Literatura Portuguesa III - Portal ? Literatura Portuguesa III So Cristvo/SE 2011 Ana Maria

  • Published on
    08-Aug-2018

  • View
    212

  • Download
    0

Transcript

  • Literatura Portuguesa III

    So Cristvo/SE2011

    Ana Maria Macedo ValenaMagna Maria de Oliveira RamosLenia Garcia Costa Carvalho

  • Projeto Grfico e CapaHermeson Alves de Menezes

    DiagramaoNeverton Correia da Silva

    Elaborao de ContedoAna Maria Macedo Valena

    Magna Maria de Oliveira RamosLenia Garcia Costa Carvalho

    Valena, Ana Maria Macedo. V142I Literatura Portuguesa III/ Ana Maria Macedo Valena, Magna Maria de Oliveira Ramos, Lenia Garcia Costa Carvalho -- So Cristvo: Universidade Federal de Sergipe, CESAD, 2011.

    1. Literatura portuguesa. 2. Poesia portuguesa 3. Modernismo. I. Ramos, Magna Maria de Oliveira, Carvalho, Lenia Garcia Costa. II. Ttulo. CDU 821.134.3

    Copyright 2011, Universidade Federal de Sergipe / CESAD.Nenhuma parte deste material poder ser reproduzida, transmitida e gravada por qualquer meio eletrnico, mecnico, por fotocpia e outros, sem a prvia autorizao por escrito da UFS.

    Ficha catalogrFica produzida pela BiBlioteca centraluniversidade Federal de sergipe

    Literatura Portuguesa III

  • Presidente da RepblicaDilma Vana Rousseff

    Ministro da EducaoFernando Haddad

    Secretrio de Educao a DistnciaCarlos Eduardo Bielschowsky

    ReitorJosu Modesto dos Passos Subrinho

    Vice-ReitorAngelo Roberto Antoniolli

    Chefe de GabineteEdnalva Freire Caetano

    Coordenador Geral da UAB/UFSDiretor do CESAD

    Antnio Ponciano Bezerra

    Vice-coordenador da UAB/UFSVice-diretor do CESADFbio Alves dos Santos

    Diretoria PedaggicaClotildes Farias de Sousa (Diretora)

    Diretoria Administrativa e Financeira Edlzio Alves Costa Jnior (Diretor)Sylvia Helena de Almeida SoaresValter Siqueira Alves

    Coordenao de CursosDjalma Andrade (Coordenadora)

    Ncleo de Formao ContinuadaRosemeire Marcedo Costa (Coordenadora)

    Ncleo de AvaliaoHrica dos Santos Matos (Coordenadora)Carlos Alberto Vasconcelos

    Ncleo de Servios Grficos e Audiovisuais Giselda Barros

    Ncleo de Tecnologia da InformaoJoo Eduardo Batista de Deus AnselmoMarcel da Conceio SouzaRaimundo Araujo de Almeida Jnior

    Assessoria de ComunicaoEdvar Freire CaetanoGuilherme Borba Gouy

    Coordenadores de CursoDenis Menezes (Letras Portugus)Eduardo Farias (Administrao)Haroldo Dorea (Qumica)Hassan Sherafat (Matemtica)Hlio Mario Arajo (Geografia)Lourival Santana (Histria)Marcelo Macedo (Fsica)Silmara Pantaleo (Cincias Biolgicas)

    Coordenadores de TutoriaEdvan dos Santos Sousa (Fsica)Geraldo Ferreira Souza Jnior (Matemtica)Ayslan Jorge Santos de Araujo (Administrao)Carolina Nunez Goes (Histria)Rafael de Jesus Santana (Qumica)Gleise Campos Pinto Santana (Geografia)Trcia C. P. de Santana (Cincias Biolgicas)Vanessa Santos Ges (Letras Portugus)Lvia Carvalho Santos (Presencial)

    UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPECidade Universitria Prof. Jos Alosio de Campos

