Voc est estagiando no hospital h trssemanas. No pode ficar se punindo porno fazer algo que nem mesmo osmdicos e pesquisadores tm sidocapazes de fazer.

    Kira parou, encarando-o; ele no

  • poderia estar falando srio. Est tentando me fazer sentir

    melhor? perguntou. Dizer que impossvel salvar a vida de uma criana realmente uma tentativa muito estpidade me confortar.

    Voc sabe que no isso que querodizer disse Marcus. S estoudizendo que no voc, pessoalmente.Foi o vrus RM que matou aquelascrianas, no Kira Walker.

    Kira lanou o olhar ao longo da viaexpressa que se alargava frente deles.

    uma forma de encarar a situao.A multido aumentava medida que

    se aproximavam do coliseu; talvez olocal ficaria cheio, o que no acontecia

  • h meses. A populao no lotava ocoliseu desde que o Senado aprovara altima emenda Lei da Esperana,derrubando a idade de gravidez paradezoito anos. Kira sentiu um inesperadon no estmago e fez uma careta.

    Sobre o que voc acha que estareunio de emergncia?

    Conhecendo o Senado, alguma coisaentediante. Vamos pegar um lugarprximo porta, assim podemos escaparse Kessler comear com outra diatribe.

    Voc no acha que ser importante? perguntou Kira.

    Ser, no mnimo, autoimportante disse Marcus. Sempre se pode confiarno Senado quanto a isso. Ele sorriupara ela, viu o quanto estava sria, e

  • franziu o cenho. Se quer um palpite,diria que vo falar sobre a Voz. Pelamanh, o assunto no laboratrio era queatacaram outra fazenda esta semana.

    Kira olhou para a calada,propositalmente evitando seus olhos.

    Voc acha que vo baixar a idadede gravidez de novo?

    To rpido? perguntou Marcus. Nem se passaram nove meses ainda.No acredito que abaixem a idade maisuma vez antes que as garotas de dezoitodeem a luz.

    Abaixariam disse Kira, aindacabisbaixa. Fariam isso porque a Leida Esperana a nica medida queconhecem para lidar com o problema.

  • Acreditam que se tivermos bebs obastante, um deles estar destinado a serresistente; mas no est funcionando, eno funciona h onze anos. Engravidarum bando de adolescentes no vai mudarnada. Ela soltou a mo de Marcus. a mesma coisa no hospital: eles cuidamdas mes, mantm tudo esterilizado,recolhem todos os dados, e os bebscontinuam morrendo. Sabemosexatamente como morrem. Sabemostanto sobre como eles esto morrendoque s de pensar nisso fico doente. Masno sabemos absolutamente nada sobrecomo salv-los. Engravidamos ummonte de jovens garotas e tudo quevamos conseguir so mais bebs mortose mais cadernos cheios da mesma

  • estatstica exata de como morreram. Ela sentiu a face ruborizar e as lgrimasbrotando em seus olhos. Algumaspessoas olhavam para ela enquantopassavam pela via expressa; muitas dasmulheres estavam grvidas, e Kira sabiaque algumas delas ouviram seudesabafo. Ela engoliu em seco e deu umabrao apertado em si mesma, sentindoraiva e vergonha ao mesmo tempo.

    Marcus aproximou-se e colocou obrao em volta dos ombros de Kira.

    Voc est certa murmurou. Vocest absolutamente certa.

    Ela o abraou. Obrigada.Algum gritou do meio da multido.

  • Kira!Kira levantou o olhar, secando os

    olhos com as costas da mo. Madisonestava acenando animadamente do meioda multido. Kira no conseguiu seguraro sorriso. Madison era dois anos maisvelha, mas haviam crescido juntas,praticamente irms na famliatemporria que as acolhera aps oBreak. Kira levantou a mo e retribuiu oaceno.

    Mads!Madison os alcanou e abraou Kira

    calorosamente. Seu novo marido, Haru,vinha alguns passos atrs. Kira no oconhecia muito bem: ele estava na Redede Defesa quando ela e Madison se

  • conheceram, e s foi transferido para umcargo civil quando eles se casaramalguns meses atrs. Ele apertou a mo deKira e inclinou solenemente a cabeapara Marcus. Kira perguntou-se maisuma vez como Madison havia seapaixonado por algum to srio, masimaginou que todo mundo era srioquando comparado com Marcus.

    Que bom ver voc disse Haru. Voc pode me ver? perguntou

    Marcus, apalpando a si mesmo, emsbito choque. O efeito do elixir deveter vencido! Esta a ltima vez quetroco o almoo com um grilo falante.

    Madison riu, e Haru levantou asobrancelha, confuso. Kira o observava,esperando, at a falta de humor dele ser

  • to engraada que ela no aguentaria etambm explodiria numa risada.

    Como vo vocs? perguntouMadison.

    Sobrevivendo disse Kira. Ouquase isso.

    Madison fez uma careta. Noite difcil na maternidade? Ariel teve o filho.Madison ficou plida e seus olhos

    mergulharam em genuna tristeza. Kirapodia ver o quanto aquilo era dolorosopara a amiga, agora que ela j tinhaquase dezoito. Madison ainda no estavagrvida, mas era apenas uma questo detempo.

    Sinto muito. Vou voltar com voc

  • depois da assembleia para dizer um oia ela e ver se tem algo que eu possafazer.

    uma boa ideia concordou Kira, mas ter que fazer isso sem a minhapresena, temos uma misso de resgatehoje.

    Voc passou a noite toda acordada! protestou Madison. No podemfor-la a participar de uma misso.

    Vou tirar um cochilo antes de sair disse Kira. Preciso ir. O trabalho temsido muito desgastante e posso mebeneficiar com a mudana de ritmo.Alm disso, preciso provar a Skousenque sou capaz. Se a Rede de Defesaquer uma mdica na sua equipe deresgate, ento serei a melhor mdica que

  • eles j tiveram, pode apostar. Eles tm sorte de contar com voc

    disse Madison, abraando-a outra vez. O Jayden vai?

    Kira fez que sim com a cabea. o sargento no comando.Madison sorriu. D um abrao nele por mim.Jayden e Madison eram irmos

    irmos de sangue, no adotivos , osnicos parentes diretos que sobraram nomundo. Diziam que eles eram o indciode que a imunidade ao RM poderia serhereditria, o que tornava ainda maisfrustrante o fato de que nenhum recm-nascido, at o momento, fosse imune aovrus. Na opinio de Kira, era mais

  • provvel que o caso de Madison eJayden fosse uma anomalia que talvezjamais se repetisse.

    Jayden era tambm um dos humanosmais atraentes deixados no planeta,como Kira quase sempre comentava comMadison. Kira lanou a Marcus umolhar travesso.

    S um abrao? Eu poderiatransmitir a ele um beijo ou dois.

    Marcus olhou meio sem jeito paraHaru.

    Ento, alguma ideia sobre o que vaiser a reunio?

    Kira e Madison riram, e ela suspiroude alegria. Madison sempre a faziasentir-se melhor.

    Esto fechando a escola disse

  • Haru. Os garotos mais novos da ilhaesto completando catorze anos, e agorapraticamente h mais professores quealunos. Acho que todos vo se formar,mais cedo, em cursosprofissionalizantes, e vo enviar osprofessores para algum lugar onde sejammais teis.

    Voc acha? perguntou Kira.Haru deu de ombros. o que eu faria. Provavelmente vo ficar

    tagarelando sobre os Partials, de novo disse Madison. Os senadores noconseguem permanecer de boca caladaquando o assunto esse.

    E voc pode culp-los? perguntou

  • Haru. Os Partials mataram todos sobrea face da Terra.

    Com exceo deste que vos fala disse Marcus.

    No estou dizendo que eles noeram perigosos disse Madison , masj se passaram onze anos desde queforam vistos pela ltima vez. A vidacontinua. Alm disso, est claro queagora temos problemas maiores paraenfrentar. Acho que vo falar sobre aVoz.

    Vamos descobrir muito em breve,acredito disse Kira, apontando acabea na direo norte; o coliseu eravisvel logo alm das rvores. O Senadotinha seu prprio prdio, sem dvida,numa prefeitura de verdade, mas

  • assembleias como esta, quando a cidadeinteira era convocada a comparecer,eram realizadas no coliseu. O localraramente recebia pessoas o suficientepara lotar suas dependncias, mas osmais velhos contavam que elecostumava ficar cheio, nos velhostempos, quando era usado para esportes.Antes do Break.

    Kira tinha apenas cinco anos noBreak; a maioria das coisas sobre ovelho mundo ela sequer se lembrava, eno confiava em metade do quelembrava. Recordava-se do pai, o rostoescuro e os cabelos negrosdesalinhados, a armao grossa dosculos empurrada at a base do nariz.

  • Viviam numa casa de dois nveis elaestava quase certa de que era amarela e quando fez trs anos, ganhou uma festade aniversrio. No tinha nenhum amigoda sua idade, por isso no haviacrianas na festa, mas a maioria dosamigos do seu pai estava l. Recordou-se da caixa de brinquedos cheia deanimais de pelcia, e que queria mostr-los para todos. Ento ofegou e fez fora,empurrando a caixa pelo corredor. Nasua cabea, parecia ter se passado meiahora ou mais, mas ela sabia que nopoderia ter levado tanto tempo assim.Quando finalmente alcanou a sala deestar, gritou para todos olharem, seu pairiu e a repreendeu, levando tudo devolta para o quarto. Todo seu esforo

  • virou p, em segundos. A lembrana noa incomodava; jamais pensou no paicomo um homem mau ou injusto. Eraapenas uma lembrana, uma das poucosque ela tinha da sua vida no velhomundo.

    A multido estava agora maior, aspessoas se espremiam ao passarempelas rvores ao redor do coliseu. Kirasegurava firme em Marcus com uma moe em Madison com a outra. Haru osseguia como o final de uma correntehumana. Eles abriram caminho atravsda massa de pessoas e encontraram umafileira de lugares vazios perto daporta, como Marcus queria. Kira sabiaque ele tinha razo: se o senador

  • Kessler embarcasse em mais umdiscurso bombstico, ou se o senadorLefou comeasse a falar sobre o horriodos carregamentos ou qualquer outroassunto enfadonho em que ele estivesseenvolvido naquele ms, eles precisariamde um meio fcil para dar o fora.Comparecimento compulsivo era umacoisa, mas depois que o assuntoimportante estivesse terminado, eles noseriam os nicos a ir embora cedo.

    Enquanto os senadores lotavam otablado no centro do coliseu, Kiramexia-se desconfortavelmente no seulugar, ponderando se Haru estaria certo.Havia um total de vinte senadores e Kirareconhecia cada um deles, embora nosoubesse seus nomes. Um dos homens,

  • entretanto, era novo: alto, escuro,robusto. Estava parado como um oficialdo exrcito, mas seu terno era simples ede um civil. Ele cochichou algo para oDr. Skousen, o senador representante dohospital; ento misturou-se multido.

    Bom dia.A voz ressoou pelo imponente

    estdio, ecoando atravs dos alto-falantes e escapando pelo teto. O centrodo coliseu iluminou-se com umagigantesca imagem hologrfica dosenador Hobb. Havia vinte senadores,mas eles sempre deixavam Hobbassumir a liderana nas assembleiasfazendo os comentrios iniciais etransmitindo a maioria dos avisos. Ele

  • definitivamente era o mais encantador. A assembleia est aberta

    continuou o senador Hobb. Estamostodos muito contentes de v-los aqui; importante que vocs participem dogoverno, e estas reunies abertas so amelhor maneira de cada um se manterconectado. Neste momento, gostaramosde fazer um agradecimento especial Rede de Defesa de Long Island,particularmente ao sargento Stewart esua equipe, por girarem manualmente asmanivelas dos geradores noite todaaqui no coliseu. Como havamosprometido, estas reunies nunca retirame nunca iro retirar energia dacomunidade. Houve poucos aplausos eHobb sorriu gentilmente enquanto

  • esperava o som das palmas desaparecer. Bem, vamos comear com nossa

    primeira ordem do dia. Srta. Rimas,poderia se juntar a mim na tribuna?

    So as escolas disse Kira. Eu disse falou Haru.A Srta. Rimas era a chefe do sistema

    escolar de East Meadow, que foiminguando com o tempo, at sobrar umanica escola na qual agora atuava comodiretora. Kira ouvia com a mo sobre aboca enquanto a senhora falavaorgulhosamente do trabalho que suasprofessoras realizavam, o sucesso que osistema demonstrara ao longo dos anos eas grandes conquistas dos alunosformados. Era uma despedida, um olhar

  • retrospectivo triunfante sobre o trabalhorduo e a dedicao das professoras,mas Kira no conseguia evitar o enjoo.No importava como a histria eracontada, o quanto tentavam enfatizar olado positivo, a verdade nua e crua erasimplesmente que no havia maiscrianas. Estavam fechando a escolaporque ficaram sem crianas. Asprofessoras tinham feito seu trabalho,mas os mdicos no.

    O ser humano mais novo no planeta,at onde todos sabiam, completariaquatorze anos em um ms. Era possvela existncia de sobreviventes em outroscontinentes, mas ningum conseguirafazer contato com eles. Com o passar dotempo os refugiados em Long Island

  • acabaram por acreditar que estavamsozinhos e que o mais novo deles era omais novo do mundo. Seu nome eraSaladin. Quando o trouxeram para opalco, Kira no conseguiu conter aslgrimas.

    Marcus a enlaou e juntos ouviram osdiscursos e as congratulaes. Os alunosmais novos estavam sendo levadosprecocemente para os cursosprofissionalizantes, como Haru haviaprevisto. Dez deles haviam sido aceitosno programa pr-mdico que Kiraacabara de concluir; em um ano ou doiscomeariam a estagiar no hospital,assim como ela. Alguma coisa seriadiferente, ento? Os bebs continuariam

  • morrendo? As enfermeiras continuariamassistindo-os morrer e documentando asestatsticas e os embrulhando para oenterro? Quando tudo isso terminaria?

    Enquanto cada professor ficava em ppara dizer adeus e desejar aos alunosseus melhores votos, o coliseupermaneceu silencioso, quase reverente.Kira sabia que as outras pessoasestavam pensando o mesmo que ela. Ofechamento das escolas era como oencerramento do passado, a conscinciafinal de que o mundo estava acabando.Quarenta mil pessoas deixadas noplaneta e nenhuma criana. E nenhumaperspectiva de que algum dia elasressurgiriam.

    A ltima professora falou

  • calmamente, despedindo-se de seusalunos, entre lgrimas. As professorastambm estavam entrando para asescolas profissionalizantes, mudando deemprego e de vida. Esta ltimaprofessora ir juntar-se a Saladin naComisso de Animais, treinandocavalos, cachorros e guias. Kira sorriuao ouvir aquilo. Se era preciso queSaladin crescesse, pelo menos poderiacontinuar brincando com um cachorro.

    A ltima professora sentou-se e osenador Hobb caminhou at omicrofone, mantendo-se calmo sob a luzdo holofote. Sua imagem tomou todo ocoliseu, solene e perturbado. Manteve-se imvel por um momento, recolhendo

  • os pensamentos, ento olhou para opblico com olhos azuis cristalinos.

    As coisas no precisavam serassim.

    A multido murmurou, um barulhocorreu o estdio como uma onda,enquanto as pessoas sussurravam e seentreolhavam. Kira percebeu queMarcus olhava para ela, segurou firme amo dele e manteve os olhos grudadosno senador Hobb.

    A escola no precisa fechar dissecalmamente. Mal temos vinte crianasem idade escolar em East Meadow, masna ilha inteira existem mais. Muito mais.Uma fazenda em Jamesport tem dezcrianas, quase to jovens quantoSaladin, eu mesmo as vi. Segurei suas

  • mos. Implorei para que viessem parac, onde seguro, onde a Rede deDefesa pode proteg-las, mas novieram. As pessoas que esto com elas,seus pais adotivos, no permitiram. Eapenas uma semana depois da minhapartida, apenas dois dias atrs, a Voz, asuposta voz do povo, atacou a fazenda. O senador fez uma pausa para serecompor. Enviamos soldados pararecuperar o que for possvel, mas temopelo pior.

    O holograma do senador Hobbobservou atentamente o coliseu,atravessando as pessoas com seu olharintenso.

    Onze anos atrs, os Partials

  • tentaram nos destruir, e eles fizeram umtrabalho dos diabos. Ns os construmospara serem mais fortes que ns, maisrpidos que ns, para lutar por ns naguerra de isolamento. Eles no tiveram amenor dificuldade em ganhar aquelaguerra, e quando se voltaram contra ns,cinco anos mais tarde, no precisaramde muito tempo para nos varrer da facedo planeta, especialmente depois delanarem o vrus RM. Aqueles quesobreviveram vieram para esta ilha, semnada: quebrados, fragmentados,mergulhados no desespero. Massobrevivemos. Reconstrumos.Estabelecemos um permetro defensivo.Encontramos comida e abrigo, criamosenergia e estabelecemos um governo e

  • uma civilizao. Quando descobrimosque o RM no pararia de matar nossascrianas, aprovamos a Lei da Esperanapara maximizar nossas chances de dar luz uma nova gerao de humanosresistentes ao vrus. Graas a essa lei ea nossa incansvel fora mdica,estamos cada dia mais perto de realizaresse sonho.

    O senador Hodd acenou com a cabeapara o Dr. Skousen, sentando ao ladodele na tribuna, ento levantounovamente o olhar. Seus olhos estavamsombrios e solenes.

    Mas, no meio do caminho, algoaconteceu. Alguns decidiram se separarde ns. Alguns se esqueceram do

  • inimigo que continua espreita nocontinente, observando-nos eaguardando, e se esqueceram do inimigoque impregna o ar que nos rodeia,impregna nosso prprio sangue, matandonossas crianas, como matou tantos dosnossos familiares e amigos. Agora,alguns decidiram que a civilizao queconstrumos para nos proteger , dealguma forma, nosso inimigo. H algumtempo a nossa batalha ainda era peloque nosso, agora enfrentamos uns aosoutros. Desde a aprovao da Lei daEsperana, h dois anos, a Voz, essesgngsteres, esses criminosos armados,sob o disfarce zombeteiro derevolucionrios, tm incendiado nossasfazendas, saqueado nossas lojas,

  • assassinado seus prprios irmos eirms, mes e pais e, Deus nos ajude,suas prprias crianas. Porque istoque somos: somos uma famlia. Nopodemos pagar o preo de brigarmosentre ns. E seja qual for a motivaoque os alimenta, qual a bandeira quelevantem, a Voz, vamos cham-los doque realmente so: brbaros. Eles estoapenas terminando o trabalho que osPartials comearam. E no vamospermitir que faam isso. Sua voz eradura, a fora da pura determinao. Somos uma nica nao, um nico povo,uma s vontade. Houve uma pausa. Ou de veramos ser. Gostaria detransmitir notcias mais animadoras, mas

  • a Rede de Defesa encontrou uma equipede ataque da Voz saqueando um depsitode mantimentos, ontem noite. Queremsaber onde? Conseguem adivinhar?

    Algumas pessoas na multidogritaram, a maior parte apostando nasfazendas das cercanias e nas vilas depescadores, mas a gigantesca imagemhologrfica balanou a cabea,tristemente. Kira olhou para o homem decarne e osso, l embaixo, uma figuraminscula metida num terno marromsurrado, que sob a luz do holofote eraquase branco. Ele virou-se lentamente,balanando a cabea, enquanto amultido gritava o nome de localidadesde todas as partes da ilha. O senador,imvel, apontou para o cho.

  • Aqui mesmo disse. Na verdade,logo ali, ao sul da via expressa, naantiga escola Kellenberg. Foi um ataquede pequenas propores, mas, mesmoassim, eles estavam bem ali. Quantos devocs vivem prximo dali? Elelevantou a mo, assentindo com acabea para os outros na multido queigualmente levantavam a deles. Sim disse , vocs moram bem ali. Eu moroali, o corao da nossa comunidade. AVoz j no est mais na floresta, estbem aqui, em East Meadow, em nossaprpria vizinhana. Eles querem nosseparar de dentro para fora, mas novamos permitir que consigam!

    A Voz se ope Lei da Esperana

  • prosseguiu o senador. Chamam isso detirania, chamam isso de fascismo,chamam isso de controle. Ns achamamos de nossa nica chance.Queremos oferecer um futuro humanidade; eles querem viver nopresente, fazer tudo o que querem ematar qualquer um que tente impedi-los.Isso liberdade? Se aprendemos algumacoisa nesses ltimos onze anos, meusamigos, que a liberdade umaresponsabilidade a ser merecida, nouma licena para a imprudncia e aanarquia. Se algum dia finalmentesucumbirmos, apesar de nossosferrenhos esforos e de nossa maisprofunda determinao, que seja porquenossos inimigos, por fim, nos derrotaram

  • e no porque ns mesmos nosderrotamos.

    Kira ouvia em silncio, envolvida nagravidade do discurso. Ela no sedeleitava com a ideia de engravidar torapidamente em menos de dois anosatingiria a idade , mas sabia que oSenado estava certo. O futuro era acoisa mais importante, certamente maisimportante do que a hesitao de umagarota diante do prximo passo.

    A voz do senador Hobb era macia,inflexvel e resoluta. A Voz discordada Lei da Esperana e decidiu expressarseu descontentamento usando oassassinato, o roubo e o terrorismo. Elestm o direito de discordar; o problema

  • so os mtodos que empregam. Haviaoutro grupo que empregava os mesmosmtodos um grupo que no estavasatisfeito com a situao e decidiramrebelar-se. Eles se chamavam Partials.A diferena que os Partials nopensavam, no sentiam, eram assassinosno humanos. Matavam porque ns osconstrumos para isso. Os membros daVoz so humanos e, de certa forma, issoos torna ainda mais perigosos.

    A multido murmurou. O senadorHobb baixou o olhar, limpou a gargantae continuou.

    Existem coisas mais importantesque ns mesmos, mais importantes queos limites do presente e os caprichos doagora. H um futuro a ser construdo e

  • protegido. E caso queiramos tornar essefuturo uma realidade, precisamos pararde brigar entre ns. Temos que dar umbasta nas divergncias, onde elasestiverem. necessrio voltarmos aconfiar no outro. O que estamos tratandoaqui no diz respeito ao Senado ou cidade, no sobre a cidade e asfazendas, nem sobre um pequeno grupoou faco. Somos ns. Toda a raahumana, unida numa s. H pessoas lfora que querem nos reduzir a migalhas,mas no vamos permitir que issoacontea!

    A multido clamou de novo, e destavez Kira uniu-se a eles. Ainda quegritasse com os outros, no conseguia se

  • livrar de uma inesperada sensao demedo, como dedos gelados apertandosua garganta.

  • E

    CAPTULO DOIS

    st atrasada, Walker.Kira manteve o passo no

    mesmo ritmo, observando orosto de Jayden enquanto caminhavadespreocupadamente at a carroa. Erato parecido com Madison!

    Qual o problema? perguntou Kira. Os soldados no precisam maisparticipar das assembleiascompulsrias?

    Obrigado pela atitude disseJayden, deitando o rifle contra o ombro. um prazer contar com ambos nesta

  • ronda: voc e sua sagacidade.Kira imitou uma arma com o polegar

    e o indicador e disparou no rosto dele,silenciosamente.

    Aonde vamos desta vez? A uma pequena cidade chamada

    Asharoken.Ele a ajudou a subir na traseira da

    carroa metlica, j abarrotada commais dez soldados e dois geradoresportteis, o que significava que elaprovavelmente iria a campo testar comum dos geradores algum velhoequipamento e decidir se valia a penatraz-lo de volta. Havia dois outroscivis, um homem e uma mulher, quedeveriam estar ali para testar, sozinhos,o outro gerador em algum equipamento.

  • Jayden encostou-se na lateral dacarroa. Por Deus, esta ilha tem acidade com o nome mais esquisito quej ouvi.

    Rapazes, vocs esto armadoscontra ursos? perguntou Kira, olhandopara os pesados fuzis dos soldados.Estavam sempre armados quando saiamdos limites da cidade mesmo Kiracarregava um fuzil pendurado no ombro, mas hoje pareciam prontos para aguerra. Um dos soldados carregava umcilindro comprido, que ela reconheceucomo um lanador de granadas. Kiraachou um lugar vazio e acomodou abolsa e seu kit mdico embaixo dos ps.

    Esperando encontrar bandidos?

  • Costa Norte disse Jayden. Kiraempalideceu. A Costa Norte erapraticamente deserta e por isso mesmoum territrio da Voz.

    Valncio, est atrasado! gritouJayden. Kira levantou os olhos e sorriu.

    Oi, Marcus. H quanto tempo.Marcus abriu um sorriso largo e

    saltou para dentro da carroceria. Desculpe pelo atraso, Jayden. Tive

    uma reunio mais enfadonha do queesperava. No final, o clima estava muitoquente e todo mundo suado. Voc foi umdos assuntos principais, entre um acessoe outro de paixo

    Pule para a parte em que elas falam

  • da minha me disse Jayden , e euentro com a parte em que mando vocpara o inferno. Depois podemos voltarao trabalho. para isso que estamosaqui.

    Sua me morreu de RM onze anosatrs disse Marcus, o rostoestampando uma mscara de falsohorror. Voc tinha quanto, seis anos?Isso seria muito baixo da minha parte.

    E a sua me j deve estar no infernouma hora dessas disse Jayden. Tenhocerteza de que voc vai v-la em breve.Babaca.

    Kira franziu o cenho ao ouvir oinsulto, mas Marcus deu um sorrisoafetado, olhando para as outras pessoasna carroa.

  • Dez soldados, hum? Qual a ronda? Costa Norte disse Kira.Marcus assobiou. Eu aqui pensando que no iramos

    nos divertir. Acredito que todos osoutros locais j estejam limpos a estahora, certo? Olhou para os dois civisna outra ponta da carroa. Desculpe,mas no reconheo nenhum de vocs.

    Andrew Turner disse o homem,estendendo a mo. Ele era bem maisvelho, quase cinquenta anos, o solcomeando a queimar o couro cabeludoatravs dos cabelos ralos. Eletricista.

    Prazer em conhec-lo disseMarcus, apertando sua mo.

    A mulher sorriu e acenou.

  • Gianna Cantrell. Trabalho comcincias da computao.

    Ela tambm era mais velha, no tantoquanto Turner. Kira lhe daria uns trinta ecinco idade o bastante para estarenvolvida com cincias da computaomuito antes do Break. Kira olhou para oventre da mulher, num gesto quaseautomtico, que ela s se deu contadepois; mas claro que no estavagrvida! As rondas de resgate eramperigosas demais para colocar a vida deuma criana em risco. Elaprovavelmente estaria entre um ciclomenstrual e outro.

    Um grupo interessante disseMarcus. Ele olhou para Jayden. Qual o

  • problema com esse lugar? Os patrulheiros estiveram na regio

    dias atrs disse Jayden. Encontraramuma clnica, uma farmcia e umaestao do tempo, seja l o que issosignifica. Agora tenho que fazer todo ocaminho de volta at l numa corridade coelho. Voc pode imaginar a minhaalegria. Ele caminhou para a frente dacarroa e sentou-se ao lado dacondutora, uma garota que Kira viraalgumas vezes ainda um ano ou doisabaixo da idade de engravidar, o que adeixava apta para estar na ativa. Pronto, Yoon, vamos.

    A garota balanou as rdeas algumasvezes e deu um comando de voz para osquatro cavalos. A Rede de Defesa

  • possua alguns carros eltricos, masnenhum forte o suficiente paratransportar, com alguma eficcia, umacarga to pesada. A energia era um bemprecioso e cavalos eram baratos, porisso os melhores motores eltricos eramdestinados a outras finalidades. Acarroa partiu num sacolejo e Kiracolocou o brao atrs de Marcus parasegurar-se na lateral do veculo. Marcuspressionou o corpo contra o dela,aproximando-se ainda mais.

    Oi, querida. Oi.Andrew Turner olhou para eles. Corrida de coelho? uma gria para misso de resgate,

  • com especialistas como vocs em vez desoldados da infantaria. Kira olhoupara o homem cada vez mais queimadode sol. Nunca participou de uma?

    Fiz muitos salvamentos numprimeiro momento, como todo mundo,mas depois de um ano, fui enviado paratrabalhar com painis solares em tempointegral.

    Corridas de coelho so simples. ACosta Norte assusta um pouco, masvamos ficar bem. Ele olhou em volta esorriu. Mas as condies das ruas forado povoado no so das melhores. Porisso, aproveite o conforto enquantopode.

    Mantiveram-se em silncio por algumtempo, o vento atravessando a carroa

  • descoberta e esvoaando o rabo decavalo de Kira na direo de Marcus.Ela inclinou-se para a frente, deixandoos cabelos roarem freneticamente norosto dele. Marcus ria enquanto tentavapronunciar algumas palavras e afastar oscabelos que roavam seu rosto. Ele fezccegas em Kira e, ao inclinar-se paratrs, a jovem chocou-se com um dossoldados. Ele sorriu, sem jeito. Semdvida, um rapaz da mesma idadesentia-se satisfeito em ter uma garotapraticamente sentada no seu colo. Noentanto, o soldado no disse uma nicapalavra. Kira voltou a se acomodar noseu lugar, prendendo o riso.

    O soldado ao lado de Kira gritou um

  • alerta. ltimo marcador. Olhos abertos!Os soldados sentados no cho da

    carroceria endireitaram-se, segurando asarmas mais prximas do corpo, eolharam para os prdios em volta, com aateno de uma guia.

    Kira virou-se, observando a vasta edesabitada cidade se revelando diantede seus olhos parecia vazia, eprovavelmente estava, mas todo cuidadoera pouco. Os marcadores sinalizavamos limites do povoado de East Meadowe da regio que o exrcito conseguiapatrulhar com certa eficincia, masestava longe de ser o limite de uma reaurbana. A cidade do velho mundoestendia-se por quilmetros em todas as

  • direes, cobrindo quase todo oterritrio de uma costa outra da ilha. Amaioria dos sobreviventes vivia em EastMeadow, ou mais a oeste, numa basemilitar, mas havia saqueadores,vagabundos, bandidos e tipos pioresespalhados pela ilha. A Voz tornara-se amaior ameaa, porm, estava longe deser a nica.

    Mesmo fora dos limites de EastMeadow, as ruas eram bastanteutilizadas e estavam razoavelmentedesobstrudas. Claro que havia lixo,lama, folhas e os eventuais entulhos danatureza, mas a regularidade do trfegomantinha o asfalto, at certo ponto,limpo do mato. Raras vezes a carroa

  • dava um solavanco, ao cair num sulcoprofundo ou numa depresso. Osdomnios alm do meio-fio eram outrahistria: onze anos de abandonodeixaram a cidade em runas, as casascaindo aos pedaos, as caladasesburacadas e deformadas pelasvigorosas razes das rvores. As ervasdaninhas cresciam por toda parte, e umavasta massa de kudzu[2] cobria tudocomo um carpete. J no haviagramados, nem jardins, ou vidros emquaisquer janelas. Mesmo as ruassecundrias, menos usadas que asprincipais, encontravam-seentrecruzadas com linhas verdes. Aospoucos a Me Natureza reclamava tudoque o velho mundo havia lhe roubado.

  • De certa forma, Kira gostava quefosse assim. Ningum dissera naturezao que fazer.

    Seguiram em silncio por mais algumtempo; ento um dos soldados apontoupara o norte e berrou.

    Ratos!Kira virou-se, esquadrinhando a

    cidade, e logo percebeu um movimentocom o canto dos olhos um nibusescolar, as laterais carregadas combugigangas, o teto com caixas altasempilhadas e engradados, sacos emoblia, tudo amarrado precariamentecom dezenas de metros de corda. Haviaum homem parado ao lado do nibus,tirando gasolina de um carro com uma

  • mangueira; dois adolescentes ao ladodele. Kira imaginou que tivessem entrequinze e dezesseis anos.

    Cara, ele ainda usa gasolina disseMarcus.

    Talvez tenha encontrado uma formade filtr-la observou Gianna,examinando o nibus com interesse. Muitas comunidades fora de EastMeadow usam gasolina. Ela estraga omotor, mas pelo jeito vo continuarrodando pela ilha por um tempo.

    Eles deveriam se mudar para acidade disse Turner. Morar numacasa de verdade, ter eletricidade esegurana bem, tudo.

    Tudo menos mobilidade, anonimatoe liberdade retrucou Gianna.

  • Como assim, liberdade? perguntou o soldado sentado ao lado deKira. O nome no distintivo dizia:BROWN. Ns temos liberdade. O queele tem anarquia.

    Ns temos segurana, voc querdizer disse Gianna.

    O soldado Brown levantou o fuzil e osegurou de forma a avaliar o seu peso.

    Que nome d para isto? As comunidades maiores foram as

    primeiras a tombarem durante a revoltados Partials respondeu Gianna. Centros populacionais so alvos fceis.Se os Partials, seja l onde estiverem,desenvolverem uma nova cepa do RMque vena nossa imunidade, as armas

  • no tero o menor efeito contra ela. Umarea como East Meadow seria o piorlugar para algum estar.

    OK, obrigado disse Brown. Fico contente quando algum valoriza ofato de eu colocar minha vida em risco.

    No estou dizendo que noreconheo o seu trabalho respondeuGianna. S estou dizendo que bem,acabei de dizer o que estou dizendo.Obviamente escolhi viver em EastMeadow. Apenas acho que ele deve terseus motivos para no ter feito a mesmaescolha.

    Deve ser um membro da Voz rosnou outro soldado. Criando osfilhos para serem espies ou assassinos,ou s o diabo sabe o qu.

  • O soldado Brown xingou o homem emaltos brados. Kira virou-se para o outrolado, ignorando-os e sentindo o vento norosto. Tinha ouvido o suficiente dessasdiscusses para durar uma vida inteira.O dia estava quente, mas o vento otornava agradvel, e ela nuncadesperdiava a oportunidade de aninhar-se em Marcus. Kira pensou sobre a noitepassada e aquela manh, sobre a crianamorta e em tudo o mais. Como eramesmo que meu pai costumava dizer?,pensou. Sou mais forte que minhasprovaes.

    Sou mais forte que minhasprovaes.

  • CCAPTULO TRS

    hegaram a Asharoken algumas horasdepois, o cu j comeava a

    escurecer. Kira torcia para queterminassem rapidamente o resgate eacampassem em algum lugar distante dacosta. Asharoken era mais um bairro doque uma cidade, conectado com o restoda ilha por uma massa contnua decasas, ruas e prdios. Kira entendeu, deimediato, por que as patrulhas evitaramaquele lugar por tanto tempo era umistmo estendendo-se ao norte da ilha, deum lado o mar, do outro a baa. Uma

  • praia deixava as pessoas nervosas osuficiente; duas eram insuportveis.

    A carroa parou na frente de umapequena clnica veterinria. Marcusrosnou.

    Voc no contou que era umaclnica para ces, Jayden. O que vamosencontrar aqui?

    Jayden saltou da carroa. Se eu soubesse, eu mesmo teria

    feito o servio quando estive aqui, doisdias atrs. Os patrulheiros encontraramremdios e uma mquina de raios X.Faa seu trabalho.

    Marcus saltou para a rua, e ambos,ele e Jayden, estenderam as mos paraajudar Kira a descer. Numa travessura,ela aceitou as duas mos. Por dentro ela

  • ria, enquanto eles a ajudavam a descer,ambos de cara fechada.

    Sparks, Brown, vocs vo na frente gritou Jayden, e metade dos soldadossaltou da carroa, arrastando consigo umdos geradores. Paterson, voc e suaequipe cuidem da segurana eacompanhem os mdicos at o prximolocal. Pelo jeito, algum passou por aquiontem; no quero nenhum tipo desurpresa.

    Como sabe que algum esteve aqui? perguntou Kira.

    Olhos, crebro e um corte de cabelode arrasar disse Jayden. Deve serapenas um rato, mas no vou dar sopapara o azar nesta droga de Costa Norte.

  • Se encontrar alguma coisa boa l dentro,prepare para o transporte. Pegamos navolta. Vou levar minha equipe para onorte, no ponto trs. Patterson, queroreceber um sinal seu a cada quinzeminutos. Ele montou na carroa egritou para a condutora. Vamos!

    A carroa partiu rumo ao norte,sacolejando. Kira ajeitou o kit mdicosobre os ombros e olhou ao redor;Asharoken estava enterrada em kudzu,como a maioria das cidadezinhas, mas omar de Long Island marulhavacalmamente na praia. O cu estava azule tranquilo.

    Bonita cidade comentou Kira. Olhos abertos disse Patterson.Os soldados espalharam-se,

  • preparando cuidadosamente um cordode isolamento ao redor da clnica,enquanto Sparks e Brown aproximavam-se do prdio destrudo, os fuzislevantados altura dos olhos. Kira erafascinada pela maneira comomovimentavam-se, o corpo todogirando, levantando e abaixando paramanter a linha de tiro firme como umarocha quase dava a impresso de que aarma corria sobre trilhos invisveisenquanto os soldados moviam-selivremente em volta delas.

    A fachada da clnica era quase todade vidro, agora toda quebrada e cobertade kudzu, mas a pilastra centralapresentava a marca de uma patrulha,

  • um glifo luminoso, cor de laranja. Kirareconhecia a maioria dos glifos, pois jparticipara de vrias misses. No tevedificuldades em compreender o recadodeixado: parcialmente catalogado,retorno de mdicos. Entre todos osglifos, era o que mais conhecia.

    Sparks e Brown davam cobertura umao outro enquanto avanavam atravsdos destroos e da vegetao. Pattersonsubiu cuidadosamente no telhado,mantendo-se nas laterais, onde eraseguro pisar, e continuou vigiando dospontos mais altos.

    Enquanto isso, Kira e Marcustestavam o gerador, uma estruturapesada, com duas rodas na ponta; ofundo sustentava uma bateria gigante e

  • uma manivela, a parte de cima continhaum pequeno painel solar e espirais defios e tomadas. Os mdicosparticipavam de todas as misses deresgate para cuidar dos trabalhadores, e,quando a patrulha encontrava algumequipamento mdico, eles o testavampara decidir se valia a pena lev-lo devolta. A ilha j estava abarrotada, nofazia sentido encher East Meadow comtranqueiras recolhidas nas operaes,que sequer funcionavam.

    As ruas estavam abarrotadas decarros abandonados, as pinturasenferrujando, os pneus murchos, asjanelas quebradas, resultado de anos denegligncia e de exposio a toda sorte

  • de intempries. Em um deles havia umesqueleto horrvel no banco domotorista uma vtima de RM quetentara fugir para algum lugar, dirigindopara longe do fim do mundo. Kiraperguntou-se para aonde pensara fugir.No conseguiu passar da calada dagaragem.

    Aps dois longos minutos, Brownabriu a porta e acenou para eles.

    Tudo limpo, mas ateno ondepisam. Parece que alguns ces selvagensfizeram deste lugar um covil.

    Marcus sorriu, afetado. Criaturinhas leais. Deviam adorar o

    veterinrio.Kira concordou com a cabea. Vamos lig-lo.

  • Marcus inclinou o gerador sobre asrodas traseiras e o empurrou lentamentepara dentro. Kira notou que Brownhavia colocado a mscara, ento paroupara preparar a sua: uma bandanadobrada onde salpicou cinco pequenasgotas de mentol. Qualquer corpodeixado naquele local teria sedecomposto h anos, como o esqueletono carro, mas uma matilha de cescertamente traria para dentro do edifciocarnia de outros animais, semmencionar almscar, urina, fezes e sabe-se l mais o qu. Kira amarrou abandana em volta do rosto, cobrindo aboca e o nariz. Ao entrar no prdio viuMarcus prendendo a respirao e

  • procurando nos bolsos sua mscara. Devia prestar mais ateno ela

    disse suavemente, passando por ele aodirigir-se para a sala dos fundos. Sintoapenas o agradvel aroma de menta.

    A sala mdica era bem guarnecida eno parecia ter sofrido nenhum ataque embora os vestgios e pegadas naespessa camada de p deixassem claroque algum vasculhara o localr e c e nte me nte . Provavelmente ospatrulheiros, ela pensou, apesar denunca ter visto nenhum vasculhar umasala mdica.

    Kira comeou a organizar o balco,reservando um espao para osmedicamentos que seriam guardados eoutro para os que seriam descartados.

  • Nos treinamentos de resgate uma dasprimeiras coisas que um mdicoresidente aprendia era quais remdiospoderiam durar, e por quanto tempo, equais seriam descartados. Levarremdio vencido de volta a EastMeadow era ainda pior que levarmquinas quebradas, no porqueocupavam espao, mas por seremperigosos. Os mdicos eram oscuidadores de toda a raa humana; altima coisa que eles precisavam eraque algum tomasse o comprimidoerrado e, ainda pior, que uma vastareserva de remdio descartado fosseparar no lenol fretico. Era mais fcil eseguro separ-los ali mesmo; eles

  • aprendiam at a lidar com remdio deanimais num cenrio como este, oantibitico de cachorro ainda era, nofrigir dos ovos, um antibitico, e, sem afacilidade da produo em larga escala,no restava outra sada aos moradoresda ilha seno tomar o que tivessem mo. Kira organizava eficientemente osarmrios quando Marcus apareceu, amscara, por fim, no lugar certo.

    Este lugar tem cheiro de cripta. uma cripta. E os animais nem so a pior parte,

    embora eu possa jurar, pelo fedor, queexiste uma civilizao inteira decachorros aqui.

    Ele abriu outro armrio e comeou aarremessar remdios nas pilhas que Kira

  • havia formado, sabendo exatamente qualera qual sem ao menos olhar.

    A pior parte a poeira acrescentou. Se levarmos mais alguma coisa daqui,voltarei com pelos menos meio quilo dep nos pulmes.

    Vai fortalecer seu carter disseKira, rindo ao tentar imitar a enfermeiraHardy. Estive em nove zilhes demisses de resgate, estagiria, e voc sprecisa aprender a lidar com isso.Respirar p de cadver bom, ativa ofuncionamento dos rins.

    O resgate no bom apenas paravoc, essencial para a prpriasobrevivncia de toda a raa humana disse Marcus, embarcando numa perfeita

  • personificao do senador Hobb. Considere o papel importante que vocdesempenha nesta gloriosa nova pginada histria!

    Kira riu alto. Hobb estava semprefalando na nova pgina da histria.Como se fosse apenas continuarescrevendo um livro que nunca teria fim.

    As geraes futuras olharo para opassado com admirao pelos gigantesque salvaram a humanidade, quederrotaram os Partials e encontraram, deuma vez por todas, a cura para o vrusRM prosseguiu Marcus. Quesalvaram a vida de infinitas crianas

    Seu discurso empolgado arrefeceu.De repente, o ambiente ficoudesconfortvel e voltaram a trabalhar

  • em silncio. Depois de algum tempo,Marcus voltou a falar.

    Acho que eles esto maispreocupados do que aparentam disse,calando-se em seguida. Nomencionaram isso na reunio, mas estomesmo cogitando abaixar a idade degravidez, de novo.

    Kira parou, as mos no ar, e lanou-lhe um rpido olhar.

    Est falando srio?Marcus assentiu com a cabea. Encontrei Isolde quando fui me

    trocar. Ela disse que h um novomovimento no Senado pedindo maisestatsticas e menos estudos. Dizem queno precisamos encontrar a cura, apenas

  • ter bebs o suficiente para alcanar aporcentagem das crianas que deveronascer imunes.

    Kira virou-se de frente para ele. J atingimos a porcentagem de

    imunidade. O nmero de 0,04 por centosignifica que uma a cada duas mil equinhentas crianas ser imune, mas j oultrapassamos em duas vezes.

    Sei que estupidez disse Marcus, mas mesmo os mdicos estoapoiando. Mais bebs ajudam osmdicos nos dois sentidos. Maispossibilidades de estudo.

    Kira virou-se de volta para omostrurio.

    Se abaixarem a idade, cair paradezessete. Isolde tem dezessete. O que

  • ela vai fazer? Ainda no est preparadapara engravidar.

    Encontraro um doador No se trata de uma agncia de

    encontros, mas de um programa dereproduo disse Kira, spera, no odeixando terminar. Pelo que supomos,eles colocam drogas de fertilidade nofornecimento de gua. Para ser sincera,no ficaria surpresa se fosse verdade.

    Kira estava irada. Tirou as caixas dedentro do armrio com violncia,jogando algumas no monte das queseriam preservadas e arremessandooutras, com igual violncia, no lixo.

    Esquea o amor, esquea aliberdade, esquea a escolha, apenas

  • fique grvida e salve o maldito mundoagora mesmo.

    No dezessete disse baixinhoMarcus. Ele pausou, olhando fixo para aparede, e Kira sentiu um n noestmago, como se antecipasse o que eleestava para dizer. Isolde disse que hum referendo no Senado para abaixar aidade de gravidez para dezesseis.

    Kira congelou, enojada demais parafalar. A idade de gravidez no era umarecomendao, era uma lei: Toda mulherde certa idade era obrigada a engravidaro mais rpido e o mais frequentementepossvel.

    H dois anos sei que isso estavapara acontecer, pensou Kira, desde quepromulgaram a lei. Dois anos para me

  • preparar psicologicamente, mas, aindaassim, pensei que teria mais dois. Elesvivem abaixando. No estou preparada,de modo algum.

    estpido e injusto, sei disso disse Marcus. Posso apenas imaginarcomo vocs se sentem. Acho que umaideia horrvel. Espero que ela sejaesquecida o mais rpido possvel.

    Obrigada. E se no for?Kira tossiu, espremendo os olhos. No me venha com isso agora,

    Marcus. S estou dizendo que a gente

    devia pensar nisso disserapidamente , caso a lei comece a

  • vigorar. Se voc no fizer sua prpriaescolha, iro apenas

    Eu disse agora no ralhou Kira. No o momento, no o lugar e nemde longe as circunstncias em que euquero ter essa conversa.

    No estou falando apenas de sexo.Estou falando de casamento disseMarcus. Ele deu um passo em suadireo, parou, e olhou para o teto. Desde os treze anos temos planejadoisto: trabalhar juntos no hospital ecasarmos. Eram seus planos tambm

    No so mais respondeu depronto. No estou preparada paratomar esse tipo de deciso, OK? Noestou pronta agora e estava menos aindaquando tinha treze anos. Que droga!

  • Kira virou-se para o armrio epraguejou baixinho. Em seguida,caminhou em direo porta.

    Preciso de um pouco de ar.Do lado de fora, tirou a mscara,

    respirando longa e profundamente. Opior que entendo totalmente aposio deles.

    As rvores ao norte iluminaram-sesubitamente com um intenso claroalaranjado. Um segundo depois ouviu-seum estrondo ensurdecedor. Kira sentiuuma onda de tremor atravess-la,revirando suas entranhas. Mal tevetempo de processar na sua cabea aimagem e o som da exploso quando,restabelecida a audio, ouviu os

  • soldados gritando.

  • OCaptulo Quatro

    soldado Brown correu em direo aKira. Numa investida rpida,

    derrubou-a ao lado de um carroabandonado.

    Fique abaixada! O que est acontecendo? Fique abaixada! Brown apertou o

    boto do rdio transmissor. Sargento, Shaylon. Esto sendo atacados?Cmbio!

    O som do rdio falhou, no se ouvianada alm do rudo branco[3].

    Esto atirando contra ns?

  • perguntou Kira. Se eu soubesse, no perguntaria a

    Jayden disse Brown, apertando oboto novamente. Sargento, est meouvindo? Qual a sua situao?

    Kira e Brown olhavamdesesperadamente para o rdio emitindoapenas um chiado vazio. At ondesabiam, uma exploso poderia ser umacidente, a Voz, ou mesmo os Partials.Seria um ataque? Uma invaso? O rdiono dizia nada. Ento, abruptamente, avoz de Jayden quebrou o silncio,chegando num sinal ruim.

    O local trs estava carregado deexplosivos! Cinco homens soterrados.Traga os mdicos imediatamente.

    Brown levantou-se num movimento

  • gil e correu em direo clnica. Baixas no local trs!Kira saiu correndo antes mesmo de

    Brown virar-se para trs via a fumaasubindo do local, a pouco mais de umquilmetro e meio dali. Brown seguiuatrs dela, o fuzil colado ao corpo,correndo a toda velocidade pela rua.Kira tocou na bolsa mdica, sussurrouum silencioso obrigada a seja l o quea mantivera ali e abaixou a cabea paradar uma arrancada. Brown malconseguia acompanh-la.

    Primeiro ela viu Jayden, em p nacabine de um caminho coberto devegetao, examinando a linha dohorizonte com um par de binculos. A

  • carroa estava ao lado, a roda esquerdadianteira destruda e pelo menos doiscavalos mortos, os outros relinchandode horror. Por ltimo, Kira viu o prdio uma runa em chamas entre duasestruturas, como uma torre de cubos demadeira derrubada por uma crianaenfurecida. Um soldado arrastava outropela mo, retirando-o dos destroos.Kira ajoelhou-se ao lado do homemcado, uma mo tomando o pulso, a outraexaminando o trax e o pescoo procura de ferimentos.

    Estou bem disse o soldado,tossindo. Peguem os civis.

    Kira assentiu com a cabea,levantando-se. Olhava atnita para acasa destruda. Por onde deveria

  • comear? Agarrou o soldado em p e opuxou para o lado.

    Onde esto os outros? No subsolo disse, apontado para

    baixo. No canto de c. Ento me ajude a entrar l. O prdio tinha dois andares. Eles

    esto completamente soterrados. Ento me ajude a entrar l insistiu

    Kira, puxando-o em direo ao prdio.Kira j abria caminho entre os destroosquando Marcus chegou, ainda ofegante.

    Minha nossa.Kira aprofundou-se nas runas. Sr. Turner! gritou. Sra. Cantrell!

    Algum de vocs me ouve? Ela e osoldado ficaram parados, ouvindo. Kira

  • apontou para o cho, a sua esquerda. Aqui em baixo.

    Ajoelharam-se, jogando para o ladoum pedao largo de piso destrudo. Kiraparou, e escutou novamente uma levevibrao, como uma respiraoentrecortada ou uma tosse abafada. Elaapontou para uma poro de tijolos e osoldado ajudou-a a retir-los, passando-os a Marcos, Sparks e aos outrossoldados. Todos escavavam osescombros para limpar o terreno. Kiragritou outra vez e ouviu o som fraco deuma resposta.

    Aqui respondeu uma voz. Kirareconheceu o timbre feminino, sabia queera Gianna. Ela avaliou o peso de umpedao de moblia quebrada e os

  • soldados retiraram o entulho do lugar.Soterrada dentro de um buraco, Giannagemia de dor.

    Graas a todos os deuses.Kira deslizou o corpo para dentro do

    buraco. Ainda est presa? Acho que no respondeu Gianna.

    Kira segurou firmemente na sua mo eagarrou-se a outro pedao de chorevirado. Ela perdeu a fora eescorregou, sentindo uma mo fortesegurar a sua por trs.

    Peguei voc disse Kira , e elesme pegaram. No pare. LentamenteGianna livrou-se da madeira quebrada edos tijolos. Kira a puxou para cima,

  • centmetro por centmetro. QuandoGianna subiu o suficiente, a mo forteque segurava Kira puxou ambas at otopo da pilha de destroos. Kira virou-se e viu Jayden cansado de fazer fora.

    Obrigada disse Kira.Ele balanou a cabea. Me ajude a encontrar o outro.Kira virou-se para o buraco. Sr. Turner! Pode me ouvir? Ele estava perto de mim quando a

    bomba explodiu disse Gianna, numsopro. No pode estar muito longe.

    Kira voltou a entrar no buraco, destavez engatinhando. Ela continuava achamar pelo desaparecido.

    Sr. Turner! Andrew! Ela parou,ouvindo atentamente, dobrando-se

  • frente o mximo possvel. Nada. Voltouo tronco para trs e examinou osdestroos, tentando descobrir onde eleestaria.

    Atrs daquela pedra disse Gianna,apontando para uma pedra grande eplana em p no meio do entulho. Haviauma lareira no sto, com uma chaminenorme, toda em pedra. Provavelmente aparte mais antiga da casa.

    Jamais conseguiremos mov-la disse Marcus. Kira abaixou-se ao ladoda pedra, aproximando-se ainda mais docho.

    Andrew Turner! gritou Marcus,mas Kira pediu que ficasse em silncio.

    Quieto, tive uma ideia.

  • A poeira baixou e o ar estava parado.Kira abriu seu kit mdico e retirou umestetoscpio um modelo digital comamplificador de som. Ligou o aparelho,rezando em silncio para que a bateriano estivesse descarregada. Pressionouo auscultador no entulho.

    Tum, tum, tum, tum Seu corao est batendo! gritou

    Kira Ele est bem debaixo dachamin.

    Essas pedras esto escorandometade da casa disse Marcus. Nopodemos tir-las do lugar.

    Enquanto o corao dele estiverbatendo, podemos sim ordenouJayden. Saia da frente, Walker. Ele

  • deslizou o corpo at perto de Kira echamou os outros soldados para ajudar. Yoon, passe uma corda para c eamarre a outra ponta num dos cavalos. Logo a jovem arremessou uma cordaresistente de nylon, e Jayden, ofegante,amarrou-a em volta da chaminquebrada. Kira pressionou novamente oauscultador contra o pedao de pedra.

    Tum, tum, tum. Continuo ouvindo as batidas do

    corao. Kira virou-se, procurandovigas de madeira. Marcus tem razo.Se movermos esta pedra, todo oprimeiro andar vai cair sobre ns.Tome, reforce com isto. Ela puxou umcaibro comprido, ainda preso s tbuaspartidas do assoalho, e Jayden o

  • empurrou na posio, servindo dearrimo aos pedaos de pedra.

    Tudo pronto Jayden instruiu acondutora da carroa. Leve o cavalomais para a frente, Yoon! Maismais a. A corda est esticada, agora puxar um centmetro de cada vez.

    A corda esticou ao mximo; Kira novia o pedao da chamin se mexer, maspodia ouvi-lo arranhando o cho depedra. Est funcionando!

    Jayden gritou novas ordens a Yoon. No pare de puxar, devagar e

    sempre, est perfeito. Agora, prepare acorda.

    A pedra desalojou-se do buraco eJayden grunhiu ao empurr-la para o

  • lado.Kira virou-se para o buraco, de olho

    na viga que funcionava como arrimotemporrio, quando um contorno naescurido congelou seus movimentos.No vira isso antes, estava atrs dapedra.

    Era uma perna humana, cortada logoabaixo do joelho.

    No murmurou. Ela avanoucuidadosamente, examinando a pontasaliente onde o osso havia quebrado.Esmagado, pensou, avaliando o estrago.A chamin caiu e arrancou a pernadele. Como pode ainda estar vivo?Pressionou o estetoscpio contra aprxima pedra.

    Tum, tum, tum.

  • Caramba disse Jayden,agachando-se ao lado dela , isso umaperna?

    Significa que estamos prximos. Significa que est morto disse

    Jayden. Aquela chamin deve ter feitoele virar p.

    Estou ouvindo o corao, j disse sussurrou Kira. Me passe a corda.

    Os destroos moveram-se. Kirafechou os olhos e a boca firmementepara proteger-se da saraivada de pedrae p. A viga rangeu e ela ouviu gritos dealerta vindos dos soldados l em cima.

    Tirem ela l de dentro! gritouMarcus.

    Ele tem razo disse Jayden. Isso

  • vai desabar na nossa cabea a qualquermomento. Um homem morto no vale avida de uma mdica.

    Estou dizendo, ele est vivo. Saia disse Jayden, rspido. Se

    no conseguimos tir-lo daqui,definitivamente no vamos conseguirdesenterrar voc.

    uma vida humana argumentouKira. No estamos em condies dedesperdiar nenhuma.

    Saia!Kira cerrou os dentes e avanou

    alguns centmetros; Jayden praguejouatrs dela, tentando segur-la pelos ps,mas ela o chutou.

    Tum, tum, tum.Kira alcanou a prxima pedra,

  • tateando-a em busca de reentrnciasonde pudesse segurar-se e testando suaestabilidade. Acho que esta eu consigomover, pensou. Ele tem que estar logodo outro lado da pedra, ento eles vover. Eu sei que ele est vivo.

    Ol, Mr. Turner gritou , pode meouvir? Estou indo te salvar. No vamoste deixar para trs. Ela se apoioucontra o cho do subsolo, rezando paraque no deslocasse nada vital, eempurrou a maior das pedras, sentindo-arodar levemente fora do eixo. Elaempurrou de novo, lutando contra o pesoda pedra, ento deslocou-a para o lado.Havia outra silhueta na escurido, afigura retorcida demais para ser

  • reconhecida. Ela ligou o estetoscpionovamente, avanandodesesperadamente.

    Tic, tic, tic, ticEspera, pensou, tem alguma coisa

    errada. Ento seus dedos rasparam nacarne lisa e molhada. Ela pegou umpedao de tecido entre dois dedos e opuxou para perto, ouvindo o tic ficarcada vez mais alto dentro da pequenacaverna. Kira sentiu o membroensanguentado com ambas as mos,recusando-se a acreditar naquilo.Recuou alguns centmetros na direo daluz e levantou o objeto, confirmandosuas suspeitas com os prprios olhos.

    seu brao disse baixinho. Elej era.

  • Jayden olhava atnito. E a batida do corao?Ela levantou o brao decepado, no

    pulso um brilho metlico. Tic, tic, tic. Seu relgio de pulso. Kira sentiu-

    se esgotada e triste. Ele j era.Jayden tirou o brao de perto dela e a

    amparou com a mo. Vamos sair daqui. Temos que lev-lo de volta disse

    Kira. O que aconteceu aqui no foi um

    acidente disse Jayden. Algumplantou as bombas, algum que sabiaque viramos. Provavelmente aindaesto por perto.

    Kira franziu o cenho.

  • Por que algum explodiria umaestao meteorolgica?

    Era uma emissora de rdio disseGianna. No deu tempo de ver tudoantes da exploso, mas tenho certezadisso. Este era o maior centro decomunicao que jamais vi.

    A Voz disse Kira.A voz de Jayden era baixa e

    inflexvel. E, depois desse barulho todo, eles

    com certeza sabem que estamos aqui.

  • JCaptulo Cinco

    ayden reuniu os sobreviventes sombra da carroa queimada. No h a menor chance de

    voltarmos para casa nesta coisa. Issoquer dizer que ficaremos dois dias forada civilizao. Nosso rdio tambm foidestrudo. Estamos sozinhos.

    Precisamos improvisar uma macapara o soldado Lanier disse Marcus. Est com uma fratura mltipla na tbia.Fiz o melhor que pude, mas ele no vaiconseguir dar um passo.

    Kira examinou as rvores e as runas

  • ao redor, a tenso aumentado a cadamovimento. Certa vez, quando a Vozatacou, ela estava no hospital. Viu ossoldados feridos, gritando de dorenquanto eram levados para a sala decirurgia. A ideia de que algum serhumano pudesse ferir outro ainda achocava.

    Improvisem uma maca disseJayden. Ainda temos dois cavalos.Petterson e Yoon, voltem com eles eenviem reforo assim que chegarem aopermetro da Rede de Defesa. O resto dens seguir a p.

    So quase cinquenta quilmetros disse Yoon. Os cavalos j estocansados. No vo conseguir fazer otrajeto todo de uma vez.

  • Eles ainda conseguem andar pelomenos mais uma hora disse Jayden. De qualquer forma, em uma hora vaianoitecer. V o mais longe que puder,ento deixe os cavalos descansarem ato amanhecer.

    No precisamos voltar o caminhotodo at East Meadow disse Gianna. Existe uma comunidade rural a oestedaqui, e muitas outras a leste. Esto amenos de cinquenta quilmetros. Lanierpode receber ajuda rapidamente.

    Nosso mapa explodiu junto com acarroa disse Jayden. No estou noclima de ficar vagando pela ilha aprocura de caipiras.

    No so caipiras discordou

  • Gianna. Muitos deles tm maisescolaridade que voc

    A maravilhosa educao deles noserve para nada sem um mapa paraencontr-los disse Kira. Por queGianna discutia numa situao comoaquela? East Meadow nossa melhoraposta, podemos seguir pelas viasprincipais at l.

    Lanier no vai conseguir disseGianna , no com aquela fratura. Asfazendas possuem hospitais, assim comoos nossos.

    No so como os nossos disseKira , e Lanier no vai morrer nocaminho. Voc tem algum passadomdico que se esqueceu de mencionar?

    Qualquer um pode ver

  • Qualquer um pode ver que ele estmal disse Marcus, calmamente , masns o imobilizamos. E posso sed-lo tofortemente que ele vai achar que estvoando de volta para casa num arco-risde gomas mgicas. Voc poderia ficardoidona com os peidos dele.

    Petterson e Yoon, sigam para EastMeadow pelo sul disse Jayden comdeterminao. O resto segue atrs,com o mesmo objetivo prosseguiu,olhando para Gianna. Se no caminhocruzarmos com uma fazenda, uma basemilitar externa, ou algo do tipo,podemos exigir outra carroa.

    Voc no tem autoridade para exigiruma carroa disse Gianna, rspida.

  • E voc no tem autoridade paradesobedecer minhas ordens respondeuJayden. Estamos numa operaomilitar, numa situao de emergncia, evou lev-la de volta para casa damaneira que eu achar melhor, nem quetenha que drog-la tanto quanto Lanier.Fui claro?

    Ento isso que nos espera? perguntou Gianna. Esse o nossoadmirvel mundo novo, em que umapraga de bebs como vocs crescemrpido demais e comeam a mandar emtudo?

    Jayder no vacilou. Perguntei se fui claro. Perfeitamente respondeu Gianna.

  • Voltemos ao paraso.Jayden levantou-se e o grupo se

    dispersou, cada qual recolhendo seuequipamento e preparando-se para aviagem. Kira puxou Jayden de lado.

    No podemos deix-los aqui disse. Os cavalos mortos, tudo bem,mas h trs pessoas soterradas noprdio. Como vamos lev-las para casa?

    No d para vir busc-las. Contei seis gatos selvagens apenas

    durante a nossa breve reunio deplanejamento, e aquela clnica era o larde uma matilha de ces. Se deixarmostrs corpos aqui, no vai sobrar nadapara vir buscar depois.

    O olhar de Jayden era frio. O que quer que eu faa, Walker?

  • No podemos carreg-los, e no temostempo para enterr-los. Vamos voltarcom reforo para investigar o local erecuperar os geradores, mas no momentodez pessoas vivas so mais importantesque trs mortas.

    Dez minutos disse Kira. Temostempo para isso.

    Voc acha que precisa de apenasdez minutos?

    J esto parcialmente embaixo daterra.

    Kira observou o semblante pensativode Jayden. Ento, deu de ombros ebalanou a cabea.

    Tem razo. Vou ajudar.Alm de Andrew Turner, a exploso

  • havia matado mais dois soldados. Seuscorpos foram colocados no cho, aolado da casa, cuidadosamente. Umhomem e uma mulher um garoto e umagarota, na verdade, provavelmentenenhum deles tinha mais de dezesseisanos. A garota talvez fosse ainda maisjovem, mas Kira no sabia precisar. Elapermanecia solenemente parada ao ladodos corpos, perguntando-se quem teriasido eles: o que faziam para se divertir,com quem tinham morado, comochegaram at ali. Ela sequer sabia onome deles. Jayden levantou a garotapelos braos e Kira, pelas pernas.Entraram nos escombros escolhendoatentamente onde pisar. O buraco maisprofundo era o que eles haviam cavado

  • para tentar salvar Turner. Abaixaram ocorpo o mais cuidadosamente possvel,empurrando suas costas para dentro deum vo atrs das pedras da chamin. Ossoldados que haviam terminado suastarefas vieram ajudar. Carregaram comtodo cuidado o corpo do garoto,escorregando-o para dentro dacavidade. Kira assistia, entorpecida, aJayden e ao soldado Brown derrubarema ltima parede que restava em p. Elacaiu dentro do buraco, cobrindo oscorpos.

    O corao de Kira veio abaixo juntocom a parede. Aquilo no era osuficiente era bom poder enterr-los,mas eles mereciam mais. Ela tentou

  • falar, mas as nuvens preguiosas depoeira que se levantavam dosescombros eram mais fortes do que ela.No disse uma palavra.

    Marcus a observava, o olhar solidrioe amvel. Em seguida, disse a Jayden:

    Deveramos dizer algo.Jayden deu de ombros, indiferente. Adeus? Tudo bem disse Marcus, dando

    um passo a frente. Deixem comigo.Algum sabe qual deus eles cultuavam?

    Um deus no muito misericordioso murmurou Gianna.

    Maija era crist disse Sparks. No sei de qual igreja. Rob era budista.Do civil, no fao ideia.

    Marcus olhou para os outros soldados

  • em busca de mais informaes, masningum sabia de nada. No dosgrupos mais fceis de se trabalhar disse. Que tal assim, ento? Acho queconsigo lembrar um pouco de poesiaantiga que nos ensinaram na escola. Ele endireitou o corpo, fixando seuolhar num ponto a distncia. Ossoldados abaixaram a cabea. Kiramanteve o olhar no monte de tijolos,uma nuvem de poeira ainda pairandosobre ele.

    Morte, no te orgulhes recitouMarcus , embora alguns te provempoderosa e temvel. Parou, pensativo. Acho que estou assassinando o poema.s escrava do destino, de reis e do

  • suicida / mas no poders matar-me /aps curto sono, acorda o eterno que jaz/ e tu morrers.[4]

    Jayden lanou um olhar de relance aMarcus.

    Voc acredita que iro acordar?Num passe de mgica?

    apenas um antigo poema disseMarcus.

    No sei onde vo acordar, mas omaldito lugar est ficando lotado disseJayden, voltando para a carroa.

    Kira segurou a mo de Marcus eobservou a poeira baixando sobre ostijolos cados.

    A chuva fazia poas na lama, as gotasespirrando nas marcas de pneus cheiasde gua. Kira puxou o capuz para a

  • frente, tentando proteger os olhos. Atempestade ficava cada vez maisviolenta e parecia cair torrencialmentede todas as direes. Ela chapinhava nalama, a gua entrando por toda a costurada roupa.

    Jayden parou outra vez, detendo a filacom o punho levantado. O rastro dospneus no vinha de Asharoken nem asbombas, mas qualquer presena poderiaser perigosa naquele lugar ermo.Tempos atrs, aquela parte da ilha forauma das mais ricas, por isso, em vez decasas grudadas umas nas outras ecobertas de grama alta, o grupo seguiapor uma floresta densa e mida, comuma manso solitria aqui e ali,

  • sobressaindo-se na escurido. Kirainclinou a cabea para o lado, atenta, naesperana de ouvir o menor rudo queJayden continuava notando atravs datempestade. Ela podia perceber Marcusfazendo a mesma coisa; ela ouvia achuva, os pingos espirrando nas poas, obarulho da lama quando algumtransferia o peso do corpo de uma pernaa outra.

    Jayden abaixou o punho, apontando frente, e o grupo voltou a caminhar.

    Acho que ele est inventando sussurrou Marcus. Ele gosta mesmo de fazer esse sinalzinho com o punho ever todo mundo obedecendo.

    Nunca estive to molhada em toda aminha vida disse Kira. Juro que

  • mesmo imersa numa banheira eu estavamais seca do que agora.

    Veja pelo lado positivo sugeriuMarcus.

    Kira esperou. Esse o momento em que voc

    tradicionalmente sugere um ladopositivo ela falou.

    Nunca fui um cara muito tradicional disse Marcus. Alm do mais, noestou dizendo que conheo um ladopositivo. S acho que este seria umtimo momento para ver as coisas dessamaneira.

    Jayden ergueu o punho e o grupoparou de caminhar.

    Jayden acabou de ouvir alguma

  • coisa pelo lado positivo sussurrouMarcus. Existe alguma metforainspiradora rastejando entre aquelesarbustos.

    Kira bufou e Jayden olhou para trs.Em seguida, estalou os dedos na direoda lateral da estrada e caminhou at umapassagem entre as rvores.

    Kira seguiu-o, surpresa. At mesmoela sabia que a trilha continuava emfrente, entre os troncos jovens na ruaarruinada. De ambos os lados, asrvores eram escuras e ameaadoras oque Jayden ouvira ali?

    O grupo seguiu cuidadosamente poruma passagem estreita, esburacada edanificada por uma dcada de ao daservas daninhas. Uma casa enorme e

  • sombria surgia um pouco mais a frente,quase to escura quanto a noite que aenvolvia. Marcus avanou rapidamente,agachando-se do lado da casa. Kirainclinou-se para perguntar algo aMarcus, mas parou bruscamente quandoum raio de luz colorida chamou suaateno: um lampejo laranja na janela.Fogo. Ela congelou. Agarrou o brao deMarcus e cochichou:

    Tem algum l dentro.Kira apertou a arma, na esperana de

    que funcionasse adequadamente, apesarde ensopada. Sentia-se exposta, mesmona companhia de soldados armados.Agachou-se de mansinho, puxandoMarcus junto a ela. Jayden parou de

  • repente, erguendo o fuzil altura dorosto. De dentro da casa escura, algumgritou:

    Nem mais um passo!A voz era fina e spera, um espectro

    na escurido. A chuva tamborilava nocapuz e nas costas de Kira. Eladestravou o fuzil um pequeno botoque transformava o basto grosso emuma varinha de condo letal. Apontar,apertar e ver o alvo explodir. A chuvaescorria pelo colarinho, entrava nosolhos, atravessava o tecido das luvas.

    Meu nome Jayden Van Rijin,sargento da segunda diviso da Rede deDefesa de Long Island disse. Jaydendeve ter visto o homem antes de ouvir asua voz, pois mantinha o fuzil apontado

  • para o mesmo alvo invisvel. Kira novia nada. Identifique-se!

    Sou algum com quem voc noprecisa se preocupar disse a voz. Ealgum que no se preocupa com voc.

    Identifique-se! repetiu Jayden.Kira imaginou as rvores ao redor

    cheias de membros da Voz homens nassombras escuras, disformes embaixo dosponchos de chuva, as armas firmes nasmos, como a dela. Embaixo dasrvores era um breu s, a Lua e asestrelas perdidas atrs de nuvensespessas. Se algum comeasse a atirar,perguntou-se, ela ousaria atirar devolta? Como distinguir, no escuro, asilhueta amiga da inimiga?

  • Talvez no seja a Voz sussurrouMarcus. A voz quase inaudvel, oslbios praticamente tocando a orelha deKira. Podem ser negociantes,vagabundos, at fazendeiros. s ficarabaixada.

    Voc tem um nome muito bonito disse a voz na escurido. Pode lev-locom voc quando partir.

    Estamos a caminho de EastMeadow disse Jayden. Antes deacampar quero saber se a rea segura.Quantos esto a dentro?

    A voz riu roucamente. Seria uma grande estupidez passar

    e s s a info sem conhecer as suasintenes. E se for algum da Voz?

  • Somos da Rede de Defesa respondeu Jayden. J disse.

    No seria a primeira vez quealgum mente para mim.

    Kira ouviu um rudo nas rvores umfarfalhar de folhas, um estalido quepoderia ser de um galho ou de umapistola. Abaixou-se ainda mais,torcendo para que fosse algum do seugrupo.

    Estamos em dez pessoas disseJayden. Os membros da Voz so maissutis que isso como um velhoescondido numa casa em runas.

    O que voc falou faz sentido disseo homem. Pelo jeito no vamos confiarum no outro. A voz silenciou. A chuva

  • batia contra as folhas. Em seguida, ohomem falou:

    Meu nome Owen Tovar. Tambmestou a caminho de East Meadow. Vocpoderia ser minha carta derecomendao no posto da fronteira. Seno se importar em dividir o lugarcomigo e com a Dolly, seja bem-vindo.

    Houve um breve silncio, ento Kiraouviu o barulho de uma porta seabrindo. Jayden hesitou, pelo tempo dabatida de um corao, e abaixou o fuzil altura do quadril.

    Obrigado pela oferta.

  • OCaptulo Seis

    wen Tovar era um homem alto,magro e envelhecido, esperando do

    lado de dentro da porta com umaespingarda preta apoiada no ombro. Elesorriu para Kira e Gianna.

    Se aquele idiota tivesse falado quehavia mulheres, no demoraria tantopara abrir a porta.

    Marcus entrou na frente de Kira paraproteg-la. Tovar soltou uma risada ebateu no brao do rapaz.

    No nada do que voc estpensando, filho, apenas boas maneiras.

  • Soldados, comigo pegar ou largar, masreceio que minha me tenha me educadobem demais para que eu deixe umamulher do lado de fora numa tempestadecomo esta. Ele fechou a porta atrs doltimo soldado e abriu caminho entre ogrupo rumo ao interior escuro da casa.

    Vou dizer uma coisa, aquele devocs que me achou aqui dentro umfarejador dos melhores. Estdesperdiando seu talento na Rede. Ele abriu outra porta, que dava para umasala bem iluminada. Talvez uma antigasala de estar, sem janelas externas e comuma lareira de pedra onde ardia um fogovivo e alaranjado. Quase no haviaespao no cmodo abarrotado com sofsvelhos, mantas e uma pequena carroa

  • de madeira, colocada contra duas portasfechadas do outro lado. Kira quase caiude costas quando, ao entrar e virar-separa a direita, examinando o ambiente,deu de cara com um camelo.

    Diga oi, Dolly.O animal soltou um grunhido e Tovar

    riu. No sejam rudes, cumprimentem a

    Dolly.Marcus sorriu e cumprimentou o

    camelo inclinando o corpo para a frente. Prazer em conhec-la, Dolly. O Sr.

    Tovar esqueceu-se de mencionar oquanto sua acompanhante adorvel.

    No sei se toda camela geniosacomo esta aqui, mas a gente at que se

  • entende bem. Deve ter fugido dozoolgico. Encontrei-a alguns anosatrs, vagando por a disse Tovar,indicando ao grupo o caminho da porta efechando-a atrs de si. Deu muitotrabalho para manter o fogoimperceptvel do lado de fora explicou. A chamin continuafuncionando, mas com uma tempestadecomo esta para esconder a fumaa, nemd para dizer que estou aqui.

    Seguimos a trilha disse Marcus,tirando o casaco.

    Ela no chega at aqui argumentouTovar. Pelo menos no diretamente.

    Ouvi barulho disse Jayden, umleve sorriso despontado no canto daboca. Dolly precisa de algumas lies

  • de como passar despercebida.Tovar balanou a cabea. Ela queria mais acar. Acho que

    vocs se aproximaram bem nos doissegundos em que ela decidiu reclamar.A maioria das pessoas, as barulhentasdemais para prestar ateno, nuncaencontra este lugar. Vo atrs dasminhas pegadas at a casa seguinte,depois voltam pela floresta e entodesistem quando chegam no riacho. Aponte acabou caindo, acreditem, e astbuas que uso para atravessar estomuito bem escondidas do outro lado.

    Voc um errante disse Jayden. Sou um negociante, j disse. Isso faz

    de mim um alvo para todo tipo de

  • situaes indesejveis, mas nosignifica que tenha que ser um alvo deoportunidade. Ele retirou uma pilha demantas de cima do sof mais perto dofogo. Os melhores lugares para asdamas, naturalmente. Sozinho, eu meacomodo bem por aqui, mas teremos queser bons vizinhos com essa quantidadede gente tentando dormir.

    Kira observava o homem enquanto eleseparava as mantas, espremendo-seentre os sofs empoeirados, arrumandoespao para dez pessoas e um animal.Ele faz parte da Voz? Impossvel saber,a menos que tentasse explodir o grupo.

    O errante entregou uma manta aBrown, que continuou encarando-o comdesconfiana, antes de agarr-la com um

  • gesto brusco. Tovar sorriu e recuou. Esta ser uma noite

    insuportavelmente longa se adesconfiana continuar. Voc achamesmo que sou da Voz? Brown norespondeu e Tovar voltou-se paraGianna. E voc? Virou-se novamentee parou na frente de Jayden, os braosabertos. E voc, acha que sou da Voz?Colocar minha vida em risco e dividirminha coberta com vocs faz parte deum plano maior de destruio da ltimacivilizao humana?

    Acho que um antigo militar disse Kira, aproximando-se do fogo.

    Tovar inclinou a cabea para o lado. O que a faz pensar assim?

  • Algumas das palavras que voc usa disse Kira , como info e alvo deoportunidade. O modo como segurou aarma quando entramos. A posturaidntica que voc e Jayden estoparados neste exato momento.

    Jayden e Tovar entreolharam-se,depois olharam a si mesmos: os psabertos largura dos ombros, a colunaereta, os braos cruzados frouxamenteatrs do corpo. Afastaram-sedesajeitadamente, transferindo o peso docorpo de uma perna a outra ebalanando os pulsos.

    S porque ele j foi militar no querdizer que no seja da Voz disseBrown. Muitos deles tambm so

  • soldados. Caso ser um soldado seja prova de

    culpa disse Tovar , ento sete dasdez pessoas nesta casa parecemterrivelmente culpadas.

    Nesse caso, fale sobre voc sugeriu Marcus, acomodando-se numsof. Se vou passar a noite inteiraesperando que vocs parem com asinsinuaes e acusaes, ento queroque seja algo ao menos estimulante.

    Owen Tovar repetiu com umamesura , nascido e crescido em Macon,Gergia. Joguei no time principal daescola por dois anos, me formei, entreipara a Marinha e explodi quatro dedosdo p na guerra. Estou falando da guerracontra o Ir. Vocs devem estar

  • pensando na Guerra de Isolamento,contra os chineses, qual enviamos osPartials para lutarem por ns. A maioriade vocs tem quantos anos? Acho queesto saindo da adolescncia, certo?Deviam ter dois ou trs anos quandoessa guerra terminou e cinco ou seisquando o mundo todo acabou. Com ascoisas como esto, quando digoguerra, provavelmente pensam naPartial War. Mas odeio ser o portadordessa notcia: a guerra contra os Partialsno foi uma guerra, nem de longe, foiapenas um pouco de luta e de gentemorrendo, como diriam alguns,friamente. Vejam bem, guerra quandoos dois lados se enfrentam, talvez no de

  • igual para igual, mas pelo menos as duaspartes tm a chance de partir para oataque. O que chamamos de Partial Warfoi um assalto contra a humanidade numbeco sem sada.

    Eu me lembro da Guerra deIsolamento disse Gianna. Nem todosaqui so da gerao babylndia.

    No cabe a mim especular a idadede uma dama disse Tovar, sentando-seprximo ao fogo. Ele parecia tranquilo,mas Kira notou que ainda mantinha aarma ao alcance rpido e fcil das mos.Jayden sentou na frente dele. A maioriados soldados permanecia em p. Kirapegou um lugar ao lado de Marcus,colocando o brao dele sobre seusombros. Era acolhedor e revigorante.

  • No importa em qual guerraaconteceu disse Tovar. Perdi quatrodedos, recebi dispensa mdica damarinha e voltei a jogar hquei naGergia.

    impossvel jogar hquei naGergia garantiu Sparks. Era um dosestados mais ao sul, no era? Hquei eraum esporte de gelo.

    Hquei era patinao no gelo disse Jayden, balanando a cabeaafirmativamente , e de jeito algum sepodia fazer isso na Gergia. Ainda maissem dedos.

    Tovar sorriu. a que vocs, gerao

    babylndia, comeam a demonstrar

  • ignorncia. disse Tovar, voltando-separa Gianna. Voc se lembra daspistas de patinao?

    Gianna esboou um sorriso. Claro. Uma pista de patinao

    prosseguiu Tovar era uma sala gigante,como uma quadra de basquete, dentro deum refrigerador. Imaginem: um prdioto frio que o gelo no derretia. Vocenchia de pessoas, s vezes centenasdelas, e olha que ramos dos timespequenos. Elas comeavam a baterpalmas, gritar e vibrar. O prdioesquentava como esta casa. Todosaqueles corpos espremidos ali dentrocomo lenha numa fogueira. Orefrigerador gigante continuava

  • mandando ar frio e o gelo no derretia.Tudo que precisavam fazer era espirrargua a certos intervalos e alguns minutosdepois a pista estava to lisa e achatadaquanto uma lder de torcida do TigerSharks. Ele sorriu maliciosamente. Peo desculpas. Antigas rivalidades.

    Isso a coisa mais idiota que jouvi disse Sparks. Voc poderiaabastecer uma cidade inteira por um anocom o tanto de eletricidade a que vocest se referindo.

    Um lugar pequeno como EastMeadow, com certeza disse Tovar. Um nico aparelho de ar-condicionado,dos grandes, poderia gerar eletricidadepara uma cidadezinha. Acontece que as

  • cidades de antigamente eram to grandese o modo de vida to intenso quepoderiam engolir East Meadow inteira.Mesmo uma pequena cidade comoMacon. Havia centenas de milhares depessoas dirigindo, indo ao cinema enavegando na internet vinte e quatrohoras por dia. Mesmo assim sobravaeletricidade para a gente gastar com umapista de patinao no estado da Gergia,um dos mais quentes, como voc disse.No tnhamos problema em congelar oque quer que fosse.

    Ainda no acredito murmurouSparks.

    Estou falando de um pequeno timeem Macon, na Gergia disse Tovar. Nem eu punha muita f nele. Sabem

  • como era chamado? Se no acreditaramnuma s palavra que eu disse, comcerteza no vo acreditar nisto: o nomedo time era Macon Maravilha! Tovarcaiu na risada. Parece ainda maisabsurdo, mas verdade: MaconMaravilha! repetiu, batendo no joelho.Vrios soldados gargalharam e mesmoKira no conseguiu conter o riso. ramos de uma liga sem importncia,que nunca participava dos grandescampeonatos. Estvamos numa cidadeque adorava todo tipo de esporte, menoso nosso. A gente sabia que o time notinha futuro, ento, por que no sedivertir? Na dcada de quarenta ramosoficialmente o time mais violento do

  • pas, ou seja, do mundo, provavelmente.Por isso eu podia patinar sem os dedos.Claro que na patinao artstica, nacorrida no gelo e nos jogos da LigaNacional de Hquei voc precisaria dosdedos para controlar os movimentos.Mas esse tipo de requinte fica no bancode trs quando o que voc quer apenasbater algum contra a parede e quebrartodos os seus dentes.

    Hquei filosofou Marcus , oesporte dos reis.

    Tovar ficou em silncio, o olharfocado numa lembrana distante.

    s vezes acho que disso que maissinto falta. Dos velhos tempos.Tnhamos tanto de quase tudo quepodamos desperdiar com um monte de

  • bobagens que ningum precisava. AIdade de Ouro do Homem. Desta vezsua risada era sarcstica e amarga. Primeiro vem o orgulho, como dizem,depois, a queda.

    Jayden balanou a cabea, sorrindode leve.

    No sei dizer se essa histriaaumenta minha confiana em voc, mascom certeza me fez gostar de voc.

    Tovar o saudou com a cabea. muito gentil da sua parte, dadas as

    circunstncias. Ele tirou umagarrafinha do bolso, tomou um gole eofereceu a Jayden. O soldado deu umtrago e a passou de volta.

    Devo admitir que, como mdico,

  • continuo esperando a melhor parte dahistria disse Marcus.

    Tovar olhou surpreso. Como?Marcus riu. Os dedos, cara, mostre os dedos!Os soldados aplaudiram e Tovar

    sorriu. Foi voc quem pediu disse,

    desamarrando a bota. O artista desteshow de aberraes recomenda quetodas as mulheres e crianas evitemolhar para o horror que se aproxima,mas como isso inclui quase todos vocs,imagino que ficarei decepcionado. Descalou a bota, abaixou a meia,revelando a perna branca e peluda, e apuxou, fazendo rodopios no ar, deixando

  • o dedo mostra. Vejam!Todos ficaram boquiabertos, meio

    chocados, meio espantados; a prpriaKira pegou-se rindo e franzindo o rostoao mesmo tempo. O p de Tovar erauma massa de cicatrizes e calos, ostocos dos dedos queimados, e o dedo,o nico que restara, estranhamentecurvado para o lado. O dedo no tinhaunha e o p inteiro era completamentebranco.

    Isso terrvel disse Kira,forando cada palavra em meio aosataques de riso. Como foi mesmo queaconteceu?

    Eu era especialista numa unidade da

  • Marinha disse Tovar, balanando odedo deformado. Exploses.

    O clima na sala mudou torepentinamente que Kira jurou sentir adiferena: um arrepio gelado no ar, umaborrifada de gua fria, enquanto ossoldados, num movimento sincronizado,colocavam as armas em posio de tiro,to rapidamente que a imagem era de umborro de fria. Mesmo sentado, Tovarperdeu o equilbrio e cambaleou paratrs, atrapalhando-se com as meias equase caindo do sof.

    Que diabos o que eu fiz? Voc tem dez segundos para dizer

    onde esteve nas ltimas quarenta e oitohoras ordenou Jayden, mirando o fuzilem Tovar. Ou, na dvida, comeamos

  • a atirar. Do que esto falando? gritou

    Tovar. Nove continuou, firmemente.

    Oito. Espere disse Kira, erguendo as

    mos na tentativa de acalmar os nimos. Deixe ele pensar.

    Sete prosseguiu Jayden. No sei do que est falando! disse

    Tovar.Kira avanou em desespero. Calma disse, com firmeza. Ele

    nem sabe do que voc est falando. No faa nada estpido, Kira.Kira olhou para Tovar. Voc disse que trabalhava com

  • exploses. Tivemos um dia ruim,explosivamente falando, e tudo quequerem saber se voc andou

    Nem mais uma palavra, Kira, ou elesaber exatamente o que no dizer.

    Kira mantinha o olhar preso no deTovar.

    Apenas diga onde voc esteve. Estive em Smithtown ontem disse

    Tovar. Voltei direto para c. L temuma fazenda num antigo campo de golfe.Estava vendendo armas.

    Armas? O que vocs acham que eu negocio,

    filhotes? Sou um fuzileiro naval, negocioo que conheo. Aqui as pessoas no tma Rede de Defesa de Long Island paraproteg-las, ento precisam de armas.

  • Muitas das casas antigas tm um cofrede armas no poro, ento eu explodoos cofres e vendo as armas.

    No me parece nem um poucomenos culpado disse Jayden.

    A voz de Tovar era grossa e aflita. Com dez armas apontadas para

    mim, parece difcil acreditar que nemtodos na ilha possuem uma. Nem todospodem contar com a prontido da Redede Defesa toda vez que algum parecesuspeito. Nesta regio todos sabem quea guerra entre East Meadow e a Voz estprxima e precisam estar preparadospara se defenderem. Meu negcio garantir que tenham instrumentos paraisso.

  • Est mentindo disse um soldado. Como tem certeza? disse Kira.

    No pode atirar em algum com basenuma suspeita.

    Algum tentou lanar vocs pelosares? perguntou Tovar.

    Viu? gritou outro soldado, dandoum passo frente. Ele sabe!

    Parado ordenou Jayden. S atirese eu mandar.

    Kira engoliu em seco. Depois de prestar ateno nos

    ltimos dois minutos da nossa conversano precisa ser nenhum gnio paraadivinhar que algum tentou explodir agente. Se ele sabia sobre a bomba,porque contou que fazia exploses, em

  • primeiro lugar? Kira voltou-se paraTovar. J esteve em Asharoken?

    Ele balanou a cabea negativamente. Isso no tem a menor chance de ser

    o nome de uma cidade de verdade. Voc disse que vende armas e

    munio. Tambm vende explosivos? perguntou Jayden.

    Seria um idiota se fizesse isso respondeu Tovar. Qualquer um quecomprasse explosivos estaria atrs damesma coisa que eu, ou planejandocoisa pior, por exemplo, o que fizeramcom vocs. Todos os meus explosivosesto escondidos.

    Onde? inquiriu Jayden. Alguns na carroa, outros em

    pequenos esconderijos espalhados pela

  • ilha.Gianna se afastou da carroa: Estava apoiada numa bomba? Est estabilizada disse Tovar,

    levantando-se. Os soldados apontaramos fuzis novamente. Ele ergueu as mosno ar, numa demonstrao de inocncia. Esto perfeitamente estabilizadas,OK? Arrastou os ps at a carroa,mancando sobre a bota pesada e o pdescalo. um gel aquoso, permanecetotalmente inerte at voc ativ-lo, e,mesmo assim, precisa de um detonador.

    Onde encontra explosivos naregio? perguntou Jayden, mantendo-osob a mira do fuzil. Pensei que osmilitares tivessem recolhido todo esse

  • tipo de material h anos. Recolheram as armas, verdade,

    mas isto aqui usado comercialmente disse Tovar, levantando a pesada lonaque cobria a carroa e apontando parauma sacola plstica branca, parecidacom uma bolsa de gua. Conseguinuma construo, o p ativador est dooutro lado da carroa. Juro que novendi para ningum.

    Kira olhou para Jayden. Se for mentira ela disse , a

    mentira mais elaborada e bem encenadada histria da humanidade. Seja comofor, estamos voltando para EastMeadow, ento vamos abaixar as armase deixar que o pessoal de l decida oque fazer. Se decidirem que culpado,

  • podem prend-lo, mas no deixarei queo matem aqui.

    Essa a segunda pior ideia que jouvi disse Tovar , mas j que aprimeira levar um tiro na cara, ficocom a segunda.

    Jayden encarou Kira, seu olharqueimando como carvo em brasa. Apsuma longa espera, abaixou a arma.

    Tudo bem. Mas se ele tentar algumacoisa nesse meio tempo, no vou pedirseu consentimento. Ele da Voz, elemorre.

  • KCaptulo Sete

    ira dormiu mal. Ela ouvia Marcus eos outros mudando de posio,

    roncando e sussurrando na escurido. Anoite toda, o camelo gemeu de formaestranha, meio humana, e a casa estalousob a chuva. At os ratos, onipresentesem todas as casas que conseguia selembrar, pareciam mais barulhentos eirritantes que o normal, enquantocorriam e pulavam pelo cho e pelasparedes. Ratos ou, quem sabe, algomaior.

    Em meio a isso tudo, ela no

  • conseguia parar de pensar nas palavrasde Tovar. Havia mesmo uma guerra seaproximando? A Voz estava de fato todesesperada ou to organizada? OSenado parecia pintar o grupo como umbando de terroristas meio selvagens, queatacavam, davam ordens e matavamindiscriminadamente. Mas, nesse caso,ela pensava, o Senado tinha interesse empint-los assim. Se havia um nmerosuficiente deles para formar umverdadeiro exrcito e comear umaguerra de verdade, ento eles eram umaameaa muito maior do que ela jamaisimaginou.

    O vrus RM poderia lentamenteestrangular a humanidade, uma morteaps outra, sem novas geraes para

  • substituir as passadas. Por outro lado,uma guerra poderia dar fim humanidade em semanas.

    Kira afundou ainda mais no sof,tentando pegar no sono.

    Pela manh, estava cansada e com ocorpo todo dolorido.

    Tovar os conduziu pelos fundos dacasa, atravs de um labirinto deproteo: uma ponte temporria, umptio envelhecido e de volta estrada,quase um quilmetro adiante. Sem achuva e com Dolly puxando velozmentea carroa, puderam manter um bomritmo de deslocamento. Kira seesforava em no olhar para trs,tentando tirar da cabea a ideia de que

  • atrs de cada rvore ou carroabandonado haveria uma centena defantasmas da Voz. O grupo precisavaestar visvel para o caso de a Rede deDefesa vir procur-lo, mas aquelavisibilidade fazia Kira sentir-sevulnervel. At mesmo Jayden pareciaapreensivo. O sol j ia alto quandopararam para almoar. Kira bebeu sualtima reserva de gua enquanto olhavaas fileiras de casas arruinadas. Nada semovia. Ela massageou o p dolorido efoi examinar Lainer na maca; estavainconsciente e a temperatura,perigosamente alta.

    Como ele est? perguntou Gianna. Nada bem. Estamos ficando sem

    Nalox e acho que ele est com uma

  • infeco disse Kira, preparando umapequena dose de antibiticos queencontrou em seu kit mdico.

    No faz mal ele dormir tanto? Bem, no uma maravilha, mas no

    ruim. O analgsico que estamosusando feito para o campo de batalha,a pessoa pode receber altas doses e noh risco de morte. Por outro lado, osantisspticos parecem no estarfuncionando bem respondeu Kira,injetando a dose completa deantibitico. Se no formos resgatadosem breve, ele estar encrencado.

    Kira escutou um assobio ao longe eolhou para cima, subitamente. Jaydentambm tinha ouvido.

