lxico-e-cultura_letraria

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    09-Jan-2017

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LXICO E CULTURACristina Martins FargettiClotilde de Almeida Azevedo MurakawaOdair Luiz Nadin(org.)LXICO E CULTURA1 edioAraraquaraLETRARIA2015LXICO E CULTURAPROJETO EDITORIALLetrariaCAPALetrariaREVISOLetrariaORGANIZAOCristina Martins Fargetti / Clotilde de Almeida Azevedo Murakawa / Odair Luiz NadinAUTORESAnna Carolina Chierotti dos Santos Ananias / Conceio de Maria de Araujo Ramos / Edson Lemos Pereira / Ilana Catharine dos Santos Serejo / Ivanilde da Silva / Joo Nunes Avelar Filho / Letcia Rodrigues Guimares Mendes / Mrcia Sipavicius Seide / Maria da Conceio Reis Teixeira / Maria Helena de Paula / Maria Silvana Milito de Alencar / Mayara Aparecida Ribeiro de Almeida / Natlia Cristine Prado / Patrcia Helena Frai / Raphael Bessa Ferreira / Rayne Mesquita de Rezende / Renata Cazarini de Freitas / Tatiana Martins Mendes / Theciana Silva Silveira / Zuleide Ferreira Filgueiras CONSELHO EDITORIALAna Paula Tribesse Patrcio Dargel / Elizabete Aparecida Marques / Fbio Bonfim Duarte / Josete Marinho de Lucena / Maria Cndida Trindade Costa de Seabra / Maria do Socorro Silva AragoFARGETTI, Cristina Martins; MURAKAWA, Clotilde de Almeida Azevedo; NADIN, Odair Luiz.ISBN: 978-85-69395-02-7Lxico e cultura / Cristina Martins Fargetti et al. (Org.) Araraquara: Letraria, 2015.180p. 768 x 1024px.1. Lxico. 2. Cultura. 3. Onomstica. 4. Regionalidade.LXICO E CULTURACristina Martins FargettiClotilde de Almeida Azevedo MurakawaOdair Luiz Nadin(Org.)5SUMRIOPREFCIOCristina Martins FargettiLXICO, CULTURA E REGIONALIDADEMOTIVAES PARA A ESCOLHA DE NOMES DUPLOS EM MARECHAL CNDIDO RONDON Patrcia Helena Frai, Mrcia Sipavicius SeideO FOLIONS: UMA VARIEDADE DE FALA NA FOLIA DA ROA VISTA PELA ECOLINGUSTICA Joo Nunes Avelar FilhoLXICO AMAZNIDA E POTICA AMAZNICA EM ALTAR EM CHAMAS, DE PAES LOUREIRO Raphael Bessa FerreiraA F QUE NOS MOTIVA: UM ESTUDO DOS TOPNIMOS EM LIVRO DE REGISTRO DE BATIZADOS DE 1837-1838 Mayara Aparecida Ribeiro de Almeida, Maria Helena de PaulaDESCRIO E ANLISE DA TIPOLOGIA DEFINICIONAL DO GLOSRIO REGIONAL DA OBRA ESTUDOS DE DIALETOLOGIA PORTUGUESA LINGUAGEM DE GOIS (1944) Rayne Mesquita de Rezende, Maria Helena de PaulaTERMOS INDGENAS NO LXICO TOPONMICO DE DIAMANTINA Tatiana Martins MendesREPRESENTAO DO SERTO BAIANO EM SEARA VERMELHA, DE JORGE AMADO: O CAMPO LEXICAL DOS TRABALHADORES Maria da Conceio Reis TeixeiraROUBAR UM NEGCIO DE PALAVRA: LXICO DO FURTO E DO ROUBO EM DOCUMENTOS LATINOS E PORTUGUESES Renata Cazarini de Freitas LXICO E VARIAO POPULARA SEGUNDA PESSOA DO SINGULAR - UMA DISCUSSO SINCRNICA DA VARIAO PRONOMINAL NA FALA POPULAR INTERIORANA PAULISTAIvanilde da SilvaA VARIAO LEXICAL DE CAMBALHOTA EM CAPITAIS DO NORDESTE: DADOS DO ALiB Maria Silvana Milito de AlencarDE ZURRIO A MUNHECA DE SAMAMBAIA: A VARIAO LEXICAL, NO ALiMA, PARA O CONCEITO DE AVARENTO Ilana Catharine dos Santos Serejo, Conceio de Maria de Araujo Ramos7152533394755657387971096LXICO E VARIAO DIATPICA: AS DENOMINAES PARA CORNO NO ATLAS LINGUSTICO DO MARANHO ALiMA Theciana Silva Silveira, Conceio de Maria de Araujo RamosLXICO E ONOMSTICAAS EXPECTATIVAS DO SUJEITO-NOMEADOR E OS ANIMOTOPNIMOS Anna Carolina Chierotti dos Santos AnaniasITALIANOS EM BELO HORIZONTE: UM ESTUDO ANTROPONMICO Zuleide Ferreira FilgueirasA HIDRONMIA E A HIDROTOPONMIA MARANHENSE DE ORIGEM INDGENA Edson Lemos Pereira, Conceio de Maria de Araujo RamosENTRE CAMINHOS DA TERRA E CAMINHOS DAS GUAS: ESTUDO DE CASO HIDRONMIA DO RIO DAS VELHAS/ MG Letcia Rodrigues Guimares Mendes ONOMSTICA COMERCIAL: O USO DA LNGUA INGLESA NA FORMAO DE NOMES DE ESTABELECIMENTOS COMERCIAIS NO PORTUGUS BRASILEIRO Natlia Cristine PradoSOBRE OS AUTORES E ORGANIZADORES1171291391511591651777PREFCIOCristina Martins FARGETTI com satisfao que apresentamos este livro, que publica textos apresentados durante o I CINELI Congresso Internacional Estudos do Lxico e suas Interfaces - realizado na UNESP, Faculdade de Cincias e Letras, Araraquara, de 7 a 9 de maio de 2014. Tal congresso internacional teve expressiva participao de pesquisadores brasileiros e estrangeiros, tendo tido a estimativa de aproximadamente 400 participantes. Contou com apoios financeiros da CAPES e FAPESP, e com apoios dos Grupos LINBRA e GPEL, bem como do Programa de Ps-Graduao em Lingustica e Lngua Portuguesa e do Departamento de Lingustica.Este presente volume rene textos em que a relao entre lxico e cultura mais se estreita, compreendendo as linhas: Lxico, Cultura e Regionalidade; Lxico e Variao Popular; Lxico e Onomstica. Tais textos refletem resultados, muitas vezes parciais, de pesquisas na poca em curso ou j concludas. Com isso, propiciam bons debates, com possibilidades de revises bibliogrficas e novos delineamentos no trabalho com corpora.Lxico, Cultura e RegionalidadeNo primeiro texto desta linha, Patrcia Helena Frai e Mrcia Sipavicius Seide procuram mostrar as anlises preliminares de sua pesquisa sobre a nomeao com nomes duplos de pessoas na cidade paranaense Marechal Cndido Rondon. Tomando como base de corpus 15 entrevistas realizadas a partir de contatos telefnicos, direcionados anteriormente por seleo via lista telefnica, elas buscam entender as influncias scio-culturais na motivao para essas nomeaes, questionando-se sobre a ocorrncia de nomes tidos como tradicionais e sobre a influncia da globalizao e modernizao de costumes para possveis nomes no tradicionais. Em seu texto, Joo Nunes Avelar Filho trata de elementos do lxico de uma variedade goiana da lngua portuguesa, chamada folions. O autor esclarece que se trata de fala de uma comunidade rural, relacionada a narrativas de personagens de Folia da Roa, uma festividade religiosa em louvor do Divino Esprito Santo, em Gois. Tem como ponto de partida a Ecolingustica, com que dialoga em suas anlises. 8Assim, ele aponta a relao entre os indivduos e seus territrios, seus locais de morada, responsveis por sua referncia cultural e lingustica, o que menciona como sentimentos topoafetivos. O autor se questiona sobre a influncia do xodo rural, devido aos atrativos da modernidade, na manuteno e vitalidade de elementos culturais e lingusticos.Raphael Bessa Ferreira discute a ocorrncia de elementos lexicais tipicamente da Amaznia, na obra Altar em chamas, de Paes Loureiro, que teve sua primeira edio em 1983, mas a edio por ele analisada a revista e ampliada, de 2002. Para a escolha dos excertos de poemas, Ferreira teve como foco a origem ligada ao mbito geogrfico e cultural da Amaznia, apontando possveis elementos da lngua tupi e do universo caboclo. So discutidos alguns processos de formao de neologismos, com prefixao e sufixao. Ao final apontada uma relao entre lngua e cultura.Analisando um livro de registro de batizados, de 1837 a 1838, Mayara Aparecida Ribeiro de Almeida e Maria Helena de Paula descortinam motivaes em Catalo, Gois, no passado, para os topnimos da regio. Em especial, as autoras percebem os hierotopnimos (topnimos baseados em nomes de santos) como os mais recorrentes no referido livro. Elas ento discutem as razes, no mbito cultural/religioso, para isso. O texto revela o intenso trabalho de garimpagem que os pesquisadores do LALEFIL, da UFG, tm realizado para a constituio de corpora relevantes para o estudo do portugus de Gois. Este trabalho tem envolvido, inclusive, a elaborao de edies semidiplomticas dos textos manuscritos, levando em conta para isso a normatizao filolgica.O texto de Rayne Mesquita de Rezende e Maria Helena de Paula traz uma apresentao de parte dos objetivos de uma pesquisa de mestrado, ento em andamento, vinculada ao PMEL-UFG, de Catalo. Procuram discorrer sobre os tipos de definio utilizados em um glossrio constante da obra Estudos de Dialetologia Portuguesa Linguagem de Goias, de autoria de Jos Aparecido Teixeira, e datada de 1944. Realizam, portanto, anlise metalexicogrfica de obra importante para o conhecimento da dialetologia no estado de Gois, em especial focalizada no que se chamava ento de regionalismos.Com o objetivo de localizar vocabulrio de origem indgena, entre os topnimos da regio de Diamantina, Tatiana Martins Mendes apresenta um estudo que, inclusive, busca a etimologia de origem tupi de tal lxico. Como sabemos, a etimologia no cincia exata, e a busca de compreenso da origem de topnimos , portanto, sempre baseada em tentativas. Por isso observamos que a autora procura dialogar com autores dos estudos do lxico e com obras que lhe apontem caminhos na compreenso do tupi. Como na maioria dos casos, apesar de a regio ter tido indgenas de etnias j, a toponmia se restringiu ao tupi. Ao final, a autora apresenta um repertrio toponmico de lxico tupi, da regio de Diamantina, expondo previamente suas opes de macro e microestrutura. Em uma reflexo sobre a relao lngua-cultura-identidade, tendo como cenrio o serto baiano de Seara vermelha, romance de Jorge Amado, Maria da Conceio Reis Teixeira estuda o lxico referente a trs campos semnticos de trabalhadores, a saber, os que exercem poderes, os relacionados a atividades agrcolas, os relacionados a atividades da pecuria, os relacionados a atividades lcitas/ilcitas. Embora seu objetivo seja um estudo lexicolgico apenas de tais vocbulos, apresenta, ao final, uma listagem dos mesmos, com abonaes retiradas da obra, sem, contudo, ter a pretenso de uma abordagem terminogrfica. A autora refora 9a ideia de que o lxico importante veiculador da cultura de um povo, a qual foi bem representada na obra em anlise, para a poca de sua publicao, 1946.Finalizando os textos desta linha, Renata Cazarini de Freitas focaliza o lxico do furto e do roubo em documentos latinos e portugueses. Ela faz uma anlise de placas de maldies, tabellae defixionum, que se apresentam em latim vulgar, algumas encontradas em descobertas arqueolgicas recentes. Segue transcries de fillogo, mas apresenta suas prprias tradues para o portugus atual. Estas placas fazem imprecaes e rogos por punies a roubos realizados, e so encontradas em geral em material de liga de chumbo ou de mrmore. A autora compara o lxico latino de furto e roubo com o que se encontra em obras do portugus do final da Idade Mdia/Renascena e do Barroco, realizando estudo lexicolgico de cunho diacrnico. Lxico e variao popularNo incio desta outra linha do livro, Ivanilde da Silva apresenta um estudo sobre o uso sincrnico da segunda pessoa do singular, com discusso da variao pronominal entre de voc/de tu (nas funes sujeito, complemento e possessivos determinantes) em cidade paulista interiorana, So Jos dos Campos. Sua abordagem se pauta pela Sociolingustica Variacionista. O estudo apresenta contribuies terico-metodolgicas, e parte do pressuposto de que presses de uso podem determinar significados e estruturas lingusticas.Maria Silvana Milito de Alencar analisa as variantes lexicais da brincadeira de cambalhota em nove capitais brasileiras nordestinas, em pesquisa sobre o campo semntico dos jogos e diverses infantis, atravs do Questionrio Semntico Lexical do Atlas Lingustico do Brasil (ALiB). Ela procura tratar da variao regional, etria e de grau de escolaridade. Seus resultados fazem perceber a variao existente, numa reflexo sobre os parmetros adotados.Ilana Catharine dos Santos Serejo e Conceio de Maria de Araujo Ramos apresentam dados da variao lexical para o conceito de pessoa avarenta, a partir de dados obtidos no ALiMA, Atlas Lingustico do Maranho. As quinze lexias encontradas, em falantes de duas faixas etrias, representantes das cinco mesorregies do estado, foram procuradas em dicionrios gerais da lngua. Estudo geolingustico, procura uma dimenso sociolingustica tambm, numa busca de compreenso da variedade do estado.Com abordagem idntica de dados tambm do ALiMA, Theciana Silva Silveira e Conceio de Maria de Araujo Ramos discutem a variao lexical para o conceito de homem trado, tambm para falantes das cinco mesorregies do estado do Maranho. As autoras questionam a influncia dos meios de comunicao na ocorrncia de certas lexias, e finalizam tambm com as consideraes sobre a variao encontrada no estado.10Lxico e OnomsticaRetomando dados de sua dissertao de mestrado, defendida em 2013, Anna Carolina Chierotti dos Santos Ananias apresenta os resultados de pesquisa sobre os animotopnimos das microrregies de Toledo e Foz do Iguau, ambas do Oeste paranaense. Levando em conta a proposta de Isquerdo (2011), classifica os animotopnimos como eufricos e disfricos, levantando consideraes sobre as situaes histricas dos colonizadores, as quais os levaram a adotar em maior quantidade os de um dos tipos, em detrimento do outro.Zuleide Ferreira Filgueiras apresenta em seu texto discusses sobre sua tese de doutorado em andamento, a qual amplia o escopo de sua dissertao de mestrado, defendida em 2011. A autora aborda a antroponmia, na cidade de Belo Horizonte (MG), especificamente estudando os nomes prprios de pessoas de origem italiana, no final do sculo XIX e primeiras dcadas do sculo XX. Para tanto, fez investigaes em arquivos histricos, peridicos antigos, acervos particulares, documentos de familiares e, sobretudo, no Livro de Registro de Sepultamento do Cemitrio do Bonfim. Uma vez que os documentos so manuscritos e de cpia proibida, a autora tem ampliada sua tarefa de coleta, que inclui tambm a decifrao de diferentes caligrafias. Ela pretende apresentar um dicionrio onomstico e estudar as grafias dos nomes, com suas provveis variaes devido ao contato com o portugus, alm das histrias das famlias envolvidas, o que contribui sobremaneira para o conhecimento da memria de parte expressiva da populao da cidade e permite abordagens diferentes em estudos posteriores.Buscando um melhor conhecimento dos topnimos do Maranho, Edson Lemos Pereira e Conceio de Maria Araujo Ramos discutem oito topnimos referentes a acidentes hidrogrficos, ou seja, hidrnimos, de origem indgena. Apesar de a regio ter tido povos indgenas de troncos e famlias distintos, como no restante do pas, os topnimos parecem ter, todos, origem tupi. Os autores baseiam uma proposta de etimologia, por exemplo, em dicionrios sobre a influncia do tupi no portugus brasileiro. Estudo que buscou as lexias em obras do passado, traz grande contribuio para o melhor entendimento da toponmia no estado.O captulo de Letcia Rodrigues Guimares Mendes tambm aborda a hidronmia em um estado brasileiro, mais especificamente em Rio das Velhas, MG. Para seu estudo, que revela traos da ocupao bandeirante, tomou como corpus mapas de Minas Gerais e da regio da Bacia do Rio das Velhas feitos nos sculos XVIII, XIX e XX. Os topnimos encontrados foram catalogados, classificados, analisados em sua grafia e foi observada sua frequncia ao longo desses sculos. Este estudo vincula-se ao ATEMIG, Atlas Toponmico do Estado de Minas Gerais, coordenado por Maria Cndida Trindade Costa de Seabra, na UFMG, o qual se liga ao ATB, Atlas Toponmico do Brasil, coordenado por Marai Vicentina de Paula do Amaral Dick, projetos de reconhecido mrito.Concluindo este volume, Natlia Cristine Prado discute em seu texto pesquisa sobre onomstica, com enfoque no uso do ingls na formao de nomes de estabelecimentos comerciais, no estado de So Paulo. Tomando como fonte de seu corpus as informaes do Guia Mais, da internet, sobre os estabelecimentos comerciais brasileiros, ela focaliza os paulistas, analisando os nomes quanto a sua morfossintaxe, e perguntando-se se essa segue a da lngua portuguesa ou a da lngua inglesa. Quantifica os nomes todos, verificando qual 11a frequncia dos que apresentam influncia do ingls. Este constitui importante trabalho, apresentando consideraes que nos fazem rever nossos conceitos sobre emprstimos lingusticos no Brasil.Pelo que mostramos, este livro apresenta um conjunto de textos que refletem mais diretamente a relao entre Lxico e Cultura, e, apesar de seus objetos de estudo to distintos, esta relao o que os une e lhes d sentido como um livro. Observamos que, alm de objetos diferentes, adotam abordagens terico-metodolgicas diferentes tambm, o que nos fornece uma riqueza grande como conhecimento.Mostrando pesquisas de Norte a Sul do pas, estes textos refletem a importncia da rea de Estudos do Lxico e a grande necessidade de maiores quantidades de pesquisadores a ela dedicados. Em um pas de tamanho continental, as questes de onomstica, em especfico, toponmia e antroponmia, so amplas e requerem de ns um esforo concentrado de dedicao.Inclusive, os dados sobre as lnguas que contriburam com a formao do portugus no so totalmente seguros, restando-nos, muitas vezes, apenas o alento de boas hipteses para o conhecimento etimolgico. Isso porque os conhecimentos lingusticos do passado muitas vezes se perderam, sem qualquer registro, como no caso de lnguas indgenas extintas, e, alm disso, os conhecimentos sobre as lnguas de hoje, ainda faladas, encontram-se em perigo, dadas as condies precrias de uso de muitas dessas lnguas. O mesmo se pode dizer da influncia de lnguas africanas, e mesmo a incerteza muitas vezes quanto origem de lxico de lnguas europeias. Estes textos, portanto, nos mostram um esforo de seus pesquisadores para a recuperao da memria, quer seja indo a registros manuscritos, quer seja indo a publicaes antigas, bem como para a documentao da lngua portuguesa atual. Assim, nos restam mesmo dois caminhos: a volta ao passado, realizando garimpos e verdadeiras expedies arqueolgicas, e a documentao do presente, como registro para as geraes posteriores de falantes da lngua, entre eles, seus pesquisadores.LXICO, CULTURAe REGIONALIDADE15MOTIVAES PARA A ESCOLHA DE NOMES DUPLOS EM MARECHAL CNDIDO RONDONPatrcia Helena FRAIMrcia Sipavicius SEIDEIntroduo H diversos fatores que interferem na escolha do nosso nome, desde origem tnica, cultural, social, s influncias de meios de comunicao e o espao onde vivemos. Pode-se afirmar, ento, que, em relao ao conjunto de antropnimos de uma localidade, de se esperar que ele revele as caractersticas peculiares, isto , a personalidade da comunidade (DICK, 1992).Nessa perspectiva, a atual pesquisa pretende estudar as influncias scio- culturais que se do na prtica de nomeao dos nomes duplos de pessoas sob o vis da Socio-Onomstica, na cidade de Marechal Cndido Rondon. Para a pesquisa, foram coletados os nomes duplos de contatos da lista telefnica, independente de idade, porm, considerando a mesma quantidade de nomes duplos para homens e mulheres. Aps a listagem de nomes, realizaram-se entrevistas com os portadores dos nomes sobre a motivao dos seus nomes duplos. A pesquisa encontra-se em fase inicial, porm, alguns dados j puderam ser analisados.Identidade e culturaCada sociedade possui sua prpria relao com a identidade, ela entendida como o reconhecimento do ser nele mesmo, um ser nico com um nome, sexo, filiao, que est situado em um determinado espao e lugar. Cada cultura utiliza o conceito de identidade conforme os valores da sua sociedade, dessa forma, surge o conceito de identidade cultural. Entende-se como identidade cultural um conjunto de relaes sociais que constroem os valores historicamente compartilhados entre uma sociedade num determinado tempo e lugar. Essa cultura estende-se a todas as caractersticas que fazem uma determinada sociedade ser o que ela , questes como tradies folclricas, poltica, artes e o prprio conceito de identidade em si. Stuart Hall (1992) trabalha com dois conceitos importantes para a formao da identidade, o primeiro, a identidade cultural como j explicado, e o segundo, a cultura nacional. Esta se refere a um discurso, um modo de construir sentidos que influencia e organiza tanto nossas aes quanto a concepo que temos de ns mesmos (HALL, 1992, p. 13), a identidade cultural pode construir o sentido sobre a nao na qual identificamo-nos uns com os outros e, consequentemente, constri-se uma identidade brasileira. Com a nacionalidade so formadas as culturas que se conectam com as tradies de uma sociedade.Diante da formao de uma identidade, apontam-se as mudanas sobre o conceito durante o sculo XX e XXI. Segundo os estudos de Hall (1992), a identidade era vista como algo permanente, nico e imutvel desde criana, era chamado de sujeito do Iluminismo. Em seguida, h o sujeito sociolgico que constri sua identidade atravs da interao com a sociedade, ou seja, existe a essncia do eu interior como o sujeito do Iluminismo, mas h tambm a contribuio com as influncias externas. Por ltimo, h o sujeito ps-moderno, aquele que no possui uma identidade fixa e permanente e est em constante mudana conforme o tempo e lugar que se localiza.Com a mudana de valores na identidade do sujeito, h tambm a mudana na estrutura de uma identidade cultural. Assim, o sujeito se inclui numa determinada sociedade, que passa por mudanas de valores, acarretando em mudanas na identidade cultural do local. A partir do sujeito ps-moderno, no final do sculo XX, as sociedades iniciaram uma fragmentao nos conceitos de etnia, nacionalidade, cultura e classe. Consequentemente, as identidades pessoais de cada cultura tambm foram se fragmentando conforme as mudanas. Stuart Hall (1992) nomeia esse fenmeno de descentramento, ou seja, deslocadas ou fragmentadas. O fator apontado como uma das principais causas 16desse deslocamento chamado de globalizao. Conforme Hall (1992, p. 18, grifo do autor), a globalizao muda a identidade cultural: As identidades nacionais esto se desintegrando, como resultado do crescimento da homogeneizao cultural e do ps-moderno global. As identidades nacionais e outras identidades locais ou particularistas esto sendo reforadas pela resistncia globalizao. As identidades nacionais esto em declnio, mas novas identidades hbridas esto tomando seu lugar.Existem pessoas que vivem em pases diferentes, mas adotam um mesmo estilo de vida, resultando numa homogeneizao cultural que rompe as barreiras territoriais, desestabilizando as identidades nacionais. As culturas nacionais comearam a ser volveis a influncias externas, aos gostos, ideias e as culturas passaram a ser semelhantes entre povos devido globalizao. As identidades hbridas, s quais se refere o autor, so aquelas que so consequncias da globalizao: so identidades formadas pela fuso entre diferentes tradies culturais, dessa forma, produzem novas formas de cultura, mais apropriadas modernidade tardia que s velhas e contestadas identidades do passado (HALL, 1992, p. 24). Segundo o autor: Quanto mais a vida social se torna mediada pelo mercado global de estilos, lugares e imagens, pelas viagens internacionais, pelas imagens das mdias e pelos sistemas de comunicao globalmente interligados, mais as identidades se tornam desvinculadas (HALL, 1992, p. 20).Atualmente, quase impossvel que, em algum lugar, uma cultura se mantenha intacta e totalmente fiel aos seus valores tradicionais. Isto ocorre porque de acordo com o modo de vida do sculo XXI, fato presenciarmos mudanas na sociedade decorrentes da globalizao. Temos conhecimento das guerras que acontecem no outro lado do continente, compra-se constantemente a ltima tecnologia do Oriente, adotam-se caractersticas do modo de vida americano, como tambm, adotamos, no nosso discurso, uma lngua franca internacional para melhor comunicao entre naes: a lngua inglesa.Neste trabalho, parte-se do pressuposto de que as mudanas apontadas por Hall (1992) podem carregar mudanas nas prticas de nomeao adotadas pelas culturas cuja identidade tem se descentralizado. Aponta-se, ento, a importncia do ato de nomeao, O nome prprio tem como funo registrar atitudes e posturas sociais de um povo, suas crenas, profisses, regio de origem, entre outros aspectos (CARVALINHOS, 2007, p. 2), dessa forma, o ato de nomear vai alm de um fator corriqueiro, tendo, hoje, um fator mais ideolgico do que identificador. Exemplo que ilustra bem esta questo o caso das mudanas ocorridas na comunidade Islmica-Paquistanesa, que reside em Glasgow, na Gr-Bretanha. Tal comunidade foi estudada por Ellen S. Bramwell e cuja pesquisa foi publicada no artigo Naming and transplanted traditions: change and continuity in Glasgows Pakistani Muslim community (2011).Identidade cultural e globalizaoNa dcada de 50 e 60, muitos imigrantes do Paquisto vieram para o continente europeu, grande parte deles fixaram-se na regio da Esccia (Glasgow). Atualmente, grande parte da comunidade nasceu na prpria Esccia. Bramwell (2011) discorre sobre o fato de a cultura Paquistanesa possuir uma prtica diferente de nomeao. Nas aldeias rurais do Paquisto, as famlias no possuem sobrenomes, ou seja, as pessoas apenas possuam um primeiro nome e apelido. Mesmo adotando essa prtica, j era o suficiente para cada um saber a origem das famlias da comunidade e as informaes sobre seus antecedentes. Essa prtica obteve uma grande mudana aps a imigrao; de acordo com a prtica de nomeao da Gr-Bretanha, no possvel registrar um filho sem sobrenome. Dessa forma, os Paquistaneses foram obrigados a adotar um sobrenome em sua famlia para serem includos nos padres britnicos. Como consequncia desse fato, os descendentes no possuem mais seus nomes de origem, mas sim em moldes britnicos. Em relao troca de sobrenomes aps o matrimnio, na cultura islmica, a mulher no troca seu nome por uma questo de independncia identitria, porm, ela fica conhecida pelo nome de seu marido, por exemplo, uma mulher com o nome de Ftima casa-17se com Iqbal, logo, ela ser conhecida como a senhora Iqbal.Porm, algumas mulheres comearam a questionar essa prtica de nomeao, tal prtica realizada devido a motivaes culturais, porm, em alguns casos, foi visto como tendo mais a ver com a independncia feminina do que com as razes culturais ou crenas religiosas (BRAMWELL, 2011, p. 36, traduo nossa), dessa forma, o movimento pretende fazer com que as mulheres, aps o casamento, continuem a ser conhecidas pelo seu prprio nome. Outra caracterstica que Bramwell (2011) expe o uso dos apelidos. Os apelidos so uma forma fcil e simples de chamar algum. Na comunidade Paquistanesa, os apelidos so criados dentro das famlias, pois so pessoais. J as crianas, desde a escola recebem apelidos, muitas crianas da comunidade Islmica-paquistanesa os possuem.Outra comunidade que tambm possui prticas nomeadoras distintas a Bakossi, localizada no continente Africano, na Repblica dos Camares, ao noroeste da Nigria e ao norte de Gabo. Uma das grandes caractersticas do povo a sua forte tradio cultural, a arquitetura caracterstica e as danas folclricas. De acordo com a histria contada oralmente sobre o local, uma grande tradio a venerao aos antepassados em lugares sagrados. Essa tradio se reflete na prtica de nomeao na comunidade Bakossi. Ngade (2011) comenta que a nomeao do primeiro filho, na famlia, parte da escolha do pai. Os nomes escolhidos pelo pai so aqueles que homenageiam os avs paternos, j para o segundo filho, a me escolhe um nome que homenageia os avs maternos. O nome do filho necessita ser um nome com um forte significado. A comunidade Bakossi possui diversas prticas de nomeao, uma delas nomear a criana a partir do local onde ela nasce. Os filhos nascidos em Bakossi trazem em seu nome o sufixo Ngoe que identifica o lugar onde a criana nasceu, por exemplo, Asomengoe ou Enamengoe. Tambm, os nomes podem ser atribudos s crianas a partir do sexo e das qualidades que so atribudas ao significado do nome.Outra prtica de nomeao da comunidade Bakossi designar para a criana nascida o nome da parteira que ajudou no parto. Assim, se a parteira faz parte da comunidade, o filho pode receber o nome dela, caso ela no faa, o filho recebe um nome associado ao nome dela, mas que esteja presente na sua comunidade. Esta tradio cultural de prtica de nomeao de nomes prprios de crianas sofreu as mudanas na cultura Bakossi devido globalizao. Ivo Ngade (2011) comenta o impacto na alterao dos costumes e da cultura na tradio religiosa. Aps a vinda de missionrios para o local e a ascenso do Cristianismo, muitos pais procuraram nomear seus filhos com nomes de santos ou nomes tpicos da religiosidade crist, fazendo com que as tradies da religio de Bakossi fossem menos utilizadas. Ngade (2011) afirma que a modernidade um dos maiores processos que leva quebra da tradio. Nessa perspectiva, aponta-se tambm a situao da elite em Bakossi, que atualmente procura nomes prprios a partir de dicionrios etimolgicos, ou seja, no h mais em evidncia a escolha dos nomes para homenagear os ancestrais nem com valores significativos para a sociedade. O que sobressai so os nomes atuais divulgados pela globalizao. Outro impacto da globalizao sobre a prtica de nomeao a questo da imigrao da comunidade Islmica para outros pases. Por questes polticas, econmicas ou sociais, a prtica de imigrao tem se tornado corriqueira por muitos povos. Tal movimento traz como consequncia mudanas no aspecto designador dos nomes, no caso da comunidade em questo citada, a prtica de nomeao precisou ser modificada para ser aceita em outra comunidade cultural (Glasgow), o que acarreta mudanas na cultura da prpria comunidade migrada e consequentemente a perda de tradio no ato de nomear.A escolha do nome em Marechal Cndido RondonNa cidade de Marechal Cndido Rondon, foi possvel perceber as influncias miditicas, culturais que vieram com a globalizao. A cidade, colonizada na dcada de 50, teve, como principais colonizadores, pessoas de origem germnica e uma pequena minoria de origem italiana. Com o passar dos anos, a vinda de povos oriundos de outros lugares e, atualmente, com a mdia e o fenmeno da globalizao, a prtica de nomeao se estendeu para um novo quadro. Nomes atuais, no sentido de nomes da moda, ou ento diferentes, em relao a nomes nunca ou pouco utilizados naquele determinado tempo, tm ganhado maior relevncia nas prticas de nomeao, mudana de 18Marechal Cndido Rondon que aponta para a caracterizao cultural do lugar. A prtica de nomeao no se d mais atravs da etnia e sim por outros processos influenciados pela mdia, pela globalizao, conforme anlise de fichas entre 1961 e 2001, na cidade de Marechal Cndido Rondon, realizada por Frai (2012), Gehring (2012) e Lauermann (2012). Os resultados ora sintetizados so evidncias de que houve e h em Marechal Cndido Rondon uma hibridizao cultural. O termo hibridismo refere-se a fuso entre diferentes tradies culturais (HALL, 1992, p. 24), que produz uma nova cultura para a sociedade moderna, adaptada s novas identidades e valores sociais. Porm, alguns estudiosos acreditam que essa nova identidade pode trazer riscos s tradies culturais. Salman Rushdie escreveu um romance chamado Versos Satnicos; em sua obra, ele trata sobre a juno de culturas tradicionais do povo do Isl em tempos modernos O livro Versos Satnicos celebra o hibridismo, a impureza, a mistura, a transformao, que vm de novas e inesperadas combinaes de seres humanos, culturas, ideias, polticas, filmes, msicas (RUSHDIE, 1991 apud HALL, 1992, p. 394). Mesmo com esse movimento de transformao, existem tambm vrias tentativas de reconstruir identidades puras, de manter as tradies e culturas. A seguir se investiga se as motivaes para a escolha de nomes duplos so tradicionais ou inovadoras em Marechal Cndido Rondon.A escolha dos nomes duplos em Marechal Cndido RondonEntende-se como nomes duplos os pr-nomes formados por dois nomes, ou seja, duas peas lexicais, por exemplo, Ana Maria e Carla Cristina. A prtica de nomeao estende-se tambm para a escolha dos nomes duplos, tal prtica foi e muito utilizada na cidade, que est localizada no extremo oeste, no estado do Paran.No levantamento do corpus, foram coletados inicialmente cem nomes duplos na lista telefnica local, em seguida, contataram-se os nmeros de telefone para que tais pessoas participassem da entrevista. A abordagem inicial se deu pelo telefone; depois de marcado um local e horrio, o entrevistador entrevistou pessoalmente o entrevistado.Tendo em vista que as pessoas a serem entrevistadas foram encontradas na lista telefnica, foi elaborado o seguinte questionrio como instrumento de coleta de dados:1. De onde sua famlia ? 2. Onde voc trabalha? 3. Qual a sua idade? 4. Onde voc nasceu? 5. Qual a sua profisso? 6. Qual a sua religio? E da sua famlia? 7. Quem es-colheu seu primeiro e segundo nome? 8. Voc poderia dizer por que seus pais/me/pai escolheram esse nome? 9. Voc tem algum apelido? Como as pessoas te chamam? 10. Voc tem irmos? Como /so o(s) nome(s) dele(s)? 11. Voc saberia dizer por que seus pais/me/pai escolheram tais nomes para seus irmos? 12. Voc tem filhos? Quais so os nomes deles? 13. Por que voc escolheu esses nomes? 14. Voc teve outra opo para nomear seu/a filho/a? 15. Voc saberia informar quais os nomes, na poca, que voc mais ouvia? 16. Voc conseguiria dizer a primeira vez que ouviu o nome de seu/a filho/a? 17. Voc tinha alguma outra opo para nomear seu /a filho/a? O objetivo de diversas perguntas , alm de encontrar a motivao para a escolha dos nomes, tambm traar um perfil sociolgico do entrevistado, a fim de que se possam estudar questes de identidade e cultura como j visto anteriormente.Para a anlise das entrevistas, nos basearemos no estudo preliminar de Seide (2013) que separa as motivaes dos nomes prprios de pessoas naquelas citadas e no citadas por Gurios (1981). Dessa forma, para a primeira, destacam-se as motivaes: influncias histricas, religiosa; homenagem famlia, padrinhos e conhecidos, sonoridade, grafia, nomes que rimam ou combinam, influncias miditicas, etimologia e circunstncia de nascimento. J para a segunda apontam-se: causalidade e crenas individuais.At o momento foram feitas 15 entrevistas. Totalizando 73 nomes, sendo esses 34 nomes compostos (15 masculinos e 19 femininos) e 8 nomes nicos (5 masculinos e 3 femininos). Ressalta-se que, nos casos de nomes compostos, quando houve motivaes diferentes para cada um dos nomes, os mesmos foram contados separadamente. Quando foram mencionadas mais de uma motivao para o mesmo nome, realizou-se o mesmo procedimento. Ao longo 19das entrevistas, os nomes nicos foram informados na resposta da pergunta 10 Voc tem irmos? e 12 Voc tem filhos?, nesse caso, os pr-nomes foram contabilizados, porm, em outra tabela para outros estudos.Ainda, ressalta-se que as propores do nmero de entrevistas diferem para cada dcada, por isso, h mais nomes compostos na dcada de 60 e 70. Dessa forma, a tabela a seguir foi produzida de acordo com o nmero de motivaes de cada dcada, separando-as: 1939 a 1948, 1960 a 1969, 1970 a 1979, 1980 a 1989.Os resultados obtidos foram:Tabela 1 Motivao dos nomes por dcadasMotivao 1939 a 1948 1960 a 1969 1970 a 1979 1980 a 1989 1990 a 1999 2000 a 2009 2010 a 2014Hom. Familiares 2 28% 2 18,2% 3 21,4% 2 50% - - 2 66,66%Hom. padrinhos e conhecidos1 14% 3 27% 2 14,3% 1 25% 1 20% 1 25% -Religiosa 2 28% 2 18,2% 1 7,14% - - 1 25% -Mat. Lingustica 1 14% 3 27% 1 7,14% - 2 40% 1 25% -Infl. Miditica - 2 18,2% - - 1 20% - -Etimologia - 3 27% - - - 1 25% 1 33,33%Cren. individuais - - - 1 25% 1 20% - -Causalidade 1 14% - 1 7,14% - - - -Motiv. Desconh. - - 3 21,4% - - - -Nom. comum da poca- - 2 14,3% - - - -Circ. Nascimento - - 1 7,14% - - - -Fonte: Elaborao prpriaDe acordo com os dados analisados at o momento, percebe-se que todas as motivaes foram em algum momento citadas. Aps a gerao de dados, possvel perceber que a motivao mais mencionada em praticamente todas as dcadas (com exceo da dcada de 90 e 2000) foi a motivao por homenagem famlia. As dcadas de 30, 40 e 60 obtiveram dois casos em cada, sendo 28% e 18,2% respectivamente, no corpora total de cada dcada. J na dcada de 70, houve 3 casos (21,4%) e, na dcada de 80, novamente dois casos, contabilizando 50% do total da dcada. De 2004 a 2014 houve 2 casos que corresponde a 66,66%. Grande parte das motivaes foi a unio do nome de avs, tanto paternos quanto maternos, por exemplo, a me Franciele de 32 anos, que explica a motivao do nome do filho o Matheus Antnio ns vamos pegar os nomes dos avs paternos [...] Matheus que o v paterno e Antnio que materno e, tambm a Marlene Teresinha, de 50 anos o Joo Paulo em homenagem ao av paterno que Joo. Outra entrevista que tambm demarca essa questo a fala de Luiz Carlos (35 anos), que comenta a escolha do nome Luiz para seu filho, na qual o nome de seu pai foi perpetuado por mais duas geraes ele [o pai de Luiz Carlos] queria fazer uma homenagem colocando o nome dele para o filho, embora ele no tenha o significado do nome [...] eu quis fazer, tambm, uma homenagem com o meu nome pra meu filho, mas a eu mudei o segundo nome n [...]