Mario Covas - Histria Oral

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Uma vontade realizada.Em oito meses, o projeto histria oral realizaou 144 entrevistas, gravadas em mais de 150 horas de vdeo digital.Ao iniciar o trabalho de Histria Oral, do Centro de Memria da Fundao Mario Covas, elaboramos uma lista entre familiares, amigos de Santos, contemporneos da Poli, colaboradores da poca da prefeitura de So Paulo e do governo do Estado, adversrios polticos, lderes partidrios e tantos outros. Puxando pela memria, chegamos a uma primeira lista com 120 nomes. Fomos luta, mas sabamos que o ano eleitoral de 2008 seria um complicador. Seria difcil conciliar agendas, horrios, encontrar pessoas, todas elas atarefadas. Mas para nossa surpresa, no final de dezembro estvamos com mais de 150 horas de gravao.Nos oito meses da primeira fase do projeto, a equipe percorreu os quatro cantos da cidade de So Paulo, da periferia ao centro, das zonas norte, sul, leste e oeste e tambm a cidade de Santos. Em escritrios, residncias e at mesmo barzinhos e restaurantes, foi possvel resgatar as histrias de quem, em algum momento, ou em boa parte de sua vida, trabalhou, presenciou, observou, conviveu e aprendeu com Mario Covas.

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FUNDAO MARIO COVAS

em revista

ano 1 - maro 2009 - n 4

Em rEvista

histria oral

editorial

Uma histria contada por mUitosVoc lembra aquele dia quando estvamos... Uma vez ele me contou... Durante uma discusso ele sempre... A participao dele foi... Eu me lembro um dia em que ele... As frases iniciadas assim foram recorrentes nos ltimos oito meses de 2008, durante a realizao do Projeto de Histria Oral, do Centro de Memria da Fundao Mario Covas. Um projeto que veio concretizar um antigo anseio do grupo mais prximo de colaboradores, amigos e familiares do ex-governador. Nos anos de convivncia com ele, eram comuns os comentrios: Ah! Essa histria muito boa. Precisamos colocar isso no papel. Algum est registrando tudo isso?. O corre-corre cotidiano impediu o registro organizado dos momentos e bastidores presenciados pelas testemunhas da trajetria de Mario Covas. Muitos registros existem em documentos, livros, entrevistas, reportagens, jornais, udio e vdeo. Inmeros j resgatados e organizados em nosso Centro de Memria. Mas ns queramos ir alm, queramos mais. E fizemos. Fomos buscar na memria e na emoo de cada um dos que compartilharam do dia-a-dia de Mario Covas um pedao de sua histria. Juntas, as partes contam no s a vida de um homem pblico, mas a histria recente de um pas. As lembranas abrem as portas para o que veio antes e depois, diz Fernando Frochtengarten, mestre em Psicologia Social da USP. No artigo Memria Oral no Mundo Contemporneo, o mestre afirma, com propriedade: Uma recordao chama a outra, compondo uma teia de rememoraes mais ou menos singular, cuja textura se alinhava pela maneira como cada memorialista recolhe e amarra as imagens pregressas e busca sua significao.... E mais: Narrar o passado deveria ser um direito estendido a todos os homens. Aqueles que partem sem ter o herosmo de sua biografia reconhecido por um ouvinte deixam a impresso de ter morrido duas vezes. Uma vida vivida quando narrada.

Antonio Carlos Rizeque Malufe Presidente da Fundao Mario Covas

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ndice

Fotoclip Uma vontade realizada A infncia em Santos Os amigos da praia A Escola Politcnica, comeo de tudo Lila: mulher, amiga, companheira Os filhos Os netos Os familiares O trabalho do engenheiro A primeira campanha O senhor deputado A cassao Dez anos de iniciativa privada Volta poltica A conveno de 1981 Prefeito de So Paulo Senador constituinte Nasce o PSDB A campanha presidencial Rumo ao governo de So Paulo Governador de So Paulo A reeleio A sade de Covas Covas e os polticos O estilo Covas O legado Crditos

6 8 10 11 12 14 16 18 19 20 21 22 23 24 26 28 30 38 40 42 44 48 73 75 77 79 84 86

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fotoclip

Uma vontade realizadaEm oito mEsEs, o projEto dE histria oral rEalizou 144 EntrEvistas, gravadas Em mais dE 150 horas dE vdEo digital

Mario e Lila Covas na posse do primeiro mandato como governador no Palcio dos Bandeirantes Ao iniciar o trabalho de Histria Oral, do Centro de Memria da Fundao Mario Covas, elaboramos uma lista entre familiares, amigos de Santos, contemporneos da Poli, colaboradores da poca da prefeitura de So Paulo e do governo do Estado, adversrios polticos, lderes partidrios e tantos outros. Puxando pela memria, chegamos a uma primeira lista com 120 nomes. Fomos luta, mas sabamos que o ano eleitoral de 2008 seria um complicador. Seria difcil conciliar agendas, horrios, encontrar pessoas, todas elas atarefadas. Mas para nossa surpresa, no final de dezembro estvamos com mais de 150 horas de gravao. Nos oito meses da primeira fase do projeto, a equipe percorreu os quatro cantos da cidade de So Paulo, da periferia ao centro, das zonas norte, sul, leste e oeste e tambm a cidade de Santos. Em escritrios, residncias e at mesmo barzinhos e restaurantes, foi possvel resgatar as histrias de quem, em algum momento, ou em boa parte de sua vida, trabalhou, presenciou, observou, conviveu e aprendeu com Mario Covas.

A equipeNo projeto de Histria Oral, coube a Ione Nunes, relaes pblicas, a tarefa dos agendamentos e contatos. Ficou para mim o triste pesar por no ter tido a oportunidade de conhecer Mario Covas pessoalmente, mas tambm a esperana por ter aprendido que possvel fazer poltica com seriedade, paixo e honestidade, disse Ione. A jornalista Mrcia Telles ficou com a incumbncia da pesquisa, da leitura de documentos, livros, jornais e revistas para os depoimentos com os memorialistas. O jornalismo e a histria utilizam um instrumento dos mais fascinantes para mim: a entrevista, o depoimento. Tive o privilgio de

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O governador Mario Covas caminha com a populao em evento do governo do Estado de So Paulo

dar voz aos companheiros, amigos, familiares e at adversrios de Mario Covas, buscar suas experincias e memrias e, sobretudo, dar espao a suas emoes, disse Mrcia. Quantos choros foram gravados e quantas risadas foram registradas, lembrou. Ao tambm jornalista Guilherme coube o trabalho tcnico de gravao dos depoimentos em mini-DVDs, utilizando o equipamento de vdeo da Fundao Mario Covas. Foi uma experincia nica poder ouvir relatos interessantes e fatos relevantes da histria contempornea brasileira, contados por personalidades de destaque da poltica e por pessoas comuns. Mas o que mais me impressionou foi saber como Mario Covas se importava com o povo e suas causas, afirmou Guilherme. No foi definido um padro e muito menos um tempo de gravao para as entrevistas. A ordem foi deixar falar, estimular a memria e contar histrias. As nicas exigncias, se que podemos cham-las assim, foi contar como os entrevistados conheceram Mario Covas, qual o seu legado, e que relatassem passagens ou momentos que mostrassem o estilo Covas ao lidar com as mais diferentes situaes. Foram meses de pura emoo. Primeiro, porque os entrevistados ficaram empolgados em participar do projeto; segundo, porque todos, sem exceo, tinham histrias pessoais para contar, o que nos leva a crer que, mesmo com aquele jeito que muitos consideravam turro e bravo, Covas fez com que todos que com ele conviveram fossem considerados especiais, e terceiro, risos e lgrimas correram soltos nas entrevistas, muitas delas com mais de duas horas de gravao.

claro que muitos temas importantes, do cenrio paulista e brasileiro, sugiram durante os depoimentos e muitos narram o mesmo episdio sob sua ptica. Nossa tarefa no era fazer contrapontos ou chamar ateno aos fatos. Muitos falaram sobre a atuao do engenheiro civil, outros sobre seu trabalho na prefeitura de Santos, na capital paulista e no governo de So Paulo. Alguns relataram passagens de Covas no parlamento, como deputado federal e senador da Repblica, diversos depoimentos revivem o poltico, a cassao, suas opes e embates. O fato que todos foram unnimes em deixar registrado o comportamento e a postura tica e moral de Mario Covas. Ao finalizar o projeto com a produo desta revista, foi necessrio fazer uma escolha editorial e, para isso, uma pergunta foi colocada: Como editar tantas entrevistas gravadas em vdeo em uma publicao impressa e com limitao de pginas? Optamos por ter como fio condutor a histria cronolgica da vida de Mario Covas. Com isso, pudemos organizar melhor os depoimentos, e deles retirar breves, mas importantes extratos. Outra escolha foi apresentar os entrevistados com a designao que tinham poca dos fatos relatados. Pois bem, o projeto de Histria Oral da Fundao Mario Covas no acaba aqui. Ele ser disponibilizado na internet, no site da Fundao, para que todos tenham acesso, e mais, muitos depoimentos no entraram nessa edio, j que os prazos acordados impossibilitaram essa tarefa e outros depoimentos ainda precisam ser colhidos, jque muitas histrias ainda precisam ser contadas.

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a infncia Em santosdE ondE vEio o apElido zuza? nidia covas barrEnuEvo, nica irm dE mario covas, conta Essa E outras histriasMario Covas Junior nasceu em Santos em 21 de abril de 1930, filho do comerciante de caf Mario Covase neto de Jesus Covas Peres, espanhol de Pontevedra, que imigrara para o Brasil com 14 anos. Sua me, Arminda Carneiro Covas, descendia de portugueses e brasileiros. A Casa Comissria Covas & Assuno, sociedade entre Covas pai e Horcio Assuno, permitiu que a famlia levasse vida de classe mdia alta. para Lambari, uma estao de guas. Naquele ano, o Zuza, pequeno, foi com ela e eu fiquei com papai, pois estava em aula. No Carnaval, eu e papai fomos encontrar com eles. No que papai comea a flertar com uma funcionria do hotel? Mame, desconfiada, foi encontrar os dois namorando numa praa. Papai tomou uma surra de guarda-chuva, e ns voltamos para casa.

O arteiroSomos de uma gerao em que menina brincava com menina, e menino, com menino. Portanto, no tenho muitas recordaes de nossa infncia juntos, at porque, dos 7 aos 18 anos estudei em uma escola onde ficava semi-interna. Ia pela manh, e s voltada para casa no incio da noite. Zuza era muito arteiro. Adorava mexer nas minhas coisas, que eram muito organizadas, e gostava futebol. Uma vez, estvamos na calada l de casa, e os vizinhos soltavam fogos de artifcio. Ele gostava muito. No que um dos fogos veio bater no peito dele? Foi uma correria danada, e a queimadura foi grave. Quem conviveu com ele deve lembrar que o Zuza tinha dificuldade de audio em um dos ouvidos. Quando era menino, teve uma infeco muito sria, que acabou perfurando o tmpano. Fez tratamento, mas ficou a seqela. Na poca, ele ficou anmico, e o mdico receitou bastante ferro na alimentao. Eu acabei entrando na dana. Todo dia, mame fazia sopa de aveia com caldo de bife de fgado. Ela passava o bife na frigideira bem rpido, e depois extraa o suco. Ficamos fortes, mas nunca mais comemos fgado. Mame era festeira, gostava de Carnaval, festa junina. No Carnaval, ela sempre nos fazia fantasias muito elaboradas. Nas festas juninas tambm colocvamos roupas tpicas, e o nome Zuza vem da. Uma vez, escreveram esse nome do chapu de palha dele e pegou. Zuza pra c, Zuza pra l, e o apelido ficou. Na famlia e para alguns amigos mais prximos, Mario Covas era papai; meu irmo era o Zuza. Ele adorava uma anedota e era muito amoroso.

Nidia Covas BarreNuevo

Os avsNosso av paterno, Jesus Covas Peres, veio da Espanha, da regio da Galcia, com 14 anos de idade, acompanhado por um tio. Contam que ele seria filho de um padre. Mas nunca conseguimos checar isso. Minha av paterna, Ana Rodrigues Peres, era portuguesa. Veio ao Brasil com trs anos de idade. A grande coincidncia que depois de muitos anos eles se conheceram e descobriram que chegaram ao Brasil no mesmo navio. Do lado materno, o vov era portugus e tinha uma panificadora em Santos. Vov Rosalina era brasileira. Eles tiveram sete filhos, trs homens e quatro mulheres. Papai, Mario Covas, o mais velho dos homens, era um comerciante bemsucedido em Santos. Ns no nascemos em bero de ouro. Todos sempre trabalharam muito.

O pai e a mePapai era um homem generoso e solidrio. No era bonito nem atraente, mas tinha alguma coisa que agradava as pessoas. Era um pouco Don Juan, mulherengo. Separou-de de mame no final de 1948: ela foi morar em So Paulo, e ele ficou em Santos. Foi um casamento tumultuado. Lembrome de uma passagem. Mame todos os anos ia

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os amiGos da praialdEr nato, mario covas discutia poltica na adolEscncia, EntrE um E outro jogo dE futEbol com os amigos dE santosO prprio Mario Covas, que nunca se vangloriou de sua infncia confortvel, nunca a escondeu, destacando que a prosperidade atingia uma grande parte dos santistas. Fez muitos amigos em Santos e os cultivou. Em 1998, ao final de seu primeiro mandato no governo do Estado, autorizou a restaurao do prdio da Bolsa Oficial de Caf de Santos, o que lhe valeu um agradecimento formal dos Amigos de Mario Covas.

luiz Pereira de Carvalho amigo dE Escola Estudamos juntos por um bom tempo. O Zuza foi filho de pai rico e de pai pobre, mas para ele no tinha problema, tratava todos de forma igual. Ele era pequeno, gordinho, alegre, gostava de tirar sarro dos outros e a paixo era o futebol, ou melhor, o Santos Futebol Clube. Tnhamos cadeira cativa. Era fcil ser amigo de Covas.

Carlos Frigrio amigo dE juvEntudE A turma se reunia na praa Fernandes Pacheco, para conversar e jogar futebol. Ali Mario Covas j demonstrava liderana. Com 13 ou 14 anos, falava sobre poltica e tinha atitudes firmes e srias. Ns jogvamos vlei e, uma vez, fomos a Campinas jogar contra um time de l, que tinha grande rivalidade com o nosso pessoal de Santos. Ns ganhamos a partida, e a torcida campineira xingava, ameaando. O diretor do Campinas sugeriu que o time do Santos sasse pelos fundos, para evitar tumulto. Vamos sair pela frente, decidiu Mario Covas. No futebol, Covas era um craque. Aos domingos, jogvamos no Caiara Club e isso durou at quando j era deputado. Mas quando Covas achava que era falta, parava a bola e falava para o juiz: marca a!. Eu fui um dos fundadores do grupo Amigos do Mario Covas, criado quando ele concorreu prefeitura de Santos. Saamos s ruas com cartazes, fazendo o corpo a corpo. Ele tinha uma lealdade muito grande com o grupo, que o acompanhou a vida toda, em todas as campanhas. Depois de cada eleio, Covas marcava um almoo ou um jantar com os amigos. Ele era um lder, e ns, jovens revolucionrios, achvamos que Covas era o mais indicado para defender nossos ideais.

elias aBiB elias amigo Naquela poca ele j mostrava que poderia ser um bom poltico. Sempre que voltava a Santos, era procurado por muitas pessoas e atendia a todas. Quando ele fez o discurso em defesa de Marcio Moreira Alves, todos ns fomos para a casa dele. Eu lembro da priso na Base Area e da atitude da Lila que, depois de saber onde ele estava, se plantou l com os filhos at deixarem -na ver o marido. Um ato maravilhoso, o dela.

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comeo de tUdo

a Escola politcnica,Em Santos, Covas cursou o primrio e parte do secundrio, integrantes do atual ensino fundamental. Transferiu-se em 1947 para So Paulo, onde preparou-se para o ingresso no ensino superior. Formou-se em Qumica Industrial pela Escola Tcnica Bandeirantes em 1951 e graduou-se em Engenharia Civil pela Escola Politcnica da Universidade de So Paulo Poli-USP, em 1955.

durantE o curso dE EngEnharia civil, covas casou-sE com lila E dEspontou como um brilhantE orador

PlNio assMaNN amigo da poli E sEcrEtrio dE transportEs do Estado Uma caracterstica inesquecvel de Mario Covas que, naquela poca, ele j era um orador brilhante. Teva uma vez em que duas alunas de Engenharia de Porto Alegre, filhas de militares, teriam por lei o direito transferncia para a Poli sem novo vestibular. Isso mexeu com os brios de todos, toda a comunidade era contrria. O grmio convocou uma assemblia para discutir o assunto, com as duas moas presentes. O Zuza fez um discurso fenomenal e convenceu a todos que elas fossem aceitas. O Mario era sentimental e detentor de uma lgica objetiva, clara.

ado CleMeNtiNo Coltri amigo da poli Quando estvamos na Poli, fomos Faculdade de Direito da USP falar sobre a greve. Na poca existia muita disputa, e os alunos do Direito no respeitaram o presidente do grmio da Poli. Mas o Zuza no titubeava e fez um discurso que acabou, arrasou os alunos de Direito, e dentro da casa deles, a faculdade do Largo So Francisco. Vieram cumpriment-lo. Onde o Mario falava, a argumentao prevalecia.

Joo Carlos de souza Meirelles amigo da poli E sEcrEtrio da agricultura Naquele momento (anos 1950) havia um estado muito positivo de tenso que se manifestou em tudo, at na msica popular brasileira, o surgimento da bossa nova, uma coleo de valores culturais e polticos que explodiam. E o Mario era entre todos ns um dos grandes lderes, respeitado dentro da escola. Empolgava pelo que foi a marca de sua vida inteira: a higidez do seu carter e a coerncia ideolgica permanente. O Mario elegeu como padro de vida a coerncia.

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Paulo Breves steFaNi amigo da poli Ficamos na mesma turma na Escola Politcnica e tambm na de topografia. Mario Covas tinha uma liderana natural. No terceiro ano, interesseime pelo futebol. No quarto ano, participei da competio Pauli-Poli. O Mario no jogou, ganhamos de 1 a 0 e eu fiz o gol. No ltimo ano, alm de jogador de futebol, Covas era o tcnico. Toda quarta-feira tinha treino. Eu s pensava no jogo contra o Mackenzie, era o primeiro MackPoli. No dia do jogo, o Mario me deu uma camisa de reserva e disse: no fica sacaneado. No fiquei. Entrei no segundo tempo, fiz um gol e ganhamos de 2 a 1. Ele era inteligentssimo, uma liderana espontnea, natural.

Mrio eduardo duarte garCia amigo da poli Mario Covas era brincalho, mas muito responsvel e srio. Trabalhava enquanto estudava e foi um dos poucos que se casaram durante o curso. Ele dava aulas no cursinho da Poli e se dedicava muito ao grmio, que funcionava como uma empresa. O Centro Acadmico representava os alunos perante a direo da escola, mas o mais importante era participar de movimentos polticos estaduais e nacionais. A gente se metia em tudo, na morte do Getlio, na tentativa de impedir a posse de JK. O Covas tinha uma presena forte, personalidade marcante, fazia tudo com muita seriedade porque j trabalhava e acompanhava a vida poltica. Mas seguia sempre uma linha voltada poltica como vivncia do bem comum.

Jos Carlos NadaliNi amigo da poli At hoje guardo uma camiseta comemorativa dos 50 anos da Atltica da Poli, que traz estampada na parte de trs o trecho de um discurso de Covas no Senado, que diz o seguinte: Na mesma medida que a Escola Politcnica forma o profissional, o esporte que desenvolve no homem os principais aspectos do seu carter. onde se aprende a ganhar e a perder, onde se pratica o tempo todo a solidariedade, onde se cultua o respeito pelo oposto. A Atltica da Poli faz isso: ela ajuda a melhorar o ser humano.

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lila: mulhEr, amiga, companhEiraainda EstudantE da poli, mario covas casou-sE com florinda gomEs, quE lhE dEu trs filhos E apoio incondicionalEnvolvido em poltica desde os tempos da faculdade, Mario Covas chegou a dirigente da Unio Estadual dos Estudantes (UEE) e da seo paulista da Unio Nacional dos Estudantes (UNE). Ainda cursando Engenharia, na Poli, Covas casou-se em 15 de outubro de 1954 com Florinda Gomes, a Lila. Permaneceram juntos durante 55 anos. Tiveram os filhos Renata, Slvia e Mario Covas Neto (Zuzinha). Um quarto filho, Toms, nasceu em Braslia no dia 10 de agosto de 1968, mas viveu apenas poucas horas. O casal teve quatro netos: Bruno, Gustavo, Mario Covas e Silvia.

A vida em BrasliaQuando nos casamos, o Mario ainda estudava, e os colegas da Poli iam l para casa. Na Cmara Federal, era a mesma coisa. Em Braslia, os parlamentares ficavam sem as mulheres. O Mario era Caxias, ia at o fim da sesso, e, depois, levava todo mundo para casa. Adorava certas coisas e achava que eu ia adorar tambm. O xadrez, ele queria me ensinar, e eu nunca quis. Em Braslia, se ele ia fazer um discurso, eu tinha de estar l, aplaudindo. O Mario era ciumento: eu s podia bater palmas para ele e l na Cmara, junto com os jornalistas. Quando o Mario foi eleito deputado federal, ia para Braslia e voltava no fim de semana. Eu ia lev-lo e busc-lo no aeroporto todo fim

de semana. Quando foi eleito lder, a famlia mudou-se para Braslia. S o deputado tinha direito a passagem de avio. Eu, dirigindo, e meus filhos, fomos e voltamos de carro fazendo a mudana, naquela estrada vazia, quilmetros e quilmetros. Mas eu gostava. Antes de mudar para Braslia, coloquei uma escrivaninha na sala de nossa casa em Santos e ficava atendendo os eleitores de manh e tarde. Em Braslia, passei a ser mulher, me e dona de casa, coisa que eu no era havia muitos anos.

A prisoMario foi levado para a Base Area de Cumbica, sem que a famlia fosse informada. O Oswaldo Martins e o Fausto, meu irmo, seguiram a Kombi que levava o Mario, mas se perderam

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em determinado ponto. Foi numa noite de sexta-feira. No sbado, ligou o secretrio de um ministro procurando pelo Mario e eu respondi: ele que procure, porque o Mario foi preso ontem, alis, raptado, j que no avisaram a famlia. Mandaram-me preparar uma mala, que levariam para o Mario. A mala voltou e logo vi que o ministro ia cair. E caiu. No sbado, liguei para todos os quartis em So Paulo. Eu sabia que o oficial que tinha recebido o Mario era um major e ele ainda estaria em servio. Falei com todos, e nada, no conseguia informao. Liguei para uns amigos do Mario, que eram colegas da Poli e trabalhavam na Prefeitura. Eles montaram um grupo e foram procurar o Paulo Maluf, que era prefeito de So Paulo e estava de cama, com gripe. Com um telefonema, o Maluf descobriu onde o Mario estava preso e pediu que no contassem a ningum que essa informao havia sido dada por ele.

passava na vida pblica. No primeiro Carnaval da cassao, voltamos logo para casa. As pessoas choravam, vinham dizer que tinham rasgado o ttulo. Aquilo fazia mal para ele. As pessoas sumiram no por desprezo, era a vida normal. Mas todos continuaram amigos. O Mario no falava em poltica, evitava completamente. A Renata dizia: Como o papai aguenta? Ele pensava que atrapalharia os outros. Mas no se lamentava.