  • Os olheiros ele disse. Viramque algum se aproxima.

    Empurraram todos para dentro de umacasa nas proximidades. As janelasestavam quebradas e o vento haviacarregado terra suficiente para que umaplanta crescesse dentro da sala; o sof jestava coberto de kudzu. Kira agachou-se num canto, atrs de um pianotombado, Lanier tremendointermitentemente atrs dela. O olhar deMarcus encontrou o dela e ele forou umsorriso.

    Ela ouviu outro assobio, uma srie desons curtos que decodificou comopessoas suspeitas so amigas. Kiracomeou a levantar, mas Jayden fez

  • sinal para que se abaixasse novamente. No custa ter certeza ele

    sussurrou.Um minuto depois, uma carroa

    comprida e fechada, puxada por seiscavalos de raa, passou pela casa.Jayden assobiou de volta, amigossaindo, no atirem, e deixou oesconderijo. Kira e Marcus carregaramLanier para a varanda, onde foramrecebidos por outra equipe mdica. Kiraos deixou a par do estado de Lanier.Enquanto ajudavam todos a subir nacarroa, os soldados distribuam gua ebarras de protena.

    Tovar saiu com Dolly pelos fundos dacasa, no rosto uma expresso deinfelicidade.

  • Vo atirar em mim agora ou quandochegarem em casa?

    Teoricamente, em nenhuma dassituaes disse Kira.

    Jayden saudou o chefe dos soldados.Kira no reconheceu sua insgnia.

    Obrigado pela carona.Os outros soldados retriburam a

    saudao. No contvamos encontrar vocs

    pelas prximas horas. Estavamcaminhando bem.

    Este negociante tem nos ajudadobastante disse Jayden, acenando com acabea para Tovar. Transportou amaior parte do nosso equipamento emsua carroa.

  • Jayden tomou um gole de gua e secoua boca com as costas da mo. Novimos mais ningum. Se algum nosseguiu, decidiu no mexer com umapatrulha armada da Rede.

    Maldita Voz disse o soldado. Temos batedores atrs de qualquer coisaque possam encontrar. A exploso queocorreu com vocs levantou muitosproblemas na base de East Meadow.Vamos fazer uma pausa em Dogwoodpara uma conversa.

    A carroa fez meia volta e os tiroudali, o condutor chicoteando os seiscavalos at atingirem um bom galope. Osol esquentava a cobertura dacarroceria, o calor era insuportvel.

  • Kira sentia-se cada vez mais distante.Acordou com a cabea no colo deMarcus, sentando-se abruptamenteenquanto a carroa parava num sacolejo.Dogwood era uma antiga estao deenergia, transformada em posto deguarda na entrada da rea habitada deEast Meadow, cercado por umalambrado alto. Ao se aproximarem, oporto foi aberto por um soldado e Kiraviu que havia outros no local.

    Daqui podemos seguir a p disseKira, mas o soldado no comandobalanou a cabea negativamente.

    Mkele quer conversar com todosvocs, no apenas com o negociante.

    Conversar, pensou Kira. Um jargomilitar para interrogar educadamente.

  • Quem Mkele? Da Inteligncia respondeu o

    soldado. O comando est de cabeloem p por causa das novidades.Esperam que vocs tenham algumainformao importante.

    Ele ajudou todos a descer da carroae os conduziu para dentro da antigaestao de energia. Um jovem vestindoum uniforme de combate completoacompanhou Kira at uma sala pequena,onde foi deixada sozinha. O soldadosaiu e fechou a porta.

    Kira ouviu o clique da fechadura.Embora a sala fosse pequena e sem

    decorao, Kira notou pelo linleodesbotado que vrias peas de moblia

  • haviam sido removidas recentemente.Contornos indefinidos de escrivaninhase estantes de livros cobriam o cho,como um escritrio fantasma, uma visode um tempo distante. No havia mesa,mas no canto da sala, ao fundo,encontravam-se duas cadeiras.

    Ela esperava sentada, planejando aconversa, fazendo um roteiro do quecada um falaria e imaginando-se soarnaturalmente brilhante. Mas a espera seestendeu, e as crticas que faria sobreser injustamente retida parainterrogatrio transformaram-se numviolento discurso sobre oaprisionamento ilegal. Por fim, ela seentediou e parou de pensar naquilo devez.

  • Havia um relgio na parede, do tipoantigo, redondo, com pequenosponteiros pretos. Pela milionsima vezna vida, Kira perguntou-se como aquilofuncionava. Na sua casa havia umrelgio parecido, mais bonito que este o antigo morador, de antes do Break,seja l quem fosse, tinha uma queda porvidros. Aparentemente, os ponteirosandam se receberem energia, mas osrelgios digitais so mais econmicos eos nicos que ela viu funcionando.

    Bem, era tudo que conseguia lembrar.Seu pai tivera um relgio redondo componteiros? Era muita estupidez nosaber ao menos como eram chamados no existia um bom motivo para algo to

  • presente desaparecer do vocabulriohumano. E, por mais que tentasse, no selembrava de ter visto um daquelestrabalhando, de ter aprendido comodizer as horas nele, ou de ter escutadocomo se chamam. Eram a relquia deuma cultura morta.

    O ponteiro grande apontava para onmero dez e o menor estava na metadedo caminho entre o nmero dois e o trs.Dez zero dois e meio? Ela deu deombros. Este relgio ficou sem energiaexatamente s dez zero dois e meio. Ouseja l o que estiver marcando.Levantou-se para examin-lo. Deveestar pregado na parede ou j teriacado.

    A porta foi aberta e um homem entrou.

  • Kira o reconheceu: era o homemmisterioso da assembleia popular.Talvez tivesse quarenta anos. Sua peleera mais escura que a dela essa era acor da maioria dos descendentesafricanos, ela sups, ao contrrio dadela, marcadamente indiana.

    Boa noite, Srta. Walker. Elefechou a porta e estendeu a mo. Kiralevantou-se e apertou a mo dele.

    J estava na hora. Peo mil desculpas pela demora.

    Meu nome Sr. Mkele. Ele apontouuma cadeira para Kira e puxou outrapara ele. Por favor, sente-se.

    No tem o direito de me manteraqui

  • Peo desculpas, se assim que sesente disse Mkele. No estamosmantendo-a aqui, meu desejo foi apenaso de garantir sua segurana enquantovoc esperava. Trouxeram comida?

    No trouxeram nada. Deveriam ter trazido. De novo,

    peo desculpas.Kira o olhava com cautela. Aos

    poucos, a raiva que sentia por ter ficadopresa tanto tempo naquela salatransformava-se em suspeita.

    Por que se apresentou como senhorMkele? perguntou. No tem umposto?

    No sou do exrcito, Srta. Walker. Mas est numa instalao militar.

  • Assim como voc.Kira mantinha a expresso rgida,

    tentando no franzir o cenho. Algumacoisa naquele homem a incomodava. Eleno havia feito nada alm de falarcalmamente, um modelo de boasmaneiras e cortesia, ainda assim elano colocaria a mo no fogo por ele.Olhou para a cadeira que ele ofereceu,mas manteve-se em p e cruzou osbraos.

    Voc disse que estou aqui para aminha segurana. Contra o qu?

    O homem levantou a sobrancelha. Essa uma pergunta interessante

    vinda de algum que acabou de chegarda terra de ningum. Meu entendimento

  • que algum tentou explodi-la h menosde dois dias.

    No a mim pessoalmente, mastentou.

    Meu ttulo oficial, Srta. Walker, ode chefe da inteligncia, no doexrcito, mas de toda a ilha. Na prtica,significa dizer que sou o chefe dainteligncia de toda a raa humana. Meutrabalho hoje assegurar que aindahaver uma raa humana amanh e faoisso sabendo das coisas. Considere, seassim o desejar, o que sabemos nomomento. Ele levantou a mo e contounos dedos. Um: algum,potencialmente da Voz, ou, que os cusnos protejam, um Partial, deflagrououtro bem-sucedido ataque contra as

  • foras de East Meadow. Dois: algumaltamente proficiente em explosivos e,talvez, em tecnologia de rdio. Trs:esse algum matou um mnimo de trspessoas. Agora, dada a naturezadesagradvel desses trs pequenosdetalhes que sabemos, acredito que irconcordar comigo que a enormequantidade de coisas que no sabemos incrivelmente preocupante, para nodizer coisa pior.

    Bem, disse Kira, assentindo coma cabea. S que no estou mais naterra de ningum, estou numa basemilitar. Aqui deve ser o lugar maisseguro da ilha.

    Mkele olhava para ela sem se alterar.

  • Alguma vez j viu um Partial, Srta.Walker?

    Em pessoa? No. Eu tinha apenascinco anos durante a guerra e desdeento eles nunca mais foram vistos.

    Como pode ter certeza?Kira franziu a testa, pensativa. O que quer dizer? Ningum v um

    Partial h anos, eles esto bem, seestou viva, ento, porque elesaparentemente tambm nunca me viram.

    Vamos supor disse Sr. Mkele ,apenas por um momento, que os planosdos Partials, e no sabemos quais soeles, sejam muito maiores emabrangncia do que o assassinato de umaadolescente.

  • No precisa ofender. De novo, peo desculpas. Ento o problema aqui esse?

    perguntou Kira, a voz expressando maisdo que um toque de exasperao. Partials? Mesmo? No temos ameaasmais importantes com que nospreocuparmos?

    Se um Partial estiver planejandoalgo grande disse, ignorando apergunta dela , algum ataque traioeirocontra ns, nossos recursos ou qualqueroutro aspecto de nossa vida, a maneiramais eficiente de fazer isso seriainfiltrando-se diretamente entre ns.Eles se parecem exatamente como ns;poderiam andar entre ns sem medo de

  • serem descobertos. Voc mdica,deveria saber disso to bem quantoqualquer outra pessoa.

    Kira franziu o cenho. Os Partials foram embora, Sr.

    Mkele. Eles nos encurralaram nesta ilhae depois desapareceram. Nunca foramvistos em nenhum lugar. Nem aqui, nemna fronteira, nem em lugar algum.

    Mkele deu um sorriso breve ezombeteiro.

    A complacente inocncia de umagerao babylndia. Voc disse quetinha cinco anos quando os Partials serebelaram. O mundo que voc v onico que conhece. Quanto da rebeliovoc se recorda, Srta. Walker? Quantodo velho mundo? Se no sabe nem o que

  • um Partial capaz, como saber o queum batalho deles pode fazer?

    Temos problemas muito maioresque os Partials repetiu Kira, tentandono perder a calma. Parecia a mesmavelha atitude que percebia no hospital na verdade, de todos os adultos, umainsistncia teimosa e brutal de lidar como ontem ao invs do hoje. Os Partialsdestruram o mundo, eu sei, mas isso foih onze anos, e ento desapareceram.Enquanto isso o vrus RM continuamatando nossas crianas, a tenso estaumentando por causa da Lei daEsperana, e a Voz est l fora atacandofazendas e roubando provises, e eu noacho

  • A Voz disse Mkele ainda maishumana que os Partials.

    Aonde quer chegar? Aqui, Srta. Walker. Os Partials

    talvez tenham mesmo desaparecido, masno vo precisar preparar um ataquedireto ilha se as tenses entre opovoado e a Voz continuarem crescendo.O vrus RM est desempenhando umpapel muito mais prfido que os Partialspoderiam arquitetar: nossa incapacidadede produzir crianas saudveis e assubsequentes medidas que tomamos paralidar com isso

    Voc quer dizer a Lei da Esperana. Entre outras coisas, sim elas

    esto dividindo a ilha ao meio. No

  • consigo acreditar que o ocorrido deontem no tenha relao com isso. A noser que haja provas contundentes docontrrio, vou concluir que o ataquefazia parte de um plano paradesestabilizar a civilizao humana eassim apressar nossa extino.

    Voc uma pessoa incrivelmenteparanoica.

    Mkele inclinou a cabea para o lado. Fui encarregado, como j disse, de

    cuidar da segurana da raa humana. meu trabalho ser paranoico.

    A pacincia de Kira estava por umtriz.

    Tudo bem, ento. Vamos acabarlogo com isto. O que voc quer saber?

    Conte sobre a clnica veterinria.

  • O qu? A clnica qual voc e Marcus

    Valencio foram enviados para umresgate. O que viu l?

    Pensei que estivesse interessado nabomba.

    J conversei com outrastestemunhas que estavam no local antese durante a exploso e as informaesque me passaram sobre o local so maisvaliosas que as suas. Por outro lado,voc esteve pessoalmente na clnica. Meconte como foi.

    Era uma clnica disse Kira,procurando algo interessante para dizer. Era como todas as outras clnicas quens estivemos em misso: velha,

  • fedorenta e caindo aos pedaos. Umamatilha de ces vive ali e, hum, o quemais quer saber?

    Viu algum cachorro enquanto estevel?

    No, por qu? Isso importante? No fao ideia disse Mkele ,

    embora me parea estranho que umamatilha de ces selvagens falhe emdefender seu territrio contra um grupode invasores.

    Verdade concordou Kira. Talvez o esquadro de resgate queesteve l alguns dias antes tenhaespantado os animais.

    possvel. Hum o que mais? disse Kira.

    Comeamos a separar o medicamento

  • e a bomba explodiu alguns minutosdepois. Por isso no tivemos tempo detestar o aparelho de raios X.

    Ento voc viu a parte externa doprdio, a recepo e o depsito demedicamentos.

    Kira balanou a cabea. Isso. Viu alguma coisa fora do comum? No me vem nada cabea.

    Exceto Ela pausou, lembrando-sedas marcas no p. Agora que vocmencionou, os frascos de comprimidostinham sido mexidos antes de chegarmosl.

    Mexidos? Mudados de lugar disse Kira ,

  • como se algum tivesse examinado osremdios a procura de algo.

    Muito antes de vocs chegarem? No muito. Havia manchas e rastros

    na poeira, tanto no armrio quanto nobalco.

    Poderia ter sido, como voc sugeriuem relao aos ces, o esquadro deresgate que passou por l antes devocs.

    Pode ser disse Kira , mas nuncavi nenhuma patrulha vasculhar osremdios dessa forma.

    O Sr. Mkele contraiu os lbios,pensativo.

    Alguma droga que voc encontrouali poderia ser usada para finsrecreativos?

  • Voc acha que um dos patrulheirosestava tentando se drogar?

    uma das muitas possibilidades.Kira fechou os olhos, forando o

    crebro para se lembrar do nome dosremdios.

    No tenho certeza. A esta altura jficou automtico, entende? A gente sabequais remdios duram e quais no e vaiseparando as caixas, cada qual nummonte, sem realmente pensar no que estfazendo. Mas as clnicas veterinriassempre tm analgsicos, como oRimadyl. Uma dose caprichada dequalquer analgsico pode fazer vocalucinar. Mas tambm pode matar, a noser que se use as nanopartculas

  • militares, que obviamente no seroencontradas numa clnica veterinria.Fora isso Ela ficou em silncio,pensando. Se ela fosse da Voz, vivendonuma regio selvagem e entrando embrigas com a Rede de Defesa, estariapreocupada com coisas maiores queanalgsicos para fins recreativos.Comeava a entender de onde vinha oraciocnio de Mkele e pensou na clnicacomo um alvo militar.

    Clnicas como aquela possuemmuitos medicamentos que podem serrealmente teis a um grupo de rebeldes disse. Antibiticos, vermfugos,talcos contra pulga e xampus. Existe umgrande nmero de coisas de que umbando de agressores numa floresta

  • poderia fazer bom uso. Interessante disse Mkele. Voc

    ter que perdoar minha ignornciaquando o assunto clnica veterinria,mas voc acredita que exista algumamaneira de encontrar um registro doinventrio? Seria possvel determinar,com a menor margem de erro possvel, oque eles tinham, o que est faltando e oque foi alterado?

    Duvido que tenham alguma coisa nopapel respondeu Kira , mas a clnicatinha computadores. Voc poderia lig-los num gerador e torcer para oinventrio estar armazenado no discorgido. Se o arquivo ficar numa redeexterna, no ser seu dia de sorte. Os

  • computadores eram usados no hospital,graas ao painel solar, mas o velhomundo usava computadores para tudo,todos conectados numa rede mundial queKira sequer conseguia imaginar. Essesistema entrou em colapso junto com arede de energia e tudo que havia neleperdeu-se para sempre.

    Faremos isso disse Mkele,balanando a cabea. Mais algumacoisa que possa nos ajudar?

    Kira deu de ombros. Se me lembrar de algo, com certeza

    voc ficar sabendo. Muito obrigado pelo seu tempo

    disse Mkele, indicando com um gesto ocaminho da porta. Est liberada.

  • OCaptulo Oito

    soldado Brown levou Kira paracasa numa carroa pequena. Ela

    apertava a mo de Marcus, no bancotraseiro. Jayden e os soldados ficarampara os interrogatrios. Ela no viuGianna nem Tovar.

    Era quase noite e o balano dacarroa deixava Marcus sonolento. Kiraobservava a cabea dele tombar para afrente, balanar e depois levantar numtranco, em seguida cair outra vez,lentamente. Repetidas vezes. O som dabatida dos cascos dos cavalos contra o

  • cho ecoava tediosamente nas casasvazias, mas ao se aproximarem da reahabitada, Kira viu os sinais familiaresda atividade humana: casas pintadas,gramados cuidados, telhados ainda dep. East Meadow. Seu olhar atentoprocurava o que refletia as luzes e sorriuquando o encontrou: o vidro das janelas.Em todos os outros lugares da ilha, osvidros haviam sido quebrados pelosgatos, pelos pssaros, pelas intempriesou pelo desnivelamento das paredesapodrecidas. No ali. Em East Meadowas janelas eram protegidas e cuidadas, ea maioria delas estava to limpa etransparente quanto um pedao slido decu. Fora dali, no agreste, havia ladres,a Voz e a carcaa do velho mundo.

  • Ali havia janelas de vidro. Acorda, dorminhoco! disse Kira,

    batendo com o ombro na orelha deMarcus. Estamos quase em casa.

    No pedi sushi. O qu?Marcus abriu os olhos

    cautelosamente. O que foi que eu disse? Nada que merea levar uns tapas.

    Sorte ter sonhado com comida em vez degarotas.

    Sou um homem disse Marcus,esfregando os olhos. Contei apenasmetade do sonho.

    Nossa viagem de uma noitetransformou-se numa de dois dias, num

  • ataque da Voz e num interrogatriomilitar disse Kira. Voc acha quevamos nos encrencar por faltar nohospital, hoje?

    A Rede de Defesa deve ter avisado disse Marcus, movimentando opescoo para liberar a tenso. Desconfio de que, se tentarmos entraragora, vo nos mandar de volta paracasa com pacotes de rao de canja. Marcus sorriu e olhou para o sol. Jvai anoitecer. E se nos dispensaram dohorrio diurno, garanto que no vo nosdeixar trabalhar noite.

    Ento est decidido disse Kira,transferindo o peso do corpo para o pisoda carroa. Vou direto para casa,tomar um banho e cair na cama. Talvez

  • acorde para a festa do final de semana,mas no prometo.

    No perderia essa festa por nada nomundo avisou Marcus. Xochi vaipreparar um frango, um de verdade,vivo. Embora desconfie que a vida deleser curta. Talvez eu mesmo depene obicho.

    Voc acha que a me dela estar l? A senadora Kessler? perguntou

    Marcus, o queixo cado, em espanto. Xochi agora anda armada, a senadorano vai se aproximar da casa.

    Kira riu e balanou a cabea.Gostaria que fosse apenas umabrincadeira, mas no estava to certadisso.

  • V se traz alguma coisa disseKira, voltando-se para Marcus ecutucando seu peito. No vouacobert-lo como da ltima vez.

    S aconteceu uma vez respondeuMarcus, rindo , e no foi na ltimafesta, foi a quatro festas atrs. E eu jlivrei a sua muito mais vezes.

    S estou avisando disse Kira,cutucando-o novamente. No queroque meu namorado folgado meenvergonhe na frente de todo mundo. Ela deu mais uma cutucada com o dedo,lanou um olhar brincalho e voltou aespet-lo, s para provocar.

    Voc cutuca todos os garotos ou amim em especial?

  • Ela se aproximou dele. S voc. Deu-lhe um beijo no

    rosto. At encontrar algum melhor.Marcus colocou a mo atrs da sua

    cabea e a puxou para outro beijo, destavez na boca; um beijo lento, macio edelicioso. Kira apertou seu corpo contrao dele, sentindo-o ainda mais epensando quais seriam os comentriosdele no consultrio. Havia chegado ahora? Ela estava preparada?

    Rapaziada disse Brown. Estou ameio metro de vocs.

    Kira afastou-se, envergonhada. Desculpe. No me desculpo disse Marcus.

    Valeu cada segundo.

  • Voc disse a casa azul, certo? Brown apontou para a fileira de casas frente e Kira reconheceu a rua ondemorava.

    Isso, a minha a azul.Brown balanou a cabea. O Romeu vai ficar com voc? Ficaria respondeu Marcus , mas

    Nandita no me deixaria entrar. Minhacasa fica duas ruas para cima, se no seimportar.

    Sem problemas. O jovem soldadodiminuiu a velocidade e parou oscavalos. Kira deu um ltimo beijorpido na bochecha de Marcus e desceu.

    Olha a Nandita ali disse Marcus,endireitando-se no banco e apontando

  • para a mulher. Kira virou-se e a viuatarefada no jardim. Marcus abaixou avoz. Veja se ela tem algumas ervaspara o frango.

    Acho que alecrim respondeu Kira.Marcus sorriu, balanando a cabea. Algo mais?

    O que mais puder dividir disseMarcus. Tudo no seu jardim incrvel.

    verdade disse Kira. Obrigada,Brown.

    O soldado sorriu. Me chame de Shaylon. Devagar, garanho disse Marcus.

    Ela j fez a escolha dela.A carroa partiu.Kira ajeitou a mochila nas costas e

    caminhou em direo a casa. Ela morava

  • com outras garotas e com a babNandita. Depois de onze anos deconvivncia, Nandita parecia mais umaav do que qualquer outra coisa. Entre aGuerra dos Partials e o RM, nenhumafamlia sara ilesa: todas as esposas quesobreviveram tornaram-se vivas e todacriana, rf. Os poucos humanosimunes ao vrus uniram-se para garantirsua segurana e vieram morar em LongIsland por ser um lugar que ofereciasegurana e infraestrutura, com fcilacesso pesca e terra arvel. Ascrianas foram divididas entre osadultos e Nandita tinha alegrementeficado com quatro delas: Kira, Madison,Ariel e Isolde. Ariel mudara-se h cerca

  • de trs anos, quando completoudezesseis, e Madison foi morar comHaru aps o casamento. Ariel raramenteas procurava, mas Kira amava a todascomo irms.

    Nandita trabalhava na horta e Kirasentia o perfume da extica mistura deervas aromticas: alecrim, noz-moscada,erva-doce, coentro, manjerico,manjerona Todo vero Kira ajudavana horta e mesmo assim no conseguiasaber o nome de tudo que havia ali.

    Marcus quer um pouco de alecrimpara o frango de sbado? perguntouNandita. A velha endireitou o corpo elimpou as mos sujas de terra. Falavarpido, quase impassvel, mas Kirapodia ver em seus olhos o quanto se

  • preocupara com sua ausncia.Kira sorriu. Voc ouviu o que ele disse? No preciso ouvir o que ele diz

    respondeu Nandita. A cabea daquelegaroto s pensa numa coisa. Elagrunhiu e se levantou, pegando umacesta com folhas frescas, ervas eamoras. Nunca tirava o sri, mesmoquando trabalhava na horta. As vendasno mercado foram boas hoje. Me ajudel dentro.

    Kira ajeitou a mochila e o kit mdiconos ombros, subiu as escadas atrs davelha e entrou na varanda. Xochi ouviamsica no ltimo volume no andarsuperior. Kira sorriu. Teria que

  • conversar com ela depois queterminasse de ajudar Nandita.

    Nandita amava todas as garotas, masKira era sua preferida. Talvez porquefosse a caula ou talvez porque fosse toadorvel. Kira lembrava-se de ajudarNandita na feira, quando era pequena,gritando sem medo para os adultos quepassavam, exigindo com todadeterminao que comprassem um maode hortel. Nandita a chamava dePequena Exploso.

    Algumas vezes Kira sentia-se culpadapor ter muitas recordaes de Nandita enenhuma de sua me verdadeira. Seu paiela conhecera, mas sua me Deixapara l. Ela tinha Nandita.

    Aconteceu alguma coisa excitante

  • enquanto estive fora? Minha Pequena Exploso quase

    morreu em uma grande exploso disseNandita, abrindo a porta da casa.Segundo os documentos, as fotos e oslbuns que elas tinham encontrado nacasa, o local pertencera famliaMartel. Eles haviam morrido com aporta trancada, e os primeirossobreviventes foram forados aarromb-la para entrar e retirar oscorpos. Nandita trocara a porta quatrovezes desde ento, sempre que uma ououtra garota esquecia a chave depois deuma longa noite fora. Nandita dizia quepreferia trocar de porta a deix-laaberta. No era difcil encontrar portas

  • usadas na ilha. Kira largou a mochila nasala e seguiu a av at a cozinha.

    Voc j est bem crescida disseNandita, entrando na cozinha e olhandopara Kira com um sorriso. Ser umaboa esposa.

    Hum, como?A velha colocou a cesta em cima do

    balco, abrindo o armrio procura detigelas. No quer ser uma esposa? Novai se casar com Marcus?

    Kira abriu outro armrio e entregouuma tigela de cermica Nandita.

    Ainda no pensei muito sobre isso.Nandita virou-se e encarou Kira. A

    garota ficou encabulada, esperando queela desviasse o olhar. Por fim, suspiroue soltou as mos.

  • Tudo bem, j pensei, mas nodecidi nada. No sei o que quero.

    Voc quer ser feliz disse Nandita,indo at o armrio aberto atrs de Kira epegando uma pilha inteira de tigelas. o que todos querem. Voc s no sabe oque a faz feliz.

    Kira fez uma careta. Isso esquisito?Nandita balanou a cabea

    gentilmente. A felicidade a coisa mais natural

    do mundo quando voc a possui, e amais incerta, esquisita e impossvelquando no. Ela arrumou as tigelas ecomeou a selecionar as ervas,separando-as em maos e removendo as

  • folhas e os talos para colocar nastigelas. O aroma de hortel se espalhoupela cozinha. como aprender umalngua estrangeira: voc pode pensar emtodas as palavras que quiser, mas nuncaser capaz de falar se no criar coragempara pronunci-las em voz alta.

    E se voc falar errado? Nesse caso, ter pedido ao garom

    um prato de elefantes la biblioteca respondeu Nandita , ou seja l qual foro equivalente metafrico para isso. Noconsigo ir muito longe com as analogias,me atrapalho toda.

    Que pena disse Kira, pegando umpunhado de alecrim e partindo os galhosverdes-claros sobre a tigela. Gostariaque voc continuasse a falar sobre a

  • felicidade, o amor, sobre tudo que opropsito da vida.

    Da vida de quem? Como assim? Cada vida tem um propsito disse

    Nandita. Algumas pessoas conseguemencontr-lo mais facilmente que outras.O segredo, a coisa mais importante quevoc precisa saber, que, seja l qualfor o propsito da sua vida, ele no onico caminho que voc tem para seguir continuou a velha, apontando comfirmeza um ramo de coentro em direo Kira.

    Ah? No importa por que voc est aqui,

    no importa por que qualquer um de ns

  • est aqui, voc nunca est presa aodestino. Nunca est amarrada. Voc fazsuas escolhas, Kira, e no deve nuncadeixar que roubem isso de voc.

    OK. Mas no era bem ondeimaginei que essa conversa fossechegar.

    Isso porque eu tambm fao minhasprprias escolhas. Nandita pegou acesta, com metade das ervas dentro. Vou levar estas aqui para os vizinhos.Armand est doente. V tomar um banho.Quero minha casa com cheiro demanjerico, no de sovaco deadolescente.

    Fechado concordou Kira,correndo escada acima. A msica deXochi era ainda mais alta no andar

  • superior, uma variedade de screeching,batido e gritaria que Xochi sempreouvia quando estava sozinha. Kira riu.Em seguida, percebeu o quanto cheiravamal e correu para o chuveiro com umacareta.

    Na pequena lista de benefcios que sepodia ter com o fim do mundo, no topo,ou quase l, estavam as roupas. LongIsland j chegou a ter cerca de oitomilhes de pessoas, com todos osshoppings, lojas de departamento emecas da moda necessrias para vesti-las. O Break reduziu a populao a umafrao mnima de pessoas e destruiu osistema econmico, deixando todasaquelas roupas disponveis. Kira tinha

  • conscincia de que tudo que aconteceufoi terrvel e que os sobreviventestocavam a vida numa mistura brutal detrabalho pesado, desespero e medo. Mastodos se vestiam muito bem.

    Muitas das roupas na ilha estavamsurradas demais para o uso mofadas,rodas pelas traas ou desbotadas pelaexposio ao sol , mas muitascontinuavam em bom estado, mesmohoje em dia. Ir s compras era tosimples quanto vasculhar numa lojavazia ou a vizinhana, bastava encontraralgo que casse bem e dar uma boalavada para se livrar dos insetos e domau cheiro. Os depsitos e armaznseram os melhores. As roupas estavamem caixas fechadas. Kira havia passado

  • muitos finais de semana com as amigasfuando em pequenos shoppings atrs deuma loja Twenty-Two, especializada emartigos de futebol, de camisetasThreadless, ou qualquer outra butiqueque ningum encontrara ainda. Asgarotas de Nandita tinham um quartolotado de todo tipo de roupa imaginvel,de malhas folgadas a vestidos sensuais etudo o mais entre os dois extremos. Kiraescolheu uma pea que realava suaspernas depois de dois dias deexperincias quase mortais, era melhorque se divertisse um pouco e foiconversar com Xochi.

    Xochi Kessler mudara-se para a casalogo aps a sada de Madison. Tinha

  • acabado de completar dezesseis anos eno via a hora de se ver livre da me.Xochi trouxera consigo quatro painissolares sua me pelo menos era rica ,o suficiente para acender lmpadas,fazer funcionar um fogo eltrico emesmo uma torradeira, se ela quisesse,mas em vez disso cada gota deeletricidade que aqueles painisproduziam ia para o seu aparelho desom. A msica era praticamente a vidade Xochi. Kira a conhecera anos atrsenquanto fazia compras. Kiraprocurava roupas e Xochi, aparelhos desom, tablets feitos de metal, plstico evidro onde o antigo dono haviaarmazenado horas e horas de todo tipode msica imaginvel. Xochi recolhera

  • quase cem aparelhos.A amiga acenou assim que Kira

    apontou na porta. Renda-se Kira, a poderosa

    herona da abominvel misso deresgate em Asharoken! Est arrasandonesses shorts, garota!

    Kira sorriu e a saudou. Quando algum tem pernas como as

    minhas, tem obrigao de mostr-las falou, brincalhona, rodopiando sobre ump. s pessoinhas.

    Isso uma piada irlandesa? perguntou Xochi, franzindo o cenho, numfalso tom de formalidade.

    Certamente.A senadora Erin Kessler tinha orgulho

  • de ser irlandesa e por isso Xochicrescera num ambiente agressivamenteirlands. Na verdade, sua ascendnciaestava mais para os povos do sudoestenorte-americano, mexicano ou mesmoasteca, mas isso no impediu a senadorade forar uma doutrinao cultural.Quando Xochi ficava brava, ela usavaum sotaque irlands. Kira achava aquilohilrio.

    No quero dizer duendes, querodizer plebeus disse Kira. Foi umapiada de plebeu, mas no tem graa sevoc no fizer de conta que sou umaprincesa.

    Eu sou uma princesa e desafioqualquer um a provar o contrrio disseXochi.

  • Princesa da onde? perguntou Kira Da Lincon Avenue?

    Meus pais eram donos de um vastoe extico imprio disse Xochi,movendo os dedos enigmaticamente. Como ningum nunca chegou a conhec-los, pode ser que tenham sido mesmo.

    Quais so os planos para a festa desbado? perguntou Kira. Nandita erauma boa cozinheira, mas Xochi eraexcelente e sempre cozinhava nasocasies especiais.

    Frango assado, batatas fritas edonuts, se arranjar farinha. Arroz-doce gostoso, mas pelo amor de tudo o que mais sagrado: eu quero comerchocolate!

  • Donuts de chocolate? perguntouKira, valorizando a ideia com umassobio. Qual senador morreu paraque voc ficasse no lugar dele?

    Infelizmente no foi a minha me disse Xochi. Ela deu um pulo e foi emdireo porta. Ontem conheci umcara no mercado que jurou ter um poucode farinha. Vem comigo?

    Estas pernas no vo ajudar spessoinhas em nada se ficarem trancadasaqui dentro disse, levantando-se numrodopio. O povo precisa ver suaprincesa!

    Era sexta-feira. Dia da Reconstruo.Dia de festa.No sbado no houve partos nem

  • bebs febris para monitorar. Emboraestivesse exausta, Kira voltou para casadisposta a se divertir, sem culpa. Tomoubanho, arrumou o cabelo e escolheu umaroupa clara da seo paquera doguarda-roupa: uma blusa de seda combordados chineses, um par de sandliasde salto alto e shorts jeans. Ficou emdvida por alguns momentos,preocupada com o tempo. Era vero,mas um vero frio. Se viesse outratempestade, ela poderia se arrependerde no ter colocado algo mais pesado.Remoeu a deciso por algum tempo,comparando os shorts com uma calacomprida. Por fim, decidiu-se pelosshorts. Caam melhor com a blusa e comela. Precisava desse incentivo. Ela

  • arriscaria ficar com as pernas geladasem troca de sentir-se, por algum tempo,uma pessoa normal outra vez. Talvezdurante a festa nem sassem de dentro dacasa.

    Vamos logo disse Xochi, batendona porta do quarto de Kira. Ela estavatoda de preto, incluindo o batom e odelineador de olhos, mas com umincompatvel avental colorido amarradona cintura. Madison e Haru jchegaram. E um cara chamado Marcus:alto, de roupa ridcula e fcil de levarna conversa. Vai gostar dele.

    Entendo porque seus paisexpulsaram voc da realeza disseKira, brincalhona, com uma careta de

  • desprezo. Voc pode ser umagarotinha muito impertinente quandoquer.

    Minha inteligncia como as suaspernas disse Xochi. Seria muitoegosmo de minha parte mant-la s paramim. Kira a seguiu at a cozinha eacenou para Nandita, que estavaocupada lavando louas. Xochi pegouuma tigela de tomates de cima dobalco, temperou-os com azeite epolvilhou o alecrim de Nandita vontade, misturando os ingredientes comas mos. Nandita, suas ervas tm umaroma maravilhoso!

    Obrigada, garota assustadora agradeceu Nandita. Era uma brincadeiraentre elas: o guarda-roupa de Nandita

  • era inteiro de sris coloridos e ela noentendia a preferncia de Xochi pelopreto.

    A cozinha est com cheiro timo disse Kira, respirando fundo , mas voudeixar vocs e procurar Marcus.

    D um beijo nele por mim disseXochi.

    De lngua? No muito prolongado. No quero

    parecer fcil.Kira atravessou o corredor, inalando

    profundamente o aroma que a deixavacom gua na boca. Podem falar o quequiserem sobre a me de Xochi, mas elaensinou aquela garota a cozinhar.

    O corredor estava iluminado com

  • lmpadas de gasolina, todas encapadas ecom filtros para bloquear o cheiro. Kiraouvia o rudo de vozes vindas da sala deestar, o assobio e o estalar do fogo nofogo lenha da cozinha. assim queos camponeses comem, pensou. Quaseme faz desejar mudar de vida.

    Quase.Ela seguiu as vozes at a sala. Marcus

    e Haru conversavam animadamente nosof enquanto Madison descansava numapoltrona. A msica preenchia oambiente como uma nuvem carregada.

    Madison sorriu. Oi! Oi, Mads! E a?Madison deu um sorriso afetado e

    apontou com o olhar na direo de

  • Marcus e Haru. Estou relaxando enquanto seu gentil

    namorado arca com o nus da justificadafria do meu marido. Ele est naquelesdias.

    Kira balanou a cabea. Haru falavasem parar.

    Claro que sobre liberdade diziaHaru , a preservao da liberdadepor meio da lei. O olhar de Haru eraintenso. Marcus, apesar de determinado,parecia plido perto dele. Qualquersociedade necessita de certa quantidadede leis: de mais tirania, de menos caos.

    Kira! exclamou Marcus,praticamente pulando do sof. Ele

  • cruzou a sala e a abraou. Ao sesepararem, mantiveram as mos dadas.Ele a olhou de cima a baixo,intencionalmente evitando olhar paraHaru. Voc est tima!

    Obrigada disse Kira. Ela oconduziu at o sof e sentaram-se. OlHaru, que bom te ver. Ela realmenteno queria que ele recomeasse amartelar o mesmo assunto, seja l qualfosse, mas no podia recusar-se areconhecer sua presena.

    Bom te ver tambm respondeu. Fico feliz em saber que ambossobreviveram aventura na costa.

    Kira levantou a sobrancelha. Ficou sabendo? Todos ficaram disse Madison.

  • Acho que temos assuntos mais animadosque a misteriosa emissora de rdiocarregada com uma massiva quantidadede bombas que matou trs pessoas. Masvoc sabe como funciona. s vezestambm conversamos sobre coisaschatas.

    Foi a Voz afirmou Haru. Aquelamulher que estava com vocs, Gianna, um deles.

    Kira riu. O qu? Ela estava no meio da

    exploso. Eu mesma a tirei de debaixodos escombros. Ou est dizendo que elase explodiu? De propsito? Ou que ela uma terrorista de araque?

    Talvez quisesse proteger algo que

  • estava l disse Haru. Ela no voltou mais Marcus falou,

    calmamente.Kira olhou surpresa para ele, depois

    para Haru. Ela voltou com a gente. At a estao de Dogwood disse

    Marcus, balanando a cabea. Kirapodia ver a tristeza em seus olhos;tristeza e confuso, alm de um pouco demedo. Depois ningum mais a viu.

    Kira balanou a cabea; aquilo eraloucura.

    Ela no era da Voz. Ela no gostavamuito de Jayden, mas ele exagerou umpouco na dose, ningum teria gostado. Olhou para Madison. Sem quererofender.

  • No ofendeu. Foi ela quem identificou aquele

    lugar como sendo uma estao de rdioe a nica pessoa que no deveria morrerna exploso disse Haru. At ondesabemos, o outro sujeito percebeu queera uma base de operao da Voz ematividade e Gianna detonou osexplosivos para silenci-lo. Ela foi anica sobrevivente.

    Kira riu alto. Mas, sentindo-seculpada, emendou:

    Desculpe, mas isso incrivelmente paranoico. Voc quaseto terrvel quanto o cara que nosinterrogou.

    Paranoico ou no bvio que a

  • Rede de Defesa pensa a mesma coisa ouno a teria mantido sob custdia defendeu-se Haru.

    Xochi entrou na sala e encostou-se nobatente da porta.

    Esto falando sobre aquela cientistada computao que participou da missode resgate?

    Kira soltou as mos e arregalou osolhos.

    Todos sabem, menos eu? Voc passa quinze horas no hospital

    disse Madison. A Voz poderiasequestrar o Senado inteiro e voc nosaberia.

    A Rede de Defesa no deveriamanter uma pessoa sob custdia argumentou Xochi. As prises

  • deveriam ser pblicas, assim como osjulgamentos. As pessoas no podemdesaparecer sem nenhum motivo.

    No sem motivo disse Haru. Ela uma terrorista. um bom motivo.

    Voc no sabe se ela umaterrorista rebateu Xochi. Ou ser quevoc foi readmitido na Rede de Defesacom total liberdade para agir eesqueceu-se de contar?

    Haru a encarou. Voc tem algum problema com a

    Rede de Defesa? Tenho problema com o fato de

    fazer pessoas desaparecerem ter setornado, inesperadamente, parte dotrabalho da Rede de Defesa. Quando foi

  • que isso aconteceu? O trabalho deles nos proteger e

    fazem isso da maneira como achammelhor. Se no confia neles, por quecontinua aqui?

    Talvez acredite em resolver osproblemas em vez de fugir deles.

    Talvez?A discusso est ficando acalorada

    demais, pensou Kira. Quando iaintrometer-se e dar um basta napolmica, Marcus decidiu falar, e pelosdois.

    Acho que est na hora de mudar deassunto disse. melhor todo mundose acalmar. Ele voltou-se para Xochi. Est precisando de ajuda na cozinha?

    Est quase tudo pronto respondeu

  • Xochi, lanando um ltimo olhar desarcasmo a Haru. Pode me ajudar aservir.

    Caminharam de volta pelo corredor eKira sentiu-se aliviada. Ela gostaria deculpar Haru pela briga e elecertamente era um dos maioresresponsveis pela discusso ter viradouma briga , mas ela sabia que a culpano era toda dele. A tenso estava altaem toda East Meadow, provavelmentena ilha inteira, todos estavam no limite.Ser que Gianna fazia mesmo parte daVoz? O governo tinha desaparecido comela?

    Em certo sentido, tinha sido mais fcilquando Kira era uma criana e os

  • Partials eram os grandes malvados.Tudo de terrvel que acontecia podia serexplicado, e mesmo que a explicaofosse assustadora, pelo menos erasimples. A escurido estava nitidamenteseparada da luz. Mas agora Kira nofazia ideia de quem era o inimigo, aquem culpar ou em quem confiar. SeGianna fosse da Voz, no se podiaconfiar nos vizinhos, e se ela no fosse,no se podia confiar no governo. Kirano gostava de nenhuma daspossibilidades.

    Haru levantou-se, ainda contrariado. Vou l fora, preciso de ar.Ele deixou a sala e Kira ouviu o

    clique da fechadura.Madison deu um sorriso triste.

  • Desculpe por ele disse. Est sobmuita presso.

    Semana difcil no trabalho? perguntou Kira. Haru trabalhava emconstruo. No na construo decoisas, porque tudo que eles pudessemprecisar o velho mundo j haviaconstrudo. Em East Meadow odepartamento de obras fazia amanuteno dos prdios em uso eavaliava aqueles que o Senado julgavanecessrios comunidade. Eles faziammuitas misses de resgate, determinandoa estabilidade de prdios antigos, antesde as equipes entrarem e retirarem o quehavia de til. Haru demonstrara talentopara este tipo de atividade, por isso fora

  • transferido da Rede de Defesa. Maspelo jeito no andava muito satisfeito.Kira sabia que toda vez que algo davaerrado no trabalho, ele ficava azedodurante alguns dias. Em mais de umaocasio Kira j havia se perguntado se atransferncia de Haru no teria sido umadispensa velada, resultado de algumconflito ou infrao.

    Para a surpresa de Kira, Madisonbalanou a cabea.

    Est tudo bem no trabalho dissecalmamente , que Ela parou, oolhar fixo no cho, ento olhouintensamente para Kira. Venha c. Avoz era mansa, mas animada, os olhossubitamente cheios de energia. Kiraapertou os olhos de leve, tentando

  • imaginar o que poderia deixar Madisonto feliz e Haru to intratvel. Eladeslizou pelo sof enquanto Madisonolhava por cima do ombro. Naquelemomento, ela compreendeu. Sentiu opeso da emoo como um soco noestmago. Arregalou os olhos paraMadison, o ar preso na garganta.

    NoMadison virou-se, o sorriso de uma

    orelha a outra. Estou grvida.Kira balanou a cabea, ainda

    tentando respirar fundo. No, Mads, no Sim, tenho certeza disse Madison.

    Estou com nuseas h semanas. s

  • vezes no consigo comer e depois demeia hora estou morrendo de desejo decomer algo totalmente esquisito. Tenhodesejo de comer terra, Kira, como a donosso jardim. No a coisa mais doida?

    No temos certos minerais em nossadieta sussurrou Kira. Os desejos deuma grvida so uma forma do seucorpo dizer de quais nutrientes estprecisando. O desejo por terra no toincomum com a dieta que temos.

    Daqui a alguns dias, vou ao hospitalfazer um teste de verdade disseMadison , mas queria te contar antes.

    No repetiu Kira, balanando acabea. Isso no pode estaracontecendo. Ao mesmo tempo, sabiaque podia sim, que na verdade as

  • chances eram grandes. Mas Madison eracomo uma irm para ela, o mais prximode uma famlia. Voc sabe como ? perguntou. A dor? O risco? Mulheresque morrem no parto? Mesmo com todosos recursos e a experincia do hospital,ainda acontece. E tambm voc podesobreviver e o beb no. Ainda noencontraram a cura para o RM. Voccarrega o beb na barriga por vriosmeses, depois sofre todas aquelas dores,sangra e tudo o mais para no final obeb morrer.

    Kira sentiu as lgrimas vindo, o calormido se acumulando nos olhos eescorrendo friamente pelo rosto. Elaimaginou Madison no lugar de Ariel,

  • gritando, com os olhos arregalados,batendo contra o vidro enquanto a filhaagonizava, chorava e morria.

    Haru tem razo desabafou Kira. demais para voc, no precisa passarpor isso.

    Sim, preciso respondeu baixinho. uma lei estpida disse Kira,

    levantando a voz, enraivecida. Depoisolhou nervosamente para o corredor efalou baixinho:

    No precisa ir adiante com isso. Sme d um tempo, posso falsificar quevoc estril, acontece, apenas no

    J est feito disse Madison. Seusorriso era igual ao que Kirapresenciara em uma dzia de outrasmes: doce e puro. O corao de Kira

  • partiu-se. Madison colocou a mo sobrea dela.

    No fiz isso pela Leia da Esperananem pelo Senado. Foi por mim mesma.

    Kira balanou a cabea, as lgrimasainda rolando no rosto.

    Quero essa gravidez explicouMadison. Nasci para ser me. Est nomeu sangue, est bem aqui, no centro dequem sou. Ela apertou o peito ederramou algumas lgrimas. Entendoque isso assuste voc e Haru. Eutambm estou com medo, morrendo demedo, mas estou fazendo a coisa certa.Mesmo que ele viva apenas alguns dias,apenas algumas horas.

    Oh, Madison! Kira inclinou-se

  • para a frente, abraando a amiga. Sentia-se mortificada e culpada. Sabia queestava certa, mas envergonhava-se deser to estraga prazer com a amiga.Claro que Madison sabia dos riscos;todos na ilha sabiam. Madison no fugiadeles, batia de frente.

    Kira afastou-se, enxugando aslgrimas.

    Um dia teremos um sobrevivente ela falou. inevitvel. Poder ser oseu.

    Marcus entrou na sala carregando umabandeja grande de madeira e parou aover as duas abraadas e chorando.

    Est tudo bem? Depois te falo disse, afastando-se

    de Madison e enxugando as lgrimas

  • novamente. Suas bochechas ressecaramde tanto esfreg-las.

    Tudo bem disse devagar,colocando a bandeja na mesinha decentro. Xochi servira um frango assadointeiro, suculento e coberto com ervas.Ao lado, um monte de batatas fritas.Xochi veio logo em seguida, com umabadeja de vegetais todos frescos, emhomenagem ao feriado. Por ltimo,Nandita trouxe uma bandeja com donutsde chocolate. Kira ficou com gua naboca. No conseguia se lembrar daltima vez que comera algo to gostoso.Talvez um ano atrs, no ltimo Dia daReconstruo.

    Marcus parou na frente de Kira.

  • Precisa de algo? Quer beber algumacoisa?

    Kira balanou a cabea. Estou bem, mas voc pode trazer um

    copo de gua para Mads? Trago para voc tambm. Ele

    tocou o ombro de Kira amavelmente, emseguida voltou cozinha.

    Xochi olhou para Madison, depoispara Kira. No disse nada, mas virou-separa o aparelho de som.

    Acho que precisamos de umamsica mais relaxante.

    O equipamento de som era umpequeno painel sobre a prateleira, quese conectava, sem fios, a uma srie decaixas de som espalhadas pelo cmodo.

  • No centro do painel, uma entrada paraos aparelhos de msica digital. Xochidesconectou o que estava ali,arremessando-o dentro de um cesto. Alguma sugesto?

    Madison sorriu. Msica relaxante uma boa ideia. Ponha alguma da Athena disse

    Kira, levantando-se para ajudar. Gostodas msicas dela.

    Ela e Xochi vasculharam dentro dolargo cesto de palha cheio de cubosfinos e prateados. A maioria comdedicatrias: CATELYN, DO PAPAI.A CHRISTOPH: FELIZANIVERSRIO. Mesmo os que notinham dedicatria, apresentavam algumtipo de identificao: uma capa de

  • plstico com algum desenho ou estampa;uma imagem gravada no verso, umpequeno amuleto pendurado no canto.Eram mais que depsitos de msica,eram lembranas de uma personalidade uma pessoa real, do que ela gostava edo que no gostava, suas preferncias epensamentos ntimos refletidos na listade msicas. Xochi passara anosgarimpando os aparelhos entre as runase ela e Kira ficavam horas a fio deitadasno cho ouvindo cada um deles eimaginando como deveria ter sido odono. KATHERINE, NA SUAFORMATURA estava repleto de msicacountry, alegre e danante, ossentimentos mostra. JIMMY OLSEN

  • ouvia todo tipo de msica, de cnticosancestrais a msica clssica, de thrashrock a metal. Quase no fundo do cestoestava o que Kira procurava: ATHENA,MEU ANJO. Ela plugou no aparelho.Aps alguns segundos, a msicacomeou, suave e envolvente, umacamada sutil de ondas eletrnicas,guitarras dissonantes e vocais roucos entimos. Era relaxante, reconfortante etriste, e casava perfeitamente com ohumor de Kira. Ela fechou os olhos esorriu.

    Acho que teria gostado de Athena.Seja l quem tenha sido.

    Marcus voltou com a gua e umminuto depois Haru entrou, vindo dosfundos. Sua expresso era solene, mas

  • tranquila. Ele inclinou a cabeaeducadamente a Xochi.

    O cheiro est delicioso. Obrigadopor t-lo preparado.

    O prazer foi meu.Kira deu uma rpida olhada ao redor. Estamos esperando mais algum?Madison balanou a cabea

    negativamente. Tentei falar com Ariel, mas ela

    ainda no quer falar comigo. E Isoldevai se atrasar. Disse para comearmossem ela. Est acontecendo algoimportante no Senado e Hobb precisadela at mais tarde.

    Garota de sorte disse Xochi. Elapassou os pratos e as facas. Aps uma

  • pequena pausa, atacaram a comida. Feliz Dia da Reconstruo!

    exclamou Marcus. Ele levantou o copode gua e os outros fizeram o mesmo. Astaas de cristal, resgatadas numa imensapropriedade fora da cidade, tocaram-seperfeitamente. A gua fora fervida eestava fresca, levemente amareladapelas substncias qumicas dopurificador de Nandita.

    O velho mundo terminou disseMadison, entoando as palavrasfamiliares , mas o novo est apenascomeando.

    Nunca esqueceremos o passado disse Haru , nem renunciaremos aofuturo.

    Xochi levantou o queixo, mantendo a

  • cabea erguida. A vida vem da morte e a fraqueza

    nos fortalece. Nada pode nos derrotar disse

    Kira. Podemos fazer qualquer coisa. Depois de uma pequena pausa,completou: Ns faremos tudo.

    Eles beberam dos copos e por ummomento tudo o que se ouvia era amsica suave e nostlgica ao fundo.Kira sorvia a gua, retendo-a na bocapropositadamente, sentindo o gosto daqumica. Acostumara-se com o sabor,mas l estava ele, pungente. Pensou emMadison, Haru, e no beb perfeito,inocente e condenado. Pensou emGianna, Mkele, na exploso, na Voz, no

  • Senado e em tudo o mais, no mundointeiro, no futuro e no passado. No voudeix-lo morrer, pensou, olhando para oventre de Madison, ainda firme, reto,latente. Vou salvar voc, no importa opreo.

    Ns faremos tudo.

  • P

    Captulo Nove

    reciso de uma amostra do teusangue disse Kira.

    Marcus levantou asobrancelha.

    No sabia que estvamos nesseestgio de relacionamento.

    Ela arrancou um tufo de grama ejogou nele.

    para o trabalho, gnio.Estavam no gramado da casa de Kira,

    aproveitando um raro momento de folgado hospital para ambos. Haviamajudado Nandita com as ervas e as mos

  • estavam speras e perfumadas. Vou encontrar a cura para o RM.Marcus riu. Sempre me perguntei quando

    apareceria algum para fazer essetrabalho. H anos consta da minha listade coisas para fazer, mas voc sabecomo : nossa vida est tomovimentada, e salvar a raa humana to inconveniente

    Estou falando srio! exclamouKira. No aguento mais ver crianasmorrendo. No posso ficar parada,fazendo anotaes, enquanto o beb deMadison morre. No vou fazer isso.Desde que ela contou da gravidez,algumas semanas atrs, eu quebro acabea tentando descobrir como ajud-

  • la. E acho que finalmente descobri poronde comear.

    Tudo bem disse Marcus,sentando-se. Sua expresso no era maisde gozao. Voc sabe que teconsidero brilhante, suas notas emVirologia so melhores que as detodo mundo. Mas como espera resolvero maior mistrio mdico da histria?Quero dizer, faz uma dcada que ohospital tem uma equipe mdica inteiratentando entender o vrus RM e agorauma estagiria vai chegar l eencontrar a cura? Do nada?

    Kira balanou a cabea. Dito daquelamaneira parecia mesmo estpido. Elaolhou para Nandita, imaginando qual

  • seria a sua opinio sobre o assunto, masa velha trabalhava na horta,completamente alheia. Kira voltou-separa Marcus.

    Sei que parece a coisa maisarrogante do mundo, mas eu Calou-se e respirou fundo, olhando diretamentenos olhos de Marcus. Ele a observava,esperando; levava a srio o que eladizia. Sei que posso ajudar, nomnimo. Deve haver alguma coisa quepassou despercebido. Entrei para amaternidade porque achei que era onervo central, entende? Achei que tudoacontecia ali, que era o lugar maisimportante do hospital. Mas agora queestou l, vejo o que esto fazendo e seique no est funcionando. Se conseguir

  • mostrar algo de concreto a Skousen, seique posso ser transferida para odepartamento de pesquisa em tempointegral. Vai levar um ms ou dois, maseu consigo.

    Seria uma boa mudana para voc disse Marcus. E para eles tambm.Como voc est na maternidade, tem umolhar completamente diferente. E sei queh uma vaga porque recebemos atransferncia de um pesquisador para acirurgia no ms passado.

    exatamente o que quero dizer disse Kira , uma nova perspectiva. Amaternidade e a equipe de pesquisaestudam exclusivamente os bebs. Masno precisamos procurar a cura,

  • precisamos da imunidade. Somosresistentes aos sintomas, ento devehaver algo em ns que barra o vrus. Osnicos que no so imunes so os bebs,e ainda assim neles que continuamosprocurando.

    para isso que voc precisa domeu sangue disse Marcus.

    Kira assentiu com a cabea, passandoos dedos nas costas da mo de Marcus.Por isso o amava: era divertido quandoela precisava rir e srio quando elaprecisava conversar. Ele a entendia, eponto final.

    Ela arrancou uma lmina de grama elentamente a descascou, at restarapenas um talo amarelado. Kira oexaminou por um momento, em seguida

  • arremessou-o em Marcus. O pedacinhode grama voou apenas algunscentmetros, parou por um instante e caiurodopiando em crculos irregularesdireto de volta no colo de Kira.

    Belo arremesso caoou Marcus,sorrindo. Ele olhou por trs do ombrode Kira. Isolde est chegando.

    Kira virou-se e acenou para a irm.Isolde era alta, plida e loira sua peleclara era uma exceo no abrigo deNandita. Isolde acenou de volta,sorrindo, embora Kira percebesse osorriso forado e cansado. Marcusaproximou-se de Kira, abrindo espaopara Isolde, mas ela recusou com acabea.

  • Obrigada, mas este o meu melhorconjunto. Ela soltou a bolsa executivae ficou parada ao lado deles, exausta, osbraos cruzados, o olhar fixo num pontodistante.

    Dia difcil no Senado? perguntouKira.

    J houve um tranquilo? Isoldeolhou em volta, procurando algumacoisa para sentar em cima; suspirou esentou-se sobre a bolsa, as pernascruzadas para manter as calas cinza-claro fora da grama. Kira a observavacom preocupao. Isolde no podia nemmencionar seu trabalho sem ter umasncope por causa do senador Hobb.Devia estar realmente exausta para no

  • agir assim. O olhar de Isolde estavavazio. Ela levantou-se e disse:

    Hei, nenhum de vocs viaja muitopara fora cidade, certo?

    No muito respondeu Kira. Elaolhou para Marcus, que assentiu com acabea. Quando nos convocam parauma misso de resgate, sim, mas nuncapor conta prpria. Por qu?

    Porque acabaram de votar oestabelecimento de postos defiscalizao de fronteira disse Isolde. A Voz atacou uma torre de vigia nasemana passada. Trouxeram a torreabaixo e ainda levaram os soldados quefaziam o abastecimento do local.Somando com o ataque no depsito daantiga escola, podemos afirmar que h

  • pelo menos uma clula da Voz agindobem aqui em East Meadow. Talvez maisde uma. Isolde deu de ombros. Pertodemais de casa. O Senado acha que amelhor maneira de encontr-los inspecionar todas as vezes que algumentra ou sai da cidade.

    O permetro da cidade enorme disse Kira. No tem a menor chancede patrulharem tudo.

    Isso no significa que no devamtentar argumentou Marcus. melhordo que nada

    Por favor, no comece disseIsolde, massageando as tmporas. Ouvi esse argumento cem vezes hoje eno preciso ouvi-lo novamente. A

  • votao j aconteceu, os postos defiscalizao esto oficializados. No hmais razo para se discutir o assunto.

    Qual o voto do senador Hobb? perguntou Kira. Isolde sua assessora.Ela abriu um olho e encarouprofundamente Kira, abrindo o outroolho. Em seguida cruzou os braos.

    Se quer saber, votou a favor respondeu Isolde. Ele no era desacrificar direitos pessoais em nome dasegurana, mas no quis ser oresponsvel por obstruir medidas queevitem um novo ataque. Ela deu deombros. No acho que esteja certo,mas no tenho uma sugesto melhor. Sea Voz comeou a sequestrar pessoas,quem sabe o que vir depois?

  • O que a Voz est tentando alcanar? perguntou Kira. isso que noconsigo entender. No precisam deprovises, h comida e roupas vontadepela ilha, s pegar. Mesmo assimcontinuam atacando East Meadow e asfazendas. No esto ganhando apoiopara a causa deles, esto apenasdeixando todos com raiva e apreensivos.No entendo. Apenas para atacar a torrede vigia devem ter gastado semanas napreparao e execuo do plano. E paraqu? No levaram provises, nodeixaram nenhuma declarao, cada umdeve ter levado trs ou quatro pentes demunio dos soldados que sequestraram.Isso no nada.

  • Isolde balanou a cabea. O mais prximo que chegamos, ou

    pelo menos o melhor palpite no Senado, que eles esto tentando desestabilizaro governo. Se acertarem os alvos,insuflarem a insatisfao no povo ebalanarem o vespeiro o suficiente, logoas pessoas de East Meadow ficaroenfurecidas. Ser difcil control-las,dificultando as coisas para o Senado edando Voz a melhor oportunidade paradar o bote e tentar um golpe.

    Urgh! disse Marcus. Espere um pouco disse Kira.

    Voc disse que difcil para o Senadonos controlar?

    Isolde fez uma careta.

  • No foi o que eu quis dizer, foiapenas a primeira palavra que me veio cabea

    Mas a ideia essa, certo?Isolde fechou os olhos, tentando

    pensar, e Kira sentiu-se culpada porpression-la. Ela no merecia isso, maso sangue de Kira fervia. Ela queriasaber.

    E? Qual , Kira, voc sabe o que o

    Senado faz. Isolde deu de ombros,indiferente. O Senado governa e hmuito controle inerente a isso. No queestejam controlando nossa cabea, estoapenas mantendo a paz. Fazendo comque as pessoas cumpram com suas

  • obrigaes. Esse tipo de coisa.Kira ouviu o barulho de cascos atrs

    de si. Dois soldados a cavalo trotavamem direo a eles. A casa ficavaprxima dos limites da cidade, por issoas patrulhas no eram exatamente raras,mas quela hora do dia era estranho.Kira sentiu-se nervosa e protegida aomesmo tempo.

    At eles comearem a vir em suadireo.

    Marcus disse Kira, baixinho. Elepercebeu a preocupao no seu tom devoz e sentou-se imediatamente.

    O que foi? Ele viu os cavalos efranziu o cenho. Por que esto vindopara c?

    No sei. Reconhece quem so?

  • Os uniformes no so padro disse Isolde. No so da guardaregular da Rede de Defesa.

    Marcus os encarava, as sobrancelhascontradas de preocupao.

    Quem mais usa uniforme? Naverdade, se parecem um pouco com oscaras do Mkele. Ele balanou acabea, mirando intensamente os doissoldados: um da idade deles, outroaparentando estar na casa dos quarenta.

    No reconheo nenhum deles. Noacredito que estejam alocados em EastMeadow.

    Podemos ajud-los? gritou Kira,mas os soldados passaram por ela eseguiram na direo de Nandita. A

  • velha, que cavava o solo, endireitou-se,assistindo aos guardas pararem nojardim.

    Nandita Merchant? perguntou osoldado mais novo.

    Sim respondeu calmamente. Sem familiares.

    Como? Sra. Merchant, fomos informados

    que a senhora faz viagens frequentespara fora dos limites de East Meadow disse o mais velho, balanando a cabeae fazendo o cavalo se aproximar dela. Est correto?

    Algum problema com isso? perguntou Nandita.

    No disse que era um problema respondeu o outro. verdade?

  • Ela coleta ervas disse Kira,levantando-se e indo em direo a eles. Esto vendo este jardim incrvel? Asplantas daqui vieram de todas as partesda ilha.

    Posso responder sozinha, Kira disse Nandita. Kira estava nervosa econtraiu bem os lbios.

    O soldado em comando segurava asrdeas frouxamente, usando os joelhospara manter o cavalo imvel. O animaltambm estava nervoso. O homemencarou Nandita fixamente.

    Voc coleta ervas? Coleto-as fora da cidade e planto-as

    aqui respondeu Nandita. E tambmnuma estufa, no quintal. Vendo-as no

  • mercado, so as melhores de EastMeadow.

    O soldado balanou a cabea. Onde costuma ir nas suas

    excurses? No da sua conta disse Kira. As

    notcias de Isolde deixaram-na irritada eela estava com vontade de gritar comalgum. Voc acha que pode entrar nojardim de algum sem pedir licena eperguntar o quiser? E se ela esteve emalgum lugar que voc no gosta? Vaiprend-la?

    Ningum aqui est falando empriso respondeu o soldado. Estamos apenas fazendo perguntas.Acalme-se.

    Fazendo perguntas? disse Kira.

  • E se ela se recusar a respond-las? Kira disse Nandita. Caso no tenha percebido, estamos

    com muitos problemas no momento disse o soldado mais velho,direcionando o cavalo Kira. Estamoslutando por nossas vidas contra uminimigo oculto que quer destruir nossacidade, e a nica arma que temos contraele a informao. Pensamos que suaav talvez saiba de alguma coisa quepossa ajudar a nos mantermos vivos.Agora, se isso ofende algum idealfantasioso que voc fabricou na suacabea, sinto muito. Considere por ummomento que gastar cinco minutos comsoldados tentando obter informaes

  • necessrias para a sua proteo valemais do que ficar fazendo buracos naterra.

    Seu idiota arrogante Viajo para todo lugar disse

    Nandita, entrando na frente de Kira. Quando consigo carona, vou at asfazendas, do contrrio fico nosarredores. No consigo mais caminharcomo antes, porm h muitos jardinsabandonados, mesmo aqui em EastMeadow, esperando algum que entendade plantas.

    Precisamos de locais especficos disse o soldado mais novo. Existe umarazo para que voc no nos informeisso?

    O mais velho suspirou.

  • Ela uma catadora de lixo eledisse. No vo a lugares especficos,apenas perambulam. Ele olhou devolta para Nandita. Pode me dizer comquem pega carona, quando consegueencontrar uma?

    Negociantes, s vezes camponesesvoltando de um dia de trabalho nomercado. Nandita lanou um olharduro como ao ao soldado. At mesmoerrantes, se parecerem confiveis.

    O soldado devolveu o olhar. E como um errante confivel? Na semana passada vi um mais ou

    menos parecido com voc ela disse. A camisa era diferente, claro, mas osmesmos olhos, a mesma arma, a mesma

  • arrogncia. H muitos como voc hojeem dia. Ela olhou para o soldado maisnovo. Estava acompanhado de umacriana, tambm.

    Veja bem como fala ameaou omais jovem.

    Voc tambm precisa ter cuidadocom a sua lngua disse o outro,rspido, apontando para Kira. Voc to atrevida quanto ela. Kira mordeu alngua, pronta para dizer mais algumasverdades para o soldado, mas sabia ques iria piorar as coisas. Ele se voltoupara Nandita.

    Era tudo que queramos saber,senhora. Estamos apenas fazendo nossotrabalho, rastreando algumasinformaes. Desculpe o incmodo.

  • No tem problema respondeuNandita, sua atitude ainda firme comouma rocha.

    Fico feliz em ouvir isso. Agora, seme d licena disse, puxando asrdeas e virando o cavalo. Em seguida,parou de sbito e voltou novamente. Desculpe, o que vou perguntar no oficial, apenas uma curiosidade: por queveio morar aqui, to prximo dafronteira?

    No tenho certeza se entendi suapergunta.

    que a maioria das pessoas tentaviver o mais prximo possvel do centroda cidade. Este bairro basicamente dejovens, casais recm-casados que

  • tiveram que escolher sua casarecentemente e no encontraram maisnenhuma disponvel no centro. Asenhora deve ter escolhido morar emEast Meadow h uns dez anos, como amaioria de ns, mas escolheu uma casadistante. Apenas curiosidade.

    Nandita o analisava. Se est perguntando como um

    vizinho curioso em vez de um soldado,preciso saber o seu nome.

    Sargento Jamison, senhora. Alex. Minha casa no centro, Alex, foi

    danificada pela gua explicou Nandita. Alguns anos atrs, algo vazou nafundao e congelou. Quandodescongelou na primavera, a parede dosfundos praticamente veio abaixo.

  • Minhas garotas e eu precisamos de outrolugar e este tem uma estufa de plsticonos fundos. Era a melhor opodisponvel.

    Suponho que sim disse o soldado. Obrigado pela ajuda. Ele virou-senovamente e o soldado mais jovem oacompanhou, descendo a rua de volta.

    Kira ficou olhando a dupla, oestmago todo embrulhado.

    O que foi isso? O Servio Secreto respondeu

    Nandita. Montaram guarda nomercado, esto de olho nos negociantes.

    S estavam trabalhando disseIsolde. No precisava pular nopescoo deles daquele jeito.

  • Eles no precisavam pular nopescoo da Nandita rebateu Kira,olhando para Isolde. Era justamentesobre isso que eu falava, no porquealgum est no comando de algumacoisa que ele est no comando de todasas coisas. No podem sair por amandando na gente.

    So do governo disse Marcus. Dar ordens o papel deles e,francamente, acredito que conversarcom as pessoas que viajam comfrequncia uma boa maneira de seobter informaes. No estavamtentando intimidar ningum. Emboraadmita que o soldado mais novo estavasendo um pentelho.

  • Todos nesta ilha esto muitoparanoicos disse Nandita. Elespensaram o pior de mim, mas Kirapensou o pior deles. Lanou um olharcortante a Kira. Sua atitude foicompletamente indesejada e se nomud-la vai lhe causar mais problemasdo que ser capaz de resolver.

    Desculpe respondeu Kira. Noentanto, logo balanou a cabea evociferou:

    Se querem que eu fique calma,deveriam me deixar sentar no gramadoda porta da minha casa sem serinterrogada. Que tal?

    Nandita olhou para ela e depois paraos cavalos dobrando a esquina no final

  • da rua. As coisas s vo piorar. Cada nova

    patrulha na fronteira, cada nova emenda Lei da Esperana, s vai irritar aindamais as pessoas disse Nandita,olhando para Isolde. Se a Voz esttentando fomentar uma rebelio, estfazendo um trabalho brilhante.

    Kira sentiu uma repentina onda devergonha; Nandita ouvira tudo queconversaram.

    E o que ser que vem agora? perguntou Marcus. Voc vai fugir e sejuntar Voz?

    Vou fugir e encontrar a cura para oRM respondeu Kira. Chega de RM,de Lei da Esperana. Vou comear umaexperincia. Temos dados de uma

  • dcada inteira de pesquisa sobre a aodo vrus nas crianas infectadas, masno vi nenhum estudo de como elefunciona no organismo daqueles que soimunes. Est na hora de mudar isso.

    Isolde virou-se, curiosa: Como? Vou recolher uma amostra de

    sangue do meu namorado amoroso,solcito e que nunca reclama, e vouinjetar o vrus RM nela explicou Kira.

    Marcus assobiou. Seu namorado parece um sonho.Nandita avaliou Marcus com o olhar.

    Em seguida, abaixou-se para recolher osinstrumentos de jardinagem. Poderiater arranjado coisa melhor.

  • A

    Captulo Dez

    i! No se mexa, bebezo!

    Kira afastou a agulha do dedo deMarcus e colocou um pequeno tubo devidro contra a ferida. Logo estava cheiode sangue e Kira o substituiu por outro.Ela os tampou, colocou-os numa bandejae pressionou um chumao de algodocontra o dedo de Marcus. Prontinho.

    No sei como voc fez isso, mas aponta do meu dedo est tima, como sevoc tivesse acertado a picada daprimeira vez elogiou Marcus. Eu me

  • curvo s suas habilidades. Sou naturalmente talentosa disse

    Kira. Tire o algodo. Ele levantou oalgodo e Kira aplicou uma bandagem,apertando-a bem firme ao redor dodedo. Voc oficialmente a pessoamais velha de quem colhi sangue naclnica da maternidade. Agora, tomedois destes aqui e vai se sentir melhorimediatamente. Ela se inclinou e deu-lhe dois beijinhos.

    Hum Quantos voc disse que eupreciso tomar? disse Marcus,agarrando-a pela cintura.

    Apenas dois, mas acho que no vaifazer mal se exagerar na dose respondeu Kira, inclinando-senovamente e lambendo os lbios. Mas

  • Marcus a deteve com a mo. No disse firmemente. Como

    mdico no me sinto confortvel com oprocedimento. Remdio no brincadeira. E se causar uma overdose? Ele a afastou gentilmente. E se euficar viciado?

    Kira forou o corpo em direo a elenovamente.

    Voc um nerd to divertido! E se meu organismo se tornar

    tolerante? perguntou, a boca abertanuma imitao de horror. Dois agora edois mais tarde e de repente dois nosero mais suficientes: vou precisar dequatro, ou oito, ou vinte, para comear!Voc acha que conseguirei dar conta de

  • tantos beijos?Kira aproximou-se ainda mais e falou

    na sua voz mais sensual: Acho que pode encontrar um jeito.Marcus ficou imvel, vendo-a chegar

    mais perto, os rostos quase se tocando.Inesperadamente, colocou um dedo noslbios de Kira, fazendo-a parar.

    Sabe, a melhor maneira de se evitaruma overdose variar o princpio ativo.Aquela enfermeira loira da clnica dolado sul tira sangue muito bem. Poderiareceber dois de voc e dois dela.

    Kira resmungou jocosamente,agarrando-o pelo colarinho.

    Ah, no. No faa isso. Se pensarmos em termos mdicos,

    eu estaria perfeitamente seguro disse

  • Marcus. Poderia at receber dois devoc e dois dela ao mesmo tempo!Ficaria um pouco tonto, mas meu!

    Ainda estou com a agulha disseKira, pressionando-a na lateral do corpode Marcus forte o bastante para elesaber que ela estava ali. Voc umflebotomista[5], Marcus Valencio.Entendeu?

    Entendi respondeu Marcus. Falando nisso, acho que o efeito doremdio est passando.

    Por hoje chega ela disse,empurrando-o de volta para a cadeira epegando os tubos de sangue. Est nahora de descobrir que tipo de homemvoc realmente . Kira levou o sangue

  • at um aparelho computadorizadomedicomp no canto da sala, ligou-o ecomeou a preparar uma amostraenquanto o computador carregava.Marcus a ajudava, passando a elalminas de vidro, pipetas de plstico eoutros pequenos instrumentos. Elagostava de trabalhar com Marcus;lembrava-lhe do ritmo fcil e quedispensava palavras de quandoselecionavam remdios numa misso deresgate.

    Ela terminou de passar as amostrasnas lminas, colocou-as no leitor doaparelho e passou a correr o dedo pelatela. O computador detectou o sangue eforneceu as informaes bsicas.

    Tipo O positivo disse Marcus,

  • lendo por cima do ombro de Kira. Bom nvel de colesterol, de glicose.Hum uma contagem bastante elevadade sensualidade, interessante.

    Sim murmurou Kira, os dedoscorrendo velozes pela tela. Mas vejaestas partculas de arrogncia! Marcuscomeou a protestar e ela caiu na risada,digitando no computador um pedido deum escaneamento mais detalhado. Umaopo para Anlise Completa deSangue surgiu na tela do computador.Ela aceitou. Nunca havia solicitado essaquantidade de informao antes eaparentemente havia a opo de se pedirtudo do menu. Isso a fez pensar oquanto deveria ter sido diferente a vida

  • no velho mundo, quando oscomputadores eram usados em cadaaspecto da vida e no apenas noshospitais, onde se podia gerar a energianecessria para coloc-los emfuncionamento.

    Em poucos segundos o computadorofereceu uma lista de eletrlitos,molculas de glicose e outras partculasno sangue. Uma anlise mais completa,calculando, por exemplo, o que adensidade de glicose sugeria sobre ofgado, levaria mais tempo; mas ocomputador atualizaria esses detalhes nodecorrer do processo. Kira comeou atirar fotos do sangue em 3D, examinandopores individuais em busca deanomalias, quando o computador deu um

  • pequeno sinal de alerta e um quadradoazul brilhante apareceu no canto da tela.Ela franziu o cenho, olhando paraMarcus, que apenas deu de ombros ebalanou a cabea. Ela voltou-senovamente para o computador e clicouno aviso.

    Uma nova janela se expandiu na tela,com uma frase curta e um punhado deimagens em anexo: 27 ocorrncias devrus RM.

    O qu? balbuciou Kira. O nmeropiscou, atualizando para vinte e oito. Elaclicou numa das imagens, que sedeslocou para o canto da tela, passandopara uma representao em 3D do vrusRM: uma esfera grande e spera,

  • iluminada em amarelo para destacar-seda imagem ao fundo. Parecia ptrido eassustador.

    O nmero no quadradinho de alertacontinuava a subir: 33 ocorrncias, 38,47, 60.

    O vrus est em todos os lugares disse Kira, clicando nas imagensinstantaneamente, assim que surgiam natela. J vira a estrutura do vrus antes,claro, como parte dos seus estudosiniciais de medicina, mas nunca assim.No tantos e nunca num ser humanovivo. Tem alguma coisa errada.

    No estou doente, obviamente disse Marcus.

    Kira franziu o cenho e analisou umadas imagens mais atentamente. O vrus

  • se impunha em relao aos outros dadoscomo um predador, sem limites einsacivel.

    No est dizendo que anormal,apenas que ele est l explicou Kira. Algum disse ao computador comoreconhecer o vrus, mas no que o vrus perigoso. Isso comum? Ela voltoua olhar para o aviso e encontrou umpequeno link para o banco de dados. Elaclicou e abriu uma nova janela, umretngulo estreito e comprido, tomandotodo o canto direito da tela. Ao expandi-la, Kira imaginou que se tratasse de umalista com referncias similares anterior. Ela correu o dedo em revista,abrindo pginas e mais pginas de links.

  • Clicou em uma e encontrou o pronturiode outro paciente, o sangue infestado devrus RM. Olhou outro e mais outro,todos iguais. Quase no tinha coragemde dizer em voz alta o que via.

    Somos todos portadores concluiuKira. Todos os sobreviventes estoinfectados, e sempre estiveram. Mesmosendo resistentes, ns transmitimos ovrus. Por isso os bebs morrem. Porisso so atacados to cedo. Mesmo numquarto hermeticamente fechado. Elaolhou para Marcus. Nunca vamos noslivrar dele. Analisou as imagens dovrus, tentando lembrar-se de tudo o queaprendera, como se espalhava e seucomportamento. Em parte o vrus eraperigoso porque no se comportava

  • como um vrus normal vivia nosangue, sim, mas tambm em todas asoutras partes do corpo. Podia sertransmitido pelo sexo, sangue, saliva emesmo pelo ar. Kira examinavacuidadosamente as imagens, procurandoalgo que a levasse chave do mistrio.Tratava-se de um vrus grande osuficiente para conter cada funo de umsistema bastante complexo emboraainda no soubessem qual sistema eraaquele.

    Marcus coou os olhos, passando asmos lentamente pelo rosto.

    Foi o que eu disse: as melhorescabeas que restaram no mundo estudamo vrus RM h onze anos. Procuraram

  • em tudo. Mas deve ter algo mais insistiu

    Kira, percorrendo freneticamente a lista. Estudos com seres vivos, mortos,

    depurao sangunea, hemodilise,mscaras respiratrias. Existem atpesquisas com animais! exclamouMarcus. Kira, j estudaramliteralmente tudo o que foi possvel cairs mos.

    Ela continuou pulando de estudo emestudo, variveis aps variveis. E aose aproximar do fim da lista, teve umestalo.

    Havia uma cobaia que no foraincluda em nenhum banco de dados.Algo que ningum via h onze anos.

    Kira fez uma pausa, encarando a tela,

  • sentindo-se contaminada edesconfortvel com o vrus a encarandosombriamente de volta.

    Se quiserem compreender o vrus, porque no ir at a sua fonte? Se quiseremsaber como a imunidade total, por queno olhar para aqueles que sorealmente imunes?

    Se quiserem realmente a cura para ovrus RM, qual a melhor forma de sefazer isso se no estudando um Partial?

  • E

    Captulo Onze

    ntre disse o Dr. Skousen.Kira abriu a porta lentamente,

    o corao na mo. Passara umasemana analisando a pesquisa em cursocom Marcus, convencendo-se danecessidade de procurar Skousen, evrios outros dias planejandoexatamente o que e como falar com ele.Daria certo? Ele concordaria com ela ouriria alto no escritrio? Ficariaenfurecido e a jogaria para fora dohospital de uma vez por todas?

    O escritrio de Skousen era claro,

  • iluminado tanto pelas duas janelas devidro quanto por uma luminria brancasobre a mesa. As lmpadas eltricassempre a surpreendiam, no importavaquantas vezes as visse. Era umaextravagncia qual poucas pessoaspodiam se dar ao luxo. Ser quepercebiam como as usavamdisplicentemente no hospital?

    Obrigada por me receber, doutor disse Kira, fechando a porta atrs de si eaproximando-se da mesa educadamente.Usava sua roupa mais elegante: umablusa vermelha, um conjunto de saia ejaqueta em tom caf e at sapatos desalto alto. Normalmente odiava esse tipode sapato, eram ridiculamentedesajeitados, tanto para o trabalho

  • quanto para a vida em geral, aps oBreak. Mas Skousen cresceu no velhomundo e ela sabia que ele valorizaria asaparncias. Queria que ele a enxergassecomo uma adulta, uma pessoa madura einteligente, e ela usaria todas as armaspara isso.

    Kira estendeu a mo e Skousenapertou-a com firmeza. Sua mo eravelha, a pele fina e enrugada, mascontinuava forte.

    Por favor, sente-se disse,apontando para uma cadeira. Walker, certo?

    Kira assentiu com a cabea, sentando-se ereta na beirada da cadeira.

    Sim, senhor.

  • Fiquei impressionado com o seuartigo.

    Kira arregalou os olhos, surpresa. O senhor leu?Skousen confirmou com a cabea. Pouqussimos estagirios se

    arriscam a publicar uma pesquisa.Chamou minha ateno. Ele sorriu. Imagine a minha surpresa quandopercebi que no se tratava apenas deuma pesquisa bem elaborada, mas de umtrabalho totalmente original. Suasconcluses sobre a estrutura do RMforam inconsistentes, mas inovadoras.Voc demonstra muito talento para apesquisa.

    Obrigada respondeu Kira,

  • sentindo uma onda de calor atravessar ocorpo. Talvez isto funcione, pensou. Foi justamente sobre isso que vimconversar com o senhor.

    Skousen reclinou-se na cadeira,olhando-a fixamente. No pareciaentusiasmado, mas era todo ouvidos.Kira foi em frente.

    Considere o seguinte: a Lei daEsperana , na verdade, apenas umaforma de regulamentar o que temos feitoh onze anos: obter o maior nmeropossvel de recm-nascidos. E em onzeanos nunca ofereceu uma nicapossibilidade vivel de sucesso.Estamos jogando lama na parede paraver o quanto gruda, mas onze anos osuficiente para saber que jogar mais

  • lama no a soluo. Precisamoscomear a jogar alguma outra coisa.

    Skousen a encarava, o rosto durocomo pedra.

    E o que voc sugere? Quero ser transferida da

    maternidade para a pesquisa. Feito respondeu. De qualquer

    forma, era o que eu ira sugerir. Algumacoisa mais?

    Kira respirou fundo. Acho que precisamos considerar

    seriamente os benefcios de umprograma de pesquisa sobre a fisiologiados Partials.

    O que quer dizer com isso? Senhor, na falta de uma maneira

  • melhor de dizer isso, acho quedeveramos organizar uma equipe parair ao continente e capturar um Partial.

    Dr. Skousen ficou em silncio. Kiraesperou, observando-o, a respiraosuspensa. Ela ouvia o zumbido dalmpada eltrica, um rudo insistente, aofundo.

    A voz de Skousen era baixa einflexvel.

    Pensei que estivesse levando nossaconversa a srio.

    Nunca falei to srio em toda aminha vida.

    Sua vida no parmetro para nada. Estamos falando de extino. O

    senhor mesmo disse isso argumentouKira. At o momento, o nico plano

  • que temos o de colocar mscaras nasmes e isol-las para depois anotardireitinho como as crianas morrem.Concordo que, apesar de tudo,coletamos dados importantes. Mas noestou disposta a enforcar o futuro daminha espcie insistindo num plano quedesde o incio no apresentava nenhumagarantia de sucesso. Os Partials criaramum vrus perfeitamente projetado paramatar seres humanos, mas eles soimunes.

    Isso porque no so humanos disse Skousen.

    Mas possuem DNA humano, pelomenos em parte rebateu Kira. Ovrus deveria afet-los tanto quanto nos

  • afeta. No entanto, isso no acontece. Aimunidade deles foi fabricada e issosignifica que podemos decifr-la.

    Skousen balanou a cabea emdesaprovao.

    Voc est louca. Estamos tentando solucionar o

    enigma do vrus RM usando crianasque no tm imunidade: a resposta noest l, no importa quantas cobaiasmais usarmos. Se quisermos aprenderalguma coisa sobre imunidade, temosque olhar para os Partials. No temosregistro de como foram construdos, dasua estrutura gentica, de nada. Asrespostas esto ali. O mnimo quepodemos fazer arriscar.

    Os Partials no vo simplesmente

  • se entregar. Ento, capturamos fora sugeriu

    Kira. Atravessar a fronteira pode

    desencadear outra Guerra Partial. Se isso acontecer, morreremos

    amanh retrucou Kira , mas sem acura do RM morremos dia a dia pelosprximos cinquenta anos, ou mais cedo,caso a Voz desencadeie uma guerracivil. Sem uma soluo rpida, issoque vai acontecer.

    No vou ter esse tipo de conversacom algum da gerao babylndia rosnou Skousen. Voc no tem idadesuficiente para entender o que aconteceuquando os Partials se voltaram contra

  • ns. No presenciou quando um pequenogrupo deles tomou de assalto umabrigada militar inteira. No viu todos osconhecidos definharem, vomitaremsangue e queimarem vivos em suaprpria febre.

    Perdi meu pai Todos ns perdemos os pais!

    gritou Skousen. Kira empalideceu erecostou na cadeira, evitando o olharcolrico do mdico. Perdi meu pai,minha me, minha esposa, meus filhos,meus amigos, vizinhos, pacientes,colegas, alunos. Estava no hospitalquando aconteceu. Vi quando oscorredores se encheram de doentes etransbordaram de mortos at quase nohaver sobreviventes o suficiente para

  • carregar os cadveres. Vi o mundodevorar-se a si mesmo, senhoritaWalker, enquanto voc brincava comsuas bonecas. Por isso no venha medizer que no estou fazendo o bastantepara salvar a raa humana e no seatreva a sugerir que podemos arriscaroutra guerra com os Partials. Seu rostoestava lvido, as mos tremiam de raiva.

    Kira engoliu sua resposta, sem ousarabrir a boca; qualquer coisa quedissesse s pioraria as coisas. Eladeixou a cabea cair, evitandonovamente olhar em seus olhos, lutandocontra o desejo de simplesmentelevantar e sair da sala. No faria isso.Ele estava irado e ela, provavelmente,

  • demitida, mas ela sabia que tinha razo.Se ele a queria fora dali, teria que fazerisso pessoalmente. Kira levantou acabea e o encarou, pronta para recebersua sentena. No momento no podiafazer mais nada, mas no pretendiadesistir. Esperava que ele nopercebesse que tremia.

    Comparea no departamento depesquisa amanh cedo disse Skousen. Avisarei a enfermeira Hardy que vocfoi transferida.

  • KCaptulo Doze

    ira observava os amigos sedivertindo na sala de estar da casa

    de Nandita. Era tarde da noite, e asvelas iluminavam precariamente o local.Como sempre, a energia dos painissolares de Xochi alimentava somente oaparelho de som. A seleo da noitevinha de PARABNS KEVAN, um dosfavoritos de Xochi: drilln bass, msicaeletrnica agitada. Mesmo num volumebaixo, fazia o corao de Kira baterapressado.

    Nandita j havia se recolhido, o que

  • era bom. Kira preparava-se para pediraos amigos que cometessem um ato detraio, e no seria justo envolverNandita.

    Ela no conseguia parar de pensar naspalavras de Skousen de como tinhasido para ele a experincia do Break.No podia culp-lo por nutrir umsentimento to forte, todos sentiamassim, mas fora apenas naquelemomento que Kira percebeu como oevento afetou de maneira diferente aspessoas. Skousen estava num hospitalquando o vrus foi lanado. Em poucashoras, viu o local se encher de doentes,at no haver mais espao paraacomod-los, e transbordarestacionamento afora. O mundo

  • consumia-se numa tormenta nascida deum vrus. Os membros da famlia delemorreram em seus braos. Por outrolado, Kira estava sozinha: a babmorreu em silncio no banheiro e seupai simplesmente jamais voltou paracasa. Ela esperou alguns dias, at acabartoda a comida e ento saiu luta,vagando sem rumo. O bairro estavavazio; o mundo parecia vazio. No fossea passagem de um destacamento militar,recuando desesperadamente de umafrente de batalha, talvez no tivessesobrevivido.

    Para Skousen o mundo se desintegrou.Para Kira o mundo se uniu em busca dasalvao. Essa era a diferena. Era por

  • isso Skousen e o Senado tanto temiamfazer o que era preciso para resolver oproblema. Esse seria um trabalho para agerao babylndia.

    Haru estava falando entusiasticamente, claro, uma vez queisso parecia ser sua nica arma. Ele erasempre o centro da conversa, nem tantopor carisma, mas por pura determinao.

    O que voc no percebe que oSenado no liga a mnima disse Haru. Voc pode falar da sua infnciaroubada, da cincia que no produzresultados, mas para o Senado no isso que est em jogo.

    A onda de boatos era incessante,espalhando sempre que o Senadoabaixaria a idade da gravidez

  • compulsria outra vez, e Haru haviatomado a recusa de Isolde em comentaro assunto como uma confisso de que osboatos tinham fundamento.

    Eles decidiram que a melhormaneira de vencer o RM afund-lo emestatsticas e isso significa que voabaixar a idade de gravidez at um nvelque no comprometa a popularidadedeles. Reduzir a idade de dezoito paradezesseis vai gerar quantas novas mes,cinco mil? Cinco mil bebs a cada dezou doze meses? No importa se trarresultados ou no. Seguindo a estratgiaque escolheram, o que d para fazer demelhor e mais rapidamente. inevitvel.

  • Voc no sabe disso rebateuIsolde, mas Haru no se convenceu.

    Todos ns sabemos disse. anica forma que conhecem de tomardecises.

    Talvez seja a hora de termos umnovo governo opinou Xochi.

    No comece disse Jayden. Masquando Xochi se empolgava era quaseimpossvel det-la.

    Quando foi mesmo a ltima vez queelegemos algum? perguntou Xochi. Quando foi a ltima vez que votamos?Quem tem dezesseis anos nem podevotar. Esto tomando uma deciso quenos afeta diretamente e nem podemosopinar? Isso justo?

  • O que a justia tem a ver com isso? perguntou Haru. Olhe para o mundo,Xochi. Sem d nem piedade. um lugarbastante injusto.

    O mundo, sim. Mas isso no querdizer que devemos imit-lo. Gosto depensar que os humanos possuem umsenso de justia mais sensato que asaleatrias foras da natureza.

    Kira analisava o rosto de Xochienquanto ela falava, procurando nosabia bem o qu. Xochi andavadiferente, mais impetuosa que o normal.Os outros provavelmente nem haviamnotado Xochi era sempre impetuosa ,mas Kira a conhecia melhor queningum. Alguma coisa nela estava

  • diferente. Essa mudana a faria maispropensa a ajudar, ou no?

    A Lei da Esperana foi promulgadaantes que qualquer um de ns tivesseidade para votar disse Madison. Mas eu teria que engravidar aos dezoitoanos mesmo que no estivessepreparada. assim que funciona. Elaainda estava no incio da gravidez, masj comeava a engordar. Acariciava abarriga com frequncia, num gesto quaseautomtico. Kira j tinha visto outrasgrvidas fazerem o mesmo. Havia umaunio ali, uma ligao tangvel, mesmonaquele estgio em que o feto mal erareconhecido como humano. Pensar nissopartiu seu corao.

    Ela tinha certeza de que Madison

  • apoiaria seu plano, afinal dizia respeitoao seu filho. Era quem mais tinha aganhar e a perder. Haru provavelmentetambm, pela mesma razo, mas ele eraimprevisvel. Mais de uma vez ela tinhavisto o marido de Madison discutircontra os prprios interesses. Suasopinies eram mais fortes que suasnecessidades. Quanto a Jayden, bem, eleera um mistrio. Kira sabia que ele nogostaria de perder a sobrinha ou osobrinho, mas ao mesmo tempo ele eraextremamente leal Rede de Defesa.No reagiria bem quando Kira pedissepara cometer uma traio.

    Voc est falando de traio disseJayden, encarando Xochi friamente. Kira

  • riu: era o velho, bom e previsvelJayden. Trocar um senador umacoisa, ele se aposenta e elegemos outro,tudo bem, mas trocar o governo inteiro revoluo. E tambm suicdio: voc jparou para pensar como esta cidadeficaria vulnervel se no existisse oSenado para organizar a Rede de Defesae manter a paz? A Voz explodiria tudonos dez primeiros minutos.

    Sem Senado, sem exploso contra-argumentou Xochi. O problemada Voz inteiramente o Senado.

    No me diga que agora voc daVoz disse Jayden.

    Xochi inclinou-se frente. Se as alternativas so um governo

    de idiotas ou um governo de militares,

  • talvez um governo de rebeldes no sejato ruim.

    No so rebeldes, so terroristas grunhiu Jayden.

    Apesar da predisposio de Xochi,Kira se questionava se a amiga poderiaajudar em alguma coisa. Seu treinamentomilitar no ia alm das aulaselementares de tiro ao alvo que receberana escola. Suas habilidadesconcentravam-se, surpreendentemente,em atividades tradicionais: cozinhar,plantar, costurar. Ela crescera numafazenda que lhe dera alguma experinciacom o ambiente rural, mas no passavadisso. Com Isolde era ainda pior: ela atpoderia colaborar, pois sua natureza era

  • essa, mas no iria, nem poderia,realmente acompanh-los. Talvez fossecapaz de ajudar nos bastidores,impedindo que o Senado e a Rede deDefesa descobrissem as aes do grupo,mas nem isso era garantido. Se Kiradesejasse levar o plano adiante, apesardos obstculos, precisaria de pessoasdedicadas e capazes de tomar conta desi mesmas. Quanto a isso, a prpria Kiratinha suas limitaes, mas, ao menos,era mdica, e nas misses de resgateadquirira alguma experincia comarmamentos.

