Made in Brazil v1

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DESAFIOS COMPETITIVOS PARA A INDSTRIA JOO CARLOS FERRAZ DAVID KUPFER LIA HAGUENAUEREditora Campus 1995

O Brazil no conhece o Brasil O Brasil nunca foi ao Brazil Querelas do Brasil, Maurcio Tapajs e Aldir Blanc

A diviso do trabalho limitada pela extenso do mercado. Adam Smith

Os AutoresOs autores integram um grupo de pesquisadores do Instituto de Economia da UFRJ que h mais de cinco anos vem desenvolvendo um programa de pesquisa centrado na questo da competitividade da indstria brasileira. A competitividade tem sido examinada em sua vertente terica, atravs do desenvolvimento de novos conceitos, tendo sido tambm realizados esforos substanciais de aplicao emprica, por meio da anlise de empresas e setores industriais. Os principais projetos desenvolvidos ao longo dos anos foram: Cenrios da Indstria Brasileira e a Formao Profissional para os Anos 2000; Competio e Modernizao: Perspectivas para a Indstria Brasileira; Modernizao Industrial Brasileira e o Estudo da Competitividade da Indstria Brasileira. Joo Carlos Ferraz economista e jornalista, professor adjunto licenciado da FEA e do IE/UFRJ, doutor em poltica cientfica e tecnolgica pela Universidade de Sussex, Inglaterra. Atualmente professor visitante da Universidade de Tsukuba, Japo. Juntamente com o prof. Luciano Coutinho da UNICAMP coordenou o Estudo da Competitividade da Indstria Brasileira. David Kupfer engenheiro qumico, professor assistente do IE/UFRJ, mestre em economia pela UFRJ e atualmente est concluindo o doutoramento tambm na UFRJ. Lia Haguenauer economista e pesquisadora do IE/UFRJ e, juntamente com David Kupfer, coordenou a Anlise da Indstria do Estudo da Competitividade da Indstria Brasileira.

AgradecimentosMade in Brazil resultou de um esforo de sistematizao do vasto conjunto de informaes e anlises geradas pelo Estudo da Competitividade da Indstria Brasileira (ECIB). Em 1994, por sugesto de Joe Ramos e Ricardo Bielshowsky, a Diviso de Desenvolvimento Produtivo e Empresarial da Comisso Econmica para Amrica Latina e Caribe (CEPAL) viabilizou a elaborao deste livro ao convidar Joo Carlos Ferraz para misso de trabalho em Santiago nos meses de janeiro/fevereiro e junho/julho. Estas misses de trabalho foram utilizadas para examinar a documentao produzida pelo ECIB, analisar a base de dados levantada junto a 661 empresas industriais e o desempenho da indstria em 1994. Ao longo da elaborao deste livro o esquema analtico e as principais idias foram discutidas com algumas pessoas que h muito tempo acompanham o desenvolvimento industrial brasileiro. No Bra- sil, agradecemos os comentrios de Antonio Barros de Castro, Fbio Erber, Jos Carlos Miranda, Maria da Conceio Tavares, Luciano Coutinho, Mrio Possas, Paulo Tigre e Roberto Vermulm. Durante o segundo semestre de 1994, os alunos da ps-graduao do Instituto de Economia Industrial ouviram a primeira exposio das nossas idias. Na CEPAL, alm das discusses com Joe Ramos e Ricardo Bielshowsky, contriburam para ajustar nossos pontos de vista Jorge Katz, Wilson Peres, Renato Baumman, Ricardo Ffrench-Davis e Giovanni Stumpo, alm dos participantes de dois seminrios internos. O resultado obtido expressa o trabalho coletivo das pessoas envolvidas com o Estudo da Competitividade da Indstria Brasileira na condio de redatores, supervisores ou debatedores dos documentos produzidos. Os autores agradecem especialmente aos responsveis pela anlise da indstria que, atravs das notas tcnicas produzidas e do convvio e troca de idias, so na verdade co-autores do Made in Brazil: Achyles Barcelos da Costa, Ana Clia Castro, Andr Furtado, Anne Posthuma, Armnio de Souza Rangel, Carlos P. Monteiro Bastos, Celso Luis Rodrigues Vegro, Eduardo Rappel, Eduardo Strachman, Francisco Teixeira, Germano Mendes de Paula, Hlio Nogueira da Cruz, Javier A. Lifchitz, Joo Luiz Pond, John Wilkinson, Jorge Nogueira de P. Britto, Jos Eduardo Pessini, Jos Maria F.J. da Silveira, Jos Roberto Ferro, Jos Rubens Dria Porto, Margarida Baptista, Maria Angelica Covelo Silva, Maurcio Mendona Jorge, NewtonIX

Muller, Odair Lopes Garcia, Oswaldo Ferreira Guerra, Pablo Fanjnzylber, Renato Dagnino, Roberto de Souza, Roberto Vermuln, Sebastio Jos Martins Soares, Sergio L. M. Salles Filho, Sergio R. Reis de Queiroz, Simo Copeliovitch, Sonia Dahab, Vahan Agopyan, Vicente Bastos Ribeiro. Tambm participaram do Estudo da Competitividade, na condio de supervisores da qualidade do trabalho, renomados empresrios, acadmicos, trabalhadores e tcnicos do governo. Alm disso, todos os trabalhos foram discutidos com 1.862 pessoas que participaram dos 32 workshops realizados com o objetivo de apresentar e debater as principais concluses e sugestes de poltica dos documentos. Seria impossvel produzir este trabalho sem o conhecimento de alta qualidade transferido por essas pessoas. Anbal Wanderley contribuiu com a organizao da base de dados da pesquisa de campo e a elaborao da maior parte das tabelas utilizadas. Franklin Serrano colaborou nas anlises macroeconmicas e foi leitor atento das verses iniciais. O apoio de Mrcia Barbosa no IE-UFRJ e Maria Helena Charalamby e Patricia Rojas na CEPAL evitou a disperso de nossa ateno e permitiu maior dedicao ao livro. Dedicamos nosso trabalho a estas pessoas que, sem terem nenhuma responsabilidade pelas idias aqui expressas, contriburam para sua realizao.

X

Sumrio

Apresentao Prefcio

XVII XXV

Captulo 1Competitividade, Padres de Concorrncia e Fatores Determinantes Competitividade e Padres de Concorrncia Fatores Determinantes da Competitividade Fatores Empresariais: Um Novo Modelo de Empresa Princpios da Gesto Competitiva Capacidade Inovativa Capacidade Produtiva Recursos Humanos Fatores Estruturais: Competio e Colaborao nas Cadeias Produtivas Mercado Configurao da Indstria Regime de Incentivos e Regulao da Concorrncia Fatores Sistmicos: A Importncia das Externalidades Determinantes Macroeconmicos Determinantes Poltico-institucionais Determinantes Legais-regulatrios Determinantes Infra-estruturais Determinantes Sociais Determinantes Internacionais Padres de Concorrncia nos Grupos Industriais Grupo de Indstrias Produtoras de Commodities 1 1 10 14 14 15 16 17 18 18 20 23 24 25 26 28 29 30 31 33 35XI

Grupo de Indstrias Produtoras de Bens Durveis e Seus Fornecedores Grupo de Indstrias Tradicionais Grupo de Indstrias Produtoras de Bens Difusores de Progresso Tcnico Uma Tentativa de Sntese Avaliao da Competitividade Nveis de Agregao Utilizados Setores e Grupos Industriais Selecionados Caractersticas da Amostra da Pesquisa de Campo Procedimentos Adotados

37 39 42 43 45 45 46 50 51

Captulo 2A Herana da Crise Econmica e o Contexto da Indstria no Incio dos Anos 90 A Herana da Crise A Situao Macroeconmica A Desorganizao do Estado A Deteriorao do Sistema de Infra-estrutura Fsica A Contrao da Base de Mercado O Contexto da Indstria Produo e Emprego Do Ajuste Exportador Abertura Comercial Estilo de Modernizao e as Reaes das Empresas 55 57 58 61 64 65 67 67 70 73

Captulo 3Diferenciao de Produtos e Aumento do Porte Empresarial: Os Desafios do Grupo Produtor de Commodities Padro de Concorrncia e Estratgias Competitivas Desempenho e Capacitao do Grupo Commodities Competitividade dos Insumos Metlicos Tendncias Competitivas Internacionais Mercado. Configurao da Indstria Desempenho e Capacitao Estrutura Patrimonial e Produtiva Regime de Incentivos e Regulao da Concorrncia Competitividade de Qumica Bsica Tendncias Competitivas Internacionais Mercado. Configurao da Indstria Desempenho e Capacitao 85 86 90 93 93 95 97 97 100 103 105 105 108 111 111

XII

Estrutura Patrimonial e Produtiva Regime de Incentivos e de Regulao da Concorrncia Competitividade das Agroindstrias de Exportao Tendncias Competitivas Internacionais Mercado Configurao da Indstria Desempenho e Capacitao Estrutura Patrimonial e Produtiva Regime de Incentivos e de Regulao da Concorrncia Competitividade da Celulose e Papel Tendncias Competitivas Internacionais Mercado Configurao da Indstria Desempenho e Capacitao Estrutura Patrimonial e Produtiva Regime de Incentivos e de Regulao da Concorrncia Desafios Competitivos para o Grupo Commodities

114 121 124 124 126 130 130 133 139 141 141 143 144 144 147 149 151

Captulo 4Regionalizao da Produo Versus Global Sourcing: O Dilema do Grupo de Bens Durveis e Seus Fornecedores Padro de Concorrncia e Estratgias Competitivas Desempenho e Capacitao do Grupo Durveis Competitividade da Automobilstica e Autopeas Tendncias Competitivas Internacionais Mercado Configurao da Indstria Desempenho e Capacitao Estrutura Patrimonial e Produtiva Articulao na Cadeia Produtiva Regime de Incentivos e Regulao da Concorrncia Competitividade dos Bens Eletrnicos de Consumo Tendncias Competitivas Internacionais Mercado Configurao da Indstria Desempenho e Capacitao Competitiva Estrutura Patrimonial e Produtiva Articulao na Cadeia Produtiva Regime de Incentivos e Regulao da Concorrncia Desafios Competitivos para o Grupo Duravis 155 156 162 166 166 170 175 175 181 185 186 189 189 192 195 195 199 200 202 204

XIII

Captulo 5Ajuste Produtivo Heterogneo: Os Limites da Competitividade no Grupo Tradicional 209 Padro de Concorrncia e Estratgias Competitivas 210 Desempenho e Capacitao no Grupo Tradicional 217 Competitividade do Complexo Txtil-Calados 221 Tendncias Competitivas Internacionais 221 Mercado. 225 Configurao da Indstria 228 Desempenho e Capacitao 228 Estrutura Patrimonial e Produtiva 230 Articulaes na Cadeia Produtiva 232 Regime de Incentivos e Regulao da Concorrncia 236 Indstria Alimentar 237 Tendncias Competitivas Internacionais 237 Mercado. 240 Configurao da Indstria 243 Desempenho e Capacitao 243 Estrutura Patrimonial e Produtiva 246 Articulaes na Cadeia Produtiva 248 Regime de Incentivos e Regulao da Concorrncia 249 Competitividade da Indstria Moveleira 251 Tendncias Competitivas Internacionais 251 Mercado. 253 Configurao da Indstria 254 Desempenho e Capacitao 254 Estrutura Patrimonial e Produtiva 259 Regime de Incentivos e Regulao da Concorrncia 261 Desafios Competitivos para o Grupo Tradicional 262

Captulo 6Substituio por Importaes: Ameaa para os Difusores de Progresso Tcnico Padro de Concorrncia e Estratgias Competitivas Desempenho e Capacitao do Grupo Difusores Competitividade dos Equipamentos Eletrnicos Tendncias Competitivas Internacionais Mercado. Configurao da Indstria Desempenho e Capacitao Estrutura Patrimonial e Produtiva Articulaes na Cadeia Produtiva Regime de Incentivos e Regulao da ConcorrnciaXIV

265 267 274 282 282 288 292 292 297 300 303

Competitividade dos Equipamentos Eletromecnicos Tendncias Competitivas Internacionais Mercado. Configurao da Indstria Desempenho e Capacitao Estrutura Patrimonial e Produtiva Articulaes na Cadeia Produtiva Regime de Incentivos e Regulao da Concorrncia Desafios Competitivos para o Grupo Difusores

307 307 311 316 316 320 323 325 329

Captulo 7Desafios Competitivos para a Indstria Produzir no Brasil Grupo Commodities Grupo Durveis e Seus Fornecedores Grupo Tradicional Grupos Difusores de Progresso Tcnico Racionalidades Competitivas Os Caminhos da Evoluo Recente Eficincia Tcnica como Foco dos Esforos Empresariais Internacionalizao da Estrutura Produtiva e Patrimonial Poltica Industrial Orientada para a Competitividade Perspectivas 333 333 334 339 345 350 355 355 357 359 363 368

ApndicePesquisa de CampoBibliografia

375379

XV

Apresentao

O

ttulo deste livro uma homenagem srie de trabalhos publicados nos ltimos anos que examinam o poder competitivo de indstrias de vrios pases, iniciada com o j clebre Made in America (Dertouzos, Lester e Solow, 1989). Todos tm em comum a anlise das potencialidades e limitaes da indstria de cada pas de sobreviver ao processo de globalizao e a valorizao de mecanismos que fortaleam a capacidade das empresas nacionais na disputa por mercados, em um ambiente de acirramento da concorrncia. Devido a sua premncia, questes macroeconmicas a ameaa permanente de hiperinflao, crise financeira e fiscal do setor pblico e dvida externa tm quase monopolizado o debate e os estudos econmicos no Brasil, assim como em vrios outros pases da Amrica Latina. Made in Brazil, sem desconsiderar a relevncia desses temas, avana alm do horizonte do curto prazo, examina a estrutura produtiva do pas e avalia os desafios para sua evoluo nos prximos anos. O pressuposto de que, principalmente em pases continentais, como o Brasil, a mdio e longo prazo invivel o desenvolvimento econ-mico e social sem o desenvolvimento simultneo de uma indstria competitiva. As atividades industriais tm papel central no aumento da renda, na qualidade e volume do emprego e na quantidade e adequao demanda de bens e servios disponveis populao. A presena de empresas industriais competitivas amplia renda e oferta na economia e constitui importante fator para o desenvolvimento quantitativo e qualitativo das demais atividades econmicas. Ao mesmo tempo, mercados slidos e em expanso e consumidores com elevado poder de compra estimulam a competitividade das empresas que os atendem.XVII

Pases que se destacaram pelo crescimento da competitividade de suas empresas, como Japo ou Coria do Sul, apresentaram concomitantemente aumentos expressivos em seus salrios mdios reais. Por outro lado, a ampliao de mercados com base em vantagens em preos decorrentes de baixos salrios a competitividade espria de Fajnzylber (1988) tende a no ser sustentvel no longo prazo, seja pelo alto custo social que representa, seja pela crescente restrio internacional ao chamado dumping social. certo que em uma economia mundial cada vez mais globalizada a perda de competitividade das empresas locais implica perda de condies de sobrevivncia e, conseqentemente, desindustrializao e eliminao de postos de trabalho. J a ampliao e conquista de novos mercados derivada da maior competitividade resulta em aumento da produo, que pode ser acompanhada de aumento de pessoal ocupado. No entanto, em funo da automao, da racionalizao dos processos produtivos e do aumento de produtividade em geral, crescente a inelasticidade da oferta de novos empregos em relao produo: so necessrios cada vez menos trabalhadores para gerar maior quantidade de bens. Isso evidenciado pela evoluo das eco-nomias mais industrializadas, onde tem sido crescente o desemprego. No Brasil, entretanto, existe espao para conciliar aumento da competitividade e do emprego, desde que se criem condies favor-veis ao aproveitamento do potencial do mercado, que muito significativo devido ao subconsumo de praticamente todos os produtos e que por isso oferece perspectivas de expressiva expanso da produo para empresas locais. O recente surto de crescimento, aps o Plano Real, reverteu a tendncia de contrao do emprego industrial no pas, comprovando que ainda existem oportunidades para a absoro de trabalhadores na indstria brasileira. De todo modo, irrealista atualmente considerar a indstria como espao prioritrio na gerao de empregos. Sua funo mais importante pelos efeitos multiplicadores que exerce sobre as demais atividades produtivas, principais responsveis pela absoro de pessoal: agricultura, comrcio e, com importncia cada vez maior nas economias contemporneas, o setor de servios. E, nesse sentido, a presena de empresas industriais competitivas favorece a ampliao desses efeitos, fornecendo insumos e equipamentos com maior qualidade e menores preos, assegurando mercado, valorizando a produo primria e impulsionando atividades tercirias. O longo perodo de instabilidade econmica, mais tarde associaXVIII

do abertura comercial, provocou mudanas nas empresas brasileiras em suas relaes com fornecedores, na gesto da produo e nos procedimentos para a conquista de clientes. Ao longo dos anos 80, a nacionalizao da produo a busca de auto-suficincia absoluta associada a vrias dcadas de polticas de substituio de importaes foi perdendo o papel de funo-objetivo do desenvolvimento na- cional e os empresrios passaram a buscar outros eixos de orientao em seus processos decisrios. Instabilidade com abertura implicaram incerteza, e a resposta das empresas tem sido economizar recursos e substituir, na formulao de suas estratgias, o horizonte de concorrncia local pelo horizonte internacional. As transformaes nas condutas e no desempenho das empresas aceleraram-se nos primeiros anos da dcada de 90 quando, a cada ano, foram sucessivamente quebrados recordes de crescimento da produti-vidade, de adoo de novas normas de procedimento, como a ISO 9000 e, tambm, de cortes no emprego. Com a continuidade da abertura comercial e a entrada em cena da estabilizao monetria assistiu-se ainda expanso da produo, alm do crescimento mais que proporcional das importaes. Neste ambiente, qualquer indicador econ-mico rapidamente se torna obsoleto e as avaliaes sobre a intensidade das mudanas ficam temporalmente limitadas. Ao mesmo tempo, este perodo de transio oferece a rara oportunidade de identificar a direo das mudanas as aes que as empresas desenvolvem atualmente para sobreviver certamente tero grande peso no futuro. Este livro analisa as transformaes em curso, buscando desvendar a lgica industrial e competitiva das empresas brasileiras e a trajetria que se delineia a partir dos antecedentes da indstria, tendo como referncia a direo dos ajustes j empreendidos e as tendncias inter- nacionais. Seu principal objetivo investigar o que Albert Hirshman (1986) denominou de racionalidades do desenvolvimento, mapean-do, atravs da anlise da trajetria da produo industrial brasileira, os desafios competitivos para os prximos anos. Antecipando concluses, as principais tendncias j esto claras: busca de capacitao produtiva, atendimento preferencial ao mercado interno e internacionalizao da estrutura patrimonial. H, entretanto, marcantes diferenciaes entre os diversos segmentos da indstria brasileira, decorrentes dos fatores relevantes para a competitividade segundo os diversos padres de concorrncia, do estgio de desenvolvimento em que cada setor se encontra exigindo maiores ou menores esforos para enfrentar seus respectivos desafiosXIX

competitivos e da funo que os setores exercem na matriz industrial. Por esse motivo, a anlise da lgica competitiva e perspectivas para a indstria necessariamente deve considerar as diferenciaes existentes. Nesse sentido, este livro segmenta a indstria em quatro grandes grupos: produtores de commodities, de bens durveis, tradicionais e difusores de progresso tcnico; em cada grupo so ainda discriminados conjuntos de setores com caractersticas semelhantes e detalhadas particularidades setoriais. Na indstria brasileira prevalecem empresas competitivas no grupo produtor de commodities, seguido dos grupos de bens durveis, tradicionais e difusores de progresso tcnico. Porm, em todos os setores que compem os grupos industriais, com maior ou menor intensidade, existe um processo de polarizao das estruturas produtivas, com uma minoria de empresas efetiva ou potencialmente capacitada para competir e um contingente maior de firmas despreparadas. No primeiro grupo esto empresas com estratgias, capacitao e desempenho coerentes com o padro de concorrncia de seu mercado de atuao. No outro extremo a situao exatamente oposta e a capacidade de sobrevivncia das empresas est em questo. Independente da atividade industrial, porm, dois ingredientes so absolutamente necessrios na constituio da empresa competitiva dos anos 90: capacitao tecnolgica e atuao em mercados dinmicos e exigentes. Ainda questo aberta para o pas a capacidade da indstria cumprir sua funo como geradora de produtos e empregos, em quantidade e qualidade crescentes. As racionalidades que definem potencialidades e limitaes da produo made in Brazil so o tema central deste livro. Na medida em que as taxas de crescimento da quantidade e qualidade da produo e do emprego forem positivas, essas racionalidades sero vantajosas tanto para as empresas quanto para o pas.

