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  • Texto & Contexto Enfermagem

    ISSN: 0104-0707

    texto&contexto@nfr.ufsc.br

    Universidade Federal de Santa Catarina

    Brasil

    Cardoso Villela, Juliane; Alves Maftum, Mariluci; Paes, Mrcio Roberto

    O ensino de sade mental na graduao de enfermagem: um estudo de caso

    Texto & Contexto Enfermagem, vol. 22, nm. 2, abril-junio, 2013, pp. 397-406

    Universidade Federal de Santa Catarina

    Santa Catarina, Brasil

    Disponvel em: http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=71427998016

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    Texto Contexto Enferm, Florianpolis, 2013 Abr-Jun; 22(2): 397-406.

    O ENSINO DE SADE MENTAL NA GRADUAO DE ENFERMAGEM: UM ESTUDO DE CASO1

    Juliane Cardoso Villela2, Mariluci Alves Maftum3, Mrcio Roberto Paes4

    1 Artigo a partir dissertao - O ensino de sade mental na graduao de enfermagem na perspectiva do estudante, apresentada ao Programa de Ps-Graduao em Enfermagem da Universidade Federal do Paran (UFPR), em 2009.

    2 Mestre em Enfermagem. Enfermeira do Centro Municipal de Urgncias Mdicas Prefeitura Municipal de Curitiba. Paran, Brasil. E-mail: jucardoso@ufpr.br

    3 Doutora em Enfermagem. Professora do Programa de Ps-Graduao em Enfermagem da UFPR. Paran, Brasil. E-mail: maftum@ufpr.br

    4 Doutorando em Enfermagem pelo Programa de Ps-Graduao em Enfermagem da UFPR. Enfermeiro do Hospital de Clnicas da UFPR. Paran, Brasil. E-mail: marropa@pop.com.br

    RESUMO: Pesquisa com o mtodo estudo de caso, com objetivo de descrever como se desenvolve o ensino de sade mental em um curso de graduao em enfermagem e verificar como o ensino de sade mental influencia na formao dos alunos. As fontes de informaes foram plano de ensino, cronograma da disciplina e observao direta das atividades desenvolvidas por um professor e 60 estudantes. Utilizou-se o referencial de educao de Luckesi. Os estudantes referiram que as estratgias e a metodologia de ensino proporcionam aprendizado a partir da realidade e incentivam a busca de locais extraclasse para auxiliar na construo do conhecimento por meio de ambientes de aprendizagem significativa, que lhes proporciona a troca de experincias entre si, com a professora e com outros profissionais de sade. A adoo de metodologias ativas se mostra um caminho vivel para atingir a proposta pedaggica no ensino de sade mental e na formao de profissionais competentes.DESCRITORES: Enfermagem. Enfermagem psiquitrica. Sade mental. Ensino. Aprendizagem.

    THE TEACHING OF MENTAL HEALTH IN A NURSING UNDERGRADUATE COURSE: A CASE STUDY1

    ABSTRACT: This case study aimed to describe how the teaching of mental health is developed in a nursing undergraduate course and to verify how this teaching of mental influences the formation of the students. The sources of information were: the teaching plan, chronogram of the discipline and direct observation of the activities developed by a professor and 60 students. Luckesis philosophy of education was the theoretical framework used. The students said that the strategies and the teaching methodology provided learning based on reality and that they motivated the search for extracurricular work which assisted the construction of knowledge. They also identified an environment of significant learning that encouraged them to exchange experiences with each other, with the professor and with other healthcare professionals. The adoption of active methodologies is shown as a viable route to achieve the pedagogic proposal in the teaching of mental health and in the formation of competent professionals.DESCRIPTORS: Nursing. Psychiatric nursing. Mental health. Teaching. Learning.

    LA ENSEANZA DE SALUD MENTAL EN LA GRADUACIN DE ENFERMERA: UN ESTUDIO DE CASO

    RESUMEN: Investigacin con el mtodo estudio de caso con el objetivo de describir cmo se desarrolla la enseanza de la salud mental en un programa de graduacin de Enfermera y verificar cmo la enseanza de la salud mental influye en la formacin de los alumnos. Las fuentes de informaciones fueron: plan de enseanza, cronograma de la disciplina y observacin directa de las actividades desarrolladas por un profesor y 60 estudiantes. Se utiliz el referencial de educacin de Luckesi. Los estudiantes refirieron que las estrategias y la metodologa de enseanza proporcionan aprendizaje a partir de la realidad, e incentivan la bsqueda de locales extra-clase para auxiliar en la construccin del conocimiento, por medio de ambientes de aprendizaje significativo, que les proporciona el intercambio de experiencias entre s, con la profesora y con otros profesionales de salud. La adopcin de metodologas activas se muestra un camino viable para alcanzar la propuesta pedaggica en la enseanza de salud mental y en la formacin de profesionales competentes.DESCRIPTORES: Enfermera. Enfermera psiquitrica. Salud mental. Enseanza. Aprendizaje.

