Os desafios da sucesso geracional na agricultura familiar

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    07-Jan-2017

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    O tema da sucesso ge-racional e, especifica-mente, da reproduo social da profisso de agricultor(a) vem emergindo como uma das principais preocupaes das instituies do se-tor pblico, bem como das entidades representativas da agricultura familiar do Sul do Brasil, particularmente em Santa Catarina. O processo sucessrio reconhecido como a transferncia de poder e do patrimnio entre geraes no mbito da produo agrcola familiar,

    a retirada paulatina das geraes mais idosas da gesto do estabelecimento e a formao profissional de um novo agricultor(a). Assim, alm da reproduo entre as geraes de um patrimnio material, particularmente da propriedade da terra, a continuidade do processo sucessrio na agricultura familiar implica tambm a trans-misso de um patrimnio histrico e sociocultural. Embora essa transferncia de saberes tenha sempre estado presente na agricultura familiar, verifica-se atualmente uma forte tendncia a uma ruptura no processo.

    O questionamento por parte dos jovens rurais, sobretudo pelas filhas dos agricultores, sobre sua condio social marcada pela falta de autonomia e de opor-tunidades de renda e a recusa em seguir a profisso dos pais ao migrarem para as cidades tm comprometido a continuidade e o papel que os empreendimen-tos familiares exercem no desenvolvimento econmico e social da grande maioria

    Os desafios dasucesso geracional na

    agricultura familiar Valmir Luiz Stropasolas

    Encontro de jovens rurais no Planalto Norte de Santa Catarina

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    dos pequenos municpios. Por outro lado, as renovadas funes demandadas pela sociedade s famlias rurais en-tre as quais a produo de alimentos de qualidade; a preservao dos recursos ambientais e do patrimnio histrico e cultural rural; a agroindustrializao em unidades familiares; o turismo rural, etc podem se constituir em alicerces para o fortalecimento das comunidades, contrapondo-se tendncia de masculi-nizao e envelhecimento da populao rural verificada em muitas localidades. So escolhas sociais que esto em jogo e que podem definir o sentido do de-senvolvimento dessas localidades. Po-de-se apostar, por um lado, no fortaleci-mento da agricultura familiar por meio da consolidao dos jovens no meio rural. Por outro lado, pode-se legar as definies sobre o desenvolvimento rural s engrenagens do mercado que, em geral, tm levado ao esvaziamento demogrfico, concentrao fundiria e ao predomnio dos grandes segmentos empresariais vinculados ao agronegcio em detrimento da agricultura familiar.

    A dinmica da sucesso no mbito dos ncleos familiares

    Os diversos interesses e projetos de vida e as vises de mundo contras-tantes entre os membros do grupo domstico tm dado margem consti-tuio de conflitos de geraes no m-bito da agricultura familiar. De manei-ra geral, constata-se que os principais conflitos intergeracionais se revelam no modelo de gesto da propriedade centralizado na figura do pai chefe de famlia; na dificuldade dos pais em acei-tar as ideias e as inovaes propostas pelos(as) filhos(as); na impossibilidade de os jovens desenvolverem seus pr-prios projetos e atividades produtivas na propriedade; na pouca participao dos(as) filhos nas tomadas de deciso que afetam a unidade familiar; na falta de autonomia financeira dos filhos e, principalmente, das filhas; na ausncia de liberdade ou na pouca mobilidade espa-cial que permitida s filhas (AguiAr & STrOPASOlAS, 2010; STrOPASO-lAS, 2006).

    No horizonte das escolhas de pais e filhos(as) quanto s estratgias de fu-turo cruzam-se diferentes perspectivas que, muitas vezes, convertem-se em

    conflitos. No quadro dessas tenses h que se considerar especialmente as distintas perspectivas entre homens e mulheres, em detrimento das ltimas, cujas motivaes para permanecer na agricultura se estreitam cada vez mais diante da tendncia ampla excluso da herana da propriedade (como tam-bm da dupla jornada de trabalho e da pouca valorizao dos seus esforos produtivos) vivenciada pelas sucessivas geraes de mulheres. De fato, a orga-nizao do trabalho na agricultura fami-liar, fortemente marcado por um vis de gnero, destina ao homem o espao da produo e da gesto da proprieda-de. Dessa forma, as mulheres no so preparadas, nem estimuladas a se envol-ver ou se interessar por essas questes. Assim, em muitos casos, as moas pa-recem aceitar como natural o fato de o sucessor ser um irmo. Ademais, o fato de saber, de antemo, que no partilha-r do direito herana da terra, desvin-cula-a de certa forma do compromisso de permanecer na propriedade.

