O feminino em Almada Negreiros - ruinas so o tumulo sagrado de um beijo adormecido cartas ... rainha loira senhora de todas as ciganas. []

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    O feminino em Almada Negreiros Alguns tpicos essenciais

    RESUMO

    Este estudo visa analisar a presena do feminino na obra de Jos de Almada

    Negreiros. No pretende, porm, faz-lo de forma exaustiva e sistemtica. Antes pelo

    contrrio, o seu alvo ser mais o de apontar algumas linhas bsicas de uma leitura possvel

    desse que se apresenta como um motivo central na obra do autor, desdobrando-se em

    diferentes temas. Analisaremos brevemente alguns deles, baseando-nos em textos que

    selecionamos especialmente para esse fim, entre aqueles que Almada Negreiros produziu.

    Palavras-chave: Jos de Almada Negreiros; feminino; hermetismo; mstica; utopia.

    1. Saudade do feminino.

    CANO DA SAUDADE Se eu fosse cego amava toda a gente. No por ti que dormes em meus braos que sinto amor. Eu amo a minha irm gemea que nasceu sem vida, e amo-a a fantazia-la viva na minha idade. Tu, meu amor, que nome o teu? Dize onde vives, dize onde mras, dize se vives ou se j nasceste. Eu amo aquella mo branca dependurada da amurada da gal que partia em busca de outras gals perdidas em mares longissimos.

    REVISITAR A IDENTIDADE CULTURAL PORTUGUESA

    Fernanda Alves Afonso Grieben Doutoranda e licenciada em Estudos Portugueses, Universidade Aberta Mestre em Teologia e licenciada em Cincias Religiosas, UCP fe@revisitar.com

    mailto:fe@revisitar.com

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    Eu amo um sorriso que julgo ter visto em luz do fim-do-dia por entre as gentes apressadas. Eu amo aquellas mulheres formosas que indifferentes passaram a meu lado e nunca mais os meus olhos pararam nelas. Eu amo os cemitrios as lgens so espessas vidraas transparentes, e eu vejo deitadas em leitos flordos virgens nas, mulheres bellas rindo-se para mim. Eu amo a noite, porque na luz fugida as silhuetas indecisas das mulheres so como as silhuetas indecisas das mulheres que vivem em meus sonhos. Eu amo a lua do lado que eu nunca vi. Se eu fosse cego amava toda a gente. (Jos de Almada-Negreiros - Frisos)

    No texto de Almada Negreiros acima citado, o feminino apresenta-se como uma

    nostalgia, um profundo desejo de realizao pessoal. O Eu individual busca a completude,

    atravs da fuso do princpio masculino com o princpio feminino. Mais do que uma relao

    ertica, o que o poeta procura a relao perfeita do par de opostos: masculino e feminino.

    Uma procura que , principalmente, um caminho interior, um sonho. A realidade, o que se

    pode alcanar e abraar, no pode ser objeto de amor. Amar atravessar mares insondados,

    partir para uma outra realidade, longnqua, onde o viajante se vai encontrar com a parte do

    seu ser que lhe desconhecida, ainda que lhe seja intrnseca. realizar uma viagem mstica

    que passa pela noite dos sentidos e transpe a morte; uma viagem que vai despertar do

    sono da morte a irm gmea do poeta do Narciso , que contempla a sua prpria imagem

    nas guas de um rio noturno onde a lua se espelha. Por isso, procurar o feminino procurar

    esse lado da lua que o homem-poeta desconhece, que ele nunca viu, porque ele o sol1 o

    fogo e o feminino a lua2 a gua , da qual ele s conhece o lado que reflete a sua

    prpria luz solar.

    1.1 A Lua.

    RUINAS [] Poeiras adormecidas, netas fidalgas de minuetes de mos esguias e de cabelleiras embranquecidas.

    1 Segundo Dom Pernety, sol o enxofre dos filsofos hermticos, a parte fixa da matria na Grande Obra. Tambm se chama sol ao fogo natural da matria. Como o voltil e o fixo so extrados da mesma fonte mercurial, os filsofos dizem que o sol o pai e a lua a me da pedra filosofal (cf. DICTIONNAIRE, 1787: 465). 2 A lua hermtica possui um duplo sentido: em primeiro lugar, a gua mercurial, a que se chama Isis, e que me e princpio de todas as coisas; em segundo lugar, uma outra lua que se forma a partir da primeira, em que Isis, irm e mulher de Osris, que o mesmo que dizer, a mesma gua mercurial voltil, reunida com o seu enxofre, adquire a cor branca, depois de ter passado pela cor negra, ou putrefao (cf. id.: 256).

