Narrativas como tcnica de pesquisa em enfermagem

  • Published on
    08-Jan-2017

  • View
    215

  • Download
    0

Transcript

423NNNNNARRAARRAARRAARRAARRATIVTIVTIVTIVTIVAS COMO AS COMO AS COMO AS COMO AS COMO TCNICA DE PESQTCNICA DE PESQTCNICA DE PESQTCNICA DE PESQTCNICA DE PESQUISA EM ENFERMAUISA EM ENFERMAUISA EM ENFERMAUISA EM ENFERMAUISA EM ENFERMAGEMGEMGEMGEMGEMDenise Guerreiro Vieira da Silva1Mercedes Trentini2Silva DGV, Trentini M. Narrativas como tcnica de pesquisa em enfermagem. Rev Latino-am Enfermagem 2002maio-junho; 10(3):423-32.O texto apresenta a narrativa como possibilidade de abordagem para pesquisas na enfermagem, especialmentecomo tcnica de coleta e anlise de dados, destacando seus aspectos tericos e prticos. Inclui uma reviso doconceito de narrativa, por meio da compreenso dos autores de diferentes reas do conhecimento: filosofia, antropologia,lingstica e enfermagem. Quanto ao aspecto prtico de sua aplicao na pesquisa, introduz trs diferentes tipos denarrativas, identificadas a partir das histrias que as pessoas contam: narrativas breves, narrativas de vivncias enarrativas populares. Inclui, tambm, formas de apresentao das narrativas em textos cientficos e seu processo deinterpretao. Destaca que as narrativas criam um campo de ao coletiva e permitem aos profissionais de sade aconstruo de conhecimento alicerado na experincia das pessoas.DESCRITORES: pesquisa em enfermagem, pesquisa metodolgica em enfermagemNNNNNARRAARRAARRAARRAARRATIONS TIONS TIONS TIONS TIONS AS AS AS AS AS A NURSING RESEARA NURSING RESEARA NURSING RESEARA NURSING RESEARA NURSING RESEARCH CH CH CH CH TECHNIQTECHNIQTECHNIQTECHNIQTECHNIQUEUEUEUEUEThe text introduces the narrations as a possibility of approach in nursing research, specially as a technique ofdata collection and analysis, emphasizing its theoretical and practical aspects. A review of the narrative concept isincluded, through the understanding of authors from different knowledge areas: philosophy, anthropology, linguisticsand nursing. With respect to the practical aspect of its application to research, three different types of narrative areintroduced, identified based on the accounts rendered by individuals: short narrations, narrations of lived experiences,and popular narrations. The study also includes ways to present the narratives in scientific texts and their process ofinterpretation. Authors highlight that the narrations create a field of collective action, allowing health professionals tobuild up knowledge based on the individuals experience.DESCRIPTORS: nursing research, research methodology, personal narratives1 Doutor em Enfermagem, Professor do Departamento de Enfermagem e do Programa de Ps-Graduao, e-mail:denise@nfr.ufsc.br; 2 Doutor em Enfermagem, Professor Aposentado do Programa de Ps-Graduao em Enfermagem,e-mail: trentini@ccs.ufsc.br. Universidade Federal de Santa CatarinaRev Latino-am Enfermagem 2002 maio-junho; 10(3):423-32www.eerp.usp.br/rlaenf Artigo de Atualizao424LA NLA NLA NLA NLA NARRAARRAARRAARRAARRACIN COMO CIN COMO CIN COMO CIN COMO CIN COMO TCNICA DE INVESTIGATCNICA DE INVESTIGATCNICA DE INVESTIGATCNICA DE INVESTIGATCNICA DE INVESTIGACIN EN ENFERMERIACIN EN ENFERMERIACIN EN ENFERMERIACIN EN ENFERMERIACIN EN ENFERMERIAEl texto presenta a la narracin como posibilidad de abordaje para investigaciones en enfermera, especialmentecomo tcnica de recoleccin y anlisis de datos, destacando sus aspectos tericos y prcticos. Incluye una revisindel concepto de narrativa evidenciando que viene siendo comprendida por autores de diferentes reas de conocimiento:filosofa, antropologa, lingstica y enfermera. En cuanto al aspecto prctico de su aplicacin en investigacin, incluyetres diferentes tipos de narraciones, identificadas a partir de las historias que las personas cuentan: narracionesbreves, narraciones de vivencias, y narraciones populares. Incluye tambin formas de presentacin de las narracionesen