. A entrevistada Regina Adelaide, de 71 anos tambm comenta: Segundo meus pais, porque [...] queriam homenagear os avs n, da colocaram o nome da v paterna e da v materna, Regina a v paterna e Adelaide a v materna.20Em relao s homenagens a padrinhos e conhecidos, ressalta-se grande incidncia da motivao em todas as dcadas, com exceo de 2010 a 2014. Continuando a citao de Marlene Teresinha para o nome de seu filho Joo Paulo e Paulo em homenagem ao tio, irmo do pai dele, outro exemplo a entrevista com a Maria Ivone que conta a motivao do nome de sua filha, Marli Maria, que hoje tem 45 anos A Marli Maria, ento tinha que botar dois nomes a resolvi colocar Maria que santo n, ento a gente ia muito na igreja [...] e o Marli era porque eu tinha uma cunhada que no podia falar direito, mas o nome de Marli ela conseguia falar, ento eu coloquei Marli porque era um nome fcil que ela poderia falar. A prpria Maria Ivone que tambm me de Marlene Teresinha aqui mencionada, tambm relata sua motivao: eu tinha uma cunhada com o nome de Teresinha e tambm um nome de uma santa n, da resolvi colocar um nome da famlia pra ela [...] o Marlene foi uma questo de gostar do nome e eu tinha uma prima com o nome de Marlene. Sobre homenagens a padrinhos, a entrevistada Melania Teresa, de 70 anos, explica os nomes de seus filhos O segundo nome deles por causa dos padrinhos e madrinha [...] a o primeiro nome dos menino do calendrio da igreja n, e a menina no, da menina porque tinha a amiga da minha empregada que eu tinha, e eu achei bonito esse nome. Nota-se tambm que h no corpus maior motivao pela materialidade lingustica (sonoridade, grafia, esttica, rimas) do que religiosa. Os nomes religiosos citados so em sua totalidade designados por pessoas da religio catlica. Aponta-se que alguns nomes foram escolhidos devido ao calendrio cristo, em que cada dia refere-se a um santo, logo, no dia do nascimento da criana, os pais recorreram ao calendrio para verificar o nome do santo do dia, como o caso da entrevista de Melania Teresa. Tambm, houve as motivaes por devoo, como foi o caso da entrevista de Dulce Maria: Meus pais escolheram meu nome por motivo religioso [...] os dois nomes Dulce Maria o nome de uma santa da igreja catlica, ela na verdade, no considerada uma santa como as outras, mas pelo seu trabalho na igreja catlica ento ela bem considerada dentro da religio.Os nomes derivados de materialidade lingustica (sonoridade, grafia, nomes que rimam ou combinam), possuem sua relevncia, tendo 1 caso da dcada de 30-40 (14%), na dcada de 60, totalizam 3 casos com 27%, em 70 h 1 caso (7,14%), na dcada de 80 no houve influncia, porm, j nas dcadas de 90 e 2000 houve 2 (40%) e 1 (25%) casos, respectivamente. A questo dos nomes a partir da grafia tambm relevante. A mesma Regina Adelaide comenta sobre suas filhas Sandra Cristina e Silvana Regina: E a Silvana tambm porque era com S n, o primeiro filho, a o nome do segundo tambm foi com S e Regina porque era meu nome tambm [...] e a Sandra Cristina foi um nome assim, porque rimou bem Sandra Cristina. Observa-se ainda que para os nomes compostos Sandra Cristina e Silvana Regina, diferentemente da motivao do pr-nome, o Cristina foi escolhido por ser um nome bonito e de combinao agradvel.Sobre a sonoridade, Alice ressalta a necessidade de escolha diante desse aspecto: o Alice foi escolhido porque um nome fcil para os japoneses pronunciarem. Salienta-se que alguns nomes so muitas vezes escolhidos por um conjunto de fatores da materialidade lingustica, ou seja, a motivao para a escolha no apenas a sonoridade ou grafia, por exemplo, e sim ambas.Em relao ao poucos casos em que houve motivao miditica: 2 casos (18,2%) na dcada de 60 e apenas 1 motivao (20%) na dcada de 90. Destaca-se o nome Nelson Hiroche, cujo pr-nome foi dado devido ao cantor Nelson Gonalves O Nelson foi meu pai que escolheu, ele gostava do cantor Nelson Gonalves e Sandro Arthur, cujo pr-nome se deu devido a uma novela e Arthur por causa do v materno e tambm devido ao segundo nome do pai Arthur porque era o v... meu pai, e o pai dele (do Sandro) tambm era Arthur. Na tabela 1, o nome Jssica aparece como influncia miditica: Minha filha Jssica Caroline, ela tem 23, e eu que escolhi sozinha, o Jssica estava na novela e eu tinha achado bonito [...] Caroline eu achei bonito, combinou. Em relao motivao pela etimologia do nome, obtiveram-se 3 casos na dcada de 60 (27%), 1 caso em 2000 (25%) e nos anos entre 2004 e 2014 apenas 1 caso, totalizando 33,33% no corpus da dcada. Os brasileiros descendentes de japoneses possuem uma prtica de nomeao interessante. A maioria dos descendentes possuem dois nomes, o pr-nome que brasileiro e pode ser dado por diferentes motivos, como Alice comenta o Alice foi escolhido 21porque um nome fcil para os japoneses pronunciarem. Sobre seus irmos Carlos Haru e Nelson Hiroche, o nome Carlos foi uma homenagem a um conhecido O Carlos era um vendedor muito querido que vendia insumos na vila da minha me, e ela colocou porque ele era muito bondoso e ela conhecia a pessoa e o Nelson por ser um nome miditico, como j mencionado anteriormente. J o segundo nome desses descendentes de origem japonesa, na prtica de nomeao dos japoneses, o que predomina so as motivaes pela etimologia. Ressaltam-se os nomes Mitiko, Haru e Hiroche nas entrevistas, tais nomes que so de origem japonesa foram citados por Alice Mitiko a respeito dos nomes compostos de sua famlia. Segundo ela, na cultura japonesa as pessoas nomeiam seus filhos de acordo com o significado, ou ideograma e tambm pela beleza do som o nome Mitiko tem vrias formas de ser escrito, mas minha me escolheu pelo ideograma mais bonito, ento o Mi quer dizer beleza, o ti de inteligncia e o co significa que sou do sexo feminino, na explicao dos nomes de seus irmos Haru filho da primavera [...] Hiroche Hiro seria algo amplo, grandioso), ela ainda ressalta a questo da grafia e combinao de nomes Hiroche pra acompanhar com o H do outro irmo.Sobre as motivaes no previstas por Gurios (1981), as crenas individuais aparecem em 1 caso na dcada de 80 (25%) e 1 caso na dcada de 90. No caso do nome Pedro Henrique, os dois nomes tiveram a mesma motivao: a numerologia, diferentemente do Helena que o segundo nome de Patrcia, cujo pr-nome em homenagem a um conhecido do pai e Helena por numerologia. J na motivao por causalidade teve apenas 1 caso nas dcadas de 40 e 70 (14% e 7,14%) ocorrida com o nome Maria, na entrevista de Joo de Deus ao explicar o nome de seu irmo Deuclides Maria: o Maria porque tinha que botar dois nomes e no lembrava de nenhum na hora, a colocaram Maria e tambm, o caso da irm de Maria Aparecida chamada Neila Natalina o Neila normal que meus pais ouviram o nome e gostaram, ou seja, foi uma causalidade os pais terem ouvido o nome na poca de nomeao (1977).Os nomes tambm foram organizados por dcada de atribuio, conforme a tabela a seguir:Tabela 2 Nomes atribudos em cada dcada1939 a 1948 1960 a 1969 1970 a 1979 1980 a 1989 1990 a 1999 2000 a 2009 2010 a 2014Deuclides MariaJoo de Deus Regina Adelaide Maria Ivone Melania TeresaSilvanaCristina Sandro Arthur Marlene TeresinhaMarliMaria Alice Mitiko CarlosHaru NelsonHiroche Eldes JosRegiandra Larissa Sandra Regina JoiceRosita DulceMariaLuizCarlosMariaAparecidaNeila NatalinaDilson AndrJooPauloPedroHenriqueMaidi MariaSamaraBeatriz Patrcia HelenaJssicaCarolineJooGabrielGustavoHenriqueLuizFernandoMatheusAntnioFonte: Elaborao prpriaNota-se a partir da tabela que alguns nomes se repetem durante as dcadas e outros, no entanto, no so utilizados por mais de uma dcada. O nome Maria, por exemplo, presente nas dcadas de 30-80, o nome Joo, citado com intervalos, nas dcadas de 30-40 e posteriormente, na dcada de 80 e 2000. Tais nomes podem ser considerados tradicionais, podemos notar atravs do corpus que os nomes tradicionais tendem a estar sempre presentes. J os nomes Samara, Patrcia e Jssica apareceram apenas na dcada de 90.22Analisando os dados, tambm foi possvel perceber que as motivaes para nomes compostos no so necessariamente as mesmas, ou seja, a motivao do pr-nome no precisa ser a mesma que o segundo, como o exemplo, o filho de Regina Adelaide: pro nome do Sandro, tinha uma vez uma novela... aquelas novela em revista sabe, a tinha com um Sandro e eu achava esse Sandro maravilhoso a coloquei o nome do meu filho assim, o segundo nome dele Arthur porque era o v... meu pai, e o pai dele (do Sandro) tambm era Arthur.Consideraes finaisDe acordo com os resultados parciais da pesquisa, constata-se que a prtica de nomeao na cidade de Marechal Cndido Rondon no obteve grandes mudanas. A motivao dos nomes compostos no necessariamente a mesma para o primeiro e o segundo pr-nomes, como por exemplo, o nome Sandro Arthur, no qual o primeiro uma motivao miditica e, o segundo, uma homenagem ao av materno.Em relao s motivaes mais citadas, encontram-se a homenagem a familiares em primeiro lugar (21,5%), em seguida, homenagem a padrinhos e conhecidos (17,3%), materialidade lingustica (15,38), motivao religiosa (11,53%) e, por ltimo, a etimologia (9,61%). Dessa forma, a hiptese de que as motivaes predominantes na cidade de Marechal Cndido Rondon so devido mdia e globalizao pode (por enquanto) ser desconsiderada e o que ainda predomina so as motivaes tradicionais.A diferena no nmero de entrevistas por dcada de atribuio do nome interferiu na anlise dos dados, no obtendo assim, algum resultado conclusivo. Porm, espera-se que seja possvel situar as motivaes no eixo cronolgico quando o corpus estiver totalmente constitudo mediante anlise da totalidade dos dados.A adoo de nomes compostos pode ser uma tentativa de satisfazer necessidades diferentes, como, por exemplo, prestar homenagem a pessoas diferentes, prestar homenagem e incluir outro nome por ach-lo bonito, entre outros. A convivncia de motivaes e o aumento de escolha pela materialidade lingustica a partir da dcada de 90 podem ser indcio de que uma mudana de prtica nomeadora na regio sinalizando mudanas na identidade cultural da cidade. Considerando os apontamentos de Langendonck (2007) que afirma sobre a prtica de nomeao estar sustentada na cultura de cada sociedade e os estudos de Hall (1992) sobre a identidade cultural e descentralizao do sujeito ps-moderno, podemos considerar que o fenmeno da globalizao ainda no tenha influenciado a prtica de nomeao na cidade de Marechal Cndido Rondon. 23REFERNCIASBRAMWELL. E. S. 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O portugus brasileiro foi acrescido de inovaes provenientes das lnguas dos ndios, dos negros e de milhares de imigrantes europeus ao longo dos sculos, desde a colonizao at os dias atuais. O folions, ou fala dos folies, constitui-se em uma dessas variantes, prprias do meio rural e diferente da fala urbana na medida em que essa vive em constante mudana devido s influncias do mundo globalizado.Nesse contexto, a fala da comunidade rural contemplada neste trabalho compe-se de elementos de arcaicidade e inovaes que se manifestam como instrumentos de afirmao, resistncia s transformaes do mundo contemporneo ou, simplesmente, como formas novas da variedade de fala camponesa em sua lida diria no meio rural. Seu falar revela uma viso do mundo voltada para a realidade do campo atravs da convivncia harmoniosa com a natureza. Seu conhecimento consistente dos fenmenos naturais, seu habitat ou nicho se caracterizam pela maneira peculiar de se expressar no cotidiano da vida campestre e nas diferentes manifestaes folclrico-religiosas s quais pertence.Pretende-se, neste artigo, fazer uma breve abordagem da fala de uma comunidade rural, para tanto, levando em considerao o lxico dessa comunidade na constituio da sua memria coletiva a partir das narrativas de personagens da Folia da Roa, uma festividade religiosa em louvor ao Divino Esprito Santo, em Gois. O principal objetivo, aqui, compreender que a ntima experincia dos indivduos com o lugar pode estabelecer o fortalecimento de vnculos comunitrios na relao com o outro e, assim, revelar aquilo que tanto linguistas quanto eclogos enunciam, ou seja, que cada organismo est inseparavelmente relacionado a um lugar, o espao aqui entendido como territrio cultural. Segundo Halbwachs (2005, p. 21), essa relao com os territrios de vida cotidiana ocorre porque o espao uma realidade que dura e as lembranas que se conservam do passado esto presentes no meio que nos cerca. Assim, o simbolismo presente na geografia cultural do folions permite compreender a manifestao de sentimentos topoafetivos na linguagem peculiar do povo campesino, dessa maneira, revelando como que essa variedade compe a riqueza existente nas diversidades lingustico-culturais brasileiras.O folions que surgiu como manifestao lingustica nas festividades da Folia da Roa muito comum entre participantes da Folia da Roa o uso do termo folions. Aos poucos, ele foi sendo incorporado nas vrias ocasies em que os participantes das festividades em louvor ao Divino Esprito Santo se agrupavam. O vocabulrio e modo de falar desses participantes refletem uma caracterstica peculiar do grupo, que difere das outras regies de Gois.No Nordeste Goiano, alguns povoados surgiram por ocasio da vinda de viajantes que aqui se instalaram, uma vez que essa regio estava situada entre as rotas do ouro. E, mesmo no encontrando ouro em seus domnios, alguns viageiros se estabeleceram no local, pois estava situado entre os caminhos de baianos e goianos que conduziam 26o gado para a regio Sudeste1. Trata-se de uma rea bem delimitada pelas caractersticas diferenciadas de formao de cerrado e que possui regimes de chuvas bastante definidos. Segundo Jacintho (1973), dois caminhos se cruzavam nesse territrio: a picada da Bahia, que ia em direo ao Nordeste, e a picada de Minas, em direo ao Sudeste. Era por esses caminhos que entravam e saam mercadorias.Embora haja fortes resistncias ao uso de fatores do meio ambiente fsico na explicao dos fenmenos sociais, no se pode perder de vista o seguinte fato:Entre o idealismo de Hume que, no admite que a liberdade humana possa ser condicio-nada por fatos de ordem fsica, e o determinismo natural de Montesquieu, de Condorcet e de Comte, que faz do homem um joguete das foras naturais, devemos constatar que a vida humana depende em larga medida das condies climticas, geogrficas, geolgicas e biolgicas em que se encontra. (TONNEAU apud COUTO, 2007, p. 102).Assim, a regio aqui abordada se transformou em ponto importante de comrcio de couro e gado, conhecida pelos mais diversos tipos humanos: tropeiros, boiadeiros, desbravadores, exploradores, garimpeiros e missionrios. A ocupao permanente foi consequncia da identificao desses grupos e dos negros fugitivos das fazendas do litoral que, no interior, contavam com a natureza pouco explorada pelo homem branco.Por conseguinte, nesta parte do estado, as festas religiosas foram adquirindo caractersticas prprias, enriquecidas de significados. Nesse contexto peculiar, elas so ricas em elementos lingustico-culturais, prestigiando a msica, a comida, a linguagem e os costumes do povo. O folclore anda lado a lado com o sentimento de espiritualidade dos participantes da folia. A catira2, a curraleira3 e o lundum de cacete4 ganham vida e animam cada pouso e cada parada em que os devotos cavaleiros apeiam para descansar.A Folia da Roa, de onde foi cunhado o termo folions, resgata uma parte da cultura goiana que muitos desconhecem. interessante o fato de que, mesmo em meio ao desenvolvimento e globalizao, ela ainda se mantenha. E isso se deve, principalmente, devido coeso e uniformidade do grupo em relao s prticas religioso-culturais que se desdobram na reza, na arte sacra, na dana, nas cantorias dos violeiros e na manipulao dos alimentos que so servidos aos folies. Este um fato socialmente relevante na medida em que essas formas de manifestao constituem um bem imaterial reveladas nas interaes, resultado da mistura de tipos que encontraram, neste espao, um lugar ideal para viver. Assim, constituiu-se o folions, visto como uma variedade lingustica dos folies da festa do Divino Esprito Santo, nos encontros e na convivncia das pessoas no giro da folia, nos inumerveis contatos de uma rede de inter-relaes que se d entre os folies e o seu territrio cultural.As variedades lingusticas das comunidades de fala rural A comunidade de fala rural dessa regio compreendida como uma variedade da lngua ou, simplesmente, variedade lingustica. Devido ao tratamento depreciativo que o termo dialeto recebe em relao lngua padro, a colocao a seguir faz-se necessria para justificar nossa escolha pela expresso variedade lingustica: oportuno tambm refletir que, face ao termo lngua, o vocbulo dialeto guarda algumas conotaes negativas. Assim sendo, para evitar essas conotaes, diversos autores preferem substitu-lo pela expresso neutra variedade lingustica (MONTEIRO, 2000, p. 48, grifo do autor).1 Lbo e Bernardes (2006) apontam que a influncia da Bahia na povoao do nordeste goiano muito acentuada devido proximidade com esse estado, o que diferencia em muito das outras regies de Gois.2 A catira ou cateret uma dana tpica rural. Em algumas regies executada exclusivamente por homens, organizados em duas fileiras opostas. 3 A curraleira tambm uma dana tpica rural na qual os danarinos sapateiam todos ao mesmo tempo, diante de todos os demais companheiros, fazendo a cantoria e tocando seus instrumentos (viola, caixa e pandeiro). menos conhecida que a catira.4 O lundum uma dana de origem africana de carter cmico, sofrendo variaes de acordo com a regio. Em Formosa, danado o lundum de roda, em que as mulheres fazem rodopios e sapateados ao som da viola, caixa e pandeiro, formando-se roda e, s vezes, cantando.27Para compreender melhor o folions, preciso conceber a variao como uma caracterstica essencial das lnguas. A concepo da heterogeneidade lingustica a base para considerarmos o estudo em questo e atentarmos para a necessidade de entender a variabilidade lingustica como algo inerente s condioes de comunicao e existncia das diversas comunidades e culturas.Em um mundo cada vez mais globalizado, em que predominam conceitos homogeneizadores de lngua e cultura, faz-se necessrio compreender as estruturas variantes da lngua muito mais que as invariantes pois elas carregam em si, a partir da ideia de diversidade, uma evidncia da riqueza e da sobrevivncia de lnguas e culturas.Assim concebida a diversidade lingustica retratada nesta abordagem. De acordo com Dorian (1994), a heterogeneidade lingustica reflete a variabilidade social. O modelo laboviano permite compreender essa questo e convoca a criar tcnicas adequadas para estudar as variedades nos contextos sociais em que estas esto inseridas, uma vez que elas so reveladoras da prpria estratificao social.Ademais, muito tem sido discutido sobre o fato de as variedades lingusticas serem aceitas ou no no contexto dos estudos da lngua. Labov refora essa nova concepo, contrariando a viso conservadora dos gramticos formais de que as variedades seriam corrupes da norma padro. O fato que as variedades esto atreladas mais lingua falada que escrita. Desse modo, o que predomina nelas a interao comunicativa, priorizando o entendimento. Couto (2007) afirma que aquilo que chamamos at certo ponto inadequadamente de lngua, na verdade compreende: cenrio, interlocutores (falante e ouvinte) e regras interacionais, destacando a posteriori as regras sistmicas (ou gramtica). Sendo assim, o que importa a eficcia da interao, o que sempre se d quando os membros de uma comunidade se comunicam, nunca havendo uma incomunicao. notrio que, no dia a dia dos folies, seu lxico reflita, atravs de suas atividades socioculturais, um linguajar prprio, seu meio ambiente social, constituindo expresso do seu modo de vida. Na Folia da Roa, h uma enorme riqueza de significados. Existe o momento do giro ou itinerrio, no qual os folies montam seus cavalos, indo de uma propriedade rural outra, conduzindo a tropa, levando suas tralhas ou pertences. O termo polaque, que, para o pessoal da cidade, desconhecido, significa uma espcie de sino que se coloca no animal para barui e garantir que os cavaleiros perdidos possam encontrar o grupo. O termo barraqueiro, que pode significar a pessoa que faz barraco ou que faz baixaria, entendido, por eles, como aquele que fica ou, simplesmente, cuida da barraca onde so expostos os produtos da festa, entre outros exemplos.Maia (2006) afirma que os gramticos normativos nem sempre se interessam pelas muitas variantes regionais, sociais e etrias do portugus do Brasil de hoje, sinal de diversidade e vitalidade da lngua. Desse modo, a variedade aqui contemplada considerada, por ns, uma norma, ainda que no seja a padro, mas que serve aos fins de comunicao de um determinado grupo e manuteno da identidade cultural folionesa.A contribuio da lingustica antropolgica: dentro e fora do contexto scio-histricoEm Duranti (1997), possvel distinguirem-se duas vertentes quanto ao estudo da linguagem. Segundo ele, o polo chamado objetivismo a perspectiva terica que ignora propositadamente as bases scio-histricas de interpretao e reivindica a possibilidade de um conjunto de critrios de contexto independente para a descrio de um dado fenmeno. Esta vertente seguida pelos linguistas formais. Nela, as sentenas e os significados perderam sua conexo com as situaes particulares e so examinados por suas propriedades, supostamente, universais, conforme a citao:Quando ns falamos em sentenas, complementos, preposio, inflexo ou sons indivi-duais, ignoramos por motivos de anlise suas bases psicolgicas e scio histricas em atos de fala especficos e em atividades de fala produzidas por sujeitos especficos, num momento especfico, num lugar especfico. (DURANTI, 1997, p. 68, traduo nossa).28A lingustica antropolgica, por sua vez, tenta criar maneiras de manter a conexo entre as formas lingusticas e aqueles que as produzem. Esse polo, chamado de subjetivismo, estaria inserido no contexto scio-histrico, como visto na seguinte afirmao:O subjetivismo comea da suposio de que qualquer fenmeno parcialmente criado, construdo conjuntamente pela pessoa (ex. o sujeito) que descobre ou simplesmente o descreve. O Historicismo no seno uma verso particular desta abordagem: todos os fenmenos esto historicamente locados; eles existem em relao a outros fenmenos que lhe do sentido, queira estejamos conscientes disto ou no. A lngua logicamente en-tra em tal contexto histrico em diferentes nveis e de diferentes maneiras. (DURANTI, 1997, p. 68, traduo nossa, grifo do autor).Esse autor prope um estudo lingustico que leve em conta as semelhanas e as diferenas, que interprete tais experincias a partir de meios simblicos, para tanto, incluindo as expresses lingusticas. Ele prope alternativas tais como a noo de variao lingustica, repertrio e comunidade de fala.Nesta abordagem, optou-se pelo conceito de subjetivismo, considerando que, para o estudo em questo, o folions, necessrio levar em conta o contexto scio-histrico, sem o qual no seria possvel uma compreenso do fenmeno dessa variante do portugus.Ao contemplar a noo de comunidade de fala como uma alternativa, Duranti ressalta que todos os fenmenos esto historicamente locados, incluindo a lngua dentro desse contexto, em diferentes nveis e distintas maneiras. Compreender a cultura e valorizar as prticas de uma comunidade rural uma forma de entender o modo como ela se expressa ao promover seus valores, no resgate de sua identidade. Neste breve estudo, foi possvel ver que essa variedade existe quase que exclusivamente nos meios rurais, onde ainda se praticam rituais de reza, dana e cantorias, manifestaes da religiosidade popular rural.Conquanto o lxico e as expresses das comunidades rurais existissem tambm nas cidades, um dos motivos que, possivelmente, levou ao seu quase desaparecimento pode ter sido o crescimento desordenado e a iluso de uma vida fcil nos grandes centros urbanos, conforme aponta Couto (2007). Isso pode ter provocado o desinteresse pela vida e cultura camponesa, resultado do distanciamento do homem em relao ao campo, com todas as suas consequncias.Contrariamente, neste contexto, o folio desenvolveu um afeto em relao natureza e aos seus contornos, o que permite um vocabulrio que aparece, com frequncia, em todas as narrativas de experincias de vida do campesino. Assim, as expresses aqui veiculadas revelam, a partir do folions, uma forte ligao do meio ambiente com as comunidades rurais, expresso nas suas interaes do dia a dia:Tabela 1 Expresses relacionadas ao contexto do homem do campoP-de-pau = rvoreUm dedo de prosa= uma conversaHavia de primeira = antigamente existiaVirar de banda = cair de ladoPelejar = lutarCopo de chifre = utenslioDobra de milho = milho amadurecidoLograr = desvalorizarSustana = sustentoIntonce = entoArvorar (alvorar) = dar a luz da alvorada (abenoar)Labre = trabalhoBatido do polaque = barulho do sino no animalFonte: Elaborao prpria29Tabela 2 Expresses relacionadas s doenas e religiosidadeEspinhela cada = lumbagoVentre (ou vento) virado = diarreiaCarne quebrada Cobreiro = herpes zoster Quebranto (ou quebrante) = feitio Mau-olhado (ou olho gordo) = invejaBatismo de fogo = batismo na fogueira de So JooOsso rendidoCampainha cada Fonte: Elaborao prpriaInovaes e formao de palavras no folionsIlari (2002) afirma que, todos os dias, palavras novas so criadas, recorrendo-se a processos de formao prprios como a prefixao, sufixao e composio ou atribuindo novos sentidos a palavras previamente existentes. No obstante, nesses processos, faz-se necessrio entender que as escolhas no poderiam ser feitas aleatoriamente. As formaes tm uma regularidade e aceitabilidade dentro do que a lngua permite. Conforme Whorf (1971), a cunhagem de palavras no um ato de imaginao descontrolada, mesmo nos voos mais ousados da insensatez, mas o uso estrito de padres materiais j existentes. Assim, esse material pode ser reutilizado ou reciclado e refilado (WHORF apud COUTO, 2007, p. 184).Desse modo, a escolha de um prefixo ou sufixo acontece nos moldes que a estrutura da lngua permite, ou seja, os afixos sero aqueles que j existem na lngua. Como exemplo, podemos citar alguns casos do lxico dos folies que se diferenciam do portugus padro e do uma caracterstica lexical um tanto quanto marcada ao folions.Tabela 3 Lxico folionsPREFIXAO SUFIXAO COMPOSIOEMprazerado(D)EScaroarEsfarinhentoPerigVELBeijaMENTOcasadEIRACata-pousoContra-guiaFonte: Elaborao prpriaAlgumas formaes podem ser percebidas na variedade folions, entre elas, esto a composio de palavras para gerar outros significados e adjetivao de substantivos para diferenciar atividade/participante, como nos exemplos a seguir:Tabela 4 Composio de palavrasPrimeiro significado Novo significado Atividade ParticipanteGuiaPousoContra-guiaCata-pousoCatiraMussungaPousoRezaCatireiroMussungueiroPouseiroRezadeiraFonte: Elaborao prpriaEm outra anlise possvel tambm tratar os casos de composio e derivao de outra maneira, diferente de Illari. Seguindo a orientao de Couto (2007), a composio reduplicativa o processo de formao de palavras mais simples e primitivo, uma vez que consiste na clonagem de uma palavra j existente que ocorre junto com a base como 30em empurra-empurra, quebra-quebra, corre-corre, que so derivaes de um substantivo a partir de um verbo.No entanto, ele afirma que, quando se fala em composio, pensa-se nos casos em que se juntam duas palavras diferentes para formar uma terceira como beija-flor, guarda-roupa, chapu-de-sol, etc. Esses exemplos so relativamente transparentes, pois o significado do todo tem que ver com o significado das partes componentes, como em contra-guia e cata-pouso, listados anteriormente.Por seu turno, os casos em que o todo da palavra no tem nada que ver com o significado de cada elemento componente so aqueles de derivao opaca como em tamandu-bandeira, p de moleque, criado-mudo, etc. Eles constituem um primeiro passo na direo do processo de formao de palavras, ou seja, a derivao, que Schleicher (apud COUTO, 2007) denominou flexo. Trata-se de um processo morfolgico mais marcado, pois parte dos elementos componentes da palavra opaca. Seu significado apenas convencional como nos vocbulos casadeira e rezadeira supramencionados. Falantes do portugus saberiam que eles se referem quela que criada para se casar e quela que lida com a reza, respectivamente. Os contedos aquela que criada para se casar e aquela que lida com a reza estariam expressos na forma opaca, -eira. Na origem, bem provvel que elas tenham sido transparentes, algo como mulher do casamento e mulher da reza, como no equivalente ingls de leiteiro que milkman, ou seja, o homem do leite.O sufixo -vel, como expresso acima em perigvel, parece no ter ligao com hbil, a despeito de haver formas como rentvel e amvel. Porm compreensvel que o sufixo ingls -able, que ocorre em capable parece estar intimamente associado ao adjetivo independente -able que significa capaz, expressando, desse modo, habilidade.O sufixo -mento, presente na palavra beijamento, constitui uma das possibilidades que existe na lngua, mas que j est desativada de alguma forma para esse caso. Porm, na interao comunicativa dos folies, no folions, a forma de uso de tal sufixo foi ativada de alguma maneira para o ritual do beijo bandeira do Divino.Quanto aos prefixos, seria oportuno mencionar que muitos autores os consideram uma categoria pertencente composio e no derivao como em sem-terra, usado primeiramente como preposio independente. Couto (2007) considera a prefixao afirmando que, nas lnguas romnicas, o prefixo tende a acrescentar ao radical a ideia de movimento, afastamento ou aproximao, posio, negao e intensificao. Assim, em emprazerado, cheio de prazer, podemos perceber certa intensificao da palavra prazer.O prefixo es-, presente em escaroar, uma dessas variaes decorrente de uma deformao do prefixo des-, que d a ideia de tirar algo de. Mas, mesmo sendo uma deformao, possvel afirmar que tal prefixo existe na lngua, como em estontear e esvaziar. Desse modo, nada que acontece na lngua ou numa de suas variaes, como o caso do folions, aleatrio. Tudo est implicado, de alguma forma, dentro da ecologia interna da lngua5 e o que mais, ativadas ou inativadas, elas fazem parte da diversidade da lngua. Como a diversidade da natureza, tambm, a diversidade morfolexical contribui para a sobrevivncia da lngua. Consideraes finaisAs pessoas tendem a pensar na lngua como algo padronizado. Na viso dos tradicionalistas, isso reforado quando se apresenta um portugus estatal submetido a uma srie de regras a serem seguidas e que tm pouca relao com a maneira como os indivduos utilizam a lngua cotidianamente, como se os mesmos no existissem.Um fato importante a ser considerado que a relao entre lngua e territrio sempre mediada por um povo que habita este ltimo. Um dos fatores que ainda permitem a continuidade e a existncia do folions a forte ligao do homem campons, o folio, com a terra. O territrio em questo o meio ambiente natural, mais especificamente, o meio rural, que permite sua existncia. Sem essa condio bsica no possvel conceber as outras geografias, como a lingustica e a cultural.5 Endoecologia, ou ecologia interna da lngua so as relaes que se verificam internamente na lngua (COUTO, 2007, p. 157).31 lamentvel que as alteraes decorrentes da globalizao sejam ameaas constantes variedade folions e ao povo que habita o cerrado conforme aponta o relato que segue: [...] nis aqui, nis bebe essa graa de Deus, os remdio casro memo...Dismat cab cum as prantas. Eu num gosto, sabe? Quano vejo dismat eu falo: meu Deus do cu, nossos remdio! Quano tem um cerrado, uma mata, assim, na chuva eu sco l e tchu (ARAJO; CABRERA, 2007, p. 39).Assim, as manifestaes religioso-culturais aqui consideradas so as formas de expresso mais claras da coexistncia de um povo (P), em um territrio (T), permeado por uma lngua (L), o trip do Ecossistema Fundamental da Lngua (EFL), mencionado anteriormente. A lngua, neste estudo, representada pela variao folions, a evidncia da forte relao do campons (P) com as suas geografias, e a Folia da Roa ainda um resqucio de cultura popular que permite a continuidade dessa variedade, conforme o relato: Saudamo os mato verde com as beno do infeite. Tudo que t infeitado. Abenoa quem os feiz. E saudamo a cruz em vista. Saudamo as bandeirola. Saudamo ao joo de barro, de onde o homem foi tirado (do barro). O passarinho Joo de Barro, seja hoje abenoado (Seu Joo Barbeiro).Infelizmente, o xodo rural e as novas relaes impostas entre o homem e o campo so fatores que podem provocar alteraes nesse enlace. A questo a ser observada se a coexistncia do novo e do velho ser possvel ou se, com o tempo, um subsistir ao outro. Assim, a variao abordada, nesta anlise, s perdurar se o contexto scio-histrico mencionado anteriormente no desaparecer e se a homogeneidade opressora da variedade padro no prevalecer.REFERNCIAS ARAJO, A. M.; CABRERA, O. (Org.). Comunidade negra no cerrado: narrativas de curas e remdios. Goinia: Editora CECAB, 2007.COUTO, H. H. Ecolingustica: estudo das relaes entre lngua e meio ambiente. Braslia: Thesaurus, 2007.COUTO, V. Festa do Divino Esprito Santo Folia da Roa. Formosa: Artes Grficas Ribeiro, 2004.DORIAN, N. C. Varieties of Variation in a Very Small Place: Social Homogeneity, Prestige Norms, and Linguistics Variation. Language Journal of the Linguistic Society of America, Baltimore, p. 631-96. 1994.DURANTI, A. Linguistic Anthropology. New York: Cambridge University Press, 1997.ILLARI, R. Introduo ao estudo do lxico: brincando com as palavras. So Paulo: Contexto, 2002.LOBO, J. M.; BERNARDES, M. A. Formosa em Retinas Idosas. Braslia: ALPHA, 2006.MONTEIRO, J. L. Para Compreender Labov. Petrpolis: Vozes, 2000.33LXICO AMAZNIDA E POTICA AMAZNICA EM ALTAR EM CHAMAS, DE PAES LOUREIRORaphael Bessa FERREIRAConsideraes iniciaisSendo a obra literria instrumento artstico de profuso e representao de caracteres ntimos lngua, ao mesmo tempo em que renova ou transgrida esta, a arte da palavra engloba recursos prprios do material linguageiro presente nas relaes humanas.Sendo tambm um falante de uma determinada lngua, que lhe cara s suas prprias particularidades, o escritor ficcional, seja na poesia ou na prosa, compartilha na criao potica toda uma carga de expresses, vocbulos e mesmo discursos utilizados pelos falantes de um idioma. A escolha de tais recursos, por parte do poeta, representa a sua viso de mundo bem como a sua relao diante do instrumento comunicativo.Deste modo, o leitor, em dilogo com o texto potico, dever-se- confrontar com a viso de mundo do artista a fim de destrinchar a significatividade daquela obra. Para isso, a inferncia do contedo presente em toda a carga expressiva da poiesis se faz alinhavada, primeiramente, ao contedo lexical estabelecido ali, uma vez que o estudo do lxico intenta desvendar a entidade primordial a articular aquele discurso, a palavra (BIDERMAN, 2001).Com isso, o conjunto lexical empregado por um escritor demonstra a compreenso de sua competncia para com a lngua. A escolha de palavras, habilidade primeva do falante/escrevente, nada menos do que operao da aplicao do lxico de sua lngua em escala subjetiva ao discurso. Tal expressividade no discurso literrio dissemina uma noo dos aspectos subjetivos do enunciador/emissor/escritor da criao potica, tendo, portanto, razes estilsticas de existir (SANDMANN, 1992).O grande serto de Guimares Rosa prova da fertilidade lexical a qual o autor almejava expressar para dar conta da relao do sertanejo com a lngua:[...] dos tunantes da gria e dos rsticos da roa, que palavrizam autnomos, seja por rigor de mostrar a vivo a vida, inobstante o escasso peclio lexical de que dispem, seja por gosto ou capricho de transmitirem com obscuridade coerente suas prprias e obscu-ras intuies. (ROSA, 1985, p. 78, grifo nosso).Da mesma maneira, a Moambique das personagens de Mia Couto no seria a mesma sem a recriao de um universo lingustico-lexical que se presta a privilegiar a viso mgica e misteriosa de mundo, matria orgnica natureza daquela cultura, como pode ser visto no excerto do conto A Menina sem Palavras: era uma lngua s dela, um dialeto pessoal e intransmixvel? (COUTO, 2013, p. 33, grifo nosso).Do mesmo modo, a regio amaznica figurativiza-se lexicalmente na obra simblica do gacho Raul Bopp, Cobra Norato, onde o indigenismo, com seus mitos, expresses populares e vocabulrio regional intensificam obra um tom expressivo ao universo lingustico do homem daquela paisagem geogrfica:Tamaquar, meu cunhadoCobra Grande vem-que-vemCorra imitando meu rastoFaz de conta que sou euEntregue o meu pix na casa do Paj-Pato (BOPP, p. 54, grifo nosso). Ainda na regio amaznica, agora no estado do Par, Joo de Jesus Paes Loureiro cria uma potica de temtica amaznica, contudo universalizante. Isso porque a poesia desse autor mescla elementos regionais, tais como a fala, o discurso coloquial de ndole oral e o lxico amaznico, acrescentando ainda as particularidades lendrias e 34mticas recorrentes na vida do caboclo e do ribeirinho, personagens que orbitam em torno da grande floresta e do grande rio das amazonas.Nas palavras do prprio Paes Loureiro, labor do poeta lapidar a linguagem, a lngua e fala de um povo pelo ntimo contato que o arteso deva ter com o contexto circundante: O poeta, mergulhando na linguagem, deseja desencantar de suas encantarias o potico, a poesia, os poemas ali contidos. (LOUREIRO, 2002, p. 110).A partir disso, intentar compreender as principais relaes morfolgicas que Paes Loureiro labora em seu artesanato potico faz-se mote de tal pesquisa, uma vez que por meio do uso do lxico que podemos situar a viso de mundo do artista, bem como apontar a relao que este tem no somente com o seu universo particular, mas tambm com a principal ferramenta com a qual trabalha: a lngua.A estilsticaOriunda dos ensinamentos de Saussure (vide os estudos de seu mais memorado discpulo, Charles Bally), o estudo do estilo, ou Estilstica, pontua o retorno agregador e indissocivel entre Lngua e Literatura. Segundo Nilce SantAnna Martins, no livro Introduo Estilstica, para o seminal pesquisador do estilo, Charles Bally, a Estilstica estuda os fatos da expresso da linguagem, organizada do ponto de vista do seu contedo afetivo, isto , a expresso dos fatos da sensibilidade pela linguagem e a ao dos fatos da linguagem sobre a sensibilidade. (MARTINS, 1989, p. 4).Assim sendo, a anlise do estilo de um texto literrio, por exemplo, reflete o mundo criado pelo seu autor. A expressividade potica do criador esttico torna-se marca que lhe individual, caracterstica da afetividade inerente ao homem. Como bem legou o Conde de Buffon (Georges-Louis Leclerc): Le Style cest lhomme mme (BUFFON, 1946, p. 25). O estilo, portanto, espelha a particularidade de cada indivduo enquanto produtor lingustico/textual e renovador da prpria lngua. Enquanto discurso esttico, o estilo de um autor literrio sobrepe toda uma cosmoviso, ao mesmo tempo particular e universal a ele. Com isso, a expressividade estilstica imprime ao discurso potico dada carga de afetividade lingustica do autor. Os efeitos expressivos da escrita ficcional subjazem ento em informar os mltiplos sentidos da particularidade afetiva do criador potico.A partir disso, variadas foram as definies dadas ao conceito de expressividade, tambm chamada de desvio literrio, o qual o estilicista (estudioso do estilo) dever se deparar na interpretao do texto: abuso, em Valry; violao, em Cohen; escndalo, em Barthes; anomalia, em Todorov; loucura, em Aragon; variao, em Spitzer; subverso, em Peytard; infrao, em Thiry. (MONTEIRO, 2005, p. 61, grifo do autor), alm das definies outras elencadas por Nilce SantAna Martins: O estilo o pensamento (Rmy de Gourmont), O estilo a obra (R. A. de Sayce), estilo a expresso inevitvel e orgnica de um modo individual de experincia (Middleton Murry), estilo o que peculiar e diferencial numa fala (Damaso Alonso), estilo a qualidade do enunciado, resultante de uma escolha que faz, entre os elementos consti-tutivos de uma dada lngua, aquele que a emprega em uma circunstncia determinada (Marouzeau), o estilo compreendido como uma nfase (expressiva, afetiva, ou esttica) acrescentada informao veiculada pela estrutura lingustica sem alterao de sentido. O que quer dizer que a lngua exprime e o estilo reala, (Riffaterre), o estilo de um texto o conjunto de probabilidades contextuais dos seus itens lingusticos (Archibald Hill), estilo surpresa (Kibdi Varga), estilo perspectiva frustrada (Jakobson), estilo a lin-guagem que transcende do plano intelectivo para carrear a emoo e a vontade (Mattoso Cmara). (MARTINS, 1989, p. 2-3).Sendo escolha, expressividade, desvio, etc., o estilo prprio de um autor junge ao texto potico intenes da natureza particular daquele indivduo. A, o estilo no ser mais apenas o homem, como legou Buffon, mas agora ser dois homens (autor e leitor): A anlise do estilo observar ento, para aqum da expresso textual, mecanismos 35de construo do sentido, os quais acabam por dar indicaes de quem o prprio sujeito pressuposto; esse sujeito, ao mesmo tempo nico e duplo. O estilo so dois homens. (DISCINI, 2009, p. 7).O estilo de cada escritor, seja de prosa ou poesia, revela as escolhas realizadas por aquele artista em busca de impor sua marca na criao potica. Segundo Marouzeau (1969), a lngua um repertrio de possibilidades e os seus usurios devem fazer escolhas de acordo com suas necessidades de expresso. Por fim, ao estudioso do estilo de um texto literrio caber analisar e destrinchar, por meio das palavras, da frase e das figuras de linguagem (tropos) o universo mental, discursivo e significativo do escritor. A anlise estilstica ocupar-se-, ento, dos meios e mecanismos lingusticos utilizados no texto potico que tornam este uma arte, de fato, literria. A estilstica da palavra: morfoestilstica e estilstica lexicalSubrea da Estilstica, a Estilstica Lexical, tambm conhecida como Estilstica Lxica, pretende, pela anlise dos aspectos morfolgicos presentes na escrita potica, desmembrar os substratos expressivos contidos na rede semntica do texto. As formas combinatrias e flexionadas das e entre as palavras constituem o objeto de estudo dessa vertente de anlise estilstica.Ora, se como pontua Maria Aparecida Barbosa, a criao lexical deve ser situada [...] em funo da individualizao das criaes feitas por locutores na comunidade lingustica (BARBOSA, 1981, p. 78), caber ento ao intrprete dos efeitos de estilo desvelar o uso dos recursos morfolgicos realizados na criao literria enquanto processo de expressividade no apenas ao autor-escritor do texto, mas tambm como ferramenta do uso da lngua pela comunidade na qual aquele autor est inserido.Dessa forma, obter as impresses da expressividade das palavras da obra de um escritor tambm obter as impresses do universo lexical da comunidade lingustica qual ele pertence. Esse percurso a procura pelas intenes do enunciador, busca pela viso de mundo contida no jogo das palavras. A estilstica lexical, com isso, pretende-se agregar aos estudos literrios, lingusticos e tambm discursivos. Segundo Elis de Almeida Cardoso:Um dos objetivos da Estilstica justamente analisar a escolha feita pelo enunciador, dentre os elementos lingusticos disponveis, verificando-se de que maneira se consegue