o Cnon Das Escrituras

  • Published on
    03-Dec-2015

  • View
    212

  • Download
    0

DESCRIPTION

Bibliologia

Transcript

  • O CNON DAS ESCRITURAS E SUA IMPORTNCIA PARA A VIDA DA

    IGREJA

    120-141

    INTRODUO

    Voc j ouviu falar dos evangelhos apcrifos? Muitas vezes eles so apresentados como

    descobertas sensacionais porque reveladores de informaes secretas, de tradies

    destinadas somente a alguns privilegiados, de doutrinas que so escondidas do grande

    pblico. Relatos sobre a infncia e adolescncia de Jesus, seus vnculos com Maria

    Madalena, seus planos com o Judas Iscariotes so temas recorrentes de notcias

    pretensamente inditas. Na realidade, em qualquer boa livraria podemos encontrar

    edies dos evangelhos apcrifos. Tais escritos so chamados apcrifos em oposio

    aos cannicos por que estes, diferena daqueles, so reconhecidos como inspirados.

    Os pargrafos que estudaremos hoje se referem exatamente sobre o tema do Cnon das

    Escrituras.

    Ateno aos termos Cnon das Escrituras e Deuterocannicos

    Cnon das Escrituras: a coleo ou a lista dos livros da Bblia reconhecidos

    oficialmente pela Igreja como inspirados e normativos para o ensino e para a conduta.

    Entre as vrias denominaes crists, o elenco difere. Na terminologia catlica se

    distinguem os livros protocannicos e os livros deuterocannicos. Estes ltimos so

    livros cujo carter inspirado nem sempre foi aceito por todos os cristos. Entre os

    hebreus (para o AT) e entre os Protestantes (AT e NT) estes livros so considerados

    apcrifos. Na Igreja Catlica a delimitao definitiva do cnon bblico foi fixada

    somente no conclio de Trento.

    Deuterocannicos: livros do AT escritos em grego (a maior parte entre 200 a.C. e 70

    d.C), publicados nas Bblias catlicas, mas ausentes na maioria das Bblias protestantes

    (os protestantes chamam esses livros de apcrifos. Compreendem os livros de Tobias, Judite, Sircide, Sabedoria, 1 e 2 Macabeus (cf. DS 213, 354).

  • TEXTO 120-141

    CAPTULO SEGUNDO

    DEUS VEM AO ENCONTRO DO HOMEM

    ARTIGO 3

    A SAGRADA ESCRITURA

    IV. O Cnon das Escrituras

    120. Foi a Tradio Apostlica que levou a Igreja a discernir quais os escritos que

    deviam ser contados na lista dos livros sagrados (DV 8). Esta lista integral chamada

    Cnon das Escrituras. Comporta, para o Antigo Testamento, 46 (45, se se contar

    Jeremias e as Lamentaes como um s) escritos, e, para o Novo, 27 (DV 12):

    Para o Antigo Testamento: Gnesis, xodo, Levtico, Nmeros, Deuteronmio, Josu,

    Juzes, Rute, os dois livros de Samuel, os dois livros dos Reis, os dois livros das

    Crnicas, Esdras e Neemias, Tobias, Judite, Ester, os dois livros dos Macabeus, J, os

    Salmos, os Provrbios, o Eclesiastes (ou Coelet), o Cntico dos Cnticos, a Sabedoria, o

    livro de Ben-Sirac (ou Eclesistico), Isaas, Jeremias, as Lamentaes, Baruc, Ezequiel,

    Daniel, Oseias, Joel, Ams, Abdias, Jonas, Miqueias, Naum, Habacuc, Sofonias, Ageu,

    Zacarias e Malaquias.

    Para o Novo Testamento: Os evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e Joo; os Atos dos

    Apstolos; as epstolas de So Paulo: aos Romanos, primeira e segunda aos Corntios,

    aos Glatas, aos Efsios, aos Filipenses, aos Colossenses, primeira e segunda aos

    Tessalonicenses, primeira e segunda a Timteo, a Tito, a Filemon: a Epstola aos

    Hebreus; a Epstola de Tiago, a primeira e segunda de Pedro, as trs epstolas de Joo, a

    Epstola de Judas e o Apocalipse.