XX

O Estudo da Competitividade da Indstria BrasileiraA fonte de informao bsica para esta anlise foi o material compilado e produzido ao longo da execuo do Estudo da Competitividade da Indstria Brasileira (ECIB), realizado em 1992 e 1993 sob a coordenao dos profs. Luciano Coutinho e Joo Carlos Ferraz e envolvendo mais de 80 especialistas. A riqueza dessa base de informaes facilitou a explorao de novos ngulos sobre a indstria, beneficiando-se do talento e conhecimentos dos consultores, e tambm o quadro analtico utilizado teve origem nesse projeto. O Estudo da Competitividade da Indstria Brasileira foi encomendado pelo Ministrio de Cincia e Tecnologia, atravs da Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP), no mbito do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Cientfico e Tecnolgico (PADCT). Coordenaram sua execuo o Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IE/UFRJ), o Instituto de Economia da Universidade de Campinas (IE/UNICAMP), a Fundao Centro de Estudos de Comrcio Exterior (FUNCEX) e a Fundao Dom Cabral. Integraram ainda o consrcio executor as seguintes instituies: Science Policy Research Unit (SPRU), University of Sussex; Coopers & Lybrand; Ernst & Young, Sotec; Instituto Brasileiro de Opinio Pblica e Estatstica (IBOPE); Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI); Instituto Equatorial de Cultura Contempornea e Ncleo de Poltica e Administrao de Cincia e Tecnologia da Universidade Federal da Bahia (NACIT/ UFBa). A agncia das Naes Unidas, Comisso Econmica para a Amrica Latina e o Caribe, CEPAL, se associou ao projeto, atravs da participao de seus tcnicos nas discusses de sntese e da elaborao de documentos tcnicos. No Estudo da Competitividade da Indstria Brasileira foi possvel explorar a multiplicidade de fatores que influenciam o desempenho competitivo de empresas, setores industriais e pases. Foram elaborados documentos sobre os fatores de natureza sistmica que afetam o desempenho de todas as empresas condies macroeconmicas, sociais, poltico-institucionais, infra-estruturais e internacionais paralelamente aos estudos dedicados anlise de setores industriais. No projeto foram selecionados para anlise 34 setores responsveis por cerca de 50% da produo industrial do pas. Tendo

XXI

como referncia as melhores prticas internacionais, estes estudos avaliaram o desempenho das empresas brasileiras e os fatores determinantes da competitividade: os de ordem sistmica, aqueles relacionados estrutura industrial, bem como a adequao das estratgias e capacitao das empresas aos requisitos de cada mercado. A base emprica para avaliao da competitividade da indstria brasileira foi constituda por ampla pesquisa de campo e por entrevistas realizadas pelos consultores. O questionrio foi aplicado em uma amostra de cerca de 1.500 empresas, das quais obtiveram-se respostas para 661 (ver Apndice). Essas informaes foram complementadas pelo conhecimento prvio dos consultores, que realizaram ainda cerca de 350 entrevistas abertas junto a especialistas setoriais e a empresas lderes e no-lderes em atividade no Brasil. Todos os documentos do projeto foram discutidos em seminrios com empresrios, tcnicos de governo, trabalhadores e especialistas. O objetivo foi provocar o debate de forma a subsidiar, efetivamente, a formulao de um projeto de desenvolvimento competitivo para o pas. O Made in Brazil utilizou extensivamente o material produzido pelo ECIB. Porm, aqui o leitor no encontrar recomendaes de poltica detalhadas, nem a anlise profunda dos fatores sistmicos que influenciam a competitividade de todas as empresas do pas, para o que sugere-se a consulta documentao do ECIB (Coutinho e Ferraz 1994). No Made in Brazil a ateno est exclusivamente focalizada no desempenho competitivo das empresas brasileiras, aprofundando a anlise dos diversos segmentos industriais e explorando mais intensamente a ampla base de dados do Estudo, principalmente a pesquisa de campo e as notas tcnicas setoriais.

Viso Geral Deste LivroA organizao de Made in Brazil reflete uma anlise em quatro etapas: a primeira discute o conceito de competitividade e estabelece os seus determinantes, associados s mudanas tecnolgicas e de mercados que se processam na indstria mundial; a segunda apresenta o contexto da indstria brasileira no incio dos anos 90; a terceira utiliza o esquema analtico e o cenrio internacional como referncia para a avaliao da competitividade dos quatro grupos industriais considerados para efeito de anlise; e a quarta sintetiza as principais racionalidades e desafios competitivos para a indstria nacional.XXII

O Captulo 1 inicia com a discusso dos conceitos de competitividade e de padro de concorrncia. Em seguida apresentado o detalhamento de seus fatores determinantes: internos s empresas, de natureza estrutural e sistmicos. Para isto so indicados os fatores relacionados a um novo modelo de empresa competitiva, as caracte- rsticas atuais das configuraes industriais e a importncia das externalidades. Na terceira seo, so identificados os fatores crticos para o sucesso competitivo nos setores industriais analisados, reunidos em grupos industriais de acordo com as similaridades dos padres de concorrncia. Por fim, detalham-se os procedimentos adotados para avaliar a competitividade das empresas em seus mercados, tomando como referncia as best-practices internacionais. O Captulo 2 apresenta uma avaliao geral da evoluo da economia e da indstria brasileira entre 1980 e 1994, em um contexto de instabilidade econmica e institucional e crescente abertura comercial. O objetivo demarcar a direo da influncia dos principais determinantes sistmicos sobre as condutas empresariais. Os Captulos 3 a 6 detalham a anlise da competitividade para setores que compem quatro grupos industriais: produtores de commodities, de bens durveis e seus fornecedores, tradicionais e difusores de progresso tcnico. As primeiras sees focalizam, de modo padronizado, o padro de concorrncia, as estratgias, a capacitao e o desempenho das empresas pertencentes a cada grupo industrial. Nestes captulos os segmentos e setores industriais so considerados e, para cada um, feita a avaliao das tendncias internacionais, das caractersticas dos mercados, da configurao da indstria e do regime de incentivos e regulao da concorrncia. Cada captulo finaliza com a identificao dos principais desafios competitivos para os grupos industriais no Brasil. O Captulo 7 resume as principais concluses para cada grupo industrial e sintetiza as convergncias e divergncias entre os diversos grupos, explicitando as racionalidades competitivas do conjunto da indstria e desdobrando perspectivas para a produo made in Brazil.

XXIII

Prefcio

E

ste oportuno livro de Joo Carlos Ferraz, David Kupfer e Lia Haguenauer perfaz uma proveitosa leitura-sntese do conjunto de trabalhos de pesquisa do ECIB Estudo da Competitividade da Indstria Brasileira, com uma tica distinta. Enquanto o Relatrio Final do ECIB foi estruturado com a inteno explcita de propor uma poltica de competitividade (abrangente e ao mesmo tempo especificada por temas e setores) o Made in Brazil contm uma reflexo bem trabalhada e analtica da natureza, condies e problemas da indstria brasileira. O resultado, competentemente logrado, um texto extremamente til para os estudiosos na universidade, instituies de pesquisa e entidades de classe, que desejem compreender em profundidade a situao, os dilemas e desafios da indstria nos anos 90. Antes de tudo, a obra trata de consolidar e esclarecer com rigor a armao metodolgica e emprica de anlise da competitividade, agrupando os setores industriais pelo padro de concorrncia, o que os leva a agreg-los em quatro grupos de indstrias, a saber:n n n n

Produtores de commodities (insumos de amplo uso). Produtores de durveis de consumo e suas cadeias fornecedoras. Indstrias tradicionais (no-durveis de consumo). Indstrias difusoras do progresso tcnico (produtores de bens de capital).

Essa forma de agrupar os setores encerra uma interessante vantagem analtica sobre o modo de agregao utilizado no ECIB, basicamente para fins de proposio de polticas (i.e. setores competitivos,XXV

setores com deficincias competitivas, setores competitivamente frgeis, no nosso caso, os difusores do progresso tcnico), ao permitir uma radiografia mais homognea por padro de concorrncia, estruturas de mercado e configurao de cadeias/complexos industriais. O cuidadoso e ponderado escrutnio que os autores fizeram a respeito das caractersticas estruturais da competitividade da indstria por categoria de uso, enriquecida pela especificao do desempenho tcnico-produtivo, inovacional, gerencial, da concentrao patrimonial e dos respectivos regimes de regulao, permitiu sintetizar com clareza os desafios colocados para o futuro da nossa indstria. Assim, apesar da completa mudana no quadro conjuntural que era de recesso, aguamento das presses concorrenciais e forte queda de rentabilidade entre 1990/93 para um cenrio de forte crescimento dos mercados externo e interno em 1994/95, o Made in Brazil nos oferece um imprescindvel diagnstico a respeito da natureza essencial dos desafios e dilemas competitivos do nosso sistema industrial. As tenses e problemas mudaram com a conjuntura ps-Plano Real, mas os desafios fundamentais permanecem os mesmos tendo sido at agravados ou dramatizados em muitos setores. No perodo 1990/93 a indstria brasileira defrontou-se com um cenrio duplamente desafiador: (1) o fracasso do plano de estabilizao (Collor I) com forte recesso, entrecortada por breves surtos de recuperao logo abortados pela espessa incerteza decorrente das violentas e recorrentes ameaas de retorno hiperinflao; (2) a combinao dessa conjuntura oscilatria perversa com o programa de abertura comercial. Nesse contexto, foi notvel a capacidade de resposta defensiva demonstrada pelo sistema empresarial. Reestruturaes incisivas e em vrios casos brutais foram implantadas para reduzir o nvel operacional de break even, ainda que isso significasse profundos cortes de pessoal, custos fixos e de administrao. No cho-de-fbrica compactaram-se os processos de produo, com modificaes dos layouts e racionalizao dos fluxos, visando adotar as tcnicas de just-in-time e reduzir ao mximo os estoques na linha. As atividades e segmentos auxiliares foram terceirizados, isto , expulsos da estrutura e transformados em supridores externos. O resultado: notveis ganhos de produtividade e significativa economia de capital de giro. As estruturas administrativas e a organizao foram enxugadas e simplificadas com reduo de nveis hierrquicos e com descentralizao e delegao de responsabilidades funcionais, ensejando processos gerenciais mais eficientes.XXVI

Nos setores/complexos mais avanados do ponto de vista tcnico-gerencial foram deslanchados processos de networking para trs e para frente, envolvendo respectivamente fornecedores e distribuidores, visando reduzir custos/estoques e ganhar rapidez de resposta na oferta de novos produtos. Em algumas cadeias industriais essas redes de interconexo se sofisticaram com a introduo de sistemas de EDI (Electronic Data Interchange). Em contrapartida, em outros casos a formao de redes foi altamente desgastante e precarizadora para os fornecedores e para as atividades terceirizadas. deveras admirvel a velocidade com que esses processos modernizantes foram e continuam sendo implantados, inclusive com a adoo simultnea de sistemas de gesto da qualidade segundo as normas ISO 9000 mas conveniente sublinhar a grande heteroge- neidade inter e intra-setorial conforme mostram os autores nos captulos seguintes. Ainda h muita deficincia e significativo grau de atraso na adoo dos padres eficientes de gesto na indstria brasileira. As estratgias dos grupos foram em geral re-orientadas buscando-se concentrar as atividades nos respectivos core business, abandonando-se (por venda ou por simples fechamento) as reas de negcio consideradas no-competitivas ou no-sinrgicas. Na maioria dos casos, esse movimento significou desistir de reas ou linhas-de-produto de intensidade tecnolgica mais elevada e maior grau de risco mercadolgico, substituindo-as por importaes, particularmente no caso de componentes e equipamentos. No plano da gesto financeira aprofundou-se a tendncia que j vinha sendo firmemente adotada desde os anos 80 de minimizar os nveis de endividamento e de acumular liquidez para realizar ganhos de capital e de juros, buscando-se tirar proveito das extraordinrias oportunidades de efetuar operaes de arbitragem financeira ou cambial. Com efeito, as oscilaes selvagens da conjuntura inflacionria e da poltica econmica (i.e. juros, cmbio, privatizaes financiadas com as chamadas moedas-podres, etc.) ensejaram a possibilidade para quem dispunha de liquidez de embolsar enormes ganhos patrimoniais em operaes de compra e venda de ativos. Com o advento e implantao do Plano Real, modificou-se drasticamente esse contexto, abrindo-se uma etapa de inflao reduzi- da com intensa excitao da demanda e significativa sobrevalorizao da taxa de cmbio. Nesse sentido, a avaliao das perspectivas sobre as decises de investimento industrial e estabilidade em meados de 1995 torna-se particularmente datada.XXVII

A presso exercida pelas importaes sobre as margens e preos domsticos foi multiplicada e ampliada em quase todas as cadeias industriais. Com isso tornou-se imperioso aprofundar os movimentos de desverticalizao e de substituio de partes, componentes e insumos por bens importados. O processo de formao de laos comerciais regulares com fornecedores estrangeiros que j vinha se configurando desde o incio da dcada expeditou-se e consolidou-se. O out-sourcing passou a ser ampla e sistematicamente praticado. A acelerao do crescimento, dada a sobrevalorizao da taxa de cmbio, a reduo das tarifas e a ausncia de controles, tornou inevitvel uma macia penetrao de bens finais importados, em particular de durveis de consumo e dentre estes notadamente dos automveis. Rapidamente constituram-se cadeias de distribuio e de assistncia tcnica por parte de quase todos os protagonistas da indstria mundial, vislumbrando a possibilidade de firmar uma presena expressiva no mercado brasileiro. Em poucos meses as importaes saltaram de um patamar de cerca de US$ 30 bilhes/ano em meados de 1994 para quase US$ 60 bilhes/ano no 2 bimestre de 1995, ultrapassando as exportaes e criando um dficit comercial potencial de mais de 2% do PIB. A violncia da penetrao dos produtos importados s no foi imedia- tamente desagregadora porque o forte crescimento dos mercados permitiu indstria utilizar intensamente a capacidade produtiva que estivera em boa medida ociosa desde os anos 80. Apesar dos preos e margens estarem sob a forte presso dos produtos importados, o uso intensivo da capacidade instalada permitiu reduzir custos fixos e realizar economias de escala, a partir de bases produtivas muito mais eficientes, que haviam sido recentemente reestruturadas. Isso explica a relativa tolerncia demonstrada pela indstria vis vis o surto de importaes ou a utilizao destas de forma suplementar pelas prprias empresas, particularmente pelas transnacionais aqui estabelecidas. O cenrio externo favorvel com a firme retomada do crescimento econmico mundial em 1994 sob a liderana da economia americana tambm significou um quadro novo para as nossas commodities de exportao, em torno s quais se constituram importantes complexos competitivos. A melhoria dos preos externos e os juros elevados obtidos nos contratos de adiantamento de cmbio mantiveram a atratividade das exportaes (salvo no breve interregno de trs meses entre outubro de 1994 e janeiro de 1995 em que as operaes ACC foram penalizadas pelo Banco Central). Assim, os mercados inXXVIII

terno e externo aqueceram-se simultaneamente levando as empresas a operarem com elevadssimos nveis de utilizao de capacidade instalada. Essa conjuntura de intenso crescimento industrial desde o ltimo trimestre de 1993 e com fora crescente ao longo de 1994, culminando no 1 trimestre de 1995 com uma taxa anualizada de ex- panso equivalente a 15% a.a. induziu formulao de significativos planos de investimento em muitos setores, particularmente naqueles onde a capacitao de oferta j estava estrangulada. Investimentos de expanso das plantas existentes e de desengargalamento de linhas de produo comearam a ser empreendidos sem hesitao as importaes de bens de capital cresceram substancialmente e a car- teira de pedidos dos produtores domsticos desses bens tambm melhorou expressivamente. Por fim, depois de quase 15 anos de crise e estagnao a indstria brasileira comeou a se preparar para investir maciamente, delineando planos para construo de novas plantas de gerao tecnolgica avanada. Mas, infelizmente, a mudana dos fluxos globais de capitais no fim de 1994 acabou com a bonana e tornou restritivo o financiamento de dficits externos de grande magnitude, afetando de modo incisivo a conduo do Plano Real e, obviamente, colocando sria dvida quanto sustentabilidade do crescimento. A impossibilidade de conciliar crescimento, estabilidade de preos e dficit externo elevado sem perda de reservas cambiais obrigou a poltica econmica a optar pela recesso como forma de inverter os resultados negativos da balana comercial e evitar reajustes oportunistas de preos, mantendo-se a taxa de cmbio relativamente defasada como instrumento antiinflacionrio. A perspectiva de desaquecimento da economia por um prazo no definido tende, assim, a afetar desfavoravelmente as decises de investimento em novas plantas. Com efeito, os cronogramas de inverso mais audaciosos esto sendo postergados e, provavelmente, apenas os setores com boas perspectivas de exportao e elevado nvel de utilizao de capacidade mantero parcialmente os planos originalmente concebidos no auge do crescimento do mercado interno. A poltica de juros altos representa outro fator importante de inibio dos investimentos produtivos ao configurar um elevadssimo custo-de-oportunidade para estes, dadas as possibilidades de obteno de elevadssimos retornos nas aplicaes financeiras. Com efeito, embora o Plano Real tenha logrado reduzir substancialmente a inflao para um patamar que vem oscilando entre 20 e 35% a.a., a polticaXXIX

econmica no avanou substancialmente no processo de desindexao financeira e, portanto, no afetou as condutas j descritas de gesto de ativos lquidos e busca permanente de ganhos de valorizao. Ou seja, a manuteno das excepcionais oportunidades de auferir ganhos financeiros continua freando o processo de investimento em ativos fixos, especialmente se este exigir a imobilizao de capital em grande escala e implicar aumento expressivo do nvel de endividamento das empresas. A esse quadro deve-se agregar a expectativa de participao nos processos de privatizao das infra-estruturas de energia e telecomunicaes. Todos os grandes grupos econmicos esto se posicionando frente a esses processos com a esperana de efetuar aquisies importantes e, portanto, vm preferindo reservar suas disponibilidades para os leiles e concorrncias que viro, em vez de embarcar em novos projetos de investimento baseados no crescimento do mercado interno que agora se tornou incerto e vulnervel. Esse rebatimento das dificuldades macroeconmicas e da forma de armao da poltica econmica sobre as estratgias empresariais tende a ser problematizador na medida em que fique inibida a concretizao dos investimentos produtivos e no se reverta a conduta patrimonialista-defensiva. Inverses relevantes para formao de capacidade produtiva nova e abandono das posturas especulativas seriam condies fundamentais para a consolidao definitiva da estabilidade. Entretanto, a configurao macroeconmica atual (cmbio defasado, forte conteno creditcia e juros elevadssimos) tende a ser contraproducente, dificultando sobremodo a transio do atual experimento de estabilizao para um processo efetivamente estvel de desenvolvimento. Ao contrrio, a expectativa de interrupo da atual trajetria de crescimento cria a sensao de fragilidade do processo e de retorno ao stop and go que caracterizou o longo perodo de crise desde o incio dos anos 80, reduzindo o grau de confiana no futuro, o que ruim para a durabilidade do prprio Plano. Retornando ao Made in Brazil, aps este dtour sobre a conjuntura recente, importante sublinhar outra vez que o diagnstico empreendido muito valioso para entender as caractersticas estruturais, estratgias e desafios a serem enfrentados pela indstria brasileira nesta segunda metade dos anos 90, como bem demonstram os captulos apresentados a seguir. Este prefcio, centrado na interrelao entre o atual quadro macroeconmico e a definio das estratgias empresariais de investiXXX

mento e de gesto de ativos, ilustrativo de como o conhecimento bem enfocado da situao da indstria pode ser til formulao de alternativas de desenvolvimento com estabilidade de preos o que transita necessariamente pela reativao firme e sustentada dos investimentos em formao de capacidade produtiva nova. Com a expectativa de que o Made in Brazil auxilie o empreendimento de novas pesquisas e ajude positivamente o esforo de formulao de estratgias de desenvolvimento industrial concluo aqui com votos de boa leitura!