    A lembrana das misses de resgate afez pensar em Marcus. Sentado ao ladodela no sof, ele admiravarelaxadamente os ltimos raios do pr

  • do sol atravs da janela, evitandoparticipar da discusso com Haru.Marcus no era um soldado, mas tinhahabilidade com o fuzil, alm de ser umcirurgio de mo cheia, especialmenteem situaes de grande tenso. Depronto, fora selecionado para trabalharna emergncia do hospital. Marcus amanteria segura. Marcus a manterialcida. Ela acariciou seu joelho,preparando-se para o que estava por vire ajeitou-se no sof, endireitando acoluna.

    Preciso conversar com vocs. Sabemos o que vai falar disse

    Haru. Voc tem Marcus. claro queno se ope Lei da Esperana.

  • Kira lanou um olhar desconfortvel aMarcus, depois a Haru, desaprovando-ocom um meneio de cabea.

    Na verdade, no sei bem o quepenso da Lei, mas no sobre isso quequero conversar. Meu assunto o seubeb.

    Haru franziu o cenho, olhando derelance para Madison, que acariciava abarriga, indiferente ao que se passava aoredor.

    Sobre o beb? estranhou Haru. Posso ser direta? Todo mundo disse Isolde. OK, ento continuou Kira. O

    beb de Madison vai morrer.Haru e Jayden resmungaram algo, mas

  • a expresso de mgoa nos olhos deMadison quase matou Kira. Ela segurouas lgrimas e foi em frente.

    Desculpe, sei que cruel, masprecisamos ser realistas. No importa sea Lei da Esperana consideradaestpida, diablica, necessria, ou sejal o que for, ela no vai salvar o bebde Madison. Talvez algum outro beb,daqui alguns anos, mas no este. Amenos que a gente faa alguma coisa.

    Haru a mantinha sob um olhar frio eintenso.

    O que voc tem em mente?Kira engoliu em seco e o encarou de

    volta, tentando parecer to sria edeterminada quanto ele.

    Quero que me ajudem a capturar um

  • Partial.Jayden franziu a testa. Est falando num ataque organizado

    ao continente? Sem East Meadow. Sem a Rede de

    Defesa continuou Kira. Tenteiexplicar a Skousen e ficou claro que oSenado jamais vai encampar um planocomo este. Estou falando da gente. OsPartials talvez sejam a resposta para acura do RM, por isso quero que a gentesaia daqui, atravesse o mar e captureum.

    Seus amigos ficaram boquiabertos,encarando-a em silncio, a msica deKevan, falecido h anos, rugindoviolentamente ao fundo. Madison estava

  • em choque, os olhos arregalados,incrdulos. Isolde e Jayden franziram ocenho, certos de que ela estava louca.Xochi tentou sorrir, talvez pensando quefosse uma piada.

    Kira disse Marcus, baixinho. Meu, isso a! exclamou Haru.

    disso que estou falando. No pode estar falando srio

    disse Madison. claro que est falando srio. Faz

    todo sentido. Os Partials criaram ovrus, podem nos contar como cur-lo.Sob tortura, se for necessrio.

    No disse que devemos interrog-los explicou Kira. Existem milharesdeles e muito improvvelencontrarmos um com conhecimento na

  • rea de virologia. Mas podemos estudarum Partial. Marcus e eu tentamospesquisar o processo imunolgicousando os dados disponveis, mas umbeco sem sada. E no porque a equipedo hospital no faz o trabalho deles. Aocontrrio, porque vm fazendo otrabalho bem demais h onze anos. Elesexauriram todas as possibilidades.Nossa melhor opo, nossa nica opo, analisar a fisiologia de um Partial embusca de alguma coisa para a inoculaoou a cura. E temos que fazer isso rpido,antes que este beb nasa.

    Kira disse Marcus novamente,mas Jayden o interrompeu.

    Voc vai recomear a guerra.

  • No se formos discretos sugeriuHaru, inclinando-se para a frenteanimadamente. Uma grande invasoseria percebida, mas uma equipepequena pode cruzar a fronteira, pegarum Partial e sair despercebido. Nemficariam sabendo que estivemos l.

    Exceto pelo fato que ficaria faltandouma pessoa disse Xochi.

    No so pessoas, so mquinas rosnou Haru. Mquinas biolgicas,mas para todos os efeitos, mquinas.Eles do tanta importncia a um Partialdesaparecido quanto uma arma seimporta com a outra. Na pior dashipteses, se um comandante Partialnotar a falta de uma arma na estante, ele

  • simplesmente fabrica outra. Eles podem fabricar outros

    Partials? perguntou Isolde. Ningum sabe respondeu Haru.

    Sabemos que podem se reproduzir, masquem pode garantir que eles noencontraram a mquina de produzirPartials na ParaGen e no a colocarampara funcionar? A questo a seguinte:no podemos pensar neles como sefossem pessoas porque nem eles pensamassim. Roubar um Partial no sequestro, capturar um equipamento.

    No gostamos nem um poucoquando a Voz captura nossosequipamentos lembrou Madison.

    Sim, vocs tm razo disseJayden, o olhar fixo no cho. Podemos

  • fazer isso. Ah, no, voc tambm lamentou

    Madison.Kira comemorou em silncio ela

    no entendia por que Madison estava toresistente, mas isso no importava,contanto que ela no fizesse Jaydenmudar de opinio. Kira capturou o olharde Jayden, determinada a incentiv-loem sua deciso.

    No que est pensando? Conheo alguns recrutas da Rede

    que poderiam ajudar disse Jayden. Sequer temos certeza de onde os Partialsesto, quem dir do quanto estoorganizados. Vamos precisar de umaequipe de reconhecimento, que v at o

  • local, procure um soldadodesacompanhado ou uma patrulhapequena, agarre um deles e volte para ailha, sem ser descoberto. Ele olhoupara Madison, depois para Kira. No o plano mais seguro do mundo, mas vivel.

    Eu vou disse Xochi. No vai, no intrometeu-se Isolde.

    Assim como ningum de ns.Sem desgrudar o olhar de Jayden,

    Kira ignorou as duas. Ela precisava delepara o servio.

    Conhece uma passagem segura paraatravessar o mar?

    No devemos ir pelo mar disseHaru. Vigiamos as entradas laterais dailha como gavies e aposto que eles

  • fazem o mesmo. Se a gente quer cruzar afronteira, devemos escolher uma regiodeserta e isolada, onde sabemos que noh ningum vigiando.

    Manhattan disse Jayden. Agora tenho certeza de que

    enlouqueceram disse Marcus,colocando a mo no brao de Kira. Arazo pela qual ningum vigia Manhattan porque est carregada de explosivos:as pontes esto carregadas, os doislados da cidade esto carregados e, atonde sabemos, a fronteira Partial namargem norte do Rio Harlem tambmest. Um movimento em falso e a ilhainteira explode.

    O fato que sabemos a localizao

  • das nossas bombas disse Jayden. Posso conseguir todos os planos edocumentos antigos, que mostramexatamente onde ficam as rotas seguras.

    Existem rotas seguras? perguntouXochi.

    S se a gente fosse idiota para nodeixar algumas respondeu Jayden. So pequenas e de difcil acesso, mascom os mapas certos podemos encontr-las e avanar sorrateiramente.

    Quero que parem de falar sobre issoagora mesmo, todos vocs disseMadison com o tom de voz mais pesadoe decidido que Kira jamais ouvira. Elaestava falando srio. Ningum vaipara Manhattan, ningum vai atravessarum campo minado e posso garantir que

  • ningum vai atacar e capturar um Partial.Eles so supersoldados, foramdesenvolvidos para vencer a Guerra deIsolamento, no vo rolar no cho comocachorrinhos para um bando deadolescentes. So monstros,incrivelmente perigosos, e voc no vailevar meu marido nem meu irmo paraperto deles.

    Estamos fazendo isso por voc argumentou Haru.

    Mas eu no quero insistiuMadison. Kira podia ver seus olhos seenchendo de lgrimas, as mosprotetoras ao redor da barriga um poucocrescida. Se quer proteger meu filho,no o deixe sem pai.

  • Se eu ficar, nosso filho ter um paipor uns trs dias. Quatro, se tivermossorte. Kira tem razo: se no fizermosalguma coisa agora, o beb vai morrer,no h dvida disso. Mas se eu for evoltarmos com um Partial, talvez a genteconsiga salv-la.

    Ela? Eles falam como se jsoubessem o sexo, embora seja aindamuito cedo para dizer. O que est nabarriga de Madison uma pessoa realpara eles. Ser que a Madison noconsegue ver que a nica sada?

    A voz de Madison fraquejou. E se voc morrer? Nesse caso terei trocado a minha

    vida pela do meu filho respondeu

  • Haru. Nenhum pai nesta ilha fariadiferente.

    Voc me convenceu disse Xochi,cruzando os braos. Estou dentro.

    Eu no. Desta vez estou com aMads: perigoso, desleal e tem umachance em um milho de dar certo. Novale o risco opinou Isolde.

    Claro que vale a pena. Voc podedizer que estpido, que impossvel,mas nunca diga que no vale a pena. Seimuito bem que talvez a gente no voltecom vida ou que a operao seja umfracasso, e reconheo isso. No teriafalado se no estivesse preparada paraaceitar essas possibilidades. Mas Harutem razo, vale a pena trocar a vida dequalquer um de ns, mesmo a vida de

  • todos ns, pela oportunidade decomear uma nova gerao de sereshumanos. Se conseguirmos vencer osobstculos e usar um Partial para curar oRM, no estaremos salvando apenas obeb da Madison, mas milhares debebs, talvez milhes deles: cada bebhumano que nascer at o fim dos dias.Salvaremos a nossa espcie.

    Isolde permaneceu calada. Madisonchorava. Com o olhar perdido em Haru,sussurrou, enxugando as lgrimas:

    Por que voc? Porque at provarmos que demos o

    passo certo, todo o plano ilegal disse Haru. Quanto menos pessoasenvolvidas, melhor. Jayden pode

  • conseguir mais dois para dar retaguarda,mas nesta sala esto todos queprecisamos. a nica chance de nosermos descobertos.

    Continuo achando que vocs soinsanos disse Marcus. Voc tem pelomenos um plano? Ou acha que sagarrar um Partial e apertar o botocura do RM? Vamos supor que vocconsiga pegar um deles, tem algumaideia do que far depois?

    Kira virou-se para ele, surpresa deouvi-lo argumentar contra sua ideia.

    O que quer dizer com vocs soinsanos? perguntou. Pensei quetivesse concordado conosco.

    Nunca disse nada parecido com isso respondeu. Acho perigoso,

  • desnecessrio e estpido E o que ela acabou de falar sobre o

    futuro? questionou Haru. E nossaespcie? Nem para isso voc liga?

    Claro que ligo, mas as coisas no seresolvem assim respondeu Marcus. muito nobre dizer que vai dar a vidapor uma causa, e o futuro da humanidade, sem dvida, uma causa e tanto. Masse voc usar a cabea por dez segundos,o que esto planejando vem abaixo. Fazonze anos que ningum v um Partial:no sabem onde esto, o que estofazendo, como encontr-los, comocaptur-los, do que so capazesfisicamente. E se por algum ridculomilagre no forem massacrados e

  • conseguirem pegar um deles, o que faroem seguida? Vo circular com ele pelocentro de East Meadow, torcendo paraque no leve um tiro assim que algumcolocar os olhos nele?

    Vamos levar com a gente ummedicomp porttil e um gerador.Podemos fazer todos os testes fora deEast Meadow disse Kira.

    No, no podem, porque estaromortos disse Marcus. Voc comeouessa conversa avisando que seria direta,ento aqui vo mais algumas verdadespara voc: qualquer um que teacompanhe nesta aventura idiota vaimorrer. No h outro desfecho. E eu novou permitir que voc se mate.

    Por que diabos voc pensa que essa

  • deciso sua? gritou Kira. Ela sentiuo rosto esquentar. O sangue fervia. Asmos formigavam por causa do sbitofluxo de sangue, adrenalina e emoo.Quem ele pensava que era? O ambienteficou silencioso e desconfortvel, todosadmirados com sua exploso. Ela ficoude p e se afastou, sem coragem de olharpara Marcus, temendo gritar com eleoutra vez.

    Vamos levar pelo menos um mspara preparar tudo disse Jayden,baixinho. Haru pode conseguir algunscom seus contatos na rea de construoe eu vou falar com duas pessoas quepodem nos ajudar. Vamos dizer queestamos numa misso de resgate, com

  • um pessoal selecionado por mim. Svo perceber que existe alguma coisaerrada quando j for tarde demais paranos deterem. Mas recolher todas asinformaes, sem levantar suspeitas, vailevar um tempo.

    Est bem disse Kira. Noqueremos perder tempo, mas tambmno queremos atropelar as coisas. Sevamos fazer, faremos do jeito certo.

    Como vo me requisitar? No soucertificada para participar das missesde resgate perguntou Xochi.

    Voc no vai respondeu Jayden. Nem morta, vou sim! Precisa ficar com Madison disse

    Haru. Cada um ajuda como pode, comsuas habilidades. Levar voc no

  • territrio Partial pedir por confuso.Seria mais um estorvo que uma ajuda.

    Fique comigo, por favor pediuMadison, esticando a mo na direo deXochi, os olhos bem abertos e cheios delgrimas, no rosto a expresso desplica e desespero. No vou suportarperder todos ao mesmo tempo.

    Se Xochi no pode ir com vocs, eumenos ainda disse Isolde. Possointerceder junto ao Senado se notarem afalta de vocs. Mas qualquer deciso daRede de Defesa est alm do meualcance.

    Isso ajuda, mas no o suficiente disse Haru. Seu trabalho ser garantirque, na volta, o Senado ir pelo menos

  • ouvir o que temos a dizer. Eu tambm no vou disse Marcus.

    Nem Kira.Kira virou-se rapidamente, marchou

    at o sof e agarrou Marcus pelo brao. Jayden e Haru, podem comear.

    Marcus e eu vamos conversar l fora. Kira puxou Marcus pelo corredor at aentrada da casa e escancarou a portaviolentamente. Empurrou-o degrausabaixo e seguiu atrs como umatempestade. Plantou-se na frente dele, osolhos quentes com as lgrimas. O quevoc pensa que est fazendo?

    Salvando a sua vida. A vida minha. Eu mesma posso

    salv-la. Ento faa isso. Acha mesmo que

  • vai sobreviver? Quer deixar tudo paratrs?

    Tudo o qu? Est falando de ns?Essa a questo? Tenho que ficar debraos cruzados enquanto o mundoescorre pelo ralo s para a gentecontinuar juntos? Voc no meu dono,Marcus

    No estou dizendo isso, bvio. Sno entendo por que colocar tudo aperder.

    Porque a nica sada disse Kira. Isso no te afeta? Voc no entende?Estamos nos destruindo. Sei que possomorrer, mas se eu ficar, nsmorreremos, inevitavelmente. E toda araa humana morrer conosco. Me

  • recuso a conviver com isso. Eu te amo, Kira. Eu tambm te amo, mas Mas nada. Voc no precisa salvar

    o mundo disse Marcus. mdica, enem totalmente formada ainda, umaestagiria. Possui um dom natural para acincia. Pode fazer muito mais ficandoaqui, no hospital. Onde seguro. Seprecisam mesmo ir, deixe que elesfaam isso, voc fica. Sua voz falhou. Fica comigo.

    Kira cerrou os olhos. Gostaria tantoque ele compreendesse.

    Ficar com voc e o qu, Marcus? Ela olhou fundo em seus olhos. Vocquer casar? Quer ter uma famlia? Nopodemos fazer nada at o RM ter cura.

  • Com a reduo ou no da idade degravidez, vou passar o resto da minhavida grvida: a maioria das mulheresengravida todo ano, e nenhum bebsobrevive. isso mesmo que voc quer?Casamos, eu engravido e daqui vinteanos teremos vinte filhos mortos? Meucorao no suporta tanto. No sou forteo bastante.

    Vamos fugir daqui disse Marcus. Vamos para uma fazenda, uma vila depescadores, ou nos juntamos Voz, tantofaz. Qualquer coisa para te fazer feliz.

    A Voz e a Rede vo destruir a ilhase no encontrarmos a cura, Marcus.No estaremos seguros em nenhumlugar. Ela o encarava, tentando

  • entend-lo. Voc realmente acha queeu poderia ser feliz numa pequena vilaem algum lugar, ignorando a morte domundo? Sua voz fraquejou. Ser quevoc realmente me conhece?

    Ningum jamais encontrar a cura,Kira. Sua voz era fraca e aflita.Respirou profundamente, o maxilarfirme. Voc uma idealista, gosta dedesafios. Olha para um problema e vapenas o que ainda no foi feito. Pensanas coisas malucas e tolas que ningumtentou ainda porque elas so malucas etolas. Encare a verdade: tentamos tudo,procuramos em todos os lugares, usamostodos os recursos confiveis. Noencontramos a cura para o RM porqueela no existe. Morrer do outro lado do

  • rio no vai mudar isso.Kira balanou a cabea tentando

    encontrar as palavras certas. Comopodia dizer aquilo? Como ousava pensarassim?

    Voc no Parou, sem conter aslgrimas. Como consegue viver assim?

    Foi o que nos restou, Kira. Como consegue viver sem um

    futuro?Ele engoliu em seco. Vivendo o presente. O mundo j

    acabou, Kira. Talvez algum dia um bebsobreviva, talvez no. No fazdiferena. S temos um ao outro, vamosaproveitar. Vamos ficar juntos comosempre planejamos e esquecer a morte e

  • o medo. Vamos apenas viver. Voc querdeixar a ilha, deixamos a ilha. Vamospara um lugar onde ningum nosencontre, longe do Senado, da Voz, dosPartials, longe de tudo. Mas vamosjuntos.

    Kira soluava. Voc realmente me ama? Voc sabe que sim. Ento faa uma coisa por mim.

    Ela suspirou, enxugou as lgrimas eolhou direto em seus olhos. No tentenos deter. Marcus esboou umprotesto, mas ela o interrompeu. Noconsigo viver no seu mundo. Vou partire se morrer foi porque tentei mudar asituao. Se voc me ama, no vaicontar a ningum o que estamos fazendo,

  • onde estamos indo ou como nos deter.Prometa. Marcus nada disse. Kiraagarrou-o pelo brao, enrgica. Porfavor, Marcus, prometa!

    A voz de Marcos saiu lenta eapagada:

    Prometo.Ele se afastou, desvencilhando-se

    dela. Adeus, Kira.

  • PARTE II

    TRS MESES DEPOIS

  • ACaptulo Treze

    carruagem rodou para fora dacidadezinha s 12h02: um grupo

    pequeno e armado. Jayden encontraraum antigo plano de resgate numalocalidade ao sudoeste, uma escola desegundo grau da costa sul, que ningumhavia dado prosseguimento. As escolascostumavam ter um bom material deambulatrio, o que facilitou requisitar aparticipao de Kira. Essa em particularera bastante antiga, justificando apresena de Haru: ele testaria aestabilidade do prdio e Kira procuraria

  • medicamentos. No havia nada fora doordinrio e os superiores de Jaydenaprovaram a misso sem pensar duasvezes. A patrulha da fronteira sequer osparou; apenas viram os uniformes eacenaram para que passassem direto.

    Chegaram ao agreste. A primeira fasefora um sucesso.

    Kira e Marcus haviam brigadonovamente na noite anterior: a ltimatentativa de fazer Kira mudar de ideia.Sua incapacidade de compreenderdeixava Kira maluca estava totalmenteequivocado em relao a ela. Sentada nacarroa da Rede, Kira ainda fumegavade raiva, tentando pensar em outra coisa.Ela olhou para o grupo que conseguiramreunir. Na conduo da carruagem

  • estava a mesma garota que participarada ltima misso, uma garota deconstituio pequena chamada Yoon-JiBak. Do lado dela, Gabriel Vasicek, umhomem corpulento e cheio de cicatrizesde batalha, que fazia a expressoriding shotgun[6] parecer uma piada.Ele viajava com uma Minigun, umagigantesca monstruosidade de metal comao menos oito canos. Ningum que ovisse segurando a metralhadora de canosgiratrios teria coragem de incomod-los. Jayden, Haru e outros dois soldadosidentificados como Nick e Steve iamsentados atrs. Kira no sabia qual delesera Nick e qual era Steve, por isso,decidiu pensar neles como Magrelo e

  • Sujinho. Observavam as fileiras decasas abandonadas passando semnenhum comentrio.

    Jayden abriu um mapa da ilha. Em Meadowbrook seguimos para o

    sul, depois a oeste em Sunrise, e denovo ao sul no bulevar Long Beach, ata ponta da ilha. Vamos passar bem pertoda escola, que est a alguns quarteiresadiante. Isso bom. Se algum nos vir, eacabar sendo interrogado, dir queestvamos exatamente onde deveramosestar.

    Kira apontou no mapa o litoral sul,um labirinto de contorno irregular,formado por baas, enseadas e ilhas.

    No mapa tem uma ponte. Ser queainda est de p?

  • Voc est pensando nas de madeira disse Haru. A que vamos usar deao e, mesmo sem manuteno, elasduram mais de onze anos.

    Por que vamos to ao sul? perguntou Kira. Se encontrarmosalgum perto da escola, timo, umatestemunha. Mas no vai ser muitodifcil justificar um desvio de dois outrs dias?

    No temos escolha, por doismotivos respondeu Jayden, batendo odedo na metade oeste do mapa. Primeiro: o aeroporto, este blocomarcado com as iniciais JFK, grande e resistente, e ns no outilizamos, o que praticamente faz dele a

  • capital da Voz na ilha. Todos aquelesque no querem seguir a lei acabam,cedo ou tarde, indo parar ali.

    Todos, menos ns completouKira.

    Jayden sorriu. O aeroporto est localizado entre

    East Meadow e a base militar doQueens, nosso segundo grandeobstculo. Se formos muito para o norte,encontraremos com a Rede de Defesa, oque obviamente est descartado. Seavanarmos pelo centro, corremos orisco de ataques da Voz fora doaeroporto. Mas se seguirmos at oextremo sul da ilha, evitamos ambos,mesmo sendo bem perto do aeroporto.Nossos olheiros disseram que a Voz no

  • costuma patrulhar aquela rea. Ele fezum sinal para Magrelo e Sujinho, umdeles acenou uma vez com a cabea, ooutro no respondeu. No litoral hmenos coisas para roubar e menospessoas para assaltar, alm de ser umalinha reta at o Brooklyn. Ele bateucom o dedo novamente no mapa, depoisdeslizou-o para o sul, at um lugarchamado Staten Island. Aqui estdeserto, at onde sabemos. Alm disso,a Rede de Defesa derrubou esta ponte,por isso no h uma maneira fcil deatravessar. Mais ao sul ainda, claro, smesmo o oceano, o que significa noventae nove por cento de chances de oexrcito Partial estar no Queens, onde

  • nossos territrios quase se encontram.Resumindo: a rota que traamos descefundo at o sul e se afasta de tudo quequeremos evitar.

    Kira assentiu com a cabea,entendendo o plano.

    Ento vamos seguir pelo litoral ato extremo sul, torcendo para as pontesestarem funcionando, depois cortamospor trs da Rede de Defesa at eladeu uma espiada nas legendas do mapa o Brooklyn.

    Exatamente disse Haru. Eatravessamos a ponte do Brooklyn.

    Kira franziu o cenho, estudando omapa.

    Se essa rea to desprotegida, porque os Partials nunca entraram por ali e

  • nos mataram? Por causa das bombas deque falou?

    Carregamos aquela rea com todosos explosivos que pudemos encontrar explicou Jayden. Temos postos depatrulha e olheiros em toda a extenso,alm de minas e armadilhas tanto nacidade como nas pontes. Podemos evit-las porque sabemos onde esto, mas umexrcito marchando por ali acabariavoando pelos ares, ficando preso ouvirando pedacinho enquanto nossoshomens viriam para cerc-los.

    Ser que os Partials tero a mesmadefesa no como mesmo, Bronx?

    possvel, se que esto l. Masno acredito que se importem. Para eles

  • somos insetos: alguns milhares dehumanos contra mais de um milho dePartials. Talvez no sejam toprevenidos como ns, porque noacreditam que sejamos estpidos osuficiente para atac-los.

    Kira grunhiu. No consigo pensar que somos

    mais estpidos do que eles pensam sejauma boa estratgia de ataque.

    Confie em ns disse Jayden. Sabemos o que estamos fazendo.Podemos evitar nossas prprias minas.Steve e Nick colocaram metade delas,por isso podemos encontr-las antes quenos peguem. Vai funcionar.

    Kira olhou para Magrelo e Sujinho denovo. Um deles acenou com a cabea, o

  • mesmo da vez anterior. Seuacompanhante permaneceu em silncio.Kira tirou o cabelo da frente do rosto.

    Voc confia nessas pessoas? Nick,Steve, Gabe, Yoon?

    Haru as escolheu. Se ele confia, noh motivos para no fazermos o mesmo respondeu Jayden. Eles sabem o queestamos fazendo e o porqu, e aceitaramassumir o risco. J os conhecia. No vose voltar contra ns nem nos denunciar,se o que voc estava pensando.

    Apenas curiosidade disse Kira,voltando-se para Magrelo. O que voctem a dizer? Por que est aqui?

    Quero um pedao de um Partial. timo! disse Kira. Eis um

  • motivo respeitvel Em seguida, olhoupara Sujinho. E voc?

    Sujinho sorriu, os olhos escondidosatrs de culos escuros esportivos.

    S quero salvar os bebezinhos. Incrvel! disse Kira. Ela olhou

    para Jayden e arregalou os olhos. Incrvel!

    So quase vinte quilmetros atLong Beach, ento vamos avanar para ooeste o mximo possvel antes deanoitecer disse Haru. Se quiseremfechar os olhos um pouco este omomento. Vasicek, descansar!

    Sim, senhor respondeu Gabe. Vou vigiar aqui detrs. O resto de

    vocs tambm pode descansar, a semanavai ser longa.

  • uma ponte de pista dupla avisouYoon, analisando a paisagem com umbinculo. Haviam alcanado a pequenaponte de acesso a Long Beach, no sul dailha. Ao e concreto, em bom estado.Melhor que isso, esto quase limpas. Hentulho acumulado nas laterais, masnada no meio das pistas. Ela abaixou obinculo. A ponte usada, eregularmente.

    Kira mirou frente. A Voz? Provavelmente uma comunidade de

    pescadores. Dois grupos de famliasformadas aps o Break, que usam aponte para ir ao mercado vender peixes.Os pescadores esto todos nesta regio

  • disse Jayden, estalando a lngua elevantando os ombros. Mas a ocasiofaz o ladro.

    Ento vamos fazer desta ocasio amenos atraente possvel disse Haru. Vasicek!

    O homenzarro se mexeu e acordou.Em poucos segundos tinha parado deroncar, embalado pelo balano dacarroa, e estava totalmente alerta.

    Senhor? Volte para a frente com a

    metralhadora.Gabe colocou a metralhadora no

    ombro e subiu na parte da frente dacarroa. A cada passo seu, a carroabalanava perigosamente.

  • Por que diabos essa coisa chamada de Minigun? perguntou Kira. maior do que eu. como chamar umcara gordo de Fino. No tem nada demni.

    o mesmo tipo de arma usado nostanques, mas pequena o bastante para ainfantaria explicou Haru. Quandovoc chama algo de mni, precisa ter emmente o tamanho da original.

    Gabriel um tanque ambulante disse Kira, assobiando baixinho para osoldado enquanto ele se acomodava dolado de Yoon. Me lembre de nuncachamar voc de Fino.

    Em frente! ordenou Haru.Yoon chicoteou os cavalos e a

  • carroa entrou em movimento. Com aponte cada vez mais prxima, Kiraolhava ora para a ponte, ora para osprdios passando ao redor. As ruaseram largas, delimitadas porestacionamentos e lojas saqueadas. Noscruzamentos havia pequenos canteirostriangulares onde cresciam grama ervores. Na esquina, Kira olhou para aoutra rua, esperando, a qualquerinstante, uma emboscada, mas tudo queviu foram fachadas de lojas destrudas ecarros enferrujados. A carroa seguiaruidosamente, os cascos dos cavalosgolpeando o asfalto esburacado.Chegaram entrada da ponte e Kira viua estreita baa estendendo-se nos doislados. Comearam a travessia na ponte

  • descoberta. Centenas de metros paracruzar sem a proteo de uma rvore,um prdio ou de qualquer outro tipo decobertura. Kira nunca se sentira toexposta. Crescera no centro da ilha,cercada por coisas. Por tudo que ovelho mundo construra e deixara paratrs. Abrigava seus prprios perigos buracos que escondiam bandidos ouanimais, paredes que caam sobre voccaso no tomasse cuidado, pontas demetal e estilhaos de vidro, e outrascentenas de ameaas. Ela as conhecia, eestava acostumada. Estar naquela ponte,longe de tudo, sem um lugar onde seesconder ou se abrigar, ou mesmo umapoio onde se encostar, era como se o

  • mundo estivesse vazio e abandonado.No ponto mais distante da pennsula a

    praia era ainda pior. Ondas cinzasquebravam-se contra a areia, a cristabranca, agitadas pelo vento, quecarregava o cheiro salgado do mar. Apraia do lado norte ficava de frente parao continente, mas ali o oceanosimplesmente continuava, montono, atonde os olhos de Kira podiam alcanar.Ela muitas vezes sonhara com o mundopara alm dos limites da ilha, suasrunas e maravilhas, seu perigo eisolamento. Ali, via o mundo como umgrande vazio acinzentado uma paredequebrada, uma praia deserta, uma ondatediosa pulverizando-se vagarosamentedentro do nada. Viu um cachorro morto,

  • metade do corpo enterrado na areia dapraia, marrom e com o sangue seco,pontilhado de larvas brancas. Virou-separa a estrada, mantendo o olhar fixo nocaminho a sua frente.

    Se havia pessoas em Long Beach,fizeram questo de no aparecer. Acarroa avanou ruidosamente semnenhum incidente at a prxima ponte,no canto oeste. Naquele ponto, cruzaramde volta para a ilha principal, evitandouma enseada ampla e pantanosa, virandonovamente a oeste, e atravessando outracidade desabitada. A praia era maisprxima da rua do que indicava o mapa,o que deixava Kira mais apreensiva,embora no soubesse o porqu. Todos

  • os soldados estavam acordados. Isto o mximo que vamos nos

    aproximar do aeroporto sussurrouJayden, sentado ao seu lado. Esta faixaestreita de cidade segue direto at l,cinco ou seis quilmetros adiante.

    Acha que vamos encontrarbandidos? perguntou Kira.

    Voc est com o fuzil?Kira balanou a cabea, pegando a

    arma e conferindo o tambor. Respiroufundo, tentando se acalmar.

    Travada e carregada. Ento est preparada.Kira engoliu em seco e apontou o

    fuzil para fora da carroa, segurando-oda forma que aprendera na escola: amo esquerda sustentando o cano, a

  • direita na coronha e o dedo prximo aogatilho, mas no nele. Ela destravou aarma, observando o cenrio de casaselegantes com rvores seculares nojardim, provavelmente cada umavalendo milhes de dlares antes doBreak. Agora as portas e janelasestavam quebradas, os jardins deramespao ao matagal e os carrosenferrujados estavam entocados nasgaragens como insetos gigantes mortos.Passaram por uma alameda e por umafileira de prdios altos um antigoresort na praia, provavelmente metadedele agora embaixo da gua.

    Kira notou um brilho momentneo najanela de uma sobreloja: o reflexo

  • despretensioso de um pedao de vidro?Ou um sinal a algum escondido nacidade?

    As rvores cederam espao a maisedifcios, o corao da comunidade daantiga cidadezinha. Kira viu sinais dasnovas habitaes: grafites nas paredes,lonas sobre os telhados, tapumespregados nas janelas de vidrosquebrados. A fachada de um antigobanco estava coberta com telhas dealumnio e os carros no estacionamentoamontoados numa barricada. Ela noconseguia estimar se aquilo era trabalhorecente ou se ainda havia algum ldentro. Nada se mexia e ningum falava.

    Dois blocos adiante um estalo ecooupelo ar. Kira pulou de susto, apertando a

  • arma. Foi um tiro? Parece que algo caiu disse

    Jayden, os olhos esquadrinhando cadaesquina, cada lugar mal iluminado. Uma placa de compensado. No tenhocerteza.

    No estamos sozinhos? Ah, definitivamente no.Kira vasculhava as janelas ao longo

    da rua casas velhas, condomnios,restaurantes e sorveterias, tudo vazio,saqueado, com marcas deixadas pelapassagem do tempo, pelas intempries epela violncia humana. Yoon mantinhaos cavalos num ritmo constante,sussurrando devagarzinho para acalm-

  • los. Gabe exibia a metralhadora comoum talism, metade do corpo levantado,para botar ainda mais banca deautoridade. Magrelo e Sujinho, bemabaixados na carroa, miravam os riflespara lugares incomuns, onde Kira nuncapensaria olhar: a lixeira num beco, umoutdoor, uma van de entrega tombadasobre a lateral danificada.

    O som de passos ecoou pela rua e ocorao de Kira apertou dentro do peito.Ela no distinguia se estavam correndoem direo a ela ou para longe dela.Forou a vista e no viu nada.

    Podem ser membros da Vozplanejando uma emboscada disseJayden. Podem ser pescadoresachando que somos da Voz.

  • Estamos uniformizados disseHaru. Deveriam saber que somos deconfiana.

    Kira apertou o fuzil firmemente. A desconfiana deles faz de ns um

    alvo para a Voz.Ela viu um movimento veloz na janela

    do segundo andar e girou o corporapidamente, apontando a arma para oinimigo. O dedo, num movimento fluido,tocando o gatilho, pronto para disparar oprimeiro tiro.

    Era uma criana, talvez de catorzeanos. To novo quanto Saladin. Seurosto estava sujo e a camiseta, grande erasgada. Kira ofegava, com o garoto emseu campo de viso e o dedo no gatilho.

  • Ela abaixou a arma. Ningum atira.Jayden j estava de olho nele, que

    olhava aptico para o grupo armado. Acarroa seguiu e o garoto desapareceuda viso. Kira virou-se e desabou contraa parede interna da carroa, largando aarma e cobrindo o rosto com as mos.

    A carroa seguiu ruidosa.Aquela pennsula era muito maior que

    a anterior. O sol comeava a se pr e osedifcios projetavam longas sombras narua. Kira observava enquanto as lojasviravam casas, as casas viravamapartamentos e os apartamentos, umafloresta de kudzu e rvores jovens.Quando pensou que j estava escurodemais para prosseguirem, Jayden fez

  • sinal para Yoon parar a carruagem eapontou para uma marina em runas.Magrelo e Sujinho pularam da carroa epraticamente desapareceram,misturando-se s sombras. Kiraaguardava, tensa, to nervosa que pegouo fuzil de novo. Quis dizer algo, masJayden fez sinal para que ficasse calada.Os minutos passaram como horas, atque uma luz fraca brilhou na janela damarina. Jayden assobiou mansinho eYoon sacudiu as rdeas, guiando oscavalos em direo ao edifcio. Afachada da marina era toda de vidro, umshowroom para barcos de pesca, e agoraa abertura era grande o suficiente paraabrigar a carroa inteira. Jayden pulou

  • da carroa e Gabe lanou-sepesadamente ao cho, sem tirar os olhosda rua atrs deles.

    Uma porta no fundo e duas janelaslargas demais para tapar comunicouMagrelo.

    Vamos disse Jayden,desaparecendo nos cmodos dos fundos.Haru comeou a soltar os equipamentose Kira correu para ajudar comida ecobertores, munio extra, atexplosivos. Ela no sabia quecarregavam aquilo. Eles passaram osexplosivos para Yoon e Sujinho, ejuntos carregaram todo o material parauma sala nos fundos, cujo nico acessoera aquela porta. Por ltimo,descarregaram o computador mdico,

  • uma unidade porttil com geradorprprio, projetado para trabalho decampo em pases subdesenvolvidos.Kira no se lembrava do velho mundo os dias de sua infncia, quando a terradevastada onde morava ainda eradesenvolvida. Pensou sobre as larvasno cachorro; rastejando, comendo, ecegas.

    Cuidaram dos cavalos, colocaram umrelgio para despertar e acomodaram-separa dormir. Kira embrulhou-seapertada no cobertor. No sentia frio,mas de alguma maneira, congelava, osdentes batendo na escurido. Flutuandono ar, uma voz suave, cantando Gabemontando guarda. Sua voz era mansa e

  • doce, o que surpreendia vinda de umcorpo to grande. Ele entoava umamsica antiga que a professora de Kiras vezes cantava na escola, sobre aperda de um amor e a tentativa deesquec-lo. A msica a fez pensar emMarcus e na ltima noite em queestiveram juntos. Ela o amava, oupensava que o amava, ou costumavaam-lo. Mesmo assim, sempre que elefalava em casamento, ela no conseguiair adiante com a conversa.

    Por que no consigo conversar comele? Sobre as coisas realmenteimportantes? E por que ele noenxerga que no basta abrir mo detudo e esperar pelo fim? Como algumpode pensar assim?

  • Cobriu a cabea com o cobertor eouviu a msica melanclica de Gabe.Quando adormeceu, sonhou com a morte no apenas a dela, no apenas a da suaespcie, mas a de todos os seresviventes que ela j conhecera. A terraera achatada, larga e marrom, um campode poeira to desolado quanto a lua, umanica estrada estendendo-se na distnciainfinita. Os ltimos a carem foram osedifcios, inalcanveis e imponentes,lpides de um mundo inteiro. Ento elesdesapareceram e no restou nada almdo nada.

  • PCaptulo Catorze

    ela manh, Jayden acordou Kiracedo e juntos chamaram os outros.

    Partiram cortando a densa nvoa cinza.Desta vez, Haru guiava os cavalos,balanando as rdeas de mansinho eestalando a lngua para encoraj-los.Yoon estava sentada atrs, com Kira, efazia movimentos circulares com osombros para soltar os ns dos msculos.Na luz forte da manh, podiam ver oaeroporto do outro lado da ampla baa.A nvoa pairava, espiralada, sobre agua.

  • Atravessaram mais algunsquilmetros de cidade antes dealcanarem a prxima ponte, a maior atagora, que se estendia para longe dabaa e religava-se pennsula na parteprincipal da ilha. A ponte podia servista a longa distncia, e Kira esperava,desesperadamente, que ainda estivesseintacta. Caso no pudessem atravessarali, isso significaria dias perdidos deviagem.

    J estariam atrs deles? A misso deresgate estava programada para duraruma noite, ento ningum teria sentido afalta do grupo ainda a menos queMarcus tivesse contado a verdade sobreo destino deles. Gostaria de confiar

  • nele, no podia imaginar um nicomotivo para no confiar, porm elehavia se negado a ajudar. Havia serecusado a vir. Ela precisava dele maisque do fuzil em suas mos, porm

    O grupo parou num estacionamentogigantesco, uma grande extenso de terraatravessando de uma costa a outra dapennsula. A entrada da ponte estavabloqueada; avanaram agachados atencontrar uma barricada improvisadacom carros velhos h muito abandonada.Magrelo e Sujinho ficaram de guardaenquanto os outros esforavam-se paralevantar e empurrar os destroos,usando os cavalos a fim de abrircaminho entre a sujeira. Kira manteve-seem p na carruagem durante a travessia

  • da ponte, que era a edificao mais altaentre todas ao redor. Isso a apavorava.E por isso agia assim.

    A rea era mais aberta que apennsula, com muitos terrenos ervores, em vez de prdiosabandonados. Kira pode respirar maisaliviada quando o aeroporto ficou paratrs. A amplido permaneceu porpoucos quilmetros, at carem de voltana cidade. Seguiram por uma avenidalarga, passando por centros comerciais,casas de madeira e tijolo, todasfechadas. Muitas despedaavam-sesobre si mesmas, runas cobertas detrepadeiras numa selva faminta.

    Num cruzamento encontraram um

  • amontoado de carros carbonizados poralgum fogo antigo talvez um acidenteou o centro de uma fogueira ateada nummotim h muito esquecido. Aquela erauma cidade maior que East Meadow,com mais construes e uma populaomaior do que qualquer outro lugar queKira visitara nas misses de resgate ouem outras viagens. Os moradores aoleste de East Meadow contraram ovrus com dignidade, reunindo osfamiliares e morrendo pacificamente emsuas casas. Por outro lado, os distritosfora de Manhattan, haviam enfrentado oinimigo duramente, e depois que osPartials desapareceram, haviam brigadoentre si. A cidade era o espelho disso.Agora estava vazia.

  • Kira havia crescido sombra dohospital Nassau, o prdio mais alto deEast Meadow, que ela acreditava ser omais alto do mundo. Mas os distantesarranha-cus de Manhattan destruramaquela iluso quando chegaram aoBrooklyn. A rua era quase uma linha retano sentido nordeste, mas Jayden pegououtro mapa e guiou Haru por esquinas eruas laterais, ora permanecendo na ruaprincipal, ora pegando longos atalhosem seu entorno. Alguns quilmetrosadiante, fizeram uma pausa numcemitrio destrudo, molhando oscavalos num tanque. Enquanto osanimais matavam a sede, Yoon e Sujinhoamarraram grossas tiras de camisetas

  • velhas em volta dos cascos para abafaro som. Kira, que assistia operao, viuuma famlia de antlopes sairdevagarzinho de trs das rvores aolonge graciosamente listrados e comdelicados chifres espiralados.Mordiscaram a grama nova que cresciaentre as lpides e em seguida lanaram-se num movimento perfeitamentesincronizado, correndo para longe numavelocidade espantosa. Kira viu umborro negro no encalo do grupo.

    Pantera disse Yoon.Kira puxou o fuzil para perto dela. Bom saber. Panteras so caadoras noturnas.

    No senti muita firmeza nessa da comentou Yoon.

  • Subiram de volta na carruagem epartiram, seguindo o intrincado caminhodo mapa. Ao se aproximarem deManhattan, os prdios ficaram maiores,e, como j era de tarde, fizeram umapausa sob a sombra de um complexo deapartamentos de trinta andares,esperando por quase meia hora enquantoJayden inspecionava cuidadosamente asesquinas. Magrelo se enfiou no prdioao lado e Sujinho desapareceu atrs dafileira de carros. Kira aproximou-se deHaru.

    O que esto fazendo? Tem uma torre de vigia no final da

    rua sussurrou Haru. Dois homens eum rdio, de olho em qualquer

  • movimento Partial na fronteira. Notemos um caminho melhor, ento,estamos esperando.

    Esperando o qu? Uma hora vo ter que mijar. Est falando srio? Com todo

    cuidado, Kira espiou da esquina. Nolocalizei nada.

    Essa a questo. Sabemos ondeprocurar explicou Haru, puxando-a devolta. Jayden tem um pequenodispositivo na ponta do fuzil que auxiliana mira. Assim que ele se mover, nsnos movemos.

    E a o parceiro dele nos v disseKira. Se passar por eles fosse to fcilassim, qualquer um poderia atravessar.

    Apenas fazemos parecer fcil

  • disse Jayden, deitado atrs de um carro,o binculo num trip. Somos bonsdemais no que fazemos.

    Mesmo o vigia mais dedicadotorna-se imprudente aps uma dcadasem ver coisa alguma disse Haru. Seu parceiro da noite deve estardescansando. Tenha pacincia, masprepare-se para correr quando dermos osinal.

    Kira sentou-se na sarjeta, olhandopara os prdios altos que os cercavam.De vez em quando, via um gatoselvagem deslizar sobre o entulho ouobserv-la do parapeito de uma janela.Os minutos pareciam durar horas, e nabase daquele desfiladeiro de ao e

  • reboco, Kira no sabia dizer quantotempo havia se passado. Comeou alanar pedregulhos na rua, dentro dajanela aberta de um carro, do outro ladoda rua, mas a mo pesada de Gabe aimobilizou.

    Eu sei que o vigia no consegue vernem ouvir voc. Mesmo assim maisseguro no fazer isso.

    Kira sorriu envergonhada. Desculpe.Ela percebeu um movimento rpido

    no final da rua e olhou para Sujinho, queacenava de detrs de uma paredequebrada.

    Como ele chegou ali?Jayden levantou a mo. Preparem-se.

  • Yoon agarrou as rdeas e Kiralevantou-se num salto. Jayden esperoualguns instantes e ento abaixoubruscamente a mo.

    Vai!Yoon balanou as rdeas e os cavalos

    saram a galope, as patas cobertasproduzindo um rudo seco no asfalto.Kira corria com os outros, levantando oolhar para a torre, mas vendo apenasprdios vazios.

    Chegaram outra ponta da rua eesconderam a carruagem atrs de outroedifcio. Jayden olhou para trs com osbinculos. Sujinho emergiusilenciosamente das sombras.

    Como chegou aqui? perguntou

  • Kira.Ele deu de ombros e subiu na

    carruagem. O vigia ainda no voltou disse

    Jayden, os olhos atentos sabe-se l aque. Tambm no ouo nenhum sinalde comunicao via rdio. Acho quecontinuamos despercebidos. Voltouagachado para trs da parede elevantou-se. Vamos.

    Magrelo juntou-se a eles algumasquadras adiante, surgindo do nada esaltando para dentro da carruagem.

    Ele no nos viu disse.Jayden assentiu. Perfeito.O cocheiro continuou a esquivar-se

    por um caminho sinuoso, preferindo as

  • ruas curtas e estreitas, seguindo asorientaes do mapa para fugir dassentinelas da Rede de Defesa. Pararamnum enorme edifcio de granito,provavelmente o antigo frum, e Yooncomeou a desenfaixar as patas doscavalos.

    No d para ver daqui, mas estamosapenas a alguns quarteires do rio disse Jayden. So duas pontes, umabem do lado da outra, e apenas um postode vigia. Achamos que possvelatravess-la, mas deixaremos acarruagem e os cavalos aqui.

    Kira olhou para o parque arborizadodo outro lado da rua e imaginou-o cheiode panteras escondidas nas sombras.

  • Yoon vai ficar com eles?Jayden balanou negativamente a

    cabea. Vale mais ter Yoon armada conosco

    em Manhattan e arriscar ter que voltar ap para casa. Apontou para os degrausdo frum. Vamos escond-los alidentro e torcer para que nada acontea.

    Os degraus eram ngremes e acarruagem pesada. Era arriscado demaisempurr-la para cima. Carregaram osequipamentos na mo e guiaramcuidadosamente os cavalos pelosestreitos degraus de granito. As janelasdo antigo prdio pblico estavamquebradas, claro, mas as pesadas portascontinuavam mais ou menos intactas.

  • Yoon foi com Gabe e Kira at o parquedo outro lado da rua, cortaram vriasbraadas de grama alta usando uma facacurva e levaram para os animais.Improvisaram um curral com as mesas ebloquearam as portas com um jogo depesados sofs de metal. Ocorreu Kiraque se eles no voltassem os cavalosficariam presos ali para sempre. Elaespantou essa ideia do pensamento.

    Os soldados examinaramminuciosamente as armas, certificando-se de que os canos estavam limpos, ascmaras carregadas e que as partesmveis moviam-se como o esperado.Kira verificou seu fuzil o maisdetalhadamente possvel, estudandopeas da arma que ela sequer notara

  • antes, percebendo pela primeira vez quesua vida literalmente dependia delas. Otambor estava totalmente carregado e elatinha cartuchos na mochila, algunsamarrados nas costas e mais dois defcil acesso no cinto. Gabe deixou ametralhadora mais rpida, conferindo ogiro dos canos, e colocou nos ombrosuma mochila enorme, entupida demunio. Jayden jogou seu fuzil sobre oombro e certificou-se de que suas duaspistolas semiautomticas estavam nocinto. Magrelo e Sujinho trouxeram fuzisde cano longo com silenciador e quebra-chamas. A arma de Haru era pequena everstil, de coronha dobrvel; Yoontrazia uma arma similar, alm da faca de

  • lmina longa e cruel presa atrs docorpo.

    Jayden deu um tapinha nas costas deKira.

    Est pronta?No, pensou Kira, estou com frio,

    com calor, cansada e assustada, enunca estive mais despreparada paraalguma coisa em toda minha vida. Elaforou um sorriso.

    Pronta! Vamos atacar umsupersoldado!

    A ponte comeava prxima ao frum,e caminharam nela cerca de oitocentosmetros at chegarem ao rio. Ao seaproximarem da borda do terreno,apoiaram-se sobre os joelhos e as mos,rastejando ao longo da lateral de um

  • muro de cerca de um metro, uma faixaestreita de concreto que os abrigaria davista de algum vigia oculto em um dosprdios nos arredores. Magrelo eSujinho rastejavam na frente,desarmando as armadilhas e desativandoas minas para que o resto do grupoatravessasse em segurana. Mesmo comas armadilhas desarmadas, Kira podeperceber como cada uma delas deveriafuncionar.

    Kira imaginava um vasto exrcitoPartial escondido atrs dos arranha-cusdo outro lado do rio, coincidentementeou no, escolhendo aquele exatomomento para lanar um ataque. Nohavia mais armadilhas; as portas

  • estavam abertas. Estaria ela traindo ahumanidade?

    No. Ela estava salvando-a. Kiratravou o maxilar e continuou rastejando.

    O Brooklyn havia surpreendido Kirapela quantidade de prdios; Manhattan adeixara boquiaberta por ter prdiosainda maiores que os do Brooklyn. Ailha era uma montanha de metal,esticando-se to alto em direo snuvens que literalmente tinha-se aimpresso de que arranhavam o cu. Abase da cidade era um tapete verde.Parques, rvores e canteiros de gramah muito tempo haviam transbordadopara fora dos seus limites, espalhando-se pelas ruas. As sementes acharamfendas, e as razes encontraram pontos

  • que no ofereciam nenhuma resistnciaao seu crescimento, at o asfalto tornou-se curvo e quebrado. As ruastransformaram-se em uma floresta devegetao nova. As vinhas de kudzutrepavam implacavelmente na lateraldos prdios, cobrindo os pavimentostrreos com camadas to grossas defolhas que os prprios prdios pareciambrotar de dentro do solo.

    Quando a ponte chegou do outro ladodo rio e espichou-se para dentro dacidade, eles finalmente ficaram em p.Kira sentia-se no mesmo nvel das copasdas rvores, numa floresta literalmenteurbana. Os pssaros construram ninhosnas vinhas e calhas. Gatos selvagens

  • rondavam cautelosamente entre aestrutura de trelia dos escritriosdestrudos, a centenas de metros no ar.Kira ouviu o ladrar de ces e, podiajurar, o distante bramido de um elefante.

    Este lugar deveria se chamarAniManhattan disse Gabe, lanandoum sorrisinho a Kira. Ela riu e assentiucom a cabea.

    Todos abaixados. Conhecemosmuito bem o Brooklin, mas este territrio desconhecido. No devemosencontrar Partials aqui, mas no custater cuidado alertou Jayden, apontandopara um prdio claro, um ou doisquarteires ao norte. Daquela torreteremos a melhor viso desta parte dailha. Vamos subir, fazer um

  • reconhecimento da ilha e seguir emfrente. Fiquem juntos e no faambarulho.

    Kira engatinhava atrs dos outrosenquanto a ponte se inclinava e curvavaatravs de um elevado de rvores altascomo torres. No nvel do cho o mundoera completamente novo: uma misturaesquizofrnica de floresta e ferro-velho;Kira precisava redobrar a ateno ao selocomover. A muralha de arranha-cusresultava em mais entulho que o normal estilhaos de vidro e montes depedras, pedaos de reboco e fragmentosde gesso, uma quantidade absurda depapel, alguns voando livremente eoutros em decomposio numa grossa

  • camada de terra, folhas e fungos.Gavinhas longas e verdes enroladas emlatas de refrigerante, entrelaadas nosaros de bicicletas enferrujadas, etenazmente agarradas na lataria deantigos txis, nibus e placas de trnsito.

    Kira e os soldados seguiamcuidadosamente pela rua, escolhendo ocaminho entre carros enferrujadas,rvores enfolhados e pilhas de entulhoinclassificvel. Quando chegaram aoprdio claro, Gabe montou guarda naescada e o resto do grupo subiu o maisalto que pode, antes de Haru preocupar-se com a estabilidade dos pavimentos.Doze andares foram o suficiente. Aquelaparte da ilha apresentava mais casas eapartamentos, no lugar dos gigantescos

  • prdios comerciais, oferecendo umaampla viso do terreno na direo norte.

    Aquela faixa verde deve ser umparque disse Jayden, apontando para onoroeste. Pelo jeito se estende por unsdez quarteires, e as rvores nos darouma boa cobertura.

    Tambm vo nos atrasar. Devemosescolher uma rua larga e seguir diretopelo meio dela sugeriu Haru.

    Os dois discutiram as opes poralguns minutos. Yoon inclinou-se parafora da janela para espiar um casal depssaros coloridos. Kira estudava alinha do horizonte, tentando absorver omximo possvel da cidade. Onde haviapontos de referncia para gui-la?

  • Prdios marcantes que ela poderiaencontrar e lembrar caso estivesseperdida? Enquanto seus olhos corriampela cidade, Kira viu uma linha fina ebranca, que parecia estar se movendo um reflexo, talvez, ou no Era fumaa.Ela apontou em sua direo.

    Tem fogo ali. Esto vendo?Jayden e Haru pararam de conversar,

    acompanhando com os olhos a direoque seu dedo apontava.

    Logo atrs daqueles trs prdiosmarrons.

    Estou vendo disse Haru. No uma casa em chamas, o fogo est muitobaixo e controlado. Acho que umafogueira.

    uma chamin afirmou Jayden,

  • olhando pelo binculo. Tem algummorando ali.

    Kira franziu o cenho para a fumaadistante.

    Morando ou acampando? Achei que a ilha estivesse deserta

    disse Yoon. Por que algumcontinuaria morando aqui sozinho?

    Pode ser uma torre de vigia. Umaposio externa dos Partials.

    muito baixa para ser uma boatorre de vigia disse Jayden. apenasuma casa, com no mximo trs andares.

    Um acampamento Partial, comodisse Kira. Uma patrulha passando o diana regio sugeriu Haru.

    No necessariamente um Partial.

  • Pode ser apenas algum velho malucoque no quis deixar sua casa.

    No tem como uma pessoa semtreinamento chegar to longe semdetonar uma das minas opinou Haru. Acho que devemos checar. Se foremPartials, podemos preparar umaemboscada e economizar dias deviagem.

    Se for apenas um refugiado,corremos o risco de nos expormosdesnecessariamente disse Jayden. Qualquer pessoa louca o bastante parasobreviver aqui igualmente paranoicapara saber que estamos nosaproximando e atirar primeiro.

    Agora voc quem est sendoparanoico disse Haru.

  • Pode apostar nisso, Haru! rebateuJayden. Se um hermito malucoarmado no te assusta, que talarmadilha Partial? Podem ter montadoisso para nos atrair at l.

    Nem sabem que estamos aqui. Ficaremos vivos por mais tempo se

    acreditarmos que eles sabem argumentou Jayden. No quero meaproximar.

    Deciso descartada disse Haru. Vamos nos aproximar, mas com muitocuidado. Quando chegarmos aos trsprdios que Kira apontou, subimos emum deles para espiar. Nick e Steve vopela lateral em busca de qualquer coisaque chame a ateno.

  • Voc no est no comando disseJayden. Nem mais um militar deverdade.

    So minha mulher e meu filho queesto em jogo. Pode tentar tirar minhaautoridade, mas no vou facilitar paravoc.

    As coisas no funcionam assim,Haru.

    Os recrutas esto comigo disseHaru. Magrelo e Sujinho moveram-se deleve, lembrando sutilmente aos outros apresena deles. O que voc tem, duasgarotas? Ns vamos at o fogo.

    Num piscar de olhos a sala ficougelada, cada um olhando o outro,avaliando as distncias, observando as

  • mos.Jayden cerrou os dentes, claramente

    engolindo o orgulho. Coordenaremos via rdio disse. A

    tenso cedeu. Canal trinta e cinco, semindicaes verdadeiras para o caso dosPartials estarem ouvindo. O prdio alvoser Holly, e as trs torres prximas aele Max; os Partials sero Fred e oshumanos Ethel; admitindo-se queestejam de uniformes, poderemosidentific-los. Todos sem identificaosero Lucy.

    Jayden rascunhou rapidamente ummapa da regio, assinalando a fumaa eos outros pontos de referncia. Adescida pelas escadas foi tensa, masnada aconteceu. Haru explicou o plano a

  • Gabe e eles partiram atravs da cidade,saltando em cima dos carros para ter umcampo de viso mais amplo, sem ainterferncia das rvores que cresciamem toda a extenso da rua. Kirareconhecia os prdios que serviriam dereferncia. Parou, surpresa, quando viuum cavalo preto, magricela,mordiscando a grama da sarjeta. Ocavalo relinchou apreensivo ao v-la edesceu trotando a rua ao lado. Yoonobservou o animal com uma admiraoquase melanclica.

    Voc gosta de cavalos? perguntouKira.

    Yoon confirmou com um movimentode cabea.

  • Cavalos, ces, gatos, o que vocimaginar. Durante anos tive um pinguimde estimao, antes de entrar para aRede de Defesa.

    Por que se alistou? perguntouKira. Poderia ser veterinria,fazendeira, sei l.

    Minha me era soldado. Pelo menosacho que era respondeu Yoon, dandode ombros. Lembro que ela tinha umuniforme azul. Sim, era azul-marinho.Tenho uma foto dela guardada em algumlugar. Ela parou por um momento,depois inclinou para a frente ecochichou:

    Mantenha os olhos abertos. Todossabiam que Haru era um chato, mas

  • nunca imaginei que fosse enfrentarJayden daquele jeito. E Nick e Steveesto com ele, no com a gente.

    E quando nos separarmos? sussurrou Kira. Vai alterar ahierarquia?

    Nick e Steve so mais perigososquando no podemos v-los disseYoon. No vou ficar menospreocupada quando partirem.

    A tarde inteira Kira observou Harucom olhos de guia, mas nada aconteceu.Alcanaram as trs torres; na verdade,cinco prdios idnticos de apartamentos.Magrelo e Sujinho separaram-se, cadaqual para um lado, na misso de vigiaras laterais.

    Haru guiou os outros at a torre mais

  • ao norte. Eles entraram cuidadosamentepe l o lobby e subiram as escadas. Oprdio tinha um cheiro forte de plantas eanimais em decomposio e Kiracolocou a mscara para evitar o odor.Chegaram ao ltimo andar esilenciosamente soltaram o trinco daporta de um apartamento. A famlia todaainda estava l dentro; os esqueletoscom a pele enrijecida rente aos ossos.Um bando de ratos refugiou-se nosburacos das paredes, deixando para trsmetade de um pardal, semidevorado.Jayden chutou-o para longe e rastejouat a janela.

    Agora era possvel ver a fumaanitidamente, a pouco mais de meio

  • quilmetro dali, saindo em linha reta dachamin de uma casa de tijolinho vista. Jayde, Haru e Yoon pegaram osbinculos, e Gabe ficou de guarda nocorredor, atrs deles. Kira olhava pelajanela: centenas de casas e prdios,milhares de pequenas janelas pretas quepareciam olhar fixamente para ela, comose fossem olhos cegos. Um daquelesolhos procurava por eles j os teriavisto? Ou o grupo de Kira o encontrariaprimeiro? Qual grupo de soldados,espreitando atrs dos binculos, veria ooutro primeiro, e o que aconteceria?

    Observavam e esperavam. Dois ratossaram da parede e puxaram o pardalpara baixo do sof. Kira impacientou-see explorou o apartamento: um esqueleto

  • no sof da sala, um no cho da cozinha,dois no quarto dos fundos. Os corposestavam enlaados num abrao final.Kira fechou a porta bem devagar evoltou para a sala. O rdio chioubaixinho. Timmy chamando Jimmy. Avoz estava bastante distorcida e Kirano sabia dizer se era Magrelo ouSujinho. Haru levou o rdio boca.

    Aqui Jimmy. Prossiga. Vejo Holly e mais nada. Quer que

    eu me aproxime? Negativo, Timmy. Mantenha sua

    posio. Entendido disse a voz no rdio.

    Nenhum sinal de Fred ou Ethel, masHolly parece habitada, h uma trilha at

  • a porta. Quem estiver l, est h muitotempo.

    Entendido, Timmy. Me avisequalquer mudana. Haru abaixou ordio e coou os olhos. melhordescobrirmos algo em breve. No queropassar a noite neste apartamento.

    Kira abriu os armrios procura decomida enlatada. Trabalhara em tantasmisses de resgate que o hbito jestava interiorizado.

    Jimmy e Timmy, hum? Que nomesmais msculos para um cdigo de rdio!

    Isso no nada, Kira. O outro Kimmy disse Haru.

    Por coincidncia, o rdio chioubaixinho. Kira alcanou trs latas devegetais do armrio em cima da

  • geladeira e Haru pegou o rdio. Kimmy chamando Jimmy. Jimmy falando. Prossiga. O relato de Timmy era falso, repito,

    falso. Fred est na Holly. Estou comeles na mira neste momento. Timmy foicapturado.

    Desligando, cmbio disserapidamente Haru e abaixou o rdio. Minha nossa!

    Jayden virou-se, o cenho franzido. Isso no bom disse Jayden. Haru

    esmurrou a mesa. No hora deperder a cabea. Haru esmurrou amesa de novo.

    Kira contraiu o rosto. Pegaram Timmy? Qual dos dois

  • ele? Steve respondeu Yoon. Magrelo ou Sujinho?Yoon hesitou por um momento. Magrelo.Kira praguejou. Acha que est morto? No sabemos se ele respondeu

    Jayden. O segundo chamado pode serum aviso de que o primeiro falso. Masda mesma forma pode tambm ser falso.Podem ter feito isso para nos confundir.

    Se o segundo fosse falso, o primeirono teria chamado para avisar?

    Desliguei o rdio disse Haru. Seum dos recrutas foi capturado, eles estoem vantagem. A nica razo de nospassarem essa informao descobrir

  • onde estamos. Neste momento j podemter rastreado o sinal. No sei que tipo detecnologia eles tm.

    Mas as duas mensagens conheciamnosso cdigo observou Kira. Aindapodem estar vivos. Talvez no tenhamvisto a mesma coisa. Talvez estejamolhando para duas casas diferentes.

    No disse Haru. Trabalhamjuntos h muito tempo. No seenganariam dessa forma. Se a primeiramensagem dizia a verdade, a segunda spode estar mentindo. E se a segundadizia a verdade, obviamente temos queacreditar que algum estava mentindo naprimeira.

    No teriam torturado ningum com

  • tanta rapidez disse Jayden,levantando-se vagarosamente. Notinha como conseguirem os cdigos, amenos que Houve uma pausa. Ese No pode ser, isso loucura.

    Do que est falando? perguntouHaru.

    No nada. Acho que estouparanoico respondeu Jayden.

    uma atitude bastante saudvel nomomento disse Kira.

    Jayden engoliu em seco, olhou paraHaru e depois para Kira.

    E se um dos recrutas for um Partial? Isso no disse Kira, parando

    no meio da frase. Estava para dizer queaquilo no era possvel, mas, e se fosse?

    Isso ridculo! exclamou Haru.

  • H anos conheo Nick e Steve. De antes do Break? perguntou

    Jayden. Bem, no, mas mesmo assim.

    impossvel! Pareciam exatamente como ns

    disse Jayden. Ningum diria queestavam infiltrados h tanto tempo.

    As pernas de Kira bambearam e elaapoiou-se no balco. As conjecturaseram assustadoras, mas aquilo tudono fazia sentido.

    Por que s agora? perguntou. Sequeriam nos matar, poderiam ter feitoisso a qualquer momento. O que ganhamem nos trair aqui, no meio de lugarnenhum?

  • No sei. S estou pensando em vozalta respondeu Jayden rispidamente.

    Vamos nos acalmar disse Haru. Eles no so Partials.

    Ento so da Voz concluiu Jayden. O grupo pode ter infiltrado algumentre ns para sabotar a misso.

    Eu me responsabilizo pelos dois! sussurrou Haru.

    exatamente o que estou querendodizer disse Jayden. Kira percebeu amo de Jayden se aproximando da arma.Pressionou o corpo contra o balco,apreensiva, entre os dois soldados. Lfora, no corredor, Gabe virou-se paraassistir discusso. Sua expresso erade raiva e espanto.

  • Haru percebeu que Jayden tinha a moperto da arma e sentiu o tom da sua voz.Logo endureceu:

    Seu desgraado Esperem! No temos tempo para

    isso. Se um de ns fosse um traidor,poderia ter nos trado com muito maiseficincia, h muito tempo disse Kira,respirando fundo e dando um passo frente, bloqueando a linha de tiro entreeles. L fora, existe um inimigo real,seja l quem for, e eles sabem queestamos aqui. Se um dos recrutas foipreso e torturado, pode ter contado queestamos nestes prdios. A nica coisaque no sabem em qual prdio. Estomais prximos do que imaginamos.

  • Kira calou-se e olhou para ocorredor. Aquilo foi? Pensou terouvido algo, mas agora silenciara. Fezum movimento em direo arma.

    O barulho de um tiro ecoou pelocorredor e Gabe caiu, como a lateral deum boi cortado ao meio. Kira soltou umgrito curto, olhando em choque para ocorpo do soldado no cho. Haru correuem direo porta, detendo-se nocorredor de entrada para examinarGabe. Virou-se para Kira, gesticulandocom as mos: uma exploso, eapontou para uma direo, uma arma,e ento apontou enfaticamente nadireo oposta, para trs. O sanguehavia espirrado para o lado esquerdo do

  • corredor, e Kira traduziu: o atiradorest do lado direito. Haru tirou umagranada do cinto, puxou o pino, elanou-a para a direita. O prdio tremeucom a exploso, arrancando poeira dasparedes.

    Vamos ganhar tempo rosnou Haru,pegando o fuzil.

    Kira lutava para se restabelecer,forando-se a uma reao; por fim,correu em direo porta. Haru tentoupux-la de volta, mas ela resistia.

    Tenho que fazer alguma coisa porele.

    Est morto.Kira tentava se soltar. Sou mdica. Posso ajud-lo! Est morto, Kira! disse Haru com

  • veemncia. Ele cochichava asperamenteem seu ouvido, mantendo a voz baixaenquanto as mos a seguravam comouma tira de ferro. Gabe levou um tiro emorreu. Quem o matou ainda est nocorredor, e a prxima pessoa quecolocar a cabea para fora vai morrertambm.

    Tem que me deixar ajud-lo! No h nada que voc possa fazer

    disse Jayden baixinho. Neste momentoprecisamos descobrir como sobreviveraos prximos cinco minutos.

    Kira levantou o olhar e viu Jayden eYoon agachados sobre um dos joelhos,espremidos no canto da sala, os fuzisapontados para a porta. Claro, pensou

  • Kira, aos poucos voltando a si, osPartials atiraram em Gabe porqueesto atrs de ns. Ela desistiu de tentaralcanar a porta. Haru lentamente asoltou e ergueu o fuzil, recuando para acobertura do corredor de entrada doapartamento. Ela o seguiu, mantendo osolhos e o rifle apontados para a portaaberta.

    Quanto tempo temos? No fao ideia respondeu Jayden,

    cruzando a sala em direo a eles,enquanto Haru e Kira cobriam a entrada.Yoon veio atrs. Haru lanou agranada logo em seguida. Eles estocom receio de atacar completouJayden.

    S por isso ainda estamos vivos

  • disse Yoon. Se tivermos umenfrentamento direto, perdemos.

    No h outras sadas no prdio avisou Haru. Mais cedo ou mais tarde o que vai acontecer.

    Podemos sair pela janela, talvez portrs deles sugeriu Yoon.

    Muito exposto, sem falar que socinco andares disse Jayden.

    Kira inclinou a cabea, ouvindo. Vo atacar de novo. Temos mais

    granadas?Jayden franziu o cenho. Pode ouvi-los? Voc no?Jayden balanou a cabea

    negativamente, mas puxou o pino de uma

  • granada e a arremessou cegamente parafora, por sobre o corpo imvel de Gabe,em direo aos Partials, do lado direitodo corredor. O prdio balanou e Kiramanteve-se equilibrada apoiando a mona parede.

    Mais umas duas dessas e no vai tercho para pisarem disse Haru.

    Jayden deu um sorriso forado,pegando outra granada.

    No m ideia. Espere! disse Kira, segurando seu

    brao. Destruindo o corredor voc svai postergar o ataque.

    Eu sei. A ideia mais ou menosessa disse Jayden.

    Ela sussurrou na voz mais baixapossvel:

  • Voc tem outros explosivos?Jayden olhou para ela intrigado e

    Haru aproximou-se para ouvir melhor.Yoon mantinha a arma apontada para aporta.

    Voc tem outros explosivos? repetiu Kira, o mais baixo possvel.

    Haru bateu na mochila e sussurrou devolta:

    C4.Kira concordou com um gesto. Se destruirmos o corredor, mesmo

    assim seremos atacados. Mas sem saberquando ou de onde. Por outro lado, sedestruirmos esta sala com os Partialsdentro, neutralizamos a ameaa.

    Pode dar certo concordou Haru.

  • E para ser sincero, pode ser nossa nicaopo. S que este prdio velho talvezno aguente. Uma exploso forte obastante para destruir um grupo dePartials poderia levar o prdio inteirojunto, ou pelo menos alguns andares.

    Um buraco no cho uma rota defuga vivel, se sobrevivermos disseKira. assim ou no tiro, e no achoque a sorte est do nosso lado.

    Jayden assentiu com a cabea. Vamos tentar.

  • OCaptulo Quinze

    s Partials avanaram com cautela.Quando Kira notou a presena deles,

    j estavam na porta de entrada. Umpasso, talvez, ou uma respirao pesada no conseguia distinguir o que ouvira,sabia apenas que ouvira algo. Elaesperava, o silncio durando umaeternidade. De sbito, outro barulho nosdestroos, seguido de um estampido,como o som de um tiro. Era o estrondode uma bomba. No quarto dos fundos, osquatro permaneceram imveis, evitandofazer o mnimo barulho, enquanto

  • ouviam pesados passos de botas emdireo cozinha.

    Deitado prximo porta, Jaydensegurava um dos instrumentos mdicosde Kira: um visor pequeno com umahaste flexvel. Era usado para examinarnarizes e gargantas, mas funcionavaigualmente como um tipo de minsculoperiscpio Jayden passou-o por baixoda porta e o estendeu at a salacarregada com os explosivos.

    Os murmrios que Kira ouvira na salaestavam agora mais prximos. Noentendia o que falavam, mas escutoualgo como Que grupo este?. Nohouve resposta.

    Jayden levantou a mo, preparando-separa dar o sinal, e o dedo de Haru

  • pairou sobre o detonador. Kira o deteve,tentando aflitamente inform-lo por meiode gestos: H mais um no corredor.Ela podia ouvir os passos. Haruentendeu o recado e meneou a cabea.

    Jayden deu o sinal e curvou-se atrsdos colches empilhados contra aparede. Como no ouviu nenhumaexploso, virou-se alarmado. Ao verque Haru continuava esperando,praguejou sem emitir nenhum som,apenas movendo os lbios, e novamentedeu o sinal. Kira apontou para ocorredor, gesticulando o melhor quepde: Tem mais um. Ela levantou trsdedos, espetando o ar enfaticamente.Jayden voltou para o aparelho de viso,

  • devagar e em silncio. Sobressaltou-secom o que viu e dirigiu a Haru um olharde puro horror. A maaneta girou. Umdos Partials se aproximava e Kiraapertou o detonador.

    O mundo rugiu.A exploso balanou o prdio,

    derrubando os quadros das paredes e oreboco do teto. Os estilhaos voaram nadireo deles; mesmo com os colchesamortecendo o impacto, era como seestivessem levando marteladas nacabea. No mesmo instante, tudo dentrodo quarto comeou a deslizar; o chocedia numa nauseante sensao devertigem. Kira segurou-se no estrado deuma cama, mas o mvel tambmdeslizava. Ouviu outro estrondo

  • ensurdecedor e uma avalanche demadeira e reboco caiu sobre ela,forando-a a soltar-se da cama paracobrir a cabea com as mos.

    Kira sentia os golpes chegando detodos os lados; em seguida, percebeuque algo spero e pesado estava emcima dela. O tremor diminuiu e parou.Cuidadosamente, descobriu a cabea eviu que outras partes do prdio aindadespencavam: chovia terra e destroos,uma geladeira tombava, um tapeteescorregava devagar para dentro doburaco. O pavimento e os cmodos dosapartamentos ficaram irreconhecveis,estilhaados num caos tridimensional.Kira tentou se mexer, mas estava

  • soterrada da cintura para baixo.Ela ouviu um grito vindo de longe e

    respondeu com a garganta empoeirada; avoz rouca.

    Jayden!Uma mo surgiu dos escombros. Kira

    reconheceu a cor cinza-escura daarmadura de combate que vira inmerasvezes nas fotos da guerra. Era ouniforme de um Partial.

    Kira forou as pernas, sem conseguirmoviment-las, e procurou o fuzil. Noestava em nenhum lugar mesmo seu kitmdico desaparecera. No meio doentulho, o brao se mexia lento etenazmente, tateando a procura de algumapoio. Encontrou uma barra de ferro e aagarrou firmemente, lutando contra o

  • peso do prprio corpo. Kira viu o montede destroos tremer. O Partial surgia

    Ento, um rato caiu do nada.Kira entrou em choque, encolhendo-

    se, a mente processando por algunssegundos a imagem at reconhecer oanimal. O rato contorceu-se no cho esoltou um chiado. Kira agarrou umpedao de reboco nos destroos que aimobilizavam e atirou contra ele,espantando-o. Ouviu mais chiados sobreela. Ergueu a cabea e viu umaprateleira inclinada, meio metro acima,fervilhando de ratos.

    No!De repente, um sof moveu-se cinco

    centmetros para a frente, atrs da

  • prateleira. Mais dois ratos caram emsua direo, um deles enroscou-se emseus cabelos. Kira jogou-o longe comum tapa; ele desapareceu nos destroos.O brao do Partial continuava a fazerfora. Lentamente, um capacete veio tona. Um visor preto cobria o rosto dacriatura, mas Kira ouvia seu resmungo,baixo e gutural. Kira tentavadesesperadamente livrar-se dosescombros que prendiam suas pernas. Osof acima dela deslizou novamente,derrubando mais ratos: trs, cinco, ela jnem conseguia cont-los. O Partialforou o corpo contra o entulho econseguiu livrar os braos. Ele balanouo corpo para remover o restante dosdestroos, lanando longe pedaos de

  • tijolos e lascas de madeira.Kira nem teve tempo de pensar:

    levantou o brao, agarrou a prateleira epuxou-a com toda fora. Foi uma chuvade ratos, cobrindo-a de pelos, patas erabos que se agitavam como vermes. OPartial avanou, as mos feito garras, enaquele momento o sof veio abaixocom o peso de uma pedra grande,acertando-o em cheio no rosto ederrubando-o de costas. Kira gritou aosentir o sof esmagando seus dedos, aomesmo tempo que tentava espantar aturba de ratos. Ela ouvia berros adistncia, mas no entendia o quediziam. Forou novamente as pernas e,desta vez, conseguiu mov-las com mais

  • facilidade. A queda do sofprovavelmente arrastara parte dosentulhos que a prendiam. Usou toda afora para puxar o corpo, mas,subitamente, mudou de ideia e passou ajogar todo o peso do corpo contra osentulhos, para tentar remov-los. Se osof havia deslocado uma parte, quemsabe ela conseguiria empurrar paralonge o restante.

    O sof balanou. Embaixo dele, oPartial continuava vivo.

    Kira fez mais fora ainda, grunhindo ecerrando os dentes. Os entulhos semoveram, pedaos de parede deslizarampor suas pernas, e, num estrondo, todo ocho pareceu sumir. Kira gritou depavor, enquanto era sugada. Ela

  • despencou trs ou quatro metros dealtura, caindo dentro de um buracoescuro. Enquanto buscava, agitadamente,algum apoio para os ps, mais destroosdespencavam sobre seu corpo.

    Ouviu um sussurro desesperado. Ei? voc, Yoon. Kira! Me ajude a sair daqui!A viso de Kira foi adaptando-se

    escurido e, aos poucos, conseguiadistinguir algumas formas. As janelasprovavelmente estavam bloqueadaspelos escombros. Ela seguiu a voz deYoon, tropeando no meio do entulho.Yoon estava presa debaixo de umpesado guarda-roupa de madeira.

  • Ambas conseguiram remov-lo para olado. O som forte de uma pancada soouatrs delas. Kira virou-se. O Partial atinha seguido. Ele aterrissou no cho,suave como um gato, e, num segundo,estava em p. Kira recuou. Torcia paraque os olhos da criatura levassem maistempo para se adaptar falta de luz doque os dela, mas ele avanou semtitubear e a lanou ao cho. Ela ochutava e o arranhava, gritando porsocorro, mas os braos do Partialpareciam de ao. Seu peso era como ode uma jaula, seus braos slidos comobarras. Inesperadamente, ele contraiu ocorpo, arqueando as costas. Yoonarrancou a faca das costas do Partial,girou-a, e golpeou sua garganta de um

  • lado a outro. O soldado tombou de ladogorgolejando e lanando sangue quentepela boca.

    Voc teve uma sorte dos diabos; eleno me viu aqui disse Yoon, com avoz ofegante.

    H pelo menos mais dois deles, queno havamos percebido avisou Kira,levantando-se aos trancos. Precisamosencontrar Jayden e Haru.

    Elas estavam dois andares abaixo daexploso. Ali, o estrago havia sidomenor, e elas podiam andar maisfacilmente. A primeira porta queencontraram estava bloqueada peloentulho, mas, com um pouco de fora,conseguiram abri-la. Em silncio,

  • entraram no local, os ouvidos atentos aqualquer barulho. Jayden surgiu do outrolado do longo corredor principal. Aindacarregava suas duas pistolas e entregouuma a Yoon.

    Os andares de baixo so os menosdanificados. Mas a parte esquerda daconstruo est abalada explicouJayden. Se Haru ainda estiver vivo,deve estar nos andares de cima.

    Kira assentiu com a cabea e elesabriram caminho at uma escada naparte direita do prdio, a metade maissegura da construo. Dois andaresacima ouviram uma voz fraca. Seguiram-na, por toda a extenso do corredor. Naoutra ponta, um foco de luz brilhanteatravessava um enorme buraco,

  • escavado na parede que haviaexplodido. Haru estava agarrado a umcano e segurava pela ala da mochila umPartial que balanava no ar,inconsciente.

    Est vivo disse Haru, com osdentes cerrados, esforando-se para nodeix-lo cair. Consegui agarr-loquando a parede despencou.

    Solta esta criatura disse Jayden,franzindo o cenho, enquanto tentavachegar at Haru. Vamos salvar voc eficar com um brao ou qualquer outraparte dele que sobrar da queda, lembaixo.

    Nem pensar! respondeu Haru. Elegrunhiu e ajustou a ala da mochila na

  • mo Quero essa criatura viva, paradetonar com ela.

    Kira balanou a cabea. No vamos levar a criatura com a

    gente. S precisamos de um pouco desangue e tecidos.

    Vamos sim, e ele vai serinterrogado. Se ningum sabia que agente estava aqui, ento como osPartials estavam nos esperando? Querosaber por que estavam aqui e o queestavam fazendo. E tambm se os doisrecrutas so agentes Partials.

    Faz sentido disse Yoon. Nick eSteve armaram metade das armadilhasdo Brooklyn. Se um deles for um Partial,nossa linha de defesa intil. E seestiverem planejando um ataque

  • Yoon recuou, sem coragem de terminar afrase.

    Jayden contraiu o rosto. O kit mdico ainda est com voc,

    Kira? No, estou apenas com a bolsa que

    carrego no cinto. Perdi o kit principal naexploso.

    Tem sedativos?Kira procurou na bolsinha. Um analgsico, que faz o mesmo

    servio. s caprichar na dose. Kiraolhou para o corpo balanado. Isto ,se o organismo dele funcionar como onosso.

    No quero ser chato, mas essacriatura mais pesada do que parece

  • disse Haru.Jayden abriu caminho pela lateral,

    evitando o buraco no centro dosdestroos. Kira analisava o entulho,procurando um meio de alcanar oPartial. Viu um pedao de parede aindaem bom estado e desceu cuidadosamentepor ele. Yoon a seguiu; juntas, puxaramo Partial para dentro, atravs da janela.Jayden havia resgatado Haru, cujo braoagora pendia ao lado do corpo,adormecido.

    Kira e Yoon deitaram o Partial nocho. Kira tirou o capacete do soldado eobservou-o atentamente. Sua expectativaera a de que tivesse a aparncia de umhumano claro que se pareciam com oshumanos, essa era a questo , mesmo

  • assim, ao olhar para um Partial pelaprimeira vez No encontrava palavraspara explicar o que sentia.

    Um rosto humano. Boca e narizhumanos. Olhos humanos encarando ovazio. Jovem, bonito, cabelo castanho-escuro, um arranho no maxilar esteera o maior inimigo que a raa humanaj enfrentara; o monstro malvado quehavia acabado com o mundo.

    No teria mais que dezenove anos. estranho, no ? perguntou

    Yoon. Falam tanto que eles separecem conosco e quando voc osencara pela primeira vez v quesimplesmente se parecem conosco.

    Kira concordou com a cabea.

  • No sei se isso mais, ou menos,assustador.

    Yoon apontou a arma para o Partial. Seja l o que for fazer, faa rpido.Kira pegou um frasco de Nalox. Na melhor das hipteses, isso aqui

    vai acalm-lo disse Kira, olhandopara Yoon.

    E na pior? Ele morre? Na pior, ele acorda. Kira

    preparou a injeo e posicionou a mosobre o pescoo dele. No sabemoscomo as nanopartculas reagem nafisiologia de um Partial. Na minhaopinio, dentro da escala dos possveisresultados, sua morte estaria bemprxima da marca melhor das

  • hipteses.Ela espetou a agulha no pescoo dele

    e apertou o mbolo. Terminado oservio, guardou a seringa de volta nabolsa.

    Pronto! gritou. Jayden ajudavaHaru a descer. H outro Partial queno contabilizamos.

    Haru levantou a sobrancelha. No so dois? Yoon matou um respondeu Kira.

    Haru arregalou os olhos. Kira riusecamente. Estou falando srio. Elapraticamente arrancou a cabea dele.Mas, antes disso, ele sobreviveu a doissoterramentos, a um sof que despencousobre sua cabea, e ainda me perseguiupor dois andares de entulho. E, claro,

  • tentou me matar. A exploso matou o outro disse

    Jayden. Vi pedaos dele espalhadospelo andar de cima. Esse a, comcerteza, no representa mais perigo.Acho que estava bem em cima da bombaque explodiu. Estamos seguros.

    Dividiram o peso do Partial entre elese carregaram o inimigo cuidadosamentepara fora do prdio, atravessando acratera resultante da queda de vriosandares e seguindo pela escada quedava acesso porta. Jayden os deteve.

    Esperem, me precipitei disse,esquadrinhando o trreo, coberto devegetao. Esquecemos de pelo menosoutro inimigo: um dos recrutas, ou os

  • dois, que ainda esto l fora e nosabemos de que lado esto. Tambmpode ter mais dessas criaturas que nosatacaram no apartamento.

    Kira observava a rea. Viu as rvoresainda novas balanando com a brisa;elas ofereceriam um pouco de cobertura,mas o local era basicamente descoberto.

    Vamos ter que correr por entreaqueles prdios disse Kira. S queeste peso morto no meio da gente vaiatrapalhar.

    Haru friccionou o brao esquerdo,tentando tir-lo do estado de dormncia.

    tudo que posso fazer.Jayden levantou o Partial,

    distribuindo seu peso nos ombros. Sinto muito, senhoritas, serei

  • egosta e ficarei com este escudohumano s para mim. Agora, corram!

    Correram a toda velocidade, entre astrepadeiras e as rvores, at o prximoprdio. Dobraram a esquina econtinuaram correndo entre os carros,at alcanarem outro prdio maisadiante. Quando Kira pensou queestivessem salvos, uma bala ricocheteouno carro atrs dela, passando a algunscentmetros da sua cabea. Kiraabaixou-se, procurando abrigo.

    No pare, Kira, corra! gritouJayden, ao passar por ela com sua carga.Kira respirou fundo e levantou-se numsalto, receando que a qualquer momentouma bala atravessasse sua espinha.

  • Outra bala cortou o ar, a poucoscentmetros. Chegaram a uma avenidalarga, com rvores e fachadas de lojasem runas em suas laterais. Yoon dobrou esquerda e o grupo a seguiu, usando acobertura das rvores para atravessar aavenida e se esconder dentro de umadelicatssen destruda.

    Os tiros so disparados um de cadavez e a certos intervalos disse Jayden,recuperando o flego. No deve serum grupo, mas um nico atirador.

    Magrelo ou Sujinho afirmou Kira. Seja l quem for o traidor. Boapedida, Haru.

    No sabemos se so eles rosnouHaru, mas Kira percebeu que elecompartilhava do mesmo temor. Yoon

  • observava prxima vitrine; os outrosestavam protegidos atrs de umabarreira de mesas viradas.

    No podemos ficar aqui disseKira.

    Vamos sair pela janela lateral edescer aquela ruazinha indicou Jayden. Precisamos fazer um ziguezague nasruas. Um atirador no to perigoso seo alvo no permanecer numa linha retade tiro.

    O parque que voc viu est a apenasalguns quarteires a oeste sugeriuHaru. Podemos atravess-lo, semperder tempo, correndo em ziguezague.

    Concordo. Vamos ordenouJayden.

  • Saram pela janela lateral, passando oprisioneiro Partial cuidadosamentesobre o vidro quebrado. Yoon correupara alcan-los.

    No vi ningum. E o soldado que no nos traiu?

    perguntou Kira, esforando-se paramanter o flego na corrida. Nodeveramos esperar por ele? Ou tentarencontr-lo?

    Haru balanou a cabea. Se no podemos confiar em um, no

    podemos confiar em nenhum. Mas sabemos que um inocente. E no sabemos qual disse Haru.

    Isso torna os dois suspeitos. Ali est oparque; acelerem at alcanar as

  • rvores, depois virem esquerda.Outro disparo zuniu enquanto

    atravessavam a vegetao fechada. Kirapraguejou, com a respirao ofegante,escondendo-se atrs de um carro. Osoutros passaram, ela recobrou acoragem e correu em direo s arvores.O parque era cercado com grades. Ogrupo no podia se esconder embaixo daespessa cobertura das rvores, nocanteiro central. Pelo menos, tinham oentorno do bosque, o que era melhor quenada. Correram de uma rvore outra,sempre procurando algum tipo deproteo. O parque era cortado por ruas,mas continuava adiante.

    Jayden parou perto de um amontoadode txis e deitou o prisioneiro no cho, o

  • rosto contrado de dor. No pare! disse Haru, firmemente.

    Vai poder descansar quando estivermorto. Jayden assentiu e suspendeu oPartial novamente, mas Kira viu umagota de sangue pingar do seu brao.

    Voc est sangrando, Jayden! No pare! repetiu Haru. Ele levou um tiro no brao disse

    Kira, examinando a ferida. Quandoisso aconteceu?

    Alguns quarteires atrs respondeu, tentando levantar o Partial.

    Haru pode carreg-lo. Voc scorre. Quando estivermos num localseguro, fao um curativo.

    Meu brao est praticamente

  • quebrado protestou Haru. D uma de louco e o carregue

    ordenou Kira, dando um empurro neleem direo ao Partial. Ela pegou asemiautomtica de Jayden e verificou amunio. Fico na retaguarda. Agoracorra.

    Partiram de novo, Yoon guiando ogrupo atravs de um labirinto de cercas,rvores e carros enferrujados. Passarampor uma entrada de metr, uma escadasombria descendo aos subterrneos.Kira olhou para a escada alagada at ametade. No podemos nos esconderaqui. Continuaram pelo parque. Logo,uma ponte de ao macio ergueu-se frente.

    essa ponte. Pegue a primeira

  • entrada que encontrar disse Jayden. No a mesma observou Kira,

    com um meneio de cabea. Tem preferncia por alguma?

    disse Jayden. S quero sair destamaldita ilha.

    E as armadilhas? insistiu, olhandopara trs enquanto corria. Essa pontedeve estar cheia de armadilhas. perigoso demais.

    Outra bala passou por eles e Jaydensoltou um palavro.

    No temos muitas opes.Chisparam do parque e entraram numa

    rua larga. A ponte levantava-se frentedeles, numa inclinao a sudeste, emdireo ao rio. Os quatro estavam to

  • cansados que subiram a ruacambaleando, ofegantes, com a gargantaseca e spera. Uma bala estalou namureta de cimento e todos se jogaram nocho, tentando fugir do campo de visodo atirador.

    No vi quem foi disse Kira. Seja l quem for, o alcance de tiro

    do Partial muito maior que o nosso.No d para competir disse Yoon,mostrando sua pistola.

    Voc vai na frente ordenouJayden, pegando a arma de Yoon. Encontre as armadilhas, desarme-as oumarque onde esto. Faa o que forpossvel. Haru e Kira vo atrs com oPartial. Vou por ltimo, dandocobertura.

  • Ela acabou de dizer que no d paracompetir com eles disse Kira. Estmaluco?

    No consigo acertar daqui de cima,mas l de baixo outra coisa. disseJayden, apontando para o incio daponte. Cedo ou tarde ele vai aparecernaquela esquina. Vou me esconder atrsde um carro e esperar.

    Fico com voc disse Kira. Soutua mdica, bobinho. No vou te deixarpara trs com um furo no brao.

    Tudo bem, mas fique agachada.Yoon rastejou na frente e Haru a

    seguiu, arrastando o Partial. Kira eJayden voltaram cautelosamente,escondendo-se atrs de um enorme pneu

  • de caminho. Jayden mantinha os olhosgrudados na mureta, no comeo daponte. O motorista do caminho nopassava de um amontoado de ossosperdido no vazio.

    Quem voc acha que ? perguntouKira. Quero dizer, o Partial: Nick ouSteve?

    Voc quer dizer, Magrelo ouSujinho?

    Kira deu um sorriso sem graa. Quando esto separados, at que d

    para distinguir um do outro. Mas fiqueiconstrangida de perguntar quem eraNick, quem era Steve.

    Vamos descobrir disse Jayden.Kira olhou para a ponte, depois

    sussurrou:

  • As sentinelas vo ver a genteatravessar.

    Eu sei. Seremos denunciados e presos.

    Voc provavelmente ser julgado pelacorte marcial. Nossa misso secreta novai permanecer secreta. Kira oobservava, mas ele estava quieto. Estou comeando a achar que isso tudofoi uma grande bobagem. Jaydenesboou um pequeno sorriso.

    Cale a boca, Walker. Estamostentando fazer uma emboscada sussurrou Jayden.

    Esperaram. Jayden de olho na pontada mureta e Kira, no resto da rua. Assimque o Partial apareceu

  • Ela ouviu um clique. Largue a arma.Kira olhou para cima e viu um Partial

    parado ao lado deles: no era nemMagrelo nem Sujinho, mas um soldadoPartial, como o que haviam encontradono prdio, o rosto encoberto por umvisor preto, brilhando ao sol. Tinhadado um jeito de se aproximar por trs.Fazia gestos com o fuzil semiautomtico.Jayden colocou a pistola no cho, comum suspiro. Kira colocou sua arma aolado.

    Nem um pio disse o Partial. Tem um

    Ouviu-se um estalo e pelo visor doPartial foi surgindo o desenho de uma

  • teia de aranha, no centro um pequenofuro, que parecia ter sado de lugarnenhum; meio segundo depois outroestalo seco de um tiro com silenciador.O Partial desabou e Kira olhou para eleem choque. Jayden agarrou asemiautomtica. Ouviram passosapressados, Kira criou coragem e olhoupara trs: l vinha Sujinho correndo nadireo deles, o fuzil nas mos.