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    Aquellas ameias cingiram uma noite peccados sem fim; e ainda guardam os segredos dos mudos beijos de muitas noites. E a lua velhinha todas as noites rza a chorar: Era uma vez um tempo antigo um catello de nobres naquelle lugar E a lua, a contar, pra um instante tem mdo do frio dos subterrneos. Ouvem-se na sala que j nem existe, compassos de danas e rizinhos de sdas. Aquellas ruinas so o tumulo sagrado de um beijo adormecido cartas lacradas com ligas azues de fechos de oiro e armas reais e lizes. Pobres velhinhas da cr do luar, sem tero nem nada, e sempre a rezar. [] Notcias da guerra choros l dentro, e crpes no brazao. Ardem cirios, serpentinas. H mos postas entre as flres. E a torre morna canta, molenga, dze vezes a mesma dr. (Jos de Almada-Negreiros Frisos)

    A relao simblica que se estabelece entre a lua, a mulher e a vida, na obra de

    Almada Negreiros, est expressa de forma ainda mais clara neste outro texto de Frisos,

    Ruinas. A lua, personificada (a personificao uma figura de estilo a que o autor recorre

    com frequncia), uma velhinha que sonha com tempos passados, com vivncias da

    juventude, com doces recordaes que no se apagaram da memria e que servem de

    conforto a um presente incerto com Notcias de guerra. Ambas a lua e a mulher

    simbolizam, no texto em anlise, o sonho e a fantasia: as foras que reconstituem o passado,

    que teve grandes momentos de felicidade, e que recriam a confiana no futuro.

    Como elucida Oliveira Marques, num estudo sobre a simbologia manica, A lua,

    como reflexo do sol, simboliza tambm a vida e a sade, mas no to fortes; como princpio

    passivo e feminino igualmente o smbolo da instabilidade, da mudana, da imaginao e da

    sensibilidade (1975: 31). este princpio feminino, imaginativo e sensvel, que o homem-

    poeta ama e anseia atingir, no intuito de se sentir um homem completo, porque: Eu sou o

    resultado consciente da minha prpria experincia: a experincia do que nasceu completo

    [] daquele que assistindo ao desenrolar sensacional da prpria personalidade deduz a

    apoteose do homem completo (NEGREIROS, J., 1993: 35). O que est, pois, em questo a

    recuperao de um estado primordial, inato, de completude, que se apresenta como

    vocao e destino do poeta. A demanda da irm gmea, que nasceu sem vida, e ter de

    renascer, origina ento uma viagem inicitica, ao mais interior do seu ser, onde subsiste esta

    intuio: o Ego bissexual (HEINDEL, M., 2005: 216).

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    1.2 A Mulher.

    Imagem 1: Paul Delvaux (1897), O Homem da Rua (1940)3.

    Se o que o homem-poeta procura a totalidade do seu ser, a perfeio, por meio de

    uma androginia, de um hermafroditismo espiritual (CENTENO, Y., 1978: 26), ento, poder-

    se- questionar os papis que desempenham as mulheres na sua vida. Apresentar-se-o elas

    como coadjuvantes, ou como oponentes sua misso de restaurar o seu ser primordial, que

    macho e fmea? Parece-nos ser aqui que reside o cerne da Tragdia da Unidade:

    Precisamente: entre 1928 e 1930, em trs textos que tambm visam a unidade, Almada Negreiros consubstancia a expresso teatral do seu grafismo numrico. A Tragdia da Unidade concretiza-se em Deseja-se Mulher e em S.O.S., sendo Protagonista uma espcie de parfrase de ambas as peas e at admissvel que cubra os actos perdidos da segunda atravs do lema: 1+1=1. Deseja-se Mulher traa a aventura de um protagonista isolado, cuja realizao se cumpre no smbolo da mulher. O amor a fora mais urgente de harmonia, vida, claridade. Buscava mulher, a fmea inspiradora. Encontrei o que buscava (CRUZ, I., 2001: 220).