textos cientficos y en procesos de interpretacin de los mismos. Destaca que las narraciones crean un campo deaccin colectiva y permiten a los profesionales de la salud una construccin de conocimiento prximo a las experienciasde las personas.DESCRIPTORES: investigacin en enfermera, metodologa de investigacin, narrativas personalesINTRODUOTemos percebido, em nossas atividadesde cuidado e de pesquisa, que as pessoas, aoserem solicitadas a responderem questes emrelao sua doena, relatam outrosacontecimentos ocorridos durante o processode adoecer. primeira vista, parece que essesfatos nada tm a ver com a experincia dadoena e que as falas estariam se desviandoda inteno da entrevista. Porm, quando oentrevistado relata-nos longas e complicadashistrias, est, de certa forma, revelando-secomo pessoa. Se partirmos do pressuposto deque, para exercer o cuidado de enfermagem edesenvolver a pesquisa de campo, precisamosfazer interaes sociais, ouvir com ateno oque as pessoas tm e querem contar mostra-se como uma boa estratgia para obterinformaes a fim de planejar o cuidado e/oufazer abstraes e interpretaes acerca daprtica pela pesquisa. As anlises que, muitasvezes, temos feito sobre a condio de sadedas pessoas, tem se limitado a interpretar sinaise sintomas e avaliar tratamentos,desconsiderando, na maioria das vezes, aexperincia da doena como um todo. Osprofissionais de sade foram treinados,tradicionalmente, para privilegiar oconhecimento da biomedicina, o que temlevado a muitas frustraes, especialmente nasatividades de cuidado e de pesquisa compessoas em condies crnicas, em que adoena no algo passageiro, mas permanecee torna-se imbricada na vivncia do dia a dia.A experincia tem mostrado que asinformaes obtidas, sejam para fins depesquisa ou para a prtica assistencial deenfermagem (cuidado), precisam seranalisadas tendo como referncia o contextodas pessoas informantes. Para isso, necessita-se ampliar a maneira de obter informaes emrelao viso de mundo do informante. A reada antropologia tem desenvolvido abordagensmetodolgicas e tcnicas de pesquisa, as quaistm ajudado nessa investida, a exemplo dasnarrativas.Na antropologia, as narrativas sempreforam consideradas como a principal expressousada pelas pessoas para contarem suassagas coletivas ou individuais (conquistas,derrotas, dramas pessoais, alegrias, aflies).Narrativa uma forma universal encontrada emtodas as culturas, atravs das quais as pessoasNarrativas como tcnica...Silva DGV, Trentini M.Rev Latino-am Enfermagem 2002 maio-junho; 10(3):423-32www.eerp.usp.br/rlaenf425expressam suas percepes do cosmos, suaviso de mundo, as maneiras de interpretar osacontecimentos e tambm os conflitos quevivem(1).Neste texto iremos apresentar anarrativa como uma possibilidade deabordagem em pesquisa, especialmente comotcnica de coleta e anlise de dados,destacando seu reconhecimento em diferentesreas do conhecimento e de maneira maisespecfica na enfermagem.NARRATIVANarrar uma manifestao queacompanha o homem desde sua origem,podendo ser feita oralmente ou por escrito,usando imagens ou no. Gravaes em pedras;mitos que falam das histrias, das origens depovos, objetos, lugares; a Bblia, que incluimuitas narrativas, tais como a origem dohomem e da mulher, os milagres de Jesus, soexemplos do seu uso na histria(2). Atualmente,podemos citar as novelas, os filmes, as peasde teatro, as notcias de jornal.Refletir sobre o ato de narrar quaseto antigo quanto o prprio narrar. Plato eAristteles iniciaram, na tradio Ocidental,uma discusso sobre a relao entre o modode narrar, a representao da realidade e osefeitos sobre os ouvintes e/ou leitores, que vemtendo continuidade at os dias atuais(3).Assim, a narrativa como objeto dacincia nasceu nas Cincias Humanas, maisespecialmente na lingstica, que definidacomo o estudo cientfico que visa descrever ouexplicar a linguagem verbal humana(4). Nalingstica, diferentes correntes desenvolveram-se, tais como a Sociolingstica, que