Luciano Coutinho Campinas, junho de 1995

XXXI

Captulo

Competitividade e Padres de Concorrncia

1

mbora freqentes hoje em dia, os estudos sobre competitividade ressentem-se da ausncia de consenso quanto definio do conceito e, conseqentemente, quanto s metodologias mais adequadas de avaliao. A maior parte dos estudos recentes costuma tratar a competitividade como um fenmeno diretamente relacionado s caractersticas de desempenho ou de eficincia tcnica e alocativa apresentadas por empresas e produtos e a considerar a competitividade das naes como a agregao desses resultados. De fato, embora manejem um elenco variado de indicadores, percebe-se a convivncia de duas famlias de conceitos de competitividade. Em uma primeira famlia, a competitividade vista como um desempenho a competitividade revelada. A competitividade de alguma forma expressa na participao no mercado (market-share) alcanada por uma firma em um mercado em um certo momento do tempo. A participao das exportaes da firma ou conjunto de firmas (indstria ou nao) no comrcio internacional total da mercadoria aparece como seu indicador mais imediato.

E

1

Nessa viso, a demanda no mercado que, ao arbitrar quais produtos de quais empresas sero adquiridos, estar definindo a posio competitiva das empresas, sancionando ou no as aes produtivas, comerciais e de marketing que as empresas tenham realizado. A eficincia na utilizao de recursos produtivos definiria algumas das eventuais fontes de competitividade existentes, mas nunca a competitividade em si, j que esta depende de vrios outros fatores, muitos deles subjetivos ou no mensurveis. A competitividade uma varivel ex-post que sintetiza os fatores preo e no-preo estes ltimos incluem qualidade de produtos e de fabricao e outros similares, a habilidade de servir ao mercado e a capacidade de diferenciao de produtos, fatores esses parcial ou totalmente subjetivos. Na segunda famlia, a competitividade vista como eficincia a competitividade potencial. Busca-se de alguma forma traduzir a competitividade atravs da relao insumo-produto praticada pela firma, isto , da capacidade da empresa de converter insumos em produtos com o mximo de rendimento. Os indicadores so buscados em comparativos de custos e preos, coeficientes tcnicos (de insumo-produto ou outros) ou produtividade dos fatores, em termos das best-practices verificadas na indstria internacional. Nessa segunda viso, o produtor que, ao escolher as tcnicas que utiliza, submetido s restries impostas pela sua capacitao tecnolgica, gerencial, financeira e comercial, estar definindo a sua competitividade. A competitividade um fenmeno ex-ante, isto , reflete o grau de capacitao detido pelas firmas, que se traduz nas tcnicas por elas praticadas. O desempenho obtido no mercado seria uma conseqncia inexorvel dessa capacitao. Considera-se, assim, que o domnio de tcnicas mais produtivas que, em ltima instncia, habilita uma empresa a competir com sucesso, ou seja representa a causa efetiva da competitividade. parte divergncias conceituais quanto escolha da competitividade revelada ou potencial como o enfoque mais apropriado ou a possibilidade de concili-los, interessa enfatizar as insuficincias apresentadas por ambos em capturar a essncia do fenmeno. Tanto desempenho quanto eficincia so enfoques limitados por serem estticos, analisando apenas o comportamento passado dos indicadores, sem elucidar as relaes causais que mantm com a evoluo da competitividade. No sem razo que est cada vez mais sedimentada entre os especialistas a percepo de que anlises de competitividade baseadas somente em dados tpicos referentes a preos, custos (especialmente salrios) e taxas de cmbio, extrados do desempenho ma2

croeconmico ou de empresas individuais, so insuficientes e conduzem a concluses distorcidas. Para efeito das anlises apresentadas neste livro, competitividade foi definida como a capacidade da empresa formular e implementar estratgias concorrenciais, que lhe permitam ampliar ou conservar, de forma duradoura, uma posio sustentvel no mercado. Essa viso se diferencia de modo significativo das abordagens convencionais na medida em que busca na dinmica do processo de concorrncia o referencial para a avaliao da competitividade. A partir de uma perspectiva dinmica, o desempenho no mercado e a eficincia produtiva decorrem da capacitao acumulada pelas empresas que, por sua vez, reflete as estratgias competitivas adotadas em funo de suas percepes quanto ao processo concorrencial e ao meio ambiente econmico onde esto inseridas. Desse modo, ao invs de entendida como uma caracterstica intrnseca de um produto ou de uma firma, a competitividade surge como uma caracterstica extrnse- ca, relacionada ao padro de concorrncia vigente em cada mercado. Um padro de concorrncia, por sua vez, corresponde ao conjunto de fatores crticos de sucesso em um mercado especfico. De modo a explicitar o significado do referencial de anlise da competitividade anteriormente sintetizado, vale a pena detalhar um pouco mais os seus elementos centrais. Inicialmente, importante enfatizar que o elemento bsico de anlise a empresa. A empresa considerada um espao de planejamento e organizao da produo que se estrutura em torno s diversas reas de competncia. Para efeito da anlise da competitividade foram consideradas quatro reas de competncia empresarial: gesto, inovao, produo e recursos humanos. As atividades de gesto incluem as tarefas administrativas tpicas de empreendimentos industriais, o planejamento estratgico e o suporte tomada de deciso, as finanas e o marketing, incluindo as atividades ps-venda. As atividades de inovao compreendem os esforos de pesquisa e desenvolvimento de processos e de produtos, realizadas intra ou extra-muros, alm da transferncia de tecnologias atravs de licenciamento ou outras formas de intercmbio tecnolgico. As atividades de produo referem-se ao arsenal de recursos manejados na tarefa manufatureira propriamente dita, podendo referir-se tanto aos equipamentos e instalaes como aos mtodos de organizao da produo e de controle da qualidade. Por fim, os recursos humanos contemplam o conjunto de condies que caracterizam as relaes de trabalho, envolvendo os di3

ver- sos aspectos que influenciam a produtividade, qualificao e flexibilidade da mo-de-obra. Em cada momento do tempo, cada empresa detm um nvel de capacitao e apresenta um certo desempenho competitivo. Esse desempenho , em larga escala, determinado pelas capacitaes acumuladas na empresa em cada uma das reas de atividade j listadas. Em uma primeira aproximao, as empresas competitivas seriam simplesmente aquelas de maior capacitao, tal como sugere a abordagem ex-ante da competitividade (competitividade potencial). No entanto, uma reflexo mais ampla mostra ser essa concluso precipitada. A capacitao nada mais que o estoque de recursos de todos os tipos materiais, humanos, informacionais, entre outros, alm de intangveis como imagem, etc. detidos pela empresa. Dificilmente uma empresa apresenta capacitaes homogneas em todas essas dimenses, de modo que qualquer exerccio de comparao envolve algum juzo de valor sobre a relevncia de cada capacitao tomada de forma individual. Mais importante, as capacitaes esto em constante mutao. As novas capacitaes que vo sendo incorporadas resultam de esforos, realizados com esse objetivo. Como os recursos financeiros disposio da empresa so finitos, esses esforos no podem ser empreendidos de modo ilimitado. A natureza e a intensidade dos gastos efetivamente realizados dependem de escolhas feitas pelas empresas em funo de suas prioridades e expressam as estratgias competitivas adotadas. Pode-se generalizar a idia, entendendo-se que as firmas competem atravs do tempo despendendo recursos com o propsito de financiar suas estratgias competitivas. Isso significa que o grau de capacitao de uma firma em um dado momento est determinado pelas estratgias competitivas adotadas pela firma em um momento anterior. De fato, por exemplo, tanto as caractersticas tecnolgicas do processo de produo quanto as formas especficas de comercializao, se esto dadas em um momento do tempo para as firmas de um setor industrial, so o resultado de estratgias de produo e de vendas escolhidas anteriormente. A busca de novas capacitaes um processo permanente, seja porque os recursos em estoque se depreciam com o passar dos anos e precisam ser repostos, seja porque se tornam obsoletos em funo do surgimento de inovaes nos processos, produtos, organizao da produo e formas de comercializao, entre outros. Essa segunda4

possibilidade abre um leque de opes comportamentais que vai desde a adoo de estratgias mais agressivas, que visam situar a empresa na dianteira do processo inovativo, propiciando-lhe o controle do ritmo de obsolescncia das capacitaes de seus concorrentes, at as estratgias mais passivas, de natureza imitativa, que buscam dotar a empresa de algum grau de capacidade de resposta. Porm, a relao funcional que une capacitao e estratgia melhor descrita como uma via de duas mos. Se de um lado, a empresa escolhe estratgias que lhe permitam ampliar suas capacitaes em determinadas direes desejadas, a capacitao acumulada atua tambm como restrio adoo de estratgias de vez que uma firma somente pode adotar estratgias para as quais rene as competncias necessrias. A firma pode no estar capacitada para adotar estratgias desejadas porque esse um processo cumulativo que envolve aprendizado e, portanto, exige tempo, e que para ser acelerado implica em geral o aporte de recursos adicionais desproporcionalmente grandes. Quanto maior o hiato entre as capacitaes existentes e desejadas, maior o volume de recursos financeiros necessrio para fazer face aquisio das competncias envolvidas em um determinado perodo de tempo, ou maiores so as necessidades de tempo dado um volume determinado de recursos financeiros. Daqui surge uma defasagem temporal entre a opo por uma estratgia e o momento em que esta efetivamente implementada. A Figura 1.1 representa de forma esquemtica as interaes entre desempenho, capacitao e estratgia competitiva no nvel de uma empresa individualmente considerada. De acordo com o esquema, o desempenho obtido por uma empresa determinado pelas capacitaes que rene. As estratgias visam modificar as capacitaes, de modo a adequ-las s metas de desempenho da empresa mas so por elas limitadas, em um processo de interao dinmica. , portanto, no processo de deciso das estratgias empresariais que se deve buscar os elementos analticos centrais de compreenso da competitividade. Longe de ser trivial, a deciso estratgica envolve avaliaes de duas ordens:n

A estratgia deve ser factvel. Isso depende basicamente da prpria capacitao acumulada, do potencial financeiro, do tempo de preparao e maturao exigido por cada estratgia e das economias e deseconomias dinmicas existentes, como por exemplo as relacionadas ao aprendizado.5

Capacitao Inovao Gesto

CProduo

Recursos Humanos Inovao Gesto

EProduo

Recursos Humanos

Inovao Gesto

Estratgia Recursos Humanos

DProduo

Desempenho

Figura 1.1 Estratgia competitiva de longo prazo no nvel da firman

A estratgia deve ser economicamente atrativa. Isso determinado pelo balano dos gastos requeridos no seu financiamento frente aos riscos esperados e retornos proporcionados. Porm, como as estratgias competitivas no rendem frutos imediatamente, a avaliao de atratividade depende de percep- es do empresrio quanto a um futuro que em grande parte influenciado pelas condutas das empresas concorrentes.

Embora o conjunto de formas possveis de competio seja amplo, englobando preo, qualidade, habilidade de servir ao mercado, esforo de venda, diferenciao de produto e outras, em cada mercado predomina uma ou um subconjunto dessas formas como fatores crticos de sucesso competitivo. As regularidades nas formas dominantes de competio constituem o padro de concorrncia setorial. Assim, as empresas em um dado mercado, atuando autnoma e interdepedentemente, formulam e reformulam suas estratgias competitivas apoiadas em avaliaes sobre quais so os fatores crticos para o sucesso competitivo no presente e percepes sobre a sua trajetria futura. Os padres de concorrncia fornecem as balizas estru6

turais que condicionam o processo decisrio das estratgias competitivas das empresas. Em outras palavras, as empresas buscariam adotar, em cada instante, estratgias (gastos em aumento da eficincia produtiva, qualidade, inovao, marketing, etc.) voltadas para capacit-las a concorrer em preo, esforo de venda ou diferenciao de produtos em consonncia com o padro de concorrncia vigente no seu mercado. Os padres de concorrncia so influenciados pelas caractersticas estruturais e comportamentais do ambiente competitivo da empresa, sejam as referentes ao seu setor/mercado de atuao, sejam as relacionadas ao prprio sistema econmico. No primeiro caso, esto as complementariedades tecnolgicas, as restries ou estmulos associados ao fluxo de mercadorias e de servios entre outros fatores que decorrem da interdependncia entre firmas ou setores em concorrncia. No segundo caso, esto as disponibilidades de infra-estrutura e de recursos financeiros e humanos, as leis, o sistema de planejamento e a poltica industrial, os instrumentos de fomento e demais caractersticas associadas ao ambiente macroeconmico e ao arcabouo institucional onde as empresas esto imersas. A Figura 1.2 descreve as relaes entre padres de concorrncia e estratgias competitivas tomando em considerao dois perodos de tempo. As estratgias competitivas de cada empresa so continuamente revistas luz dos seus prprios resultados e dos impactos no tempo presente e esperados no futuro sobre o padro de concorrncia das aes e reaes dos concorrentes e da situao dos aspectos de natureza estrutural e sistmica. A competitividade , portanto, funo da adequao das estratgias das empresas individuais ao padro de concorrncia vigente no mercado especfico. Em cada mercado vigoraria um dado padro de concorrncia definido a partir da interao entre estrutura e condutas dominantes no setor. Seriam competitivas as firmas que a cada instante adotassem estratgias competitivas mais adequadas ao padro de concorrncia setorial. Os padres de concorrncia apresentam duas caractersticas que so decisivas para a avaliao da competitividade:n

So idiossincrticos de cada setor da estrutura produtiva: A natureza setor-especfica dos padres de concorrncia faz com que cada tipo de vantagem competitiva apresente importn- cia varivel e diferentes graus de oportunidade entendi- do7

como possibilidade de utilizao em cada mercado. Essas especificidades constituem os elementos bsicos que norteiam as firmas na seleo de suas estratgias competitivas.n

So mutveis no tempo: Ajustam-se s transformaes que ocorrem nas tecnologias e na organizao industrial e, tambm, no ambiente econmico de forma geral. Por essa razo, alm das vantagens competitivas de que as firmas dispem no presente, importam tambm o modo e o ritmo pelo qual se d sua evoluo.ECONOMIA INDSTRIA FIRMA 1 E B B ECONOMIA INDSTRIA FIRMA 1 E

C

C

C E B FIRMA 2

C E B FIRMA 2

T=1

T=2

Figura 1.2 Padro de concorrncia e deciso estratgica

Importante a percepo de que a competitividade no uma caracterstica intrnseca a um produto, firma ou pas. A riqueza do conceito formulado nesses termos reside na sua percepo como um fenmeno que se plasma no mbito da indstria, vale dizer, no conjunto de firmas que a constitui e no mercado, este ltimo no simples-

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mente como parcela de demanda a ser conquistada ou mantida pela firma, mas como o verdadeiro espao de concorrncia intercapitalista. A competitividade est relacionada ao padro de concorrncia vigente no mercado especfico considerado. o padro de concorrncia, portanto, a varivel determinante e a competitividade a varivel determinada ou de resultado. Por essa razo, o estudo da competitividade obrigado a dar conta de um grande nmero de variveis ligadas s formas de concorrncia, pois tm que ser levados em conta tambm a natureza dos processos de esforo de venda (marketing, prazo de entrega, habilidade de servir o mercado, etc.); de capacitao produtiva como o acesso s fontes de matrias-primas e fornecedores de partes e peas, recrutamento e treinamento de mo-de-obra, gesto da produo e da qualidade, etc. e ainda de engenharia financeira. Alm dos diretamente ligados inovao e difuso de novas tcnicas, todos esses fatores, e muitos mais, so geradores de vantagens competitivas e devem ser considerados de forma adequada. Avaliar competitividade requer, ento, aprofundar o estudo das origens das vantagens competitivas. As vantagens competitivas podem ser construdas a partir de diversas fontes que, de modo geral, esto vinculadas s especificaes do produto, ao processo de produo, s vendas, gesto, s escalas produtivas, aos tamanhos dos mercados, s relaes com fornecedores e usurios, aos condicionantes da poltica econmica, ao financiamento da empresa ou de sua clientela, s disponibilidades de infra-estrutura, a aspectos de natureza legal, entre outras. Cada empresa parte integrante de um sistema econmico que favorece ou restringe a realizao do seu potencial competitivo, de modo que o desempenho alcanado, as estratgias praticadas e a capacitao acumulada no dependem exclusivamente das condutas adotadas pelas empresas. Em suma, as consideraes de ordem geral at aqui elaboradas implicam que anlises de competitividade devem levar em conta simultaneamente e com o devido peso os processos internos empresa e indstria e as condies econmicas gerais do ambiente produtivo. Para avaliar a capacidade de formular e implementar estratgias, fundamental identificar os fatores relevantes para o sucesso competitivo, que variam de setor a setor, de acordo com o padro de concorrncia vigente, verificar a sua importncia setorial no presente e a que se pode esperar no futuro prximo esse componente preditivo indispensvel, em particular na anlise dos se9

tores mais dinmicos e avaliar o potencial das firmas do pas com relao a eles. Alcana-se, assim, uma abordagem dinmica do desempenho competitivo da empresa, integrada ao exame de seus fatores determinantes.

Fatores Determinantes da CompetitividadeA abordagem sugerida enfatiza como determinantes da competitividade um conjunto de fatores que, alm de serem em grande nmero, transcendem o nvel da firma, sendo tambm relacionados estrutura da indstria e do mercado e ainda ao sistema produtivo como um todo. Do ponto de vista analtico, torna-se conveniente organiz-los conforme o grau em que se apresentam como externalidades para as empresas. Com base nesse critrio, foram definidos trs grupos de fatores os empresariais (internos empresa), os estruturais (refe- rentes indstria/complexo industrial) e os sistmicos sintetizados nas Figuras 1.3 a 1.5. Em linhas gerais, os fatores empresariais so aqueles sobre os quais a empresa detm poder de deciso e podem ser controlados ou modificados atravs de condutas ativas assumidas, correspondendo a variveis no processo decisrio. Dizem respeito basicamente ao estoque de recursos acumulados pela empresa e s estratgias de ampliao desses recursos por elas adotadas, em termos das suas quatro reas de competncia (ver Figura 1.3), a saber: a eficcia da gesto em termos do posicionamento estratgico da empresa de acordo com fatores de sucesso no mercado e da capacidade de integrar estratgia, capacitao e desempenho; a capacitao tecnolgica em processos e produtos; a capacitao produtiva principalmente em termos do grau de atualiza- o dos equipamentos e instalaes assim como dos mtodos de or- ganizao da produo e controle da qualidade e a produtividade dos recursos humanos. Os fatores estruturais so aqueles sobre os quais a capacidade de interveno da empresa limitada pela mediao do processo de concorrncia, estando por isso apenas parcialmente sob sua rea de influncia. Diferentemente dos fatores empresariais, apresentam especificidades setoriais mais ntidas na medida em que tm sua importncia diretamente relacionada ao padro de concorrncia dominante em cada indstria. Conformam o ambiente competitivo no qual as empresas se enfrentam, abrangendo no somente as caractersticas da10

demanda e da oferta, mas tambm a influncia de instituies extra-mercado, pblicas e no-pblicas, que definem o regime de incentivos e regulao da concorrncia prevalecente. A Figura 1.4 apresenta o tringulo da competitividade estrutural, detalhando os seus fatores constitutivos.

Inovao Produto Processo Transferncia de Tecnologia

Gesto Marketing Servios Ps-venda Finanas Administrao Planejamento

Recursos Humanos Produtividade Qualificao Flexibilidade

Produo Atualizao de equipamentos Tcnicas organizacionais qualidade

Figura 1.3 Fatores empresariais

Em termos do mercado, integram os fatores estruturais caractersticas como taxas de crescimento, distribuio geogrfica e em faixas de renda; grau de sofisticao tecnolgica e outros requisitos impostos aos produtos; oportunidades de acesso a mercados internacionais; sistemas de comercializao entre outros. A configurao da indstria refere-se s tendncias do progresso tcnico em particular no que diz respeito aos ciclos de produtos e processos; intensidade do esforo de P&D e s oportunidades tecnolgicas, inclusive de introduo de inovaes radicais; s escalas tpicas de operao e aos nveis de concentrao tcnica e econmica da oferta; ao grau de verticaliza11

o e diversificao setorial; distribuio espacial da produo e adequa- o da infra-estrutura fsica; ao regime de P&D e integrao com infra-estrutura tecnolgica; ao relacionamento da empresa com fornecedores, usurios e concorrentes; e relao capital-trabalho. Do regime de incentivos e regulao da concorrncia fazem parte o grau de rivalidade entre concorrentes; o grau de exposio ao comrcio internacional; a ocorrncia de barreiras tarifrias e no-tarifrias s exportaes; a estrutura de incentivos e tributos produo e comrcio exterior, incluindo os aspectos relacionados ao financiamento e ao custo de capital; a efetividade da regulao das prticas desleais de concorrncia.Mercado Tamanho e dinamismo Grau de sofisticao Acesso a mercados internacionais

Desempenho e capacitao Estrutura patrimonial e produtiva Articulaes na cadeia Configurao da Indstria

Aparato legal Poltica fiscal e financeira Poltica comercial Papel do Estado Regime de Incentivos e Regulao da Concorrncia

Figura 1.4 O tringulo da competitividade estrutural

Por fim, os fatores sistmicos so aqueles que constituem externalidades strictu sensu para a empresa produtiva, sobre os quais a empresa detm escassa ou nenhuma possibilidade de intervir, constituindo parmetros do processo decisrio. Podem ser:n

Macroeconmicos: taxa de cmbio, carga tributria, taxa de crescimento do produto interno, oferta de crdito e taxas de juros, poltica salarial e outros parmetros.