    3 Bruxelas, Museu das Belas-Artes. 1,30 x 1,50 m (Apud UPJOHN, E. M.; WINGERT, P. S.; MAHLER, J. G., [s.d.]: 203).

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    O poeta encontrou o que buscava: a fmea inspiradora, a mulher que corporaliza

    os atributos espirituais que caracterizam o princpio feminino: a irm gmea que ter de

    renascer.

    1.3 A Sensualidade.

    MIMA FATAXA Ella marcra-lhe na vspera aquelle rendez-vous no muro do cemitrio. De feito Elle tornara escrava de uma cigana a sua alma apaixonada de uma rainha loira senhora de todas as ciganas. [] E mais bella do que nunca no chafariz real, de saias arregaadas, a lavar as pernas da poeira das estradas e bellamente descomposta a enfiar as meias muito grossas, vermlhas da cr das papoulas, e a dr um n-cego num retorcido nastro branco muito negro laia de liga muito acima do joelho E tem graa que a sua morenez no era por via do sol, pois toda ella era queimada. Quem a visse trepar nas amoreiras e despi-las das amras que lhe ensanguentavam os lbios e as faces e os dedos sem cuidar no vento que lhe levanta as saias, teria tido como Elle um sorriso de desejos, iria como Elle finjir a ssta por debaixo da linda amoreira. [] (Jos de Almada Negreiros Frisos)

    Diferentemente do que se poderia pensar, a sensualidade no , de forma alguma,

    um obstculo que tenha de ser ultrapassado, para se atingir a completude do Eu. Antes pelo

    contrrio o erotismo uma marca caracterstica de textos alqumicos espirituais. Note-se,

    porm, que este erotismo ter de ser entendido no contexto em que ocorre, como

    expresso simblica das transmutaes por que o adepto tem de passar para realizar um

    caminho de purificao interior, de evoluo espiritual. As impresses sensoriais

    demonstram, ento, terem uma importncia fulcral, como se pode verificar pelo relato da

    seguinte experincia:

    Sinto em mim a alquimia da criao o vermelho aparece-me como fogo e Sol, o branco como gua e Lua, e tudo surge como centelhas de um mundo que como uma forja e onde a crosta da matria bruta, putrificando-se, destila a gua prateada da purificao que deve inflamar a alma com um fogo de onde surgir, repentinamente, o ouro solar do despertar (BERNARD, R., 2005, 77).

    Neste trecho, como no texto supracitado de Almada, Mima Fataxa, ressaltam o

    vermelho, o branco e o negro (tpico da putrefao). Estas cores, de forte ressonncia

    simblica, no processo alqumico, desencadeiam o despertar dos sentidos fsicos e

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    espirituais, em ambos os relatos. Assim sendo, o texto de Almada tambm pode ser

    encarado como um relato de experincia inicitica, da descoberta do Outro, numa relao

    ertica, que poder conduzir descoberta do prprio Eu, nos seus labirintos mais recnditos.

    Este tema no alheio a Almada Negreiros que lhe d corpo nos seus textos. de salientar o

    romance Nome de Guerra, em que o protagonista Antunes representa o papel do

    iniciado no amor ertico, para quem a mestra uma meretriz se transforma numa

    descoberta interior: A Judite uma descoberta que eu fiz na minha pessoa (NEGREIROS, J.,

    1986: 114).

    1.4 A Noite.

    TREVAS De dia no se via nada, mas pla tardinha j se apercebia gente que vinha de punhaes na mo, devagar, silenciosamente, nascendo dos pinheiros e morrendo nelles. [] E o vento segredava por entre os pinheiros os mdos que nasciam. E vinha vindo a Noite por entre os pinheiros, e vinha descala em ps de surdina por mr do barulho, de braos estendidos pra no topar com os troncos; e vinha vindo a noite cguinha como a lanterna que lhe pendia da cinta. E vinha a sonhar. As sombras ao v-la esconderam os punhaes nos peitos vazios. [] A brisa fez-se gritos de paves perseguidos. E as sombras em danas macabras fugiam fumo dos pinheiraes plo meu respirar. [] Faz-se a fogueira e as bruxas em roda rezam a gritar ladainhas da Morte. Veem mais bruxas, trazem alfanges e um caixo. Doem-me os cabelos, fecham-se-me os olhos e quatro anjos levam-me a alma Mas a cigarra em algazarra de alm do monte vem dizer-me que tudo dorme em silncio na escurido. Veio a manh e foi como de dia: no se via nada. (Jos de Almada Negreiro Frisos)

