OS CÓRREGOS E A METRÓPOLE: A INSERÇÃO NO ESPAÇO URBANO DOS CURSOS D’ÁGUA QUE ATRAVESSAM A ZONA URBANA DE BELO HORIZONTE

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    23-Dec-2015

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OS CÃRREGOS E A METRÃPOLE: A INSERÃÃO NO ESPAÃO URBANO DOS CURSOS Dâ ÃGUA QUE ATRAVESSAM A ZONA URBANA DE BELO HORIZONTE Alessandro Borsagli Puc Minas borsagli@gmail.com Fernanda Guerra Lima Medeiros CEFET-MG medeirosfernanda80@yahoo.com.br RESUMO Quando a Comissão Construtora da Nova Capital confeccionou a planta da nova capital no ano de 1894, os cursos dâágua que atravessavam o arraial de Belo Horizonte foram ignorados e posteriormente inseridos na malha urbana. O artigo pretende mostrar o processo de inserção do Córrego do Acaba Mundo e o Córrego do Leitão na paisagem urbana de Belo Horizonte. Para se entender a dinâmica do processo de inserção dos cursos dâágua na paisagem analisou- se além da cartografia produzida pela CCNC, plantas cadastrais da Prefeitura de Belo Horizonte, além de imagens aéreas e fotografias. Os Córregos, inseridos no traçado urbano de Belo Horizonte na década de 20. Nos anos 60 inicia-se o processo de cobertura dos canais dos córregos que foram posteriormente erradicados da paisagem urbana. Atualmente se faz necessária a consulta as Plantas Cadastrais para localizar o atual trajeto dos córregos. Palavras chaves: Córrego do Acaba Mundo, Córrego do Leitão, Espaço Urbano, Paisagem Urbana. ABSTRACT When the New Capital Construction Commission fashioned a new capital plan in 1894, the water courses running through the village of Belo Horizonte were ignored and subsequently inserted into the urban fabric. The article shows the process of insertion of the World and the Ends of the Acaba Mundo Stream of Leitão Stream in the urban landscape of Belo Horizonte. To understand the dynamics of the integration of streams in the landscape looked beyond the maps produced by the CCNC, cadastre of the Municipality of Belo Horizonte, as well as images and aerial photographs. The Streams, inserted in the urban layout of Belo Horizonte in the 20s. In the 60 starts the process of covering the channels of the streams which were subsequently eradicated the urban landscape. Currently it is necessary to consult the cadastre to locate the current path of the streams. Keywords: Acaba Mundo Stream, Leitãoâs Stream, Urban Space, Urban Landscape INTRODUÃÃO A cidade de Belo Horizonte tem cerca de 700 km de córregos sendo que 200 km se encontram atualmente canalizados. Ignorados pela CCNC quando da confecção da Planta Cadastral da Nova Capital os cursos dâágua que atravessam a Zona Urbana compreendida dentro do perímetro da Avenida do Contorno foram sendo ao longo das décadas retificados e canalizados de acordo com o traçado urbano de Belo Horizonte. O presente artigo aborda o processo de inserção no espaço urbano da capital de dois cursos dâágua1 que atravessam a região central da capital mineira: o Córrego do Acaba Mundo e o Córrego do Leitão, atualmente escondidos sobre a malha viária de Belo Horizonte sendo praticamente impossível de identificar o traçado atual, visto que as suas calhas originais não existem mais devido à retificação do seu curso além da erradicação dos córregos em questão da paisagem urbana belorizontina. Para se compreender todo o processo de inserção e posteriormente de erradicação dos cursos dâágua da paisagem se fez necessária a analise das Plantas confeccionadas pela Comissão Construtora da Nova Capital (CCNC) quando da construção da nova capital entre os anos de 1894 e 1897. A análise dessas, juntamente com outras Plantas