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    INTRODUOA formao dos profissionais de sade tem

    recebido nova conformao devido s constantes transformaes cientficas, tecnolgicas, econ-micas, sociais e epidemiolgicas mundiais. Desta forma, os currculos dos cursos da rea de sade devem ser desenvolvidos tomando por base as polticas pblicas de sade e de educao e as necessidades de sade local e global da populao.

    Para assegurar a formao profissional nessa perspectiva preciso que o educador rompa com velhos paradigmas educacionais, por meio da con-tnua avaliao de suas atividades ,de forma crtica e reflexiva, a fim de desenvolver uma postura interativa e moderna no processo ensino-aprendi-zagem. Dessa forma, espera-se do docente, em um contexto educacional moderno, que perceba sua prtica, questione sua efetividade e, se preciso, a modifique. Para tanto, ser necessrio desenvol-ver qualidades como flexibilidade, humildade e coragem para enfrentar novos desafios.1

    Um dos grandes desafios para o educador na atualidade a superao do modelo educa-cional conservador e a adoo de metodologias inovadoras no processo ensino-aprendizagem. As metodologias ativas baseiam-se na forma de desenvolver o processo de aprender a partir de experincias reais ou simuladas, com capacidade para solucionar com sucesso tarefas essenciais da prtica profissional em diferentes contextos. Elas so utilizadas quando se intenta contribuir para a aprendizagem significativa, baseada em resoluo de problemas, de fatos ou situaes que levem os estudantes a compreender o fato estudado e a propor solues por meio do processo de ao-reflexo-ao. Tambm proporciona avaliao formativa ao permitir a identificao do que os estudantes no sabem e ensejar novas situaes de aprendizagem e responsabilizao das Instituies Educacionais para com o processo de formao dos profissionais, pois so elas que certificam o graduado.2

    Para o professor que intenta utilizar mtodos inovadores e diferenciados de ensinar, a seleo das atividades que sero desenvolvidas com os estudantes constitui etapa importante que deve ocorrer mediante um olhar crtico do contexto social e poltico da sua realidade territorial e dos sujeitos envolvidos. Assim, possvel utilizar diferentes procedimentos metodolgicos e pro-mover diversas experincias de aprendizagem. Entretanto, elas sero mais significativas se parti-rem das experincias, vivncias e conhecimentos

    anteriores, do professor e, do mesmo modo, dos estudantes, ao considerar tambm a sua histria de vida.3

    O ensino como ferramenta para a transfor-mao dos processos de trabalho em sade mental e educao, deve ser reorientado para que o es-tudante desenvolva competncias e habilidades que contemplem os princpios propostos pela Reforma Psiquitrica, vislumbrando as neces-sidades de ateno psicossocial s pessoas com sofrimento psquico.4 Para isso, imprescindvel a vivncia dos estudantes nos mais diversos locais de ateno em sade mental, visando a orientar o aprendizado que contemple os eixos polticoso-ciais vigentes.5

    As transformaes de conceitos na rea da sade mental impulsionadas pelo Movimento da Reforma Psiquitrica possibilitam novas formas de conceber o processo sade-doena mental, de tratamento e postura tico-profissional no cuidado pessoa com transtorno mental, sob a perspectiva do paradigma psicossocial, que se mostra como um dos desafios na formao de profissionais com competncia para a prtica em sade mental neste novo contexto.4

    Destarte, o ensino de enfermagem em sade mental deve dar condies para que o graduando desenvolva habilidades cientficas, humansticas e tcnicas, conhecimento com especificidade na rea em questo, que o instrumentalize para sua prtica profissional. Contudo, estudos tm demonstrado a existncia de dificuldades em adequar o con-tedo terico-prtico realidade assistencial, que em muitos casos, ainda se mantm deficitria de pessoal qualificado, existncia de resqucios mani-comiais na concepo dos profissionais de sade mental, dificuldades de articulao no trabalho em equipe multiprofissional e escassez ou inexistncia de servios extra-hospitalares em sade mental organizados em sistema de rede para o desenvol-vimento da prtica acadmica.6-8

    Outro aspecto a ser considerado de que o ensino deve ser personalizado, valorizar a originalidade, apresentar opes de iniciao s disciplinas e s atividades, com o objetivo de criar modalidades de reconhecimento de aptides e co-nhecimentos tcitos para haver visibilidade social, se possvel diversificar as estratgias e envolver nas parcerias educativas os diversos atores sociais.9

    Assim, esta pesquisa teve como questo norteadora: como se desenvolve o ensino de sade mental na graduao em enfermagem? Os objeti-vos foram descrever como se desenvolve o ensino

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    de sade mental em um curso de graduao em enfermagem e verificar como o ensino de sade mental influencia na formao dos estudantes.

    REFERENCIAL TERICO-CONCEITUALEsta pesquisa se alicerou, principalmente,

    nos conceitos de educao, ser humano, professor, estudante, ensino, escola, currculo e avaliao,10 os quais representam as unidades de anlise desta investigao.