Sem jornalNo comeo, a cassao foi difcil, ele chutou muita coisa, muita canela. Passei a no comprar mais jornal. Ele lia no caf da manh e passava mal. Via o futuro. Passamos dificuldades no incio. Tiramos as crianas da escola paga, dispensamos a empregada, vendemos o carro e hipotecamos a casa. As crianas aprenderam a pegar nibus e compreenderam, ningum foi para o psiclogo.

A greve de fomes onze e meia da noite, fui para Cumbica com meu irmo Tite e minha cunhada. Levei roupa e um bilhete que dizia o seguinte: Sei que voc estar logo de volta porque acredito em quem comanda a nao. Sabia que o Mario ia ficar bravo, mas era o jeito de o bilhete chegar at ele. Na segunda-feira, o major Vale me ligou e eu entrei em Cumbica. O Mario estava em greve de fome, o major no queria que acontecesse nada com ele. E eu disse: Vocs querem que eu acredite nisso? Foram rapt-lo no escritrio. O major ento me mandou escrever um bilhete para o Mario, eu no quis. O Mario me disse depois que, pela janela, me via entrar e sair do prdio. Escrevi o bilhete e o Mario s assinou. Comecei a chorar, o major quase me pegou no colo. Eu ia l dia sim, dia no. O Mario falava: Vamos sair do pas. Depois, esqueceu. Ele s recebeu a mala na segunda-feira, quando eu estive l. Eu levava pastel e eles me deixavam ficar. Mario ficou 23 dias preso. Quando saiu, s dez da noite, ligou dizendo que queria sopa de ervilha. Eu fiz.

A fMario era religioso. Rezava todo dia de manh com o joelho no cho. No deixava de rezar um s dia, atrasado ou no. Na Cmara Federal, quando fazia algum discurso na tribuna, ficava descalo, em respeito. Ele dizia que era um ato de humildade, para pedir ajuda, para proteger e usar as palavras certas. Nunca ningum viu.

A polticaParticipei de todas as campanhas e da vida partidria do Mario. Na prefeitura e no governo do Estado, trabalhei, ajudando quem mais precisava, como os mais pobres, os mais velhos e os portadores de necessidades especiais. Aprendi com o Mario e defendo a militncia partidria. Nas campanhas, montava comits. No comeo, os comits funcionavam na minha casa. Depois, fomos crescendo, nos organizando, buscando parceiros e implantando novas ideias. Formei o Clube dos Tucaninhos. Os adultos ainda tinham medo de entrar em comits polticos. A pensei, vamos formar as crianas, falar de poltica, mostrar a elas os direitos e deveres dos cidados. Com isso, as crianas passaram a chamar os pais. Quando sa, deixei 25 mil crianas formadas no Clube dos Tucaninhos.

A cassaoCom a cassao, sumiu todo mundo. Foi outra vida. Antes iam l em casa saber o que se

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os filhosrEnata E mario covas nEto falam da convivncia com o pai poltico E das liEs quE aprEndEram com ElE

A cassaoMeu pai ficava calado, nunca praguejou contra a cassao. Devia sofrer. Minha me cortou o jornal de casa. Devia ser doloroso. As pessoas comearam a atravessar a rua, no porque eram canalhas, mas porque tinham medo. Minha me costumava passar no ponto de nibus e oferecer carona. Apareceu um jogo de boto no carro. No era o do Zuzinha. Um dia, toca o telefone, era o menino que esqueceu o jogo no carro. Foi buscar l em casa. O muro era baixo. O pai ficou na outra esquina para no ser visto na casa do Mario Covas. Imagine como o clima era ruim. Da para a frente nada mais nos impressionou.

A prefeitura de So PauloNa poca da prefeitura, eu ia muito aos mutires. Ou eu ia ou no via meu pai. Tudo o que era fora do gabinete ele adorava. Dizia que s assim possvel ver a realidade. Foi ali, na periferia da cidade, que ele comeou a ficar impressionado com a fora das mulheres. Naquela poca no era como hoje. As mulheres ficavam no bairro e sabiam o que era preciso, as mulheres estavam frente das associaes. Ele fez coisas incrveis, como a criao do Passe dos Idosos. Tratou de forma correta o acampamento de funcionrios na porta da Prefeitura e fez a interveno nas empresas de nibus. Tinha que ser muito macho para fazer. Foi em cima de uma ameaa dos donos das empresas de nibus. Ele ficou to danado e foi muito corajoso.

reNata Covas loPes

O estiloQuando eu era pequena, mudamos de casa. Me lembro de entrar na nova casa de mos dadas com ele. Subimos para ver os quartos, e eu me decepcionei, achei pequenos. Ele falou que havia famlias inteiras que moravam num quarto do tamanho daqueles. Quarenta anos depois, ele, como governador, se dedicou habitao. Em outra ocasio, j adulta, estvamos vendo TV, e passou uma reportagem sobre a Lei do Inquilinato. Achei que era sacanagem com o dono do apartamento. Ele imediatamente falou: porque voc pensa com a cabea do dono, tem que pensar com a cabea do inquilino. Meu pai no gostava de msica e fez a Sala So Paulo. No mexia com carto, e fez o Poupatempo. Falo dele com orgulho, e no com vaidade. Ele era um cara legal.

As campanhas de 1989 e 1990A campanha presidencial de 1989 foi uma loucura, a mais bonita. Foi a ltima vez em que o vi apaixonado pela poltica, trabalhando com muita garra. Era uma candidatura para valer, e, no final das contas, ele ficou sozinho. Ia para lugares onde no tinha praticamente ningum. Em 1990, o partido apertou e ele saiu candidato, mas acabou ficando sozinho. Puxaram o carro. No meu entendimento, o povo estava com muita raiva do apoio de Mario Covas a Lula, no segundo turno da campanha presidencial. Mas eu acho que no tinha outro jeito e teria ficado assombrada se ele apoiasse o Collor.

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Mario Covas Neto

Lder na Constituinte A cassaoLembro de voltar da escola e encontrar minha me fritando alguma coisa e chorando: seu pai foi preso. Eu tinha uns dez anos, no tinha a dimenso das coisas. Aquilo era um problema de adultos. Mas lembro que a comeou uma nova fase na famlia. De mais convvio com os filhos, de maior proximidade. Ele teve uma conversa comigo e com minhas irms bastante sria. Perguntou se ns achvamos que ele era um bom pai. Eu fui claro e disse que no. A Renata ficou brava comigo. Mas acho que a resposta fez com que ele nos desse mais ateno. Vivi uma experincia que talvez nunca tenha novamente, numa reunio dele com lideranas partidrias. O que fosse consensual era colocado, o que no tinha acordo, ficava para depois. Era fantstico. Vrias pessoas representativas, lideranas, cada uma com sua convico, fazendo defesas brilhantes. Eu no sabia para que lado eu ia. Uma experincia das mais ricas. E ele ficava por ltimo. E assim foi. Ele era o marisco entre a onda e a pedra. Se subordinava opinio da maioria.

O PSDB e a campanha presidencialNa Constituinte, ficou claro que o PMDB era invivel para tantas correntes. Valeu para a redemocratizao do pas, mas era um momento novo. Acho que o PSDB acabou acontecendo quando meu pai disse que ia para o partido. Em 1988, ele j participou das eleies para prefeitos das capitais, e em 1989, da presidencial. No tinha recursos nem estrutura partidria. Mas era uma proposta de afirmao de um novo partido. At que foi bem, foi o mais votado na cidade de So Paulo. Era uma adeso por crena, e isso diferente. Tinha gente chorando com o ttulo de eleitor na mo. Foi marcante o comcio de encerramento em Santos. O clima estava to para cima, o comcio com palanque na areia, entre o mar e a praia, um mar de gente. Foi um comcio emocionante. O dia estava feio, choveu, o cu estava com nuvens. Na hora em que meu pai foi falar, abriu um pedao de nuvem no cu, o sol se pondo iluminou o palanque, um negcio de arrepiar.

O apoio a LulaEle tomava posies em virtude de conceitos, com lgica e coerncia. A autoridade no mbito poltico era sempre ele. Por exemplo, um momento muito difcil politicamente para a gente foi quando ele perdeu a eleio em 1989 e no foi para o segundo turno. Na poca, havia uma diviso entre os eleitores do PSDB sobre a tomada de posio pr Lula, pr Collor ou nenhum dos dois. Pensar em apoiar o PT depois da Prefeitura, da Constituinte, para mim no passava. No sei por que tomou a deciso de apoiar Lula o tempo mostrou que ele estava certo. Mas ocasionou uma reao hostil. O apartamento em que a gente morava sempre teve o nmero do telefone na lista. Precisamos mudar o nmero diante da hostilidade.

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os netosgustavo E bruno, filhos dE rEnata covas, E silvia, filha dE mario covas nEto, contam como sE rElacionavam com o avgustavo Covas loPes Lembro que algumas vezes as pessoas reclamavam que o governador no estava fazendo nada por So Paulo. Conversei com meu av e perguntei por que ele no falava para a populao o que estava fazendo. Sabe o que ele respondeu? Com o dinheiro da publicidade ele poderia comprar novas viaturas para a polcia e construir escolas, casas e estradas para a populao. Outra conversa que tivemos foi sobre o episdio do enfrentamento com os professores em greve na Praa da Repblica. Eu disse que ele no precisava ter ido at l e passar por aquilo tudo. Na hora ele me respondeu: o governador do Estado de So Paulo que no pode ser impedido de ir ou entrar aonde preciso, no eu.

silvia Covas BruNo Covas loPes Quem o conheceu sabia que ele fazia tudo com paixo. Quanto se envolvia e quanto sofria. Era impossvel voc ver aquilo e no se contagiar. Quando fui morar com ele, em 1995, vi o quanto se dedicava. No meio do jantar, lembravase de alguma coisa, j telefonava, mandava o sujeito entrar, no deixava nada para depois. s vezes eu saa para a faculdade e ele j tinha sado. No jantar, ele ainda no tinha retornado. Trabalhava 24 horas. No fazia nem com o fgado nem com o crebro, fazia mesmo com o corao. Meu sobrenome pesado e leve ao mesmo tempo. Pesado porque as pessoas sempre dizem: Voc est fazendo isso, ser que seu av faria isso? Sei l, no tem como saber. Mas tambm acho que o sobrenome que leve, por causa do respeito, o carinho que as pessoas tinham por ele. Tenho um nome forte e me orgulho disso. Antes eu s tinha a imagem do av. Agora, paro para pensar no que ele fez, sobre o jeito que agia, suas posturas, sempre calmo, dando risada, todo mundo ria junto e tenho mais noo da importncia dele. Na oitava srie, tive que fazer um trabalho sobre ditadura e, l na Riviera, assisti a um vdeo sobre o AI 5. A vi muita coisa que meu av fez. At hoje muita gente fala bem de Covas para mim, quando ficam sabendo que ele era meu av, e sempre tem um reconhecimento. Uma mulher mais velha veio me dizer que uma vez danou com meu av; outro, que ele fez um projeto que o beneficiou. Na escola, mesmo os professores petistas diziam que votavam em Covas. Uma vez, em um clube, quando fui apresentada como neta de Covas, uns garotos comearam a falar mal dele. Depois descobri que eram parentes do Paulo Maluf.

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os familiaressobrinha E prima dE mario covas falam da convivncia com o poltico Em tEmpo intEgralEstar ao lado de Mario Covas era respirar e viver a poltica. Os parentes mais prximos no escaparam da regra. Renira, sobrinha de dona Lila, e Renata, prima de sangue, acompanharam a trajetria.

reNira de Nardo sobrinha E sEcrEtria particular dE dona lila No dia 31 de dezembro de 1994, vspera da posse, o tio Mario me chamou para uma conversa l no apartamento: Olha, a partir de amanh voc vai ser a mulher mais linda o mundo, a mais inteligente e vo querer te dar presentes. No acredite em nada disso. Em quatro anos tudo vai acabar. Eu era secretria da presidente do Fundo Social de Solidariedade, a tia Lila, e morava com eles no palcio. Depois que todo mundo ia embora, o expediente l na ala residencial continuava, ele me chamava e pedia as coisas. Foi a tia Lila que me convidou, porque precisava de uma pessoa de confiana. Ele no queria me contratar, por ser parente. Mas tia Lila precisava. Ento o Covas resolveu o problema sua maneira. Eu pedi licena sem vencimentos na prefeitura de Santos e ele me pagava o salrio do prprio bolso.

regiNa Covas prima E militantE poltica Sou 11 anos mais nova que o Mario, e desde muito pequena, depois da morte de meu pai, fui morar com nossa av em Santos. O tio Mario, pai do Mario Covas, depois que se separou, tambm foi morar l. Minha convivncia com ele foi familiar e cresceu sob o pilar da poltica. Quando ele era deputado federal, passamos a conviver mais de perto. Eu estudava na UNB, era militante estudantil e estava sempre na casa dele, na 105 Sul, nunca me esqueo desse endereo. Era um verdadeiro quartel general da poltica brasileira, com grandes discusses, reunies e encontros. Mas no era s isso. Na poca da ditadura, o Mario abrigou muita gente naquele apartamento.

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o trabalho do enGenheirodE volta a santos, mario covas passou a trabalhar como EngEnhEiro na sEcrEtaria dE obras da prEfEitura municipalEm 1956, trs dias consecutivos de violentas chuvas provocaram alagamentos e deslizamentos nas encostas dos morros de Santos. O Monte Serrat, conhecido pelo antigo cassino construdo no topo e pelo funicular que lhe d acesso, perdeu um pedao to grande de sua encosta que lhe alterou a forma. Uma proteo de concreto, construda depois das chuvas, ficou como marco da catstrofe. Os deslizamentos no morro do Marap e no Jos Menino comoveram a pblico. Como engenheiro da prefeitura, Mario Covas participou intensamente dos socorros populao atingida. O noticirio da televiso mostrou as imagens do resgate de uma senhora grvida dos escombros de sua casa. Mario Covas, que dirigia a operao, comeou a se tornar conhecido.

oswaldo ali amigo dE santos Era uma coisa dantesca. Foram soterrados uns 40 chals, morreram 22 pessoas. O Mario era o engenheiro encarregado dessa parte, dedicou-se a um trabalho insano. Foi marcante sua dedicao populao, revelando sua identificao com o sofrimento das pessoas e com as causas populares. Ele deixou um marco que mereceu a admirao de todos ns. Comeou a a possibilidade de Covas ser candidato a um cargo administrativo.

MoaCir Bezerra da silva fiscal dE obras da prEfEitura dE santos Rigoroso, correto, ele no queria saber de encrenca. Era tudo na caneta. Covas faz muita falta, como um pai de famlia que se afasta. Faz falta para o povo, para o Estado, para o pas. Como um pai bom. Politicamente, Mario Covas foi um exemplo no s para o Brasil, mas para outros pases. Comeou cedo, era inteligente, sabia tudo o que ia fazer, no fazia coisa errada.

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a primeira campanhaEm 1961, os contatos polticos haviam sE aprofundado o bastantE para covas sEr convidado a sE candidatar prEfEitura dE santosA poltica paulista do incio dos anos 1960 era dominada por duas figuras rivais: Adhemar de Barros e Jnio Quadros. Nas eleies santistas de 1961, Adhemar apoiava Lus La Scala Junior, candidato do ento prefeito Silvio Fernando Lopes. Jnio Quadros preferia Mario Covas, candidato da oposio. Apurados os votos, La Scala foi declarado vencedor e diplomado. Mas no chegou a tomar posse. Vtima de um acidente de automvel, entrou em coma e morreu poucos dias mais tarde. Surgiu, ento, uma controvrsia sobre quem deveria assumir. Alguns opinavam que esse direito cabia ao vice-prefeito da chapa vencedora. Outros afirmavam que o correto seria entregar o cargo ao segundo mais votado. A questo foi decidida pelo prprio Mario Covas. Colocando suas convices acima do interesse imediato, defendeu a posse do vice. Consultado a respeito, o Supremo Tribunal Federal referendou o entendimento de Covas. Criou-se assim uma jurisprudncia, invocada em 1985 para a posse do vice Jos Sarney, em lugar do presidente eleito Tancredo Neves, vtima de doena fatal antes do incio de seu mandato.

luiz aNtuNes CaetaNo amigo dE santos Sou testemunha de como o Mario entrou para a poltica. Logo depois do episdio do morro, ele ficou muito mostra, ficou notrio na cidade. Em Santos havia o ademarismo e o grupo que o combatia. Havia tambm o Frum Sindical de Debates. Eu estava na casa de Covas, no Campo Grande, quando apareceram os diretores do Frum, presidido pelo Osvaldo Martins Rodrigues, o Badeco, que era do sindicato dos Agentes de Navegao, o presidente do Sindicato dos Contabilistas, o Vitelmino e o Expedito. Eles tinham feito uma pesquisa em Santos e detectaram que o candidato a prefeito tinha que ser engenheiro. O Mario foi convidado e disse que gostaria de conversar com o prefeito, Silvio, que era o chefe dele. Foi para essa conversa na casa do Silvio e, na volta, afirmou: eu sou candidato!.

durval Figueira amigo dE santos A campanha de Covas para prefeito de Santos foi belssima. O smbolo era a girafa, que identificava Covas como um candidato altura. Foi um sucesso. Perdemos a eleio, mas ali comeou a atuao dos Amigos do Mario Covas. Quando veio a campanha para deputado federal, Covas teve o apoio dos porturios. Lembro que amos noite ao cais do porto de Santos , do 1 ao 25, fazendo campanha. Uma maravilha.

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o sEnhor depUtadoa campanha poltica para a prEfEitura dE santos tornou o nomE dE mario covas suficiEntEmEntE conhEcido para ElEg-lo dEputado fEdEralSob a legenda do Partido Social Trabalhista (PST), liderado por Jnio Quadros, Mario Covas foi eleito deputado federal em 1962. Empossado em fevereiro de 1963, conquistou no ms de abril seguinte a viceliderana do PST na Cmara, passando, em fevereiro de 1964, liderana do bloco dos pequenos partidos. Alm do PST, esse bloco englobava o Partido Social Progressista (PSP), o Partido Trabalhista Nacional (PTN), o Partido Republicano (PR), o Movimento Trabalhista Renovador (MTR) e o Partido Democrata Cristo (PDC). Com a derrubada do presidente Joo Goulart pelos militares no dia 31 de maro de 1964, iniciava-se o longo perodo de ditadura militar. Nos primeiros quatro anos, entretanto, o Congresso continuou aberto, embora submetido a fortes ingerncias do Executivo. Todos os partidos existentes foram extintos pelo Ato Institucional n 2, de 27 de outubro de 1965, dando lugar ao bipartidarismo, no qual os deputados se viam obrigados a escolher entre a Aliana Renovadora Nacional (Arena) e o Movimento Democrtico Brasileiro (MDB). Reuniram-se na Arena os que apoiavam o governo, enquanto a oposio se reconhecia no MDB. Na recomposio da Cmara, em novembro de 1966, Covas reelegeu-se pelo MDB, conquistando a sua liderana em maro de 1967. A seu lado, militavam polticos de atuao expressiva, como Ulysses Guimares, Tancredo Neves e Andr Franco Montoro.

Koyu iha dEputado Estudante de Direito, disse ao ento deputado federal Mario Covas que gostaria de me candidatar a vereador por So Vicente. Ele me deu todo o lastro, fui o terceiro mais votado pelo MDB. Estive na casa de Covas para prestar solidariedade quando ele foi cassado. Ficava impressionado com o fato de Covas no sair do pas. Ele dizia: Sair por qu? No devo nada para ningum! Foi uma grande lio que ele deu para quem tinha receio da represso poltica. Deixou uma grande fora moral.

Como lder da oposio, Covas procurou derrubar os dois projetos de lei enviados pelo governo que mais limitavam o exerccio do jogo democrtico. O primeiro deles enquadrava 68 municpios brasileiros como reas de segurana nacional. Em vez de eleitos, seus prefeitos passavam a ser indicados diretamente pelo Executivo. Para evitar que esse projeto fosse votado, e provavelmente derrotado, a liderana do governo esvaziou o plenrio, ocasionando a aprovao por decurso de prazo. O segundo projeto combatido por Covas foi o da criao de sublegendas, para eleies majoritrias e proporcionais. Esse projeto permitia que a Arena continuasse a abrigar grupos separados por interesses regionais e que no queriam perder sua identidade.

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a cassaona tribuna da cmara fEdEral, covas dEfEndE um dEputado, Entra Em confronto com os militarEs E cassado E prEsoO grande embate entre o governo e a oposio liderada por Mario Covas surgiria no final de 1968. O deputado Mrcio Moreira Alves pronunciara um discurso considerado ofensivo s Foras Armadas, e os militares resolveram pressionar o Congresso Nacional para que este concedesse licena para se proceder ao processo contra o deputado. No dia 12 de dezembro, Covas fez um discurso contrrio concesso da licena, utilizando argumentos de naturezas jurdica e poltica. Contesta-se, sob o imprio da razo poltica, uma prerrogativa da qual no temos o direito de abdicar, porque, vinculada tradio, vida e ao funcionamento do Parlamento, a ele pertence, e no aos parlamentares. (...) Tem o Poder Legislativo o direito de transferir a outro Poder um problema que, surgido no seu mbito, da sua competncia, o colocar em confronto com outros poderes e instituies? possvel que o faa. Mas, nesse momento, no ser um Poder. Ao trmino de seu pronunciamento, Mario Covas explicitou a profisso de f que embasara sua atitude: Creio na palavra, ainda quando viril ou injusta, porque acredito na fora das ideias e no dilogo que seu livre embate. Creio no regime democrtico, que no se confunde com a anarquia, mas que em momento algum possa rotular ou mascarar a tirania. Creio no Parlamento, ainda que com suas demasias e fraquezas, que s desaparecero se o sustentarmos livre, soberano e independente (...). No dia seguinte, o governo editou o Ato Institucional n 5, que fechou o Congresso e desencadeou uma srie de cassaes de direitos polticos e prises. Suspendia tambm o direito ao habeas corpus. Considera-se geralmente o AI-5 como o principal marco do endurecimento do regime militar. No restava ento outra opo, seno o confronto, pois votar pela concesso significaria abdicar das prerrogativas do Legislativo. Todos os deputados do MDB e mais quatro da Arena manifestaram-se contra. Mario Covas foi preso no dia 15 de dezembro e levado para uma dependncia do Exrcito em Braslia, onde permaneceu por oito dias, sendo liberado na antevspera do Natal.

oswaldo MartiNs amigo, jornalista E sEcrEtrio dE comunicao Mario foi preso pelo Exrcito em Braslia e, ao ser solto, voltou a Santos. Eu ia toda noite casa dele conversar. Ele me dizia: Nunca mais vou sair de casa. A justificativa era: Com que cara vou sair rua, se sou lder do partido da oposio, 33 deputados so cassados e eu sou poupado? O mnimo que vo pensar que eu fiz um acordo com os milicos. Houve uma torcida para ver se saa uma segunda lista, para que ele pudesse ficar aliviado. Foi o que aconteceu em 16 de janeiro de 1969. Nessa noite, estvamos s ns dois, ouvindo a Voz do Brasil como nos dias anteriores, na esperana de alguma novidade. A saiu a segunda lista de cassados, com o nome dele. Ele ficou aliviado: Nossa, finalmente eu posso sair na rua! Coincidentemente, tambm sa do jornal em que trabalhava e ficamos os dois desempregados. E fomos procurar o que fazer na vida.