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Poltico-institucionais: poltica tributria, poltica tarifria, apoio fiscal ao risco tecnolgico, poder de compra do governo. Legais-regulatrios: polticas de proteo propriedade industrial, de preservao ambiental, de defesa da concorrncia e proteo ao consumidor de regulao do capital estrangeiro. Infra-estruturais: disponibilidade, qualidade e custo de energia, transportes, telecomunicaes, insumos bsicos e servios tecnolgicos (cincia e tecnologia; informao tecnolgica; servios de engenharia, consultoria e projetos; metrologia, normalizao e qualidade). Sociais: sistema de qualificao da mo-de-obra (educao profissionalizante e treinamento), polticas de educao e formao de recursos humanos, trabalhista e de seguridade social. Internacionais: tendncias do comrcio mundial, fluxos internacionais de capital, de investimento de risco e de tecnologia, relaes com organismos multilaterais, acordos internacionais.

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De modo geral, os fatores empresariais e sistmicos tm incidncia mais horizontal, isto , apresentam carter mais genrico em termos das formas e intensidades com que influenciam a competitividade nos diversos setores industriais. Em contraposio, os fatores estruturais apresentam um ntido carter setor-especfico, refletindo mais diretamente as peculiaridades dos padres de concorrncia presentes em cada ramo produtivo ou em grupos de setores similares. Uma vez construdo o mapa de fatores determinantes, o passo natural questionar quais so os benchmarkings que favorecem a competitividade em cada um dos nveis aqui considerados empresa, estrutura da indstria e sistema poltico-econmico. Essa anlise feita a seguir.

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macroeconmicos mercado poltica-institucionaisempresaCapacitaoInovao Gesto

internacionais

C

Recursos Humanos Inovao Gesto

Produo

E

Recursos Humanos

Produo

Estratgia

DDesempenho

configurao da indstria legais-regulatrios infra-estruturais

regime de incentivos e regulao

sociais

Figura 1.5 Fatores determinantes da competitividade

Fatores Empresariais: Um Novo Modelo de Empresa Princpios da Gesto CompetitivaNo nvel das condutas, as estratgias devem ser aderentes ao padro de concorrncia relevante para a empresa. necessrio investir nas capacitaes correspondentes e assegurar que o desempenho seja coerente com os fatores crticos de sucesso. Essas so as tarefas centrais da gesto empresarial competitiva. Percebe-se grande convergncia nas trajetrias de evoluo dos formatos organizacionais das empresas, de acordo com a natureza dos processos decisrios, a direo e intensidade dos fluxos de informao e as caractersticas centrais de produtos e processos produtivos:n

No novo modelo de empresa vitoriosa, constata-se a tendncia diminuio do nmero de nveis hierrquicos envolvidos nos processos decisrios e maior delegao de poderes no interior das cadeias de comando. Essas condutas so justificadas pela sua funcionalidade para a eficincia, em particular no que representam em termos de minimizao de perdas, principalmente de tempo, que ocorrem entre as instncias de deciso e ao.

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Percebe-se ainda o aumento da densidade do fluxo de informaes horizontais. As tpicas ordens de servio se multiplicam, circulam por mais pontos nas empresas e contm informaes mais e mais complexas. As tecnologias da informao a microeletrnica utilizada com a funo de processar e transmitir informaes passam a representar importante parcela do investimento fixo das empresas. Os novos atributos da gesto empresarial das empresas competitivas contemporneas modificam as suas fronteiras, alterando de maneira radical as normas que regulam sua relao com fornecedores e clientes. Crescem as interaes envolvendo mercadorias e tecnologias, exigindo que a empresa atue como um elo em uma vasta rede de relaes envolvendo fornecedores e clientes: o que se faz internamente s empresas, o que e como adquirir, o que e como vender so decises, cada vez mais, formadas em parceria com fornecedores e clientes. A competitividade das empresas depende da sua habilidade de aproximar-se de fornecedores e clientes, em termos de desenvolvimento conjunto de produtos, troca de informao tecnolgica, fluxos de entrega que minimizam estoques, garantia assegurada de qualidade e estabilidade nos contratos.

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Capacidade InovativaEstratgias centradas na inovao constituem o cerne do comportamento das empresas competitivas. Seja para capturar mercados pela introduo de novos produtos (e, concomitantemente, de novos processos), reduzir lead times, ou produzir com mximo aproveitamento fsico dos insumos com o objetivo de competir em preos (quando necessrio), a importncia da inovao tecnolgica para a competitividade inequvoca. O resultado econmico da empresa est intimamente ligado sua capacidade de gerar progresso tcnico. No contexto internacional, empresas lderes e inovadoras no mais definem estratgias e competncias visando exclusivamente o desenvolvimento de linhas de produtos. Visam crescentemente criar capacitao em reas tecnolgicas nucleares core competences de onde exploram oportunidades para criar e ocupar mercados.15

Os departamentos de desenvolvimento de produtos crescem em importncia para as empresas. Dois fatores so relevantes em termos do aumento da probabilidade de uma contribuio positiva dessa atividade para a competitividade das empresas: a habilidade em lidar com uma atividade que apresenta alto grau de incerteza quanto aos resultados e a necessidade de forte inter-relao desta com as demais atividades da empresa. Tambm as formas de realizao de atividades de P&D vm se sofisticando. A pesquisa e o desenvolvimento extra-muros, alianas tecnolgicas e outras formas de associao para a inovao tm crescido de importncia diante dos esforos clssicos de P&D in house que no passado catalisavam a maior parte dos gastos das empresas.

Capacidade ProdutivaAs transformaes tecnolgicas em curso na indstria mundial, que para muitos estudiosos constituem as bases de uma terceira revoluo industrial, revelam a consagrao de um novo paradigma produtivo onde qualidade de produto, flexibilidade e rapidez de entrega, alm da racionalizao dos custos de produo, passaram a constituir as alavancas bsicas da competitividade. J nos anos 70 os princpios fordistas comearam a ser questionados nos pases centrais devido a percepo de limites a sua eficcia face s novas prticas produtivas, adotadas em larga escala por empresas japonesas atravs da intensa explorao das novas tecnologias mais automatizadas e, em larga escala, novos mtodos de organizao da produo. Equipamentos de base microeletrnica, como computadores de apoio a projeto ou produo, robs, controles nmericos programveis ou sistemas digitais de controle distribudo, so cada vez mais utilizados, seja diretamente na produo, ou para monitorar, processar informaes e controlar etapas dos processos produtivos visando atingir nveis de qualidade industrial dos mais elevados. As inovaes organizacionais, cuja utilizao intensiva constitui o benchmarking da capacitao produtiva na atualidade, podem ser agrupadas em trs conjuntos em funo do objetivo perseguido: mtodos de economia de tempo e de materiais como o just-in-time, kanban, e reduo de lotes; mtodos de organizao do processo de trabalho como celulizao, grupos semi-autnomos ou crculos de controle da qualidade; e mtodos de gesto da qualidade, como controle es16

tatstico da produo, controle ou garantia da qualidade total e programas zero-defeito. Tambm existem normas (como a ISO 9000) que constituem um receiturio genrico de procedimentos que auxiliam a empresa a se orientar para a produo com qualidade. Esses procedimentos e tcnicas instrumentalizam parcialmente a adoo da filosofia da qualidade j que esta, por definio, implica atitudes e comprometimentos dos agentes produtivos no circunscritos a instrumentos, incorporando tambm atitudes, comportamentos e aptides da fora de trabalho. Longe de terem aplicao restrita aos setores de elevado contedo tecnolgico, apresentam aplicao generalizada em todos os ramos da produo industrial. Isso se deve ao fato de serem pouco exigentes em termos de capacitao tecnolgica inovativa, demandarem investimentos de pequena monta e de curto prazo de maturao e propiciarem ganhos imediatos e expressivos, decorrentes da eliminao de fontes de ineficincia relevantes. Entretanto, ganhos sustentados de eficincia e qualidade somente ocorrem a longo prazo, quando h alta intensidade de uso de inovaes em termos de nmero de operaes cobertas ou trabalhadores envolvidos. Isso implica disposio busca de melhoramentos contnuos incorporada firmemente nas rotinas formais e informais de cada empresa.

Recursos HumanosCom relao aos princpios de gesto dos recursos humanos, as empresas vm empreendendo profundas reformulaes no relacionamento com a fora de trabalho. A tarefa central a de definir e implementar princpios de organizao e operao de processos de trabalho indutores de comportamentos que, sem prejuzo da produtividade, orientem-se para a melhoria contnua da qualidade dos produtos e dos mtodos de fabricao. Com a perda de competitividade da organizao empresarial baseada em hierarquias verticais rgidas, novas formas de estruturao das cadeias de comando e de incorporao da mo-de-obra produo vm se tornando dominantes nas empresas bem-sucedidas. Visando motivar os trabalhadores a co-participar dos desafios competitivos contemporneos, o novo padro de relaes de trabalho que as empresas esto adotando apia-se no trip formado por estabilidade, participao nos processos decisrios e compartilhamento dos ganhos do aumento da eficincia. Nesse contexto, prevalece a multi17

funcionalidade, pois h necessidade de conhecimento de todo o processo produtivo e valorizada a capacidade criativa de resoluo de problemas. O elemento chave do processo o comprometimento da gesto empresarial com investimentos permanentes em treinamento de toda a fora de trabalho, incluindo o pessoal de cho-de-fbrica.

Fatores Estruturais: Competio e Colaborao nas Cadeias ProdutivasOs esforos empresariais em busca de uma gesto competitiva, capacitao para produzir e inovar e recursos humanos com alta produtividade so apenas uma parte do problema competitivo. Mercado, configurao da indstria e regime de incentivos e regulao da concorrncia constituem fatores estruturais igualmente decisivos para a competitividade. Embora apresentem especificidades setoriais mais pronunciada, as anlises das tendncias internacionais da competitividade deixam patente a importncia do dinamismo do mercado e da elevao do grau de exigncia dos consumidores, da existncia de configuraes industriais adequadas no que se refere tanto organizao da produo intra-setorial quanto s relaes entre fornecedores e produtores nas cadeias produtivas e de um regime de incentivos e regulao da concorrncia que mantenha forte rivalidade entre as empresas como fatores determinantes de validade geral para o desempenho competitivo da indstria.

MercadoO dinamismo do mercado seguramente um dos principais fatores indutores de competitividade. Ao estimular investimentos, mercados dinmicos asseguram uma taxa elevada de renovao de equipamentos e mtodos de produo que, ao lado das economias de escala e escopo naturalmente absorvidas por empresas que se expandem, propiciam crescimento sustentado da produtividade industrial. No entanto, embora condio necessria para viabilizar a incorporao de tecnologias atualizadas, o crescimento quantitativo do mercado no condio suficiente para assegurar competitividade. A observao das caractersticas estruturais que favorecem a competitividade indica igualmente a presena de fatores de natureza qualitativa, que podem ser sintetizados na existncia de elevado grau de exigncia18

dos consumidores. De fato, consumidores bem informados e com alto poder aquisitivo definem padres de qualidade e desempenho dos produtos que pressionam as empresas a adotarem estratgias competitivas de acumulao permanente de capacitao e de melhoria contnua da eficincia. O movimento de elevao do contedo tecnolgico dos produtos que se constata na atualidade reflete a busca da conciliao desses dois requisitos o quantitativo e qualitativo por parte das empresas lderes internacionais. A intensificao no ritmo de lanamento de novos produtos ou de incorporao de novos atributos nos produtos antigos visa, de um lado, dinamizar mercados que apresentam sinais de saturao devido estagnao da demanda ou ao excesso de oferta, e de outro, reforar a capacitao tecnolgica como vantagem competitiva em substituio a disponibilidade de recursos naturais ou outras fontes tradicionais de competitividade. Em conseqncia, observa-se em todos os setores a difuso de padres de consumo mais fortemente baseados em tecnologia e mais globalizados. Respeitados os limites do processo de diferenciao naturais de cada setor, a tendncia geral de reduo dos ciclos de vida das inovaes, da intensificao do lanamento de novos modelos e de descommoditizao dos bsicos, atravs do desenvolvimento dos produtos cada vez mais adaptadas s necessidades da clientela. Outro fator estrutural no nvel dos mercados que caracteriza a competitividade a presena sistemtica no mercado internacional. A atuao no mercado internacional expe a empresa ao contato com uma clientela mais variada, em geral com elevados nveis de exigncia e disputada por grande nmero de concorrentes, favorecendo processos de aprendizado e ampliando a capacidade de ajustamento s transformaes dos padres de consumo. Nesse cenrio, ao contrrio do que sugere a interpretao convencional, que considera a realizao de exportaes um indicador de desempenho competitivo, as vendas externas podem ser um fator importante de estmulo competitividade. Isso sugere que mesmo em pases continentais ou com elevado dinamismo da demanda interna, onde as empresas tendem a ser voltar inicialmente para as vendas domsticas, as exportaes podem exercer papel importante na consolidao das posies competitivas no prprio mercado local. Por essa razo, exceo de pases onde a estrutura industrial muito especializada, em geral de pequenas dimenses, o mercado internacional no costuma ser visto apenas como o escadou- ro de excedentes domsticos de produo e sim como um espao econmi19

co integrado ao mercado local. A prtica das empresas lderes internacionais evidencia que mais do que a escolha do mercado do- mstico ou do internacional como ncora para a definio das estra- tgias competitivas, o segredo do sucesso competitivo est na capacidade de promover a convergncia entre ambos. Empresas que adotam estratgias para mercado interno e externo muito diferenciadas encontram maiores dificuldades para progredir.

Configurao da Indstria evidente que as caractersticas do lado da demanda fornecem um quadro incompleto de como os fatores estruturais influenciam a competitividade. A forma como a indstria se organiza, assumindo configuraes mais ou menos adequadas no que respeita a estrutura patrimonial e produtiva da oferta e a efetividade das articulaes entre produtores e seus fornecedores e clientes, deve ser igualmente analisada. Do lado da oferta, a indstria mundial tem presenciado um profundo esforo de adaptao dos grupos empresariais e dos modelos de organizao da produo ao novo cenrio competitivo internacional que comeou a vigorar ao final dos anos 70. A revoluo nos conceitos de organizao da produo provocada pela crescente incorporao da microeletrnica e dos novos mtodos gerenciais, aliada ao aprofundamento da integrao financeira e comercial em nvel global, deu a tnica das amplas reestruturaes promovidas pelas diversas indstrias. As mudanas nos padres de concorrncia derivadas do surgimento dessas novas fontes de competitividade e da perda de importncia das vantagens competitivas tradicionais, como as baseadas nas disponibilidades de recursos naturais ou mo-de-obra barata, levaram a movimentos diferenciados de ajuste das configuraes industriais. De modo geral, nos setores de elevada intensidade de capital as empresas optaram por processos de re-centragem, preferindo se especializar em linhas de produtos afins em termos da base tecnol- gica ou da rea de comercializao em vez de se dispersar em portfolios de produtos que, embora lucrativos isoladamente, apresentam baixa sinergia. A reduo da diversidade de produtos ofertados traz vantagens para as empresas lderes na medida em que permite concentrar a capacitao tecnolgica e financeira acumulada e com isso explorar mais20

intensamente as vantagens competitivas de que dispem. Em vista disso, consolidou-se uma trajetria de upgrading de especificaes, a chamada descommoditizao, na qual as empresas objetivam promover o contnuo enobrecimento de produtos atravs da realizao de etapas sucessivas de agregao de valor. Como forma de se ajustarem a essa trajetria, muitas empresas promoveram um reposicionamento estratgico, abandonando a produo de bens bsicos ou semi-elaborados e voltando-se para o desenvolvimento de produtos de maior contedo tecnolgico. As reestruturaes promovidas tm implicado intenso movimento de fuses e absores entre empresas, acompanhado de fechamento de inmeras plantas industriais. Nos anos 90, as configuraes industriais competitivas mostram-se mais enxutas, mais concentradas em termos patrimoniais e mais integradas em termos de linhas de produtos que no passado recente. Nos setores de menor intensidade de capital, a soluo adotada em face do aumento dos gastos competitivos com P&D, formao de mo-de-obra, aperfeioamento gerencial, entre outros, tem envolvido a formao de redes cooperativas horizontais. Embora possam assumir na prtica uma multiplicidade de formas institucionais, a tnica desses arranjos propiciar, atravs da melhor diviso de trabalho, uma maior eficincia empresarial ou, atravs do compartilhamento, a disponibilizao de recursos produtivos essenciais para a operao em condies competitivas, aos quais as empresas isoladamente no poderiam ter acesso. Esse tipicamente o caso de pequenas e mdias empresas, que buscam a gerao de economias de aglomerao por meio da constituio de plos regionais de produo, muitas vezes com o apoio do Estado. A aglutinao espacial tem se mostrado um mecanismo eficiente para favorecer o acesso, normalmente problemtico. a equipamentos sofisticados, servios tecnolgicos e de formao profissional, estruturas comerciais de compra de insumos e venda de produtos eficientes, entre outros. A formao de redes de empresas permite enfrentar o aumento da complexidade tecnolgica e dos custos das atividades de pesquisa medida que estas se avizinham da fronteira do conhecimento cientfico. Seja buscando somar capacitaes, seja visando diminuir riscos ou ambos, a formao de alianas estratgicas entre empresas para o desenvolvimento conjunto de programas de P&D, a chamada pesquisa cooperativa, vem se intensificando nos ltimos anos.21

A intensificao da cooperao vertical outro trao marcante das configuraes industriais competitivas. Em praticamente todos os setores da atividade industrial, incluindo a produo agropecuria no caso da agroindstria, constata-se a presena de formas avanadas de articulao entre empresas. A formao de amplas parcerias envolvendo produtores, fornecedores, clientes e entidades tecnolgicas conduz a relaes inter-setoriais fortemente sinrgicas, criando condies estruturais adequadas para o incremento da competitividade de todos os elos da cadeia produtiva. Em vrios casos tem se observado a prpria reestruturao da cadeia de produo atravs de processos de terceirizao ou subcontratao. A rediviso do trabalho, ao permitir s empresas operarem com graus timos de especializao, faz da cooperao uma importante fonte de competitividade para a indstria. Dentre os fatores decisivos para garantir o adequado funcionamento dessas redes de empresas, a iniciativa das empresas lderes de mobilizar seu poder de mercado no sentido de desenvolver relaes solidrias e de longo prazo com os seus fornecedores e clientes certamente est entre os principais. Com isso, abre-se espao para que prticas de gesto da qualidade envolvendo esquemas de cadastramento ou certificao de fornecedores ou interaes mais sofisticadas baseadas em programas de qualificao de fornecedores e de assistncia tcnica a clientes, em paralelo a intensa troca de informaes tecnolgicas, possam ser implementadas com sucesso. De certo modo, a intensificao da cooperao vertical uma resposta natural da indstria aos avanos ocorridos tanto nas tecnologias organizacionais quanto na institucionalidade dos sistemas de tecnologia industrial bsica e servios de informao tecnolgica. A difuso acelerada de novos mtodos de gesto da produo e da qualidade tem proporcionado um grande incremento na confiabilidade das transaes inter-empresas. Isso ocorre particularmente no caso da adoo de prticas de quick response e de just-in-time externo que possibilitam excelentes resultados em termos de minimizao de custos de produo sem colocar em risco a qualidade dos insumos fornecidos. Do ngulo institucional, o aumento da capilaridade dos sistemas de certificao da qualidade conjugado reorientao das atividades de normalizao, em que a edio de normas de procedimento de validade internacional como a ISO 9000 o principal resultado, alm da maior aproximao entre centros de pesquisa e indstria que se observa na atualidade, igualmente favorecem a intensificao das trocas de mercadorias e tecnologias no interior das cadeias produtivas.