    Assim, educao um que fazer humano, uma atividade caracterizada fundamentalmente por uma preocupao, uma finalidade a ser atin-gida e no um fim em si mesmo, mas instrumento de manuteno ou transformao social e necessita de pressupostos e conceitos que fundamentem e orientem os seus caminhos.10 Ensinar uma forma tcnica de possibilitar aos estudantes a apropria-o da cultura elaborada, da melhor e mais eficaz forma possvel. Para tanto, necessrio deter re-cursos tcnicos e habilidades de comunicao que facilitem a apropriao do que comunica.

    Em relao aos sujeitos seres humanos envolvidos no processo ensino aprendizagem, o professor um ser humano e, como tal, construtor de si mesmo e da histria atravs da ao. de-terminado pelas condies e circunstncias que o envolvem e sofre as influncias do meio em que vive e com elas se autoconstri. o indivduo que, tendo adquirido o nvel de cultura necessrio para o desempenho de sua atividade, medeia o ensino e a aprendizagem. o mediador da cultura ela-borada, acumulada e em processo de acumulao pela humanidade e o estudante, e o estudante caracterizado pelas mltiplas determinaes da realidade, um sujeito ativo que pela ao ao mes-mo tempo se constri ou se aliena. um membro da sociedade, tem caracteres de atividade, so-cialidade, historicidade, praticidade. o sujeito que busca uma nova determinao em termos de conhecimentos, de habilidade e de modo de agir.10

    Necessita-se de cenrios para que o proces-so ensino aprendizagem se desenvolva, sendo a escola conceituada como a instncia erigida pela sociedade para a educao e instruo das novas geraes. Caracteriza-se como local designado para mediar o processo ensino-aprendizagem baseado em um currculo em que as pessoas assi-milam o legado da cultura elaborada, compreen-dendo e reelaborando o seu cotidiano. Currculo uma seleo de contedos e experincias de aprendizagem e de uma prtica pedaggica.10

    Intrnseca ao processo ensino-aprendizagem, a avaliao tem a finalidade de balizar se o educan-do est realmente desenvolvendo o aprendizado. Nesta perspectiva, o mesmo autor9 a enfoca como avaliao que opera com desempenhos provis-rios, na medida em que ela subsidia o processo de busca dos melhores resultados possveis. e para que haja um processo avaliativo-construtivo, os desempenhos so sempre provisrios ou proces-suais, cada resultado obtido servindo de suporte para um passo mais frente, sendo a avaliao no-pontual, diagnstica (por isso, dinmica) e inclusiva.

    METODOLOGIATrata-se de pesquisa de abordagem qualita-

    tiva e o mtodo escolhido foi o estudo de caso do tipo descritivo e de fundamento lgico-represen-tativo,11 em que o objeto de estudo foi o ensino de sade mental na graduao de enfermagem. Foi desenvolvida em uma universidade pblica de Curitiba, no curso de graduao em enfermagem, mais especificamente, durante o desenvolvimento do ensino de sade mental, que integra a disciplina Assistncia de Enfermagem II.

    Os participantes da pesquisa foram a profes-sora responsvel pelo ensino de sade mental e os 60 estudantes do 7 perodo do curso de enferma-gem, de dois semestres letivos. A aprovao do Projeto se deu pelo Comit de tica em Pesquisa do Setor de Cincias da Sade da UFPR, sob o registro CEP/SD n. 471.008.08.02. As informaes foram coletadas somente aps a obteno da assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) pela coordenadora do curso, da docente e dos estudantes. Para manter o anonimato dos participantes, foram utilizados os cdigos (RDO1) quando se referencia s reconstrues de dilogos observados e registrados pelo pesquisador em dirio de campo.

    As evidncias para um estudo de caso podem vir de seis fontes distintas: documentos, registros em arquivo, entrevistas, observao di-reta, observao participante e artefatos fsicos.11 Para obteno das evidncias para esta pesquisa foi consultado o plano de ensino, cronograma da disciplina e realizada observao direta de todas as aulas ministradas em dois semestres letivos (2007-2008), perfazendo um total de 110 horas, com auxlio de roteiro e registros em dirio de campo.

    Para a elaborao da descrio do caso foi realizada a triangulao das evidncias prove-

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    nientes das fontes supracitadas utilizando-se as tcnicas analticas: adequao ao padro, cons-truo da explanao, anlise de sries temporais e modelos lgicos, conforme o mtodo estudo de caso.11 As unidades de anlise: educao, ser humano, professor, estudante, ensino, escola, cur-rculo e avaliao, estabelecidas de acordo com o referencial de educao,10 sustentaram o encadea-mento das evidncias, cumprindo a finalidade de proporcionar uma leitura compreensiva e clara do texto, desde as questes iniciais da pesquisa at as concluses finais do estudo de caso, pois permeia todas as fases do trabalho.11

    A descrio das evidncias desta pesquisa foi organizada em cinco tpicos: 1) Estrutura formal da disciplina; 2) Organizao do ensino de enfer-magem em sade mental; 3) Processo avaliativo do ensino de enfermagem em sade mental; 4) Fragilidades no processo ensino-aprendizagem em sade mental; e 5) Representao esquemtica do ensino de enfermagem em sade mental.