    Isso vai dar um jeito no atirador,mas ele no estava sozinho gritouSujinho. Vamos dar o fora daqui agoramesmo.

    Foi voc quem avisou disse Kira. Guarde sua surpresa para depois

    disse Sujinho, ajoelhando-se ao lado doPartial. Ajeitou o fuzil nas costas, pegou

  • a automtica do Partial e virou-se paraJayden. Estou falando srio. Tem pelomenos mais dez deles atrs de ns.Temos que voar.

    Jayden parou por um momento, depoisficou em p e comeou a subir a ponteinclinada.

    Vamos, Kira! Essa maldita ponte muito comprida.

    Correram com o corpo levantado, semse preocupar em ficar abaixo da alturada mureta, confiando que a velocidade ea distncia os manteriam a salvo dasbalas. Alcanaram Haru em algum lugarda labirntica confuso de carros.

    Bom te ver, Nick. Haru largou oprisioneiro Partial com um gemido de

  • dor. Meu brao est quebrado eJayden est baleado, a sua vez delevar o vira-latas.

    Sujinho olhou para trs, deu deombros e entregou a arma a Haru. Antesmesmo que ele pegasse o prisioneiro,Haru meteu-lhe um tiro na cabea. Kiragritou, Sujinho tombou no cho e Haruatirou nele outra vez.

    Que diabos est fazendo? gritouJayden.

    Avisei que para mim os dois soculpados disse Haru. No vou levaroutro Partial para casa.

    Ele nos salvou! gritou Jayden. Ele matou um soldado Partial!

    Isso no quer dizer nada disseHaru, verificando o fuzil de assalto.

  • Agora cale a boca e carregue oprisioneiro.

    Ele falou a verdade sobre o grupoque est nos perseguindo disse Kira,olhando para trs. J vejo pelo menosum soldado. No vamos chegar do outrolado a tempo.

    Jayden franziu o cenho. Quem no tem co caa com gato.

    Apertou o boto do rdio e comeou agritar enquanto colocava o Partial sobreos ombros. Chamando todas asunidades, repito, todas as unidades, huma equipe de ataque da Rede deDefesa atravessando a ponte deManhattan. Partials no encalo. Estamossendo alvejados, repito, soldados

  • humanos sob fogo inimigo. Solicito todaa ajuda possvel.

    Agora corriam. Kira na frente, logoatrs Haru, que, a pequenos intervalos,virava-se para trs e atirava para atrasaros Partials.

    Kira, chame de novo pediuJayden.

    Kira apertou o boto no cinto dosoldado e repetiu a mensagem:

    Chamando todas as unidades. Huma equipe humana de ataque sendoperseguida na ponte de Manhattan.Solicitamos toda a ajuda possvel.Estamos mudando de sintonianovamente.

    Os tiros vinham diretamente emdireo a eles, passando perto o

  • suficiente para assust-los e obrig-los aprocurar abrigo. Costuravam entre oscarros abandonados, olhando para ocho a procura de fios conectados abombas, com a ardente esperana de queYoon tivesse sinalizado todas as minas.Haru atirou contra um Partial, dando omelhor de si para mant-los a distncia.Kira olhou de relance para trs e contoupelo menos sete inimigos ganhandovelocidade. Jayden perdia o flego,curvado sob o peso do prisioneiro. Kirarepetia a mensagem insistentemente nordio, com a esperana que algumestivesse ouvindo. Alcanaram Yoonmuito antes do esperado e ela balanoua cabea de um jeito sinistro.

  • No vamos conseguir escapar delese ao mesmo tempo evitar os explosivos.Esta ponte uma armadilha mortal.

    Desisto gritou Haru, derrubando ofuzil de assalto e pegando no brao deJayden enquanto corriam. Esto seaproximando. frente deles, uma balaexplodiu no vidro de um carro,despedaando-o. No vamos durarmuito tempo.

    Chamando todas as unidades! gritou Kira novamente, j quase semflego. H uma equipe humana naponte de Manhattan sendo

    Estou vendo vocs chiou uma vozpelo rdio. Por favor, identifiquem-se.

    No temos tempo para isso gritou

  • Kira. O exrcito Partial est atrs dens.

    Jayden Van Rijn, sargento dasegunda diviso respondeu Jayden.

    Tem uma torre de transmisso deenergia a cerca de vinte metros de ondeesto estalou a voz no rdio.

    Kira olhou para cima. Estamos vendo. Sigam em frente pela pista da

    direita, passem o carro roxo esquerdae a torre. Protejam-se atrs do grandecaminho vermelho.

    Proteger-se do qu? perguntouKira. O grupo corria o mais rpidopossvel, seguindo as instrues. A cadapasso Kira sentia os msculos exaustosserem aoitados. O que vai fazer?

  • O que acha que ele vai fazer? perguntou Yoon, puxando-os para trsde um caminho da Coca-Cola. Peloque vi, esta ponte tem mais explosivosC4 do que ao.

    Voc est querendo dizer queA ponte atrs deles explodiu numa

    enorme bola de fogo; mesmo abrigadaatrs do caminho, os olhos de Kiraarderam. A ponte estremeceuviolentamente, os carros voaram pelosares, e a fora da exploso lanou ocaminho trs metros frente,arrastando os fugitivos pelo asfalto.Kira derrubou o rdio, cobrindo osouvidos, e, quando o tremor da explosopassou, ela saiu de trs do caminho

  • cambaleando para ver o estrago.Vinte metros atrs deles, antes da

    torre de transmisso, a ponte haviadesaparecido. Restos de ao e concretopendurados nos cabos de sustentao. Orio era um mar revolto de fragmentos.Os Partials tinham evaporado.

    Mantenham a posio disse a vozestridente pelo rdio. Estamosenviando uma equipe para resgat-los. E melhor que tenham uma explicaomuito boa para tudo isso.

  • B

    Captulo Dezesseis

    em, parece que vamos ter outraconversa disse Mkele.

    sempre um prazer respondeu Kira.

    Estavam acampados beira de umaestrada, onde passariam a noite. Certosde que nenhum Partial continuaria aperseguio sobre a ponte destruda, aRede havia restabelecido opatrulhamento no local e conduzido Kirae o resto do grupo para o interior dailha, o mais distante possvel do litoral,aproveitando ao mximo a luz do sol.

  • No estavam algemados, mas um gruponumeroso de soldados da Rede deDefesa vigiava-os de perto. O Partialainda estava inconsciente,cuidadosamente amarrado em um gradilda estrada.

    Da ltima vez que conversamos,Srta. Walker, discutimos vrios assuntosimportantes. Mkele chegara a cavalo,alguns minutos antes, acompanhado deum grupo da patrulha montada,destacado para reforar a segurana darea. Peo desculpas se no fui claro obastante sobre eles. Vamos comearpelo mais bvio: em nossa opinio, muito suspeito e, na verdade, umagrande traio, entrar num territrioPartial, relacionar-se com eles e ainda

  • trazer uma dessas criaturas para oterritrio dos humanos.

    Acredito que nossa definio derelacionar-se seja diferente.

    O que faziam em Manhattan? Sou mdica no hospital Nassau, de

    East Meadow disse Kira. Queroencontrar a cura do RM e a melhorsoluo era capturar um Partial.

    Ento, simplesmente decidiu ir atl e agarrar um.

    No, antes requisitei uma missopor vias normais explicou Kira. Ovalor de um Partial para a medicina inestimvel.

    No creio que seja necessrioexplicar-lhe o quanto perigoso o que

  • voc fez disse Mkele. O quanto foiidiota. Voc acha que a exploso daponte ser o suficiente para mant-los adistncia? Voc nunca parou para pensarque a deciso de lanar uma ofensivadeveria ter sido tomada pela nossa forade defesa, que faz todo o possvel paranos proteger? H milhes de Partials,Srta. Walker, todos mais fortes e melhortreinados do que ns. Estamos vivosapenas porque eles escolheram no nosmatar. Mas, graas a vocs, podem teracabado de mudar de ideia. Sua vozera um rugido furioso. Mas vamossupor que eles no nos ataquem. Aindaassim voc tem alguma ideia de quantoeste nico Partial perigoso, mesmosozinho? Nossa equipe de inteligncia,

  • que analisa a Guerra Partial, sugere queforam os Partials que lanaram o vrusRM, no por meio tecnolgico, masbiolgico, usando o prprio corpo comoincubadoras. Se isso for verdade, cadaum deles potencialmente uma arma dodia do juzo final. Quem sabe o tipode arma biolgica que desenvolveramnesses onze anos? Apenas a existnciadeles j uma ameaa nossa.

    Essa mais uma razo paraestudarmos um deles argumentou Kira. Em uma nica gota de sangue podehaver uma quantidade preciosa deinformaes. Quem dir ao certo o quepoderemos aprender estudando seuorganismo? Se os Partials criaram o

  • RM, e se voc estiver certo quando dizque o vrus foi sintetizado e preservadono corpo deles, ento o segredo da curatalvez tambm esteja com eles. issoque voc precisa entender.

    O seu trabalho garantir o futuro dahumanidade disse Mkele. O meu garantir o presente, pois, sem ele, nohaver futuro algum, voc h deconcordar comigo. Se, por um acaso,algum dia o seu trabalho entrar emchoque com o meu, saiba que aprioridade minha.

    Isso um absurdo disse Kira. a verdade. Como mdica, deve

    estar familiarizada com o juramento deHipcrates: nmero um, no ferir. Hcerca de trinta e seis mil seres humanos

  • vivos no mundo inteiro e nossaresponsabilidade nmero um mant-los vivos. Cuidar deles a segundaresponsabilidade. Nosso trabalho ,portanto, garantir a produo de maisseres humanos para fortalecer nossaposio.

    Falando assim voc at parecegentil.

    Voc colocou a vida de cincosoldados em risco, de um tcnico e deum mdico. Trs desses soldados novoltaram. E isso me d o direito deacabar com esse Partial agora mesmo.

    No pode fazer isso. Precisamosdele disse Kira, rapidamente. Depoisde tudo que passamos para conseguir

  • essa criatura, no vou permitir que odescarte a troco de nada.

    Vou deixar que tire uma amostra desangue, com o nico objetivo de estud-lo. Voc vai para um local afastado,longe de qualquer centro populacional.Claro, se o Senado assim o permitir.

    S isso no o suficiente disseKira. Precisamos realizar examesclnicos. Toda semana morre um recm-nascido

    J cansei de lhe explicar que isso impossvel.

    Ento, vamos interrog-lo disseKira, tentando pensar num argumentoconvincente, que pelo menos fizesseMkele postergar a sua morte. Ele fazparte de uma rede muito maior. Estava

  • num local onde nenhum Partial deveriaestar. E com certeza tem ligaes comalgum de dentro do nosso exrcito.

    J ouvi os relatos. Precisamos descobrir a verdade

    insistiu Kira. Talvez um dos nossosrecrutas fosse um Partial

    Ou talvez tenha sido interrogado disse Mkele. Um soldado torturado uma explicao simples, por isso a maisplausvel. No acredito numa infiltraoem larga escala na nossa sociedade.

    Eles se parecem exatamenteconosco. Se eu mesma no tivesse vistodois deles sobreviverem exploso,jamais saberia que no eram humanos. muito fcil para eles viverem infiltrados

  • entre ns. Quando nos refugiamos nestaparte da ilha, a situao estava catica epodem ter se aproveitado da situaopara se fixarem em East Meadow. Porisso, seramos idiotas se nem ao menosconsiderarmos essa possibilidade.

    Os Partials no envelhecem argumentou Mkele. Seria impossvelpassarem despercebidos.

    No caso de um adolescente seriaimpossvel, mas e os adultos? E voc?

    Garanto a voc que est tudo sobrecontrole disse Mkele com o tom devoz mais perigoso que Kira j ouvira. No se ache no direito de me dizer comofazer o meu trabalho, que graas a vocagora est mil vezes mais difcil.

    Kira calou-se, observando Mkele e

  • tentando avaliar a situao. Em parte,ele tinha razo o que fizeram foiestpido e perigoso , mas ela tambmtinha razo. Aquilo precisava ser feito.E agora no iria permitir que jogassemfora a oportunidade de estudar umPartial. Quanto Mkele cederia? Comoconseguir mais que uma amostra desangue antes de o destrurem?

    Sr. Mkele! Mkele e Kira viram umdos soldados correndo em direo aeles, acenando com a mo. Sr. Mkele,recebemos uma ligao do Senado.

    Mkele silenciou, por um momento,irado. Em seguida, olhou para Kira eapontou para o p da jovem.

    No saia daqui.

  • Ele seguiu o soldado at o rdio. Kirao observava, sem conseguir ouvir aconversa. Por fim, ele devolveu oaparelho ao soldado e voltou, furioso.

    O Senado j descobriu o que vocfez disse, com uma expresso sombria. Querem ver o Partial com os prpriosolhos.

    Kira deu um sorrisinho. Isolde vai nos ajudar sussurrou. No se anime muito disse Mkele.

    Sua equipe e aquela criaturaparticiparo de uma audincia formal noSenado, em que sero interrogados esentenciados. No ser nada agradvel.

    Kira levantou o olhar, numsobressalto. Havia uma agitao entre os

  • soldados, que pegavam as armas.Jayden, Yoon e Haru observavam,desconfiados. Mkele olhou rapidamenteao redor, procurando o motivo do alerta,ento recuou num mpeto.

    O Partial estava se mexendo.Deitado de lado, ele resmungava

    baixinho. Mkele no se aproximou. OPartial estava preso com quatroalgemas, duas delas prendendo-ofirmemente a um gradil de metal econcreto na estrada, mas havia umagrande circunferncia em volta deleonde ningum parecia disposto a entrar.Mesmo a distncia, Kira podia ver queele continuava grogue, esforando-separa acordar. Mas, mesmo nesse estado,ele parecia ameaador. Ela procurou o

  • fuzil, mas lembrou-se de que haviamconfiscado sua arma e praguejoubaixinho.

    O Partial dobrou a perna junto aopeito, depois se esticou at onde asalgemas permitiam. Assim que chegouno limite, enrijeceu o corpo. Kira viusua cabea levantar num tranco enquantoele lutava contra o efeito do sedativo.

    Quanto tempo faz que voc o sedou? sussurrou Mkele.

    Apenas algumas horas. Qual a dosagem? Duzentos miligramas.Mkele a encarou. Est tentando mat-lo? Vai asfixi-

    lo.

  • No morfina pura. Nalox.Metade morfina, metade nanopartculasde Naloxane. Se o corpo perder muitooxignio, a droga sintetiza maisNaloxane para reativar os pulmes.

    Mkele assentiu. Nesse caso, pode dar outra dose. O

    organismo dele aguenta. Virou-se paraos soldados. Preparem as armas esaiam da frente. Isto no um peloto defuzilamento.

    Com certeza no uma execuo disse Kira. Voc vai ter que lev-lo aoSenado. So ordens.

    A expresso de Mkele era dura. A no ser que ele morra tentando

    escapar.

  • No pode fazer isso! contestouKira, olhando para a fileira de soldadosarmados. Qualquer coisa seria motivopara atirarem, os dedos praticamentepuxavam os gatilhos.

    Kira pensou no beb de Madison e noar de preocupao da amiga.

    Apontar disse Mkele. As armasestalaram em posio. O Partial semexeu de novo, tossindo. O som da suagarganta era seco e assustador.

    Inesperadamente, Haru saltou paradentro do crculo, colocando-se ao ladodos ps do prisioneiro e encarando opeloto.

    No podem mat-lo! Saia da frente rosnou Mkele.

  • Esta criatura a nica esperanaque tenho de salvar minha filha disseHaru. O Senado mandou voc lev-lovivo.

    O Partial mudou novamente deposio, tentando acordar. Metade dossoldados recuou e metade avanou,procurando com as armas o melhorngulo ao redor de Haru, que seencolheu, cerrando olhos e dentes masno saiu do lugar.

    Essa criatura uma bombaambulante disse Mkele.

    Sim, ele perigoso concordouHaru. Mas a arma mais importanteque j tivemos nesta guerra. Precisamosde tempo para aprender tudo que for

  • possvel.O Partial gemeu novamente. Os

    soldados continuavam com as armasapontadas para ele, esperando a ordemde atirar.

    Por favor, pensou Kira, no o matem.Ela reuniu toda sua coragem, deu umpasso frente e plantou-se ao lado deHaru.

    O Partial fez outro movimento e rooua perna de Kira. Ela se esquivou,fechando os olhos, imaginando que eleficaria de p e a mataria. Mas apesar dosobressalto, ela tambm no saiu dolugar.

    Mkele a encarava com raiva. D mais sedativos ordenou, por

    fim. Aplique tudo que tem. No quero

  • que ele acorde antes de chegarmos priso. Partiremos para East Meadowassim que amanhecer.

  • A

    Captulo Dezessete

    audincia est aberta.Kira estava sentada no banco

    da frente da pequena sala doSenado. Jayden, Haru e Yoon estavamao lado, em silncio.

    Tinham recebido o direito de tomarbanho e trocar de roupas, mascontinuavam sob forte proteo policial.Kira sentia-se como se o olhar de toda acidade estivesse sobre ela, mas eraapenas seu nervosismo, pois no haviaplateia alguma na sala, e, se Mkelecumprira com seu dever, ningum sabia

  • que eles estavam ali. Os soldadosfizeram juramento de silncio, osguardas do local foram dispensados e amaioria dos senadores ausentara-se,restando um comit de apenas cincopolticos carrancudos. Kira estavacontente com a presena do senadorHobb. Ele nunca passava sem suaassessora, e a presena de Isolde afortalecia.

    Embora os presentes audincia noolhassem para Kira, ela se sentiaincomodada. O olhar dos senadoresestava grudado no Partial, imobilizadono centro da sala. Estava acordado eseus olhos escrutinavam todos na sala,aguardando em silncio para Kira nosabia para o qu. Estava preso com tiras

  • de couro, algemas, correntes, cordas earames. Ningum tinha noo da suafora a segurana poderia serexagerada ou risivelmente inadequada.Por precauo, a sala estava cercadapor uma equipe armada at os dentes.

    um grupo interessante de juzes cochichou Isolde, sentando-se ao ladode Kira. O senador Hobb ser justo eo Dr. Skousen voc j conhece. Elecostuma ficar calado durante as sesses,mas com toda a discusso mdica quevoc levantou, no sei qual ser a suareao. Ao lado dele, Cameron Weist,de quem eu no sei muita coisa. Ele onovo representante da Rede de Defesado Queens. Ao centro, Marisol

  • Delarosa, a presidente do Senado. E aque est ao lado dela, claro, a megerada me de Xochi, a representante dosagricultores. No fao ideia do que elafaz aqui. Fiz tudo que pude para acalm-los, mas tenha cuidado. No so seusmaiores fs.

    Kira olhou para o Dr. Skoussen. Eu sei.O senador Hobb levantou-se,

    desviando o olhar do Partial. Estavamais bonito do que nunca, quaseinconveniente para a situao.

    Esta audincia foi convocada porduas razes: a indisciplina destes quatrojovens e a deciso do que fazer comeste Partial, senador Weist.

    Como representante militar deste

  • conselho, vou comear pelo que me dizrespeito. Jayden Van Rijin e Yoon-JiBak, por favor, levantem-se. Os doisficaram em p. Vocs so acusados defalsificar documentos militares,abandonar a tarefa que lhes foidesignada, desmontar o sistema dedefesa da ponte do Brooklyn, entrar emterritrio inimigo sem permisso eparticipar de atividades no autorizadas,que resultaram na morte de trssoldados. O que vocs tm a declararsobre as acusaes?

    Culpado respondeu Jayden. Aexpresso em seu rosto era austera esem emoo. Olhava fixamente para afrente.

  • O senador Weist olhou para Yoon. Soldado Bak?Yoon estava quieta, mas Kira podia

    ver uma lgrima em seu olho. Elaengoliu em seco e levantou a cabea,posicionando-se o mais ereta possvel.

    Culpada. A pena para esses crimes pesada

    disse Weist , mas a Rede de Defesadeseja ser branda. Vocs dois sojovens e, francamente, no estamos emcondies de abrir mo de soldadostreinados. Mesmo os criminosos. Weist deu uma olhadela no Partial, como canto dos olhos, em seguida pegouuma folha de papel. Num tribunalmilitar secreto reunido esta manh, ficou

  • determinado que o soldado Yoon-JiBak, como subordinada nas atividadescitadas acima, seguia ordens do oficialsuperior, portanto, inocente. SoldadoBak, voc ir retornar comigo para oForte LaGuardia, onde receber novasfunes. Por favor, sente-se.

    Yoon obedeceu e Kira notou queagora ela no segurava as lgrimas. Kiraapertou o joelho de Yoon. Weist olhoupara Jayden.

    Tenente Van Rijin. Assim como oposto da soldado Bak a torna menosculpada, o seu o torna mais culpadoainda. Voc mentiu para os nossoscomandantes, colocou a vida de civisem perigo e matou trs dos nossossoldados. No importa se foram por

  • livre e espontnea vontade nem o fato deserem conspiradores. Isso tambm noajuda voc em nada. Voc era o lder eagora eles esto mortos.

    Sim, senhor. A partir de agora voc est expulso

    do exrcito e ficar sob a custdia dacorte civil. A Rede de Defesarecomenda que sua sentena seja apriso e o trabalho forado, mas adeciso caber corte. Por favor, sente-se.

    Jayden sentou-se e Kira sussurroubaixinho:

    Ele um chato. Ele est certo e foi mais do que

    justo respondeu Jayden. Tinham o

  • direito de me executar. Nem pense nisso. Obrigado, senador Weist disse

    Bob. Vamos agora prosseguir com aaudincia civil. Soldado Bak, estdispensada.

    Vou continuar sentada com meusamigos, obrigada disse Yoon,permanecendo na sua cadeira.

    O senador Hobb silenciou por unsinstantes, deu de ombros e prosseguiu.

    Sr. Haru Sato, poderia, por favor,se levantar?

    Haru levantou-se. Foi uma boa jogada de Yoon

    comentou Isolde, baixinho. Demonstrasolidariedade para com o resto dogrupo. O senador Hobb adora essas

  • coisas. Isso vai influenciar os outros?

    perguntou Kira. No d para saber respondeu. Haru Sato, aos vinte e dois anos

    voc o membro mais velho do grupo eo nico adulto. O que tem a dizer a seufavor?

    O olhar de Haru era duro como ao. No seja condescendente com eles,

    senador.Kira ouviu um murmrio percorrer a

    sala e fez o melhor que pode paradisfarar sua indignao. Haru, seuidiota, o que est fazendo? Deveriaestar ganhando a simpatia deles e nobatendo de frente com eles.

  • Voc gostaria de explicar seucomentrio? perguntou o senadorHobb, friamente.

    Vocs acabaram de condenarJayden porque falhou como comandante.Mesmo assim, ele no um adulto? Kirae Yoon tm dezesseis anos, a idadeexata para a gravidez, segundo as novasregras que vocs querem instituir.Querem for-las a engravidar, mas noas consideram adultas? O olhar deHaru atravessou cada senador. Eutinha onze anos quando houve o Break,vi meu pai morrer num ataque Partial.Duas semanas depois, minha me e meusirmos tambm morreram na quadra deum colgio, to lotado de refugiados que

  • o vrus RM espalhou-se como fogo numafloresta. Fui o nico sobrevivente nacidade inteira. Caminhei trintaquilmetros, sozinho, at encontrar outrogrupo de sobreviventes. Desde aqueledia no sou mais uma criana,senadores, e estes trs aqui passarampela mesma coisa, numa idade aindamenor que a minha. Todos os dias elesarriscam suas vidas pela nossasociedade, eles trabalham e a qualquermomento vocs podem tambm exigirque tenham filhos. Entretanto, vocs noos consideram adultos? O mundo dehoje no o paraso que vocsperderam no Break e j passou da horade vocs aceitarem isso.

    Kira ouvia de olhos arregalados.

  • Mandou bem, Haru. Ela inclinou-se nadireo de Isolde.

    Isso vai por um pouco de respeito. No caso dele, sim sussurrou

    Isolde. Mas no seu, na verdade, muito ruim. Ele quer colocar todosvocs no mesmo nvel. Assim, o quefizeram, ser o resultado de umaconspirao de adultos, em vez da aode um adulto liderando um grupo demenores. Ele pode receber uma sentenamais rigorosa se for considerado omentor. Se conseguir convenc-los docontrrio, no ser punido no seu lugar,como Jayden foi no de Yoon.

    Mas isso Kira franziu o cenho,olhando alternadamente para Haru e os

  • senadores. Seu discurso foi to nobre. Foi brilhante observou Isolde.

    Uma raposa como essa um desperdciotrabalhando na construo civil.

    Muito bem. Kira Walker, vocdeseja ser julgada como um adulto? perguntou o senador Hobb.

    Maldio. Superobrigada, Haru.Kira levantou-se lentamente e ergueu acabea.

    Tomei minhas prprias decises,senador. Sabia dos riscos e dasconsequncias.

    Parece muito segura disso disseDr. Skousen. Conte-me, Kira, o quevoc planejava fazer com este Partialaps captur-lo? Como voc o manteriasob controle? Como iria trabalhar com a

  • ameaa de uma nova epidemia? No planejava, de forma alguma,

    traz-lo comigo. Isso quem falou foivoc. Calou-se por alguns instantes,perguntando-se se no teria passado doslimites, enquanto observava a expressodo Dr. Skousen enrijecer-se de raiva.Ela inclinou-se para a frente, olhandopara o Partial; ele a encarou de volta, deum jeito sombrio, e ela tentou afastar dopensamento a ideia de como seria fcilpara ele soltar-se de tudo que o prendia. Meu plano era cortar sua mo e fazeros testes l mesmo, com o medicompque levamos at o Brooklyn. Ningumcorria perigo at

    Ningum corria perigo? perguntou

  • Dr. Skousen. E os trs homens quemorreram do outro lado do rio? E asduas mulheres em idade de procriar quequase morreram com eles? Certamentevoc, acima de todos, que trabalha namaternidade, compreende a necessidadede proteger cada possvel gravidez.

    Se me permite, doutor disse Kira,sentindo o rosto ruborizar de raiva. Pedimos para ser tratados como adultos,no como vacas de prespio.

    O mdico parou no ato, e Kira cerrouos dentes, forando-se a manter suaexpresso a mais calma possvel. O queestou fazendo?

    Se quiser ser tratada como adulta,recomendo que mantenha sua lnguadentro dos nveis de civilidade disse a

  • senadora Delarosa. Claro, senadora. Para constar dos autos, pode nos

    contar qual a sua expectativa em estudaro organismo de um Partial?

    Kira fitou o Dr. Skousen, tentandoimaginar o quanto ele j tinha contadoaos outros.

    H anos estudamos o RM, masainda no sabemos como ele atua. Tudoque pensamos ser eficiente paracombat-lo no funcionou; tudo quepensamos que o tornaria incuo no deuresultado. Estamos num beco sem sadae precisamos de uma nova direo.Acredito que devemos estudar aimunidade sob a perspectiva de um

  • organismo Partial e descobrir comofunciona a resistncia artificial que ostorna totalmente imunes. No devemosmais esperar pela possibilidade de umamutao do vrus que impea osurgimento dos sintomas. S assimvamos encontrar a cura.

    O senador Weist apertou os olhos. E achou que a melhor maneira de

    fazer isso seria invadindo o territrioinimigo sem o nosso apoio e sem umplano?

    Pedi ajuda ao Dr. Skousen. Mas eledeixou claro que eu no teria o apoio doSenado.

    Deixei claro que voc no deveriatentar isso, sob nenhuma circunstncia esbravejou Skousen, esmurrando a mesa.

  • Minha amiga est grvida disseKira. A esposa de Haru e irm deJayden. Se no tentssemos, aquele bebestaria condenado morte, como todasas outras crianas que vocs noconseguiram salvar nos ltimos onzeanos. No estudei medicina para assistirs pessoas morrerem.

    Seus motivos so louvveis dissea senadora Kessler , mas seus atosforam estpidos e irresponsveis. Noacredito que algum pense o contrrio. Kira olhou novamente para a senadora emais uma vez notou a incrvelsemelhana entre Xochi e ela. No naaparncia, claro, mas nas atitudes:adotada ou no, Xochi dera um jeito de

  • crescer com a mesma determinaoapaixonada e inflexvel da me. Temos leis para lidar com pessoas quefazem coisas estpidas e irresponsveis.E temos tribunais para aplicar essasleis. Francamente, acredito que apresena destes criminosos aqui noSenado uma perda de tempo. Minhaopinio que devemos mand-los parao tribunal competente e encerrar o caso.Por outro lado Ela fez um gesto emdireo ao Partial. Estamos numaaudincia e dele que eu gostaria deouvir alguma coisa.

    Ns temos as leis, mas estamos aquinum caso claramente especial observou o senador Hobb.

    A senadora Kessler olhou para Kira,

  • que fez de tudo para manter um olhardigno e firme diante da senadora.

    Meu voto para que enviemos estescriminosos ao tribunal competente epassemos a lidar com o verdadeiroproblema disse a senadora Kessler,voltando-se para o senador Hobb.

    o meu voto tambm concordouSkousen.

    Protesto disse Delarosa. Apresena de um Partial em Long Island,sem falar aqui em East Meadow, altamente secreto, e certamente no deveser do conhecimento de nenhum comitinvestigativo. Vamos conversar com oPartial e em seguida decidiremos o quefazer com os acusados.

  • Sou favorvel disse Weist. No fao objeo concordou

    Hobb.Kessler silenciou por um instante, a

    expresso autoritria, e ento assentiucom a cabea.

    O senador Hobb pediu a Kira e Haruque se sentassem. Hobb voltou-se para oPartial.

    Bem, a sua vez. O que tem adizer?

    O Partial no disse nada. Por que estava em Manhattan?

    perguntou Delarosa. Ela esperou algunsinstantes, mas o Partial no respondeu.A senadora esperou mais um pouco evoltou a falar. Voc integrava uma

  • equipe armada de ataque, acampada aalguns quilmetros da nossa fronteira.Qual era a sua misso?

    O Partial permaneceu em silncio. Por que agora? continuou

    Delarosa. Por que esto de volta apsseis meses de uma rebelio brutal e deonze anos de total ausncia?

    Vamos mat-lo disse o senadorWeist. Nunca deveramos ter trazidoesta criatura at aqui.

    Vamos estud-lo disse Kira, depronto. Ela se levantou e sentiu maisuma vez todos os olhares sobre ela. Estaseria sua ltima chance. Com o Partialrecusando-se a falar, perderiam opequeno interesse que ainda tinham demant-lo vivo. Estaria morto em

  • minutos. Era necessrio faz-losentender; convenc-los a no jogar foraaquela oportunidade. O que fizemosfoi uma bobagem. Fomos sozinhos ehavia milhes de possibilidades de tudodar errado. Mas agora, neste exatomomento, temos um Partial vivo bemaqui, esperando para ser estudado. Sequiserem, podem nos punir, nos matar sejulgarem necessrio, mas algum, porfavor, aproveite esta oportunidade paraestud-lo. Se eu estiver errada, tudobem, o estrago j foi feito. Mas se euestiver certa, podemos encontrar a curapara o RM e finalmente comear areconstruir nossa sociedade. Sem o RM,sem a Lei da Esperana, sem a Voz ou

  • revoltas armadas. Uma sociedade unidae com oportunidade de futuro.

    Os senadores a encararam por algunsmomentos. A senadora Delarosa chamouos colegas e eles se aproximaram.Permaneceram algum tempo sussurrandoentre eles. Kira esforou-se, em vo,para ouvir. De vez em quando, um delesolhava para o Partial.

    Saiu-se bem cochichou Isolde. Espero que funcione. Gostaria queparassem de olhar para voc, esto medeixando nervosa.

    Achei que era para o Partial disseKira.

    Um pouco para ele, mas a maiorparte do tempo para voc. No sei oque isso significa.

  • Os senadores confabularam por maisalguns momentos. Kira constatou queIsolde estava certa: os olhares furtivosatravessavam a sala, passando peloPartial, mas vinham direto em suadireo. Ela engoliu em seco, pensandonas maneiras que poderia ser punida.Finalmente, o grupo se desfezsilenciosamente, e o senador Hobblevantou-se.

    O Senado chegou a uma deciso disse. Estamos convencidos danecessidade de estudarmos os Partials:eles so imunes ao RM e se pudermosdescobrir os segredos por trs dessaimunidade, seremos finalmente capazesde encontrar a cura. O corpo deste

  • Partial pode ser a chave para nossasobrevivncia e ele no parece oferecernenhuma ameaa imediata, quandodevidamente amarrado e sedado. Osenador olhou de relance para o Dr.Skousen, endireitou-se e declarou emalto e bom som.

    Vamos transferir o Partial para umainstalao segura dentro do hospital, emsegredo e sob proteo policial, ondeele poder ser estudado em detalhes.Aps cinco dias, ser desmembrado edescartado. O estudo ser conduzido porvoc, senhorita Walker. Ele olhoupara Kira, que estava atordoada demaispara decifrar sua expresso. Voc temcinco dias. Use-os bem.

    Kira balbuciou, tentando ainda

  • processar a informao. Voc quer dizer que no serei

    presa e ainda vou ficar com o corpo?Vou poder fazer os testes?

    No apenas com o corpo. Poderconduzir melhor a pesquisa com oPartial vivo disse Dr. Skousen.

  • N

    Captulo Dezoito

    o faz sentido. Minha me odeiaos Partials disse Xochi. Elateria matado aquela criatura com

    as prprias mos se a tivessem deixadose aproximar dele. Por que o queremvivo?

    Fale baixo pediu Kira. Ela olhoupela janela novamente, espiando atravsde uma fresta da cortina. Se algum teescutar, ou se algum descobrir quecontamos isso para voc, vai nos custarmuito caro.

    Provavelmente Mkele quer

  • interrog-lo disse Jayden.Na manh seguinte, Haru e ele

    comeariam a cumprir a sentena detrabalhos forados, mas o Senado haviapermitido que voltassem para casa parapegar suas coisas. Haru estava em casacom Madison, mas Jayden veio atNandita, que estava em mais uma desuas viagens de coleta de ervas. Kiraestremeceu ao pensar nas explicaesque teria de dar a ela quando voltasse.Nandita podia aceitar desaforos daspessoas que odiava, mas a decepocausada por algum que ela amava era oque a derrubava. S de pensar nisso osolhos de Kira encheram-se de lgrimas eela tentou mudar de pensamento.

    Talvez esteja se esquecendo de um

  • fator-chave disse Isolde. Os Partialsso quentes! Se tivesse me contado antesde partir, teria ido com voc paraManhattan.

    Deixa disso, Isolde. indecente disse Kira, com uma careta.

    No vi sozinha, voc tambm estaval. Aquela criatura um Adnis. Faauma coisa por mim: quando passar cincodias a ss com aquela perfeiogentica, encontre um tempinho parafazer um exame fsico detalhado. Pormim!

    Nem humano disse Jayden. Em que sentido? perguntou Isolde,

    provocando-o. Tem todas as partescertas nos lugares certos. Se esse era o

  • objetivo da ParaGen quando comeou afabricar pessoas artificiais, fico aindamais triste que os Partials tenhamenlouquecido e tentado nos matar.

    O que foi falado na audincia novale nada disse Jayden. sfachada. Vo prend-lo em algum poro,tortur-lo e tirar dele tudo queconseguirem. Uma noite com algunssoldados da Rede, numa sala comisolamento acstico, vai deix-lomansinho.

    Agora voc est realmente meexcitando disse Isolde.

    Cale a boca! ralhou Jayden. Xochiriu.

    Mas por que me escolheram? perguntou Kira. H pesquisadores bem

  • mais experientes, tcnicos delaboratrio melhor preparados

    Eu sei disse Xochi. Qualquerum naquele hospital seria melhor do quevoc. Sem querer ofender.

    Nem um pouquinho. o que estoudizendo.

    Certo. Agora, raciocine comigo: porque deixar que a aluna mais inexperientefique no comando de um projeto toimportante, seno para que tudo derrado? Ou querem us-la de bodeexpiatrio quando a coisa todaexplodir?

    Tenho certeza de que existe umarazo melhor do que essa disse Kira,embora no estivesse to segura. Ela

  • olhou atravs da janela, examinando arua escura. Nada.

    Acho que ele no vem disseXochi.

    Kira virou-se rapidamente. O qu? Eu estava apenas olhando

    as rvores. Admirando uma rua sempanteras nem heras venenosas.

    O mundo do outro lado da fronteira totalmente diferente disse Jayden,balanando a cabea. Nem sei comoexplicar.

    porque no tem ningum disseIsolde. Manhattan tornou-se maisprimitiva que Long Island. No temgente para espantar os animais ou contera vegetao.

    Jayden deu uma risadinha.

  • H quarenta mil pessoas em LongIsland. Costumava ter milhes. s vezeschego a pensar que a ilha nem sabe queestamos aqui filosofou Jayden.

    No diferente apenas emManhattan, mas em todo lugar. Vimosuma pantera no Brooklyn. Vimos umfilhote de antlope, um pequeno fauno,devia ter no mximo dois meses. Um diaos animais vo perambular por todos oslugares onde ns, estes bichos esquisitossobre duas pernas, estivemos, e vobeber gua do rio, olhar para as nuvens,e esquecer completamente que um diaexistimos. A vida vai seguir seu curso.No h razo sequer para deixarmosqualquer registro, pois nunca mais vai

  • existir algum para l-lo. Algum est depr disse Jayden.Xochi deu um soco no brao dele. Algum quer mais batata frita

    caseira? Ah, eu quero! exclamou Isolde,

    sentando-se. Deixa a extino para l.Vou morrer no dia que ficarmos semleo vegetal! Xochi passou o pratopara ela e levantou-se.

    No aguento mais ouvir Antnio,em seu Mitzvah. Alguma sugesto?

    Phineas pediu Kira. No,Nissyen. Ele sempre me anima.

    Xochi vasculhou dentro do cesto,dando uma espiada no gerador para tercerteza de que havia energia. Isoldemordeu uma batata e apontou para Kira

  • com a metade restante, falando de bocacheia.

    Acho que est assustada. Fala srio:a criatura quase te matou e agora vocvai trabalhar com ela.

    No com ela. Com ela na sala disse Isolde.

    Voc entendeu. de botar medo. Acho que voc est assustada

    disse Xochi, plugando o aparelho com adedicatria NISSYEN, DE LINDA.U m techno efusivo saltou dos alto-falantes e ela sentou-se ao lado deIsolde. Olhe para voc, devorandobatatas fritas como se fosse umvendedor de rua do outro lado da ilha.

    Acho que estou um pouco bbada

  • disse Isolde, apontando para Xochi coma metade de outra batata mordida. Elalevantou a sobrancelha. O senadorHobb me deu um pouco de champanhe.

    Uau! disse Xochi. Deve ter sido porque a audincia

    foi melhor que o esperado disseIsolde, dando de ombros. No iarecusar.

    Mas eles no conseguiram nada doque queriam observou Kira. Quatrocrianas tolas obrigando-os a Elaparou por alguns instantes. A menosque eles quisessem isso esse tempotodo.

    Querendo o qu? Ele vivo? Estud-lo? perguntou Jayden.

    No sei. Nada faz sentido

  • respondeu Kira, olhando para fora,atravs da janela. Ainda nada.

    Voc no fica desconfiado? perguntou Xochi. Se o Senado estiveraprontando alguma coisa sinistra, comovamos saber de todas as outras em queesto metidos?

    Est sendo paranoica disseJayden. O que podem estarconspirando de to terrvel?

    Esto escondendo um Partial dentrodos limites da cidade. Se podem fazerisso, podem fazer outras coisas rebateu Xochi.

    A sala ficou em silncio. Ataques contra agricultores.

    Membros da Voz desaparecendo na

  • calada da noite continuou Xochi. Aceitamos esse tipo de coisa porque agente pensa que sabe o que est por trsdas decises do Senado, mas e se nofor nada disso? E se estiverem mentidopara ns esse tempo todo?

    Sou assessora do senador Hobb hquase um ano e posso lhe garantir queno estou escondendo nenhum segredode Estado.

    Voc est defendendo a honestidadede um grupo que, voc mesma sabe, emprimeira mo, est mentindo para apopulao de East Meadow disseXochi. E esto fazendo isso com tantaeficincia que no pode ser a primeiravez. A nica coisa que me surpreendenisso tudo nenhum de vocs estar

  • surpreso. Acho que Xochi tem razo disse

    Kira, sentindo um buraco no estmago,cada vez mais profundo e escuro,enquanto pensava na lgica de Xochi.

    Por que est to desesperada paraatac-los? perguntou Jayden. Olha,Xochi, sinto muito que a sua me sejauma vaca, mas ela no o Senadointeiro. E a Rede de Defesa? Voc estfalando de pessoas que nos defendem eprotegem. Pessoas que morreram foradaqui para que voc pudesse estarouvindo msica, neste momento, no seuaparelho de som, comendo do bom e domelhor e ainda reclamando de comovoc oprimida.

  • Deixando de lado o seu prpriofiasco, Jayden, no consigo lembrarquando foi a ltima vez que um soldadorealmente morreu em combate disseXochi, impetuosamente.

    No ano passado, num ataque da Vozs fazendas de Hampton.

    E como sabe que foi a Voz? inquiriu Xochi.

    Por que mentiriam? Como sabe que no foi um

    agricultor descontente, recusando-se aenviar sua cota ao governo, e a Rede deDefesa foi at l botar um pouquinho depresso? apertou Xochi.

    Por que mentiriam para ns? repetiu Jayden.

  • Para a gente andar na linha! gritouXochi. D s uma olhada em tudo queaturamos: soldados armados nas ruas e ainvestigao de todos que entram ousaem do mercado. Esto comeando avasculhar as casas. O Senado diz pulee ns queremos apenas saber de quealtura. E sabe por qu? Porque eles nosconvenceram de que a Voz ir nos matarse no pularmos. Nossos rapazes vopara a guerra, nossas garotasengravidam e sempre fazemos tudo quenos mandam fazer, mas tudo continuaigual. Nunca melhora. E sabe por qu?Porque, se as coisas melhorarem, noprecisaremos mais obedec-los.

    Kira olhava para cada um deles,

  • chocada com a exploso de Xochi. Etodos pareciam to chocados quanto ela.

    Jayden resmungou e ficou em p. Voc est louca disse,

    caminhando em direo porta. Tenhocoisas mais importantes para fazer doque desperdiar meu tempo neste lugar.

    Burro! murmurou Xochi, saindocomo um furaco para a cozinha.

    Kira olhou para Isolde, que lhedevolveu um olhar assustado.

    No so diablicos disse Isolde. Trabalho com eles todos os dias, soapenas pessoas. O senador Hobb faz omelhor que pode. Ela silenciou poralguns instantes. Voc deveria levarsua arma amanh. No temos ideia da

  • fora de um Partial ou do que capaz defazer. Voc tem alguma arma de pequenoporte?

    Kira balanou a cabeanegativamente.

    Gosto de um fuzil. Mas isso emcasa; dentro de um laboratrio ele noteria muita utilidade.

    Empresto a minha. O prdio doSenado est infestado de soldados eagora voc a guardi de um predadorhiperinteligente. Vai precisar dela maisdo que eu.

    Kira olhou a rua vazia atravs dajanela.

    Vamos pegar a arma. A festa jacabou disse suavemente. Ela saiucom Isolde, parou na varanda e esperou

  • alguns longos segundos antes de dar oprximo passo.

    Marcus no apareceu.

    __________

    O Doutor Skousen conduziu Kira por umcorredor comprido.

    Aqui costumava ser a sala daquarentena disse, apontando para apesada porta de metal no fim docorredor. Nunca mais a usamos paraessa finalidade ou qualquer outra. Oszeladores passaram a noite limpando olocal. Temo que a vedao no sejamais to eficiente, mas estamos com as

  • equipes de resgate trabalhando dia enoite em busca de antigas distribuidorasde produtos mdicos, hospitais eclnicas. Qualquer lugar onde possamosencontrar o tipo certo de plstico paravedar portas e janelas. Mas porenquanto estamos seguros.

    E eu estarei trancada l dentro comum Partial, pensou Kira. Ela apertousua pilha de frascos, cadernos e outrosequipamentos, tentando evitar quecassem enquanto acompanhava o ritmoacelerado do andar de Skousen.

    Pode ficar com a mscara, mas oplstico est to degradado quanto osseladores na sala. No vai ajudar muito disse Skousen. Ele abaixou a voz,sussurrando secretamente ao dobrarem o

  • final do corredor. Passamos a noiteprocurando qualquer coisa que elepudesse usar como arma contra voc. Acriatura j foi limpa e pesada. Fizemostudo que precisava ser feito com elesolto. Agora est amarrado e todo seu.

    Chegaram porta, uma barreira deao de mais de dois metros, guardadapor dois soldados em uniforme decombate e capacete. Um deles eraShaylon Brown, o soldado queconhecera na misso de resgate emAsharoken. Ele sorriu ao se virar paraabrir a porta. Kira olhou para Skousen,mantendo-se agarrada a sua precriacarga de equipamentos.

    Preciso saber de mais alguma

  • coisa? Aprenda tudo que puder ordenou

    Skousen. No queria que voc fizesseisso e ainda acho que a expedio quevocs fizeram foi uma grande bobagem,mas agora que temos um umaoportunidade rara. Honestamente, nosei quanto tempo mais os outrossenadores vo permitir que ele fiquevivo, os cinco dias combinados oumenos. Voc deve comunicar tudodiretamente a mim, em especial seencontrar algo ameaador. A ltimacoisa que queremos pnico.

    Entendido respondeu Kira. Vamos l. Virou-se para a porta,respirou fundo e passou pelos soldados. Obrigada pela segurana, rapazes.

  • Se precisarem de mim, estarei trancadaaqui dentro com o monstro.

    A entrada para a sala era por um tnelde plstico claro e flexvel, com um levezunido eltrico de uma grade no cho uma grade eletromagntica projetadapara sugar partculas nocivas dossapatos. Eu esperava que tivesse umEla olhou em volta procura do jato dear bem a tempo de receber um turbilhoartificial no rosto, que a deixoutotalmente limpa e lanou poeira ecabelos na grade eltrica. Kiraconseguiu equilibrar nas mos os tubos epapis e quando o jato de ar parou,entrou na sala.

    O Partial estava deitado numa cama

  • cirrgica ao centro, amarrado com fortestiras de couro; a cama estava parafusadano cho. Acordado e com os olhosalertas, observou-a entrar no laboratrioimprovisado. Nas paredes haviabalces, computadores e outrosequipamentos, tudo limpo e bemiluminado.

    Nunca estivera to assustada em todasua vida.

    Parou por um momento, sem dizernada, ento atravessou a sala e colocouseus pertences sobre o balco. Os tubosde amostras rolaram livremente pelasuperfcie do balco. Kira parou parareuni-los e colocou-os, um a um, numsuporte de plstico. Engoliu em seco,encarando o suporte, reunindo foras

  • para virar-se e olhar para o Partial.Aquilo no era nada apenas umhomem, nem mesmo um homem, mas umadolescente, sozinho e imobilizado. Jhavia passado por isso antes eenfrentado outros como ele sobcircunstncias muito piores, h apenasalguns dias. Mesmo assim, a sensaoera outra naquele momento; tudo pareciafora do lugar. Num ambiente selvagem,um Partial era um inimigo e ela sabia oque pensar sobre ele, mas um Partial ali,em East Meadow, na mesma sala

    Kira notou um lampejo com o cantodo olho e viu a lente de uma pequenacmera suspensa no canto da sala.Obviamente haviam acabado de instal-

  • la num buraco quadrado no balco demadeira, presa com parafusosreforados. Correu os olhos pelocmodo e encontrou mais cinco: uma emcada canto e duas no teto, voltadas parangulos especficos na mesa do Partial ena sua prpria mesa de trabalho. Obrade Mkele, disse a si mesma. Sentiu-senervosa com a ideia de que ele e seussoldados a observavam to atentamente.Caso o Partial tentasse alguma coisa,logo entrariam em ao.

    Kira respirou aliviada. Ela mesmano percebera que estava com arespirao em suspenso. Saber queMkele assistia a tudo fazia com que sesentisse mais ou menos segura? Noconseguia decidir-se. Passou pelo

  • Partial e foi at a janela.Estava no segundo andar, de frente

    para uma fileira de rvores altas queterminava num amplo estacionamento,lotado de carros destrudos. Muitos dosestacionamentos da cidade estavamvazios o movimento nos restaurantestinha sido fraco enquanto a civilizaoentrava em colapso , mas o do hospitalandava cheio, e havia transbordado decarros h onze anos. Os carrospermaneciam ali como advertnciasfantasmagricas.

    Preciso de uma amostra de sangue,disse a si mesma, forando-se a voltar tarefa que tinha em mos. Preciso desangue e tecido. Se eu fui a uma zona

  • de guerra para cortar a mo de umsoldado inimigo, eu consigo fazer umabipsia nesta criatura amarrada aquatro metros minha frente.

    Voltou para o balco onde estavam ostubinhos de sangue amostras do sanguede Marcus. Relquias das primeirastentativas de estudar o RM, antes da idaa Manhattan, do Partial, e tudo o mais.Antes do sumio de Marcus. Conservaratodas as anotaes que fizera, umadescrio completa da contagem dasplaquetas, dos glbulos brancos,glicose, eletrlitos, o nvel de clcio eda extensa e assustadora quantidade deestruturas virais. Todos os humanoseram portadores, envenenando osprprios filhos, muito depois do exlio

  • dos Partials. Os Partials tambm eramportadores? Toda essa catstrofe novaleu de nada?

    Respirou fundo, limpou o rosto evirou-se para o Partial: ali no estavauma coisa sem face atrs de um visorescuro, mas um homem, um garoto umpouco mais velho do que ela, amarradoa uma mesa e reduzido a quase nada.Sem a camisa, ela podia ver que seucorpo era bem torneado e musculoso,no tanto como um halterofilista,simplesmente em boa forma: forte,esbelto e saudvel. Uma perfeiogentica, como dissera Isolde. Kiratentou evocar seu entusiasmo da luta emManhattan, tentou imaginar-se cortando

  • a mo dele para estudar. Seus olhoseram castanhos, como os dela. Elesolhavam para ela tranquilamente.

    Segundo Dr. Skousen, o Partial tinhasido lavado, mas Kira olhou novamentee percebeu pequenas manchas ao redordo rosto e da cabea. Aproximou-se,tentando examinar melhor seu rosto.Eram manchas de sangue, secas eescuras, rodeando a boca e um dosolhos. Havia salpicos de sangue tambmna orelha do lado oposto. Levantou obrao para tirar seu cabelo da frente,mas no completou o movimento.

    Bateram em voc?O Partial no respondeu, apenas a

    observava com seus olhos escuros. Kirasentia o dio esquent-lo como um fogo

  • de ferro, irradiando ondas de calor.Encheu-se de coragem e levantounovamente o brao, mas desta vez oPartial reagiu, num movimento sbito ebrusco com a cabea, agitando o corpocom fora embaixo das amarras. Kirapulou para trs involuntariamente, ocorao disparado, a mo em busca daarma. Ela no chegou a sac-la, apenas atocou, slida e tranquilizadora, com amo. Forou-se a acalmar-se e deu umpasso frente, cheia de coragem. Apsalguns momentos, ela sacou a arma e amostrou para o Partial.

    Fiz parte do grupo que capturouvoc disse ela. No estou tentandoamea-lo, apenas mostrando o quanto

  • estou determinada. Temos cinco diaspela frente, e se quiser passar todos elesbrigando, estou mais do que pronta. Ele a observava, o olhar frio einflexvel, analisando-a em busca dequalquer brecha, qualquer falha na suadefesa em que ele pudesse escorregarpara dentro

    e mesmo assim atrs daquelesolhos frios ele estava apavorado. Elasabia disso, apenas de olhar para ele:nunca estivera to amedrontado em todasua vida. Ela recuou, analisando asituao da perspectiva dele: estavasozinho, um prisioneiro de guerra, haviaapanhado, estava acorrentado eamarrado numa mesa de cirurgia, eagora ela apontava uma arma para ele.

  • Kira abaixou a arma. Caso ainda no tenha percebido,

    todos aqui esto absolutamenteapavorados com a sua presena. Nosabemos como voc funciona e do que capaz. Tudo que sabemos que voc uma arma biolgica sobre duas pernas.

    Ela parou por alguns instantes,esperando, mas ele permanecia emsilncio. Fez alguns gestos para ver seele reagiria, mas no funcionou. Elasuspirou. No sabia qual reaoesperava dele.

    Ele a observava atentamente. Kirasentia-se desconfortvel como um insetopreso num pote. Quem estudava quem?

    Tudo bem, ento. Se voc no quer

  • falar, OK. Acho que se estivesse na tuasituao tambm no iria querer. Poroutro lado, no sei se conseguiria ficarde boca fechada. Os humanos socriaturas muito sociveis. Gostamos denos comunicar para nos sentirmos

    Voc fala demais.Kira estancou, os olhos arregalados.

    Sua voz estava seca e rouca dos diasque ficara calado. At onde sabia, eleno havia pronunciado uma nicapalavra desde que fora capturado, hmais de cinquenta horas. Kira no tinhacerteza se compreendera o que elefalara. Sou a primeira humana a secomunicar com outra espcie em onzeanos e ele me diz para calar a boca?!Passado o choque inicial, ela quase riu.

  • Entendi disse Kira, assentindocom a cabea. Mas antes queroexplicar o que vou fazer. A maioria dosnossos exames feita com sensores, sono invasivos, apenas examinam seusrgos Ele fechou os olhos,claramente ignorando-a, e ela mudou deassunto. Tudo bem, sem explicaesmdicas. Kira foi at o balco lateral,fuou nas gavetas e voltou com um tubode vidro esterilizado e um punhado depequenos instrumentos. Deixe eu teavisar: essa picada no dedo vai doer umpouco, nada terrvel, s uma agulha deuns dois milmetros. Vai me deixar usarseu dedo ou vamos brigar de novo?

    Ele abriu os olhos, viu o instrumento

  • e olhou para Kira. Aps um longomomento, ele abriu o punho e ofereceu odedo.

    Obrigada.Ela pingou algumas gotas de lcool

    num chumao de algodo e passou noseu dedo indicador. Suas mos eramfirmes e quentes. O perfurador era quasedo tamanho e do formato de umacaixinha de fio dental, e ela opressionou contra a ponta do dedo.

    Aguente firme.Ele mal se mexeu. A agulha espetou a

    ponta do dedo e Kira a removeurapidamente, pressionando um frascofino de vidro contra a pele. O frascoenchia-se de sangue lentamente, maislento que o normal, e ela apertou o dedo

  • para aumentar a presso. O fluxo parouantes mesmo de o tubo se encher.

    Sua presso deve estar baixa comentou, selando o tubo com um franzirde cenho. Normalmente um dedo enchedois tubinhos. A menos que Elaolhou mais de perto, o sangue comeavaa coagular dentro do recipiente. Elaolhou para o dedo, apertandocuidadosamente o furo. J haviacicatrizado. Incrvel murmurou.Levantou o tubo de vidro altura dosolhos, o sangue estava adquirindo umacor marrom-ferrugem, endurecendo atcobrir-se nas duas pontas por uma cascapequena e slida.

    Encarou o Partial. Ele no disse nada.

  • O primeiro impulso de Kira foi o defazer outro furo, desta vez maisprofundo, mas ela afastou a ideia torapidamente quanto pensara nela. Noestava ali para tortur-lo e, comcicatrizao rpida ou no, oprocedimento causava algumdesconforto. A leve retrao do dedo nomomento da picada era prova disso.No tinha estmago para machuc-loapenas para observar a sua reao.

    Mas o que era mesmo que o Senadoqueria? No era para isso que estavaali? No tinha a inteno desimplesmente cort-lo com facas, mas aordem era estud-lo. Se a resistncia doPartial ao vrus RM estava baseada no

  • seu poderoso sistema regenerativo,ento ela teria de testar os limites da suacapacidade de cura e determinar comousar isso em benefcio dos humanos. Seno encontrava a resposta em outrolugar, era ali que teria de procurar.

    Ele aguentaria levar um tiro? O queaconteceria com a bala? Sua coragemlutava contra sua curiosidade cientfica.Balanou a cabea, deixando de lado otubo com sangue coagulado.

    No vou torturar voc disse,voltando at as gavetas, de onde retirouuma pequena seringa de plstico e umaagulha curta e fina. Mas tenho quecoletar outra amostra de sangue. Omedicomp precisa de sangue lquidopara me dar uma boa resposta do que se

  • passa a dentro. Se seu sangue coagulouimediatamente em contato com o ar,teremos que manter o ar fora da equaopelo maior tempo possvel. Elaajustou a agulha na seringa, pegou umtubo de soluo alcalina, sugou eexpeliu o lquido da seringa at tercerteza de que o espao interno forapreenchido pela soluo. Passou umalgodo sobre uma veia interna docotovelo do Partial e segurou a agulhasobre ela.

    Prepare-se para outra picada.Dessa vez ele no se moveu. Ela tirou

    um centmetro cbico de sangue ecolocou um chumao de algodo sobre apicada, mas logo se deu conta de que o

  • ferimento j estava cicatrizando claro.Sentiu-se uma boba e virou-se,colocando a seringa, com agulha e tudo,no medicomp. O sangue estava no estadolquido. Ela tirou as luvas e comeou atocar na tela, solicitando testes desangue, exames do fgado e tudo o maisque ela conseguia pensar. Clicou namensagem escaneamento completoque havia identificado o vrus da ltimavez, com Marcus. Ela clicou no sim eesperou, praticamente sem respirar,enquanto o equipamento catalogava osangue.

    Ela ainda no havia se permitidopensar em Marcus; na verdade, notivera tempo para isso. H menos devinte e quatro horas ainda estava na

  • carroceria do caminho da Rede deDefesa, sendo levada para a audinciasecreta com o Senado, em EastMeadow. Marcus no tinha ido festade Xochi na noite anterior e Kira noo procurou. Logo pela manh, seguiradireto para o hospital. Ele ainda estariazangado com ela? Ela ao menos estavabrava com ele? Sim, estava claro queestava , mas ao mesmo tempoenxergava o lado dele. Agora ela sabiaque ele tinha sido o qu? Tentadoproteg-la? No precisava de proteo,no quando ela era a nica que poderiafazer alguma coisa. Mas ser que eleestava certo sobre o RM que no haviacura e que ela arruinava a vida deles ao

  • tentar encontr-la? Ela no conseguiaacreditar naquilo, sequer permitia-sepensar nisso. Encontraria a cura paraaquela coisa maldita e isso era tudo queimportava. Mas, ento, o que pensouentender sobre Marcus?

    Que ele tinha medo e pensava que aperderia. Isso ela entendia. Metade delaj havia se convencido que ela morreria.

    O medicomp apitou e Kira voltou oolhar para a tela. O sangue apresentavaum nmero acima da mdia deeletrlitos, um nvel de glicose a umpasso da diabetes e uma contagem toalta de glbulos brancos que ela noresistiu em tirar sua temperatura,temendo uma infeco. Estavaexatamente com 37 C, assim como ela.

  • Talvez a fisiologia de um Partialapresentasse resultados levementediferentes do normal? At onde sabia, oresultado de um exame que indicavadoena em um humano, para um Partialera normal. Ela anotou os detalhes emseu caderno, marcando asanormalidades que gostaria de estudarmais detalhadamente.

    No entanto, a informao maisimportante era a de que continuavaausente, mesmo depois de ter analisadotodos os dados: no havia nenhumvestgio do vrus RM.

    Sem RM. Ela levantou o olhar,extasiada. Embora o Partial continuassedeitado sobre a mesa, com o olhar fixo

  • no teto, ele parecia ameaador.Qualquer outro naquela posio passariaa impresso de desistncia, mas haviaalgo diferente nele a tenso nosmsculos, o piscar alerta dos olhos ,indicando que sua mente trabalhava amil por hora.

    Naquele momento no fazia diferena.Kira sentiu vontade de rir: o Partial noapresentava nenhum vestgio do vrus nosangue, exatamente como ela tinhaprevisto. Seu corpo podia destruir ouexpelir o vrus. Agora precisava apenasdescobrir como isso acontecia.

    Os dedos geis de Kira danavamsobre a tela, selecionando os arquivos.Agora, tinha certeza de que os Partialsno eram portadores, mas precisava

  • descobrir por que, com os humanos, eradiferente. Como se dava o processocontagioso? No era suficiente apenasafirmar, Os humanos adoecem. Elaprecisava saber como o vrus eratransmitido de uma pessoa a outra e oque acontecia aps a transmisso. Tudonos mnimos detalhes. Era necessrioobservar o processo num organismohumano e num organismo Partial, paracompreender as diferenas. Ela colocouna tela a imagem do vrus, o glbuloamarelado que vivia no sangue. Vocparece um balo, pensou, mas matou99,996% da raa humana.

    Precisava de um foco. Quaisinformaes j estavam naquele

  • arquivo? Tamanho: quatrocentosnanmetros. Era enorme para a escalados vrus definitivamente grande obastante para ser retido por um bomfiltro de ar. Seu olhar atravessou a salaat o tnel de plstico entrada daporta, perguntando-se que tipo de filtroera usado ali. Um sistema como aqueledeveria ser capaz de deter um vrus dequatrocentos nanmetros , pensou.Tambm no era para um vrus dequatrocentos nanmetros chegar atum feto; nada desse tamanhoatravessaria a barreira da placenta.Isso explicaria o porqu de os bebsadoecerem apenas aps o nascimento.

    Um pensamento chamou a ateno deKira. Se o vrus era grande o suficiente

  • para ser contido, por que no realizavamos partos num ambiente controlado? Seeles lavavam o cho, esterilizavam osinstrumentos, usavam mscaras faziamtudo que pudessem imaginar , por quemesmo assim o vrus encontrava seucaminho at o hospedeiro?

    No sou a primeira pessoa a seperguntar isso, pensou. Marcus e Dr.Skousen disseram que as pesquisascomearam logo aps o Break. Issoquer dizer que deve existir, em algumlugar, um registro dos resultados. Kirapuxou os arquivos do banco de dados,pesquisando os estudos sobre partos emsalas limpas. Encontrou vrios, masos estudos no tinham a resposta que ela

  • procurava, obviamente. A taxa dedoena e de transmisso do RM eravirtualmente igual dos partos normais,como se a sala limpa no tivessenenhum efeito na reteno do vrus.Anexo aos registros estava outra sriede estudos, desta vez voltada presenade uma variante do RM no ar. Kira abriua pasta com interesse ela sabia que oRM era transportado pelo ar, mas aestrutura desse tipo de vrus no era umtpico dos primeiros anos das aulas demedicina e seus professores ainda nohaviam falado muito sobre ele. Orelatrio apresentava outras imagens,similares quelas da amostra de sangue,mas os vrus eram bem menores: entretrinta e trs e trinta e um nanmetros.

  • Kira franziu o cenho. Era quaseimpossvel deter um vrus daqueletamanho, mesmo numa sala limpa. Elaolhou para o Partial, sentindo a antigaraiva ressurgir.

    Vocs fizeram de tudo para a gentenunca se livrar desse maldito vrus, no?

    Ele olhou para Kira, que pareciapoder ver o turbilho de pensamentos nacabea dele. Ao falar, seus olhosexprimiam curiosidade.

    Vocs no podem se reproduzir. O qu? por isso que esto tentando

    encontrar a cura do RM. Ns notnhamos filhos, por isso no sentimos

  • falta deles aps o Break. Mas vocsficaram sem nenhum, no foi? Estoquerendo a cura do RM porque suascrianas no sobreviveram ao vrus.

    A vontade de Kira era de gritar, defor-lo a reconhecer sua prpriaparticipao no extermnio da raahumana; agredi-lo por ousar falar assimto despretensiosamente de algo toterrvel. Mas ela se conteve, porque oque ele disse chamou sua ateno.

    Ser que ele no sabia que o vruscontinuava matando? Kira no confiavanele, mas ficara com a impresso de queapenas agora ele se dera conta de que oRM continuava fazendo vtimas. Ele nosabia de nada. Caso isso fosse verdade,implicava duas coisas muito

  • importantes: primeiro, os Partials noestavam nos espionando. As teorias quepipocavam de que eles estavamescondidos entre os humanos, infiltradosna ilha como espies altamente secretos,eram falsas. Do contrrio, aquele ali jsaberia que as crianas humanascontinuavam morrendo. Sua reao desurpresa demonstrava que no estavamvigiando os humanos.

    Ou, se estavam vigiando, pensou, nocontavam uns aos outros o que viam.

    A segunda coisa era que os Partials ou pelo menos aquele Partial emespecial no sabiam como o RMfuncionava. Ele no esperava que ovrus continuasse ativo, e,

  • presumivelmente, todos os outrosPartials com quem ele interagiapensavam igualmente. Ser que oslderes Partials estavam escondendo ainformao dos seus prprios soldados,ou eles tambm no sabiam? Mas comopoderiam desconhecer o funcionamentode um vrus criado por eles mesmos?Existia a possibilidade de o vrus tersofrido alguma mutao. Kira tremeu sde pensar nisso. Se algo to letal quantoo vrus RM estava em mutao, agindoalm dos seus parmetros originais,quem poderia prever do que seriacapaz?

    Para Kira, havia uma maneira dedescobrir o quanto ele sabia.

    Voc, Partial, o que sabe sobre o

  • RM? perguntou.A criatura no respondeu. Ah, deixa disso! disse Kira,

    jogando a cabea para trs, frustrada. Vamos comear tudo de novo? No dpara pelo menos dizer alguma coisa.

    Bem, humana, voc vai me matardaqui a cinco dias. Isso no um grandeincentivo.

    Kira voltou-se como um furaco parao medicomp e jogou-se na cadeira, toirada que mal conseguia pensar. Aquelacriatura ia morrer porque havia matadoGabe, Magrelo e outras seis bilhes depessoas. Depois de tudo que ele tinhafeito, de cada atrocidade queparticipara, como ousava ter a

  • presuno de sugerir que ele era avtima?

    As imagens na tela pareciam rodopiare enevoar-se. Como poderia trabalharcom aquela criatura deitada a um metroe meio de distncia? Nesses momentos que precisava de Marcus para fazer umabrincadeira, para amenizar a situao eajud-la a perceber o que era importantee o que no era. Ela olhou para a porta,mas claro que ele no estava l. Elenem sabia onde ela estava.

    O Partial tinha razo numa coisa: slhe restavam cinco dias. Kira precisavatrabalhar. Ela tirou-o do pensamento econcentrou-se no trabalho: uma telalotada de imagens de vrus e uma sriede relatrios sobre sua estrutura. O vrus

  • se apresentava em duas verses, umapara o sangue, outra para o ar. OGlbulo e o Esporo, o amarelo e o azul.Concentre-se! O Esporo era minsculo,perfeito para viajar pelo ar. Era assimque deveria passar de um hospedeiro aoutro. Mas, ento, de que servia oGlbulo?

    Nenhum dos estudos trazia a resposta.Embora as pesquisas apontassem para aexistncia das duas formas, no sabiamcomo funcionavam juntos. Kira voltoupara a anlise do sangue de Marcus,procurando entre os resultados qualquersinal do Esporo. Se ele pudesse entrarno corpo, ele entraria. Na amostra desangue de Marcus deveria haver algum

  • sinal dele, porm Kira no o encontrouali. Isso significava que seja l o queacontecia com o Esporo ao entrar nocorpo, acontecia muito rapidamente eno deixava rastro.

    Ou seja, o Glbulo era o rastro. Kirarepassou as possibilidades na cabea: ovrus reagia ao sangue e aos tecidoshumanos, era assim que funcionava,usando o prprio material do hospedeiropara se replicar. Ento, talvez elesinteragissem num outro nvel. Dessaforma seria possvel um nvel extra deinterao entre eles. Talvez o Esporono fosse projetado para se replicar,apenas para se converter em Glbulo,deixando para este a tarefa de replicar-se. Era estranho, mas possvel. Seja l o

  • que o vrus fizer, pensou Kira, ele o fazrapidamente. No momento queexaminamos o sangue, qualqueramostra de Esporos j ter seconvertido em Glbulo. Kira correu osdedos pelos cabelos, tentando descobriruma maneira de ver a transformaoacontecendo. Se obtivesse uma amostrade sangue no contaminado e ocolocasse no medicomp rpido osuficiente, poderia estudar o processoreal da contaminao. Mas ondeencontrar sangue humano no infectado?

    Nos recm-nascidos. Havia quatromulheres grvidas na cidade. Os bebsestavam para nascer na prxima semana.E, no caso de algum parto prematuro,

  • poderia conseguir as amostras antesdisso.

    Ela faria uma requisio ao Dr.Skousen, apenas para ver sua reao.Sempre coletavam amostras de sanguenos nascimentos, mas geralmente nofaziam os testes antes de lidar com osoutros problemas, o que poderiademorar vrios minutos. A maioria dasamostras no era to sensvel passagem do tempo. Se a teoria de Kiraestivesse correta, teriam de testar osangue imediatamente, caso quisessemobservar esta reao especfica.

    A prxima pergunta era a mais difcilde todas: se o Glbulo era o resultadoda transformao do Esporo, de ondevinham os Esporos? O Glbulo criava o

  • Esporo ou ele se transformava de voltanum deles? Observar a passagem de umestado a outro seria difcil, pois ela nofazia ideia de como acontecia e,portanto, no poderia recriar oprocesso. Tudo indicava que atransformao ocorria no sangue, porqueo vrus se reverteria instantaneamente. Afalta de qualquer Esporo na amostra deMarcus confirmava isso. Nos pulmes,ento? O Glbulo reage ao oxignio damesma forma que o Esporo reage aotecido? Era a resposta mais simples, oque a tornava o ponto de partida dainvestigao. Mas como fazer o teste?

    Primeiro preciso isolar o vrus,pensou. Ela olhou ao redor do quarto

  • procura de algo com que pudessecapturar o pequenssimo vrus, e seuolhar caiu sobre uma caixa de luvas deltex. Lembrou-se de como ela e Marcuscostumavam infl-las na escola, apertara abertura at quase fech-la e estour-las. Se a transformao do vrusrealmente acontecia nos pulmes, seuhlito estaria cheio deles. Se a luva deborracha segurar o oxignio, o vrustambm ser retido, pelo menos otempo suficiente para que eu o examineno medicomp. Kira pegou a luva e aencheu como uma bexiga. E agora?Ficou parada no meio da sala sem sabero que fazer. O medicomp conseguiria leratravs da borracha? Provavelmente.Mesmo que ela se sentisse uma idiota

  • colocando uma luva de borracha infladano campo do sensor. Mas havia outroproblema: seja l o que fizesse com oseu hlito, teria de fazer o mesmo com odo Partial. Ambos os testes precisavamser iguais ou os resultados no valeriam.Ela tinha certeza de que o Partial noassopraria numa luva de borracha.Deixou a luva murchar. Teria de pensarem outra coisa.

    Estvamos vencendo a guerra disse o Partial, baixinho. Kira ficousurpresa ao ouvi-lo.

    O qu? Kira o encarou, guardandoa luva no bolso. Por que est falandosobre isso?

    Voc acha que criamos o vrus.

  • Voc est me estudando como parte dasua misso para encontrar a cura. Pensaque o fabricamos. Ele balanou acabea. No fomos ns.

    Sabia que mentiria, mas esperavaque fosse mais criativo.

    Estou falando a verdade. No verdade! gritou Kira. O

    Partial manteve-se calado, apenasolhava para ela. Seus olhos estavamsombrios. Vocs nos atacaram, nosmataram e, para terminar o servio,lanaram o vrus.

    Estvamos vencendo a guerra acriatura repetiu. ramos o maiordestacamento do seu exrcito, no haviauma forma eficiente de vocs nosenfrentarem. Atacamos rapidamente,

  • tomamos os meios de comunicao,aniquilamos seu contra-ataque. Nopodiam nos deter. Em mais algumassemanas, talvez em apenas duas,teramos assumido o controle total dogoverno, e teramos feito isso sem abrirmo da infraestrutura criada pela suasociedade eletricidade, gs natural,indstrias e produo de alimentos

    Era esse o plano? perguntou Kira,com amargura. Nos fazer de escravos?De mo de obra para a manuteno dasua infraestrutura?

    Voc quer dizer, o mesmo quefizeram conosco?

    Kira o encarou. A raiva aumentando acada segundo, quente como a chama de

  • um maarico, queimando de dentro parafora. Tirou a luva do bolso, voltou compassos firmes at o medicomp e jogou-ana lixeira destinada ao resduohospitalar.

    No queramos escraviz-los disse o Partial. E mesmo se fosse ocaso, no precisvamos matar vocs.Nem era nossa vontade. No havianenhuma motivao tcita ou polticapara lanar um vrus assassino.

    Quer que eu acredite que foi umacoincidncia o fato de um supervrusresponsvel pela destruio dahumanidade, e que no deixou umarranho em vocs, ter sido lanado bemquando vocs nos atacavam? E vocsno tiveram nada a ver com isso?

  • Admito que parece improvvel. Improvvel? Est sendo generoso. Procuramos uma explicao, mas

    ainda no sabemos de onde veio dissea criatura.

    Nem sei por que estou falando comvoc disse Kira. Era loucura pensarque estivesse dando qualquer crdito aoque a criatura dizia e mais loucura aindadar ouvidos a ele. Voltou-se para omedicomp, encarando tenazmente asimagens e as informaes, mas noresistia tentao de olhar furtivamentepara ele. Ele escondia algo. Seconseguisse enxergar atravs de suasmentiras, quem sabe tirasse algumproveito do que ele dizia. Seu jeito de

  • falar era montono e sem emoo,demonstrando desinteresse ouincapacidade de empatia. Deslizou acadeira at ele e inclinou-se em suadireo.

    Tudo bem. J que voc est comtanta vontade de conversar, me diga porque estava em Manhattan.

    A criatura no respondeu. Ela esperoucom os olhos fixos nele. Frustrada,perguntou novamente.

    Qual era a sua misso? Por queestava to perto da fronteira?

    No posso contar. Por que no?O Partial olhava fixamente para o

    teto. Por que no quero morrer.

  • ECaptulo Dezenove

    ra quase meia-noite quando Kiradeixou o hospital. A noite estava

    fresca, o que lhe causou um leve tremor.Mesmo sendo vero, as noites em LongIsland podiam ser um tanto frias. OPartial recusara-se a continuar falando.Por um lado, Kira agradeceu: estava todesesperada para saber o que ele tinha adizer quanto assustada. Se apenas falarsobre o que sabia poderia lhe custar avida Estremeceu novamente, s depensar.

    Em vez de conversar com ele, passara

  • o resto do dia enfiada nos arquivos domedicomp, estudando o vrus: suaestrutura peculiar, as protenas queformavam a membrana plasmtica, oreceptor e a carga gentica que trazia noncleo. O hospital possua equipamentossuperavanados para a pesquisagentica, alguns dos mesmos aparelhosusados originalmente na criao dosPartials. Apesar disso, todos os quesabiam us-los haviam morrido duranteo Break. Era irnico, de certa forma,que houvesse uma tecnologia toincrvel e moderna, mas que nenhum servivo soubesse us-la. s vezes, Kirapensava nos equipamentos como sefossem mgica, artefatos msticos dealguma civilizao esquecida. Dr.

  • Skousen e sua equipe de pesquisadoresas estudavam em salas escuras,rodeados dos tomos ancestrais do seuofcio, mas a magia desaparecera. Elesencontraram o cdigo gentico do RM,mas no puderam alter-lo ou mesmodecifr-lo. Tudo o que podiam fazer eraobservar e levantar hipteses e torcerpor uma descoberta.

    Kira no descobrira nada. Restavamquatro dias.

    Perambulava pela cidade. Suavontade era de chegar logo em casa ecair na cama. Mas, de certa forma, aindaestava desnorteada. Era como se seucrebro, cansado do esforo de tantaconcentrao, precisasse vaguear.

  • Deixou-se levar por ele atravs dacidade escura, passando por casasadormecidas, caladas esburacadas eruas de terra amaciadas pelo uso.Durante a noite, East Meadow pareciato vazia quanto o mundo alm dos seuslimites o crescimento desordenado davegetao era controlado pela presenade pessoas e animais, mas as casasestavam escuras, as ruas, vazias, e omundo, to silencioso quanto fora dali.Durante o dia, a populao espalhava-sepela cidade, mas noite East Meadowera apenas outra parte da runa quecobria a terra.

    Kira dobrou a esquina e percebeuonde estava por onde haviacaminhado, inconscientemente, desde o

  • momento que deixara o hospital. A ruade Marcus. Parou na esquina, indecisa,contando as casas cinco, quatro, trs,dois, um at chegar dele, direita. Elemorou muitos anos com um senhor,depois mudou-se com outros paisadotivos, quando o primeiro morreu. Aocompletar dezesseis anos, passou aviver sozinho. Mudar de casa no eraproblema. Voc precisava apenasencontrar uma em bom estado, limp-lae pronto, era sua. Os donos estavamtodos mortos, os bancos no existiammais. Havia mais que o suficiente paratodos terem duas, cinco, mesmo dezcasas, se quisessem. Long Island fora olar de milhes de pessoas. O velho

  • mundo havia se exaurido na busca deMais Coisas. Agora havia mais coisasdo que qualquer um pudesse usar, epouco ou nada alm disso.

    Kira viu um lampejo amarelo, tnue edistante. Ela hesitou por algunsinstantes, os olhos levemente apertados.Com certeza era na casa de Marcus. Porque estava acordado a esta hora? Elaavanou, pisando cuidadosamente sobreas rachaduras provocadas pelas razesde uma rvore na calada, sem tirar osolhos da luz tremulante. Era uma vela,brilhando suave atravs da janela. Parouno gramado da casa, espiando a sala:uma vela, uma cadeira e Marcus,dormindo sentado. As paredes estavamvazias, havia apenas furos de pregos das

  • fotografias de outras pessoas, agoratiradas dali, guardadas ou jogadas nolixo. Ela observou Marcus por um longotempo e, de repente, ele a observava, acabea levantada, os olhos abertos.

    Ele permanecia sentado, olhando-acom os olhos bem abertos, esperandoque ela desse o primeiro passo. Elapermaneceu imvel, olhando para ele.

    A luz da vela brilhou.Marcus levantou-se, desaparecendo

    atrs do batente da janela. A porta dafrente se abriu. Kira subiu correndo osdegraus da varanda antes mesmo de terconscincia do que fazia e Marcussurgiu porta. Ela o abraou, afundandoo rosto em seu peito. Ele a segurava

  • apertado, bem junto de si. Kira fechouos olhos e mergulhou naquele corpo: suafora, seu cheiro, sua presena. Tudo tofamiliar quanto ela prpria. Marcus eraparte da sua vida desde quando suamemria alcanava. Ele era mais real doque qualquer outra coisa do velhomundo. Aquela era a vida em que elahavia nascido, mas isto East Meadow,Marcus e mesmo o RM era a vida queela vivia. Ela o abraou forte. Levantouo rosto e seus lbios se encontraram numbeijo longo, ardente e desesperado.

    Me desculpe por no ter ido comvoc sussurrou Marcus. Mearrependi a cada dia da tua ausncia.

    Voc poderia ter morrido disseKira, balanando a cabea e beijando-o

  • outra vez. Mas eu deveria estar ao seu lado

    disse Marcus, a voz decidida. Deveriaestar l para proteg-la. Eu te amo, Kira.

    Eu tambm te amo respondeumansinho, mas uma voz no seu ntimodisse Voc no precisava de proteo .Ela ignorou a voz, afastando-a dopensamento. Naquele momento, o queela mais desejava no mundo inteiro eraestar em seus braos.

    Voc pegou um, no foi?Kira ficou em silncio, sem querer

    falar ou mesmo pensar no Partial. Ento,admitiu.

    . As notcias correm. Todos sabem

  • que a Rede trouxe alguma coisa doextremo oeste da ilha, mas ningum sabeo qu. No foi difcil para mim somardois e dois.

    Kira sentiu uma onda de tensoespalhar-se pelo corpo, lembrando-a deo quanto estava pesado o clima nacidade antes de partir. De como aspessoas estavam prximas de embarcarnuma guerra civil.

    Voc acha que mais algumdescobriu?

    Duvido. Trazer um Partial paradentro de East Meadow no a primeiracoisa que vem cabea de algum.

    Talvez no a primeira, mas asegunda, a quinta ou a vigsima. Algumpode descobrir.

  • Sentiu frio, inesperadamente. Afastou-se de Marcus e esfregou os braos. Ele aconduziu gentilmente para dentro dacasa.

    Temos tantas outras coisas com quenos preocupar disse Marcus,estranhamente sombrio. Tivemos outroataque da Voz enquanto voc estevefora. Um dos grandes. Atacaram oscanis, mataram ou levaram quase todosos ces treinados da Rede de Defesa.Agora no d mais para

    Kira agarrou o brao de Marcus, ocorao disparado.

    Os canis? No era onde Saladintrabalhava?

    A criana-prodgio. O caula da

  • humanidade. Levaram Saladin junto comos ces e metade das pessoas quetrabalhavam com ele. Fizeram umestrago daqueles, psicologicamentefalando. Sem os animais no poderemosrastrear a Voz nas florestas, mas semSaladin foi como se tivessem chutadoum filhote e roubado um beb. Muitaspessoas esto exigindo o uso de todanossa fora contra eles.

    Por que fariam isso? perguntouKira. Estava na cara que as pessoasficariam furiosas. Parece at que foipara nos tirar do srio. Claro que novo conseguir mais adeptos. Ser quequerem comear uma guerra?

    Podem pedir um resgate em troca deSaladin sugeriu Marcus. Ele uma

  • moeda de troca e tanto. Deixaram umrecado.

    Um recado? Picharam o canil com letras

    garrafais. A mensagem foi clara e amesma de sempre: Revoguem a Lei daEsperana.

    Kira atravessou o tnel de plstico. Bom dia disse espontaneamente,

    ento parou, perguntando-se por qu.Quando ela havia comeado a pensarnele como uma pessoa?

    O Partial no respondeu. A criaturano esboou nenhuma reao ao ouvi-lae Kira imaginou que estivesse dormindo.Aproximou-se devagar, em silncio, maso Partial grunhiu e tossiu, tombando a

  • cabea para o lado e cuspindo. O que voc Kira ficou

    paralisada.Ele cuspiu sangue.Kira largou as pastas e correu at ele,

    levantando gentilmente sua cabea. Orosto estava escurecido por hematomase sangue seco.

    Minha nossa, o que aconteceu?Ele grunhiu novamente, abrindo os

    olhos aos poucos. Sangue. Eu sei, vejo que est sangrando

    disse Kira, correndo at o armrio procura de toalhas. O que aconteceu?

    Ele no respondeu, apenas balanou acabea, estralando o pescoo. Em

  • seguida, levantou o brao direito unssete centmetros, mas, num tranco, foiimpedido, pela amarra, de continuar omovimento. O brao estava coberto depequenos ferimentos.

    Eles me cortaram.Kira abriu a boca em horror. Quem? O susto transformando-se

    rapidamente em raiva. Quem fez isso?Os guardas? Os mdicos?

    Ele assentiu levemente com a cabeae examinou o interior da boca com alngua, certificando-se de que todos osdentes ainda estavam no lugar.

    Isso ridculo disse Kira, comraiva. Caminhou com passos duros at omicroscpio, rosnou, e voltou do mesmojeito. Tudo que ela havia pensado em

  • fazer, mas descartado porque eradesumano, algum havia entrado na salae feito. Lanou um olhar frio eprolongado para a cmera no canto dasala, um olho que nunca piscava e aencarava de volta sem emoo. Suavontade era de esmagar a cmera, masrespirou fundo e tentou acalmar-se.Ficar brava no resolveria nada. Estouaqui tentando ser do bem, mas trataro Partial com tolerncia realmentefazer o bem? Estaria servindomelhor a humanidade se testasse seuslimites? Caminhou at a mesa e sentou-se, ainda olhando para a frente. Eu nemsei o que fazer.

    Deixou a cabea cair e viu a luva de

  • borracha amassada dentro do lixo. Oteste da respirao. Ela ainda precisavaencontrar uma maneira de isolar arespirao do Partial para procuraramostras do vrus RM transmitido peloar. O Esporo. No havia encontrado umjeito de fazer isso. As luvasfuncionariam, tinha certeza, mas apenasse o objeto da pesquisa estivessedisposto a colaborar. Deu uma olhadano Partial, sombrio e silencioso sobre acama.

    Kira levantou-se, pegou outra luva ese aproximou da cama, devagarinho.

    Voc tem nome?O Partial a olhou cuidadosamente, um

    olhar lento e analtico. Kira sentiu queele estava calculando tudo sobre ela.

  • Por que quer saber? Porque estou cansada de chamar

    voc de Partial.Ele a analisou mais alguns instantes,

    ento deu um sorriso lento e ressabiado. Samm. Samm repetiu Kira. Devo

    admitir que esperava um nome diferente. com dois emes. Por que dois emes? Estava escrito na minha mochila:

    Sam M. No percebi que o M era umsobrenome. Eu tinha apenas dois dias.Nunca havia conhecido ningum comsobrenome. Eu era apenas Samm. Foiassim que soletrei quando passei poruma inspeo. E assim ficou.

  • Kira ajoelhou-se ao lado dele e disse: Samm, sei que voc no tem nenhum

    motivo para me ajudar, mas gostaria quevoc entendesse que isto muitoimportante. Ontem, voc adivinhou queo RM ainda uma grande preocupaopara ns, e tem razo. Tudo que estoufazendo aqui, tudo que todos estofazendo, tentar encontrar a cura. Porisso estvamos em Manhattan, porquenada do que sobrou na ilha nos dalguma resposta. No sei se isso importante para voc, mas incrivelmente importante para mim.Daria a minha vida para encontrar acura. Sei que parece estranho, mas voulhe pedir um favor. Ela parou, quase

  • desistindo, ento levantou a luva. Voc assopraria aqui dentro?

    Ele levantou a sobrancelha. Preciso que voc a encha de ar

    explicou Kira. Com isso vou obteruma amostra do seu hlito para analisarno medicomp.

    Ele hesitou. Me diga seu nome. Por qu? Porque estou cansado de chamar

    voc de humana.Ela inclinou a cabea, olhando para

    ele. Estava de gozao? Sua voz eraainda mais montona e sem emoo.Estaria tentando uma aproximao?Estaria testando-a? Seus olhos sempretinham uma expresso fria e analtica,

  • mas havia algo de jocoso por trs. Sejal o que estivesse fazendo, ela tinhamais de um motivo. Ela contraiu oslbios, pensativa, e decidiu fazer o jogodele.

    Meu nome Kira. Pois bem, Kira, vou encher a luva

    para voc.Ela levou a luva at a boca e sentiu o

    hlito dele na sua mo. Em seguida, elaapertou a entrada da luva, enquanto eleassoprava vigorosamente. Foramnecessrias algumas tentativas atconseguir ajust-la na boca do Partial,mas logo tinha nas mos uma pequenaamostra do seu hlito. Ela afastou a luvae a amarrou bem apertado na

  • extremidade. Obrigada.Kira colocou a luva na cmara de

    amostragem do medicomp, sentindo-seum tanto ridcula, ento a fechou ecomeou a tocar na tela, procura deresultados. A lente do microscpio deuincio ao longo processo dedigitalizao do maior nmero possvelde estruturas moleculares.

    Quase instantaneamente surgiu umapequena mensagem no canto da tela: alente havia encontrado umcorrespondente parcial em seu bancode dados. Isso um trocadilho,microscpio? Um segundo depois,apareceu outra janela, ento mais duas,mais quatro, um correspondente parcial

  • atrs do outro. Kira trouxe a imagempara a tela e encontrou uma estruturaproteica bizarra, completamente nova,apesar de familiar, como apontara omicroscpio. Examinou-a atentamente.O aparelho mostrava agora dzias decombinaes, rapidamente atingindo onmero de centenas. Algo na respiraode Samm assemelhava-se muito masno era exatamente igual ao EsporoRM. Os dedos de Kira voavam pelatela, aumentando a imagem, girando-a,dividindo-a. Era extraordinariamenteparecida com o RM encontrado nosangue tamanho, formato e receptoresna superfcie. No era exatamente o RM,mas era parecido o bastante para Kira

  • sentir um calafrio percorrer seu corpo.Os detalhes diferentes eram a parte maisassustadora, pois significavam que eramnovos. Talvez uma nova cepa do vrus.

    E Samm o lanava no ar.Kira olhou para o teto, movendo os

    olhos de um lado a outro. Pensou emgritar ou simplesmente sair correndo doquarto, mas ficou parada. Precisopensar melhor. Para comear, ela noestava doente. No apresentava nenhumsintoma, nenhum desconforto, nenhumsinal de um agente patognico em ao.Aproximou-se da tela do computador,analisando a imagem: parecia o RM,mas no se parecia com um vrus. Umvrus teria o ncleo no centro, umaestrutura com as informaes genticas,

  • que penetraria na clula hospedeira e acorromperia, mas essa coisa narespirao de Samm no possua ncleo.Ela pesquisou cuidadosamente, usandoseus dedos para ampliar a imagem,examinando a estrutura em detalhe. Peloque podia verificar, essa nova clulano tinha meios de se reproduzir. Erauma verso no viral do vrus.

    Kira tinha agora algo em que seconcentrar, seja l o que fosse. Elacruzou as informaes com outras dobanco de dados, em busca de algumindcio do propsito ou da funodaquela nova estrutura. Duaspossibilidades eram bvias. Ela tomounota em seu caderno: primeira, o corpo

  • de Samm, em algum momento, produziuo Glbulo, mas de alguma forma acapacidade de produzi-lo foi removidaou ficou reduzida, deixando apenas aestrutura inerte e no viral. Era ovestgio de uma partcula, como oapndice de um rgo, o indcio de umafuno anterior. Kira meditou sobreaquilo, o olhar fixo no caderno. OsPartials teriam espalhado o RM assim?Mataram todo mundo apenasrespirando? Nesse caso, como o vrusperdeu sua capacidade de reproduo?O que virou o boto de vrus mortal paravrus inerte? Os Partials foramprojetados, pensou. Um boto comoesse, e o poder de lig-lo ou deslig-lo,poderia ter sido embutido dentro deles.

  • Mas quem teria a chave para mud-lo?Kira estremeceu. As ramificaes do

    seu pensamento embrulharam-lhe oestmago. E, no entanto, a segundasuposio sobre a partcula era aindapior: a estrutura na respirao de Sammera a precursora do vrus ativo,projetada para se metamorfosear aoentrar em contato com o sangue humano,tornando-se um Glbulo mortal. Seriaesse o segredo da imunidade dosPartials? Um vrus que seria inofensivoat encontrar um alvo humano? ParaKira, a segunda opo era a pior, poissignificava que no haveria nada quepudesse ser usado contra ele: nenhummecanismo de defesa que ela pudesse

  • copiar dos Partials. Se o alvo do RMeram os humanos, em especial, ento anica defesa contra ele seria deixar deser humano.

    Talvez a nica forma de sobreviverfosse ser um Partial.

    Kira balanou a cabea e jogou ocaderno sobre a mesa, espantando aideia. No poderia pensar assim elan o pensaria assim. Algo no cdigogentico do Partial mantinha o vrusinativo. Devia existir alguma forma decopiar essa informao gentica nocdigo gentico humano. Kira estavadecidida a descobrir o que mantinha ovrus inativo. A nica coisa que aquilocertamente provava era que Sammdissera a verdade no dia anterior: os

  • Partials tinham uma conexo com o RM,mas num nvel primrio. E qual seriaela?

    Ela tocou na tela, a fim de criar umperfil para o novo vrus. O vrus que sealojava no sangue era o Glbulo, porqueera redondo. O que era transmitido peloar era o Esporo, pois a lembrava dosesporos das plantas, que sotransportados pelo vento. Para o novovrus ela escolheu o nome Espio,porque ele no tinha nenhuma funoespecfica. Simplesmente ficavaesperando o momento certo de atacar.

    Voc no vai encontrar o queprocura.

    Kira havia comeado a trabalhar.

  • Samm tinha uma noo engraada dotempo. Mas ela estava curiosa.

    E como sabe o que estouprocurando?