  • O ANTIGO TESTAMENTO

    121. O Antigo Testamento uma parte da Sagrada Escritura de que no se pode

    prescindir. Os seus livros so divinamente inspirados e conservam um valor permanente

    (DV 14), porque a Antiga Aliana nunca foi revogada.

    122. Efetivamente, a economia do Antigo Testamento destinava-se, sobretudo, a

    preparar [...] o advento de Cristo, redentor universal.

    Os livros do Antigo Testamento, apesar de conterem tambm coisas imperfeitas e

    transitrias, do testemunho de toda a divina pedagogia do amor salvfico de Deus:

    neles encontram-se sublimes doutrinas a respeito de Deus, uma sabedoria salutar a

    respeito da vida humana, bem como admirveis tesouros de preces; neles, em suma,

    est latente o mistrio da nossa salvao (DV 15).

    123. Os cristos veneram o Antigo Testamento como verdadeira Palavra de Deus. A

    Igreja combateu sempre vigorosamente a ideia de rejeitar o Antigo Testamento, sob o

    pretexto de que o Novo o teria feito caducar (Marcionismo).

    O NOVO TESTAMENTO

    124. A Palavra de Deus, que fora de Deus para salvao de quem acredita,

    apresenta-se e manifesta o seu poder dum modo eminente nos escritos do Novo

    Testamento (DV 17). Estes escritos transmitem-nos a verdade definitiva da Revelao

    divina. O seu objeto central Jesus Cristo, o Filho de Deus encarnado, os seus atos, os

    seus ensinamentos, a sua Paixo e glorificao, bem como os primrdios da sua Igreja

    sob a ao do Esprito Santo (DV 20).

  • 125. Os evangelhos so o corao de todas as Escrituras, enquanto so o principal

    testemunho da vida e da doutrina do Verbo encarnado, nosso Salvador (DV 18).

    126. Na formao dos evangelhos podemos distinguir trs etapas:

    1. A vida e os ensinamentos de Jesus. A Igreja sustenta firmemente que os quatro

    evangelhos, cuja historicidade afirma sem hesitaes, transmitem fielmente as coisas

    que Jesus, Filho de Deus, realmente operou e ensinou para salvao eterna dos homens,

    durante a sua vida terrena, at ao dia em que subiu ao Cu.

    2. A tradio oral. Na verdade, aps a Ascenso do Senhor, os Apstolos transmitiram

    aos seus ouvintes (com aquela compreenso mais plena de que gozavam, uma vez

    instrudos pelos acontecimentos gloriosos de Cristo e iluminados pelo Esprito de

    verdade) as coisas que Ele tinha dito e feito.

    3. Os evangelhos escritos. Os autores sagrados, porm, escreveram os quatro

    evangelhos, escolhendo algumas coisas, entre as muitas transmitidas por palavra ou por

    escrito, sintetizando umas, desenvolvendo outras, segundo o estado das Igrejas,

    conservando, finalmente, o carcter de pregao, mas sempre de maneira a comunicar-

    nos coisas verdadeiras e sinceras acerca de Jesus (DV 19).

    127. O Evangelho quadriforme ocupa na Igreja um lugar nico, de que so testemunhas

    a venerao de que a Liturgia o rodeia e o atrativo incomparvel que em todos os

    tempos exerceu sobre os santos:

    No h doutrina melhor, mais preciosa e esplndida do que o texto do Evangelho.

    Vede e retende o que nosso Senhor e Mestre, Cristo, ensinou pelas suas palavras e

    realizou pelos seus atos (Santa Cesria, A Jovem, Epistula ad Richildam et

    Radegundem: SC 345,480).

    sobretudo o Evangelho que me ocupa durante as minhas oraes. Nele encontro tudo

    o que necessrio minha pobre alma. Nele descubro sempre novas luzes, sentidos

    escondidos e misteriosos (Santa Teresa do Menino Jesus e da Santa Face, Obras

    Completas, Pao de Arcos. Edies do Carmelo 1996, p. 213).