    Av. Marechal Rondon, s/n - Jardim Rosa ElzeCEP 49100-000 - So Cristvo - SE

    Fone(79) 2105 - 6600 - Fax(79) 2105- 6474

    NCLEO DE MATERIAL DIDTICO

    Hermeson Menezes (Coordenador)Arthur Pinto R. S. AlmeidaMarcio Roberto de Oliveira Mendoa

    Neverton Correia da SilvaNycolas Menezes Melo

  • SumrioAULA 1A esttica simbolista............................................................................07

    AULA 2A poesia simbolista portuguesa. ....................................................... 19

    AULA 3Florbela Espanca ( Poesia ) .............................................................. 37

    AULA 4O Modernismo em Portugal. A gerao Orpheu.. ............................. 53

    AULA 5O Modernismo em Portugal - Fernando Pessoa e a Modernidade.............67

    AULA 6O Modernismo em Portugal - Fernando Pessoa- poesia ortnima . . 85

    AULA 7O Modernismo em Portugal - Fernando Pessoa e seus heternimos................................................................................99

    AULA 8O Neorrealismo em Portugal ........................................................... 121

    AULA 9O romance portugus: do neorrealismo ao existencialismo. .......... 137

    AULA 10O romance portugus de Bolor a Saramago ................................ 153

  • A ESTTICA SIMBOLISTA

    METADescrever os principais acontecimentos sociais, polticos e econmicos, que no final do sculo XIX em Portugal, vo contribuir para o estabelecimento de uma viso do mundo e da arte.

    OBJETIVOSAo final desta aula, o Aluno dever:entender o momento histrico em que ocorreu a esttica simbolista;caracterizar a arte e a literatura do perodo.

    PR-REQUISITOSAulas sobre o Realismo Portugus.

    Aula

    1

  • 8

    Literatura Portuguesa III

    INTRODUO

    Caro aluno,Vamos dar continuidade aos estudos da literatura portuguesa iniciando

    agora a disciplina Literatura Portuguesa III, cujo programa abrange o final do sculo XIX at a contemporaneidade.

    Na aula de hoje vamos estudar o Simbolismo, estilo literrio que marcou o fim do sculo XIX 1870 at o incio do sculo XX 1915. Como pr-requisito para essa aula, foram indicadas as aulas sobre o Realismo Portugus para que o aluno seja capaz de contrapor os dois momentos - Realismo e Simbolismo.

    Ao estudar os perodos literrios, o aluno deve perceber que, como em um ciclo, uma nova esttica se ope imediatamente anterior e se volta para uma mais remota. Ou seja, o Simbolismo ope-se ao Realismo e se volta para o Romantismo que por sua vez, voltava-se para o medievalismo. Visualize o pequeno grfico para melhor compreenso:

    Idade Mdia Classicismo Romantismo Realismo Simbolismo

    Mas ao constatar o retorno, que se d atravs das principais caractersti-cas do estilo, o aluno jamais deve pensar em retrocesso. Ao contrrio, o que devemos tentar captar a evoluo literria. Sim, atravs do movimento e interseo entre os estilos que a literatura evolui. Veja bem, o simbolismo se volta para o subjetivismo do romntico e para o misticismo medieval, mas uma esttica que avana para o novo e produz uma revoluo formal capaz de favorecer o surgimento da arte moderna e dela considerado precursor. Para estud-lo, nossa aula est dividida em trs grandes blocos: Momento histrico, Momento artstico e Momento literrio. Desejo a vocs um bom proveito.

    A ESTTICA SIMBOLISTA

    MOMENTO HISTRICO - O FIM DO SCULO XIX EM PORTUGAL

    Caro aluno, preciso sempre, ao estudar a literatura de um pas, ficar antenado com relao aos acontecimentos histricos que determinam a produo literria. Acredito que vocs j devam ter bem ntida essa preocu-pao. O Simbolismo um movimento artstico do final do sculo XIX e incio do sculo XX, mais exatamente, de 1890 a 1915.