confeccionadas ao longo das décadas além das fotografias da época permitem compreender e analisar as mudanças espaciais sofridas ao longo dos tempos, no que diz respeito ao processo de ocupação do vale dos córregos em questão e a inserção deles na paisagem urbana. De acordo com (CORRÃA, 2000, p.26) âo espaço urbano é um reflexo tanto de ações que se realizam no presente como também daquelas que se realizaram no passado e que deixaram suas marcas impressas nas formas espaciais do presenteâ. O mesmo Corrêa observa que os agentes formadores do espaço urbano são responsáveis pelas constantes mudanças que ocorrem na paisagem urbana, pois: âA ação destes agentes é complexa, derivando da dinâmica de acumulação de capital, das necessidades mutáveis de reprodução das relações de produção, e dos conflitos de classe que dela emergem. A complexidade da ação dos agentes sociais inclui práticas que levam a um constante processo de reorganização espacial que se faz via incorporação de novas áreas ao espaço urbano, densificação do uso do solo, deterioração de certas áreas, renovação urbana, relocação diferenciada da infra-estrutura e mudança, 1 O Córrego da Serra, primeiro manancial de água que serviu a capital mineira também atravessa parte da Zona Urbana compreendida dentro do perímetro da Avenida do Contorno. Porém, por ter sido retificado, canalizado e coberto em grande parte do seu curso no final dos anos 20 ele não será abordado no presente artigo. coercitiva ou não, do conteúdo social e econômico de determinadas áreas da cidadeâ (CORREA, 1993, p.11) Nas marcas deixadas na paisagem, se comparado com outras partes da capital, percebe-se claramente que a ocupação do vale do córrego do Acaba Mundo remonta aos primeiros anos da nova capital devido ao fato de o seu curso atravessar as terras escolhidas pela CCNC para a construção do bairro destinado aos funcionários públicos vindos de Ouro Preto. A canalização coincide com o inicio da ocupação de suas cabeceiras e o fechamento do seu curso com o período de maior crescimento urbano da capital. Já a ocupação do vale do córrego do Leitão se deu sistematicamente a partir da década de 1920 e aumentou a partir da década de 1970 quando a verticalização, a qual já havia extrapolado a área central de Belo Horizonte nas direções sul e leste atinge as partes mais altas do vale, já na zona suburbana. E como se desencadeou o processo de inserção dos córregos no espaço urbano? à o que se verá a partir de agora. Os córregos no espaço urbano da nova capital O Córrego do Acaba Mundo tem as suas nascentes localizadas nas vertentes da Serra do Curral, mais precisamente no local explorado pela Mineração Lagoa Seca. Desde a sua nascente até o inicio do canal coberto ele corre cerca de 1500 metros em canal aberto. O seu curso segue pelas Avenidas Uruguai e Nossa Senhora do Carmo, Ruas Outono, Grão Mogol e Professor Morais e pela Avenida Afonso Pena, indo desaguar no ribeirão Arrudas na altura do Parque Municipal. Esse curso dâágua tem como afluentes os Córregos Ilha e Gentio, canalizados atualmente sob as Avenidas Nossa Senhora do Carmo e Vitório Marçola. O Córrego do Leitão tem as suas nascentes disseminadas por um amplo anfiteatro localizado na região sul de Belo Horizonte. Canalizado e coberto até as proximidades de suas nascentes ele segue atualmente pelas Ruas Kepler e Cônsul Antonio Cadar indo formar a Barragem Santa Lucia, construída para o controle das águas nos períodos chuvosos. A partir daí ele segue pela Avenida Prudente de Morais, Ruas Marilia de Dirceu e Bárbara Heliodora, Ruas São Paulo, Padre Belchior, Tupis e Mato Grosso, indo desaguar no Ribeirão Arrudas