    RESULTADOS Neste item, apresentada a descrio das

    evidncias do caso, o ensino de enfermagem em sade mental, em consonncia com os conceitos de educao, ser humano, professor, estudante, ensino, escola, currculo e avaliao, segundo referencial terico.

    Estrutura formal da disciplinaEste tpico resultante da anlise documen-

    tal do plano e cronograma do ensino de enferma-gem em sade mental. Consta nestes documentos que o ensino de enfermagem em sade mental ocorre no 7 perodo do curso, semestral, com 15 horas tericas e 45 terico-prticas, totalizando 55 horas de carga horria. No plano tm-se como objetivos, entre outros, promover ao estudante conhecimento sobre as polticas pblicas de sade mental brasileira, estadual e municipal; que ele identifique os diferentes dispositivos de tratamen-to e de rede de apoio social; desenvolva compe-tncias para o cuidado s pessoas com transtorno mental nos diferentes servios de sade; identifi-que causas de transtornos mentais, considerando tambm os determinantes socioeconmicos; atue na preveno de agravos e na promoo da sade; e estabelea relao teraputica com a pessoa com transtorno mental e com a famlia.

    Organizao do ensino de enfermagem em sade mental

    Para o desenvolvimento do ensino de sade mental, as evidncias organizadas no quadro 1, demonstraram que so utilizadas diversas estra-tgias, recursos e cenrios de aprendizagem com vistas a estimular constantemente os estudantes a conceberem a realidade com olhar crtico, con-siderando os conhecimentos prvios e vivncias anteriores. Assim, busca-se ofertar ao estudante, conhecimento sobre os atuais dispositivos de ateno sade da pessoa com transtorno mental e sua famlia, assim como a rede de servios e de apoio social do territrio em que vive, reco-nhecendo esses espaos como campo de atuao profissional.

    As aulas prticas de campo constituem momento em que o estudante estimulado a vivenciar no servio, associaes, grupo de ajuda mtua e projeto de extenso o contedo terico que foi discutido em sala de aula, nas exposies do professor, atravs dos trabalhos apresentados, no estudo de caso clnico simples, denominado dessa maneira pelo pouco tempo que os estudan-tes dispem para vivenciar a prtica no servio, o que impossibilita realizar um aprofundamento na investigao clnica.

    Os livros paradidticos utilizados para o de-senvolvimento dos seminrios so: Dibs em busca de si mesmo, Canto dos malditos, Uma mente inquieta, Nunca lhe prometi um jardim de rosas, Eu, Christiane F., 13 anos, drogada e prostituda, Memrias de um delrio Bipolar memrias do extremo, e Dentro da chuva amarela.

    A participao em Associao de apoio pes-soa com transtorno mental constitui oportunidade para o estudante observar a dinmica de trabalho local, a integrao de familiares e interagir com pessoas com transtorno mental.

    O projeto de extenso universitria deno-minado O cuidado de enfermagem sade de familiares e pessoas com sofrimento mental, desenvolvido em parceria com a Associao de Apoio aos Portadores de Distrbios de Ordem Mental (AADOM), tem suas atividades em dois dias da semana na Roda de conversa e no Espao aberto, em que os estudantes realizam interaes teraputicas, atividades ldicas (jogos, pintura, filmes) e consultas de enfermagem.

    Os estudantes so orientados a identificar um grupo de ajuda mtua, em sua comunidade para acompanharem uma reunio. Grupos que

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    proporcione apoio e orientao s pessoas com transtornos mentais, dependentes de lcool e ou-tras drogas em abstinncia e familiares.

    A anlise crtica e a discusso de filmes ocorrem mediante um roteiro com perguntas de temas que auxiliem o estudante a refletir, como, por exemplo, sobre a relao do protagonista com a famlia, com a equipe de sade, com a sua rede social, a adeso ao tratamento, diagnstico clnico,

    sinais e sintomas. Entre outros, so selecionados os filmes: Estamira, Mr. Jones, O solista, Uma mente brilhante, Prncipe das mars, K-pax o caminho da luz, e Pescador de iluses.

    No quadro 1 constam as estratgias utiliza-das para o desenvolvimento do ensino de enfer-magem em sade mental, relacionando-as com os cenrios em que acontecem, com os recursos utilizados e os sujeitos envolvidos.