    RETORNO

  • 9

    A esttica simbolista Aula

    1Ora, o que estava acontecendo em Portugal nessa poca? Como ter-minou o movimento realista? De que forma se deu a passagem para outro movimento artstico-literrio?

    Vocs devem estar lembrados de que a gerao de 1870, a do Realismo, foi extremamente combativa e desejava a todo custo, transformar a socie-dade portuguesa. Com esse objetivo, desenvolveram uma atitude de crtica contundente e posicionaram-se veementemente contra a monarquia, contra a Igreja e contra a burguesia. Para os realistas, a obra literria era arma de combate ou meio de ao e pregavam, por isso, a arte comprometida. Sim, arte e literatura comprometida com a crtica social e com o desejo de reformar o mundo. E assim fizeram, e assim escreveram. De todos Ea de Queirs foi o mais importante. Abraou a causa e ao escrever O Crime do Padre Amaro, O Primo Baslio e Os Maias, procurou oferecer ao leitor um vasto painel das mazelas sociais portuguesas.

    Pois bem, toda a garra combativa da gerao de 1870 vai-se transfor-mando em um pessimismo, produto de uma sensao de derrota. Mais ou menos em fins de 1877 e princpios de 1888, os realistas passam a integrar um grupo chamado Os Vencidos da Vida. um ttulo bastante indicativo do que vir a seguir. A gerao combativa transformou-se em uma gerao vencida, consciente de que tudo foi em vo. Eis aqui a origem do perodo seguinte o Simbolismo. Os realistas desencantaram-se e evoluram para a melancolia e para a tristeza. Para eles, toda a ao exercida pareceu ter sido intil. O prprio Ea de Queirs, to combativo que fora, em sua terceira e ltima fase, evolui para uma obra serena, fruto da conscincia de ter sido intil toda a crtica da sociedade portuguesa.

    o desencanto que se instala e vai caracterizar o fim do sculo em Portugal. A partir de 1890, o desalento que caracteriza a mentalidade portuguesa. O suicdio de Antero Quental, grande poeta realista portugus, assinala, em 1891, o incio do perodo chamado tambm de Decadentismo. Para melhor fixar as informaes, o aluno pode, a partir de agora, relacionar Simbolismo com Decadentismo. Esse termo representativo porque aponta para atmosfera de decadncia que caracterizou a sociedade portuguesa do final do sculo XIX. Em Portugal, o Simbolismo est diretamente ligado a um profundo estado depres-sivo, conforme j assinalamos. Recorro aqui a Jos de Nicola, expondo os trs fatos histricos decisivos para o esprito de decadncia: (NICOLA, 1999 p. 175)

    A CRISE DA MONARQUIA

    O regime poltico em vigor ainda era a monarquia. Mas desde 1870 j havia surgido vrios agrupamentos socialistas (responsveis pelas primeiras greves operrias) e republicanos. Chamo a ateno para esse fato poltico: a gerao anterior, a do Realismo, j era anti-monrquica e se declarava repub-licana. Aqui, voc poder ampliar seu horizonte de compreenso refletindo

  • 10

    Literatura Portuguesa III

    sobre a transio do sistema monrquico para o republicano tanto na Europa quanto nos Estados Unidos e no Brasil.

    O ULTIMATO INGLS

    Chama-se Ultimato Ingls a exigncia feita pela Inglaterra a Portugal para a retirada imediata das tropas portuguesas fincadas nos territrios situados entre Angola e Moambique. Cabe-nos aqui lembrar ao aluno que Portugal, em sua Histria, foi um pas caracterizado pelo esprito colonialista. Alm de nosso pas, que foi colnia portuguesa, Portugal tambm se expandira pela frica.

    Ultimato corresponde s ltimas exigncias que um pas apresenta a outro. A no aceitao implica declarao de guerra. A Inglaterra exigiu, no ultimato de 1890, a retirada das tropas portuguesas dos territrios africanos e, diante da presso inglesa, o governo portugus cedeu. Abandonou os territrios em pauta, o que produziu mais um motivo de frustrao na sociedade. O sentimento de derrota vai se consolidando, porque os cidados portugueses se convenciam da decadncia do Imprio. Todos sabemos que perder nem sempre fcil e perdas encaminham sentimentos de decadncia e derrota.