com ela efeitos estticos e expressividade e, sobretudo, tentando-se chegar inteno do enunciador por meio do estilo encontrado em seu texto. / A Estilstica Lxica, por sua vez, pretende verificar a expressividade obtida com as palavras, seja por sua flexo, por sua formao, por sua classificao, pelo seu significado no contexto. Essa parte da esti-lstica preocupa-se com os aspectos expressivos ligados aos componentes semnticos e gramaticais das palavras. (CARDOSO, 2009, p. 68).A criao lexical literria, para Manuel Rodrigues Lapa (1984), combina formas existentes com novos vocbulos (criao neolgica) de forma a apreender uma riqueza cultural, semntica e expressiva do autor literrio e do conjunto potico ao qual o texto agrega significados. Ou seja, investigar a forma como um autor trabalha com a lngua tambm estudar sua cultura, bem como a histria de um povo e a relao deste com essa ferramenta de comunicao.Em outras palavras, o autor literrio no somente um criador de histrias e personagens, mas tambm um criador, ou recriador, da lngua. E nessas (re)criaes da lngua que resultam em toda uma carga semntica diferenciadora de como aquele usurio da lngua se relaciona com seu objeto de trabalho. O uso dos vocbulos e as transformaes neles impostas do escrita do poeta, do romancista e do contista a expressividade almejada, prova maior do estilo diferenciador dos escritores. Pode-se discutir o mesmo assunto, mas de formas diferenciadas. A criatividade no uso do como dizer incide ao estudioso do estilo averiguar os mtodos de composio empregados pelo autor literrio para alcanar tal xito. Como afirma Louis Guilbert:36Il existe une autre forme de cration lexicale fonde sur la recherche de lexpressivit du mot em lui-mme ou de la phrase par le mot pour traduire des ides non originales dune manire nouvelle, pour exprimer dune faon indite une certaine vision personelle du monde. Cette forme de cration, propremente parler potique, par laquelle on fabrique une matire linguistique nouvelle et une signification diffrente du sens le plus rpandu, est lie loriginalit profonde de lindividu parlant, sa facult de cration verba-le, sa libert dexpression, en dehors des modles reus ou contre les modles reus. (GUILBERT, 1975, p. 41).Com isso, caber aqui a investigao de como o universo amaznico expresso na poesia de Paes Loureiro graas utilizao que este autor faz da lngua. A averiguao dos principais recursos morfolgicos aferidos ao lxico da lngua portuguesa remete, em princpio, a uma viso potica da realidade especfica daquela regio, a Amaznica, uma vez que o autor se faz pertencente quela comunidade de usurios da lngua, o que acaba por manter uma cultura e uma forma de se expressar prpria e ntima quele locus. Nos rios lexicais de Altar em Chamas, de Paes LoureiroA obra Altar em Chamas, de Paes Loureiro, fora lanada, em sua primeira edio, no ano de 1983. No entanto, a edio que aqui ser analisada a ltima, datada de 2002, uma vez que esse derradeiro volume apresenta modificaes em alguns poemas, alm de acrscimos a todo o conjunto potico anteriormente formulado pelo autor.Os excertos aqui analisados foram escolhidos no que diz respeito seleo vocabular do autor por termos ou palavras de origem e/ou expresso nitidamente ligadas ao mbito geogrfico e cultural da regio amaznica. Elementos da lngua tupi, por exemplo, tanto quanto palavras que definem a viso de mundo sagrada e mgica do caboclo amaznida foram selecionadas a fim de agregar analise o teor visivelmente estilstico de Paes Loureiro ao abordar questes universais na sua obra.Aspectos que, como afirma o prprio autor ao discutir o elemento imanente do potico: faz emergir uma linguagem epifnica, do fundo das encantarias do rio da linguagem, tornando sua poeticidade dominante, realando a denominao potica, fazendo o poema ou mito-poema inserir-se com significao prpria no contexto circundante. (LOUREIRO, 2002, p. 116).Lxico amaznidaSo constantes e variadas as palavras de origem tupi, e que consequentemente pertencem ao lxico do habitante da regio amaznica, que Paes Loureiro se vale em muitos dos poemas pertencentes ao livro Altar em Chamas. O autor explora termos ligados aos indgenas, tais como Icamiabas, Chincos, Cunhants e mesmo palavras pertencentes ao mundo mgico do imaginrio popular amaznida, como Yara e Boina. Em Paisagem Recordada o autor aglomera em dois versos elementos do lxico cultural do caboclo amaznico, sendo portanto regionalismos da regio, bem como palavras ligadas ao elemento natural da gua: Icamiabas e Botos / - piracemas de lendas.... (LOUREIRO, 2002, p. 169).As Icamiabas, ndias guerreiras que se correlacionam historicamente ao mito das amazonas mulheres guerreiras (AULETE, 2007); os Botos, espcie de golfinho da Amaznia, mas to lendrio e sagrado ao imaginrio cultural; e a piracema, o nome dado ao movimento migratrio dos peixes no rio (HOUAISS, 2009), incidem ao poema, e ao leitor da poesia, conhecimentos do contexto e da realidade amaznica.Em Pronto-atendimento surge o grande ser folclrico das guas amaznicas, a serpente lendria que habita os rios da regio, destruindo embarcaes (AULETE, 2007), a boina: Vrtebra de boiuna (LOUREIRO, 2002, p. 82).Termos de origem tupi ligados descrio das mulheres, Cunhants nascem do rio (LOUREIRO, 2002, p. 126); a aves, Os chincos flagelam-se com os bicos (LOUREIRO, 2002, p. 135); e entidade folclrica protetora 37das guas, de Yaras e de Circes (LOUREIRO, 2002, p. 63, grifo nosso), so elencados pelo escritor de forma a jungir sua poesia no apenas meras palavras oriundas do vocabulrio do cidado comum da Amaznia, mas sim palavras que agregam sentido metafrico ao conjunto da obra, tornando esta um imenso poema sobre a cultura amaznica.Exemplo maior pode ser constatado na expressividade que tais palavras ensejam arquitetura poemtica. O que se constata em Certido, texto que alia paisagem das guas da baa do Maraj maior arquiplago fluvial do mundo o fluxo contrrio e manso das guas que banham a cidade de Barcarena; o regionalismo bubuiar, ou o que flui no sentido da correnteza (AULETE, 2007): A baa do Maraj passei na enchente / e Barcarena deixei debubuiando (LOUREIRO, 2002, p. 63).Criaes neolgico-lexicais com valor semntico ligado cultura amaznicaDiscorrendo ainda sobre o uso de vocbulos expressivos realidade amaznica, encontra-se em Altar em Chamas uma variedade de criaes neolgico-lexicais que sintetizam a aliana e mescla da cultura lngua. Exemplo disso pode ser encontrado em Rua de madrugada, poema que dialoga com a imagem da boina, s que recriando esta qual um advrbio pela utilizao do sufixo mente: boiunamente digerindo estrelas... (LOUREIRO, 2002, p. 196, grifo nosso).J em Plpito da Igreja de Santo Alexandre, Paes Loureiro promove lngua o processo denominado nos estudos morfolgico-lexicais de palavra-valise, ou portmanteau, quando duas bases ou apenas uma delas so privadas de parte de seus elementos para constiturem um novo item lxico, uma perde sua parte final e outra sua parte inicial (ALVES, 1989, p. 69). Ao se valer da juno, em parte, de dois vocbulos, alma e amazonas, o poeta agrega sentidos dspares, contudo vlidos, para identificar imagem do rio amazonas carga semntica que simbolize morte, decadncia e falimento: Outros lhe chamam rio das Almazonas (LOUREIRO, 2002, p. 102, grifo nosso).Ainda remetendo a um imaginrio greco-romano, mtico e arquetpico por excelncia, Paes Loureiro, no poema Ver-o-peso, toma ao leitor a representao ertica da deusa Vnus, Afrodite para os gregos, ao discorrer sobre a natureza voluptuosa das ndias banhando-se margem do rio. O neologismo afrodticas constitui o que Rocha (2008) chama de composio erudita: Cunhants nascem do rio suas graas afrodticas... (LOUREIRO, 2002, p. 26, grifo nosso).Por fim, mas no menos importante, o poeta, em Paisagem recordada: Abaetetuba, de avio, elenca o afixo prefixal des, caracterstico por expressar falta, negao ou oposio, para expressar a perda do sentimento de inocncia, pureza e virgindade da natureza: Ali, a praia de Beja. Ali, / Desinocncias. Ali, a Ponte Grande. (LOUREIRO, 2002, p. 109, grifo nosso).A derivao parassinttica, dada uma palavra que apresente prefixo e sufixo em sua construo (BASLIO, 1987, p. 46), utilizada no poema Belm do Par ao se discutir o conceito de mito-poema, ou seja, quando a criao esttica aglutina-se ao contexto cultural e mtico da regio circundante. Paes Loureiro intenta transformar a lngua em mito ao discorrer a prpria perda do carter lendrio do locus amaznico, o que Max Weber chama de desencanto do mundo (WEBBER, 1993, p. 65), para isso o poeta se vale da juno do prefixo des ao elemento sufixal ada, para criar a palavra deslendada: Numa cidade agora deslendada (LOUREIRO, 2002, p. 64, grifo nosso).Consideraes finaisComo visto na anlise dos poemas pertencentes obra Altar em Chamas, Paes Loureiro se vale da utilizao de inmeros processos morfolgicos para ampliar o campo lexical, bem como o campo semntico, ao qual as palavras pertencem, de modo a expressar com maior nitidez no somente a fala e a lngua dos ribeirinhos e dos caboclos da Amaznia, mas tambm toda uma cosmoviso no que diz respeito ao modo como esses indivduos expressam sua cultura e seu referencial de mundo na vida cotidiana.38O uso de palavras de marcao regional ergue criao potica deste autor um conjunto de caractersticas prprias do seu trato com a lngua portuguesa. A Amaznia e o lxico da regio jamais so solapados ante a funo potica da linguagem, ao contrrio, esta que se deixa igualar ao trato que o arteso das palavras suscita na sua produo lrica. Da no ser uma potica meramente regional a obra de Paes Loureiro, mas sim uma lavoura lingustica que transcende os ismos, segregadores por natureza, rompendo com a carga imanente do significado de uma lngua de ordem regional.Transbordando a lngua de afetividade e de expressividade de valor universal, quais os problemas e incompletudes humanas vistas nas temticas de sua obra, a potica amaznica de Paes Loureiro firma-se no lxico amaznida para insuflar poesia, lngua e linguagem potica elementos reverberadores dos dramas mundanos. Tema e contedo se associam portanto no estilo do autor de Altar em Chamas. Acordo no qual a lngua torna-se elemento chave para desbravar a realidade. REFERNCIASALVES, I. M. Neologismo Criao Lexical. So Paulo: tica, 1989.AULETE, C. 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So Paulo: WMF Martins Fontes, 2008.39A F QUE NOS MOTIVA: UM ESTUDO DOS TOPNIMOS EM LIVRO DE REGISTRO DE BATIZADOS DE 1837-1838Mayara Aparecida Ribeiro de ALMEIDAMaria Helena de PAULAPalavras iniciaisO presente trabalho tenciona apresentar um estudo lexical acerca dos topnimos da Villa do Catalo, especificamente aqueles que se encontram mencionados no Livro de Registros de Batizados da Parquia Nossa Senhora Me de Deus (1837-1838), a fim de compreender um pouco mais sobre a cultura e histria das pessoas que habitavam este local na primeira metade do sculo XIX.Sabe-se que o lxico, conjunto de todas as unidades significativas que surgem para referenciar a realidade que nos cognoscvel, caracteriza-se por ser complexo, fruto da memria coletiva de um determinado grupo lingustico e que est em constante ampliao, resultado da dinmica que caracteriza a vida humana. Por meio dessas unidades lxicas nos dado conhecer esta realidade, razo por ser o estudo lexical to importante no apenas para o campo extralingustico bem como para o estudo na esfera da lngua.Segundo Saussure (1969), o signo lingustico se caracteriza por ser arbitrrio, o que implica compreendermos no existir uma motivao natural, uma razo explicvel para a escolha do significante que dar nome ao novo que se apresenta. Entretanto, como nos apresentam os estudos de Dick (1990), o signo topnimo se difere das demais unidades lexicais devido ao seu carter motivacional. Isso implica dizer que a escolha do nome ao local no ocorre de forma aleatria; pelo contrrio, existem razes diversas que podem ter levado o denominador a optar por tal designativo, seja por uma motivao particular, pelas caractersticas prprias deste local ou pela escolha coletiva do grupo que ali reside, dentre outros.Diante disso, percebe-se que o topnimo, mais ainda que qualquer outro elemento lexical, nos oferece maiores recursos para conhecermos o modus vivendi daqueles que tiveram esses locais como palco para a tramitao de suas vidas, uma vez que a escolha deste nome se justifica por alguma motivao que est diretamente relacionada com o referente ou com os seus nomeadores. Ancorados nesta perspectiva, propomos em nossa pesquisa de iniciao cientfica intitulada Estudo lexical do Livro de Registro de Batizados da Parquia Nossa Senhora Me de Deus (maio de 1837 a setembro de 1838) realizar um estudo lexical deste livro, contemplando dentre outros campos lexicais, o signo toponmico, com vistas a descobrir quais eram as motivaes desses locativos, para conhecer um pouco mais sobre a histria assentada nos flios destes documentos manuscritos, que em muito contribuem para aqueles que buscam o conhecimento acerca de tempos pretritos, em que no nos possvel o contato com pessoas que neles viveram, restando-nos, nesses casos, a recorrncia a textos escritos. Com relao a esses signos toponmicos, dentre os quais nos foi possvel verificar a presena de topnimos tanto de acidentes humanos como tambm acidentes fsicos, constatamos que os hierotopnimos foram os mais expressivos, com a identificao de quinze itens. Ante essa constatao, nos propomos a fazer um estudo mais detalhado das unidades toponmicas que se referem a nomes sagrados de diversas crenas, vinculados a associaes e esferas religiosas, mostrando a f crist como veculo motivador e at propulsor das pessoas que viviam neste local para esta nomeao em especfico.Para tanto, nosso trabalho deu-se da seguinte forma: inicialmente realizamos a leitura e edio semidiplomtica do livro supracitado, seguindo as Normas para Transcrio de Documentos Manuscritos para a Histria do Portugus do Brasil, elaboradas em 1999 por um grupo de fillogos e linguistas histricos e que se encontram publicadas em inmeras obras, tais como a de Megale e Toledo Neto (2005), de que fizemos uso. 40Em sequncia, realizamos o levantamento de todas as lexias referentes a topnimos da Villa do Catalo e de regies adjacentes, fundamentados nos estudos de Dick (1990). Aps essa etapa, realizamos a classificao toponmica, conforme o que se encontra em Dick (1990), realizando a posteriori a anlise dos mesmos (para o estudo aqui apresentado nos detivemos unicamente aos hierotopnimos), levando em considerao o contexto dos registros de batizados e tambm o que a historiografia pe ao nosso conhecimento (PALACN; MORAES, 1994; GOMEZ et al., 1994), mostrando, deste modo, como a f diz muito sobre a cultura das pessoas que viveram em Catalo no perodo em estudo e nos permitem conhecer um pouco mais deste cenrio nos oitocentos.Breves consideraes sobre o signo toponmicoA toponmia uma rea do conhecimento que se dedica ao estudo dos nomes prprios de lugares e pertence a uma cincia maior, a Onomstica, responsvel pelo estudo lingustico dos nomes prprios e que se divide em vrias subdivises.O signo toponmico composto por dois elementos bsicos: o termo ou elemento genrico e o elemento ou termo especfico, sendo que o primeiro refere-se ao espao geogrfico que ser nomeado (rio, morro, cachoeira, vida, cidade) enquanto que o segundo, o topnimo propriamente dito, diz respeito ao nome que o particularizar, identificando-o e singularizando-o dentre os espaos semelhantes. Uma das principais caractersticas do topnimo encontra-se justamente em seu carter motivacional. Ao se batizar um lugar, este deixa de ser arbitrrio e se torna signo motivado, fato que o difere de qualquer outro elemento do cdigo lingustico. Destarte, essa motivao marcada duplamente: primeiramente, pela inteno do denominador na escolha de tal designativo, dentre todos os outros que esto a sua disposio e, segundo, pela sua origem semntica, que detm significados que podem apresentar diversas procedncias.Observa-se desta maneira que, ao se nomear um local, um nome que antes era classificado como comum passa a ser um nome prprio, ou seja, passa de um nome originalmente arbitrrio para ser identificado como um designativo de lugar, tendo carter motivacional proveniente de ordens diversas, as quais devem ser observadas em um estudo toponmico. Assim sendo, a motivao pode advir: de modo espontneo, como resultado do pensamento compartilhado pelos membros de uma comunidade ou ser ainda de natureza sistemtica ou oficial, tipo de nomeao que atribuda aos descobridores, dirigentes polticos e religiosos. importante destacar, alm disso, que ao dar nome a um lugar o denominador tem uma causa e uma intencionalidade na escolha de tal designativo. E, segundo Dick (1990), a descoberta da intencionalidade uma das tarefas mais difceis por compreender questes condicionadas pela psicologia humana. Assevera ainda que essa intencionalidade se torna mais acessvel quando se refere a acidentes de natureza antropocultural, por estarem mais prximas do conhecimento do falante nativo. Por outro lado, acrescenta que os topnimos de natureza fsica tendem a conservar suas denominaes ao longo do tempo. Outra caracterstica muito importante refere-se manuteno do designativo, mesmo com o desaparecimento de sua causa motivadora, o que interpreta o topnimo como sendo um fssil lingustico, que guarda um conhecimento, no apenas da realidade do tempo presente, mas principalmente de tempos longnquos. Dessa maneira, o estudo desses nomes nos permite penetrar no tempo passado, razo pela qual a pesquisa toponmica revela-se sendo um importante instrumento de investigao lingustica, principalmente quando relacionada histria e cultura nela refletidas (SEABRA, 2007). Diante de tudo que foi mencionado compreendemos que: Os topnimos mais que locativos so o suporte lingstico em que se v refletida a his-tria de um povo, veculo que transmite informao e ideologia e, sobretudo, que a mo-tivao toponmica envolve uma complexa interao de fatores, sejam eles do ponto de vista do denominador ou do ambiente total em que se encontra (MAEDA, 2006, p. 19).41Ademais, a toponmia uma disciplina que se volta para outras reas do conhecimento, dependendo da formao do pesquisador, podendo vincular-se Histria, Geografia, Lingustica, Filologia, dentre outras cincias. E ao mesmo tempo em que ela recebe subsdios para seu trabalho, oferece contribuies para as configuraes tericas destes. Deste modo, em nosso trabalho, levando em considerao o que Dick (1990) nos informa, estabelecemos relao entre a toponmia e o labor filolgico.Por meio do estudo dos topnimos, que evidenciam as tradies e costumes de uma comunidade, nos possvel conhecer um pouco mais da formao lingustica, histrica, cultural e ideolgica de um povo, contribuindo na compreenso das informaes contidas no texto, que o objeto de anlise do labor filolgico. Por outro lado, a Filologia oferece fontes fidedignas para a identificao e anlise de topnimos, principalmente de pocas em que no se tm registros de mapas oficiais. Taxionomias toponmicas Levando em considerao a importncia do elemento motivador e do conhecimento dessa motivao para estudos de diversas reas afins, Dick (1990) props a taxionomia toponmica composta por vinte e sete (27) taxes, a qual se divide em dois grandes grupos, taxes de natureza fsica, que se referem a fatores ambientais, e taxes de natureza antropocultural, voltadas para a natureza humana. Assim, integram os topnimos de natureza fsica: Astrotopnimos (relativos aos corpos celestes), Cardinotopnimos (relativo s posies geogrficas), Cromotopnimos (relativo escala cromtica), Dimensiotopnimos (relativo s dimenses dos acidentes geogrficos), Fitotopnimos (relativo aos vegetais), Geomorfotopnimos (relativo a acidentes hidrogrficos), Litotopnimos (relativo aos minerais), Meteorotopnimos (relativo a fenmenos atmosfricos), Morfotopnimos (relativo s formas geomtricas) e Zootopnimos (referente aos animais).Para os topnimos de natureza antropocultural so listados: Animotopnimos ou Nootopnimos (topnimos relativos vida psquica, cultura espiritual), Antropotopnimos (topnimos relativos aos nomes prprios individuais), Axiotopnimos (topnimos relativos aos ttulos e dignidades que acompanham nomes prprios individuais), Corotopnimos (topnimos relativos a nomes de cidades, pases, estados, regies e continentes), Cronotopnimos (topnimos relativos aos indicadores cronolgicos representados pelos adjetivos novo, velho), Ecotopnimos (relativos s habitaes em geral), Ergotopnimos (relativos aos elementos da cultura material), Etnotopnimos (relativos aos elementos tnicos isolados ou no (povos, tribos, castas)), Dirrematopnimos (constitudos de frases ou enunciados lingusticos), Hierotopnimos (relativos a nomes sagrados de crenas diversas, a efemrides religiosas, s associaes religiosas e aos locais de culto, subdividindo-se assim, em hagiotopnimos, nomes de santos ou santas catlicos romanos, e mitotopnimos, relacionado a entidades mitolgicas), Historiotopnimos (relativos aos movimentos de cunho histrico, a seus membros e s datas comemorativas), Hodotopnimos (relativos s vias de comunicao urbana ou rural), Numerotopnimos (relativos aos adjetivos numerais), Poliotopnimos (relativos aos vocbulos vila, aldeia, cidade, povoao, arraial), Sociotopnimos (relativos s atividades profissionais, aos locais de trabalho e aos pontos de encontro da comunidade, aglomerados humanos) e Somatopnimos (topnimos relativos metaforicamente s partes do corpo humano ou animal).42Breves consideraes sobre o labor filolgico e o corpus desta pesquisa A Filologia uma cincia que se detm no texto, com vistas a explic-lo, restitu-lo sua genuinidade e prepar-lo para ser publicado respondendo assim pela funo primordial do labor filolgico, a saber, a funo substantiva, conforme nos aponta Spina (1977). Segundo este autor, a explicao do texto recorre a disciplinas auxiliares para que se alcance um entendimento pormenorizado de todos os seus pontos, ressaltando ainda que o prprio texto que indicar o caminho a ser trilhado (a quais disciplinas recorrer) pelo pesquisador para o cumprimento desta primeira etapa. Em nosso caso, por lidarmos com um corpus de origem eclesistica relacionado especialmente ao rito do batismo, fez-se necessrio conhecer como se dava a realizao desse sacramento e qual o vocabulrio utilizado para referenciar esse ato, o que possibilitou-nos identificar todas as lexias dispostas nos assentos de batismo.Por outro lado, a genuinidade textual apela para a restaurao do documento, processo em que se busca tornar o texto inteligvel, facilitando sua leitura. Por fim, a preparao do texto com vistas a public-lo consiste no que chamamos de edio, ou seja, em sua reproduo para outro material. Ressalta-se aqui que, consoante Spina (1977), a reconstituio textual consiste na etapa mais importante da funo substantiva, possibilitando-nos dizer que, para um trabalho ser filolgico deve, ao menos, dedicar-se edio do texto. Alm desta funo, observa-se ainda que a Filologia se preocupa com outros questionamentos afora o campo textual, por exemplo, o estabelecimento da datao do texto, de sua autoria e da observao da valorizao que este documento possua na poca em que foi redigido, atividades essas que esto nos limites da funo adjetiva. Por fim, Spina (1977, p. 77) lista ainda outra funo a ser cumprida por um fillogo, a saber, a funo transcendente, em que se busca conhecer a histria externa ao documento, os fatos que lhe motivaram e lhe deram origem, possibilitando reconstituir a vida espiritual de um povo ou de uma comunidade em determinada poca. Destarte, para o desenvolvimento de nossa pesquisa Estudo lexical do Livro de Registro de Batizados da Parquia Nossa Senhora Me de Deus (maio de 1837 a setembro de 1838) tivemos como objetivo principal alcanar duas funes do trabalho filolgico, a funo substantiva e a funo transcendente. Para a realizao desta primeira funo, que tem como etapa principal a edio do texto, escolhemos dentre todos os tipos de reproduo disponvel (em que cada tipo responde por uma finalidade diferente) realizar a edio semidiplomtica, com base nas Normas para transcrio de documentos manuscritos para a Histria do Portugus do Brasil, presentes no livro Por Minha Letra e Sinal de Megale e Toledo Neto (2005). Insta esclarecer que esta edio realizou-se a partir de edies fac-similares, isto , de cpias fotogrficas do livro suprarreferido, as quais se encontram disponveis no Laboratrio de Estudos do Lxico, Filologia e Sociolingustica (LALEFIL), do Instituto de Letras e Lingustica da Universidade Federal de Gois Regional Catalo, e se originam do projeto Formao de corpora escritos de Gois leitura e edio de documentos, coordenado pela Prof. Dr. Maria Helena de Paula.Esse tipo de reproduo oferta uma edio muito fiel ao documento original porquanto, alm de permitir a observao de aspectos codicolgicos (tipos de materia scriptoria, sendo estes, papel, pena, tinta, entre outros) e paleogrficos (o traado das letras, o tipo de escrita utilizado, a identificao se o escrevente possua mos hbeis ou inbeis, entre outros), impedem o contato direto com os manuscritos, o que poderia contribuir para a deteriorao desses acervos to caros a estudos de diversas ordens e memria de seu povo.Por outro lado, a edio semidiplomtica, escolhida por ns para a realizao desta primeira funo, justifica-se neste estudo porque ao mesmo tempo em que conserva o estado da lngua em questo (o que se torna indispensvel para aqueles que pretendam realizar estudos lingusticos), consente que o editor realize algumas pequenas interferncias, como o desenvolvimento de abreviaturas (colocando em itlico os grafemas que se omitem e se desenvolvem no texto editado) e a remisso para nota de rodaps de eventuais erros identificados no corpo dos assentos, realizadas unicamente para facilitar a leitura desses documentos. Para que o leitor observe esses tipos de reprodues e ateste as explicaes que apontamos, seguem fragmentos da edio fac-similar e da edio semidiplomtica, respectivamente.43Figura 1- Edio fac-similarFonte: Fragmento do Livro de Registro de Batizados da Parquia Nossa Senhora Me de Deus (1837-1838), flio 11 verso.Figura 2 Edio semidiplomtica, lio justalinearFonte: Fragmento do Livro de Registro de Batizados da Parquia Nossa Senhora Me de Deus (1837-1838), flio 11 verso.Feitas estas consideraes relativas ao labor filolgico, cumpre-nos trazer alguns informes sobre o corpus desta pesquisa. Tendo sido exarado entre os anos de 1837 a 1838, o Livro de Registro de Batizados da Parquia Nossa Senhora Me de Deus, composto por 52 flios escritos em recto e verso pelo Vigrio Encomendado Francisco Xavier Matozo, destinou-se ao registro de batismo de 251 crianas nascidas na ento Villa do Catalo ou regies adjacentes, podendo estes inocentes serem filhos de homens livres ou subjugados ao sistema escravocrata. Tal qual pudemos constatar, observando todos os flios deste cdice, os assentos seguiram uma padronizao, ou seja, todos foram escritos da mesma forma, dispondo os mesmos tipos de informes, dispostos na mesma ordem. Desta maneira, verificamos lexias relativas ao local onde o sacramento foi realizado e/ou onde as pessoas moravam, s profisses ou ocupaes da poca, condio social destes e s suas etnias ou cores. Diante desse acervo lexical, o qual nos permite ter uma viso mais ampla da cultura daqueles que participaram dessa cerimnia, conclumos que para alcanarmos a funo transcendente do labor filolgico, estas 44unidades deveriam ser abarcadas em nosso estudo. Para o estudo em tela, apresentamos ento, o que o estudo das unidades toponmicas nos permitiu dizer sobre a vida espiritual da comunidade que morava na Villa do Catalo e regies circunvizinhas. Anlise dos resultadosMediante o inventrio dos topnimos mencionados no livro de registro, identificamos o total de sessenta e cinco (65) nomeaes toponmicas, dentre as quais quarenta e trs (43) so designativos de motivao antropocultural e vinte e dois (22) de natureza fsica, revelando uma percentagem de 66,15% e 33,85%, respectivamente.Deste resultado, observamos de antemo que o elemento motivador mais expressivo na Villa do Catalo e regies adjacentes foi o fator antropocultural, estando relacionado, deste modo, a elementos da psicologia humana do seu nomeador e/ou da comunidade em que este habitava. Desse resultado, constatam-se os hierotopnimos como os locativos mais expressivos, com a ocorrncia de quatorze (14) locativos, respondendo por uma porcentagem de 32,56% dentre os designativos antropoculturais e 21,54% dentre todos os locativos inventariados. Assim, fazem parte dos hierotopnimos inventariados as seguintes designaes: Arraial da Senhora do Bom Despacho, Villa de Santa Crus, Villa do Bomfim, Freguezia de Santa Anna, Freguezia da Senhora Madre de Deos, Capella de Santo Antonio, Capella do Espirito Santo, Margem de Sa Marcos, Fazenda Sa Miguel, Fazenda de Santa Anna, Fazenda de Sa Bento, Fazenda de Sa Domingos, Fazenda de Sa Francisco e Fazenda de Santa Roza.Ante esse resultado, tomamos como ponto de partida para a anlise desses dados o que a prpria histria coloca nossa disposio acerca da realidade encontrada no Brasil em suas origens e, a posteriori, na ento Villa do Catalo nos idos oitocentistas.Consideramos que quando os portugueses aqui chegaram tentaram transplantar neste territrio o modus vivendi lusitano, com suas mentalidades voltadas, dentre outras particularidades, para a exaltao e afirmao da f Catlica, sua religio oficial, a fim de conquistar ainda mais fiis para essa religio em crise resultada da reforma protestante.Com relao realidade encontrada na Villa do Catalo, desde sua formao original, segundo Gomez et al. (1994, p. 21), o povoamento de Catalo seguiu os mesmos moldes observados no territrio goiano no sculo XIX, de modo especfico, nas regies que no tiverem a minerao como desencadeadora desse processo1, em que observa-se:Numa rea j ocupada pelos stios e fazendas, um fazendeiro decide fazer doao de um lote de terras para a construo de uma igreja. movido, sem dvida, pela devoo, mas tambm pelo interesse de atrair moradores e valorizar mais suas terras; no falta tambm o orgulho de sentir-se fundador. Na igreja ou capela comeam a celebrar-se as festas reli-giosas, especialmente a do titular. Movido pela religiosidade, mas igualmente pela neces-sidade de convivncia, o povo acorre por ocasio das festas. Surgem em torno da capela armazns e vendas. o que no interior conhecido pelo nome expressivo de comrcio; o incio de um povoado, que com o tempo se transforma em arraial e depois numa cidade.Em acordo com a estrutura exposta anteriormente, conforme informado por Gomez et al. (1994), o Arraial do Catalo surge entre os anos de 1810 (data em que Antnio Manuel doa terras igreja para a construo de uma capela em devoo a Nossa Senhora Me de Deus) e 1820, originando-se por um ncleo composto por igreja, venda e moradores. 1 Segundo Palacn & Moraes (1994), existiram duas formas de povoamento em Gois, o que se deu em terras com riquezas minerais e aquele ocorrido em locais cuja principal atividade econmica advinha da agricultura. O primeiro caracterizou-se por ser um povoamento ocorrido de forma muito acelerada em que medida que novos locais com fontes de minrios eram descobertos criava-se ali um novo povoamento, mas quando essas riquezas se findavam, esses povoamentos eram abandonados. O segundo tipo, diferentemente do que observamos nessa primeira estrutura, ocorreu de forma lenta, porm com uma estrutura mais slida do que o primeiro.45Observamos a presena da Igreja Catlica na histria de Catalo desde a formao de seus primeiros ncleos: para Gomez et al. (1994), a Igreja se fez presente durante todo o seu percurso histrico at chegar a denominao de cidade no ano de 1859. Ademais podemos completar essas disposies dizendo que esta religio se faz expressiva nesta cidade at os dias atuais.Cumpre-nos, neste momento, observar ainda se essas denominaes eram pontuais ou subjetivas, tal como realizado por Carvalhinhos (2014, [s/p]) em seu trabalho sobre a hierotoponmia portuguesa, em que conclui: Quanto aos lugares que recebem como denominao Senhora/Nossa Senhora verifica-mos dois tipos distintos de denominao: uma, pontual, descritiva, isto , ocorre quando hierotopnimos so aplicados a igrejas e capelas, geralmente indicam a qual santo, santa ou invocao de Maria foi erigido o templo. O outro tipo de motivao pode ser consi-derado mais subjetivo e encerra uma homenagem ou pedido de proteo, como no caso de hierotopnimos aplicados a povoados e cidades, desde que a motivao da nomeao seja estabelecida pelo prprio denominador, e no por rgos governamentais.Baseando-nos neste mtodo de anlise, observamos a relao estabelecida entre os hierotopnimos aqui inventariados, em que chegamos ao seguinte resultado: cinco (5) topnimos pontuais e dez (10) locativos subjetivos. Compem o quadro dos topnimos pontuais: Frequezia de Santa Anna, Freguezia da Senhora Madre de Deos, Capella de Santo Antonio e Capella do Espirito Santo. Dentre os locativos subjetivos esto: Arraial da Senhora do Bom Despacho, Villa de Santa Crus, Villa do Bomfim, Margem de Sa Marcos, Fazenda Sa Miguel, Fazenda de Santa Anna, Fazenda de Sa Bento, Fazenda de Sa Domingos, Fazenda de Sa Francisco e Fazenda de Santa Roza. possvel perceber mediante este estudo a nomeao empregada aqui no como um ato individual, reflexo apenas do pensamento do denominador (a Igreja ou polticos da poca), mas como consequncia de um pensamento compartilhado pela comunidade, haja vista que os hierotopnimos se apresentam bastante expressivos entre os que viviam nessa regio e poca. Entendemos que a escolha por estes designativos esteja ligada ao pensamento de que ao dar um nome de santo a uma pessoa ou a um determinado local, estes passavam a ficar sob os cuidados especficos do santo homenageado (ISQUERDO, 1996, p. 142-143). Alm destas questes, destacamos, outrossim, a influncia da religio sobre a vida daqueles que moravam na regio da Villa do Catalo, o que pode ser observado at mesmo pela natureza dos documentos de que fizemos uso para este estudo que so registros de batizados da Parquia Nossa Senhora Me de Deus, tipo documental que durante muitos anos funcionou como um registro de nascimento, atestando, alm do princpio de uma nova vida, o nascimento dos lugares para a f Catlica. Consideraes finais Por meio deste estudo, nos foi possvel compreender um pouco mais do cenrio histrico de Catalo, revelando-nos luz do lxico toponmico, quais foram as principais influncias no ato de se nomear os lugares, em que constatamos que o principal referente foram os hierotopnimos, conduzindo hiptese da importncia e influncia da religio na vida do lugar na primeira metade do sculo XIX, resultado principalmente da histria de Catalo em que a religio esteve presente desde sua origem.Ainda h muito a ser estudado com relao formao toponmica de Catalo e adjacncias que remonte aos nomes encontrados na zona urbana e na zona rural, posto que os resultados dessa pesquisa mostram uma motivao subjetiva, possibilitando-nos observar com mais propriedade dados histricos, culturais, ideolgicos, religiosos, entre outros, daqueles que desempenharam o papel de motivar o nome dos espaos. Ademais, deve-se somar a esta constatao a presena em Catalo de grande acervo documental referente aos idos oitocentistas, os quais carecem ser consultados e estudados a fim de ampliar o conhecimento com relao a essas questes. 46Acreditamos, deste modo, que este trabalho se justifica por contribuir com os estudos toponmicos do Sudeste goiano e tambm por se somar aos estudos de natureza filolgica que vm sendo desenvolvidos por estudiosos do referido LALEFIL, na tarefa de perscrutar o passado histrico e lingustico do territrio goiano e nele garimpar os motes para a histria da lngua portuguesa em Gois. REFERNCIAS CARVALHINHOS, P. de J. Hierotoponmia Portuguesa os nomes de Nossa Senhora. Disponvel em: Acesso em: 07 ago. 2014. DICK, M. V. de P. do A. A motivao toponmica e a realidade brasileira. So Paulo: Edies Arquivo do Estado de So Paulo, 1990. GOMEZ, L. P. et al. Histria poltica de Catalo. Goinia: Editora UFG, 1994.ISQUERDO, A. N. 