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Regime de Incentivos e Regulao da ConcorrnciaAlm das condies favorveis da demanda e do equacionamento adequado da oferta setorial, a competitividade tambm demonstra depender de caractersticas comportamentais das empresas. Ambientes de elevada rivalidade inter-empresarial favorecem a competitividade, pois submetem as empresas a esforos contnuos de melhoria da eficincia produtiva e de inovao nos produtos e mtodos de produo. De fato, uma caracterstica que parece singularizar as indstrias com intensa rivalidade a prevalncia de condutas baseadas na inovao, isto , a busca das vantagens do pioneirismo na introduo de novos produtos, processos, sistemas de comercializao, formas de articulao com fornecedores, etc. A disposio das firmas competirem nos mercados pode ser fortalecida se o regime de incentivos e regulao a que esto sujeitas for eficaz. Os incentivos visam aumentar a capacidade de resposta das empresas diante dos desafios impostos pela economia e as regulaes buscam condicionar as suas condutas em direes socialmente desejveis. Embora, quando se analisa a indstria em seu conjunto, essa seja uma questo de natureza sistmica, relacionada principalmente aos fatores poltico-institucionais e legais-regulatrios, o regime de incentivos e regulao posto em prtica pelos Estados nacionais apresenta, em muitos casos, rebatimentos setoriais diferenciados e exerce grande influncia na determinao da competitividade dos diversos ramos industriais. Nesse aspecto, interessa conhecer os impactos setoriais que prescries legais, incentivos fiscais e financeiros, polticas comerciais (em termos da proteo tarifria e no-tarifria ou incentivos exportao) e o papel do Estado podem provocar. Nos pases da OCDE, por exemplo, a ttulo de incentivos foram alocados US$ 260 bilhes a 739 programas de apoio s atividades industriais somente no perodo 1986/89, valor que corresponde a algo como 3% do valor adicionado pela indstria nesses pases. Parcela crescente desses recursos tem sido destinada ao fomento da competitividade, voltada para incrementar a capacidade de concorrncia externa, apoiar atividades de P&D e difuso tecnolgica e, finalmente, salvaguardar a industria dos pases da OCDE (cf. OCDE Industrial Policy Review, 1992). Alm do fato de impactarem de forma diferenciada os vrios setores que formam o tecido industrial, a experincia internacional recente mostra que para alguns setores so construdos regimes de incentivos e regulao da concorrncia especiais, visando dar suporte 23

capacidade de concorrncia das empresas. Nos pases da OCDE, por exemplo, so trs os tipos de setores normalmente contemplados com programas de apoio pelos governos:n

As indstrias nascentes, principalmente quando envolvem as chamadas tecnologias crticas (informtica, novas fontes de energia, biotecnologia entre outros), so alvo de um amplo elenco de iniciativas voltadas para reduo dos custos das atividades de P&D para as empresas, sobretudo atravs de vantagens fiscais com nfase em projetos cooperativos. Tambm so delineados esquemas de minimizao dos riscos dos investimento tecnolgicos, dos quais o uso seletivo do poder de compra e a induo a uma maior aproximao entre sistema financeiro e empresas inovadoras alinham-se entre os instrumentos utilizados com maior freqncia pelo Estado. Setores que se encontram fragilizados diante do acirramento da concorrncia internacional, como as indstrias automobilstica, aeroespacial e eletrnica de vrios pases da OCDE, recebem programas temporrios de apoio, que incluem medidas de proteo tarifria e no-tarifria, alm de incentivos fiscais e financeiros produo e exportao, de modo a possibilitar a implementao de processos de reestruturao visando o aumento da competitividade. Por fim, um terceiro grupo de setores submetidos a regimes especiais de incentivos e regulao da concorrncia o de indstrias em declnio que, no caso dos pases da OCDE, bem exemplificado pelas indstrias txtil, siderrgica e construo naval. Nesse caso, o objetivo diluir no tempo os impactos negativos das perdas de emprego e renda decorrentes da reduo da importncia desses setores na matriz industrial, em especial, em regies que se especializaram nessas atividades.

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Fatores Sistmicos: A Importncia das ExternalidadesTanto os nveis de eficincia e padres de qualidade das empresas industriais instaladas em um dado pas quanto sua capacidade de reduzir custos e aprimorar qualidade continuamente so condicionados por diversas caractersticas gerais do sistema econmico, os determinantes sistmicos da competitividade.24

So diversas as formas diretas e indiretas atravs das quais os determinantes sistmicos exercem papel decisivo sobre a competitividade das empresas industriais. Do lado da oferta, afetam as condies de custos e qualidade em que esto disponveis os insumos materiais, humanos, organizacionais e institucionais que moldam o sistema de aprendizado, incorporao e gerao de inovaes de processo e de produto. Do lado da procura, definem em que medida e em que termos a sociedade demanda o desempenho competitivo de suas empresas, atravs de desafios, estmulos e exigncias vindos tanto dos mercados como tambm de outras instituies e do Estado. O estudo dos diversos tipos de determinantes sistmicos da competitividade e de sua evoluo ao longo do tempo permite situar a competitividade das empresas industriais no espao econmico e no tempo, relacionando a evoluo da competitividade das empresas s alteraes mais importantes do ambiente econmico que as cercam.

Determinantes MacroeconmicosOs principais determinantes macroeconmicos da competitividade podem ser divididos em trs grupos: os que dizem respeito ao regime cambial; os relacionados s polticas de regulao macroeconmica (polticas fiscal, monetria e de rendas) e seus resultados em termos de nvel e estabilidade das taxas de inflao e de crescimento do produto interno; e os que se referem natureza e caractersticas do sistema de crdito da economia.n

O regime cambial da economia, em particular no que se refere ao nvel e a volatilidade da taxa de cmbio real efetiva, um determinante importante da competitividade industrial. O nvel da taxa de cmbio real exerce importante papel na determinao da rentabilidade do setor exportador. Um regime cambial que evite uma sobrevalorizao cambial crnica , portanto, uma pea necessria para a preservao da capacidade de competio da indstria local vis a vis a concorrncia internacional. Alm disso, uma relativa estabilidade da taxa de cmbio real reduz de forma drstica os riscos, particularmente financeiros, ligados s atividades de exportao. A estabilidade macroeconmica interna tambm tem impactos sobre a competitividade das empresas industriais. O controle25

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do processo inflacionrio condio importante para minimizar os custos decorrentes da incerteza e permitir que as empresas adotem horizontes de clculo alm do curto prazo, requeridos para a formulao de estratgias competitivas agressivas de inovao e conquista de mercados.n

Da mesma maneira, o crescimento contnuo produto interno bruto permite s empresas se beneficiarem das economias de escala e de aprendizado provenientes de mercados internos em permanente expanso, incrementando a competitividade da indstria. O crescimento do mercado interno tambm cria condies propcias de baixa incerteza e boas oportunidades de investimento que tendem a induzir elevadas taxas de inverso do setor privado. A contnua renovao do parque industrial trazida pela expanso sustentada do investimento traduz-se em permanente introduo de progresso tcnico incorporado nas novas safras de bens de capital. As caratersticas do sistema de crdito da economia que, evidentemente, no so independentes do desempenho macroeconmico em geral, principalmente no que se refere ao controle do processo inflacionrio, e so tambm um fator de importncia para a competitividade industrial, em particular no que diz respeito a disponibilidade e custo de financiamento de projetos de longo prazo de maturao e alto risco como so os investimentos mais intensivos em tecnologia.

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Determinantes Poltico-institucionaisOs determinantes poltico-institucionais da competitividade incluem um vasto conjunto de instituies, polticas e prticas atravs das quais o Estado se relaciona ativamente com o setor industrial. Dentre esses, destacam-se a poltica de comrcio exterior e tarifria, a poltica tributria, o uso seletivo do poder de compra do governo e a poltica cientfica e tecnolgica. importante ressaltar que os efeitos das vrias partes desse aparato institucional sobre a competitividade podem ser positivos ou negativos de acordo com as tendncias do progresso tcnico e do quadro da economia internacional prevalecentes em cada contexto histrico. Assim, conjuntos de polticas e instituies que podem ter um efeito altamente positivo sobre a competitividade em determinado perodo26

podem se tornar disfuncionais ou contraproducentes em outro contexto, enquanto outras medidas e instituies outrora de pouca relevncia podem passar a ter um papel central para o desenvolvimento competitivo.n

As polticas de comrcio exterior e tarifria determinam fatores como acordos de comrcio, o conjunto de incentivos exportao, o grau de proteo de setores com potencial exportador e as possveis contrapartidas em termos de desempenho, as condies de acesso a insumos e componentes importados, etc. A poltica tributria tambm tem impacto sobre a competitividade seja diretamente (os incentivos fiscais e a questo da desonerao fiscal das exportaes) ou indiretamente na medida em que polticas tributrias harmnicas cada vez mais sejam consideradas como contrapartidas necessrias para o acesso a certos acordos ou blocos de comrcio. A poltica cientfica e tecnolgica tambm pode afetar de modo significativo a competitividade ao oferecer de um lado a infra-estrutura necessria (universidades, centros de pesquisa, servios tecnolgicos, metrologia etc.) e de outro estmulos (em particular crdito em condies favorveis) modernizao contnua da indstria local. O Estado tambm pode usar o seu poder de compra de forma a estimular atividades de alto contedo tecnolgico gerando uma demanda por capacitao tecnolgica local. Na medida em que isso ocorra de forma seletiva e bem planejada essa poltica pode dar bons resultados em termos de melhoria da competitividade da indstria. Muitas das tecnologias chamadas crticas, como as da fronteira da informtica ou novas fontes de energia, tm seu desenvolvimento fortemente apoiado em iniciativas dessa natureza.

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O banco de dados da OCDE sobre programas de apoio indstria que envolvem algum tipo de auxlio financeiro permite constatar que a partir de meados dos anos 80 os gastos pblicos destinados ao auxlio de carter genrico ao investimento diminuram principalmente em razo das restries fiscais vividas pelos pases membros. Em contrapartida, cresceram de importncia as polticas mais seletivas, como as medidas de apoio ao desenvolvimento regional, a peque27

nas e mdias empresas e ao emprego e formao profissional. So medidas voltadas para salvaguardar o tecido industrial, reduzir disparidades de renda entre regies e defender o emprego. Registram ainda importantes incentivos concedidos a atividades exportadoras, seja na forma de subsdios diretos s empresas, seja na forma de concesso de financiamentos aos importadores (OCDE, 1992 e 1994). Por fim, seguem crescendo os gastos com o fomento s atividades de P&D e difuso tecnolgica. Tambm nesse campo, a tendncia tem sido a de privilegiar programas de pesquisa cooperativa congregando empresas e centros de pesquisa, como meio de aumentar a efetividade dos financiamentos concedidos.

Determinantes Legais-regulatriosDentre o conjunto de polticas pblicas, h aquelas em que o Estado cumpre um papel mais passivo, de natureza eminentemente regulatrio. Os principais instrumentos regulatrios que afetam a criao e o fortalecimento do ambiente competitivo so a defesa da concorrncia e do consumidor, a defesa do meio ambiente, o regime de proteo propriedade intelectual e de controle do capital estrangeiro. Estes, agregados s polticas tarifria e de comrcio exterior, incluindo os mecanismos no-tarifarios, a aplicao das leis anti-dumping e anti-subsdios e do cdigo de salvaguardas comerciais, formam o arcabouo que define o regime de concorrncia prevelecente. As regulaes visam tambm harmonizar as condies de interveno e regulao do Estado na economia local com as regras recomendadas por organismos multilaterais ou vigentes nos principais blocos de pases e parceiros comerciais. Em vrios casos, a diretriz das regulaes adotadas torna-se contrapartida necessria para assegurar politicamente o acesso a esses mercados. Como conseqncia da maior globalizao e liberalizao da atividade econmica, mudanas institucionais significativas esto ocorrendo no cenrio internacional. Entre as transformaes em curso destaca-se a nfase renovada no uso das leis e regulaes como instrumentos de poltica industrial. As polticas de defesa da concorrncia, consumidor e meio ambiente afetam diretamente a competitividade ao garantir um alto grau de contestabilidade nos diversos mercados. Tais polticas e instituies podem afetar significativamente a competitividade industrial pelo seu efeito de promover e estimular certas estratgias empresaria28

is e de controlar e coibir outras. O aprimoramento dessas regulaes tem se revelado importante mecanismo de estmulo para o aumento da eficincia produtiva e principalmente melhoria da qualidade e aumento do grau de sofisticao tecnolgica tanto dos processos produtivos quanto dos produtos da indstria local. Aumentar a rivalidade entre empresas, ou introduzi-la em setores ou servios antes monopolizados ou rigidamente regulamentados pelo Estado, com o correspondente monitoramento das prticas concorrenciais visando impedir abusos de posio dominante a tnica das aes regulatrias na atualidade. Observa-se tambm um maior entrosamento entre as regulaes e a poltica comercial. Isso revelado tanto pelo crescimento das barreiras tcnicas ao comrcio internacional decorrentes de normas mais rgidas de proteo do consumidor e do meio ambiente quanto pela contnua sofisticao da legislao anti-dumping, de modo a enfrentar o aumento da incidncia de prticas desleais de comrcio, em parte decorrentes da prpria liberalizao dos mercados. Devido aos requisitos impostos seja pela poltica de concorrncia, seja pela poltica comercial, indiscutvel que a necessidade de manejar com eficincia e agilidade aparatos regulatrios cada vez mais complexos tornou a capacitao das agncias pblicas um fator sistmico de especial importncia para a competitividade.

Determinantes Infra-estruturaisOs determinantes infra-estruturais de maior influncia sobre a competitividade da indstria local referem-se oferta de energia, transporte e telecomunicaes. A disponibilidade de um abastecimento de energia farto, regular e confivel a custos reduzidos afeta fortemente os custos de todo o sistema industrial e, portanto, tambm a competitividade externa das empresas locais. Da mesma forma uma rede de transportes integrada, moderna e eficiente, elemento importante na determinao da competitividade. No basta que a infra-estrutura de transporte dos corredores de exportao, que afeta diretamente os custos dos exportadores, seja moderna e eficiente. Importa muito tambm o estado da rede de transportes do sistema como um todo, pois este afeta tanto os custos dos insumos utilizados pelos exportadores como tambm um dos elementos que permite a integrao do mercado interno e o conseqente aproveitamento das economias de escala da decorrentes.29

A ampla disponibilidade, o baixo custo e principalmente a qualidade da rede de telecomunicaes tambm fator estratgico para a competitividade da indstria tanto como condio necessria para o acesso aos mercados externos mais dinmicos quanto no que diz respeito integrao do mercado interno e seus impactos sobre o nvel geral de eficincia do sistema industrial. No caso das telecomunicaes fica mais evidente, devido ao fato de que o progresso tcnico nesse setor segue um ritmo muito acelerado, a importncia (que se aplica tambm no que diz respeito energia e aos transportes) de no se permitir que a infra-estrutura da economia se torne obsoleta em relao dos principais parceiros comerciais. Assim, em uma perspectiva dinmica para a competitividade no importa apenas que os custos com as telecomunicaes, transporte e energia sejam baixos e sim que sempre ocorram investimentos em melhorias e modernizao da infra-estrutura da economia.

Determinantes SociaisAs condies sociais vigentes em uma economia tm importantes efeitos sobre a competitividade das empresas que nela operam, particularmente no que diz respeito educao e qualificao da mo-de-obra, natureza das relaes trabalhistas e ao padro de vida dos consumidores. Os nveis de produtividade e a qualidade dos produtos dependem fortemente do nvel de educao e qualificao da mo-de-obra. Da mesma forma, a gerao e incorporao de certas inovaes mais sofisticadas so impensveis sem uma massa crtica de tcnicos e cientistas de alto nvel de qualificao. A natureza das relaes de trabalho tambm tem efeitos sobre a competitividade da indstria. Sistemas de relaes trabalhistas que estimulem a cooperao entre patres e empregados e um maior envolvimento da fora de trabalho nas decises da empresa podem influir positivamente na evoluo da produtividade industrial por criar um clima favorvel introduo de inovaes, minimizar greves e conflitos, etc. No entanto, o efeito principal de relaes trabalhistas menos antagnicas e mais participativas parece vir do aproveitamento das possibilidades de economias de aprendizado detectadas pelos prprios trabalhadores (reduo de paradas e defeitos, reorganizao de tarefas, etc.). Finalmente, o padro de vida da populao e a distribuio de renda vigente na sociedade tambm tm efeitos sobre a competitivi30

dade da indstria na medida em que afeta a dimenso e o grau de sofisticao dos mercado consumidor interno. Padres de vida relativamente altos e distribuio de renda no muito desigual tm como resultado um mercado interno com uma grande massa de consumidores sofisticados e exigentes que permitem e induzem ao mesmo tempo alta produtividade, advindas de economias de escala e elevados nveis de qualidade, o que contribui para a competitividade externa da indstria local. Essa questo remete relao entre eficincia e sistemas de relaes industriais, que no so triviais. Nesse contexto, importante identificar novos itens que compem as agendas de negociaes pr-competitividade entre empresrios e trabalhadores. As prticas internacionais mais avanadas indicam, nas relaes entre empresa e trabalho, a valorizao de todos os espaos de representao. A pauta de negociao extrapola o salrio para tambm incorporar a integrao empresa-fora de trabalho. No mbito da formao profissional, so realizados esforos para transformar o perfil de qualificao do trabalhador, na direo da ampliao de sua base de conhecimentos e capacidade de interveno sobre processos produtivos, para viabilizar a melhoria contnua da eficincia produtiva e a introduo negociada das novas formas de organizao do processo de trabalho.

Determinantes InternacionaisOs determinantes internacionais da competitividade se referem ao impacto das principais tendncias da economia mundial e da forma de insero internacional da economia local, tanto em sua dimenso produtiva quanto financeira. Na dimenso produtiva, os fatores mais decisivos so as tendncias dos fluxos de comrcio internacional e dos investimentos externos diretos. Essas tendncias so por suas vez determinadas pela interao entre as trajetrias do progresso tcnico e da concorrncia oligopolista global e do jogo da diplomacia econmica, que envolve os Estados Nacionais, os blocos econmicos e os organismos internacionais multilaterais. Na dimenso financeira, necessrio levar em conta as principais tendncias dos movimentos internacionais de capital financeiro, no que diz respeito a direo, natureza, modalidade e condies de acesso aos fluxos de financiamento externo.31

As tendncias dos fluxos internacionais de comrcio e da diplomacia econmica condicionam fortemente o acesso das empresas locais aos mercados externos tanto como vendedoras de produtos quanto compradoras de insumos. A participao em mercados de exportao mais dinmicos e exigentes representa forte estmulo busca constante de estratgias competitivas por parte das empresas locais. Por outro, lado o acesso fcil a importaes de bens de capital, insumos e componentes sofisticados que aumentem a eficincia e a qualidade dos produo local afeta direta e indiretamente a produtividade e competitividade da economia local como um todo. No entanto, observa-se sinais de recrudescimento do uso de medidas protecionistas pelos pases industrializados, fato que tem dificultado o acesso dos pases em desenvolvimento a esses mercados. A preocupao com a defesa dos nveis de emprego, seriamente comprometidos pelos elevados ganhos de produtividade decorrentes da modernizao tecnolgica da indstria mundial, vem justificando o crescente recurso a barreiras no-tarifrias visando restringir a entrada de mercadorias principalmente em setores que empregam grande contingente de mode-obra como as indstrias dos complexos txtil e agroindustrial. A ratificao dessa tendncia prejudicar a insero dos pases em desenvolvimento nos principais mercados mundiais. O ritmo e a direo dos fluxos de investimento externo direto, por sua vez, so fatores decisivos no que diz respeito incorporao de progresso tcnico na economia local. As empresas multinacionais so as principais fontes de introduo de inovaes de produtos e processos no nvel mundial. Alm disso, a presena dessas empresas seja como clientes, fornecedoras ou, em certos casos, at como concorrentes das firmas locais, tende a dinamizar o processo competitivo, incentivando a modernizao constante das estratgias competitivas das firmas locais. As tendncias dos movimentos internacionais de capital financeiro so decisivas para a estabilidade macroeconmica e o crescimento da economia local, definindo o padro de financiamento externo da economia. Alm desses efeitos sobre o dinamismo da economia local a natureza (especulativa ou de prazos mais longos),e modalidades (custos, riscos) das diversas formas de financiamento externo disponveis podem afetar significativamente o padro de financiamento dos investimentos das empresas locais, em particular aqueles intensivos em tecnologia, que tm maior risco e ao mesmo tempo maior impacto sobre a competitividade das empresas locais.32