    Est procurando a soluo. Estou procurando a cura. A cura apenas parte da soluo

    disse Samm. Est procurando asoluo para os seus problemas:rebeldes, epidemias, instabilidadepoltica, guerra civil. Est com medo detudo, e, para ser justo, tudo na vida devocs bastante assustador. Estprocurando a cura para dar um passo frente, para arrumar a vida de vocs.Mas no vai encontrar as respostasapenas curando o RM. E sabe disso.

    Ele tem nos escutado, pensou Kira.

  • Muito do que disse pode ter ouvido denossas conversas, mas no tudo. Nosobre a Voz, certamente. Mas ele temprestado ateno, e est chegando aconcluses. A primeira coisa que lheocorreu foi parar de falar, para que oPartial no conseguisse extrair maisnenhuma informao. No entanto, eleestava amarrado e tinha mais quatro diasde vida. Como pressupor que umaguerra civil inevitvel poderia ajud-loa escapar?

    Kira sentiu-se sufocada no quarto edecidiu abrir a janela para receber umpouco de ar. Ao passar por Samm, elenem se mexeu. Kira usou toda a suafora tentando abrir janela, praguejando

  • baixo contra o Senado por tranc-la alidentro. Ento lembrou-se que aquelequarto era completamente vedado.Sentiu-se uma tola por tentar abrir ajanela, o que a deixou ainda maisirritada.

    No queremos que vocs morram disse Samm.

    Ento, por que nos matou? Kiraolhou para ele, sentindo o rosto ficarquente e vermelho.

    J disse que no criamos o RM. O que encontrei no seu hlito mostra

    o contrrio.Se aquilo era novidade para Samm,

    ele no demonstrou. Se quisssemos vocs mortos, voc

    estaria morta disse Samm. No

  • uma ameaa, fato. Ento, que querem de ns?

    perguntou incisiva. Por que nosmantm vivos? O que esto planejando?Por isso estavam em Manhattan?

    Ele hesitou por alguns instantes. Parece que voc faria qualquer

    coisa para garantir a sobrevivncia dahumanidade. At onde est disposta aarriscar?

    Do que est falando? perguntou. O que est sugerindo?

    Ela desviou o olhar para a cmera,sabia que ouviam e assistiam a tudo. Elecalou-se e olhou para o teto.

    No! Voc no pode dizer umacoisa dessas e depois simplesmente se

  • fingir de morto. Por que comeou a falarse no vai terminar?

    Ele no respondeu. Nem sequer olhoupara ela.

    Era sobre isso que falava ontem?Que no pode nos contar porque noquer morrer? Pois vou te contar umsegredo, Samm, voc vai morrer de umjeito ou de outro. Se tiver alguma coisapara dizer, melhor dizer logo. Vocestava em Manhattan por algum motivo.Est querendo dizer que tem a ver com oRM?

    Kira esperou por um minutocompleto, mas ele permaneceu emsilncio. Ela voltou furiosa para a janelae a esmurrou. O som da batida ecooudistante. Que estranho. Ela franziu o

  • cenho, espiando pela janela e bateu denovo, perguntando-se o que causava osom. Nada aconteceu. Ela se aproximouda janela e, repentinamente, umasequncia rpida de estalos chegou dacidade. Levantou o olhar, querendosaber o que se passava. Viu uma nuvemde fumaa subir de algum lugar paraalm das rvores, a alguns quarteiresdo hospital. Os estalos continuavam numpipocar rtmico, mas foi apenas quandoviu as pessoas correndo que ela se deuconta do que estava acontecendo.

    Eram metralhadoras automticas: acidade estava sob ataque.

  • ACaptulo Vinte

    sala de reunio do hospital estavacheia. Kira, Mkele e os outros cinco

    senadores que participaram da suaaudincia estavam presentes. O climaera de tenso.

    A Voz atacou o prdio do Senado disse o senador Weist. Usaram amaior equipe de ataque que j vimos, aomenos quarenta insurgentes. E nocapturamos nenhum vivo.

    E se estivssemos l? inquiriuHobb. Seu cabelo ondulado estavaescorrido e empapado de suor, o rosto

  • plido. Ele caminhava de um lado aoutro da sala, preocupado. No temosguardas o suficiente

    O Senado no era o alvo interrompeu Mkele. Eles atacaram nummomento em que no havia sesso nemsenadores no local. Est claro que oobjetivo era entrar no prdio com amenor resistncia possvel.

    Ento foi um roubo? perguntouDelarosa. Ainda no faz sentido. muito mais fcil obter o que guardamosno prdio do Senado vasculhando forade East Meadow.

    Procuravam o Partial disseMkele. A sala ficou em silncio. Osboatos esto correndo. Essa a razopela qual convidei a Srta. Walker para

  • participar desta conversa. Um dos soldados deu com a lngua

    nos dentes, ou a prpria Kira. Nuncadeveramos ter confiado nela disse asenadora Kessler.

    Kira comeou a protestar, preparandoseus melhores e mais terrveis insultoscontra aquele olhar dissimulado deKessler, mas Mkele a interrompeu.

    Se Kira tivesse falado, teriamatacado o hospital. Acho mais provvelque a Voz no saiba o que estamosescondendo. A nica coisa que sabem que estamos escondendo algo.Obviamente, no sabem onde est. Atmesmo a mensagem que picharam noprdio no diz muita coisa: O Senado

  • est mentindo. O que estoescondendo?. Vocs no acham queeles contariam se soubessem o que ?

    Apenas se quisessem comear ummotim observou Weist. Era omnimo que poderia acontecer selanassem notcias sobre o Partial.

    Para a Voz, um motim pode ser onico objetivo vivel neste momento disse Delarosa. A nica maneira decriar a instabilidade necessria para darum golpe.

    Considerando o quanto nossoprejuzo foi pequeno, esse ataque maisnos ajudou do que atrapalhou concluiuMkele. A informao que elesaparentemente possuam, combinadacom a informao que obviamente no

  • possuam, me ofereceu uma estimativavaliosa da Rede de Inteligncia dogrupo.

    Isso uma boa notcia agora, mas, eantes do ataque? Como nosso segredovazou? Se voc to brilhante, por queno evitou tudo isso?

    Se voc tinha alguma iluso de queera possvel manter total segredo numacomunidade pequena como esta, estavaenganando a si mesmo respondeuMkele. Vocs sabiam da minhaopinio sobre a presena do Partialdesde o comeo.

    Nossa deciso foi baseada nasgarantias que voc nos deu argumentouKessler. Se est vazando informao

  • pela Rede de Defesa, precisaaveriguar

    Sabamos muito bem no queestvamos nos metendo disseDelarosa. Se o plano com a Srta.Walker der certo, cada ataque tervalido a pena. Os benefcios empotencial superam os obstculos.

    Se funcionar frisou Kessler,lanando um olhar cortante a Kira. Ese a Voz no lanar um ataquefulminante antes de ela terminar. Hmuitos senes.

    Falam do meu trabalho como se eleso estivessem executando, pensou Kira.Seu primeiro impulso foi o de protestar,mas controlou-se. Se eles pensam queestamos trabalhando juntos, quer dizer

  • ento que esto apostando noresultado. Esto apoiando o projeto.No importa de quem ser o crdito,contanto que algum encontre a cura.

    Muitos senes. E preciso apenasque um d errado para que sejamosconsiderados traidores e criminosos deguerra prosseguiu Hobb. Weiss estcerto sobre o motim: se a notcia de queum Partial est sob nossa custdia vazar,ningum vai esperar pela explicao.Vo esmagar qualquer coisa queencontrarem pela frente at ach-lo edepois vo destru-lo.

    Ento precisamos tir-lo do hospital disse Skousen. O ataque no Senadofoi altamente destrutivo. Se fizerem o

  • mesmo no hospital, teremos muito aperder: os pacientes, as instalaes, atmesmo a estrutura do prdio em si.

    Mas no podemos remov-lo insistiu Kira. O hospital Nassau anica instalao na ilha com os recursosque necessitamos para a pesquisa. Noh sequer equipamentos em outroslocais.

    A melhor opo no dizernenhuma palavra sobre o assunto disseMkele. A reao inicial do senadorWeist foi correta, de acordo com asminhas simulaes. Se a notcia de queestamos escondendo um Partial dentrode East Meadow vazar, a resposta dopovo ser impulsiva e violenta. Aspessoas vo se rebelar ou apoiar a Voz

  • em massa. Recomendo que o nmero depatrulheiros seja dobrado e o de guardasno Senado, triplicado.

    Por que complicar as coisas? perguntou Kessler. Vamos executar acriatura e acabar com o problema.

    Ainda temos muito a aprender disse Kira, mas calou-se quando Kesslera fuzilou com o olhar. Qual o problemadessa mulher?

    Concordo disse Mkele. Precisamos apenas decidir se vale apena sermos surpreendidos por causadaquilo que voc quer descobrir. Srta.Walker, poderia nos relatar os seusavanos?

    Kira olhou para ele, em seguida para

  • o grupo de senadores. Devemos cumprir o prazo de cinco

    dias disse rapidamente. Queremos um relatrio, no uma

    opinio contestou Delarosa. Os exames j revelaram dados de

    valor incalculvel disse Kira. Mesmo o primeiro exame de sangue nosforneceu mais informaes sobre afisiologia do Partial do que todos osestudos anteriores. Ele tem um sistemaavanado de plaquetas

    A criatura corrigiu Skousen.Kira franziu o cenho. Como? A criatura tem um avanado sistema

    de plaquetas disse Skousen. Estfalando de uma mquina, Kira, no de

  • uma pessoa. Kira viu o olhardesconfiado e irado dos senadores cairsobre ela, afinal, falava em nome doinimigo. Aquele no era o melhormomento para isso, no agora queestavam decidindo com que rapidezmat-lo. Quando havia comeado atrat-lo por ele? Ela balanou a cabeaobedientemente e abaixou o olhar,tentando parecer o menos ameaadorapossvel.

    Peo desculpas, foi apenas umlapso. A criatura tem um avanadosistema de plaquetas que permite acicatrizao de cortes e outrosferimentos numa velocidadeexponencial. Inmeras vezes superior ao

  • de um humano saudvel.Weist mexeu-se na cadeira. E voc acredita que o segredo

    para a cura do RM esteja na capacidadeavanada de regenerao dos Partials?

    Possivelmente respondeu Kira,embora achasse improvvel. Precisavafazer aquela informao parecer a maispositiva possvel. Mais provvelainda o que descobri esta manh. Exagerava aquela parte tambm, masprecisava ganhar tempo. Encontrei nasua respirao vestgios de um vrus RMinofensivo.

    Os senadores exclamaram emsurpresa. Hobb at sorriu. Kira sentiaque estavam satisfeitos e seguiu emfrente.

  • Ao analisar o hlito do Partial procura de algum sinal do RMtransmitido pelo ar, que denominei deEsporo, encontrei uma forma inativa eno viral do RM tipo sanguneo. Pareceque literalmente algum pegou umaamostra do RM e retirou dele todas aspartes virticas funcionais: ele no sereproduz, no contagioso, no podefazer nada. At o momento esta aevidncia mais contundente de que oorganismo de um Partial pode nos ajudarno combate ao RM.

    Estou impressionada disseDelarosa, assentindo com a cabea eolhando para Skousen. Voc estava apar disso?

  • Ela fez a descoberta hoje cedo respondeu Skousen. Ainda no tivetempo de ler os relatrios. O mdicovirou-se pesadamente na direo deKira. Voc tem certeza de que se tratade um vrus neutralizado e no de umRM esperando para ser ativado?

    Tinha certeza de que mequestionaria sobre isso.

    Ainda estou pesquisando. Parece-me prematuro apresentar a

    questo de forma to definitiva quandovoc ainda nem tem certeza do que setrata.

    Mesmo que sejam pequenasevidncias, todas apontam para umaconcluso positiva disse Kira. Se

  • houvesse um novo vrus, encontraramossinal dele em algum lugar: novossintomas, novos pacientes,provavelmente uma nova epidemia. Ele,digo, a criatura, est sob a nossacustdia j h alguns dias e ningum estadoecendo. Nem mesmo eu, que tenhopassado a maior parte do tempo comele.

    E se no for um novo vrus? perguntou Skousen. E se for o velhoRM a que todos somos imunes e, porisso, est inativo na amostra?

    Isso totalmente possvel, mas oque estou defendendo que a outrateoria tambm pode ser possvel. Isso um bom sinal. Qualquer que seja a teoriacorreta, ela , at o momento, nosso

  • resultado mais consistente e promissor.Superando at minhas prpriasexpectativas para um dia e meio depesquisa.

    Pode existir algo de concreto no queela est dizendo observou Weist. Osenador inclinou-se para a frente,olhando para os colegas. E se existirmesmo a cura?

    Manteremos o combinado disseDelarosa, lanando a Weist um olharagressivo, para surpresa de Kira. Srta.Walker, concordo com seus argumentos:sejam positivos ou no os resultados,vale a pena continuar investigado o quevoc encontrou. Aprenda tudo que pudere no hesite em solicitar qualquer coisa

  • de que precise. Preciso do sangue de um recm-

    nascido disse Kira, de pronto. O quepedira foi to bizarro que mesmo ela fezuma careta. Gostaria de ter dito aquilode maneira menos grotesca. Daprxima vez que um beb nascer, nomomento em que ele apontar a cabea,preciso que retirem uma amostra desangue. Quero estudar o processo deinfeco, ento, o tempo fundamental.

    Delarosa olhou para Skousen, quesuspirou e assentiu com a cabea. Asenadora olhou para Kira.

    Faremos o possvel. E o que faro em relao

    segurana? perguntou Skousen,exigindo uma resposta. Um ataque da

  • Voz ao hospital seria devastador.Delarosa manteve o olhar fixo num

    ponto sobre a mesa, perdida empensamentos.

    Sr. Mkele, essa a suaespecialidade.

    Precisamos aumentar o nmero desoldados nas ruas. Mas se a Vozperceber que reforamos a segurana nohospital, far dele seu prximo alvo. preciso cuidado.

    Vamos transferir o Senado para ohospital disse Hobb. Pensaro quepor isso reforamos a segurana.

    Mkele balanou a cabea. Isso s iria piorar a situao. O

    Senado continuar a se reunir na sua

  • sede Voc est louco? interrompeu

    Hobb. A Voz j procurou no edifcio do

    Senado e no encontrou o queprocuravam respondeu Mkele,contrariando o senador. No voatacar o local novamente. Nossoobjetivo agora confundi-los comvrios alvos, e no entregar de bandejaa informao de onde devem atacar.Vamos aumentar o patrulhamento emtoda a cidade, usaremos soldados deLaGuardia. Vamos aumentar tambm apresena de policiais armados em cadaprdio da nossa administrao em EastMeadow. No podemos dar nenhumadica sobre o que estamos escondendo

  • nem onde o escondemos. Vamos deixarque usem seu precrio sistema deinformao para decidir o prximo alvo.Isso nos dar tempo.

    Quanto tempo? perguntou osenador Weist.

    Mkele olhou para Kira. Precisamos apenas de mais trs dias

    e meio, certo? Da destruiremos acriatura e o caso estar encerrado.

    Hobb assentiu com a cabea. Apenas destru-lo j resolve. A

    notcia vai se espalhar. No podemosparecer culpados. a nica forma demanter o controle.

    Controle? perguntou Kira,lembrando-se de como ela tambm tinha

  • sido spera com Isolde quando a irmusara a mesma palavra. Era assim que oSenado falava sobre eles?

    Delarosa encarou Kira, o olhar frio epenetrante.

    Sim, controle. Ou no sabe docrescente clima de instabilidade queronda a ilha?

    Claro que sei, mas A Voz? continuou. Os ataques

    terroristas contra inocentes? Apossibilidade real de uma guerra civildestruir o que sobrou da humanidade?Qual a sua proposta para uma situaocomo esta, a no ser forar o controle?

    No sobre isso que estou falando respondeu Kira.

    Mas o que sugere rebateu

  • Delarosa. Est sugerindo que controlar ruim e que as pessoas devem escolhersozinhas o que fazer, sem a nossaorientao. No me diga que acreditaque, na atual situao, iro se resolversozinhas?

    Kira percebeu o olhar malicioso deKessler, mas manteve-se firme eprosseguiu.

    Estou dizendo que talvez estejamsendo intransigentes demais. A principalreclamao da Voz a Lei daEsperana. Na opinio deles, vocsesto exercendo controle demais sobredireitos humanos bsicos.

    E qual a nossa alternativa? perguntou Delarosa. Voltar atrs?

  • Desistir do nosso objetivo de conseguirque um recm-nascido seja imune esobreviva? O futuro da raa humana,como voc frequentemente nos recorda, o ponto nevrlgico de tudo o quefazemos. Institumos a Lei da Esperanapara maximizar as chances dereproduo. o melhor mtodo e o maissimples. Sim, muitas pessoas reclamam,mas chega um momento na vida dasespcies que reclamaes e direitoshumanos vo parar no banco de trs, poruma razo: a sobrevivncia, pura esimples. Kira balanou a cabea. Euera zoologista. Trabalhava napreservao das espcies. Emdeterminado momento, fiqueiresponsvel pela preservao da

  • populao mundial dos rinocerontesbrancos: todos os dez. Dois machos.Voc tem ideia do que aconteceu comeles quando o mundo desabou?

    No, senhora. Abri as jaulas e os deixei livres.

    Abdiquei do controle. Delarosa calou-se por alguns instantes. Um deles foimorto por um leo da montanha namesma noite. Passei pelo seu cadver namanh seguinte, quando me dirigia aoabrigo mais prximo.

    Ah, ento isso disse Kira,tentando ignorar o arrepio que percorreuseu corpo. Somos apenas outraespcie em extino no seu zoolgico.

    E voc pode negar isso?

  • perguntou Delarosa.Kira cerrou as mandbulas,

    esforando-se para encontrar umaresposta que no casse feito uma luvana mo da senadora.

    Somos muito mais do que dez. Graas a Deus.Kira olhou para a fila de senadores,

    com Mkele estoicamente em p atrsdeles. Ela no conseguia pensar em nadapara dizer.

    O mundo est capengando disseHobb. Sabemos disso. O que vocprecisa entender que estamos fazendoo nosso melhor para salv-lo. D umaolhada a sua volta: Skousen o melhormdico do mundo, Delarosa, a melhoradministradora que eu j conheci e

  • Kessler, a razo pela qual ns temos oque comer. Ela literalmente recriounossa agricultura e o programa demercado. Os trs trabalham dia e noitepara resolver os problemas que vocest apenas comeando a entender. Ecomearam a fazer isso antes de vocsaber ler. Existem planos e planoscontingenciais que voc sequer imagina.Por favor, confie em ns.

    Kira assentiu lentamente, pensando noque ele dissera.

    Vocs tm razo. Eu disse a mesmacoisa quando estvamos planejandonossa viagem a Manhattan. Nada maisimportante do que garantir nosso futuro.Estava disposta a sacrificar tudo.

  • Exatamente disse Delarosa. Nesse caso Kira parou por um

    instante. Seu plano para garantir ofuturo a Lei da Esperana, e, paracontrolar a situao, matar o Partial,como sugeriu o senador Hobb. E de umaforma que no manche a sua imagem.

    De uma forma que mantenha aordem disse Hobb.

    Kessler ofendeu-se. Voc no precisa me explicar tudo

    nos mnimos detalhes disse Kessler,rspida.

    E o meu trabalho? Tudo que venhofazendo para encontrar a cura? Como elese encaixa no plano de vocs? Kirafranziu o cenho. Tem ao menos

  • prioridade? So planos entre outros planos. Se

    conseguir algum resultado positivo,daremos nosso apoio, caso contrrioprecisamos estar preparados.

    Preparados de que forma?,perguntou-se Kira.

    S no se esquea disso:absolutamente ningum pode saber o queestamos fazendo disse Delarosa. Depositamos nossa confiana em vocporque voc insistiu nos seusargumentos e se mostrou inteligente ecapaz. Mas deveria ter pensando nissoquando colocou os ps de volta na ilha:se algum descobrir o que estamosfazendo aqui, no teremos um motim,mas uma revoluo.

  • KCaptulo Vinte e Um

    ira foi lanchonete antes de voltarao laboratrio. Precisava de tempo

    para pensar.O que o Senado estaria planejando?

    Em parte, ela sabia que tinham razo,mas dentro dela uma voz dizia para ficaresperta. Eles vislumbravam os mesmosproblemas que ela, mas as solueseram muito diferentes: Kira desejava acura do RM, porm os senadorespareciam encarar aquilo como um meiode manter o controle. Ela concordavaque havia boas razes para isso: a

  • comunidade de East Meadow podia sertudo, menos coesa, e a populao forados limites da cidade estava em situaopior. Precisavam de uma liderana forte,um pulso firme indicando a direo.

    Porm.Kira fechou os olhos, respirando

    profundamente, e mudou de pensamento.Chega de Senado. Preciso voltar aotrabalho.

    Caminhou rapidamente peloscorredores, ignorando o alvoroo aoredor. Cumprimentou Shaylon, que faziaa segurana, e entrou no laboratrio. Ojato de ar silvou, os circuitos dedescontaminao apitaram, e l estavaele, amarrado na cama, os braosestendidos, o rosto voltado para cima, o

  • olhar escuro e sombrio. Ele olhou paraKira, mas logo voltou a encarar o teto.

    Kira tocou a tela do computador paratir-lo do modo de descanso e encontrouo arquivo com a anlise da respiraoainda aberto; agora o escaneamentoestava completo, com milhares dediferentes partculas catalogadas. Amaioria delas havia sido reconhecida,tanto as orgnicas como as inorgnicas:gases comumente presentes naexpirao, fragmentos de clulas mortas,microscpicas partculas de poeira,pequenas quantidades de minerais e umpunhado de bactrias conhecidas. Nadade especial. Por outro lado, a lista departculas desconhecidas era dez vezes

  • maior. Ela ampliou o contedo na tela,fazendo as informaes correrem aotoque do seu dedo. Inmeras imagens decompostos qumicos bizarros, algunsgrandes, outros pequenos, todos comformato mpar e incrivelmente estranho.Nunca tinha visto nada igual. Enquantopassava as imagens na tela, notou quemuitos compostos apresentavamsemelhanas entre si, resultando numasubdiviso de categorias, que serepetiam inmeras vezes. Kira comeoua marcar as imagens, estudando asmolculas, sinalizando o que parecia seros aspectos-chave e agrupando-os emsubgrupos, programando o medicomppara identificar as diferentes partes doscompostos. Logo o prprio computador

  • percorria as listagens, dividindo oscompostos em nove tipos principais,com um dcimo grupo que noapresentava nenhuma conexo com osdemais. As informaes ainda noesclareciam como as partesfuncionavam, e Kira no conseguiadistinguir uma parte das outras. Seja l oque fossem, seu corpo estava cheiodeles.

    Nenhum dos compostos encontradosse aproximava da complexidade doEspio. No se assemelhavam anenhuma substncia conhecida tecido,alimento, mineral ou plstico. Ela olhoupara o Partial, depois voltou para a telado computador. Contraiu os lbios e

  • levantou-se. Esses elementos eramnumerosos e constantes no sangue dele,no poderiam ser apenas umacasualidade, deveriam desempenhar umafuno, e seu corpo precisava desintetizadores e receptores para tirarproveito deles. Ser que estavarelacionado com a resistncia dosPartials? Havia apenas uma forma dedescobrir. Ela caminhou at a cama decirurgia, destravou as rodas e comeou aempurr-la pelo quarto. Kira imaginouque Samm fosse perguntar o que elaestava fazendo, mas ele permaneceucalado.

    Ela o empurrou at o DORD, umamquina pesada, quase to grandequanto alguns dos carros que

  • enferrujavam no estacionamento. Era amaior arma do seu arsenal laboratorial:um tomgrafo que podia gerar imagensdo corpo todo, camada a camada,pedao a pedao. Ligou o aparelho evoltou para o medicomp enquanto oequipamento carregava. As categoriasque ela havia criado para os compostosainda estavam na tela, junto com vriasdas melhores imagens deles. Ela salvouas imagens antes de fech-las edesconectou o computador domedicomp, carregando-ocuidadosamente at o DORD. Ocomputador possua um impressionantepoder de processar informaes, masno se comparava aos sistemas de

  • sensores aos quais podia se conectar.Ela conectou o computador ao DORD,ouvindo o clique de encaixe, e logo apsalguns toques a mquina estava prontapara comear a operar. O DORD iriaescanear os pulmes de Samm, agarganta e cavidades nasais procura dequalquer coisa que se assemelhasse aomisterioso Espio, assim Kira teria umaboa ideia da sua origem e do seudestino. As outras informaes ela teriaque intuir. Kira levantou os sensores,movendo-os para o lado e centrando-osna respirao de Samm. Era uma partevolumosa e pesada do equipamento,dentro de uma concha plstica branca, eapesar de ser o objeto mais pesado dasala, no era difcil de manusear. Ela

  • tocou na tecla iniciar e o DORDentrou em ao.

    Kira observava atentamente a tela,ansiosa para saber o que as imagensrevelariam. No foi um processo rpido.Ela tamborilou impacientemente osdedos na base do DORD, ento se viroue foi at a janela. Apesar da recusa deSamm em falar, Kira sentia vontade deperguntar se ele sabia o que eramaquelas partculas, mas o escaneamentohavia comeado e qualquer movimentoalteraria o resultado. Virou-senovamente e olhou para ele, imvelcomo uma pedra, parecia at que faziade propsito.

    Kira percebeu um movimento na tela

  • e correu para ver. O DORD j mostravae categorizava algumas imagenspreliminares. Analisou a lista e abriu umdos compostos, rotulado como M,formado por uma particulazinhaesquisita, no formato de ferradura. ODORD havia encontrado diversasestruturas no corpo de Samm quepoderiam ter alguma ligao com ela:uma na cavidade nasal e as outras nospulmes. Kira ampliou as imagens dasestruturas, colocando-as lado a lado natela. Pareciam glndulas, mas nenhumafamiliar a Kira. A que estava nos seiosda face, as cavidades sseas ao redor donariz, ma do rosto e olhos, erasignificantemente maior que as outras. ODORD havia cruzado essas informaes

  • com as de vrios outros arquivos. Kiraabriu a lista de resultados e correu osolhos por ela, um pouco surpresa com oque lia. O tomgrafo havia relacionadoaquela imagem com todos os compostosque ele havia procurado at aquelemomento. No pulmo, cada estruturaapresentava sua prpria glndula, mastodas estavam ligadas a estrutura maiorna cabea.

    Kira analisou mais atentamente aglndula enquanto o aparelho continuavatrabalhando. O que ele tinha feito? Nopodia simplesmente esperar que ocomputador adivinhasse as respostas,mas poderia solicitar uma pesquisa noseu banco de dados que buscasse

  • combinaes parciais. Ela deu incio pesquisa e olhou novamente para aimagem, determinada a suportar outralonga espera, mas os resultados foramquase imediatos: sem correspondente.Ela franziu o cenho e recomeou o teste:sem correspondente.

    Vou ter que fazer isso manualmente.Considerando-se que cada estruturatinha um par de estruturas relacionadas,a primeira deduo bvia era de queuma estrutura criava a partcula e a outraa prendia: um escritor e um leitor. O quesignificava que elas carregavaminformao. Fez outra pesquisa, destavez procurando no banco de dados poralgo que no fosse humano. O DORDencontrou um arquivo antigo, de antes do

  • Break, em que algum havia escaneadoum cachorro, e ela pediu que ocomputador procurasse estruturascorrespondentes. A resposta foi quaseinstantnea: uma estrutura notadamentesimilar encontrada em Samm, apesarde muito mais simples. Era um rgovomeronasal[7].

    Samm possua um sistema deferomnios altamente sofisticado.

    Kira acessou mais arquivos, lendotudo que podia sobre os feromnios. Eraum sistema simples de comunicaoqumica, como um odor, mas muito,muito mais especializado. Os insetosusavam os feromnios para coisascomuns como marcar caminhos ou

  • avisar outro inseto sobre algum perigoiminente, cachorros os usavam parademarcar territrio e sinalizar perodosde reproduo.

    Qual a utilidade dos feromnios paraos Partials?

    No tenho nada a perderperguntando, pensou.

    Me fale um pouco sobre seusferomnios.

    Era previsvel que Samm norespondesse.

    Voc tem um sistema altamentedesenvolvido de sintetizadores ereceptores qumicos. Pode me falarsobre eles?

    Sem resposta. No pode me culpar por tentar.

  • Pensou por uns instantes, olhando aoredor, ento abriu o medicomp e pegou aluva de borracha em que Samm haviaassoprado. Ela aproximou a luva dorosto de Samm, furou-a com um alfinete,apertando-a o mximo possvel, o arentrou diretamente nas narinas de Samm.Ele tossiu, lanando perdigotos pelo ar,e levantou a cabea num movimentobrusco para fugir do jato de ar. O quesurpreendeu Kira foi notar que seucomportamento ficou mais tranquilo osbatimentos cardacos aumentaram aoreagir entrada forada de ar, mas emseguida caram novamente enquanto elereagia a alguma coisa. Aosferomnios. Os olhos relaxaram, a

  • expresso descontraiu e a respiraotornou-se mais regular.

    Kira percebeu que ele apresentava amesma expresso da manh em queconcordara em assoprar na luva.

    Droga, isso no justo!Kira levou as mos aos lbios. O que aconteceu? Voc est usando meus prprios

    dados contra mim, e agora eumaldio! Ele fechou a boca e olhoupara o teto.

    Quais dados? perguntou Kira. Os feromnios? Voc tambm os chamaassim? Ela olhou para a luva em suamo, agora vazia e molenga. Vocacabou de me dizer algo que no queria,certo? Nunca fez isso, um lapso. O que

  • os feromnios fizeram?Samm no respondeu, e Kira

    aproximou a luva do rosto, examinando-a. Caminhou at o centro da sala,lembrando-se da disposio dos mveise equipamentos pela manh o DORDestava aqui, a mesa ali e Samm em cimada cama. Ela pediu para que eleassoprasse dentro da luva e eles haviamcompartilhado algo, um minuto de dealgo. De comunicao verdadeira. Elafez alguma brincadeira com o nomedele, ele brincou de volta e entoconcordou em deix-la coletar suarespirao. Ele havia confiado nela.

    E bem naquele momento, depois deela ter lanado o ar no seu rosto e ter

  • feito uma pergunta, novamente eleconfiara nela no por muito tempo,mas por um momento, tempo suficientepara sua couraa agressiva deautocontrole falhar. Ele haviarespondido a sua pergunta.

    Os feromnios haviam recriado aconfiana que ele havia sentido pelamanh, fazendo com que ele a sentissenovamente.

    Funciona como um sistema qumicode empatia disse Kira baixinho,caminhando em direo a Samm. O quevoc estiver sentindo, voc transmitepelos feromnios e assim os outrosPartials podem sentir tambm. Ou pelomenos saber o que voc est sentindo.Kira sentou-se numa cadeira ao lado

  • dele. como bocejar: voc podepadronizar o estado emocional de umapessoa atravs de um grupo inteiro.

    Voc no pode mais usar issocontra mim disse Samm. No voumais respirar dentro da luva.

    No estou tentando usar isso contravoc, estou tentando entend-lo. Comovoc se sente comunicando-se pelonariz?

    Samm virou o rosto para olh-la. Como voc se sente comunicando-

    se pelo ouvido? OK, foi uma pergunta idiota, voc

    tem razo. Voc no sente nada, apenas parte de voc disse Kira,balanando a cabea.

  • Eu havia me esquecido de que oshumanos no podem se conectar disseSamm. Todo esse tempo estive toconfuso, tentando descobrir por quevocs so to melodramticos sobretudo. porque vocs no podem captara emoo do outro pelos links, entoprecisam transmiti-la atravs da inflexoda voz e da linguagem corporal. Ajuda,admito, mas meio histrinico.

    Histrinico? perguntou Kira.Aquela era a primeira fala mais longadele. Estaria ele falando abertamente ouera outro dos seus planos bemcalculados? O que tinha a ganhar comisso? Ela manteve a conversa fluindopara ver at onde ele iria. Se depende

  • de gatilhos qumicos para dizer spessoas como se sente, isso explicamuito sobre voc. Para os padreshumanos voc no demonstra quasenenhuma emoo: se para voc somosmelodramticos, para ns voc parececompletamente aptico.

    No so apenas emoes disse.Kira inclinou-se para a frente,

    morrendo de medo que ele parasse defalar a qualquer momento, suas palavrasestourando no ar como bolhas de sabo.

    Isso nos permite saber se algumest em perigo, se est machucado ouanimado. Ajuda a funcionarmosenquanto unidade, todos trabalhandojuntos. Os conectores foram criadospara o campo de batalha, obviamente.

  • Se um humano est vigiando e v algumacoisa, ele tem que gritar um aviso, eento os outros humanos precisamacordar, tentar descobrir o que est sepassando e se preparar para o combate.Se um sentinela Partial v alguma coisa,os dados so transmitidos pelo link e osoutros soldados ficam sabendoimediatamente, a adrenalina dispara, osbatimentos cardacos se aceleram, seusreflexos de luta entram em ao e, derepente, o esquadro inteiro est prontopara a batalha, s vezes sem uma nicapalavra.

    Os dados disse Kira. Dados elink, palavras do jargo tecnolgico.

    Ontem voc me chamou de rob

  • biolgico observou Samm. No esttotalmente inexato. Pela primeira vezele deu um sorriso sincero e Kiraretribuiu com outro sorriso. No seicomo vocs, humanos, funcionam, masno me surpreende que tenham perdido aguerra.

    As palavras ficaram suspensas no arcomo uma nuvem de veneno, matandoqualquer esperana de que a conversacontinuasse amigvel. Kira virou-separa a tela, segurando-se para no gritarcom ele. Sua atitude tambm mudara; decerta forma, estava mais solene.Pensativo.

    Eu trabalhava numa mina disse, avoz suave. Vocs nos criaram paravencer a Guerra de Isolamento, e

  • vencemos. Voltamos para casa e ogoverno americano nos deu empregos, eo meu era de mineiro. No era umescravo. Tudo funcionava dentro dalegalidade, era uma atividadeapropriada e humana. As palavraspareciam ter um sabor amargo. Mas euno gostava daquilo. Tentei conseguirum emprego diferente, mas ningumcontratava um Partial. Tentei estudar,busquei uma qualificao, mas nenhumaescola me aceitou. No podamos mudardo cortio que o governo nos reservara,o que ganhvamos mal dava para viver,e ningum queria nos vender um imvel.Quem gostaria de ter uma pessoalartificial como vizinho?

  • Ento se rebelaram? Odivamos vocs. Eu odiava vocs.

    Ele virou a cabea para olh-la nosolhos. Mas no queria um genocdio.Nenhum de ns queria.

    Algum queria disse Kira, a vozembargada pelas lgrimas que elaevitava.

    E voc perdeu toda a ligao com oseu passado. Sei exatamente como sesente.

    No, no sabe respondeu Kira,rispidamente. Voc pode falar o quequiser, mas no diga isso. Perdemosnosso mundo, nosso futuro, nossasfamlias

    Seus pais foram roubados de vocs

  • disse Samm, naturalmente. Nsmatamos os nossos. Seja qual for a dorque sentem, no carregam o sentimentode culpa.

    Kira mordeu o lbio, tentandocompreender os prprios sentimentos.Samm era o inimigo, e mesmo assim elasentia pena dele. Suas palavras a tinhamdeixado furiosa, mas sentia-se quaseculpada por pensar assim. Ela engoliuem seco, forando-se a uma resposta queem parte era acusao, em parte umpedido desesperado de compreenso.

    por isso que est me dizendo tudoisso? Por que se sente mal de termatado?

    Estou dizendo isso para vocentender que a cura no o suficiente. A

  • guerra foi devastadora, mas osproblemas comearam muito antes.

    Kira balanou a cabea, as palavrassaindo muito mais speras do que elamesmo esperava.

    No venha me dizer o que eupreciso entender. Ela saiu do ladodele e voltou ao trabalho.

    um sistema de comunicao explicou Kira. Acabara de anoitecer, e,como no havia almoado, Kira decidiraencontrar Marcus para jantar um poucomais cedo. Comprara sushi de umambulante e o casal comia num quartovazio do terceiro andar, longe daagitao e das pessoas dos andaresinferiores. Kira comia e falava to

  • animadamente que mal conseguiaacompanhar o prprio ritmo. A conversaque tivera com Samm no lhe saa dacabea, queimando por dentro comocarvo em brasa, mas ela obrigava-se aignorar aqueles sentimentos.

    Um sistema qumico decomunicao, como as formigas, masinfinitamente mais sofisticado. Imaginepoder conversar com as pessoas apenaspela respirao. No precisaria dizeruma nica palavra, j saberiam tudo

    No consigo te imaginar sem fala.Acho que enlouqueceria brincouMarcus.

    Ha-ha-ha disse Kira, revirando osolhos.

  • E como funciona? No sei o que podem comunicar

    quimicamente. Cataloguei pelo menosvinte diferentes tipos de feromnios,mas mesmo esse nmero multiplicadopor dez seria um vocabulrioincrivelmente pequeno. Mas, se a gentepensar que um soldado dissesse estoumachucado, assim que estivesse nessasituao, todos os outros ficariamsabendo imediatamente e saberiammuito bem onde procur-lo. umsentido social que ns no possumos eest sempre presente, como uma segundanatureza. D para imaginar como seriaestar desconectado dos outros? Ele devese sentir mais sozinho que

  • Mais uma vez lhe veio cabea o queele havia dito: que a humanidade eramseus pais. Como seria viver na vastidodo territrio americano, deserto esilencioso?

    Esto sozinhos, Marcus. Isso trgico, no acha?

    Ento ele tem sorte de ter voccuidando dele. Eu odiaria que ocoitadinho do Partial se sentissesozinho.

    No foi o que quis dizer. Cuidar dosoutros o que amo fazer, Marcus. Voctambm mdico. Achei que fosseentender por que to fascinante. Noestamos falando de Samm, estamosfalando de

  • Ah, vocs j esto at se chamandopelo primeiro nome, uau! Marcustentou dizer aquilo como se fosse umabrincadeira, mas Kira sentiu averdadeira motivao por trs docomentrio. Ela o conhecia bem demais. Brincadeira, Kira. Agora, falandosrio, ele um Partial. O maior inimigodos seres humanos, esqueceu?

    o que estou tentando lhe dizer.Talvez j no sejam mais nossosinimigos.

    Aquela coisa est colocando isso nasua cabea? O olhar de Marcus eraigual ao dos senadores. Tratavam-nacomo se ela fosse uma idiota. Ele estpreso, sozinho, e a gente acaba sentindo

  • pena. Mas ele tentou te matar, noapenas durante o Break, mas semanapassada, em Manhattan, usando umaarma. Ele um soldado inimigo e umprisioneiro de guerra. Ningum sabe oque seria capaz de fazer contra voc, oucontra a cidade inteira, se fosselibertado.

    Entendo. Mas voc no conversoucom ele. Ele no fala como um monstro.Ele no parece um monstro.

    Dois dias atrs ele era seu objeto deestudo, sua cobaia disse Marcus. Antes disso, um inimigo sem identidadeque voc estava preparada para cortarum pedao. Daqui a dois dias, vai ser oqu? Um amigo?

    No isso que estou dizendo.

  • Daqui a trs dias ele estar morto.Conheo voc desde sempre, Kira, eposso ver exatamente onde isso vaichegar. Primeiro, vai sentir pena dele,depois, vai se apegar a ele. Ento,quando ele morrer, vai ficar dilacerada,porque na tua cabea voc tem aobrigao de salvar todo mundo.Acontece a mesma coisa com os recm-nascidos: voc se sente responsvel porcada um que morre. O Partial apenas oobjeto da sua pesquisa, agravado pelofato de ele ser esperto o suficiente parafalar o que voc deseja ouvir. S noquero que voc se apegue muito a ele.

    No me apegar muito? perguntouKira, sentindo a raiva reaparecer. O

  • quanto voc acha que ns estamosapegados?

    Pera. No foi nada disso que euquis dizer.

    No foi? perguntou Kira, fervendode raiva. Pois pode apostar que pareceque voc est me acusando de algumacoisa.

    No estou te acusando de nada.Estou apenas te avisando

    Me avisando? Escolhi mal a palavra. Me avisando do qu? Kira exigia

    uma resposta. Me avisando para nofazer nenhuma amizade que voc noaprove?

    Alertando sobre voc mesma. Vocconhece muito bem sua tendncia de se

  • prender a sonhos impossveis e depoisser esmagada por eles quando desabam.Voc no estava satisfeita ajudando osbebs, queria curar o RM. Agora vocno pode apenas estudar um Partial,voc precisa, o que mesmo? Fazer aspazes com eles? isso que Samm estdizendo?

    claro que no respondeu, semacreditar muito nas prprias palavras. Estou apenas tentando dizer que,confiando ou no em Samm, h muitascoisas sobre eles que ns ignoramos.Eles se rebelaram porque foramoprimidos pelos humanos. Se os doislados forem razoveis, quem sabedesta vez tudo d certo. Eu no sei.

  • Ela tentava ordenar as ideias. Noestou dizendo para abaixarmos a guardae esquecermos tudo o que aconteceu,mas, apenas, que talvez eles j noqueiram mais nos prejudicar. E se elestm a chave para a cura do RM, a paztalvez seja nossa nica chance. Elaolhou para Marcus nervosamente,rezando para que a compreendesse.

    Eles se rebelaram e nos mataram repetiu.

    As colnias americanas serebelaram contra a Inglaterra h quasetrezentos anos argumentou Kira. Osingleses superaram isso e tornaram-senossos melhores amigos.

    Os americanos no lanaram umvrus que destruiu o mundo.

  • Talvez nem os Partials. Talveztenha muita coisa sobre a guerra que agente no sabe. Tudo que falamos sobre o que eles nos fizeram, mas nopode ser assim to simples. Se Sammestiver falando a verdade

    Tudo se resume ao Samm, no ? perguntou Marcus, balanando a cabeaem desaprovao.

    Aonde quer chegar, Marcus? Elao encarou. Est com cimes? Eu amovoc. Ela manteve o olhar fixo nodele. Por favor, tente entender o queestou dizendo.

    Ama de verdade? Claro que amo. Ento, case comigo.

  • Kira arregalou os olhos. Era a ltimacoisa que esperava ouvir, naquelemomento, naquela situao.

    Eu Somos jovens, mas no to jovens.

    Voc pode morar comigo. Escolhi umacasa espaosa para voc. Para ns.Podemos envelhecer naquela casa, equando voc encontrar a cura para oRM, teremos uma famlia. Mas noprecisamos esperar. Podemos ficarjuntos agora.

    Kira olhou para ele imaginando seurosto ao lado dela em todos osmomentos: noite, quando fossemdormir, pela manh, ao acordar, semprecom ela, enfrentando juntos tudo, e nada.

  • Era o que sempre desejara, desde ainfncia, quando ficavam olhando asestrelas, em cima do telhado da escola.

    Mas j no era to simples.Ela balanou a cabea to lentamente

    que mal sentiu o movimento, torcendopara que fosse lento o bastante a pontode Marcus no perceber que ela diziano.

    Sinto muito, Marcus. No posso.Marcus manteve a cabea levantada,

    escondendo as emoes quaseperfeitamente, mas nem tanto.

    No agora ou no nunca?Ela pensou sobre os recm-nascidos,

    o RM, a guerra, os Partials, o seutrabalho no laboratrio e em tudo queSamm dissera. Curar o RM no era o

  • suficiente. A paz seria o prximo passo?Seria mesmo uma possibilidade? Haviaperguntas demais, sombras demais paraque pudesse enxergar com clareza. Elabalanou a cabea.

    No agora. E no vou saber aresposta at o momento em que decidir.

    Tudo bem. Ele ficou em silncio edeu de ombros. Tudo bem. Eleaceitou muito facilmente, como seesperasse aquilo.

    Perceber isso foi o mais difcil.

  • KCaptulo Vinte e Dois

    ira havia analisado apenas doisteros das imagens produzidas pelo

    DORD quando percebeu que o caminhono era aquele. Estava investigando ofuncionamento do sistema deferomnios, mas isso no traria nenhumprogresso em relao ao RM. Quandomal conseguia manter os olhos abertos,decidiu que era hora de parar por aquelanoite. No quero andar at minha casa,pensou. Preciso de um colcho paradormir aqui mesmo. Ela precisava deajuda. Era impossvel apenas uma

  • pessoa examinar sozinha todos os dadossobre a fisiologia de Samm e encontraras respostas que procurava. Samm aindaestava acordado ela nem tinha certezase ele dormia , mas, desde que voltarado jantar, ele estava quieto. Ela gostariade dizer alguma coisa, mas no sabia oqu.

    Os guardas que faziam a segurananoturna pareciam mais dures que os dodia. Shaylon e seu companheiro, quelahora, j haviam trocado o turno com umadupla de soldados mais velhos esombrios. Ela deu uma paradinhaquando passou por eles, considerando seiriam interrogar Samm tambmnaquela noite, se iriam bater nele, outortur-lo de algum outro modo.

  • Gostaria de pedir a eles que nofizessem isso, mas em que ajudaria?Pensar nisso a deixou triste. Ela lanouum ltimo olhar aos soldados, antes deabaixar a cabea e seguir seu caminhopelo corredor.

    Kira parou por alguns instantes aochegar rua, respirando o ar noturno. Anoite estava quente. Aos primeirospassos, notou um movimento sob o luar.Parou novamente, temendo pelo pior um ataque da Voz, uma invaso nohospital em busca de Samm , mas entoreconheceu a voz de Haru, cortandodesesperadamente a escurido.

    Est tudo bem. Estamos quasechegando.

  • Kira apertou o passo para ouvirmelhor. Era mesmo Haru? A sombratornou-se maior e a voz, ainda maisclara. Sim, era Haru. Madison estavacom ele, respirando com dificuldade,ofegante.

    Em questo de segundos o corao deKira disparou, mas ela logo reagiu.

    Mads!A dor era to intensa que Madison

    cerrou os dentes e apertou com todafora a mo de Haru, quase esmagando-a. Haru a incentivava a andar maisrpido, era gentil, mas firme. Kira osalcanou quando j estavam noestacionamento do hospital.

    Est sangrando e nunca sentiu uma

  • dor to forte explicou Harurapidamente.

    Kira olhou para o hospital,amparando a amiga pela outra mo.

    No deveria ter andado at aqui disse Kira, sem rodeios. Ela precisavade uma conduo. Deveria ter usadouma cadeira de rodas ou chamado aemergncia. Teramos ido busc-la.

    No podia deix-la sozinha! Ela no deveria ter andado at aqui.

    No importa se voc mora perto. D para voc Haru hesitou.

    D para voc ajudar e pronto? Venha comigo. Na maternidade tem

    sempre uma equipe de planto disseKira. Ao passar pelas portas dohospital, Kira rezava em silncio,

  • implorando para quem a estivesseouvindo, por favor, por favor, salve obeb de Madison. Ainda era muitonovo, poderia morrer de m-formaoou falta de oxignio antes mesmo que oRM o atacasse. Kira auxiliou Madison adobrar o final do corredor, em direo maternidade. No caminho, quase deramum encontro em uma enfermeira quecorria desesperada.

    Sandy! gritou Kira, reconhecendo-a dos tempos em que era estagiria namaternidade. Ela precisa de cuidados!

    O beb dos Barne est sem sinal disse Sandy, gritando por sobre osombros, enquanto corria. Diga a elapara aguentar firme!

  • Ningum vai ajudar? perguntouHaru.

    Esto todos ocupados. Venhamcomigo. Ela os conduziu por uma portae acendeu a luz, acomodando Madisonnuma cadeira confortvel.

    L vem mais uma disse Madison,travando o maxilar e gemendo. Ai, porfavor, no!

    Kira apontou o medicomp para Haruno canto da sala.

    Ligue o ultrassom. Os botesvermelhos ligam o aparelho.

    Ela ajoelhou-se ao lado de Madison,tirando o cabelo da frente do rosto daamiga. Mad, consegue descrever ador?

  • Acho que so contraes. Ainda faltam dois meses. Sua

    gravidez tem sido perfeitamentesaudvel at agora, no h motivos parasentir contraes explicou Kira.

    No pode ser clica, Kira. Madison contraiu-se novamente,apertando os olhos e agarrando o braoda amiga com tanta fora que ela teveque se segurar para no gritar. A dordiminuiu e Madison desabou na cadeira,arfando.

    A dor regular? perguntou Kira.Madison assentiu com a cabea. Podemostrar onde ? Madison deslizou amo do centro da barriga at a lateral docorpo. No acho que seja no tero.

  • no estmago, Mads. Vou fazer umultrassom.

    Ela est sangrando. Voc no vaifazer nada? perguntou Haru.

    Estou fazendo tudo que posso, Haru.Traga o aparelho.

    Ele empurrou o ultrassom para pertode Madison. Estava apavorado. Kiracolocou um par de luvas esterilizadas edescobriu a barriga da amiga. No semexa pediu, colocando o sonar doultrassom contra a pele de Madison. Ligue o monitor. A tela mostrou umaimagem em forma de cunha; a imagemdigital dos rgos do abdome deMadison por meio do som. Nosprimeiros contatos com um aparelho deultrassom, Kira ficara completamente

  • perdida, mas aps semanas de prtica, aimagem borrada parecia ter adquiridocontornos definidos como cristal. Esta a bexiga disse, movendo o sonarcom uma mo e tocando a tela com aoutra. Ela era gil na leitura dasinformaes, salvando-as nocomputador para serem posteriormenteatualizadas. Este o estmago e aqui op do beb. E veja s aqui, o corpo. Trabalhava rpido, os dedos correndona tela, marcando as medidas econsultando os resultados dos examesanteriores de Madison. Bomdesenvolvimento da cabea, do trax,todos os rgos internos esto OK. Acoluna vertebral tambm est boa.

  • Madison fez outra careta de dor,cerrando os dentes e apertando osbraos da cadeira. As enfermeirasSandy e Hardy entraram apressadas noquarto.

    Chegamos, Walker, obrigada pelaassistncia. Hardy colocou as luvas eKira entregou-lhe o sonar,nervosamente, recuando enquanto asmos mais experientes da enfermeira-chefe assumiam o controle.

    Descreva a dor pediu Hardy. Forte, mas irregular, na lateral da

    barriga, prximo ao estmago. Tambmest com sangramento. Acho que umdescolamento de placenta disse Kira.

    O que isso? grave? Ela vai ficar

  • bem? perguntou Haru. Estamos fazendo o melhor possvel.

    No momento precisamos de espao paratrabalhar.

    E o beb? Ele est bem?Madison dobrou o abdome e a

    imagem na tela piscou. Havia uma sombra ali disse Kira,

    apontando para a tela. Eu vi respondeu a enfermeira

    Hardy, movendo o sonar mais parabaixo e para o lado. Quando Madisonparou de se contorcer, a imagem seestabilizou numa figura oval e escura, oestmago, e atrs dele havia umtringulo preto, de contorno irregular. Ocomputador o identificou quaseimediatamente, marcando-o em

  • vermelho. um descolamento parcial,como voc disse. Ela olhou a imagemmais de perto, analisando a ruptura. Bom trabalho, Walker.

    Kira sentiu a tenso baixar, deixando-a sem energia.

    O que isso significa? perguntouMadison.

    Que voc vai ficar bem respondeuKira. A placenta est se afastando dotero. Isso no bom, mas norepresenta nenhuma ameaa a voc ouao beb se ficarmos de olho. Voc vaificar em repouso, no pode fazeresforo. E ser melhor permanecer nohospital, onde podemos monitor-lavinte e quatro horas por dia, sete dias da

  • semana. No posso ficar aqui protestou

    Madison.Kira colocou a mo sobre seu ombro. Encare como uma colnia de frias.

    Caf da manh na cama, empregadosprontos a atend-la. O beb ficar bemse voc estiver aqui, onde podemosajud-la.

    Tem certeza de que est tudo bem? perguntou Madison. Se terei queficar em observao

    Doze anos atrs eu teria mandadovoc para casa com alguns absorventese uns comprimidos de Tylenol, mas hojeem dia no podemos brincar observouHardy.

    OK. Mas tenho que ficar em

  • repouso o tempo todo? No possolevantar nem um pouquinho?

    O menos possvel respondeuHardy. Descolamento de placenta raro, mas no seu caso quase certo quefoi causado por esforo excessivo.Precisamos interromper o processoimediatamente.

    Chega de faxina! brincou Kira. Xochi e eu vamos dar um jeito nisso.

    Madison deu um sorriso culpado,respirando para dentro.

    No deveria ter caminhado at aqui. E vou bater em Haru com uma

    corrente de bicicleta disse Kira,fuzilando-o com o olhar. Mas agora,relaxe.

  • Vamos coletar um pouco de sanguee voc vai tomar um analgsico. Depois,deve tirar um cochilo disse aenfermeira Hardy.

    Kira apertou a mo de Madison,abrindo espao para que as outrasenfermeiras cuidassem dela. A carga deadrenalina ainda estava se dissipando.Kira saiu para o corredor e despencounuma cadeira. Foi por pouco. Elaexpirou longa e vagarosamente,pensando em tudo que poderia teracontecido como tudo poderia ter sidopior. No posso suportar ver Madisoncomo Ariel, batendo desesperadamentecontra o vidro apenas para ter aoportunidade de carregar seu beb

  • morto.Mas ainda no sei como salv-lo.Ela mantinha o olhar fixo no cho,

    cansada demais para conseguir pensar. Hei.Kira levantou o olhar e viu Xochi

    parada do seu lado, o rosto abatido. Oi. Ficou sabendo da Madison? Fiquei, mas no por isso que estou

    aqui.Kira franziu o cenho. Por favor,

    chega de tragdias. Ela se endireitou nacadeira.

    O que foi? Sua voz soou maisfirme que seu estado de nimo.

    Isolde acabou de voltar do Senado disse Xochi. Vo anunciar amanh.A Lei da Esperana vai receber uma

  • emenda. A idade agora dezesseis,Kira.

  • Captulo Vinte e Trs

    oficial anunciou Isolde,deitada no sof com uma garrafana mo. Estava pela metade.

    Foi aprovada esta tarde. Ou ontem tarde, sei l. J passou da meia-noite?

    No posso acreditar disse Xochi,encarando o cho. No possoacreditar.

    Isolde deu um trago. No importa se acredita ou no.

    Voc tem agora um prazo de dois mesespara engravidar. Ordens do governo disse Isolde, levantando a garrafa, o

  • rosto vermelho e aptico. Sade! Aproveite para encher a cara agora,

    logo voc vai beber por dois alfinetouXochi.

    Kira sentou-se no sof em silncio,observando as garotas enquantoreclamavam e discutiam as motivaesdo Senado. Na superfcie, parecia que adeciso estava ligada ao ultimato daVoz. Qualquer deciso menos dura queessa, seria vista como uma concesso. OSenado precisava mandar um recado quesinalizasse na direo oposta. Mas elasabia, no fundo, que a deciso tinha aver com Samm. Era o planocontingencial mencionado pelo senadorHobb. Naquela ocasio, Kira pedirapara afrouxarem um pouco, mas, em vez

  • disso, eles apertavam ainda mais ocontrole. Claro que era um sinal defora e solidariedade para as pessoasque acreditavam na Lei da Esperana. Ecomo ficavam todos os outros? Tratava-se, praticamente, de uma declarao deguerra.

    A pior parte era manter segredo. Elasabia que Mkele estava certo se averdade sobre Samm fosse descoberta,com as tenses to acirradas, umarebelio seria catastrfica, e ela estariabem no olho do furaco. Kira noousava dizer mais uma palavra sobreSamm, ou sobre os testes, ou sobrequalquer outra coisa. O melhor a fazerera trabalhar o mximo possvel e

  • encontrar a cura para o vrus antes quecustasse a vida de mais algum.

    Entretanto, mesmo aps dois dias detrabalho intenso, no estava nem pertoda cura. Ela conhecia a forma de pensarde Samm, como se comunicava, comorespirava, comia e se movia, s faltavadescobrir como sua imunidadefuncionava. Estava confusa. E como nopodia contar a ningum, estava sozinhana sua confuso.

    A sensao era de estar afundando.Isolde deu outro trago. Beber durante a gravidez crime,

    com pena de encarceramento emonitoramento em tempo integral.Preciso aproveitar agora.

    Seu beb mais importante que

  • seus direitos disse Xochi. Para oSenado voc apenas um tero compernas.

    V se cresce! disse Kira,exasperada. Assim que pronunciouaquelas palavras, sentiu-se culpada. Elaconcordava com Xochi, ento por que aatacava? A Lei da Esperana no estavafuncionando e o Senado a tornava maiscruel, pelos motivos errados. Talvezfosse o jeito que Xochi disse aquilo, anfase nos direitos pessoais sobre todoo resto. Kira j chegara a pensar assim,mas agora as coisas eram diferentes. Elapresenciara os debates no Senado,percebera o medo nos olhos deles.Tratava-se de extino, como salientara

  • Delarosa. As garotas se voltaram paraela, e o olhar de surpresa delas fez saumentar sua raiva. Ser que j passoupela sua cabea que talvez existamcoisas mais importantes que os seusdireitos?

    Xochi levantou a sobrancelha. Parece que tem algum a fim de

    brigar. No aguento mais ouvir falar em

    direitos civis, privacidade e em poderinviolvel de deciso pessoal. Se noresolvermos nossos problemas seremosextintos. No existe meio termo. Agora,se nos resta apenas a extino, que noseja porque Xochi Kessler estpreocupada demais com seus direitospara colaborar.

  • Xochi encrespou. Isso no colaborao, mas um

    estupro institucionalizado. O problema o governo ter controle total sobre onosso corpo. No vou deixar nenhumvelho tarado encostar em mim porque alei diz que tem que ser assim.

    Ento escolha um jovem tarado, ouuse a inseminao artificial. Essas soas opes e voc sabe disso. No temnada a ver com sexo. Tem a ver comsobrevivncia.

    Gravidez em massa a pior soluopossvel concluiu Xochi.

    Parou, parou disse Isolde, a vozpastosa. Vamos nos acalmar por uminstante. Ningum est feliz com isso

  • Pelo jeito a Kira est disse Xochi. Claro, ela tem namorado, faz sentido.J devem at estar transando.

    Kira saltou do outro lado da sala comum grito, cega de raiva, as mos comogarras, querendo apertar o pescoo deXochi. Isolde colocou-se entre elas,tropeando nos prprios ps de tobbada. Ela perdeu o equilbrio,agarrando-se a Kira e bloqueando apassagem at Xochi. Kira engalfinhou-secom Isolde, arranhando a testa da amiga.Isolde gritou de dor e a reao violentade Kira acabou em lgrimas.

    Droga murmurou Xochi. Senta, Kira disse Isolde,

    amparando-a at o sof. Kira soluava e

  • Isolde a abraava carinhosamente.Ela lanou um olhar frio a Xochi. Voc passou dos limites. Desculpe. Xochi acomodou-se

    novamente no sof. Desculpe, Kira,voc sabe que no quis dizer isso. Estouenlouquecendo. Tudo isso demais paramim.

    O que est feito, est feito. A lei jfoi aprovada. Podemos reclamar ouencher a cara e nem ligar disse Isolde.

    Voc j bebeu o bastante por hoje disse Xochi, arrancando a garrafa damo de Isolde, que mal conseguiasegur-la. A briga com Kira tinha lheroubado toda a energia. Xochi abriu ajanela e arremessou a garrafa para fora.

    Ei, Xochi! gritou um dos garotos

  • da vizinhana. Kira no reconheceuquem era. Que loucura essa coisa daLei da Esperana, no? Abre a portapara a gente conversar um pouquinho.

    Vo para o inferno! respondeuXochi, batendo a janela.

    Aquela garrafa era minha reclamou Isolde, com a voz pastosa.Ningum deu ateno.

    Desculpe, Xochi disse Kira,endireitando-se. Ela limpou os olhoscom as costas da mo. No estoubrava com voc. Estou brava compraticamente quase todo o resto domundo. Mas o mundo no tem um rosto,ento descontei em voc.

    Xochi deu um sorriso afetado, mas a

  • alegria durou pouco. No estou preparada disse

    baixinho. Nenhuma de ns estpreparada.

    Isolde desenhava algo no sof com odedo.

    Haru tinha razo. O que ele disse naaudincia do Senado. No restounenhuma criana, apenas adultos que nosabem o que esto fazendo.

    As garotas ficaram em silncio,perdidas em seus pensamentos. Kirapensou em Marcus. Ela havia recusadosuas investidas, mas agora o governoalterara as regras do jogo. Teria umprazo de dois meses para ajeitar tudo,depois disso poderia ser presa apenaspelo fato de no querer engravidar. Se

  • fosse obrigada a ter filhos, gostaria quefosse com Marcus, imaginava ela.Jamais cogitara outra pessoa, a no serde brincadeira. Mas se falasse com eleagora, Marcus saberia que era apenaspor causa da lei, no por causa dele.No podia fazer isso. Por outro lado,escolher outra pessoa o machucariaainda mais.

    Acima de tudo, no queria engravidar.No por causa da lei. Se fosse precisocomear vida nova, gostaria que fosseuma deciso sua, e no porque eraobrigada.

    No entanto, acabara de gritar comXochi por ela pensar da mesma forma.Kira estava totalmente confusa.

  • Por uma frao de segundo, elapensou em Samm, perguntando-se seuma criana meio-Partial seria imune.

    Algum de vocs se lembra daprpria me? perguntou Isolde. Noa nova, Xochi, a antiga. Sua meverdadeira, de antes do Break.

    Vagamente. Ela era alta respondeuXochi.

    S isso? Quero dizer, bem alta respondeu

    Xochi. Sempre que me lembro dela,vejo-a do meu lado, alta como umatorre, e no porque eu era uma criana,ela era mais alta que todo mundo. Ummetro e noventa, dois metros. Sua vozamoleceu e Kira podia ver que ela se

  • deixava levar pelas recordaes: seusolhos ficaram molhados e perdidos,encarando o vazio. Ela segurou umcacho dos seus cabelos escuros. Ocabelo dela tambm era preto, como omeu, e ela sempre usava joias. Prata, euacho. Usava um anel grande, pareciauma flor, eu gostava de brincar com ele.Morvamos na Filadlfia. Eu achavaque esse era o nome do estado, mas dacidade. Filadlfia. Algum dia querovoltar para l e encontrar o anel. Revirou os olhos. Vocs sabem.Algum dia.

    Minha me vendia avies disseIsolde. No sei como, nem para quem,mas foi o que ela me contou. Acheiaquilo to incrvel. Agora, olhando para

  • trs, penso: nem temos mais avies. Notemos gasolina para abastec-los. Nemsei se sobrou algum avio que poderiavoar se tivssemos combustvel. Masminha me costumava vend-los comose fosse a coisa mais natural do mundo,como se fossem peixes no mercado.

    Acho que no tive me disse Kira. claro que em algum momento tive,mas no me lembro dela, s do meu pai.No me lembro nem de ele falar sobreela, mas claro que deve ter falado.Acho que eram divorciados, ou ela tinhamorrido. Provavelmente divorciados.No tnhamos nenhuma foto dela.

    Veja s que incrvel disse Xochi. Se voc no se lembra da sua me, ela

  • pode ser quem voc quiser que seja,uma atriz, uma modelo, a presidente deuma grande corporao o que vocquiser.

    Se no pode conhecer a verdade,viva a mentira mais incrvel que puderimaginar.

    Tudo bem, ento. Ela era mdicacomo eu, uma cientista brilhante,reconhecida por seu trabalho comcrianas. Ela descobriu a sequnciagentica. E a nanocirurgia[8]. Kirasorriu. E a cirurgia convencional, apenicilina e a cura do cncer.

    Esse um sonho realmente incrvel brincou Xochi.

    Pelo jeito, os sonhos incrveis sotudo o que nos resta.

  • F

    Captulo Vinte e Quatro

    ique atenta disse Shaylon.Kira olhou desconfiada para o

    jovem soldado, os olhos aindavermelhos por causa do choro e da faltade sono.

    Mais ainda? O que estacontecendo?

    O Sr. Mkele acredita que o hospitalser atacado respondeu, apertandofirmemente o fuzil. A Voz estescondida na cidade. Continuamprocurando o que no encontraram noSenado. A nova emenda da Lei da

  • Esperana s jogou mais lenha nafogueira. Mkele reforou a patrulha forada cidade, mas avisou para termoscuidado, por precauo.

    Kira assentiu com a cabea. Vou manter os olhos bem abertos.Ela entrou no tnel de

    descontaminao, esfregando a mo norosto enquanto recebia o jato de ar.Deveria aproveitar mais de Shaylon. Seencontrar uma maneira de conversarcom ele a ss, depois do expediente,talvez descubra as atividades da Rede.

    Kira suspirou. Como se eu tivessetempo para me envolver em outroprojeto.

    Ela colocou os cadernos sobre a mesae abaixou-se ao lado de Samm,

  • examinando o rosto e os braos dele um ritual que havia se tornado rotina.

    Bateram em voc de novo.Samm, claro, no respondeu.Kira observou-o por um momento. Em

    seguida, olhou incomodada para oscantos da sala.

    Isso no se faz. No humano. Acho que humano no se aplica a

    mim. No importa se voc ou no

    humano respondeu Kira, examinandosuas canelas. Eles so humanos eprecisam agir como tal. Ela levantou aperna da cala. Tem alguns cortesnovos aqui, mas no esto sangrando.Voc vai ficar bem. Ela desenrolou a

  • cala. Nenhuma das feridasinfeccionou observou Kira,considerando se o corpo de Sammproduzia algum tipo de antissptico ouantibitico natural. Investigaria issomais tarde, usando um mtodo que nofosse feri-lo com uma faca suja. Vocvai ficar bem repetiu a caminho docomputador.

    Assim que comeou a trabalhar, Kirapercebeu que algum havia mexido nassuas coisas: nas imagens do DORD, nasanotaes preliminares sobre osferomnios e mesmo em seuscomentrios escritos mo no caderno.Algum havia lido o material,percorrido suas pginas, feito umaseleo e mudado os arquivos de lugar.

  • Ser que Skousen est avaliando meutrabalho? Estaria copiando omaterial? Ela encontrou alguns arquivosnovos; ele prprio havia feito algumaspesquisas em sua ausncia. Ela nosabia se agradecia por algum estaracompanhando o seu trabalho ou seficava indignada por no confiarem nosresultados. O cansao quase a deixavaindiferente.

    Tenho apenas mais trs dias, disse asi mesma. Pare de choramingar etrabalhe. Esforou-se para manter aateno focada nas imagens do DORD,procurando alguma discrepncia entre afisiologia de Samm e a dos humanos. Noentanto, o que ele dissera, no dia

  • anterior, no lhe saa da cabea. Asinceridade no tom da sua voz. E seestivesse falando a verdade? Se o vrusno era uma criao dos Partials, entode quem seria? A presena do Espio narespirao de Samm provava que haviauma relao entre ele e o RM, mas nonecessariamente que os Partials ohaviam inventado. Eles eram soldados,no geneticistas; tinham mdicos, masno eram capacitados nesse nvel deengenharia gentica. E se a semelhanaentre os vrus significasse algocompletamente diferente?

    E se fosse o indcio de um ancestralcomum? Ou de que o RM e os Partialshaviam sido criados por uma mesmapessoa?

  • Kira fechou os olhos tentando selembrar do que aprendera na escola.Qual era o nome da empresa? Para-alguma coisa. Era to difcil lembraros detalhes do velho mundo: nomes,lugares, tecnologias, que simplesmenteno faziam nenhum sentindo na vida quelevavam agora. Por outro lado, o nomede cafs e restaurantes era fcil delembrar, pois as runas do que foram umdia estavam por toda parte: Starbucks,Panda Garcia e uma dzia mais desimilares. Ela at se lembrava quandoera criana, antes do Break. No entanto,as companhias de gentica jamaisfizeram parte da sua vida. Ela aprenderaseus nomes nas aulas de histria, mas os

  • professores no davam muita nfase aoassunto. A autorizao para criao dosPartials tinha vindo do governo, ae mpr e s a Para-alguma coisa eraapenas a contratada.

    Para-Gentica, lembrou-se. Erachamada de ParaGen. Haru mencionoua empresa alguns dias atrs. Mas o queela tinha a ver com o RM? Com certezao vrus no era criao deles elestambm eram humanos. Nada seencaixava.

    Voc teve me? perguntou Samm.A pergunta quebrou a cadeia depensamentos de Kira. Ela o olhouintrigada.

    Qu? Voc teve me?

  • Eu claro que tive me, todos tmme.

    Ns no.Kira franziu o cenho. Sabia que voc a segunda pessoa

    nas ltimas doze horas que perguntasobre a minha me?

    Curiosidade. Tudo bem. No cheguei a conhecer

    minha me. Acho que isso nos tornamais parecidos do que imaginamos.

    E seu pai? perguntou Samm. Por que quer saber? Eu tinha cinco

    anos quando ele morreu, tenho poucaslembranas.

    Nunca tive um pai.Kira deslizou a cadeira, chegando at

  • a ponta da cama onde estava Samm. Por que toda essa curiosidade?

    Nesses dois dias, voc mal abriu a bocae agora, do nada, est obcecado com asrelaes familiares. O que se passa?

    Andei pensando algumas coisas.Muitas coisas. Voc sabe que nopodemos nos reproduzir?

    Kira assentiu, desconfiada. Voc foi fabricado assim. Vocs

    eram bem, a inteno era de quefossem armas, no pessoas. Noqueriam armas que se autorreplicassem.

    Sim respondeu. A inteno erade que os Partials no existissem fora dasociedade que nos criou, mas existimos,e agora todos esses antigos parmetroscom que fomos projetados so Ele

  • parou de falar, inesperadamente, e olhoupara as cmeras. Escuta, voc confiaem mim?

    Ela hesitou, mas no por muito tempo. No. Tambm acho que no. Acha que

    algum dia vai confiar? Algum dia? Se trabalharmos juntos. Se algum

    dia oferecermos uma trgua. Aprenderiaa confiar em ns?

    Desde o primeiro dia, esse era o rumoda conversa tudo comeou quando elaperguntou o que ele fazia em Manhattan.Finalmente, ele estava disposto adiscutir o assunto, mas ela podia confiarnele? O que ele buscava obter dela?

  • Posso confiar em vocs desde queprovem ser confiveis respondeu Kira. No sei se desconfiava de voc porprincpio, se o que est querendosaber. Mas muitas pessoas desconfiam.

    O que preciso para ter a confianadeles?

    No ter destrudo nosso mundo, honze anos. Alm disso no sei.Reconstruir o que destruram.

    Ele ficou em silncio por algunsmomentos e ela o observava atentamente seus olhos moviam-se rapidamente,como se examinassem dois objetosdiferentes a sua frente. De vez emquando, piscavam em direo a uma dascmeras, apenas um golpe de vista. O

  • que planejava?Kira olhou Samm nos olhos. Na

    dvida, faa. Por que est me dizendoisso?

    Porque a nica esperana, para nsdois, unir foras. Trabalharmos juntos.

    Voc j disse isso. Voc perguntou qual era a minha

    misso? Era essa, Kira: estvamos acaminho daqui para tentar a paz. Parasaber se era possvel uma parceria entrens. Voc precisa da nossa ajuda paraencontrar a cura do RM, mas nsprecisamos da sua tanto quanto.

    Por qu?Ele olhou para a cmera, de novo. Ainda no posso contar. Mas voc tem que me contar, no

  • para isso que est aqui? Voc veio numamisso de paz e tudo que tem a dizer no posso contar?

    No sabia que ainda nos odiavamtanto. Nosso plano era persuadi-la acolaborar conosco. Mas quando fuicapturado e trazido para c quando vio que acontece aqui percebi que seriaimpossvel. Mas voc diferente, Kira,voc presta ateno em mim. Mais doque isso, voc entende o que est emjogo. Entende que nenhum preo altodemais quando se trata da sobrevivnciada sua espcie.

    Preciso saber. Esquea as cmeras,esquea quem est do outro lado e meconte o que est acontecendo.

  • Samm balanou a cabea. A falta de confiana no o nico

    problema. No momento que descobrirempor que estou aqui serei um homemmorto.

    Desta vez foi Kira quem olhou para acmera num golpe de vista, sentindo-sedesconfortvel, mas Samm balanou acabea e olhou para as feridas no corpo.

    No tem problema, sabem que tenhoum segredo.

    Kira cruzou os braos e sentou-se. Oque era to perigoso de ser revelado, aponto de lhe custar a vida? Algo que oshumanos no queriam ouvir ou algoque queriam? Espremia o crebro embusca de uma explicao que fizesse

  • sentido. Samm seria mesmo uma bomba,como inicialmente haviam temido, e eleacreditava que o Senado iria mat-lopara se livrar dele? Mas o que isso tinhaa ver com paz?

    Paz. Era isso que tinha em mentequando conversou com Marcus, na noiteanterior. Desejava que fosse mais queuma palavra, gostaria de poder tocarnela e sentir seu sabor, de saber comoera viver sem estar permanentementecom medo. No sabiam mais o que eraviver em paz desde a instituio da Leida Esperana. A Voz havia se rebeladoe a ilha comeara sua lenta espiral rumoao caos. Nos anos anteriores tambmno houvera paz o Break e adesesperada reconstruo ps-Break, a

  • revolta Partial, mesmo a Guerra deIsolamento, que originou a criao dosPartials. Kira vivia num mundo dediscrdia desde o dia do seu nascimentoe antes disso o mundo tambm no tinhasido melhor. Estavam beira dadestruio e cada um tinha a sua prpriasoluo. Kira era a nica a cogitar aideia de que talvez precisassem dosPartials. De que talvez fosse precisotrabalharem juntos.

    Sim, ela era a nica a pensar assim at aquele momento. Agora, um Partialsugeria o mesmo.

    No disse lentamente, adesconfiana subindo pelo seu corpocomo uma aranha. perfeito demais.

  • como se estivesse dizendo exatamenteo que quero ouvir. Balanou a cabea. No acredito em voc.

    Por que desejaramos outra coisa? perguntou Samm. Estamos falando doinstinto primrio da vida, o desobreviver ao tempo. Da construo deuma gerao que ver o amanh.

    Mas voc jamais soube o que teruma famlia disse Kira. No temparentes, no foi criana, nem sabe oque isso. E se a criao for apenas uminstinto fantasma, preservadounicamente por alguma partcula deDNA desgarrada?

    Num lampejo, Kira lembrou-se de umcachorro na sua memria ele eragigante, uma massa de msculos e

  • dentes, rosnando atrs dela. Ele aperseguira atravs de um parque, ou deum jardim, algum lugar com grama eflores, e ela ficara apavorada. Quando oanimal estava quase em cima dela, seupai apareceu. No era um homem forte,mas se colocou entre a filha e ocachorro. Seu pai foi mordido e Kira sesentiu muito mal. Ele fez aquilo parasalv-la. Era o que os pais faziam.

    Como voc acha que nos sentimossem pais? Ela levantou o olhar eencontrou o de Samm. No me refiroapenas aos Partials nem s crianas.Refiro-me s duas sociedades inteirasque so rfs. Quais as consequnciasdisso?

  • Samm no respondeu, mas sustentou oolhar de Kira. Havia uma lgrima emseu olho era a primeira vez que ela ovia chorando. A cientista que haviadentro dela gostaria de estud-lo, colheruma amostra, descobrir como, por que eo que ele chorava. A menina dentro delapensava apenas na Lei da Esperana eimaginava se uma lei como aquela teriapassado se recasse sobre as filhas dequem a aprovara.

    Kira olhou para a tela do computadore no viu a imagem que estava ali, masas lembranas que trouxera deManhattan: o ataque Partial, o corpo deGabe inesperadamente cado nocorredor, morto pelo inimigo. Se aquela

  • era uma misso de paz, por queatiraram nele? Kira franziu o cenho,tentando conciliar os acontecimentos deManhattan com a reivindicao deinocncia de Samm. No tentaramsequer conversar conosco. No fazsentido.

    Kira vasculhou o crebro por maislembranas, tentando trazer tonaqualquer coisa que sustentasse a versoque ela desesperadamente desejava quefosse a verdadeira. O que foi mesmoque o Partial disse um pouco antes deexplodirmos o apartamento?Esforava-se para lembrar. Que grupo esse? Ouvira claramente pelo menos,acreditava que sim. Grupo do qu?Estavam esperando outras pessoas,

  • talvez bandidos ou a Voz?Encontraram Kira, a nica humanadisposta a ouvi-los, num puro golpe desorte?

    Ou Samm dizia aquilo apenas paraagrad-la?

    A porta se abriu com o repentinotoque de uma campainha. Osdescontaminadores entraram em aonum rugido. Shaylon atravessou o tnel,segurando uma seringa cheia de sangue eveio apressado em sua direo.

    A enfermeira pediu para lheentregar isso. Disse que voc sabe o quefazer falou rapidamente.

    Voc no tem permisso para entraraqui respondeu Kira.

  • Ela disse que era uma emergncia explicou Shaylon, olhando para Samm. ele?

    Ela pegou a seringa com todocuidado; o tubo ainda quente com osangue.

    O que isto? Ela disse que voc sabe. Veio da

    maternidade.A ficha caiu e Kira arregalou os

    olhos. de um recm-nascido! Uma das

    mes deu a luz! Ela correu at obalco, abrindo espao entre lminas demicroscpio, frascos e pipetas. Vocsabe quem a me?

    Ela disse que voc saberia o que

  • fazer com isso! Eu sei. Acalme-se respondeu

    Kira. Deus, por favor, no deixe ser deMadison. Ela pingou uma gota na lminao mais rpido possvel e colocou aamostra no medicomp. Isto sangueno contaminado, entende? Os bebsnascem saudveis e depois soinfectados. Temos apenas algunsminutos, talvez menos, antes do vrus setransformar e atacar. Ela apertou oscomandos e correu de volta para obalco, preparando outra lmina. Hdois tipos de vrus. Um no ar e outro nosangue. O que estou tentando fazer observar o momento em que um setransforma no outro. Ligue omicroscpio. Qual deles o

  • microscpio? Este.Ela correu pelo laboratrio com a

    lmina na mo e a colocou no aparelho.Ligou todos os botes, tamborilandoimpacientemente com os dedos sobre oaparelho enquanto ele emitia um rudolento, entrando em funcionamento.Assim que a tela acendeu, ela acionou omicroscpio, solicitando quepesquisasse os vrus. Um breve apitoavisou que o aparelho havia encontradoa forma viral transmitida pelo ar, e elaimediatamente puxou a imagem. Opequeno vrus apareceu na tela, umponto vermelho num oceano cinza. Ovrus j havia comeado a mudar, e a

  • imagem o havia capturado entre a formaoriginal e a seguinte. A lente domicroscpio era avanada, mas nohavia equipamento que filmasse naquelegrau de ampliao. O sinal sonorodisparava sempre que o medicompdetectava outro vrus. Se eu conseguirimagens de qualidade dos vriosestgios da transformao, posso recriartodo o processo. Ela pediu aomedicomp que tirasse outra foto damesma rea, para ver se o vrus quecirculava no ar havia completado suatransformao em Glbulo.

    Uma pequena janela abriu na tela docomputador: Correspondente parcial.

    Shaylon apontou para o aviso. Parcial? Quer dizer que o beb um

  • Partial? perguntou com uma vozassustada.

    No, significa que o computadorencontrou apenas correspondentesparciais no banco de dados. Exatamente como aconteceu com oEspio. Encontrei algo que seassemelha ao RM, mas no um vrus. Ela abriu a imagem e espantou-se: eratotalmente desconhecido. Msnotcias.

    O que isso? perguntou Shaylon. Uma nova forma de vrus

    respondeu Kira, movendo a tela paraobter uma imagem melhor. O Esporo,o vrus que viaja pelo ar, deveria setransformar num Glbulo, o tipo viral

  • sanguneo. Eles so as duas nicasvariedades de RM que temos registradoem nosso banco de dados. Kiraprocurava, aflita, algo de conhecidonaquela estrutura. Este vrus novo.

    Ela batia rapidamente o dedo sobre atela, refinando a imagem o melhor quepodia, separando-a em partes paraanalis-la. O computador tinha razo era um correspondente parcial doGlbulo, apresentando muitas dasmesmas estruturas proteicas, numamesma disposio bsica, mas o restoera completamente novo. E,diferentemente do Espio, tratava-se,sem dvida, de um vrus. Teria a vercom Samm? Seria resultado do Espio?Kira nomeou a imagem e solicitou ao

  • computador que procurasse novamenteno banco de dados, em busca de algumcorrespondente mais prximo. Foramencontrados cinco resultados, todosretirados dos arquivos de exames desangue de recm-nascidos: a maioria debebs prematuros, mais um natimorto,todos os casos acontecidos h mais deoito anos. No foi um nmerosignificativo de respostas, masencontrou alguns casos, muitos anosantes de Samm estar aqui. Isso querdizer que o vrus no tem a ver comSamm. Mas ento de onde ele veio?

    Kira voltou a tocar na tela principaldo medicomp. Se no um vruscomum, pensou, ento talvez seja uma

  • mutao. Talvez seja o nico exemplarna amostra e o computador comeou aanlise pelo ponto errado. Elaprogramou o equipamento para procurarmais daquelas estruturas nas amostras desangue. Os resultados surgiram quase deimediato. O sinal sonoro disparou vriasvezes, apontando mais ocorrncias doque quando pesquisara o Esporo. Estenovo vrus est em todos os lugares.Kira abriu imagem por imagem, e lestava ele, multiplicando-serapidamente. Aqueles resultadosdeixaram-na agitada e ela solicitou outrapesquisa para o Esporo, mas nenhum foiencontrado. O computador salvara asimagens originais, mas a estrutura em sihavia desaparecido do sangue. Cada

  • exemplar de Esporo havia semetamorfoseado no novo vrus nestePredador , que continuava a sereplicar.

    Shaylon falou baixinho, a voz fraca enervosa, olhando para Samm.

    O que isso? No fao ideia.Kira cerrou os dentes e mergulhou na

    pilha cada vez maior de relatrios eimagens, determinada a encontrar o queestava buscando: o processo deevoluo de Esporo para Glbulo, osdetalhes que revelariam como o vrusfuncionava, as etapas qumicas por trsde cada processo. Era como tentar beberda gua de uma cachoeira.

  • Shaylon permaneceu imvel, os dedosapertando os fones de ouvido dointercomunicador. Ento, agachou-se.

    Abaixe. Por qu? O que est acontecendo Abaixe! disse Shaylon

    energicamente, puxando-a para baixo,atrs do enorme corpo metlico domicroscpio.

    Algum invadiu o hospital. Achamque um fugitivo.

    Kira espiou pela lateral docomputador. Samm os observava cominteresse. Ser que esto mesmo vindoatrs de voc? A arma de Kira estavasobre o balco, fora do seu alcance. Sealgum entrasse naquele momento, ela

  • no seria capaz de peg-la a tempo. Kiraolhou para trs e viu Shaylon ouvindoatentamente as informaes quechegavam pelo fone de ouvido.

    Acham que ele est do lado de fora disse baixinho. Voc fica aqui, vouespiar pela janela. Levantou um poucoo corpo e atravessou a sala, correndorente ao cho, o fuzil na altura dosolhos. Kira olhou para Samm, emseguida, para a porta, e correu at obalco, onde pegou a pistola. Estavaprotegida contra algum ataque pelajanela, mas no pela porta. Ser que ooutro soldado ainda estava l fora? Elaretirou a arma, arremessando o coldrede couro para o canto; verificou o pentee a cmara, certificando-se de que

  • estava pronta para o uso. No consigo ver nada disse

    Shaylon, levantando-se com cautela paraolhar atravs da janela; o corpoespremido contra a parede. Mantinhauma das mos apertando o fone deouvido. A conversa com Mkele eratensa. No consigo ver espere, noscarros. Eles ainda esto assim tolonge?

    No faz sentido atacar o hospitaldurante o dia, pensou Kira. Os carrosdo uma boa cobertura e h rvores noentorno do prdio, mas est longe de sero ideal. Se vo explodir a parede, porque no fazem isso noite? Por que noesperar, quando podem chegar

  • despercebidos at o prdio?Pera, pensou, de sbito, se vo

    explodirColocou-se em p num salto e correu

    at Shaylon. Saia da! Est muito perto daNesse momento a parede explodiu:

    tijolo, metal e reboco invadiram oquarto numa bolha gigante, o impacto daexploso lanando Kira para trs, comouma mo invisvel. Shaylon voou para alateral, batendo contra a parede e caindono cho como uma boneca de pano.Mesmo Samm foi empurrado para longe,a cama balanando como uma folha. Elabateu contra a mesa de Kira e tombou.

    Kira chocou-se contra a parede dofundo com tamanha violncia que o

  • impacto arrancou o ar dos seus pulmese a arma da sua mo. Ela caiu atrs doDORD e o enorme equipamento tombousobre ela. Kira gritou, certa de quehavia quebrado a perna, mas tentoumanter a calma.

    Respire fundo, Kira, respire fundo.Acalme-se.

    Aos poucos o tremor parou e Kira viutudo entrar em foco novamente. Com oauxlio da respirao, acalmou-se,percebendo melhor a dor na perna. Noest quebrada, apenas presa. Ela ouviumovimentos na sala, destroos caindo ese estilhaando. Procurou identificar deonde vinham os rudos, mas o DORDbloqueava toda a viso, menos a da

  • porta. O teto do tnel de plstico estavadestrudo. Os destroos vindos daparede o haviam reduzido a farrapos ese alojado na entrada da porta,bloqueando-a. Kira sentiu um choque naperna presa embaixo do equipamento eviu que o isolante eltrico do DORDhavia se rompido. A mquina estdando choque. Tenho que me afastardela. Ela ouviu mais rudos e agoratinha certeza que algum andava por ali.Ser Shaylon ou Samm? Ela forou obrao contra a parede, apoiou a pernacontra a mquina e empurrou com toda afora.

    Kira movia a perna centmetro acentmetro, cada movimento era lento edolorido, quando ouviu um estalo no

  • interior da mquina e uma onda deeletricidade percorreu seu corpo.

    A dor foi lancinante. Cada msculodo seu corpo travou, contraindo-se deforma inimaginvel. Mas,inesperadamente, a dor cede, deixandoKira em busca de ar. Seus pensamentoseram imprecisos e sentia como setivesse apanhado com um basto demetal, porm no sabia em qual parte docorpo.

    Socorro balbuciou.Sentiu outra descarga, um turbilho

    violento de corrente eltricapercorrendo seu corpo. Seus olhosvoltaram-se para cima, a vistaescureceu. Sentia-se uma massa

  • disforme, sem saber distinguir ondedoa. De repente, o choque parou. Seucorao batia descontrolado. Sentia acabea cada vez mais leve, lutando paramanter-se acordada.

    Socorro murmurou, a voz fraca erouca. O DORD est meeletrocutando.

    Kira recebeu outra descarga eltrica,a dor era terrvel. Quando passou, ospulmes levaram exatamente cincosegundos para voltar a funcionar. Ocorao batia disparado e o corpo nosabia como reagir. Quando voltou arespirar, sugando desesperadamente oar, sentiu o mau cheiro da prpria pelechamuscada. Aos poucos foirecuperando a viso e notou que agora a

  • porta estava levemente aberta. Um olhoespiava atravs da fresta dois olhos,um branco e outro preto.

    No um olho, pensou, as ideiasdesconectadas, o cano de uma arma.

    Os soldados do outro lado da portatentavam, em vo, for-la contra a pilhade entulho.

    a garota. Tem mais algum vivoa dentro?

    Voc tem que me ajudar sussurrouKira. Meu corao est parando.

    Pode ver o prisioneiro? Eleescapou?

    O batimento est irregular disse, sentindo o corpo comear afalhar: os msculos, o corao, os

  • pulmes lentamente enfraquecendo. Precisa me ajudar. Mais um choque eeu vou

    Ela ouviu vozes gritos que pareciamvir de centenas de quilmetros dedistncia. Uma brisa quente soprousobre seu rosto e ela abriu os olhos. Omundo era um borro, mas ela percebiaque algo estava perto dela, movendo-see, subitamente, a presso sobre suaperna desapareceu. A enorme mquinaDORD atravessou voando a sala,zunindo em seu ouvido. Kira foi retiradados escombros por dois braos fortes.Ela tentou ver quem era. Algum asegurava, a carregava, procurandoferidas em seu corpo.

    Obrigada disse, tossindo. Sua voz

  • era to baixa que ela mesma mal ouviasuas prprias palavras. Agarrou-se aoseu salvador. Acho que ele fugiu.

    Estou bem aqui, Kira.Conheo essa voz.Comprimiu os olhos e esforou-se

    para pensar. Aos poucos voltou aenxergar com nitidez. Ela estava nosbraos de Samm. Sua roupa estavaqueimada e as faixas que o mantinhampreso eram agora farrapos penduradosem seus braos. O quarto estavadestrudo: o cho coberto de entulho e aparede era um buraco. As rvoresbalanavam ao vento. O emaranhado demetal em que havia se transformado amquina DORD estava jogado no canto

  • da sala. Shaylon, do outro lado, estavaimvel e coberto de sangue.

    Ela olhou para Samm. Voc me salvou.Por fim os soldados conseguiram

    forar a porta aberta. Era uma multido. Coloque-a no cho! Ele me salvou. Coloque-a no cho!Samm ajoelhou-se e a colocou no

    cho cuidadosamente. Assim que elasaiu da frente, eles avanaram e oencheram de coronhadas. Samm tombou.Kira tentou protestar, mas estava fracademais. Tudo que conseguiu fazer foiassistir.

  • OCaptulo Vinte e Cinco

    quarto estava escuro. Osequipamentos hospitalares emitiam

    fracos rudos, luzinhas acendiam eapagavam no escuro. Kira no conseguiamanter os olhos abertos, sentiadificuldade para respirar e a cabeaestava dolorida e vazia, como se aindaestivesse no meio da exploso.

    Samm me salvou.Os soldados bateram em Samm por

    quase um minuto antes de oacorrentarem, chutando-o no estmago egolpeando-o com os fuzis. Ele no

  • reagiu. Mesmo tendo a oportunidade defugir, ele ficou e no reagiu. Apanhourepetidas vezes e tudo que se ouviu foiuma agonizante sucesso de rudossurdos, estalos e gemidos de dor.

    Ele um Partial, Kira pensava. Nosltimos trs dias, havia repetido aquilocentenas de vezes. Nem humano. Nosabemos o que estava fazendo emManhattan, o que pensa e o que estplanejando.

    No entanto, ela no se convencia dosprprios pensamentos. Tanto ela quantoSamm queriam a mesma coisa: resolveros problemas, indo direto ao ponto, semficar mordendo pelas beiradas. Em todaa ilha ele era o nico que pensava comoela.

  • O problema era ele ser um Partial.Kira tentou sentar-se, mas a dor na

    perna foi de tirar o flego. A mesmaperna queimada pelo DORD. Elalevantou o lenol para examin-la, masestava com uma atadura. Reconheceu acoceira causada pela regenerao dasfibras musculares e logo se deu conta deque havia sido tratada com Regenera.Levaria algum tempo at conseguirsentar-se, quem dir levantar-se ouandar.

    Kira ouviu um suspiro fraco e olhoupara a cama do outro lado do quarto. Nohospital, havia mais quartos que osuficiente, mas energia apenas paraalguns andares, por isso a maioria deles

  • alojava dois pacientes. Kira olhouatentamente para a silhueta na cama, soba luz fraca, e se deu conta de que eraShaylon. Pelo jeito, o soldado haviasido retalhado na exploso pelamaneira como estava enfaixado, deve tersofrido dezenas de fraturas e inmeroscortes e escoriaes causados pelosestilhaos da granada.

    Sua respirao era curta e fraca, massem o auxlio de aparelhos, e seu estadoparecia estvel. A impresso era de queele ficaria bem.

    Shaylon tinha visto o Predador nosangue e acompanhara sua especulaosobre o novo vrus. Ela havia faladodemais? Havia exposto segredos emdemasia? A menor fasca poderia

  • incendiar a ilha; Kira esperava que elefosse discreto quando acordasse.

    Kira ouviu passos no corredor eolhou para a porta.

    Est acordada disse a enfermeira-chefe Hardy.

    O que aconteceu? Quanto tempofiquei inconsciente? perguntouansiosamente. Calou-se ao ver aenfermeira entrar empurrando uma maca.Era Madison. Kira sentou-serapidamente, sentindo uma agulhada naperna, que a deixou sem ar.