toma asociedade como causa, vendo, na linguagem,os reflexos das estruturas sociais; aEtnolingstica, onde a linguagem causa dasestruturas sociais e culturais; e a Sociologia dalinguagem, que tem como base a teoria dosfatos sociais, dos poderes da linguagem (magia,rituais religiosos, etc). Nessa ltima corrente,esto os trabalhos da etnografia da fala, quemostram a estreita relao entre a linguageme a viso de mundo dos que a falam. Nasociologia da linguagem, est includa aPragmtica, que fundamenta a anlise danarrativa. A Pragmtica considera que alinguagem no usada apenas para informar,mas para realizar vrios tipos de ao, aomesmo tempo que includa a noo de dilogoe de argumentao(5). ressaltada a importncia e o uso amplodas narrativas na Antropologia da Sade, comoforma coerente e adequada para se obterinformao acerca das prticas e saberes emsade de um grupo, uma vez que as narrativaspermitem que seja mantido o elo fundamentalentre saber e contexto(6).Narrativa uma tradio de contar umacontecimento em forma seqencial, cujacomposio mais simples inclui comeo, meioe fim, e tem, em sua estrutura, cinco elementosessenciais: o enredo (conjunto de fatos); as/ospersonagens (quem faz a ao); o tempo(poca em que se passa a histria, durao dahistria); o espao (lugar onde se passa a ao)e o ambiente (espao carregado decaractersticas socioeconmicas, morais epsicolgicas onde vivem as/os personagens)(2).Ao narrar um acontecimento, a pessoareorganiza sua experincia, de modo que elatenha ordem coerente e significativa, dando umsentido ao evento. uma expresso simblicaque explica e instrui como entender o que estacontecendo(1).Rev Latino-am Enfermagem 2002 maio-junho; 10(3):423-32www.eerp.usp.br/rlaenfNarrativas como tcnica...Silva DGV, Trentini M.426Por meio das narrativas, podemos teracesso experincia do outro, porm de modoindireto, pois a pessoa traz sua experincia ans da maneira como ela a percebeu, oumelhor, da maneira como a interpretou. Apessoa fala de suas experincias, reconstruindoeventos passados de uma maneira congruentecom sua compreenso atual; o presente explicado tendo como referncia o passadoreconstrudo, e ambos so usados para gerarexpectativas sobre o futuro(7).Ao contar um acontecimento, a pessoatem compromisso com a expresso simblicado mundo e como ele funciona. Ela se refere aum acontecimento que ocorreu no passado,mas, agora, luz de novas vivncias, de outrosconhecimentos que adquiriu, de outros padresde comportamentos que socialmente soestabelecidos, enfim, ela reconta oacontecimento a partir de novas reflexes sobrea experincia passada(6). Essa compreensoda narrativa permite perceber a realidade comoum processo dinmico, criativo, em que tantoo narrador quanto a realidade renascem,tornando nica cada narrativa(8). A vida de umapessoa tem muitas ramificaes,entrelaamentos, expanses e uma infinidadede possibilidades a serem realizadas, que serelacionam com muitas outras experincias,permitindo que um evento seja contado erecontado de diferentes maneiras,considerando-se diferentes pontos de vista.Narrativas so sempre verses editadas do queaconteceu, no so descries objetivas eimparciais, pois a pessoa sempre faz escolhassobre o que quer contar(9).Outro aspecto que tambm estenvolvido em uma narrativa o ouvinte. Apessoa organiza sua narrativa tambmconsiderando quem a est ouvindo. Ela tentaguiar a impresso que o outro ter a seurespeito, geralmente projetando uma imagemfavorvel. Isso pode ser verificado na fora queo narrador coloca em certos aspectos de suahistria, no s no que ele diz, mas tambmem como ele diz, tentando convencer seuouvinte(9).Na composio de uma narrativa, oenredo (ou intriga) vai sendo organizado noentrelaamento de diferentes acontecimentosou incidentes individuais, dirigidos para aconfigurao de uma histria considerada noseu todo. Seguir uma histria avanar nomeio de contingncias e peripcias sob aconduta de uma espera que encontra suarealizao na concluso [...]