    A UNIDADE DO ANTIGO E DO NOVO TESTAMENTO

    128. A Igreja, j nos tempos apostlicos (cf. 1Cor 10,6; Hb 10,1; 1Pd 3,21), e depois

    constantemente na sua Tradio, ps em evidncia a unidade, do plano divino nos dois

  • Testamentos, graas tipologia. Esta descobre nas obras de Deus, na Antiga Aliana,

    prefiguraes do que o mesmo Deus realizou na plenitude dos tempos, na pessoa do seu

    Filho encarnado.

    129. Os cristos leem, pois, o Antigo Testamento luz de Cristo morto e ressuscitado.

    Esta leitura tipolgica manifesta o contedo inesgotvel do Antigo Testamento. Mas

    no deve fazer-nos esquecer de que ele mantm o seu valor prprio de Revelao,

    reafirmado pelo prprio Jesus, nosso Senhor (cf. Mc 12,29-31). Alis, tambm o Novo

    Testamento requer ser lido luz do Antigo. A catequese crist primitiva recorreu

    constantemente a este mtodo (cf. 1Cor 5,6-8; 10,1-11). Segundo um velho adgio, o

    Novo Testamento est oculto no Antigo, enquanto o Antigo desvendado no Novo:

    Novum in Vetere latet et in Novo Vetus patet O Novo est oculto no Antigo, e o Antigo est patente no Novo (Santo Agostinho, Quaestiones in Heptateucumt 2, 73:

    CCL 33. 106 [PL 34, 623]).

    130. A tipologia significa o dinamismo em ordem ao cumprimento do plano divino,

    quando Deus for tudo em todos (1Cor 15, 28). Assim, a vocao dos patriarcas e o

    xodo do Egito, por exemplo, no perdem o seu valor prprio no plano de Deus pelo

    fato de, ao mesmo tempo, serem etapas intermdias desse mesmo plano.

    V. A Sagrada Escritura na vida da Igreja

    131. to grande a fora e a virtude da Palavra de Deus, que ela se torna para a Igreja

    apoio e vigor e, para os filhos da Igreja, solidez da f, alimento da alma, fonte pura e

    perene de vida espiritual (DV 21). necessrio que os fiis tenham largo acesso

    Sagrada Escritura (DV 22).

    132. O estudo das Pginas sagradas deve ser como que a "alma" da sagrada teologia.

    Tambm o ministrio da Palavra, isto , a pregao pastoral, a catequese, e toda a

    espcie de instruo crist, na qual a homilia litrgica deve ter um lugar principal, com

    proveito se alimenta e santamente se revigora com a palavra da Escritura (DV 24).

  • 133. A Igreja exorta com ardor e insistncia todos os fiis [...] a que aprendam "a

    sublime cincia de Jesus Cristo" (Fl 3,8) na leitura frequente da Sagrada Escritura.

    Porque "a ignorncia das Escrituras ignorncia de Cristo" (DV 25).

    Resumindo:

    134. Omnis Scriptura divina unus liber est, et ille unus liber Christus est, quia omnis

    Scriptura divina de Christo loquitur; et omnis Scriptura divina in Christo impletur Toda a Escritura divina um s livro, e esse livro nico Cristo, porque toda a

    Escritura divina fala de Cristo e toda a Escritura divina se cumpre em Cristo (Hugo

    de So Vtor, De arca Noe II, 8: PL 176,642; cf. Ibid. 2. 9: PL 176,642-643).

    135. As Sagradas Escrituras contm a Palavra de Deus; e, pelo fato de serem

    inspiradas, so verdadeiramente a Palavra de Deus (DV 24).

    136. Deus o autor da Sagrada Escritura, ao inspirar os seus autores humanos: age

    neles e por eles. E assim nos d a garantia de que os seus escritos ensinam, sem erro, a

    verdade da salvao (DV 11).