    Quadro 1 - Estratgias utilizadas no ensino de sade mental, relacionadas com cenrios, recursos e sujeitos envolvidos

    Cenrio Estratgia Recurso Sujeitos Avaliao

    Diversos* Anlise crtica Filme Estudante, professor Oral, escrita, autoavaliao

    Diversos* Anlise crtica Livro paradidtico Estudante, professor Seminrio, autoavaliaoProjeto de extenso Participao Estudante

    Pessoa com transtorno mental, familiares, estudante, professor

    Oral, escrita, autoavaliao

    Associaes de apoio Participao Estudante

    Pessoa com transtorno mental, familiares, estudante, professor

    Oral, escrita, autoavaliao

    Grupo de ajuda Participao Estudante Estudantes, dependentes qumicos, comunidadeOral, escrita, autoavaliao

    Diversos* Trabalhos temticos Pesquisa Estudante, professorOral, escrita, autoavaliao

    Instituio hospitalar Estudo de caso

    Entrevista, pronturio, livros

    Estudante, professor, equipe de trabalho, pessoa com transtorno mental

    Oral, escrita, autoavaliao

    Instituio hospitalar

    Aulas prticas de campo Estudante

    Estudante, professor, equipe de trabalho, pessoa com transtorno mental

    Oral, escrita, autoavaliao

    * Diversos: atividades em que os estudantes puderam escolher o local para realiz-las. Por exemplo, um filme podia ser assistido em grupo ou individualmente, na universidade ou na casa de algum estudante; Estudante: o principal recurso a se utilizar no processo de aprendizado o prprio estudante com seus conhecimento prvios e sua bagagem histrica a fim de construir conhecimento em sade mental.

    No final de cada semestre, os contedos, os espaos de aprendizagem e as metodologias utilizadas so avaliados e discutidos com os estu-dantes, o que subsidia a organizao do semestre vindouro. Isso se d porque o estudante, aps ter vivenciado os diferentes momentos do processo ensino-aprendizagem dessa rea, pode colabo-rar como sujeito ativo na qualidade e relevncia daquilo que ensinado. Assim, estudantes e professor avaliam em conjunto a organizao do processo ensino-aprendizagem.

    Os estudantes relatam que no incio do se-mestre no percebem o motivo e a importncia de algumas estratgias, referindo que consideravam que elas no agregavam valor. Contudo, no tr-mino da disciplina, ao retomar com os estudantes como ocorreu o processo ensino-aprendizagem na modalidade das metodologias ativas, eles externa-ram que o conjunto de estratgias adotadas, pela multiplicidade das atividades e oportunidades,

    facilitou seu aprendizado, tendo ainda contribu-do para a mudana da sua percepo a respeito da pessoa com transtorno mental e dos modos de ateno proporcionados a ela.

    Na sequncia, so apresentados reconstru-es de dilogos extrados da observao direta em um dos momentos de discusso entre docente e estudantes a respeito das atividades propostas:

    [...] aps ter desenvolvido todas as atividades propostas na disciplina, eu percebo que tudo que ns fazemos pode ser teraputico para eles. A conversa, a ateno, os limites e isso pelas atividades aprendi, por exemplo, quando eu digo para ela que no posso ficar abraando-a o tempo todo, porque se no vou ter que abraar todas que esto ali, mostro limite e que tem mais gente ali alm dela (RDO1).

    [...] todas as atividades foram de grande valia para aumentar nosso conhecimento na sade mental. uma rea muito extensa, ento no seria possvel

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    conhecermos os campos se no tivssemos essa grande quantidade de atividades extraclasse. Com certeza, estas atividades devem ser propostas para os prximos estudantes (RDO2).

    [...] as atividades realizadas foram importantes para termos conhecimento de como o trabalho dos profissionais dentro do campo de sade mental, e nos instigou a sermos futuros profissionais com uma viso diferente quanto s pessoas portadoras de transtorno mental e como devemos ser cuidadosas e criteriosas, prestando uma assistncia diferenciada e de qualidade a estas pessoas (RDO3).

    A percepo dos estudantes demonstra o processo de aprendizado que iniciou na realidade vivenciada por eles nas atividades extra-classe, e a importncia de conhecer os diferentes dispositivos existentes para assistir pessoa com transtorno mental bem como a rede de apoio social do ter-ritrio em que vive, com vistas a estimular uma aprendizagem autnoma.

    Durante o desenvolvimento das atividades nos diferentes espaos de atuao, e pelo envolvi-mento com os sujeitos participantes do processo de ateno pessoa com transtorno mental (Quadro 1), os estudantes conhecem um pouco das trans-formaes nos modos de tratamento e ateno que vem ocorrendo em resposta a Reforma Psiquitri-ca. Para tanto, busca-se articular estes dispositivos de ateno sade e espaos de apoio no proces-so de ensino-aprendizagem, para que o mesmo ocorra em consonncia e com o conhecimento da realidade da qual o estudante faz parte.