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dEz anos dE iniciativa privadaalijado da poltica, mario covas abriu uma EmprEsa dE comrcio ExtErior E trabalhou como EngEnhEiroO afastamento compulsrio da poltica obrigou Mario Covas a procurar outras atividades. Em um primeiro momento, tentou montar uma empresa de importao e exportao. Foi para o Rio de Janeiro e FEZ vrios contatos com embaixadas que, na poca, ainda no haviam se transferido para Braslia. Surgiu, no entanto, outra possibilidade. Esmerino Arruda, deputado tambm cassado em 1964, montara a empresa Rent TV, dedicada ao aluguel de aparelhos de televiso, sobretudo para hotis. Sugeriu que Mario Covas montasse uma empresa similar em So Paulo, onde as condies pareciam ser ainda mais favorveis. O deputado federal Ubirajara Keutenedjian, presidente do PST, partido por meio do qual Covas entrara na poltica, era proprietrio de uma cadeia de hotis, interessou-se no apenas em alugar os aparelhos da empresa a ser montada, como a apresent-la a outros proprietrios de hotis. Covas possua, ainda, valiosos contatos por intermdio de parentes de sua esposa, Lila Covas, comerciantes no ramo de eletrodomsticos. Por motivos ignorados, entretanto, essa ideia no se concretizou. Covas preferiu insistir no seu primeiro projeto e montou a MACO Importao e Exportao.

Jair MaNhaNi e alzira MoNteiro dos saNtos MaNhaNi amigos dE santos E atuais propriEtrios da maco Mario Covas era muito rigoroso e detalhista. Uma vez, um fiscal da alfndega queria falar com o dono da empresa, com o Mario Covas, especificamente, antes de desembaraar a mercadoria. Ele, irritado, disse: Eu vou at l pessoalmente ver o que ele quer. Foi e, ao chegar l, j com as garras afiadas, constatou que o fiscal queria era rever o velho amigo dos tempos de juventude. Todo ms era uma loucura. Ele fazia o balancete mensal da empresa aos domingos. Chamava todo mundo, fumava feito um louco e ficava at as dez da noite fazendo o balancete, conferindo e refazendo todos os clculos. s vezes ele ficava sozinho no escritrio, e quando ia embora, deixava o escritrio todo aberto. Batia a porta e saa. As meninas que faziam ponto ali na rua ligavam para a casa da gente avisando. Na mesa dele tinha uma campainha para chamar as pessoas. A campainha tocava o dia inteiro. No ligava se achavam que ele era chato.

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Um dia depois de aberta a empresa, foram ao escritrio de Santos militares da Aeronutica paisana e um delegado do Dops. Prenderam Covas sem dizer para onde seria levado. Oswaldo Martins seguiu os militares at o comando da Quarta Zona Area na capital, prosseguindo at a Base Area de Cumbica, local da deteno. Em Cumbica, Covas ficou onze dias, perodo no qual deps como testemunha no caso Parasar, por ele denunciado. O caso referia-se ao brigadeiro Joo Paulo Burnier, do gabinete do ministro da Aeronutica Mrcio de Sousa e Melo. Atribua-se a Burnier um plano para explodir o gasmetro do Rio de Janeiro e sequestrar 40 polticos da oposio, que seriam levados em um DC-3 e atirados ao mar.

Paulo MaluF prEfEito dE so paulo Em 1969, eu era prefeito de So Paulo e fui procurado por um amigo comum. Eu me dava muito bem com o comandante da Quarta Zona Area, brigadeiro Jos Vaz da Silva. Liguei para ele e perguntei sobre o Mario Covas, disse que a famlia estava preocupada. Falei que Covas e eu ramos contemporneos da Poli, dei boas referncias e avisei a famlia.

Uma vez liberado, Covas voltou s suas atividades na iniciativa privada, no sendo mais incomodado pelos militares. Como os negcios de importao e exportao no deram os resultados esperados, mudou-se para So Paulo, onde passou a trabalhar como engenheiro na Codrasa, empresa de Lo Maniero, ex-colega da Escola Politcnica. L permaneceu at 1977, transferindo-se ento para a Ductor Implantao de Projetos, outra empresa de engenharia formada por ex-colegas da Escola Politcnica da USP.

lCia Maria dal MdiCo colEga na ductor E assEssora EspEcial do govErnador Nossa afinidade foi instantnea. Ele dizia que eu tinha um nariz poltico, queria que eu lesse um livro sobre poltica eleitoral. Fiquei amiga da famlia, a gente pensava da mesma forma. Eu estudava astrologia, fiz o clculo do ascendente dele, era Touro com ascendente em Touro. A teimosia no era s por causa do lado espanhol. Eu chegava de manh, ele me chamava para conversar sobre assuntos gerais, mas a poltica estava sempre presente, uma paixo. Covas foi uma figura enftica. Dizia que no era bravo, era enftico e trabalhava muito. Na Ductor, usava aquelas fichas de contabilidade, conferia centavos, extrato bancrio, era apegado perfeio. Tinha senso de justia e coerncia com ele mesmo.

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Mario Covas discursa durante conveno do MDB em 1979, aps recuperar os seus direitos polticos

volta polticamario covas mantm atividadE poltica sEmiclandEstina no pErodo dE cassao, apia o mdb E participa dE campanhas dE outros candidatadosDurante os anos em que esteve cassado, Mario Covas nunca deixou de fazer poltica. Participou de vrios encontros semiclandestinos com lideranas e personalidades interessadas em pensar o futuro do pas. Tambm acompanhava e incentivava a trajetria ascendente do MDB. O partido oposicionista ganhara visibilidade redobrada na transio de Emlio Garrastazu Mdici para Ernesto Geisel na presidncia da Repblica, quando Ulysses Guimares lanara a sua anticandidatura. Em companhia do candidato a vice, Barbosa Lima Sobrinho, Ulysses Guimares percorrera as capitais brasileiras divulgando o ideal da volta democracia. A impossibilidade de vitria no Colgio Eleitoral, na eleio a presidente de 15 de janeiro de 1974, no impedira a ampla repercusso popular da campanha. Os reflexos seriam sentidos naquele mesmo ano, quando o MDB elegeu 15 senadores nas 21 vagas em disputa e 165 deputados federais dos 364 que haviam sido eleitos. Nas eleies seguintes, marcadas para 1978, Covas no podia concorrer diretamente, pois no se esgotara o prazo de sua cassao. Mas voltou arena poltica e, mais uma vez, sua ao foi decisiva. Uma das sublegendas do MDB apresentara o nome de Fernando Henrique Cardoso para o Senado. Na mesma sublegenda, Antonio Angarita concorria a deputado federal. Por coincidncia, o comit eleitoral de Angarita ficava prximo da Ductor, onde Mario Covas trabalhava. Os dois se conheciam e se estimavam. Era quase inevitvel que, ao terminar o expediente, Covas passasse pelo comit de Angarita. A convivncia com Angarita, incentivada por amigos comuns, levou Covas para a campanha de Fernando Henrique Cardoso. Embora oficialmente cassado, arriscou-se a participar, comparecendo a comcios e multiplicando os contatos. Alm do mais, o prestgio do seu nome alavancava qualquer candidatura.

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Graas em boa parte a esse apoio, Fernando Henrique elegeu-se suplente do senador Franco Montoro com 1.250.000 votos. Vigorava ento o sistema de sublegendas, duas por partido nas eleies majoritrias. Dentro do mesmo partido, podiam concorrer no caso do Senado at dois candidatos por sublegendas. O mais votado assumia e o segundo mais votado tornava-se primeiro suplente. Em 16 de janeiro de 1979, Mario Covas recuperou seus direitos polticos. Naquela ocasio, amigos e correligionrios lotaram o Teatro Independncia, em Santos. No seu discurso de agradecimento, Covas reafirmou os valores democrticos fundamentais que haviam embasado, dez anos antes, seu ltimo discurso antes da cassao do mandato de deputado federal. A fora do arbtrio que o afastara do caminho da poltica no fora o bastante para abalar suas convices.

Jos Maria guiMares MoNteiro coordEnador dE campanha E prEsidEntE da cosEsp Foi emocionante o ato que marcou o fim do perodo de cassao do Covas. O apresentador foi o ator Carlos Zara, amigo e ex-colega da Poli. Tambm estavam presentes Jos Richa, Fernando Henrique Cardoso, Ulysses Guimares e Oswaldo Martins, este o grande artfice do evento. O mais tocante foi quando Mario Covas subiu tribuna e retomou o discurso do credo de 1968, onde ele afirmava que acreditava na palavra, no regime democrtico e no parlamento. A crena de Mario Covas continuava para a construo da democracia.

eva wilMa - atriz E amiga Meu marido Carlos Zara tinha orgulho da amizade com Covas. O prprio Mario o convidou para apresentar seu retorno vida poltica em Santos. A eu vi Mario Covas falando. Era uma fase de conscientizao permanente, oportunidade inesquecvel. Posteriormente, a amizade se solidificou, quando me engajei na campanha contra a ditadura e pela anistia. Formamos um grupo que liderou a campanha de artistas pela anistia, com Antnio Fagundes, Carlos Vereza, Renato Consorte, Zara. Levamos 700 assinaturas a Braslia, em mos. A oportunidade da campanha quem nos deu foi uma turma de homens como Srgio Motta e Mario Covas.

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a conveno dE 1981mario covas disputa com orEstEs qurcia a candidatura a vicEgovErnador na chapa dE franco montoroA reformulao partidria desencadeada com o fim do bipartidarismo, em 29 de novembro de 1979, levou Covas a filiar-se ao PMDB, sucessor do MDB, assumindo a presidncia da comisso executiva regional. A mudana de nome no apaziguara a rivalidade entre as faces do partido. A conveno de 20 de junho de 1981 ratificou o nome de Andr Franco Montoro como candidato do partido eleio para governador, vencendo as pretenses de Orestes Qurcia, que lutava pelo posto. Houve, no entanto, uma contrapartida. Estava acordado que Covas sairia candidato a vice-governador na chapa de Montoro, mas Qurcia tumultuou a conveno atravs do MR-8, grupo que ele controlava integralmente, e conseguiu o lugar para si.

NelsoN FaBiaNo soBriNho sEcrEtrio dE govErno na prEfEitura Era preciso compor a executiva do partido, e estava difcil. Vrios integrantes foram para a minha casa - na sala ficaram Franco Montoro, Fernando Henrique, Grama e acho que o Almino Afonso. No quarto estavam Qurcia, Goldman, Robson Marinho, Resk e eu, andando do quarto para a sala. A chapa ficou com Covas presidente, Goldman vice, mas eram cinco componentes. Fabiano percebeu que os dois grupos queriam o mesmo nome para o quinto cargo, que seria Joo Gilberto Sampaio. Combinou-se que o grupo de Qurcia fingiria aceitar o nome de Gilberto. Na conveno do partido, Covas tinha sido escolhido vice. Qurcia queria ser vice e havia risco de rachar o partido. O MR-8 estava apoiando bravamente Qurcia, e Covas no teve dvida. Mesmo j escolhido, abriu mo da candidatura em nome da unidade do partido. Maria de lurdes da silva (lurdiNha) militantE E assEssora dE govErno A conveno foi uma briga de foice. Houve um primeiro momento em que a disputa ficou entre o Qurcia e o Montoro, o Montoro levou vantagem, o Covas como vice dele. A o Qurcia saiu e foi criar um caso desgraado para virar o vice, e virou, mas foi uma briga terrvel. Todo mundo gritava e muita gente contra, at porque o pessoal do MR-8 era ligado ao Qurcia. Briguei muito nessa conveno. Eu no podia subir ao palco. Estava l o Ulysses Guimares, o Montoro e o Covas, que era o presidente do partido. Iam me tirar de l, mas eu disse que no ia sair. O Zuzinha falou: larga ela a. Ningum ia me tirar de l. Eu s arrumava confuso. Respondi a tanto processo na minha vida por causa de poltica. Fazia tudo da minha cabea, no ficava esperando ningum, e o Mario Covas sempre me apoiava.

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Covas dedicou-se sua candidatura a deputado federal, elegendo-se em 1982, no mesmo pleito em que Andr Franco Montoro tornou-se governador do Estado de So Paulo.

Maria CristiNa Mazago militantE E chEfE dE gabinEtE do mEmorial da amrica latina Mario Covas era candidato pela primeira vez depois da cassao. Desde que eu soube que ele era candidato, tinha decidido que ele era meu voto para federal. Foi aberto um comit na avenida Juscelino Kubitscheck, no meio do caminho onde eu morava e onde estava instalado o comit do Montoro. Um dia, fui at l com a cara e coragem, bati na porta, e disse: Vou votar no Mario Covas e vim buscar material. Na campanha do Montoro, eu cuidava das reunies com candidatos a vereador na capital. A gente precisava de mais espao, e l fui eu pedir no comit do Covas. Na primeira reunio algum me disse que o Mario Covas queria me cumprimentar. Covas gostava de ver as pessoas, conversar com elas, dar ateno. E para mim foi uma maravilha. Eu parecia uma menina de colgio, no parecia que eu j estava no meio da poltica, ao conhecer um daqueles cones da luta contra a ditadura. Ele foi muito gentil, acompanhou de longe cinco minutos da reunio e me pediu para fazer uma reunio em Santos, no comit dele, nos moldes do que fazamos na capital. Chamava Projeto Brigadas, nem lembro a razo, mas era um projeto grande, com vrias pessoas envolvidas. E l fui eu a Santos junto com Mario Covas. Fui e voltei. Uma das coisas que mais impressionavam no Covas era a capacidade de dar ateno s pessoas.

Covas e Montoro mostravam-se favorveis a uma mudana na legislao, permitindo a volta das eleies diretas para a prefeitura da capital. Havia um projeto de lei nesse sentido, e a mudana parecia possvel. Enquanto essa questo no se decidia, Covas exerceu as funes de secretrio dos Transportes do governo Montoro. Em maio de 1983, ao se verificar a inviabilidade imediata de eleies diretas, Covas assumiu a Prefeitura por indicao de Montoro.

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prefeito dE so paulono comando da capital paulista dE 1983 a 1985, mario covas buscou rEduzir a dEsigualdadE socialEm seu discurso de posse como prefeito nomeado do municpio de So Paulo, Mario Covas anunciou como diretriz o esforo para diminuir as desigualdades sociais. O espao entre o centro da cidade e o mais longnquo trecho da periferia no se mede em quilmetros apenas, mas, sobretudo, em distncia social. Ali, as pessoas vivem sob padres elevados. Acol, tentam precariamente administrar a prpria sobrevivncia. De um lado, o superconsumo do suprfluo, de outro, o subconsumo do essencial.

aNtoNio BeNJaMiM giosa assEssor do prEfEito Covas ficava intolervel, chutando lixo, passando mal, com os nervos flor da pele, quando tinha de aumentar a tarifa do nibus, porque sabia que atingia direto o bolso do trabalhador. Era um horror. Ele nunca enganou ningum: se dava para atender, atendia; se no dava, dizia logo. Atendia todos os vereadores, independentemente do partido. Lembro tambm que ele no queria aumentar quadro de pessoal e no atendia secretrios que vinham pedir novas contrataes. Para esses, dava um ch de cadeira.

lelivaldo BeNediCto Marques prEsidEntE da cohab Nunca trabalhei tanto, ganhei to pouco e fui to feliz. O Mario no se incomodava com coisas pessoais, com o que falavam dele, queria fazer o bem. Trabalhamos muito na Cohab. Havia um grande estoque de terra e financiamento do Sistema Financeiro da Habitao. Foram 33 mil habitaes emtregues em 34 meses. Conclumos o Conjunto Habitacional Cidade Tiradentes, que comeou com o Paulo Maluf, continuou com o Reynaldo de Barros, mas estava todo deteriorado. Na inaugurao, Covas pediu desculpas por entregar um local to distante do centro aos moradores. As unidades eram entregues em sorteios, obedecendo a uma fila. Nunca fui peemedebista ou psdebista, sou covista.

A preocupao com a periferia orientou vrias medidas para levar at ela servios antes s disponveis nas ruas centrais, como a implantao, em outubro de 1985, da varrio e da limpeza em todas as ruas asfaltadas da capital. At ento, esse servio s existia em 20% das vias pblicas.

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edsoN toMaz militantE E dirEtor da cosEsp O Mario Covas tinha uma prtica poltica avanada e pedaggica, quando chamava a populao a se organizar, a participar dos mutires. Ele sabia distinguir muito bem quem falava de problemas pessoais ou quem era termmetro social nesses casos, ficava mais de uma hora conversando. Ele adorava.

FraNCisCo de assis silva (ChiCo) ldEr comunitrio Na poca, ns organizamos um mutiro cata-lixo no Jardim das Oliveiras, onde no havia coleta de lixo porque nenhuma rua era asfaltada. A idia era levar as 12 toneladas de lixo para o gabinete do prefeito, no Ibirapuera. Mario Covas ficou sabendo e foi at o bairro ver o que estava acontecendo. Ele ficou impressionado com a organizao da populao. Mandou retirar o lixo e marcou uma reunio no gabinete, quando surgiu a idia dos mutires de guia e sarjeta. Era prefeito amassa barro, ajudava a assentar guia, dona Lila ia junto, at debaixo de chuva.

Para atender as vastas reas sem pavimentao de So Paulo, foi desencadeado um programa de mutires para a colocao de guias, sarjetas e calamento. A preferncia pelos mutires, soluo encontrada para contornar a escassez das verbas disponveis, contribuiu intensamente para tornar mais conhecido o nome de Mario Covas. Ele fazia questo de visitar pessoalmente todas as obras, passando a maioria de seus fins de semana na periferia da capital paulista.

Cleuza raMos ldEr comunitria Conheci Mario Covas como prefeito da cidade, nos mutires de guias e sarjetas da periferia, e logo me apaixonei. Ele estava l com a gente nos finais de semana, chegava s sete horas da manh, e isso fora do perodo de eleio. Covas era do povo, punha a mo na massa, no chegava periferia como prefeito.

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Carlos eduardo saMPaio dria sEcrEtrio das administraEs rEgionais Ele dedicou parcela importante da infraestrutura e da equipe da prefeitura para equipar melhor as administraes regionais, para melhorar o diaa-dia da populao, com atendimento melhor, com mquinas e pessoal capaz de atender com qualidade. Covas parou a decadncia das administraes regionais. Era to angustiado em atender a periferia que no se conformou com o papel burocrtico e passivo. Tomou a iniciativa de ir em busca dos problemas. luiz Carlos Frigrio assEssor dE gabinEtE Um dia ele abriu um monte de pastas e mandou eu escolher uma. Estava escrito: Pirituba-Perus. Ele disse: isso que eu quero que voc faa, no fim de semana, com seu carro. Voc vai visitar escolas, postos de sade, creche, parques. Vai fazer vistoria em cada lugar e trazer o relatrio. Te dou um ms. Isso ele fez com cada subprefeitura e com cada assessor. Tinha que trabalhar mesmo. A gente era os olhos dele. No que ele no tivesse olhos. Toda noite, quando saa do gabinete, ele queria ver alguma coisa. Na poca, a prefeitura comprou uma mquina de frisagem e ele quis ir l na Freguesia do ver, s nove da noite. A mquina ia operar, era nova. Atrs vinha a equipe para asfaltar as ruas. Ele achou que o funcionrio que operava o esguicho de leo quente no estava fazendo de forma correta. Foi l, pegou o esguicho e mostrou ao rapaz como devia ser feito. Ficou todo sujo de leo. Com a mquina nova de desentupir bueiro ele fez a mesma coisa.

MarileNe Batista dos saNtos, tia leNa ldEr comunitria Na poca da prefeitura, fizemos um lao de amizade, de luta, sempre juntos. Durante os mutires, Covas ia s entidades, e o almoo era po francs com mortadela. Covas tinha um carinho, uma ateno especial para as associaes que trabalham em prol da comunidade. Pesquisava a condio de vida dos moradores, caminhava com a gente na periferia e valorizava muito o trabalho da mulher e a participao feminina na vida poltica.

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JayMe aPareCido de souza ldEr comunitrio A diferena entre Covas e os outros polticos que ele era popular, carismtico, fazia por onde ganhar a confiana da gente, nunca se atrasava, no faltava aos encontros marcados, no deixava ningum falando sozinho. Pedia para marcar um pedido num pedao qualquer de papel e depois mandava fazer. Ia para o bar com os moradores tomar caf e comer pastel. Mario Covas no era prefeito, senador, governador. Era amigo. Ia l em casa, comia marmitex e pedia licena para tirar a camisa.

Padre rosalviNo Era engraado o jeito de ele falar com a populao. Quem no conhecia, achava que ele estava agredindo o povo. Mas, prestando ateno, chegando mais perto, era fcil ver a vontade, a fora a garra. Ele queria que o povo participasse do progresso e do desenvolvimento. No achava correto a prefeitura fazer, inaugurar e ir embora. Para Mario Covas, o povo era o autor da obra, o verdadeiro protagonista. Na periferia, cabia s lideranas agregar e motivar a populao. A ele vinha, cobrava, fazia junto e chorava. Muitas vezes vi lgrimas de emoo no rosto de Covas nas inauguraes de guias e sarjetas. E no era s ele que chorava.

A iniciativa mais marcante de sua passagem pela prefeitura foi a criao, em dezembro de 1983, da Carteira de Passageiro Especial O Passe do Idoso, permitindo que as pessoas com mais de 65 anos viajassem gratuitamente nos nibus da cidade, entrando pela porta dianteira dos veculos. A repercusso extraordinria dessa iniciativa pioneira, copiada posteriormente por um grande nmero de cidades brasileiras, considerada uma conquista definitiva, que hoje ningum pensaria em abolir. Alm disso, Covas iniciou os corredores de nibus, com a implantao do corredor Santo Amaro Nove de Julho e a corajosa interveno no sistema de transporte de nibus da capital.

adriaNo Murgel BraNCo consElhEiro da cmtc Covas foi ousado na prefeitura da capital. Dificilmente os prefeitos tm coragem para enfrentar a mquina do transporte privado, que sempre foi muito forte. A gente conhecia a mquina e no havia mais a presso dos militares. Podia dar errado a iniciativa dele, mas no deu.

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getlio haNashiro sEcrEtrio dE transportEs Covas sempre relutava em tomar uma deciso em prejuzo da populao mais carente. Na poca, os empresrios do setor de transporte coletivo publicaram matria paga nos jornais, ameaando no aceitar mais o Passe do Idoso. Foi o estopim para Mario Covas, e a prefeitura fez a interveno. s 18h57 do dia marcado, Covas deu entrevista para a rdio Jovem Pan, dizendo: Face a ameaa das empresas de nibus, e para que a populao no sofra, decreto a interveno no sistema de transporte de nibus em So Paulo. A entrava no ar a Voz do Brasil. Disparamos o processo, samos do gabinete para as treze empresas, e Mario Covas foi junto para uma delas. Foi uma medida de preservar a autoridade pblica em defesa do interesse pblico. Em menos de 24 horas mobilizamos mais de 1.100 pessoas. Ganhamos em todas as instncias jurdicas do pas. As empresas foram pegas totalmente de surpresa, e a lei era clara. Toda a arrecadao que entra gerenciada pela prefeitura e tudo que sai pago pela prefeitura, com tcnicos da CMTC gerenciando as empresas durante a operao. Deu para ver o alto grau de rentabilidade das empresas, na poca.