    Est tudo bem com voc, Madison? Ela entrou em trabalho de parto

    prematuro respondeu Hardy. Conseguimos conter, mas no sabemos

  • por quanto tempo. Ficarei bem disse Madison,

    olhando para Kira. No me deixamsentar, muito menos andar. Nem para irao banheiro.

    Fique tranquila e descanse recomendou Hardy. Vamos mant-laaqui por algumas horas enquanto voc serecupera. Depois decidiremos se podevoltar para o seu quarto. Agora, tentedescansar.

    Eu vou descansar respondeuMadison, resignada. Vou ficar olhandopara o teto e no vou mexer nem um fiode cabelo.

    Deveria dormir disse Hardy. Aenfermeira olhou para Kira. E voctambm. Voc dormiu apenas algumas

  • horas e seu corpo precisa descansar.Vamos dar uma olhada na sua perna. Ela levantou o lenol e a ponta docurativo. Kira prendeu a respirao,tentando ignorar a dor. Ao examinar apele enegrecida, a expresso daenfermeira Hardy foi desaprovadora. Aqueimadura era do tamanho da palma deuma mo, lambuzada com creme paraqueimadura e antissptico. Estcicatrizando, mas uma queimadurafeia. Usamos o Regenera no faz muitotempo, ento temos que esperar umpouco antes da prxima aplicao.

    Obrigada disse Kira, gemendo deleve enquanto a enfermeira colocava ocurativo de volta.

  • Volte a dormir disse Hardy. Asduas. Ela saiu do quarto, fechando aporta sem fazer barulho. Kira olhou paraa silhueta de Madison no escuro.

    Mads, o que aconteceu? Foi a Voz? Acho que sim, mas sei tanto quanto

    voc. Houve uma exploso. Algumconseguiu furar a segurana.

    Kira hesitou. E Samm? Samm? O Partial?Madison olhou de um jeito estranho

    para Kira. Sinto muito, mas no sei. Tive

    problemas com o descolamento e faziaexames quando houve a exploso. No

  • posso andar e menos ainda conversarcom algum que saiba me dizer o queest acontecendo.

    Kira caiu sobre o travesseiro,grunhindo ao liberar a tenso na pernaqueimada.

    No posso ficar aqui parada.Preciso saber o que est acontecendo.

    No s voc!Kira riu secamente. Parece que estamos em maus

    lenis. Melhor pensar em outra coisa.

    Madison se ajeitou na cama, tentandoencontrar uma posio confortvel. Tenho dez semanas pela frente e tereimuita sorte se conseguir completarquatro. Sua voz era suave e triste.

  • Vou perder minha filha, Kira. No vai perd-la. Mesmo que nasa no tempo certo,

    ou que atrase, com tempo suficiente parase desenvolver, vou perd-la para oRM.

    No vou deixar isso acontecer. No pode impedir. Sei que est

    tentando, sei que fez todo o possvelpara ajudar, mas no o suficiente.Quem sabe algum dia, mas a cura no para mim. Sua voz fraquejou. Nopara Arwen.

    Kira virou a cabea. Quem Arwen? Kira conhecia

    todas as grvidas de East Meadow. Serque Arwen era nova? Passei apenas

  • trs dias com Samm, mas o suficientepara a lista de grvidas ter aumentado.

    Madison hesitou em falar, entosussurrou.

    Arwen o meu beb. Escolhi onome.

    Kira sentiu um soco na boca doestmago.

    Mads Sei que no deveria Mas eu amo

    este beb, Kira. Amo tanto que no soucapaz de descrever. como se j nosconhecssemos: ela to independente,forte e engraada. Sei que isso pareceridculo, mas todos os dias ela me fazrir. Como se soubssemos de uma piadaque mais ningum pode ouvir. Como nodar um nome para ela, Kira? uma

  • pessoa de verdade. Sinto muito, Mads Kira enxugou

    as lgrimas. No posso imaginar comovoc se sente estando no mesmo hospitalque Samm

    Haru ainda no sabe do nome disse Madison. Eu no odeio o Partial. Kira pensou ter visto a amigaerguendo os ombros num gesto deindiferena. Seja l o que os Partialsfizeram, isso foi h onze anos. Se eualimentasse rancor por tanto tempo,estaria to morta quanto todos quedeixamos para trs. No quero vivernum mundo de mortos. Calou-se,respirando profundamente. Dequalquer forma, mesmo que ela morra,

  • terei ao menos conhecido minha filha.Ao menos ri de suas brincadeiras.

    A porta se abriu novamente e aenfermeira Hardy entrou com umaseringa. Kira enxugou as lgrimas.

    Uma ajudazinha para voc dormir. No preciso disse Madison. Voc no quer corrigiu a

    enfermeira, preparando a agulha. Soueu quem decide o que voc precisa. Umpouco de sono vai te fazer bem. Elainjetou o lquido no cateter. Pronto.Deve levar apenas alguns minutos parafazer efeito e finalmente vai descansar.Vejo voc pela manh.

    Madison suspirou. Tudo bem. Quero ver Mkele disse Kira.

  • Agora. O que espera que eu faa sobre

    isso? perguntou Hardy. O hospitalfoi atacado, Mkele est ocupado.

    Sabe onde ele est?Hardy gesticulou na direo de

    Madison e deu de ombros, impotente. Ela uma das sete mes que esto nohospital. Eu tambm estou muitoocupada. Suspirou. Se encontrar comele, avisarei que o est procurando.

    Obrigada.A enfermeira saiu e o quarto voltou a

    ficar escuro.Kira secou as lgrimas, de novo. Arwen Sato. um nome lindo. o nome da minha av disse

  • Madison. Sei que Haru prefere umnome japons, mas acho que ele vaigostar.

    Acho que vai gostar muito. Ento, vejo voc de manh.

    Madison bocejou. Kira observou aamiga relaxar aos poucos, ficar quieta epegar no sono. A respirao profunda eritmada.

    No vou deixar seu beb morrer,pensou Kira. No importa o que forpreciso fazer. Esse beb vai viver. Mascomo? Ela balanou a cabea, sentindo-se totalmente sobrecarregada. A guerracivil talvez j tenha comeado e eu malconsigo andar. E aquela ltima amostrade sangue apresentou um resultadototalmente inesperado. Uma nova cepa

  • do vrus que ningum conhecia? No fazsentido. Pensei que soubesse como ovrus RM agia, mas agora tudo que seiest errado. E meu tempo para encontraras respostas est no fim.

    Kira tamborilava nervosamente osdedos na lateral da cama. Preciso juntartodas as informaes. Pensou em tudoque havia descoberto, tentando analisarsob uma nova perspectiva. O vrus RMapresentava quatro formas, pelo menosat o momento: o Esporo, transmitidopelo ar, o Glbulo, transmitido pelosangue, o Espio, encontrado narespirao de Samm e o Predador, dosangue do recm-nascido. Pensei que oEsporo se transformasse no Glbulo,

  • mas ele se transformou no Predador. Deacordo com os registros antigos, isso jtinha acontecido no passado, ento nose trata de uma anomalia. Essatransformao acontece sempre? E se oPredador for um estgio intermedirioentre o Esporo e o Glbulo?

    Mentalmente, ela reordenou asverses do vrus, nomeando o Esporo deEstgio 1, o Predador de Estgio 2 e oGlbulo de Estgio 3. Ningum nuncahavia provado que Glbulo eraresponsvel pelas mortes: ele estava nosangue de todos, ento deram como certaa sua culpa. No entanto, esse tipo dovrus tambm est no sangue dossobreviventes. E se ele no fossemortal? E se o assassino fosse o

  • Predador, mas no momento em quefazemos os exames ele j setransformou em Glbulo?

    Kira balanou a cabea,amaldioando a exploso. Se eu tivesseexaminado outra amostra, sem que aexploso me atrapalhasse, saberiarealmente o que acontece. Talvez. Notenho mais tempo para isso. Nem tenhomais um laboratrio. O que eu possofazer se no consigo nem me mover?

    A porta se abriu novamente e Kira viuo Dr. Skousen, atrs dele o Sr. Mkele.Skousen foi at o corpo inconsciente deShaylon.

    Mkele trancou a porta. Est acordada disse Mkele,

  • olhando para Kira com interesse. Elaalisou o lenol que cobria suas pernas eo encarou desafiadoramente. Ficofeliz. O que vou dizer do seu interesse.

    O que aconteceu? Onde est Samm? perguntou Kira.

    Skousen foi at a cama de Madison,examinando sua cabea e seu rosto comos dedos. Est dormindo.

    timo disse Mkele. Vamoscomear.

    Que diabos est acontecendo? repetiu Kira, tentando soar o mais firmee decidida possvel. Em vez disso,sentia-se fraca e vulnervel ferida ecansada, com metade do corpo nu numacama de hospital. Ela puxou o lenolbem apertado ao redor das coxas e

  • costas. Aquilo foi um ataque da Voz,certo? Eles atacaram outros locais? Aguerra civil j comeou? E algum podeme dizer o que aconteceu com Samm?

    Dr. Skousen retirou um pequenofrasco do bolso do seu avental, seguidade uma pequena seringa e uma agulhafininha. A agulha parecia encher osolhos de Kira, brilhando suavemente soba luz fraca.

    Samm est sob controle respondeuMkele. Seus olhos pareciam cansados eseu rosto, inexpressivo. Estamos aquipara controlar o detalhe que faltava.

    Kira ficou tensa, os olhos procurandopelo quarto uma rota de fuga a porta ea janela estavam trancadas, e Kira gemia

  • de dor s de pensar em correr. Ela olhoupara Skousen enchendo lentamente aseringa, em seguida para Mkele.

    Vocs vo me matar? No respondeu Mkele,

    caminhando em direo a ela. Masgostaramos que voc no gritasse.

    Dr. Skousen levantou a seringa e deu-lhe um leve toque com o dedo. Kiraarregalou os olhos e abriu a boca paragritar. Mkele colocou a mo sobre seurosto, segurando-a pelo ombro e aimobilizando. Dr. Skousen deu umpasso, no em direo a ela, mas paratrs, na direo de Shaylon. Ele espetoua agulha no cateter do soldado e injetoua dose completa.

    No queramos fazer isso disse

  • Mkele, sussurrando no ouvido de Kira.Sua voz era grossa e pesada. Quandopensar no que fizemos, lembre-se:nossas mos cumpriam ordens.

    Kira assistia horrorizada enquanto asubstncia qumica circulava pelo tubointravenoso e penetrava no corpo dosoldado. No, pensou, no, no, no.

    Agora vou solt-la disse Mkele,ainda apertando o rosto de Kira. Voudescobrir sua boca e voc no vai gritar. Ele esperou Kira assentir com acabea, os olhos arregalados de horror.Ele levantou as mos e se afastou. Acabou.

    O que fizeram? Demos um remedinho para ele. Mas

  • temo que mesmo assim no ir serecuperar disse Mkele.

    Voc o matou! disse Kira,olhando para Skousen. Voc o matou!

    No, ele morreu tragicamente decomplicaes da exploso disseSkousen, num suspiro.

    Mas, por qu? ela insistiu. Ele viu demais respondeu Mkele.

    Muito mais do que deveria ter visto. Eno podemos correr o risco de que abraa boca.

    Poderamos det-lo antes quefalasse. Poderamos t-lo isolado,explicado o que estvamos fazendo

    Voc conhecia o garoto disseMkele. Ele sabia receber ordens paraatirar onde e quando fosse preciso, mas

  • no conseguiria ficar de boca fechada.No depois do que aconteceu.

    E eu? Est claro que tambm noconsigo manter a boca fechada, entopor que no me mata?

    Shaylon era um risco, voc umagarantia.

    Kira sentiu um arrepio geladopercorrer sua espinha.

    No vai demorar muito disseSkousen, guardando os instrumentos devolta no bolso e lanando um ltimoolhar a Shaylon. Em seguida, olhou paraKira e virou-se para sair.

    Quanto ao Partial, o Senado vai sereunir o quanto antes para decidir comose livrar dele.

  • O corao de Kira gelou. Eu ainda tenho mais dois dias. Voc no tem laboratrio nem

    pernas, no momento. East Meadow setransformou num campo de batalha e notemos tempo para mais nada quecoloque em risco nossa capacidade deganhar esta guerra. Dar refgio a umPartial vivo arriscado demais nomomento, mas a um Partial morto Mkele suspirou e coou os olhos.Quando voltou a falar, sua voz eramacia, quase melanclica. Tinhaesperanas de que conseguiria, Kira, deverdade. Talvez algum dia a gente tentede novo.

    No precisamos desistir.

  • Voc est to longe de encontrar acura tanto quanto no incio de tudo, htrs dias. Agora, ainda mais longe. Suasanotaes foram destrudas na exploso,junto com todo o equipamento, a maioriainsubstituvel. Se no fosse por causa daVoz, talvez tivssemos conseguidosalvar alguma coisa, mas agora tardedemais. Tivemos que entrar em ao. Mkele endireitou-se, e o velho e friocomportamento estampou-se novamenteem seu rosto. Chegou a hora deintervirmos para restabelecer a unio danossa sociedade e faremos isso de umjeito ou de outro. Boa noite, Kira.

    Abriram a porta e saram.Kira olhou para Shaylon, o corao

  • batendo forte no peito. Ele permaneciaimvel, as luzes piscando na paredeatrs da cama. Preciso fazer algo. Tirouo lenol e tentou mover a perna, a peleferida esticou-se e Kira segurou o grito.Se a droga que injetaram nele eraveneno, deveria haver um antdoto;alguma coisa poderia ser feita parasalv-lo, ela pensava. Respirou fundo,reuniu toda a sua fora e jogou as pernaspara o lado, agarrando na guarda dacama e grunhindo alto ao sentir outraonda de dor cort-la ao meio. As luzesatrs de Shaylon comearam a piscarmais rpido, os sinais sonoros tornaram-se mais estridentes. Ela colocou aspernas no cho frio. Colocou-se de p,mancando, e tomou todo o cuidado para

  • no colocar nenhum peso sobre a pernamachucada. Mesmo assim, a mudana deposio foi mais dolorida do queimaginara, as pernas no suportaram eela caiu. Kira gritou de dor, as mosfechadas como garras e as pernasagitadas no ar. Naquele momento, osalarmes na cama de Shaylon dispararam.O soldado entrou em convulso. Psbateram contra o cho do corredor e asenfermeiras entraram acendendo a luz.Kira contorcia-se de dor, lutando parasentar-se.

    um ataque do corao disse umadas enfermeiras.

    Pegue o carro de emergncia ordenou um mdico. Ignoraram Kira no

  • cho, enquanto tentavam salvar a vidade Shaylon. Injetaram medicamentos,usaram o desfibrilador, aplicaram amassagem cardiovascular. Fizeram todoo possvel. Kira assistia a tudo do cho,sangrando e chorandodescontroladamente.

  • V

    Captulo Vinte e Seis

    oc no deveria estar fora dacama.

    Kira tremeu, apoiando-se comfora no suporte do soro.

    Estou bem.Era mentira, mas no tinha tempo a

    perder deitada numa cama de hospital.Seu prazo tinha acabado: Samm seriamorto, a cura estaria perdida, Arwenmorreria e toda a ilha pareciadesmoronar numa montanha de entulho.Kira tinha um plano e no permitiria queuma perna chamuscada a impedisse de

  • lev-lo adiante.A enfermeira balanou a cabea em

    desaprovao. Est com uma queimadura de

    terceiro grau do tamanho de uma bola detnis. Vou ajudar voc a se deitar.

    Kira segurou na mo da enfermeira,evitando forar a perna queimada.

    Estou bem, verdade. O Regenerafez uma tima cicatrizao e quase noh leso muscular. S preciso andar.

    Tem certeza? indagou aenfermeira. Sua cara de quem estsentindo muita dor.

    Certeza absoluta. Kira mexeu aperna queimada com todo cuidado,apoiando-se no suporte do soro. Aenfermeira a observava, por isso Kira

  • sorria e tentava parecer normal. Naverdade, sentia-se pssima por contaprpria, havia feito um segundotratamento com o Regenera, mesmosabendo do risco de uma doseexcessiva. A regenerao das clulasqueimadas ainda estava no incio, masela precisava ficar em p. Precisavafalar com os senadores.

    Kira sabia que no podiam estarlonge. As sesses regulares do Senadocontinuavam na sede do rgo, comohavia sugerido Mkele, mas Kira tinhacerteza de que usariam o hospital parauma reunio secreta do pequeno comitmaquiavlico, onde ficariam escondidosdo mundo e bem protegidos.

  • Ela precisava apenas descobrir emque esconderijo do hospital.

    As rodinhas do suporte rangiambaixinho enquanto ela mancava pelocorredor branco e comprido. Cadapasso era uma agonia. Ela parou na readas enfermeiras, arfando de cansao.

    Voc est bem, Kira? Era Sandy,a enfermeira da maternidade.

    Estou. Voc sabe do Dr. Skousen?Sandy olhou para ela. Ele pediu para no ser incomodado. Sandy, sei que ele est reunido com

    os outros senadores sussurrou Kira.Ela observava o rosto da enfermeiraesperando por qualquer indicao deque iria colaborar e, ao reconhecer a

  • deixa da colega, sorriu por dentro. sobre o projeto secreto que estouenvolvida. Preciso participar dareunio.

    Sandy inclinou-se em sua direo. Olhe, no me envolva nisso. Eles

    esto na sala de reunio, no quartoandar. V em frente.

    Obrigada, Sandy.Kira caminhou o mais rpido que

    pode em direo escada. Quartoandar; subir dez degraus, virar, subirmais dez. Repetir mais duas vezes. Elabalanou a cabea, lembrando-se docorpo agonizante de Shaylon,lembrando-se de Samm. Agarrou-sefirmemente ao corrimo, apoiou osuporte no primeiro degrau e lentamente

  • levantou a perna. O suporte quasetombou, mas ela conseguiu mant-lo emp. A perna se ressentia a cada passo elogo seus braos estavam exaustos desustentar todo aquele peso. Quandoalcanou o primeiro andar, ela desaboucontra a parede, a cabea recostadaenquanto puxava grandes golfadas de ar.A dor era quase insuportvel, mas elano podia desistir. Eles vo matarSamm. Ela cerrou o maxilar e seguiu emfrente, forando-se a subir o prximodegrau, e outro, e mais outro. P ante p.Degrau a degrau. Quando chegou aoquarto andar, desabou sobre o piso,rastejando at ser socorrida pelo guardaque fazia a segurana dos senadores. Era

  • o mesmo da ltima vez, e ela estavacerta de que ele a reconhecera. Kirarezou em silncio, agradecendo pelaajuda e pedindo para que os senadoresno tivessem proibido o guarda dedeix-la entrar. E por que teriam feitoisso? Para eles, Kira ainda estava decama.

    Voc est bem? perguntou osoldado, ajudando-a a se levantar. No avisaram que voc viria.

    Obrigada. Kira mal conseguia ficarde p, apoiando-se no soldado com umamo e no suporte com a outra.

    No posso perder a reunio. Meajude a entrar. Ela se inclinou sobre obrao do soldado e mancou at a porta,escancarando-a com a fora que lhe

  • sobrara.Mkele e os senadores estavam

    reunidos ao redor da mesa. Samm,estava acorrentado no canto da sala.Todos olharam-na chocados, e Kirapode sentir a raiva nos olhos de Kessler,como um raio laser. Delarosa dignou-seapenas a levantar a sobrancelha.

    Hobb voltou-se para Skousen. Voc disse que ela estava de cama. Ele se revelou no ser um mdico

    to bom assim disse Kira, entrando nasala. O soldado segurou no seu ombro,impedindo-a que continuasse.

    Sinto muito, senadores. Eu nosabia. Vou lev-la para fora.

    No. Se ela chegou at aqui, o

  • mnimo que podemos fazer ouvir o quetem a dizer disse Delarosa.

    Sabemos exatamente o que vai dizer disse Kessler.

    Delarosa lanou um olhar severo parao soldado.

    Obrigada. Pode esperar l fora. Ese aparecer mais algum, avise-nosantes de deixar entrar.

    Sim, senhora.Com o rosto ruborizado, o soldado

    fechou a porta, e Kira olhou para Samm.Ele ainda estava sujo da exploso, asroupas amarrotadas. Ela viu que suapele tinha arranhes e feridas, algumasj cicatrizadas, mas pareciam doloridas.Samm no disse nada, apenas balanourapidamente a cabea em

  • reconhecimento a sua presena.Ela se virou para os senadores, ainda

    arfando do esforo excessivo, edespencou na cadeira.

    Desculpe, estou atrasada. Esta reunio no lhe diz respeito

    disse Weist. Seu projeto estencerrado. Vamos nos livrar destacoisa e se tivermos sorte, conseguiremoslimpar a sujeira.

    Mas o projeto est dando certo disse Kira. Estou quase terminando demapear o desenvolvimento do vrus, e sevocs me derem mais um pouquinho detempo

    Voc no realizou nada disseSkousen. Colocamos em risco a

  • segurana da nossa cidade e aintegridade deste conselho para quevoc pudesse estudar um Partial. Equando precisamos dos resultados, tudoque voc faz pedir mais tempo?

    Mas agora compreendemos disse Kira, porm Skousen estavafurioso demais para ser detido.

    Voc no compreende nada! Vocdiz que o vrus tem mltiplas formas. Oque causa a mudana de uma para outra? possvel interromper o processo?Podemos desvi-lo? Podemos atacar ouinvalidar alguma das formas? A cincia o estudo das especificidades, Srta.Walker, no de gestos grandiosos eimpotentes de desafio. Se puder nos darum mecanismo que interrompa o

  • contgio ou uma forma especfica dedefesa, ento faa isso, do contrrio

    Por favor, preciso apenas de umpouco mais de tempo.

    No temos mais tempo algum! gritou Delarosa. Aquela era a primeiravez que a senadora erguia a voz, e Kiraintimidou-se com a energia de sua fala. A cidade est se desintegrando, a ilhatoda est se desintegrando. Ataques daVoz nas ruas, bombas explodindo noshospitais, rebeldes fugindo da cidade ese infiltrando em nossas defesas,matando nossos cidados. Precisamossalvar algum aspecto desta civilizao.

    No esto me ouvindo! disseKira, assustando-se com o som das

  • prprias palavras. Se Samm morrer,todos ns morreremos, no hoje, masinevitavelmente. E no haver nada quepossamos fazer.

    Isso uma obsesso disseDelarosa. uma obsesso nobre, mascontinua sendo uma obsesso, eperigosa. No vamos permitir que issodestrua a raa humana.

    So vocs quem iro destru-la disse Kira, os olhos comeando alacrimejar.

    Eu no falei? Eles repetem sempre amesma coisa observou a senadoraKessler, olhando para Kira. Voc falaexatamente como Xochi, como a Voz,espalhando esse lixo de discursoleviano e incendirio.

  • As palavras que Kira gostaria dedizer estavam entaladas.

    Seu trabalho o futuro disseMkele, suavemente. O nosso opresente. Avisei que se algum dianossos objetivos entrassem em choque,o meu teria prioridade. East Meadowest na iminncia de um ataque da Voz eno podemos enfrentar todas as batalhas.Antes de qualquer coisa, precisamosdestruir o Partial.

    Kira olhou para Samm. Como sempre,estava inexpressivo, porm percebeuque o prisioneiro tinha conscincia deque seu fim estava prximo. Ela sevoltou para os senadores.

    Assim, do nada? Sem ao menos um

  • julgamento ou uma audincia A audincia aconteceu h quatro

    dias disse Weist. Voc estavapresente e ouviu a deciso.

    Vocs me deram cinco dias depesquisa. S se passaram trs.

    O laboratrio foi destrudo, assimcomo muito do seu trabalho disseSkousen. Voc no est em condiesde continuar e no h dados suficientespara que outra pessoa termine o quevoc comeou. No em tempo.

    Ento nos transfira para outrolaboratrio disse Kira. Com certeza,temos mais equipamentos em algumoutro lugar. Tudo que preciso detempo. Para comear, os cinco dias queme deram foi um prazo arbitrrio.

  • E arriscar futuros ataques? perguntou Delarosa. Nem pensar.

    Hobb inclinou-se frente. O plano que estamos considerando

    continuar permitindo que Ento, deixem que ele v embora

    disse Kira, de chofre. Ela engoliu emseco, nervosa, observando enquanto osolhares tornavam-se sombrios. Kiraprosseguiu antes que pudessemprotestar. Ele no fez nada para nosmachucar e at colaborou com apesquisa. No h motivo para no deix-lo viver.

    Isso algum tipo de brincadeira? perguntou Kessler, desaprovadora.

    Deix-lo partir servir ao propsito

  • de vocs respondeu Kira. Vocs oquerem longe, ele ir para longe. Nomnimo, vai aplacar a retaliao Partial.

    Skousen e Kessler fecharam a cara.Weist balanou a cabea.

    Seja honesta. Acredita mesmo queisso trar algum benefcio?

    claro que ela acredita. umaidealista disse Mkele.

    da gerao babylndia complementou Kessler. Ela seafeioou criatura. No tem ideia dequem eles realmente so.

    E voc tem? perguntou Kira. Elatentou se levantar, mal conseguindorespirar por causa da dor, ento voltou areclinar-se na cadeira. Vocs oenfrentaram h onze anos. Onze anos.

  • No podem pelo menos considerar apossibilidade de que alguma coisamudou?

    No deve acreditar em nada do queele diz alertou Mkele.

    Ele um soldado, no um espio argumentou Kira. Ela se virou paraSamm, num ltimo embate interior:podia, de verdade, confiar nele? Eletinha sido honesto naqueles ltimosdias ou era o monstro que os senadorespintavam?

    Samm a observava, tentandoaparentar tranquilidade, mas semconseguir esconder totalmente seunervosismo. Sua firmeza e esperana.Ela olhou direto em seus olhos e foi

  • enftica. Samm enfrentou o cativeiro e foi

    torturado por aqueles que desejam oextermnio da sua raa. Suportou tudosem derrubar uma lgrima, reclamar,nem implorar; mantendo-se determinado.Se os outros Partials possurem ametade da tolerncia dele, talveztenhamos a chance de

    Estou aqui numa misso de paz disse Samm, decidido e confiante. Kiraviu que seus olhos se enchiam outra vezde lgrimas. Ele avanou at onde suasamarras permitiam. Os senadoresestavam em silncio. Meu pelotoestava em Manhattan a caminho daqui.Vnhamos oferecer uma trgua.

    Mentira rosnou Kessler.

  • a verdade. Precisamos da suaajuda disse Samm.

    Mas para qu? pensou Kira. Nopodemos confiar em voc, se no noscontar a verdade.

    Samm encarou Kira e virou-se paraos senadores, assumindo uma postura dedignidade.

    Estamos morrendo.Kira arregalou os olhos e todos os

    outros silenciaram, estupefatos. Ns tambm no podemos nos

    reproduzir. No nosso caso, aesterilidade uma manipulao genticano DNA, um dispositivo de seguranapara nos manter sob controle. Issojamais nos incomodou porque, da

  • mesma forma, no envelhecemos. Logo,pensvamos que no havia o perigo dedesaparecermos. Mas descobrimos quepara isso tambm h um dispositivo desegurana.

    Dr. Skoussen foi o primeiro arecuperar a voz.

    Voc est morrendo? Todos vocs? A ParaGen nos programou com um

    prazo de validade. O mecanismo queimpede o envelhecimento revertidoquando completamos vinte anos. Vamosdefinhar e morrer num prazo desemanas, talvez dias. No um processode acelerao da idade. Vamosdesintegrar em vida.

    A mente de Kira entrou num turbilho.Era esse o segredo que ele nunca teve

  • coragem de contar de que os Partialstinham um relgio biolgico, como oshumanos? Por isso querem o armistcio.Estava estarrecida demais para fazerqualquer coisa, mas olhou para ossenadores. Naquele momento daria tudopara saber o que se passava na cabeadeles. Kessler sorria, mas Hobb e Weistolhavam para Samm de queixo cado.Delarosa parecia segurar o choro,embora Kira no soubesse distinguir seera de alegria ou de tristeza. Weistmurmurava como se falasse sozinho,movendo a boca com tanta naturalidadeque parecia at no notar osmovimentos. Mkele estava impassvel ecalado.

  • Esto morrendo disse Kessler, avoz carregada de uma satisfao toperversa que Kira quase se encolheu,para no ser atingida pelo veneno quesua voz destilava. Voc tem algumanoo do que isto significa? Osprimeiros Partials foram fabricados noterceiro ano da Guerra de Isolamento,que aconteceu dez anos antes daGuerra Partial. H vinte e um anos. Aprimeira leva de vocs deve tercomeado a morrer no ltimo inverno eo mais novo tem agora apenas mais doisanos de vida. No mximo trs. Depoisdisso desaparecero para sempre.

    Todos ns vamos desaparecer. Kira sentia agora mais emoo e

  • sinceridade na voz de Samm. Nossasespcies sero extintas, ambas. Toda aforma inteligente do planeta morrer.

    Nossa expectativa de vida maislonga disse Delarosa. Dispensamosa sua ajuda.

    o que venho tentando dizer. Semeles no h cura. Kira tinha finalmenteencontrado sua voz. Ela olhou paraSamm e percebeu que agoracompreendia suas splicas. Precisamos trabalhar juntos.

    Samm assentiu com a cabea. Vocs podem ter filhos, mas eles

    morrem devido ao RM. Ns somosimunes, mas no podemos ter filhos.No percebem? Precisamos um dooutro. Nenhuma espcie ser vitoriosa

  • sem a ajuda da outra. Pense no que isso vai fazer com o

    nosso moral. No dia em que as pessoasficarem sabendo, elas balbuciouHobb. Elas vo criar outro feriado.Um novo Dia da Reconstruo!

    O que h de errado com vocs? Kira foi to enrgica que no resistiu aopeso do prprio corpo, desabando sobrea cadeira. Ele pensava que vocs omatariam quando soubessem do segredo,mas pior.

    Nunca tivemos outra coisa em mentea no ser mat-lo. Isso nunca foiquestionado.

    A diferena que agora vamosfazer isso em pblico, onde a notcia

  • possa se espalhar e cumprir sua funo:unificar a raa humana disse Delarosa.

    Veja por uma perspectiva maior,Kira. disse Hobb. Voc esttentando salvar um grupo de pessoas quevem se matando nas ruas por livre eespontnea vontade. Acredita que umacordo com o inimigo vai mudar isso?Eles sequer nos ouvem, o que faz vocpensar que participaro de qualquercoisa com um Partial? O senadorinclinou-se para a frente, decidido eentusiasmado.

    A Voz queria a nossa cabea muitoantes de o Partial aparecer. Se a notciavazar, as coisas s vo piorar. Aspessoas exigiro respostas, elasprecisaro de respostas. E precisam de

  • ns para oferecer as respostas. Quandodermos as respostas, vamos ganhar aconfiana delas de volta. Teremos ocontrole da ilha novamente, teremos paz.Ns sabemos que voc quer paz.

    claro, mas disse Kira. Cuidado murmurou Delarosa, no

    para Kira, mas com os olhos em Hobb. O que est dizendo a ela?

    Ela pode ajudar. O senadorencarou Kira com tanta intensidade quea jovem sentiu-se enredada em seu olharazul, como se estivesse perdida numlabirinto. Voc idealista. Quersalvar as pessoas e ns queremos dar avoc esta oportunidade. J que voc to inteligente, me diga: o que as

  • pessoas desejam? Elas querem paz respondeu Kira. Ningum explode um prdio porque

    quer paz. Tente de novo. Elas querem Kira se

    perguntava, observando a expresso dosenador, onde ele queria chegar comaquilo. O que as pessoas desejam? Elas desejam a cura.

    Especfico demais. Querem um futuro. Querem um propsito. Hobb abriu

    as mos, exagerando nos gestosenquanto falava. Querem acordarsabendo o que se espera que faam ecomo devem fazer. Um futuro dar a elasum propsito e a cura dar a elas umfuturo, mas, no fundo, um propsito na

  • vida tudo que realmente desejam. Elesquerem um destino, querem poderalcanar algum objetivo. Quandoestabelecemos East Meadow, pensamosque o objetivo de curar o RM seria osuficiente. Mas no conseguimos atingi-lo, e depois de onze anos de resultadosinfrutferos, nossa sociedade estentrando em colapso. Seus propsitos sedeterioraram e morreram. Precisamosdar a eles algo que possam alcanar.Entende aonde quero chegar?Precisamos entregar Samm.

    No! gritou Kira. Ningum sabe quem causou a

    exploso disse a senadora Delarosa. Provavelmente a Voz, mas e se for um

  • Partial?Kira sentiu o clima ficar tenso. No foi. Mas o que significaria para a

    humanidade se tivesse sido? Hobbpassou a lngua pelos lbios,gesticulando com as mos medida quefalava. A humanidade precisa de umpropsito e agora este Partial explodiunosso hospital num lance desesperadopara destruir o que recuperamos. Eleestalou os dedos. A est o propsito:um inimigo! O povo ir se revoltar nocontra ns, mas junto conosco. A ilhaunida em torno de um inimigo comum.Quem sabe at a Voz mude de lado. Jimaginaram que golpe de mestre issoseria? Todos os rebeldes de volta em

  • nossas fileiras, toda a raiva e violnciaque jogam sobre ns sendo usadas paraatacar o inimigo externo? A raa humanaest dividida, Kira, mas isso nossalvar. Com certeza voc entende.

    Mas uma mentira argumentouKira.

    Porque apenas uma mentira ir nossalvar a tempo disse Delarosa. Eu,mais do que ningum, almejo a cura, eacredito que talvez ela possa nos unir,porm o tempo acabou. A Voz lanou umultimato, a guerra civil ir comear, osdemnios esto no porto. Se noagirmos agora, perderemos aoportunidade de tentar qualquer soluo.

    Havia alguma coisa de errado na

  • histria deles. Alm de ser uma mentiradeslavada, algo mais profundo esombrio espreitava dentro daquilo tudo.Kira sentiu-se nauseada.

    Por que esto me dizendo isso? Nosso plano no precisa de voc,

    mas considere as vantagens de t-laconosco. Voc jovem e bonita, temtalento e idealista. Sabe de tudo quefizemos. Esteve em Manhattan e trouxeum segredo consigo, pesquisou a cura efoi ferida no cumprimento do deverdurante o primeiro ataque Partial emonze anos. Ele apontou para a perna deKira. Se ns contarmos essa histria,as pessoas acreditaro. Se voc contar,elas daro a vida por ela. Voc podetransform-la em algo pessoal e

  • significativo. Pode ser a herona queunir o mundo novamente. Voc ser aface da paz.

    Isso diablico. Voc est pedindopara que eu minta a todos que conheo. Kira apontou para Samm. Voc estpedindo para que eu faa parte doassassinato dele.

    Os lobos esto famintos disseDelarosa. Podemos morrer lutandocontra eles ou jogar um corpo parasaci-los. Nunca imaginamos pagar topouco pela paz. A morte de um Partial uma barganha.

    Naquele momento a verdade atingiuKira como um raio e ela percebeu o queestava por trs do segredo mais

  • profundo. Os senadores queriam usar aexploso no hospital para obter o apoioda Voz, mas isso nunca funcionaria se aresponsabilidade pelo atentado fossedeles. Saberiam que o Senado estavamentindo. A nica forma de culparSamm era usar um acontecimento sobreo qual ningum conhecia a verdade. Issosignificava que a Voz no haviadetonado a bomba.

    Para o plano funcionar, a bomba tinhaque ter sido colocada ali peloSenado.

    Ela quase anunciou a descoberta aosgritos, acusando-os de imediato, maspela primeira vez na vida segurou alngua, engolindo a verdade que a fariamorrer ali mesmo onde estava. O

  • Senado havia colocado a bomba desdeo incio tudo havia sido uma armao.Queriam resolver o problema com aVoz, criando um inimigo comum e elatinha feito o servio, entregara Samm debandeja quando o capturou em suairresponsvel viagem a Manhattan. Porisso tinham trazido o Partial para EastMeadow e deixado Kira responsvelpelo projeto poderiam explodir tudosem o risco de matar algum importante.Os senadores posariam entre osescombros e uniriam a populao contrao grande inimigo que eles nuncalibertariam. Era o mesmo plano geralque haviam acabado de apresentar a ela,embora mais elaborado, antigo e, de

  • longe, mais perverso. No desistiriam,por mais que ela falasse.

    Kira olhou para Samm no um olharqualquer. Pensava nele, disposta a fazerSamm compreend-la, desejando muitopoder conectar-se a ele, expirando seuspensamentos dentro da cabea dele.Desculpe. No posso det-los. Porfavor me desculpe.

    Chegou a hora de voc escolher disse Delarosa. Junte-se a ns, tragapaz ilha, coloque um fim na ameaa daVoz ou continue uma rebelde e leve asua vida no exlio. Voc poderia viverconfortavelmente numa das fazendas. A senadora inclinou-se para a frente. Voc uma agitadora, senhorita Walker.As pessoas seguiriam os seus passos, e

  • se estiver do nosso lado, sero guiadasao futuro mais promissor das ltimasdcadas. A nova aurora da humanidade.Voc decide.

    Desculpe, pensou novamente,afastando sua mo da de Samm. Elaagarrou o suporte do soro, travou osdentes e deu um passo com a pernaqueimada, em direo aos senadores. Nada que eu faa ir deter vocs.

    Kira pode sentir a perturbao deSamm atingi-la como uma onda,acertando-a por trs e a encobrindo.Confie em mim, pensou. Vou salv-lo.

    Hobb apertou os olhos. Vai ficar conosco? No, no vou. Tinha dado as

  • costas a Samm, sem coragem de encar-lo. Desisto de lutar contra vocs.Olhem para mim, mal posso ficar em p.Mas no pensem que vou entreg-lo avocs ou mentir aos meus amigos. Uma lgrima correu pelo seu rosto, masela manteve o olhar firme, na nsia detentar convenc-los. Faam o que tiverque fazer e terminem logo com isso. Virou-se para porta, deu um passodolorido e respirou fundo. E pea paraum dos seus capangas me carregar at lembaixo. Estou quase sem foras.

    Claro. Leve o tempo que precisar.Recupere-se. De qualquer forma, ospreparativos vo levar mais algumashoras.

    Kira concordou com a cabea. Conto

  • com isso.

  • OCaptulo Vinte e Sete

    soldado a colocou na cama comcuidado, curvando-se ao ouvir seus

    gemidos de dor. Ela no estava fingindo,as pernas doam mais agora do que aosubir a escada. Tentou arrumar a mantasobre as pernas, mas a dor fez seusolhos lacrimejarem. O soldado ajudou-aa ajeitar as pernas, apagou a luz e saiu.Kira fez fora para se sentar, contraindotodo o rosto.

    Nunca me subestime.Ela fez outra aplicao de Regenera

    a terceira em menos de oito horas,

  • acelerando a regenerao celular almdo nvel considerado seguro. Mais tardesentiria os danos, mas, por enquanto,isso a deixaria em condies de andar.Espiou o lado de fora do quarto e sorriu.A queimadura era to grave e ela estavato debilitada que o guarda nem ficoupara vigi-la.

    Marcus estava na lanchonete, o olharparado num prato de arroz que ainda nohavia sido tocado. Ser que ele meajudaria? Precisa fazer isso.Aproximou-se dele mancando.

    Oi.Marcus levou um susto e se levantou. Onde voc estava? Vim para c

    assim que reabriram o hospital. Vocno estava no quarto. Virei o prdio de

  • cabea para baixo. Ento me fizeram virsentar aqui e esperar. Olhou para elada cabea aos ps e contraiu a testa emsinal de preocupao. Caramba, como que conseguiu chegar aqui? Mal podeandar.

    Mgica disse, distante. Pode mefazer um favor?

    Claro. Preciso de uma ressonncia

    magntica.Ele franziu o cenho. Eles no deixam voc fazer? Quero que voc faa. Por qu? Quero que segure minha mo

    durante o exame.

  • Ah tudo bem. Marcus sorriu,obviamente confuso. Voc no prefereusar o DORD, so to melhores

    Preciso de uma RM. Vou procurar algum para operar a

    mquina enquanto eu s voc, Marcus disse, firme.

    Voc e eu.Ele concordou com a cabea. Marcus

    parecia cansado e preocupado, mashavia um brilho em seu olhar comeava a entender aonde ela queriachegar. Claro, vamos l. Eleofereceu o brao a ela, que o aceitouagradecida, mancando ao seu lado pelocorredor principal.

    O que est acontecendo? ele

  • sussurrou. Pode chamar de premonio

    mdica. Quero ver uma coisa. Kirahesitou por um instante, em dvida deat onde contar a ele. No haviam maisconversado desde que a pedira emcasamento.

    Caminhavam em silncio. Depois detudo que fiz para ele, ser que aindaconfia em mim?

    Encontraram um quarto isolado nocorredor de radiologia. Marcus aacomodou na mesa de exames. Kirasentiu a perna machucada e gemeu. Eracomo se tivesse corrido uma maratonasobre um mar de cacos de vidro. Amquina de ressonncia magntica eramenor que o DORD do seu laboratrio

  • apenas um doughnut, no uma enormecaixa, e menos potente , mas seu campomagntico era exatamente do que Kiraprecisava.

    Vou lig-la disse Marcus. Foipara a estao de trabalho e mexeu nosbotes. Kira respirou fundo. Chegou ahora. tudo ou nada. A mquina entrouem funcionamento, o poderoso campomagntico percorrendo seu corpo.Quando Marcus voltou, segurou na suamo.

    No temos muito tempo. Agora,preste ateno. Kira voltou a deitar-seenquanto o aparelho executava seumovimento. Estou sob forte vigilnciapor ordem de Mkele. E tenho quase

  • certeza de que estou usando algumaparelho de escuta. O campo magnticoda RM vai interromp-lo, mas no seiquanto tempo temos at seus capangassuspeitarem. Ela olhou para Marcus,depois endireitou a cabea. Vocconfia em mim?

    O qu? Voc confia em mim? Sentia que

    Marcus a encarava, mas manteve-seolhando adiante.

    Sim. claro que confio em voc.Fala.

    O Senado explodiu meu laboratrio.Mataram Shaylon e me ameaaram.Samm, as pesquisas, a bomba, tudo isso,foi uma armao para deixar apopulao com medo. O objetivo um

  • s: consolidar o poder do Senado nailha. Agora esto usando esse cenriopara Kira desviou o olhar, masrecobrou a coragem e o encarou. Marcus, eles vo matar Samm.

    Kira percebeu algo passar pelaexpresso do rosto de Marcus. Nosabia dizer se era horror, espanto oucime. Ele olhou para o teto, entoabaixou lentamente o olhar at Kira.

    Kira, a criatura sempre estevecondenada. Samm sempre estevecondenado. Voc sabe. A vozmontona e controlada de Marcus diziaa Kira que ele estava reprimindo algumsentimento muito intenso. Alm disso,por que haveriam de explodir o seu

  • prprio povo? Seu prprio hospital? Porque faz parte do plano deles

    disse Kira. Nunca consegui entenderpor que recebi a misso de estudarSamm, agora entendo. Sou apenas maisuma garota da gerao babylndia, amdica mais inexperiente e a maisdispensvel. Se eu tivesse morrido naexploso, teriam feito de mim umamrtir, mas como sobrevivi meofereceram o papel principal: a jovem ecorajosa cientista que sobreviveu aoataque Partial.

    Os Partials explodiram o hospital? Foi o Senado, j falei. Mas vo

    jogar a culpa em Samm e depois mat-lopara ganhar o apoio da populao. Seus olhos eram de splica, tentando

  • convenc-lo. Pediram para Shaylonolhar pela janela. Marcus, pediram parao soldado ficar bem prximo paredeantes de explodirem essa mesma parede.

    No disse Marcus, balanando acabea. Foi a Voz. Eles esto atacandoa cidade h semanas. Deve haver pelomenos uma clula do grupo entre ns. Apesar do que acabara de dizer, Kirapode perceber a dvida despontar nasua voz.

    Algum chegou a ver o grupo? Ohospital foi mesmo atacado ou foi o queo exrcito falou, para apagar as prpriaspegadas?

    Marcus a encarava em silncio. Eu sei que parece loucura

  • recomeou Kira, mas Marcus ainterrompeu.

    No, no loucura. Vindo de Xochisoaria loucura, mas de voc Elesegurou sua mo. Confio em voc,Kira. Se voc disse que esto tentandote matar, ento porque esto tentandote matar.

    Kira fechou os olhos e agradeceu aquem estivesse lhe ouvindo. Obrigada,obrigada, obrigada. Olhou para Marcuse falou rapidamente.

    No sei quanto tempo temos at quenotem o problema na escuta. Kirarespirou fundo. Precisamos salv-lo.Depois explico melhor, mas nossoobjetivo esse: vamos solt-lo e lev-lopara o norte, depois o seguimos at onde

  • eles moram. Eles esto morrendo, assimcomo ns. Vieram oferecer uma trgua.Vamos aceitar o pedido deles.

    Marcus gaguejou, procurando aspalavras certas.

    Voc est louca? Ele salvou minha vida, Marcus.

    Samm teve a chance de fugir depois daexploso. Ele estava solto, no tinhaguardas e a parede era um enormeburaco. Poderia ter fugido, mas elelevantou o DORD que estava meeletrocutando e salvou a minha vida.

    Marcus no se movia, olhando diretoem seus olhos melhor, atravessandoseus olhos, olhando dentro dela, paraalgo que ela podia apenas imaginar. O

  • sofrimento estampado em seu rostoquase partiu o corao de Kira.

    Eu deveria ter balbuciou, oolhar ainda perdido. Eu tentei

    Voc tentou me salvar, mas no deiouvidos disse Kira, engolindo o choro. Eu sei que tenho sido tola eirresponsvel, mas agora no tem volta.Sei que voc quer me tirar daqui e meproteger, mas no podemos fazer isso,no agora. Sei que perigoso e quevoc no quer fazer isso, mas preciso devoc, Marcus. Preciso que acredite emmim. Preciso que confie em mim.Preciso ouvir que voc vir comigo.

    Marcus continuava calado. Eleesfregou os olhos, contraiu a expressoe cerrou os dentes. Kira cobriu a boca

  • com as mos, respirando longamente,mas sem tirar os olhos dele. Por favor,Marcus. Por favor, diga sim.

    Marcus levantou-se e virou de lado.Kira fechou os olhos, chorando emsilncio.

    Vou com voc.Kira abriu mais os olhos. Vai?Ele se afastou da mesa. Vou ajudar a libert-lo, vou ajud-

    la a lev-lo para casa. Farei qualquercoisa por voc. Por voc.

    Ah, Marcus Da ltima vez que voc partiu,

    quase morri. No vou deixar que faaisso sozinha. Seu olhar era amoroso e

  • cheio de desejo. Lanou as mos no ar,impotente. E como vamos fazer isso?

    Kira abriu e fechou a boca, sem sabero que dizer.

    No sei. Mas seja o que for, deveser hoje noite.

    Vamos precisar da ajuda de Xochi disse Marcus. De Xochi e Isolde, pelomenos. E de Jayden e Haru, seconseguirmos convenc-los.

    Kira balanou a cabea. Nunca confiaro num Partial.

    Faremos sem os dois.Marcus assobiou baixinho. Isso loucura disse Marcus,

    dando de ombros. Rena Xochi eIsolde. Preciso de tempo para conseguiralgumas coisas. Nos encontramos na tua

  • casa, em duas horas. Perfeito. Agora invente uma anlise

    das imagens que esta coisa acabou defazer de mim, precisa parecer um examede verdade.

    Marcus foi at o computador e digitoualgo. Menos de um minuto depois umsoldado enfiou a cabea na sala: Kiraestava deitada na mesa e Marcus naestao de trabalho, olhando para a tela.O soldado olhou ao redor e saiu. Marcusesperou a porta se fechar. Os doistrocaram olhares. Eles tinham duashoras.

    Kira dobrou a perna. A sua vontadeera de usar o Regenera outra vez, mas acicatrizao estava indo bem, o

  • problema era a dor. Para equilibrar asituao, tomou uma dose generosa deanalgsicos. Deu uma olhada na atadura,certificando-se de que estava bem presa,e vestiu a cala. Alm de mancar, Kiraestava um tanto grogue, mas pelo menospodia caminhar.

    Espiou o corredor e no viu nenhumguarda. Ou os senadores haviamacreditado na sua vontade de colaborarcom o plano deles ou pensavam que avigilncia de Mkele era suficiente paramant-la sob controle. Mas seria demaisafirmar que o corredor estavadesprotegido. Havia pelo menos dezguardas, talvez mais, armados at osdentes, e reunidos ao redor da porta, nofinal do corredor. Pelo menos d para

  • saber onde esto mantendo Samm,pensou Kira. Ela saiu sorrateiramente doquarto e tomou a outra direo. Sandyno estava sua mesa, no posto deenfermagem. A sorte estava do seu lado.

    Era quase noite. Kira sabia disso pelameia-luz que lhe era familiar das longashoras de trabalho no hospital. Masnaquela noite, perceber isso fez seucorao vir parar na boca. No haviacomo no se perguntar se aquela seriasua ltima noite em East Meadow altima vez que passaria pelo pedgiodesativado, pela manso azul daesquina; a ltima vez que veria ovendedor de sushi vagando pelascaladas. Ela dobrou a rua onde morava,

  • entrou em casa e arrumou a mochila emsilncio, pegando tudo que conseguissecarregar: lanternas e baterias extras,vrios pares de meias, uma faca e umjogo de ferramentas. Desmontou o fuzil eo colocou na mochila, escondendo-o omelhor que pode desta vez no seriauma misso de resgate, por isso noteriam disposio as armas da Rede.Ela ainda estava com a arma de Isoldepresa cintura um acessrio comumnaqueles dias , e pegou toda a muniopossvel para ambas as armas. Porltimo, pegou o kit mdico, fechou asbolsas bem apertadas e as colocou naporta da frente, esperando a chegada dosoutros. Kira lembrou-se de que Nanditaainda no havia regressado da viagem.

  • Ela nunca havia ficado tanto tempofora. Tomada de certa ansiedade, Kiraperambulou pela cozinha. Tudo parecianormal. Caminhou at os fundos da casae, como no encontrou ningum, voltouapressada, olhando em todos oscmodos. Nem sinal de Nandita.

    Teria sido presa? Teria sido atacadaenquanto coletava as ervas? Erapossvel que tivesse simplesmentepartido, como Kira estava prestes afazer; poderia ter embalado o essenciale partido para uma fazenda ou outracomunidade fora de East Meadow. Masela nunca teria feito isso sem sedespedir. Tem alguma coisa errada.

    Marcus foi o primeiro a chegar,

  • cumprimentando-a em silncio commovimento de cabea e mostrando-lheum estetoscpio digital. Kira olhousurpresa, mas ele fez sinal para terpacincia. Xochi e Isolde chegaramalguns minutos depois, e Kira asmanteve em silncio enquanto Marcusrevistava o resto da sala. O estetoscpioapitou baixinho quando ele passou nafrente do equipamento de som. Hei,Xochi, posso ouvir um pouco demsica? perguntou Marcus, em alto ebom som.

    Claro respondeu ela, da mesmaforma. Kira percebeu no olhar de Xochique ela havia entendido o que Marcusfazia. As duas o observavamatentamente.

  • Marcus foi at o aparelho, desplugouum dispositivo de msica com ainscrio KAYLEIGH, 2052 e passou oestetoscpio por ele, no encontrounada. Em seguida, desconectou oprprio aparelho e o tirou da prateleira,examinando-o de vrios ngulos. Ele fezsinal para as garotas se aproximarem.Marcus apontou para um objetoescondido atrs da placa de metal preta.Elas entenderam o recado e seafastaram.

    Cuidado com a bebida, da ltimavez voc quase estragou meu aparelhode som disse Xochi.

    Kira trouxe da cozinha um balde comgua e o colocou na frente de Marcus.

  • Obrigado. Ah, que droga! Eleafundou o aparelho na gua por algunssegundos. Desta vez, o estetoscpio noapitou, e ele sorriu. Ele passou oestetoscpio rapidamente em Xochi eIsolde, nada. Kira conectou oKAYLEIGH, 2050 num aparelho menore aumentou o som o mais alto possvel,colocando-o no centro da sala.

    Marcus levantou o auscultador digital. Eu estava de planto esta manh

    quando a bomba explodiu e acabei meaproximando com o estetoscpio de umdos aparelhos de escuta de Mkele, nolaboratrio. Parece que o estetoscpio um excelente detector. Ele jogou oaparelho no sof. A sala est limpa e

  • vai ser muito difcil algum l foraconseguir ouvir alguma coisa com amsica alta.

    Kira olhou para cada amiga emseparado.

    Estamos prestes a cometer um atode traio. Se algum quiser pular fora,agora o melhor momento.

    o que estou pensando? perguntou Xochi.

    Kira deu de ombros. Um plano para atacar o hospital,

    libertar o Partial, lev-lo para casa econspirar com seu povo para salvar omundo?

    Xochi arregalou os olhos. Bem, na verdade, no. Nem de

    longe respondeu, fazendo um

  • movimento rpido com a cabea comose algo a incomodasse. Resgatar oPartial? Est falando srio?

    Os Partials ofereceram uma trgua,mas o Senado a rejeitou. Kira respiroufundo. Se eu puder trabalhar com eles,posso encontrar a cura do RM. Tenhocerteza disso. Mas vocs tero deconfiar em mim.

    Xochi no sabia o que dizer. Por fim,balanou a cabea.

    Confio em voc, Kira. Vamoscometer um ato de traio.

    Maravilha disse Marcus. Isoldetambm concordou num sinal com acabea, mas estava plida e nervosa.

    Mesmo com a msica alta, Kira

  • sentou-se e falou baixinho, porprecauo.

    O Senado est perdido. Explodiramo hospital para colocar a culpa emSamm e agora vo mat-lo numa jogadapoltica para manter o poder. O beb deMadison est para nascer e ainda notemos a cura, e a Voz est pronta paradar um golpe.

    Xochi abriu um sorriso. Qual o plano? Temos que tirar Samm do hospital e

    da ilha disse Kira. Comecempegando suas roupas, material deacampamento e armas. Depois, meencontrem na esquina da via expressacom a Rua Prospect, em uma hora.Isolde, ainda estou com a sua arma.

  • Kira tirou a arma do coldre. No posso ir com voc. Voc disse que iria contestou

    Xochi. Farei tudo que puder daqui, mas no

    posso partir. Vamos precisar de todo mundo,

    caso alguma coisa d errado argumentou Kira.

    Eu no posso insistiu Isolde. Sefosse s eu, iria com vocs, mas Isolde calou-se. Estou grvida.

    Kira ficou de queixo cado. Voc o qu? Estou grvida. Descobri hoje cedo.

    Voc sabe que vou ajud-la, mas noposso arriscar tanto. Isolde olhou Kira

  • nos olhos. Desculpe.Kira tentava processar a informao.

    Olhou para o ventre de Isolde, aindatorneado como o de uma modelo.

    Foi inseminao?Isolde meneou a cabea. Senador Hobb.Kira engasgou. Foi consensual? perguntou Xochi,

    revoltada. Porque se no foi, voupassar no Senado e meter um tiro nele.

    No respondeu Isolde, de chofre, no foi nada imprprio. Bem, ele meu chefe, o que errado, mas ele nome forou. Eu queria. Ficamostrabalhando at tarde e

    Voc estava bbada? perguntouMarcus.

  • Isso problema dela disse Kira. Ela disse que a deciso foi dela. Kiraolhou para Xochi. Podemos mat-lo navolta. Isolde pode ficar para encobrirnossa fuga. Foi perfeita da ltima vez.

    E o que vamos fazer? perguntouMarcus. Mesmo que a gente consigasair com Samm do hospital, e depois?Vamos para o Brooklyn, como fizeramda ltima vez?

    Vigiaro aquela rota assim quedescobrirem o que estamos fazendo.Precisamos ir para o norte e cruzar omar.

    A sala ficou silenciosa; s de pensarera assustador. Nenhum deles sabiacomo pilotar um barco, e Xochi era a

  • nica que nadava bem. Alm disso, oterritrio entre East Meadow e o norteda ilha estava tomado pela Voz.

    Ela tem razo disse Xochi,devagar. H muitos soldados da Redede Defesa daqui at Manhattan. Omelhor caminho pelo norte. Tamborilou os dedos na mesa. EssePartial vai ser de alguma ajuda? Elesabe onde conseguir um barco?

    H barcos ao longo de toda a costanorte disse Kira. Vimos muitos delesnas misses de resgate. Precisamosapenas encontrar um com o tanque cheiode combustvel. A gasolina estarvencida, mas d tempo de atravessarantes que ela arrune o motor.

    Isso se conseguirmos alcanar o

  • litoral observou Marcus. Do jeitoque as coisas esto, a Voz deve estaratacando qualquer um que seja de EastMeadow.

    No perseguiro um grupo degarotos desarmados disse Xochi.

    Kira meneou a cabea. Bem, estaremos armados. So revolucionrios, no assassinos

    argumentou Xochi. Vocs esto colocando a carroa

    antes dos bois disse Isolde. Nadadisso ter importncia se noconseguirem tirar Samm do hospital.Talvez nem consigam entrar no hospital.

    Essa a parte mais difcil admitiuKira. Ele est num quarto com

  • segurana reforada, no primeiro andar.Vi quando fugi do hospital. Estavafervendo de guardas. Se encontrarmosuma forma de peg-los desprevenidos

    Na verdade ele no est l disseMarcus. Kira levantou a sobrancelha eMarcus inclinou-se para cochichar. Mkele est usando o primeiro andarcomo disfarce. Samm est na sala dereunio, com apenas dois guardasvigiando.

    Como sabe disso? perguntouXochi.

    Marcus sorriu e olhou para Kira. Sabe aquele cara que vende peixe

    no estacionamento do hospital? Um dosguardas ficou vidrado nas ostras quecomprei dele e pediu que eu levasse

  • mais hoje noite. So apenas doisguardas l em cima. Vale a pena ser umcara bacana disse, sorrindo.

    Isso vai ajudar a gente a entrar, masassim que chegarmos ao quarto, pediroreforo. Jamais conseguiremos sair disse Xochi.

    E se os distrairmos? perguntouIsolde. Posso fazer alguma coisa parachamar a ateno dos soldados.

    Pode funcionar, mas precisa seralguma coisa muito envolvente disseMarcus. No podemos apenas distrairos guardas, temos que chamar a atenodeles e torcer para que se envolvam nasituao. Precisa ser algo pico.

    Kira assentiu, o olhar perdido no

  • cho. Se estava na chuva, era para semolhar. Disse baixinho:

    Que tal uma enorme onda deprotestos?

  • KCaptulo Vinte e Oito

    ira encontrava-se na esquina da viaexpressa com a Rua Prospect, a uma

    quadra do hospital, escondida nas runasde um antigo restaurante, Aladins.Havia sido um timo lugar parasaborear um bom churrasco grego, masagora estava coberto de mato. O mantode kudzu era perfeito para Kira espiar ohospital sem ser notada. A aglomeraoj estava na frente do edifcio. O boatocorria.

    Isolde fez um bom trabalho murmurou Kira. Quando algum ligado

  • ao Senado comea a espalhar rumores,as pessoas acreditam.

    O Senado vai saber que foi ela disse Xochi. Vo mat-la.

    Mesmo que os senadoresdescubram, ela no corre perigo. Estgrvida. Nem mesmo Mkele ousariamachuc-la.

    Para preservar sua imagem? perguntou Xochi. Depois do que estpara acontecer, Mkele no ter maisnada a perder. Matar um beb ser amelhor coisa que ele ter feito nasemana.

    Isolde vai ficar bem insistiu Kira.Deu alguns passos para sentir a perna, ador ainda era horrvel e ela contraiu aexpresso ao pensar no esforo

  • exaustivo que tinha pela frente.Raciocinou por alguns instantes, entoabriu o kit mdico.

    Xochi a observava com ar dereprovao, ao v-la alcanar um vidrode Nalox e uma seringa.

    Drogas? Mal consigo andar respondeu,

    preparando a agulha. Se vou passar anoite correndo dos soldados da Rede,preciso de mais analgsico.

    Xochi deu um risinho amarelo. Tem para todo mundo? Vira essa boca para l. Kira

    aplicou a injeo na perna e cobriu apequena gota de sangue que brotava doferimento com um Band-Aid. A reao

  • foi sentida quase de imediato, mais nacabea do que na perna. Umentorpecimento dos sentidos e um levevagar nos movimentos. A morfina eraforte. Ser que exagerei na dose?

    Melhor? perguntou Xochi. Kiraassentiu. Fique na minha frente secomearmos a atirar. No quero levarum tiro por causa dos seus reflexosretardados.

    L vem Marcus disse Kira,apontando para um grande grupo depessoas que descia a rua. Marcus estavano centro, sua figura alta em destaque.As pessoas gritavam, gesticulavam ediscutiam em voz alta. Kira pde ouvirtrechos da conversa um Partialpor que no contaram novo tipo de

  • vrus RM o Senado sabia. Se antes ningum sabia de nada,

    agora definitivamente no existe maissegredos comentou Kira. Vaiarruinar com os planos do Senado, deum jeito ou de outro.

    A multido passou por elas, clamandopara que Kira e Xochi se juntassem aogrupo. Kira pegou suas coisas e entrouno meio dos manifestantes, seguida deXochi. Marcus esperava por elas.

    Noite agradvel para se fazerjustia com as prprias mos.

    A multido na frente do hospitalgritava e entoava palavras de ordem. Aentrada estava bloqueada por umaparede de soldados armados; na frente

  • deles, as pessoas se agitavam, de umlado a outro, como as guas incertas damar. Kira foi tomada por uma dvida: ese as manifestaes causassem maismortes? Pelo menos Madison e as outrasmes estariam seguras a maternidadeera o local mais bem guardado dacidade. Agora era tarde demais pararecuar. Ela rezou em silncio e seguiuem frente.

    Vamos ter que tomar muito cuidadopara tir-lo de l disse Marcus. Se amultido o encontrar, vai deix-lo empedacinhos.

    Eles no sabem como a suaaparncia. Podemos sair com ele comose fosse um de ns Xochi.

    Assim como podem confundir um

  • Partial com um humano, podem fazer ocontrrio disse Kira, analisando amultido, nervosamente. Acho queexageramos um pouco.

    Ainda nem fizeram nada disseXochi, apertando o passo. S vo nosajudar quando a quebradeira dentro dohospital comear. Ela empurrava aspessoas para abrir caminho e gritavapara incentiv-las. O Senado estava deconluio com os Partials esse tempotodo! assim que agem: novas doenas,mais mortes, mais opresso. Esta no aprimeira vez!

    Kira e Marcus avanavam comopodiam, jogados de um lado para ooutro no centro do turbilho. Sob o

  • efeito da droga, Kira sentia aquelaagitao toda como algo irreal eassustador; superava a prpria vida emsom e fria.

    Balanou a cabea, tentando manter-se atenta.

    Xochi alcanou a frente damanifestao e subiu no cap de umcarro abandonado.

    Vocs sabem por que eles estofazendo isso? Porque querem noscontrolar! Porque, se tivermos medo,faremos qualquer coisa que mandarem. Os manifestantes gritaram emconcordncia e Xochi prosseguiu. Entregue seus amigos! No saia dacidade! Engravide antes que o vrus RMte mate! A multido estava ainda mais

  • barulhenta, agitando-se ao redor de Kiranum movimento browniano[9]acelerado.

    Uma pedra lanada por algummanifestante passou de raspo por umdos soldados, espatifando-se numgrande estalo contra a porta de vidroatrs do peloto. Mais pedras foramarremessadas, numa saraivada violenta,enquanto Xochi continuava gritando.

    Estamos fartos de tantos segredos!Se o Senado est escondendo um Partiall dentro, que tragam ele para fora.Queremos ver a criatura!

    A multido avanou, um mar depunhos cerrados em revolta. Ossoldados atiraram para cima e os

  • manifestantes recuaram, mas no paraonde estavam de incio; a distncia entreeles era agora muito pequena.

    No atiraram contra ningum disse Kira. Devem estar cumprindoordens. Precisamos entrar agora, antesque mudem de ideia.

    Esto atirando contra seu prpriopovo! gritou Xochi, levando a mo arma. Kira e Marcus avanaramalarmados, esforando-se para alcan-la antes que ela comeasse um tiroteio.

    Os soldados esto com fuzisautomticos! gritou Kira, sua vozsendo engolida pela multido. Xochi,no!

    Xochi se virou, com a arma em punho,e Marcus agarrou sua perna, puxando-a

  • para baixo. A queda de Xochi produziuum som abafado no cap. A armaescapou de sua mo e Kira a pegou noar, apontada para o cu. Xochi perdeu oflego, tossindo e grunhindo at serecuperar.

    Uau! No pode atirar ralhou Kira. Os

    soldados vo fazer um massacre. Ento, no podemos esperar mais

    disse Marcus, pulando para cima docap, ao lado de Xochi, com pedras nasmos. Derrubem as portas! gritou,atirando a primeira pedra. Acertou nobrao de um soldado, que apontou ofuzil para a multido. O oficial ao seulado o deteve, gritando algo que Kira

  • no conseguiu entender. Marcus atirou asegunda pedra, que acertou bem no meioda porta, estilhaando o vidro. Foi comoum sinal para a multido, que avanounovamente. Xochi guardou a arma nocoldre e o trio avanou, mas houve umaparada brusca quando a primeira fileirade manifestantes se chocou contra ossoldados. Kira foi prensada dos doislados, teve os ps pisados e sentiu umchute dolorido na queimadura, que quasea colocou de joelhos. Se eu cair, sereipisoteada at morrer. Ela tentavarespirar, empurrando com toda a fora.

    Dentro do hospital, a multido irpara a direita. V para a esquerda, nadireo da escada orientou Marcus,ofegante.

  • As pessoas atrs deles empurravamcom violncia, mas no havia como sairdali. A presso era tanta que o pulmode Kira foi espremido, o ar saindolentamente. Ela viu pontinhos coloridose sua cabea ficou leve; de sbito, abarreira humana cedeu. Os manifestantesinvadiram o hospital, empurrando ossoldados para trs ou apenas passandopor eles como um enxame. Kira tentavase manter em p ao ser arrastada pelamultido. Ela atravessou as portas e osaguo, conseguindo andar um poucomais rpido depois que a aglomeraocomeou a se espalhar pelo local.Balanou a cabea, tentando ordenar asideias, e se lembrou da orientao de

  • Marcus, saindo pela esquerda. Elacosturava entre os manifestantesenfurecidos, procurando a porta nosinalizada que dava acesso escada.Marcus e ela chegaram quase ao mesmotempo, e Xochi logo em seguida.Abriram a porta e mergulharam numosis de silncio.

    Kira arfava, recuperando aos poucosa respirao.

    Algum nos seguiu? Parece que no respondeu Xochi.

    Vamos rpido. Temos que ir agora,antes que os soldados retomem ocontrole da situao.

    Supondo que consigam disseMarcus, saltando os degraus de dois emdois. Ele dobrou um lance de escada,

  • sua voz ecoando para baixo. Teremossorte se ainda existir alguma ilha paraser salva depois desta confuso toda.

    Kira empunhou a pistola e subiu atrsdele, Xochi veio por ltimo. Quartoandar, pensou Kira, contando cadalance de escada. A Rede vai enviar ossoldados que faziam a segurana deSamm para ajudar l embaixo ou, aover o que est acontecendo, vaireforar a segurana dele?

    Chegaram ao quarto andar, e Kira seabaixou perto da porta.

    Esperem um minuto para eu pegar ofuzil disse, abrindo a mochila. Noquero estar no meio de um tiroteio comeste revlver de brinquedo

  • Suas palavras foram interrompidaspor um forte disparo do outro lado daporta. Ela levantou o olhar, alarmada.

    J esto atirando? No foi em nossa direo disse

    Xochi. Algum chegou antes de ns noquarto do Partial.

    A outra escada! disse Kira,escancarando a porta. No meio docorredor, os soldados estavamagachados rente ao cho, as armasapontadas para o lado oposto de ondeestava Kira. Ela engasgou. Haru estaval, com Jayden, e outros trsmanifestantes armados, embora Kira noconseguisse distinguir quem era quem.Ela se jogou no cho e trouxe o fuzil

  • consigo, embora daquela distncia nofosse ajudar muito.

    Atrs de ns! gritou um soldado,virando-se para Kira. Naquele momento,um dos manifestantes deu um tirocerteiro no ombro do homem. Ele gritoue caiu de bruos. Haru girou a arma eatirou no manifestante. O nico soldadoque sobrou rastejou at a entrada de umaporta.

    Estamos cercados! gritou,apertando o boto do rdio. Precisamos de reforo no quarto andar,agora!

    Vo matar Samm resmungou Kira,avanando pelo corredor. Haru!Jayden!

    O segundo soldado estava cado e

  • pelo menos um dos manifestantes estavaestatelado no cho, alguns metros atrsdos outros. O grupo apontou as armas,mas Haru e Jayden reconheceram Kira.

    No posso dizer que estou surpresode encontrar voc aqui disse Jayden.Ele engatilhou a pistola, apontando paraa direo de onde tinham vindo. Faam uma barricada naquela porta. Aspessoas ainda no sabem que ele estaqui, mas cedo ou tarde vo descobrir.

    No estamos aqui para proteg-lo,mas para libert-lo explicou Kira.

    Haru a encarou, soltando umagargalhada.

    Est falando srio? Est maluca?Trouxemos essa coisa para ser

  • interrogada e dissecada e agora vocquer fazer um pacto com ele? Estava doseu lado, Kira, mas agora voc foi longedemais. Ele apontou o fuzil para opeito de Kira. Xochi e Marcusapontaram suas armas para ele, e Jaydene os outros trs apontaram para a dupla.Kira estava no meio, respirandolentamente, tentando no perder acabea. Sua mente divagava sob o efeitoda morfina.

    Samm inocente. O grupo queencontramos em Manhattan vinhaoferecer uma trgua. Paz, Haru explicou Kira.

    E como voc sabe disso? Ele nos contou.Haru olhou ao redor, como se todos

  • estivessem loucos. verdade disse Marcus. Ele tentou nos matar lembrou

    Haru, apontando a arma para ele. Capturaram nosso recruta, atiraram norosto de Gabe e nos perseguiram parafora da ilha com um esquadro armado.Desde quando isso significa paz? No essa paz que desejo.

    Ele um aliado. Pode nos ajudar areconstruir nosso mundo disse Kira.

    Haru balanou a cabea como se omundo tivesse enlouquecido.

    Maldita gerao babylndia! Serque fazem alguma ideia do queperdemos da ltima vez em queconfiamos nos Partials? Ele gesticulou

  • raivosamente em direo cidade. Todas as casas l fora costumavam serhabitadas. Cada prdio ainda estava emp, todas as escolas estavam cheias decrianas. 99,9% da populao morreu.Kira, se isso acontecer outra vez,sobrar apenas duas pessoas. Duas, emtoda a ilha. Jamais vamos reconstruircoisa alguma.

    Eles esto morrendo, assim comons insistiu Kira. Se trabalharmosjuntos, poderemos salvar ambos

    No quero salvar ambos! gritouHaru. Quero salvar meu filho e matarcada Partial sobre a Terra!

    Salvar seu filho o motivo peloqual estamos aqui! disse Kira,levantando a voz. Voc pode vigi-lo

  • a noite inteira se quiser, mas o Senadoir mat-lo pela manh, e ainda noencontramos a cura. Se eu for com ele,poderemos encontr-la.

    Haru a encarava, a raiva e a dvidaturvando sua vista.

    No vou deixar que tire ele daqui. Ela j deu um nome para a sua filha,

    Haru. Kira sentiu a voz fraquejar, masesforou-se para manter a firmeza. Suafilha tem um nome: Arwen Sato. Suafilha Arwen Sato. Ela olhou paraJayden. Sua sobrinha Arwen Sato. Em seguida, encarou Haru. Podemossalv-la.

    No a tempo ele falou, os olhosmidos, o rosto vermelho, os dentes

  • mostra. No! disse Jayden. Ele moveu a

    arma na direo de Haru. Kira temrazo. Abaixe a arma.

    Voc est louco? Odeio os Partials tanto quanto voc,

    mas Madison est contando com a cura.No vou deixar escapar a nica chancede salvarmos minha sobrinha.

    Em vez disso, vai matar o maridodela?

    No se ele abaixar a arma. Oolhar de Jayden era frio. Vocs doistambm, coloquem as armas no cho.

    Devagar Haru obedeceu e os outrosfizeram o mesmo. Xochi recolheu asarmas enquanto Jayden os mantinha soba mira do fuzil. Kira tentou abrir a porta,

  • mas estava trancada. Vasculhou nosbolsos do soldado morto e encontrou omolho de chaves.

    Este aqui continua vivo disseMarcus, examinando o outro soldado nocho

    Estvel? perguntou Kira. Se estancarmos o sangramento. Faa uma atadura disse Kira,

    levantando-se. Vamos tranc-lo juntocom os outros e ele receber cuidadosquando a situao acalmar.

    Por falar nisso, precisamos sairdaqui observou Xochi. Solicitaramreforo e assim que a manifestaoestiver levemente sob controle enviarocada soldado que tiverem para c.

  • Kira assentiu com a cabea. Veja se consegue descobrir como

    est a situao l em baixo.Xochi correu at a escada. Kira tentou

    vrias chaves at encontrar a certa. Oquarto estava escuro e Sammacorrentado a uma cadeira no centro,todo marcado com cortes, feridas earranhes.

    Voc est horrvel disse Kira. Tudo bem respondeu Samm,

    gemendo, embora Kira pudesse jurar tervisto um sorriso despontar em seuslbios. Possuo um sistema muitoavanado de plaquetas.

    Kira correu at ele sentindo dores naspernas e apressou-se em descobrir qual

  • das chaves abria o cadeado dascorrentes. Havia dois pares de algemase trs diferentes cadeados. Ela abriutodos com um estalo.

    Voc no precisava me salvar disse Samm.

    Voc no precisava me salvar repetiu Kira, abrindo o ltimo cadeado eretirando as correntes. Ela permaneceualguns instantes agachada ao seu lado.Samm olhou para ela por uma frao desegundo, seus olhos separados dos delaapenas por alguns centmetros, suarespirao tocando o rosto de Kira.Quando ela falou novamente, foi umsussurro. Obrigada.

    Samm levantou-se e a seguiu at ocorredor. Comprimiu os olhos por causa

  • da claridade e fez movimentos com acabea para soltar os ns do pescoo.

    Jayden levou Haru e os outros para omesmo quarto. Haru cuspiu em Samm aopassar por ele, mas o Partial no reagiu.Marcus terminou de fazer o curativo nosoldado e o levou para o quarto escurocom os outros. Kira trancou bem a porta.

    Jayden e Kira ouviram barulhos nofinal do corredor e viraram-se com asarmas em posio de tiro, mas eraapenas Xochi, abrindo a porta de acesso escada. Ela correu at eles em grandeagitao.

    Temos que sair daqui agora. Ossoldados no conseguiram conter amultido e voltaram a vigiar a

  • maternidade. Os manifestantes estoprocurando pela criatura por todo oprdio. Ela apontou para Samm com oqueixo. s uma questo de tempo atchegarem aqui.

    Me passe uma das armas disseSamm.

    Confiamos nele com uma arma namo? perguntou Jayden.

    J confiamos mais do que isso respondeu Xochi, entregando o fuzil deHaru. Quando Samm pegou a arma, Kiraestremeceu por dentro, mas se elechegou a notar a sua reao, nodemonstrou. Ele analisou a arma comdestreza, ento se abaixou e rapidamenterecolheu a munio dos cartuchos queestavam jogados no cho. Levantou-se

  • com tranquilidade. Como samos daqui? Tem uma escada de servio na ala

    norte respondeu Marcus. Ela ficatrancada, ningum tem acesso, maspodemos estourar a fechadura.

    Eles tambm podem disseramSamm e Jayden, quase ao mesmo tempo.Entreolharam-se e Jayden levantou umasobrancelha.

    O poo do elevador disse Kira. Tem uma escada l dentro que desce ato trreo. Marcus e eu costumvamosbrincar ali quando ajudvamos nalimpeza. Podemos descer at o subsoloe procurar a porta de servio, nosfundos.

  • Marcus assobiou. Agora eu mal posso esperar para

    c o nhe c e r Partialville. Vocs tmeletricidade para os elevadores, certo?

    OK, vamos pelo poo do elevadordesativado respondeu Samm, com umaceno de cabea.

    Correram pelo corredor procura doselevadores e encontraram o de servionuma parede lateral. O poo doelevador era comprido. O grupo estavano quarto andar e o hospital tinha aindadois subsolos e mais um subnvel paraalojar o maquinrio do elevador. Kirase inclinou na beirada, espiando o pooprofundo. Alguns andares para abaixo eo buraco afundava na escurido. Ela se

  • encheu de coragem e comeou adescida. Marcus foi o prximo e emseguida todos os outros, um de cada vez.Jayden ficou por ltimo, fechando aporta atrs de si. A mochila de Kiraparecia agora mais pesada, suspensa noburaco de sete andares, o kit mdicobalanando a cada novo degrau. Elaouviu vozes atravs da parede doterceiro andar e algum batia com forana porta dos elevadores, no primeiroandar. O poo inteiro ecoava o retinirdas pancadas.

    Onde vamos sair? perguntouXochi.

    No fim do poo respondeu Kira,tentando falar macio. No subsolo temum depsito cujo acesso pelos

  • corredores laterais e as sadas so pelofundo. No devemos encontrar ningumpor l.

    E se encontrarmos? perguntouSamm.

    Kira no tinha resposta para isso.Naquela altura, as paredes eram mais

    escuras, no havia eletricidade naqueleandar nem janelas que permitissem aentrada do luar. O som de gritos epancadas avisavam que a multido jtinha chegado ali embaixo. Kira tirou alanterna da mochila e a acendeu,lanando um pequeno feixe de luzbranca contra a parede. Marcus e osoutros se aproximaram dela, procurandopela sada.

  • Voc se lembra onde fica odepsito?

    Mais ou menos. Que timo.Kira encontrou a porta de sada do

    poo e apagou a lanterna antes de abri-la, temendo atrair alguma atenoindesejada. O corredor estava vazio eescuro. Ela acendeu novamente alanterna, cobrindo-a com a mo, a luzera suave e vermelha, oferecendoluminosidade o bastante apenas para veras paredes.

    Por aqui.Avanaram sorrateiramente pelo

    corredor. Ouviram uma sequncia depassos ecoar atrs deles, mas logo o

  • rangido das solas de borracha contra olinleo desapareceu. Kira prendeu arespirao e continuou andando.Chegaram a outro corredor e eladescobriu a lanterna, arriscando exportoda a luz. No viu nada esquerda,mas, inesperadamente, ao virar-se paraa direita, viu rostos e olhos brilhando naescurido.

    Kira recuou e Samm tomou adianteira. Antes que ela pudesseentender o que se passava, um dosintrusos perdeu o equilbrio e caiu. Oclaro do feixe de luz balanavadescontroladamente medida que Kiracambaleava em fuga. O corredor tornou-se um staccato de imagens escuras eassustadoras: o p de Samm sobre o

  • joelho de um homem aos gritos, acoronha da arma de Samm enterrada norosto de outro homem. Os flashes dalanterna causavam o efeito de umestroboscpio sobre a insgnia da Redenum brao levantado, as gotas de sanguesuspensas no ar, o corpo meio cado deum homem em fuga. Jayden chegou como fuzil no mesmo momento em que Kirahavia recuperado o controle sobre alanterna, mas o embate tinha acabado:Samm estava parado numa posio decontra-ataque e a sua volta o cho erauma desordem de soldados cados. Kiracontou seis deles, todos inconscientes.

    Senhor balbuciou Jayden,olhando a cena. Ele apontou a arma para

  • Samm. O que esta criatura que

    libertamos? Esto todos vivos disse Samm.

    O sangue do nariz do terceiro.Kira tentou concatenar as ideias. O que acabou de acontecer?Samm ajoelhou-se para recolher as

    armas, desmontando-as com eficincia. No estou acostumado com os

    humanos. Esqueci que vocs no tm oslinks, por isso eles chegaram to perto.Mas deu tudo certo, nem precisamosatirar em ningum.

    Bem, obrigado por no atirar emningum disse Marcus. A minhacontribuio foi no ter mijado nascalas. Podem me agradecer mais tarde.

  • Precisamos sair daqui disseSamm, levantando-se. Ele guardou nobolso os projteis que havia recolhidodo cho. H pelo menos mais duasequipes aqui embaixo, talvez mais.

    Tudo bem, apenas no faa issocom os civis pediu Kira.

    Sim, senhora.Kira guiou o grupo pelo corredor da

    esquerda, depois direita, parando aquie ali para ler as indicaes nas paredese ouvir mais passos. Havia pelo menosmais duas equipes de soldados nosubsolo, vasculhando no escuro. Elaouviu o estalo de um vidro sequebrando. E apertou o passo.

    Alcanaram um tnel largo, fechado

  • por uma porta alta de metal na outraponta, e o atravessaram correndo.

    Chegamos. Do outro lado destaporta tem uma rampa que d noestacionamento dos fundos. Vamossentido norte e ficamos de olho nossoldados. A Rede de Defesa estar emtodos os lugares, mas estaro ocupadoscom os manifestantes. Contanto que agente no chame a ateno, vamosconseguir passar pelos pontos novigiados. Ela se voltou para Jayden. Obrigada pela ajuda. Se no fosse porvoc, jamais teramos conseguido.

    Como assim, obrigado? Eu voujunto.

    Kira o observou atentamente. Sob aluz da lanterna, o rosto de Jayden

  • parecia o de um fantasma. Tem certeza? Vai precisar de toda ajuda que

    conseguir ele disse. Alm do mais,soltei um Partial e prendi no lugar delecinco patriotas, que certamente queremmeu escalpo. Terei sorte se no levarum tiro antes de ser preso.

    Todos concordaram, balanando acabea. Ela colocou a mo na maanetae abriu a porta aos poucos. A noiteestava escura, mas no se comparava aobreu dos tneis do subsolo. Kira subiu arampa devagar, ouvindo a algaravia deuma cidade mergulhada no caos: gritos,sons pesados e abafados de pscorrendo, o intermitente pipocar dos

  • disparos. Ao chegar no topo, viu umbrilho alaranjado atrs das rvores, nazona leste da cidade. Fogo. Um grupo detrs ou quatro manifestantes passoucorrendo por ela no escuro. Xochicochichou para Kira.

    Acha que Isolde conseguiu chegarno Senado?

    Espero que sim. Ser o nico lugarseguro pelas prximas horas.

    Acha que fizemos a coisa certa? Avoz de Xochi era hesitante, insegura. Acha que teremos um lar para voltar?

    Acho que subestimamos Mkele respondeu Kira. Pode ser que a cidadeesteja diferente quando voltarmos, masvai continuar aqui. Ela olhou para trs,viu o grupo que se mantinha unido, e

  • olhou para a frente, para dentro do caose da escurido. Vamos.

  • PARTE III

    QUATRO HORAS DEPOIS

  • ECaptulo Vinte e Nove

    ra quase meia-noite quandoalcanaram uma distncia segura de

    East Meadow e sentiram-se confortveispara conversar livremente.Encontravam-se numa floresta, fora daestrada e longe das casas ao redor.

    Ao norte tem um aglomerado defazendas disse Jayden, caminhandocom ateno entre os arbustos ,prximo aos antigos clubes de campo.Um deles possui ancoradouro e comcerteza encontraremos um barco.

    Na costa norte? No h muitas

  • comunidades por l observou Kira. Esto escondidos numa baa,

    relativamente perto da Rede, no Queens explicou Jayden. No que eles noscausariam algum problema, mas quantomais nos aproximarmos do Queens,menor ser a travessia at o continente.

    Voc sabe o nome da baa? perguntou Samm.

    Jayden balanou a cabea. Faz alguma diferena? Quero ter uma noo de onde vamos

    aportar.Jayden olhou para ele intrigado. O quanto conhecem da ilha? Enviamos olheiros, claro

    respondeu Samm. Mas nunca to parao interior. E os nossos mapas esto

  • desatualizados. Nunca to para o interior. Falei que

    no estavam infiltrados na ilha disseXochi.

    Eu disse que ns no fizemos isso acrescentou Samm, rapidamente. Nosignifica que outros no o fizeram.

    Como assim? perguntou Kira. S existimos ns e vocs, no ? Todo oresto est morto, voc mesmo disse. Amenos que h outros humanos vivosno continente? Kira sentiu umsobressalto no corao. Pensar aquiloera uma estupidez, mas, por um segundo,antes que recobrasse a lucidez, desejouque fosse verdade.

    Samm balanou a cabea

  • negativamente. No existem outros humanos. Ento, quem?Samm olhou para o lado. Depois falamos sobre isso. Agora

    temos que continuar andando. No! protestou Jayden, entrando

    na frente de Samm e detendo o grupo. Acabamos de trair nossa prpriaespcie para tirar voc da priso. Porisso, pode ir parando com essa bobagemde ficar de segredinho e contar o quesabe, agora. Jayden o encarava comdeterminao e Kira ficou atenta sarmas que cada jovem carregava nalateral do corpo. Samm no desviou oolhar, os olhos negros estudando Jayden,como se ele fosse um inseto espetado na

  • parede. Samm suspirou e disse: No existem outros humanos, mas

    h outros grupos de Partials. O qu? gritou Marcus. Pensei

    que no existissem novos Partials. No so novos disse Samm.

    que no somos mais um grupo unido.Kira no pde ler sua expresso no

    escuro, mas percebeu que admitir aquiloo deixava profundamentedesconfortvel.

    Seria bom ter ficado sabendo dissoantes de termos dividido a nossa ilha aomeio disse Marcus.

    Mas e o link? Vocs tm um sistemaqumico de comunicao que padronizaa emoo e o comportamento, como

  • podem fugir desse controle? perguntouKira.

    Vocs possuem inteligncia deenxame[10]? perguntou Jayden.

    No. Ns no temos os mesmospensamentos, apenas os compartilhamos.

    Vamos andar enquanto conversamos sugeriu Marcus. Ainda esto atrs dens.

    Samm concordou e todos seguiramadiante.

    No sei como descrever o link. um sentido. como descrever a viso aum cego.

    um dispositivo de rede? perguntou Jayden. Um implante?Pensei que tivssemos retirado tudo devoc quando o capturamos em

  • Manhattan. No um dispositivo disse Samm,

    levantando as mos. apenas umaligao. Estamos todos conectados. Ele balanou levemente a cabea emdireo s casas ao redor. Sefssemos uma equipe Partial,caminhando por estas runas noite,todos ns saberamos, intuitivamente,como os outros estariam se sentindo. SeKira visse algo que a deixasseapreensiva, isso ficaria registradoquimicamente, todos ns sentiramos eem alguns instantes todos estariamapreensivos: nossa adrenalinaaumentaria, nossos reflexos para lutar oufugir seriam ativados e o grupo todo

  • estaria pronto para algo que apenas umde ns viu. Se algum do grupo semachucasse, todos poderiam sentir o quehavia de errado e seguir aquelasensao at encontrar o soldado.

    Vocs no se perdem comfrequncia disse Marcus. Se eupudesse adivinhar onde vocs estariam,jamais sairia procurando.

    No, no sairia concordou Samm. O link tambm separa amigo de

    inimigo? perguntou Jayden. Issoviria em boa hora.

    Sim, mas no funciona com oshumanos, porque vocs no carregam osdados. Mas, sim, ajuda a identificar osPartials que no esto na nossa unidade.Isso facilita separar a minha faco da

  • outra. Por outro lado, os ajuda a nosencontrar, o que pode ser um problema.

    isso que no entendo disse Kira. O link diz quem amigo e quem inimigo, qual faco a sua e qual no. evidente que ele tambm transmiteautoridade, certo? Vocs foram criadoscomo um exrcito, com generais,tenentes e soldados. O link se encaixanessa estrutura de comando?

    A resposta de Samm foi curta egrossa.

    Sim. Como podem se dividir em

    faces? No faz sentido.Samm no respondeu, pisando duro

    entre os arbustos. Aps um longo

  • silncio, disse: Depois daCalou-se novamente, parando no meio

    da estrada. No fcil falar sobre isso. H desavenas entre vocs

    resumiu Kira. Acontece com todomundo, o tempo todo

    No isso respondeu Samm. Suavoz era montona, mas Kira percebiaque por trs da aparente indiferenahavia uma onda de frustrao? Adesobedincia assim to comum entreos humanos que vocs no conseguementender por que gostaramos deobedecer? Somos um exrcito,obedecemos nossos lderes. Seguimosordens. Ele voltou a caminhar.

  • Qualquer um que no faz isso umtraidor.

    Estamos nos aproximando de umaponte disse Xochi.

    O grupo parou para analisar o terreno,sob o luar.

    Um rio? perguntou Samm. S depois de uma tempestade

    torrencial respondeu Kira. Aquelaponte passa por cima da rodovia. Amaioria das estradas passa sobre ela.

    Temos que seguir a oeste, mas nopodemos fazer isso numa linha reta.Seria fcil demais para nos seguirem advertiu Jayden.

    Kira perguntou-se quanto tempoMkele levaria para descobrir o plano do

  • grupo. Assim que o fizesse, viria diretono encalo deles. A princpio, nosuspeitaria de que o objetivo eraescapar da ilha, o que daria mais tempoaos fugitivos. Ela colocou as bolsas nocho e esticou a coluna, torcendo odorso de um lado a outro para liberar atenso.

    Vamos virar esquerda agora oudepois da ponte?

    Com certeza depois respondeuJayden. A travessia da ponte ser otrecho mais desprotegido antes dechegarmos ao mar, ento vamos tirarisso logo do caminho.

    Kira pegou a mochila e ajeitou o fuzilno ombro.

    No vamos perder tempo.

  • Caminharam sorrateiramente entre asrvores, observando a ponte adiante, osouvidos atentos a qualquer rudo quefugisse aos sons naturais do local.Estavam numa regio muito distante dasreas urbanas, de densas florestas ervores antigas. direita, uma folhagembaixa provavelmente indicava apresena de alguma antiga manso, osolo agora coberto de kudzu e decentenas de brotos. A ponte se abria frente, atingindo facilmente o dobro dalargura da estrada que tinham seguido.Cruzaram outra estrada estreita ecorreram pelas rvores at chegar aomuro grosso de cimento entrada daponte.

  • No temos escolha disse Marcus.Seguraram firmemente as mochilas e

    as armas, tomaram flego e correram.A ponte era menor do que as que

    cruzaram na expedio a Manhattan, maso medo e a tenso causaram em Kira amesma sensao de exposio aoperigo. A rodovia estendia-se porquilmetros em ambas as direes qualquer um que estivesse olhando paraa ponte os veria. Espero que tenhamossido os primeiros a chegar. Enfiaram-seentre as rvores do outro lado da ponte,ofegantes, analisando o local.

    Tudo limpo disse Samm,abaixando a arma.

    No vi ningum l de cima

  • comentou Xochi. Isso no quer dizer que ningum nos

    viu retrucou Jayden. No podemosparar at atravessar o mar.

    A estrada continuou por mais algunsmetros, at chegar a uma interseco,onde viraram esquerda, seguindo acurva da rodovia.

    Marcus correu frente para alcanarKira.

    Como est a sua perna? Levando tudo em conta, nem vale a

    pena falar sobre isso. Na verdade, oefeito do Regenera causava uma coceirade enlouquecer e calar-se era tudo quepodia fazer para no levantar a cala ecavar o ferimento com um graveto. Apreocupao com o uso excessivo do

  • remdio no lhe saa da cabea, se teriaarruinado a pele. Mas forava-se a nopensar sobre isso, afinal, naquelemomento, no havia nada que pudessefazer. Voc est bem?

    Passeando ao luar na companhia dagarota dos meus sonhos respondeu,logo acrescentando e de Xochi, deJayden e de um Partial carregando umfuzil. a realizao da minha fantasiamais secreta.

    Fale um pouco mais sobre Xochi havia comeado a falar quando orelinchar de um cavalo a interrompeu eo grupo todo parou abruptamente.

    Acho que deixei o cavaloenciumado brincou Marcus, mas

  • Jayden fez sinal para ele ficar quieto. Veio dali sussurrou, apontando

    adiante. De uma das fazendas de quefalei.

    Estamos perto, ento? perguntouKira.