    H um mundo que s desperta durante o sono do poeta. Esse mundo, em que a

    Noite impera, o onrico, avassalado pelos medos, pelas sombras, pela magia, pela morte.

    um mundo que obriga o poeta a confrontar-se com a parte escura do seu ser: a sua Sombra.

    Segundo Carl G. Jung (2006: 133; 164), a Sombra do homem (no sentido de ser

    humano do sexo masculino) a sua Anima, a parte feminina do seu ser, que habita nele a

    nvel inconsciente, e que ter de ser despertada do seu sono profundo, para ser integrada no

    todo da sua personalidade o Selbst, que formado pelo Eu consciente e inconsciente. O Eu

    consciente do homem de natureza racional-analtica, da que, na busca de plenitude,

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    muitos msticos relatem a experincia do que chamam noite dos sentidos, estdio pouco

    evitvel, no qual desaparece por algum tempo todo conhecimento analtico e exprimvel e

    at toda evidncia e todo suporte psicolgico (GIRARD, M., 1997: 239). No onrico,

    passando a psique do poeta por um processo idntico ao da experincia mstica, sobrevm a

    possibilidade de autoconhecimento, de maturao, na medida em que o homem-poeta

    demonstre capacidade par trabalhar os seus medos e vencer as trevas um smbolo

    matricial, muitas vezes com orientao ponerolgica, pois a intuio simblica percebe essa

    realidade natural como continente, como matriz de morte, que se alia ao mal e ao pecado

    (cf. id: 187). Logo, desejar recuperar o seu princpio feminino significa, para o homem-poeta,

    ter de enfrentar os medos inconscientes que essa demanda desencadeia principalmente, o

    medo do pecado e da morte.

    1.5 A Morte.

    CANO A pastorinha morreu, todos esto a chorar. Ningum a conhecia e todos esto a chorar. A pastorinha morreu, morreu de seus amres. beira do rio nasceu uma arvore e os braos da arvore abriram-se em cruz. As suas mos compridas j no acenam de alm. Morreu a pastorinha e levou as mos compridas. Os seus olhos a rirem j no troam de ningum. Morreu a pastorinha e os seus olhos a rirem. Morreu a pastorinha, est sem guia o rebanho. E o rebanho sem guia o enterro da pastorinha. Onde esto os seus amres? Ha prendas para Lhe dar. Ninguem sabe se Elle e ha prendas para Lhe dar. Na outra margem do rio deu praia uma santa que vinha das bandas do mar. Vestida de pastora pra se no fazer notar. De dia era uma santa, noite era o luar. A pastorinha em vida era uma linda pastorinha; a pastorinha mrta Senhora dos Milagres. (Jos de Almada Negreiros- Frisos)

    H uma unio mstica entre o amor e a morte, nesta Cano de Almada Negreiros.

    A rvore da vida, que tambm cruz de morte, nascida espontaneamente beira de um rio,

    torna-se smbolo de uma conceo circular do tempo, do eterno retorno. Qual a lei que o

    rege? Somente a do amor, que no se consome com a morte, nem desaparece, como as

    mos compridas e o sorriso trocista no olhar da pastorinha. A beleza fsica, que em vida a

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    caracterizava, transforma-se na morte em santidade em beleza espiritual. Por isso, a

    pastorinha morta a Senhora dos Milagres, que noite o luar o eterno feminino, que

    alumia a Noite e atenua o poder das trevas, porque ela imagem de Eva [hebr. hawwa,

    dadora da vida] , a parte feminina que d continuidade aos seres (cf. MACEDO, A., 2006:

    82). No plano antropolgico, esta luz da lua est em anttese simblica com as trevas,

    conotando o conhecimento superior, a vida espiritual, a felicidade, a salvao, a

    imortalidade (cf. ELIADE, M., 1960: 26). a beleza desta luz feminina que o homem-poeta

    ama, s para ela que ele tem olhos, pois, como vimos no primeiro texto que analismos,