Sua gesto tambm se mostrou superior no que se refere ao nmero de quilmetros pavimentados e ao preo pago aos empreiteiros. Segundo um levantamento publicado pelo Jornal da Tarde, em 13 de junho de 1989, o metro cbico na sua gesto saiu por pouco menos de 5 OTNs , valor um pouco inferior ao pago por Olavo Setubal e menos de um quarto daqueles vigentes nas gestes de Reynaldo de Barros e de Jnio Quadros. Por outro lado, a mdia mensal de 35 quilmetros pavimentados na gesto Covas foi mais do que duas vezes superior observada nas gestes de Setubal, Jnio, Reynaldo de Barros ou Paulo Maluf.

aNtoNio arNaldo queiroz e silva sEcrEtrio dE vias pblicas Quando eu levava proposta de asfalto para regies mais nobres da cidade, Covas era contra. O que ele queria era diminuir a distncia social. Empresrios, empreiteiros tinham dificuldade em falar com o prefeito, ao contrrio de entidades como associaes de bairro, que eram logo atendidas. Covas era trabalhador srio e honesto. Eu lembro que a grande carncia da populao naquela poca era o asfalto, e ento Covas bolou os mutires de guias e sarjetas nos bairros pobres. Foram quatro mil ruas asfaltadas, um negcio de louco, mas Covas adorava essas coisas do povo e dizia: A pavimentao valoriza o imvel e facilita a vida das pessoas, at caminho de lixo, de gs e de entregas podem transitar.

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Na Educao, as trs prioridades eram a reestruturao da carreira, a reorganizao escolar e o currculo. Covas refez todo o regimento escolar, dando mais fora para o conselho escolar e favorecendo a participao de pais e professores na gesto da escola. Esse processo, em detalhes, est depositado na Fundao Carlos Chagas. Covas acompanhou de perto todo o processo e a participao da populao.

guioMar NaMo de Mello sEcrEtria da Educao Quando Covas acreditava na proposta, ficava ao nosso lado e nos dava confiana para ousar. Mudar toda a carreira de professor, enfrentar a burocracia da secretaria. A briga pela merenda escolar, com uma oposio inconseqente e leviana, foi tarefa rdua. Trabalhar com ele foi uma experincia de ousadia e firmeza. Mario no transigia, desde as coisas menores s grandes. Se concordava comigo, ia at o fim. Na poca, existiam recursos para construir 21 pr-escolas, mas Covas pediu uma reviso. Ele ajudou, e pudemos construir 57 escolas, das quais 14 de ensino fundamental.

Durante sua gesto na prefeitura, Mario Covas aumentou de 28% para 39% a participao da rea social no oramento do municpio. Ainda assim enfrentou quatro greves do funcionalismo, conflitos com os sem-teto e outros movimentos reivindicatrios, como o dos desempregados que permaneceram acampados diante da prefeitura em setembro e outubro de 1984.

Joo dria JuNior prEsidEntE da paulistur No custo do Carnaval, ele discutia centavos. No incio, o custo total do Carnaval era bancado pela prefeitura. No final da gesto Covas, a iniciativa privada arcava com 75% desses custos. Ele adorava frequentar os eventos da equipe dos menudos da Secretaria de Turismo e da Paulistur e dizia: S me convidam para eventos prazerosos, no me pedem dinheiro.

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deNisard de oliveira alves sEcrEtrio dE finanas Herdamos a prefeitura de So Paulo quase quebrada. Durante um tempo, s vinham pessoas querendo receber, no tinha dinheiro nem para a folha de pessoal. Em janeiro, foi feito um emprstimo com o Banespa, uma antecipao de receita para pagar o funcionalismo. Foi dureza o primeiro ano para recuperar. O Mario era duro nas negociaes, forou reduo de preos de pavimentao, obras, coleta de lixo. Recuperamos as finanas do municpio sem aumentar os impostos.

iBer BaNdeira de Mello sEcrEtrio dE nEgcios Extraordinrios Mario Covas no era homem de revanche. Na poca, o bairro de Santo Amaro queria se emancipar, e um deputado do MDB fez um pronunciamento na Assemblia Legislativa, dizendo que Covas usava mtodos escusos. Ele, claro, no gostou nem um pouco. Passou. Um belo dia, Covas me chama para testemunhar uma conversa em seu gabinete. Entro na sala do prefeito e l est sentado o tal deputado. O clima, no incio tenso, foi ficando to bom que o deputado se disps a pedir desculpas publicamente. Mario Covas no quis. Era homem de grandezas.

A gesto de Mario Covas na prefeitura de So Paulo terminou em 31 de dezembro de 1985.

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senador constituintEEm 1986, mario covas ElEgEu-sE sEnador com 7,7 milhEs dE votos, o maior rEsultado ElEitoral no brasil at EntoA volta das eleies diretas para prefeito nas reas de segurana nacional deveria fazer de Mario Covas o candidato natural do PMDB. Mas, como recorda Fernando Henrique Cardoso em A Arte da Poltica, uma manobra poltica no Congresso vedou aos titulares das prefeituras o direito de se candidatar em 1985. Favorecia-se, assim, a candidatura do ex-presidente Jnio Quadros, do PTB, em coligao do PFL, com a eliminao do competidor mais forte da oposio, Mario Covas. A alternativa do PMDB consistiu em apresentar o prprio Fernando Henrique no lugar de Covas. Jnio venceu as eleies. Covas tambm no conseguiu a indicao para as eleies ao governo de So Paulo em 1985. A escolha recaiu sobre Orestes Qurcia.Em compensao, em novembro de 1986, Covas elegeu-se senador com o maior resultado eleitoral da histria poltica do Brasil at ento 7.785.667 votos. Empossado em 1 de fevereiro de 1987, primeiro dia de funcionamento da Assemblia Nacional Constituinte, assumiu logo a seguir a liderana do PMDB, rivalizando em influncia com o presidente Ulysses Guimares.

FerNaNdo Padula clubE dos tucaninhos Um dia toca o telefone l em casa: O senador quer falar com voc. Era a primeira vez que eu iria ao escritrio dele, e ele falou: Menino, voc sabe onde o prdio da IBM? Meu escritrio fica em frente. Passa aqui. L fui eu. Minha me no estava em casa nem meu pai. Minha tia foi comigo. Eu fiquei l, um menino de 11 anos, conversando durante uma hora e meia com o senador Mario Covas. Acho importante falar isso porque mostra o quo diferenciado ele era. Um senador em pleno exerccio do mandato, com quase 8 milhes de votos, com algum que no era filho de ningum conhecido. Nessa conversa, ele disse: Agora, uma vez por ms, voc me liga, passa aqui, pra gente ir conversando. Eu estava no Boletim de Ligaes do senador Mario Covas. Como lder de bancada, Covas ganhou a reputao de excelente negociador. No reunia o nmero de votos para vencer um embate direto com o Centro, bloco parlamentar majoritrio. Mas, negociando cuidadosamente, conseguiu dar cunho mais avanado a assuntos quase tabus, como o da reforma agrria.

MeNdes thaMe dEputado fEdEral constituintE E sEcrEtrio dE rEcursos hdricos Mario Covas teve um papel extremamente importante para que a Constituio corrigisse problemas, para que a legislao no fosse s um conjunto de regras sobre direitos, mas um indutor de comprometimentos, inibindo os deletrios e estimulando aqueles com propostas mais avanadas no campo das reformas, nos temas de preservao do meio ambiente e nas grandes questes sociais. Defendeu o parlamentarismo e opsse aos cinco anos de mandato para o presidente Jos Sarney. Embora vencido nesses dois embates, sua atuao mostrou-se essencial para a evoluo da poltica partidria no pas.

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aNtoNio delFiM Netto dEputado fEdEral constituintE Eu era presidente da Comisso de Princpios, e o Covas, comandante do bando que se acreditava socialista. Era divertido ver o Mario invadindo a Comisso para exigir dos liderados os votos. Havia bom humor, enriquecia as divergncias. Ele no era mal humorado, era turro. Tnhamos divergncias ideolgicas, mas nunca tive inteno de convenc-lo. O importante era que tanto eu quanto ele acreditvamos no teorema de Pitgoras. Nem eu perdi tempo para tentar convenc-lo nem vice-versa.

Miguel reale JuNior sEcrEtrio dE administrao E modErnizao do sErvio pblico Durante a Constituinte, eu assessorava a presidncia, e Covas era o lder do PMDB com uma posio marcante. Pela manh, os lderes se reuniam, e Covas, como lder da maioria, presidia as reunies. Fazia a lio de casa, anotava tudo, tinha absoluta memria e raciocnio lgico, unidos capacidade emocional. Os discursos na Constituinte impressionavam pela firmeza do raciocnio e a emocionalidade. Ele sempre teve posies de coerncia e fidelidade a seus princpios, s vezes exageradamente. Como no caso da votao sobre os cinco anos para o governo Sarney. Covas fez uma consulta no oficial aos convencionais, que mostrou que a maioria do partido votaria pelos quatro anos. Fui interlocutor de uma proposta de Jos Sarney, de parlamentarismo j e cinco anos para seu mandato. Eu e o Nelson Jobim levamos a proposta para o Mario, que foi inflexvel: Se o partido resolveu quatro anos, no aceito. Uma deciso que contrariava sua prpria opinio. Mas Mario Covas era muito firme em suas convices, no concedia nada que as ferisse.

As posies assumidas por Covas no Senado funcionaram como um divisor de guas, canalizando numa s corrente os polticos do PMDB interessados na renovao do partido. No mbito paulista, esse desacordo poltico se via agravado pela velha rivalidade entre o grupo de Covas e o de Orestes Qurcia. Alm do distanciamento pessoal, havia a separ-los divergncias profundas no modo de encarar a prtica poltica. Assim, em junho de 1988, Covas e seus aliados afastaram-se da sua antiga agremiao e reuniram-se sob uma nova bandeira partidria: a do Partido da Social Democracia Brasileira PSDB.

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nascE o psdBcovas sai candidato prEsidncia da rEpblica na primEira ElEio dirEta dEsdE o fim da ditaduraAo lado de Covas, encontravam-se no PSDB polticos de expresso, como Fernando Henrique Cardoso, Franco Montoro, Jos Richa, Jos Serra e Pimenta da Veiga. Mas era urgente confirmar a identidade da nova agremiao, apresentando um candidato prprio presidncia da Repblica. Muito embora as circunstncias no fossem das mais favorveis, Mario Covas aceitou a incumbncia. Era a primeira eleio direta para a presidncia da Repblica desde o fim da ditadura, e ele, que tanto lutara por esse dia, sentiu que no poderia se esquivar.

Maria heleNa BerliNCK chEfE dE gabinEtE do govErnador No haveria partido se Mario Covas no quisesse. Ele era uma espcie de lastro do PSDB, o que dava sentido e rumo ao partido. At o fato de terem decidido que a presidncia seria ocupada alternadamente em rodzio, foi ideia de Mario Covas. O interessante que, enquanto Fernando Henrique Cardoso formava os multiplicadores, o Mario Covas viajava. Ele e a Lila saiam pelo interior do Estado fundando os diretrios municipais. Iam de fusquinha, e muitas vezes era o prprio Covas que ia dirigindo.

avelsio JaCoBiNa ldEr comunitrio Mario Covas foi fundamental para a criao do PSDB. O retrato de 1987 o retrato de hoje. Qurcia dominava So Paulo, pagava camisetas, carro, gasolina, e ns no tnhamos nada. O Mario se reuniu com Montoro, e disse: Vamos criar um novo partido com Euclides Scalco, Montoro, Fernando Henrique, Tasso Jereissati, Dante de Oliveira. Covas deu vez e voto para as lideranas comunitrias, foi o grande mobilizador das massas. Dizem que um partido de elite, mas surgiu porque Covas deu voz s massas. Tinha grandes pensadores, lideranas, que foram ajudando a fazer o estatuto. Mas o mobilizador das massas foi o Mario. Ele era invejado, mas jamais igualado.

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aNtoNio Perosa dEputado constituintE E prEsidEntE do daEE Foi uma dificuldade grande fundar o PSDB. Eu fui o sexto a assinar a lista. A fundao partiu da bancada do PMDB de So Paulo, a maior e mais importante. Ali estavam Ulysses, Covas, Montoro, os grandes lderes polticos da ocasio. Partiu daqui. Companheiros de outros Estados aderiram por princpios. Para mim, pessoalmente, foi muito difcil. O governador de So Paulo, que era o Qurcia, quando a gente saiu do partido, foi minha cidade na campanha subsequente e me chamou de traidor. Eu enfrentei muitas dificuldades, a gente estava deixando um partido organizado e estruturado para criar algo novo. Tanto que no me reelegi. Meu voto era de companheiros do PMDB que tinham feito minha campanha. Quando eu sa, eles no vieram junto. Me lembro de Mario Covas ter dito: Voc vai ter dificuldade para se reeleger. Eu sabia. Mas no podia deixar de ir junto com meus companheiros de partido. Foi uma dificuldade grande para todo mundo. Imagina para um deputado que j tem cinco ou seis mandatos largar um partido tradicional. Foi superdifcil, a gente enfrentou muita oposio, interna do PMDB e externa, sobretudo do PT. De uma certa forma, a gente ocupava espao semelhante em termos ticos e morais, at ento. E o partido s saiu quando Mario Covas deu a palavra de que iria para o novo partido. Ele tinha uma noo de tica muito grande, e o partido s foi fundado depois da Constituinte. Ele no queria enfraquecer a liderana do Ulysses. Necessariamente, a sada do PMDB significava isso. Ns ramos a ala do Ulysses, mas a gente no podia concordar com algumas coisas. Ulysses, para ficar, teve que concordar com isso. Ns samos. BoB FerNaNdes - jornalista Deles todos, Mario Covas era o mais dedicado ao partido. O PSDB nasceu e existe porque tinha o Covas. As demais lideranas no tinham dimenso nem estrutura para montar o partido. O Covas acreditava e trabalhava da forma mais profunda e arrojada.

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a campanha presidencialpartido novo E dificuldadE dE acordo com polticos influEntEs dEixam covas Em quarto lugar no primEiro turnoNa sesso do Senado de 28 de junho de 1989, Covas apresentou as bases de sua campanha presidencial com um discurso de ampla repercusso e que ficaria conhecido como o do Choque do Capitalismo. Nele, anunciava sua crena na social democracia como a mais vitoriosa experincia poltica do ps-guerra e explicitava sua opinio sobre pontos delicados, como o das relaes entre Estado e iniciativa privada. roNaldo Csar Coelho dEputado fEdEral constituintE Covas era uma referncia tica na poltica. No era referncia do meio acadmico, mas da capacidade de contato com o povo e tambm de integridade. Entendia o povo mesmo quando o povo no o entendia. Viajei com Covas pelo Brasil todo na campanha presidencial de 1989. A bela campanha que desfraldava a bandeira da tica. Ele no se traiu em momento algum. amos a lugares onde no tinha ningum para receber o candidato, e Covas em nenhum momento demonstrou tristeza ou rebeldia. Foi uma aula para mim - s vezes, no aceito o destino. Aprendi com ele essa superioridade. No fim da campanha, ele ligou pessoalmente para cada um que ajudou.

A necessidade de dar identidade ao PSDB dificultava os acordos com polticos influentes. Em Minas Gerais, o governador Helio Garcia manifestou o desejo de apoiar Covas, mas no chegou a concretiz-lo, pois seu nome foi vetado por Pimenta da Veiga, ento prefeito de Belo Horizonte. Pimenta da Veiga, que coordenava a campanha de Covas em Minas Gerais, ambicionava candidatar-se ao governo estadual em 1990 e no tinha interesse numa aproximao com Helio Garcia. A nica adeso a Mario Covas entre os governadores partiu de Tasso Jereissati, do Cear, que deixou o PMDB e aderiu ao PSDB.

woyle guiMares coordEnador do programa dE tv O Covas era explosivo, autntico, tinha conscincia do papel que representava como poltico. primeira vista, era formal, preocupado com a campanha, mas depois se mostrou alegre, expansivo. Era reflexivo e tinha medo de ser transformado em boneco de TV. Queria agir como se estivesse numa tribuna onde podia ser eloquente, falava de cima para baixo, com maior volume de voz. Na TV tinha que ser diferente, mas ele era um sedutor. Comearam as gravaes, a campanha era tumultuada por ser a primeira, o PSDB no tinha base pelo pas, havia Estados onde no tinha sequer local para fazer comcio. Foi uma campanha guerreira, com muito envolvimento, Mario Covas olhando de frente, falando a verdade, como sempre fez.

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Covas lutou pela vitria. Ao final do primeiro turno, Covas obteve 11,52% dos votos vlidos.No segundo turno, depois de intensa discusso interna, o PSDB acabou por apoiar Lula. Covas manifestou o seu apoio pessoal no Rio de Janeiro. Jos serra prEsidEntE do psdb Concordei com o apoio a Lula e internamente defendi a liberao do voto, j que a vontade da maioria era apoiar Brizola no segundo turno. Mas a deciso estava tomada e fui com Covas ao comcio do Lula, no Rio de Janeiro. O apoio a Lula em 1989 trouxe desgaste em parte dos eleitores, principalmente em So Paulo, j que muitos no entenderam os motivos do apoio. Em 90 foi muito difcil. Covas no queria ser candidato a governador. O Qurcia apresentava um grande volume de obras, e ns no tnhamos prefeitos no Estado. Eu era presidente do partido e os deputados queriam o Covas como candidato a governador para garantirem as suas eleies. Ele foi empurrado para ser candidato. Somando a tudo isso, tnhamos o mote principal do PT naquela eleio, que era nos atacar, apesar do apoio a Lula em 89. Em So Paulo Covas perdeu o governo e Montoro o senado. No Paran, Richa foi derrotado e em Minas Gerais, Pimenta da Veiga tambm perdeu a eleio.

FBio FeldMaN dEputado E sEcrEtrio do mEio ambiEntE Ningum queria apoiar o Collor, mas apoiar Lula era difcil. Num comcio, comearam a cantar a Internacional Socialista, os outros lderes se afastaram e Mario Covas ficou. E pagou caro por isso. Hoje podem achar estranho, Lula est bem. Mas em 1989 era outro momento. O presidente da Fiesp sugeriu que se sasse do pas. Covas apoiou Lula e foi quem mais pagou por esse apoio. arNaldo Madeira vErEador O PSDB nacional decidiu apoiar o Lula, e Covas, com sua coerncia, foi em frente. Mas a sociedade paulista ficou com um p atrs com ele. O apoio provocou desgaste. Em 90 conversei com ele que no devia ser candidato pelo desgaste de 89. Ele concordou, mas havia presso dos deputados que haviam ido para o PSDB e queriam um candidato a governador para puxar votos. Ele acabou cedendo, foi para o sacrifcio para eleger a bancada. Ele tinha esprito partidrio, mesmo em prejuzo prprio.

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rumo ao Governo de so paUlona disputa dE 1990, covas no passou do primEiro turno, voltou ao sEnado E, corrigindo a rota, ElEgEu-sE Em 1994Em 1990, Covas candidatou-se pela primeira vez ao governo do Estado de So Paulo, no passando do primeiro turno. A eleio foi vencida pelo candidato do ex-governador Orestes Qurcia, Luiz Antonio Fleury Filho, que derrotou Paulo Maluf no segundo turno. zulai CoBra riBeiro candidata a vicE Mario Covas me chamou no dia 1 de junho de 1990. A conveno aconteceria no dia 3. Fiquei contente, encantada, era viva recente, no sabia se sairia candidata a deputada federal o que significava mudar para Braslia, e meus filhos eram pequenos. Mario Covas me chamou para vice, ia apresentar meu nome na reunio da executiva, mas pediu que eu no fosse. Ele falou: S saio candidato se voc for minha vice e no quero voc l. No fui. Havia cinco pr-candidatos a vice, todos homens. Eu no tinha sido nada ainda, e ele cortou qualquer manifestao contra mim: ou aceitam ou saio e no volto. Fui para a conveno, tenho belas fotos. bom que se saiba que em 1990 era muito difcil mulher ser vice. No comcio, em carreata, perguntavam: quem aquela mulher ali? Foi uma campanha muito difcil.

Paulo MarKuN coordEnador do programa dE tv Na campanha para o Senado, Covas sentava em um banquinho no estdio e contava uma histria. Foi eleito com quase 8 milhes de votos. Em 1990, ele insistia no mesmo conceito. Mas era preciso apresentar o programa de governo, e Covas no aceitava ponderao de no entrar na briga com Fleury. A campanha comeou com 42 pontos nas pesquisas e terminou com 14. Ele no queria ser candidato, estava extremamente mal humorado. Quatro anos depois quis e se elegeu. A coisa era to complicada que um dia me ajoelhei aos ps dele e implorei que gravasse o programa. Mas no adiantava, qualquer alternativa que eu ou o Marcelo Vaz apresentssemos ele no aceitava. Mas no dizia o que queria. Fomos ficando sem programa.

De volta ao Senado, Covas assumiu papel relevante no principal acontecimento poltico do incio da dcada de 1990: o impeachment do presidente Fernando Collor de Mello. Durante os debates, os defensores do presidente haviam alegado que a CPI fora aberta para apurar os desmandos de PC Farias e seria desvirtu-la de suas finalidades envolver o presidente. Respondera Covas, citando Pedro Collor, que PC Farias ficava com apenas 30% dos ganhos ilegais, cabendo 70% ao presidente. Dessa maneira, no havia como desvincular um nome do outro, a no ser que se quisesse rebatizar a Comisso como a CPI dos 30%.

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Jorge BorNhauseN sEnador constituintE Em fevereiro de 1992, fui chamado pelo presidente Fernando Collor de Mello, depois de uma votao na Cmara Federal em que o governo teve um s voto. Collor queria formar um ministrio multipartidrio para restaurar o governo. Demorei para aceitar, mas depois me empenhei a fundo. Convidamos Tasso Jereissati, ento presidente do PSDB, e Fernando Henrique para comporem o ministrio. Jereissati para a Integrao Regional e FHC para as Relaes Internacionais. Tratei muito com FHC, de quem era prximo. O PSDB, pelo voto de desempate de Mario Covas, no aceitou. Nem por isso a amizade ficou abalada. Covas estava certo. Com a renncia de Collor em 29 de dezembro de 1992, o vice-presidente Itamar Franco, j presidente interino desde 2 de outubro, assumiu definitivamente o cargo. Mario Covas defendeu no PSDB a tese vitoriosa de um governo de unio nacional em torno de Itamar Franco. Em janeiro de 1993, Fernando Henrique Cardoso assumiu o Ministrio das Relaes Exteriores do governo. Deixava vaga a liderana da bancada do PSDB no Senado, que foi ocupada por Mario Covas.