. Compreender ahistria, compreender como e por que osepisdios sucessivos conduziram a essaconcluso, a qual, longe de ser previsvel, devefinalmente ser aceitvel, como congruente comos episdios reunidos(10).As narrativas no so apenas o produtode uma experincia individual, mas soconstrudas dialogicamente, utilizando-se deformas culturais populares para descreverexperincias compartilhadas por membros deuma famlia, de um grupo ou de umacomunidade(11). As histrias que contam sobresuas vidas e sobre como viver com a doena,representam a expresso de uma experinciaque foi sendo construda nas interaes sociais,nas anlises compartilhadas sobre osacontecimentos vividos e nas versesreelaboradas desses acontecimentos. Astrocas de informaes entre familiares, vizinhos,amigos e mesmo pessoas desconhecidas comas quais interagem nos servios de sade,participam na conformao da experincia deviver com a doena e geram uma narrativasobre esta experincia, pois a doena estRev Latino-am Enfermagem 2002 maio-junho; 10(3):423-32www.eerp.usp.br/rlaenfNarrativas como tcnica...Silva DGV, Trentini M.427alicerada na historicidade humana, na suatemporalidade, sendo constituda por uma redede perspectivas(11).Com a vivncia da doena, as pessoaspassam a ter uma outra histria para contar.Essas histrias no so histrias separadas doprocesso de viver, mas so convergentes maneira de ver o mundo e de viver nele,passando a integrar-se a esse mundo. Elasrelatam vrias situaes vividas, que, no seuconjunto, tm um sentido maior, o que astransforma em histrias acessveis aos outros.Ao compreenderem o sentido de uma histria,as pessoas captam a experincia ali contida,porm a experincia de uma pessoa no podese tornar diretamente a experincia de outra, oque possvel transferir a significao dessaexperincia(12). Desse modo, as pessoas, aonarrarem sua vivncia, abrem seu discurso demodo a permitir a apreenso de suasignificao por outras pessoas.NARRATIVAS NA PRTICA DEPESQUISA EM ENFERMAGEMNarrativas tm sido apresentadas comoum caminho para obter maior conhecimentosobre o cuidado de enfermagem e, maisrecentemente, tambm como mtodo depesquisa em enfermagem(8). O pesquisadortem um grande desafio ao usar a formanarrativa para conhecer as experincias vividaspelas pessoas. Esse desafio acontece nainterpretao das narrativas, pois ter queelucidar seus significados potenciais e oprocesso de produo de significado de taisnarrativas, que inerente interao entreouvinte/leitor e o texto/narrativa. O pesquisadorprecisa descobrir os conflitos presentes nasnarrativas, como so interpretados e como soresolvidos, procurando identificar como aspessoas constrem seu mundo e como essemundo funciona. Assim, a partir das narrativas,o pesquisador vai buscar estabelecer aestrutura de um episdio, organizar a seqnciados eventos, estabelecer explicaes por meioda interpretao dos eventos, identificando osdramas e/ou conflitos sociais, os significadosque do sentido experincia.A partir da literatura e de nossaexperincia com o uso de narrativas napesquisa em enfermagem, percebemos que hdiferentes tipos de narrativas, as quais foramidentificadas nas histrias das pessoas que noscontam suas prticas e saberes em sade. Taisexperincias foram traduzidas em:a) narrativas breves: focalizando umdeterminado episdio, como a descoberta dadoena, um sbito mal-estar. Essas narrativaspodem ser apresentadas como resposta pergunta, durante um dilogo ou extradas deum texto de uma narrativa mais ampla. Oelemento bsico que contenha a estruturamnima de uma narrativa: comeo, meio e fim.So narrativas mais sintticas, em que sofacilmente identificadas a seqncia do enredo.b) narrativas de vivncias: so mais amplas,incluindo a histria da vivncia de uma pessoacom a doena. Essa narrativa inclui vriosepisdios que, geralmente, so colocadosnuma seqncia de acontecimentos, dos quaisnem sempre h uma interpretao temporal,construindo-se a experincia como umprocesso. A pessoa, geralmente, est contandoum acontecimento longo