no cruzamento desta via com a Avenida do Contorno. Os dois córregos abordados atravessavam uma parte do antigo arraial do Curral Del Rey, sendo que o Acaba Mundo dividia o arraial na altura do antigo Largo da Boa Viagem (figura 01), indo desaguar no Ribeirão Arrudas na altura do Parque Municipal. Já o Leitão tinha o seu curso inserido nas terras da antiga Fazenda do Leitão, indo desaguar no Ribeirão Arrudas, nas terras da antiga Fazenda do Sacco. FIGURA 1 - PARTE DA PLANTA GEODÃSICA DO ARRAIAL DE BELO HORIZONTE E EM DESTAQUE OS CÃRREGOS DA SERRA (01), ACABA M UNDO (02) E L EITÃO (03). ESCALA 1:10000.1895. FONTE: PANORAMA, 1997. Grande parte das cidades planejadas na segunda metade do século XIX priorizava os ideais sanitaristas e de uma cidade racional e organizada. Suas ruas e avenidas eram largas, visando a salubridade e o bem estar da população, além de facilitar o deslocamento da população. Washington, La Plata e a própria Belo Horizonte são exemplos concretos desse pensamento vigente nas ultimas décadas do Século XIX. Durante uma grande parte do Século XX prevaleceram as idéias higienistas que vigoraram na Europa durante décadas, desde meados do Século XIX. Sobre isso (SILVEIRA, 1998) observou que as águas, de chuva ou mesmo de esgotos sanitários, deveriam ser conduzidas ârio abaixoâ afastando ou diminuindo a probabilidade de contaminação. Em Belo Horizonte, inicialmente os emissários de esgotos fizeram esse papel âempurrandoâ todos os detritos rio abaixo, fora da Zona Urbana. Com o adensamento populacional e o crescimento da urbs os cursos dâágua também assumiram esse papel, levando o problema para as populações a jusante. A abundancia de recursos hídricos foi crucial para a escolha do arraial de Belo Horizonte como sede da nova capital. Porém, a Planta Cadastral apresentada em 1895 (figura 02) não apresentava uma harmonia entre o projeto e os cursos dâágua existentes nas terras do antigo arraial, exceção feita ao Ribeirão Arrudas, principal drenagem de grande parte dos córregos oriundos do Complexo da Serra do Curral. FIGURA 2 - PARTE DA PLANTA TOPOGRÃFICA DA CIDADE DE M INAS E EM DESTAQUE OS CÃRREGOS DO ACABA M UNDO (01) E L EITÃO (02). ESCALA 1:4000.1895. FONTE: PANORAMA, 1997 Nos estudos para o uso dos mananciais disponíveis, tanto o Córrego do Acaba Mundo como o Córrego do Leitão foram logo descartados, como afirma (BARRETO, 1996, v.2 p.167) no caso âo Córrego do Leitão, de pouco volume, baixo e com as nascentes disseminadas por um amplo anfiteatro de propriedade particular, não era o que mais enquadrava ao plano do abastecimento inauguralâ. Devido a amplitude de suas cabeceiras ramificadas em três nascentes principais a captação de água do Córrego seria muito dispendiosa e não compensava o investimento por parte da CCNC, já que a captação dos córregos da Serra e do Cercadinho seria mais vantajosa e menos dispendiosa. Já o Acaba Mundo foi logo descartado, pois registrava nos períodos de seca uma vazão de cerca de 32 litros por segundo, insuficiente para abastecer até mesmo um pequeno povoado (figura 03). Entre 1897 e 1920 o crescimento urbano de Belo Horizonte se deu de forma lenta sendo que esse crescimento se concentrou em grande parte na Zona Suburbana onde haviam sido criadas as cinco colônias agrícolas visando o povoamento da zona suburbana, assim como o abastecimento de viveres da capital. As colônias foram assentadas nas vertentes de cinco córregos, todos afluentes do Ribeirão Arrudas. As colônias agrícolas foram responsáveis pelo crescimento periferia-centro que marca o desenvolvimento urbano de Belo Horizonte nas primeiras décadas do Século XX. No caso do vale do