    A CRISE ECONMICA, FINANCEIRA E POLTICA

    Em decorrncia do que foi exposto nos itens anteriores, vem a crise econmica, que na apenas portuguesa, mas europeia. O aluno pode buscar informaes sobre a Histria da Europa, para nela situar Portugal. Como normal ocorrer em crises econmicas, desvaloriza-se a moeda nacional, fecham-se bancos e a falta de confiana ganha fora. Tudo isso fortalece o Partido Republicano, cuja propaganda vai atingindo todas as camadas sociais.

    O que est em pauta a transio da monarquia para a repblica. A situao poltica tornava-se explosiva e em 1908 o rei D. Carlos e o prncipe herdeiro foram assassinados pelos militares republicanos. proclamada a Repblica, cujo governo foi assumido provisoriamente por Tefilo Braga, considerado o primeiro presidente portugus. Instala-se, ento, um novo perodo poltico que deveria trazer a paz e a ordem cvica, mas o desejo de ainda manter a posse dos territrios africanos continua desestabilizando a nao. quando em 1914 eclode a Primeira Guerra Mundial, que se prolonga at 1918, levando conflitos internos a amenizarem por conta do conflito maior a Guerra.

    Espero que o aluno agora tenha segurana para explicar o sentimento de pessimismo que toma conta do fim do sculo XIX e incio do XX, at 1915. O desencanto, a decadncia e o desalento vo estar presentes na literatura e na arte do perodo, como se ver a seguir.

  • 11

    A esttica simbolista Aula

    1MOMENTO ARTSTICO A arte mais especificamente a pintura do final do sculo XIX recebe

    o nome de impressionista. Produto da atmosfera decadentista que tomou conta da Europa, o impressionismo revela as tenses do homem finissecular. O nome Impressionismo indicativo e revelador da essncia do movimento. O registro artstico da realidade feito atravs de impresses . Ao contrrio do Realismo, que prima pela definio de contornos e exatido de registro, o Impressionismo vago e fugidio escapando da realidade objetiva: o artista transpe para a tela as impresses que a paisagem e as pessoas produzem na sua mente.

    Observemos o seguinte quadro do pintor impressionista portugus Luciano Freire.

    Perfume dos Campos, de Luciano Freire.

    Se o aluno bem observou, constatou que a impreciso dos contornos trabalha para representar as impresses do artista sobre o momento por ele registrado. O espectador tem a impresso de um quadro meio borrado devido baixa nitidez das formas. A tela de Luciano Freire nos remete tambm a uma transcendncia em que a imagem feminina parece pertencer a outro mundo. H tambm uma nvoa que, ao envolver a jovem representada, d a impresso de movimento. Os impressionistas no so adeptos da realidade esttica: para eles, tudo flui e o plano material se une ao espiritual.

  • 12

    Literatura Portuguesa III

    Observe agora o quadro abaixo, de Monet:A tela de Monet retrata um caf parisiense no final do sculo XIX. J um

    pouco mais ntido do que o anterior, o quadro nos permite constatar a fisio-nomia melanclica da jovem garonete. De imediato ressalta o contraste entre a tristeza da moa e a alegria do ambiente com bebidas e flores. Na viso de mundo do final do sculo XIX no h espao para a alegria. Lembrem-se de que predomina o sentimento de decadncia, de derrota, de pessimismo. uma gerao influenciada pelo filsofo alemo Arthur Schopenhauer, cujo pensamento radicalmente pessimista. Recomendamos ao aluno proceder ao entendimento da arte impressionista relacionando-a ao momento histrico e viso de mundo finissecular. O mesmo procedimento deve tambm ser adotado para a literatura.