e vai trazendo outrosfatos, episdios, comentrios relacionados, oque enriquece a histria, ao mesmo tempo quepode afastar o enredo e confundir a anlise.c) narrativas populares: so as histriasRev Latino-am Enfermagem 2002 maio-junho; 10(3):423-32www.eerp.usp.br/rlaenfNarrativas como tcnica...Silva DGV, Trentini M.428contadas e recontadas entre pessoas de umacomunidade, podendo, algumas vezes,tornarem-se lendas. Essas histrias populares,muitas vezes, tornam-se referncia para aanlise de situaes vividas no presente pelaspessoas daquela comunidade. So narrativasmuitas vezes complexas, ajustadas a cadasituao, nas quais identificar o enredo poderequerer grande investimento e habilidade dopesquisador. Elas, geralmente, soapresentadas inter-relacionadas com outrashistrias.Esses trs tipos de narrativas podem serobtidos, de diferentes maneiras, peloenfermeiro, sendo que, mais freqentemente,usamos a tcnica de entrevista aberta,contendo questes provocadoras, ou seja,abordagens que levem a pessoa contar comoaconteceu determinado fato, ou narrar suavivncia com a doena ou, ainda, histrias queouviu ou de que participou. A entrevista maisutilizada para os dois primeiros tipos denarrativas apresentados: as narrativas brevese as narrativas de vivncias.Outra forma de obterem narrativas aobservao ou observao participante, emque o pesquisador procura registrar histriascontadas por pessoas de uma comunidade. Aobservao participante especialmenteindicada para o terceiro tipo de narrativa: asnarrativas populares. O dilogo entre pessoasda comunidade, de grupos ou de pessoas deuma famlia, captado pelo pesquisador,juntamente com a observao de como essashistrias interferem no cotidiano das pessoase como so usadas como referncia paraanlises de outras experincias.Em ambas as tcnicas usadas paraobter narrativas (entrevista e observao), importante destacar a necessidade de opesquisador desenvolver algumas habilidades.Saber ouvir ponto fundamental, devendoevitar interromper o fluxo do pensamento dequem est contando a histria, com perguntassobre detalhes, ou para tentar manter a histriadentro do curso que se traou previamente.Vale salientar que, ao selecionar algunsdetalhes para compor sua histria, a pessoaest evidenciando o que considera importante,o que nos aproximar de sua viso de mundo.Portanto, fundamental deixar fluir a narrativa.Somente quando o narrador encerra umahistria, que podemos apresentar uma novaquesto dirigida para algo que ele no haviaabordado. Quando, por exemplo, percebemosque nossa questo recolocada vrias vezes,e a pessoa no responde a ela, devemos parare refletir sobre o significado dessa noabordagem, pois muitos aspectos podem estarincludos: a dificuldade na compreenso daquesto, a negao da situao e/ou nossadificuldade em interpretar o que ele esttentando dizer.Como podemos apresentar as narrativasnum texto cientfico? Desenvolvemos algumasformas, inspiradas em vrios autores(5,13-15).Mostramos, aqui duas diferentes formas deapresentao de narrativas:a) escrever trechos de narrativas, usando alinguagem da pessoa que narrou. Se usar essaforma, a unidade de anlise o que cadapessoa falou. adequada para quando asnarrativas so mais breves, ou quando estouusando a histria de apenas uma pessoa oufamlia(5) para compor sua histria. Outroexemplo o trecho extrado de uma narrativaque aborda a descoberta da doena(15):Eu como todo jovem tinha uma vida bem ativa,muita festa, muito baile, chegava em casa de madrugada,aquele ritmo de bebidas e tudo. Eu sempre tive um ritmoRev Latino-am Enfermagem 2002 maio-junho; 10(3):423-32www.eerp.usp.br/rlaenfNarrativas como tcnica...Silva DGV, Trentini M.429forte. (...) Ento eu tinha um ritmo assim, tinha uma pocana universidade eu estudava de manh, dava aula tardee noite. A minha alimentao no era uma alimentaoregrada! Agora eu sempre comi bem! Eu sempre no fuide gordura, de farinha e todas as coisas assim que agente sabe da diabetes, eu nunca fui. Nunca sonhei comdiabetes, nada. A... l pela poca, me lembro assim comose fosse hoje, em junho de 89, eu comecei a, em 1 msa emagrecer, em 1 ms de repente, de repente, assim....Eu colocava a cala e comecei a usar um furo a mais nocinto. , mas tudo bem,! Meu peso sempre, sempre foi60 ou 61 kg., normal com a minha altura. S que o meupeso estava 58kg. e no ms seguinte, j estava 55kg!