Leitão na zona suburbana o desenvolvimento foi mais lento se compararmos com as outras colônias agrícolas que apresentaram um rápido crescimento, sendo posteriormente anexadas a zona suburbana poucos anos mais tarde 1914. A Colônia Adalberto Ferraz, situada no vale do Acaba Mundo foi anexada no ano de 1911. As colônias agrícolas na verdade tiveram pouca influencia na canalização tardia dos dois cursos dâágua em questão. No caso do Acaba Mundo que atravessava uma região que apresentava um crescente adensamento a falta de recursos foi o principal motivo do adiamento da canalização por quase trinta anos. Durante esse período a Prefeitura se restringia apenas a realizar a manutenção das pontes, geralmente nos períodos de chuva e eventualmente a limpeza do córrego. Já o Leitão fazia parte da área de expansão reservada pelo Poder Publico para as camadas mais abastadas da população. FIGURA 3 - TRABALHOS DE TUBULAÃÃO NO CÃRREGO DO ACABA M UNDO NO PARQUE M UNICIPAL . 1896. FONTE: APCBH ACERVO CCNC A inserção dos córregos na paisagem urbana O desenvolvimento urbano começou a aumentar na década de 20, década em que se deu o primeiro remodelamento do espaço urbano de Balo Horizonte. O planejamento urbano, crucial para a concretização do Projeto da capital que nesse período se restringia a região central e os bairros Floresta e Funcionários e a uma pequena parte do Barro Preto, ocupada em grande parte por operários foi exercido com uma maior rigorosidade por parte do Poder Público que visava a expansão da malha urbana dentro dos limites da Avenida do Contorno exatamente nos vales dos dois córregos. Os córregos que atravessavam a Zona Urbana de Belo Horizonte ignorados pela CCNC quando da confecção da Planta da capital tornaram-se, a partir dessa década um entrave ao constante avanço territorial dentro dos limites da Avenida do Contorno. à bom lembrar que grande parte da zona compreendida dentro do perímetro da Contorno estava até essa época reservada para a expansão urbana da capital. Segundo (RODRIGUES, 1994) o Estado é o principal agente transformador do espaço urbano. Em seguida aparecem as corporações imobiliárias e os proprietários fundiários que agem de maneira diferenciada. As intervenções nos córregos tiveram a interferência direta do Poder Público, pressionado pelos grupos sociais que posteriormente explorariam as terras despovoadas no entorno dos córregos. A retificação2 e canalização dos córregos compreendidos dentro da zona urbana passaram a ser prioridade do Poder Público para que se pudesse ter continuidade à expansão urbana. Essas medidas visavam adequar os cursos dâágua ao crescimento urbano, pois a canalização possibilitaria a abertura das vias projetadas e a construção e ocupação dos quarteirões. Era uma medida que permitia a continuidade da expansão da malha urbana, mas que traria sérias conseqüências para a população da capital. As canalizações também visavam resolver o problema das enchentes que ocorriam com freqüência na capital. Naquela época acreditava-se que ao canalizar um curso dâágua solucionaria o problema das enchentes, desbarrancamentos etc. Atualmente sabe-se que a canalização atenua mas não resolve esse problema. A canalização de um curso dâágua na maioria das vezes o desvia do seu leito 2 Retificar um curso dâágua é promover a mudança de seu traçado com o intuito de melhorar o escoamento das águas além de possibilitar, no caso dos centros urbanos a ocupação das terras cortadas pela calha natural do curso dâágua. natural, passando a não existir mais os obstáculos naturais que ajudam a diminuir a velocidade da água. Com isso as águas passam a correr com mais velocidade