Padres de Concorrncia nos Grupos IndustriaisAs transformaes tecnolgicas ocorridas na indstria mundial a partir dos anos 80, em particular, a rpida difuso internacional das tecnologias de base microeletrnica e das inovaes na organizao da produo, vm promovendo uma sensvel elevao dos padres de eficincia da indstria mundial. Essas transformaes trouxeram implicaes sobre a competio internacional, principalmente a delimitao de novos espaos da concorrncia mais internacionalizados e a acelerao do ritmo de inovao tecnolgica com encurtamento do ciclo de vida de produtos e processos e aumento da diferenciao de produtos. No novo paradigma competitivo predominam qualidade de produto, flexibilidade, rapidez de entrega e inovatividade, alm da racionalizao dos custos de produo. Definem-se, conseqentemente, novos critrios para a competitividade industrial. Embora essa seja a tendncia geral de evoluo dos produtos e processos industriais, o ritmo e a intensidade dos esforos e as formas concretas com que essa trajetria genrica se manifesta em cada atividade industrial devem ser ponderados pelas possibilidades da tcnica e sua viabilidade econmica. Os limites impostos pela natureza da tecnologia e do mercado, das relaes inter-industriais e dos condicionantes macroeconmicos mudam de setor para setor da indstria, expressando o fato de que os padres de concorrncia apresentam especificidades setoriais. Diante da diversidade de padres de concorrncia, quatro grupos de indstrias foram considerados para efeito da anlise: grupo de indstrias produtoras de commodities, de bens durveis e seus fornecedores, indstrias tradicionais e produtores de bens difusores de progresso tcnico. Para a delimitao desses grupos combinaram-se critrios classicamente utilizados na construo de taxonomias de indstrias. Do lado da demanda, foi considerada a tipologia de indstrias segundo as categorias de uso (bens de capital, intermedirios, consumo durvel e consumo no durvel). Do lado da oferta, lanou-se mo da noo de sistemas tcnicos de produo, tal como sugerida em Woodward (1959) (produo de unidades ou pequenos lotes, montagem em massa e processos contnuos) e dos padres de gerao de inovaes e de fluxos tecnolgicos inter-setoriais proposta por Pavitt (1984) (seto33

res dominados pelos fornecedores, intensivos em escala, fornecedores especializados e baseados em cincia). Essa questo ser retomada na prxima seo. O grupo de commodities rene as indstrias de processo contnuo que elaboram produtos homogneos em grande tonelagem e que, adicionalmente, devido s caractersticas do seu sistema de comercializao, tm os preos determinados em bolsas internacionais de mercadorias. Correspondem em geral a bens intermedirios de fcil armazenagem e transporte dos quais insumos metlicos, qumica bsica, celulose e papel so os principais exemplos. So geralmente intensivos em recursos naturais e energticos. O grupo de durveis inclui as indstrias de montagem em larga escala. formado pelos produtores de bens de consumo durveis, como automveis e eletrnicos de consumo, e caracterizam-se por incorporarem grande densidade tecnolgica. Dada a interdependncia dos fatores de competitividade entre essas indstrias e os fornecedores de partes e peas optou-se por inclu-los no mesmo grupo. O grupo de tradicionais congrega as indstrias que independentemente do sistema tcnico de produo adotado (contnuo ou montagem) tm como identidade a elaborao de produtos manufaturados de menor contedo tecnolgico, destinados ao consumo final (bens salrio). Correspondem a atividades que historicamente foram as primeiras a serem organizadas industrialmente, como os produtores de alimentos, txteis e vesturio. Na terminologia de Pavitt (1984), so setores tecnologicamente dominados pelos seus fornecedores de insumos e equipamentos, isto , so consumidores de inovaes geradas nos demais setores da indstria. O grupo de difusores de progresso tcnico rene os setores que constituem a base do novo paradigma tcnico-industrial, sendo a principal fonte de progresso tcnico para o restante da indstria. Sua presena na estrutura industrial, mesmo que em um nmero restrito de segmentos, indispensvel para um avano significativo na competitividade da indstria como um todo e para uma melhor insero futura do pas na diviso internacional do trabalho. Esse grupo formado pelos produtores de bens de capital eletro-mecnicos e microeletrnicos, que correspondem aos fornecedores especializados da tipologia de Pavitt, e tambm pelos setores baseados em cincia, que fazem parte principalmente dos complexos eletrnico e qumico. As especificidades dos padres de concorrncia que prevalecem em cada grupo so detalhadas a seguir.34

Grupo de Indstrias Produtoras de CommoditiesEmbora englobando grande diversidade de bases tcnicas e pautas de produtos, os setores produtores de commodities so unidos por regras similares no que diz respeito a como as empresas competem em seus mercados e, em grande parte, s trajetrias futuras de evoluo. A principal dessas caractersticas comuns a elevada participao no mercado detida por um nmero reduzido de firmas, tpica das estruturas de mercado do oligoplio homogneo, com a prevalncia de pequena diferenciao de produtos e elevadas escalas tcnicas da produo, relativamente aos demais ramos da indstria. Para estarem bem colocadas na competio, as empresas dos setores de commoditties devem ser capazes de explorar ao mximo todas as fontes de reduo de custos: operar processos tecnologicamente atualizados, apresentar excelncia na gesto da produo, montar sistemas eficientes de abastecimento de matrias-primas (inclusive apoiando esforos para aumentar sua eficincia ou financiando produtores agrcolas, no caso das agroindstrias) e dispor de logstica adequada de movimentao de produtos. No entanto, a excelncia empresarial no condio suficiente para assegurar competitividade. Os baixos custos unitrios surgem como reflexo dos ganhos de escala proporcionados pela alta capacidade de produo que, nesses setores, favorecida pela natureza da base tcnica processos contnuos de produo. Esses ganhos de escala so potencializados por empresas que exploram mercados mundiais. Do mesmo modo, fundamental que as empresas mostrem-se capazes de antecipar o crescimento da demanda ou de responder s oscilaes de preo e quantidades, tpicas dos mercados de commoditties. Isso implica a necessidade de adoo de estratgias de investimento que levem no somente criao de capacidade produtiva frente da demanda, mas tambm em linhas de produtos complementares, em direo a crescentes nveis de integrao produtiva das empresas. Essas fontes de competitividade constituem fortes barreiras entrada de novos concorrentes. Assim, a possibilidade de novos entrantes nesse grupo est condicionada, mais que em qualquer outro, ocorrncia de um ritmo de expanso da demanda que seja superior capacidade da indstria estabelecida atend-la. Em geral, a produo nesses setores destina-se aos mercados interno e externo. A atrao de clientes se d atravs do atendimento a35

especificaes tcnicas padronizao e preos baixos. Ainda de modo geral, as empresas so tomadoras de preos. Os preos, muitas vezes definidos em bolsas internacionais, so extremamente sensveis s condies de demanda que imperam nos principais pases consumidores/ e ao volume da produo mundial. A alta relao capital/produto e a necessidade de investir frente da demanda para estarem bem posicionadas faz com que a capacidade de mobilizar recursos para investimentos seja decisiva para a manuteno da competitividade das empresas. Nessas condies, o porte empresarial e o acesso a fontes de financiamento so ativos fundamentais para a competitividade. O padro de concorrncia do grupo de commodities vem sendo profundamente influenciado pelo quadro de superoferta mundial generalizada desses produtos, em boa parte decorrente da entrada de pases em desenvolvimento nesses mercados. A tendncia ao acirramento da concorrncia internacional expresso na generalizao de prticas de dumping, subsdios produo domstica e s exportaes, medidas protecionistas com crescente nfase em barreiras tcnicas ambientais ou sanitrias, etc. obriga as empresas a adotarem estratgias fortemente ofensivas para penetrar em novos mercados ou mesmo manter posies j conquistadas. Em conseqncia desse quadro, no plano produtivo, cresce a importncia da incorporao das prticas de qualidade total e de inovaes redutoras de custos. Mais decisivo, embora restringida pela natureza fortemente homognea dos produtos, a trajetria de evoluo da competitividade aponta para a busca de diferenciao atravs do aumento do valor agregado dos produtos comercializados (descommoditizao). Essa diferenciao pode se dar pelo aumento do contedo tecnolgico dos produtos, como no caso dos derivados da soja ou do papel; no atendimento a especificaes particulares dos clientes, bem exemplificado pelos insumos metlicos e pelo cimento; pela prestao de servios suplementares como na petroqumica, ou mesmo pela realizao de investimento em reas onde os clientes possam ser mais sensveis, como o caso da reduo dos danos ao meio ambiente no setor de celulose. No plano comercial, o desenvolvimento dos canais de comercializao para acessar os mercados internacionais tem se mostrado um fator cada vez mais crtico para o sucesso das empresas. Embora de modo geral favoream s empresas que j acumularam experincia no comrcio internacional, algumas transformaes nos padres de co36

mrcio vm causando impactos importantes. Dentre essas transformaes, destaca-se a tendncia de aproximao entre produtor e cliente atravs da realizao de joint-ventures ou outros acordos comerciais duradouros como requisito para viabilizar o acesso aos mercados locais, em particular, dos pases asiticos, que so os que apresentam maior dinamismo na atualidade. Nesses casos, a necessidade de realizao de investimentos em infra-estrutura de armazenamento ou transporte ou ainda em redes de distribuio no pas receptor beneficia as empresas que renem condies financeiras e gerenciais para se internacionalizarem.

Grupo de Indstrias Produtoras de Bens Durveis e Seus FornecedoresOs setores produtores de bens durveis e seus fornecedores apresentam grande relevncia econmica. Inmeras inovaes no sentido schumpeteriano mais amplo, o que inclui novos produtos, processos, mercados, matrias-primas, mtodos de suprimento e comercializao que mais tarde se difundiro pela economia so pioneiramente geradas ou introduzidas nas indstrias de eletrnicos de consumo e automobilstica e seus fornecedores. A estrutura de mercado vigente, formada por poucas empresas disputando agressivamente mercados em escala mundial, constitui modelo para outras configuraes setoriais, em particular no que se refere ao entrosamento entre atividades de projeto, produo e vendas no mbito da empresa e entre fornecedores e produtores no mbito das relaes inter-industriais. Automveis e equipamentos de som e imagem so smbolos do padro de consumo baseado em intensa renovao dos produtos e contnua incorporao de contedo tecnolgico. Entre seus produtores sero competitivos aqueles capazes de diferenciar produtos e comandar a produo e montagem em grandes volumes de uma ampla gama de componentes. De modo convergente com a trajetria de evoluo das melhores prticas da indstria internacional, as empresas lderes dos setores de durveis tm sido bem-sucedidas em aumentar economias de escala e de escopo e difundir tcnicas para reduo de custos e aumento de conformidade dos produtos e insumos, constituindo em vrios casos os padres de referncia para as demais atividades econmicas.

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Devido aos efeitos dinmicos diretos e indiretos que geram sobre os nveis de atividade e emprego e o ritmo de difuso de progresso tcnico, os investimentos realizados nessas indstrias so fortemente atrativos para as regies receptoras, fato que estimula as autoridades governamentais a concederem incentivos fiscais ou outros benefcios visando atrair a preferncia das empresas em suas decises locacionais. A estrutura de mercado prevalecente o oligoplio diferenciado e concentrado, isto , esses so setores que apresentam altos graus de concentrao econmica, em que as empresas buscam vantagens atravs da produo em grandes volumes de produtos diferenciados. Um novo produto implica novos componentes e novos sistemas fabris. essa alta relao design + componentes sobre o valor da produo a principal caracterstica do padro de concorrncia nesse grupo. A natureza diferenciada dos produtos aponta para a necessidade de atrair clientes atravs de um amplo conjunto de atributos, onde se destacam preo, marca, tecnologia e assistncia tcnica. Para isso, as empresas devem alocar esforos substanciais ao desenvolvimento de produtos e na prestao de servios ps-venda aos clientes, atravs de redes de revendedores, de alguma maneira credenciados pelas empresas. Ao mesmo tempo, as empresas necessitam explorar amplos mercados para mais rapidamente amortizar seus custos de desenvolvimento de produtos. Os setores produtores de bens durveis operam processos de montagem em massa nos quais h benefcios substanciais de reduo de custos unitrios com o aumento das escalas de produo. A natureza dos processos produtivos impe requerimentos mnimos de escala tcnica e empresarial para as empresas se manterem competitivas. Os elevados tamanhos mnimos timos funcionam como fortes barreiras entrada: as empresas instaladas buscam manter polticas de investimento que no s antecipem o crescimento do mercado como tambm ampliem suas participaes utilizando a diferenciao de produto. No se pode deixar de mencionar a relevncia da operao de sistemas produtivos que apresentem crescentes ndices de eficincia tcnica. Nesses setores, capitaneadas por empresas japonesas, gradualmente se desenvolveu um conjunto de novas filosofias e tcnicas de produo, combinando os elementos mais favorveis da tradicional produo fordista em massa com uma maior flexibilidade. Para alguns esse o modelo da produo enxuta. Significa desenvolvimento de38

produtos com uso intensivo de equipamentos de base microeletrnica, organizao da produo em clulas, automao da produo e uso intensivo de tcnicas organizacionais orientadas melhoria contnua dos processos produtivos, etc. Com relao mo-de-obra, essas mudanas requerem upgrading dos nveis de qualificao, estruturas hierrquicas horizontalizadas, intensa comunicao e agilidade decisria. As empresas desses setores apontam para a importncia da disponibilidade de mo-de-obra alfabetizada e da infra-estrutura de treinamento, que lhes facilite a constituio de uma fora de trabalho competente nas novas prticas. Sendo alta a relao custo de componentes/valor da produo, a trajetria de evoluo dessas indstrias indica uma tendncia desverticalizao, associada a novas formas de relacionamento econmico-produtivo com a rede de fornecedores. Preos e conformidade tcnica so essenciais, assim como a existncia de um tecido industrial em que prevaleam contratos estveis e previsveis, sempre no sentido da diminuio dos custos de estoques e de desenvolvimento de componentes para as montadoras. Ao mesmo tempo, em um contexto internacional de liberalizao comercial, as empresas tambm se movem no sentido de desenvolver sistemas de global sourcing para a importao de partes e componentes.

Grupo de Indstrias TradicionaisApesar de serem facilmente percebidos quanto natureza dos produtos/ e destino da produo, voltados para o consumo final da populao em geral, do ponto de vista da concorrncia prevalece no grupo de indstrias tradicionais uma grande variedade, decorrente da extensa segmentao de mercados em termos de nveis de renda dos consumidores. A variedade de produtos e de procedimentos produtivos est associada igual variedade na demanda. Assim, atuar em mercados segmentados a norma para as empresas desses setores e uma de suas caractersticas mais marcantes. Em grande parte, a possibilidade de segmentao est relacionada estrutura de renda dos consumidores de um determinado mercado. Nesse contexto, o grau de importncia para a competitividade de atributos dos produtos como preo, marca e adequao ao uso ir variar de acordo com a renda. Quanto maior for a renda, menor o peso relativo do atributo preo e maior a importncia dos atributos adequao ao uso e atendimento s especificaes39

particulares da clientela. Essas condies implicam a coexistncia de empresas, que possuem atividades tecnicamente similares, buscando atuar em faixas de mercado completamente distintas. Esses setores tambm so extremamente sensveis a movimentos na demanda. Essa sensibilidade se verifica de dois modos, ambas com implicaes sobre a capacidade de produo. Primeiro, as empresas tm que realizar esforos para se imporem no mercado, como acontece na esfera do design, para a indstria de confeces, sapatos ou mveis, por exemplo. Mas, uma vez bem-sucedidas, as empresas tm que atender prazos de entrega. Segundo, esses setores so submetidos a sazonalidades que implicam picos temporais de produo. O atendimento a ambos os movimentos possvel pelas facilidades de expanso da capacidade de produo, em prazos relativamente curtos. Portanto, apesar dos esforos para se imporem ao mercado, o investimento das empresas desses setores , efetivamente, reativo demanda. Nas indstrias tradicionais prevalecem atividades de montagem em lotes ou em massa. Tambm esto presentes alta variedade de produtos de baixa intensidade tecnolgica e poucos requisitos de escala mnima de produo. A forte flexibilidade das escalas e a baixa relao capital/produto favorecem variedade empresarial tambm pelas caractersticas da oferta: elas permitem a convivncia de empresas com caractersticas estruturais porte, linha de produtos, capacitao e desempenho, etc. muito diferenciadas. O fator crtico para a competitividade nas indstrias tradicionais a capacidade empreendedora de seus dirigentes, principalmente, o grau de atualizao das tcnicas de gesto de matrias-primas, mo-de-obra e equipamentos. Assim, prevalece uma alta relao dos esforos em gesto sobre o valor da produo como elemento decisivo do padro de concorrncia nesse grupo a definio do segmento-alvo de mercado da empresa e a organizao da produo de modo a atender a seus requisitos especficos. Como esses setores so usurios de inovaes geradas fora deles, o acesso aos bens de capital e insumos qumicos as principais fontes de progresso tcnico no problemtico e no diferencia significativamente as empresas. No entanto, o pequeno porte empresarial, embora competitivamente vivel, dificulta atingir o tamanho mnimo econmico que possibilita a incorporao dessas inovaes. Por essa razo, cada vez mais freqente o surgimento de formas de articulao horizontal entre empresas, em geral configuradas em p40

los regionais de produo, geradores de economias de aglomerao. H vrios tipos de projetos normalmente contemplados: centrais de compra de matrias-primas, centrais de marketing, programas de capacitao de recursos humanos, desenvolvimento e implantao de sistemas de gesto e controles gerenciais, implantao de sistemas de CAD/CAM para uso compartilhado, organizao de eventos, centros de informao de tendncias de moda e tecnologias. Na maioria dos setores tradicionais, um nmero grande de pequenos produtores responsvel por uma proporo significativa da produo total. Como so baixas as barreiras entrada de novos concorrentes, as empresas que adotam prticas produtivas que induzem menores custos e maior adequao ao uso dos produtos tm maior probabilidade de conseguir melhores lucratividades, apresentando tendncia natural a expandirem-se em relao s demais. Se a taxa de expanso dessas empresas for maior do que a taxa de expanso de suas indstrias, a tendncia de concentrao econmica, pela perda de participao no mercado das demais ou pela eliminao das empresas de menor capacidade. Isto , as empresas que apresentam maiores nveis de custo e/ou menor flexibilidade financeira, em geral as empresas de menor porte, no sero capazes de suportar a presso competitiva. No entanto, deve-se deixar bem claro que empresas destes setores, pela natureza da atividade econmica, podem ser ativadas ou desativadas com relativa velocidade. Portanto, em qualquer momento, a populao de empresas e sua posio no ranking competitivo pode variar substancialmente em relao a perodos anteriores. No entanto, em segmentos especficos, pode ocorrer a concentrao relativamente alta da produo. em particular onde h persistncia de hbitos de consumo, conquistada atravs da imposio de marcas e sustentados e significativos esforos de venda. Nesse caso, a estrutura de mercado o oligoplio competitivo, o que reforado pelas vantagens de custo, advindos da produo em altas escalas, por parte de empresas de maior porte. Assim a condio de lder setorial pode se sustenta por perodos expressivos de tempo. Em resumo, nas indstrias tradicionais prevalece a variedade de produtos e de empresas. A posio competitiva das empresas, em grande parte, definida pela eficcia e eficincia da gesto. A trajetria de evoluo do padro de concorrncia nesses setores de segmentao de mercados.