    Processo avaliativo do ensino de enfermagem em sade mental

    A avaliao no ensino de sade mental, objeto deste estudo, ocorre de forma processual formativa, pois se inicia no primeiro dia de aula. Neste momento realizada uma avaliao de im-pacto a fim de apreender o que os estudantes tra-zem de bagagem em relao temtica e como eles a percebem, transcorrendo essa dinmica at o final da disciplina, com exemplificado a seguir:

    [...] espero que a disciplina nos ensine a distinguir quando que um transtorno mental (RDO4).

    [...] aprendemos a cuidar, na UTI proporcionar conforto, e em sade mental? O que fazer para pro-porcionar conforto [...], cuidado para o paciente com transtorno? (RDO1).

    [...] muitos pacientes devem tomar banho e co-mer sozinhos, ento, o que vamos fazer na assistncia? (RDO2).

    Para avaliar os estudantes em cada estratgia utilizada neste ensino, so utilizados instrumentos que possibilitam a avaliao individual mediante o destaque de pontos/temas considerados impor-tantes, que se relacionam e se complementam nas demais estratgias. Esses instrumentos so dis-ponibilizados aos estudantes no portal eletrnico do curso na intranet, chamado espao restrito do aluno, no incio do semestre letivo para que eles tenham conhecimento dos aspectos que sero considerados no processo avaliativo.

    Fragilidades no processo ensino aprendiza-gem em sade mental

    Uma das fragilidades evidenciadas se refere carga horria destinada ao ensino da temtica, que, entre as 3.600 horas do curso, est contempla-da somente 55 horas para o seu desenvolvimento total. Os relatos a seguir demonstram essa percep-o pelos estudantes:

    [...] penso que temos pouco tempo para apresentar e discutir um assunto, os temas para a realizao dos trabalhos foram timos, mas em razo do pouco tempo disponvel no foi possvel aproveitar to bem (E5).

    [...] pouco tempo para a apresentao de temas muito importante para nosso aprendizado, tivemos que avanar na apresentao no conseguindo fazer uma discusso mais detalhada (E6).

    A questo do pouco tempo e sua relao com a quantidade de temas e atividades solicita-das so destacadas tanto pelos estudantes como pela professora, que referem no permitir um aprofundamento dos conhecimentos cientficos da temtica, bem como da prtica acadmica nos diferentes dispositivos de ateno sade mental que existem na atualidade, como resul-tado do movimento da reforma psiquitrica e da rede de apoio social, determinando por sua vez uma sobrecarga de atividades extraclasse aos estudantes. Contudo, essa dificuldade acaba estimulando o estudante a agir de maneira au-tnoma, sendo o grande responsvel pela busca do conhecimento nas atividades extraclasse propostas pelo professor.

    A docente destacou tambm como fragili-dade, o fato de ser a nica desta rea especfica no curso estudado Isso repercute em distribuio dos estudantes em grupos de 10 a 12 alunos, o que inviabiliza o uso dos Centros de Ateno Psicosso-cial como campos para as aulas prticas, pois estes servios normalmente permitem a permanncia apenas de at cinco alunos. Destacou que os in-

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    tercmbios para a construo de conhecimento ocorrem somente com alunos de graduao e os do curso de mestrado que esto desenvolvendo dissertaes sob sua orientao.

    Representao esquemtica do ensino de enfermagem em sade mental

    A partir das evidncias obtidas e descritas anteriormente, foi possvel construir a figura 1, que mostra de forma esquemtica o desenvolvimento do ensino de enfermagem em sade mental, pau-tado em metodologias ativas. Nele, o estudante o centro do processo pedaggico, que como sujeito constri seu aprendizado tambm na relao com outros sujeitos/atores sociais como o professor, os trabalhadores dos servios de sade e das asso-ciaes, os membros dos grupos de autoajuda, os alunos de outros cursos, familiares e portadores de transtornos mentais que frequentam o projeto de extenso e os demais cenrios de aprendizagem e cuidado com os colegas de turma durante as atividades da disciplina.

    Todos estes sujeitos de um modo ou de outro esto presentes na vivncia do seu aprendizado. O professor atua como intermedirio entre o estu-dante e os demais atores, e, mediante as estratgias e as vivncias com os atores sociais, converge para a construo de conhecimentos, transformao de conceitos por parte do estudante e aquisio de competncias para o trabalho com pessoas com transtorno mental.

    Figura 1 - Representao grfica do ensino de enfermagem em sade mental

    DISCUSSO As transformaes da ateno sade

    mental no Brasil esto representadas pela imple-mentao de recentes polticas pblicas, novos servios de sade e formas de tratamento o que tm promovido implicaes relevantes no ensino de sade mental. Tais influncias requerem da academia meios que promovam a construo do pensamento crtico e reflexivo. Alm disso, o conhecimento consumido pelos estudantes da graduao deve conduzi-los a compreender e a reconhecer a necessidade de trilhar novos rumos dos saberes e prticas de cuidados pessoa com transtorno mental promovido pelo processo hist-rico e social conhecido como Reforma Psiquitrica.