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So Paulo: Cultrix; Editora da Universidade de So Paulo, 1977.47DESCRIO E ANLISE DA TIPOLOGIA DEFINICIONAL DO GLOSRIO REGIONAL DA OBRA ESTUDOS DE DIALETOLOGIA PORTUGUESA LINGUAGEM DE GOIS (1944)Rayne Mesquita de REZENDEMaria Helena DE PAULANotas introdutriasCom objetivo de apresentar uma parcela do que ser feito durante toda a pesquisa de mestrado sob o ttulo Configuraes da linguagem em Gois: um estudo dos regionalismos lexicais sob o vis metalexicogrfico, vinculada ao PMEL-UFG/Regional Catalo discorreremos sobre os tipos de definio utilizados no Glosrio1 Regional da obra Estudos de Dialetologia Portuguesa Linguagem de Gois, da autoria de Jos Aparecido Teixeira (1944), que compe um dos corpora de anlise de nossa pesquisa. No encalo de nossa proposio, abordaremos genericamente a obra em seu todo para, em seguida, versarmos sobre a microestrutura do Glosrio Regional e, posteriormente, sobre a tipologia definicional adotada por Teixeira (1944) no registro dos significados das unidades lexicais arroladas. A sustentao terico-metodolgica para esta investigao assenta-se nos estudos de Biderman (1984), Bosque (1982), Rey-Debove (1984), dentre outros. Os procedimentos metodolgicos adotados para tal feitio operam nas esferas quantitativa e qualitativa, uma vez que para uma visualizao clara e ampla dos tipos de definio utilizados, contabilizamos as entradas, separando-as por classe lxico-gramatical e analisamos a forma como se afiguram as acepes.Aspectos genricos da obra Estudos de Dialetologia Portuguesa: linguagem de Gois (1944).Antes de adentrarmos propriamente em nosso objetivo precpuo, que fazer uma investigao da tipologia definicional dos verbetes que compe o Glosrio Regional, parte integrante do livro Estudos de Dialetologia Portuguesa Linguagem de Gois faz-se mister uma apresentao em linhas gerais da obra de autoria de Jos Aparecido Teixeira (1944), que embora no seja largamente conhecida, consiste em um estudo sistematizado a que julgamos coerente com os padres da cincia dialetolgica contempornea a sua publicao.A obra est dividida em seis segmentos: Prefcio, I Dialetologia (conceituao e percurso histrico), seguido dos captulos; Parte I Fontica; Parte II Morfologia; Parte III Sintaxe e Parte IV Glosrio Regional, em que figuram respectivamente:a) Prefcio o autor versa sobre sua inteno, que a de apresentar um estudo sistematizado sobre a variao diatpica do estado de Gois entre os anos de 1930 e 1940, levando em conta, tambm, a variao diastrtica dos falantes, ao separ-los em grupos de acordo com sua situao financeira, o que implicava, consideravelmente, seu grau de instruo (analfabetos, semi-analfabetos, alfabetizados e letrados).No que tange constituio populacional de Gois, Teixeira (1944) assevera que se trata de um estado de baixa densidade demogrfica, formado por uma capital nova Goinia e pequenas vilas distantes entre si, cuja base econmica a agropecuria e em menor proporo, o comrcio. Reitera, ainda, que os locais percorridos durante a sua pesquisa foram as zonas sul, leste, centro e pr-norte, por conta de melhores condies fsicas de acesso. Convm mencionarmos que, nessa poca, Tocantins e Gois no haviam sido separados, formando um nico estado.Ao que tudo indica nas afirmaes de Teixeira (1944), podendo ser atestadas mais adiante nas cartas 1 Optamos por transcrever a palavra glosrio no decorrer de todo este artigo conforme consta na grafia original da obra Estudos de Dialetologia Portuguesa Linguagem de Gois (1944). Este critrio se estende s demais palavras transcritas por Teixeira (1944) que fogem grafia vigente e de acordo com as normas ortogrficas atuais. Os itens lxicos sob essa condio sero sinalizados pela fonte realada em negrito.48lingusticas presentes na obra, da frao territorial que hoje corresponde ao Tocantins, somente de trs a quatro municpios situados atualmente no centro-sul desta unidade federativa tiveram registradas suas variaes.b) I Dialetologia Neste excerto, Teixeira (1944) traa um panorama do desenvolvimento desta cincia paralelo ao desenvolvimento da Lingustica, do qual a Dialetologia consiste em uma das subreas de pesquisa. Embora a Dialetologia tenha suas razes na Grcia Antiga, consolidou-se como cincia autnoma com objeto de investigao e metodologia delimitadas nas ltimas dcadas do sculo XIX (em meados de 1870).Em relao aos estudos dialetais no Brasil, segundo o autor, aps o perodo literrio Romntico, que despertou um sentimento ufanista e, por conseguinte, a noo da divergncia entre a Lngua Portuguesa falada no Brasil e em Portugal, que florescem pesquisas de carter dialetolgico adequadas ao quadro lingustico brasileiro, fixando-se com a publicao de O Dialeto Caipira de Amadeu Amaral (1920) e posteriormente de O Linguajar Carioca de Antenor Nascentes (1922).Teixeira (1944) encerra esse tpico com o que denomina de Notcia geogrfica e histrica de Gois, em que versa sobre a composio geogrfica e social de Gois entre as dcadas de 30 e 40 tratando de elementos como seu clima, bacias hidrogrficas e quantidade de habitantes (cerca de apenas um milho em todo o estado). Destaca, tambm, que o substrato populacional de Gois era de ndios, negros e brancos, indiferentemente de outros lugares que foram rotas das bandeiras paulistas, em busca de ouro no auge da atividade minero-extrativista no Brasil Colnia. Uma observao notvel do autor e que consiste em uma das justificativas para a manuteno dos traos lingusticos caractersticos do dialeto caipira irradiado pelos bandeirantes a do baixo fluxo imigratrio estrangeiro para Gois, salvo a migrao de habitantes de zonas fronteirias devido a sua localizao geogrfica no interior brasileiro.As sees que trazem as anlises em nvel lingustico seguem ordenadas em: c) Parte I neste captulo dedicado Fontica, Teixeira (1944) apresenta um estudo acurado das especificidades fonticas dos lugares visitados em Gois. Para recolher, organizar e comprovar suas constataes, o autor utilizou como procedimento metodolgico o mapeamento feito atravs das cartas lingusticas, procedimento largamente utilizado na Dialetologia e na Geolingustica que consiste em demarcar no mapa de uma determinada regio um fenmeno lingustico previamente selecionado para investigao.Assim, os dados esto divididos em: carcteres gerais da pronncia goiana, modificaes fonticas que sofrem as vogais, o tratamento dos ditongos, dos semi-ditongos, dos hiatos, dos grupos consonantais e, por ltimo, dos metaplasmos.d) Parte II Morfologia, em que o autor versa sobre as variaes nesta esfera, ao explanar sobre o comportamento dos substantivos, adjetivos, pronomes, verbos, advrbios, conjunes e preposies no linguajar goiano.e) Parte III Sintaxe. Aqui, Teixeira (1944) disserta sobre os fatos caractersticos do linguajar goiano em relao concordncia entre sujeito e verbo, regncias verbais e tipologia pronominal.f) Parte IV Glosrio Regional, frao que nos interessa para o presente trabalho, nela o autor elenca 254 unidades lexicais em ordem alfabtica, com orientao semasiolgica tendo normalmente em sua composio: marcao de uso, categorizao lxico-gramatical, acepes, abonaes e a cidade, regio ou zona em que foi registrada a unidade. A reproduo ipsis litteris de um trecho do Glosrio ilustra esta explanao:49Tabela 1 Reproduo literal do Glosrio Regional contido na obraCLASSIFICAO VOCBULO SIGNIFICAO LOCALArcasmoArcasmoNeo seNeo seEtm. pop.Neo seEraErradaEncartarEsbiutarEscoromenoEscopeteirosf.sf.v.v.traloc.corr.adj.Tempo, pocaEncruzilhadaNa pinga = beber s e g u i d a m e n t e , e m b e b e d a r - s e constantemente.a viola = tocar baixo, leve, em estudo.Se quer ao menosEsperto, treteiroAbn: gente no pe sentidoSe o que falo certo ou no, Nesta era que nis tEste mundo num t bo Folc. p. 256.Corr. de bisbilhotar = fazer mexericos, intrigas,- atravs a forma esbilhotar, corrente no falar nortista. Esbiutar conserva o sentido substancial do subst. bisbilho (brasileirismo) que significa: o leve murmrio das guas correntes, donde se originou bisbilhar = murmurar levemente. Em Portugal, escopeteiro designa o soldado armado de escopeta, espingarda curta; no Brasil (Norte), significa atirador que no perde o alvo. Da possivelmente se origina o sentido goiano de dextro, esperto, que teria passado ao terreno moral - espertalho, treteiro.JaraguCorumbabaCataloFormosaS. AnaNorteFonte: Estudos de Dialetologia Portuguesa- Linguagem de Gois, de Teixeira (1944, grifo nosso) No prximo tpico, explanaremos, com base na fundamentao terica, quais foram os procedimentos de que nos servimos para a execuo deste trabalho, cujos resultados sero demonstrados sucessivamente.Aportes tericos e procedimentos investigativos No processo analtico das tipologias definicionais que constam do Glosrio Regional, foram aplicados primacialmente os pressupostos tericos de Bosque (1982), que postulam uma descrio detalhada para cada um dos tipos possveis de definio. Segundo este autor, no que tange taxionomia das definies, dois aspectos so essenciais para sua categorizao e distino: (1) a natureza da metalinguagem empregada; (2) a natureza do definido e a informao proporcionada. Com base nesses dois critrios, so elencados tipos e subtipos de definies. Assim, as que se pautam sobre a metalinguagem so divididas em definies prprias e imprprias / metalingusticas. As definies prprias (por parfrase, ou parafrsticas) so as que trazem explicaes sobre o significado, podendo ser, segundo Bosque (1982):50a) definio hiperonmica tipo mais frequente, em que na definio do lema, na condio de hipnimo, ser remetida a uma categoria semntica de maior extenso, logo, de seu hipernimo;b) definio sinonmica menos frequente do que o tipo anterior, consiste na definio de uma entrada por unidades lexicais semanticamente equivalentes, geralmente da mesma classe gramatical do lema/entrada. De acordo com Murakawa (2011), ainda que seu emprego acarrete em alguns casos a circularidade, a utilizao da sinonmia funcional no caso dos verbos e adjetivos.c) definio antonmica trata-se de dois tipos: as definies que incluem um componente negativo como carncia ou ausncia de; e as que estabelecem uma relao de oposio antonmica binria, baseada na existncia de pares contrrios.No que diz respeito ao segundo critrio apontado por Bosque (1982, p. 111), a natureza do termo definido e a informao proporcionada, verifica-se que esses dois elementos permitem a distino entre a definio enciclopdica (real) e a definio lexicogrfica (nominal). Cada um desses tipos atende a especificidades dos objetos lexicogrficos que integram.Destarte, a definio enciclopdica tem a finalidade de descrever os objetos e situaes referentes ao extralingustico, enquanto a definio lexicogrfica tem a funo de descrever a unidade lexical em nvel lingustico, principalmente em seus aspectos semnticos, seguidos dos sintticos e gramaticais. Frente ao exposto, para que pudssemos observar mais detidamente cada tipo de definio empregada por Teixeira (1994), procedemos da seguinte forma:a) quantificao dos verbetes, que resultaram num total de 254 unidades lexicais, aos quais o autor denomina vocbulos;b) elaborao da ficha lexicogrfica (ver abaixo), por meio da qual executamos separao dos verbetes de acordo com a classificao gramatical exposta2 por Teixeira (1944), totalizando 145 substantivos, 42 verbos, 59 adjetivos, 1 conjuno, 1 locuo, 1 advrbio e 1 preposio:Quadro 1 Ficha lexicogrfica elaborada a partir do Glosrio Regional (TEIXEIRA, 1944), para quantificao de dadosMicroestrutura: Verbetes e tipos de definio do Glosrio Regional (TEIXEIRA, 1944)Verbete Tipologia definicional1- Ajoj- sm. = Embarcao feita de 2 canoas, fortemente ligada por cordas. Parafrstica2- Boncha - sm. = Roado. Sinonmica3 - Amoitar - v. = Esconder. Sinonmica4- Banzer v. = Ficar pensativo. Parafrstica5- Atrasado adj. = Pobre, sem recurso. Parafrstica6- Boiota adj. = Louco. Sinonmica7- Camisa-vermelha sm. Jaguno da polcia de Goiaz, cuja misso era proteger o presidente e garantir sua permanncia no poder.Enciclopdica8- Condi conj. = Quando. SinonmicaFonte: Elaborao prpriac) quantificao desses dados em porcentagens, com a finalidade de verificarmos em que proporo foram registrados em cada classe lxico-gramatical os diferentes tipos de definio;2 Convm destacar que, em certos casos, Teixeira (1944) classifica gramaticalmente de forma equivocada algumas unidades lexicais.51d) anlise dos dados consoante os pressupostos tericos da Metalexicografia para diviso da tipologia das definies segundo Bosque (1982), Biderman (1984) e Murakawa (2011).As fases pontuadas resultaram na explanao ulterior, em que tratamos acerca da estrutura dos verbetes e a classificao que lhe conferimos segundo o postulado pelos pressupostos terico-metodolgicos adotados.Sobre a microestrutura do Glosrio Regional e a anlise tipolgica dos verbetesPartindo para a descrio do que aqui designaremos de microestrutura do Glosrio, embora esta no assuma uma forma convencional, visto que a disposio dos verbetes em forma de tabela, iniciamos pela composio do corpus de onde foram extradas as unidades lexicais inventariadas.Teixeira (1944) recolheu os itens lexicais realizando entrevistas com populares no interior do estado de Gois em meados das dcadas de trinta e quarenta. O autor no explicita se utilizou algum tipo de questionrio semntico-lexical com perguntas direcionadas ou se o registro foi feito motivado pelo grau de recorrncia das unidades lexicais.Antes de partirmos para os resultados oriundos de nossas observaes, cabe destacar que no se tratam de crticas obra de Teixeira (1944), haja vista que ele foi claro ao denotar sua inteno, a de organizar um glossrio contendo as peculiaridades lingusticas recolhidas em Gois3, nas dcadas de 30 e 40 do sculo passado.Por glossrio, um tipo de acervo lexicogrfico que deu origem aos dicionrios plurilngues e monolngues, com definies mais complexas abarcando uma extenso indubitavelmente maior do que a de seu antecessor, consideramos ser um Pequeno vocabulrio ou relao de palavras, em que se explica o significado das mesmas, para ajudar o leitor na compreenso do texto que l, como defende Biderman (1984, p. 139).Para alm da leitura de textos escritos percebemos, no caso do Glosrio Regional, outra caracterstica prototpica deste tipo de instrumento lexicogrfico, que a de elucidar os significados e sentidos raros das unidades lexicais restritas a certa parcela da lngua, atravs de definies sucintas (DUBOIS, 2006).Trata-se do que Rey-Debove (1984) denomina de uma lngua regional um dos quatro tipos de sub-lxicos (das lnguas regionais; das lnguas sociais; das lnguas temticas e das lnguas de geraes) imersos do lxico geral. Essas variaes lexicais so perceptveis, mas no a ponto de serem vistas como dialetos, posto que so fundamentalmente escolhas plausveis dentro do lxico de um mesmo idioma selecionado por diferentes razes e segundo as configuraes socioculturais dos falantes de cada regio.Desse modo, a maneira como Teixeira (1944) realizou cada uma das descries concorde proposio de um acervo intitulado como glossrio/glosrio, no deixando a desejar do que se espera para este tipo de objeto lexicogrfico.Com orientao semasiolgica, com itens elencados na tabela em ordem alfabtica, o arqutipo4 de verbete que figura no glossrio contm classificao, vocbulo, significao e local. Sobre essa diviso, evidenciamos que os termos que designam cada uma das sees no so concernentes terminologia da Lexicografia para nomear cada um dos elementos componentes de um artigo lexicogrfico.Depreende-se, ento, em consonncia com os pressupostos terico-metodolgicos da cincia lexicogrfica que os temos colocados por Teixeira (1944) assim correspondem: classificao= marca de uso; *vocbulo= lema; significao = acepo. No entanto, em relao aos termos vocbulo e significao se concebermos a possibilidade de Teixeira (1944) embasar-se na perspectiva puramente lingustica, sem atentar-se para a terminologia lexicogrfica que mesmo hoje tem seu estudo recente no Brasil, constatamos que no h nenhum equvoco por parte do autor, mas uma designao terminolgica pautada na descrio puramente lingustica. Logo depreendemos que:3 digno de nota que neste perodo os atuais estados de Gois e Tocantins ainda no haviam sido separados, formando uma grande unidade federativa sendo desmembrados somente quatro dcadas depois, em 1988. Entretanto, depreendemos que das cidades que foram pontos de inqurito do autor, apenas trs esto locadas no atual estado do Tocantins.4 Reveja-se a tabela 1 deste estudo para melhor entendimento destes apontamentos.52[...] vocbulo se aplica fala, ao discurso. Aqui, o ponto de partida o vocabulrio, ou melhor, a soma dos vocabulrios individuais, mas o ponto de chegada o acervo lexical da lngua, com uma diferena, esse lxico no potencial como o lxico geral, mas real, na medida em que no resulta de um estudo da competncia individual (vocabulrio ativo + vocabulrio passivo), mas de uma somatria de realizaes individuais.O termo significado indica o valor individual e paradigmtico do item lxico. Toda uni-dade tem potencialmente um ou mais significados disponveis para o falante. Todo sig-nificado ocupa um lugar definido no sistema de que faz parte, sendo tambm delimitado, por aqueles que fazem parte do mesmo conjunto. J o termo significao ou sentido o valor semntico resultante da combinatria de unidades na sequncia. Logo, o sentido no simplesmente uma soma de significados porque engloba todos os elementos signi-ficativos necessrios comunicao, a incluindo-se o contexto, a situao e at mesmo as atitudes e disposies do falante/ouvinte (BORBA, 2003, p. 19-20, grifo nosso). Levantamos essa hiptese assentadas no fato de que Teixeira (1994), ao fazer o registo das unidades lexicais vigentes em uma parcela da comunidade de falantes de lngua portuguesa no Brasil, tenha optado por utilizar os termos da Lingustica geral, vocbulo e significao, com o intento de salientar que se tratavam de itens lxicos ou de significados inerentes linguagem de Gois, na dcada de 1940.Quanto disposio do glossrio, as marcas de uso divididas em neologismos, neologismos semnticos, portuguesismos, brasileirismos e arcasmos so as primeiras componentes da tabela, seguidas da faixa que contempla o lema/entrada. Na prxima coluna, temos a categorizao lxico-gramatical, que no est precedida por nenhum ttulo que sinalize a sua presena. Posteriormente, as acepes esto intituladas como significao.As abonaes, assim como a categoria gramatical, no so precedidas de ttulo. Na ltima coluna, temos o local onde foram recolhidos os itens lxicos e seus respectivos significados. So elencados, em maioria, de municpios e, em nmero menor, o que Teixeira (1944) chama de zonas5, correspondentes recorrncia em uma faixa territorial maior do que um municpio. Ocorre na transcrio dos significados e abonaes, por vezes, uma confuso. Em certos pontos, fica difcil distinguir se a abonao uma parte do registro da significao ou se realmente uma abonao, uma vez que, nem sempre o sinalizador Abn: colocado antes de seu registro, deixando esta margem de dvida. Creditamos essa incerteza disposio dos verbetes em forma de tabela, o que acarreta dificuldade de discernimento entre abonao e definio, pois ausncia de sinais diacrticos eventual nestas duas seces do glosrio. Entrementes, remontamos questo das definies lacnicas, que so tambm outro fator que dificultou o processo de classificao dos tipos de definio.Aps o levantamento da tipologia definicional presente no corpus, em cada uma das classes lxico-gramaticais arroladas, os resultados em porcentagens convertem-se em:5 Em alguns momentos, Teixeira (1944) transcreve somente o nome da regio, no sendo precedido da palavra zona.53Quadro 2 Demonstrao dos resultados obtidos com a anlise tipolgica das definies contidas no Glosrio Regional (TEIXEIRA, 1944).Tipologia definicional no Glosrio Regional (TEIXEIRA, 1944)Categoria lxico-gramatical/ quantidade Tipo de definio/ quantidadeSubstantivos 14,4% Sinonmica 7,6%Parafrstica 6,8%Enciclopdica 1,2%Verbos 35,7% Sinonmica 26,1%Parafrstica 7,1%Adjetivos 25,4% Sinonmica 22,1%Parafrstica 3,4%Outros (conjuno, locuo, advrbio, preposio) 24,5% Sinonmica - 24,5%Parafrstica 0%Fonte: Elaborao prpriaSomadas as porcentagens, as definies totalizam-se 98,8%. Desse nmero, 80,3% correspondem s definies sinonmicas; 17,3% s parafrsticas; 1,2% definio enciclopdica; os outros 1,2% equivalem ao registro repetido de um lexema, resultando em 100% dos verbetes componentes da microestrutura do Glosrio Regional de Teixeira (1944).Diante da concluso do processo de anlise das definies, atestamos que estas so em grande maioria de tipologia sinonmica, seguida pelas parafrsticas, sendo utilizadas, como se pode notar no quadro acima, independentemente da categoria lxico-gramatical das unidades lexicais arroladas no Glosrio Regional (TEIXEIRA, 1944).A ocorrncia de apenas uma definio do tipo enciclopdica, a nosso ver, aponta para dois caminhos: (i) a relao, mormente estreita entre a histria e a cultura de uma determinada regio, a ponto de no poder deixar de ser transposta nas pginas de um objeto lexicogrfico destinado a tal; (ii) a aparentemente provvel falta de conhecimento do autor entre a distino dos tipos de definio lexicogrfica e enciclopdica.Por fim, feita a apresentao dos resultados alcanados e do caminho terico-metodolgico escolhido para tal feitio, acreditamos ter cumprido nosso objetivo primordial, que foi a realizao de uma investigao metalexicogrfica, tendo como material de observao um glossrio de regionalismos, com enfoque no estudo pormenorizado dos tipos de definies utilizadas.54REFERNCIAS BIDERMAN, M. 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Anchieta, 1944.55TERMOS INDGENAS NO LXICO TOPONMICO DE DIAMANTINATatiana Martins MENDESIntroduo Patrimnio vocabular de uma comunidade lingustica, o lxico se constitui de termos que nomeiam a realidade representativa de um povo no seu contexto social e cultural. A lexicografia permite a organizao e categorizao desses termos e a toponmia, por sua vez, refora seus traos geogrficos, histricos e etnogrficos. Diamantina, localizada na Serra do Espinhao ou Serra dos Cristais, como tambm conhecida, teve no seu entorno tribos indgenas falantes do macro-j, como os puris que desapareceram aps a chegada dos bandeirantes1 e dos ndios falantes do tupi. A classificao das estruturas lingusticas indgenas realizadas por Seki (1999, p. 259) traz uma ideia das lnguas usadas. Segundo a autora,O tronco Tupi [...] inclui 6 famlias genticas: Tupi-Guarani (com 33 lnguas e dialetos), Mond (com 7 lnguas), Tupari (com 3 lnguas), Juruna, Munduruku e Ramarana (cada uma com 2 lnguas) e 3 lnguas: Aweti, Maw e Purubor. A famlia Tupi-Guarani ca-racteriza-se por grande disperso geogrfica: suas lnguas so faladas nas diferentes re-gies do Brasil e tambm em outros pases da Amrica do Sul (Bolvia, Peru, Venezuela, Guiana Francesa, Colmbia, Paraguai e Argentina). No tronco Macro-J, definido com base em evidncias menos claras, so includas 6 famlias genticas (J, Bororo, Botocudo, Karaj, Maxacali, Patax) e 4 lnguas (Guat, Ofay, Erikbakts e Fulni). As lnguas filiadas a esse tronco, exclusivamente brasileiro, so faladas principalmente nas regies de campos e cerrados, desde o sul do Maranho e Par, passando pelos estados do centro oeste at Estados do sul do Pas. Sabe-se que as tribos J, Bororo, Maxacali e Patax e as falantes do tupi que vinham do litoral baiano, seguindo o curso do rio desde Belmonte, estiveram na regio no perodo colonial. Mesmo com esse movimento lingustico, a forma J no apareceu nos nossos dados. Os estudos da Agncia Nacional de Ao Indigenista ANAI comprovaram que as tribos do tronco J citadas ainda se encontram no territrio, ocupam vrios municpios mineiros2, evidentemente no os encontramos em Diamantina. Ali, as tribos no encontraram lugar seguro. Nesta proposta no tratamos as questes sociais, geogrficas tampouco os problemas internos das lnguas, nos atentamos, apenas, em mostrar a toponmia dentro do contexto comunicacional e descrevemos as estruturas produtivas, nesse caso, o tupi, na denominao dos lugares. Dar nome ou definir um nome para um lugar um processo complexo, pois, de acordo com Isquerdo (1997, p. 33), a diversidade de influncias culturais na formao tnica da populao, como tambm, as especificidades fsicas de cada regio tornam dificultosa toda tentativa de explicao das fontes geradoras dos nomes de lugares e de acidentes geogrficos.. O lugar recebe o nome conforme sua representatividade no ambiente cultural em que se insere. O nome sacraliza, denota vnculo, inviolvel, cultura e ao ambiente. O Tijuco, nos seus primrdios, foi morada dos ndios que lhe puseram esse nome por sua caracterstica pantanosa, lamacenta3, ponto de encontro de muitos rios. Os habitantes que vieram depois, orientados pelo Pico do Itamb, lhe deram o nome atual, Diamantina, conferindo-lhe a imponncia propiciada pelo legado diamantfero. 1 Segundo Capelle (1980, p. 180) o movimento das bandeiras, agentes de civilizao, est relacionado com os indgenas [...], uma de suas finalidades [...] era capturar os ndios para escraviza-los e, um dos resultados imediatos foi a mestiagem racial (mamelucos) seguida da mestiagem cultural, pelos intercmbios de usos e costumes. Alis, se bem que o tupi no tenha sido a lngua oficial das bandeiras, como quer Teodoro Sampaio, ela foi no entanto responsvel pela riqueza e propriedade dos numerosos topnimos descritivos de nossa geografia..2 . Acesso em: 03 jun. 2014.3 Segundo Cunha (1999, p. 289) o nome tupi e sofreu variao: Tijuco < Tijugo < Tujuco < Tijuco < Tejuco. http://www.anai.org.br/povos_mg.asp56A extrao de ouro, diamante, pedras preciosas e semipreciosas ocorreu nas margens do Jequitinhonha, rio federal, que nasce em Minas e percorre a extenso de 760 km at chegar Bahia. Cientes da importncia desse rio, a sua no dicionarizao4 nos trouxe inquietude. O estudo realizado na comunidade nos permitiu observar quo pouco sabemos a respeito dos nomes e do processo de motivao que os envolve.MetodologiaNosso estudo passou por vrias etapas. Pesquisamos documentos pblicos, fizemos trabalho de campo e anlise dos dados orais e escritos. Adotamos pressupostos tericos defendidos na lexicologia por Biderman (1998, 2001); na lexicografia, usamos a metodologia sugerida por Haensch (1982) e Barbosa (2001); para anlise dos itens lexicais, consultamos Bueno (1998), Capelle (1980) e Cunha (1978); na terminologia estudamos Krieger e Finatto (2004); nos estudos da lingustica indgena discutimos Seki (1999); na sociolingustica seguimos Labov (1972) e Tarallo (1999); no campo da antropologia lingustica nos apoiamos em Duranti (2000); e, finalmente, para tratar a onomstica e a toponmia dos nomes arrolados nos baseamos em Dick (1990a, 1990b e 2004), Dauzat (1926) e Isquerdo (2008).Inicialmente, investigamos quatro cartas topogrficas5 em escala 1:100.000 cedidas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatstica IBGE de Belo Horizonte, de onde compilamos 580 topnimos. Dessa recolha identificamos 45 termos indgenas, apenas 13 citados pelos nossos informantes. Fomos a campo, passamos o perodo 2008-2010 coletando e analisando os dados, exclusivamente retirados das 22 entrevistas orais onde participaram 37 informantes. Nossos informantes tinham entre 70 a 100 anos de idade, todos nativos. Informaram-nos os nomes dos lugares e as lendas que permeavam sua denominao. Trabalhamos em Diamantina e todos os seus distritos, a saber: Conselheiro Mata, Desembargador Otoni, Diamantina, Extrao, Ina, Mendanha, Planalto de Minas, So Joo da Chapada, Senador Mouro e Sopa-Guinda. A respeito da etimologia dos 407 topnimos6 analisados, 46 so de origem tupi e sero descritos a seguir. Samos do presente e retornamos ao passado, nos mapas dos sculos XVIII e XIX7 encontramos os primeiros registros dos termos. Os mapas elaborados por Diogo Soares e Domingos Capassi em 1734 e 1735 constituem a primeira demarcao das terras diamantinas. Os documentos antigos foram pesquisados na cidade de Diamantina nas bibliotecas Antnio Torres e Professor Reinhardt Pflug localizada na Casa da Glria. 4 Aurlio, Cunha, Houaiss, Priberam, Silveira Bueno.5 Carta de Diamantina Folha SE 23 Z A III / IBGE, 1977. Carta de Rio Vermelho Folha SE 23 Z B I / IBGE, 1977. Carta de Curimata Folha SE 23 X C VI / IBGE, 1977. Carta de Carbonita Folha SE 23 X D IV / IBGE, 1977.6 Disponvel em Lxico Toponmico de Diamantina: Lngua, Cultura e Memria (2010), dissertao orientada por Maria Cndida Trindade Costa de Seabra UFMG.7 Mapa I Distrito dos Diamantes Mapa da demarcao da terra que produz diamantes post 1729; Mapa II Carta Topogrfica das Terras entremeyas do serto e destrito do Serro Frio com as novas minas dos diamantes - offerecida ao Eminentissimo Senhor Cardeal da Mota. Por Jozeph Rodrigues de Oliveyra, capito mandante dos drages daquelle Estado 1731; Mapa III Mapas Regionais [MAPA da regio entre os rios Jequitinhonha e Araua]. (Regio de Minas Novas, 16. 30 - 18 S) Diogo Soares. ca. 1734/590; Mapa IV Distrito dos Diamantes Carta Topogrfica das Terras Diamantinas em que se descrevem todos os Rios, corgos e lugares mais notveis que nella se contem. Para ver o ILLmo. Exmo. Senhor Marquez de Pombal do Conselho de Estado ca. 1770; Mapa V Distrito dos Diamantes Mapa da Demarcao Diamantina 1776; Mapa VI Mapa da Comarca do Serro Frio 1778 Acervo Arquivo Histrico do Exrcito-RJ Jos Joaquiim da Rocha Ofes anno 1778; Mapa VII Distrito dos Diamantes Mapa da demarcao Diamantina acrescentando [A] THE ORIO PARDO. Feito por Antnio Pinto de Miranda 1784; Mapa VIII Distrito dos Diamantes Demarcam Diamantina. Com 18 legoas de cumprimento, que fazem huma circunferencia de 51 Legoas - ca. 1787; Mapa IX Capitania Planta Geral da Capitania de Minas Geraes ca. 1800; Mapa X Capitania Carta Geographica da Capitania de Minas Geraes 1804; Mapa XI Divises Administrativas Mappa da Freguesia da Villa do Principe que contem Nordeste a Applicao do Rio Preto: no Centro a Demarcao Diamantina, encravada nesta, e em parte da Freguezia do Rio Vermelho ao Oriente; e a Sudeste o Territrio da Villa do Principe, Itamb, Rio do Peixe e Guanhs. Por C.L. Miranda em Tejuco. 1820; Mapa XII Capitania Theil der neuen Karte der Capitania von Minas Geraes. Aufgenommen von W. von ESCHWEGE. 1821; Mapa XIII Provncia Carta Chrographica da Provincia de Minas Geraes, coordenada e dezenhada em vista dos Mappas chorographicos antigos e das observaes mais recentes de vrios Engenheiros, por Ordem do ILLMO. e EXMO. Sr. Doutor Francisco Diogo Pereira de Vasconcelos, Presidente desta Provncia. Por Frederico Wagner. Ouro Preto. 1855.57A toponmia em Diamantina: lngua, cultura e memria. Os termos arrolados para este estudo so, conforme dicionrios pesquisados8, de origem tupi. Entre os de origem desconhecida est o nome Jequitinhonha, o mais produtivo deles e o que mais impulsionou nossos estudos, pois designa rio, cidade, municpio e lugarejo. Sua origem controversa. Antes da denominao atual foi conhecido por Massangano, Rio das Pedras, Rio da Areia, Jequitinhonha do Campo, Jequitinhonha das Matas, Rio Encantado, Rio Grande, Giquiteon, Jequi-tinhong, Patix, Yiki-tinhonhe, Gacutinhonha, Igiquitinhonha, Gequitinhonha, Giquitinhonha, Jacutinhonha, Jiquitinhonha e Rio Grande de Belmonte. No conseguimos com os documentos analisados remontar com segurana sua origem e significado.Os estudos lexicais contemporneos percebem no dado oral um elemento genuno da lngua, mas na construo de um verbete, ainda que haja espao para as definies populares, tratadas como variantes ou mencionadas em um contexto, elas no so suficientes para atestar a etimologia do nome. Para isso faz-se necessrio um trabalho minucioso com base em estudos especficos realizados por profissionais especializados.A equipe do IBGE realizou pesquisa de campo para a coleta de dados para construo da carta toponmica de 1977. No houve aps esse perodo investimento em outra pesquisa da mesma natureza na rea de Diamantina. Da Carta citada compilamos os topnimos9 Angicos, Arataca, Alto do Jacub, Brana, Brana de Cima, Biribiri, Buriti, Capo, Calumbi, Camu-Camu, Capo da Ona, Capim de Cheiro, Capimpumba, Capivara, Cariru, Catumbi, Gampar, Grupiara, Guar, Inhacica Pequena, Itaipaba, Itaipava, Jac, Jatob, Jacar, Jequi, Jequitinhonha, Jequitinhonha Preto, Lambari, Landim, Macuim, Mandioca, Mumbuca, Murioca, Mutuca, Pindaba, Samambaia, Serra dos Caboclos, Sucuri, Tapera, Taquaral, Taquari, Tatu, Tijuco e Tocoi. Limitamo-nos a descrever, neste estudo, os topnimos coletados nas entrevistas orais que realizamos com informantes nativos.Percebemos nas nossas andanas a pronncia Jequitionha no lugar de Jequitinhonha, o primeiro possui mais realizaes do que o segundo, isso, supostamente, se deve ao recurso prprio da oralidade que trata a simplificao, ou seja, a reduo de parte de uma estrutura. A formao do nome Jequitinhonha sugere hibridismo lingustico, corruptela ou ambos. A primeira parte Jequi vem do tupi conforme define Cunha (1987), significa armadilha para peixe. A outra parte tinhonha sugere a juno do verbo ter, conjugado no pretrito imperfeito do indicativo, tinha sem a vogal a acrescido do nome onha; conforme os informantes; designava peixe. A ordem dos fatos que justifica essa definio corresponde ao da pesca, prtica recorrente entre os ndios. noite o jequi era armado dentro do rio e, ao amanhecer, era conferido. A estrutura O jequi tinha onha foi reproduzida e reconhecida pelos nativos como motivao para o surgimento do nome Jequitinhonha, e est legitimada na letra de poesia e canes dos artistas mineiros.Outra possibilidade para a construo do timo se refere influncia do portugus. A ocorrncia produtiva do sufixo onha como em inconho, peonha, pamonha, vergonha sugere o hibridismo tupi-portugus, lgica lingustica que traz duas marcas associadas cultura de origem e a vivncia in loco. Seria o nome Jequitinhonha a forma composta: jequiti + onha? A comunidade aceitaria essa possibilidade? Questes que no conseguimos responder. Sobre as formas hbridas, percebemos a reunio de origens lingusticas distintas em Arraial do Tijuco, Cruz do Acaiaca, Itamb do Serro, Pico do Itamb, Quart Merim, Santo Antnio do Itamb, Tapera de Mercedis, Vila Sabi e Z Paran. Os termos designam o cenrio de convivncia, identificam elementos da prtica outrora realizada pelos antepassados. Na geografia do ambiente o ato de nomear rios como em Inhacica, Inhacica Grande, Inhacica Pequena remete proporo do fluxo, o adjetivo confere a especificidade de cada um. O nome Inhacica poderia estar, segundo alguns informantes, relacionado Chica da Silva, personagem pica de Diamantina. Ela era tratada por Inha Chica e os rios esto prximos s suas terras. Outra motivao, a mais enfatizada, diz respeito herana lxica deixada 8 Cappelle (1980), Cunha (1987), (1999), Gurios (1994), Houaiss (1987), Silveira Bueno (1998). 9 Esses topnimos receberam tratamento lexicogrfico em estudo realizado como trabalho de concluso de curso ministrado na UFMG pela Dra. Maria Vicentina de Paula do Amaral Dick. 58pelos ndios porque a regio onde se localizam os rios tem muita cabaa, fruto utilizado no artesanato e na culinria. Cunha (1987) apresenta as formas yha para cabaa e igcica A dura q. serve de loua. A definio para Inhacica se aproximaria a algo relacionado densidade, a cabaa prpria para uso culinrio, sua constituio permite transportar gua e outros alimentos lquidos. Aceitamos essa possibilidade. Os nomes conferem caractersticas, especificando os acidentes humanos como fazendas e garimpos e os acidentes geogrficos, tais como, serras, morros, picos, rios, crregos e lugarejos (lugar denominado). Ilustramos, no mapa a seguir, a distribuio dos topnimos.Mapa 1 Ilustrao dos topnimosFonte: Elaborao prpriaPudemos observar que a toponmia indgena est presente em todo o municpio. No quadro que apresentamos, organizamos os topnimos nos locais de ocorrncia. So Joo da Chapada e Diamantina apresentaram maior nmero de realizaes, que esto entre nove e dez. Mendanha foi o menos produtivo, apresentou apenas uma ocorrncia. Quadro 1 Topnimos segundo locais de ocorrnciaMunicpio / Distrito Topnimo (acidentes geogrficos fsicos e humanos)Conselheiro Mata Buriti, Mandapu, Murioca, Tapera de Mercedis, TucaiaDesembargador Otoni Cutia, Indai, TejucanaDiamantina Acaiaca, Amendoim, Arraial do Tijuco, Bocaiva, Cruz do Acaiaca, Pururuca, Tijuco, Toca, Vila SabiExtrao Mumbuca, Mumbuquinha, Santo Antnio do ItambInha Caet-Mirim, Inha, Paran, PubaMendanha GuarPlanalto de Minas Capuero, Z ParanSo Joo da Chapada Curumata, Gamb, Itamb, Itamb do Serro, Peroba, Quart Merim, Sap, Tamandu, UrubuSenador Mouro Araua, Inhacica, Inhacica Grande, Inhacica Pequena, Pindaba, PindaibalSopa Capoeira do Calixto, Capoeira de Z da Chica, Jiqui, Pico do ItambFonte: Elaborao prpria59MacroestruturaCompreende o nosso repertrio toponmico nomes determinados por um critrio sincrnico. As entradas caracterizam a variante rural indicando peculiaridades lingusticas de um grupo especfico de falantes. As formas orais variantes esto dispostas aps o registro escrito. Tratamos as taxes de acordo com sua motivao. O critrio de entrada dos itens lexicais o de ocorrncia combinado com o de frequncia. Arrolamos em ordem alfabtica 45 verbetes. MicroestruturaA microestrutura que adotamos corresponde ao mtodo semasiolgico, que ordena as entradas por significantes. No que se refere entrada dos verbetes, optamos pela inicial em caixa-alta e todo o corpo em negrito. Apresentamos a estrutura do verbete construda com a finalidade de organizar os dados e proporcionar boa visualizao dos seus componentes.Topnimo Estrutura morfolgica etimologia Taxionomia Definio Nomeia Municpio/Distrito acidente geogrfico. abonao retirada da transcrio das entrevistas. (Identificao da entrevista (E:) e linha onde se encontra o trecho: (L:) Registros escritos e/ou orais quando encontrados).Organizamos sete nveis de informao correspondentes ao tratamento lexicogrfico para transmitir informaes do termo no seu contexto de uso. O primeiro nvel trata a organizao lingustico-gramatical; o segundo remete aos dados etimolgicos estruturais; o terceiro faz referncia taxe em que est classificado; o quarto apresenta a definio elaborada com a finalidade de colaborar para a anlise dos aspectos nocionais do significado do item; o quinto, chamamos de Nomeia, apresenta os locais em que houve a ocorrncia do nome e se so nomeados com essa forma acidentes semelhantes ou diferentes; o sexto a abonao ou exemplificao contextual onde ser exposto o trecho da entrevista em que aparece o topnimo; o stimo e ltimo, nomeamos Registros, apresenta as formas pretritas do nome, fornecidas nos mapas dos sculos XVIII a XIX. Os nveis foram separados pelo smbolo .Repertrio toponmico dos termos indgenas de DiamantinaAcaiaca Nf [Ssing] acaiac < acayac < akaiaka Fitotopnimo. rvore da espcie cedro, no contexto cultural representa a tribo Puri e est relacionada com a lenda dos diamantes. Nomeia Municpio de Diamantina regio do Rio Grande lugar. [...] Acaiaca era o nome de uma tribo aqui. (E. 3, L. 256). Amendoim Nm [Ssing] manuui Fitotopnimo. Fruto da famlia das leguminosas comum regio. Nomeia Municpio de Diamantina lugar e ribeiro. [...] O Joo tinha uma fazenda a perto, o lugar chama Amendoim. (E. 5, L. 73).Araua Nm [Ssing] ara+aoi+y Hidrotopnimo. expresso que indica a presena de araras grandes no rio. Nomeia Distrito de Senador Mouro rio, lugar e cidade. Meu pai cheg a ir em Araua de tropa, de cavalo, c cunhece? a pra baxo. (E. 19, L. 365). Registro escrito: Arasuahy (1734), Arassuadi, Arassua grande e pequeno (1734/5), Araua, Arasuai (1788), Arassuahi (1820), Arassuahy grande (1821).Arraial do Tijuco NCm [Ssing+{Prep+Asing+Ssing}] portugus < origem controversa + tupi (tuuka) Sociotopnimo. Nome dado a Diamantina no perodo oitocentista. Nomeia Municpio de Diamantina crrego. Aqui era o antigo Arraial do Tijuco. (E. 20, L. 20).Bocaiva Nf [Ssing] bocayva Fitotopnimo. rvore da famlia das Palmeiras que produz fruto adocicado apreciado pela comunidade. Nomeia Municpio de Diamantina lugar. Nessa regio a, do Mendanha [...] tem minerao[...] oc deve ter vindo por a, n? Passou por Mendanha, [...] por Bocaiva? Voc veio por onde? 60Belo Horizonte? Por dentro? (E. 5, L. 76).Buriti Nm [Ssing] burity < mrt Fitotopnimo Palmeira que produz fruto amarelo comestvel popularmente conhecido por coquinho. Nomeia Distrito de Conselheiro Mata lugar, rio, crrego. [...] tem o Buriti [...] Dois Irmo tem dois morro igualzim, Trs Corgos, que tem trs corgo [...]. (E. 15, L. 349). Registro escrito: Buritis (1734/5), Buritil (1770), Crrego do Buretiz (1778), Buriti (1804), Boriti (1820), Buriti (1821).Caet-mirim NCm [Ssing+ADJsing] kaaete + mir Fitotopnimo. Vegetao de pequeno porte que nasce prximo aos rios. Nomeia Distrito de Inha Crrego, rio. [...] os rio [...] prximo o rio Caet-Mirim, que ocs passaro por ele, acho que ele t nesse povoado, no segundo povoado que cs passaro. (E. 21, L. 58). Registro escrito: Caett Merim (1731), Cayte-Merim (1734/5), Caetemerim (1770) Sumidouro do Rio Caet Merim (1776), Caete Meri (1778), Caet Merim (1784), Caythemerim, Caithemeri, Cartemeri (1787) Ponte de, Cabeceiras de Cartemeri (1787), Caetmerim (1804), Caite mirim (1800), Caet Merim (1820), Caetemirim (1855), Caet Mirim (1862). Registro oral: Caet-Merim, Cate-Merim.Capoeira do Calixto NCm [Ssing+{Prep+Asing+Ssing}] kopera + portugus < grego Fitotopnimo Vegetao esparsa, pouco volumosa definida pelos diamantinenses como matagal. Nomeia Distrito de Sopa lugar. [...] Capoeira de Calixto mato, tem o nome de capoeira, aqueles mato ralo assim na [,] um matagalzim [...]. (E. 9, L. 744).Capoeira de Z da Chica NCm [Ssing+{Prep+Asing+Ssing+Prep+Asing+Ssing}] kopera + portugus < hebraico Fitotopnimo Vegetao baixa, pouco expressiva, comum em propriedades particulares. Nomeia Distrito de Sopa lugar. [...] l na Capoeira de Z da Chica [lugarejo], ficava o filho da dona Chica. (E. 9, L. 756-758).Capuero Nm [Ssing] kopera + aumentativo portugus -o. Fitotopnimo Arbusto de porte mdio facilmente encontrado na zona rural do distrito. Nomeia Distrito de Planalto de Minas serra, crrego, lugar. [...] Capuero ali por detrs, sobe ali , ali chama Camarinha aquele buraco l, t veno, num t? (E. 16, L. 107).Cruz do Acaiaca NCf [Ssing+{Prep+Ssing+Ssing}] portugus < latim + indgena (tupi) akaaka. Hierotopnimo Smbolo cristo, representado por dois finos troncos de madeira, posicionados transversalmente. Monumento situado onde era a Acaiaca, rvore que protagoniza a lenda da tribo Puri e o surgimento dos diamantes. Nomeia Municpio de Diamantina lugar. [...] essa tribo tinha uma... no sei...uma ndia... algo sobre uma ndia... Ali perto do Bom Jesus tem uma cruz, ali acho que foi essa ndia que morreu ali... [...] s sei que l, Cruz do Acaiaca... tem a cruz [...]. (E. 3, L. 258).Curumata Nm [Ssing] curimat+y hidrotopnimo Rio dos curimats, peixe de gua doce. Nomeia Distrito de So Joo da Chapada Lugar. [...] bem pra cima das Lajes, Lamaro j virando para Curumata. (E. 10, L. 122). Registro escrito: Rio Coromata (1734/5), Curmatai (1778), Passagem de Cormatai (1788), Curmatatahi (1800), Curimata (1804), Fazenda, Rio Corimatai (1820), Curimatahi (1821), Curimatahi (1862), Curimatahy (1873).Cutia Nf [Ssing] akuti Zootopnimo Mamfero roedor, de aproximadamente 60 cm, se alimenta de folhas, frutas e razes, busca abrigo em tocas feitas em meio aos pedaos de troncos cados. Tem como costume enterrar seu alimento. Nomeia Distrito de Conselhero Mata fazenda. [...] l no Olhos Dgua dava a fazenda Cutia onde os dois rios junta. (E. 15, L. 410).Gamb Nm [Ssing] gu-mb Zootopnimo Mamfero que possui forte cheiro, expelido quando se sente ameaado, tons preto e branco no pelo e hbitos noturnos. Nomeia Distrito de So Joo da Chapada lugar. [...] Tem na regio l... at apertado, a serra de um lado e otro chama Gamb e inda ixisti. [...]