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Grupo de Indstrias Produtoras de Bens Difusores de Progresso TcnicoEsse grupo industrial rene os setores que tm em comum a funo de transmitir progresso tcnico para as demais atividades econmicas, atravs do fornecimento de equipamentos ou insumos estratgicos de elevado contedo tecnolgico. So, portanto, setores responsveis pela elevao dos nveis de eficincia e produtividade da indstria em geral. Os setores difusores de progresso tcnico diferem dos demais pela existncia de intensa segmentao tecnolgica dos mercados. Isto , cada empresa est em concorrncia direta somente com outras poucas empresas j que os produtos tm aplicaes muito especficas. As empresas lderes notabilizam-se pelos elevados dispndios em P&D que realizam, refletindo o fato de que a capacidade de inovar em produtos e atender segmentos de mercado que define, em grande parte, o padro de concorrncia destes setores. A montagem em lotes a caracterstica genrica dos processos produtivos de bens de capital eletro-mecnicos ou eletrnicos, apesar de que a coexistem processos de montagem em massa como os computadores pessoais, e processos por encomenda como turbinas para gerao de energia. Devido ao forte componente tecnolgico, as relaes inter-industriais, extremamente relevantes para a competitividade, possuem especificidades. A conformidade tcnica de partes e componentes essencial para o bom desempenho dos produtos desses setores. As relaes com a infra-estrutura cientfica e tecnolgica adquirem particular importncia pois, concorrendo pela inovao, h uma busca natural de conhecimentos junto ao sistema cientfico e tecnolgico do pas. Pelo fato da capacidade inovativa constituir o fator crtico de sucesso competitivo, e diante da tendncia ao aumento da complexidade e crescimento acelerado dos custos das atividades de P&D, tem-se observado uma intensificao das formas associativas de realizao de pesquisas. As alianas tecnolgicas, fortemente estimuladas pelas polticas tecnolgicas, em particular, nos pases europeus, vm se afirmando como o modelo dominante de relacionamento entre empresas e centros de pesquisa pblicos e privados. possivelmente no plano do regime de incentivos e regulao da concorrncia que o grupo de indstrias difusoras de progresso tcnico mais se individualiza em relao ao restante da atividade produtiva.42

Por sua condio estratgica, a poltica industrial de pases desenvolvidos inclui apoio especial a esses setores, na forma de incentivos fiscais, restries a importaes, financiamentos favorecidos, participao em projetos de pesquisa, uso do poder de compra do governo, etc. Esses so, sem dvida, os setores mais apoiados pelas polticas industriais nacionais. Em resumo, o oligoplio diferenciado a estrutura de mercado que mais se aproxima do conjunto de fatores considerados como relevantes pelas empresas desses setores. Isto , poucas empresas disputam a preferncia dos clientes atravs da diferenciao de produto baseada na inovao tecnolgica. Duas so as razes principais: Primeiro, a concentrao econmica devida prevalncia de segmentao tcnica dos mercados; segundo, pela natureza dos processos produtivos onde existem economias de flexibilidade , elevadas escalas tcnica e econmica no constituem imperativos para a competitividade como no caso da produo de durveis. Na capacidade de diferenciao reside a principal barreira entrada nesses setores e para isso as empresas devem realizar esforos permanentes de pesquisa e desenvolvimento a fim de diferenciarem de seus concorrentes. Quando inovam, as empresas conseguem posies competitivas de liderana, quando no monopolista de fato. No entanto, pela substituio de produtos existentes ou por solues imitativas, a capacidade de inovao dos concorrentes um fator de ameaa permanente s posies competitivas das empresas.

Uma Tentativa de SnteseO Quadro 1.1 sintetiza as principais caractersticas dos padres de concorrncia analisados nas sees anteriores.

Avaliao da CompetitividadeNveis de Agregao UtilizadosAvaliaes convencionais de competitividade geralmente referem-na a produtos e empresas no nvel micro e a pases ou regies tomados como agregados de produtos no nvel macro. Na abordagem sugerida, neste livro a competitividade deve ser referida indstria e43

ao mercado de atuao das empresas, isto , ao setor industrial. nesse espao que as empresas disputam parcelas de mercado atravs da venda de produtos que, embora possam ser diferenciados em termos de diversos atributos (preo, qualidade, nvel de sofisticao, prazo de entrega, etc.), so tecnicamente similares no que respeita aos mtodos de fabricao.Quadro 1.1 Padres de Concorrncia nos Grupos Industriais: Fatores Crticos da CompetitividadePadro de Concorrncia Fontes das vantagens competitivas Commodities Custo Durveis Diferenciao Tradicionais Qualidade Difusores Tecnologia

Internos Empresa

relao capital/produto atualizao dos processos

projeto de produto e componentes organizao da produo flexibilidade

gesto controle da qualidade produtividade

P&D + design capacitao em P&D qualificao dos recursos humanos

Estruturais padronizao diferenciao segmentao por nveis de renda e tipo de produto preo, marca, rapidez de entrega, adequao ao uso local/internacional segmentao por necessidades tcnicas atendimento a especificaes dos clientes global/local economias da especializao interao com usurios

Mercado

preo, conformidade

preo, marca, contedo tecnolgico, assistncia tcnica regional/global

comrcio internacional

economias de escala economias de escala economias de na planta e de escopo aglomerao controle matria-prima e logstica de movimentao servios tcnicos especializados aticulao montador-fornecedo r metrologia e normalizao formao de redes horizontais e verticais tecnologia industrial bsica, informao tecnolgica e servios de treinamento de pessoal

Configurao da Indstria

sistema de cincia e tecnologia

(Continua)

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Quadro 1.1 Padres de Concorrncia nos Grupos Industriais: Fatores Crticos da Competitividade (Cont.)exposio ao comrcio internacional anti-dumping Regime de Incentivos1 e Regulao proteo ambiental custo de capital cmbio infra-estrutura viria e portos1

crdito ao consumodefesa do consumidor incentivos fiscais

defesa da concorrncia defesa do consumidor tributao

apoio ao risco tecnolgico propriedade intelectual proteo seletiva poder do compra do Estado crdito aos usurios e financiamento s exportaes

anti-dumping

No regime de incentivos e regulao esto includos os fatores sistmicos que afetam mais decisivamente a competitividade em cada grupo industrial.

Se adequado para a mensurao da posio competitiva das empresas, o nvel setor insuficiente para fundamentar uma viso estrutural da competitividade. Nesse nvel no possvel avaliar a natureza e a intensidade das relaes de compra e venda entre fornecedores e clientes e, portanto, indicar se as relaes vigentes contribuem ou dificultam a transmisso da competitividade entre indstrias ao longo de uma cadeia produtiva. Essas lacunas podem ser supridas mediante a utilizao da noo de segmento industrial como nvel mais amplo de agregao. Um segmento industrial abrange setores estreitamente vinculados, seja porque utilizam bases tcnicas semelhantes, seja porque desembocam em mercados afins ou por se articularem atravs de relaes diretas de compra e venda de insumos. Esse nvel de agregao busca refazer o espao constitudo pelas diversas etapas do processo de transformao de matrias-primas em produtos finais, que conformam as cadeias produtivas, assim como agrupar setores que enfrentam condies de mercado e tecnolgicos similares. O referencial analtico adotado nesse livro torna possvel um nvel ainda mais amplo de agregao dos setores industriais. Como visto anteriormente, nesse referencial a competitividade depende da criao e renovao das vantagens competitivas por parte das empresas em consonncia com os padres de concorrncia vigentes, especficos a cada setor da estrutura produtiva. possvel ento construir o nvel grupo industrial reunindo os segmentos que abrigam os setores nos

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quais as empresas sofrem o mesmo tipo de influncia dos fatores determinantes e desenvolvem estratgias similares e, portanto, apresentam pontos em comum no que diz respeito competitividade. Para constituio desse nvel, conveniente agrupar os setores de acordo com as categorias de uso dos bens, dos sistemas tcnicos de produo e dos padres de gerao e difuso inter-setorial de inovaes, conforme exposto na seo anterior. A agregao dos setores em grupos industriais segundo esses critrios torna possvel captar as similaridades naturais dos padres de concorrncia vigentes nos distintos setores. Do ponto de vista da tecnologia, empresas que operam processos contnuos tendem a atuar nos setores de base, de maior intensidade de capital e de produtos mais homogneos, enquanto os processos de montagem subentendem, de modo geral, atuao nos setores finais, nos quais maior o grau de elaborao industrial. Do mesmo modo, a posio dos setores nos fluxos inter-setoriais de tecnologia, isto , o fato de serem produtores ou consumidores de inovaes, delimita a natureza das capacitaes requeridas. Do ponto de vista do mercado, especificidades surgem entre empresas dedicadas produo de bens de consumo, onde tendem a prevalecer estratgias tpicas da competio por diferenciao de produtos. Para os demais produtos industriais, normalmente mais homogneos ou com especificaes tcnicas mais rgidas, a competio seria baseada em vantagens de custo ou de qualidade. Tambm permite revelar o tipo de insero dos setores na economia, em particular, a influncia exercida pelos determinantes externos da competitividade sobre a capacitao e desempenho das empresas. Requisitos de capital, necessidades de infra-estrutura, demanda de crdito, exigncias de regulamentao, entre outros, tendem a ser comuns para grupos industriais reunidos segundo os critrios propostos.

Setores e Grupos Industriais SelecionadosForam utilizados diversos critrios visando selecionar os setores mais relevantes para a anlise da competitividade da indstria brasileira. Os cinco critrios bsicos para a seleo de setores foram:n

Relevncia do setor na estrutura industrial brasileira, medida pelo valor da produo e pelo valor da transformao industrial.

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n

Existncia de vantagens comparativas reveladas pelo desempenho exportador, expressa em parmetros como o valor atual na pauta das exportaes nacionais, coeficientes de exportao e dinamismo nas vendas externas (medido a partir das taxas de crescimento das exportaes) Setores que, pelo potencial de difuso de novas tecnologias, contribuem de forma decisiva para a modernizao da estrutura industrial atravs do fornecimento de bens de capital (inclusive de base eletrnica) ou de insumos, influenciando na competitividade dos demais ramos produtivos. Setores que, embora maduros em termos de desenvolvimento tecnolgico, exercem funo de fornecedores de insumos bsicos que se mantm relevantes na economia, como o caso da metalurgia bsica. A priorizao foi feita com base nas trajetrias tecnolgicas associadas reestruturao da indstria dentro do novo paradigma internacional e s relaes de insumo-produto correntes da economia brasileira. Setores que, pela relevncia no fornecimento de bens de consumo de massa ordenados pela importncia na estrutura de consumo das famlias com renda entre 1 e 8 salrios mnimos , mostram grande impacto na distribuio dos ganhos de produtividade e na ampliao do mercado interno, favorecendo uma trajetria de crescimento sustentado da economia.

n

n

n

A aplicao desses critrios conduziu seleo de 25 setores industriais,1 que representam cerca de 50% da produo industrial brasileira, como pode ser visto na Tabela 1.1.

No Estudo da Competitividade da Indstria Brasileira foram contemplados 32 setores industriais. Sete setores, a saber-Biotecnologia, Software, Aeronutica, Frmacos, Defensivos Agrcolas, Cimento e Beneficiamento de Caf foram excludos da presente anlise devido inexistncia ou qualidade insuficiente da base de dados levantada na pesquisa de campo.

1

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Tabela 1.1 Participao dos Setores Selecionados na Indstria Brasileira(valor da produo US$ milhes 1992)

Setores Valor Abate Alumnio Automao Automobilstica Autopeas Calados de couro Celulose Computadores Eletrnicos de consumo Eq. telecomunicaes Eq. energia eltrica Fertilizantes Laticnios Mquinas-ferramenta Mquinas agrcolas Minrio de ferro Mveis de madeira leos vegetais Papel Petrleo Petroqumica Siderurgia Sucos Txtil Vesturio Total Ind. Extrativa e de Transformao 2.801 906 23 2.267 3.137 1.221 610 446 1.209 427 454 1.604 858 1.784 428 1.130 nd 3.197 1.439 13.320 3.184 8.000 869 2.540 2.802 58.241 129.830

1985 % 2,38 0,68 0,02 2,39 2,34 0,79 0,53 0,61 1,19 0,40 0,41 0,82 0,79 1,40 0,24 0,85 nd 2,69 1,33 11,19 2,67 6,24 0,83 1,84 1,70 47,11 100,00 Valor 3.507 1.019 nd 3.825 2.736 816 795 nd 1.148 nd 383 1.093 949 1.198 291 1.050 nd 3.320 1.717 14.433 3.244 8.447 nd 2.104 1.200 56.071 113.910

1992 % 3,08 0,89 nd 3,36 2,40 0,72 0,70 nd 1,01 nd 0,34 0,96 0,83 1,05 0,26 0,92 nd 2,91 1,51 12,67 2,85 7,42 nd 1,85 1,05 49,22 100,00

Fonte: Censo Industrial 1985, Indicadores IBGE, Indicador Mensal da Indstria IBGE e Anurio Estatstico IBGE.(nd = no disponvel)

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O Quadro 1.2 mostra os setores analisados organizados de acordo com os segmentos e grupos industriais que pertencem.Quadro 1.2 Classificao dos Setores Selecionados Segundo Segmentos e Grupos Industriais Grupo Bens Commodities Segmento Insumos Metlicos Setor minrio de ferro siderurgia alumnio petrleo petroqumica fertilizantes leo e farelo de soja suco de laranja celulose papel automobilstico autopeas bens eletrnicos de consumo abate laticnios txtil vesturio calados de couro mveis de madeira computadores equipamentos para telecomunicaes automao industrial mquinas-ferramenta mquinas agrcolas equipamentos para energia eltrica

Qumica Bsica

Agroindstrias de exportao Celulose e papel Bens Durveis e Seus Fornecedores Automotivo Eletrnico Bens Tradicionais Agroindstria de alimentao Txtil-calados

Mobilirio Bens Difusores de Progresso Tcnico Equipamentos eletrnicos

Equipamentos eletro-mecnicos

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Caractersticas da Amostra da Pesquisa de CampoOs setores selecionados foram alvo de uma pesquisa de campo com questionrio realizada pelo Estudo da Competitividade da Indstria Brasileira entre novembro de 1992 e junho de 1993. A Tabela 1.2 descreve as principais caractersticas do painel de empresas, extrado dos resultados dessa pesquisa de campo, que serviu de base para as anlises apresentadas ao longo do livro. Um maior detalhamento dos procedimentos adotados na realizao da pesquisa de campo pode ser encontrado no Apndice.Tabela 1.2 Caracterizao do Painel de Empresas Segundo Origem do Capital, Coeficiente de Exportao e Tamanho(% respondentes)Caracterizao Origem do capital (N.) nacional estrangeiro Exportaes (N.) at 5% 5 e 20% + 20% Tamanho (N.) at US$ 10 milhes 10 a US$ 100 milhes + de US$ 100 milhes Commodities 104 89,4 10,6 111 37,8 20,7 41,5 111 10,8 36,9 52,3 Durveis 27 48,1 51,9 54 46,3 31,5 22,2 54 24,1 50,0 25,9 Tradicionais 80 96,3 03,8 258 67,4 13,2 19,3 258 57,0 34,9 08,1 Difusores 67 74,6 25,4 85 52,9 29,4 17,7 85 51,8 37,6 10,6 Total 278 83,8 16,2 508 56,3 19,5 24,2 508 42,5 37,4 20,1

N.: nmero de empresas que responderam ao quesito. Fonte: Pesquisa de campo ECIB 1992/93

O setor privado nacional predomina nos segmentos de commodities, difusores de progresso tcnico e setores tradicionais; o setor estatal (em processo de privatizao) est concentrado na produo de commodities enquanto as empresas estrangeiras predominam no segmento de durveis, tendo ainda participao importante em alguns nichos de produo de equipamentos e de bens de consumo final. A exposio s exportaes, como esperado, est concentrada nos produtores de commodities.

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O porte das empresas nos distintos segmentos bem diferenciado: nos difusores de progresso tcnico h prevalncia de empresas de menor porte assim como nas indstrias tradicionais, apesar de existir nesse grupo grande variedade de tamanhos, possuindo as empresas lderes maior porte. Nas indstrias de commodities e durveis h maior homogeneidade e a esto as empresas de maior porte do pas, em geral pertencentes a grandes grupos econmicos. Este perfil possivelmente explicado pela natureza da base tcnica dos distintos segmentos: durveis e commodities so atividades intensivas em escala requerendo empresas de maior porte seja por serem de processo contnuo nesse ltimo caso, ou de montagem em massa no primeiro caso. J nos segmentos de equipamentos e no durveis, em sua grande maioria as atividades so intensivas em montagem, mas as economias de escala no so imprescindveis para a sobrevivncia econmica. De fato, nesses segmentos, economias de escala e escopo podem ser auferidas em conjunto ou em separado.

Procedimentos AdotadosAvaliar a capacidade de formular e implementar estratgias significa identificar o padro de concorrncia os fatores relevantes para o sucesso competitivo, sejam empresariais, estruturais ou sistmicos , verificar a sua importncia setorial no presente e a que se pode esperar no futuro esse componente preditivo indispensvel, particularmente na anlise dos setores mais dinmicos e avaliar o potencial das firmas do pas com relao a eles. Alcana-se, assim, uma abordagem dinmica do desempenho competitivo da empresa, integrada ao exame de seus fatores determinantes. Em termos prticos, a avaliao da competitividade se traduz na necessidade de elaborao de critrios multidimensionais de aferio do desempenho competitivo das empresas, privilegiando aqueles efetivamente relevantes de acordo com os padres de concorrncia vigentes em cada mercado analisado e as expectativas de evoluo destes. Definida a noo de competitividade no nvel da empresa individual, podem ser considerados como competitivos os setores onde a maior parte da produo ocorre em firmas competitivas, tomando-se como referncia os padres internacionais. No caso de setores muito heterogneos, em que a estrutura industrial contm empresas lderes e no-lderes em propores significativas, a competitividade deve ser avaliada atravs da comparao das estruturas industriais, segmento a segmento.51

A metodologia utilizada para a avaliao da competitividade da indstria brasileira baseou-se no tratamento estatstico conjugado de informaes sobre os fatores crticos de sucesso competitivo em mercados especficos e os desempenhos, capacitaes e estratgias das empresas. Para cada grupo industrial cumpriu-se uma seqncia de trs passos:n

Identificao dos padres de concorrncia praticados na indstria brasileira. Isso foi feito a partir do tratamento estatstico das informaes sobre a viso das empresas quanto aos fatores determinantes do sucesso competitivo no seu setor de atuao levantadas pela pesquisa de campo. Os padres de concorrncia encontrados para os grupos industriais e segmentos selecionados, comparados s prticas verificadas na indstria internacional, assim como as tendncias esperadas de mudana nas trajetrias competitivas em todo o mundo (as best-practices internacionais), forneceram o quadro de referncia para a realizao dos passos seguintes. Diagnstico da competitividade dos segmentos e grupos industriais no Brasil. Foram examinadas as condies no Brasil do mercado, configurao da indstria e regime de incentivos e regulao da concorrncia dos segmentos industriais selecionados com nfase nos fatores empresariais, estruturais e sistmicos identificados na etapa anterior como relevantes para a competitividade. Devido ao fato dos fatores crticos de sucesso variarem conforme o segmento, estratgias competitivas, desempenhos econmicos e produtivos e estgios de capacitao gerencial, produtiva, inovativa e dos recursos humanos das empresas brasileiras foram aferidos e avaliados em termos de sua aderncia ao padro de concorrncia do segmento industrial em que atuam. As anlises foram fortemente apoiadas nas informaes geradas pela pesquisa de campo. Identificao dos desafios competitivos para os grupos industriais, o que foi feito atravs da hierarquizao dos obstculos e oportunidades competitividade da indstria nacional. Como a competitividade depende no somente da aderncia das empresas ao padro de concorrncia vigente no presente, mas tambm e principalmente das empresas estarem preparadas para se adaptar a sua mudana, procedeu-se a avaliao da

n

n

52

situao atual e a que se pode esperar no futuro prximo, em funo da capacitao prvia e estratgias perseguidas pelas empresas brasileiras e das transformaes esperadas no ambiente competitivo.

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54

Captulo

A Herana da Crise Econmica e o Contexto da Indstria no Incio dos Anos 90

2

o perodo 1965/80 o setor manufatureiro brasileiro alcanou taxa mdia de crescimento de 9,5% ao ano. Segundo estimativas da UNIDO (1985), dentre os pases em desenvolvimento esse nmero foi suplantado somente pela Coria do Sul, Cingapura e Indonsia. A estrutura industrial resultante dessa fase de expanso industrial acelerada no diferia de modo significativo da maior parte das economias da OCDE. De acordo com a mesma fonte, em 1980, a participao conjunta dos complexos qumico e metalmecnico no produto industrial era de 59% no Brasil, enquanto nas trs economias mais desenvolvidas EUA, Japo e Alemanha Ocidental esses valores eram de 64,4, 64,5 e 69,8%, respectivamente. Porm, a debilidade do mercado interno brasileiro aps a concluso do ciclo de substituio de importaes, a deficiente integrao com o mercado internacional e, principalmente, a limitada capacitao das empresas nacionais para desenvolver novos processos e produtos, constituam, j naquele momento, elementos potencialmente desestabilizadores do processo de industrializao brasileiro.