O governador dos paulistasEm dezembro de 1993, Mario Covas lanou-se candidato ao governo de So Paulo, e a proposta bsica do programa de governo, elaborada por ele, era mudar o Estado por meio de trs revolues. A primeira delas era tica: o governo no poderia mais continuar dando motivo para ser agredido pela sociedade. A segunda seria uma revoluo administrativa, e a terceira, contra o desperdcio. Em torno dessa trilogia, foram criadas as polticas pblicas que viriam a nortear todas as aes do governo Mario Covas.

aNtoNio aNgarita coordEnador do programa dE govErno E sEcrEtrio dE govErno Vrias pessoas queriam ajudar Mario Covas na Fundao Getlio Vargas. Tambm havia o contingente de engenheiros da Poli que sempre o acompanhara, alm do pessoal que havia vivido a experincia da prefeitura. Alm desses, muita gente procurava a Casa do Programa, o que, na verdade, era um complicador talvez seja mais fcil administrar a escassez do que a abundncia. Foram criados 30 grupos de trabalho. Para que no houvesse um nico coordenador em cada grupo, que poderia pensar que j seria secretrio, entregamos o comando a trs pessoas: um poltico, um ligado a universidade e outro de empresa. A orientao foi cumprida em cerca de 70% dos casos. Cada um levou seu prprio contingente. Era muita gente. A dificuldade era deixar de discutir o programa, todo mundo queria conversar. Eu no podia derrubar o entusiasmo nem deixar o programa escapar de nossas mos. A campanha j nas ruas, e o programa sendo elaborado. Havia divergncias, discrdias, conflitos entre membros da equipe. E a GW, produtora do programa de televiso, pressionando. At que um dia, o Luiz Gonzalez pegou um livrinho qualquer e mostrou no ar como sendo o programa do governo. Mario Covas ficou muito bravo.

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Para evitar cimes e clivagens determinadas por lideranas diversas dentro do prprio PSDB, algo que prejudicara gravemente a campanha anterior, Covas ampliou o nmero de colaboradores ligados s principais lideranas do PSDB naquele momento: Montoro, Serra, Fernando Henrique e Srgio Motta.

roBsoN MariNho coordEnador da campanha dE 1994 E sEcrEtrio da casa civil Recebi dele duas recomendaes de imediato: primeiro, que nenhuma briga, nenhuma disputa, nenhuma fofoca de campanha eleitoral chegasse at ele, que fosse resolvida e estancada no nascedouro. Segundo, que fizssemos a campanha de acordo com os recursos arrecadados e no ritmo em que os recursos financeiros estivessem disponveis. Nunca gastar um tosto alm daquilo que arrecadasse, porque ele no tinha patrimnio pessoal para honrar dvida de campanha. Essas foram as duas primeiras recomendaes. geraldo alCKMiN vicE-govErnador Em 1993, eu era presidente estadual do PSDB e sempre me chamou a ateno a preocupao de Covas com a democracia interna. Havia dois candidatos a governador: Covas e Serra. Eu marquei a data de inscrio das primrias para dezembro de 1993, e em janeiro seria a escolha. Covas foi e se inscreveu. Serra abriu mo, no se inscreveu. Serra saiu candidato a senador, e Covas, a governador. Coordenei o processo at a conveno. Mario Covas no tirou do bolso do colete um candidato a vice. Fez uma reunio na vspera da conveno na casa dele, com umas 40 pessoas. Havia dois possveis candidatos a vice: eu e o Walter Barelli. Mandaram a gente sair para comer uma pizza e ficamos esperando sair a fumaa branca do episcopado. Voltamos para o apartamento, e Covas chamou Barelli para conversar. Eu tinha sido o escolhido. gugu liBerato aprEsEntador dE tv Sempre pensei em participar do PSDB, desde a fundao do partido. J havia sido convidado para participar de campanhas polticas de candidatos de outros partidos, mas nunca aceitei. Com Mario Covas foi diferente. Nele, eu confiava.

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daNilo Palsio Editor-chEfE do programa dE tv nas campanhas dE 1994 E 1998 Covas era uma pessoa apaixonada pelo que fazia. Nosso primeiro contato foi numa noite, num encontro de apresentao entre a equipe e o candidato. Chamou a ateno Covas ter ficado o tempo todo, mais de duas horas, de mos dadas com dona Lila, muito amoroso, acariciando as mos dela. Um contraste com a imagem do Covas guerreiro, brigador. De incio, Covas ficou desconfiado em relao ao plano do programa de TV, reclamou que tinha que ir gravar vrias vezes por semana. Depois passou a ser mais colaborativo, respeitava a equipe. Outra coisa que me marcou logo nos primeiros dias era a obstinao com a exatido das informaes. Em uma reunio sobre educao, Covas chamou um monte de gente, queria saber como ia implementar os projetos, de onde viriam os recursos etc. Ele no se incomodava em ser chato. A reunio durou mais de dez horas.

Favorito desde o incio da campanha, Covas passou para o segundo turno em novembro de 1994 e venceu facilmente Francisco Rossi.

JusCeliNo Cardoso dEputado Estadual E sEcrEtrio da casa civil Teve uma passagem que me marcou no segundo turno, eu j eleito deputado estadual. Francisco Rossi estava crescendo e algum disse a Covas que havia problemas com os salrios dos professores e que ele tinha de assumir na campanha o compromisso de aumentar os salrios. Covas respondeu: Por que vou falar isso? E se no tiver condies de atender? Vou pegar o Estado falido, no sei se posso honrar esse compromisso. Primeiro tem que sanear. Se tiver que perder a eleio, eu perco, mas mentir eu no vou. Fiquei olhando, poucos fazem isso. ireNe ravaChe atriz Quando junto o meu nome ao de um poltico porque estou acreditando na proposta de um cidado. No faria contratada, no um comercial, um testemunho. Fiz algumas campanhas para Mario Covas.

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Governador dE so paulocom coragEm, lisura E austEridadE, covas EnfrEntou as dificuldadEs do Estado E buscou as soluEsMario Covas sabia dos problemas que iria encontrar para administrar as finanas paulistas e definiu o ajuste fiscal como objetivo inicial de seu governo. Por mais drstico que fosse esse ajuste, entretanto, a crise no seria resolvida sem a renegociao da dvida do Estado com o governo federal, que crescia de forma exponencial, a uma taxa de juros que chegou a 4% ou 5% ao ms.

riCardo trPoli dEputado Estadual, prEsidEntE da assEmblia E sEcrEtrio do mEio ambiEntE Quando assumi a presidncia da Assemblia de So Paulo, em 1995, Covas me disse: Olha, sero os dois piores anos das nossas vidas. Vamos votar a rolagem da dvida do Estado, as privatizaes e as concesses. A assemblia tinha que ser parceira em projetos que nem sempre eram simpticos. As votaes de projetos importantes eram sempre com plenrio cheio, tomado por membros das trs centrais sindicais, vaiando deputados, o pessoal do setor eltrico contra a privatizao da CESP. Covas trabalhou duro. Chamava os sindicatos para explicar a necessidade da aprovao. Tudo com dilogo, conversa, e sem tropa de choque os projetos iam sendo aprovados. Mario Covas no facilitava a vida de ningum.

sueli MartiNs sEcrEtria Quando chegamos, o Palcio dos Bandeirantes estava um caos, sujo, com os poucos computadores quebrados, abertos, uma coisa. A eu falei: Meu Deus, o que eu vim fazer aqui? Mas tnhamos uma misso, eu, principalmente, desde a poca de Santos. Fui como secretria, ramos duas, depois comeou apertar muito, e chegamos a ficar em quatro pessoas, fazendo rodzio. Eu ficava o dia inteiro. Ele no tinha hora. At organizar tudo foi muito complicado. Todo mundo queria falar com ele. Os secretrios com mil problemas, os polticos, os fornecedores, era uma loucura. No comeo foi uma barra. Ele atendia todo mundo. E tnhamos que ficar at ele terminar. Mas as pessoas eram muito engajadas. Todos ns ramos amigos, companheiros, o Covas fazia as pessoas agirem dessa maneira. Voc acabava fazendo parte da resoluo dele, do projeto poltico dele. Era icansativo, mas incrvel.

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walter FeldMaN dEputado, ldEr do govErno E sEcrEtrio da casa civil Naquele ano, uma grande bancada foi eleita, e Covas me convidou para ser seu lder na Assemblia. Eu estava chegando na Casa e perguntei a ele: Como vou montar maioria?. Problema seu, respondeu Covas. Era um desafio quase impossvel de ser superado. Com Covas no havia nenhum tipo de troca. Era a fora moral. Um perodo de grandes transformaes, concesses de rodovias, mudanas tributrias, priorizao de polticas sociais. O trabalho era diuturno. Depois de um ano, conseguimos atrair a bancada do PMDB. Era uma prtica republicana, com o compromisso de compartilhar a gesto. Assim, aprovaram tudo. Do primeiro para o segundo ano houve presso de deputados sobre o oramento de Covas. Falei para o governador que a situao estava crtica, a maioria era instvel, os deputados queriam mudanas. Covas respondeu: Diga para os lderes rejeitarem o oramento, isso que eu quero deles. E eu argumentei: Voc est preparado para ser derrotado? E Covas: Eu quero ser derrotado. E o oramento foi aprovado. Covas no se curvava.

ruBeNs rizeK JuNior chEfE dE gabinEtE da assEmblia lEgislativa Lembro-me que uma vez fui despachar com o governador, acompanhando o deputado Macris, presidente da Assemblia Legislativa. Ns entramos na sala dele, ele cumprimentou com uma certa distncia institucional, eu estranhei, mas ele disse: Presidente chamou o Macris de presidente presta ateno no que voc vai me pedir, porque o governador no fala no ao presidente do Poder Legislativo, eleito pelo povo. Ele falou aquilo com autoridade pblica, ele deu um sentido to nobre quela reunio entre o chefe do Poder Executivo com o chefe do Poder Legislativo, que deixamos de lado os assuntos que no tinham relevncia. Covas constrangia as pessoas de forma elegante, sempre lembrando a elas a importncia do cargo que exerciam. Isso para mim foi muito marcante.

MiltoN Flvio ldEr da bancada do psdb E prEsidEntE do iamsp Covas sempre incentivou o debate, e seus projetos sempre exigiram embates acalorados. As corporaes vinham aqui, jogavam moedas, havia ameaas fsicas. O governador gostava disso, que tivssemos coragem de defender o modelo que queramos em So Paulo. Uma coisa importante, que me envaidece, que Mario Covas nunca pediu que transgredssemos. Ele dizia: No estou pedindo que aprovem, mas que votem.

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Finanass vsperas da posse, surgiu uma agravante inesperada. Pedro Malan, presidente do Banco Central, telefonou para Covas avisando que o Banespa estava com grandes dificuldades, e Prsio Arida, que o substituiria no cargo, iria a So Paulo conversar sobre o assunto. Na mesma tarde, Arida sugeriu a Covas que tomasse a iniciativa de solicitar a interveno federal no Banespa, a exemplo do que acabara de fazer o governador do Rio de Janeiro, Marcelo Alencar.

eugNio stauB EmprEsrio Uma vez fui convidado pela revista Veja para responder a um teste. Nele, classifiquei Mario Covas como um poltico de esquerda liberal. Era assim que eu o via. Covas tinha qualidades que no se encontram em polticos. Era preocupado com o momento social, obstinado, honesto, coerente com seus ideais e fiel com os companheiros. Um homem teimoso, mas teimosia no , necessariamente, um defeito. Todos devem sempre lembrar o quanto ele lutou e teimou em relao ao Banespa.

Paulo CuNha EmprEsrio Eu presidia o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento do Estado de So Paulo, criado por empresrios, para discutir o desenvolvimento industrial do Brasil. Procuramos Mario Covas, ele se interessou muito, nos instou a procur-lo com mais freqncia. Eu, o Paulo Francini, o Eugnio Staub e o Cludio Bardella passamos a nos reunir com Covas para tratar da indstria paulista. No me lembro de ocasio em que o assunto no fosse o Brasil, So Paulo. A poltica era sua cachaa. Nos encontros, falvamos muito sobre poltica econmica. Nunca vi Mario Covas fazendo crticas pblicas ao governo federal, ele tinha uma grande lealdade e sempre deixava claro seu apoio ao governo do presidente Fernando Henrique Cardoso.

Tanto o governo federal quanto o do Estado de So Paulo tinham interesse numa soluo rpida, pois seus destinos estavam indissoluvelmente ligados. Grosso modo, o governo, em seus trs nveis, aplicava em So Paulo em torno de 20% do PIB, mas arrecadava em torno de 40%. A diferena era transferida para o governo federal e, por intermdio deste, para os demais Estados, especialmente por meio do Fundo de Participao dos Estados e Municpios. No havia, portanto, possibilidade de consolidar o Plano Real sem um acerto com So Paulo. Tanto mais que os outros Estados tomavam So Paulo como exemplo e s cediam nas negociaes o que So Paulo cedesse. Por outro lado, a demora em encontrar uma soluo fazia crescer rapidamente o montante da dvida paulista.

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yoshiaKi NaKaNo sEcrEtrio da fazEnda A relao com o governo Fernando Henrique Cardoso tinha duas dimenses: Mario Covas era de uma lealdade absoluta, mas divergia totalmente do tipo de poltica do governo federal. Covas dava prioridade absoluta gerao de empregos e melhoria das condies de vida da populao. Portanto, no podia haver juros altos, cmbio valorizado. Havia divergncias, defendia juros baixos, cmbio mais favorvel para exportao, Covas era contra expandir gastos e aumentar carga tributria e assinou mais de 170 atos reduzindo o ICMS. Covas tambm queria, de imediato, as reformas da Previdncia, a tributria e a poltica para deixar para depois a reforma econmica.

Havia, claro, a sada, finalmente aceita, de saldar parte das dvidas com a venda ou entrega de ativos. Mas, alm das dificuldades para o estabelecimento de critrios de avaliao, sobravam implicaes polticas. Durante a Constituinte, Covas criara uma imagem de adversrio das desestatizaes. Nunca admitiu, alis, que se afirmasse como questo de princpio a inferioridade da empresa pblica diante da empresa privada. Mas fora obrigado a reconhecer a impossibilidade em que se encontravam as empresas pblicas de So Paulo de investir as somas necessrias a seu desenvolvimento, motivo pelo qual j aceitara as desestatizaes como parte do Programa de Governo.

aNdr FraNCo MoNtoro Filho sEcrEtrio dE planEjamEnto O Covas, sempre visto como esquerdista estatizante, tirou a ideologia desse processo e fez o que era necessrio para o povo. E enfrentou com bravura os protestos da oposio. Fazia questo de ir pessoalmente aos leiles das empresas energticas e no se amedrontava diante das manifestaes.

Assim, a Companhia Paulista de Fora e Luz acabou leiloada em novembro de 1997 por 3,015 bilhes de reais. No ms seguinte, a Eletropaulo foi dividida em quatro empresas, duas de distribuio, uma de gerao e uma de transmisso, que logo depois passaram a ser cotadas na Bolsa de Valores. Veio depois a venda da Cesp em julho de 1998, e da Comgs, no primeiro semestre de 1999.

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aNdra Matarazzo prEsidEntE da cEsp E sEcrEtrio dE EnErgia Na CESP, a inteno inicial no era privatizar, mas sanear e dar continuidade s aes da empresa. Mas, depois de avaliar os dados, optamos pela desestatizao. A CESP tinha 22 mil funcionrios, a maioria trabalhando em escritrios na avenida Paulista. Reduzimos para 8 mil e devolvemos os imveis. A histria vai julgar Mario Covas pela sua simplicidade. Ele no tinha segundas intenes, era transparente. Entendia o que a sociedade queria, no fazia um personagem poltico. Resistia s presses contrrias privatizao, e todos somos unnimes em dizer que, tomada a deciso, tnhamos total apoio dele.

Mauro arCe dirEtor da cEsp E sEcrEtrio dE EnErgia Foi um perodo difcil, onde era preciso tomar decises importantes, pensando no futuro do Estado de So Paulo e do pas. Privatizar no era uma questo ideolgica para Mario Covas. Era uma necessidade. No tinha outra sada. Havia uma dvida imensa, e Covas foi obrigado a fazer, porque o Estado estava quebrado. Ele participava de tudo, das reunies, da tomada de deciso, discutia preo, prazo e condies. Nesse processo todo, sua fora moral foi de extrema importncia. Ele brigava muito, mas quando resolvia a questo, era disciplinado, tico e cumpridor. E mais, segurava a barra de todo mundo. Era um agregador.

Antes que o processo terminasse, o governo de Mario Covas j ganhara fora bastante junto ao governo federal para negociar sua dvida em melhores condies. E sua maior credencial era o xito do ajuste das contas pblicas. Alm do valor simblico como banco dos paulistas, o Banespa, na opinio de Covas, atravessara apenas um perodo de m gesto, mas tinha todas as condies de se recuperar. O correr do tempo, no entanto, deixou claro que a equipe considerava a privatizao como caminho obrigatrio para todos os bancos estaduais. Restou aos paulistas o consolo de ter salvado a Nossa Caixa.

adroaldo Moura da silva amigo E EmprEsrio Foi um momento de alta tenso. Eu estava na casa de Mario Covas, com minha mulher, Rose, e a Lila Covas, quando ele recebeu a notcia da interveno no Banespa. Covas ficou enlouquecido. Mas o episdio mostrou bem seu carter. Ele dava estocadas no Fernando Henrique, no Malan, mas segurou o pepino por respeito ao presidente. Demorou muito tempo para Covas deglutir a interveno.

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FerNaNdo heNrique Cardoso prEsidEntE da rEpblica Antes do primeiro turno da eleio de 1994, eu e o Mario fomos visitar D. Paulo Evaristo Arns. O Mario chegou mal humorado, de culos escuros, no entendi nada. Eu sabia que ia ser eleito e achava que o Mario tambm. Falei para ele: Temos um pepino, o Banespa. Indique trs pessoas para discutir o caso. Ele indicou o Adroaldo, o Angarita e o Calabi. Foi para o segundo turno e seguramos o anncio da interveno para no prejudicar a eleio. Eu concordei com a interveno. Comigo ele nunca teve uma exploso, s resmungava. Exploso foi com o Malan. O Banco Central sempre se ops negociao sobre o Banespa. Fechamos quase 40 bancos, e se no tivssemos fechado, hoje estaramos capotando. O Mario sempre achou que foi injustiado. Mas no verdade.

Graas soma de esforos empreendidos pelo governo de Mario Covas, foi possvel assinar o acordo de renegociao com o governo federal em termos favorveis. A dvida do Estado de So Paulo, que chegava a 76,8 bilhes de reais em dezembro de 1994, caiu para 64,6 bilhes de reais. Os pagamentos ficaram limitados a um teto de 13% da receita corrente lquida. Havia uma clusula do acordo prevendo juros diferenciados, dependendo de o financiamento cobrir ou no a totalidade da dvida. Para os Estados ou municpios que quitassem 20% do total no ato da assinatura do contrato, os juros anuais seriam de 6%. Para os que no fizessem esse pagamento, os juros anuais subiriam para 9%. So Paulo foi dos poucos que pagaram os 20%, cedendo ao governo federal ativos como os da Fepasa.

FraNCisCo graziaNo sEcrEtrio dE agricultura E abastEcimEnto Mario Covas nunca titubeou sobre a grande reforma administrativa que precisava ser feita na Secretaria da Agricultura de So Paulo. Ele deu apoio incondicional para arcar com os custos financeiros e polticos das demisses no Ceagesp, que foi privatizada em sua gesto. Fora isso, enfrentou as reclamaes de prefeitos que se sentiam desprestigiados, mas seguiu em frente, enxugando uma estrutura hierarquizada e modernizando o Estado.

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A revoluo administrativaA segunda revoluo anunciada por Covas referia-se parte administrativa, necessitada de um salto de qualidade e de uma aproximao com o povo. O instrumento principal consistiu na aplicao em larga escala da tecnologia da informao, ou seja, a conjugao da computao com as novas tecnologias de telecomunicaes. Todas as informaes do governo seriam digitalizadas e os diversos setores conectados em rede, constituindo o que se convencionou chamar de governo eletrnico.

alexaNdre sChNeider assEssor da sEcrEtaria dE govErno A situao do estado era catica, com muitas dvidas. Covas pediu a Angarita, secretrio de Governo, com quem eu trabalhava, para ver pessoalmente todos s contratos. Angarita argumentou que era muita coisa, mas Covas disse que queria mesmo assim. Angarita ento trouxe dois carrinhos de mo cheios de contratos e ali comeou a informatizao dos dados, o que possibilitou levantamento de custos e como conseqncia o corte de despesas.

dalMo do valle Nogueira sEcrEtrio adjunto dE govErno Ele no negociava individualmente com a Assemblia. Achava que, se a instituio era ruim, um dia ia melhorar. injusto considerar Covas centralizador. Ele discutia tudo, queria saber de tudo e receber todas as informaes, e na maior parte das vezes as decises eram dos secretrios, que escolhiam os presidentes das empresas e se reportavam a eles. Antigamente a diretoria s falava com o governador e no com o secretrio. Covas no foi substitudo, no tem ningum com o peso dele, respeitado como estadista.

Com sua formao de engenheiro, Mario Covas logo percebeu o alcance das inovaes que o governo paulista estava propondo e cuidou de viabiliz-las atravs de um emprstimo obtido junto ao BID em setembro de 1995. Isso permitiu que a capacidade dos tcnicos do governo fosse ampliada pela contratao de consultores em informtica ou de empresas de softwares para o desenvolvimento de produtos eletrnicos. Dentro da revoluo administrativa proposta por Covas estava o cadastramento eletrnico de 20 mil fornecedores e a padronizao de editais e contratos.

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vitor levy aly assEssor EspEcial do govErnador Eu e o Zeppo, dois engenheiros, fomos colocados pelo governador em uma sala ao lado da dele. Fazamos tabelas, planilhas e grficos, dos mais variados assuntos de governo. Ele queria tudo em ordem, e para ontem, claro. Passou o primeiro ano tendo sobressaltos. Fazia reunies, chamava pessoas e o som da sala dele vazava na nossa. A gente deixava o ar condicionado ligado pra no ouvir a conversa. O ar condicionado era velho e barulhento, mas a gente no deixava trocar. A gente fazia tudo, precatrios, Banespa, obras, servios preferenciais do estado e a prestao de servios terceirizados, que deu origem a tabela de preos, que mudou toda esta questo de gesto, preos preferenciais e concorrncias. Foi duro ficar to prximo, mas foi um aprendizado.

saulo de Castro aBreu Filho corrEgEdor gEral da administrao E prEsidEntE da fEbEm A determinao do governo era apurar todas as denncias, sem revanchismo, mas indo a fundo. Para isso, era preciso criar um grupo com tcnicos. Criamos sistemas de decises do governo, inclusive com fotos de obras e sistema de contratos terceirizados. Com isso vieram os indicadores. Gerou-se economia de bilhes e sem quebrar contratos. Era um processo transparente. O governador se mantinha bem informado e melhorou a qualidade do servio pblico. Tinha auditoria de campo, buscamos a lei de 1950, de Jnio Quadros, criamos a corregedoria geral da administrao. Chagamos a 80 corregedores, deu uma boa moralizada. Tinha o aspecto punitivo, com demisses, exoneraes, prises. O governo federal e municpios copiaram esse modelo. Era um trabalho delicado, as pessoas iam reclamar com o governador. Covas ento colocava o reclamante frente a frente comigo. J criava um constrangimento. Ele fazia questo de sempre ter o contraditrio e nunca pediu para interromper uma investigao. E era com gente grada, at mesmo do PSDB.

edward zePPo assEssor EspEcial do govErnador Eu e o Vitor tnhamos a tarefa de acompanhar as 220 obras prioritrias do governo. Ns no fiscalizvamos, mas fazamos o acompanhamento da obra. Foi feito um programa e a gente tinha o cronograma de todas as obras. Eram de 2 a 3 mil quilmetros de estrada a cada 15 dias. Na volta, com o relatrio e fotos na mo, o governador cobrava. Alm das prioritrias, haviam mais de 2.000 obras paradas, algumas, dependendo de pequenos valores para terminar. Ele fez um estudo de viabilidade de cada obra. Chamava o o empreiteiro junto com o secretrio da rea e ns tnhamos o levantamento de quanto a obra ia custar. Ele falava para o empreiteiro: Em quanto tempo voc me entrega a obra pronta? A pessoa dava o prazo e ele respondia: Pois bem, neste prazo, posso te pagar tanto por ms. Pode confiar. Covas no era homem de falar uma coisa e fazer outra. Com suas atitudes, a credibilidade voltou para o governo de So Paulo.