. (E. 10, L. 349).Guar Nm [Ssing] ara Zootopnimo Mamfero da famlia do cachorro, possui aproximadamente 70 cm, se alimenta de outros animais e habita regio montanhosa. Nomeia Distrito de Mendanha crrego. [...] quando a gua da Co tava poca, o corgo pra lav ropa as veze tava sujo, n? Os home trabaiano, n? Sujava a gua, n? Ia lav ropa l no Guar [...]. (E. 20, L. 230).Indai Nm [Ssing] imaia Fitotopnimo Palmeira de mdio porte em que se aproveitam as folhas para a cobertura das casas, a fibra torcida como corda, amndoa ou coquinho e o palmito como alimentos. Moradia de 61quilombolas. Nomeia Distrito de Desembargador Otoni lugar. [...] O Quartel de Indai, Indai por causa dos coco, n? [...]. (E. 13, L. 53). Registro escrito: Andaia (1820), Arraial Freguesia Andaia (1821).Inhacica Nf [Ssing] Ynh-yca ~ Ynha+gcica Fitotopnimo rvore do gnero das accias, com aproximadamente 15m, folhagem em tons de amarelo que nasce prximo aos rios. Nomeia Distrito de Senador Mouro fazenda, lugar, serra, crrego. [...] o nome Fazenda Inhacica que l tem... l passa o Jiquitionha, l tem diversos corgo, tem gua Verde que vai l, tem Duas Barras, ( ) tem otro que chama Inhacica Grande, Inhacica Pequena, quer diz tudo s bota um nome, (os nome que s pusero, n?) um agoa um corgo menor, Inhacica Pequena, o otro o corgo maior, Inhacica Grande [...]. (E. 19, L. 266). Registro escrito: Inhacica (1776, 1778, 1788), Inhacica (1800, 1804), Inha(x ou n)cica (1820), Inharica (1821), Inhacica (1849, 1855, 1862). Inhacica Grande NCf [Ssing+ADJsing] Ynh-yca ~Ynha+gcica + portugus < latim Fitotopnimo Referncia ao crrego de proporo maior que o crrego Inhacica. Nomeia Distrito de Senador Mouro crrego. [...] tem otro que chama Inhacica Grande, [...] um agoa um corgo menor. Registro escrito: Inhancica Grande (1820). Inhacica Pequeno NCf [Ssing+ADJsing] Ynh-yca ~Ynha+gcica + portugus < latim Fitotopnimo Nome dado ao crrego de proporo menor que o crrego Inhacica. Nomeia Distrito de Senador Mouro crrego. [...] um agoa um corgo menor, Inhacica Pequena, o otro o corgo maior, Inhacica Grande [...] (E. 19, L. 266). Registro escrito: Inhancica Pequeno (1820), Crrego Inhachica Pequeno (1770). Inha Nm [Ssing] inh Hidrotopnimo gua do rio em movimento. Nomeia Distrito de Inha Distrito, rio. [...] u desde que eu nasci j ixistia esse nome Inha, eles dizem que nome indgena, n? Significa... gua ruim, alguma coisa por a ou gua boa, gua viva [...]. (E. 21, L. 21). Registro escrito: Myinhahy+meri (1729), Inhay, Inha Grande, Inha Pequeno (1734/5), Inha (1776), Inhai (1778), Inha (1784), corgo do Inhahy (1787) Arrayal do Inhahy (1787), Inhahi (1800), Inhai (1804), Inhay (1820) Destacamento Inhahi (1821).Itamb Nm [Ssing] it-aimb Litotopnimo Formao rochosa pontiaguda localizada na Serra do Espinhao serviu como referncia para Diamantina. Nomeia Distrito de So Joo da Chapada Serra, pico. [...] e voc olha um pico de serra que tem l, chamado Pico do Itamb que a gente inxerga daqui as guas que corre pra l j vai para o Rio Doce. [...]. (E. 10, L. 303). Itamb do Serro NCm [Ssing+{Prep+Asing+Ssing}] it-aimb + portugus < latim Litotopnimo Distrito do Serro, onde est o Pico do Itamb. Nomeia Distrito de So Joo da Chapada Serra. [...] s a do Itamb que a gente v... Itamb do Serro [...]. (E. 10, L. 682).Jiqui Nm [Ssing] ekei Ergotopnimo Armadilha usada na pesca, feita com a taquara em trelia. Nomeia Distrito de Sopa Serra. Ento voc vai ver coisas mesmo... l que tem serras mesmo. Tem Serra do Pasmar, Serra do Jiqui, tem a Serra do Tigre, a gente inxerga daqui. [...]. (E. 9, L. 464).Mandapu Nm [Ssing] manapu < mandupuss Fitotopnimo rvore de pequeno porte que possui folhas elpticas, flores claras e produz fruto comestvel. Nomeia Distrito de Conselheiro Mata lugar. [...] Tem o lugar, Mandapux uma arve que d fruta no campo, n? [...] (E. 15, L. 355). Registro oral: Mandapux.Mumbuca Nm [Ssing] muuka Zootopnimo Inseto de cor preta menor que o mosquito com patas mais curtas, voo baixo. Sua picada provoca ardor. Nomeia Distrito de Extrao garimpo, lugar. [...] Eu at conheci muita gente l da Mumbuca [...]. (E. 6, L. 618). Registro escrito: Mombua (1734/5). Mumbuquinha Nm [Ssing] muuka + diminutivo -inha Zootopnimo Inseto, mosquitinho. Nomeia Distrito de Extrao lugar. [...] tem Mumbuquinha e a desce por ai abaxo a! [...]{Boa de cont histria aqui [...]. (E. 6, L. 618).Murioca Nf [Ssing] murisoka Zootopnimo Mosquito ruidoso que pica, pernilongo. Nomeia Distrito de Conselheiro Mata serra. [...] aqui tem as s(x)erra do Murioca, t aqui perto da gente [...]. (E.15, L. 46).Paran Nm [Ssing] Par-n Corotopnimo Nome de estado brasileiro. Brao de rio. Nomeia Distrito de Inha lugar. [...] Tem o lugar [...]Paran! L no Mendanha, cs passaro no Mendanha? [...]. (E.21, L. 127- 128). Registro escrito: Paranna (1821).62Peroba Nf [Ssing] peroa Fitotopnimo rvore que produz madeira de boa qualidade utilizada no ramo moveleiro. Nomeia Distrito de So Joo da Chapada Serra. [...] tem um lug l que tinha muita madera, c sabe, n? J sabe, n? Muita madera de lei, madera boa chama Peroba [...]. (E. 12, L. 138). Pico do Itamb NCm [Ssing+{Prep+Asing+Ssing}] portugus < latim+ indgena (tupi) itame Geomorfotopnimo Serra pontiaguda localizada na cidade do Serro usada como referncia pelos bandeirantes para chegar a Diamantina. Nomeia Distrito de Sopa lugar. [...] e voc olha um pico de serra que tem l chamado Pico do Itamb que a gente inxerga daqui as guas que corre pra l j vai para o rio Doce [...]. (E. 9, L. 303).Pindaba Nf [Ssing] pinaa Fitotopnimo rvore conhecida na regio, da mesma famlia do araticum e da pinha. Seu fruto comestvel. Nomeia Distrito de Senador Mouro lugar. [...] ! Tinha o nome de Pindaba, era Corgo do Pindaba, antes [...]. (E. 19, L. 611). Registro escrito: Pindabas (1770, 1776) Crrego das Pindahiba (1784), Pindahibas (1787), fazenda Pindabas (1820). Pindaba (1862).Pindabal Nm [Ssing] pinaa Fitotopnimo Plantao de pindabas. Nomeia Distrito de Senador Mouro lugar. [...] aqui era o Pindaibal, ainda lembro um bucado de pindaba a [...]. (E. 19, L. 644).Puba Nf [Ssing] puba Animotopnimo Alimento mole, fermentado ou podre. Nomeia Distrito de Inha lugar, fazenda. [...] eu sei que tem um lugar que chama Puba, n? Aquela fazendinha, n? Chama Puba (E. 21, L. 173). Pururuca Nf [Ssing] pororoka Fitotopnimo O fruto do coqueiro no seu estado tenro ou endurecido. Nomeia Municpio de Diamantina lugar. [...] eu num sei purque/qui tinha... at sei que tinha um moo( ) chamado G. Pururuca, Z Pururuca, pusero o nome dele. Agora porque Pururuca eu no sou capaz de fal o purqu rio Pururuca. Vamo no Pururuca p lav ropa, ns mesmo fomo, l em casa ns fomo muito l com baciada de ropa p lava porque que era rio limpo hoje j quase num tem mais nada [...] (E.4, L. 184).Quart Merim NCm [Ssing+ADJsing] portugus < catalo + indgena mir Sociotopnimo Estrutura de pequeno porte construda para fiscalizao do garimpo no distrito de So Joo da Chapada. Rio que passa nesse local. Nomeia Distrito de So Joo da Chapada lugar, povoado. [...] tem um tanto de ri l, ri do Cat Merim, n? s ps l Quart Merim agora num sei que que , n? [...] (E. 13, L.62). Registro oral: Cat Merim, Quart Merim.Santo Antnio do Itamb NCm [ADJsing+Ssing+{Prep+Asing+Ssing}] portugus < latim + indgena itme Hagiotopnimo Protetor dos pobres e necessitados, padroeiro da regio, mais conhecido por casamenteiro. Nomeia Distrito de Extrao lugar. [...] ir pra Santo Antnio do Itamb... da ieu/eu fiquei uns tempos l e dipois eu quis lev ela pra l e s num quisero ir, [...] ficava mexeno com fazenda l [...]. (E. 7, L. 41).Sap Nm [Ssing] iassa pe Fitotopnimo Vegetao semelhante ao capim ou a grama, no seu estado natural, sem poda. Nomeia Distrito de So Joo da Chapada garimpo. [...] Sap onde ns garimpa, onde eu garimpo [...] ns tem at um acampamentuzim nosso no caso quando tempo do garimpo, n? [...]. (E. 12, L. 214).Tamandu Nf [Ssing] tamanua Zootopnimo Mamfero de focinho longo, lngua fina, longa e pegajosa, possui garras nas patas anteriores que so usadas para abrir formigueiros e cupinzeiros, animais dos quais se alimenta. Nomeia Distrito de So Joo da Chapada crrego. [...] agora otro que tem l ino l pro Parque chama Tamandu [...]. (E. 10, L. 33). Registro escrito: Corgo do Tamando (1787). Tapera de Mercedis NCf [Ssing+{Prep+Asing+Spl}] tapera + portugus < latim Ecotopnimo Habitao abandonada e invadida pelo mato. Nomeia Distrito de Conselheiro Mata serra. [...] tem Beco do Morro e Tapera de Mercedi [...]..(E. 10, L. 33). Registro escrito: Tapera (1778, 1788, 1804). Registro oral: Tapera de Mer(x)s.Tejucana Nf [Ssing] tuuka Sociotopnimo Mineradora aprovada no decreto 80.766 de novembro de 1977 para lavra de diamante e ouro na propriedade de Silverio Porphirio da Rocha. Local de trabalho, lavra. Nomeia Distrito de Desembargador Otoni crrego. [...] (?) tem muita gente aqui que trabai na Tejucana, trabai tirano diamante, sofrero muito que s discunfiava que s tirava... robava, n? [...]. (E. 18, L. 197). Registro oral: Tijucana.63Tijuco Nm [Ssing] Tuuka Litotopnimo Solo constitudo de barro escuro denso e mole. Nomeia Municpio de Diamantina rio, crrego, lugar. [...] os Bandeirante vieram e desceram l e quando eles tava l mexeno l nessa lama preta que era cheia de ouro, a foi dado o nome de Tijuco, antes no foi o Arraial no, foi Tijuco porque dava muito ouro, um negcio assim [...]. (E. 1, L. 82). Registro escrito: Tijuco (1729, 1731), Rio, Lugar Tojuco (1734/5), Tejuco (1778, 1784, 1787, 1788), Tejuco (1800), Tijuco (1804), Tejuco (1820) Arraial Freguesia e Destacamento Tejuco (1821). Toca Nf [Ssing] oca Geomorfotopnimo Local para abrigo, esconderijo e refgio. Nomeia Municpio de Diamantina crrego. [...] Toca, fui l, muito bonito, tem uma cachoeira, umas planta maravilhosa [...]. (E. 2, L. 68).Tucaia Nf [Ssing] tokaia Animotopnimo Emboscada, local para espreita ao inimigo. Nomeia Distrito de Conselheiro Mata serra, lugar. [...] Tucaia, de tucai, n? dizem que tem alguns, robava diamante em Diamantina e curria [...]. (E. 15, L. 126).Urubu Nm [Ssing] uru u Zootopnimo Ave de rapina, de cor preta, que se alimenta de carne putrefada. Nomeia Distrito de So Joo da Chapada serra. [...] era l nos campos, n? Serra do Urubu, do morro Redondo [...]. (E. 10, L. 113).Vila Sabi NCf [Ssing+Ssing] portugus < latim+indgena (tupi) saia Poliotopnimo Moradia, habitao onde h presena constante do pssaro sabi. Distrito de Diamantina lugar. [...] Tem o lugar bairro da Serra, Vila Sabi [...]. (E. 4, L. 182).Z Paran NCm [Ssing+Ssing] portugus < latim+indgena (tupi) par-n Antropotopnimo Hipocorstico de Jos, seguido de nome de Estado brasileiro . Distrito de Mendanha fazenda. [...] todo mundo l conhece como fazenda do Z Paran [...]. (E. 20, L. 261).ConclusoCabe ressaltar seis topnimos coletados que no esto dicionarizados e, por isso, no houve como recuperar sua origem. Citamos Biribiri como exemplo. Do gnero masculino, do singular, no pudemos afirmar se sua origem do J ou Tupi. Na fala da maioria dos informantes biribiri significa buraco fundo. Na regio esse nome designa lugarejo, rio e serra. Encontramos os registros escritos Biriri (1770), Barra do Bribiri (1776, 1784), Rio Berberi (1787) e registramos como variantes na oralidade as formas Biribiri ~ Bibiri ~ Bribiri ~ Brimbiri. Esse topnimo no foi inserido no nosso repertrio em funo da lacuna vazia no campo da etimologia assim como Jiquitionha, Jiquitionha Branco, Jiquitionha Preto, Camu camu e Quera.Os elementos compilados da carta de 1977 do IBGE que registramos na fala espontnea foram Biribiri, Buriti, Calumbi, Camu-Camu, Guar, Inhacica Pequena, Jequitinhonha, Jequitinhonha Preto, Mumbuca, Murioca, Pindaba, Tapera e Tijuco.Trabalhar dentro da proposta sociolingustica com os pilares da lexicografia e toponmia nos aproximou da histria relatada pelos moradores e conhecedores da terra. Esse contato proporcionou a observao e anlise dos topnimos genunos, reconhecidos pelos informantes. Esperamos que a reunio e sistematizao dos dados lingusticos abrangentes em que a lngua indgena se fez presente colaborem para a documentao e memria da cultura local. 64REFERNCIASBARBOSA, M. A. Dicionrio, vocabulrio, glossrio: concepes. In: ALVES, I. M. (Org.). A constituio da normatizao terminolgica no Brasil. 2. ed. So Paulo: FFLCH/USP/HUMANITAS, 2001.BIDERMAN, M. T. Dimenses da palavra. In: Filologia e Lingustica Portuguesa. So Paulo, UNESP, n. 2, p. 81-118, 1998.______. Teoria Lingustica: Teoria lexical e lingustica computacional. 2. ed. So Paulo: Martins Fontes, 2001. BUENO, S. Vocabulrio tupi-guarani portugus. 6. ed. So Paulo: feta, 1998.CAPPELLE, J. C. Contribuio indgena ao Brasil: Lendas e tradies. Usos e costumes. Fauna e flora. Lngua. Razes. Toponmia. Vocabulrio. Belo Horizonte: Unio Brasileira de Educao e Ensino, 1980.CUNHA, A. G. Dicionrio Etimolgico Nova Fronteira da Lngua Portuguesa. 2. ed. So Paulo: Nova Fronteira, 1987.______. 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So Paulo: tica, 1999.65REPRESENTAO DO SERTO BAIANO EM SEARA VERMELHA, DE JORGE AMADO: O CAMPO LEXICAL DOS TRABALHADORESMaria da Conceio Reis TEIXEIRAIntroduo Jorge Amado, em Seara vermelha, romance publicado em 1946, representa a saga dos cangaceiros, dos jagunos, dos soldados e dos camponeses nordestinos na luta diria e incansvel para driblar a misria e a fome a que estavam sujeitos na caatinga. A batalha travada por estes em prol de condies dignas de vida e por um lugar em que pudessem descansar da luta pela sobrevivncia no se restringe apenas s jornadas duras pela caatinga, com a falta de comida e com a aspereza da paisagem, mas, principalmente, em funo da explorao dos latifundirios que sugavam at a ltima gota de sangue.A representao da cultura sertaneja empreendida por Amado se constitui em uma das principais fontes de identidade cultural do povo sertanejo, que partilha as mesmas atitudes, caractersticas de um grupo social, fazendo-os se sentirem mais prximos e semelhantes. Tal representao s possvel atravs do uso da linguagem. O lxico o nvel da lngua que melhor representa o saber de um grupo scio-lingustico-cultural, pois representa a via de acesso para ver e representar o mundo, deixando, portanto, transparecer os valores, as crenas, os hbitos e os costumes de um grupo social do qual o indivduo faz parte. No presente texto, objetivamos apresentar uma leitura da obra Seara vermelha na perspectiva lexicolgica, fazendo a interseo entre o estudo do vocabulrio da obra em questo com o conjunto de valores atravs dos quais se manifestam as relaes entre indivduos de um mesmo grupo que partilham patrimnios comuns como, por exemplo, a cultura, a lngua, a religio, os costumes. Notas sobre a representao do serto em Seara vermelha Jorge Amado (1912-2001), um dos principais representantes do romance regionalista da Bahia, nasceu em Itabuna, mas, com apenas um ano de idade, foi para Ilhus, onde passou a infncia. Na adolescncia, se mudou para Salvador, onde viveu livre e misturado com o povo, assimilando os traos da cultura popular, formando a sua viso de mundo, as suas crenas, os seus valores o que, certamente, contribuiu para a composio de sua prosa ficcional.Publicou seu primeiro romance, O pas do carnaval, em 1931, tornando-se de imediato sucesso de pblico. Entre os anos de 1933 a 1945, publicou nove romances Cacau, Suor, Jubiab, Mar morto e Capites da areia, ABC de Castro Alves, Terras do sem fim, So Jorge dos Ilhus, Bahia de Todos os Santos. Em 1946, durante seu mandato como deputado federal pelo Partido Comunista Brasileiro, publicou Seara vermelha. Publicou ainda em vida A Morte e a Morte de Quincas Berro dgua, O Cavaleiro da Esperana, O Mundo da Paz, Os Subterrneos da Liberdade, Gabriela, Cravo e Canela, Os Velhos Marinheiros, Os Pastores da Noite, Dona Flor e seus Dois Maridos, O Amor do Soldado, Bahia de Todos os Santos, A Estrada do Mar, Tereza Batista Cansada de Guerra, Tieta do Agreste, O sumio da santa. O romancista era dotado de enorme capacidade criativa, observador nato e grande conhecedor da natureza humana e da paisagem baiana. Jorge Amado procurou representar em suas obras as paisagens, os dramas humanos e as intempries advindas das condies climticas e da cobia dos latifundirios que expulsavam o homem sertanejo de sua terra natal, obrigando-o a migrar para outras regies ou a se submeter s mazelas, explorao dos grandes proprietrios. Talvez, em funo disso, muitas de suas obras tenham caractersticas memorialistas e tenham recebido da crtica especializada severas crticas: romance tese, romance documentrio, o que o desqualificava enquanto produo ficcional.Seara vermelha, obra objeto do presente estudo, descreve a saga de uma famlia composta de onze retirantes que expulsa das terras sertanejas e, consequentemente, v-se forada a buscar um fio de esperana de vida digna no sul 66do pas, especialmente So Paulo. A viagem d-se a p, em grande aflio, revolta, fome e morte. Durante a travessia da caatinga, os sertanejos passam por duplo sofrimento: sofrem com a falta de comida e com a aspereza da paisagem, que os repele hostilmente. Os sertanejos esto sujeitos a todos os tipos de mazelas: a fome que os consome e retira a sua vitalidade, a inospitalidade da paisagem que os repele com os espinhos, a aspereza do solo ngreme e clima rido, o sol escaldante que arde, queima, seca e vai deixando muitos cadveres pelo caminho. Do grupo inicial, composto do casal Jernimo e Jucundina, os dois filhos, Agostinho e Marta, trs netos, Tonho, Noca e Ernesto e dois irmos de Jernimo e seus familiares, apenas quatro chegam a uma fazenda de caf com o ltimo fio de vida que lhes restava.Os sujeitos retratados so forados a viver dependendo do dono da fazenda e fica cada vez mais distante o sonho de possuir um pedao de terra, uma vida digna. No bastando a vida miservel que levavam, so expulsos pelo novo proprietrio da fazenda, obrigando-os a dispersar-se a procura de trabalho em outras fazendas ou tentar a sorte em So Paulo.Resumidamente, pode-se dizer que Jorge Amado retrata na obra a situao dos trabalhadores rurais, que so obrigados a trabalhar durante a semana para o coronel e a comprar no armazm da fazenda os mantimentos necessrios sua sobrevivncia. Como o que recebem pelas rduas e longas jornadas de trabalho um valor nfimo e, numa relao inversa, os produtos so comercializados a preos aviltantes, o que ganham nunca d para saldar a dvida que s aumenta, evidenciando uma relao de trabalho escravo. A penria do homem nordestino aparece na obra como fruto no somente da seca, mas principalmente da explorao dos latifundirios.A obra em questo rompe com o tradicional espao geogrfico em que so ambientadas as narrativas amadianas. Ocorre o deslocamento de Salvador e Recncavo, Ilhus e Itabuna para um espao geogrfico mais amplo: o Serto baiano movendo-se rumo a So Paulo e abrangendo ainda a floresta amaznica, Mato Grosso, Rio de Janeiro, onde se desenrolavam alguns aspectos da trama urdida no romance.Um escritor de sensibilidade aguada e comprometido com os ideais comunistas, Jorge Amado, em Seara vermelha, posiciona-se como crtico social, procurando denunciar os problemas sociais, especialmente aqueles relacionados explorao do homem sertanejo, do pequeno agricultor rural, que travam a luta diria em busca de seu sustento e o sustento dos seus, pelos latifundirios, homens mesquinhos que exploram at a ltima gota de sangue, transformando-os em animais desprezveis.Tudo isso operado sem uma preocupao exagerada com o formalismo e/ou rigor da linguagem, pelo contrrio, traz para a sua narrativa marcas da oralidade, imortalizando, na sua escrita, a linguagem popular, transcrevendo a lngua falada pelos representantes de segmentos sociais desfavorecidos social, econmica e culturalmente, como, por exemplo, a prostituta, o vagabundo, o bbado, o morador de rua, o menor abandonado, o negro, o candomblecista, o sertanejo.Acredita-se que, no processo de construo do texto ficcional, o romancista, ao trazer para a sua narrativa elementos da cultura popular fazendo uso do lxico oral de um povo, pode contribuir para tornar mais visveis os traos culturais e identitrios desse povo. A representao da cultura sertaneja empreendida por Amado se constitui em uma das principais fontes de identidade cultural do povo sertanejo, que partilha as mesmas atitudes, caractersticas de um grupo social, fazendo-os se sentirem mais prximos e semelhantes. Tal representao s possvel atravs do uso da linguagem. A lngua facultou ao homem Jorge Amado estabelecer a relao indivduo-sociedade-identidade e cultura. O estudo do vocabulrio Compreendendo cultura como um complexo dos padres de comportamento, das crenas, das instituies e de outros valores espirituais e materiais transmitidos coletivamente e caractersticos de uma sociedade, a cultura estabelece uma relao intrnseca com a lngua. consenso entre os linguistas a estreita relao entre lngua, sociedade e cultura. Em funo desta relao, a lngua desempenha um significado social muito amplo estabelecendo e mantendo os papis e as relaes sociais entre os seus membros. Nessa direo, Sapir (1980, p. 165) assegura que [...] a lngua 67no existe isolada de uma cultura, isto , de um conjunto socialmente herdado de prticas e crenas que determinam a trama de nossas vidas.Resumidamente, pode-se afirmar que a lngua, dentre outras coisas, registra e acumula as aquisies culturais; pereniza fatos e dados que o tempo e as mudanas estruturais impem vida da sociedade; assegura a continuidade do conhecimento e avana e recua no tempo; espelha a vida do povo; meio das manifestaes culturais; retrata as influncias pelas quais passam os grupos humanos; traduz as ansiedades que assinalam as diferentes pocas; evidencia as tendncias que marcam cada momento; fornece, sempre e em qualquer poca, elementos para uma leitura da sociedade. Inclusive a influncia de outras culturas fica marcada na prpria lngua.Da, o lxico ser considerado por alguns especialistas como sendo um dos subsistemas da lngua mais revestido de dinamicidade. Isso porque, medida que registra o que h de novo, reflete as transformaes pelas quais as comunidades, os grupos sociais passam, ora criando, ora recriando, outras vezes revestindo o sentido j existente de traos semnticos especficos, os quais podem descortinar traos socioculturais de uma determinada comunidade.Para Sapir (1980), o lxico de uma lngua responsvel pela organizao da experincia do povo que a fala. Coseriu (1982) afirma que a linguagem um fenmeno multifacetado e permeia as demais manifestaes do homem. , portanto, atravs da lngua e da relao estabelecida que o indivduo se adapta e reconhece um ambiente como sendo seu. Assim sendo, a construo da identidade d-se por meio da linguagem. Conforme se afirmou anteriormente, o lxico o nvel da lngua que melhor representa o saber de um grupo scio-lingustico-cultural, pois representa a via de acesso para ver e representar o mundo, deixando, portanto, transparecer os valores, as crenas, os hbitos e os costumes de um grupo social do qual faz parte. Por conseguinte, o estudo do vocabulrio designativo para nomear os elementos do serto, organizados e observados os campos lexicais, permite compreender a construo identitria do povo sertanejo.Entende-se aqui vocabulrio como o subconjunto do lxico de uma lngua em estado de uso efetivo por um dado grupo de falantes, em determinada circunstncias, dizendo em outras palavras, o vocabulrio o conjunto de palavras empregadas por determinado grupo. O lxico, por sua vez, o conjunto das unidades significativas de uma determinada lngua, em um determinado momento de sua histria e, em sentido lato, pode ser tomado como sinnimo de vocabulrio.Cumpre destacar que o recorte lexicolgico apresentado restringe-se observao do vocabulrio sertanejo coletado na obra Seara vermelha, organizado a partir da teoria dos campos lexicais, proposta por Coseriu (1977). As lexias analisadas, no recorte que ora apresentado, no correspondem totalidade do lxico do povo sertanejo, pelo contrrio, representa to somente aquelas postas em funcionamento por Jorge Amado, em 1946, na referida obra, expressando a crena ideolgica do autor naquele momento. A teoria dos campos lexicais, elaborada pelo romeno Eugenio Coseriu (1977), postula que as lexias agrupadas em um campo so constitudas por uma mesma substncia semntica linguisticamente formada, opondo-se por traos mnimos que as diferenciam. Define campo lexical como sendo o conjunto de palavras que pertencem a uma mesma rea de conhecimento e est dentro de alguma lngua. organizado em funo de um campo conceitual comum e estabelece entre si relao de significado. Possui subdivises de subconjuntos variados, conforme a natureza e especificidades dos dados trabalhados.Elementos do serto: anlise dos campos lexicaisDa obra objeto do presente estudo, fez-se o levantamento das lexias designativas de elementos do serto baiano, as quais foram classificadas em campos lexicais referentes ao universo sertanejo, conforme a teoria dos campos lexicais. Em funo da natureza do presente estudo e do tempo disponvel para a sua realizao, fez-se um recorte para dar uma pequena ideia do trabalho que desenvolvemos com o estudo do vocabulrio de Jorge Amado na obra Seara vermelha. O recorte aqui apresentado incide sobre as lexias designativas do serto classificadas como pertencentes aos campos lexicais dos trabalhadores e dos instrumentos de trabalho. Tais lexias identificadas e classificadas perfizeram um total de 13 (treze) itens, conforme se pode ver no Quadro 1.68Quadro 1 Representao do Serto baiano: o campo lexical dos trabalhadoresCampo dos trabalhadores em Seara vermelhaDos que exercem podereslatifundirio coronel fazendeiro capataz Das atividades agrcolas camponscolono meeiro trabalhador Das atividades da pecuria tropeiro boiadeiro Atividades lcitas/ilcitas cangaceiro jaguno soldado da vinganaFonte: Elaborao prpriaDos trabalhadores Os termos latifundirio, coronel e fazendeiro designam aqueles sujeitos que detm a terra, o poder poltico e econmico no serto baiano. So proprietrios de grandes extenses de terra, exploram a fora de trabalho, escravizam, maltratam os trabalhadores que do sua vida em longas e rduas jornadas laborais e que, infelizmente, so remunerados com nfimos salrios que no do para comprar os alimentos mais bsicos e essenciais para a sua sobrevivncia.Muitas vezes os termos so empregados como equivalentes, mas h de se fazer distino. Latifundirio o proprietrio de grandes extenses de terra ou propriedades rurais normalmente improdutivas, ou seja, terras frteis que poderiam e deveriam ser cultivadas na/para a produo de alimentos. O coronel o chefe poltico, econmico e detentor de grandes extenses de terra, podendo ser ou no ser um latifundirio. Exerce ascendncia sobre todos os seus comandados mesmo sobre aqueles que no sejam seus subalternos, empregados. Fazendeiro, no texto em anlise, diferentemente dos outros dois termos, o indivduo que detm grandes propriedades rurais, mas boa parte delas so produtivas, seja na prtica de atividades agrcolas, seja na prtica da pecuria, caprinocultura ou ovinocultura.Na relao de trabalho regida pelos latifundirios, coronis e fazendeiros, desempenha funo relevante o capataz. o administrador da propriedade, responsvel pela contratao dos demais operrios, estabelece regras duras e severas jornadas de trabalho. No imaginrio dos seus comandados, a encarnao da figura do diabo: s deseja sugar o sangue alheio, no tem alma, nem corao e nem piedade.As grandes propriedades rurais do serto baiano necessitam tambm da fora de trabalho do campons, do meeiro, do colono e do trabalhador. Campons um termo genrico para designar todo aquele individuo que trabalha no campo cultivando a terra, plantando e colhendo, cuidando dos aninais domsticos que fazem parte do rebanho.O colono, em relao aos outros trs termos, estabelece relao de trabalho mais justa com o coronel e o fazendeiro, j que pode cultivar uma poro de terra, plantar alguns gneros alimentcios, pode criar animais domsticos de pequeno porte, como porcos e galinhas. Normalmente ligado ao proprietrio da fazenda por um acordo pr-estabelecido, mas tambm se encontra sob o comando do capataz que lhe impe as regras de convivncia e de explorao, do valor das jornadas de trabalho e diviso dos frutos advindos do seu labor.O meeiro alm de dedicar alguns dias da semana para a realizao do trabalho na propriedade do fazendeiro, do coronel, tem direito a uma poro de terra na qual cultiva produtos agrcolas e, no final da colheita, reparte com o dono da terra o resultado da sua produo.69Trabalhador termo designativo daquele indivduo que se ocupa das atividades laborais do campo, recebendo pagamento por sua jornada diria de trabalho. Este no tem direito a nenhum espao de terra para cultivar algum produto que possa ser utilizado na sua alimentao. Em Seara vermelha, quando o trabalhador cultiva, s escondidas, algum gnero alimentcio na propriedade do coronel ou fazendeiro castigado por isso, quando descoberto pelo capataz, que lhe aplica severas punies. Na hierarquia do trabalho sertanejo, o indivduo sem nenhum direito, o mais explorado, o que submetido a uma relao de maltrato e negao de qualquer meio de sobrevida.O boiadeiro e o tropeiro tambm so operrios que atuam nas propriedades rurais do serto baiano. O boiadeiro aquele que trabalha na propriedade rural administrando a conduo dos rebanhos de gado de um pasto a outro, do pasto para o curral, do pasto para o abatedouro. O tropeiro o indivduo que trabalha como condutor de tropas de animais, conduzindo especialmente rebanhos de gado, cavalos de uma propriedade a outra, a longas distncias.No imaginrio popular, jaguno e cangaceiro so termos equivalentes, no havendo, portanto, distino. A partir da leitura da obra que serviu de objeto de estudo, h de se fazer distino entre os dois termos. O termo jaguno normalmente empregado para aquele indivduo que recebia pagamento de um coronel para defender seus interesses. O jaguno poderia executar atividades lcitas ou ilcitas, mas agia sempre por ordem dos donos da terra, defendendo as grandes propriedades, lutando com jagunos de outro coronel. Recebe remunerao e obedece a ordem de seu superior a quem deve ser fiel e protetor. Em Seara vermelha o termo jaguno tambm empregado para designar um membro integrante do cangao. Teoricamente, na obra Seara Vermelha, todo sertanejo poderia passar a ser um cangaceiro desde o momento em que se sentisse explorado a ponto de no mais suportar as injustias sociais de que era vtima. Diferentemente do jaguno, o cangaceiro aquele que no coaduna com as injustias socioeconmicas praticadas pelos latifundirios, coronis e fazendeiros do nordeste brasileiro, e age, por conta prpria, em defesa do seu interesse e do interesse dos seus semelhantes. Aos olhos dos que esto no poder, o cangaceiro era uma espcie de bandido, mas, em essncia, o cangaceiro burla as leis, pratica atos violentos em prol de justia social e contra a propriedade privada como alternativa nica que dispunha para fazer reparar as mazelas sociais a que era submetido. Em funo do fazer justia com as prprias mos e regido por cdigos de leis e tica prprios, era perseguido pela polcia e por exrcitos particulares dos coronis. Da, ser considerado pela sociedade de modo geral como bandido, mas, na prtica, era um justiceiro que a seu modo praticava justia.Em Seara vermelha, Jorge Amado utiliza apenas uma vez o termo soldado da vingana para designar o cangaceiro, isto , aquele indivduo que vive no nordeste brasileiro perseguido e perseguindo, em luta contra tropas policiais, outros bandos, invadindo cidades e propriedades rurais, saqueando-as, fazendo justia, vingando-se da explorao da qual foi vtima. Como todo soldado, o soldado da vingana tambm faz parte de um exrcito, apenas mais um em um batalho de uma corporao, no caso, o bando deste ou daquele lder do cangao.A seguir apresentamos as 13 lexias pertencentes ao campo lexical dos trabalhadores registradas na obra Seara vermelha.As entradas lexicais foram organizadas em seus respectivos campos, partindo-se sempre das lexias mais genricas para as mais especficas, isto , a organizao das lexias obedeceu percepo de uma hierarquizao dos sentidos, partindo-se das lexias que apresentam um significado mais geral para as que apresentam conceitos mais particularizados. Informa-se a categoria gramatical, o conceito e, por ltimo, a abonao com a lexia em negrito. Dos que exercem poderesLATIFUNDIRIO (s.m) Indivduo que detm grandes extenses de terra, ou propriedades rurais normalmente improdutivas.So homens jogados fora da terra por latifundirio e pela seca. (p. 56, L. 7)CORONEL (s.m) Indivduo que desempenha papel social de chefe poltico e latifundirio do interior do pas.70Nunca a fazenda dera tanto lucro, nem mesmo no tempo do coronel Incio que morava l, tomando conta de tudo, decidindo as mnimas coisas. (p. 16, L. 44)FAZENDEIRO (s.m) Indivduo dono de grande propriedade rural, produtiva.Essa Julieta era filha de criao do fazendeiro. (p. 37, L. 25)CAPATAZ (s.m) Indivduo que desempenha a funo de administrador de uma fazenda.Conservou Arthur como capataz e s muitos anos depois veio a permitir [...] (p. 58, L. 22)Das atividades agrcolas CAMPONS (s.m) Indivduo que trabalha no campo, cultivando a terra.[...] viajava uma inumervel multido de camponeses. (p. 56, L. 6)COLONO (s.m) Indivduo que cultiva uma poro de terra e ligado ao proprietrio por um acordo pr-estabelecido.Gostaria de se dar bem com os trabalhadores e colonos. (p. 17, L. 12)Se Arthur fosse o dono daquela terra, ela no estaria na mo de colonos. (p. 17, L. 35)No admitia que um colono ou um tropeiro olhasse para ela com olhos cobiosos. (p. 38, L.3)MEEIRO (s.m) Indivduo que trabalha em terras que pertencem a outra pessoa, no final da colheita, reparte com o dono da terra o resultado da produo em partes iguais ou em propores previamente estabelecidas.Os meeiros reclamavam, os trabalhadores olhavam-no com olhos cheios de ameaa [...] (p. 17, L. 2)[...] onde estavam os mantimentos para vender a trabalhador e meeiros [...] (p. 17, L. 21)TRABALHADOR (s.m) Indivduo que se ocupa das atividades laborais do campo, recebendo pagamento por sua jornada de trabalho.Os meeiros reclamavam, os trabalhadores olhavam-no com olhos cheios de ameaa [...] (p. 17, L. 2)Gostaria de se dar bem com os trabalhadores e colonos, fora trabalhador ele mesmo [...] (p. 17, L. 12)[...] onde estavam os mantimentos para vender a trabalhador e meeiros [...] (p. 17, L. 21)Das atividades da pecuria BOIADEIRO (s.m) Indivduo que trabalha conduzindo rebanhos de gado nas propriedades rurais.Jernimo soltou ento seu grito de boiadeiro [...] quando conduzira grandes rebanhos para as feiras de gado. (p. 19, L. 7)TROPEIRO (s.m) Indivduo que trabalha como condutor de tropas de animais, conduzindo especialmente rebanhos de gado, cavalos, percorrendo longas distncias.[...] antes fora tropeiro numa outra fazenda. (p. 28, L. 30)No admitia que um colono ou um tropeiro olhasse para ela com olhos cobiosos. (p. 38, L. 3)Atividades lcitas/ilcitasCANGACEIRO (s.m) Indivduo que vive no nordeste brasileiro perseguido e perseguindo, em luta contra tropas policiais ou outros bandos, fazendo justia com suas prprias mos.[...] dobrara-se os joelhos do cangaceiro, fez o sinal da cruz [...] (p. 44, L. 33)Aqui na caatinga, habitam os cangaceiros. (p. 56, L.44)JAGUNO (s.m) Indivduo, que usando de armas, faz parte de um grupo de revolucionrios, lutando em prol de um ideal. Indivduo que oferece seus servios para defender os interesses de um coronel.[...] vira as secas e os jagunos [...] (p. 19, L. 24)71SOLDADO DA VINGANA (s.m) O mesmo que cangaceiro, isto , indivduo que vive no nordeste brasileiro perseguido e perseguindo, em luta contra tropas policiais ou outros bandos.Aqui na caatinga, habitam os cangaceiros. Os soldados da vingana, os donos do serto. (p. 56, L. 44)Consideraes finaisAo longo do texto buscou-se mostrar que a linguagem condio sine qua non para a assimilao dos padres culturais e, consequentemente, sem o seu uso seria impossvel desenvolver a essncia da cultura. Cada lngua est adequada cultura em que se desenvolve, por essa razo, a lngua, meio de comunicao e de socializao dos componentes de um grupo, essencial para a formao da cultura. E o lxico, sendo o nvel da lngua que sempre se encontra em constante processo de renovao e o meio atravs do qual a sociedade pode ver o mundo, o melhor meio de se conhecer ou de se fazer inferncias a respeito dos fatores que condicionaram e condicionam a formao de um grupo scio-lingustico-cultural.O levantamento das lexias e a organizao em campos lexicais permitiram perceber que, apesar de as mesmas fazerem parte da lngua comum, elas, quando empregadas por Jorge Amado em Seara vermelha, adquirem semas novos, permitido ao leitor encontrar trao identitrio com o Serto baiano representado em sua obra, pois, segundo Rajagopalan (2004), a construo da identidade d-se por meio da linguagem e, consequentemente, pode ser reconstruda a cada momento. REFERNCIASAMADO, J. Seara vermelha: romance. 37. ed. Rio de Janeiro: Record, 1981.BIDERMAN, M. T. C. Teoria lingstica: lingstica quantitativa e computacional. Rio de Janeiro: Livros Tcnicos e Cientficos, 1998. COSERIU, E. Gramtica, semntica, universales: estdios de lingustica funcional. Madrid: Gredos, 1987._______. Princpios de semntica estructural. Madrid: Gredos, 1977._______. Teoria del lenguaje y lingstica general: cinco estudios. 2. ed. Madrid: Gredos, 1967._______. O homem e a sua linguagem. Rio de Janeiro; So Paulo: Presena, EDUSP, 1982.HALL, S. A identidade cultural na ps-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2002.OLIVEIRA, A. M. P. P. de; ISQUERDO, A. N. (Org.). As cincias do lxico: lexicologia, lexicografia, terminologia. 2. ed. Campo Grande: Ed. UFMT, 2001.RAJAGOPALAN, K. O conceito de identidade em lingustica: chegada a hora de uma reconsiderao racial. In: BRITO, R. H. P.; MARTINS, M. L. Anurio Internacional de comunicao lusfona. So Paulo; Lisboa: LUSUCOM, 2004.SAPIR, E. A linguagem: introduo ao estudo da fala. Traduo de Joaquim Mattoso Cmara Jnior. So Paulo: Perspectiva, 1980. 