    137. A interpretao das Escrituras inspiradas deve, antes de mais nada, estar atenta

    ao que Deus quer revelar, por meio dos autores sagrados, para nossa salvao. O que

    vem do Esprito no plenamente entendido seno pela ao do Esprito (Cf. Orgenes,

    Homiliae in Exodum 4,5: SC 321,128 [PG 12, 320]).

    138. A Igreja recebe e venera, como inspirados, os 46 livros do Antigo e os 27 do Novo

    Testamento.

    139. Os quatro evangelhos ocupam um lugar central, dado que Jesus Cristo o seu

    centro.

    140. A unidade dos dois Testamentos deriva da unidade do plano de Deus e da sua

    Revelao. O Antigo Testamento prepara o Novo, ao passo que o Novo d cumprimento

    ao Antigo. Os dois esclarecem-se mutuamente; ambos so verdadeira Palavra de Deus.

    141. A Igreja sempre venerou as Divinas Escrituras, tal como o prprio Corpo do

    Senhor ambos alimentam e regem toda a vida crist. A vossa Palavra farol para os

    meus passos e luz para os meus caminhos (Sl 119,105; cf. Is 50,4).

  • REVISANDO TEMAS

    1. Cnon da Escritura

    O Cnon da Escritura importante para fazer frente tentao recorrente tanto de

    excluir certas partes das Escrituras quanto de acrescentar outros escritos que se

    apresentam com uma roupagem de revelao divina. Exemplos histricos da tendncia

    de cancelar partes da Bblia so os agnsticos e o marcionismo. Os agnsticos

    rejeitavam os textos que falavam da encarnao do Verbo. Marcio rejeitava o AT

    porque o considerava obra do Demiurgo Mau.

    Tanto a tendncia de querer acrescentar outros escritos pretensamente inspirados quanto

    aquela de excluir certas partes da Bblia no fazem justia novidade de Cristo porque a

    consideram incompleta (e por isso preciso acrescentar outros livros) ou porque

    contaminada por doutrinas humanas (e por isso as Escrituras precisariam ser purificadas desses desvios).

    Ateno: Marcionismo e Gnosticismo.

    Marcionismo: movimento dualista asctico fundado por Marcio, nascido no Ponto, na

    sia Menor. Marcio veio a Roma aproximadamente no ano 140 e foi excomungado em

    144. Nas suas Antteses, ele sustentava que o criador (demiurgo) e a lei do AT eram

    absolutamente incompatveis com o Deus de amor e de graa pregado por Jesus. Por

    isso ele rejeitava completamente as Escrituras hebraicas, aceitava somente as cartas

    paulinas e uma verso mutilada do Evangelho de Lucas. Interpretava a pessoa e a obra

    de Cristo segundo uma perspectiva doceta. Por algum tempo, Marcio teve muitos

    seguidores. Grandes telogos, como Santo Irineu de Lio (aprox. 130-200) e Tertuliano

    (aprox. 160-220), sentiram o dever de confut-lo. A formao do cnon foi em parte

    uma resposta s teorias erradas de Marcio no fim do sc. III, os seus seguidores tinham

    se tornado em grande parte maniqueus. Mas, a rejeio marcionita ou ao menos a

    subestimao do AT permanece como tentao perene para os cristos.

  • Gnosticismo: movimento religioso dualista, que

    1. se inspirava no hebrasmo, no cristianismo e no paganismo; 2. emergiu com clareza no sc. II; 3. apresentava a salvao como um conjunto de elementos espirituais livres da

    matria ambiental malvada.

    Os gnsticos cristos negavam a encarnao rela de Cristo e a salus carnis (lat.

    salvao da carne) por ele realizada. Rejeitavam (ou modificavam) a tradio e as escrituras nas linhas fundamentais do cristianismo, vangloriando-se de um

    conhecimento privilegiado (de Deus e da nossa sorte humana) como fruto de tradies

    secretas e de revelaes. Os escritores ortodoxos cristos, especialmente Santo Irineu

    (aprox 130-200) fornecem muitas informaes sobre o gnosticismo. Um conhecimento

    direto mais profundo desse movimento foi possvel depois de 1945, quando cinqenta e

    dois escritos que tratavam do gnosticismo, em lngua copta e do sc. IV d.C., foram

    encontrados em Nag Hammadi (Egito).