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EducaoQuando Covas assumiu o governo, as escolas eram amontoados de crianas e jovens; a mesma carteira que recebia o menino de sete anos pela manh, recebia o rapaz de 24 anos noite. As escolas funcionavam em quatro ou at cinco turnos, s vezes s com trs horas de aula por dia. Nas salas, os materiais no podiam ficar expostos, porque eram destrudos pelos alunos de outros perodos. Covas preferiu fazer uma reforma abrangente, que beneficiasse todos os alunos da rede pblica. Os resultados vieram mais cedo do que o esperado. Em 1996, aps a racionalizao da ocupao, 70% das escolas se tornaram exclusivas para alunos de primeira a oitava sries ou de quinta a oitava sries e de ensino mdio. Mais tarde seriam implantadas cinco horas dirias de aula em toda a rede pblica. Para combater as taxas de evaso e repetncia elevadssimas, criou-se a chamada progresso continuada ou em ciclos. O sistema introduzia maior flexibilidade, permitindo que alunos com resultados fracos em determinadas matrias no fossem condenados a repetir integralmente o ano letivo. Passavam para a srie seguinte, recebendo reforo especial naquilo que no haviam conseguido aprender. O fim da desordem nas matrculas foi mais uma das conquistas do governo eletrnico e, com a informatizao do cadastro em 1995, verificou-se em maro de 1996 a existncia de 280 mil matrculas duplicadas. Feito o ajuste, evitou-se, pela primeira vez, o desperdcio nas compras de merenda escolar. rose NeuBauer sEcrEtria dE Educao Trabalhar com Mario Covas foi uma lio incrvel. Nosso grupo era idealista, poder administrar com ele parecia utopia. Durante as inauguraes de escolas, Mario Covas fazia questo de dizer : A escola de vocs, feita com dinheiro de vocs, no tm que agradecer. Ele nunca foi de esquerda, mas tinha compromisso com a populao, respeito coisa pblica, que muita gente de esquerda coloca no discurso e no pe em prtica.

huBert alqures sEcrEtrio adjunto da Educao Covas deixava as pessoas se manifestarem. Ele tambm tinha esprito do confronto, quando necessrio. Tinha obsesso pela verdade, e no gostava de argumentos falaciosos. No comeo da gesto, muitos professores faziam protestos com os holerites nas mos, dizendo que ganhavam pouco. Mas os holerites no traziam todas as informaes. Covas ento pediu o salrio de todos os professores. Montamos num laptop um programa onde havia todas as informaes sobre o professor. No palanque Covas respondia aos manifestantes. Sempre que tinha um grupinho de professores ele topava a briga, rebatia e tinha razo. Com Covas, essa prtica acabou.

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HabitaoA mistura de boa gesto e boa poltica, no melhor sentido da palavra, deu resultados felizes na habitao. Do lado tcnico, as construtoras e indstrias de construo civil foram incentivadas a desenvolver novas tecnologias de construo e apresent-las para testes na CDHU Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano. Um entusiasta do sistema de mutiro, Mario Covas tratou de incentiv-lo, oferecendo aos interessados formas alternativas de construo com peas e estruturas pr-moldadas. No mbito poltico, Covas introduziu duas novidades no programa de habitao do estado. A primeira delas refere-se escolha dos contemplados entre os inscritos na CDHU. Para eliminar qualquer possibilidade de favorecimento, decidiu que a atribuio seria feita exclusivamente atravs de sorteio pblico. Esses sorteios logo transformaram-se em eventos acompanhados por milhares de pessoas. Como segunda novidade, o contrato passou a ser assinado, no mais pelo casal, mas exclusivamente pela mulher, que desta maneira se tornava nica proprietria. Covas adotou a medida de imediato e passou a referir-se a ela em todos os sorteios pblicos, recolhendo a cada vez uma nova onda de aplausos. A medida, uma das mais populares de seu governo, nunca foi contestada, jurdica ou politicamente. goro haMa prEsidEntE da cdhu A habitao popular era um programa de muito sucesso, e Covas participava pessoalmente de tudo. Ou na quarta ou no sbado, ou at duas vezes por semana, l ia ele participar dos sorteios em vrios pontos do Estado. Chegou ao final do primeiro mandato com 120 mil unidades entregues, representando o atendimento direto a 600 mil pessoas, que agora passavam a ter teto e endereo. O governador tinha uma ateno muito especial pela rea de habitao, j que ela cuidava diretamente do povo. Covas adorava. A sensao da pessoa receber uma casa, era um negcio inimaginvel.

Padre tiCo Ele tinha uma sensibilidade comunitria nica, e para ns da zona leste, que pegamos os piores polticos, principalmente na poca da ditadura, foi um atraso social enorme, com a periferia inchando sem qualquer planejamento. Mario Covas tinha planejamento, todo um pensar a partir da periferia. Foi um marco histrico. Em polticas pblicas Mario Covas deixou um marco importante para todos ns.

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SadeUma das principais diretivas adotadas por Mario Covas em seu governo foi a de no comear novas obras enquanto aquelas em andamento no estivessem terminadas. Vlida para todas as reas, essa preocupao mostrou-se essencial no caso da Sade. Ao assumir o governo, Covas encontrara catorze esqueletos de hospitais iniciados e abandonados. Cuidou de terminar essas construes, comeando pelas que estavam mais avanadas ou as localizadas em locais mais necessitados. Somente depois de terminada a fase de finalizaes, cuidou de construir hospitais novos, cujo nmero chegou a quinze: cinco na capital, oito na Grande So Paulo, um em Bauru e um na cidade de Sumar. A capacidade dessas novas unidades chegava a trs mil leitos, nmero que, somado aos trs mil reativados e/ou criados por ampliaes nos hospitais antigos, elevou o total de leitos disponveis em seis mil. Partindo do princpio de que servio pblico no precisa ser estatal, Covas submeteu Assembleia Legislativa e obteve a aprovao da lei que criava as Organizaes Sociais. Graas a essa inovao legal, Mario Covas pde autorizar a assinatura de uma srie de contratos de gesto com entidades beneficentes, que recebem o dinheiro do Estado, contratam o pessoal e compram medicamentos.

Jos da silva guedes sEcrEtrio dE sadE A proposta de Mario Covas foi vista com muita seriedade, e s o PT e o PC do B votaram contra. Alguns juristas chegaram a sugerir que as parcerias poderiam sem implementadas por decreto, mas Covas fez questo de ir para a Assemblia Legislativa. No novo modelo das Organizaes Sociais, os hospitais custam 25% menos e tm rendimento 30% maior. Mas Covas fez mais. Logo no primeiro Dirio Oficial, no dia 2 de janeiro de 1995, saiu decreto alterando a estrutura da Secretaria Estadual de Sade. Eram 65 escritrios regionais de sade, e todos os centros de sade eram estaduais. Foram reduzidos para 24 diretrios regionais, com tarefas diferentes. Dos cargos de confiana, 800 foram cortados. Sabamos que seria traumtico. Mas, a partir da, os funcionrios precisavam ter um perfil tcnico e no poltico.

Joo Batista rizeque assEssor dE obras da sEcrEtaria da sadE A gente devia muito dinheiro, e o governador dizia que tnhamos que dar satisfao e receber as pessoas. Naquele momento, no incio do governo, faltava credibilidade ao Estado. Um dia, ele me chamou e disse: Vamos retomar a obra de um hospital e, se der certo, faremos mais. Para renegociar os contratos, ele chamou os empreiteiros. Nas reunies, ele dizia: Vou retomar a obra que est sob a sua responsabilidade na seguinte base: vou pagar tanto e voc vai me entregar em tal prazo. E assim foi. Um por um. Quando sobrava um dinheiro, ele chamava e ia retomando a obra. Era uma conversa de cavalheiros. O empresrio aceitava, e se comprometia a cumprir. A maioria dos prazos foi cumprida e as obras, todas entregues como o combinado.

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Justia e Defesa da CidadaniaNa gesto Covas, foi criada a possibilidade de atuar em terras devolutas. Ficaria caro para o governo desapropriar terras para reforma agrria em So Paulo. Mas havia terras, a oeste do Estado, que o Tribunal de Justia tinha declarado pblicas, em 1957. Era 1995 e ningum tinha feito absolutamente nada para cumprir a lei. E foi cumprindo a lei que Mario Covas fez a reforma agrria em So Paulo.

Belisrio dos saNtos JuNior sEcrEtrio da justia E dEfEsa da cidadania O governador gostava muito de ver o momento em que a pessoa recebia um ttulo de terra. Ns entregamos centenas, milhares de ttulos, e o governador gostava, ele se emocionava, eram coisas muito fortes. O governador entregou ttulo de terra at para o Jos Rainha, lder do Movimento dos Sem Terra. E no era s a terra. Fizemos assentamentos, mas tambm entregamos sementes e colocamos disposio equipamentos e tcnicos do Instituto de Terras. Foi incrvel, aps um curto perodo, ver a produo agrcola prosperar naqueles locais.

edsoN visMoNa sEcrEtrio adjunto E sEcrEtrio da justia E dEfEsa da cidadania O governador s ficava indignado quando as coisas no aconteciam, ele queria resultados. Era fcil trabalhar com Mario Covas, porque ele tinha princpios e valores muito claros. Sua meta era atender sociedade, no importava se iria ferir os interesses de outros. Lembro quando o Instituto de Terras de So Paulo fez um levantamento de quem ocupava irregularmente reas pblicas h muitos anos, sem que o Estado tomasse alguma providncia. Havia nomes muito influentes, e Covas determinou a desocupao imediata das terras, enfrentando as presses polticas. preciso ter coragem para governar. E coragem no faltava a Mario Covas.

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Casa Militar

Cel. PM olavo saNtaNNa Filho chEfE da casa militar A Defesa Civil de So Paulo, durante a gesto de Mario Covas, foi pioneira na descentralizao. Antes, a atuao era s de emergncia, depois de alguma catstrofe inundao, deslizamento, chuva de granizo. Com Mario Covas, passou a ser tambm preventiva, com a criao de depsitos virtuais, mapeamento do Estado de So Paulo por reas de risco e educao infantil nas escolas para desastres.

JuraNdir JuNqueira ajudantE dE ordEns do govErnador Os primeiros seis meses foram muito difceis. Dificuldades fsicas, porque voc no dorme, a cabea a mil por hora, vivendo em funo do governador, alm da vida pessoal, tudo o que cerca o governador, informaes, estrutura, viajando tera, quinta e sbado. Nos primeiros quatro anos de governo, foram visitados 645 municpios, viajando de oito a dez cidades por vez. Em todas eu fui, pelo menos duas vezes em cada cidade. Em algumas, fui dez vezes. Teve uma cidadezinha, Itaoca, em que nunca um governador havia pisado. Na hora em que o helicptero decolou e teve que voltar, ele falou: a segunda vez que um governador vem aqui.

TransportesO governo tinha duas metas principais para tocar na rea de transportes: uma era o Programa de Concesses de Rodovias e a outra, o trecho inicial do Rodoanel. A oposio batia na Assemblia Legislativa, mas o Estado estava quebrado e sem capacidade de investimento. Fazer a concesso era o caminho, e Covas fez. Os preos dos pedgios eram uma grande discusso. Eles no eram mais baratos nas estradas movimentadas. Se fosse assim, as tarifas teriam que ser mais altas nas regies mais carentes do Estado, e, portanto, com menos movimento. Mas para o governo era preciso aplicar as regras da social democracia e diminuir as diferenas. As decises de Covas deram frutos duradouros. So Paulo tem a melhor malha viria do pas, e o Rodoanel, que hoje leva o nome de Mario Covas, uma realidade.

MiChael zeitliN sEcrEtrio dE transportEs As estradas vicinais eram outra grande preocupao de Covas. Foram asfaltados mais de 1.000 quilmetros de vicinais em todo o Estado. Ele dizia que isso era importante para reduzir as diferenas, j que o asfalto facilitava o escoamento da produo agrcola, a ambulncia chegava mais rpido, levava as crianas para a escola rural com mais segurana e deixava as cidades mais prximas do homem do campo.

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luiz Carlos Frayze david supErvisor dE obras da prEfEitura, supErintEndEntE do dEr E sEcrEtrio adjunto dE transportEs Mario Covas sempre quis a participao das prefeituras no governo do Estado, e fazia questo de assinar os contratos na frente do prefeito e da populao, recomendando que os moradores cobrassem do prefeito a manuteno da estrada. Dizem que, no caso da pavimentao, o governador cobrava mais das prefeituras mais ricas e sem distino partidria. Lembro de uma vez em que fui procurado por Antnio Palocci, prefeito de Ribeiro Preto, com uma proposta de parceria. Consultei o governador, que respondeu na hora: E voc no topou por qu? S porque do PT? claro que para fazer.

Transportes metropolitanosNo setor de transportes metropolitanos, o essencial para Covas era a retomada do que estava parado, basicamente o Metr, com trs extenses paradas h anos e muitas dvidas. Mario Covas dizia: No fao nenhum centmetro novo se no resolver o que est parado. Outro problema srio eram os trens metropolitanos. O governo federal pegou ferrovias centenrias e jogou na CPTM, que tambm administrava a diviso antiga da Fepasa, com vrias ferrovias federais, como a Santos-Jundia. Foram tomadas medidas vigorosas, como paralisar a ferrovia por seis meses para obras. O governo paulista mostrou que ferrovia tambm pode ter dignidade, com a chegada dos novos trens com ar-condicionado e msica ambiente, para atender ao trabalhador e morador da periferia da cidade de So Paulo.

Cludio de seNNa FrederiCo sEcrEtrio dE transportEs mEtropolitanos Covas usou o terror negro como instrumento na cabea de todos. Reunia as piores informaes possveis e usava com o secretariado. Assim, ele estimulava e mantinha a equipe entrosada. Nakano pintava um quadro sem sada. Todo mundo ficava deprimido, e Covas empurrava mais para baixo e dizia: Vocs tm planos? S que no vo fazer nada se no cortar, economizar. Saa todo mundo debaixo da porta. Motivou todos assim, para que tomassem medidas drsticas, mas necessrias. Tinha de tirar leite de pedra, e ele no dava leite para ningum.

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Cincia, Tecnologia e Desenvolvimento EconmicoEra preciso buscar investimentos privados, gerar empregos e desenvolver a economia. Em um perodo em que os governos estaduais deflagraram uma verdadeira guerra para atrair investidores, oferecendo benefcios e subsdios, o governo paulista fez nova revoluo. Ampliou seu parque industrial e atraiu novas indstrias estrangeiras sem entrar guerra fiscal. So Paulo poderia oferecer muito e a todos, mas no seria loteada, e os interessados no teriam privilgios.

eMersoN KaPaz sEcrEtrio dE cincia, tEcnologia E dEsEnvolvimEnto Econmico Mario Covas no cedeu guerra fiscal, em que muitos Estados davam incentivos para a instalao de empresas. Ele no queria nem saber. No seu governo, usamos uma poltica de convencimento, baseada em seriedade, mostrando as vantagens que So Paulo poderia oferecer estradas, energia, tecnologia, universidades. Com isso, conseguimos trazer empresas como Toyota, Honda, Compac, HP, Nokia. Ele ficava louco quando algum falava que So Paulo perdera empresas como a Ford, para a Bahia, e a GM, para o Rio Grande do Sul. Foi uma luta, mas ele, mais uma vez, estava certo. As empresas vieram e ficaram.

Jos aNBal sEcrEtrio dE cincia, tEcnologia E dEsEnvolvimEnto Econmico Covas no dava incentivos fiscais, mas oferecia condies de investimento para as empresas. Uma vez, o presidente da Embraer levou a Covas propostas de incentivo fiscal do Paran e de Minas Gerais. Covas simplesmente rasgou os papis e ofereceu uma rea e outros benefcios. A Embraer se instalou em Gavio Peixoto, causando um grande impacto na regio. Outro exemplo foi a Mercedes-Benz, que no podia trazer outra linha de montagem para sua fbrica por causa das enchentes. Liguei para Covas, que mandou fazer um piscino, tomando uma deciso rpida. Isso era Mario Covas.

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UniversidadesCom as universidades paulistas USP, UNESP e UNICAMP, a relao sempre foi de muito respeito, principalmente pela autonomia e pelo cumprimento das leis estabelecidas.

Flvio Fava de Moraes rEitor da univErsidadE dE so paulo E sEcrEtrio dE cincia, tEcnologia E dEsEnvolvimEnto Econ0mico O Conselho de Reitores das Universidades de So Paulo sempre teve acesso ao governador, com quem se reunia com uma relao cordial e de respeito mtuo. E mais, respeitava a autonomia das universidades. Vale lembrar que em 1989 criou-se o conceito de autonomia financeira, com o oramento indexado arrecadao do ICMS. A cada ano a Lei de Diretrizes Oramentrias propunha uma indexao, quando aprovada, virava lei que durava s um ano. Todo ano, em governos anteriores havia a tentativa de acabar com a indexao. A partir de Mario Covas, mesmo com as finanas do Estado comprometidas, consolidou-se a indexao. Os valores foram alterados: de 8,4% do ICMS lquido, passou para 9% e depois para 9,57%, o que permanece at hoje para as 3 universidades. Uma simples relao das realizaes das vinte e cinco secretarias de governo sob o comando de Mario Covas ocuparia centenas de pginas. E tambm no seria fcil organizar uma seleo, pois a importncia relativa de cada uma delas depende do ponto de vista de cada um. Mas vamos a mais algumas:

CulturaPara os amantes de msica clssica, no haver legado maior do que a Sala So Paulo, uma das mais modernas salas de concerto do mundo e ponto central da revitalizao da estao ferroviria Julio Prestes, no bairro paulistano da Luz. MarCos MeNdoNa sEcrEtrio da cultura Covas via a cultura como fator de integrao social e o Projeto Guri, de formao de orquestras para jovens em situao de risco o melhor exemplo. Numa rebelio na Febem os meninos esconderam os instrumentos musicais para no serem destrudos. Tido como um homem que no ligava para as questes culturais, Covas deixou marcas importantssimas. A restaurao da Pinacoteca, que possibilitou uma exposio de Rodin, que provocou enormes filas e chamou ateno da populao e da mdia. O Memorial do Imigrante e o Museu da Lngua Portuguesa, que comeou na gesto dele. O projeto Revelando So Paulo, que fez renascer o folclore em So Paulo, e as oficinas culturais.

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Emprego e trabalhoQuando a questo envolvia trabalho, para Mario Covas a prioridade era o emprego. So Paulo foi o Estado pioneiro na criao da Secretaria de Emprego e Relaes do Trabalho. A meta passou a ser a mudana de prioridade, ou seja, olhar o oramento do ponto de vista do emprego, aproveitando as potencialidades do Estado para gerar oportunidades. O programa Auto-Emprego capacitava pessoas para o mercado de trabalho, o Banco do Povo oferecia crdito popular a juros baixos para quem queria abrir ou expandir seu pequeno negcio, alm das frentes de trabalho. walter Barelli sEcrEtrio dE EmprEgo E rElaEs do trabalho Nas frentes de trabalho, o governo entrava com o dinheiro e as secretarias tinham que encontrar vagas para os trabalhadores. Mario Covas ia pessoalmente visitar as frentes, brigava com os secretrios, que tambm passavam por dificuldades financeiras, mas tinham que arcar com a alimentao e o transporte dos trabalhadores. Alm do trabalho e da cesta bsica, todos recebiam, uma vez por semana, cursos de qualificao profissional. Os requisitos para entrar no programa eram a cara do Covas: participava quem estivesse mais tempo desempregado, quem era mais velho ou quem tinha mais filhos para sustentar. Era um programa social-democrata, no era capitalista.

Segurana PblicaSe a utilidade ou a oportunidade de muitas das realizaes de Mario Covas no foram postas em dvida, nem mesmo por seus adversrios, e obtiveram todas grande repercusso popular, o mesmo no ocorreu com algumas polticas pblicas, que geraram vivas controvrsias. A mais polmica delas foi a da Segurana Pblica, decididamente voltada para os direitos humanos. Jos aFoNso da silva advogado E sEcrEtrio da sEgurana pblica Sempre defendi os direitos humanos, e Covas, tambm. Ao assumir a secretaria, era o momento de pr a ideia em prtica. Em janeiro de 1995, 60 pessoas foram mortas pela polcia. Em fevereiro, 57. Chamei o comandante e disse: Tire todos os matadores da rua. Ele colocou 200 na priso. Em setembro, lanamos o Proar, um programa de seis meses de assistncia psicolgica aos policiais envolvidos em situao de risco. Foi um problema srio. Deputados da oposio eram contra a poltica de direitos humanos, alguns do prprio PSDB. Quem fazia a defesa na Assemblia era o PT. Naqueles anos, a criminalidade diminuiu.

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A poltica de defesa dos direitos humanos foi mal compreendida por uma parcela da populao, acostumada a pensar que a violncia s pode ser combatida com mais violncia. Inmeras vezes Mario Covas foi avisado de que essa nfase poderia prejudicar sua popularidade e as chances da reeleio. Mas, segundo o testemunho unnime de seus amigos e colaboradores, quando Covas se convencia do acerto de determinada atitude, era intil tentar demov-lo com argumentos de convenincia poltica imediata. Firme em suas convices, de acordo com alguns, teimoso ou turro, segundo outros, ele era de uma veemncia inusitada nas discusses internas do governo e fora dele.

Paulo FraNCiNi EmprEsrio Covas desfrutava da sinceridade, o que raro em seres polticos. Em geral, os polticos dizem o que voc quer escutar e mudam de conversa de acordo com os ouvidos. Mario Covas, no. O governador tinha convices e falava delas. Nunca tive a sensao de ser enganado. Ele falava o que pensava. Era um trao particular dele. O chamavam de turro. Acho que era mesmo, pois s turro quem tem convices. Quem se move ao vento pode ser agradvel e nunca ser turro. Acho que essa era uma qualidade dele.

MarCo viNCio Petrelluzzi assEssor EspEcial do govErnador E sEcrEtrio da sEgurana pblica No meio do primeiro mandato, fui com outras pessoas para Nova Yorck conhecer a experincia bem-sucedida de combate criminalidade. No segundo mandato, fui chamado para a Secretaria da Segurana. O desafio era reduzir em 50% os homicdios, o que Covas achava irrealizvel em quatro anos. Ele no abria mo do respeito aos direitos humanos e humanizao da polcia. O binmio do trabalho foi lcool e armas. Implantamos o Infocrim, um programa que possibilita visualizar todos os crimes, fazer projees, planejar e colocar metas, Mario Covas queria metas. A polcia deixou de ser reativa para ser proativa.