(fala enfaticamente). Opa! A eu logo achei que tinhaalguma coisa errada. Eu fui ao mdico e ele me mandoufazer uma bateria de exames. E cada vez comendo mais,urinando muito e aquela fome sempre e sede, gua. Aeu fui no mdico. O mdico no me adiantou nada! Masele me mandou fazer uma bateria de exames: sangue,urina, tal, tal e de glicose... A... glicose: 220! A ele meencaminhou para o endcrino. Disse: No sei no, derepente tu tens diabete, no sei no (...).Para contar como iniciou seu diabetes,a pessoa incluiu elementos como: onde estava,como se sentia, qual era o momento de suavida e fatos importantes que estavamacontecendo, como pode ser observado notrecho de uma narrativa apresentadoanteriormente, feita por uma pessoa comdiabetes mellitus ao responder sobre comodescobriu ser diabtico.b) escrever uma narrativa tomando como basemanifestaes comuns de mais de umapessoa. Para elaborar essa narrativa, hnecessidade de um processo sistematizado deanlise e interpretao. A base da anlise oque h de comum num conjunto de narrativasde diferentes pessoas, conforme foi utilizadoem alguns estudos(13-15) que construramverses breves de histrias, reelaborando fatoscontados em entrevistas. Um exemplo dessaforma de apresentar narrativas foi um estudo(15)sobre o viver com diabetes mellitus, que seguiuas seguintes etapas no processo de anlise dosdados: 1) reelaborao das entrevistas demodo a transform-las em discursos; 2)identificao dos conflitos vividos, procurandoreorganiz-los em uma seqncia quepermitisse encontrar conexes com outrosmomentos dos relatos e com a histria queestava sendo contada; 3) destaque daspalavras, expresses e/ou frases que serepetiam e de temas abordados com maiornfase, buscando verificar onde colocavampeso especial em seus discursos.; 4)identificao das conexes temticas, ou seja,o que era colocado para unir os diferentestemas e que ajudou a encontrar o fio condutorem cada narrativa; 5) identificao demanifestaes de emoes que davam um tomespecial ao que estava sendo contado; e 6)identificao do enredo da narrativa, ou seja,qual era a histria que estavam contando, oque estavam procurando dizer ao selecionaremaqueles fatos, situaes ou comentrios, sendocompreendido como a mensagem central danarrativa.Esse processo de anlise das histriasfacilitou a revelao/elucidao dainterpretao que cada participante faz de suaexperincia. Ao analisar o conjunto dasexperincias, foi possvel perceber que, emboracada evivncia fosse nica, podiam mostrar,em sua essncia, semelhanas com asexperincias de outras pessoas. Dessamaneira, as narrativas foram agrupadas deacordo com as principais tendncias dashistrias vivenciadas, e foram elaboradas novasnarrativas que representavam o que as pessoasdisseram sobre sua experincia de viver comRev Latino-am Enfermagem 2002 maio-junho; 10(3):423-32www.eerp.usp.br/rlaenfNarrativas como tcnica...Silva DGV, Trentini M.430uma doena. Essas novas narrativasprocuraram manter os elementos essenciaisque compunham as histrias contadas.Segue o exemplo de uma das narrativasapresentadas no estudo anteriormentemencionado(15), que sintetizou narrativas de umgrupo de dez pessoas com diabetes mellitus efoi denominada Perdi o prazer de viver, odiabetes transtornou minha vida:Eu era uma pessoa muito trabalhadeira, era forte,tinha disposio... estava sempre pronta para qualquercoisa. Hoje estou sem vontade para nada. Fiquei assimdepois que o diabetes entrou em minha vida. Isso foi halgum tempo atrs. Na poca no sabia bem o que erater diabete, no sabia a tristeza que era, quantas coisasruins podiam acontecer...Depois que apareceu