    Leitura complementar. O cnon bblico obriga tambm a levar em considerao as

    passagens bblicas que descrevem atos imorais e violentos. Tambm tais passagens so

    Escritura inspirada e no devem ser canceladas sob o pretexto de depurar a Palavra de

    Deus de tais mculas para torna-las mais edificantes. Mas preciso ler tais passagens levando em o carter histrico da Revelao e das Escrituras. sobre esse

    tema que se debrua a Verbum Domini 42.

    No contexto da relao entre Antigo e Novo Testamento, o Snodo enfrentou tambm o

    caso de pginas da Bblia que s vezes se apresentam obscuras e difceis por causa da

    violncia e imoralidade nelas referidas. Em relao a isto, deve-se ter presente antes de

    mais nada que a revelao bblica est profundamente radicada na histria. Nela se vai

    progressivamente manifestando o desgnio de Deus, atuando-se lentamente ao longo de

    etapas sucessivas, no obstante a resistncia dos homens. Deus escolhe um povo e,

    pacientemente, realiza a sua educao. A revelao adapta-se ao nvel cultural e moral

    de pocas antigas, referindo consequentemente fatos e usos como, por exemplo,

    manobras fraudulentas, intervenes violentas, extermnio de populaes, sem

    denunciar explicitamente a sua imoralidade. Isto se explica a partir do contexto

    histrico, mas pode surpreender o leitor moderno, sobretudo quando se esquecem

    tantos comportamentos obscuros que os homens sempre tiveram ao longo dos

    sculos, inclusive nos nossos dias. No Antigo Testamento, a pregao dos profetas

    ergue-se vigorosamente contra todo o tipo de injustia e de violncia, coletiva ou

    individual, tornando-se assim o instrumento da educao dada por Deus ao seu povo

    como preparao para o Evangelho. Seria, pois, errado no considerar aqueles passos

    da Escritura que nos aparecem problemticos. Entretanto deve-se ter conscincia de

    que a leitura destas pginas requer a aquisio de uma adequada competncia, atravs

    duma formao que leia os textos no seu contexto histrico-literrio e na perspectiva

    crist, que tem como chave hermenutica ltima o Evangelho e o mandamento novo

    de Jesus Cristo realizado no mistrio pascal. Por isso exorto os estudiosos e os

    pastores a ajudarem todos os fiis a abeirar-se tambm destas pginas por meio de

    uma leitura que leve a descobrir o seu significado luz do mistrio de Cristo.

  • 2. Unidade do AT e NT

    A doutrina da unidade do AT e do NT comum a toda a Tradio patrstica e medieval.

    Essa unidade tem o seu centro na Pessoa do Filho de Deus encarnado e decorre da

    unidade do desgnio e da revelao de Deus. Por isso, a palavra antigo que damos aos livros da Antiga Aliana no deve nos levar a pensar que j tenham perdido o seu valor.

    Depois de considerar a ntima relao que une o Novo Testamento ao Antigo,

    espontneo fixar a ateno no vnculo peculiar que isso cria entre cristos e judeus, um

    vnculo que no deveria jamais ser esquecido. Aos judeus, o Papa Joo Paulo II

    declarou: sois os nossos irmos prediletos na f de Abrao, nosso patriarca. Por certo, estas afirmaes no significam ignorar as rupturas atestadas no Novo

    Testamento relativamente s instituies do Antigo Testamento e menos ainda o

    cumprimento das Escrituras no mistrio de Jesus Cristo, reconhecido Messias e Filho

    de Deus. Mas esta diferena profunda e radical no implica de modo algum hostilidade

    recproca. Pelo contrrio, o exemplo de So Paulo (cf. Rm 9-11) demonstra que uma

    atitude de respeito, estima e amor pelo povo judeu a nica atitude verdadeiramente

    crist nesta situao que, misteriosamente, faz parte do desgnio totalmente positivo de

    Deus. De fato, o Apstolo afirma que os judeus, quanto escolha divina, so amados

    por causa dos Patriarcas, pois os dons e o chamamento de Deus so irrevogveis (Rm

    11,28-29). Alm disso, usa a bela imagem da oliveira para descrever as relaes muito

    estreitas entre cristos e judeus: a Igreja dos gentios como um rebento de oliveira

    brava enxertado na oliveira boa que o povo da Aliana (cf. Rm 11,17-24).