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Administrao PenitenciriaAo iniciar o governo em seu primeiro mandato, Mario Covas assumiu como tarefa prioritria a retomada do controle das polcias, coibindo abusos e violncias que haviam se tornado rotina. Fazia parte dessa orientao a humanizao no trato dos detentos e dos menores da Febem. A superlotao dos presdios e das cadeias das delegacias banalizara as rebelies, e estas, por sua vez, eram combatidas com mais represso, geradora de novos motins, num crculo vicioso sem fim.

Joo BeNedito de azevedo Marques sEcrEtrio dE administrao pEnitEnciria Essa era uma rea em que os problemas eram de todas as ordens: atraso de pagamento, desmandos e corrupo, e o governador era visceralmente contra, abominava poltica de negociata, cambalacho e impunidade. A Casa de Deteno tinha 7.200 presos perigosos e 1.200 funcionrios. A comida era feita l, pagavam carne de primeira e recebiam carne de segunda e em quantidades erradas. No fizemos nada sozinhos, era uma grande equipe com o mesmo esprito de austeridade de Covas. Sanear, punir, eliminar fraudadores. A gente se sentia amparado e apoiado pelo governador.

Nagashi FuruKawa sEcrEtrio dE administrao pEnitEnciria O que Covas fez foi inovador e um exemplo para o pas. Iniciou fechando as carceragens da Polcia Civil, criou os Centros de Deteno Provisria e os Presdios de Segurana Mxima e entregou para as ONGs os servios de alimentao, rouparia, assistncia mdica, jurdica e odontolgica. O resultado foi maior qualidade e controle e queda dos custos. A alimentao, por exemplo, que custava 10 reais por preso em 1995, caiu para 3 reais e melhor. Fora tudo isso, a informatizao do sistema, com os dados de 140 mil presos, de seus parentes e advogados, em um nico programa, facilitou o controle dos presdios.

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Saneamento BsicoCuidar das pessoas era uma preocupao constante de Mario Covas. Por isso, ele estabeleceu metas j no programa de governo. Uma das que foram cumpridas risca foi o saneamento. Na gesto dele, acabou o rodzio de gua em So Paulo, 100% da populao passou a ter rede de gua, 85%, rede de esgoto. Em janeiro de 1995, a Sabesp tinha problemas de caixa, no pagava funcionrios, trabalhava com empresas terceirizadas. Em setembro de 1998, foram contabilizadas 1.200 obras entregues em todo o Estado. hugo Marques da rosa sEcrEtrio dE obras E sanEamEnto Covas pessoalmente deu a determinao de colocar nos locais de trabalho uma lista com o nome e os horrios de cada funcionrio. A diretoria foi reduzida, e todos os cargos de confiana foram extintos. Ainda no governo de transio recebemos um plano de recuperao elaborado pelos trabalhadores da Sabesp. Ele propunha algumas medidas duras, inclusive com demisses. Conseguimos negociar e estabelecer critrios para os desligamentos e o governador deu total apoio, no importando se os demitidos tivessem alguma ligao poltica. J em 1995 a Sabesp deu lucro.

ComunicaoDurante suas diversas campanhas eleitorais, Covas nunca entendeu muito bem o mundo dos marqueteiros e dos publicitrios. Mesmo admitindo sua importncia, preferia se concentrar no que fazia melhor, o contato direto com a populao e o uso da palavra. Conservava muito vivo o desejo de expor seus pontos de vista, de convencer. No governo, sempre manteve relaes cordiais e simpticas com jornalistas e formadores de opinio, cultivava pessoalmente alguns relacionamentos conquistados ao longo de sua vida pblica, era respeitado por suas posies, mas era intransigente com o gasto do dinheiro pblico, inclusive nesta rea. No admitia gastar em comunicao e deixar de construir mais casas, escolas, redes de esgoto etc. Mas era um vido leitor de jornal. E o dia dependia sempre do noticirio. alexaNdre MaChado sEcrEtrio dE comunicao Quando assumi, queria implantar uma poltica que mostrasse a forma como o governo defendia certos valores. Covas pegou o Estado numa situao de estrago e acho que conseguimos mostrar isso para a opinio pblica. Mas a Comunicao tinha dvidas da administrao anterior, e nosso oramento era zero para as agncias. Eu conversava com o governador e dizia que a comunicao tinha que espelhar de maneira mais ordenada o que estava acontecendo. Mas no tinha jeito. Covas dizia que enquanto faltasse uma escola no Estado, no daria dinheiro para comunicao. Era um poltico austero.

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teresa CristiNa MiraNda assEssora dE imprEnsa A idia da primeira campanha mostrava a bandeira do Estado, seu maior smbolo, sendo lavada. Era uma representao do limpar, arrumar e colocar a casa em ordem. A agncia vai ao gabinete apresentar a campanha e Covas no aparece. Quem presidiu a reunio foi o Angarita e o Sergio Reis, secretrio de Comunicao, na poca. As lminas da campanha foram deixadas l no palcio e colocadas na sala de reunio privativa do governador. Uma madrugada, aps um evento em Santos, e j de volta ao palcio, ele me cutuca e diz: O que isso aqui na minha sala? E eu digo: a campanha publicitria, governador, o Angarita e o Sergio Reis j falaram com o senhor. Ele olha bem pra mim e diz: Senta a. A Lcia Dal Mdico estava junto, e dona Lila chegava da ala residencial com o ch da madrugada. Expliquei a campanha e mostrei a tabela de custos. A ele comea a fazer conta e me mostra: Olha quantas casas, quantas salas de aula e redes de esgoto eu poderia fazer com esse dinheiro. E eu falei: Est certo, mas o senhor tambm precisa prestar contas do que est sendo feito. Dona Lila ajudou: Mario, todo mundo fica dizendo que voc no est fazendo nada, precisa mostrar. No final, ele arrematou: A idia boa, mas muito dinheiro. Ele fez todo mundo sofrer dias, mas a primeira campanha foi ao ar em dezembro de 1996.

Mary zaidaN assEssora dE imprEnsa Com os poucos recursos que tnhamos no incio do governo - para se ter uma idia, nossa impressora durante muito tempo foi uma matricial caseira emprestada pelo Zuzinha, filho do governador - privilegivamos o atendimento direto aos jornalistas, o que, na prtica, significava entrevistas quase dirias com o governador. Ele se divertia muito nessas entrevistas tumultuadas, apertado entre cmeras e reprteres. Mas a caracterstica mais marcante para mim na relao de Covas com a imprensa era o tratamento igualitrio que ele conferia aos reprteres e aos veculos de comunicao. Quando pegava o telefone para falar com qualquer um deles - e ele fazia isso com frequncia quando queria rebater alguma notcia da qual discordava - dedicava o mesmo tempo e ateno a um reprter da grande imprensa quanto a um de um jornal semanal do interior do Estado. Brincava com a fama de que ele no dava lead (sntese do assunto), jamais falava em off (sem ser identificado) e adorava rdio, especialmente entrevistas ao vivo. Sua relao com os jornalistas que cobriam o governo no dia-a-dia era muito intensa, e todos perceberam isso quando, na fase final da doena, ele fez questo de falar com a imprensa, na mais emocionante das entrevistas que presenciamos.

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Cerimonial e eventosBraslia de arruda Botelho chEfE do cErimonial na prEfEitura E no govErno do Estado Mesmo no gostando de formalidades, Covas recebia os visitantes e cumpria os ritos de forma correta e elegante. E nunca, na histria do Palcio dos Bandeirantes, tantos chefes de Estado e altas autoridades passaram por l. Na visita do imperador e da imperatriz do Japo, houve uma saia justa. O imperador quis ver um jogo de futebol, e a escolha pela tabela dos jogos foi o final do campeonato paulista no Morumbi, com So Paulo e Corinthians. O combinado era que o imperador assistisse ao primeiro tempo, a o anfitrio o governador Mario Covas deveria se levantar para o imperador ir embora. Mas Covas no levantava, queria ver o jogo. Eu pedia para ele levantar e ele no levantava, dizia que o imperador estava gostando do jogo, at que falei com rigor e ele levantou, mas foi embora contrariado, queria ver o jogo. No episdio do enfrentamento com os professores na Praa da Repblica, quando Covas voltou ao palcio com Malufinho, Osvaldinho e Junqueira, todos rasgados e machucados, parecendo o Exrcito de Brancaleone, eu perguntei: Vocs no tm juzo? E Mario Covas, com um sorriso largo, respondeu: Voc no estava l para dizer quem podia entrar e quem no podia...

Jos salles dos saNtos Cruz assEssor do govErnador na produo dE discursos E palEstras Ele respeitava a palavra, e como eu mexia com a palavra, foi fcil. A gente sentia que havia uma integrao, a tal ponto que, s vezes, eu imaginava que era ele e ele imaginava que era eu. Havia momentos em que ele vinha me contar coisas que eu tinha contado para ele, que estavam nos documentos que eu preparei. Acho que foi um privilgio ter trabalhado com Mario Covas. Eu no sabia por que eu tinha estudado tanto, lido tanto na vida. Acho que, para dar significado ao que estudei, fui trabalhar com ele. Sempre fui um leitor furioso, e poder passar algumas informaes para o Covas deu um sentido quilo tudo. Eu pensava: eu leio por prazer, porque eu quero conhecer, mas s isso? Como eu reparto isso? E o Covas foi o repartidor dessas coisas. Acho que ele deu sentido minha vida.

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ClaudiNey queiroz mEstrE dE cErimnias Covas no aguentava e tirava o microfone da minha mo quando algum fazia uma reivindicao ou provocao. Uma vez no aeroporto em Votuporanga, onde o pessoal da sade fazia manifestao, com faixas e esparadrapos na boca, ele disse simplesmente o seguinte: eu estou feliz por vocs estarem aqui, eu lutei por isso. S espero que no seja do hospital que vocs tenham tirado o esparadrapo. E chamou os manifestantes para o palanque. Um representante dos manifestantes falou e foi saindo. A o governador chamou e pediu para que ele ficasse no palanque para ouvir a resposta. Ele no deixava passar de jeito nenhum. Outra vez, numa poca em que os professores iam sempre atrs de Covas, um deles durante o discurso gritou: mentira! Pr que. Essa era a palavrachave, era a morte para ele. Trouxeram o RG e os dados do manifestante, o governador tirou o microfone da minha mo e perguntou para o manifestante: O seu nome tal? Seu RG tal? Ento voc hoje ganha tanto, e antes ganhava tanto. O professor respondeu que no era verdade e Covas o desafiou a mostrar o holerite dizendo: Se for mentira eu renuncio agora. E o professor no teve como desmentir. Por isso era gostoso trabalhar com ele.

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a reeleioEm 1998, ao aproximar-sE o final dE sEu primEiro mandato, covas dEcidiu lanar sua candidatura rEElEioEmbora no fosse obrigado pela legislao, durante os meses da campanha reeleio, Mario Covas preferiu afastar-se do governo, passando o cargo para o vice-governador, Geraldo Alckmin.

riCardo PeNteado advogado Em campanhas polticas Mario Covas trabalhava rigorosamente dentro da legalidade, respeitava os limites da lei e prestigiava seus advogados. Tinha preocupao em entender o que a lei determina. Em 1998, aconteceria a primeira reeleio no pas, e Covas, contrariando muitos, se afastou do governo, deu uma lio ao jamais utilizar a mquina administrativa. Portanto, no precisou enfrentar na Justia nenhum questionamento quanto a isso durante a campanha. Depois de um incio difcil, a candidatura de Mario Covas reeleio como governador cresceu muito pouco antes do dia da eleio. Ultrapassou Marta Suplicy, passando para o segundo turno juntamente com Paulo Maluf. Elegeu-se, ento, com 9,8 milhes de votos, 53% dos votos vlidos.

e ele queria polemizar com o Paulo Maluf. Na televiso, Covas tinha 3 minutos e 14 segundos, e Maluf, 10 minutos, metade do tempo dando pau no adversrio. O Maluf colocou o Afansio Jazadji chamando Zuzinha de ladro, falando da CDHU. Em resposta ao ataque malufista, o Woyle Guimares escreveu um texto violentssimo. Covas chegou produtora babando, mas quando viu o texto, avaliou: Isso aqui vai dar problema, direito de resposta e punio. A maior briga foi sobre educao, a reorganizao das escolas, a progresso continuada. Todo dia tinha crtica na pesquisa qualitativa. Fiz um texto para o Covas explicar o que estava acontecendo na educao, mas ele no quis gravar porque parecia que estava pedindo desculpas. Foi uma briga danada. Covas dizendo que o problema no ganhar a eleio, mas os companheiros que no acreditam na gente. Ficamos os trs Covas, Woyle e eu , alucinados, gritando um com outro, parecia briga do cais do porto. Com o Covas era assim, e eu admirava isso. Quando tinha que brigar, brigava pela frente.

luiz goNzalez coordEnador do programa dE tv A campanha de 1998 foi a mais sofrida. Mario Covas saiu em quarto lugar, a populao o odiava. Fez o primeiro governo na porrada, brigando na rua, teve uma postura diferente da que o eleitor tinha visto na campanha. Ele resolveu ir ver a primeira pesquisa qualitativa e ouviu: Esse o maior ladro que tem no pas. Todo poltico rouba, mas faz alguma coisa, esse no fez nada!. O Covas ficou doido. Havia muita presso

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aNtoNio Carlos rizeque MaluFe sEcrEtrio particular Mario Covas era contra a reeleio. Dizia que oito anos era muito tempo. As pesquisas o colocavam em quarto lugar, e ningum acreditava na reeleio. O segundo turno foi um sufoco. Teve uma boa campanha, com boa assessoria, boa estrutura, a militncia nas ruas e menos dinheiro em caixa do que em 1994. Em 1998 ainda tinha muita coisa para ser feita no governo: Metr, penitencirias, Febem, calha do Tiet. O governo dele dependia de mais quatro anos para se completar. Covas foi ousado na primeira administrao, arrumou o Estado e deu incio a muitas obras. No consigo enxergar outra pessoa no exerccio do poder to inovador em polticas pblicas. Covas inventou as Organizaes Sociais na sade; teve o maior ndice de assentamentos no Pontal; consolidou a Secretaria de Administrao Penitenciria; fez a gesto de empresas pblicas; a concesso de rodovias e a concepo clara de polticas pblicas na educao. Medidas ousadas, de coragem poltica em todas as pastas. Alm da figura humana com tica e carter. isso o que justifica a Fundao Mario Covas cuidar do acervo dele, foi um perodo revolucionrio.

mariana caetano jornalista Eu trabalhava no jornal O Estado de S. Paulo e cobria o governo, portanto, acompanhei todo o perodo da doena de Covas, desde a primeira manifestao, em dezembro de 1998. A gente teve que aprender junto com ele e a famlia o que estava acontecendo. Passei muitas horas no Incor para entender o cncer. Foi admirvel a forma como Covas conduziu esse perodo, sempre com verdade e transparncia. A abertura que a gente teve com o David Uip e toda a equipe mdica que acompanhava o governador foi surpreendente. Ningum escondia nada, e diariamente os mdicos falavam com os jornalistas. Tudo isso foi exemplar, em se tratando de uma figura pblica. Tambm foi doloroso, pelo menos para mim, acompanhar o sofrimento da famlia. Existiam momentos em que a gente deixava de ser jornalista e vivia o drama. Ele era uma figura que a gente aprendeu a respeitar. Lutou muito para sobreviver e de forma admirvel. Como homem pblico, ele compartilhava, no se escondia e no fugia do assunto.

a sade de covasno final dE 1998, ExamEs dE rotina do govErnador rEElEito dEtEctaram cncEr dE bExiga E abortaram sEus sonhosIniciando o segundo mandato, j com as finanas do Estado de So Paulo saneadas e um ambicioso programa de governo, Mario Covas atingia o melhor momento de sua carreira. A presidncia da Repblica parecia ao alcance da mo. Mas estava condenado. No dia 3 de dezembro de 1998, internou-se no Incor para exames de rotina. Detectou-se cncer na bexiga. No houve tempo para pensar. Foi operado no dia seguinte para retirar o tumor e reconstruir a bexiga com tecido retirado do intestino.

david uiP mdico infEctologista Mario Covas deu duas determinaes: a primeira era que no se escondesse nada dele, da famlia ou da populao. Isso foi uma quebra de paradigma, foi inusitado. A outra determinao que o tratssemos at o limite e no o deixassem sofrer. A partir da cumpriu tudo o que foi sugerido, o que no foi pouco, j que foram vrias as internaes e os procedimentos. E mais, o governador decidiu se tratar num hospital pblico, no Incor, uma deciso institucional, e tambm pela equipe. Lembro que, na sexta-feira de Carnaval de 2001, Mario Covas me chamou, dizendo que queria ir para a praia. Concordei que fosse para a Riviera de So Loureno. Eu fui ao Guaruj, para ficar mais perto dele. No sbado, me chamaram. Fui at l e vi que ele tinha piorado. No domingo, bati o olho nele e disse: No d mais, vamos embora. Ele perguntou: Para o palcio? E eu disse: Para o hospital, governador, para o hospital. No helicptero estavam a Renata, a dona Lila, o capito Junqueira e eu. Covas estava na cadeira de rodas quando eu peguei o pulso dele e vi que estava a mais de 300. Ele falou: David, muito obrigado por voc ter deixado eu ver o mar pela ltima vez.

saMi araP mdico urologista Antes da cirurgia, a presso foi enorme, muita gente querendo dar palpite, emitir opinio e aparecer na imprensa. O governador Mario Covas sentiu isso. Tanto sentiu que pediu para a Renata falar com a gente. Olha, meu pai pediu para conversar com o senhor. Ele est muito preocupado com seu equilbrio emocional. Porque se o senhor estiver sofrendo a metade da presso em relao cirurgia, para ficar louco. Mas ele pediu para lhe dizer que nem secretrio nem ministro nem presidente nem Jesus Cristo vo mudar o que ele j decidiu. Ele vai operar com o senhor e aqui no Incor. Fique tranquilo. Isso foi de uma dignidade, de uma lealdade com a equipe mdica, particularmente comigo, muito grande. O governador doente capta isso e, inteligente como era, manda a filha conversar com a gente e nos tranquilizar. E foi alm. O governador disse que se algum buzinasse, interferisse, era s avisar para ele remover os obstculos. Nesses termos. Uma atitude de solidariedade. Achei fantsticos a lealdade e o respeito de Mario Covas.

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aNgelo Perosa fotgrafo E assEssor dE imprEnsa No final de 2000, depois de sete anos sem frias, peguei minha mulher e meus filhos e fui para o Nordeste. Dois dias depois, o governador me ligou: Estou aqui todo ferrado e voc a. Onde esto as fotos? Preciso das fotos. Peguei as malas e voltei para So Paulo. Uma das coisas que Covas mais gostava era viajar, estar com as pessoas, vistoriar as obras, mas ele j no podia viajar. Ento queria ver tudo por fotografia. Queria saber o estgio das obras, ver como estava a conservao daquilo que j havia entregado. Ele fez uma lista e ns samos fotografando tudo. Percorremos o Estado e entregamos para ele 45 lbuns de todas as obras e aes das secretarias e empresas - estradas, escolas, hospitais, unidades habitacionais. Cada vez que eu ia entregar uma foto era terrvel, muito pesado e muito difcil. Ele na cadeira de rodas e querendo mais e mais fotos.

O governador reeleito tomou posse no dia 10 de janeiro de 1999, aps receber alta do hospital. Submeteuse, ento, a trs sesses de quimioterapia e, apenas em maio, assumiu plenamente suas funes no governo do Estado. Parecia recuperado, mas o cncer voltou. J no havia possibilidade de cura. Mario Covas morreu no dia 6 de maro de 2001, s 5h30 da manh, no Instituto do Corao, em So Paulo.

heNry soBel rabino Covas lutou a vida inteira. Lutou por seus ideais e pelos seus princpios. Lutou por aquilo em que acreditava. Lutou pelo bem estar de sua famlia, lutou por seu Estado e por seu pas. Lutou contra a doena. E sua luta nos dignificou a todos.

Inconformados com esse final prematuro, os familiares, amigos e admiradores de Mario Covas reuniram-se para preservar o seu legado essencial. Nasceu, assim, a Fundao Mario Covas, com uma dupla misso: desenvolver atividades polticas e acadmicas de estudos e pesquisas, com nfase na questo social e no desenvolvimento das tcnicas de administrao pblica e privada e de gesto governamental. E defender o iderio poltico de Mario Covas.

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covas e os polticoscorrEligionrios ou advErsrios, todos rEconhEcEm a importncia do poltico santista no cEnrio nacionalMarta suPliCy prEfEita dE so paulo Convivemos em muitos momentos da vida pblica brasileira e paulista. Concorremos em lados opostos em eleies, mas existe um momento que ficar marcado em toda a minha vida. Em 1998, concorremos ao governo de So Paulo. Perdi no primeiro turno e apoiei Covas no segundo turno contra o Maluf. Depois ele teve o mesmo gesto comigo na campanha para a prefeitura de So Paulo, mas no foi um gesto qualquer. O Alckmin perdeu a eleio no primeiro turno. Ficamos eu e Maluf no segundo turno, e eu fui conversar com o Covas. Ele no teve a menor dvida em me apoiar. O mais bonito foi que estvamos num momento difcil, achvamos que se ele no entrasse seria muito difcil ganhar. Ele ia se internar no Incor no dia da eleio, para continuar seu tratamento. Essas so coisas que a gente no esquece. Eu disse: Para mim fundamental que voc venha, pode fazer a diferena. E ele foi. Era um encontro no Sindicato dos Jornalistas. Ele falou: Marta, eu adiei a entrada no hospital. Alm de te apoiar, vou pra rua fazer campanha. S vou para o hospital quando as urnas estiverem fechadas. Fiquei emocionada, no era um gesto qualquer, era um gesto com a sade dele.

aCio Neves dEputado fEdEral E prEsidEntE da cmara fEdEral Mario Covas j governava So Paulo, quando ocorreu um episdio em que a atuao dele foi decisiva na minha trajetria. Quando houve a possibilidade de o PSDB reassumir a presidncia da Cmara, havia uma ala que defendia a manuteno do PFL. Fui a So Paulo falar com Covas, que j estava doente. Ele me perguntou se eu estaria disposto a enfrentar a resistncia da presidncia da Repblica. Respondi que sim, se houvesse apoio dele. Covas foi a Braslia e declarou: Por que no o PSDB? Foi uma voz de comando importante. Setores do partido que o temiam, aderiram minha candidatura. Ganhamos j em primeiro turno. Fiz questo de vir a So Paulo dedicar minha vitria a Mario Covas.

Celso giglio prEfEito dE osasco pElo ptb Covas sempre atendeu muito bem os prefeitos, e comigo no foi diferente em relao a Osasco. Quando levvamos algum pleito, ele era objetivo: pode, pode, no pode, no pode. E se dizia pode, podamos confiar.