esse diabetes, as coisasmudaram bastante na minha vida. Tenho que estarsempre me cuidando, tomando remdios e fazendo umadieta bem rigorosa. Mas difcil, porque essa dieta mudaat a convivncia da gente com os outros, no posso ir afestas porque l tem coisas que no posso comer e, secomo, fico com a conscincia pesada. Tenho at vergonhade dizer que no quero; outro dia fui numa festa e disseque no queria o doce que me ofereceram. Parecia queestava fazendo desfeita para a pessoa que me ofereceu.Sinto prazer em comer aquilo que gosto, e naquantidade suficiente para me sentir satisfeita; mas agoracom o diabetes, s aquele tantinho de comida que elesdizem que posso comer. Com isso, a gente enfraquecemais ainda, no tenho foras para mais nada. Eu fao adieta, mas l uma vez ou outra no d para resistir. , asvezes eu abuso mesmo! Realmente muito triste vivercom essa doena e com os problemas que ela traz ealm de tudo, no poder comer o que gosta!... o diabetes trouxe muita coisa ruim, no soumais aquela pessoa que era. Fiquei fraca, meu corpoest sempre com algum desconforto: so dores naspernas, cansao, a viso que no anda boa... Tirouinclusive a vontade e a capacidade de fazer sexo.Perguntei para o mdico e ele disse que o diabetes muitoalto tira o prazer sexual da pessoa. E viver sem sexo,pode acabar com a vida de uma pessoa, principalmentede um homem.A outra coisa que complicou mais minha vida, foiquando o mdico disse que eu precisava entrar nainsulina. Meu Deus! Aplicar insulina uma coisa terrvel!Ter que se picar todo dia... j estou com o corpoadormecido de tanta insulina. Parece que a gente nocontrola mais sua vida, fica dependente. Muitas vezesdependo da ajuda de algum da famlia para aplicarinsulina. Mas difcil, no aceito.... mas tem que tomarpara viver.J tive outros problemas srios na vida, e essesproblemas junto com o diabetes, no me deixam viverbem. uma vida sacrificada, triste mesmo!Notei que meu corpo no tem mais aquelaresistncia e fora que tinha antes, o diabetes mudoutudo, mudou minha vida para pior, me deixou uma pessoaarrasada, tirou os prazeres que a vida poderia me dar.As vezes sinto revolta, uma vida sofrida comessa doena. A famlia ajuda e at consola, quandoaceito melhor. Mas no posso fazer nada mesmo, tenhoque ir vivendo. Eu no desisti, s vezes tenho esperanade ficar curada..., ter uma vida melhor. Quem sabeaparece um outro remdio ou tratamento e eu posso teruma vida melhor? (...).Ao narrarem, as pessoas estobuscando dar um significado para o que lhesaconteceu, esto procurando construir suaidentidade e, ento, no h certezas. Suas falasnem sempre so claramente colocadas, seusprincpios podem estar ou no sistematizados.As pessoas esto sempre fazendo construese desconstrues, porm parecem estarsempre orientadas para um foco principal,considerado como o fio condutor da narrativae que ir compor o enredo.O processo de interpretao de umanarrativa exige grande concentrao e umRev Latino-am Enfermagem 2002 maio-junho; 10(3):423-32www.eerp.usp.br/rlaenfNarrativas como tcnica...Silva DGV, Trentini M.431mergulho profundo naquilo que est sendo dito.Para isso, necessrio captar no s o que dito, mas tambm a referncia que a pessoausa. Essa referncia a apreenso da visode mundo, ou seja, dos pressupostos que elautiliza para definir e delimitar sua experincia.Pressupostos so premissas, que, na maioriadas vezes, no so ditas, mas que sovivenciadas e que se mostram nas aes,orientando, tambm, as anlises que a pessoafaz de suas experincias. Desse modo, ospressupostos tambm se evidenciam naquiloque selecionado para ser contado e naquiloque valorizado nesse contar.CONSIDERAES FINAIS possvel dizer que as narrativas sosignificativas na medida que esboam os traosda experincia temporal de cada pessoa. oencadeamento de cada acontecimento comoutro acontecimento, e com seu todo, quemarca a progresso das narrativas, emergindoa compreenso de um mundo temporal, em quea doena passa a ser includa(10). Ao