    Nem um pouco, mas estamos nocaminho certo. Vamos seguir por estaestrada at at sentirmos o cheiro domar. Se eu soubesse que viria para c,teria trazido um mapa.

    esquerda, e em silncio ordenou Kira.

    Seguiram pelo caminho sinuoso atele desembocar numa nova faixa decasas, apesar de a estrada continuar sobmata cerrada e as construes estaremafastadas da via pblica. Elas se

  • erguiam vazias e assustadoras acima dasrvores, longe demais de qualquer terraarvel para parecerem fazendas, aindaque perto o bastante da Costa Norte paraterem qualquer outra utilidade. At osbandidos se mantinham afastadosdaquele local.

    Caminhavam em silncio. Cerca demeio quilmetro adiante a estradacruzava com uma rua principal, e ovelho mundo tinha celebrado a ocasiocom um pequeno shopping, que agoraapresentava a parede rachada e sedesfazendo. Discutiram qual rumotomar, se comeariam a subir na direonorte ou acatariam a insistncia deJayden em manter o grupo caminhando

  • em direo ao mar por pelo menos maismeio quilmetro.

    Se formos para o norte muitorpido, corremos o risco de nosperdermos entre as fazendas, longe domar explicou Jayden. Qual era o seuplano, subir at o final da ilha?

    Mais ou menos. H barcos por todaa costa respondeu Kira.

    Ouviram o rudo baixo de um motor. Esto mais prximos do que eu

    imaginava e o barulho do motorsignifica que esto usando jipes. Noesto de brincadeira. Jayden ficou emsilncio e respirou fundo. Esto emmelhor situao porque possuem mapas.Mas garanto a vocs que se subirmospara o norte neste momento ficaremos

  • encurralados entre os soldados e asfazendas. Algum ir nos encontrar.

    Parece que atrs do shopping umcondomnio. Podemos atravessar pordentro e evitar grande parte da patrulha sugeriu Marcus.

    Tem certeza de que no esto nosseguindo? perguntou Samm. Avanariam mais devagar se estivessemfazendo buscas.

    No precisam nos procurar, sabempara aonde estamos indo disse Xochi,repetindo o que Kira dissera. Estotentando chegar at o mar antes de ns.

    Ento vamos para o norte. Temosque ficar frente deles disse Samm.

    Voc quem manda concordou

  • Jayden, mas Kira percebeu seudesagrado. Corriam pela rua principalpara manter o ritmo. Era uma via larga eestava relativamente desobstruda,permitindo que se deslocassem comrapidez mesmo com a escassez de luz.Xochi e Marcus respiravampesadamente, com dificuldade paraacompanhar os outros. Kira contraa orosto a cada passo, sentindo agulhadasde dor atravessar a perna machucadacada vez que ela tocava o cho. Nodemorou muito at ouvirem o barulho demais motores, cada vez mais perto emais frequentes. Kira olhou mais umavez para trs e viu os faris dos jipes,como olhos brilhantes.

    Saiam da estrada mandou, e o

  • grupo pulou para dentro da vegetao,escondendo-se atrs das rvores e dokudzu. Trs jipes pequenos passaramfazendo barulho, os motores rugindocomo animais selvagens. Kira contou dequatro a cinco soldados em cada um.

    No esto nos procurando disseKira.

    Marcus colocou a cabea para forapara espiar.

    No tem ningum atrs deles. Achaque coincidncia?

    Esto tentando nos interceptar respondeu Samm. A nica boa notcia que a presena deles aqui indica queestamos nos caminho certo.

    No ajuda em nada. Precisamos ir

  • para o litoral disse Jayden. No sabemos o que vamos

    encontrar indo agora para o mar argumentou Kira. Tudo o que sabemos que se formos direto para lpassaremos por uma base da Rede.Esses soldados podem ser de l.

    mais inteligente continuarmossubindo concordou Samm. Pelomenos no teremos nenhuma surpresa.

    Tudo bem, mas vamos pela floresta disse Marcus. Os soldados quepassaram aqui podem estar nosesperando em algum lugar e vigiando aestrada.

    As rvores os obrigaram a caminharmais devagar e faziam isso quaseintuitivamente entre a densa floresta.

  • Cruzaram vrias ruas secundrias e emtodas elas Kira prendia a respirao,certa de que ouviriam um grito de alertaou, ainda pior, um tiro. No aconteceunada. Quando alcanaram um grandeaglomerado de runas antigas lojas eescritrios , cruzaram a rua central ato outro lado e voltaram a se embrenharna floresta.

    Por fim, a mata fechada tornou-semenos densa e Kira olhou atravs davasta extenso de ruas, cruzamentos eestacionamentos planos e vazios.Prdios semidemolidos permaneciamem p como cogumelos grossos evergados. O asfalto estava rachado efurado pelas ervas daninhas e rvores,

  • mesmo assim era assustadoramentedescampado.

    Outro shopping, mas no podemosatravess-lo disse Kira.

    Prefere dar a volta? perguntouMarcus, abaixando-se ao lado dela paratomar flego. No est na hora deirmos em direo ao mar? J subimosvrios quilmetros, com certeza estamosperto da baa.

    Acho at que j ficou para trs disse Jayden. Estamos quase chegandonas fazendas.

    No sei quanto tempo mais euaguento avisou Xochi. Kira mal podiaver o rosto da amiga no escuro, mas avoz comeava a tornar-se indistinta porcausa da exausto.

  • No podemos parar insistiuSamm.

    No temos sua resistncia disseJayden. Sou treinado, mas eles podementrar em colapso a qualquer momento.J corremos uns quinze quilmetros, nofoi?

    Treze quilmetros e quinhentos evinte metros respondeu Samm, que nodava mostras de cansao.

    Estou bem disse Marcus, masKira achou que ele estava prestes adesmoronar. Xochi sequer conseguiafalar direito.

    Vamos para o oeste decidiu Kira. Quanto antes estivermos num barco,mais rpido poderemos descansar.

  • Xochi concordou e deu umaarrancada, ofegante, mas determinada.Samm tomou a dianteira e os outrosseguiram atrs dele, formando umafileira de andar lento e descompassado.

    A rua lateral contornava o shoppingpela esquerda e depois fazia outra longacurva direita. Samm fez um sinal etodos se jogaram no meio dos arbustos,aguardando em tenso, o silncioabafado da respirao suspensa,enquanto uma dupla de cavalos passavapor eles trotando. Continuaramescondidos at os animais se afastarem.Ento levantaram-se e recomearam aandar, arrastando-se sobre pernasdoloridas e cansadas demais para

  • correr. A queimadura de Kira era agorauma agonia, um calor que no cedia,vindo de dentro da perna. Ela cerrou ospunhos, respirando em intervalos curtos,e tentou esquecer-se dela. Eu s tenhoque chegar quela rvore. S ataquela rvore, e eu vou ficar bem.Apenas mais alguns passos. Agoraaquela outra rvore, adiante. issoque tenho que fazer. Uma rvore decada vez.

    Sinto o cheiro do mar disse Samme logo Kira tambm podia senti-lo:salgado e forte, fresco e revigorante noar noturno. Eles redobraram os esforos,a respirao alta e ofegante, j no seimportando mais em manterem-seescondidos, apenas tentando no parar.

  • As rvores deram lugar a outro centrocomercial e a outro mais adiante.Embora Marcus tambm estivesseenfraquecido, ele caminhava ao lado deKira, fazendo o melhor para ampar-la.Ela se apoiou em seu brao e seguiumancando.

    Por aqui disse Samm, virando emsentido norte na rua seguinte. O luarbrilhava numa extenso prateada degua, lisa como um vidro preto. Kiraprocurou ansiosa por um barco. Nohavia nenhum.

    muito raso disse Kira, arfando. Temos que continuar andando.

    H barcos em toda Costa Norte resmungou Jayden. Kira no teve flego

  • para responder.Samm os guiou atravs de um ptio

    amplo, caminhando com dificuldadeentre o mato alto. O local era rodeadode edifcios. Ouviram mais rudos decascos na rua de trs e se abaixaramentre a vegetao, na mais completaexausto. Desta vez os cavaleirospararam e os animais viraramlentamente para trs, examinando a rea.

    Acha que eram eles? perguntouum dos soldados.

    Eles ou um gato respondeu ooutro. Eles soltaram um pouco mais asrdeas, ainda olhando ao redor. O luarera um reflexo opaco no cano dos fuzis.

    Barulho demais para um gato. Daqui a lanterna disse o primeiro.

  • Kira no ousava se mexer nemrespirar. O segundo homem retirou alanterna do alforje e entregou-a aoprimeiro, que a acendeu e iluminou oprdio esquerda deles um tipo deigreja, arruinada e coberta de vegetao.Samm apontou o fuzil, mirando oprimeiro cavaleiro, mas Kira balanou acabea. No podemos fazer barulho.No podemos matar nosso prpriopovo.

    Ouviu-se um estalo numa parededistante e os dois cavaleiros olharam aomesmo tempo. Eles iluminaram oprdio, mas Kira no enxergou nada.Guiaram os cavalos at l e Xochisussurrou de mansinho.

  • Atirei uma pedra. Vamos dar o foradaqui antes que eles voltem.

    Voltaram furtivamente de costas pelomatagal, centmetro a centmetro, semtirar os olhos dos cavaleiros. Marcuslevantou o corpo e arremessou outrapedra, que desta vez caiu mais longe. Oshomens ficaram imveis, ouvidosatentos, e por fim seguiram o barulho.Kira apoiou-se em Samm para ficar emp e o grupo passou pela lateral daigreja abandonada.

    H mais deles ali sussurrouSamm, apontando em direo baia. Eleolhou para Kira, a escurido encobrindoseus olhos. Cedo ou tarde teremos queatirar em algum.

  • Kira fechou os olhos, tentandocolocar as ideias no lugar.

    Eu sei que a situao perigosa eque talvez tenhamos que atirar, por issotrouxemos as armas. Mas s vou atirarse for necessrio.

    Talvez no tenhamos escolha acrescentou Samm.

    Os arbustos farfalharam atrs deles.Kira pode ouvir o bater dos cascos e oresfolegar dos cavalos. Samm levantouo fuzil, mas ela o deteve novamente.

    O grupo continuou esperando, arespirao suspensa, rezando para queos soldados fossem embora. Um sculodepois, eles se foram.

    Esto indo para o sul murmurou

  • Samm. No temos tempo a perder,vamos!

    O grupo corria sem enxergar nadaalm de onde pisavam. A rua foiengolida por uma floresta e logo asombra de uma casa gigantesca ergueu-se sobre as rvores ao lado deles.

    Ali disse Kira. Muitas dessasmanses tm ancoradouros.

    Deram uma guinada esquerda,atravessaram o terreno e contornaram acasa at os fundos. A rea era umlabirinto de plantas e flores exticas,que algum dia deve ter sido umgigantesco jardim. Seguiram por umatrilha sinuosa e coberta de vegetao ata beira do mar. A gua escura marulhavasuave junto costa, mas no havia cais,

  • nem barco. O solo era mole e alagadio,o que dificultou a caminhada at aprxima manso, mais ao norte. Seussapatos tornavam-se ainda mais pesadoscom a lama. Na casa vizinhaencontraram um estreito caminho demadeira que desembocava numancoradouro, por onde correramruidosamente at uma lancha branca.

    Aleluia! sussurrou Kira, masSamm balanou a cabea.

    O nvel da gua abaixou, a baa estcheia de sedimentos. A lancha estencalhada.

    Kira olhou para a lancha e notou queela adernava. Ela se inclinou em direoa uma das bordas.

  • O que vamos fazer? O atoleiro se estende por um bom

    pedao respondeu Samm, olhandopara o norte. isso ou nada.

    Ento, vamos empurr-la disseJayden. Ele ajeitou o fuzil no ombro epulou na gua, espirrando-a para todosos lados. Metade do seu corpo ficousubmersa. Empurrou a embarcao comuma mo e ela pouco se moveu. Podevir todo mundo para c.

    Kira estava apreensiva e olhou paratrs antes de pular. A gua fria a fezperder o flego. Os outros a seguiram,apoiando os ombros contra o casco, ejuntos empurraram a lancha para cima.Ela balanou, mas no saiu do lugar.

  • Kira escorregou na lama e por poucono caiu de cara na gua gelada.

    De novo disse Samm,pressionando o corpo contra a lateral dobarco. Todos se posicionaram. Um,dois e trs, empurrem! Fizeram foracontra o casco escorregadio,empurrando tenazmente. A lancha semoveu alguns centmetros. De novo disse Samm. Um, dois e trs,empurrem! Empurraram com toda aenergia que ainda lhes restava, movendoa embarcao mais alguns centmetros,desta vez mais adiante. No entanto,ainda no o suficiente. De novo, um,dois e

    Uma luz se acendeu e os cegou umfoco de luz branca vindo de uma

  • lanterna no ancoradouro, luzindo contrao branco da lancha e iluminando todo ogrupo. Eles ficaram paralisados; apenaspiscavam, assustados demais para fazerqualquer coisa. Quem segurava alanterna no disse nada, apenas osencarava, a cerca de vinte metros dedistncia.

    Estou armada, pensou Kira, sentindoo peso do fuzil nas costas. Posso sac-lo em segundos. Mas vai adiantar? Novamos conseguir soltar o barco antesde chegar reforo. No vamosconseguir escapar nem se osenfrentarmos.

    Ningum se moveu.A luz se apagou.

  • Tudo limpo! gritou a silhueta. Erauma voz de mulher. Yoon. No temningum ali. Apenas um barco velhobalanando. A silhueta parou algunssegundos, olhando para eles, e depois seafastou. Kira soltou lentamente o ar dospulmes que ela nem havia percebidoestar prendendo.

    Era a garota que foi com voc paraManhattan? perguntou Marcus. Achoque estamos devendo um biscoito paraela.

    Estamos devendo uma maldita deuma padaria inteira! disse Xochi. Seeu no estivesse com metade do corpoenterrado na lama, eu daria um beijo naboca daquela garota.

  • Fique quieta ou vo ouvir a gente denovo ralhou Jayden. Ele se apoioucontra o barco e balbuciou Um, dois,trs. Desta vez o barco se moveu quasecinquenta centmetros. Eles empurraramdiversas vezes, arrastando-o pelo lodocerca de seis metros. Doze metros.Treze metros. Podiam ver mais luzes nacosta, mais soldados. Deram outroempurro na lancha, arrastando-a pelalama, rezando para que no fossemouvidos.

    As guas tornaram-se mais profundasao se afastarem da costa, a baaganhando amplitude, e logo a lanchaflutuava livremente. Empurraram-na umpouco mais adiante, at estar fundo o

  • bastante para a embarcao receber opeso do grupo. Samm os ajudou aembarcar, subindo em seguida. Marcus eJayden encontraram os remos e osfugitivos partiram rumo ao mar.

    Estamos seguros disse Kira,suspirando. Xochi j dormia.

    Seguros contra o seu povo observou Samm, olhando para ocontinente, ao norte. Agora temos queenfrentar o meu.

  • V

    Captulo Trinta

    amos aportar prximo aMamaroneck disse Samm,olhando para o cu e novamente

    para a costa distante. Acho.A baa de onde partiram era uma faixa

    estreita e comprida. No ousaram ligar omotor da lancha at os dois lados dacosta ficarem cada vez menores e o azulprofundo do oceano se abrir em voltadeles. O motor funcionava mal, masfuncionava. Seguiram rumo ao norte,procurando manter-se numa linha reta,at o cu comear a se iluminar e o

  • montono horizonte tingir-se com overde e marrom do continente.Embicaram esquerda, em direo terra firme. Kira estava cansada demaispara remar, por isso torcia para que omotor aguentasse at o fim.

    Mamaroneck? perguntou Jayden. Esse nome mais estranho queAsharoken.

    Mamaroneck bem localizado respondeu Samm. Est mais ao sul doque eu gostaria, mas no vigiado.Podemos desembarcar despercebidos.

    to importante assim no sermosvistos? perguntou Marcus. O quevoc quer dizer com diferentes faces?Estamos falando de divergncias sobrecomo agir ou de opinies radicais como

  • numa guerra santa? Seremos atacados se formos vistos

    disse Samm. Serei preso e usadocomo moeda de troca em alguma disputapelo poder. No sei o que fariam comvocs.

    Kira admirou as estrelas e disse: Entendo que nem todas as faces

    so amistosas como a sua. A minha no to amistosa assim.

    Embora tenham enviado uma propostade paz, no recebero qualquer humanode braos abertos. As divergncias comoutros grupos esto acirradas.Estamos apreensivos e desconfiados. melhor sermos cautelosos.

    Como vamos reconhecer as

  • faces? perguntou Xochi. Vocsusam uniformes ou quepes de coresdiferentes?

    No sei se possvel sem o link respondeu Samm. A minha faco aCompanhia D e a maioria de nscontinua usando a insgnia. Mas,sinceramente, quando estiver prxima obastante para identific-la, ser tardedemais. Estamos falando de uma zona deguerra.

    O motor falhou e parou por completo,pipocando. Jayden se levantou, puxandoalgumas vezes a corda do motor de popasem sucesso. Bateu no motor com umachave inglesa e puxou a cordanovamente. O motor voltou a funcionar,emitindo um rudo ainda mais fraco.

  • Gasolina velha disse Jayden,jogando a ferramenta no cho. Ou estacabando, ou est arruinando o motor.De qualquer jeito, vamos ter que remaros ltimos dois quilmetros.

    O que nos espera no continente? indagou Kira, olhando para Samm. Oque quer dizer com zona de guerra?

    O principal grupo de rebeldes estao norte, num lugar chamado WhitePlains, e mais adiante em Indian Point.So eles quem administram o reator.

    Opa, um reator atmico? perguntou Xochi.

    Claro. De onde iramos tirar nossaenergia?

    De painis solares respondeu

  • Xochi, com naturalidade. o queusamos.

    Provavelmente suficiente para assuas necessidades observou Samm. O reator nuclear de Indian Pointcostumava fornecer energia a centenasde milhares de casas antes da guerra.Agora que no passamos de um milho,produz mais energia que o necessrio.Os rebeldes mantm o controle da usina.Mas h alguns anos, a Companhia D seinfiltrou na usina. Eles ainda noperceberam.

    Energia nuclear perigosa disseXochi. E se acontecer algum acidente?Um vazamento ou derretimento nuclear?

    J aconteceram acidentes em vriasusinas. Quando vocs comearam a

  • morrer por causa do RM, e no havianada que pudssemos fazer para salv-los, fomos no maior nmero possvel deusinas e encerramos as atividades comsegurana. Existe uma em Connecticut, aapenas cem quilmetros de onde vocsmoram, do outro lado do mar. Eleapontou sentido nordeste. Se tivesseocorrido um derretimento nuclear ali,provavelmente vocs estariam mortos.

    Certo disse Jayden, com escrnio. Os nobres Partials tentando salvar ahumanidade.

    Samm balanou a cabea. Alguma vez se perguntou por que o

    mundo no est ainda pior? Por que ascidades no esto em chamas, por que o

  • ar no est negro de chuva cida? Vocsmorreram rpido demais. Alguns devocs tiveram tempo de desligar asusinas eltricas e as fbricas antes demorrer, mas no todas. S preciso umreator sem manuteno para causar umderretimento atmico. Mesmo quandonos demos conta do que se passava, nopudemos desativ-los. Perdemos umausina em New Jersey, outra naFiladlfia, e muitas outras construdaspor vocs ao povoarem o oeste, aolongo do continente. Por isso ficamos dooutro lado do rio Hudson. Outras partesdo mundo tinham ainda mais reatoresque ns, mas sem a presena de umexrcito Partial para intervir e desativ-los, muitos entraram em colapso. Talvez

  • a metade deles.Ningum dizia nada. O ronco do

    motor preenchia a lancha. Sempre nosperguntamos se havia maissobreviventes, pensou Kira. Aimunidade ao RM deveria ter deixado amesma porcentagem de vivos em outrospases.

    Seria mesmo possvel que todas asoutras pessoas estivessem mortas?

    A questo do que fazer com vocsfoi o que por fim acabou nos dividindo continuou Samm, a voz suave. Paraalguns, a melhor soluo era extermin-los de vez, mas a maioria de nsgostaria de salv-los. Mas noconseguimos entrar num acordo de como

  • fazer isso. As discusses foramaumentando as posies foram seacirrando. Para dizer o mnimo. Ento, aprimeira leva de lderes comeou amorrer, e tudo desmoronou. ACompanhia D praticamente o querestou dos Partials verdadeiramenteobedientes, os nicos com uma ligaodireta com a Verdade.

    O que a Verdade? perguntouKira.

    O comando superior, os generais doexrcito Partial. Acho que possuem umpadro gentico avanado, porquenenhum deles ainda morreu. Pelo menosno por causa da data de validade. Ocomando formado por oito generais,entre homens e mulheres, mas

  • acreditamos que os rebeldes tenhammatado dois deles, pelo menos foramcapturados. Sua voz mudou aopronunciar aquelas ltimas palavras esua expresso ficou sombria. Foi aVerdade que orientou a Companhia Dsobre o local para instalarmos nossabase em Manhattan e quando nosaproximarmos dos humanos.

    Comeo a desconfiar que aCompanhia D um tanto pequena disse Marcus. Que maravilha. Nsfinalmente faremos uma aliana, e comum grupo dissidente, que est sendoperseguido e tem tantos problemasquanto ns. Isso vai deixar o resto dosPartials com mais vontade de nos matar.

  • O motor parou de novo, mas desta vezno houve puxo, batida ou praga que ofizesse voltar a roncar. Samm e Marcusforam os primeiros a remar, puxandocom esforo em direo costa. Logo afaixa verde tornou-se pontilhada deluzes brancas: um porto extenso lotadode barcos. Atingiram a primeira fileirade embarcaes em apenas meia hora.Iates luxuosos ancorados longe da praia,cobertos da proa popa com coc degaivota. Kira torceu o nariz de nojo.

    Minha esperana era de quetrocssemos de barco, mas estes aquiesto imprestveis.

    So muito grandes disse Samm,manobrando o remo enquanto a lancha

  • batia de leve contra o casco manchadode outra embarcao. No podemosusar os remos em barcos como estes.Acredito que aqui ningum saibavelejar. Todos concordaram com acabea. O que podemos fazer procurar provises.

    OK, mas no neste aqui reclamouKira. No quero ningum com gripe depssaro, ou diarreia de pssaro, ou sejal o que essa coisa nojenta possatransmitir.

    Samm concordou. Remaram at oprximo barco e outro depois deste,adentrando cada vez mais no porto, atencontrarem um iate que parecia limpo osuficiente para ser ocupado estavaimundo, mas no tanto quanto os outros.

  • Na verdade, estavam ficando semescolha. Manobraram por trs daembarcao, onde o nome Mostre seuDinheiro III estava inscrito em letrasdesbotadas. Marcus agarrou-se popapara Samm subir a bordo.

    Esperem aqui disse Samm. Eledesceu s profundezas do iate e Marcusinclinou-se perto de Kira.

    O que voc acha? Ainda confianele? sussurrou Marcus.

    Ele no disse nada que me fizessemudar de ideia.

    No, diretamente. Mas aquelahistria sei no. muita coisa paraacreditar.

    Ao menos plausvel disse

  • Jayden. Sempre nos perguntamos porque os Partials foram embora. E por quenesses onze anos nunca nos atacaram.Faz mais sentido pensar que estoocupados demais brigando entre eles.

    Continuo desconfiado disseMarcus. Tem alguma coisa erradanessa histria.

    Samm voltou tona com os braoscheios de objetos.

    Ms notcias. De acordo com osdocumentos do porto, estamos na BaaEco, no em Mamaroneck. Isso querdizer que fomos muito mais a oeste doque eu pensava. Mas achei um mapa quevai nos ajudar a voltar ao caminho certo. Ele entregou os itens a Kira, que oslevou com todo o cuidado para dentro

  • do barco: um mapa, um par debinculos, um baralho e uma pilha deroupas e cobertas. No tive aoportunidade de trocar de roupa desdeque vocs me capturaram disse Samm,tirando o uniforme amarrotado. Almdisso, este iate est imundo. Kira nopde fazer outra coisa seno olhar parao trax e os braos dele, mais torneadosdo que ela poderia imaginar, aps terpassado duas semanas amarrado. Eladesviou o olhar aps alguns segundos,sentindo-se tola, enquanto Samm ficavaapenas de cueca e mergulhava no mar.Marcus lanou a Kira o seu olhar vocest brincando, porm Xochiobservava o atltico Partial sem

  • esconder a admirao. Ele subiu devolta ao barco, enxugando-se o melhorque pde com uma coberta, e vestiu suasnovas roupas.

    Kira procurou no mapa a Baa Eco. Voc tem razo. Aqui muito mais

    a oeste do que pensei. Onde fica aCompanhia D?

    Samm apontou no mapa para um pontoao longo da costa.

    Em Greenwich. Tambmconstrumos nossa cidade em volta dohospital.

    Nada mal disse Jayden. No mesmo concordou Samm.

    Esta rota vai nos levar at o territriorebelde prosseguiu, indicando nomapa uma posio na metade do

  • caminho. Podemos procurar outrobarco e margear a costa, mas achoarriscado. O motor deste barco malaguentou at aqui e acho que vemtempestade por a.

    No quero atravessar o territriorebelde disse Kira. Vo saber danossa presena, graas ao seu link.Assim que nos aproximarmos, saberoexatamente onde estamos.

    Verdade concordou Samm. Temos combustvel disse Jayden,

    verificando o motor. O problema estno motor.

    Vamos procurar outro barco. melhor do que andar. A corrida dequinze quilmetros de ontem quase nos

  • matou disse Kira.Procuraram pelo porto at encontrar

    um bote salva-vidas preso lateral deum iate muito maior. Talvez fosse umbote reserva de emergncia. Samm subiunum salto, retirou a lona protetora e deua partida. O motor funcionou aps aquarta tentativa, roncando maisregularmente que o outro. Os trsrapazes desamarraram o bote, soltando-o na gua. Todos ajudaram a transferir abagagem de um barco para outro. O boteera menor: um bote sem motor, bemdiferente da lancha sofisticada queviajaram at ento. Mas acomodou ogrupo todo e o motor funcionava.Marcus voltou de r e saram do portorumo Companhia D, mais ao norte.

  • Se afaste da costa disse Samm.Marcus navegou em direo ao maraberto, e Samm observava o litoralnervosamente. Mais.

    Mais longe e no conseguiremosenxergar nem a costa protestouMarcus. Vamos nos perder outra vez.

    Posso ver o continenteabsolutamente bem disse Samm. Issoquer dizer que de l tambm podem nosver. Mais longe.

    Marcus franziu o cenho e olhou paraKira, mas obedeceu ao pedido,adentrando ainda mais no mar. Agora ocontinente era uma distante linha nohorizonte, quase imperceptvel. Sammolhava atentamente naquela direo,

  • passando a Marcus pequenas instrues,quando necessrio. Kira, Xochi e Jaydendeitaram-se desconfortavelmente sobreos bancos de fibra de vidro paracochilar.

    Marcus foi quem primeiro viu atempestade.

    H quanto tempo estamos aqui? perguntou, ainda no comando do leme. O cu no est escuro demais para estahora da manh?

    O vento tambm est aumentando alertou Samm. Agora est mais frescoque h alguns minutos atrs.

    J presenciei tempestades martimasde terra firme disse Jayden, sentando-se. Parecia preocupado. Elas caempesadas por aqui, pelo menos a

  • impresso que d. Vou me aproximar da costa disse

    Marcus, mas Samm o deteve. Estamos passando pelo territrio

    inimigo disse ele, consultando o mapa. No seguro.

    J deu uma olhada no cu? perguntou Marcus, apontando para asnuvens carregadas. Isto aqui tambmno seguro.

    Mal cabemos no barco disse Kira.A gua estava agitada, balanando obote enquanto cortava as ondas. Vamos virar se o mar ficar muito bravo.

    No podemos voltar. muitoperigoso insistiu Samm.

    Ento, segurem-se. A diverso est

  • s comeando disse Marcus.A tempestade vinha em direo a

    eles; e eles, em direo a ela. Kirasentiu os pingos grossos caindo sobreseu rosto, misturando-se com o salgadodo mar. Esconderam-se embaixo doscobertores, mas o vento era to forte quedava a impresso de que a chuva caa nahorizontal. O cu escureceu numa meia-luz lgubre e o bote balanava ao sabordas ondas.

    Vou me aproximar da costa avisouMarcus, virando o leme antes que Sammprotestasse. impossvel enxergarqualquer coisa nessa tempestade.Ningum vai nos descobrir.

    O temporal piorou, os pingos caamcomo pequenas facas afiadas. Kira

  • agarrou-se lateral do bote, segurandoem Xochi com a outra mo, certa de queseriam derrubados pela prxima onda.Estava molhada at os ossos. O negrumedo cu assemelhava-se ao da noiteanterior.

    Nos leve para perto da costa elagritou a Marcus, apertando ainda mais obrao de Xochi medida que o bote seelevava e se inclinava com a passagemde outra onda.

    Estou indo direto para l! gritouMarcus. Ou pelo menos era o que eufazia da ltima vez que conseguienxergar alguma coisa. O mar esttentando virar nosso bote.

    O bote est muito pesado.

  • Precisamos tirar um pouco de peso disse Jayden. Kira retirou as armas dedentro da mochila e amarrou o kitmdico bem apertado ao redor dosombros. Xochi revirou sua bolsa e a deMarcus, salvando o que foi possvel demunio, depois jogou-as ao mar, comofizera Kira com a dela.

    O bote balanava to violentamenteque Kira tinha a impresso de queestavam sendo arremessados de um ladoa outro ao acaso. No sabia qual direoseguiam. Inesperadamente, uma pedraapareceu na frente deles. Marcus soltouum palavro e manobrou para o lado,evitando a coliso. Outra pancada dechuva aoitou o mar, encobrindo o botenovamente, lanando-os no mesmo caos

  • cinzento. Ela pensou ter visto umarvore ao seu lado uma rvore, nomeio do oceano mas a visodesapareceu to rapidamente que elaficou em dvida. Devemos estarprximos costa, pensou Kira, anica explica Nesse momento, algobranco e gigantesco surgiu, chocando-secontra o bote e quase o virando com oimpacto. Era outro iate, que lutavacontra a amarra da ncora, antes de serengolido pelas ondas. Um vagalholevantou o bote, quase os arremessandopelos ares. Kira soltou um grito,engasgando com a gua da chuva e domar que espirrava das laterais. A guase agitava violentamente no fundo do

  • bote, mas eles continuavam em p. Se segurem! gritou Kira,

    impotente, sem nada melhor para dizer.O vento uivava em seus ouvidos eesculpia formas estranhas na chuva.

    Outro iate passou a poucoscentmetros e voltaram a se perder nolimbo revolto do mar aberto.

    As palavras que Marcus gritava eraminaudveis. Kira tentou enxergar paraonde ele apontava, porm a chuva erato violenta que ela mal conseguia abriros olhos, evitando os pingos que aacertavam como pedradas. Quandofinalmente viu o que ele tentava mostrarera tarde demais, mas no havia nadaque pudesse ter feito para evitar o quese seguiu, uma onda escura e imponente,

  • to alta quanto um edifcio, vindo nadireo deles. Ao menos Kira teve apresena de esprito de respirar fundo esegurar o ar antes de o vagalho acertarem cheio o bote e fazer o mundodesaparecer.

    Ela perdeu a noo de espao. Nohavia acima ou abaixo, direita ouesquerda, apenas fora, presso eacelerao arrastando-a por umturbilho gelado dentro do nada. Apster largado do brao de Xochi,encontrou-o novamente, agarrando-sedesesperadamente nica coisa slidaem todo o universo. A onda a levou paralonge, tragando-a para dentro do vaziodisforme. Voltou a respirar apenas

  • quando achou que seus pulmes fossemexplodir, chegando inesperadamente superfcie. Teve tempo apenas pararespirar fundo antes de bater contraoutra muralha de gua e ser derrubadapor ela. Continuava presa ao brao, noo soltando jamais, com a certezairracional de que apenas aquilo amantinha viva. A segunda onda passou eKira emergiu subitamente, respirandoem desespero. Engasgou ao engolir guae respirou de novo. Outra onda veio eKira afundou.

    Pedras. Calor. Kira acordou numsobressalto, tentando recobrar ossentidos, desorientada pela mudanabrusca de ambiente, do mar revolto paraa terra firme. Ela tossiu e cuspiu gua

  • salgada e gosmenta. Voc est viva disse uma voz.

    Samm. Ela olhou ao redor e viu queestava em algum tipo de pntano,prximo a um muro baixo de pedra.Samm ajoelhou-se contra as pedras eolhou pelo binculo. frente, o mar seestendia imvel e tranquilo.

    Estamos em terra firme disseKira, ainda meio confusa. O queaconteceu? De sbito, Kira entrou empnico, olhando para os lados. Cadtodo mundo?

    Esto ali disse Samm, apontandopara o outro lado da baa. As pernasde Kira estavam fracas demais e ela searrastou at a mureta. O prdio grande,

  • direita disse Samm, passando obinculo. A princpio fiquei emdvida se eram eles.

    Kira procurou o prdio grande econtinuou um pouco direita,examinando a paisagem lentamente.Notou algum movimento e olhou comateno: trs pessoas. A imagem no erantida, mas, pelas roupas, tinha quasecerteza de que eram eles.

    Ento, estamos todos vivos disseKira, olhando fixamente para a figuraque ela pensava ser a de Marcus. Meagarrei a algum embaixo da gua. Achoque era Xochi.

    Era eu respondeu Samm,simplesmente, sem tirar os olhos dohorizonte.

  • Kira agachou-se ao seu lado. O que aquilo? Uma ilha? O outro lado da baa explicou

    Samm. Pelo jeito a tempestade nosjogou bem onde queramos. Se bem que,obviamente, em dois grupos separados.Mesmo assim, no h muito do quereclamar.

    Aqui Greenwich? Perto o bastante. Se estou certo

    quanto nossa localizao, seus amigosesto mais prximos de Greenwich doque ns.

    Vamos fazer um sinal para eles disse Kira. Esto olhando para o mar.No sabem que estamos aqui.

    muito perigoso. Mesmo que a

  • consigam ouvir, qualquer Partialchegaria aqui primeiro que eles.

    No podemos deixar que fiquemperdidos.

    Se forem espertos, iro para ointerior da ilha, procura de algumaindicao de onde esto. Podemoscontornar a baa e encontr-los do outrolado.

    Vamos de barco. No podemos respondeu Samm,

    com firmeza. Estamos em territrioinimigo, ao sul de Greenwich. Elespatrulham as guas, procurando porPartials da Companhia D. Nodescobriram a gente por causa datempestade. Mas se cruzarmos a baa debarco, com toda a certeza seremos

  • vistos. E os outros? Se forem inteligentes ficaro

    escondidos. Na verdade, esto maisseguros do que ns. Eu automaticamentevou me conectar a qualquer outro Partialpor perto, mas vocs soimperceptveis. Ningum esperaencontrar humanos no continente, porisso no nos preocupamos em procur-los. Confiamos plenamente no link. Seaqueles trs forem espertos, podemandar pela regio sem serem capturados.

    Que bom disse Kira, aindaobservando os amigos pelo binculo. Como vamos passar pelos rebeldes?

    Samm pegou um dos cobertores

  • encharcados que havia encontrado noiate e comeou a rasg-lo em tiras.

    Os dados so transmitidos pelarespirao. Se cobrir minha boca e narizbem apertados, consigo mascarar minhapresena. Um pouco disse Samm,franzindo o cenho.

    Vai conseguir respirar? Vou, mas no a soluo ideal. A

    mscara de gs seria melhor, mesmo nosendo perfeita. No sei o quanto osrebeldes sabem sobre a nossa misso emManhattan. possvel que a situaopor aqui tenha se agravado. Nesse caso,os vigias estaro usando faixas comoestas. Precisamos ter cuidado com eles.S vou notar a presena deles quandofor tarde demais. Ele passou o tecido

  • preto e molhado ao redor do rosto,cobrindo o nariz e a boca, amarrando-ofirmemente atrs da cabea. Repetiu aoperao com outra tira, para prendermelhor.

    Isto vai resolver o problema poralgum tempo. Suas palavras eramabafadas, difceis de entender. Kira oseguiu pelos fundos de um antigocasaro, lamentado-se de ter perdidosuas armas no naufrgio. No lheagradava nem um pouco a ideia deenfrentar um Partial desarmada.

    O casaro ficava num promontrio,pequeno e circular, que se religava terra por uma srie de ruelas asfaltadas.Correram agachados para atravessar

  • cada uma delas, escondendo-se atrs dasfolhagens, procurando algum sinal deque estavam sendo observados. Se haviaalgum Partial de olho neles, no ficaramsabendo. Kira olhava para trs sempreque podia, na esperana de ver osamigos, mas eles tambm estavamescondidos. Ela apertou o passo,ansiosa para contornar o porto eencontr-los antes que se afastassem.

    Samm entrou num pequeno estaleiro,lotado de barcos rachados, com apintura descascando, e trilhosenferrujados que davam no mar. Atrsdo estaleiro havia um parque, coberto demato e kudzu, embora fosse grande obastante para acomodar perfeitamentevrias plantaes de milho de bom

  • tamanho. Surpreendeu-a o fato de osPartials no terem feito isso, apesar deuma zona de guerra no ser o melhorlugar para a agricultura. Alm disso,pelo que havia entendido, estava nasimediaes da civilizao Partial. Serque suas fazendas ficavam mais aonorte? Ou produziam alimentos dealguma outra forma que ela noconseguia imaginar? Admirou-se aoperceber como sabia to pouco sobreeles. Ali estava ela, num territriodesconhecido, confiando no inimigo quetinha sido criada para odiar. A razopela qual era rf. A razo pela qualaprendera a empunhar uma arma, aosoito anos de idade.

  • Eu realmente sei o que estoufazendo?

    Decidiram afastar-se do litoral,entrando num bosque, onde a coberturaera melhor. Samm era gil, masmantinha-se atento, examinando noapenas as laterais, mas tambm ondepisavam, e as rvores acima deles. Kirao acompanhava no mesmo ritmo, alertacontra eventuais emboscadas edesviando dos galhos cados. Passarampor uma funerria e Kira a observousolenemente. A morte parecia pairar noar.

    Encontraram uma rodovia margeada,na outra extremidade, por uma fileira dervores frondosas. A rodovia

  • atravessava a floresta como umcorredor. Samm espiou para ambos oslados: plana esquerda e uma pequenasubida direta.

    mais rpido pela estrada, nopassa por dentro da cidade. Ningumestar vigiando explicou Samm.

    Vamos encontrar Marcus e osoutros?

    Tambm tero que atravess-la respondeu Samm, balanando a cabea.Ele apontou para uma curva direita, nofim da rodovia. A pennsula terminanaquele ponto, se bem me lembro. Seeles ainda no passaram por aqui,podemos esper-los ali.

    Para compensar o tempo perdido,saram em disparada. O asfalto estava

  • elevado, com vrias outras camadas depavimento entre aquela e o cho, mas avegetao no havia crescido nasfendas. Ningum cruzou o caminhodeles, nem por trs nem pela frente.Logo a estrada comeou a se elevar.Kira ficou chocada ao perceber que oterreno em volta no se elevava com arodovia no era uma montanha, masuma estrada suspensa. Estradas menorespassavam por baixo dela.

    Pare! Talvez j tenham passado poraqui disse Kira.

    Estava pensando a mesma coisa. Precisamos encontr-los. Estamos quase na base disse

    Samm, balanando a cabea. Vamos

  • direto para l e enviaremos uma equipede resgate. Eles encontraro seusamigos. Faro isso melhor que ns.

    A menos que algum os encontreantes retrucou Kira. Ela olhou parafora da estrada, tentando enxergaratravs das rvores no cho. Nopodemos deixar que sejam capturadospelos rebeldes.

    Acho que isso no vai acontecer disse Samm, apertando a mscara norosto. O link.

    Ento, v voc. Eu vou atrs doMarcus. Se for assim to fcil para a suaequipe de resgate encontrar meusamigos, tambm podero me encontrar.

    No podemos nos separar de novo insistiu Samm. Sua voz era baixa, quase

  • inaudvel atravs da mscaraimprovisada.

    Era a primeira vez que Samm semostrava apreensivo e isso deixou Kiraainda mais nervosa.

    O que h de errado?Ela ouviu o rudo de um motor, um

    eco distante entre rvores, eempalideceu.

    Vocs tambm usam carros? A maioria eltrica, mas temos uma

    refinaria de petrleo mais ao norte.Kira olhou para os lados, tentando

    localizar de onde vinha o barulho. Esto vindo de trs? Acho que sim. Samm comeou a

    correr. Vamos!

  • No temos tempo disse Kira,espiando por cima da mureta. A alturaera de pelo menos seis metros, mas ascopas das rvores no estavam muitolonge Vamos descer pelas rvores.

    No podemos descer disse Samm,impositivo, correndo para segur-la. Temos que seguir em frente.

    Esto se aproximando, no temostempo

    Tem rebeldes l embaixo elesussurrou, apressadamente.

    Kira ajoelhou-se atrs da mureta. Est se conectando a eles? No posso evitar.Isso significa que sabem onde

    estamos. Kira o encarou, analisando

  • seus olhos. No temos armas. Nopodemos lutar. O inimigo j conhecenossa localizao.

    Ser que tambm sabem onde estomeus amigos?

    Esto prximos? sussurrou Kira.Samm fez uma careta. Difcil saber com a respirao

    abafada. Mas acho que entre sessenta ecinco e setenta metros.

    uma estimativa bastante precisa.Voc acha que podem nos ouvir?

    Samm balanou a cabea. Esto em alerta, mas pode no ser

    com a gente. Vamos descobrir quando seaproximarem. No entanto, pode ser tardedemais.

    Kira esmurrou a mureta de concreto

  • com a lateral da mo, praguejando. Novou deixar meus amigos seremcapturados. Respirou fundo, balanandoa cabea em reprovao a sua prpriaestupidez e levantou-se.

    Vamos descer. No podemos.Kira correu at a rvore mais

    prxima, olhou para os arbustos doisnveis abaixo e subiu na mureta. Samm apuxou para trs, e ela se livrou dele comum empurro.

    No vou abandonar meus amigos disse, determinada. Pode vir comigoou ir buscar ajuda. Ela subiunovamente na mureta e tentou estimar aaltura. Dois metros. Talvez trs.

  • bastante para pular em p, mas vou terum espao ao redor para cair.

    O que no muito animador. No faa isso, Kira.Ela pulou.Kira agarrou-se ao maior dos galhos

    que encontrou, as mos espalmadas,balanando violentamente embaixo dele.Os galhos furaram sua roupa e aespetaram. A rvore balanou com umsegundo tremor e ela viu que Samm aseguia. Ela sorriu.

    Obrigada. Voc louca murmurou. o que todos dizem.Desceram pela rvore rapidamente,

    ouvindo o ronco do motor cada vez maisalto. medida que os carros se

  • aproximavam, puderam perceber que eramais de um dois, trs, quatro. Os psde Kira tocaram o cho e ela correupara a passagem inferior da rodovia,escondendo-se atrs de uma pilastra deconcreto. Samm jogou-se ao lado dela.Ouviram os carros roncando no asfaltoacima deles, passando como um raiorumo ao leste e desaparecendo nadistncia.

    Kira assobiou. Foi por pouco. No tanto quanto ainda est por vir

    disse Samm. Sua voz era dura e tensa. Voc est machucado? No, mas qual o seu plano?

    resmungou Samm.

  • Os Partials no percebem a minhapresena, certo? Ento, vou atacar umdeles pelas costas e roubar-lhe a arma.

    No percebem voc pelo link, Kira,mas ainda podem te ver.

    O quanto eles sentem de voc? indagou. Pensamentos? Intenes?

    No exatamente respondeu. Mais coisas do tipo sade, distncia,estado emocional. No poderei recolhernenhuma informao.

    No quero que leia o pensamentodeles disse Kira, olhando para a relvaemaranhada. Quero que seja a isca.

    Uau! Fala srio? Ele levantou asmos.

    No se preocupe. Vou domin-lo

  • antes que machuque voc. Ela sorriu. Voc disse que eles confiam demais nolink, certo? Quer dizer que se o linkavisar que um Partial est escondidonuma esquina, eles nem se daro aotrabalho de procurar em outra?

    Ele assentiu com a cabea. Kira notouque a respirao de Samm estavaacelerada; o rosto, carrancudo.

    Assim que voc atacar, os outrosficaro sabendo pelo link explicouSamm.

    Vamos agir com rapidez e fugirantes que cheguem. Ela o puxou maispara trs da pilastra. Sei que perigoso, mas os meus amigos corremainda mais perigo, porque estosozinhos. Sua voz amaciou. A gente

  • consegue. Tudo bem. Se voc pensa que vai

    encontrar um soldado que foi treinadopara no ser visto, esquea.

    Fale baixo. J o encontramos elasussurrou, apontando para fora dapilastra. Samm espiou com cautela ecochichou:

    Trinta e seis metros de distncia. Deve ter ouvido a gente cair da

    rvore sussurrou Kira. Mas no nosviu. Est procurando alguma coisa. Ela apontou para o outro lado dapassagem. Se voc rastejar at l, eleter que passar por aqui. Samm estavatenso, como se contrasse cada msculodo corpo, h algum tempo estava assim.

  • O Partial est muito perto, ela pensou.No h tempo para examinar Sammagora. Tem certeza de que voc estbem?

    Tenho grunhiu. Virou-se e rastejoupela vegetao baixa, abrindo caminhoat a prxima pilastra, depois,atravessou a pista. Kira ficouimpressionada com a sua agilidade. OPartial no vai me ver aqui atrs.Samm movia-se com o corpo todoendurecido, como se sentisse dor. Kiranovamente se perguntou se ele havia semachucado na queda da rvore. Narealidade, j estava agindo estranhodesde a rodovia, l em cima. O que estacontecendo?

    Pare! disse uma voz feminina,

  • para surpresa de Kira. Ela ficou imvel,esperando no ser descoberta. Sammnada disse, parado sobre mos e joelhosno tapete de ervas daninhas embaixo doviaduto. Kira ouviu os passos vindos detrs e prendeu a respirao. A Partialpassou pela pilastra, seguindo numalinha reta at Samm. Tratava-se mesmode uma mulher: a cintura fina, os quadrise os seios redondos, um coque decabelos vermelhos, preso atrs da tirada mscara de gs. Ameaava Sammcom um fuzil apontado para suas costas,na ponta o cilindro preto e robusto deum silenciador. Kira reconheceu o fuzilde preciso.

    A garota parou a apenas alguns

  • metros de Kira. Talvez a alcanassecom dois passos largos. No haveriatempo de ela reagir. Kira posicionou-se.Aprendera um pouco sobre luta corporalna escola. A Rede de Defesa dizia quemesmo conseguindo se aproximar de umPartial a pessoa estaria derrotada, poiseram muito mais fortes que os humanos.A esperana de Kira era de queestivessem errados. Ficou na ponta dosps.

    Fique quieta disse Samm. Sua vozera tensa, como se falasse atravs dedentes cerrados. No fale. Elecobriu o nariz e a boca com a mo. Kiraficou em p, posicionando-se paraatacar.

    Na regio lombar, disse a si mesma.

  • Bata embaixo e forte. Prenda osbraos. Acerte na nuca para

    Samm! disse a garota, e Kiraimobilizou-se.

    Ela sabe o nome dele? Ser porcausa do link?

    No diga nada grunhiu Samm.O pensamento de Kira voou,

    conectando os fatos num estalar dededos. Se a garota sabia seu nome eraporque pertenciam mesma faco, oque significa que os soldados da regioeram seus companheiros. Eram ossuperiores de Samm. Ele havia dito queo link tambm funcionava para reforara hierarquia. Estavam sentindo apresena de Samm e ordenavam que ele

  • respondesse. Por isso o corpo de Sammestava to travado; ele usava cadacentmetro da sua fora para resistir sordens.

    Mas por que ele est se escondendo? Responda, Samm. A mulher deu

    um passo frente, mantendo o fuzilapontado para suas costas. Pensamosque tivesse sido capturado.

    Samm abaixou a cabea, quasetocando o cho. Ele no vai resistirmuito tempo, pensou Kira. Agora!Avanou com os braos abertos e ocorpo inclinado para acertar a base dacoluna da Partial.

    Subitamente, a Partial se virou.Kira estava perto demais para que ela

    disparasse o fuzil. Em vez disso, a

  • Partial fez da arma um porrete,acertando o pesado objeto na lateral dorosto de Kira, bem quando ela aderrubava pela cintura. As duas garotasgritaram com o impacto da queda e acabea de Kira zunia com a coronhada.A Partial levantou-se primeiro, soltandoa arma e imobilizando Kira com umaeficincia incrvel. Torceu-lhe o braopara trs e acertou uma joelhada no seuestmago. Kira esperneou, unhando orosto e o pescoo da oponente, porpouco no escapou. Em seguida, torceuo corpo at estar livre de levar umverdadeiro golpe de submisso. Derepente, sentiu o toque frio de umalmina na garganta. A garota sussurrou

  • em seu ouvido: Quietinha.Kira parou, sem alternativa. Se

    tivesse mais dois segundos de luta, quemsabe virasse o jogo. Mas desde o incioa Partial soubera da sua presena.

    Solte-a, Heron, ela est comigo. Ela no tem link? humana.Embora sua voz expressasse surpresa,

    Heron no a soltava. Voc capturou uma humana? A

    misso foi um sucesso! Onde est oresto da equipe?

    Voc capturou uma humana? pensouKira.

    Soltou-se um pouco da mo de Heron,que lhe apertava a garganta, e gritou:

  • Que diabos est acontecendo aqui? Esto mortos respondeu Samm,

    aproximando-se de Heron. Mas no o que voc est pensando. Pode solt-la.Ela no uma ameaa. Est do nossolado.

    Kira no acreditava no que ouvia. Voc planejou tudo isso?

    perguntou Kira. Toda essa encenaofoi um truque para me trazer at aqui?

    mais complicado do que estpensando respondeu Samm, de chofre,parado a sua frente, sem a mscara. Que droga, Heron! Solte-a. Ela est aquipor vontade prpria!

    Quer dizer que no h pedido depaz? Kira sentia raiva e vergonha por

  • ter confiado nele; o sangue subindo cabea, as lgrimas aos olhos Semtrgua?

    Heron sorriu. Trgua? Estou impressionada,

    Samm. O seu futuro est na espionagem!Kira viu um brilho fugaz com o canto

    dos olhos, o cintilar de uma agulha. Elagritou e sentiu a picada no pescoo. Oefeito foi instantneo: os olhos ficarampesados, sua mente parecia pender deum lado a outro. O mundo escureceu eKira teve tempo apenas para um ltimopensamento antes de desmaiar.

    Vou morrer.

  • BCaptulo Trinta e Um

    ip. Pssssh.Bip. Pssssh.

    Kira estava pesada antes quepercebesse qualquer outra coisa, sentiao prprio peso, o corpo fraco demaispara mover os msculos. Estava deitada.

    Bip. Pssssh.Um som rtmico e suave ecoava em

    algum lugar sobre sua cabea. Prximo?Sim, tinha certeza. Onde quer queestivesse, o som estava por perto.Tentou virar a cabea, mas seu pescoono a obedeceu; tentou abrir os olhos,

  • mas as plpebras estavam pesadasdemais.

    Bip. Pssssh.Ouviu outro rudo, um rudo branco,

    ao fundo. Concentrou-se nele, tentandoanalis-lo, entend-lo. Vozes. Ummurmrio.

    o objeto marca de queimadura o teste deu positivoFalavam sobre ela. Onde estava?Bip. Psssssh.Estava num hospital. Lembrava-se de

    estar embaixo da ponte, a traio deSamm, a garota, Heron, injetando algonela. Estava sendo medicada? Ouestudada?

    normal, com exceo

  • pronto para o procedimento preparar primeira incisoKira moveu a mo num esforo

    hercleo, arrastando dez toneladas decarne e ossos por alguns centmetrossobre a mesa. As vozes cessaram. Suamo esbarrou numa barreira, umaamarra de couro. Ela pde sentir a outramo tambm atada. Estava imobilizada.

    Ela se mexeu. Voc no a sedou?Kira abriu um olho e o fechou

    rapidamente sob o impacto da luz forte.Ouviu um sussurro e um tinir agudo.

    Tirem aquilo do rosto dela. Ela estacordando. Era a voz de Samm. Elaabriu a boca, tomando conscincia deum tubo plstico que passava pela lngua

  • e entrava pela garganta. Engasgou etossiu, tentando no vomitar. O tubodeslizou para fora como uma serpentecomprida e viscosa. Tossiu outra vez eabriu minimamente um olho.

    Samm estava parado ao lado dela. Seu desgraado disse, tossindo. Vamos comear disse uma voz. Parem! disse Samm. Ela est

    acordada. Ento vamos sed-la de novo. Com

    uma dose ainda maior. Seu desgraado Kira tossiu outra

    vez.Enxergava melhor agora que sua

    viso tinha se acostumado luz. Estavarodeada de mulheres em avental emscaras cirrgicas, em algum tipo de

  • sala de operao, embora no seassemelhasse a nenhuma em que jestivera. Estruturas de metal pendiam doteto como pernas de um inseto gigante,com bisturis, seringas e uma dezena deoutros instrumentos nas extremidades,posicionados a apenas algunscentmetros do rosto de Kira. Asparedes brilhavam com uma luzmulticolor suave as paredes eram telasde computadores, pulsando com tabelas,grficos e nmeros em movimento. Elaviu seu batimento cardaco, uma linhaestreita subindo e descendo em perfeitaharmonia com o pulsar dentro do seupeito. Viu a temperatura, o nvel deoxignio no sangue, sua altura e seu peso

  • em medidas centesimais exatas. Virou acabea de novo e viu seu prprio rosto,lavado e com uma toca branca deplstico na cabea, seu corpo desnudo,amarrado a uma mesa plana de metal.Seus olhos arregalados expressavampavor. Ela arfou e a imagem arfou comela, o rosto do tamanho da parede secontorcendo numa careta de medo; umatransmisso ao vivo de seus momentosde agonia, preenchendo a sala como umshow de horrores. Entrou em pnico: ocorao disparou, as imagens dosgrficos se alteraram rapidamente, comas linhas atingindo picos de um metro dealtura pelas paredes.

    Desculpe disse Samm. Tenteiexplicar que voc veio por vontade

  • prpria. No pedimos uma voluntria

    observou uma voz severa. Uma mulheraproximou-se. A mscara azul escondiasua face, mas seus olhos eram da cor demetal polido, frios e insensveis. Vocfoi o nico bem-sucedido do seuesquadro. No arrisque a suarecomendao ao interferir.

    Samm virou-se de volta para Kira. Pediram que eu ficasse aqui para

    conversar com voc, assim teria algumem quem confiasse

    No confio em voc! ela gritou.Sua voz ecoou por toda a sala deoperao, seca e spera. Eu te ajudei!Eu te resgatei! Acreditei em tudo que

  • disse! Cada palavra de como asobrevivncia s seria possvel sesomssemos esforos. Era tudo mentira?

    Falava a verdade disse Samm. Quando chegamos aqui, tentei mant-laafastada, at poder explicar a eles quevoc veio para nos ajudar.

    Se assim, ento me solte! Kiraestava aos prantos. A face na paredesoluava com ela, um simulacro do seudesespero. Moveu as pernas, debatendo-se contra as amarras; puxou os braos,tentando em vo cobrir os seios e opbis. Sentia-se exposta, vulnervel eimpotente. Me tire daqui.

    Eu O rosto de Samm enrijeceu,contraindo-se da mesma maneira que elehavia feito antes ela quase pde ver

  • seu corpo parar ao ser tomado pelofuncionamento do link, forando-o aobedecer s ordens de seus superiores. No posso. Ele soltou a respirao,liberando a tenso, os msculosrelaxando. No posso repetiu. Obedeo ordens. Sua expressotornou-se pesada.

    Muito bem elogiou a mulher. Eladeu um passo em direo cama e umdos braos de metal moveu-se com ela,iluminando o rosto de Kira, cegando-anovamente. verdade que veio porlivre e espontnea vontade?

    . Vim para ajud-los. Acredita que a sua tecnologia da

    idade das trevas de algum valor para

  • ns? Voc mal compreende ofuncionamento gentico da sua prpriaespcie, quem dir o nosso.

    No tem mais importncia, era tudomentira.

    Algumas coisas sim, outras no concordou a mulher. Estou surpresa deque Samm tenha lhe contado sobre nossasituao difcil, a nossa data devalidade. Esse tanto, pelo menos, verdade. Por isso voc est aqui.

    Sou mdica. Direcionei meusestudos para as reas de patologia ereproduo, tentando encontrar a curapara o RM. Posso usar esseconhecimento para ajud-los.

    Os estudos dos humanos no servempara nada disse a mulher. Posso lhe

  • garantir que nossas necessidades seapresentam numa rea completamentediferente.

    Tambm estudei Samm explicouKira , mas no nesta situao Calou-se, repentinamente, pensando oquanto a experincia pela qual elepassara tinha sido igual quela. Oquanto havia sido pior. O meu povono o tratou bem recomeou, aospoucos , e sinto muito por isso, mas euo ajudei. O estudei de forma noinvasiva. Fui humana.

    A mulher sorriu com sarcasmo. Humano? Mesmo a palavra um

    insulto. Vocs so portadores de uma

  • deficincia gentica que ns no temos disse Kira. Vocs so imunes ao RM eos nossos bebs no o so. Kiraimplorava. Precisamos um do outro.

    Da ltima vez em que os Partials eos humanos tentaram trabalhar juntos,no deu certo disse a mulher. Vamosassumir nossos riscos sozinhos.

    Outra perna de metal entrou emposio, uma agulha hipodrmicabrilhava na ponta. Kira comeou aprotestar, mas a agulha a atingiu como acauda de um escorpio.

  • ACaptulo Trinta e Dois

    agulha penetrou no trax de Kiracom uma picada ardida, logo

    amortecida pelo analgsico que seespalhava aos poucos.

    No pode me sedar outra vez insistiu Kira, tentando soar mais forte doque se sentia. A mdica de olhos cor dechumbo balanou a cabea.

    No sedativo, garota, estamospreparando voc para isto. Elalevantou a mo vestida numa luvabranca e mostrou uma seringa bem maiorque a outra, com uma agulha grossa, de

  • quase dez centmetros de comprimento.Kira estremeceu, recuando na cama omximo que as amarras permitiram. No se preocupe disse a mdica,embora em sua voz no houvessecompaixo. O anestsico excelente,voc no vai sentir nada. importanteque esteja acordada durante este testepara observarmos as suas reaes. Seainda estivesse dormindo, faramosoutro teste, mas j que voc acordoumais cedo, melhor comearmos. Amdica se afastou e outra perna do robmdico parecido com uma aranhamoveu-se e picou a coxa de Kira, emseguida transferiu o contedo de umfrasco de sangue para uma seringa devidro transparente.

  • O corao de Kira estava disparado. O que fizeram?A mdica falou negligentemente por

    cima dos ombros medida que estudavaos dados numa das paredes.

    Uma vez que voc se mostrouresistente, de alguma forma, aos nossossedativos, vamos analisar seu sangue emistur-lo com uma amostra de outrasubstncia. Precisamos de vocacordada por enquanto. Entretanto, noseria bom para ningum se vocdespertasse durante o prximo teste.

    Kira lutava contra as lgrimas, comuma irracional determinao de no osdeixar v-la chorando. Sou mais forteque minhas provaes. Ela viu um

  • movimento com o canto dos olhos e seencolheu ao perceber uma forma sinuosaencobrir a luz. Ela segurou o grito, masa sombra passou por seu rosto eassentou-se sobre seu corpo. Era Samm,cobrindo-a com uma manta.

    Precisamos do trax exposto para ainjeo falou asperamente a mdica.

    Ento voc pode tirar a mantaquando for preciso rebateu Samm. Se ela vai ficar acordada, pelo menosdeixe que faa isso com um pouco dedignidade.

    A mdica parou, analisando a feiode Samm com os olhos semicerrados,ento assentiu.

    Tudo bem.Samm se inclinou prximo ao rosto de

  • Kira. Tentei falar com o capito pelo

    rdio, mas a Dra. Morgan est fora dasua alada. Est numa misso especialda Verdade. Ser difcil det-la.

    V pro inferno retrucou Kira.Samm abaixou o olhar e se afastou em

    silncio.Kira podia ouvir as outras mdicas

    discutindo em voz baixa, manipulandoum dos painis nas paredes com a pontados dedos.

    outras cobaias feromniosRM

    Os ouvidos de Kira estavam atentos,toda sua energia voltada para ouvirexatamente o que as mdicas

  • conversavam. Ela no conseguiaenxergar a imagem para qual olhavam,mas, ao concentrar-se, as palavrastornaram-se claras.

    vamos injet-la e observar areao. Queremos descobrir o tempoque a partcula leva para ser absorvida,a abrangncia e a cobertura que elaatinge, e qualquer trao de necrose

    Esto fazendo os ltimospreparativos, pensou Kira.

    Mas o que iro injetar em mim?A doutora Morgan avaliou o peso da

    seringa e virou-se de frente para Kira.As outras mdicas viraram-se com ela,espalhando-se ao redor da mesa. Aaranha mdica posicionou-se com ummovimento giratrio: garras, pinas,

  • luzes e bisturis pairando sobre Kiracomo um pesadelo metlico cheio depontas. Quando as mdicas saram dafrente da tela, Kira pode ver as imagensque o grupo analisava. Reconheceu-asde imediato, do prprio estudo quefizera com Samm: uma imagem ampliadado Predador, o estgio do RMencontrado no sangue dos recm-nascidos, e ao lado dele o Espio, apartcula que havia encontrado emSamm e que compartilhava muitas dasestruturas do Predador.

    A doutora puxou o lenol, expondo aparte superior do trax de Kira.

    Temos razes para acreditar queisto a deixar muito doente, e muito

  • rpido. Ela segurou a seringa sobre ocorao de Kira. Vamos monitorarseus sinais vitais, mas precisamos quevoc nos conte qualquer coisa a maisque sentir: dor nas juntas, respiraoacelerada, perda de viso ou audio.Os nossos instrumentos no conseguemdetectar nem interpretar os detalhessensoriais.

    Voc vai injetar o Espio em mim disse Kira, j entrando em pnico elutando para manter a respirao calmae regular. Vai injetar a partcula quevoc produz, a verso inativa do RM. Oque espera que ela faa?

    Uma verso do RM? No disse queo seu conhecimento nos era intil? Elaenterrou a agulha no peito de Kira, que

  • pode senti-la deslizando para dentro,numa sensao de dor, presso e umhorrvel senso de invaso. O anestsicono est funcionando! A Dra. Morganapertou o mbolo e Kira perdeu o flegocom a sbita descarga de algo queparecia fogo queimando no seu peito,indo direto para o corao e de l para oresto do corpo, preenchendo-a emsegundos. A respirao travou, suasmos movimentavam-seinvoluntariamente na beirada da cama,contorcendo-se em busca de algo slidoem que se agarrar. Parecia que aaplicao estava levando umaeternidade e quando, por fim, a Dra.Morgan retirou a agulha, Kira chorou

  • baixinho, ainda sentindo o fludopercorrer seu corpo.

    Ainda sem reao disse umamdica de mscara, os olhos fixos naparede. Outra mdica iluminou aspupilas de Kira, conferindo a dilataocom uma mo enquanto a outra tomavaseu pulso.

    Tudo normal. No temos certeza da velocidade do

    efeito disse a Dra. Morgan,observando Kira atentamente. Noexperimentamos mais em humanos desdelogo aps a Guerra Partial.

    Kira respirou profundamente,recobrando o controle aps a violnciada injeo. As partculas continuavamgirando lentamente em uma das telas.

  • Vou morrer? Ela disse que o Espiono uma nova verso do RM ento,o que ? O que esperam observar aqui?

    Lembrou-se dos murmrios queconseguira ouvir e olhou de volta paraas imagens na parede: o vrus e oEspio, to semelhante e ainda assim todiferente de um vrus. Trabalhar apenascom as informaes incompletas quepossua sempre a deixara confusa, mas,ali, com os Partials, ela poderiaaprender mais. Havia escutado o quefalaram sobre ele.

    Voc o chama de feromnio?Dra. Morgan parou, repentinamente,

    olhando intrigada para Kira. Ela seguiuo olhar da garota at as imagens na

  • parede, depois olhou-a de volta. Voc conhece esta partcula? A tomamos como um novo estgio

    do RM, pois se assemelha muito aovrus, mas voc a chamou de feromnio. por isso que Samm a estavaproduzindo. Faz parte dos dados do link.

    A Dra. Morgan olhou rapidamentepara a lateral da sala, alm do campo deviso de Kira, mas ela pode ver que amdica franzia o cenho. Ela olhounovamente para Kira.

    Voc sabe mais do que euimaginava. Confesso que no a levei asrio quando me disse que era mdica. ainda mais surpreendente por serhumana.

    Kira combateu uma onda de enjoo,

  • ainda atordoada pela dor da injeo.Refez-se novamente e olhou para a Dra.Morgan.

    O que ele faz? o que estamos tentando descobrir. Faz parte do link? indagou Kira.

    O vrus RM apenas um efeito colateraldas suas habilidades?

    Pelos ltimos dozes anos venhocatalogando cada feromnio produzidopor um Partial. Isolei cada partcula erefiz sua trajetria at o rgo que oproduziu, bem como o estmulo quegerou sua produo. Desta maneiraconsegui determinar seu objetivo efuno. De cada um deles. Elabalanou a cabea em direo parede.

  • Menos daquele.Kira tambm ficou intrigada. Por que voc teria um feromnio

    sem um objetivo? Tudo em vocs foiconstrudo com um objetivo.

    Ah, existe um objetivo disse amdica. Tudo na ParaGen tinha umobjetivo, como voc mesma disse. Umdesses objetivos era fixar um tempo devida, e suspeitamos que esse feromniopossa ter alguma relao com isso. Sepudermos estudar certas reaes, talvezpossamos combat-lo explicou,gesticulando sobre as imagens atrsdela. Como voc pode ver no painel, oferomnio no reage com outros Partialsnem com os humanos. Reage apenas como RM.

  • De sbito, Kira viu as duas imagenssob uma nova luz: no como verses umdo outro, mas como uma combinao. OPredador no apenas se assemelhava aoferomnio Partial, era o feromnioPartial com o RM em sua verso Esporoenvolto nele. Era assim que o Esporo setornava o Predador no ao entrar emcontato com o sangue, mas com umferomnio. Ao contato com o sangue, oEsporo se transforma num Glbulo. Amente de Kira se encheu de imagens dosangue do recm-nascido, o bizarroPredador multiplicando-se feito louco emesmo assim sem causar danos sclulas. Samm tinha razo naqueleponto: ele havia lanando ao ar, pela

  • respirao, o Espio, durante dias. OEspio havia entrado na amostra dosangue, se anexado ao Esporo eneutralizado o vrus.

    Esse era o segredo do RM. Aquelaera a cura. Uma minscula partculadentro de seus maiores inimigos.

    Quando os humanos tombaram,comeamos a pesquisar a razo dainfertilidade Partial, numa tentativa derevert-la. A Dra. Morgan pareciadesatenta consternao de Kira, ouinterpretava sua reao como uma rudeperplexidade. Inesperadamente, Kiraaterrorizou-se com o fato de uma mulherto fria e calculista estar em posse deum segredo to poderoso e tentouesconder sua emoo. A mdica no

  • demonstrava nenhuma preocupao coma reao de Kira. Ela caminhou at aparede, tocou na tela, e solicitou umasrie de outros arquivos outras faces,garotas humanas, to plidas e com oolhar to arregalado quanto o de Kira,amarradas mesma mesa e submetidass mesmas experincias.

    Precisvamos fazer experimentoscomparativos com seres que no fossemestreis, o que naturalmente nos levouao estudo dos humanos. Foi apenas apsa morte da ltima garota que notamos aligao entre nosso feromnio e o RM.De alguma forma o vrus absorve para sio feromnio, apesar de no sabermoscomo ou por qu. Por fim, acabamos nos

  • envolvendo com outras preocupaes.Mas quando a crise da data de validadecomeou a vir tona, percebemos queera hora de voltar s pesquisas. Virou-se para Kira, brincando distraidamentecom a seringa vazia em suas mos. Eaqui est voc.

    Kira balanou a cabea, quaseexplodindo com seu segredo, tentandono entreg-lo. Preciso dar o foradaqui. Preciso voltar para casa.

    Posso salvar o beb da Madison.Posso salvar todos os bebs.

    Ainda sem alterao disse outramdica, monitorando os sinais vitais deKira. Se a reao estiver ocorrendo,no est apresentando nenhum efeitomensurvel.

  • A reao no est acontecendo garantiu outra mdica em um tom de vozcompletamente diferente. E no vaiacontecer. Todos na sala olharam emdireo voz, at mesmo Kira. Amdica tocou no painel, e a imagem seexpandiu at cobrir toda a parede,mostrando listas de acrnimos eabreviaes que Kira imediatamentereconheceu como um exame de sangue. Ela no apresenta nenhum vrus nosangue.

    Impossvel! Mesmo os humanosimunes aos sintomas carregam o vrus.

    Tem razo. A mdica calou-se. Ela possui o cdigo.

    Todos na sala ficaram em silncio.

  • Kira olhou para o rosto surpreso dasmdicas. Ela ouviu, atrs de si, a voz deSamm expressando perplexidade.

    O qu? Deixe-me ver disse a Dra.

    Morgan, andando rapidamente at a telana parede. Ela bateu furiosamente osdedos, arrastando grficos pela parede eampliando e reduzindo rpidos borresde imagens. Ela parou numa cadeia deDNA, no uma imagem real, mas umarecriao grfica, encarando-a comintensidade suficiente para abrir umburaco atravs da placa de metal. Quem a escaneou?

    O computador fez sozinho respondeu a outra mdica. Solicitamosuma anlise completa e isso faz parte do

  • pacote. Ela no participa do link disse

    Samm. O corao de Kira saltou dentrodo peito ao comear a entender asconsequncias do que diziam.

    Do que esto falando? perguntou.Ela tentou parecer corajosa, mas sua vozfraquejou.

    A Dra. Morgan virou-se para ela,arrancando a mscara, erguendo-se aolado da cama como uma torre de pedraem ebulio.

    Quem enviou voc? O qu?Morgan repetiu aos gritos: Quem enviou voc? Kira no

    respondeu e a Dra. Morgan jogou a

  • seringa vazia na parede, estilhaando-acontra a imagem do DNA. Quem agoraest tentando se infiltrar nos meusplanos, Cronos, Prometeu? O que estoplanejando? Ou talvez no estejam atrsde mim disse virando-se, os olhosselvagens. Talvez estejam planejandoalgo novo, mas agora que descobriposso us-la contra eles.

    No sei do que est falando protestou Kira.

    Voc esteve com humanos at Sammtraz-la para c disse a mdica,dobrando-se sobre Kira com os olhosabertos e os dentes mostra. Conte-meo que fazia aqui. Qual era sua misso?

    No sei do que est falando! Voc uma Partial! gritou a

  • doutora Morgan. Est tudo ali na tela!Voc tem o vrus RM na correntesangunea, voc tem bionanites[11]limpando seu sangue dos sedativos,voc tem a maldita etiqueta dos produtosParaGen codificado no seu DNA. Voc uma Partial. A mdica parou de falarinesperadamente, olhando para Kira. Natela atrs dela, Kira viu seu prpriorosto contorcido numa expresso dechoque e confuso. A expresso damdica alterou-se lentamente, passandoda raiva fascinao, e sua voz ficoureduzida a um sussurro. Voc nosabia, sabia?

    Kira abriu a boca, mas no conseguiafalar. Um caos de protestos, percepes

  • e dvidas passavam descontroladamentepela sua cabea. Os pensamentoschegavam, partiam e se perdiam entreum e outro inutilmente at a sua mente setornar um rudo branco de abjeto terror.Ela ouviu um estrondo e viu a Dra.Morgan gritar entre uma nvoa deconfuso, ouviu outro estrondo e ento avoz de Samm cortando o caos.

    Exploses. Estamos sendo atacados.

  • ACaptulo Trinta e Trs

    doutora Morgan tinha o olharselvagem. Gritos e disparos

    ecoavam do outro lado da porta. Asmdicas andavam de um lado a outro dasala. O inseto mdico se retraiu, garras eoutros anexos letais tinindo, girando esendo travados em seus lugares. Sammcorreu at a porta, fechando-a bem,ento recuou.

    Esto atrs de Kira disse. claro que esto atrs dela

    devolveu de supeto a Dra. Morgan. Mas quem so eles? Qual faco?

  • Precisamos sair daqui disse outramdica.

    No temos armas reclamou Samm,balanando a cabea. No estamospreparados para um ataque. Nossamelhor estratgia permanecer aquidentro e torcer para que os outrossoldados os rechacem.

    Esta sala no tem vedao observou uma das mdicas, apontandopara a porta pesada. Qualquer um quepassar ir se conectar a ns.

    Sabero que estamos aqui disse aDra. Morgan , mas no ela. Isso podernos render um tempo precioso.

    isso que no faz sentido. Comoela pode ser uma Partial se no possui o

  • link? perguntou Samm. Apenas os modelos militares se

    conectam explicou a Dra. Morgan. Pelo menos, da forma como estamosacostumados. O link fez parte de umpacote de sofisticao dos soldados.Mas a ParaGen construiu outros Partialspara finalidades diferentes.

    Kira balanava a cabea sem muitanoo do que falavam. No sou umaPartial. Outra vez, ao encarar umproblema, sua mente se dividia em duas:de um lado a cientista, contabilizandotodas as razes pelas quais ela jamaispoderia ser uma Partial. Envelheo, elesno. No me conecto, eles sim. No souforte ou gil como eles edefinitivamente no tenho o mesmo

  • poder de cicatrizao. Apesar dosargumentos, uma ponta de dvida adeixou hesitante. A recuperao daminha perna foi absurdamente rpida,sem os efeitos colaterais do Regenera.

    Mostrou-se confusa novamente. Emais do que tudo, no me lembro de seruma Partial cresci numa casa dehumanos, meu pai humano. Fui escola em East Meadow durante anos.Nenhum Partial jamais me procurou ouse aproximou de mim. Nada disso fazsentido.

    E mesmo ao analisar sua vida, l nofundo, havia o seu outro lado: oemocional, o da criana perdidachorando num quarto escuro. Devo

  • supor que eu nunca tive uma me?O alarido tornava-se mais prximo. ridculo disse uma das mdicas.

    Por que esconder um agente Partial entrea populao humana? Algum que nemsabe quem ? Que razo pode havernisso?

    Quem sabe tenha sido um acidente sugeriu outra mdica. Pode ter seperdido durante a confuso, ficado entreos refugiados e ter ido parar na ilha semsaber por que estava l.

    Em tudo havia um propsito naParaGen disse Morgan. Em tudo. Elano um acidente. Levantou o olhar. Se descobrirmos sua tarefa, podemosus-la contra eles.

    A sala tremeu com o estampido de um

  • tiro contra a porta. As mdicas gritarame saltaram para trs. Samm e a Dra.Morgan permaneceram inabalveiscomo ao.

    Esto aqui! O que vamos fazer? exaltou-se uma das mdicas.

    Eu quero descer daqui disse Kira,ainda amarrada na mesa, embora ocenrio estivesse para se transformarnum campo de batalha. Me soltem!

    Esconda-se atrs da aranha sibilou uma das mdicas, movendo-separa o fundo da sala. As outras aseguiram, olhando para as patas daaranha com desconfiana e escapulindopelos fundos do cmodo.

    No h ningum no corredor disse

  • Samm, confuso. Sim, h corrigiu-o a Dra. Morgan.

    Humanos.Outro tiro estourou a porta,

    arrancando-a das dobradias. Marcusapareceu armado e Kira gritou Abaixe-se! no momento em que a aranhamecnica lanava um ataque selvagemcontra o pescoo de Marcus com umbisturi. Marcus caiu e rolou paradebaixo da mesa de onde disparou naaranha. Kira soltou um grito ao sentir ocalor da plvora e a chuva de estilhaoscaindo do rob arrebentado. O barulhoda exploso quase a ensurdeceu.

    Ela est aqui! gritou Marcus,virando-se para ela com um aceno.

    Oi, Kira.

  • Xochi veio logo atrs e j entrou nasala abaixada, apontado um par desemiautomticas para as mdicas nocanto da sala. Acabei de recarreg-las, por isso sintam-se a vontade paratentar algum movimento brusco.

    Aguarre-os! grunhiu a Dra.Morgan, mas Samm parecia colado aocho com cimento.

    Jayden foi o ltimo a chegar, andandoagachado para desviar de outro bisturida aranha, desativando-o. Ento correuat Kira e comeou a desamarr-la.

    Voc uma garota difcil deencontrar disse Marcus, com umsorriso forado.

    Esto logo atrs de ns. No

  • demore mais que o necessrio alertouJayden.

    Posso atirar nas mdicas? perguntou Xochi, correndo as pistolasde um lado a outro na fileira demulheres.

    Jayden atirou para dentro docorredor.

    Chegaram. Falei para ir rpido.Estamos encurralados.

    Detenha-os, Samm! ordenou aDra. Morgan, mas Samm resistiu, ocorpo tenso, o rosto paralisado poralgum esforo intenso e invisvel.

    Como chegou aqui? perguntouKira. Marcus terminou de soltar umbrao e ela logo o usou para desamarraro outro, enquanto Marcus passava para

  • as pernas. Vimos voc ser capturada disse,

    lanando um olhar rancoroso a Samm. Seguimos vocs, mas sem saber o quefazer. Foi quando outro grupo dePartials decidiu atacar o hospital.Quando o grupo que fazia a seguranaexterna foi rendido, ns aproveitamose entramos pelos fundos.

    Ouvimos a conversa deles disseXochi. Samm mentiu o tempo todo. Anica coisa que a Companhia D faz sopesquisas malucas como esta, emhumanos e Partials. O outro grupo seguealgo que chamam de A Verdade.

    Ns seguimos A Verdade disseuma das mdicas. Kira fuzilou a Dra.

  • Morgan com o olhar, mas a mulhercontinuava impassvel e calada, aexpresso fria.

    Com a ajuda de Marcus, Kira estavalivre e antes de sentar-se cobriu-se como lenol. Jayden atirou de novo nocorredor.

    Tem algum plano para sair daqui? perguntou Kira.

    Para ser honesto, ainda nemacredito que chegamos to longe disseMarcus. Voc est bem? Ele notouos ombros desnudos de Kira e contraiu aexpresso. Voc est

    Estou respondeu Kira, procurandoa roupa ao redor. Na sala havia apenasuma bandeja com seringas e algunspedaos da aranha quebrada. Ela

  • apontou para uma das mdicas. Voc,me d seu avental.

    Esto se aproximando! gritouJayden.

    A mdica no se alterou, mas ummovimento intimidador da pistola deXochi incentivou-a a tirar a roupacirrgica. A Dra. Morgan gritou deraiva.

    Maldio, Samm! Faa algumacoisa!

    Samm alcanou a arma que Marcusdeixara sobre a mesa enquanto soltavaKira. Ela praguejou contra o Partial e seafastou para o outro lado da mesa, mas osoldado simplesmente ficou parado,encarando o vazio.

  • Samm recomeou a Dra. Morgan,e sem que ningum esperasse, elelevantou a arma e disparou, no contraKira ou seus amigos, mas em Morgan.Ela desviou com uma agilidadeimpressionante e a tela da paredeexplodiu em fagulhas e estilhaos devidro. Xochi tambm comeou a atirar,mas a mdica era veloz, vrias rajadasdestruram as telas na parede e a cadauma delas, as outras mulheres gritavam ese jogavam ao cho. A Dra. Morgandanava frente das balas, avanandoem direo porta numa velocidadeincrvel. Samm saltou no meio da sala,disparou e no acertou, e da terceira vezouviu o tradicional click de uma arma

  • descarregada. Ele girou o fuzil,agarrando-o pelo cano e deu umacoronhada na parte posterior do crniode Morgan, quando ela dava um ltimomergulho em direo porta. A mdicatombou bruscamente e Xochi a alvejouna coxa.

    E no se levante! Ela muito forte disse Samm,

    agarrando um pente de munio doombro de Marcus. Me desculpe pordemorar tanto para me rebelar. Hquantos l fora? Ele encaixou um pentena arma, outro e mais outro, rpido emetodicamente.

    Kira agachou-se, observando-o comespanto. Est mesmo do nosso lado?Jayden virou-se apreensivo, olhando-o

  • de cima a baixo, mas em seguida voltoua ateno porta aberta.

    Apenas quatro, no final do corredor disse Jayden. O destacamentoprincipal do exrcito deles est ocupadocom os Partials inimigos.

    Samm verificou se a arma estavadestravada.

    D cobertura.Jayden disparou no corredor e Samm

    mergulhou no cho, passando por elecomo um raio, rolando at a parede dooutro lado, e em seguida correndo emdisparada na direo da posioinimiga. Jayden parou de atirar e osPartials apontaram a cabea no final docorredor, bem a tempo de Samm chegar

  • atirando.Kira vestiu o avental mdico,

    trespassando-o pelas costas eamarrando-o bem apertado na cinturacom um par de gravatas. Por precauo,pegou a mscara e a touca, e por ltimoos sapatos.

    Samm retornou com o rosto e osombros sangrando.

    O corredor est limpo. Acho queconseguiremos chegar at os jipes, mastem que ser agora.

    Estou ficando cansada de confiarnesse cara disse Xochi.

    Ele vem com a gente falou Kira.Preciso falar sobre algo que eu noposso falar com mais ningum. Ela oolhou com vagar, perguntando-se qual o

  • sentido de tudo aquilo: se era umaPartial, se era uma agente, se era tudoque eles pensavam dela.

    Temos que ir gritou Marcus. S um segundo disse Kira. Antes

    de partir, ela pegou a ltima seringa dabandeja: uma amostra do feromnioPartial.

    A cura do RM.

  • OCaptulo Trinta e Quatro

    nico que sabia dirigir era Samm.Marcus examinava as feridas de

    Kira no banco traseiro. Parecia que osPartials haviam feito muito mais do quelhe dado algumas picadas, tirado sanguee a preparado para uma cirurgia que noaconteceu. A queimadura na pernaestava quase totalmente cicatrizada, masa viso da sua prpria canela, quase semcicatrizes, lhe pareceu inesperadamenteestranha e de outro mundo; um sinal node que o Regenera havia trabalhadomelhor que o normal, mas que seu corpo

  • cicatrizava muito mais eficientemente doque o padro humano. Igual a Samm.

    Kira notou que Samm a olhava peloretrovisor. Seus olhares se encontrarampor um momento, em silncio. Eles nohaviam comentado nada com os outros.

    Sou mesmo uma Partial? Como eupoderia no saber? Os Partialsrecuperam a sade rapidamente, maseste o meu primeiro ferimento grave,por isso nunca tive a chance deobservar as minhas prpriashabilidades de recuperao. Tambmnunca estive doente. Ser que isso querdizer algo? Vasculhou a mente por maisinformaes sobre eles. So estreis, eisso nunca foi questionado. Partialsso rpidos, fortes e geis, mas sero

  • apenas os soldados? Lembrou-se daDra. Morgan gritando freneticamentesobre projetos secretos e algum tipo deguerra entre faces. Se no sou umsoldado, o que sou? Por que existemtantos grupos e o que querem? E porque algum deles plantaria uma agentePartial entre um grupo humano derefugiados?

    Est calada disse Marcus. Desculpe. Tenho muito em que

    pensar.Desta vez foi Marcus quem olhou

    para Samm, analisando-o em silncio,ponderando. Voltou o olhar para Kira esua perna.

    Sua recuperao foi excelente. Tem

  • certeza de que eles no fizeram maisnada?

    Kira sentiu-se encurralada. Embora asjanelas estivessem abaixadas e o ventoviesse em rajadas, sentiu-seclaustrofbica no fundo do carro.

    O que quer dizer?Xochi levantou a sobrancelha. Encontramos voc nua, amarrada a

    uma mesa. O que acha que ele quisdizer?

    Claro que no disse Kirarapidamente.

    Voc disse que eles te sedaram.Como pode saber que no fizeramalguma coisa enquanto estava

    No aconteceu nada disse Samm.Seu maxilar estava contrado, os olhos,

  • frios. No sa de perto dela nem porum segundo. No fizeram nada paramachuc-la.

    Mas estavam se preparando paraisso retrucou Marcus. E voc no fezmuita coisa para evitar, at a genteaparecer.

    Fiz tudo que pude! Parem de brigar disse Kira. A

    culpa do link. Samm no conseguiadesobedecer.

    A presena dele aqui no me agradanem um pouco comentou Jayden,sentado ao seu lado, na frente do jipe,observando a paisagem em runas, com aarma preparada para entrar em ao.

    Eu os ajudei desta vez. Ajudei-os a

  • fugir. O que mais esperam de mim? perguntou Samm.

    Vamos manter a calma, pessoal disse Kira. Tenho certeza de que hcoisas mais importantes com que nospreocuparmos no momento.

    Mais importante do que decidir seconfiamos num soldado inimigo nosguiando sabe-se l para aonde? perguntou Xochi.

    Estou indo para o leste. Para foradas zonas controladas.

    E para dentro das zonasincontrolveis. Me parece seguro ironizou Marcus.

    Nosso povo no igual ao devocs. No temos a Voz, nem bandidos,ou outro tipo de inconformados. Aqui s

  • h a separao entre faces doexrcito. Se no encontrarmos a facorival, no corremos perigo. Toda aregio oeste est cheia de pessoas nonosso encalo. Por isso vamos nadireo contrria at termos certeza deque eles ficaram para trs. Depois nsEu no sei o que faremos depois. Nosesconderemos.

    Encontraremos um barco evoltaremos para East Meadow disseKira, para a surpresa de Marcus.

    Fala srio? Depois de tudo o quefizemos antes de partir? Ele balanoua cabea. Seremos mortos.

    No quando descobrirem o queestou levando comigo. Kira espiou a

  • seringa em seu colo e Marcus seguiu seuolhar. Ele franziu o cenho, ento olhousurpreso para ela.

    No est querendo dizer queKira assentiu com a cabea. Tenho noventa e nove por cento de

    certeza. Do qu? De que encontrei a cura para o RM

    respondeu Kira. Jayden virou-se paratrs e mesmo Samm perdeu o controledo carro por alguns segundos, mas logoo recuperou, esterando e voltando parao caminho. Kira levantou a seringa. Quando estudei Samm no laboratrio,encontrei uma partcula na suarespirao semelhante ao vrus RM,embora no seja um vrus. Agora

  • descobri de que se trata de umferomnio que os Partials no usam paranada. Tudo o que ele faz, a sua nicafuno, unir-se com o RM e neutraliz-lo. As partculas de RM que eu vi nosangue do recm-nascido, e que chameide Predador, so mesmo uma formainativa do RM, criadas por meio dainterao com o feromnio. Marcusfranziu a testa.

    Quer dizer que os bebs morremporque no temos nenhum Partial porperto?

    Exatamente. Mas se conseguirmoslanar isto no sistema deles, assim quenascerem, ou at antes do nascimento,por meio de uma injeo intrauterina,

  • resistiro ao vrus e estaro salvos. Ela apertou a seringa. Madison estavapara dar luz quando partimos e Arwentalvez j esteja morrendo. Mas podemossalv-la.

    Marcus balanou a cabea e Kirapodia ver as engrenagens funcionando ldentro, analisando todas as informaes,como to bem ele sabia fazer. Aps ummomento, levantou o olhar.

    O que disse pode ser verdade.Baseado no que acompanhei do seutrabalho, que no foi muita coisa, meparece possvel. Est mesmo dispostaa arriscar a sua vida nisso?

    Est disposto a arriscar nossaespcie contra isso?

    Marcus ficou cabisbaixo. Xochi

  • trocou olhares com Kira, em silncio.As rvores ficaram para trs, a

    estrada elevou-se numa ponte quecortava uma enseada.

    Encontraremos barcos l embaixo disse Jayden, para a reprovao deSamm.

    Precisamos seguir adiante.Despacharo algum atrs de ns assimque terminarem com o grupo rival. Sebem os conheo, os dois grupos Partialviro em nossa captura. preciso abrirdistncia antes que se organizem paranos perseguir.

    Precisamos descer deste carro disse Jayden. Abra alguma distncia,sim, mas depois vamos esconder esta

  • coisa e no olhar para trs. barulhentodemais. Sero capazes de nos ouvir dooutro lado do continente.

    Ela ainda pode nos encontrar disse Samm.

    Quem? perguntou Marcus,levantando o olhar.

    Heron. Operao Especial. Mesmoque tenhamos cuidado, ela nosencontrar.

    O carro apresentou um bomdesempenho no to veloz, porque asestradas eram esburacadas e traioeiras,no entanto mais rpido do que setivessem seguido a p. Do outro lado daponte, caram numa rodovia principal, e,pelo que tinham observado, no estavamsendo seguidos. Vrios quilmetros

  • adiante, a estrada fazia uma curvaacentuada para o norte. Decidiram sairdela e dirigir para o sul, cortando porum subrbio arborizado. As ruas eramestreitas e sinuosas, num ziguezague decontorno imprevisvel. Logo desistiramdo carro, abandonando-o numa rualateral, quase totalmente tomada pelomato. Kira parou numa casa paraprocurar roupa, mas o lugar era midodemais e tudo l dentro estava podre eimprestvel.

    Samm podia sentir o cheiro do mar,mas nenhum dos humanos podia. Kirajurava que ela tambm sentia uma pitadade sal no ar. Ela no contou a ningum.Cortaram por um caminho ao sul e a

  • oeste, serpenteando com cuidado entrebairros cada vez mais espalhados, ondea natureza havia reclamado o que eraseu.

    O mato crescia no apenas em voltadas casas, mas dentro delas. Era tantokudzu, mofo e umidade que elas estavampartidas ao meio; os telhados vergadospara dentro e as paredes abauladas, semarrimo. As flores germinavam dasvarandas, ervas daninhas brotavam demveis na penumbra de uma ou outrajanela estilhaada. Quando chegaram aoporto, Kira respirou aliviada, como setivesse sado de uma caverna abafada.

    Estamos do lado errado apontouMarcus. Casas deste lado,ancoradouro do outro.

  • Ao sul as casas parecem maiores disse Jayden. Uma delas pode ter umancoradouro. Margearam beira-mar,metade do grupo procurando um barco ea outra metade dando cobertura. Kiraconhecia as habilidades de Heron,perderia para ela em poucos segundos.No gostaria de enfrent-la novamente.

    Ali! gritou Xochi e todoscorreram. Um deque branco e compridose estendia para dentro da gua,aoitado pelas intempries, um pedaode madeira boiando deriva. Na ponta,uma lancha grande e aprumada, com otoldo em frangalhos. Jayden pulou paradentro, procurando a chave noscompartimentos do painel, enquanto

  • Samm procurava mais combustvel nasembarcaes ao redor. Nenhum dos doisencontrou o que procurava e o grupoteve que correr at a prxima casa beira-mar. Nela havia um pequenoveleiro. Embora nenhum deles soubessevelejar, a embarcao era motorizada eas chaves estavam na ignio. O motorfuncionou na stima tentativa. Sammencontrou latas de gasolina, masestavam vazias.

    Vocs vo precisar de maiscombustvel. Estamos muito mais aoleste do que quando viemos. O mar aqui duas ou trs vezes maior.

    Ele levou as latas na direo da casa,pronto para retirar o combustvel doscarros, mas Kira o deteve no caminho.

  • Como assim, vocs? No vemconosco? perguntou Kira.

    Samm meneou a cabea e olhou aoredor, evitando o olhar de Kira.

    Seu povo vai me matar. Os Partials tambm vo te matar.

    Voc um traidor agora. Pelo menos,com a gente voc ter alguma coisaamigos, sei l! Podemos nos ajudar.

    Voc uma terrorista procurada. Euiria te ajudar muito disse, irnico.

    Samm voltou a andar em direo casa. Kira olhou para os outros.

