Mario Ulhoa - Performance

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    07-Feb-2016

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Ictus 05Articulao musical e tcnica instrumental:sugestes para aprimoraro desempenho instrumental no violoMario UlloaEste trabalho foi elaborado com o objetivo de oferecer possibilidadespara resolver problemas de tenso muscular encontrados frequentementeno mecanismo do conjunto dedos-mo-brao esquerdo na execuo depeas no violo. Nos serviremos de trechos musicais, extrados da literatu-ra violonstica, que serviro para elucidar essas dificuldades e explanarnossas reflexes para possveis solues.Tanto os mtodos tradicionais de violo quanto as prprias partiturasfazem referncia s atitudes ativas dos dedos (e.g. o terceiro dedo coloca-se na terceira corda; fazer pestana na quinta casa; fazer um determina-do ligado ascendente ou descendente, etc.). Entretanto, no h indicaessobre o que fazer nos momentos de menor ou nenhuma atividade dos de-dos, isto , nos momentos em que h necessidade, por exemplo, de diminuira durao de determinadas notas, como no caso dos staccatos. Que aconte-ce nas pausas? Aps finais de frase? Aps uma cadncia? Ou nas variantesaggicas que dependem do momento da performance? Qual a atitude dosdedos nesses e outros casos? Dito de outra forma: o qu que os dedosfazem quando tm pouco ou nada a fazer?Pausa para pensar...Devido relao exercida entre o dedo polegar da mo esquerda e dosdemais dedos (1-2-3-4), relao de pina, existe a tendncia, dentre osviolonistas, de apertar constantemente as cordas contra o brao do violo.1 fcil constatar que a maioria dos mtodos de violo (principalmente os deiniciao) referem-se s notas que devem ser presas, ou s vezes sobre comopressionar, porm, apenas comentam a existncia de notas soltas e no for-necem qualquer comentrio sobre o aproveitamento das pausas musicais.1 possvel imaginar que apertamos uma ma constantemente com a mo esquer-da. Aps um curto perodo sentiremos fadiga muscular. Essa atitute pode ser preju-dicial, principalmente porque, alm do problema de tenso muscular em si, devemser acrescentados outros fatores (como nervosismo na sala de aula, durante umaaudio ou recital) que podem aumentar ainda mais essa tenso muscular.Ictus 0554Muitas vezes o violonista, ocupado com a execuo das notas (o queele v na partitura), no reflete sobre os momentos em que no h o quetocar (o que ele no v na partitura, mas que pode estar implcito nas entre-linhas). Acreditamos que a conscientizao e aproveitamento desses mo-mentos podem ser uma ferramenta importante, no s para realizar relaxa-mentos musculares mais constantemente durante a execuo, mas princi-palmente para realizar gestos corporais que contribuam com um discursomusical mais convincente.Vejamos o seguinte trecho da Sonata de Scarlatti K380/L23 (compas-so 19). Visto de um ngulo vertical, esse trecho possui 7 grupos de notas.De acordo com as instrues tradicionais (habituais) a mo esquerda fazpestana na segunda casa pressionando de uma vez s todos os grupos denotas do compasso.Ex. 1: ScarlattiEntretanto, na nossa proposta, h 7 grupos de notas a serem presionadase, no mnimo, 5 momentos (espaos) aptos ao relaxamento, indicados, noexemplo 2, com as pausas que inserimos e os tringulos para maior com-preenso.Ex. 2: Scarlatti exatamente nesses momentos que sugerimos que o conjunto de-dos-mo-brao gesticule as pausas. Em primeiro lugar por motivos musi-cais. Sem pretender entrar em maiores detalhes estilsticos, que fogem aoobjetivo deste trabalho, o encurtamento do valor das notas, como no exem-plo anterior, faz parte das prticas da poca, do estilo musical da msicapara cravo de Scarlatti, muito usado de forma geral durante o perodo bar-roco. No h uma regra, mas os diversos tratados da poca, bem como aIctus 05opinio de especialistas modernos, apontam para a importncia da articula-o que contribui para uma melhor dico do discurso musical.2 Nesse casoparticularmente, trata-se de um gesto musical que nos faz lembrar uma pas-sagem de marcha e acreditamos que a articulao supracitada pode con-tribuir para melhor caracterizar esse trecho musical. Em segundo lugar,porque os alunos, principalmente iniciantes, enfrentam dificuldades diver-sas na mo esquerda como dores, cansao, falta de resistncia. Ou seja,aproveitamos conscientemente a articulao musical para obter momentosde descanso muscular.Vejamos o prximo exemplo no incio da mesma Sonata de Scarlatti(compassos 1 e 2):Ex. 3: Scarlatti2 Ver C. P. E. Bach, J. Quantz, Thurston Dart, R. Donnington, F. Neumann, R.Kirkpatrick, Harnoncourt.Na nossa verso, abaixo sugerida, colocamos pausas no s para indi-car uma articulao que encurta o valor das notas mas, principalmente,para ajudar a obter vrios momentos para relaxar a mo esquerda. No pri-meiro compasso a linha inferior, ao ser tocada como staccato, permite quea mo esquerda relaxe com cada pausa (h seis pausas nesse compasso!).No compasso segundo destacamos o fato de que s o 4 dedo, no final decada mordente, permanece atuando na segunda corda, enquanto que os ou-tros dedos no necessitam trabalhar.55Ictus 0556Esse tambm um bom exemplo para introduzir o conceito de pesta-na com o brao direito3. Observamos que em alguns casos, como no ante-rior, possvel que o dedo polegar da mo esquerda no atue, podendodeixar sua funo de pina para o brao direito. Assim, o violo teria cincopontos de contato: 1) a perna esquerda, 2) a perna direita, 3) o peito, 4) osdedos da mo esquerda (sem polegar) e 5) o antebrao direito.Baseados em vrios anos de prtica instrumental e pedaggica, acre-ditamos que essa opo uma forma de obter maior relaxamento da moesquerda, criando uma participao maior do corpo na distribuio das aes.A esse respeito, lembramos que os msculos dos dedos no so to fortesquanto outros msculos como os dos braos, antebraos e ombros.Entendemos que uma inteno (inclusive necessidade de articulao)musical nos proporciona, ou solicita espaos para relaxamentos curtos nosdedos, relaxamentos esses que, no somatrio da pea, servem como des-cansos importantssimos que evitam (ou diminuem) a fadiga muscular. Fi-nalmente, recomendamos ao leitor que, na pea que est estudando, locali-ze os possveis momentos de relaxamento: normalmente h pelo menos ummomento por compasso!RefernciasBarcel, Ricardo. La digitacin Guitarrstica: recursos poco usuales.Madrid: Real Musical, 1995.Cardoso, Jorge. Ciencia y Mtodo de la Guitarra. Editorial de la Universidadde Costa Rica, San Jos, 1988.Carlevaro, Abel. Escuela de la Guitarra: exposicin de la teora instru-mental. Barry Editorial, Buenos Aires, 1979.Fernndez, Eduardo. Tcnica, Mecanismo Aprendizaje: Una Investigacinsobre llegar a ser Guitarrista. Ediciones ART. Montevideo, 2000.Tennant, Scott. Pumping Nylon: The Classical Guitarrists TechniqueHandbook. Alfred Publishing, 1995?3 Na falta de um conceito mais especfico, j que na literatura violonstica noencontramos nenhuma referncia a esse respeito, criamos esse termo provisriocom a inteno de auxiliar na explanao da idia.