    Cano da Saudade, s os cegos amam indiscriminadamente. beleza desta Luz lunar,

    Almada contrape, nA Cena do dio, a imagem da Eva burguesa, que nasceu das

    caganitas dos ratos que roeram os miolos a Ado, que me das mulheres que no

    prestam, das Almas-Noites do jardim das Lgrimas, das mulheres portuguesas que so

    a razo da impotncia do poeta, porque Os homens so na proporo dos seus desejos,

    e Almada tem a Conceo do Infinito e cr na transmigrao das almas (cf. NEGREIROS,

    J., 1990: 47-66).

    2. Utopia.

    Abbildung 1: Ren Magrit (1898-1967), Procura do Absoluto4.

    4 Bruxelas, Museu das Belas-Artes. 60 x 73 cm (Apud UPJOHN, E. M.; WINGERT, P. S.; MAHLER, J. G., [s.d.]: 202).

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    A Conceo do Infinito a que se refere Almada Negreiros, nA Cena do dio, est

    na origem do seu pensamento utpico, que se traduz, essencialmente, num desejo de

    COMEO que o leva a procurar as matrizes: os arqutipos (CASTRO, E. M., 1987: 33).

    Entre esses arqutipos, sobressai o do princpio feminino Lua, a deusa-me , que se

    apresenta, nos textos do autor, como uma nostalgia, um ideal. Esta utopia ter o seu

    expoente mximo na idealizao da Ptria, que no corresponder ao espao

    geograficamente ocupado por Portugal no mapa do mundo, mas a um no-lugar, sustentado

    pela f num ideal comum:

    Aqueles que ao findar o sculo assistiram simultaneamente ao nascimento do novo sculo, puderam verificar uma modificao total no aspecto exterior dos valores imutveis da humanidade. Por grande casualidade a idade dos sculos coincidindo com a idade das pocas. [] num desinteresse mximo e nacional pelas coisas chamadas do esprito; tais foram os primeiros dias que couberam por sorte aos desta gerao. [] Procedamos conscientemente na formao de um grupo de lite, [] [] Qual foi o destino que juntou estes nomes seno uma nica f que animava estas personalidades to distintas umas das outras (NEGREIROS, J., 1992: 55-58).

    2.1 A Ptria

    [] A Arte de hoje est definida, uma Sciencia concreta. Tem os seus devres, os seus devres de educao. A Arte de hoje um methodo mathematico para aproveitar ou multiplicar as energias humanas em favor da Civilizao Europeia. por isto que os BAILADOS RUSSOS teem uma comprehenso feliz da Arte moderna. [] justamente o que tu, Portuguez, vaes aprender nos BAILADOS RUSSOS: educar-te a ti proprio. Aprender os teus devres para comtigo e para com todos. Aprender a resolveres todas as tuas possibilidades, isto , aprender a sres completo, a dares-te completo para a Civilizacao da Europa Moderna. Aprender a dares o teu verdadeiro valor, mnimo que seja, Humanidade para a ajudares a criar c na Vida o Deus positivo da Europa. E pdes acreditar que a nica razo por que viste a este Mundo esta: educares-te a ti-prprio. [] (Jos de Almada-Negreiros Os bailados russos em Lisboa)

    A Arte , para Almada, o caminho redentor da Ptria portuguesa, porque uma

    maiutica, proporcionadora de autoconhecimento e conducente autodisciplina que falta

    ao povo portugus, para atingir a completude. Atravs dela, Portugal poder descobrir o seu

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    lugar na Europa Moderna, civilizada, ao descobrir o seu verdadeiro valor. Este caminho da

    Arte , simultaneamente, um caminho pessoal e universal, porque o destino do coletivo

    depende da capacidade que cada um tem de, individualmente e em conjunto, poder ajudar

    a criar na Vida o Deus positivo da Europa. Uma teoria em que nos parece ressoar a filosofia

    de Krause, em cuja viso a Aliana da Humanidade coincidiria com a etapa ilustrada ou

    moderna da histria da Humanidade, na medida em que essa Aliana iria instituir uma

    prtica litrgica que visava a eduo da Humanidade. Com as suas especulaes filosficas,