aumentando a sua vazão e levando os problemas das enchentes para as áreas mais próximas da sua foz. A impermeabilização do solo, a retirada da cobertura vegetal e a ocupação das várzeas também contribuem para o agravamento do problema. Para possibilitar a urbanização e a continuidade do crescimento da malha urbana teve inicio em 1925 a retificação e a canalização aberta do córrego do Acaba Mundo entre a Avenida do Contorno e o Parque Municipal. As suas águas foram desviadas para um novo canal construído na Rua Professor Morais e Avenida Afonso Pena (figura 04) e suas águas continuaram a alimentar os lagos do Parque Municipal. O seu antigo leito foi aterrado com o material retirado do Morro do Cruzeiro (Praça Milton Campos) obra realizada ao mesmo tempo das canalizações. Com o aterramento do antigo leito tornou-se possível a construção e urbanização de cerca de 13 quarteirões compreendidos no bairro Funcionários e adjacências segundo a Planta Geral da capital. FIGURA 4 - I MAGEM DO ANO DE 1925 NA QUAL SE Và O CÃRREGO DO ACABA M UNDO RETIFICADO E CANALIZADO NA AVENIDA AFONSO PENA, NAS PROXIMIDADES DO CRUZAMENTO DA AVENIDA BRASIL . FONTE: APM A canalização e retificação do Córrego do Leitão foram empreendidas na segunda metade da década de 20, ao mesmo tempo em que eram instalados os emissários de esgotos em sua margem direita. A canalização, como no Acaba Mundo visava proporcionar a urbanização e ocupação na porção de terras localizadas no vale do Leitão, faixa reservada pelo Poder Público para a expansão urbana das classes mais abastadas. Inicialmente o seu curso foi retificado para as ruas Tupis, Padre Belchior, rua esta que não existia no projeto original da capital e Rua São Paulo até o cruzamento com a Rua Alvarenga Peixoto (figura 05). A sua canalização permitiu a expansão urbana e a melhoria da comunicação viária entre o Barro Preto e o Calafate com a região central cujo único acesso se dava por uma precária ponte que existiu na Rua dos Tamoios (figura 06). Sobre o vale do Leitão, área prioritária de expansão urbana escreveu em 1925 o Prefeito Flavio Fernandes dos Santos que âcom a venda dos lotes na bacia do córrego do Leitão, e conseqüente construção de prédios, a Prefeitura tem procedido à abertura de diversas ruas e vai prosseguir com intensidade de trabalhos de terraplenagem, desde a Avenida Cristóvão Colombo (Bias Fortes) e Rua Espírito Santo até a Avenida São Francisco (Olegário Maciel)â. FIGURA 5 - I MAGEM DATADA DO FINAL DOS ANOS 20 NA QUAL SE Và O CÃRREGO DO L EITÃO RECÃM CANALIZADO NA RUA SÃO PAULO , ENTRE AS RUAS GONÃALVES DIAS E ALVARENGA PEIXOTO . FONTE: APM FIGURA 6 - PARTE DA PLANTA DE BELO HORIZONTE DATADAS DE 1928 ONDE SE ENCONTRAM INSERIDOS NA PAISAGEM URBANA OS CÃRREGOS DO ACABA M UNDO E L EITÃO . ESCALA 1:15000. FONTE: PANORAMA, 1997. Nas décadas seguintes o desenvolvimento urbano cresceu significativamente ao mesmo tempo em que se acentuou a falta de infra-estrutura por parte do Poder público para dar suporte a esse crescimento. Os dois córregos sofriam com a poluição desde meados dos anos 20 e o adensamento das terras pertencentes a suas bacias aumentou ainda mais o problema. Os emissários de esgoto existentes não comportavam mais a quantidade de efluentes produzidos principalmente pelas residências e a solução era o despejo nos cursos dâágua. A erradicação dos Córregos da paisagem urbana A partir da década de 50 Belo Horizonte tomou novos rumos. O processo de metropolização se consolidava e deu a capital um ritimo no qual grande parte da população não estava acostumada. A mudança espacial era visível e a verticalização iniciada na área central começava