    ATIVIDADES

    Recomendamos ao aluno a consulta ao Google imagens para visualizao de quadros de autores impressionistas. Dentre outros, sugerimos a apreciao dos seguintes quadros:

    Campo de trigo com corvos Vicent Van Gogh Impresso, nascer do sol Claude Monet Noite estrelada sobre o Rdano Vicent Van Gogh Moa no trigal Eliseu Visconti A catedral de Rouen Claude Monet

    O Bar no Folies Bergre, de Edouard Monet.

  • 13

    A esttica simbolista Aula

    1MOMENTO LITERRIOA TEORIA DAS CORRESPONDNCIAS

    O movimento literrio do final do sculo XIX recebeu o nome de simbolista devido caracterstica principal dessa esttica literria: o uso de smbolos. Opondo-se ao Realismo, a nova esttica no pretende mais retratar objetivamente a realidade, o que ficou bem evidente nos quadros dos pintores impressionistas. No texto literrio, os autores usam uma linguagem que foge da representao ntida. Para eles, o importante sugerir, da o uso de sm-bolos, outras imagens e recursos sonoros que do ao texto a musicalidade, to caracterstica do movimento.

    Foi Baudelaire, que, em 1857, na Frana, ao lanar As flores do Mal revolucio-nou o poema ao propor o princpio das correspondncias. Ora, o que est em pauta atravs desse princpio o conceito de realidade que a esttica simbolista prope. Trata-se de uma revoluo conceitual porque a realidade deixa de ser entendida como aquela que conhecemos, que vemos, que experimentamos, conforme propunham os realistas. Baudelaire desenvolve a idia de que a na-tureza um plano mgico onde tudo se corresponde, produzindo uma unidade profunda. Para ele h uma relao transcendental entre os seres e as coisas. S se pode conhecer a realidade quando se desvendam as correspondncias entre o mundo material e o espiritual. Essa a viso mstica dos simbolistas.

    Para melhor compreenso do conceito proposto por Baudelaire vamos ler o poema Correspondncias:

    A natureza um templo onde vivos pilares Deixam escapar, s vezes, confusas palavras;O homem ali passa entre florestas de smbolosQue o observam com olhares familiares.

    Como longos ecos que se confundemEm uma tenebrosa e profunda unidade,Vasta como a noite e como a claridade,Os perfumes, as cores e os sons se correspondem.

    H perfumes frescos como carnes de crianas,Doces como obos, verdes como as pradariasE outros, corrompidos, ricos, e triunfantes,

    Tendo a expanso das coisas infinitas,Como o mbar, o almscar, o benjoim e o incenso,Que cantam os transportes do esprito e do sentido

    (GOMES, 1994, P.37)

  • 14

    Literatura Portuguesa III

    O poema de Baudelaire influencia os poetas europeus de tal forma que equivale a um manifesto da escola simbolista. O aluno deve ter observado a presena constante de sinestesias no poema perfumes doces e verdes um bom exemplo e a proposta explcita, poeticamente registrada: os perfumes, as cores e os sons se misturam. A natureza definida como um templo repleto de smbolos, o universo como uma expanso do esprito e dos sentidos. O verso chave do poema nos diz que tudo isso ocorre em uma tenebrosa e profunda unidade. Correspondncia a proposta da viso de mundo simbolista em que o mundo natural corresponde ao mundo espiritual, ou seja, esto unidos de tal forma que se correspondem, ou se equivalem. Assim o conceito de real bem diferente porque o que existe no tem autonomia; subsiste em relao ao mundo espiritual que lhe d suporte.

    No poema transcrito, o perfume, que captado pelo olfato no s torna-se ttil como tambm remete carne de crianas. Conduz tambm ao som dos obos e ao verde das pradarias tornando-se perfume auditivo, ttil e visual, o que constitui a sinestesia, a fuso de sentidos diferentes. como se o perfume fosse simultaneamente aromtico, ttico, auditivo e visual. Esta-mos em pleno campo da sinestesia cuja definio em dicionrio a seguinte: relao subjetiva que se estabelece espontaneamente entre uma percepo e outra que pertena ao domnio de um sentindo diferente (por exemplo, um perfume que evoca uma cor, um som que evoca uma imagem).