73ROUBAR UM NEGCIO DE PALAVRA: LXICO DO FURTO E DO ROUBO EM DOCUMENTOS LATINOS E PORTUGUESES.Renata Cazarini de FREITASImportante corpus para o estudo do chamado latim vulgar so as placas de maldies, tabellae defixionum, que tm sido encontradas em escavaes arqueolgicas em todo o territrio do antigo Imprio Romano. Algumas descobertas so to recentes como 1995, em Alccer do Sal, Alentejo, Portugal, contudo, a histria desse tipo de documentao material anterior expanso romana e disseminao do latim como lngua de colonizao, visto que maioria expressiva do patrimnio j resgatado est inscrita em grego antigo. Das cerca de 1.600 placas, datadas entre os sculos V a.C. e VIII d.C., 500 esto em latim, s quais so atribudos variados nomes: defixiones, deuotiones, donationes, sendo o primeiro o mais usual na literatura acadmica. A palavra derivada do verbo defigo, defigere, cobrindo o campo semntico que vai desde espetar de cima para baixo e assim pregar, prender, imobilizar at encantar, enfeitiar, amaldioar. As tabellae tinham, em geral, funo profiltica numa disputa amorosa, esportiva ou judicial. Um deus era invocado para favorecer a parte pleiteante antes do desfecho da situao. Contudo, h exemplos de placas que buscavam a vingana aps um furto.Um volume grande desses documentos, com datao limitada entre os sculos II e IV d.C., vem sendo estudado na Gr Bretanha, antiga provncia romana da Britannia. Entre 1979 e 1980, foram recolhidas em escavao arqueolgica em Bath, a romana Aquae Sulis, condado de Somerset, no sudoeste da Inglaterra, cerca de 130 placas, parte delas ilegvel. A essas se somam cerca de 140 de Uley, condado de Gloucestershire, tambm sudoeste do pas, e outras coletadas esparsamente.Uma peculiaridade dessas placas de maldio usualmente confeccionadas numa liga de chumbo, inscritas com um tipo de estilete (stilus) e, com frequncia, depositadas junto a fontes de gua que elas no passaram por qualquer crivo posterior (diferente dos manuscritos, por exemplo), chegando at ns tal como foram encontradas. O mesmo vale para quatro exemplares, entre os mais de 20 da Pennsula Ibrica, que tratam do furto com uma linguagem muito prxima que se verifica no acervo britnico. No final do sculo XIX, foi localizada perto da cidade espanhola de Mrida, na Estremadura, uma placa de mrmore com o mesmo teor execratrio de outras duas confeccionadas em chumbo encontradas no sul do pas: uma, em 1972, em Santiponce, e a outra, em 1980, perto de Bolonia. Em 1995, a j mencionada, em Portugal.As placas de maldio seguiam uma composio formular e muitas vezes sem identificao do pleiteante. Talvez fossem inscritas por escribas profissionais, mas essa hiptese ainda no se pde confirmar diante das distintas grafias (punhos) constatadas em um corpus relevante como o de Bath, na Inglaterra (TOMLIN apud CUNLIFFE, 1988, p. 98-100). Apesar de certa variao na frmula de invocao do(s) deus(es) e de imprecao contra o bandido, pesquisadores j fizeram convincentes associaes entre essas composies em latim vulgar e a legislao formalizada em cdices no sculo VI d.C., como o Pactus Legis Salicae, dos francos, e as Leges Visigothorum, dos visigodos. Segundo James Noel Adams (1992, p. 26, traduo nossa), os documentos tm apenas substrato comum: Os dois grupos de documentos baseavam-se, supostamente, no tipo de construo praticada na Antiguidade Tardia em discusses pseudojurdicas sobre o roubo e suas consequncias.1Existe identidade formal entre as duas fontes e certo repertrio lexical atestado em ambas se perpetua no portugus antigo e se estende at o moderno, enquanto alguns termos que, pela frequncia, sugeririam sua permanncia na lngua romnica ou neolatina, desapareceram. Esta pesquisa d incio ao levantamento de um repertrio lexical do campo semntico da perda de propriedade pela ao de terceiros, ou seja, o furto ou o roubo, a partir de documentos materiais e textuais que retrocedem ao perodo da ocupao romana na Pennsula Ibrica avanando at o portugus do sculo XVII.1 Both sets of documents were presumably drawing on the sort of phraseology used in late antiquity in quasi-legalistic discussions of the theft and its consequences.74Desde cedo parece ter-se estabelecido uma diferenciao necessria entre furto e roubo sendo que a raiz fur-, assimilada via latim, manteve-se sempre com a ideia de ao sub-reptcia (ERNOUT & MEILLET, 1951, p. 467), enquanto a raiz raub-, de origem germnica, remontando tomada de esplio de guerra, trouxe consigo o uso da fora (COROMINAS y PASCUAL, 1991, p. 40). Porm nenhuma dessas razes prevaleceu na formao do termo de agente do furto ou do roubo, com o vulgarismo latino latro de origem incerta, talvez do grego * se impondo e vivo at hoje no portugus ladro (ERNOUT & MEILLET, 1951, p. 467 e 611).A apropriao desse lxico no desenvolvimento do portugus pode ser verificada a partir de trs documentos textuais que, alm das defixiones, compem o corpus deste estudo: as Ordenaes Afonsinas, compilao de leis finalizada em 1446, publicada somente 20 anos depois, mas que inclui legislao do sculo anterior; a Coleo de Leis Extravagantes, compilada por Duarte Nunes de Leo em 1566, aprovada em 1569; e Arte de furtar, texto literrio hoje atribudo ao padre Manuel da Costa, elaborado supostamente em 1652, indito at 1744.Documentos epigrficosAs tabellae defixionum ibricas receberam, em 2005, em conferncia realizada na Universidade de Zaragoza, Espanha, ateno de pesquisadores do tema: Roger S. O. Tomlin, editor do acervo de Bath e de Uley, Inglaterra, e de Henk S. Versnel, que concebeu e classificou como judicial prayers (preces judiciais) os pleitos que tentam persuadir um deus para uma causa alegadamente justa ao invs de apenas exigir da divindade a derrota do oponente no amor, no esporte ou no tribunal. As placas britnicas e ibricas a respeito do furto enquadram-se na classificao de Versnel, aceita sem polmica por especialistas. Enquanto o trabalho desses dois historiadores volta-se mais para a histria das mentalidades, o do j citado latinista J. N. Adams busca marcas do latim vulgar que antecipam as lnguas romnicas. A partir dessa triangulao, abordam-se as placas de Italica, Emerita, Baelo Claudia e Salacia.ItalicaA cidade foi fundada em 206 a.C. por Cipio Africano, aps vitria na II Guerra Pnica, assentando no local soldados feridos, que se casaram com mulheres autctones, conforme relatos (ADAMS, 2007, p. 371). Em meados do sculo II d.C., sob o imprio de Adriano, natural dali, a cidade passou por uma reestruturao, elevada a Colonia Aelia Augusta Italica (GIL y LUZN, p. 120). Em uma escavao no stio arqueolgico Casa de La Caada Honda, na rea expandida, foi localizada, em 1972, uma tabella ansata, ou seja, com um apndice para ser pendurada, inscrita em letra cursiva.75Figura 1Fonte: GIL, Juan y LUZN, Jos M. Tabella defixionis de Italica. Lado A.Na ltima linha do Lado A, de se destacar a ocorrncia do verbo inuolauit, de alta frequncia nas placas de maldio da Britannia e registrado tambm em Emerita, como se ver. Nesta defixio de Italica aparece a frmula abrangente si... siue..., de carter judicial, para que a divindade invocada possa cobrar o ladro, mesmo no identificado, quem quer que fosse ele. Essa frmula frequente na Britannia.Transcrio1 Traduo Lado Adom(i)na fons fon[ti]ut tu persequaris duasres demando quiscun(-que caligas meas tel(-luit et solias. tibi,dea, demando ut tuillas adce(p)tor si quis [puer siue] puel(l)a si mulier siue[ho]mo inuolauitLado B[tu] illas persequarisLado ASenhora Fonte, confio tua fonteduas coisas para que tu as persigas; quem quer que sejaque pegou os meus sapatos e as sandlias. A ti,deusa, confioaquelas coisas que o rapinador se algum rapaz ou se moa, se mulher ou se homem roubou,Lado Bpara que tu as persigas.Alguns vulgarismos so facilmente identificveis: solias quando seria soleas2 e telluit por tolluit, forma j vulgarizada de pretrito perfeito no lugar de tulit, que no latim tardio substituiu sustulit no sentido de roubar, segundo Tomlin (2010, p. 256). No Reino Unido, uma tabella ansata de liga de chumbo de 7 x 7 cm foi encontrada em 1927 na escavao do anfiteatro em frente ao acampamento da Legio II Augusta, sediada em Caerleon, antiga Isca Silurum, Pas de Gales. Ela tambm comea com dom(i)na e menciona o calado dos soldados romanos (na grafia vulgar, galliculas ao invs do diminutivo caligulas), alm de um manto (na grafia vulgar, palleum ao invs de pallium). A placa, catalogada como RIB3 323, inscrita em letra romana cursiva antiga (ORC), do incio do sculo II d.C., o que a coloca 1 Adoto a leitura de Tomlin (2010, p. 254-258). Todas as tradues de placas so minhas.2 Appendix Probi, 80: solea non solia.3 Roman Inscriptions of Britain (RIB).76como possivelmente a mais antiga tabella defixionis da provncia britnica. Tomlin diz (2010, p. 253) que a II Legio romana participou da conquista da Ibria, mas descarta que as imprecaes da Britannia derivem das da Hispania (ibidem, p. 247, traduo nossa): Os textos latinos de Espanha e Portugal foram precedidos de textos gregos, como as placas de Cnido, por conseguinte, os textos britnicos no derivam dos ibricos, mas tal como estes expressam uma crena muito mais antiga, que no ocidental e localizada, mas partilhada pelo mundo mediterrnico a ideia de que podemos apelar aos deuses por justia.4EmeritaNa Colonia Augusta Emerita, capital da Lusitania, onde primeiro se assentaram veteranos do exrcito romano, importante centro do reino visigodo at o sculo VI, foi inventariada, em 1869, no Corpus Inscriptionum Latinarum (CIL II 462) uma placa de mrmore danificada na parte inferior de (31,5) x 29 x 4,5 cm. O documento foi encontrado em uma rea que, no final do sculo XVIII, servia lavagem de l. A lista de objetos furtados sugere ter sido tradicionalmente um local para lavar roupas.Os verbos e locues significando desapossar listados nesta placa quot furti factum est, imudauit, inuolauit e minus fecit pedem comentrios. O latim tem o verbo depoente furor, furari para furtar, mas virtualmente ignorado pelos autores das placas de maldies estudadas. Mesmo o substantivo latino furtum tem rara ocorrncia na Britannia5, embora a expresso furtum facere seja recorrente nas Digesta Justiniani, de 533 d.C., compndio de jurisprudncia latina. A raiz fur- vem a provar-se, no entanto, muito produtiva no portugus: o substantivo furto, o adjetivo furtivo, o advrbio furtivamente, o verbo furtar.Acerca de imudauit, pesquisadores consideram que se trata de grafia que reproduz a sonorizao de consoante intervoclica do latim oral frente clssica immutauit6. Sua ocorrncia nas placas inexpressiva e o significado dicionarizado de modificar, mudar apenas tangencia o campo semntico de desapossar. Quanto a inuolauit, j foi apontado na placa de Italica e observou-se a alta frequncia dele na Britannia, porm um verbo que no chega ao portugus moderno. Por fim, minus fecit no encontra paralelo nas placas de maldies, segundo Tomlin (2010, p. 248), mas a construo se encontra tambm no texto Arte de furtar7.Transcrio8 TraduoDEA ATAECINA TVRI(-BRIG(AE) PROSERPINAPER TVAM MAIESTATEMTE ROGO ORO OBSECROVTI VINDICES QVOT MIHIFVRTI FACTVM EST QVISQVISMIHI IMVDAVIT INVOLAVITMINVSVE FECIT [E]A[S RES] QISSTVNICAS VI, [P]AENVLALINTEA II, IN[DVS]IVM CV(-IVS I C [NOME]M (?) IGNORODeusa Atgina de Turbriga,Proserpina,pela tua majestade,rogo, oro e imploro a tique vingues quanto me foifurtado, quem quer quede mim tirou, roubou ousubtraiu as coisas descritas abaixo: seis tnicas, duas capas de linho, uma pea ntima;cujo nome (?) desconheo 4 The Latin texts from Spain and Portugal were preceded by Greek texts like the Cnidus tablets, so it follows that the British texts do not derive from the Iberian, but like them express a much older belief which is not western and localized, but is common to the Mediterranean world the idea that we can ask the gods for justice..5 Tomlin (2010, p. 248): na placa Uley 68, no publicada, ocorre de furto quod mihi factum est (acerca do furto que eu sofri).6 Ver Silva Neto (1992, p. 147) e TOMLIN (2010, p. 248).7 Disponvel em: . Acesso em: 26 ago. 2014. 8 Acompanho a transcrio de Tomlin (2010, p. 247-249).77A associao de divindades autctones mitologia greco-romana disseminada no Imprio. Em Emerita, a celta Atgina vinculada a Proserpina, a Persfone grega. Em Bath, a tambm celta Slis, ligada fonte local de guas quentes, foi sincretizada com Minerva, a Palas Atena grega, donde o templo construdo pelos soldados romanos ter sido dedicado a Slis-Minerva, com algumas placas de imprecao invocando ambas. Como em Italica, um pronome indefinido (quisquis) refere-se ao ladro desconhecido e o pleiteante utiliza o acrstico Q(VAE) I(NFRA) S(CRIPTAE) S(VNT) (grifo nosso).Baelo ClaudiaCidade fundada no final do sculo II a.C. no extremo sul da Espanha, na antiga provncia da Baetica, localizada estrategicamente no litoral do Estreito de Gibraltar, oposta a Tnger, era uma parada importante na rota comercial entre frica e Europa. Sendo o principal fornecedor para o Imprio de garum, uma iguaria de peixe, teve seu apogeu no sculo I d.C., no principado de Cludio, que deu o nome cidade. Na segunda metade do sculo II, estava em declnio aps um maremoto e foi abandonada no sculo VII. Um dos quatro templos locais era dedicado deusa egpcia sis. A tabella ansata foi encontrada em 1980, ao p de uma escada de oito degraus que adentra uma piscina rasa para oferendas no templo da deusa, e publicada oito anos depois.9Figura 2Fonte: Ribeiro (2006, p. 246).A ocorrncia dupla do substantivo furtum nesta placa de maldio a aproxima daquela de Emerita. Tambm se registra sonorizao de consoante intervoclica no termo euides por euites, do verbo euito, euitare na acepo de privar de vida, como o Oxford Latin Dictionary (OLD) reporta em nio e cio (sc. II a.C.), mas tambm em Apuleio (sc. II d.C.), autor que trata da devoo a sis. O verbo autulit a forma vulgarizada de abstulit, do verbo aufero, auferre, significando roubar.9 Disponvel em: . Acesso em: 26 ago. 2014.78Transcrio10 TraduoIsis Muroremtibi conmendofurtu(m) meu(m) mi(hi) factuo numini ma(i)es(-tati exsemplariaut tu euide(s) immedi(-o qui fecit autulitaute(m) res opertor(i)u(m)albu(m) nou(um) stragulu(m)nou(um) lodices duas deuso rogo dominaper maiestate(m) tua(m)ut (h)oc furtu(m) repri(-ndassis Myrionyma,confio a tio que me furtaram. Me dexemplos de tua divindadee majestade, tirando em pblico a vidade quem o fez, roubou, ento, as coisas: uma coberta branca nova, um tapete novo, dois lenis usados.Rogo, senhora, pela tua majestade,que repreendaseste furto.SalaciaEm um santurio romano na cidade de Imperatoria Salacia, atual Alccer do Sal, foi descoberta em 1995 uma placa de liga de chumbo, datada como do sculo II d.C. Sua publicao deu-se em 2002. Visto que Salacia, fundada supostamente em I a.C., foi um importante entreposto comercial entre o Oriente e o Ocidente, no de admirar este testemunho de cultos oriundos da antiga Frgia, como afirma o primeiro coeditor da defixio (ENCARNAO, 2002, p. 423-424), referindo-se ao deus tis.Tal como no documento de Baelo Claudia, tambm neste o pleiteante oferece divindade o ladro no apenas o corpo, mas o sopro vital (anima). Do ponto de vista formal, um texto marcado pelo punctum distinguens, pontos separando palavras. ainda exemplar da eliminao do m do acusativo no latim vulgar, conforme Ernesto Faria (1970, p. 98). Trs diferentes grafias do vocativo masculino domine evidenciam a oralidade deste tipo de documento epigrfico, segundo Amlcar Guerra (2003, p. 337).De notar so os verbos supstulit e compilauit. O primeiro (com grafia irregular) equivalente a sustulit, suplantado no latim tardio por tulit, como j foi observado na placa de Italica. O segundo, compilauit ocorre, por exemplo, no latim arcaico do comedigrafo Plauto (sc. III a.C) incluindo a variante suppilo, suppilare.10 Adoto a leitura de Tomlin (2010, p. 258-260) com os devidos ajustes na transcrio.79Figura 3Fonte: Revista Portuguesa de Arqueologia, v. 6, n. 2, p. 336, 2003.Nesta placa de Salacia, h ocorrncia de fur como agente do furto. J a tabella 44 de Bath, Inglaterra, exemplifica o uso vulgar de latro como agente de ao furtiva, no especificamente de roubo. A placa britnica de 7,5 X 5,8 cm, em seis fragmentos que puderam ser reconstitudos, foi inscrita em ambos os lados com as palavras redigidas da direita para a esquerda, mas na sequncia esperada na frase. O texto, cobrando um vaso de bronze furtado, traz no lado B: dono [...] eum latr[on]em qui rem ipsam inuolaui[t]. Em portugus: doo [...] esse ladro que roubou a dita coisa. De acordo com J. N. Adams (2007, p. 611), esta placa uma atestao nica de latro como ladro, acepo que deve ter sido disseminada a ponto de alcanar as lnguas romnicas. Originalmente, a palavra se referia a mercenrios, soldados pagos. Transcrio11 TraduoLado Adomine. Megareinuicte. tu qui Attidiscorpus. accepisti. accipias cor(-pus eius qui meas. sarcinassupstulit. qui me compilauitde domo. Hispani illius corpustibi. et anima(m). do dono. ut measres inuenia(m). tunc. tibi (h)ostia(m)Lado Bquadripede(m). do(mi)ne Attis uoueosi. eu(m) fure(m) inuenero dom(i)neAttis. te rogo per tu(u)m Nocturnumut me quam primu(m) compote(m) faciasLado ASenhor, Mgaro invencvel,tu que aceitaste o corpode tis, aceites o corpo desse que surrupiou asminhas bagagens, que pilhou daminha casa. Daquele hispnico, o corpoe a anima te dou e doo para queeu encontre minhas coisas. Ento, a ti,Lado Bsenhor tis, prometo um quadrpedecomo vtima, se eu encontrar esse gatuno.Senhor tis, te rogo pelo teu Noturnoque me faas dono o quanto antes. 11 Adoto a leitura de Tomlin (2010, p. 260-264) combinada com a de Guerra (2003, p. 335-339).80Em seu livro The Regional Diversification of Latin 200 BC-AD 600, J. N. Adams advoga que a melhor evidncia de variao lingustica a lexical, no a sinttica, porm ele mesmo reconhece bons resultados apenas quando aborda termos tcnicos que refletem especializaes regionais. Ele descarta a proposta unitarista de que o latim se manteve sem variao at muito tarde, defendendo, pelo contrrio, um processo muito gradual (2007, p. 684). Mesmo a ideia, amplamente aceita, de que a variao regional seria o reflexo da periodizao da colonizao romana o que colocaria a Hispania como reduto do latim de nio (BONFANTE apud ADAMS, 2007, p. 373) posta em xeque por J. N. Adams com base no conceito que ele adota de shrinkage ou retrao de determinadas palavras num contexto de oposio lexical (ADAMS, 2007, p. 400). Ou seja, a variao pode dar-se pela dominncia de um termo sobre outro, concorrente, em perodos posteriores ao da colonizao, aleatoriamente em todo o Imprio (ibidem, p. 32).Documentos textuaisAbordando a partir deste ponto textos em portugus, pretende-se identificar os verbos e os substantivos no campo semntico do desapossar dominantes em tais documentos. Similaridades com a legislao do sculo VI, em latim tardio, sugerem a prevalncia da linguagem jurdica. Os visigodos instalaram-se na Pennsula Ibrica no sculo V d.C., j no declnio do Imprio Romano, mas assimilaram em seu Cdigo as leis e a jurisprudncia romana. de se notar que o Cdigo Visigtico foi retomado aps a expulso dos mouros, no sculo XIII.Ordenaes AfonsinasA primeira compilao de leis de Portugal foi concluda em 1446 e publicada em 1466, sob o reinado de D. Afonso V (1438-1481). Cabia ao rei ordenar as relaes sociais sem se submeter ao arbtrio dos estamentos sociais privilegiados (COSTA et al., p. 2193). As Ordenaes so divididas em cinco livros. Sob os ttulos LXV e LXVI do Livro V, que trata das questes penais, o tom claramente ainda de uma realidade jurdica em construo. So retomadas ordenaes dos reinados de D. Afonso IV (1325-1357) e D. Joo I (1385-1433) como se fossem tradies s ento formalizadas.Figura 4Fonte: Costa et al.81Ao longo do texto h semelhanas com as formulaes de fontes jurdicas latinas, em que da raiz fur- derivam os substantivos furtum e fur e o verbo depoente furor. Tambm nas Ordenaes Afonsinas a raiz profcua: furtos, fazer furtos escondidos, furtar. Porm, o agente j o ladrom, sem vestgio do termo fur (ainda que furtador conste como adjetivo e substantivo masculino no Houaiss digital verso 1.0.5a, porm sem datao). No Vocabulrio Portuguez & Latino, de Raphael Bluteau (1728), on-line na Biblioteca Brasiliana, o verbete roubador sinnimo de ladro. No Breve Diccionario Etimolgico de la Lengua Castellana, de Corominas, o verbete ladrn, originado do latim latro, tem datao de 1140, no poema Cantar de mio Cid. O termo robador derivado do verbo robar, cuja datao tambm recai no Cid, com origem no germnico raubn (alemo moderno rauben). Nas Leges Visigothorum consultadas, a ocorrncia de latro inexpressiva e nem mesmo h registro do verbo raubo, que se verifica, no entanto, duas vezes na edio de Karl August Eckhardt do Pactus Legis Salicae, cdigo de leis dos francos, invasores da Glia. Na comparao com a legislao dos visigodos e dos burgndios, a dos francos a menos romanizada e a mais germnica das trs.Figura 5Fonte: Costa et al.O texto reproduzido acima, do ttulo LXVI das Ordenaes Afonsinas (Dos gaados, e viandas, que forom tomadas no tempo da guerra, como se ham de pagar), de 1430, parece tentar distinguir furtar e roubar pela justaposio dos termos. A inteno do agente relevante para a punio: apenas ter tomado as riquezas implica reembolso aos donos, mas se a ao foi maliciosa, merece penas adicionais. Duarte Nunez de Leo, na Origem da Lingoa Portuguesa, de 1606, estabelece mais claramente a distino entre furto (obra do ladro secreto) e roubo (obra do ladro pblico), assim como explicita que o portugus no distingue o agente de uma e outra ao, o que ele aponta como corrupo per impropiedade de significao alhea (p. 39). Ele lista (p. 81) o verbo roubar entre os emprstimos de origem francesa e argumenta (p. 72) que a lngua da Glia foi corrompida durante a ocupao germnica.Coleo de leis extravagantesAlm de pesquisador, tambm desembargador da Casa de Suplicao, Duarte Nunez de Leo concluiu em 1566, na regncia do cardeal D. Henrique durante o reinado de D. Sebastio (1557-1578), ento ainda uma criana, a Coleo de Leis Extravagantes, um levantamento da legislao que no havia sido includa nas ordenaes rgias. O trabalho foi revisado por Loureno da Silva e aprovado em 1569.1212 Leis Extravagantes. In Infopdia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014. [Consult. 2014-08-26]. Disponvel em: e Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em: .82Sob o ttulo III da IV parte, que trata Dos furtos & roubos (p. 120), uma lei de 1521, do reinado de D. Manuel I (1495-1521), faz eco do cdigo visigtico que penaliza igualmente ladro e conivente. Interessa comparar duas leis contra o furto de dinheiro em territrio portugus uma de 1499, outra de 1536 e como modificada nesse intervalo a referncia ao culpado, passando de qualquer pessoa, como os pronomes indefinidos usados nas defixiones, para a especificao de moos vadios. Sob o ttulo XXII da IV parte, que trata Dos degredos & degredados (p. 176), a lei de 1536, reinado de D. Joo III (1521-1557), tipifica o furtar bolsas como delito e a reincidncia como passvel de degredo para o Brasil. Mas no ocorre o termo ladro. Arte de furtarO texto Arte de furtar chegou a ser atribudo ao padre Antnio Vieira (1608-1697), mas hoje se considera mais provvel a autoria do padre Manuel da Costa (1601-1667). Cheio de picardia e endereado a D. Joo IV, que reinou de 1640 a 1656, supe-se ter sido escrito em 1652, mas circulou apenas manuscrito at 1744. A edio da Biblioteca Nacional de Portugal tem a pgina de rosto indicando autoria de Vieira e impresso em Amsterd, contudo, hoje se considera tratar-se de despiste.13 Logo nas primeiras linhas o autor d o tom cido: [E]ste mundo he hum covil de ladroens. A linguagem resgata muito da formulao jurdica como se viu at agora, mas traz tambm termos diferentes a partir da raiz latr- surda ou sonora: como ladroeira, primeiro registrado em Joo de Barros, Dcadas da Asia Vol. II, em 1553, segundo o Houaiss digital, e, mais adiante no texto, latrocnios, registrado inicialmente em 1529, nos Itinerrios da ndia a Portugal, de Antonio Tenrreyro. A ideia de diminuio associada ao furto, j observada, tem mais de uma formulao, como: E nam s sobre couzas boas tem as Artes jurisdicam, para as melhorar mais que a natureza; mas tambem sobre as ms, e noivas, para as diminuir em proveito de quem as exercita, ou para as accrescentar em damno de outrem (grifo nosso).ConclusesO inventrio lexical resultante desta pesquisa sugere uma especializao progressiva no campo semntico do desapossar desde o latim formular das placas de maldies at o portugus de um texto autoral. Mesmo considerando as limitaes do corpus investigado, ou seja, o escopo jurdico e a lacuna dos sculos VII a XIII, ainda parece haver subsdios suficientes para indicar retrao (shrinkage) de certos termos.Usava-se variedade de verbos ou locues latinas significando furtar no perodo inicial abordado na pesquisa, mas at palavras muito disseminadas, segundo a documentao epigrfica, no sobreviveram em portugus. Um exemplo de retrao o verbo inuolo, inuolare, que se provou de alta frequncia nas defixiones da Britannia, assimilado tambm na Hispania, com o incontestvel sentido de furtar. lxico que ocorre inclusive no latim literrio, mas coloquial, como no poema 25 de Catulo e na prosa de Petrnio (Satiricon 63.8). Pode-se inferir que a perda de motivao do radical latino uola ensejou interpretao variada do termo, registrada por autores antigos: no centro da palma da mo (in uola) ou voar em direo a (in + uolare), donde, a acepo de roubar. Considerando-se a proposio de J. N. Adams, tal instabilidade pode ter sido causa de retrao (shrinkage) na concorrncia com outros verbos.O que se constata uma preferncia pela oposio mais clara e simples entre o furtar e o roubar que vai se delineando nos textos em portugus. A prevalncia das razes latr-, raub- e fur- nesse repertrio lexical j foi apontada. A sua especializao pelo uso , no mnimo, irregular: como explicar a retrao do agente latino fur, frequente na lei, em favor de latro e, ento, o portugus ladro, o espanhol ladrn, o italiano ladro, o catalo lladre, at o gals lleidr mas o romeno ho e o francs voleur (em desuso, larron)?13 Cf. artigo de tavares, Pedro Vilas Boas. Via spiritus 8, 2001, p. 255-268. Consulta em 26/08/2014. Disponvel em:< http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/3499.pdf >http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/3499.pdf http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/3499.pdf 83REFERNCIASADAMS, J. N. British Latin: The Text, Interpretation and Language of the Bath Curse Tablets. Britannia, v. 23, p. 1-26, 1992. Disponvel em: . Acesso em: 26 ago. 2014.______. The Regional Diversification of Latin 200 BC-AD 600. Cambridge/Nova York: Cambridge University Press, 2007.COROMINAS, J. y PASCUAL, J. A. Diccionario crtico etimolgico castellano y Hispnico. Madri: Editorial Gredos, 1991.COSTA, C. J. et al. Histria do Direito Portugus no perodo das Ordenaes Reais. In: V Congresso Internacional de Histria, p. 2191-2198. Disponvel em: . Acesso em: 26 ago. 2014ENCARNAO, J. d. Varia de archaeologia. In: Humanitas, 54. Coimbra, 2002, p. 421-424.ERNOUT, A. & MEILLET, A. Dictionnaire tymologique de la langue latine : histoire des mots. Paris: Librairie C. Klincksieck, 1951.FARIA, E. Fontica histrica do latim. Rio de Janeiro: Livraria Acadmica, 1970.GIL, J. e LUZN, J. M. Tabella defixionis de Italica. In: Habis, v. 6, p. 117-132, 1975. Disponvel em: . Acesso em: 26 ago. 2014.GORDON, R. L. e SIMN, F. M. Magical practice in the Latin West: papers from the International conference held at the University of Zaragoza, 30 Sept.-1 Oct. 2005. Leiden/Boston: Brill, 2010.GUERRA, A. Anotaes ao texto da tabela defixionis de Alccer do Sal. Revista Portuguesa de Arqueologia, v. 6, n. 2, p. 335-339, 2003.RIBEIRO, A. As tabellae defixionum: caractersticas e propsitos. 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Correlacionada a essa variao, a hiptese deste trabalho a existncia de mescla pronominal entre formas relacionadas segunda pessoa do singular na fala popular de So Jos dos Campos-SP (SJC-SP). Alm disso, parti da noo que presses de uso, situaes diversas e experincias humanas em Comunidades de Prtica (CsPrat.) moldam significados e formas em determinada lngua (HALLIDAY; MATTHIESSEN, 1999; ECKERT, 2012). As primeiras Entrevistas Sociolingusticas labovianas estavam centradas na coleta de dados de um indivduo apenas somado a vrios outros do mesmo grupo de dada Comunidade de Fala (CF), que compunham o nmero de dados sociolingusticos suficientes para o desenvolvimento de estudos quantitativos e variveis (LABOV, [1972] 2008), objetivando, por conseguinte, detectar o vernculo no uso da lngua cotidiana. Esta pesquisa, porm, avana no sentido de apresentar dados quantitativos, extrados de uma pesquisa de campo, cuja metodologia foi reunir um, dois ou mais partcipes iguais-lingusticos1 e iguais sociais em Entrevistas Sociolingusticas Semidirigidas (ESSD)2. Essas entrevistas foram embasadas em Moreno Fernndez (2012) que, por sua vez, adota o prisma da Sociolingustica Cognitiva associada quantificao de dados de modelos baseados no uso. Alm disso, os conceitos Comunidade de fala (CF) e Comunidade de Prtica (CPrat.) sero abordados por serem relevantes como procedimentos metodolgicos para aqueles que buscam compreender lngua em uso e comportamento social de determinada cidade e/ou localidade. Este artigo est organizado assim: introduo, pressupostos terico-metodolgicos, discusso e anlises de resultados, alm das consideraes finais.Consideraes terico-metodolgicasA lngua um dos principais construtos sociais e, por isso, moldada por presses de uso cotidianas. Alm disso, a passagem dos tempos e a consequente evoluo geracional fazem potencializar novas formas de dizer alterando, por conseguinte, estruturas sonoras, lxico-gramaticais, semnticas entre outras (LABOV, [1972] 2008; HALLIDAY; MATTHIESSEN, 1999; GIVN, 2012). A partir de aprendizados e vivncias, humanos concebem o mundo sob olhares (inter)subjetivos, recortando, por sua vez, caractersticas socioculturais encontradas em cada CF e as representa atravs de itens lingusticos em sua fala. Nesse sentido, a cidade, conforme Moreno Fernndez (2012), o conceito que melhor se aplica CF, pois ela, alm de ser anterior ao indivduo, acomoda grupos sociais especficos e diversos, usurios de ao menos uma determinada lngua comum, disponvel como sofisticado instrumento de comunicao entre grupos sociais diversos. Desse modo, nenhuma cidade conter os mesmos traos lingusticos e comportamentais, podendo ocorrer semelhanas entre elas, mas atitudes e prticas sociais podero se distanciar, na medida em que presses diversas de uso constroem essa determinada lngua de modo ininterrupto. Mudanas lingusticas, de acordo com discusses sociolingusticas e funcionalistas, so motivadas por fatores sociais3, socioculturais, lingusticos etc. Quando essas foras motivadoras se encaixam paulatinamente em dada estrutura social, elas tendem a produzir efeitos (effect of social 1 Termo cunhado por ngela Ceclia Rodrigues (1987).2 Entrevistas Sociolingusticas Semidirigidas (ESSDs) caracterizam-se, entre outros aspectos, pela liberdade de o documentador atuar como partcipe dialogal durante a entrevista (MORENO FERNNDEZ, 2012), diferente das Entrevistas Sociolingusticas tradicionais nas quais o documentador ficava limitado a pequenas intervenes mediadoras diante de um entrevistado apenas. 3 Ocupao, diferenas tnicas, faixa geracional, mudanas polticas etc.88forces) como Redes Sociais (Social Networks) e Comunidades de Prtica (Communities of Practice) nas quais foras motivadoras (driwing forces),4 principalmente as de origem social, atuam para a produo de informaes proposicionais (LABOV, 2010). Essas foras motivadoras provocam mudanas lingusticas que podem estar associadas a processos de Gramaticalizao que, por sua vez, especializam certo item lexical a ser cada vez mais gramatical e obrigatrio, como ocorreu com o pronome voc, encaixado na estrutura social e lingustica do Portugus Brasileiro PB (FARACO, 1996; RUMEU, 2008).Como estratgia metodolgica, nos primeiros trabalhos labovianos, a CF foi estratificada por fatores sociais rgidos como ocupao, etnia, faixa etria, sexo, localizao. O objetivo maior dessas pesquisas fontico-fonolgicas foi mostrar a heterogeneidade na lngua e localizar o falante em situada estratificao social e, desse modo, somado a vrios outros pares, revelaria padres sociolingusticos dentro de sua respectiva CF. Assim os falantes, atravs de diferenas sociais, caracterizavam-se por possuir as mesmas normas e atitudes compartilhadas, denotando, na viso do autor, certos tipos de comportamento avaliativo e tipos sociais. Essas atitudes, por sua vez, possuam um carter mais homogneo em relao ao comportamento lingustico dos falantes em questo e, por isso, esses grupos sociais foram separados por a) falantes favorveis a uma pronncia conservadora de ditongos centralizados na ilha de Marthas Vineyard e b) aqueles que pronunciavam os ditongos de maneira no favorvel ilha (LABOV, [1972] 2008), marcando sua identidade social atravs de orientaes positiva e negativa de foras: grau de identidade e sentimento de pertencimento aos grupos (LABOV, 2010). Nesse sentido, a ideia de deslocar a heterogeneidade para a lngua levou estudos sociolingusticos a sistematizar diferentes variveis lingusticas produzidas em comunidades sociais que, por sua vez, acomodam pessoas que falam a mesma lngua e outros grupos sociais que falam mais de uma lngua em um mesmo territrio (CALVET, 2002), revelando a realidade de Comunidades Sociais/cidades (MORENO FERNNDEZ, 2012; CAMACHO, 2013). As cidades, por sua vez, vivenciam situaes cotidianas e possibilitam ao pesquisador controlar o estilo de fala a depender de graus de monitorao, audincia, situaes de produo lingustica como atos de fala diversos: conversa em bares, entrevistas, leitura de uma lista de palavras etc (LABOV, [1972] 2008). Nesse sentido, atos de fala pressupem trs funes voltadas s atividades discursivas. Embasado em Bhler (1964), Labov (2010) postula as seguintes funes discursivas: a representao da forma (formas simblicas), a funo diretiva (acomodao do ouvinte em funo da audincia) e a funo expressiva (informaes pessoais e socioculturais do falante). Esses trs polos funcionais e discursivos esto associados s trs pessoas do discurso (1, 2 e 3 pessoas), passando a esclarecer trocas comunicativas em relao a atitudes e vontades entre interactantes. Nessa perspectiva, Weireich, Labov e Herzog ([1968] 2006) postularam que uma proposio possui trs significados relevantes durante atos conversacionais: a) significado representacional; b) a funo de identificao do ouvinte e c) a funo de acomodao ao ouvinte. Essas foras em atos de fala motivariam variao, principalmente, variao estilstica (LABOV, [1972] 2008). Eckert (2012), por sua vez, advoga que falantes, por viverem diferentes situaes sociais, so agentes estilsticos por natureza. J Halliday e Mathiessen (1999) postulam que os usurios de uma lngua so atores sociais justamente por estarem em constante transformao conforme a evoluo das sociedades, motivando variao e mudana lingustica.Pelo fato de falantes colocarem a lngua em movimento e, por isso, ela se mantm viva e atualizada, regras gramaticais adaptam-se s necessidades discursivas dos falantes. Esses falantes, por sua vez, adaptam-se s situaes, na medida em que contextos sociais exigem deles atitudes. Essas atitudes so diferentes das aes convencionalizadas pelo grupo de sua convivncia social (GUY, 2001) e, dessa maneira, o modelo de pesquisa da sociolingustica instrumentaliza a investigao emprica de determinada lngua para mensurar traos lingusticos compartilhados (ou no) por dada CF, podendo sistematizar fatos lingusticos e atitudinais semelhantes e diversos, levando, por sua vez, a encaixar certa CF dentro de outras, pois o falante (ou falantes) poder participar de mais de uma comunidade, proporcionando anlises voltadas macrossociolingustica e/ou microssociolingustica (CALVET, 2002; CAMACHO, 2013).4 O termo Foras Motrizes (LABOV, 2010) est sendo empregado como foras motivadoras neste presente trabalho. 89Essas influncias de contato entre agrupamentos sociais distintos parecem ter sido abstradas do Modelo Sociolingustico de investigao condenando o falante a uma certa impotncia lingustica pelo fato de esse falante manter-se isolado5 (CALVET, 2002). Todavia, reunies familiares, escolares, idas a cultos religiosos, atividades comunitrias, festejos etc. so prticas sociais realizadas por certos grupos sociais, sendo que cada uma dessas prticas constituiria uma Comunidade de Prtica (CPrat). Eckert (2012) defende que CPrat caracterizada pelo engajamento social, ponto de vista tambm discutido por Eckert e Mcconnell-Ginet ([1992] 2010). Segundo as autoras, nesses lugares que coabitam linguagem, gnero e poder. J Redes Sociais (RS), conforme Milroy (2004), so os diversos setores sociais que um mesmo indivduo frequenta, formando, por conseguinte, sua rede social particular que, atravs de sua fora (laos fortes ou fracos), influenciaria na produo de suas atividades lingusticas. Enquanto o estudo de Redes Sociais (RS) est voltado para o grau de engajamento do indivduo em certo grupo social como o familiar (relaes entre familiares e amigos); o estudo referente CPrat est voltado para o engajamento social de dado grupo em particular que age para atingir propsitos comuns dirios (MILROY, 2004; MEYERHOFF, 2004), fornecendo, assim, ao analista mais um vis metodolgico para estudar grupos sociais, sejam eles grandes ou pequenos, criando um vasto continnum (CALVET, 2002, 143) de possibilidades interpretativo-metodolgicas. Para Meyerhoff (2004), trs critrios so importantes para definir uma CPrat: a) o engajamento social e mtuo (mutual engagement of the members) deve ser de unio entre todos os membros de certo grupo para que rotinas e prticas comuns convirjam e as levem para identificao do grupo social; b) os empreendimentos so negociados e ajustados entre os membros (jointly negotiated enterprise), estabelecendo, por sua vez, identificao entre os indivduos que se sentem integrados e pertencentes a este grupo pela manuteno de esforos comuns, promovendo, inclusive, adaptaes diversas no que se refere ao que dizer e ao que fazer e c) o repertrio compartilhado (shared repertoire), visto como recurso lingustico entre outros conhecimentos que so cumulativos pelas experincias humanas e por negociaes internas. Sob esse ponto de vista, as variveis lingusticas relacionadas segunda pessoa do singular emergem no cotidiano de conversas face a face. Esses itens lingusticos so falados por populares em atividades conversacionais, negociveis em diferentes espaos de trabalho como em universidades cujas instalaes contm diversas subdivises: reitoria, secretarias, salas de aula e de professores, visitantes diversos, portarias, refeitrios etc. e outras reparties como as de almoxarife, limpeza e manuteno. Esses populares, categorizados como baixa renda, no se deixam influenciar por padres lingusticos e comportamentais de grupos que no se identificam com esses mesmos padres de serviais braais. O convvio entre grupos distintos em CsPrat como em universidades, escolas, bancos financeiros entre outros setores sociais tem tempo contado, ou seja, o grupo de limpeza e manuteno circula nesses ambientes para realizar certa atividade que possui tempo cronometrado entre o incio de seus afazeres at o seu trmino, no sendo possvel para esses populares incorporarem outros hbitos como, por exemplo, o de praticar a lngua culta. Nesse sentido, est em Calvet (2002, p. 68-69) que Se os usos variam geograficamente, socialmente e historicamente, a norma espontnea varia da mesma maneira: no se tem as mesmas atitudes lingusticas na burguesia e na classe operria, em Londres ou na Esccia, hoje e cem anos atrs.A partir da observao de falas populares, notei que esses tipos sociais no necessitam utilizar outras variedades de lngua como as variedades cultas, pois esses falantes acomodam-se em suas prticas cotidianas, tornando sua lngua em uso aparentemente mais homognea, no necessitando alternar o cdigo popular por outros cdigos quando situaes contextuais exigiriam o emprego de um cdigo formal. Desse modo, a fala popular permanece identificada como lngua de pessoa no escolarizada justamente por no ter o modelo da lngua escrita como suporte e, assim, empregam caractersticas linguageiras embasadas e aprendidas no cdigo oral e de uso geral (MORENO FERNNDEZ, 2012), mas nem por isso convivem menos com variedades cultas haja vista que populares e no populares, muitas vezes, trabalham juntos em reparties pblicas e privadas, gerando variao entre variedades cultas e populares6 (ARAUJO, 2014). 