    So diferenciadas tambm as estra-tgias e as escolhas dos jovens em funo da condio econmica da famlia, sendo que as propriedades mais capitalizadas tendem a estimular mais a permanncia da juventude na agricultura. isto no sig-nifica necessariamente que as escolhas dos filhos(as) no contrariem o desejo familiar, sobretudo paterno.

    Um desafio EducaoAlm de normalmente no parti-

    ciparem de cursos profissionalizantes, par cela expressiva dos responsveis pe-los estabelecimentos rurais no estuda atual mente, o que reala a importncia da ampliao efetiva dos investimentos em educao no meio rural. O estudo associado a percepes que representam mobilidade social, figurando como condi-o quase que indispensvel para garantir uma insero social mais digna. Parece ha-ver nesse contexto uma oposio: quem estuda quer sair; quem no estuda no tem outra alternativa que no seja ficar.

    grupo de jovens rurais em atividade de formao no Norte de Santa Catarina

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    H diferenas entre os jovens na valorizao da educao: as moas investem mais que os rapazes, sobretudo para se prepararem para conseguir um emprego na cidade. Para elas, dar continuidade aos estudos, fazer um curso superior significa ter uma profisso, ou seja, ter reconhecimento profissional, condio que se apresenta como necessria para o reconhecimento social. No caso dos rapazes, a valorizao social no passa necessariamente pelo reconhecimento profissional. Na pior das hi-pteses, isto , mesmo que possua baixo grau de escolaridade, ele ser identificado e reconhecido como agricultor. O mesmo no acontece com as moas j que elas s conquistam a condio de agricultoras, quando se casam com um agricultor.

    Os impactos da modernizao na dinmica sucessriaOutro aspecto que deve ser considerado quando se pretende dar conta da

    complexidade inerente s dinmicas sucessrias na agricultura familiar diz respeito s modificaes nos processos produtivos resultantes da modernizao dos sis-temas agroindustriais vinculados a empresas transformadoras e exportadoras de alimentos e matrias-primas. Dentre os principais ramos agroindustriais, citamos a avicultura, a suinocultura, a fumicultura e a fruticultura. Esse fenmeno de integra-o subordinada repercute especialmente nas famlias de agricultores parceiros das empresas por meio da crescente dependncia a regras e exigncias mercantis que impem o aumento da especializao produtiva e do nvel de tecnificao com o uso de insumos e equipamentos industriais.

    Para se manterem nesses circuitos produtivos e nos respectivos mercados, essas famlias devem necessariamente se adequar s sempre renovadas exigncias normativas e tecnolgicas, o que acarreta redefinies importantes na diviso so-cial do trabalho na famlia e nas comunidades. Mais precisamente, as modificaes impostas aos sistemas produtivos, aliadas s mudanas demogrficas e mobilidade rural-urbano de segmento expressivo de jovens rurais, promovem mudanas nos papis exercidos, nas atribuies e no tempo destinado ao trabalho pelos diversos componentes do grupo domstico. gera-se assim uma sobrecarga de trabalho nas pessoas que permanecem nas unidades produtivas, inclusive entre os mais novos, tendo em vista a reduo da disponibilidade de mo de obra na famlia. No caso es-pecfico da criao animal no sistema integrado, o ritmo ininterrupto das atividades

    impe a necessidade de trabalho, inclu-sive nos finais de semana e feriados. En-tretanto, nem sempre esta sobrecarga compensada com maior remunerao dos jovens e mulheres, ou mesmo com uma maior participao na gesto dos negcios familiares. Essa situao acaba por gerar descontentamentos, agravan-do conflitos e interferindo nas defini-es tomadas em relao sucesso nos estabelecimentos, o que explica a migrao de jovens mesmo em unida-des economicamente consolidadas.