    Alm disso, no poema, os perfumes frescos como carnes de crianas remetem tambm aos adjetivos corrompidos, ricos e triunfantes. uma nova correspondncia que ultrapassa as sensaes de cor, tato, olfato e som para nos colocar em frente a ideias de corrupo, riqueza e triunfo. Aqui, encon-tramos a fuso do mundo fsico com o espiritual. Em pauta, mais uma vez, o desejo de unidade, ou, vale dizer, de totalidade, a simbiose perfeita entre o esprito e os sentidos. Baudelaire prope praticamente, a unio entre o ser e o universo, entre o ser e as coisas, entre o interior e o exterior. Tudo isso est magistralmente transmitido no poema em pauta cujo ltimo terceto ao falar de essncias raras como mbar e almscar, benjoim e incenso une as duas primeiras profanas que excitam a carne com as duas ltimas sagradas que elevam os espritos.

    Para melhor compreenso da proposta simbolista, transcrevemos, na integra o pensamento do filosofo esotrico Emmanuel Swedenborg em cu-jos princpios se basearam os autores. Conforme consta em lvaro Cardoso Gomes. (GOMES, 1994, p. 38)

    Primeiramente, dir-se- o que a correspondncia: todo o Mundo natural corresponde ao Mundo espiritual, e no apenas ao Mundo natural (no seu aspecto) comum, mas tambm em cada uma das coisas que o compem; por isso, cada coisa que, no Mundo natural, existe conforme uma coisa espiritual, dita correspondncia. preciso que se saiba que o Mundo natural existe e subsiste em conformidade com

  • 15

    A esttica simbolista Aula

    1o Mundo espiritual, to absolutamente como o efeito conforme sua causa eficiente. D-se o nome de Mundo natural a toda essa extenso que est sob o sol e que dele recebe o calor e a luz; a esse mundo pertencem todas as coisas que nele subsistem; o Mundo espiritual o Cu e a esse mundo pertence tudo que est nos cus.

    Em uma palavra, todas as coisas que existem na Natureza, so corre-spondncias porque o mundo natural, com tudo que o constitui, existe con-forme o Mundo espiritual. Todas as coisas existem conforme algo anterior a elas prprias e do qual no podem ser separadas. H uma unio profunda entre o mundo natural e o mundo espiritual.

    E agora, para que fique ainda mais explcito, faremos um grfico repre-sentativo da teoria das correspondncias que deve ser visualizado na pgina seguinte:

    CORRESPONDNCIA Essncia da viso de mundo simbolista

    CARACTERSTICAS DO SIMBOLISMO

    Caro aluno, se voc entendeu bem a teoria das correspondncias, ficar mais fcil agora assimilar as outras caractersticas da esttica simbolista, que dela decorrem. Na verdade, como se pode perceber pelo grfico, os simbolistas no do autonomia ao mundo natural. Negam o materialismo e se proclamam espirituais e idealistas. Esse o eixo central. A partir dele listamos agora as principais caractersticas.

    MUNDO MUNDO NATURAL ESPIRITUAL

    EXTERIOR INTERIOR Movimento

  • 16

    Literatura Portuguesa III

    No primeiro bloco esto as que constituem a viso de mundo e o com-portamento:

    Concepo mstica sobre a vida e o mundo Espiritualismo e misticismo Gosto pelo sobrenatural Interesse maior pelo particular e pelo individual Subjetivismo Predomnio da intuio e no da lgica. Gosto pelo mistrio das coisas Fuga da realidade e da sociedade Tendncia ao isolamento

    No segundo bloco, abaixo, vo as caractersticas da linguagem simbolista e os recursos mais frequentemente usados: Linguagem vaga, fluida, imprecisa Linguagem da sugesto e no da objetivao da realidade Musicalidade as palavras so escolhidas poeticamente pela sonoridade e pelo ritimo Uso de smbolos, que evocam e sugerem mais do que descrevem. Presena constante de imagens, metforas, comparaes, sinestesias Recursos sonoros como aliteraes e assonncias