a se espalhar dentro do perímetro da Avenida do Contorno. Para se ter uma idéia Belo Horizonte entre as décadas de 50 e 70 teve um aumento populacional de cerca de 350 por cento, saltando de uma população de 352.000 habitantes no inicio da década de 50 para 1.250.000 em 1970. Os problemas urbanos decorrentes desse processo surgiam ao mesmo tempo em que se acentuava a falta de investimentos em equipamentos urbanos destinados para dar suporte a esse crescimento. O número de veículos aumentara consideravelmente e as ruas e avenidas, antes arborizadas e calçadas foram sendo asfaltadas e alargadas com o corte das árvores para proporcionar a melhoria do fluxo viário, um dos principais objetivos das gestões municipais desde então. No caso dos cursos dâágua em questão suas águas passaram a receber além dos esgotos citados detritos provenientes da ocupação desenfreadas das suas cabeceiras e lixo domestico, pois os serviços de coleta de lixo se encontravam a beira de um colapso. Para agravar ainda mais a situação as enchentes eram freqüentes devido a impermeabilização do solo promovida pela urbanização nas bacias dos cursos dâágua. As águas que antes penetravam no solo agora corriam diretamente para os cursos dâágua assoreados aumentando o seu volume e o seu poder de destruição, pois suas águas saiam da calha com freqüência levando lama e sujeira para as ruas (figuras 07 e 08). No iminente caos urbano da década de 60 não havia mais lugar para os cursos dâágua dentro da urbs. FIGURAS 7 E 8 - O ACABA M UNDO INSERIDO NA MALHA URBANA DE BELO HORIZONTE . I MAGEM DE 1950 OBTIDA NO CRUZAMENTO DAS RUAS PROFESSOR M ORAIS E TOMà DE SOUZA E O VALE DO CÃRREGO DO L EITÃO EM 1955 NA ZONA SUBURBANA . SOBRE A SUA CALHA FOI ABERTA A AVENIDA PRUDENTE DE M ORAIS EM 1970. FONTE: APCBH/ASCOM E APCBH/COLEÃÃO JOSà GOÃS RESPECTIVAMENTE . Diante disso na primeira metade da década de 60 o Poder Público toma a decisão de fechar os cursos dâágua que atravessam a zona urbana compreendida dentro da Avenida do Contorno com a finalidade de melhorar o fluxo viário e a salubridade na região atravessada por eles3. Na visão do Poder Público a cobertura dos córregos resolveria rapidamente o problema da poluição4 além do embelezamento da paisagem com o alargamento das vias, úteis para a vida urbana. à necessário lembrar que os dois cursos dâágua em questão atravessavam a zona sul da capital, ocupado em grande parte pelas camadas mais abastadas da sociedade. O primeiro curso dâágua a ser fechado foi o Acaba Mundo em 1963 (figura 09). A cobertura do canal foi realizada ao longo da Rua Professor Morais e a Avenida Afonso Pena até a altura do Parque Municipal. Suas águas, que antes alimentavam os Lagos do Parque foram também canalizadas devido ao alto grau de poluição e os lagos passaram a ser abastecidos com águas provenientes do lençol subterrâneo. O córrego, inserido na paisagem urbana na década de 20 não resistiu ao crescimento urbano, cedendo espaço para a melhoria da mobilidade urbana e da qualidade de vida da população, no que diz respeito à saúde pública. FIGURA 9 - OBRAS DE CANALIZAÃÃO E COBERTURA DO ACABA M UNDO NA RUA PROFESSOR M ORAIS EM 1963. FONTE: APCBH/ASCOM 3 A falta de conscientização da população naquele período era alarmante, os cursos dâágua eram simplesmente tratados como deposito de lixo. As enchentes, freqüentes nesse período, levava para as ruas todo o material depositado nos cursos dâágua, aumentando ainda mais o desejo de ver os córregos erradicados da área urbana, na verdade era esconder o âproblemaâ debaixo do tapete. E a população apoiou e aplaudiu o fechamento dos cursos dâágua. 