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Paulo egydio MartiNs Ex-govErnador dE so paulo O regime militar se assustava com o jeito aguerrido do Mario Covas. Mas eu conhecia a pureza, o idealismo dele. Ele tinha o apoio dos porturios, tinha uma viso mais de esquerda, mas longe de ser comunista. Merecia meu respeito absoluto. A histria do pas no dava um perodo de paz, e, com isso, muito difcil manter a crena ntegra. Quando tem um homem puro como Mario, que tem crena num mundo melhor, como combat-lo? Ele era crente de que era possvel melhorar o mundo.

eduardo suPliCy sEnador pElo pt A relao dos senadores paulistas com o governo Covas era de muito respeito. Sempre encaminhei solicitaes e demandas de movimentos sociais, e Mario Covas as considerava com seriedade. Algumas vezes fui ao Palcio dos Bandeirantes acompanhado de prefeitos e em situaes de tenso, envolvendo questes de justia, segurana e terras. Covas tinha o esprito mais aberto, uma crena forte na democracia. Lutou de forma consistente para o aprimoramento do processo democrtico, tinha muito bom senso, era respeitado pela seriedade com que se conduzia na vida poltica. Deixou grandes lies.

Cludio leMBo prEsidEntE do pfl-sp Uma personalidade firme, corajosa, decisiva, mas s vezes excessiva. Conheci a biografia dele por meio de Jnio Quadros, que tambm tinha grande admirao pelo Covas. Jnio o conheceu em Santos e o escolheu para ser candidato a prefeito. Covas foi cassado porque era vulcnico, tinha exploses verbais de alto nvel, irritava os militares. Mario Covas no podia aceitar o golpe de 1964. Na Constituinte, vi atitudes notveis dele. Era uma assemblia agressiva, e no plenrio a figura de Covas acresceu muito. Ele levou intelectuais da rea jurdica para Braslia, permitindo um movimento impensvel no Brasil, como o artigo 5, com direitos fundamentais da pessoa, a famlia formada s pelo pai ou a me, que uma realidade no pas, os quilombolas, as minorias. Covas percebeu tudo isso.

luiz Paulo teixeira Ferreira dEputado Estadual pElo pt Quem retomou a capacidade de investimento do Estado de So Paulo foi ele. Mario Covas viabilizou a duplicao das rodovias dos Bandeirantes e dos Imigrantes, a retomada de investimentos no Estado. Justia seja feita, vejo um marco de realizaes. um dos maiores polticos do Estado de So Paulo. Ao mesmo tempo, tinha viso de esquerda. Fez embate ditadura militar quando podia ter se escondido, se exps e foi cassado. Teve um papel enorme ao administrar a cidade com grande ateno periferia, e um papel fundamental como constituinte, que garantiu uma viso de nao. Queria ressaltar a figura poltica de talento, a figura humana dele. O governador Mario Covas foi uma pessoa que deu dignidade figura pblica, escreveu seu nome na histria.

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o estilo covasobjEtivo, ExigEntE, dEtalhista E austEro so algumas das caractErsticas do modo mario covas dE govErnarruBeNs rizeK amigo Fui convidado para um almoo no Palcio dos Bandeirantes. O Mario estava comendo fritura, e dona Lila disse que era feita com leo de milho, porque ele era safenado. A eu fiz um comentrio maldoso: Pena que o safenado pobre no pode comer esse leo, tem que engolir soja. A o Mario parou de comer, olhou bem srio para mim e perguntou: Por qu? Eu falei: Porque o leo de soja, que est na cesta bsica, tem 7% de ICM. E todos os demais leos vegetais que no esto na cesta bsica tm ICM de 18%. Ento o pobre no pode comprar esse leo por causa do imposto. Ele pensou, pensou, a conversa continuou e mais para o fim do almoo ele disse: Voc vai Secretaria da Fazenda, procura o Clvis Panzarini e o convena de que certo baixar o ICM dos leos vegetais para 7%. Se ele se convencer, que venha me convencer que o Estado no ir perder arrecadao. L fui eu para a Secretaria da Fazenda. Uns trs meses depois saiu um decreto do governador baixando para 7% o ICM de todos os leos vegetais no Estado de So Paulo. Ele era um homem justo.

luiz Carlos Frigrio assEssor do govErnador Eu estava em casa, toca o telefone, era o senador Covas. Pode vir aqui me pegar? Posso, mas eu no tenho carro, s um bug. E isso no carro? Voc no quer me pegar? E fui com meu bug. Quando ele viu, perguntou: isso a? Como se entra? Expliquei, ele entrou, estava sem a capota. Ele sentou e comeou a ler um jornal, na avenida Faria Lima. A cara das pessoas exclamando era incrvel: o senador. Ele tinha uma simplicidade, um jeito determinado de fazer as coisas.

Nagashi FuruKawa sEcrEtrio dE administrao pEnitEnciria Quando parecia que Covas era contra uma determinada proposta, ns precisvamos estar preparados, ele contra-argumentava, chegava aos detalhes. Era difcil, s depois que aceitava. Quanto mais ntimos, mais xingados. At que Covas comeasse a me xingar, demorou um pouco.

eMersoN KaPaz sEcrEtrio dE cincia, tEcnologia E dEsEnvolvimEnto Econmico A preocupao de Covas com o dinheiro pblico era constante. Uma vez, durante uma apresentao sobre a privatizao de uma empresa, usei a expresso recursos prprios para esclarecer que o recurso vinha do governo. Covas no teve dvida, interrompeu a apresentao, perguntando: Recursos prprios, de quem? Aqui no governo os recursos sempre sero pblicos. Isso ficou gravado na minha cabea.

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sergio KoBayashi jornalista, prEsidEntE da imprEnsa oficial do Estado dE so paulo No segundo ano do governo e com a Imprensa Oficial superavitria, bati na porta do Palcio dos Bandeirantes porque precisava comprar uma nova rotativa. Fiz todos os estudos, projetos e anlises para uma licitao. Custava 20 milhes de dlares, e eu tinha dinheiro, estava aplicado na Caixa. A a conversa com Covas foi a seguinte: Sergio: Mario, a rotativa est para pifar, a Imprensa Oficial existe por conta do Dirio Oficial, imagina no fazer o Dirio Oficial, quero comprar uma nova. Covas: Quanto custa? Sergio: 20 milhes de dlares, eu tenho o dinheiro e estou avisando que vou comprar. Covas: Como voc tem 20 milhes de dlares? Sergio: Recebi atrasados, economizei, enxuguei a mquina. Covas: No senhor. Eu aqui desesperado, fazendo das tripas corao para comprar os trens espanhis e voc com 20 milhes sobrando? No senhor. Passa esse dinheiro para o Nakano, fica sem mquina nova. Bem ao estilo Covas, isso foi feito. A populao ganhou o trem espanhol, e a Imprensa Oficial reformou sua rotativa.

MarCos arBaitMaN sEcrEtrio dE EsportEs E turismo Um dia, no meio de uma reunio de secretariado, daquelas longas e com muita gente que gostava de realizar, Covas perguntou se estavam cuidando do Parque Villa Lobos, porque passou por l e viu mato crescendo. Expliquei que quem fazia o servio eram presidirios de Franco da Rocha, que estavam de frias. Covas perguntou por que no contratava outros e respondi, informando que a licitao era demorada. Covas no teve dvida e acrescentou: Porque a sua firma no faz? No tinha jeito, a gente se via obrigado a fazer e ficava envergonhado se no fizesse.

MarCo viNCio Petrelluzzi O mais relevante em Mario Covas era a sua sensibilidade popular, saber se colocar ao nvel do povo e dialogar. Mas tambm adorava uma discusso. Uma vez saiu do hospital, no incio da segunda gesto, e teve um problema na Febem. Tinha uma me que comeou a discutir com Covas e virou um bate-boca feio. Covas no deixou ningum intervir. Quando acabou a discusso, ele entrou no carro e disse: Eu estava louco por uma briga.

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Claudio seNNa FrederiCo Fiz parte do governo de transio, na USP, mas no sabia se assumiria alguma secretaria. Fui um dos ltimos a ser convidado. O Covas me chamou e disse: Voc vai ficar com Transportes Metropolitanos. Sempre usei rabo de cavalo, tamanco, brinco, era um tanto heterodoxo, riponga, no gostava de terno. Mas comprei um terno para o dia da posse. Quando Covas me viu assim disse: Esse meu governo vai dar certo, o Claudio est de terno.

alexaNdre sChNeider Lembro que, logo no incio do rodzio de carros, cheguei mais cedo para trabalhar. s sete horas da manh, Mario Covas passou como um tufo na Secretaria de Governo, que ficava no mesmo andar do gabinete do governador. Ele reclamava que no tinha ningum trabalhando e disse: No podemos perder um minuto, fomos delegados pelo povo para trabalhar.

gugu liBerato aprEsEntador dE tv Participei de vrios showmcios de Mario Covas, mas lembro de um em especial, em Osasco. O palanque estava cheio de gente e comeou a desmoronar. Foi uma correria, uma gritaria, segurana pra tudo que lado, e o palanque cedendo. S no foi uma tragdia porque havia um carro embaixo do palanque, que acabou dando sustentao. O sistema de som, claro, pifou, mas o Mario Covas no se importou. Assumindo suas responsabilidades, virou-se para os organizadores e disse: Deixa que eu falo com a populao. E, aos gritos, pediu calma.

vaNya saNtaNNa amiga E assEssora do prEfEito O perodo da prefeitura foi maravilhoso. A gente ia, via o que estava acontecendo e tentava encontrar uma soluo. Os mutires eram uma festa pura. Para Covas, o pior castigo era ficar no gabinete. Ele gostava de estar em contato com as pessoas e ficava na rua o mximo que podia. Quando voltava, estava com os bolsos cheios de bilhetes. Todos os pedidos, inclusive os feitos no papel de po, eram registrados, e Covas saa com seu caderno com todos os pedidos feitos. Ele tinha um gnio complicado, mas era um explosivo carinhoso, e o mais incrvel que a gente gostava de apanhar dele. Outra coisa, ele despertava mais paixo nos homens do que nas mulheres. Era impressionante, mas os barracos de cimes eram frequentes.

Flvio Fava de Moraes Mario Covas tinha algo especial com a Universidade de So Paulo. Primeiro, por ter sido aluno de l. Segundo, porque via a universidade como plo referencial. Ele visitava frequentemente as trs universidades estaduais. Uma vez, j com a sade bastante debilitada, foi convidado para paraninfo na formatura dos alunos de engenharia da Poli. Eram uns 400, e ele fez questo de ficar at o fim da cerimnia e tirou foto com cada um dos formandos.

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alexaNdre MaChado Era comeo de governo. Um belo dia, entro na sala do governador e l est ele lendo jornal, possesso, tenso, vermelho, com raiva, batendo na mesa e gritando: mentira, mentira. A eu viro pra ele e digo, tentando acalmar: Nem tudo m notcia, governador. E ele, gritando, responde: Hoje no quero saber de notcia boa. S quero notcia ruim.

Belisrio dos saNtos JuNior sEcrEtrio da justia E dEfEsa da cidadania Numa dessas tardes, acho que no terceiro ano de governo, vem l um publicitrio mostrar um filme, cheio de sobrevos de helicptero, aquelas construes da Sabesp fotognicas, a Carvalho Pinto. Quando acabou o filme, o publicitrio perguntou para o governador: E a? A dona Lila perguntou ao governador: Eu falo ou voc fala? O governador falou: Deixa comigo. Ele comeou dizendo: Voc no entendeu absolutamente nada, nada! O publicitrio respondeu cavando um fosso maior ainda: Mas governador, eu mostrei o que o senhor est fazendo. Ele respondeu: Esse o problema. O que eu estou fazendo, qualquer um pode fazer. Isso eu converso muito quando dou palestra sobre tica do cotidiano. Ele falou: Isso qualquer um pode fazer. Voc no est mostrando como ns estamos fazendo. Voc valorizou o assentamento, mas no valorizou o processo do assentamento, que foi numa negociao. Voc valorizou a CDHU, mas no disse uma palavra que eu entrego a chave para a mulher. Vai ver se pode isso no Direito Civil? No pode, mas eu entrego a chave para a mulher. Voc valorizou o negcio da Sabesp, mas no sabe como a gente recuperou a Sabesp, no falou isso. Ou seja, ele passou a idia de que a valorizao do processo a valorizao do fim, a a tica da responsabilidade. Vou fazer uma coisa, mas de uma forma que d exemplo. Vou criar uma coisa, mas valorizo o processo. FBio FeldMaNN sEcrEtrio do mEio ambiEntE Nossa relao sempre foi bastante conflituosa e tensa no governo. Tnhamos opinies divergentes em alguns temas, mas sempre com muito respeito. Um dia, em um de nossos encontros de trabalho, falei com ele sobre as questes do palmito. Ele no teve dvida e saiu com a seguinte indagao: S me faltava essa. Agora voc vai me proibir de comer pastel na feira? Ele tambm sabia ser engraado.

Joo dria JuNior prEsidEntE da paulistur Covas era um fumante inveterado. Na prefeitura, sempre havia um cinzeiro enorme cheio de bitucas de cigarro. No Anhembi, era proibido fumar nas reas internas. A primeira vez que Covas foi ao Anhembi, tomei a liberdade de pedir ao prefeito que tentasse no fumar, s se fosse imprescindvel. Covas respondeu: Pois imprescindvel. E s fao reunio se fumar.

Nivalda roCha de Jesus EmprEgada da famlia Quando Covas foi eleito governador, eu disse pra ele que queria uma casa da CDHU. E ele falou: No assim. Se voc quiser, vai entrar na fila igual a todo mundo. Eu fiz minha inscrio e no falei nada. No dia do sorteio, o Covas estava l. Ele me viu no meio da multido. Sorteou umas dez casas e foi embora. No dia seguinte, perguntou o que eu estava fazendo l. E eu contei. Com ele no tinha facilidades.

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arliNdo goMes da silva motorista dE mario covas Uma vez, voltando de Santos, tocou o telefone do carro. Era algum pedindo para Covas representar o governador Franco Montoro num evento no Anhembi, com a presena do ento presidente Joo Figueiredo. Chegando l, ele desce para o evento, mas antes percebe que o segurana impediu o acesso das pessoas que o acompanhavam. Ele voltou para o carro e disse que ia embora. Se as pessoas que esto me acompanhando no podem entrar, eu tambm no entro. Foi uma loucura. O Exrcito cercou o carro, disseram que seria prejudicial. Ele ficou, mas com a condio de que todos pudessem entrar.

roBsoN MariNho coordEnador da campanha dE 1994 E sEcrEtrio da casa civil Numa segunda-feira, eu estava despachando com o governador quando ele chamou o chefe da Casa Militar e mandou calcular o custo do helicptero de So Paulo at a Riviera de So Loureno, litoral sul paulista. Quando o chefe da Casa Militar saiu, eu perguntei: Governador, por que o senhor mandou fazer esse clculo? E ele respondeu: Porque eu quero recolher aos cofres do Estado o custo da viagem at a Riviera, ida e volta. Eu disse: Mas por qu? Era um final de semana em que sua famlia estava l, o senhor estava chegando de viagem ao interior e se deslocando para passar o final de semana com sua famlia. Ele respondeu: No quero saber, eu vou recolher. Como de fato recolheu aos cofres do Estado, para que ningum pudesse insinuar que ele estava usando o helicptero para ir para a casa de praia dele. Isso mostra o respeito dele com o dinheiro o pblico.

Miguel Jorge ExEcutivo Covas era detalhista. Uma vez eu estava com ele e, sobre a mesa, havia um monte de processos de concorrncia, uma pilha enorme. A gente estava conversando e eu falei: Mario, voc est lendo processos de concorrncia? Ele respondeu: , isso aqui importante. So estradas vicinais. Eu falei: No acredito que voc esteja lendo um por um. E ele: Eu vejo todos. Mesmo que tenha que ficar aqui a noite inteira, eu no deixo de ler. Ele tinha fixao em acompanhar tudo de perto.

oswaldo MartiNs amigo E sEcrEtrio dE comunicao Todo poltico que est no Executivo corre o risco de perder um pouco a noo de realidade, at porque no faltam bajuladores em volta. Onde tem corte, tem o bobo da corte, tem corteso, tem cortes, toda corte assim, seja no imprio, na monarquia ou na repblica. Tudo igual. Isso pode iludir, sobretudo se a pessoa for deslumbrada. Mario Covas nunca teve nenhuma atrao pelas benesses do poder, at porque,ele no gostava de conforto. Coisa estranha, mas no gostava, ele gostava de sofrer. E quem estava ao lado dele sofria junto, gostasse ou no gostasse, porque estava naquele jogo. Mais uma vez, A ao conforme a pregao um bom rtulo para a trajetria do Mario porque, no Executivo, onde podia ser tudo diferente, no foi nada diferente. Continuou praticando a mesma democracia que defendia e praticava quando estava no parlamento.

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o leGadopor ondE passou, mario covas dEixou liEs dE sEriEdadE na administrao pblica E coErncia com sEus princpios E valorEs

yoshiaKi NaKaNo sEcrEtrio da fazEnda O legado de Mario Covas foi Estado saneado, mais condio de investir, Estado com dvida renegociada. Ele recebeu uma herana maldita, o Estado endividado, e pensava no futuro. Pagou as dvidas para deixar o Estado bem.

Paulo FraNCiNi EmprEsrio O maior legado de Mario Covas o de um homem poltico. Essa a inspirao maior de Mario Covas, vocao de homem pblico, homem de convices. Nunca o vi embaralhado em atitudes de corrupo. Tratava com seriedade a questo pblica. Tinha convices dolorosas e uma enorme necessidade de promover o saneamento econmico do Estado de So Paulo. Paulo CuNha EmprEsrio um exemplo, em primeiro lugar, de persistncia. Basta olhar sua vida poltica, de grande determinao. Tinha talento e possibilidades para seguir outros caminhos. Quando foi cassado, trabalhou como engenheiro, administrador. Mas a vocao dele era a de homem pblico, tratava a coisa pblica como coisa pblica. Do ponto de vista civilizatrio, um exemplo relevante at hoje. Um homem pblico.

roNaldo Csar Coelho dEputado fEdEral constituintE O PSDB e a poltica brasileira devem muito a Mario Covas. Ele no fez nada sozinho, mas o Brasil, que acordou para a tica e a moralidade, devem muitssimo a homens como Covas.

Cleuza raMos ldEr comunitria Para quem tem vergonha na cara, Covas deixou um grande exemplo de trabalho e clareza, de viver para servir. Ele sempre colocou o interesse do outro acima do seu.

edsoN visMoNa sEcrEtrio da justia E dEfEsa da cidadania Aprendi com Covas que possvel fazer poltica com grandeza. Covas dizia que a poltica no pode ser esquecida, pois na poltica que um pas rico como o Brasil tem condio de ser mais justo. BruNo Covas nEto Meu av era um poltico que no defendia a educao, a sade, a segurana, a habitao. Ele defendia princpios e valores. A grande bandeira de Mario Covas sempre foi a da seriedade, da honra e da tica.

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walter Barelli sEcrEtrio dE EmprEgo E rElaEs do trabalho O legado de Mario Covas a social-democracia praticada num pas subdesenvolvido, em meio ao neoliberalismo, sem paternalismo, sem fazer o povo sofrer.

aNtoNio aNgarita sEcrEtrio dE govErno Covas teve coragem, a grande virtude do poltico. Era um trabalhador fora do comum. Eu dizia a ele: Voc pior do que escravo, gal. Porque escravo come, dana. Gal s rema. No era um intelectual. Apesar de muito bem informado, escolheu ser gestor. No era mal humorado, era grave.

BoB FerNaNdes jornalista Seu legado perceber que possvel ter integridade na poltica, que possvel ter palavra e cumpri-la. Num meio to difcil como a poltica, ter o respeito do adversrio; algum com comeo meio e fim, sabendo que pode ser prejudicado. Covas era admirvel. Ainda que absolutamente comum como pessoa, era incomum no comportamento como poltico. Padre tiCo rEligioso Conosco estabeleceu uma relao to fraterna que podamos entender quando ele falava: No d para atender. Mas era muito difcil ele dizer isso. Foi sempre uma pessoa de uma sensibilidade muito grande. Isso marcou nossa regio at hoje. Ento temos o campus da USP que tem o nome dele, escolas, conjuntos habitacionais, o Mario Covas lembrado sempre com muito carinho. At naquilo que muita gente dizia que ele era turro, para ns foi bom, porque ele era turro com aqueles que precisavam, como um pastor que tem um cajado e bate no lobo. Ele usava o cajado para defender o povo. Acho que Mario Covas conseguiu passar uma realidade como a nossa de tanta desigualdade, conseguiu mostrar que possvel fazer uma poltica diferente, fazer a poltica que necessria para responder s necessidades bsicas da populao. Que Mario Covas continue nos iluminando na sua prtica.

Mario Covas Neto (zuziNha) filho Ele tinha presena. Era daquelas pessoas que chegam e preenchem o espao, inerente, no se aprende. Tinha tambm o poder de comunicao, com toda braveza, espanholice e decibis acima. Seus pequenos gestos eram captados e valorizados, como passar a mo na cabea, perguntar, valorizar sua opinio. Fora isso, tinha um sentido de justia forte, com argumentao forte, orientada para a justia social, nunca pessoal, mas sempre com propsitos coletivos. Se preocupava em estar preparado para tratar dos assuntos e com seriedade. Assumia riscos que causavam admirao at em adversrios. Entrava em piquete para defender suas posies.

rose NeuBauer sEcrEtaria da Educao Nas inauguraes de escolas, Mario Covas fazia questo de dizer que a escola de vocs, feita com dinheiro de vocs, no tm que agradecer. Ele tinha compromisso com a populao. Nunca foi de esquerda, mas tinha compromisso com a populao, respeito coisa pblica, o que muita gente de esquerda tem no discurso, mas no pratica.

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fUndao mario covasDirEtoria Presidente da Fundao Mario Covas Diretor Secretrio Diretor Tesoureiro CONSELHO CURADOR Presidente Vice-Presidente Secretrio Membros Vitalcios Bruno Covas Lopes Belisrio dos Santos Junior Marco Vincio Petrelluzzi Florinda Gomes Covas Mario Covas Neto Renata Covas Lopes Rubens Naman Rizek Membros Eletivos Edson Tomaz de Lima Filho Edson Vismona Fernando Padula Novaes Jos da Silva Guedes Luiz Carlos Frigrio Marcos Arbaitman Marco Ribeiro de Mendona Mauro Guilherme Jardim Arce Michael Paul Zeitlin Osvaldo Martins de Oliveira Filho Sami Bussab Administrao Rosangela Lopes Moreno Baptista Eduardo Strabelli Odair Aparecido Ribeiro Campos CEntro DE mEmria mario Covas Coordenao Consultora Arquivstica Tcnicos Documentalistas Raquel Freitas Mrcia Cristina de Carvalho Pazin Gustavo Molina Turra Noubar Sarkissian Junior Tiago Silva Rodrigues Navarro Wesley Cunha Soares Antonio Carlos Rizeque Malufe Luis Sergio Serra Matarazzo Marcos Martinez

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fUndao mario covas em revistaCoordenao Editorial Atelier de Imagem e Comunicao Teresa Cristina Miranda - MTb 12.170 Editora Redao Administrao Lucia Reggiani - MTb 11.479 Teresa Cristina Miranda Lucia Reggiani Cludia Sardinha

Projeto Grfico e Diagramao

Anibal S Comunicao & Design

Fotografia Edio Produo Tratamento de imagem Fotgrafo

A2 Fotografia Angelo Perosa Rosana Jernimo Ribeiro Ana Paula de Oliveira Silva Daniel Guimares Luludi/Agncia Estado (pg. 8) Acervo Fundo Mario Covas

NOTA: Parte do texto sobre a trajetria de vida de Mario Covas foi extrada do Guia do Acervo, publicao do Centro de Memria da Fundao Mario Covas.

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