5 Recorte metodolgico necessrio para a poca, j que estudos estruturalistas privilegiavam a fala de um nico indivduo como suficiente para descrever dada lngua, excluindo, por conseguinte, influncias sociais.6 Dentre algumas caractersticas encontradas nas variedades populares h: a falta de concordncia entre sujeito e verbo (no-categrico); artigo e substantivo no concordam sempre quanto marca de plural (as casa, as coisa); a concordncia entre sujeito e verbo tambm 90Na verdade, essa variao entre variedades cultas e populares no Brasil caracteriza-se pela scio-histria, j que a imensa massa de brasileiros, desde o Brasil-Colnia at os dias atuais, constituda por indivduos cuja caracterstica principal a baixa ou nenhuma escolaridade e a falta de oportunidades diversas (MATTOS E SILVA, 2004; RODRIGUES, 1987), mas essa faixa populacional que promove bem-estar a todos, pois trabalham em funes de utilidade geral: limpeza e manuteno de reas de grande circulao humana (shoppings, linhas metrovirias, universidades, reas pblicas etc) e seus filhos que so a principal clientela de escolas pblicas brasileiras e, alm disso, nos dias atuais tambm ingressam em grandes universidades pblicas, moldando, por sua vez, o PB, principalmente a modalidade falada. Desde meados do sculo XIX (MATTOS E SILVA, 2004), a variedade culta no Brasil considerada variedade socialmente prestigiada e legitimada por escolas, universidades, mdia jornalstica enquanto as variedades populares (no legitimadas), muitas vezes, so postas margem de discusses por serem rotuladas como erradas ou fora dos padres considerados certos e exemplares, proporcionando uma viso dicotmica da lngua voltada para a valorao de uma em detrimento de outra (RODRIGUES, 1987; SOARES, 2002). Todavia, essas variedades tm, em terras brasileiras, a possibilidade de misturar certos aspectos de uma e/ou de outra variedade (CEZARIO; VOTRE, 2010) j que no Brasil a populao vive de contatos em ruas, feiras, locais de trabalho etc. (ARAUJO, 2014). Essa valorao, centrada em nveis profissionais e usos da lngua, leva esses populares a exercerem cargos pouco valorizados. Alm disso, como j mencionado, seus filhos so a principal clientela de escolas pblicas brasileiras que, por sua vez, so obrigados a adquirir padres lingusticos bem distantes de sua realidade sociolingustica, tornando o nvel de ensino-aprendizagem, muitas vezes, difcil pela falta de correspondncia entre usos reais da lngua e sua multiplicidade de empregos variveis (SOARES, 2002). Nesse sentido, empregos lingusticos e variveis ocorrem h sculos em terras brasileiras. Assim, [...] mudana diacrnica, e consequentemente a variao sincrnica, caminha em uma dada direo ao longo do eixo do tempo na comunidade de fala. Ento uma forma pode ser vista como entrando na lngua ou caminhando para a extino. (NARO; SCHERRE, 1991, p. 9). Devido a transformaes sociais ocorridas no Brasil ao longo dos tempos (BIDERMANN, 1972-73; FARACO, 1996), a entrada do pronome voc afetou o sistema tratamental em uso no PB. De acordo com Lopes e Cavalcante (2011, p. 44), os contextos afetados pela insero do voc no paradigma de segunda pessoa do singular na lngua de letrados em sincronias passadas foram: a) posio de sujeito, b) funo de complemento preposicionado oblquo (com voc) e c) contexto imperativo (Diga a Maria que...). Paulatinamente essa forma foi se instalando no PB, possibilitando novas combinaes pronominais. A partir da dessemantizao de Vossa Merc, voc se introduz no paradigma pronominal e diversas combinaes tornam-se usuais entre os brasileiros como: voc com te~lhe~voc, teu/tua~seu/sua, etc e vocs com lhes~vocs, seus~teus, de vocs etc (LOPES, 2006, p. 188). Assim os pronomes tu; tu e voc e s o uso do voc como tratamento ao interlocutor combinavam usos com o completivo te e possessivos determinantes seu/sua~teu/tua. Essas formas, por sua vez, esto associadas a traos de pessoa (LOPES, 1999) e processos de gramaticalizao como os de decategorizao, persistncia e especializao (HOPPER; TRAUGOTT, 1993). Semelhante comportamento mesclativo entre as formas DE TU e DE VOC realidade na fala popular de So Jos dos Campos/SP. Essa cidade recebe pessoas de diversas origens devido ao seu desenvolvimento industrial e estudos aeroespaciais, automobilsticos etc. desenvolvidos a partir dos anos 50. Sculos antes, a cidade foi um fazendo agrcola administrado por jesutas e posteriormente o local foi rota de tropeiros e bandeirantes, segundo historiadores e documentadores locais (SILVA et al. 2010). Fatos que motivaram usos da forma voc e suas variaes fontico-fonolgicas na cidade, j que vizinha do sul mineiro. Voc foi a forma tratamental primeira estabelecida entre comerciantes tropeiros e bandeirantes que percorriam trilhas desde Minas Gerais, So Paulo, Paran, Santa Catarina e varivel entre outras particularidades (RODRIGUES, 1987; GUY, 2001; ARAUJO, 2014), mas nem por isso impossveis de serem sistematizadas e estudadas, como provou Labov ([1972] 2008) ao sistematizar falares marginais de negros, oriundos de guetos americanos, provando a eficcia da lngua local (ou dialeto local), mas desprestigiada socialmente pelos falantes da variedade padro do ingls americano. 91Rio Grande do Sul (COELHO; GRSKI, 2011) e, por conseguinte, voc forma generalizada no pas desde os tempos coloniais.Discusso e anlises dos resultadosBreve discussoAs falas de 36 populares foram analisadas com o intuito de descrever o modelo pronominal em uso relacionado segunda pessoa do singular. Assim um, dois ou mais entrevistados foram abordados para que dilogos mais espontneos surgissem entre iguais-lingusticos e sociais e no iguais-lingusticos como a documentadora em questo. Esses falantes foram separados por fatores sociais e situacionais no discutidos para este presente propsito. Abaixo ilustro excertos de fala, extrados de Entrevistas Sociolingusticas Semidirigidas (ESSDs) que colhi:(1) Fal7 1 [...] Onde que ? Ai... no vou lembr. Talvez perto de Londrina, no sei. De onde voc ? Me responde. Doc ... Santa Catarina. Fal 1 isso. de l mesmo ... [...] agora sou eu que t te entrevistando (risos) (dois homens jovens. Amostra de fala popular alternativa (-) formal).(2) [...] C vai l i passa um rdio pra sab se chegou junto ... da outra pessoa ... si sa uma hora, meio-dia ... a hora qui voc precis tir s agend o horrio i qui voc precisa faz anot o teu nome i traz o comprovante... (um homem, faixa etria intermediria. Amostra de fala popular empresa (+/- formal)). Vale mencionar que no crpus no foram encontrados clticos de terceira pessoa o/a e lhe que poderiam ter migrado da terceira pessoa do singular para apontar a segunda pessoa (interlocutor).8 Desse modo, no faz parte da conscincia desses falantes empregar formas pronominais que no pertenam ao seu modelo em uso. Nesse sentido, Labov (2010) aborda aspectos cognitivos, sociais e lingusticos para explicar mudana e estabilidade nas lnguas. Sob esse enfoque, quando h perda de informao resultante de transformaes sociais como aconteceu com a forma voc no Brasil, acontece o que o autor chama de mecanismo de reparao. Segundo linguistas, a dessemantizao do voc ocorreu por causa de transformaes sociais (FARACO, 1996) e lingusticas (LOPES; CAVALCANTE, 2011). Assim processos de gramaticalizao associados a transformaes sociais so olhares meta-tericos que, por conseguinte, auxiliam na interpretao das modificaes ocorridas no paradigma pronominal de segunda pessoa do singular no Brasil, principalmente, na modalidade oral popular, transformando o tratamento interpessoal para atitudes sociais colaborativas, menos centradas no poder (CINTRA, 1986). Para Labov (2010), quando informaes lingusticas so perdidas pelo abandono de usos como tu (thou), 2 pessoa do singular no ingls antigo9, mecanismos de reparo envolvem a converso de formas mais obrigatrias em uso que atuam de maneira mais especializada em suas funes sintticas (HOPPER; TRAUGOTT, 1993). Os casos de reteno de clticos (itens obrigatrios e fixos) envolvem outras compensaes como em todos vocs (all you) e vocs (you guys), segundo Labov (2010) no ingls. Situao semelhante acontece com o cltico te retido em construes como [te+Verbo] objeto antecedente ao verbo (OV) no 7 Fal abreviatura de falante e doc abreviatura de documentadora. Fal 1 havia mais de um entrevistado na ocasio. 8 Camargo Jr (2008) investigou a escrita formal e informal de escolares paulistanos. Os resultados obtidos atravs da investigao do autor apontaram que alunos do Ensino Fundamental adquirem os clticos o/a, lhe durante sua formao escolar. Entretanto, esses pronomes completivos apontam para a segunda pessoa do singular, no para a terceira pessoa como prescrevem compndios gramaticais (BECHARA, 2009). J em textos informais o pronome objetivo te foi o mais utilizado por esses escolares paulistanos para referir o interlocutor junto da forma voc/sujeito.9 Segundo Labov (2010), desde ento a expresso voc tem sido empregada por uma variedade de formas: youse, youns, you. Esses mecanismos de reparo so compensatrios por implicar foras que so moldadas ao longo de uma mesma dimenso: o impulso para informar mais (mais significados sob a mesma forma) mesmo que leve a dispensar o uso do maior esforo (perdas morfolgicas como finais verbais relacionados segunda pessoa do singular). 92PB conforme mostraram os excertos de fala10 j citados, exibindo uma sintaxe de objeto mista (GIVN, 2012), por vezes, OV e outras VO como em: falei pra voc. Sob essa tica de interfaces tericas que formas pronominais DE VOC e DE TU sero discutidas na prxima seo.Anlises dos resultados Os 36 entrevistados11, oriundos ou no da cidade de SJC-SP,12 produziram 852 dados pronominais relacionados segunda pessoa do singular: 772 so formas DE VOC e apenas 80 so formas DE TU. Conforme os resultados gerais, eles apontam duas percepes estatsticas: a) as formas DE TU estariam praticamente extintas no portugus popular de SJC-SP, pois obtiveram apenas 9% de frequncia de uso e b) os resultados indicam aparentemente mistura pronominal. Grfico 1 Resultados gerais das variveis lingusticasFonte: Elaborao prpriaResultados geraisEm contrapartida, o fator Funes Sintticas representa em percentuais essa aparente mistura pronominal na lngua popular de SJC-SP. A prescrio gramatical exige que formas relacionadas s trs pessoas gramaticais s podem se relacionar com seus itens pronominais correspondentes. Isso quer dizer que essa mesma regra serve para a segunda pessoa (singular/plural): no misture pronomes!! Essa noo deriva da herana latina na qual o antigo sistema de casos era utilizado13, principalmente na escrita, diferente dos usos no latim vulgar (MATTOS E SILVA, 2004). Entretanto, essa regra linear correspondente ideal, por isso ela no se aplica ao PB falado, principalmente na variedade popular, conforme indicam os resultados descritos na tabela a seguir: 10 Alm das formas DE VOC e DE TU, h outras formas tratamentais em uso na lngua popular falada em SJC-SP como o/a senhor/a pouco utilizados nas ESSDs e as expresses zero em incio de frase. Os pronomes o/a senhora ocorreram em dilogos travados com funcionrios terceirizados e funcionrios pblicos concursados. Para o grupo de funcionrios terceirizados, os servidores pblicos tm status social mais elevado, embora a funo ou cargo de servios gerais seja o mesmo. Nesse sentido, os usos de o/a senhora esto relacionados convivncia do poder e hierarquias estabelecidas tanto no plano institucional quanto no social: faixas etrias. Os usos de zeros no incio de frase, para mim, so uma espcie de desvio, um ato de preservar faces conforme estabelece Goffman ([1967] 2012) sobre rituais de interao e Brown e Levinson ([1978] 1987) sobre noes de polidez. J para Cook (1997) os usos nulos/zeros significam neutralidade. 11 Como alternativa metodolgica optei por gravar as entrevistas de modo secreto (SCHERRE et al. op. cit) e ao final das abordagens interativas, pedi permisso aos participantes das entrevistas para utilizar a gravao para fins acadmicos e tambm solicitei a eles que assinassem fichas sociais, minimizando, assim, o paradoxo do observador.12 Falantes oriundos da cidade e regies vizinhas formaram um grupo de falantes (SP, MG, PR). Falantes no-oriundos da cidade em questo formaram o segundo grupo de falantes. Esses falantes so de origem nordestina (PI, MA, BA, RN). 13 Assim como as correspondncias entre formas pronominais no so naturais na lngua falada do PB e j que casos latinos tambm no influenciam mais os usos de sujeito e complementos, por exemplo, no h razo para denominar os objetos direto e indireto de acusativo e dativo. Prefiro chamar o cltico te/direto de objeto direto e o te/indireto de te bitransitivo. 93Tabela 1 Funo sinttica das formas DE VOC e DE TUFUNO SINTTICAPRONOMES EM USO FORMAS DE VOC E FREQUNCIA DE USO % FORMAS DE TU FREQUNCIA DE USO %Sujeito voc/tu 569/696 99% 06/696 1% Objeto Direto voc/te 10/49 20% 39/49 79% Objeto de Bitransitivo para voc/te 26/56 46% 30/56 53% possessivos seu/sua~teu/tua 45/50 90% 05/50 10% TOTAL 772/852 90% 80/852 9%Fonte: Elaborao prpriaOs percentuais acima revelam uma gradao de usos. Esses ndices indicam a penetrao do voc em territrios sintticos diversos. Enquanto as frequncias obtidas pelo voc/sujeito obtiveram 99% de frequncia de uso; seu/sua possessivos determinantes obtiveram 90%; indicando exclusividade de usos. Te como objeto direto obteve 79% de percentual de uso e te como objeto de verbo bitransitivo (dativo) obteve 53%, revelando novos contextos de penetrao da forma voc, pois tem comportamento nominal, revelando uma sintaxe de objeto mista OV e VO. Os possessivos determinantes, por sua vez, podem alternar posies sintticas justamente porque acompanham nomes, assim usos como teu celular quebrou, voc comprou seu casaco? e voc entregou tua mochila pra sua me? e fui com o seu pai na feira ontem so construes usuais no PB. Outro aspecto a ser notado que voc/sujeito, te/complemento e os possessivos determinantes possuem traos de pessoa e animacidade [+pessoa: [-eu] e [+animado]] (LOPES, 1999). Entretanto, o que est em jogo nas formas possessivas o trao do possuidor [-eu] que se refere ao interlocutor (teu/seu); e traos do possudo [+/-animado] e [+/-pessoa] que caracterizam pessoas, objetos, animais etc. Em relao ao pronome tu, este item foi pouco produzido, mas em famlias nordestinas esse pronome empregado em situaes de intimidade.14 Consideraes finaisEste trabalho apontou avanos terico-metodolgicos inseridos na grande rea da Sociolingustica Variacionista: a) CPrt. observadas dentro de setores sociais existentes em SJC-SP; b) outras molduras enunciativas que foram construdas alm da reunio de um nico entrevistado; c) mtodo alternativo para capturar dados relacionados 2 pessoa do singular; d) discusso sobre prticas sociais e modelos baseados no uso associados quantificao de dados; e) consideraes sobre experincias e cognio humanas associadas evoluo do PB. Alm disso, os resultados apontaram para a naturalidade de uso das formas pronominais que so produzidas por populares, oriundos ou no da cidade de SJCSP. A mistura tratamental foi realidade no passado brasileiro (LOPES, 2006), e, aparentemente, continua sendo real na atual sincronia do PB, especialmente nas formas DE TU e DE VOC. Entretanto, no coerente afirmar que h mistura pronominal, j que traos pessoa se referem exclusivamente ao receptor [-eu]. Na Lngua Popular de SJC-SP, h um modelo pronominal em uso, aceitando combinaes de natureza especializada: voc/sujeito com te/voc; te/pra voc; seu/sua~teu/tua. Os contextos de reteno da sintaxe de objeto foram apontados pela 14 Tu manifestado como uso menos frequente em terras paulistanas, em situaes cotidianas extra-familiares como conversas realizadas em ambientes de trabalho, por exemplo, denotando que o comportamento sociolingustico desses populares em relao aos pronomes de segunda pessoa no difere muito dos comportamentos lingusticos de nossos antepassados conforme as discusses de Cintra (1986); Lopes (2006) e Rumeu (2008), ou seja, o uso do pronome tu continua tendo carter ntimo. 94frequncia de uso em favor de ambientes sintticos ocupados pelo cltico te. Desse modo, as construes com [te+V] so contextos ainda resistentes penetrao das formas DE VOC, revelando, por conseguinte, um possvel processo de gramaticalizao em curso. REFERNCIASARAUJO, S. S. de F. A concordncia verbal no portugus falado em Feira de Santana-BA: Sociolingustica e Socio-histria do portugus brasileiro. 2014. 342f. 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[1967].97A VARIAO LEXICAL DE CAMBALHOTA EM CAPITAIS DO NORDESTE: DADOS DO ALiBMaria Silvana Milito de ALENCARIntroduoA presente comunicao objetiva descrever e analisar as variantes lexicais de cambalhota em capitais do Nordeste do Brasil. Alm do estudo do aspecto semntico-lexical, ser feito o estudo da variao diatpica (regional ou geogrfica), no sentido de examinar a relao existente entre a lngua em uso e o grupo social que a utiliza, da variao diageracional, por revelar a seleo lexical dos informantes de acordo com a faixa etria a que pertencem e da variao diastrtica, uma vez que, somente nas capitais, as diferenas de grau de escolaridade so levadas em considerao.Partindo do pressuposto de que a lngua utilizada por uma comunidade qualquer apresenta grande variabilidade social, espacial e um lento, mas contnuo processo de mudana, torna-se imprescindvel investigar o papel fundamental do lxico no que diz respeito s diferenas regionais e socioculturais em nosso pas.Atravs do lxico podemos observar a diversidade de vises de mundo e, ao mesmo tempo, como este universo constitudo regionalmente. O usurio da lngua utiliza o lxico para a formao do seu repertrio lingustico, para a sua comunicao, caracterizando-se o seu vocabulrio pela escolha e pelo emprego que faz do lxico. Logo, as mudanas que se operam no vocabulrio esto relacionadas, de alguma forma, com as mudanas sociais.Neste trabalho, ser analisado o item lexical cambalhota, pertencente ao campo semntico Jogos e Diverses Infantis do Questionrio Semntico Lexical (QSL) do Atlas Lingustico do Brasil (ALiB). Tal escolha deve-se, principalmente, pela importncia de que se revestem os brinquedos infantis na formao social e cultural das pessoas e por revelarem crenas e tradies locais.Sabe-se que os brinquedos e as brincadeiras infantis tm uma enorme funo social, pois alm de desenvolver o lado intelectual da criana, criam oportunidades para ela elaborar e vivenciar situaes emocionais do dia-a-dia.Pressupostos tericosA lngua, nos termos de Cmara Jr. (1977, p. 7), [...] a questo da invariabilidade profunda em meio de variabilidades superficiais. E, segundo Jakobson (1967, p. 185), [...] o princpio das invariantes nas variaes. Partindo dessas consideraes, podemos penetrar no ramo da Lingustica que se preocupa com o estudo das diferenas dialetais ou regionais de uma lngua a Dialetologia. As diferenas dialetais marcadas geograficamente so estudadas pela Dialetologia e pela Geografia Lingustica, mtodo da Dialetologia que se refere [...] representao de dialetos, em mapas, que constituem os Atlas lingusticos. (RECTOR, 1975, p. 24).Embora alguns pesquisadores ainda vejam a Dialetologia, unicamente, na pesquisa diatpica (horizontal), a grande maioria busca experimentar novos mtodos, novos meios tcnicos. Dessa forma, os estudos dialetais, sem deixar de lado o parmetro diatpico (regional, espacial), abrem espao para a incluso de outros parmetros, tais como: o diastrtico (estudo das classes sociais), o diagenrico (estudo das ocorrncias no sexo masculino e feminino) e o diageracional (que reproduz a convivncia das geraes). As tendncias atuais conduzem a evoluo da dialetologia tradicional, essencialmente diatpica (Geolingustica), para uma dialetologia pluridimensional que incorpora a verticalidade.Inmeras so as contribuies dessa nova dimenso, nos estudos dialetais, especialmente, nos que se desenvolvem sob a metodologia Geolingustica. O Atlas Lingustico do Brasil (ALiB), por exemplo, trabalha conjuntamente os trs parmetros: o diagernrico, o diageracional e o grau de escolaridade. Como vimos, a Dialetologia 98e a Geolingustica vm se transformando e ampliando o seu escopo pari passu com as transformaes que ocorrem no s na linguagem, mas na sociedade como um todo.No campo da Dialetologia e da Geolingstica, o Nordeste brasileiro merece destaque, pois, de nove Atlas publicados, sete so nordestinos: (Bahia, Paraba, Sergipe, Sergipe II, Cear, Rio Grande do Norte e Pernambuco). Dentre os Atlas em elaborao, dois so do Nordeste: Piau e Maranho.No resta dvida que, no Brasil, houve um grande impulso nas pesquisas, principalmente, no mbito da Universidade, com o surgimento de novos cursos de Ps-Graduao. Mas, dado o gigantesco acervo cultural de que o povo brasileiro possuidor, temos que admitir que tais estudos, ainda, no satisfazem totalmente.No Cear, por exemplo, h uma quantidade bastante significativa de trabalhos que podem contribuir para estudo e descrio do falar cearense, necessitando alguns, apenas, de um tratamento especializado, e a grande maioria, de divulgao. Entre os dialetlogos, podemos citar Martinz de Aguiar como pioneiro, cujo trabalho, publicado em 1922, nos impressiona pelos resultados apresentados, sem contar com a tecnologia de que dispomos, atualmente; a seguir, vem Florival Seraine, com uma vasta publicao tanto no campo do folclore como no da linguagem; mencionamos, tambm, Leonardo Mota, Antnio Sales, Tom Cabral, Jos Rebouas Macambira, Raimundo Giro, dentre outros.O corpus da pesquisa: dados do AliBO corpus desta pesquisa constitui-se dos dados do AliB, atravs do Questionrio Semntico Lexical QSL, na rea semntica Jogos e Diverses Infantis: a brincadeira cambalhota, coletados em 9 capitais do Nordeste (Salvador, Aracaju, Fortaleza, Macei, Recife, Joo Pessoa, Natal, Terezina e So Lus), contando, cada uma, com 8 informantes, num total de 72 inquritos. A escolha da rea semntica supracitada justifica-se pelo fato de que, atravs do brinquedo, torna-se possvel conhecer as tradies e costumes de um grupo social. As brincadeiras infantis tradicionais eram voltadas para a mentalidade da cultura popular, filiadas, portanto, ao folclore. Da a importncia desse estudo para maior conhecimento de um grupo social.Do mesmo modo que a sociedade, o brinquedo, tambm, sofre transformaes atravs do tempo e do espao. H aquele brinquedo tradicional que permanece na memria da comunidade, tipo, jogar pio, as brincadeiras de roda, ciranda, retratando uma poca e/ou uma regio. H, tambm, o brinquedo do tipo moderno, construdo com tecnologia atual, eletrnico no computador, e que atrai a meninada e at os adultos. Segundo Kishimoto (1997, p. 36-40), so quatro as modalidades de brincadeira que podemos encontrar na educao infantil:- Brinquedo educativo: um instrumento usado nas situaes de ensino-aprendizagem e de desenvolvimento infantil, considerando que a criana aprende de modo intuitivo com suas cognies, afetividade, corpo e interaes sociais;- Brincadeiras tradicionais infantis: voltadas para a mentalidade de cultura popular, filiada ao folclore;- Brincadeiras de faz-de-conta ou simblica: assumem representao de papis ou sociodramtica, deixando que a situao imaginria se torne em evidncia; e- Brincadeiras de construo: estimulam a criatividade, desenvolvendo habilidades na criana e enriquece a experincia sensorial.Neste trabalho, nossa perspectiva volta-se para os jogos e diverses infantis tradicionais, relacionadas cultura popular.99Anlise dos dadosO Questionrio Semntico-Lexical (QSL) do ALiB composto por 202 perguntas que recobrem 14 reas semnticas, dentre elas a rea em estudo: Jogos e Diverses Infantis, composta por 13 (treze) itens: 155. Cambalhota; 156. Bola de gude; 157. Estilingue/Bodoque; 158. Papagaio de papel/Pipa; 159. Pipa/Arraia; 160. Esconde-esconde; 161. Cabra-cega; 162. Pega-pega; 163. Ferrolho/Salva/Picula/Pique; 164. Chicote-queimado/Leno atrs; 165. Gangorra; 166. Balano; 167. Amarelinha.Foram levadas em considerao as formas lexicais oriundas da pergunta 155 do QSL, sobre cambalhota, e os fatos relacionados variao diatpica (regional), variao diageracional (faixa etria) e variao diastrtica (grau de escolaridade).Para a anlise dos dados, realizou-se pesquisa prvia em dois dicionrios gerais da lngua portuguesa, Houaiss (2002) e Ferreira (1999), em um dicionrio especfico, Dicionrio de Termos e Expresses Populares, Cabral (1982) e no Vocabulrio Popular Cearense, Giro (2000). Dessa forma, procurou-se analisar as variantes documentadas do ponto de vista semntico-lexical, a questo da dicionarizao das designaes e a presena e/ou ausncia de formas conservadoras e inovadoras no recorte lexical analisado. No caso de o informante no saber a resposta, preenche-se o quadro com NR (No Respondeu). Alguns exemplos de trechos de inquritos lingusticos so includos quando necessrio.Capitais do nordeste pesquisadas Ao serem inquiridos sobre: Como se chama a brincadeira em que se gira o corpo sobre a cabea e acaba sentado?, documentou-se a seguinte distribuio diatpica das lexias que recobrem este conceito.Quadro 1 Variantes diatpicas (Fortaleza 041)Variantes 041/1 041/2 041/3 041/4 041/5 041/6 041/7 041/8Cambalhota 1 1 2 1 1 1 1Cambota 2Virar ponta cabea 3Bunda canasca 1Bunda cabasca 1Cambap 3Bunda canata 2Plantar bananeira 2Fonte: Elaborao prpriaA resposta mais comum para essa brincadeira, na capital cearense, cambalhota, que aparece em 7 informantes, sendo em 6 como primeira resposta, e em 1, como segunda. Em seguida, vem bunda canasca, em 3 informantes, 2 vezes como primeira resposta e 1, como segunda opo, apresentando como variaes fnicas: bunda canata e bunda cabasca. Como o aspecto fontico no se constitui objeto deste estudo, as variaes fnicas so descartadas. As demais formas que no apresentam variaes fnicas aparecem como outras denominaes. o caso, por exemplo, de virar ponta cabea e plantar bananeira, uma ocorrncia de cada.100Quadro 2 Variantes diatpicas (Joo Pessoa 061)Variantes 061/1 061/2 061/3 061/4 061/5 061/6 061/7 061/8Cambalhota 1 NR 1 1Bunda canasca 1Canastra 2Bunda canstica 1 1Plantar bananeira 1Busca-p 2Fonte: Elaborao prpriaO informante 061/03 no respondeu (NR). A presena/ausncia do verbo em algumas das ocorrncias, como em faz estrela, virar ponta cabea, plantar bananeira, para explicar a brincadeira foi considerada passvel de interpretao sem a presena do verbo, uma vez que se trata do ato de realizar o movimento, podendo ser alvo de estudo especfico.Quadro 3 Variantes diatpicas (Macei 077)Variantes 0/1 0/2 0/3 0/4 0/5 0/6 0/7 0/8Deu uma cambalhota 1 1 1 NR 1Combona 1 1Bunda canasca 1Fonte: Elaborao prpriaA informante 077/04 acrescentou uma informao diatpica ao responder: Aqui bunda canasca, quer dizer que pode ocorrer outra opo em outra localidade.101Quadro 4 Variantes diatpicas (Aracaju 079)Variantes 079/1 079/2 079/3 079/4 079/5 079/6 079/7 079/8Cambalhota 1 1 1Cambaiota 1Maiscambona 2Maria escamboma 1Maria escambona 1Maria escombona 2 2Maria iscombona 1 2Maria-escombunda 2Maria iscobona 1Fonte: Elaborao prpriaO informante de nmero 079/07 fornece uma informao diatpica ao dizer: aqui a gente chama de Maria iscobona, e a informante de nmero 079/08 acrescenta uma informao diacnica, qundo eu era pequena, tinha outro nome. Parece que era Maria escombona. Quer dizer, antigamente, no passado, pois a informante da faixa etria 2 (45 a 60 anos).Quadro 5 Variantes diatpicas (So Lus 026)Variantes 026/1 026/2 026/3 026/4 026/5 026/6 026/7 026/8Carambelo 1 1Carambela 1 1 2 1 2 1Cambalhota 2 1 1Mortal 2Pirueta 3Fonte: Elaborao prpriaEm So Luis, a maior frequncia para carambela, apresentando como a variante carambola. O informante de nmero 026/07 d uma informao diatpica, local, quando se refere ao termo carambela: Aqui em So Lus, se usava muito, h muito tempo, carambela. Ele t dando carambela. Tambm, um termo em extino, no se usa mais. Acrescenta, tambm, uma informao diacrnica, quando se refere ao uso h muito tempo e que est em extino. A informante 026/4 d, como primeira resposta, carambelo, mas quando o inquiridor pergunta, como? Ela responde carambela, como segunda opo. O informante 026/5 d como primeira resposta cambalhota. Quando o inquiridor pergunta: Tem outro nome? Ele diz: mortal, e, em seguida, pirueta.102Quadro 6 Variantes diatpicas (Natal 053)Variantes 053/1 053/2 053/3 053/4 053/5 053/6 053/7 053/8Cambalhota NR NR 1 2 1Bundacanasca 1 1 1 2Bundacanstica 1Bunda-canasta 2Fonte: Elaborao prpriaQuadro 7 Variantes diatpicas (Recife 070)Variantes 070/1 070/2 070/3 070/4 070/5 070/6 070/7 070/8Bunda carasca 1Bunda canasca 2 1 1 1Cambalhota 1 2 1 1Estrelinha 2 2Bunda canasta 3Bunda ginstica 1Bunda canstica 2Fonte: Elaborao prpriaO Informante 070/3 d uma informao diatpica, local: Aqui chamava-se bunda canasca, cambalhota... vir cambalhota [...] cambalhota. E hoje os palhao usa muito em circo... d uma cambalhota. Ao mesmo tempo, fornece uma informao diacrnica, quando se refere ao uso no tempo (passado e presente). A Informante 070/8 responde bunda... ginstica que saa bunda canstica, mas bunda ginstica, a gente dizia errado. A informante 070/06 d como primeira resposta, cambalhota, como segunda, estrelinha e estabelece a diferena entre estrelinha e cambalhota. No final, acrescenta a terceira opo: bunda canasta, conforme exemplo retirado do inqurito (070/06).INF. Cambalhota.INQ. E chama por outro nome?INF. A gente chama distrelinha tambm.INQ. Como?INF. Istrelinha.INQ. Estrelinha? a mesma coisa?INF. ... alis tem uma diferena, N?.INQ. Sim, qual a diferena?INF. Tem... diferente: istrelinha que a gente vira de lado e cambalhota que a gente vira de frente.INQ. Ah, cambalhota vira de frente...INF. Bunda canasta ... cambalhota, bunda canasta.103Quadro 8 Variantes diatpicas (Teresina 034)Variantes 034/1 034/2 034/3 034/4 034/5 034/6 034/7 034/8Bunda-cadasca 1Carambola 1 1 1Carambela 2Virar de carangola 2Pulutrica 1Bunda canastra 2Cambalhota 1 1Bunda canaa 1Fonte: Elaborao prpriaA informante de nmero 034/2, responde, primeiramente, carambola, mas admite as duas formas: INF. Carambola. Tem carambela e tem carambola. Como primeira resposta, o informante 034/3 diz:INF. - carambolaINQ.- Conhece por outro nome?INF.- carangola ou vir de carangola.Quadro 9 Variantes diatpicas (Salvador 093)Variantes 093/1 093/2 093/3 093/4 093/5 093/6 093/7 093/8Cambalhota 1 1 1 1 1 1Dar cambalhota 2Dar pirueta 3Cabriola 1 1Fonte: Elaborao prpriaEm Salvador, a maior frequncia para cambalhota, que pode ser acompanhada pelo verbo dar. Em seguida vem cabriola e dar pirueta. Novamente a presena do verbo para indicar o movimento da brincadeira.Analisando as respostas obtidas nas capitais da regio Nordeste do Brasil, para designar a brincadeira, aqui, focalizada, observou-se uma grande variao de formas para a pergunta 155 do QSL, as quais sero organizadas levando-se em considerao somente a variao lexical. Foram identificadas 37 formas variveis, que sero aglutinadas na forma dicionarizada e de maior frequncia. De forma resumida, apresentam-se, no quadro abaixo, 15 variantes: 104Quadro 10 Variao lexical de cambalhota e suas variantesBundacanasca /Bunda-canastraBunda cabascaBunda carascaBunda cadascaBunda canataBunda canastaBunda canaaBunda cansticaBunda ginsticaBusca-pCabriolaCambalhota CambaiotaDar cambalhotaCambapCambotaCarambela Carambola, carambeloVirar de carangolaEstrela EstrelinhaCombonaCambona Maria escombonaMaria escambomaMaria escambonaMaiscambonaMaria iscombonaMaria escombundaMaria iscobonaMortalPirueta Dar piruetaPlantar bananeira Plantar bananeiraPulutricaVirar ponta cabeaFonte: Elaborao prpriaEm Houaiss (2002), cambalhota est dicionarizada como o movimento ou exerccio em que se faz o corpo girar para frente ou para trs, com ou sem apoio em qualquer superfcie, realizando uma revoluo em que os ps passam por cima da cabea e voltam a tocar o cho. O referido autor registra as variantes: bagao, cabriola e cambota. Com equivalncia de sentido, Cabriola - salto gil ou acrobtico em que o corpo se dobra ou vira no ar. 105Com sentido diferente, Cambota - adj. de pernas tortas, coxo. Em Giro (2000, p. 123), Cambota variante dicionarizada com o mesmo sentido cambalhota ou salto que a pessoa d virando o corpo sobre a cabea. Como adjetivo, o sentido, tambm, diferente pernas cambotas = pernas tortas. Em Ferreira (1999), cambota, equivale cambalhota, da mesma forma que cambona reviravolta, cambalhota; pirueta cabriola e cabriola salto de cabra, cambalhota. Em Houaiss, pirueta salto, cabriola.O termo bundacanasca (bunda canastra ou bumba-canastra) est dicionarizado em Giro (2000, p. 108), como a brincadeira que consiste em apoiar a cabea na areia e virar o corpo, em seguida. Em Cabral (1982, p. 142), Bunda canastra s.f. V. Bumba-canasta Cambalhota com as pernas para o ar. Bundacanastra ou bundacanasca Apoiar a cabea no cho e virar o corpo em seguida pelas costas. (CABRAL, 1982, p. 141). Virar Bumba-canasta. (CABRAL, 1982, p. 756). Em Houaiss (1999), Virar ponta-cabea cabea no cho e ps para cima.Formas como: cambap/cangap, busca-p, mortal e estrela esto dicionarizadas, mas com sentido diferente. Busca-p em Houaiss (1999) pea de fogo de artifcio constante de um canudinho cheio de plvora lenta e vedado de um dos lados o qual, aceso, serpeia pelo cho, preso a uma delgada flecha de bambu ou madeira fina, como que atrs dos ps das pessoas, e que freq. contm um explosivo leve.Cangap Pontap aplicado dentro dgua, pernada. (GIRO, 2000, p. 125). Em Cabral (1982, p. 171 e 177), Cambap V. Cangap (CABRAL, 1982, p. 171 e 177), Espcie de jogo de capoeira, praticado dentro dgua. Em Portugal mais usado o termo cambap. Em Ferreira (1999), cambap s. m. Ardil que consiste em o lutador meter o p ou a perna entre as do adversrio para o fazer cair. Cangap Houaiss (1999), Regionalismo: Maranho a Alagoas.pontap aplicado dentro da gua, em uma espcie de jogo de capoeira. Cambap rasteira.Todas as opes apresentam sentido diferente de cambalhota. Carambela no est dicionarizada e apresenta como variante fnica Carambola que est dicionarizada em Ferreira (1999) com dois sentidos diferentes: 1 Bola vermelha do bilhar; 2 Fruto do caramboleiro.A lexia composta Maria escambona (SN) no est dicionarizada, bem como suas variantes fnicas. Considerou-se como forma equivalente a cambalhota, a variante cambona ou cambota, sem o uso do morfema es-, para compor o grupo. Houaiss (1999) registra, cambona como uma mudana sbita no curso da embarcao.106Quadro 11 Variantes de cambalhota por faixa etria e grau de escolaridadeVariantesFaixa Etria Escolaridade1 2 1 2Cambalhota X X X XBunda canasca X X X XCarambela X X X XBunda canastra X X X XPirueta X XPlantar bananeira X X XBuscap X XCabriola X X XCombona X X X XEstrela X XMortal X XCambap X XCambota X XPulutrica X XVirar ponta cabea X XFonte: Elaborao prpriaDo ponto de vista diageracional, a variante bunda canasca sinalizada no discurso dos informantes como uma variante tpica de informantes da segunda faixa etria, enquanto cambalhota apontada como a maneira mais atual de falar, e utilizada, indiferentemente, em todas as faixas etrias.Observando o quadro, acima, no h uma discrepncia, to marcada, na utilizao das variantes relacionadas cambalhota nos nveis de escolaridade. Das 15 formas utilizadas pelos informantes de baixa escolaridade, os graduados no utilizaram 6. A maior variao ocorre entre os menos escolarizados.Consideraes finaisA anlise de dados dos inquritos das capitais nordestinas brasileiras no Atlas Lingustico do Brasil AliB acerca da questo 155 do QSL, nos possibilitou a realizao do levantamento e a documentao da diversidade do portugus falado no Brasil, segundo os princpios da Dialetologia pluridimensional. guisa de concluso, o trabalho procurou mostrar como as lexias trazem na fala dos informantes, as marcas do contexto em que esto inseridos: A lexia cambalhota foi usada em todas capitais do nordeste brasileiro; Com relao faixa etria, das 15 formas encontradas, 10 fazem parte do discurso dos mais jovens. Do discurso dos mais idosos, apenas plantar bananeira, buscap, estrela, cambap e pulutrica no foram utilizadas na primeira faixa etria.107 Quanto ao grau de escolaridade, das 15 formas encontradas, os informantes de baixa escolaridade utilizaram 12, enquanto os graduados utilizaram 9 e, destas, apenas 3 (pirueta, estrela e mortal) no foram utilizadas pelos informantes de baixa escolaridade. H, portanto, um equilbrio entre os nveis de escolaridade com relao variao das lexias relacionadas cambalhota.No dizer de Isquerdo (2001, p. 91), O estudo do lxico de uma regio mostra dados que deixam transparecer elementos significativos relacionados histria, ao sistema de vida, viso de mundo do grupo estudado. REFERNCIASCABRAL, T. Novo dicionrio de termos e expresses populares. Fortaleza: UFC, 1982.CAMARA JR., J. M. Estrutura da lngua portuguesa. 8. ed. Petrpolis, Rio de Janeiro: Vozes, 1977.COMIT NACIONAL DO PROJETO ALiB. Atlas lingustico do Brasil: questionrio 2001. Londrina: UEL, 2001.FERREIRA, A. B. de H. Novo Aurlio Sculo XXI: o dicionrio da lngua portuguesa. 3. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.GIRO, R. Vocabulrio popular cearense. Fortaleza: Edies Demcrito Rocha, 2000.HOUAISS, A. Dicionrio eletrnico Houaiss da lngua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002.ISQUERDO, A. N.; KRIEGER, M. das G. (Org.). As cincias do lxico: Lexicologia, Lexicografia, Terminologia. v. I. 2. ed. Campo Grande: UFMS, 2001.KISHIMOTO, T. M. (Org.). Jogo, brinquedo, brincadeira e a educao. 2. ed. So Paulo: Cortez, 1997.RECTOR, M. A linguagem da juventude. Petrpolis: Vozes, 1975.109DE ZURRIO A MUNHECA DE SAMAMBAIA: A VARIAO LEXICAL, NO ALIMA, PARA O CONCEITO DE AVARENTOIlana Catharine dos Santos SEREJOConceio de Maria de Araujo RAMOSIntroduoO presente estudo busca apresentar a variao lexical para o conceito de avarento, segundo os dados coletados pelo Projeto Atlas Lingustico do Maranho ALiMA. A importncia desta pesquisa se deve contribuio que pretende oferecer aos estudos descritivos do Portugus falado no Maranho. Analisar as lexias acerca do conceito de avarento nos permite compreender mais claramente aspectos culturais representativos de uma comunidade, expressos em seu falar, por meio das escolhas lexicais realizadas.Sabemos que a lngua, como instrumento vivo que , no se limita apenas ao universo de nosso repertrio lingustico. Dessa forma, a ampla variedade lingustica resultante da diversidade intrnseca ao homem e, mais especificamente, da natural diversidade de um pas como o Brasil, merece um estudo que possa analisar mais detidamente o qu e o como se fala em nosso Estado.O trabalho est fundamentado nas perspectivas de estudo do lxico e da Geolingustica como instrumental terico que nos permite interpretar os dados de nossa pesquisa. Apresentaremos as perspectivas geolingusticas e dialetolgicas que norteiam os trabalhos com os atlas lingusticos, bem como aspectos relacionados ao Projeto ALiMA, a metodologia utilizada para a coleta de dados e, por fim, a anlise de nossos dados.Lxico, dialetologia e geolingustica: alguns aspectosNosso trabalho, um estudo do mbito do lxico, consiste em investigar as designaes atribudas pessoa que no gosta de gastar seu dinheiro, com base nos dados do ALiMA.O lxico, em uma definio bsica, o conjunto de palavras de uma lngua. Segundo Oliveira e Isquerdo (2001, p. 9), o lxico o saber partilhado que existe na conscincia dos falantes de uma lngua.Ao reconhecer que a diversidade scio-cultural influencia a lngua, admitimos que um indivduo, na comunicao, ir lanar mo dos mais diversos meios para se fazer entender. Esse processo de comunicao perpassa pelas escolhas lexicais feitas, ou seja, segundo o universo em que est inserido e as palavras que conhece, o indivduo construir seu repertrio lingustico, sendo a variao um aspecto inegvel desse processo comunicativo.Falar em variao lingustica resultante de fatores sociais simplesmente reconhecer que a prpria diversidade intrnseca ao homem define os multiusos da lngua no meio social. A multiplicidade de usos lingusticos que o maranhense faz apenas a reproduo de um fenmeno tpico de um pas diverso e influenciado pelos mais variados fatores externos.Ao focarmos a perspectiva social da lngua, fica evidente que o lxico o nvel lingustico que melhor expressa a cultura e as relaes histrico-sociais da lngua.Assim, buscamos mostrar aqui um pouco de o qu se tem falado no estado do Maranho, comprovando que os estudos geolingusticos so extremamente importantes no direcionamento de nossa pesquisa.Segundo Cardoso (2006, p. 97), a Dialetologia pode ser concebida como [...] o estudo da variao lingustica numa perspectiva prioritariamente diatpica, com enfoques de natureza sociolingustica na seleo e constituio de dados, na formatao de anlises e na apresentao de resultados [...].A Geolingustica, mtodo da Dialetologia, se reafirma e se projeta, inicialmente, a partir dos atlas lingusticos nacionais e, posteriormente, por meio dos atlas regionais. Como mtodo de estudo de distribuio da lngua 110no espao, o campo de anlise da Geolingustica se expandiu, buscando recobrir aspectos diagenricos, diafsicos, diastrticos e diageracionais, podendo, inclusive, falar-se de Geo-sociolingustica, isto , da distribuio da lngua no espao, considerando variveis referentes a fatores sociais.Nossos dados so fornecidos pelo Atlas Lingustico do Maranho ALiMA , um projeto que tem como objetivo descrever a realidade do portugus falado no Maranho, para identificar fenmenos fonticos, morfossintticos, lexicais, semnticos e prosdicos que caracterizam diferenciaes ou definem a unidade lingustica no Estado. (RAMOS, p. 8).MetodologiaO corpus da pesquisa constitudo pelas respostas dadas pelos informantes do ALiMA, questo 135, referente ao conceito pessoa que no gosta de gastar seu dinheiro, do campo semntico convvio e comportamento social, do questionrio semntico-lexical (QSL). Os informantes so oriundos de cinco municpios que integram a rede de pontos do Projeto. Abaixo se encontram registrados os municpios com os quais trabalhamos, bem como as mesorregies onde se inserem.CENTRO NORTE SUL LESTE OESTEBacabal So Lus Carolina Brejo ImperatrizUtilizamos os dados que j haviam sido transcritos das gravaes em udio realizadas nos municpios de Imperatriz, Carolina, Brejo e Bacabal; para os dados da capital (So Lus), e procedemos audio do trecho do inqurito referente pergunta em questo, por este ainda no se encontrar transcrito.