4 Junto com a poluição esperava-se também a erradicação das doenças causadas pela poluição dos córregos, como se lê no Relatório do Prefeito Sousa Lima em 1969: âNas obras de canalização e esgotos está surgindo a solução para o problema sanitário de Belo Horizonteâ. à necessário entender que foi na nessa gestão que o sistema de esgotos de Belo Horizonte entrou em colapso, transbordando em diversos pontos da capital. O córrego do Leitão também apresentava um alto grau de poluição de suas águas. A porção da capital atravessada por ele apresentava na década de 60 um alto grau de urbanização ao mesmo tempo em que se tinha o inicio da ocupação sistemática das suas cabeceiras. O mau cheiro de suas águas e as constantes enchentes que levavam lama e lixo para as ruas eram motivos de reclamações constates da população, que passou a exigir uma solução rápida para o problema. A canalização era vista como a solução dos problemas gerados pelo córrego além de ser considerada como uma obra de embelezamento da capital, abalada com a perda do titulo de âCidade Jardimâ desde o corte das arvores da Avenida Afonso Pena em 1963. No final da década de 60 se tem o inicio das obras de fechamento e cobertura do córrego do Leitão desde a Rua São Paulo até a sua foz no ribeirão Arrudas. Paralelamente ao fechamento teve inicio em Julho de 1970 a canalização e cobertura do Leitão na zona suburbana para a abertura da Avenida Prudente de Morais (figura 10). Essa obra visava melhorar o fluxo viário na região que expandia a largos passos além de erradicar da paisagem o curso dâágua que havia se transformado em um esgoto a céu aberto, pois o aumento da ocupação das vertentes do córrego nas proximidades de suas cabeceiras desencadeou o lento processo de assoreamento que, nos períodos de chuva enlameava diversas ruas ao longo do seu curso. FIGURA 10 - OBRAS DE CANALIZAÃÃO DO L EITÃO PARA A ABERTURA DA AVENIDA PRUDENTE DE M ORAIS EM 1970. FONTE: APCBH/ASCOM As obras executadas e descritas acima faziam parte do Projeto âNova BH 66â feito em parceria com a Escola de Arquitetura da UFMG tinha como um dos principais objetivos o embelezamento da capital e a cobertura dos córregos da região central visando o alargamento das vias para a melhoria do fluxo de veículos. A paisagem urbana a partir daí passou a ser moldada para os veículos automotores, em detrimento para o pedestre que se sentia cada vez mais acuado e sem lugar em meio ao caos viário da época. Os veículos motorizados em Belo Horizonte, assim como em outras partes do Planeta haviam se tornado o principal agente das políticas urbanas dos grandes centros. A presença de vias asfaltadas passara a exaltar o progresso das cidades em prol da mobilidade urbana. Na capital mineira não foi diferente: a partir da década de 50 as ruas e avenidas asfaltadas foram se multiplicando de tal maneira que a intensa impermeabilização do solo agravou o problema das enchentes na capital que passou a sofrer com os constantes alagamentos em áreas que anteriormente não apresentavam problemas. A canalização dos cursos dâágua não resolveram completamente o problema das enchentes. Periodicamente as ruas e avenidas sobre os córregos sofrem com as inundações devido ao grande escoamento das vertentes impermeabilizadas para os fundos de vale também impermeabilizados (figuras 11, 12, 13 e 14). Para amenizar os problemas das enchentes o Córrego do Acaba Mundo depois de coberto teve o seu curso ramificado em três braços para melhorar o escoamento das águas, sendo que um dos braços deságua atualmente no Córrego da Serra. O Córrego do Leitão ainda não sofreu esse tipo de intervenção, mesmo que nos períodos de chuva periodicamente