    Alimentamo-nos, pois, das mesmas razes espirituais. Encontramo-nos como irmos;

    irmos que em certos momentos da sua histria tiveram um relacionamento tenso, mas

    agora esto firmemente comprometidos na construo de pontes de amizade

    duradoura. Como disse o Papa Joo Paulo II noutra ocasio: Temos muito em

    comum. Juntos podemos fazer muito pela paz, pela justia e por um mundo mais

    fraterno e mais humano. Desejo afirmar uma vez mais quo precioso para a Igreja o

    dilogo com os judeus. bom que, onde isto se apresentar como oportuno, se criem

    possibilidades mesmo pblicas de encontro e dilogo, que favoream o crescimento do

    conhecimento mtuo, da estima recproca e da colaborao inclusive no prprio estudo

    das Sagradas Escrituras (VD 43).

    O que tipologia? Tipologia o modo de interpretar eventos, pessoas e coisas como tipos que revelam em modo obscuro os anttipos do NT que realizam a revelao e a salvao. Assim Ado e Melquisedec so tipos de Cristo (Rm 5,14; Hb 6,20-7,28). A histria do

    Povo de Deus no xodo do Egito prefigura as dificuldades que os cristos devem

    enfrentar e os sacramentos que recebem (1Cor 10,1-11). O dilvio prefigura o batismo

    (1Pd 3,20-21) e o man no deserto antecipa o po da vida (Jo 6,48-51). Santo Irineu

    (130-200) e depois a escola de Alexandria foram atentos a esse sentido tpico da

    Escritura que Orgenes (185-254) desenvolveu numa direo alegrica. No ocidente a

    interpretao tipolgica foi adotada por Ambrsio (339-397) e depois por Santo

    Agostinho de Hipona (354-430) atravs do qual passou para os latinos da Idade Mdia.

  • 3. Etapas da formao dos Evangelhos

    A origem dos Quatro Evangelhos (e tambm dos outros escritos do NT) depende da

    comunidade primitiva. Mais exatamente, eles so posteriores existncia da Igreja

    Primitiva. Em sua forma escrita, a Palavra de Deus posterior existncia da Igreja dos

    Apstolos: primeiro a Igreja Apostlica recebeu a revelao divina e a tradio dos

    Apstolos e a testemunharam pela palavra (pregao), pela eucaristia (liturgia) e pela

    vida (martrio e servio), e s depois apareceram os escritos do NT como fixao escrita

    e inspirada da f vivida pela Igreja. A origem dos escritos do NT atesta o fato de que a

    Palavra de Deus foi escrita primeiramente no corao dos fiis, e s depois nos meios

    materiais. Os escritos do NT so Palavra de Deus exatamente porque so o testemunho

    inspirado e consignado por escrito do desgnio histrico-salvfico de Deus realizado

    visivelmente na Igreja. Justamente por ser essa a autoexpresso escrita da f da Igreja

    apostlica, a Escritura tornou-se para a Igreja posterior norma non normata (norma

    suprema) da f e da fidelidade da Igreja. Por isso quando a Igreja l a Escritura,

    reconhece-se nela e reconhece sua prpria f.

    A Igreja e a Escritura

    H uma verdadeira e perene osmose entre Igreja e Escritura: a Igreja recebe, contm e

    transmite a Escritura; a Escritura rene a comunidade. Onde a Sagrada Escritura separada da voz viva da Igreja, torna-se vtima das controvrsias dos peritos (Bento XVI, Homilia de posse da Baslica do Latro, 7 de maio de 2005).

Recommended

View more >