    Vou ajud-lo com a gasolina.Marcus fechou a cara e desviou o

    olhar para o mar.Samm e Kira subiram com

  • dificuldade um pequeno morro at acasa, que na verdade era um tipo deresort. O estacionamento estava lotadode carros, num deles havia at umesqueleto. Samm se enfiou embaixo doscarros, furando os tanques com umafaca, deixando o combustvel pastoso eestragado pingar dentro da lata. Kiraqueria conservar, queria perguntar-lhequem ela era precisava dizer em vozalta Sou uma Partial, mas no tinhacoragem. Andava inutilmente de um ladoa outro, dizendo palavras desconexas,com tanto medo de falar que malconseguia pensar. Por fim, desistiu, e ovelho hbito tomou conta dela. Comeoua vasculhar nos carros procura dequalquer coisa que pudesse resgatar. A

  • maioria dos carros estava abarrotada debagagem ser que fugiam do vrus? Dopas? As malas fechadas com zeloapresentavam roupas em condiesmuito melhores do que os trapos queencontrara antes. Havia roupas ntimaslimpas, jeans rasgados e um monte deblusas e meias que ela carregou consigopor precauo.

    E a? disse Samm, sentado nocho em meio s latas com gasolina.

    Kira parou, segurando as roupas. E a?Kira olhou para ele, seu rosto, seus

    olhos. Sentia-se to prxima. Seria olink? Talvez a intensidade da suaconexo fosse menor, mas era isso que

  • vinha sentindo desde o incio. Balanoua cabea, perdida entre emoesconflitantes. Ser que a conexo entreeles era real ou no passava de algumtipo de subterfgio biolgico Partial?

    Se fosse apenas resultado do link,tornaria menos real o que sentia? E sepodia conectar-se to profundamentecom algum, fazia alguma diferenacomo isso acontecia?

    Voc no sabia mesmo? Sammsemicerrou os olhos ao encar-la na luzplida do fim de tarde. Realmentepensava ser Ele ficou sem palavrase Kira agradeceu por ter sido assim.

    Eu no sabia. E ainda no estouconvencida.

    Definitivamente voc no como

  • eu, mas tambm no como eles disseSamm, apontando para seus amigos coma cabea. Mesmo voc no podendo seconectar, sinto como se fosse possvel.Parece que existe alguma coisa entrens no sei o qu. No sei o que voc.

    Kira abriu a boca para responder,mas ela tambm no possua a resposta.

    Sou Kira Walker disse, por fim. O que mais precisa saber?

    Samm no respondeu, apenasrecolheu as latas.

    Voc poder vir com a gente.Podemos escond-lo em algum lugar,nas fazendas ou em alguma pequenacomunidade. Estar seguro.

  • Samm olhou dentro de seus olhosescuros e profundos.

    isso mesmo o que voc quer? Umesconderijo e segurana?

    Kira suspirou. Neste momento sei menos o que

    quero do que quem sou. Quero estar emsegurana. Quero saber o que estacontecendo. Sentiu-se mais resoluta. Quero descobrir quem fez isso, e porqu?

    ParaGen disse Samm. Elesfabricaram os Partials e fabricaramvoc. E se a sua teoria sobre osferomnios estiver correta, o vrus RMtambm obra deles.

    Kira deu um sorriso maroto.

  • Voc sempre disse que os Partialsno criaram o vrus.

    Samm esboou um sorriso com ocanto dos lbios.

    Desde quando voc passou aacreditar em mim?

    Kira abaixou o olhar, chutando umapedra com a ponta do sapato.

    Disse o que quero. Ela olhou paraele. Agora a sua vez.

    O que eu quero? perguntou Samm,refletindo sobre a pergunta com suasolenidade habitual. O mesmo quevoc, acho. Quero saber o que estacontecendo e por qu. E quero mudaras coisas. Depois de tudo que aconteceu,estou mais convencido do que nunca que

  • a paz impossvel? Ia dizer que a nossa nica chance.Kira deu um sorriso breve. Voc tem mesmo talento para dizer

    exatamente o que eu quero ouvir. Aprenda o que puder disse Samm.

    E eu farei o mesmo. Se nosencontrarmos novamente, vamoscompartilhar.

    Compartilhar o que aprendemos? Isso.Permaneceram ali mais alguns

    instantes, entreolhando-se, guardando ooutro na memria. Naquele momento,Kira pensou at que sentia o linkunindo-os como um fio invisvel.Desceram carregando as roupas e as

  • latas. Samm ajeitou-as pesadamente noveleiro.

    Com essa gasolina devem conseguiratravessar disse , supondo que omotor aguente.

    Jayden deu a partida e o veleiroentrou em funcionamento com um ronco.Ele apertou a mo de Samm.

    Obrigado pela ajuda. E me desculpepelo jeito que tratei voc.

    No h do que se desculpar, masobrigado.

    Xochi e Marcus tambm apertaram amo dele, embora este no o tenhaolhado nos olhos. Kira embarcou eofereceu aos amigos as blusas e asmeias. Marcus foi o ltimo a entrar,

  • desamarrando a embarcao. Para onde voc vai? perguntou. Pensei em me esconder, mas agora

    tarde demais respondeu Samm. Eleolhou de relance para as rvores atrsdeles. Heron est bem ali. Kira eseus amigos se agitaram, procurando asarmas, mas Samm mostrou-seindiferente. Ela no atacou, ento nosei qual o seu jogo.

    Tem certeza de que vai ficar bem? perguntou Kira.

    Se ela quisesse me matar, j teriafeito isso.

    Jayden acelerou e o veleiro se afastoudo porto.

    Kira ficou olhando para Sammenquanto ele se afastava e desaparecia

  • da viso.

  • OCaptulo Trinta e Cinco

    motor pifou muito antes do que navinda e apesar da gasolina extra,

    remaram a maior parte da travessia. Acorrente os arrastou para o leste e elesavistaram a ilha bem antes deconseguirem levar o veleiro para a costae ancorar. Como a noite j havia cado,eles se abrigaram numa antiga casa deveraneio e dormiram algumas horasantes de seguir viagem. primeira luzda manh, Kira vasculhou a casa porcomida, mas s encontrou latasintumescidas e comida ranosa na

  • despensa. Deixaram-nas de lado e foramatrs de um mapa. Por fim, encontraramum atlas prximo a uma estante empedaos. No havia uma seodetalhada sobre Long Island, apenas ummapa grande e geral de Nova York,mesmo assim era melhor do que nada Kira reconheceu alguns nomes, osuficiente para saber aonde estavamindo, e torceu para que as placas osajudassem na localizao.

    Distriburam entre si as armas querestaram um fuzil, uma espingarda eduas pistolas e viajaram em silncio,atentos a qualquer sinal da Voz ou daspatrulhas da Rede da Defesa. Kiraembalou a seringa cuidadosamente,enrolando-a em algumas blusas e

  • prendendo-a ao redor da cintura. Elarezou em silncio para que chegasse atempo de salvar Arwen, espreitando assombras para evitar o perigo.

    Aps cerca de uma hora decaminhada, Kira comeou a reconhecero terreno em grande parte da ilha ocenrio era parecido, casas em runascobertas por kudzu e rodeadas dervores, mas algo naquela rua lhe erafamiliar. Talvez a maneira como fazia acurva, ou se elevava ou descia; ela nosabia ao certo o qu. Aps algunsinstantes, Kira parou de esquadrinhar aestrada e franziu o cenho.

    J passamos por aqui. Ainda nem mudamos de estrada,

  • como poderamos j ter passado poraqui? perguntou Jayden.

    No esta manh respondeu Kira. Eu s ali! Ela apontou para umacasa fora da estrada. Reconheceaquela casa?

    Os outros olharam para o local eMarcus arregalou os olhos, surpreso.

    No o esconderijo daqueleerrante? O Tovar?

    Estou quase certa de que respondeu Kira. Talvez tenha comidaarmazenada.

    Ao se aproximarem, reconheceram olocal naquela noite chuvosa, haviamvisto apenas a frente da casa, mas namanh seguinte, ao sarem pelos fundos,puderam observ-la com mais detalhes e

  • agora se lembraram do quintal. Kiramexeu nas portas, tentando recordar-sequal o velho errante havia deixadoaberta, mas o estalo de um gatilho a fezparar.

    No se mexa disse a voz. Semdvida era ele. Kira tirou a mo damaaneta e as levantou para mostrar queestavam vazias.

    Owen Tovar disse Kira. Os outrosaguardavam em silncio, as armaslevantadas, procurando de onde saa avoz. O andarilho era bom em se manterescondido. Sou eu, Kira Walker.Lembra-se de ns?

    Os quatro criminosos maisprocurados de Long Island? perguntou.

  • Claro. Com certeza nos lembramos devocs.

    Ns, pensou Kira. Quem mais est ldentro?

    Os mais procurados, hum? perguntou Marcus. Minha me sempredisse que um dia eu seria famoso. Pelomenos, era o que eu entendia.

    Vou pedir para que larguem asarmas agora. Bem devagar, ao lado dosps.

    Pensei que fssemos amigos disseKira. Precisamos de comida. Noestamos aqui para roub-lo.

    A voz de Tovar era seca e fria. por isso que chegaram armados e

    tentaram abrir a porta antes de bater? No queramos acordar Dolly

  • disse Marcus. Houve um silncio eento Tovar riu. Kira pensou que o somviesse de uma passagem de ar no topoda parede, mas no tinha certeza.

    Havia me esquecido do quantogosto de vocs ele disse. Parece queno esto sendo seguidos, ento abaixemas armas que deixo vocs entrarem parauma conversa.

    Kira olhou para Jayden, que deu deombros, abaixando a arma ao cho.Marcus e Xochi fizeram o mesmo,depois Kira. Se estamos prestes a serroubados pensou, balanando acabea. Mas no temos nada, comcerteza ele pode ver isso. A nica coisade valor a seringa com a cura do RM,

  • mas ele no pode v-la. Muito bem disse Tovar. Agora

    cumprimentem meus amigos. Umarbusto farfalhou do lado esquerdo deKira e ela se encolheu de susto, emseguida outro arbusto tremeu e maisoutro. Uma janela que estava fechadacom tapume foi aberta e para surpresado grupo o quintal foi tomado porhomens e mulheres em vrios modelosde camuflagem e armaduras caseiras,todos armados.

    Calma disse a mulher prxima Kira, com uma voz que soou familiar. Mantenham as mos levantadas e seafastem das armas.

    Gianna disse Kira, dando-se contade quem se tratava. Estava conosco da

  • ltima vez que viemos aqui. Estava namisso de resgate que encontrou abomba.

    Kira Walker disse Gianna,sorrindo. Ao ver Jayden, ela azedou. Eo fascista da gerao babylndia.Mantenha as mos onde eu possa v-las.

    Quem so vocs? indagou Kira. So da Voz?

    Em carne e osso confirmou Tovar,surgindo pela porta dos fundos com suarobusta espingarda na cintura. O novoregime est nas ruas, capturando osrefugiados e os fugitivos. No sei se foisorte ou azar termos encontrado vocsprimeiro.

    A Voz repetiu Marcus, confuso.

  • Ele riu. Acho que a coisa maismaluca que j ouvi na vida. E voc,Gianna, j era da Voz?

    Antes no. Me engajei depois de tersido presa ilegalmente.

    Mas na poca j era simpatizante.Eu tinha razo de no confiar em voc.

    Esto perseguindo at relgio deparede ironizou Tovar. Fez um gestoindicando a porta. Entrem, temos queficar de tocaia. Se a Rede aparecer, noquero estar do lado de fora, acenandocom as armas.

    Eles entraram e os membros da Vozvoltaram a se esconder. Gianna trancoua porta e recolheu as armas. O gruposeguiu Tovar pelo corredor. A casapermanecia do mesmo jeito, incluindo o

  • lacnico camelo na sala de estar. Ol, Dolly. H quanto tempo!

    cumprimento-a Marcus.Xochi ofereceu a mo a Tovar. Sou a nica que voc no conhece.

    Sou a Xochi. Xochi Kessler! disse Tovar,

    ignorando a mo estendida e procurandocomida na carroa. Ou deveria dizera infame Xochi Kessler. A coitadinhada tua me est morrendo depreocupao.

    Por mim ela pode ser enforcada. Ela iria preferir muito mais enforcar

    voc disse Tovar, oferecendo-lhe umalata de ravili. Onde se meteu omaldito abridor de latas? Voltou-se

  • para a carroa. J mencionei que socriminosos procurados, no ? A cabeade vocs est a prmio, com cartaz napraa central e tudo. Achei! Virou-sede costas e apontou para Kira com umabridor de latas com cabo de borracha. Ela a grande traidora. A amante doPartial. A lder. Estes dois so osotrios que a seguiram. Ele apontoupara Xochi. A filha ingrata: o smbolode como qualquer um pode acreditar quea Voz mente e tornar-se um traidor. Entregou o abridor a ela. Vou procurarcolheres.

    Quem est no comando? E o queaconteceu depois que partimos? perguntou Kira.

    Depois de terem lanado a ilha no

  • caos, voc quer dizer? rebateu Tovar,entregando-lhe um conjunto de talheresdesemparelhados.

    O que tanto falaram de ns? Kiraquis saber.

    Que so aliados da Voz, que por suavez aliada dos Partials. Que vocexplodiu o hospital e libertou um agentePartial, e que agora est escondida longede East Meadow ou fugiu para ocontinente, onde vai colaborar com ainvaso Partial. At onde devoacreditar?

    Kira mediu bem as palavras antes defalar.

    Depende de como se sente emrelao aos Partials.

  • Tovar sentou-se no sof, de frentepara Kira, analisando-a.

    Tirando o fato de terem matadotodos que eu conhecia, nunca fizeramparte da minha vida. Mas considere queminha opinio em geral tacanha. Istoposto, imagino que se quisessem nos vermortos, j estaramos mortos. Casotenha outra viso, sou todo ouvidos.

    Voc se considera um homem demente aberta, Sr. Tovar?

    Gosto de pensar que sim. Pois ter que abri-la muito mais

    para engolir o que vou contar disseMarcus. Primeiro: os Partials nocriaram o vrus RM.

    E o objetivo deles no nos

  • destruir. Pelo menos nem todos pensamassim emendou Kira. De qualquerforma, no agora. O que nos leva para osegundo ponto: sim, nos aliamos com umPartial. O libertamos e o tiramos da ilha,depois ele nos ajudou a voltar para c.

    Me misericordiosa murmurouTovar. E isso causou o motim?

    No, o contrrio disse Kira,constrangida. Comeamos o levantepara conseguir tir-lo do hospital.

    Tovar assobiou. Vocs no brincam em servio. No. Isso tudo? ele perguntou. Por enquanto respondeu Jayden.

    Agora a sua vez. Por onde comeo? refletiu Tovar.

  • Duas noites atrs vocs espalharam osboatos, deram incio s manifestaes efugiram quando a situao estavacomeando a ficar interessante. Ocoliseu foi queimado, embora nototalmente, a sede do Senado tambm foiincendiada, com mais de um punhado desenadores dentro.

    Kira empalideceu, pensando emIsolde. Pensamos que l seria um localseguro. Ela morreu l dentro?

    E o hospital? O hospital no foi incendiado, mas

    as casas ao seu redor no tiveram amesma sorte. Por outro lado, foi l queaconteceram os maiores distrbiosdaquela noite, e o nmero de vtimas foi

  • alto. As mes esto bem? Quantas

    pessoas morreram? Ningum atacou a maternidade

    disse Tovar. E temo no saberexatamente o nmero de mortes,provavelmente menos do que o Senadoest anunciando, mas maior do que vocest imaginando.

    Em quantos o Senado fala? perguntou Kira.

    Duzentas pessoas disse Tovar, avoz inflexvel. Um preo alto para avida de um Partial.

    Valeu a pena, jurou Kira, emborapartisse-lhe o corao pensar naquilo.Duzentas pessoas. Kira ainda noestava convencida de que podia confiar

  • em Tovar a ponto de lhe contar por quechegaram quele extremo. Afinal, aindaeram seus prisioneiros. Ele no haviaoferecido nada alm de algumasinformaes nem feito nenhumapromessa.

    Quais senadores sobreviveram? perguntou Xochi. Aparentementeminha me, e quem mais?

    Seria mais apropriado perguntar oque restou do Senado corrigiu-aTovar. Os poucos senadores quesobreviveram declararam estado deemergncia, baixaram a lei marcial eenviaram tropas da Rede para a zonarural. As eleies para substituir os quemorreram foram adiadas at ser

  • alcanado um estado de paz eequilbrio, o que significa dizernunca. Trata-se de totalitarismo emtodos os aspectos, menos no nome.

    Sim concordou Kira. Mas dequais senadores estamos falando?

    Ah, voc sabe quem respondeuTovar, encolhendo os ombros. Osverdadeiros senadores da linha-dura,como Kessler e Delarosa. Hobb umaraposa, ento continua l, e o outrosenador que integra a Rede, Weist. Foiassim que conseguiram que o exrcitoagisse to rapidamente.

    Os mesmos que esto envolvidosdesde o incio disse Kira. Sua peleesfriou, e ela amparou-se em Xochi. Eles planejaram tudo: Samm, a exploso

  • e mesmo o motim. Esse no umgoverno provisrio, para contornar umsuposto desastre nacional. Isso era umgolpe calculado.

    No poderiam ter planejado sobreSamm disse Marcus. Eles no faziamideia de que vocs iriam captur-lo.

    Quem Samm? perguntou Tovar. O Partial. Eles no precisaram

    planejar sua captura, apenas o que fazercom ele depois disse Kira. provvel que estivessem planejandoalguma manobra para agarrar o poder, equando chegamos com Samm, isso deu aeles a oportunidade que esperavam.

    Ficaro no comando apenas at acidade se restabelecer disse Jayden.

  • E isso graas revolta que nscausamos. O que mais eles poderiamfazer?

    Acredita mesmo no que estdizendo? perguntou Xochi.

    A resposta deles veio rpidademais protestou Kira, sentindo arevolta crescer dentro dela. Esse eraagora um sentimento to familiar, quefacilmente vinha tona. Teriam que terum plano j pronto para lidar exatamentecom o tipo de situao que os obrigamosa enfrentar: comeamos o motim, e elespularam para o plano F, cercando a ilhatoda. Mesmo quando pensamos queconseguiramos det-los, j estavamprontos para ns.

    Esto tentando salvar a nossa

  • espcie disse Jayden. Sim, estosendo radicais quanto a isso, mas talvezseja a nica forma de conseguir: umpulso firme sobre a ilha, com uma nicaforma de pensar, e o exrcito paracoloc-la em prtica.

    No se esquea de onde voc est disse Tovar.

    No gosto do cheiro disso tantoquanto voc defendeu-se Jayden. Mas eles no sabem a Ele parou,olhando para Kira. Ento recomeou. Essa a nica maneira que conhecempara nos salvar do RM: levar a Lei daEsperana ao extremo e nos reunir feitogado at que algum nasa imune.

    Delarosa era uma zologa disse

  • Kira suavemente, pensando em todos osseus amigos ainda presos dentro doslimites da cidade.

    Tovar bufou. Jura?Kira assentiu com a cabea. Salvava espcies ameaadas de

    extino. Para ela somos outra manadade raros rinocerontes brancos. Kiraengoliu a raiva e respirou fundo. Sr.Tovar, precisamos voltar para EastMeadow disse, olhando-o nos olhos.

    Isso loucura. Loucura ou no, o que precisamos

    fazer. E voc vai nos levar at l. Agora loucura e estupidez disse

    Tovar. Em trs dias, quando reunirmostodos os nossos homens, vamos lanar a

  • maior ofensiva de todos os tempos. como disse o seu amigo, quando aespcie inteira est em perigo, aspessoas esto dispostas a chegar aosextremos. Vamos derrubar o governo evoc no vai querer estar por pertoquando isso acontecer.

    Trs dias? A cabea de Kiraestava a mil. Pode ser o que nsprecisamos. Se conseguir nos colocardentro da cidade, talvez a guerra noseja necessria.

    Tovar franziu o cenho. No sou um assassino, Kira, se o

    que est pensando. Claro que no . E tambm no sou um mrtir. Levar

  • voc ou qualquer outra pessoa para EastMeadow seria extremamente arriscado.Se eu tiver que morrer, vai ser por ummotivo muito bom.

    Se o problema ter um bom motivo disse Kira, mostrando a seringa. Quetal a cura do RM?

    Tovar ficou olhando para a seringa,depois riu alto.

    E espera que eu acredite nisso? Voc acreditou em todas as

    maluquices negativas que falaram dens, por que no acreditar numamaluquice positiva? perguntou Xochi.

    Por que coisas ruins e loucas fazemparte da minha realidade respondeuTovar. A cura para o RM est naesfera dos duendes mgicos e cachorros

  • falantes que mijam whisky. Impossvel. verdade disse Marcus, olhando

    para Kira. Estamos dispostos a darnossa vida por isso.

    Vejo que sim. E o que podemosfazer? Entramos na cidade, com aseringa levantada no ar e esperamos osduendes mgicos colocarem tudo noseixos de novo?

    Se aprendi alguma coisa com ossenadores disse Kira , foi que opoder vem do povo. A nica razo pelaqual eles esto no comando porque aspessoas deram a eles esse direito.

    E tambm porque eles tm armas completou Marcus.

    Eles no tm armas, tem a

  • submisso daqueles que as tm disseXochi.

    Exatamente disse Kira. Seacabarmos com isso, poderemos libertartodos na cidade e na ilha inteira. Semostrarmos a eles um beb humanosobrevivente, a prova mais pura esimples de que a nossa descobertafunciona, e no a Lei da Esperana, opovo ir se rebelar to rapidamente quevoc ficar com vertigem. Podemosrestaurar a liberdade e unir a ilha, semdisparar um nico tiro.

    Digamos que a cura funcione e quea gente possa mostrar isso a eles,mostrar um beb humano sobrevivente,como voc disse. A voz de Tovarfraquejou e Kira pode perceber a sua

  • emoo ao dizer aquelas palavras. Vocs j fizeram uma aliana com osPartials, cruzaram o mar e osencontraram pessoalmente. Ser que aspessoas no vo pensar que isso algumtipo de truque Partial? Um beb Partialou algum tipo de fantasma delaboratrio, ou sei l o qu?!

    A me deve ser algum de EastMeadow disse Marcus. Algum queas pessoas reconheam como suasemelhante. Ele olhou para Jayden. A irm dele est perto de dar luz, outalvez j tenha dado.

    No basta apenas aparecer com umbeb. Temos que tirar Madison dohospital. Embaixo das barbas dos

  • soldados da Rede explicou Kira.Tovar olhou para ela. Tenho a clara impresso de que

    nada simples quando voc estenvolvida.

    Bem vindo minha vida. Quantossoldados voc tm?

    Dez.Kira levantou a sobrancelha. Vi muito mais que dez apenas no

    quintal.Tovar endureceu a voz. Voc est me perguntando sobre

    soldados ou civis armados, com maisraa do que treinamento?

    Ponto para voc respondeu Kira.Tovar analisava cada um do grupo

    medida que pensava.

  • Talvez, talvez balbuciou. Talvez a gente tenha um jeito deconseguir colocar voc l dentro. Temcerteza do que est falando?

    Kira riu. Voc no ouviu? Sou a criminosa

    mais procurada em toda a ilha. Acho queest na hora de fazer jus a minha fama.

    Com os diabos, yes! comemorouXochi.

    Tovar ainda no estava convencido esua expresso era tensa. Por fim, abriuum sorriso.

    Quando voc fala assim, posso atjurar que vi um cachorro falando nasemana passada. Mas no bebi da suaurina, claro. Tovar levantou-se.

  • Ainda estamos na metade da manh e otempo est a nosso favor. Secomearmos agora, podemos ver vocderrotada e sob a custdia da polciaantes do jantar. Mas tenho alguns truquesescondidos na manga. Vou reunir astropas.

  • UCaptulo Trinta e Seis

    m dos truques de Tovar eram osuniformes: dezenas deles, todos da

    Rede de Defesa, roubados quando a Vozsaqueou o depsito da antiga escola deEast Meadow.

    Roubamos uma montanha demunio e rao disse Tovar,matreiro. Fizemos isso para pensaremque estvamos atrs de suprimentos, maseste foi o verdadeiro prmio. Cada umdeles vale mais que mil balas, se vocsouber us-los.

    Kira colocou um dos uniformes por

  • cima da roupa.Um grupo variado de lderes da Voz

    se espremia na pequena sala abarrotada.Kira observava os rebeldes discutiremdebruados sobre mapas improvisadosda ilha. Eram eficientes e determinadoso bastante, mas ela pde perceber queali as coisas no transcorriam tofacilmente quanto na Rede. Mesmo paraalgo simples como uma misso deresgate, a Rede era mais organizada uma pessoa expunha o plano, enquantoas outras ouviam com ateno. A Vozera muito diferente.

    Este Farad disse Tovar,apontando para um homem srio, decabelos vermelhos como fogo. Osuniformes vo ajudar, mas ele o nosso

  • trunfo: um soldado da Rede que acaboude abraar a causa, e que, esperamos,ningum por l ainda notou a falta.

    Farad percorreu a sala com os olhos,visivelmente desconfortvel por estarcercado de pessoas que at pouco tempoeram seus inimigos.

    Eu quis continuar na Rede depoisdo motim e das novas leis Mas elespassaram dos limites explicou comuma voz branda.

    Farad era motorista prosseguiuTovar. E, para nossa sorte, roubamosum jipe de uma das patrulhas. Ele sevoltou para Kira. Provavelmente umdos que perseguiam vocs depois domotim. Est em bom estado e tem uma

  • cobertura traseira com o logotipo oficialda Rede. Farad sabe as senhas parapassar pela fronteira.

    Ele sabia as senhas corrigiu umhomem grande, prximo parede. Eleera velho, de cabelo grisalho e barba,mas os braos eram uma massa demsculos. Se forem espertos, jtrocaram as senhas.

    No sabem que sou um desertor disse Farad. Sua voz era fraca. Querodizer, acho que ainda no sabem. Noto rpido.

    Para eles voc est numa patrulha disse Gianna. Mas se ao passar pelafronteira algum soldado descobrir quevoc no deveria estar ali, nem todas assenhas do mundo iro te ajudar.

  • Mesmo uniformizados, seroreconhecidos disse Jayden. Todosno hospital conhecem Marcus e Kira.

    E so eles quem conhecem ohospital observou Tovar. Nenhum dens sabe do local tanto quanto eles.Vamos ao plano: Farad atravessa vocsde carro pela fronteira; os membrosmais notrios do bando ficam no bancode trs, com o olhar abaixado. perigoso, mas se tomarem cuidado,vamos conseguir. Dirijam at o hospital,para a entrada de servio, nos fundos, aque comentaram comigo.

    A mesma que usamos para escaparna noite do motim disse Kira. Temuma rampa grande que desce at a porta

  • e dificulta a viso. Os soldados em voltado prdio sabero que estamos ali, masno vo conseguir ver quem entra ou saido jipe.

    Tovar balanou a cabea. Avancem pelo subsolo at a

    maternidade e peguem a sua amiga. Essavai ser a parte mais complicada.

    para isso que vou disse Gianna. Depois que nos guiarem peloscorredores do fundo, posso entrar e sairda maternidade sem levantar suspeita.Ningum me conhece e com esteuniforme vou parecer uma autoridade.

    Comece a torcer disse o homembarbado.

    Fala srio, Rowan. Acha mesmoque hora para isso? Temos que

  • discutir cada detalhe do plano? perguntou Tovar.

    O que voc chama de plano nopassa de boa sorte e tente no parecersuspeito retrucou o barbado. Estmandando o grupo para o corao doterritrio inimigo. Pensei que fosseapresentar algo mais vivel.

    Eu nem quero que faam isso! disse Tovar, lanando as mos ao ar. Estou tentando planejar um ataque degrandes propores cidade, e o queacabei de planejar foi o melhor queconsegui pensar com o pouco de tempo ede recursos que temos no momento.

    Rowan voltou-se para Gianna. Est disposta a arriscar a sua vida

  • pelo melhor que consegui pensar? Estamos dispostos a arriscar nossas

    vidas por isto disse Kira, mostrando aseringa. Isto no um conceitoabstrato, a verdadeira cura, umainjeo de verdade que ir salvar a vidade uma criana. D para imaginar? Umacriana que ir respirar e viver umasemana, um ms, um ano depois dooutro. Uma criana que ir aprender asorrir, gatinhar e falar. Sua voz falhou. No pensaria duas vezes para morrerpor isto.

    A sala foi tomada pelo silncio.Rowan voltou carga. Um bom motivo no justifica um

    plano arriscado. Meu plano vai funcionar disse

  • Tovar, com fervor. Farad possui assenhas. E os nossos informantes nacidade nos passaram um relatriocompleto sobre a segurana do hospital.Podemos coloc-los l dentro e tirarMadison Sato de l. A levaremos parauma fazenda ao leste, ela dar luz e acriana vai sobreviver.

    Vou dividir a cura em trs doses explicou Kira. Uma fica com Tovar,fora da cidade, para ser usada comMadison. A segunda vai com a gente,para o caso de Arwen j ter nascido.Dependendo do estgio da doena,aplicaremos a injeo l mesmo.

    Tovar apontou para Rowan. A terceira vai com voc para o

  • oeste, pode ser Flanders ou Riverhead,ou qualquer outro lugar onde a presenada Rede menor disse Tovar. Vacine cada recm-nascido queencontrar. Ele olhou para a seringa nasmos de Kira. A cura importantedemais para depender de uma nicamisso.

    Kira assentiu, mas dentro dela, umavozinha insistente no lhe dava sossego:Eu possuo o feromnio? Se realmentesou uma Partial, posso curar o RM?Ela quase no ousava levar as perguntasem considerao no ousava ter talesperana , seria fcil demais, e nadaat o momento tinha sido fcil. Assimque tiver a oportunidade, assim quetiver os instrumentos certos, vou fazer

  • um teste em mim mesma.Gianna sussurrou com reverncia. Estamos depositando muita

    esperana nisso. Eu sei disse Kira. Muito bem, a equipe ser formada

    por Gianna, Farad, Kira e Marcus resumiu Rowan.

    E ns. Madison minha irm disse Jayden.

    Xochi balanou a cabea. E eu sou irm de Kira.Kira sentiu um peso na conscincia,

    como se ela os estivesse traindo porlivre e espontnea vontade. O quefariam se descobrissem o querealmente sou?

  • O carro morreu trs quilmetros anoroeste de East Meadow. Gianna eFarad passaram quase uma horaembaixo do cap, praguejando, dandopancadas e tentando fazer com que elevoltasse a funcionar. Kira e Marcussentaram-se no meio-fio e planejaram arota dentro do hospital: por onde ir,como chegar l, e quais frases do jargomdico ensinar a Gianna para ajud-la atirar Madison da vista das enfermeiras.Kira mantinha a seringa consigo,cuidadosamente embrulhada e presa cintura. Sem perceber, sempre a tocava,certificando-se de que estava emsegurana. Farad se aproximoudesanimado e jogou um pedao de metal

  • lambuzado de leo escuro no cho.Marcus olhou para aquilo. Gasolina velha? Essa a melhor gasolina que vi nos

    ltimos tempos respondeu Farad. o motor de arranque. No est rachado,torto ou colado, est apenas velho.Deixou-se cair ao lado dos outros nasarjeta. Entre tudo que poderia terdado errado, nunca imaginei que seriaisso.

    Mas ainda pode nos levar, nopode? perguntou Kira.

    Consigo passar, mas vocs dois sofamosos. Sem o jipe para seesconderem, no vejo como poderia darcerto. E mesmo que eu conseguisseentrar na cidade, um cara voltando

  • sozinho vai levantar muito maissuspeitas do que um esquadro inteirodentro de um veculo. Com quase todacerteza eu seria interrogado, eprovavelmente detido, e, nos dois casos,jamais chegaria at a sua amiga a tempo.No existiria a menor possibilidade detir-la de l.

    Vamos pensar nas outras opes sugeriu Jayden. No podemossimplesmente desistir, nem temos tempode voltar.

    Podemos roubar outro jipe da Rede disse Xochi.

    Eu quis dizer opes realistas ralhou Jayden.

    Talvez usar um dos carros

  • abandonados disse Gianna, mas Faradmeneou a cabea em desaprovao.

    Reconhecero a diferena entre umcarro da frota e um resgatado disse. Se tivssemos tempo e as ferramentascertas, talvez, mas temos que agir agorase quisermos evitar que Tovar lance umataque frontal. Tovar no nos deu muitoespao de manobra.

    Vamos a p disse Kira. Jfizemos isso tantas vezes. A fronteira muito grande para patrulharem toda asua extenso.

    East Meadow nunca esteve sob umalei marcial lembrou Gianna. A Voztem informantes na cidade e olheiros nopermetro da fronteira. A marcao estcerrada.

  • Kira olhou para o cu para estimar ashoras fim de tarde.

    Vamos tentar atravessar noite. Oseu rdio sintoniza as estaes da Rede?

    Claro, assim como o deles pega anossa respondeu Gianna. Qualquerinformao importante estarcodificada.

    No conheo todos os cdigos disse Farad.

    Ento, vamos fazer acontecer disse Kira, levantando-se. Vamosencontrar um ponto da fronteira quetenha menos guardas.

    Partiram rumo ao sul por um caminhoque uma placa danificada acabouidentificando como Rua Walt Whitman.

  • Passaram na frente de um shoppingcomprido de um lado da rua, e algumashoras depois por um parque, do outrolado. Viram um grupo de soldados daRede investigando um prdio deescritrios alto e com os vidrosquebrados, atrs de um amploestacionamento. Os soldados oscumprimentaram com gritos e acenos, obarulho ecoando pelo terreno, e Faradacenou e gritou de volta. Os rapazesvoltaram ao trabalho. Kira continuouandando na mesma velocidade, at ossoldados ficarem para trs, depoisapressou os outros para que sedistanciassem o mximo possvel dossentinelas da Rede. Encontraram maispatrulhas ao se aproximarem da borda

  • leste da cidade, a segurana aumentandomais e mais, at finalmente sedepararem com uma rua completamentebloqueada por carros era mais do queo detrito de um trfego de onze anos,aqueles carros haviam sido arrastadosat ali e cercados com placas demadeira e metal.

    Kira murmurou baixinho: A cidade est sitiada.

  • A

    Captulo Trinta e Sete

    quela a Avenida Gardiners disse Jayden. Estamosprximos. Ento fez uma

    pausa. Qual ser o tamanho dessabarreira?

    Construir um treco desses no faz omenor sentido, nem aqui nem na China disse Gianna. Talvez fosse mais fcilerguer um forte e vigiar a interseo.

    Tanto faz. Vamos conseguiratravessar em algum ponto. No podemter guardas em todos os lugares.

    Os outros concordaram e seguiram

  • pelos jardins descuidados de um bairroresidencial, parando a meio quarteirode um cruzamento. Kira espiou por umporto coberto de kudzu e viu quenaquele ponto a barricada era menor apenas fileiras de carros, sem o reforode tapumes ou caixas. Faltou tempopara terminar esta parte. Porm, paracontrabalanar, a rua no terminavanuma fileira de casas, mas num conjuntode lojas com um espaosoestacionamento qualquer um queestivesse olhando de algum posto, apartir de uma das esquinas, teria maistempo para v-los correndo por aqueledescampado.

    Amaldioo est ilha em runas esuas lojas disse Kira. Tudo est

  • coberto pela vegetao, menos aqueleestacionamento!

    A vegetao rasteira no suficiente para nos esconder.

    Olhem ali para baixo disseGianna, apontando para o sul. Oprximo grupo de soldados est a pelomenos dois quarteires e meio daqui. Oespao entre um posto e outro grande.Teremos uma boa oportunidade quandoanoitecer.

    Kira olhou para os lados, medindo adistncia.

    Mude a sintonia do rdio e veja sedescobre qual frequncia aquele postoali est usando.

    Gianna apertou o boto: tic, pausa,

  • tic, pausa, tic, pausa. Buscava umafrequncia que estivesse sendo usada.Sempre que ouvia vozes no apertava oboto, prestando ateno nos nomes dasruas. Quando ouviram um homemmencionar a Avenida Gardiners, Kirasentiu-se aliviada.

    onde estamos disse Kira,batendo os dedos numa parede. Continue monitorando todos os trscanais. Vamos ajustar um relgio, ficarna moita e aguardar o anoitecer. Olhounovamente pela cerca, medindo adistncia at cada posto. noite, seficarmos abaixados, no tero comonos ver.

    A cada hora que passava, Kira sentiaseu estmago mais embrulhado. O que

  • eu sou? Por que estou aqui, e quem mecolocou nesse enrosco? Eu tenho oferomnio? Tenho algo pior? Milperguntas se embaralhavam na suacabea e ela estava desesperada porrespostas. Gostaria de esquecer, depensar na tarefa que tinha frente, masisso era ainda pior. Em vez de saircorrendo para o hospital, a nica coisaque podia fazer era pensar em Madisone Arwen. Ela tocou na seringa presa cintura e se convenceu a ter pacincia.

    Quando a noite caiu, Farad arrancoumais tbuas do porto e abriu umpequeno buraco atravs do kudzu.Colocaram os equipamentos nosombros, amarrando-os bem e se

  • posicionaram, determinados, numapequena fileira: Farad, Xochi, Jayden,Gianna, Kira e Marcus. Kira respiroufundo agarrada ao fuzil.

    No desligue o rdio disse Kira. Deixe-o mais baixo possvel. Se a Redenos vir atravessando, quero ficarsabendo.

    Gianna deu um sorrisinho. Feito. Ento, vamos disse Kira. Todos

    abaixados e em silncio. Se formosdescobertos, continuem correndo.

    Farad balanou o corpo na ponta dosps.

    Um, dois, trs eEle avanou rastejando, empurrando

    silenciosamente a cobertura de ervas

  • rasteiras em direo barreira decarros. Os outros vieram atrs, tentandono fazer barulho ao roar contra omato. Transcorreram alguns segundos deangustiante silncio at que o rdioexplodiu em gritos e chiados.

    Ali! Ali! Ao sul da Vinte e Trs!Uma bala passou de raspo pela mo

    de Kira, acertando o asfalto. No precisamos mais nos esconder.

    Agora correr! disse Kira.Colocaram-se de p e atravessaram arua em disparada, saltando pelo cercode carros. Kira apoiou a mo direitaespalmada numa capota de metal, parapegar impulso, e teve os dedosqueimados pelo calor de um dia inteiro

  • de exposio ao sol. Mas ela logosaltou, passando por cima dos carros,tinindo os ps na lataria, antes de pularde volta ao cho. Pelo rdio vinham osgritos de alerta, e ela ouviu o ecoardistorcido de disparos primeiro pelordio, depois bem ao seu lado. Farad jcorria pelo estacionamento em direoao beco entre as lojas quando Giannatombou como uma pedra, sobre ela umanvoa espessa.

    No! gritou Kira, logo atrs. Elatropeou sobre o corpo de Gianna e caiuno asfalto esburacado. Tentou ajud-la,mas Marcus levantou-a pelo brao,empurrando-a adiante.

    No pare! Temos que ajudar.

  • Ela est morta, no pare!Kira se desvencilhou de Marcus e

    voltou, ouvindo o ricochetear das balasno asfalto, a uma distncia no muitosegura. Gianna estava de bruos, numapoa de sangue.

    Me perdoe sussurrou Kira,pegando o rdio. Isto importantedemais para ser deixado para trs.

    Kira sentiu o corpo se contorcer numimpacto, mas se manteve em p e correunovamente em direo a Marcus e aoresto do grupo. Levei um tiro? Passavamentalmente em revista cada membro docorpo enquanto corria, tentandoidentificar onde estava o ferimento, masno sentia nada. Adrenalina demais,

  • respondeu a cientista dentro dela,estranhamente calma e racional. Vocir sangrar at morrer sem ao menossentir a bala. Ela entrou no beco econtinuou correndo. Marcus vinha atrs,praguejando feito louco.

    Est tentando se matar? Cale a boca e corra disse Xochi,

    empurrando-os atravs de um portoquebrado, que pendia de uma dobradiaenferrujada. O terreno frente era umquintal e o mato alto dificultava atravessia. Caminharam at a porta dosfundos, arrebentada. A casa estavadetonada, a pintura descascando emlascas compridas de tinta desabitadacomo quase todas as casas prximas aoslimites da cidade. O grupo desabou no

  • cho de uma sala de estar vazia. Jaydenvirou-se com o rifle para manter a portasob sua mira.

    Levei um tiro disse Kira,derrubando o rdio. Ela procurou sanguepelo corpo. Farad pegou rapidamente ordio do cho, apertou o boto e gritou:

    Posto Vinte e Trs, aqui a patrulhaQuarenta. Estamos no local, mas a Vozno passou pelas casas. Repito: eles nofugiram pelas casas. Esto vendo algumacoisa? Cmbio.

    Negativo, Quarenta chiou o rdio. Ainda procurando, cmbio.

    Entendido. Tambm vamosprosseguir com as buscas. Desligando,cmbio. Desligou o rdio e jogou-o de

  • volta a Kira. J que arriscou sua vidaidiota por isto, melhor usarmos.

    O que Patrulha Quarenta? perguntou Xochi.

    Esto posicionados no lado norte respondeu Farad. Usam um canaldiferente de rdio. Isso talvez nos d unsdez minutos at descobrirem. Agoratemos que sair desta casa antes que umapatrulha de verdade nos fareje aqui.

    Antes mesmo que ele terminasse defalar, ouviram vozes e passos no quintal.Jayden agarrou a arma e correu para aporta dos fundos, agachando-se atrs daparede inclinada.

    Somos da Rede de Defesa de LongIsland gritou Jayden, lanando umolhar aos outros e gesticulando para que

  • pegassem as armas. Abaixem as armase se entreguem imediatamente.

    Houve um momento de silncio, queJayden acompanhou com a cabealevantada. Uma voz gritou de volta:

    So vocs, Patrulha Quarenta?Jayden deu um sorriso maroto. Sim. Vocs so o Posto Vinte e

    Trs?Kira ouviu o homem praguejar do

    lado de fora da casa. No vai me dizer que os perdemos!Farad tirou o quepe e saiu

    cautelosamente pela porta dos fundos.Kira assistia cena por uma fresta naparede caindo aos pedaos.

    Vistoriamos toda a rea. Eles no

  • passaram por aqui disse. Como assim, no passaram por

    aqui? perguntou o soldado. Ns osseguimos at o beco.

    Meus homens esto espalhados pormetade destas casas disse Farad,indicando com um gesto a rea ao redor. E no encontraram ningum.

    Como deixou que escapassem? Escuta aqui, soldado retrucou

    Farad , vocs deixaram o grupo cruzara fronteira, no ns. Estamos aquitentando limpar a sujeira que vocsfizeram. Vamos nos dividir. Nsrevistamos as casas deste lado e vocsrevistam as do lado de l. E no seesqueam de deixar algum vigiando obeco. A ltima coisa que precisamos

  • de mais invasores atravessando pelo seuposto de fronteira.

    Os soldados resmungaram baixinho eKira pde ouvir quando marcharam paraa casa vizinha. Ela soltou o ar econtinuou procurando em qual parte docorpo tinha sido alvejada. Por fimencontrou na mochila. Ela no estavamachucada, mas seu equipamento estavadestrudo.

    Farad entrou, assobiando aliviado. Vamos dar o fora daqui. No acredito que funcionou disse

    Xochi. Mas no por muito tempo disse

    Jayden. Vo acabar revistando Giannae descobrir que ela est num uniforme

  • da Rede. Temos cerca de sessentasegundos para desaparecer.

    Saram pela frente da casa e foramsorrateiramente at o jardim vizinho.Seguiram de jardim em jardim, cada vezmais para dentro de East Meadow elonge do local por onde haviam seinfiltrado. Conforme avanavam, acidade ficava mais populosa, as casasmais bem cuidadas, e finalmente Kiraviu o brilho de uma janela de vidro.Estou em casa. No entanto, mesmoparecendo-lhe familiar, havia algo deerrado na cidade. As casas estavamhabitadas, mas as portas estavam todasfechadas e as janelas de vidro estavamcom as cortinas cerradas, ou comtapumes. Numa noite to agradvel de

  • vero como aquela, mesmo depois doanoitecer, as ruas deveriam estar lotadasde pessoas conversando, se divertindo.Mas o que ela via eram pessoasapressadas, querendo apenas chegarlogo em casa, evitando olhar para oslados.

    Grupos de soldados da Rede e dapolcia especial de Mkele faziam rondasem intervalos regulares, e Kiratestemunhou mais de um dos transeuntesesquivos e amedrontados serem paradose interrogados. Esto atrs de ns,pensou, no entanto castigam as pessoaserradas.

    Chegaram via expressa e seabrigaram numa loja, do outro lado do

  • hospital, que quela altura haviapraticamente se tornado um forte. Almdos guardas nas entradas, havia umpermetro cercado de policiais em voltado terreno. A porta dos fundos, a queplanejavam usar, provavelmente estariadisponvel, mas sem o jipe da Rede noconseguiriam chegar at ela emsegurana, muito menos sair de lcarregando Madison.

    Isso vai ser interessante disseXochi.

    Voc est brincando disse Jayden.Farad mal balanou a cabea.

    Ms notcias anunciou Marcus,apontando para o rdio. Fizeram umcrculo em volta dele e Kira ouviu ochiado de uma voz gritando um alerta

  • urgente: repito, a Voz est usando o

    uniforme da Rede de Defesa. Esto nacidade e mais deles podem estarchegando. A partir de agora todosdevem se identificar, cdigo deprotocolo Sigma

    Repetiram a mensagem e Marcusbalanou a cabea.

    Isto est ficando cada vez melhor brincou.

    No conheo o cdigo Sigma disse Farad, andando nervosamente peloprdio arruinado. Sei alguma coisa,mas no o suficiente. No vamosconseguir passar pelos soldados.

    Kira olhou fixamente para o hospital,

  • vida por qualquer ideia que acolocasse l dentro. Sou uma criminosaprocurada, conhecida por todas aspessoas que esto naquele prdio. Seeu entrar, ser porque estareiacorrentada. Chacoalhou a cabea,tentando pensar com clareza. Sou maisforte que minhas provaes. Posso usaras provaes a meu favor; posso faz-las servir aos meus propsitos. Nodiga Nunca farei isso, diga Comoposso virar o jogo a meu favor?.Estudou o prdio mais atentamente,contando o nmero de guardas eestimando os outros que ela noconseguia enxergar, fazendo um desenhomental dos corredores internos parasituar onde eles estariam posicionados.

  • Contou as janelas, determinando o localexato que poderiam usar de entrada, edescobriu, para sua tristeza, que todaselas estavam obstrudas por carros outampadas com placas de metal outapumes. O prdio est muito bemguardado. Pensaram em tudo anteciparam cada plano quepudssemos usar.

    Olhou para os atiradores no telhado,eles possuam uma viso mpar dosacessos ao hospital. Sendo uma Partialou no, ainda podem atirar em mim,no importa a que velocidade eu tentecorrer

    Uma janela acesa chamou a atenode Kira. no quarto andar os nicos

  • que usam aquela sala so os senadores.Ser que esto reunidos? Em que issopoderia me ajudar?

    Mesmo que a gente entre disseJayden , no sei como conseguiramossair, no com a Madison. Ela mal tempermisso para levantar da cama.Jamais deixariam que sasse do hospital.Alm disso, estamos sem o jipe paraescond-la.

    Voc to otimista, Jayden disseMarcus. Fantstico! No podemosentrar no hospital, no podemos sair dohospital, e provavelmente no podemosnem sair de East Meadow. Os uniformesj no ajudam mais nada, literalmente,ajuda.

    No verdade disse Kira,

  • olhando de volta para o hospital. Semdvida o quarto andar estava iluminado. Vocs tm a mim.

    Desculpe se no estou dando pulosde alegria disse Farad.

    Esto vendo aquela luz? elaperguntou, apontando para as janelas doltimo andar. onde os senadoresesto reunidos e vocs vo levar at l acoisa que eles mais desejam nesta vida:eu.

    Ah, no vamos, no! disse Marcusresoluto, seguido da negativa de todosos outros trs.

    Vo, sim. Nosso plano fracassou,no podemos tirar Madison de l, masse conseguirmos entrar, ainda podemos

  • dar a injeo. No precisam de mimpara aplic-la e eu no brincava quandodisse que estava disposta a dar a minhavida por esta causa. Se Arwen viver,no ligo para o que o Senado vai fazercomigo.

    No vamos abrir mo de voc disse Xochi.

    Vo, sim. Iro abaixar o quepe,caminhar at a porta do hospital e dizerque me pegaram cruzando a fronteira. a histria mais plausvel que podemosinventar no momento. Qualquer soldadointeligente o bastante, que estejaacompanhando as notcias pelo rdio,vai saber que as pessoas esto passandopela fronteira o dia inteiro. No vo nemperguntar por identificao, afinal, por

  • que os espies da Voz iriam entregar umdos seus comparsas?

    uma boa pergunta disse Xochi. O que ns vamos ganhar com isso?

    Entrar no hospital disse Kira. Me entreguem aos guardas. Enquantoeles me levam at os senadores, vocsseguem para a maternidade.

    No precisamos entregar voc disse Marcus. Depois que a genteestiver l dentro s sair correndopara a maternidade.

    E disparar todos os alarmes doprdio disse Kira. Se vocs meentregarem, podero trabalhar em paz. Ela segurou na mo de Marcus. Se acura funcionar, a humanidade ter um

  • futuro. Essa a nica coisa que sempredesejamos.

    A voz de Marcus expressou toda a suaemoo.

    Mas desejei isso com voc. Pode ser que no me matem de

    imediato disse Kira, sorrindo semalegria. Talvez a gente d sorte.

    Marcus riu, os olhos midos. At agora nossa sorte tem sido

    fantstica Precisamos avisar pelo rdio

    disse Farad, pegando o aparelho. Como fizemos com o posto da fronteira.Falar com eles antes que nos vejam.Teremos mais chances de o planofuncionar.

    No podemos arriscar o mesmo

  • truque duas vezes disse Jayden. Todos que conhecem o nmero depatrulhas e onde esto posicionadasestaro ouvindo. No vo demorar paradescobrir que mentira.

    No d para aparecer sem avisar.Seria muito suspeito alertou Farad.

    Xochi pegou a pistola, rosqueou osilenciador e atirou bem no meio dordio. Kira e os outros deram um pulopara trs, gritando juntos de susto.

    Problema resolvido disse Xochi,guardando a arma novamente. Aterrvel terrorista Kira Walker atirou nonosso rdio durante a luta. Agora: Kira minha melhor amiga, mas tem toda arazo. O seu plano o melhor, o jeito

  • mais rpido de entrarmos no hospital.Ento, peguem as armas dela e vamosem frente.

    Kira tirou as armas e outrosapetrechos, retirando quase todos osequipamentos que trazia consigo. Oshomens acabaram por ajud-la,resignados com o fato de que a decisohavia sido tomada. Marcus no estavacontente, mas tambm no fazia nadapara det-la. S faltava tirar o cintoonde a seringa, envolta em blusasvelhas, estava firmemente amarrada.Estava preso ao seu corpo, embaixo daltima camada de roupa. Ela o seguroupor um momento e o entregou a Marcus.

    Cuide disto sussurrou. No quero que faa isso.

  • Eu tambm no. Mas precisa serfeito.

    Marcus a olhou nos olhos, sem dizernada. Em seguida, prendeu o cintocuidadosamente no seu corpo, embaixoda camisa. Certificou-se de que a roupao encobria, ento passou terra no rosto,disfarando sua feio para que talvezno fosse reconhecido pelasenfermeiras. Talvez. Jayden e Xochifizeram o mesmo. Kira torcia para queos disfarces funcionassem. Precisogarantir que todos os olhares estejamvoltados para mim.

  • KCaptulo Trinta e Oito

    ira foi empurrada aos gritos at aprimeira fileira de soldados.

    Me soltem! Estou tentando ajudar,seus idiotas! No veem isso! Esbravejava e se debatia. Os dias declandestinidade haviam acabado. Seutrabalho agora era ser o mais notadapossvel, assim ningum olharia commuita ateno para seus amigos. Ela sedesvencilhou de Farad e atacou Jayden,tentando ser convincente, Jaydendevolveu-lhe na mesma moeda, dando-lhe um tapa na cabea e dobrando seu

  • brao atrs das costas, numa inesperadachave de brao que a imobilizou porcompleto. Ai! ela gemeu. Doeu.

    Cale a boca, escria da Voz ele aarrastou mais um pouco e ralhou comFarad. assim que se trata umprisioneiro, seu burro. No deixe queela escape de novo.

    Voc est quebrando o meu brao disse Kira.

    timo! respondeu Xochi, alto obastante para que o grupo de soldadosmais prximo pudesse ouvir. Ossoldados gritaram algo, mas Xochitomou a dianteira antes que dissessemmais alguma coisa. Ns a pegamos! Acenando com o rdio quebrado comose fosse um trofu. Vamos rpido!

  • Abram caminho para levarmos aprisioneira at os senadores. No queroque nenhum civil se aproxime dela efaa alguma coisa.

    O sargento do outro grupo hesitou. Quem essa a? Kira Walker disse Xochi. Em

    carne e osso. Fazia parte daquele grupoque tentou cruzar a fronteira. Veja comseus prprios olhos. Ela gesticuloupara Kira, que devolveu um olharorgulhoso.

    Minha nossa disse o sargento,aproximando-se e olhando melhor. Noera ningum que Kira conhecesse, masele a reconheceu. Sem dvida ela. Ele parou por uns instantes e depois

  • cuspiu em sua cara. Meu melhor amigofoi morto pela Voz, sua vadia.

    Marcus intrometeu-se para deter ooficial.

    Calma a, soldado. Ela umaprisioneira, no um animal.

    Ela atacou o hospital. Por que adefende? perguntou o soldado.

    Vamos lev-la para os senadores disse Marcus. Eles decidiro comopuni-la. Agora, saiam da frente!

    O outro peloto olhou feio paraMarcus. Kira estava to apreensiva querespirava com dificuldade enquantorezava para que no pedissem aidentificao dos falsos soldados. Elachutou Jayden na canela, fingindo serbastante perigosa. Ele a xingou e torceu

  • seu brao novamente desta vez doeude verdade e Kira nem precisou fingir.Aparentemente, o show estavafuncionado.

    Vamos lev-la at l ento disse osargento, guiando-os em direo aohospital e abrindo caminho entre umamultido de soldados.

    Agora sim estamos entrando numazona perigosa murmurou Jayden. Jtrabalhei com alguns desses rapazes.

    Eu tambm disse Marcus,apontando o fuzil em todas as direes.Ele acenou de leve para a esquerda. Com aquele, por exemplo.

    Vamos para a direita disseJayden, girando o corpo para o outro

  • lado.Preciso que olhem para mim, no

    para os meus acompanhantes, pensouKira, dando incio a outro discurso.

    O Senado est mentido! Foram elesquem trouxeram o Partial para a cidade!Depois me colocaram para estud-lo!Queriam que eu encontrasse a cura doRM! Eu encontrei! Mas o Senado tentoudestru-la! Seus filhos no precisammorrer!

    Sua estratgia estava funcionando,mais e mais soldados olhavam para ela,todos os olhares fixos em seu rosto.Estavam quase chegando entrada. Smais alguns passos, pensou, s maisalguns.

    O soldado que os conduzia parou,

  • encarando a porta, em seguida voltou-separa Kira. Seu olhar era de incerteza.

    Voc encontrou mesmo a cura?Kira ficou surpresa, sem saber o que

    pensar. Estaria curioso? Ou suapreocupao era genuna? Sua perguntaparecia carregada de outrossignificados, pequenas sugestes,mensagens e sinais que ela no tinha apretenso de interpretar, pois no sabianada sobre aquele homem. Estava dolado de Kira? Apoiava o Senado? Elaolhou para o saguo, as portas abertas.Seus amigos precisavam apenas entrar,virar direita e seguir o corredor.Podiam salvar Arwen. Podiam fazerisso.

  • Mas so as pessoas quem detm overdadeiro poder, pensou Kira,lembrando-se da conversa com Tovar.Essas so as pessoas que estamostentando influenciar, que ficaro donosso lado ou do Senado. Quantosdeles so como Jayden ou Farad,aguardando apenas um ltimoempurrozinho?

    Posso dar esse ltimo empurro?Ela se voltou para o soldado e o

    encarou direto nos olhos. Sim, descobri. Eu tenho a cura para

    o RM, mas o Senado prefere que eumorra a deixar que vocs tenham a cura.

    Entregue-a para mim sussurrou osoldado, aproximando-se de Kira.

  • Posso us-la. No posso te salvar, masposso salvar as crianas.

    Dizia a verdade? Ou blefava?Tentava engan-la? Ela no poderiaentregar a injeo sem revelar averdadeira identidade de Marcus e doresto do grupo. Mas, e se pudesse oque aconteceria? Quem naquelamultido iria atac-la e quem pularia emsua defesa? Quem confiaria nela? Aconfiana seria suficiente para deix-laentrar na ala da maternidade? Ela no secontentava com a promessa de ajuda,precisava ver algo concreto, ali mesmo,ou no iria correr aquele risco.

    Ela sussurrou de volta, procurandoem seus olhos algum sinal de quefalavam a mesma lngua.

  • No d para ser um heri pelametade.

    Identifique-se disse outro soldadoao seu lado. Ele deu um passo frente eo corao de Kira disparou. Recebemos ordens para exigir que todosse identifiquem, mesmo os soldados.Voc no vai entrar no hospital a menosque eu saiba exatamente quem voc .

    Os soldados em volta se calaram,assistindo cena. Kira pode ouvir, aofundo, o som das armas sendoposicionadas para uma eventualidade.No sei em quem confiar, pensou,confusa. Se comearem a atirar, no seide quem devo me esconder, quematacar, no sei de nada. No sei sequer

  • qual a opinio deste soldado. Jaydenescorregou a mo que estava livre eabriu o coldre, deixando a arma prontapara ser sacada facilmente. O soldadona frente dela fez o mesmo

    e virou-se para o lado, colocandoa arma a apenas alguns centmetros dosdedos de Kira.

    Ei, Woolf ele chamou o soldadoque havia exigido a identificao. Voc tem algemas? H muitossimpatizantes por aqui, quero ter certezade que ela est bem presa antes de alevarmos para cima.

    Muitos simpatizantes, pensou Kira,olhando para o revlver na sua frente.Pode ser uma mensagem: ele estignorando a ordem de identificao e

  • me oferecendo uma arma. Tem queestar do nosso lado. Mas o que estfazendo? Se vai lutar do nosso lado,ento por que j no est lutando? Oque espera que eu faa? Todos ossoldados prestavam ateno no que sepassava, na expectativa de qual seria adeciso de Kira. Quem est do nossolado? O que devo fazer? Ela olhou parao soldado sem encontrar uma boa razopara se manter em cima do muro. Eleest me dando a oportunidade, elacompreendeu. Ele ainda no estlutando porque quer ter certeza de queestou falando srio se estourealmente preparada para morrer poresta causa, ou se fogo de palha.

  • Qualquer coisa que a gente comeceaqui ser sangrento. Muitos de ns vomorrer.

    Ele espera que eu d o primeiropasso.

    Eu disse identifiquem-se repetiuo outro soldado, dando um passo frente. Ele j segurava o fuzil. Se adesconfiana aumentasse, poderia mat-los em segundos. A deciso de Kiraestava tomada. Ela olhou diretamentepara a multido, passando o olhar porFarad, e o soldado que aguardava aidentificao seguiu seu olhar. Elaaproveitou a oportunidade e sacou dapistola, atirando na cabea dodesconfiado soldado. O rapaz veio aocho como um saco cheio de batatas.

  • Kira gritou a plenos pulmes: Lutem pelo futuro!A multido explodiu em gritos. Kira

    se virou, mas Marcus a puxou parabaixo com violncia.

    Se ficar a parada vai levar um tiro! Vou levar um tiro de qualquer jeito!

    ela gritou, virando-se para a entradado hospital. O soldado que lhe estenderao revlver tombou morto e Kira rastreouo homem que o matara, alvejando-o comdois tiros. A entrada do prdio estavadesimpedida. Kira disparou em direo porta, arrastando Marcus consigo.Jayden e Xochi seguiam de perto. Logoque entraram ouviram um estrondoecoando no final do corredor, e

  • mergulharam atrs do alto balco deinformaes.

    Isto aqui compensado, no vaisegurar as balas disse Jayden.

    Nem todos l fora esto do nossolado observou Xochi. No queroestar deitada em bero esplndidoquando a revoluo estourar.Precisamos de uma estratgia.

    Jayden deu um sorriso amarelo. Parta para o ataque e tora pelo

    melhor. Torcer no estratgia disse

    Kira. No o plano A disse Jayden.

    Nem deveria ser o plano B, mas podeser um plano C.

    Kira meneou a cabea e pegou sua

  • arma de volta com Farad. Ento, dou cobertura. Quem estiver

    num bom ngulo, elimina os atiradoresno final do corredor.

    Kira se levantou e comeou a atirarantes que pudesse pensar num planomelhor. Ela mirava o final do corredor,os tiros explodindo um aps o outro.Usava um rifle de cano longo, ineficaz acurta distncia, mas a uma distnciamdia como aquela disparava umasaraivada de balas suficente paramandar os soldados de volta a seusesconderijos. Jayden surgiu ao seu lado,disparando tiros rpidos e precisos acada vez que o inimigo apontava acabea ou a arma. Marcus e os outros

  • aproveitaram para avanar, passandolonge da linha de tiro de Kira. Aoperceber que estava sem munio,chamou Xochi, que assumiu sua posiona frente de uma porta, e de l continuoua dar cobertura. Kira e Jayden correrampara alcanar os outros. Kira se jogoupara dentro do quarto, ao lado deMarcus.

    Voc est bem? ela perguntou. O de sempre, o de sempre ele

    respondeu, cerrando os dentes a cadaestrondo, que abalava as paredes e oteto.

    E voc?Kira assentiu com a cabea. A seringa est segura? perguntou,

    passando a mo na cintura de Marcus e

  • tocando-a de leve. A seringa estavaintacta e o pano que a envolvia, seco:nada havia sido quebrado. Kira deixou amo sobre ela por um momento a mais,olhando nos olhos de Marcus.

    Desculpe disse, de mansinho.Xochi soltou um grito desafiador atrs

    deles, escondendo-se para recarregar aarma, enquanto Farad assumia aposio.

    Por qu? Por isto? perguntouMarcus, gesticulando ao redor. No sepreocupe. Coisas assim acontecem otempo todo.

    Voc queria viver em paz disseKira, colocando um cartucho novo nofuzil. Foi o que voc sempre desejou,

  • apenas ns dois. Era o que eu tambmqueria, mas eu

    Eu sei disse Marcus, sem nenhumtom de brincadeira na voz. Eu queriaque tudo ficasse na mesma, mas vocqueria um mundo melhor. E voc tinharazo. As coisas vo melhorar. Maspor algum tempo, tudo vai ser aindapior. Era isso que eu temia.

    Farad grunhiu atrs deles, no umgrito, mas um gemido baixo e gutural,seu corpo despencando no cho. Xochigritou e Kira empalideceu. Assimmesmo, arrastou o corpo de Farad paradentro do quarto. Marcus tocou seupescoo e inclinou-se para ouvir arespirao. O soldado sangrava demais,no havia como estar vivo. Marcus

  • confirmou o que temia. Est morto. E agora? perguntou Jayden. Os

    tiros haviam cessado e os corredoresestavam assustadoramente silenciosos,embora rudos abafados chegassem delonge. Gritos indistintos e o pipocar dasarmas no lado de fora do hospital, olamento dos doentes abandonados prpria sorte, o choramingar de bebsconsumidos pela febre alta. Os quatroamigos encolhiam-se no quarto,tremendo de medo. Kira olhou pelaporta, mas tudo que pde ver foramalguns poucos centmetros de parede. Asensao de no saber o que havia dooutro lado era com se estivesse cega e

  • surda. Embora Jayden fosse rpido eeficiente em recarregar a arma, Kirapercebeu seus dedos tremerem,certamente por conta da fadiga e daadrenalina.

    Mais um plano fracassado na nossalista ele disse. No conseguimosentrar despercebidos e com certeza novamos conseguir sair despercebidos.Agora no faz mais sentido levar Kiraat o Senado. Direto para amaternidade?

    Direto para a maternidade confirmou Marcus. Sua expresso eratensa. Kira estava pronta para morrerpela vida de Arwen. Ns devemos estarprontos tambm. A maternidade fica aapenas duas portas adiante. Se

  • conseguirmos imunizar Arwen, ser umavitria, mesmo que a gente no saia del vivos. O beb sobreviver e todossabero quem fez isso.

    Xochi respirou fundo. Acha que vamos conseguir? S preciso que um de ns consiga.Marcus levantou-se, desabotoou a

    camisa e tirou o cinto, com a cura.Olhou para Kira e pegou o fuzil.

    Se apenas um de ns sobreviver,prefiro que seja voc. Todospreparados?

    No disse Xochi , mas issonunca nos deteve. Ela pegou umacorrente de Farad e ficou espreitandoatrs da porta. Kira e os outros

  • conferiram as armas e acenaram. Xochiempurrou a corrente para o corredor.

    Uma rajada de tiros ecoou pelocorredor e os quatro amigos saram doquarto num salto, abrindo fogo contra ossurpresos atiradores, que miravam parao objeto errado. Xochi corria na frente,aos tropeos, tentando se esquivar deoutra rajada. Ao chegar maternidade,deu de cara com a porta fechada.Recuou um passo e disparourapidamente contra a fechadura. A portaescancarou-se e ela saltou para dentro.Marcus vinha mais devagar, mirandomuito mal ou errando o alvo depropsito. Seu objetivo no era ferir oinimigo, mas faz-lo voltar aoesconderijo. Estava funcionando. Kira e

  • Jayden bloqueavam a passagem damelhor maneira possvel medida quecorriam por ltimo. De repente, Xochigritou e Kira ouviu um tiro. Marcuscorreu para dentro da maternidade eKira ouviu mais tiros. Ento ela caiu,uma dor aguda na perna, diferente detudo que j havia sentido.

    Levante! rosnou Jayden, em meioao tiroteio. Estou quase sem munio.No posso mant-los a distncia parasempre.

    Kira esforava-se para levantar, masa perna estava amortecida e sem reflexo;a cala, empapada de sangue, o cho erauma poa ao seu redor.

    Levei um tiro.

  • Eu sei. Precisa sair do corredor!Kira puxou o corpo, arrastando as

    pernas. A dor era mais intensa agora.Ela sentia sua conscincia se apagandoenquanto o sangue corria pelo cho.Jayden soltou alguns palavres e passoua atirar com mais parcimnia,economizando as balas, tentando manteros soldados a distncia. Kira pegou aseringa com a cura do RM e a levantou.

    Pegue isto e corra. Me deixe aqui esalve Arwen.

    Sabe de uma coisa, Kira disseJayden, disparando a ltima bala ejogando o fuzil no cho , voc no meconhece mesmo. Ele se inclinou,agarrou-a pela cintura, passou seu brao

  • em volta do pescoo e tentou seguir emdireo maternidade, colocando-seentre ela e o inimigo. Os soldadosatiraram e Kira percebeu o corpo deJayden tremer com o impacto, depoisoutro. Sua respirao foi se tornandoirregular e seus passos mais lentos mas ele no parou. Kira o apertava comfora, gritando desesperadamente seunome. Jayden gemia, xingava e ofegava.Por fim, tombou contra a porta damaternidade e os dois desmoronaram nocho.

    Jayden! algum gritou. EraMadison, curvada sobre umaincubadora, protegendo-a. O corao deKira disparou. Ela j nasceu?Chegamos tarde demais?

  • Haru estava ao lado de Madison, ocabelo todo desarrumado, os olhosarregalados, uma arma nas mos,apontada para Kira.

    Solte as armas. Jayden! Madison gritou de novo,

    tentando se aproximar do corpo doirmo, mas Haru a prendeu pelo braocom brutalidade.

    Fique aqui. Est machucado! Eu disse para ficar aqui! A voz de

    Haru soava como um trovo e Madisonrecuou, temerosa. Ningum vai chegarperto do beb.

    Jayden, preste ateno em mim murmurou Kira, olhando ao redor, em

  • busca de ajuda. Ela viu Xochi e Marcusparados contra a parede, as armas nocho e as mos levantadas. Marcus quisajud-la, mas Haru o deteve com umberro.

    No se mexa! Meu irmo est morrendo! gritou

    Madison. Deixe ele ajudar!Kira sentou-se com dificuldade, sem

    importar-se com o prprio ferimento, eexaminou as costas de Jayden elehavia sido alvejado por vrios tiros.Pouco depois Marcus estava ao seulado, ajudando-a a tirar a mochila doamigo para examinar a gravidade dosferimentos. Kira no viu se Haru haviamudado de ideia ou se Marcus haviasimplesmente o ignorado.

  • Os soldados estavam agora porta,com as armas apontadas para eles.

    Ela tem a cura balbuciouJayden, a voz quase inaudvel.

    O que ele disse? perguntouMadison.

    Ele disse A Voz idiota mente disse Haru. Nem preste ateno no queele est dizendo.

    Ele disse que eu tenho a cura corrigiu Kira, sentindo a perna doer. Erasua imaginao ou sua perna jcomeara a cicatrizar? Ela apertou aseringa na mo e a levantou. Est bemaqui.

    Voc no vai se aproximar da minhafilha disse Haru.

  • Eu vou salv-la ela repetiu,apoiando-se na parede para ficar em p.Cada centmetro era uma agonia. Eladescansou o peso do corpo sobre a outraperna, tentando ignorar a que doa. Sefosse preciso, ficaria em p puramentepela fora do pensamento. Sacrifiqueitudo que eu tinha e tudo que sou parasalvar sua filha. Ser que voc quemir me deter?

    Voc uma agente Partial respondeu Haru. Est do lado deles.S Deus sabe o que vai fazer com aminha filha. Vai ter que passar por cimade mim antes.

    Adorei a ideia disse Xochi. Ele est morto anunciou Marcus,

  • afastando-se do corpo de Jayden.Levantou o olhar para Haru, ofegante eatordoado pela exausto. Ele morreupela cura, Haru. No faa isso.

    Madison chorava em desespero, e obeb, na incubadora, chorava com ela,um choro incoerente contra um mundoque no oferecia nada a no ser dor.Kira encarava Haru nos olhos.

    Precisa me deixar tentar. Tentar? perguntou Haru. Quer

    dizer que nem tem certeza?Kira empalideceu, considerando a

    hiptese de que ela poderia estar errada,que a injeo poderia no funcionar. Ese fiz tudo isso por nada? E se mateimeus amigos e destru meu mundo poruma experincia irresponsvel,

  • algumas falsas suposies e meuprprio orgulho teimoso? O Senado mealertara. Disseram que eu estavacolocando em risco milhares de vidas eo futuro da humanidade por umaobsesso descontrolada. Ser que porque sou uma Partial, levada adestruir tudo apenas porque isso daminha natureza? Graas a mim, anao inteira est no caos, milharesesto mortos e sem a cura, talvezjamais iremos nos reerguer. Sem acura, nada mais ter importncia.

    Mas com a cura No tenho dados para mostrar, Haru

    ela disse. No tenho fatos, meusestudos foram destrudos quando o

  • laboratrio explodiu, e a cura em sinunca foi testada. No tenho nada paraprovar que estou certa. Mas, Madison ela disse, olhando nos olhos de sua irmadotiva , se existe uma coisa que vocsabe sobre mim, uma nica coisa, queeu sempre tentei fazer a coisa certa. Eno importa o quanto tudo isto tem sidodoloroso, no importa a quantos infernostivemos que descer, e quantos de nsmorreram. Esta a coisa certa a sefazer.

    Cale a boca! gritou Haru, levandoa arma frente. Kira o ignorou,mantendo o olhar preso no de Madison.

    Voc confia em mim, Madison?Lentamente, Madison assentiu. Kira

    tocou a seringa, ainda presa ao cinto, e

  • Madison se aproximou. Madison, volte! rosnou Haru.

    No vou deixar voc entregar nossafilha a esta traidora.

    Ento me mate reagiu Madison,determinada, plantando-se firmementeentre Haru e a incubadora. A mo domarido tremeu, vacilou e caiu ao ladodo corpo.

    Kira fraquejou, caindo no cho, eMarcus correu at os armrios procurade agulha e seringa. Os soldadosparados porta no se mexiam,assistindo a tudo com as armasapontadas para o cho. Xochi ajudouKira a se levantar e a amparou at aincubadora. Kira podia sentir o calor

  • emanando do pequeno corpo como umabrasa de carvo se apagando. Marcusentregou-lhe a agulha e esterilizou obracinho do beb.

    Kira hesitou ao preparar a injeosobre o corpo ruborizado do beb aosprantos. Naquele momento o Glbulourrava dentro de Arwen como umamatilha de ces selvagens, devorando-apor dentro. Aquela seringa, aqueleferomnio, iria salv-la.

    Kira inclinou-se sobre a criana. No deixe ela se mexer.Madison segurou bem a filha, Marcus

    e Xochi pararam, e mesmo Haru ficouem silncio, no fundo da sala. O mundointeiro parecia estar voltado para aquelenico momento. O choro fraco e rouco

  • de Arwen preencheu o quarto comofumaa, a ltima fasca de uma mquinaprestes a falhar. Kira concentrou-se eaplicou a injeo.

  • D

    Captulo Trinta e Nove

    escobrimos a cura para o RM!O entusiasmo tomou conta do

    coliseu: gritos, aplausos elgrimas de alegria.

    O anncio no era nenhuma novidade.Uma descoberta to importantedificilmente ficaria em segredo e asboas-novas da recuperao de Arwenhaviam se alastrado como fogo masera impossvel se cansar de comemor-las. O senador Hobb sorria e sua gigantecabea hologrfica o imitava, flutuandoacima dele. Kira estava logo atrs,

  • sentada com altivez. Chorava de novo ese perguntava, como fizera mil vezes naltima semana, se aquilo tudo eraverdade, se estava mesmo acontecendo.Ela encontrou o sorriso de Marcus naplateia e sorriu de volta. Era real.

    Hobb ergueu a mo, pedindo ordem,sorrindo com indulgncia para amultido que no conseguia conter aemoo. As pessoas queriam celebrar eHobb parecia satisfeito de oferecer aelas essa oportunidade. Kira estavamaravilhada com a capacidade demudana daquele homem h menos deduas semanas ele colaborava paratransformar a ilha num estado totalitrio,e vira seu plano entrar em colapso;mesmo assim, ali estava ele, sorrindo e

  • aplaudindo. Kessler tambm tinhaconseguido manter sua cadeira noSenado, e Kira olhou-a de soslaio naoutra ponta do palco. Os outrosmembros do subcomit no tiveram amesma sorte.

    Hobb acalmou a multido novamentee desta vez o silncio foi seestabelecendo medida que ele sepreparava para falar.

    Encontramos a cura para o RM.Encontramos a cura, dentre todos oslugares, com os Partials. Num compostoqumico que eles exalam pelarespirao, interagindo com o vrus,deixando-o totalmente inofensivo.Descobrimos isso graas s vrias

  • experincias realizadas pela nossaherona, Srta. Kira Walker, sob asuperviso do Senado. Algunsaplausos pipocaram pelo local e Hobbaguardou pacientemente. Esses testesforam realizados, como os boatos jcontaram, em um Partial vivo, capturadocomo parte de uma misso especial demembros da Rede de Defesa.Admitimos, envergonhados, mas comtoda a honestidade, que faltoutransparncia de nossa parte em relaos experincias. Temamos uma revoltaincontrolvel, mas, no fim, foi o queacabou acontecendo. Asseguro, noentanto, que no futuro vocs ficarosabendo dos nossos objetivos, dosnossos planos e mtodos para atingi-los.

  • O Senado ser transparente!Kira soltou o ar dos pulmes,

    longamente, nervosa, na expectativa dealguma reao indesejada do pblico.Tudo que Hobb dizia, tecnicamente, eraverdade, mas a forma como ele acolocava era to escorregadia. Haviaadmitido ter errado apenas o necessriopara parecer arrependido. Por outrolado, deu ao Senado muito mais crditosdo que realmente merecia. Hobb noestava recebendo aplausos, mas,igualmente, no era vaiado.

    Arwen Sato est bem continuou. Mais adaptada e saudvel do queousaramos esperar. Preferimos nocorrer o risco de tir-la do hospital,

  • onde est sob intensos cuidados mdicose da me, mas gravamos estas imagenspara vocs.

    Hobb tomou seu assento e a imagem,no centro do coliseu, saltou de um close-up da cabea do senador para a sala damaternidade. Kira conhecia cada detalhedo que seria exibido, mesmo assim noconteve as lgrimas. Saladin, o serhumano mais novo, estava ao lado dobeb rosado, a quem ele agora conferiaa honra de ser a caula da humanidade.A imagem do beb deixou a plateiaadmirada. A emoo de Kira no eradiferente: em onze anos aquele era oprimeiro beb humano que no estavadoente, que no estava gritando, nemmorrendo, ou morto.

  • A projeo acabou e Hobb selevantou, os olhos cheios de lgrimas.

    Arwen Sato o futuro! exclamou,ecoando os pensamentos de Kira. Aquela criana, aquela menina preciosa, a primeira de uma nova gerao. Elavai herdar um mundo, que, espero, sermelhor do que este que h onze anosvivemos. Nossos cientistas estotrabalhando dia e noite na reproduodo composto que salvou a vida deArwen com o objetivo de salvarmosoutras crianas. Mas isso no osuficiente. Se quisermos um futuro maisradiante, precisamos enterrar o passado.Por isso, tenho o prazer de anunciar quea Lei da Esperana est oficialmente, e

  • para sempre, banida!A comemorao na audincia no foi

    unnime. Muitos em East Meadowcontinuavam favorveis gravidezcompulsria, alegando que a existnciade uma cura s tornava ainda maisurgente a necessidade de gerar o maiornmero possvel de crianas. Mas oSenado, com a inteno de se aproximarda Voz, havia optado por derrubar a lei.A renncia de Alma Delarosa e OliverWeist tambm fazia parte do pedido depaz que o Senado enviava Voz. Osdois senadores ficaram com a maiorparcela de culpa pela aplicao torpida da lei marcial. Skousen tambmtinha partido, no para o anonimato, maspara concentrar-se em reproduzir a cura.

  • Em seu lugar, o povo elegera OwenTovar, recentemente inocentado de suasaes frente da Voz. O novo Senadoera uma combinao de East Meadow ea Voz, refletindo os ideais de ambos, e ailha, finalmente, estava outra vez empaz. Pelo menos, na teoria. Kira correuos olhos pela fileira de senadores epde ver o espao que havia entre eles,ao escolherem sentar prximo oudistante do seu vizinho. Um senadorevitando o olhar do outro, enquanto esteconspirava ao p do ouvido do prximo.A multido no coliseu era um espelhodaquele comportamento, mas numaescala maior: estavam unidos, emborahouvesse fendas profundas correndo

  • bem prximas superfcie. Ainda no decidimos uma linha de

    ao disse Hobb, a voz carregada desinceridade. Nossos cientistas no secansam de trabalhar para desvendar ossegredos da cura, e assim que o fizerem,comearo a sintetiz-la. At omomento, este o nosso plano, mas seas coisas mudarem, eu garanto que osprximos passos sero decididos porvocs, nas urnas. Nossa sociedadetrabalhar unida, ou ficar de braoscruzados.

    Mas ainda no acabou Hobb fezuma pausa, um momento puramenteteatral, que Kira tinha visto funcionarto bem. A multido silenciou e seinclinou para a frente. Hobb levantou o

  • dedo, espetando o ar, e finalmenteencerrou seu discurso. Descobrimosmais uma coisa nas nossas experinciascom o Partial. Algo que ir alterar noapenas o curso de nossas vidas, mas oda Histria. Respirou fundo. OsPartials esto morrendo rapidamente eno h nada que eles ou qualquer outrapessoa possa fazer para evitar isso. Emum ano, nosso maior inimigodesaparecer para sempre.

    O entusiasmo que tomou conta damultido balanou a estrutura docoliseu.

    No podemos sintetizar a cura disseKira. Marcus a levara para casa aps aassembleia e estavam conversando na

  • sala. Ela sabia de toda a verdade eaquilo a queimava por dentro comocarvo em brasa. A cura, o Espio, nopodia ser produzida artificialmente, e ostestes que realizara nela mesmamostraram que ela no produzia oferomnio. Se realmente fosse umaPartial, como a Dra. Morgan e os outroshaviam alegado, seu propsito e suaorigem se mantinham um mistrio cujasrespostas s podia tentar adivinhar.

    Ela rezava para que no fosse nadasinistro.

    No conseguimos produzi-lo nemsimul-lo. No temos os instrumentosnecessrios prosseguiu. Nem estoucerta de que eles existam. Talvez a

  • ParaGen, ou quem criou o vrus, tivesseos meios para isso, mas agora estotodos mortos. Apenas os Partialspossuem a cura.

    Isolde contou que o Senado estplanejando uma ofensiva contra ocontinente disse Marcus.

    Kira balanou a cabea. Um plano contingencial. Ela era a

    especialista da ilha no assunto, econsultada com frequncia por todos,porm trabalhava mais de perto comSkousen e os senadores. Ela sabia queplanejavam algo, mas no tinha osdetalhes. Isolde comentou quando voatacar?

    Em alguns meses, talvez. Marcusdeu de ombros, impotente. Uma coisa

  • era assistir aos bebs morrendo antes dacura, mas agora Mais trs morreramdepois que salvamos Arwen, e asgrvidas que receberam as duas outrasdoses que estavam com Tovar ainda noderam luz. No sabemos o que vaiacontecer, mas independentemente doque seja, as pessoas no ficaro debraos cruzados se as coisas voltarem aser como eram antes. E agora que sabemque os Partials esto morrendo, apenasuma questo de tempo at comearem aexigir um novo plano. Houve propostaspara uma rodada de negociao de paz eo envio de emissrios, mas no atualestado das coisas Ele balanou acabea. mais fcil o embaixador

  • levar um tiro do que conseguir umacordo.

    Como fizemos com eles. Kiracontraiu a expresso. Talvez. Elaainda no sabia exatamente o que pensarsobre Samm. Ele mentira o tempo todo?Seria a paz com os Partials realmentevivel?

    Kira disse Marcus, e ela na horapercebeu a mudana em sua voz. Elehavia respirado fundo e abaixado o tom,buscando carregar o seu nome com umsignificado profundo e especial. Kirasabia exatamente o que ele iria dizer e ointerrompeu o mais gentilmentepossvel.

    No posso ficar com voc.Ela viu Marcus murchar antes mesmo

  • de ela concluir suas palavras. Primeiroseus olhos perderam o brilho, depois eleabaixou a cabea. Seu rosto voltou-separa o cho e seus ombros caram.

    Por qu? perguntou.Ele no perguntou por que no,

    mas por qu, pensou Kira. Soperguntas to diferentes. Quer dizerque ele sabe que tenho outro motivo.No algo que me afasta dele, mas algoque me empurra em outra direo.

    Por que preciso partir respondeuKira. Existe algo que precisoencontrar.

    Voc quer dizer algum. Sua vozestava embargada, as lgrimas quasecaindo. o Samm.

  • . Mas, no no o que voc estpensando.

    Vai tentar evitar outra guerra disse, simplesmente, uma afirmao emvez de uma pergunta. Mas Kira sentiaque por trs havia a pergunta: Por qu?Por que ela o abandonava? Por queno pedia para ele ir junto? Por queela precisa de Samm quando ele estavabem ali? Todavia, ele no perguntou,mesmo porque Kira no seria capaz deresponder.

    Porque sou uma Partial. Porque souuma incgnita. Porque toda a minhavida, todo o mundo, to maior do queera h algumas semanas, e nada estfazendo sentido. Nessa nova realidade

  • tudo to perigoso, e de alguma formaestou no olho do furaco. Porquegrupos que eu sequer imaginava existiresto me usando para planos quefogem minha compreenso. Por quepreciso saber o que eu sou.

    E quem eu sou.Agora era a sua vez de chorar, a voz

    fraquejar, os olhos se encherem delgrimas.

    Eu te amo, Marcus. De verdade. Esempre o amei. Mas no posso lhecontar. Ainda no.

    Quando? Talvez em breve. Talvez nunca.

    Nem mesmo eu sei o que no possocontar. Apenas confie em mim,Marcus.

  • Ele olhou para a mochila de Kira, porta.

    Vai partir hoje? Vou. Agora?Ela hesitou. Sim. Vou com voc. Nada me segura

    aqui. No pode vir comigo respondeu

    Kira, inflexvel. Preciso que vocfique aqui.

    No estou preparada para que vocdescubra as coisas que eu quero sabersobre mim. No estou preparada paraque voc descubra o que eu sou.

    Tudo bem, ento. Suas palavras

  • foram breves, passando da tristeza raiva, mas sem conseguir disfararnenhuma das duas. Levantou-selentamente, caminhou at a porta e aabriu. Esperou.

    Obrigada disse Kira. Por tudo. Adeus.Uma lgrima rolou pelo rosto de Kira. Eu te amo.Marcus se virou e saiu. Kira

    continuou encarando a porta vazia aindapor muito tempo.

    Nandita nunca retornou e a casaestava fria e vazia. Kira recolheu suascoisas: uma mochila com roupas eequipamentos de camping, um novo kitmdico, um fuzil sobre o ombro e umapistola semiautomtica na cintura.

  • Correu o olhar pela casa uma ltimavez, arrumando os lenis sobre a cama.Naquele momento, algo brilhou sobre ocriado-mudo. Uma foto emoldurada.Kira ficou confusa. Isso no meu.

    Havia trs pessoas na foto, paradas nafrente de um edifcio. A foto estavavirada sobre o criado-mudo, as pessoasde ponta-cabea, e ela a desviroulentamente.

    Kira perdeu a respirao.No meio estava ela, uma criana

    ainda, nem quatro anos. sua direita,seu pai, exatamente como ela selembrava dele. esquerda, Nandita.Atrs deles, no topo de um muro alto detijolos, uma nica palavra:

  • ParaGen.No canto da foto, algum havia

    escrito uma pequena mensagem, quaseum rabisco, a escrita apressada edesesperada:

    Encontre a Verdade.

  • OAGRADECIMENTOS

    livro que voc segura em suas mosrepresenta o esforo colaborativo de

    muitas pessoas com as quais tive a sortede estar junto. A primeira delas meueditor, Jordan Brown, que fez tanto, ecom tanta paixo, que deveria sermesmo citado como escritorcolaborador. Crditos similares vopara Ruta Rimas, que contribuiu muitocom o desenvolvimento do livro e comas primeiras ideias sobre ele. Elaacabou trocando de editora no meio docaminho, mas suas marcas ainda podem

  • ser notadas em cada pgina deste livro.Muitos amigos e leitores colaboraram

    com suas prprias ideias a respeito domanuscrito, incluindo alguns toquespessoais, como Steve Diamond, BenOlsen, Danielle Olsen, Peter Ahlstrom,Karen Ahlstrom, Ethan Skarstedt, AlanLayton, Kaylynn Zobell, BrandonSanderson, Emily Sanderson e meuirmo, Bob Wells. Eu tambm gostariade agradecer alguns dos artistas que meinspiraram. Gratido especial a UrsulaK. LeGuin, Ronald Moore, KevinSiembieda e Muse.

    Este romance teve muito apoio dosleitores da minha pgina na Internet,www.fearfulsymmetry.net, que meajudaram a nomear alguns dos grupos e

  • conceitos mais importantes do mundo dePartials. A Lei da Esperana foi minhaesposa quem nomeou. O Break veio deEric James Stone, e a Voz, de MicheleChiapetta. Obrigado a vocs e a todosque ajudaram com dicas incrveis. Foium projeto em conjunto muito divertidoe com certeza farei novamente.

    Eu no teria conseguido escrever estelivro, e certamente no teria feito umtimo trabalho nele, se no fosse a ajudainestimvel de trs mulheres que fazemcom que minha vida flua: minha agente,Sara Crowe, minha assistente, JanellaWillis, e minha esposa maravilhosa, oamor da minha vida, Dawn.

    Como nota final, gostaria de deixar o

  • meu muito obrigado a Nick Dianatkhah,que est sempre disposto a morrer damaneira mais surpreendente e terrvelque uma histria possa precisar.

  • NOTAS

    [1] Espcie de carroa de duas rodas, com capacidadepara duas pessoas, puxada por um homem a p. (N.E.)[2] Trepadeira originria do Japo, o kudzu (Puerarialobata) largamente encontrado no sul dos EUA.(N.T.)[3] Rudo branco o som resultante da combinao detodas as diferentes frequncias que compem oespectro sonoro. (N.E.)[4] Trecho de Death be no Proud, do poeta inglsJohn Donne (1572-1631). (N.T.)[5] Profissional responsvel pela coleta de materiaisbiolgicos para anlise. (N.T.)[6]A expresso riding shotgun apareceu nos filmes elivros de faroeste. Refere-se aos homens armados quefaziam a segurana das diligncias e sentavam-se aolado do condutor. Atualmente, de modo geral, refere-

  • se a qualquer pessoa que viaja no banco ao lado docondutor. (N.T.)[7] Denominado tambm como rgo de Jackobson.Localiza-se entre o nariz e a boca e responsvel pordetectar os feromnios, influenciando as funeshormonal e reprodutiva dos animais. (N.T.)[8] Procedimento cirrgico realizado em nvelmolecular. (N.E.)[9] Movimento browniano refere-se ao movimentoaleatrio de partculas num lquido ou gs, resultantedo choque das molculas. (N.T.)[10] Conceito aplicado robtica e baseado nocomportamento de insetos sociais como a formiga e aabelha, que possuem excelente capacidade deorganizao e comunicao. (N.T.)[11] Robs biolgicos construdos escala dosnanmetros, equivalente bilionsima parte de ummetro. (N.T.)

  • SOBRE O AUTOR

    DAN WELLS o autor da srieJohn Cleaver, com os livros I AmNot a Serial Killer, Mr. Monster e IDon't Want to Kill You. Foi indicadoaos prmios Hugo e Campbell erecebeu dois Parsec Awards porseu podcast, Writing Excuses. Elegosta muito de jogos, l bastante ecome muito. Essa , basicamente, avida que ele imaginou para si desdecriana. Voc pode conhecer maissobre o autor no sitewww.fearfulsymmetry.net.

  • Siba mais no nosso site:www.editoraid.com.br

  • Este livro dedicado queles que quebram asregras,

    aos arruaceiros e revolucionrios. s vezes a moque te

    alimenta merece levar uma boa mordida.

  • Ttulo original: PartialsCopyright 2012 by HarperCollins

    PublishersPublicado mediante acordo com a

    HarperCollins Childrens Books, umadiviso da HarperCollins Publishers

    Todos os direitos reservados. 1 edio digital 2012

    ISBN 978-85-16-08696-1Traduo: Ktia Hanna

    Arte da capa: 2012 by Craig ShieldsFoto da garota: 2012 by Howard

    HuangDesign da capa: Alison Klapthor

    Reproduo proibida. Art. 184 doCdigo Penal e Lei 9.610 de 19 de

    fevereiro de 1998. Todos os direitos

  • reservados.Editora Moderna Ltda.

    Rua Padre Adelino, 758 - BelenzinhoSo Paulo - SP - Brasil - CEP 03303-

    904Atendimento: tel. (11) 2790 1258 e fax

    (11) 2790 1393

    www.editoraid.com.br

  • Parte 1Captulo UmCaptulo DoisCaptulo TrsCaptulo QuatroCaptulo CincoCaptulo SeisCaptulo SeteCaptulo OitoCaptulo NoveCaptulo DezCaptulo OnzeCaptulo Doze

    Parte 2. Trs Meses DepoisCaptulo TrezeCaptulo CatorzeCaptulo QuinzeCaptulo DezesseisCaptulo DezesseteCaptulo DezoitoCaptulo DezenoveCaptulo VinteCaptulo Vinte e UmCaptulo Vinte e DoisCaptulo Vinte e TrsCaptulo Vinte e QuatroCaptulo Vinte e CincoCaptulo Vinte e SeisCaptulo Vinte e SeteCaptulo Vinte e Oito

    Parte 3. Quatro Horas DepoisCaptulo Vinte e NoveCaptulo TrintaCaptulo Trinta e UmCaptulo Trinta e DoisCaptulo Trinta e TrsCaptulo Trinta e QuatroCaptulo Trinta e CincoCaptulo Trinta e SeisCaptulo Trinta e SeteCaptulo Trinta e OitoCaptulo Trinta e Nove

    AgradecimentosNotasSobre o autorDedicatria