ele transborda causando incontáveis prejuízos ao Poder Público e a sociedade. Com a cobertura dos cursos dâágua eles desapareceram da paisagem urbana e a identificação do seu traçado atualmente é possível apenas com a consulta as Plantas Cadastrais antigas e as Cartas Hidrológicas (sub-bacias) da RMBH. FIGURA 11 - CÃRREGO DO ACABA M UNDO SOB A RUA PROFESSOR M ORAIS. FONTE: ALESSANDRO BORSAGLI , 2010. FIGURAS 12, 13 E 14 - A METAMORFOSE DO ESPAÃO: A CALHA DO CÃRREGO DO L EITÃO EM TRÃS MOMENTOS NO MESMO LOCAL : à ESQUERDA EM 1928 QUANDO FOI RETIFICADO E CANALIZADO NO TRECHO COMPREENDIDO NA RUA SÃO PAULO , NAS PROXIMIDADES DO CRUZAMENTO COM A AVENIDA AUGUSTO DE L IMA . NO CENTRO EM 1970 QUANDO DA COBERTURA DE SEU CANAL PARA O ALARGAMENTO DA MESMA RUA. à DIREITA O MESMO TRECHO EM 2010. FONTES: APM, AUTORIA DESCONHECIDA E FOTO DOS AUTORES. CONSIDERAÃÃES FINAIS Os córregos, ignorados pela Comissão Construtora e inseridos na paisagem urbana na década de 20 foram âescondidosâ debaixo das vias com a finalidade de melhoria do fluxo viário e do embelezamento urbano. Da década de 70 até os dias atuais o termo âhidrologia urbanaâ tem sido usado para designar a reinserção e requalificação dos cursos dâágua no meio urbano. Recentemente Belo Horizonte vem apresentando mudanças significativas no que diz respeito ao tratamento dado pelo Poder Público aos cursos dâágua não canalizados. O Programa DRENURBS, criado em 2001 tem como uma de suas diretrizes âa recuperação ambiental que implica em reverter à degradação em que se encontram os córregos não canalizados da cidade. A proposta de sanear os fundos de vale significa combater as causas da poluição das águas, esta originada não apenas nos fundos de vale como também e, principalmente nas respectivas bacias de drenagemâ. As formas da paisagem urbana são diversas e, segundo (SANTOS, 1998) âé a materialização de um instante da sociedadeâ. Na paisagem urbana de Belo Horizonte os cursos dâágua abordados nesse artigo foram erradicados da paisagem, sendo possível identifica-los atualmente apenas com o auxilio de mapas. A sociedade interfere e modifica o meio urbano de acordo com suas necessidades. Inseridos na paisagem urbana devido às necessidades socioeconômicas do período eles não resistiram às profundas mudanças no espaço urbano que veio a deixar profundas marcas na paisagem belorizontina. Apesar das políticas urbanas atuais valorizarem a inserção dos córregos não canalizados na paisagem urbana, como um agente concreto que a compõe, os córregos cobertos, ao que tudo indica ainda passarão décadas sob as vias e quarteirões até que se adote uma política de reinserção dos cursos dâágua no espaço urbano (figura 15). FIG .15 I MAGEM DE SATÃLITE DO ANO DE 2008 ONDE SE Và OS VALES DOS CÃRREGOS DO L EITÃO E ACABA M UNDO COMPLETAMENTE ADENSADOS . EM AZUL SE ENCONTRA SINALIZADOS OS CURSOS ATUAIS DOS MESMOS SOB A MALHA URBANA. FONTE: GOOGLE EARTH REFERENCIAS BIBLIOGRÃFICAS Acervos Documentais APCBH â ARQUIVO PÃBLICO DA CIDADE DE BELO HORIZONTE. Acervo Comissão Construtora da Nova Capital. APM â ARQUIVO PÃBLICO MINEIRO. Fundo Olegário Maciel. MHAB â MUSEU HISTÃRICO ABÃLIO BARRETO Livros, teses, fontes digitais e impressas AGUIAR, T.F.R. de. Vastos Subúrbios da Nova Capital: formação do espaço urbano na primeira periferia de Belo Horizonte, (Doutorado em História), Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte (2006). BARRETO, Abílio. Belo Horizonte, memória histórica e descritiva; história média. v.2. Belo Horizonte: FJP/ Centro de Estudos Históricos e Culturais, 1996. BELO HORIZONTE. Prefeitura Municipal. 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