    Krause intentava combater o misterismo manico, advogando por uma maonaria que

    operasse segundo ideias e ideais racionais e no somente e no preferentemente com

    smbolos (cf. URENA, H., 1994: 68-70). Na nossa perspetiva, este mesmo ideal de

    racionalidade que Almada Negreiros traduz na to trgica quanto enigmtica frmula 1+1=1,

    que pretende exprimir a essncia da relao humana, assim como a base dialgica em que

    essa relao assenta; j que toda a relao uma procura de unidade que preserve a

    alteridade, de integrao das partes no todo. Logo, o dilogo mais dramtico o que se

    realiza entre o indivduo e a humanidade, que pressupe o dilogo entre o indivduo e a

    sociedade. A originalidade, que constitui a identidade de cada ser humano, enquanto ser

    nico, tem de ser mantida, na fuso que se opera entre as diferentes partes que formam o

    todo. Logo, o povo completo, que formar a Ptria ideal, s poder ser um conjunto de

    Homens completos.

    Bibliografia Ativa

    NEGREIROS, Jos de Almada (1986) - Nome de Guerra, Lisboa, IN-CM. NEGREIROS, Jos de Almada (1990) - A Cena do dio, Obras Completas Poesia, 2 ed., Lisboa,

    Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Vol. I, pp.47-66. NEGREIROS, Jos de Almada (1990) - Frisos, Obras Completas Poesia, 2 ed., Lisboa, Imprensa

    Nacional-Casa da Moeda, Vol. I, pp.67-75. NEGREIROS, Jos de Almada (1990, 1917) - Os bailados russos em Lisboa, in Portugal Futurista,

    Lisboa, Contexto, pp. 1-3. NEGREIROS, Jos de Almada (1992) - Os pioneiros (Para a histria do movimento moderno em

    Portugal), Obras Completas Ensaios, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Vol. V, pp. 55-58.

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    NEGREIROS, Jos de Almada (1993) - Ultimatum Futurista s Geraes Portuguesas do Sculo XX, Obras Completas Textos de Interveno, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Vol. VI, pp. 35-43.

    Bibliografia Passiva

    ALCOFORADO, Diogo (1998) - A Perplexidade de Antunes ou A Difcil Habitao da Modernidade, in SILVA, Celina [Coord.], Almada Negreiros A descoberta como necessidade, Porto, Fundao Eng Antnio de Almeida, pp.491-501.

    AMARAL, Ana Lusa (1990) - A Cena do dio de Almada-Negreiros e The Waste Land de T. S. Eliot,

    in Colquio / Letras, 113-114, Janeiro-Abril, Lisboa, pp.145-156. BERNARD, Raymond (2005) - As manses secretas da Rosa-Cruz, Corroios, Zfiro. CASTRO, E. M. de Melo (1987, 1980) - As vanguardas na Poesia Portuguesa do sculo XX, 2.a ed.,

    [Biblioteca Breve / Volume 52], Lisboa, ICALP. CENTENO, Yvette (1978) - Smbolos da totalidade na obra de Hermann Hesse, Lisboa, A Regra do Jogo. CRUZ, Duarte Ivo (2001) - Histria do Teatro Portugus, [s. l.], Verbo. DALGE, Carlos (1989) - A Experincia Futurista e a Gerao de Orpheu, Lisboa, ICALP. DICTIONNAIRE mytho-hermtique (1787), Par Dom Antoine-Joseph Pernety, Paris, Delain. ELIADE, Mircea (1960) - Le symbolisme des tenbres dans les religions archaiques, Polarit du

    symbole, Bruges, Descle de Brouwer. GIRARD, Marc (1997) - Os smbolos na Bblia: ensaio de teologia bblica enraizada na experincia

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    Este estudo visa analisar a presena do feminino na obra de Jos de Almada Negreiros. No pretende, porm, faz-lo de forma exaustiva e sistemtica. Antes pelo contrrio, o seu alvo ser mais o de apontar algumas linhas bsicas de uma leitura possvel...Palavras-chave: Jos de Almada Negreiros; feminino; hermetismo; mstica; utopia.1. Saudade do feminino.1.1 A Lua.1.2 A Mulher.1.3 A Sensualidade.1.4 A Noite.1.5 A Morte.2. Utopia.2.1 A Ptria