    Deste modo, nota-se a inquietao que este contexto promove naqueles que esto diretamente relacionados com o planejamento da estrutura for-mal da disciplina de sade mental na graduao de enfermagem. Assim, se observou que os sujeitos no processo de ensino estudado percebido tal como o referencial adotado neste estudo,10 de modo que, o professor e o estudante so seres materiais-espi-rituais, com muitos condicionantes objetivos que os envolvem, tm natureza fsico-biolgica que se constri pelo crescimento, e inteligncia que adquire patamares complexos de reflexo pela sua relao com o meio e pela atividade. Ainda, como um ser com maior ou menor capacidade de apropriar-se de conhecimentos e habilidades, dependendo de suas vivncias e convivncias.12

    A pessoa com transtorno mental o ator social da formao em sade mental do estudan-te de graduao em enfermagem, cuja imagem negativa de perigoso, amedrontador com aspecto geral deteriorado, foi sendo construda ao longo dos anos na sociedade e transmitida s pessoas no ambiente familiar atravs de filmes, reportagens na imprensa escrita e televisiva. Esse imaginrio social do louco e da loucura trazido pelo estu-dante para o espao acadmico, pois, como sujeito da histria, ele assimilou os conceitos recebidos do convvio social e at de experincias de ter um familiar ou conhecido que tenha recebido os tratamentos, principalmente os tradicionais, que se caracterizam por visar nica e exclusivamente internao, no respeitando a individualidade do sujeito.13 Estes aspectos se apresentam, por vezes, como barreiras e resistncias dos alunos a apreen-der a viso que emerge do contexto psicossocial.

    Nessa perspectiva, importante que o estu-dante reconhea que o transtorno mental no est restrito ao louco no asilo ou hospital psiquitrico.

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    Portanto, mediante as atividades como a anlise crtica a partir de filme sugerido pelo professor, participao em reunio do projeto de extenso, associao de apoio e grupo de ajuda, ele levado a conhecer os diferentes dispositivos existentes atualmente para assistir a pessoa com transtorno mental bem como a rede de apoio social do terri-trio em que vive. Com esse reconhecimento da realidade, busca-se desconstruir o senso comum de que o louco est em um lugar/hospital apro-priado para o tratamento, fechado, protegido e que a sociedade composta de normais. Ainda, estimular uma aprendizagem autnoma, fazendo com que os estudantes reconheam que podem ser responsveis pela construo de seu prprio co-nhecimento, minimizando assim as consequncias da fragilidade encontrada quanto carga horria disponvel para o desenvolvimento do ensino de enfermagem em sade mental.

    Alm dos servios que integram o SUS, a Lei de Diretrizes e Bases (LDB) ainda refere que a educao envolve os processos formativos que tm seu desenvolvimento na vida familiar, nas relaes humanas, no trabalho, nos movimentos sociais, nas manifestaes culturais e nas organizaes da sociedade civil.14 Nas Diretrizes para o ensino da enfermagem, destacam-se os estabelecimentos de relaes com o contexto social, reconhecendo a estrutura e as formas de organizao social, suas transformaes e expresses, a promoo de estilos de vida saudveis, conciliando as necessidades dos clientes/pacientes, atuando como agente de transformao social e prestao de cuidados de enfermagem compatveis com os diferentes grupos da comunidade.15 Esses princpios so respeitados quando no desenvolvimento do ensino de enferma-gem em sade mental, os estudantes so estimula-dos a conhecer os novos espaos institucionais que surgem da transformao dos conceitos de sade e doena mental, dos modos de tratamentos e da relao dos profissionais e da sociedade com a pessoa com transtorno mental impulsionados pelo movimento da reforma psiquitrica.

    Observou-se a dedicao do docente em es-timular os estudantes nas atividades extra-classe, tanto para o reconhecimento da autonomia na construo do prprio conhecimento, como para minimizar a consequncia do limite implicado pela carga horria disponvel para o desenvolvimento do ensino de enfermagem em sade mental. Para o professor que intenta utilizar mtodos diferencia-dos de ensinar, a seleo das atividades que sero desenvolvidas com os estudantes constitui etapa

    importante que deve ocorrer mediante um olhar crtico do contexto social e poltico da sua realida-de territorial e dos sujeitos envolvidos. Podem-se utilizar diferentes procedimentos metodolgicos e oferecer as mais diversas experincias de apren-dizagem. Entretanto, estas experincias sero mais significativas se partirem das experincias, vivncias e conhecimentos anteriores do professor e, do mesmo modo, dos estudantes, ao considerar tambm sua histria de vida.3

    Para que o processo ensino-aprendizagem acontea, so estabelecidas estratgias de ensino, tambm denominadas meios ou procedimentos. Estratgias so meios tcnicos utilizados para cumprir uma proposta educacional que no exis-tem isoladamente, mas articulados e dependentes de uma perspectiva terico-filosfica.12 Estratgia toda organizao e conduo de aes e ideias que visem ao alcance de um objetivo a partir de uma dada situao.