contaremsuas histrias sobre a vivncia com a doena,as pessoas esto empenhadas em que essadoena faa sentido para elas, e tentam, dealguma maneira, influenciar o futuro.Contar histrias sobre a doena,portanto, uma forma de tornar a experinciapassada disponvel para outros, que asrecontaro, criando, ento, uma rede deinformaes que permitiro sempre um novocontar sobre sua prpria experincia a partirde outras experincias. As histrias contadaslibertam-se de seu ambiente original discursivoou representativo(11), passando a serentextualizadas(12). Ao serem registradas,essas histrias tornam-se disponveis aleitores mltiplos, abrindo, portanto, novaspossibilidades de interpretaes.As narrativas criam um campo para aocoletiva, legitimando certas identidades econduzindo as pessoas a tomarem posiesque esto de acordo com seu padro cultural.Isso permite aos profissionais de sadeconstrurem seus conhecimentos sobredeterminados temas e situaes pelas quaisas pessoas passam. Ao conhecer como soas aes das pessoas quando estovivenciando determinadas situaes, possvelantecipar alguns cuidados, ter participaoativa, adequada, interferindo onde pode haveralgum risco.Narrativa como tcnica para odesenvolvimento de pesquisas em enfermagemainda necessita de discusses e reflexes,havendo necessidade de investir na tcnica decaptao das histrias, no processo de anlisedos dados, associado ao desenvolvimento dehabilidades do(a) enfermeiro (a) sobre o seuuso, explorando sua contribuio para oprocesso de pesquisa.Percebemos, por meio de nossosestudos e da literatura, a contribuio dasnarrativas, especialmente na realizao depesquisas envolvendo pessoas em condiocrnica de sade, pois essa tcnica permite iralm de apenas historiar a doena, captando oseu significado na vida dessas pessoas.Rev Latino-am Enfermagem 2002 maio-junho; 10(3):423-32www.eerp.usp.br/rlaenfNarrativas como tcnica...Silva DGV, Trentini M.432REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS1. Langdon EJM. A negociao do oculto: xamanismo,famlia e medicina entre os Siona no contexto pluri-tnico.[tese]. Florianpolis (SC): Departamento de Antropologia/UFSC; 1994.2. Gancho CV. Como analisar narrativas. 5 ed. So Paulo(SP): tica; 1998.3. Leite LCM. O foco narrativo. 7 ed. So Paulo (SP):tica; 1994.4. Orlandi EP. O que lingstica. 8 ed. So Paulo (SP):Brasiliense; 1995.5. Alves PC, Rabelo MC. Tecendo self e emoo nasnarrativas de nervoso. In: Rabelo MC, Alves PC, Souza,IM. Experincia de doena e narrativa. Rio de Janeiro(RJ): Editora FIOCRUZ; 1999. p.187-204.6. Rabelo MC. A construo narrativa da doena. In: 18Reunio da ANPOCS. Grupo de Trabalho Pessoa, corpoe doena; Salvador (BA); 1994.7. Garro LC. Narrative representations of chronic illnessexperience: cultural models of illness, mind, and body instories concerning the temporomandibular joint (TMJ).Soc Sci Med 1994; 38(6):775-88.8. Frid I, hln J, Bergbom. On the use of narratives innursing research. J Adv Nurs 2000; 32(3):696-703.9. Riessman CK. Strategic uses of narrative in theapresentation of self and illness: a research note. SocSci Med 1990; 30(11):1195-200.10. Ricoeur P. Tempo e narrativa Campinas (SP): Papirus;1994.11. Good BJ. Medicine, rationality, and experience: naanthropological perspective. Cambridge: Morgan; 1995.12. Ricoeur P. Teoria da interpretao. Rio de Janeiro(RJ): Edies 70; 1976.13. Stevens PE, Hall JM, Meleis AI. Narratives as a basisfor cuturally relevant holistic care: ethnicity and everydayexperiences of women clerical workers. Holistic NursPract 1992; 6(3):49-58.14. Jackson JE. The Rashomon approach to dealing withchronic pain. Soc Sci Med 1994; 38(6):823-33.15. Silva DMGV. Narrativas do viver com diabetes mellitus:experincias pessoais e culturais. [tese]. Florianpolis(SC): Programa de Ps-Graduao em Enfermagem/UFSC; 2000.Recebido em: 30.7.2001Aprovado em: 15.2.2002Rev Latino-am Enfermagem 2002 maio-junho; 10(3):423-32www.eerp.usp.br/rlaenfNarrativas como tcnica...Silva DGV, Trentini M.