    Por outro lado, unidades familiares menos dependentes dessas relaes verticais, que combinam duas ou mais atividades e procuram adotar modelos produtivos menos exigentes em agro-qumicos, tendem a criar condies para um processo de gesto mais participa-tivo. Ao colocarem em funcionamen-to um conjunto variado de atividades, essas unidades geralmente necessitam da contribuio permanente do traba-lho, das habilidades e do conhecimen-to de todos os membros da famlia, de modo que qualquer investimento que se pretenda realizar deve ser acordado no ncleo familiar. Os sistemas mais di-versificados e, principalmente, aqueles baseados na Agroecologia, favorecem o dilogo no mbito da famlia e, especifi-camente, o acesso dos jovens e mulhe-res renda (mensal e at mesmo sema-nal), ao conhecimento e participao nos espaos pblicos e nas entidades associativas e representativas.

    importante ressaltar, enfim, que as atividades comumente realizadas pe-las mulheres nesses sistemas na medida em que vo crescendo em importncia econmica, vo inserindo o trabalho delas no espao dito produtivo. A valo-rizao dos produtos de seu trabalho favorece o aumento da participao das mulheres nos espaos de deciso circunscritos dinmica sucessria da unidade familiar e, por consequncia, no ambiente pblico, para fora da proprie-dade.

    Consideraes FinaisAbordar o conjunto de questes

    relacionado ao processo sucessrio im-plica adentrar em um campo pleno de padres culturais e conflitos de valores que afetam a trajetria social dos mem-bros do grupo domstico. Atuar sobre essa questo no tarefa fcil e nem ga-

    Jovens se encontram para debater o futuro da agricultura familiarna regio do Contestado (Pr e SC)

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    rante resultados concretos e imediatos, pois nos deparamos com assuntos nor-malmente omitidos das agendas de dis-cusses familiares pelo fato de gerarem constrangimentos e por problematizar hierarquias de poder no mbito da fa-mlia. Entrar nesse jogo implica no ape-nas abordar o processo de transfern-cia patrimonial familiar e a retirada das geraes mais idosas do gerenciamento da propriedade agrcola, como tambm incorporar na anlise as redefinies em curso, sobretudo nas geraes mais jovens, no que diz respeito ao lugar e ao papel ocupado por quem exerce a profisso de agricultor(a) na famlia, no meio rural e na sociedade. Ou seja, esta-mos diante de uma problemtica social que envolve um sistema cultural com razes histricas continuamente repro-duzido e/ou redefinido pelos diversos segmentos da agricultura familiar.

    Mas o debate sobre o processo sucessrio no deve ser desvinculado de outras questes que afetam a repro-duo social da agricultura familiar. isso porque os dilemas envolvidos nas (in)de-finies que interferem na dinmica su-cessria no resultam apenas de fatores

    Referncias bibliogrficas:

    AguiAr, Vilenia Venancio Porto; STrOPASOlAS, V. l. As problemticas de gnero e gerao nas comunidades rurais de Santa Catarina. in: SCOTT, Parry; COrDEi-rO, rosineide; MENEzES, Marilda. (Org.). Gnero e gerao em contextos rurais. 1 ed. Florianpolis: Editora Mulheres, 2010, v. 1.

    BruMEr, Anita & ANJOS, gabriele. gnero e reproduo social na agricultura fa-miliar. Revista NERA, ano 11, n. 12, Janeiro/Junho de 2008, pp. 6-17, Presidente Prudente-SP

    SPANEVEllO, r.M. A dinmica sucessria na agricultura familiar. 2008. 223f. Tese (Doutor em Desenvolvimento rural) Programa de Ps-graduao em Desen-volvimento rural, uFrgS, rio grande do Sul.

    STrOPASOlAS, Valmir luiz. O mundo rural no horizonte dos jovens. Florianpolis: Edi-tora da uFSC, 346 p. , 2006.

    endgenos s famlias agricultoras, mas so tambm influenciados pelas consequncias de problemas estruturais ainda no resolvidos no mundo rural e que afetam, com maior ou menor intensidade, diferentes segmentos da populao rural brasileira, so-bretudo os grupos sociais tradicionalmente excludos das polticas pblicas, do acesso terra e dos direitos de cidadania.

    Valmir Luiz Stropasolasagrnomo/uFSC, mestre em Sociologia rural/uFCg,

    doutor em Cincias Humanas/uFSC,professor adjunto do Centro de Cincias Agrrias da uFSC

    valmir@cca.ufsc.br

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    As visitas de intercmbio so oportunidades para troca de conhecimento entre geraes

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