    Todos os procedimentos envolvidos no processo ensino-aprendizagem so estratgias, como a elaborao de objetivos, a determinao de contedos, a metodologia utilizada e a avalia-o proposta, pois todos levam aprendizagem.16 Contudo, comum considerar estratgia somente como mtodos ou atividades escolhidas para au-xiliar no processo.

    A metodologia utilizada pelo professor pode gerar uma conscincia crtica ou uma memria fiel, uma viso universalista ou uma viso estreita e unilateral, uma sede de aprender pelo prazer de aprender e resolver problemas ou uma angstia de aprender apenas para receber um prmio e evitar um castigo.17 Portanto, compensatrio o esforo em estabelecer atividades que podero mais tarde ser lembradas pelos estudantes como contribuies para a formao de um indivduo capaz de refletir sobre a realidade que vivencia no momento.

    Essa construo remete, de acordo com o referencial terico deste estudo, ao bom senso construdo pelo estudante, que se compe de fragmentos de criticidade que emergem no con-texto vivenciado. Apesar da importncia de ser construdo o bom senso, nem tudo no contexto do senso comum dos estudantes ingenuidade, podem ocorrer nesses momentos elementos de compreenso e conduta que tm muito de critici-dade e justeza.10

    A avaliao exige uma postura democrtica do sistema de ensino e do professor.10 Deste modo, para proceder melhoria do ensino aprendizagem,

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    o professor deve estar constantemente atento ao grupo, ter habilidade para avaliar cada estudante individualmente e perceb-lo. Destarte, no h como desenvolver o ensino sem que os envolvidos passem por uma avaliao, afinal, o objetivo deste ensino a formao de enfermeiros que devero responder s necessidades da populao.18

    A avaliao realizada no processo ensino-aprendizagem estudado se mostrou caracterstica de uma proposta baseada em metodologias ati-vas por permitir que o estudante abarque novos conhecimentos e oportunize novas formas de aprendizagem.2

    Isto porquanto, h diversos fatores que de-vem ser considerados na formao de graduando de enfermagem para que alcancem competncia para o desenvolvimento de cuidados em sade mental e que abarquem a LDB, preceitos ti-cos-legais da profisso e conceitos psicossociais. Isto torna o processo ensino-aprendizagem de enfermagem em sade mental bastante complexo, uma vez que vrias reestruturaes pedaggicas e conceituais foram necessrias para dar conta do contexto histrico e social de transio assistencial.

    CONSIDERAES FINAISA realizao desta pesquisa justifica-se pelo

    momento histrico que est ocorrendo na rea da sade mental, caracterizado por intensas transfor-maes na assistncia, o que tem influenciado sig-nificativamente na formao de profissionais. Por-tanto, entende-se a necessidade de compartilhar, divulgar um processo de ensino aprendizagem na enfermagem de modo a fomentar a discusso entre docentes e instigar o desenvolvimento de mais pesquisas a respeito do tema estudado.

    Espera-se que essa pesquisa contribua com outras que surgiro sobre os temas ensino, sade mental e enfermagem, e fomente discusses entre docentes, estudantes e profissionais dos servios acerca de como vem acontecendo o ensino de sade mental no Brasil, bem como os baseados em metodologias ativas.

    O principal aspecto que caracteriza o limite deste estudo consiste nos resultados descritivos e avaliativos do processo ensino-aprendizagem da disciplina de sade mental na graduao de enfermagem que se referem a um pequeno espa-o temporal no abrangendo as transformaes posteriores ao perodo do estudo.

    Conclui-se que, apesar das adversidades, ainda assim, o observado no ensino de sade

    mental coaduna com as ideias enfatizadas por Luckesi, referencial desta pesquisa, em relao aos conceitos de educao, ser humano, professor, estudante, ensino, escola, currculo e avaliao, em que o professor se esfora em proporcionar um processo de aprendizado diferenciado com vistas a resultar em aprendizagem significativa.

    Sugere-se, pelas informaes obtidas nesta pesquisa, que os docentes de enfermagem man-tenham e intensifiquem discusses que resultem na atualizao do processo pedaggico e no de-senvolvimento de competncia na abordagem de metodologias ativas. Em especial para docentes da rea de sade mental, para que utilizem as mais variadas estratgias e todos os espaos de ateno surgidos a partir da reforma psiquitrica, visando a desconstruir o imaginrio social, o estigma da marginalidade e periculosidade imputada pessoa com transtorno mental, criando o olhar psicosso-cial que o considera um cidado com os mesmos direitos e deveres de todos, merecedor de respeito e cuidados adequados.

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    Correspondncia: Mariluci Alves MaftumRua Joo Clemente Tesseroli, 9081520-190 Bairro Jardim das Amricas, Curitiba, PR, BrasilE-mail: maftum@ufpr.br

    Recebido: 08 de Agosto de 2011Aprovao: 14 de Maro de 2012

    Villela JC, Maftum MA, Paes MR