    Assim, para concluir a caracterizao do Simbolismo, pedimos ao aluno a leitura atenta do que nos diz Cereja (1997, p.137):

    Contrapondo-se viso positivista e equilibrada do pensamento cientfico, os simbolistas manifestam estados de dilacerao da alma e uma profunda dor de existir. Manifestam, ainda, desejo de transcendncia, de integrao csmica; interessam-se pelo noturno, pelo mistrio, pela explorao das zonas desconhecidas da mente (o inconsciente e o subconsciente), pela loucura e pela morte.Em oposio s solues racionalistas, empricas e mecnicas oferecidas pelas cincias da poca, busca valores e ideais de outra ordem, ignorados ou desprezados por elas; o esprito, o mstico, o sonho, o absoluto, o nada, o bem, o belo, o sagrado, etc.Desse modo, o Simbolismo cria um cdigo literrio novo, que abrir campo para as correntes artsticas do sculo XX, principalmente o Expressionismo e o Surrealismo, tambm preocupados com a expresso das zonas inexploradas da mente humana, como o inconsciente e a loucura.

  • 17

    A esttica simbolista Aula

    1CONCLUSOA esttica simbolista est intimamente ligada ao contexto histrico do

    decadentismo em que predominam os sentimentos de dor, derrota, fracasso e pessimismo. Os acontecimentos polticos que levaram frustrao do homem no fim do sculo XIX conduzem-no tambm fuga da realidade objetiva. Por isso, negando-a ou dela fugindo, os simbolistas e os impres-sionistas adotam um cdigo artstico em que tudo vago e tudo flui. Da o uso predominante de smbolos, para evocar, e sugerir, sem definir dire-tamente. O Simbolismo liberta a poesia das amarras racionais e contribui para a evoluo literria, imprescindvel para a modernidade.

    RESUMO

    Nossa aula foi dividida em trs blocos: 1. Momento histrico 2. Mo-mento artstico e 3. Momento literrio. No primeiro item descrevemos o fim do sculo XIX em Portugal em seus trs aspectos fundamentais: a crise da monarquia, o ultimato ingls e a crise econmica, financeira e poltica. O objetivo foi levar o aluno a entender a nova viso de mundo que vai configurar o decadentismo. No segundo item, valemo-nos da apresentao de quadros para caracterizar a pintura impressionista. No terceiro item, expressemos a teoria das correspondncias e caractersticas do simbolismo, dividindo-as em ideolgicas e formais.

    ATIVIDADES

    Produza um texto com trs pargrafos e trinta linhas no mnimo obe-decendo seguinte indicao:1 pargrafo Portugal no final do sculo XIX2 pargrafo A teoria das correspondncias 3 pargrafo O cdigo literrio simbolista

    COMENTRIOS SOBRE AS ATIVIDADES

    Para realizar a atividade solicitada, o aluno deve reler a aula, apreender as ideias principais e produzir o texto valendo-se das tcnicas de redao aprendidas nas disciplinas de Produo de Texto.

  • 18

    Literatura Portuguesa III

    PRXIMA AULA

    Na prxima aula estudaremos os principais poetas simbolistas portu-gueses.

    REFERNCIAS

    CEREJA, William Roberto. Panorama da literatura portuguesa. 2 ed. So Paulo: Atual, 1997.________. Portugus: linguagens. So Paulo: Atual, 2003.DE NICOLA, Jos. Literatura portuguesa: das origens aos nossos dias. So Paulo: Scipione, 1999.GOMES, lvaro Cardoso. A esttica simbolista. So Paulo: Atlas, 1994.

    AUTO-AVALIAO

    Entendi claramente o contexto histrico do final do sculo XIX em Portugal? Fui capaz de apreciar a arte impressionista entendendo sua espe-cificidade? Aprendi bem as caractersticas da esttica simbolista?

Recommended

View more >