N

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Com o incio dos anos 80 vieram dez anos de instabilidade e estagnao que conduziram ao atraso relativo da indstria brasileira. Ao mesmo tempo em que a indstria mundial passava por um processo de intensa transformao, o investimento produtivo no pas se contraa. Afora o pequeno perodo de recuperao em meados da dcada resultante inicialmente da expanso das exportaes e de um excelente desempenho da agricultura e, a seguir, do fortalecimento do mercado interno proporcionado pelo Plano Cruzado o declnio do produto interno bruto e das taxas de investimento predominaram nos anos 80. Como conseqncia, em 1989 a renda per capita do pas situava-se no mesmo nvel de 1980, deteriorando-se ainda mais no incio dos anos 90, conforme mostra a Tabela 2.1.Tabela 2.1 Evoluo do Produto e do Investimento Bruto Ano PIB (US$ bilhes) 375 358 359 347 365 394 424 439 439 453 433 438 435 456 PIB Taxa de Variao Anual per capita (US$) -% 9,2 -4,5 0,3 -3,3 5,2 7,9 7,6 3,5 0,0 3,2 -4,4 1,2 -0,7 4,8 3.157 2.958 2.916 2.761 2.852 3.019 3.187 3.239 3.174 3.217 3.017 2.993 2.912 2.999 Taxa de Investimento (%) 22,8 20,9 19,4 16,9 16,2 16,3 18,7 17,8 17,0 16,5 15,8 15,1 14,5 15,0

1980 1981 1982 1983 1984 1985 1986 1987 1988 1989 1990 1991 1992 1993

Fonte: PIB e PIB per capita: Banco Central do Brasil, Relatrios Anuais, valores a preos de 1993. Taxa de investimento Srie revisada pelo IPEA conforme nova metodologia do IBGE,in: Indicadores IESP, no 28, maio 1994, p. 44.

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Ao longo do perodo enfocado, a indstria brasileira foi incapaz de manter um crescimento sustentado, pouco contribuiu para a incorporao aos mercados de trabalho e de consumo de amplas parcelas da populao deles alijadas e tampouco evoluiu no sentido de uma insero mais valorizada do pas no cenrio internacional. Enfrentando um ambiente macroeconmico extremamente adverso ao longo de todo esse perodo, as empresas industriais adotaram estratgias de sobrevivncia que embora demonstrem grande capacidade de resposta, esto levando a transio na direo do novo paradigma tecnolgico e competitivo internacional de forma desigual entre setores e empresas e com importantes lacunas.

A Herana da CriseA conjuntura macroeconmica adversa por um perodo de tempo prolongado, marcada por descontrole da inflao, estagnao da economia e crise de financiamento do setor pblico, teve srias repercusses sobre os determinantes sistmicos da competitividade. A deteriorao das condies macroeconmicas ocorreu em um perodo em que j se configurava uma desarticulao institucional do Estado desenvolvimentista de carter estrutural. O resultado foi desastroso em termos dos fatores poltico-institucionais da competitividade O Estado foi progressivamente perdendo capacidade tanto de interveno no que diz respeito a polticas fiscais, industriais e tecnolgicas ativas quanto de ordenar e operar as polticas nas quais seu papel mais passivo e de carter regulatrio. Ainda como decorrncia das dificuldades fiscais e operacionais do setor pblico, a expanso e mesmo a manuteno dos nveis correntes de qualidade e confiabilidade das infra-estruturas de energia, transporte e telecomunicaes, que no Brasil so controladas pelo Estado, ficaram comprometidos em vista do colapso na capacidade de investimento pblico. Finalmente, esse quadro de estagnao econmica, acelerao inflacionria e desorganizao do setor pblico teve tambm impactos desfavorveis sobre os determinantes sociais da competitividade, principalmente no que diz respeito educao e qualificao da mo-de-obra e aos padres de vida da grande maioria dos consumidores.

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A Situao MacroeconmicaAo iniciar-se a dcada de 90 a economia brasileira mantinha-se em um processo de exploso inflacionria com tendncias hiperinflao reprimidas por planos de estabilizao cada vez menos eficazes. Como se observa na Figura 2.1, as taxas de inflao medidas pelos principais ndices de preos apresentaram oscilaes abruptas e, a partir de 1988, atingiram em diversos anos valores na casa de quatro dgitos. O comportamento instvel dos preos aliado s distores na conduo da economia introduzidas pela sucesso de experimentos malsucedidos de controle da inflao afetaram negativamente os determinantes macroeconmicos da competitividade. Os efeitos da inflao alta e crnica sobre a competitividade so bem conhecidos. O quadro de hiperinflao latente inviabiliza o clculo econmico de mdio e longo prazo e encurta os horizontes decisrios de todos os agentes, desorganizando os planos de investimentos. A perda de transparncia do sistema de preos em situaes de instabilidade favorece o repasse dos aumentos dos custos aos consumidores, o que pode desestimular a busca de maior eficincia na produo. Do mesmo modo, as reas financeira e comercial tornam-se mais decisivas para o desempenho da empresa que a de produo. As receitas no-operacionais e as provenientes da habilidade em negociar preos ou antecipar reajustes tendem a superar em muito os ganhos advindos da racionalizao produtiva. As empresas vem-se obrigadas a realizar esforos administrativos substanciais na negociao com fornecedores e clientes, particularmente durante os perodos de vigncia dos planos de estabilizao, quando os contratos so rompidos e tm que ser renegociados. No caso brasileiro, a recorrncia de planos antiinflacionrios (entre 1986 e 1994 foram implementados pelo menos seis planos), implicou o desenvolvimento de comportamentos defensivos que, com o aprendizado, foram se aperfeioando ao longo do tempo. A remarcao preventiva de preos apenas a forma mais visvel desses comportamentos.

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ndices de Preos3000,00 2500,00 2000,00 1500,00 1000,00 500,00 0,00

1988

1981

1982

1986

1987

1983

1991

1980

1984

1989

1985

INPC

IPA-OG Total

IPA-OG Indstria

1990

1992

INPC ndice Nacional de Preos ao Consumidor. IPA-OG ndice Preo no Atacado Oferta Global. Fonte: Indicadores IBGE e Conjuntura Econmica FGV, vrios nmeros.

Figura 2.1 ndices de preos

A origem do descontrole do processo inflacionrio remonta ao fim dos anos 70 quando o endividamento externo do pas, que vinha crescendo rapidamente em conseqncia dos choques de preos do petrleo, tornou-se crtico com a subida das taxas de juros internacionais ocorrida em 1979 e posteriormente insustentvel com a cessao dos influxos de capital estrangeiro aps a moratria mexicana em 1982. As presses decorrentes do desequilbrio do balano de pagamentos deixavam pequena margem de manobra para a poltica econmica. Desde o incio da dcada de 80, o regime cambial esteve inteiramente voltado para impedir a qualquer custo que o esforo exportador do pas, prioridade central da poltica econmica nesse perodo de condies internacionais adversas, fosse prejudicado por uma sobrevalorizao cambial crnica e insustentvel. Isto levou a uma poltica de minidesvalorizaes cambiais freqentes (dirias) e periodicamente a episdios de maxidesvalorizao. Esse regime de poltica cambial, embora tenha implicado flutuaes errticas das taxas de cmbio reais, conseguiu cumprir o seu pa59

1993

IPA-OG Agrcola

pel primordial de evitar uma sobrevalorizao excessiva. No entanto, foi responsvel pela introduo de um forte componente de acelerao inflacionria, decorrente tanto dos choques causados pelas maxidesvalorizaes quanto do impacto da regra cambial no aumento do grau de indexao da economia. O crculo vicioso que se estabeleceu entre choques cambiais e acelerao inflacionria teve efeitos destrutivos sobre a situao fiscal e patrimonial do setor pblico. O manejo da dvida externa, que havia sido estatizada no incio da dcada como uma das medidas de ajuste crise do balano de pagamentos, levou a um desequilbrio crnico das finanas pblicas ao mesmo tempo que o colapso na demanda pela moeda local, em franca desvalorizao, diminua a capacidade do governo tomar emprstimos internos a prazos mais longos. A nica forma de financiamento ainda aberta era a emisso de ttulos da dvida pblica de curtssimo prazo. Esses ttulos, que o governo foi forado a tornar cada vez mais lquidos e garantidos, alm de perfeitamente indexados a prazos diminutos, acabam se transformando em moeda indexada, o que, embora tenha evitado uma fuga desordenada para o dlar e os ativos reais e a conseqente exploso hiperinflacionria, destruiu completamente a capacidade do governo de fazer poltica macroeconmica. O regime de moeda indexada impede o governo de separar a poltica fiscal da monetria pois todo o dficit tem que ser financiado por moeda indexada. A necessidade de garantir liquidez total para esses ttulos torna a oferta de moeda totalmente endgena e sem possibilidade de controle. Nesse regime, a nica arma que o governo dispe para evitar uma hiperinflao aberta o aumento nas taxas de juros. No entanto, essa poltica no apenas realimenta o componente financeiro do dficit pblico e, paradoxalmente, amplia a oferta de moeda indexada, como tambm leva a uma acelerao da inflao, pois nessas condies a taxa de juros de curtssimo prazo se torna o piso comum dos mark-ups nominais embutidos nos preos de oferta de todos os setores da economia. Devido inexistncia de taxas de juros factveis que pudessem compensar os riscos tanto do tomador quanto do devedor chegou-se a uma situao de regresso financeira. A desarticulao do sistema de crdito privado da economia levou a uma queda brutal no crdito ao consumidor, afetando o dinamismo da demanda principalmente por bens de consumo durveis. Ao mesmo tempo, as empresas fugiram do crdito bancrio, investindo pouco e basicamente com recursos pr60

prios, fato que restringiu a renovao de equipamentos e processos produtivos e ampliou a obsolescncia do parque industrial. Certamente, o racionamento do crdito de longo prazo e o custo elevado do capital esto entre os fatores que mais inibiram a modernizao da indstria. A melhoria nas condies de financiamento externo ocorrida no incio dos anos 90 tornou possvel uma gradual recuperao da economia a partir de 1993. A queda brusca da inflao conseguida com a reforma monetria de julho de 1994, e a conseqente reativao do crdito e do consumo interno, levou a um processo de rpida retomada do crescimento. No entanto, a sustentao desse ciclo expansivo vai depender da confirmao dos primeiros sinais de reativao do investimento privado, reativao esta que pode ser abortada prematuramente se o governo no conseguir evitar a deteriorao da situao da balana de pagamentos da economia nem solucionar a difcil questo dos financiamentos de longo prazo no pas.

A Desorganizao do EstadoA instabilidade macroeconmica e a exploso inflacionria em conjunto com os custos de ajustamento crise da dvida externa teve por conseqncia no apenas a crise financeira do setor pblico, mas tambm uma profunda crise institucional com a desarticulao e perda de capacidade operacional de diversos orgos do governo encarregados de executar a poltica econmica. Esse processo teve efeitos extremamente desfavorveis em relao maior parte dos determinantes poltico-institucionais da competitividade. Por um lado, as polticas de carter regulatrio, nas quais a forma de interveno estatal mais passiva e de carter eminente supervisrio, sofreram muito com o desaparelhamento tcnico e a crescente ineficincia da burocracia estatal. Incluem-se nesse caso as polticas de promoo da concorrncia, defesa do consumidor, proteo ambiental, proteo da propriedade intelectual e regulao do investimento direto estrangeiro. As diversas alteraes introduzidas na legislao no perodo mais recente, embora em tese pudessem trazer importantes efeitos modernizantes, no produziram ainda impactos positivos significativos sobre a competitividade industrial devido a deficincias na sua aplicao.

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Por outro lado, as polticas de interveno ativa como a de comrcio exterior, tributria, industrial e cientfica e tecnolgica foram vtimas de dificuldades adicionais ligadas falta de recursos e de um mnimo de continuidade e planejamento estratgico das autoridades governamentais. Durante boa parte da dcada de 80, a poltica de comrcio exterior e tarifria ficou inteiramente subordinada ao objetivo maior, imposto pela crise externa, de minimizar as importaes a qualquer custo atravs do recurso a todo tipo de barreiras tarifrias e no-tarifrias. Mais para o final da dcada, comeou o processo de reviso da estrutura tarifria em que se promoveu inicialmente a substituio de barreiras no-tarifrias por proteo tarifria e posteriormente a reduo geral das alquotas. A poltica tributria tambm encontrou obstculos. Apesar de nominalmente alta, a carga tributria brasileira tem se mostrado pouco dinmica em termos reais desde o incio da dcada de 80, devido entre outros fatores inflao e sonegao. A inflao dificulta a cobrana dos impostos declaratrios e os que implicam defasagem temporal entre dbitos e crditos, inviabilizando em grande medida a poltica tributria. O resultado foi a diminuio da carga tributria global, que recuou para 24,8% do PIB, valor muito abaixo da sua mdia histrica, que era de cerca de 30% do PIB (IPEA, 1994). As relaes entre tributao e competitividade no se esgotam no tamanho da carga tributria, mas dizem respeito tambm e principalmente relao entre sua dimenso e estrutura, sua compatibilidade com os blocos de comrcio com os quais o pas transaciona, bem como a eficincia do sistema arrecadador. A progressiva mudana na estrutura e sistemtica de arrecadao em favor das bases indiretas de tributao, sobretudo os que incidem sobre o faturamento que so automaticamente indexados inflao, aguou as distores da incidncia dos impostos no plano microeconmico, ampliando a disperso dos tributos entre regies e setores. O peso excessivo das contribuies sociais e outros tributos que incidem em cascata sobre o faturamento impede a desonerao fiscal plena das exportaes e protegem involuntariamente as importaes, as quais recebem tratamento tributrio mais compatvel com a competitividade nos seus pases de origem. Todos esses fatores conjugados comprometeram seriamente a eficcia do sistema tributrio nacional. Ao aumento da importncia da poltica cientfica e tecnolgica como externalidade na acumulao e difuso de capacitao tecnol62

gica empresarial no tem correspondido igual aumento da prioridade concedida rea no Brasil. Ao contrrio, nos ltimos anos observou-se uma deteriorao parcial da infra-estrutura tecnolgica devido escassez de recursos pblicos e aos baixos nveis de investimentos privados. Tambm a realizao de pesquisa associativa no se difundiu entre as empresas brasileiras. O distanciamento entre centro de pesquisa e indstria diminuiu em alguns setores, principalmente devido criao de entidades tecnolgicas setoriais e implementao de programas mobilizadores. No entanto, nas atividades de P&D h carncias de capacitaes especficas em determinadas reas e duplicaes em outras e no se conseguiu reduzir a histrica inelasticidade da oferta de tecnologia industrial bsica no pas, evidenciando as dificuldades de coordenao de esforos, em particular na definio dos horizontes para os dispndios privados. As polticas de apoio ao risco tecnolgico encontram-se restringidas pela subcapitalizao crnica dos fundos de financiamento a pesquisa e desenvolvimento. Esse apoio limita-se a transferncia de recursos fiscais a fundo perdido para as universidades e instituies de pesquisas e concesso de financiamentos de longo prazo pelas instituies oficiais de crdito, com contrapartida compulsria de recursos por parte do setor empresarial. Ambos tm sido mobilizados em volume claramente insuficiente. As empresas estatais e o setor pblico em geral praticaram no passado polticas de compras que, ao garantir demanda e impor normas e padres para os equipamentos e servios adquiridos, contriburam para o desenvolvimento tecnolgico de sua rede de fornecedores. Essas empresas, progressivamente aprisionadas pela poltica de estabilizao, perderam capacidade de financiamento, com quase-paralisao dos investimentos e, conseqentemente, das compras de equipamentos. Com isso, um dos instrumentos centrais para a capacitao tecnolgica do setor privado ficou enfraquecido. As conseqncias da desarticulao ocorrida no sistema de desenvolvimento cientfico e tecnolgico brasileiro ao longo da dcada de 80 so ainda mais graves quando se leva em considerao o fato de que esse foi um perodo de intensificao dos esforos tecnolgicos no mundo. Como mostra a Figura 2.2, enquanto no Brasil os gastos em P&D como proporo do produto nacional bruto mantiveram-se estagnados em 0,7% entre 1975 e 1989, os da Coria do Sul, por exemplo, aumentaram em cerca de seis vezes, ultrapassando a casa dos 2% ao final do perodo, aproximando-se dos nveis dos pases desenvolvidos.63

Gastos Totais em P&D/PNB em Pases Selecionados 1975, 1985-87 e 1989 3 Percentual 1975 1985-87 1989

2

1

0

EUA

Japo Reino Unido

Frana Alemanha

Itlia

Brasil Coria do Sul

Fonte: Nelson (1993) e OECD (1993): extrado de ECIB (1994).

Figura 2.2 Gastos Totais em P&D/PNB em Pases Selecionados 1975, 1985/87 e 1989

A Deteriorao do Sistema de Infra-Estrutura FsicaDesde o incio do perodo de dificuldades externas enfrentado pela economia brasileira no final da dcada de 70, o governo utilizou as empresas estatais encarregadas de prover a infra-estrutura de energia, transporte e telecomunicaes como instrumentos de poltica econmica, forando-as a captar recursos externos para fechar o balano de pagamentos e utilizando sistematicamente a subindexao de tarifas como instrumento precrio de combate inflao a curto prazo. O resultado da utilizao desse tipo de poltica por mais de uma dcada o quadro atual de grave deteriorao fsica e obsolescncia da capacidade operacional e de planejamento do sistema de infra-estrutura, em decorrncia principalmente do longo perodo de estagnao dos investimentos. De fato, essa poltica mope de tarifas pblicas baixas implicou a virtual destruio da capacidade de ampliao e modernizao das infra-estruturas a mdio prazo, comprometendo a integrao do mercado interno e a competitividade internacional da indstria. A degradao fsica e a obsolescncia das condies de transporte e atividades conexas (armazenagem e terminais, porturios principalmente) atingiu nveis que oneram a competitividade industrial, em64

particular das exportaes. A falncia dos mecanismos de financiamento pblico inibiu no apenas novos investimentos como a prpria conservao e operao dos sistemas de transporte existentes. As rodovias encontram-se em estado precrio em mais de 1/3 do total sob responsabilidade federal, as ferrovias apresentam um quadro de completa estagnao da capacidade instalada e deteriorao das condies de operao, enquanto os portos possuem graves deficincias na operao e nos custos, ocasionando notrios prejuzos aos seus usurios. A infra-estrutura energtica tambm enfrenta dificuldades semelhantes. No caso da energia eltrica, a capacidade instalada para atender demanda proveniente de uma recuperao econmica vigorosa ser provavelmente insuficiente. Distores acumuladas na repartio entre modalidades de energia especialmente entre derivados de petrleo e energia eltrica tambm geram ineficincia e custos elevados . A situao da telefonia brasileira precria tanto em nmero de terminais quanto, principalmente, nos indicadores de densidade telefnica. O crescimento recente do trfego nacional, e particularmente do internacional, desacompanhado de investimentos adequados, aponta para o risco de congestionamento. O trfego de comunicao de dados, o que mais tem crescido nos ltimos anos, apresenta srios problemas de qualidade e confiabilidade.

A Contrao da Base de MercadoA fase de crescimento acelerado que antecedeu a crise econmica dos anos 80 foi incapaz de eliminar o desemprego estrutural e promover a incorporao da populao a padres contemporneos de consumo e de insero no mercado de trabalho. Ao contrrio, o aumento das desigualdades sociais elevadas e de origem remota marcou o perodo do milagre brasileiro. Essa tendncia se aprofundou na dcada de 80, embora do ponto de vista social tenha havido alguns avanos, notadamente na democratizao do pas, na organizao da sociedade civil e em alguns aspectos das condies de vida, como reduo da mortalidade infantil, das taxas de analfabetismo e melhoria no saneamento bsico. A extrema desigualdade na distribuio de renda que vigorava ao incio da dcada e seu aprofundamento ao longo dos anos seguintes pode ser vista na Tabela 2.2.

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Tabela 2.2 Apropriao da Renda pelos 10% Mais Ricos e 20% Mais Pobres Indicadores 10% mais ricos 20% mais pobres ndice de Gini 1981 44,9 2,9 0,636 1983 46,2 2,8 0,694 1986 47,3 3,0 0,718 1990 48,1 2,6 0,746

Obs.: Distribuio dos rendimentos da populao ocupada. Fonte: IBGE, PNAD.

A falta de eqidade na sociedade brasileira no encontra paralelo no mundo, nem mesmo em pases com menor nvel de desenvolvimento econmico. Como mostra a Tabela 2.3, em termos de qualidade de vida, o Brasil tambm se distancia no s dos pases desenvolvidos, como de outros com nvel similar de renda per capita.Tabela 2.3 Indicadores Bsicos Brasil e Pases Selecionados 1990Brasil PIB per capita US$ Distribuio de renda (%) 10% mais ricos 20% mais pobres Expectativa de vida (anos) Analfabetismo (%) Mortalidade infantil (/1.000 hab.)Fonte: Banco Mundial e IBGE.

Japo 25.430

EUA 21.790

Espanha 11.020

Grcia 5.990

Coria 5.400

Mxico 2.490

3.017

48,1 2,6 66 20% 45

22,4 8,7 79