- InformantesNa capital So Lus, temos 8 informantes quatro com ensino fundamental e quatro com ensino mdio. Nas demais cidades so apenas quatro informantes por localidade, totalizando um nmero de 28 informantes. O perfil dos informantes segue a mesma orientao adotada pelo ALiB: duas faixas etrias; faixa etria I, entre 18 e 35 anos, e faixa etria II, entre 50 e 65 anos de idade, de ambos os sexos.- LocalidadesA escolha das localidades para a pesquisa buscou recobrir um municpio de cada uma das cinco mesorregies, possibilitando que sejam identificados traos de aproximao e distanciamento entre as variaes encontradas.111Figura 1 Mapa do estado do Maranho dividido em mesorregiesFonte: Elaborao prpriaAnlise dos resultadosO nosso levantamento de dados nos conduziu elaborao de um quadro demonstrativo das lexias encontradas nos municpios pesquisados, bem como do nmero de ocorrncias dessas lexias em cada localidade. Para melhor visualizao dos nossos dados, procedemos organizao das lexias encontradas em um quadro demonstrativo.112Quadro 1 Variaes lexicais para avarentoVARIANTESLOCALIDADESNorte Oeste Centro Leste SulSo Lus Imperatriz Bacabal Brejo CarolinaMo de Vaca 4 4 3 2 2Canhenga 6 1Po Duro 2 1 1Miservel/ Miservi 1 2 1Mo fechada 1 1Seguro 1 1Suvino 1Zurrio 1 1Econmico 1Ranzino 1Tem pena 1Mo de figa 1Canguim/Canguino/Canguinho/Canguinha13Munheca de Samambaia 1Avarento 1Fonte: Elaborao prpriaO levantamento dos dados apontou a existncia de 15 lexias diferentes ao todo. A lexia mais comum mo de vaca com 15 ocorrncias registradas em todos os municpios. A segunda lexia mais registrada foi canhenga com 7 ocorrncias, sendo 6 delas na capital. Em seguida, temos as lexias po duro, miservel e canguino com 4 ocorrncias. Com 2 ocorrncias, temos mo fechada, seguro e zurrio. Algumas lexias apresentaram apenas uma ocorrncia, so elas: suvino, econmico, ranzino, tem pena, mo de figa, munheca de samambaia e avarento.113Grfico 1 Demonstrativo do nmero de ocorrnciasFonte: Elaborao prpriaDicionarizao dos dadosQuanto dicionarizao das lexias encontradas, utilizamos como base de pesquisa os dicionrios Caldas Aulete e Houaiss, pela conhecida representatividade destes materiais. Buscamos registros de dicionarizao das variantes encontradas para que saibamos qual tem sido o alcance dessas lexias de maneira mais formal no dicionrio que, juntamente com a gramtica, um instrumento de normatizao e de registro lingustico.Vale ressaltar que, nesse ponto, queremos no apenas assinalar ou no a dicionarizao de uma lexia, mas tambm expressar observaes realizadas durante a audio dos dados, e quaisquer outros aspectos que facilitem a compreenso de nossa pesquisa, conforme demonstrado no quadro a seguir.114Quadro 2 A dicionarizao das lexias encontradas no dicionrio Caldas AuleteVariante Caldas Aulete ObservaoMo de vaca -Canhenga -Po duro -MiservelA acepo do termo no traz referncia especfica questo da avareza, apenas nos diz que miservel se trata de algum muito pobre.SeguroA relao de sentido existente entre algum que guarda, economiza seu dinheiro est expressa na acepo de seguro como algum cauteloso, prudente.Suvino No dicionrio est registrada a variante padro sovina.ZurrioNeste caso, temos uma supresso do segmento vogal inicial de usurrio. A acepo inicial do termo est relacionada a algum que empresta dinheiro a altos juros. Na terceira acepo encontramos o termo como significado de uma pessoa avarenta. 3. Pop. Que apegado a bens materiais, a dinheiro, de maneira exagerada; AVARO; SOVINAEconmicoRanzino Termo no encontradoTem pena Termo no encontradoMo de figa Termo no encontradoCanguinhoadj. e s. m. || (Bras.) canguinhas, forreta, sovina, avaro. F. Canguinha.Munheca de Samambaias. m. e f. || (Bras., Minas Gerais) avaro, po-duroUm aspecto interessante o fato de que este termo tpico de Minas Gerais, mas foi realizado por um informante de So Lus. Quando questionado sobre o termo, o informante no mencionou sua origem, apenas afirmou que era um termo usado no futebol.AvarentoMo fechada Termo no encontradoFonte: Elaborao prpria115No dicionrio Caldas Aulete esto registradas 11 lexias das 15 que foram levantadas, so elas: mo de vaca, canhenga, po duro, miservel, seguro, suvino, zurrio, econmico, munheca de samambaia, canguinho e avarento. Os termos mo fechada, ranzino, tem pena, e mo de figa no foram encontrados no dicionrio Caldas Aulete.Quadro 3 Dicionarizao das lexias encontradas no dicionrio HouaissVariante Houaiss ObservaoMo de vacaCanhenga A forma encontrada foi canhengue.Po duroMiservelSeguroSuvinoZurrioEconmicoRanzino Termo no encontradoTem pena Termo no encontradoMo de figa Termo no encontradoCanguinhoMunheca de SamambaiaAvarentoMo fechadaFonte: Elaborao prpriaNo Houaiss, temos uma variante a mais dicionarizada: mo fechada, totalizando um nmero de 12 lexias. Ranzino, Tem pena e Mo de figa, assim como no dicionrio Caldas Aulete, no foram registrados no Houaiss. Os significados registrados neste dicionrio so similares aos registrados no Caldas Aulete. Por essa razo, no temos uma abundncia de observaes como no primeiro quadro.ConclusoA compreenso da vida, crenas e hbitos de uma comunidade perpassa pela capacidade de analisar esses aspectos por meio da lngua falada pelos seus habitantes. Assim, podemos afirmar que o lxico um espelho lingustico que reflete as crenas e os hbitos de um povo por meio das palavras e expresses por ele utilizadas.Ao fim de nosso trabalho, compreendemos que o progressivo reconhecimento das variaes lingusticas no Estado contribui no apenas para a descrio do Portugus falado no Maranho, mas tambm para a prpria constituio de um ensino que supere estigmas e preconceitos lingusticos e que seja mais consciente das mltiplas culturas que influenciam a lngua. 116REFERNCIASAULETE, F. C.; VALENTE, A. L. S. Novssimo Caldas Aulete: dicionrio contemporneo da lngua portuguesa. Rio de Janeiro: Lexikon, 2011.ARAGO, M. do S. S. de. (Org.). Estudos em Lexicologia lexicografia, terminologia e terminografia. Fortaleza: UFC/mdia, 2009.HOUAISS, A.; VILLAR, M. de S. Dicionrio Houaiss da Lngua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.ISQUERDO, A. N.; KRIEGER, M. da G. (Org.). As cincias do lxico: lexicologia, lexicografia, terminologia. v. 2. Campo Grande: Ed. UFMS, 2004. RAMOS, C. de M. de A. (Coord.). Projeto Atlas Lingustico do Maranho. So Lus: Universidade Federal do Maranho (Departamento de Letras). 89 p. Projeto em andamento.117LXICO E VARIAO DIATPICA: AS DENOMINAES PARA CORNO NO ATLAS LINGUSTICO DO MARANHO ALiMATheciana Silva SILVEIRAConceio de Maria de Araujo RAMOSIntroduoO fenmeno da variao est sempre presente nas lnguas naturais e necessrio pesquisar, investigar e analisar a lngua em seu uso real, pois nesse uso que, por excelncia, percebemos o fenmeno da variao. Tal fenmeno, caracterstica intrnseca das lnguas naturais, universal e d razo existncia de formas denominadas variantes lingusticas que, segundo Tarallo (1986, p. 8), [...] so diversas maneiras de se dizer a mesma coisa em um mesmo contexto e com o mesmo valor de verdade [...].O emprego das variantes, como tem evidenciado a Sociolingustica, no algo aleatrio, mas influenciado por um grupo de fatores lingusticos e extralingusticos que condicionam o uso de variantes no ato da fala, cabendo, portanto, Lingustica e s disciplinas que com ela fazem interface em especial a Sociolingustica investigar e explicar a heterogeneidade lingustica presente nas mais diversas comunidades de fala.Nesse sentido, a constante transformao sofrida pela lngua, em qualquer de seus nveis de anlise fontico-fonolgico, semntico-lexical, morfossinttico, discursivo, pragmtico no deve ser desconsiderada e, em se tratando do nvel semntico-lexical, foco do nosso estudo, fundamental no perder de vista que o lxico, como forma de representao de mundo de uma dada comunidade, o nvel da lngua [...] que mais deixa transparecer os valores, as crenas, os hbitos e costumes de uma comunidade, como tambm, as inovaes tecnolgicas, transformaes scio-econmicas e polticas ocorridas numa sociedade. (OLIVEIRA, ISQUERDO, 2001, p. 11).Como campo aberto s transformaes e inovaes, e reflexo da cultura de um grupo social, o lxico oferece excelentes subsdios para o exame da variao lingustica, um dos objetivos do Projeto Atlas Lingustico do Maranho ALiMA, no qual se insere esta pesquisa sobre a variao lingustica concernente designao para homem trado pela mulher.Buscamos, pois, com esta pesquisa, ampliar o mapeamento da ocorrncia desse fenmeno lingustico, contribuindo para uma melhor descrio da realidade lingustica do Brasil, especialmente do nosso Estado, sob o vis da Geo-sociolingustica.O lxicoA lngua um elemento que serve como meio de comunicao e interao social capaz de transmitir valores e pensamentos, alm de unir e diferenciar naes. Para Monteiro (2000, p.16), [...] a lngua no simplesmente um veculo para transmitir informaes, mas tambm um meio para estabelecer e manter relacionamentos com os outros. Parte componente do sistema da lngua, o lxico possui o poder de transmitir o patrimnio cultural de um povo. Acerca desse assunto, Hintze (2010, p.49) afirma:[...] o lxico pode ser considerado como um conjunto de conhecimentos armazenados na memria social de longo prazo. Associa-se a esse entendimento uma concepo de memria social, construda a partir do funcionamento da lngua como instrumento de comunicao entre os membros de variadas formaes sociais, culturais e ideolgicas que utilizam esse mesmo sistema de forma heterognea. Nesse sentido, o lxico est diretamente relacionado com a lngua e a cultura de um povo, transmitindo pensamentos e ideologias de uma comunidade de fala, revelando as particularidades de cada grupo social. Desse modo, 118oferece pistas sobre essas particularidades, tais como a histria do grupo social, o extrato social, a faixa etria, a escolaridade, o sexo dos seus integrantes.Nessa perspectiva, importante ressaltar que, no uso comum da lngua, o signo verbal possui um carter polissmico, uma vez que uma lexia1, dependendo do contexto, pode adquirir diferentes significados (DIAS, 2006, p. 109). Alm disso, h tambm a possibilidade de criao/ inovao de palavras, o que resulta na expanso do lxico, expanso esta bastante evidente em nossos dados, dada a diversidade de variantes encontradas para designar um homem que foi trado pela mulher.MetodologiaO presente artigo investiga a variao lexical das denominaes atribudas ao homem trado. Para a concretizao deste estudo fez-se necessrio dividi-lo em trs etapas, que compreendem pesquisa bibliogrfica, coleta e anlise dos dados.CorpusA pesquisa abarca as cinco mesorregies do Estado: Norte So Lus e Pinheiro; Sul Balsas2, Carolina e Alto Parnaba; Centro Bacabal e Tuntum; Leste Brejo, So Joo dos Patos e Araioses, e Oeste Imperatriz e Turiau. A amostra da pesquisa foi extrada do corpus coletado pelo Projeto ALiMA e encontra-se distribuda espacialmente em uma carta lingustica (cf. Apndice 1).O mapa a seguir apresenta a distribuio dos 12 municpios de acordo com as mesorregies do Estado.Figura 1 Mapa do Estado do Maranho dividido em mesorregiesFonte: Elaborao prpria1 sf. [...] 2. Unidade lexical que encerra um significado [pode ser simples, composta ou complexa.] [...]. (AULETE, 2011, p. 853).2 Para a realizao da pesquisa nos municpios maranhenses que integram a rede de pontos lingusticos do ALiMA, o Projeto obteve financiamento do CNPq, modalidade Auxlio Pesquisa (APQ), processo n 402408/2006-3, para os municpios de Imperatriz, Alto Parnaba, Carolina e Balsas, e processo no 401119/2009-2, para Tuntum, So Joo dos Patos e Turiau.119Instrumentos de pesquisaComo instrumentos de pesquisa, utilizamos: Ficha do Informante (cf. Anexo 1), que compreende dados de identificao do informante (nome, idade, profisso, naturalidade, escolaridade), informaes sobre hbitos dos informantes como, contato com os meios de comunicao, participao em diverses, religiosidade, dados sobre a entrevista (ambiente, durao, data do inqurito, caracterizao psicolgica do informante). Ficha da Localidade (cf. Anexo 2), que compreende dados de identificao, sobre os municpios maranhenses que compem os pontos lingusticos do Projeto ALiMA, como (nome, gentlico), dados scio-econmico-demogrficos (localizao, sublocalidades, nmero de habitantes, economia, infraestrutura), informaes scio-histrico-culturais (histrico sucinto da localidade, principais eventos, cultura e lazer). Questionrio Semntico-lexical (QSL), que composto por duzentas e vinte e sete perguntas, distribudas em catorze campos semnticos: acidentes geogrficos, fenmenos atmosfricos, astros e tempo, atividades agropastoris, fauna, corpo humano, ciclos da vida, convvio e comportamento social, religio e crenas, jogos e diverses infantis, espaos e habitao, alimentao e cozinha, vesturios e acessrios, vida urbana. Perfil dos InformantesO corpus do ALiMA obtido por meio da aplicao de questionrios a quatro informantes por localidade, exceto na capital, So Lus, onde so considerados oito informantes, dos quais quatro so universitrios. Os informantes so distribudos igualmente pelos dois sexos masculino e feminino , em duas faixas etrias faixa I, de 18 a 30 anos, e faixa II, de 50 a 65 anos , naturais das localidades investigadas. Fora da capital, so selecionados apenas sujeitos com escolaridade de nvel fundamental com, no mximo, at a 6a srie. Para esta pesquisa, selecionamos as respostas obtidas por meio da aplicao do questionrio semntico-lexical nas localidades pesquisadas, no que concerne questo de nmero 138 Como se chama o marido que a mulher passa para trs com outro homem?. As respostas nos possibilitaram observar a variao lexical no que diz respeito s denominaes dadas ao homem trado pela mulher. A amostra composta pelas respostas de quarenta e oito informantes.Carta LingusticaApresentamos os resultados, segundo a distribuio espacial das variantes, EM/ Na carta lingustica (cf. Apndice 1), organizada da seguinte forma:a) Parte superior: ttulo e nmero da carta.b) Parte inferior: legendas (variaes encontradas e distribuio dos municpios).O lxico do corno no portugus falado do Maranho: um olhar diatpicoNo momento da anlise de um fenmeno da lngua, cabe ao pesquisador considerar no somente os aspectos lingusticos, mas tambm aspectos extralingusticos, pois o cruzamento entre essas duas variveis relevante para a compreenso do que condiciona ou no a seleo que um falante faz de uma determinada variante.Com relao aos fatores extralingusticos, Cardoso (2010, p. 25) afirma que:120Estudando a lngua, instrumento responsvel pelas relaes sociais que se documentam entre membros de uma coletividade ou entre povos, a dialetologia no pde deixar passar ao largo a considerao de fatores extralingusticos, inerentes aos falantes, nem relegar o reconhecimento de suas implicaes nos atos de fala. Dessa forma, idade, gnero, es-colaridade e caractersticas gerais de cunho sociocultural dos usurios das lnguas consi-deradas tornam-se elementos de investigao, convivendo com a busca de identificao de reas geograficamente definidas do ponto de vista dialetal. Tal fato levaria a pensar-se numa confluncia de objetivos entre a dialetologia e a sociolingustica, ambas perseguin-do a variao, ambas mantendo sob controle variveis diversas.Selecionamos, portanto, como varivel extralingustica para este trabalho, a variao de natureza diatpica. O Quadro 1, logo abaixo, apresenta o uso das denominaes segundo a localidade. O quadro est dividido em lexias (linhas) e municpios (colunas), com o nmero de ocorrncias das lexias em cada municpio. Quadro 1 Uso das denominaes segundo a localidadeSo LusPinheiroImperatrizTuriau BrejoSo J. dos PatosCarolinaBacabalTuntumAlto ParnabaAraiosesBalsasCorno 4 4 3 4 3 3 4 4 3 3Chifrudo 2 3 2 2 2 1 3 2 4 3 2Corno veio 1 2 1 1Boi 1 1 1 1Besta 1 1Marido trado 1 1Vaqueiro 1 1Amizade 1Barriga branca 1Boio 1Cangalheira 1Cornlio 1Corno canoa 1Corno consciente 1Corno de bique 1P de boi 1Peruca de boi 1Trado 1Tufo 1Fonte: Elaborao prpria121Segundo Cardoso, o espao geogrfico evidencia a particularidade de cada terra, exibindo a variedade que a lngua assume de uma regio para outra (2010, p. 15); logo, cada municpio apresenta suas particularidades. O nmero de ocorrncias apresentadas no Quadro 1 mostra que So Lus e So Joo dos Patos so os municpios que apresentam o maior nmero de variantes para designar o homem trado.Nas localidades investigadas, encontramos uma grande variao lexical corno, boi, besta, trado, tufo, amizade, boio , com o predomnio da variante corno (totalizando 38 ocorrncias), registradas em todos os municpios, exceto Alto Parnaba, quer seja como uma lexia simples corno quer seja integrando uma lexia complexa corno de bique, corno canoa, corno vio, corno consciente.A lexia chifrudo foi registrada em todos os municpios, exceto em Bacabal, com o segundo maior nmero de ocorrncias, totalizando 27. Vale destacar que h concorrncia entre as lexias corno e chifrudo, que obtiveram o maior nmero de ocorrncias no s em So Lus, capital, mas como em todo o Estado. Porm, a lexia corno pode ser considerada a lexia padro, pois obteve o maior nmero de ocorrncias e foi realizada por todos os informantes de So Lus, Pinheiro, Brejo, Bacabal e Tuntum.Essas duas lexias, com maior nmero de ocorrncias em grande parte dos municpios, j se encontram dicionarizadas. No Novssimo Aulete dicionrio contemporneo da Lngua Portuguesa, (AULETE, 2011), encontramos o seguinte registro para corno: [...] 10 Joc. Vulg. Marido cuja mulher tem ou teve relaes sexuais com outros homens (com ou sem conhecimento ou consentimento dele) (p. 403); para chifrudo, [...] 2 Bras. Pop. Pej. Diz-se de quem foi (ou frequentemente) trado pelo cnjuge, namorado etc. (p. 403).De fato, alm das lexias j dicionarizadas, os informantes desta pesquisa criaram novas denominaes para o homem trado, tais como aquelas que tiveram apenas uma ocorrncia, a exemplo de corno canoa e cangalheira, em Turiau; corno de bique, em Brejo; peruca de boi, em So Joo dos Patos, e barriga branca, em So Lus.Vale destacar o registro de duas lexias que tm origem no universo miditico, so elas: Cornlio e Tufo3. Pressupomos que essas lexias tenham relao com duas novelas apresentadas pela Rede Globo de Televiso: O cravo e a Rosa (2001), que tinha um personagem chamado Cornlio, que era trado pela esposa, e a outra novela, Avenida Brasil (2012), com um personagem chamado Tufo, que tambm era trado pela esposa. Destacamos ainda a possibilidade de cristalizao desses vocbulos no lxico geral, visto que as lexias Tufo e Cornlio passaram a representar o homem trado desde o surgimento das novelas. Ambas as lexias obtiveram apenas uma ocorrncia. Pressupomos que a lexia Cornlio est mais cristalizada pela proximidade da formao morfolgica com palavra corno, e por advir de uma novela que j passou trs vezes na rede de televiso. Em contrapartida, a lexia Tufo, advm da personagem de uma novela que, segundo a prpria Rede Globo, obteve o maior ndice de audincia. Consideraes finaisA postura de um grupo social diante dos fatos cotidianos est sujeita a constantes transformaes, renovando-se ao longo dos anos, principalmente em funo da influncia dos meios de comunicao, responsveis por sancionar normas de comportamento, valores, usos (ligados lngua, ao vesturio...).Seguindo essa linha de raciocnio, podemos afirmar que a diversidade de variantes encontradas para denominar o homem trado resultado da leitura que a comunidade faz dos seus indivduos, com base nas ideologias, crenas do grupo social, que, por sua vez, tm reflexo na lngua. Essa leitura que o falante faz condiciona de forma significativa a variao das lexias, uma vez que, o falante, ao criar novas palavras e/ou at mesmo ao atribuir novos sentidos a palavras j existentes para denominar algo no mundo, baseia-se, frequentemente, em associaes feitas com caractersticas e funcionalidades de objetos e seres. 3 A forma Cornlio foi registrada na fala de um informante da 2 gerao faixa etria entre 50 a 65 anos , acreditamos que a seleo dessa forma tenha relao com o fato de a novela O cravo e a rosa ter ido ao ar bem antes da novela Avenida Brasil, a qual tem o personagem Tufo que, em nossos dados, foi uma lexia utilizada somente pelos falantes mais jovens.122Em suma, este estudo que faz parte de um conjunto de trabalhos que tm como objetivo o retrato da realidade lingustica do Estado do Maranho, contribui para o conhecimento aprofundado sobre o portugus falado no Estado.REFERNCIAS AULETE, C. Novssimo Aulete dicionrio contemporneo da lngua portuguesa. Rio de Janeiro: Lexikon, 2011.CARDOSO, S. A. M. Geolingustica: tradio e modernidade. So Paulo: Parbola Editorial, 2010.DIAS, C. S. O lxico da pesca no municpio de Raposa. In: RAMOS, C. de M. de A.; ROCHA, M. de F. S.; BEZERRA, J. de R. M. (Org.). A diversidade do portugus falado no Maranho: o atlas lingustico do Maranho em foco. So Lus: Edufma, 2006. p. 104-119.HENRIQUES, C. C. A lexicologia aplicada: as contribuies didticas. In: ISQUERDO, A. N.; BARROS, L. A. (Org.). As cincias do lxico: lexicologia, lexicografia, terminologia. Campo Grande: UFMS, 2010. v. 5. p. 49-61.HINTZE, A. C. J. Contribuies das pesquisas diacrnicas para os estudos do lxico. In: ISQUERDO, A. N.; BARROS, L. A. (Org.). As cincias do lxico: lexicologia, lexicografia, terminologia. Campo Grande: UFMS, 2010. v. 5. p. 49-61.HOUAISS, A.; VILLAR, M. de S. Dicionrio Houaiss da Lngua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.MONTEIRO, J. L. Para compreender Labov. Petrpolis: Vozes, 2000.PAIM, M. M. T. Aspectos da variao semntico-lexical nas capitais brasileiras. In: ALTINO, F. C. (Org.). Mltiplos olhares sobre a diversidade lingustica: uma homenagem Vanderci de Andrade Aguilera. Londrina: Midiograf, 2012.VALENTE, A. Lxico e discurso: neologia miditica. In: ISQUERDO, A. N.; BARROS, L. A. (Org.). As cincias do lxico: lexicologia, lexicografia, terminologia. Campo Grande: UFMS, 2010. v. 5. p. 63-77.TARALLO, F. A pesquisa sociolingustica. So Paulo: tica, 1985.123APNDICE 1 CARTA LINGUSTICAMapa do Estado do Maranho dividido em mesorregies124ANEXO 1 FICHA DO INFORMANTE125126ANEXO 2 FICHA DA LOCALIDADELXICO E ONOMSTICA129AS EXPECTATIVAS DO SUJEITO-NOMEADOR E OS ANIMOTOPNIMOSAnna Carolina Chierotti dos Santos ANANIASIntroduoA lngua constitui um dos meios de representao da realidade e utilizada pelo homem para expressar conhecimentos, valores, crenas, atitudes de uma comunidade de falantes. De todos os nveis da lngua, o lxico um dos mais representativos da realidade, visto que por meio dele o falante nomeia elementos de seu ambiente fsico e social, evidenciando a sua viso de mundo e a maneira de pensar e de agir da sua comunidade.A Toponmia, como uma disciplina que se ocupa do lxico toponmico, mantm estreita relao com a Lexicologia, medida que o lxico toponmico tambm pode ser considerado uma forma de repositrio da histria local, j que por meio do estudo dos topnimos possvel a recuperao de dados acerca da trajetria dos grupos humanos que habitaram e habitam a regio e de momentos histricos vivenciados por eles. Este trabalho discute resultados parciais de uma pesquisa mais ampla sobre a toponmia dos 32 municpios que integram as microrregies de Toledo e de Foz do Iguau1, ambas pertencentes mesorregio Oeste Paranaense2. Para este estudo foram selecionados os animotopnimos, ou seja, os topnimos motivados pela cognio e pela percepo do denominado, segundo o modelo terico-metodolgico de Dick (1990a, 1990b, 1992, 1999), adotado como parmetro para a classificao taxionmica dos topnimos. O corpus da pesquisa formado pelos topnimos registrados nos mapas oficiais do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatstica), com escalas que variam entre 1:50.000 ou 1:100.000. Em sntese, os animotopnimos da regio, em grande parte, transparecem sentimentos positivos na nomeao dos acidentes. Esse contexto sugere que os indivduos ali estabelecidos tinham a expectativa de encontrar na regio um lugar prspero que pudesse proporcionar o essencial vida e, consequentemente, exteriorizavam nas nomeaes seus desejos intrnsecos.Pressupostos TericosComo j assinalado, por meio do lxico o falante nomeia elementos da sua realidade fsica e social, manifestando a sua compreenso de mundo e a maneira de pensar e de agir da sua comunidade. Logo, o lxico contribui para propagar a maneira de ver e de sentir de uma comunidade lingustica. Nessa mesma linha de raciocnio, Krieger (2010, p. 169-170) destaca que [...] o lxico retrata-se como um componente que, ao cumprir o papel maior de denomi-nao e designao do mundo humano, torna-se expresso de identidade pessoal e co-letiva, manifestada ao longo da histria j que um sistema aberto e dinmico. E, como tal, renova-se, funcionando como o pulmo das lnguas, mas tambm assegura a perma-nncia do pilar comum de palavras, condio necessria comunicao, independente de tempos, regies e de outras peculiaridades do uso da lngua.Nessa perspectiva, a toponmia situa-se como crnica de um povo, gravando o presente para o conhecimento das geraes futuras e o topnimo o instrumento dessa projeo temporal. Chega, muitas vezes, a se espalhar alm de seu foco originrio, dilatando, consequentemente, as fronteiras polticas, e criando razes em lugares distantes. Torna-se, pois, a reminiscncia de um passado talvez esquecido, no fora a sua presena dinmica. 1 Assis Chateaubriand, Diamante DOeste, Entre Rios do Oeste, Formosa do Oeste, Guara, Iracema do Oeste, Jesutas, Marechal Cndido Rondon, Marip, Mercedes, Nova Santa Rosa, Ouro Verde do Oeste, Palotina Pato Bragado, Quatro Pontes, Santa Helena, So Jos das Palmeiras, So Pedro do Iguau, Terra Roxa, Toledo e Tupssi.2 Os dados aqui discutidos recuperam resultados parciais da pesquisa de Ananias (2013).130Conforme Dick (1990a, p. 22), a toponmia concretizada na estruturao dos motivos (fontes geradoras de nomes de lugares) que integram o quadro da motivao toponmica. Dick (1990a) prope um modelo terico de estruturao da motivao toponmica, tomando como pressuposto o princpio de que o que se apresenta como arbitrrio ou convencional em termos de lngua se torna motivado no ato da nomeao (DICK, 1990a, p. 22). E essa motivao compreende um dos objetivos dos estudos toponmicos, ou seja, as causas e as origens da denominao.O modelo de Dick contm 27 taxionomias, em que 11 (onze) so de natureza fsica3 e 16 (dezesseis) de natureza antropocultural4 e configura-se como um instrumento de trabalho que possibilitar, provavelmente, a aferio objetiva das causas motivadoras dos designativos geogrficos, de maneira a satisfazer as demandas da pesquisa (DICK, 1990a, p. 24). Dentre as categorias de cunho antropoculturais situa-se a taxe dos animotopnimos que se referem aos topnimos relativos vida psquica, cultura espiritual, abrangendo todos os produtos do psiquismo humano (1990b, p. 32), ou seja, so os topnimos motivados pela cognio e pela percepo do denominador. Isquerdo (1996), em estudo sobre a toponmia dos seringais e colocaes do Estado do Acre5, ao deparar-se com uma grande produtividade de topnimos que se encaixavam na classificao dos animotopnimos, identificou a presena de determinados traos nesses nomes que permitem um reagrupamento desses topnimos (ISQUERDO, 2011, p. 471).Assim, tomando o termo animotopnimos como uma expresso neutra, a pesquisadora apresentou uma subdiviso dessa taxionomia em animotopnimos eufricos e animotopnimos disfricos, em que os determinantes eufrico e disfrico funcionariam como especificadores da natureza do estado anmico. Assim justifica a proposta: consideramos esses termos no no sentido corrente na psiquiatria, mas sim com a conotao de sensao agradvel, expectativas otimistas, boa disposio de nimo (eufrico) e sensao desagradvel, expectativas no muito otimistas, perspectivas temerosas (disfrico) (ISQUERDO, 2011, p. 471).Neste trabalho utilizamos a classificao de Dick (1990a e 1990b) e a proposta de subdiviso da taxe proposta por Isquerdo (2011).Este texto centra-se no exame dos animotopnimos, uma taxe de natureza antropocultural segundo a classificao da toponimista brasileira.Breve histrico da regio Oeste ParanaenseA mesorregio Oeste Paranaense, situada na fronteira entre Paraguai e Argentina, formada por 50 municpios divididos por trs microrregies Toledo, Cascavel e Foz do Iguau. A regio Oeste foi a ltima a ser ocupada no Estado do Paran e, apesar do povoamento tardio, foi cenrio de acontecimentos que marcaram a histria do Estado. A histria da regio pode ser demarcada segundo quatro fases: a ocupao indgena at o sculo XVI, as redues jesuticas no sculo XVI, as obrages6 no sculo XIX, e por fim, o perodo do efetivo povoamento da mesorregio Oeste Paranaense, que ocorreu a partir da campanha denominada Marcha para o Oeste e da implementao das companhias colonizadoras no sculo XX, mais especificamente entre os anos de 1930 e 1960 (REOLON, 2007, p. 50). Dentre as quatro fases, a que melhor justifica a presena dos animotopnimos na regio a ltima.3 Taxionomia de natureza fsica Astrotopnimos, Cardinotopnimos, Cromotopnimos, Dimensiotopnimos Fitotopnimos, Geomorfotopnimos, Hidrotopnimos, Litotopnimos, Meteorotopnimos, Morfotopnimos e Zootopnimos (DICK, 1990b, p. 31-32). 4 Taxionomia de natureza antropocultural Animotopnimos, Antropotopnimos, Axiotopnimos, Corotopnimos, Cronotopnimos, Ecotopnimos, Ergotopnimos, Etnotopnimos, Dirrematotopnimos, Hierotopnimos (Hagiotopnimos e Mitotopnimos), Historiotopnimos, Hodotopnimos, Numerotopnimos, Poliotopnimos, Sociotopnimos e Somatotopnimos (DICK, 1990b, p. 32-34).5 Tese: O fato lingstico como recorte da realidade scio-cultural (ISQUERDO, 1996).6 Conforme Wachowicz (1987, p. 44), as obrages tinham como interesse a extrao da erva-mate e como o controle geoeconmico da navegao do sistema do Prata pertencia argentina, foram os obrageros desta nao, os principais responsveis pela introduo desse sistema em territrio brasileiro, ou mais especificamente: paranaense e mato-grossense. 131A Marcha para o Oeste consistiu em um programa adotado pelo ento presidente Getlio Vargas que objetivava a ocupao da fronteira do Oeste do Brasil. Alm desse objetivo, Deitos (2004, p. 106) aponta como benefcio dessa campanha o fato de, ao mesmo tempo em que o Rio Grande do Sul se livrava do excesso populacional, empresrios se beneficiavam explorando atividades imobilirias na regio oeste. Consequentemente, os colonizadores sulistas buscaram fixar na regio Oeste do Paran um sentimento nacionalista. A colonizao dessa parcela do territrio paranaense, como aponta Busse (2010, p. 4),[...] estava assentada nas aes oficiais do governo do Perodo Vargas, de nacionalismo exacerbado e de busca de um Estado fortalecido e centralizador. As terras da fronteira, habitadas por ndios, paraguaios e argentinos, deveriam ser colonizadas por uma gente bravia que se dispusesse a lutar por ela e a transform-la em espao produtivo.Vale ressaltar que os colonos vindos do Sul do Brasil eram, em sua maioria, de ascendncia italiana ou alem e, como bem lembram Balhana et al. (1969, p. 219), esses novos habitantes da regio, em sua maioria, traziam recursos financeiros que possibilitavam sua instalao na regio, poca s possvel com recursos prprios, pois, como antes, os poderes pblicos no apoiavam os novos migrantes que passaram a investir na plantao de cereais e na criao de porcos.Todavia, foi a partir do ano de 1940 que a populao no Oeste Paranaense cresceu em nmeros altssimos: A dcada de 1940 revela-se principalmente como uma etapa de povoamento intensivo onde as companhias colonizadoras particulares, gachas em sua maioria absoluta, de-sempenharo um papel de capital importncia. A ao governamental cede espao aos empreendimentos de carter empresarial, alicerados fundamentalmente na venda de pe-quenos lotes agrcolas aos colonos interessados no cultivo direto da terra. Os projetos colonizadores se multiplicam e atraem milhares de famlias durante as dcadas de 1940-50. Podemos chamar essa fase como sendo a frente de povoamento sulista, j que a cor-rente colonizadora tem sua origem preferencialmente nos Estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Ela entrar na dcada de 1970, formando vrios municpios oestinos (COLODEL, 2002, p. 42).Gregory (2002, p. 93), por sua vez, aponta as principais colonizadoras que atuaram na regio: a Madeireira Colonizadora Rio Paran (MARIP); a Pinho e Terras, com as sees Piquiri, Cu Azul, Porto Mendes e Lope; a Industrial Agrcola Bento Gonalves; a Colonizadora Matelndia e a Colonizadora Cricima. Essas empresas visavam explorao da madeira, mercantilizao de terras, ao comrcio e indstria.Esse cenrio marcado pela esperana em encontrar no Oeste Paranaense um lugar prspero parece justificar a grande presena de animotopnimos na designao de elementos geogrficos humanos e fsicos na regio em estudo, como ser demonstrado ao longo deste trabalho.Os animotopnimos no Oeste Paranaense Os animotopnimos referem-se categoria de topnimos que representam a psique humana. A utilizao desta taxionomia retrata a percepo positiva (animotopnimos eufricos) ou negativa (animotopnimos disfricos) do indivduo frente a esse novo lugar.Neste contexto, Isquerdo (2011), em seu texto Os animotopnimos na toponmia brasileira: um estudo de caso, discute a aplicao dessas subcategorias a partir de dados toponmicos oriundos de alguns estados brasileiros, dentre eles o Paran. Para tanto, pautou-se nos resultados de dois trabalhos acadmicos que contemplaram a diviso dos animotopnimos em disfricos e eufricos: a dissertao A toponmia paranaense na rota dos tropeiros: caminho das Misses e Estrada de Palmas (MOREIRA, 2006) e a tese Estudo toponmico no espao geogrfico das mesorregies paranaenses: Metropolitana de Curitiba, Centro-Oriental e Norte Pioneiro (ZAMARIANO, 2010).A pesquisa de Moreira (2006) identificou 106 animotopnimos (5,9%) em um universo de 1.788 topnimos de acidentes humanos e fsicos. Dessas 106 ocorrncias, 80 (75,5%) foram classificados como animotopnimos 132eufricos e 26 (24,5%) como animotopnimos disfricos. Tambm Zamariano (2010) registrou ndice similar animotopnimos 215 em um universo de 4.306 topnimos (5%). Desse montante, 131 (61%) foram classificados como animotopnimos eufricos e 84 (39%) como animotopnimos disfricos (ISQUERDO, 2011, p. 473).A partir do exposto parte-se da hiptese de que o Estado do Paran caracteriza-se como uma regio rica em animotopnimos, em especial, animotopnimos eufricos. Em relao a este trabalho, a representatividade de 7,2% dessa taxionomia frente ao corpus da pesquisa suscitou a seleo deste recorte de dados como objeto de uma reflexo mais pontual, a exemplo do procedimento j adotado com relao s taxes dos fitotopnimos e dos hagiotopnimos. O ndice significativo de animotopnimos tambm tem explicao na histria social da regio medida que evidencia relao com o processo de povoamento do Oeste Paranaense. Os animotopnimos da regio, em grande parte, transparecem sentimentos positivos na nomeao dos acidentes. Esse contexto sugere que os indivduos ali estabelecidos tinham a expectativa de encontrar na regio um lugar prspero que pudesse proporcionar o essencial vida, logo, exteriorizavam nas nomeaes seus desejos intrnsecos.Como j assinalado, o corpus estudado gerou um total de 106 animotopnimos 91 eufricos e 15 disfricos. O Grfico 1 apresenta esses dados em termos percentuais, distribudos conforme a microrregio e o tipo de acidente geogrfico nomeado.Grfico 1 Percentual de animotopnimos nas microrregies de Toledo e de Foz do IguauFonte: Ananias (2013)O Grfico 1 evidencia que a diferena entre a produtividade das duas subcategorias de animotopnimos nas microrregies estudadas no foi relevante, havendo um singelo acrscimo de produtividade na mesorregio de Toledo, onde dos 278 acidentes humanos que compem a localidade, 7,5% (21 topnimos) so de animotopnimos, enquanto em relao aos acidentes fsicos, dos 665 topnimos registrados 8% (54 topnimos) se enquadram nessa categoria. Por sua vez, na microrregio de Foz do Iguau essa classificao totalizou 5,5% (10 topnimos) dos 181 acidentes humanos e 6% (21 topnimos) dos 347 designativos de acidentes fsicos.O Quadro 1, a seguir, relaciona os animotopnimos eufricos e disfricos identificados no corpus aqui estudado7.7 Foram registrados no quadro somente os termos especficos do sintagma toponmico, ou seja, os topnimos propriamente ditos.133Quadro 1 Animotopnimos eufricos e animotopnimos disfricos nas microrregies de Toledo e de Foz do IguauAnimotopnimos Eufricos Animotopnimos DisfricosAbenoado, Alegre, Alegria, Alvio, Bela Vista, Belo, Biap, Boa Esperana, Boa Vista, Boas Novas, Bom Fim, Bom Jardim, Bom princpio, Bom Retiro, Bonito (a), Bonsucesso, Paz (da), Descoberto, Amor (do), Desejo (do), Encontro (do), Eldorado, Encantada, Encantado d Oeste, Esperana, Felicidade, Formosa do Oeste, Independente, Memria, Mundo Novo, Paraso, Pioneira, Por, Primavera, Progresso, Real, Rica, Solene, Vista Alegre, Vista Alta, Vitria.Arteira, Cego, Confuso, Iluso (da), Embargo, Enganador, Engano, Escondido, Gritador, Mata Pau, Perdido, Preguia, Solteiro. Fonte: Ananias (2013)Os dados desse quadro confirmam o anteriormente assinalado em termos de relevncia dos animotopnimos de carter positivo animotopnimos eufricos , uma vez que essa subcategoria computou 44 nomes de acidentes geogrficos, enquanto os disfricos somaram apenas 13 topnimos.O Quadro 1 tambm expe a grande incidncia de topnimos compostos formados com os adjetivos bom/boa: Boa Esperana, em Guara (AF) e em Missal (AH); Boas Novas, em Santa Helena (AF); Bom Fim, em Marechal Candido Rondon (AF), onde tambm foi registrado o animotopnimo Bom Jardim (AF); Bom Princpio, em So Miguel do Iguau (AH), em Toledo (AH) e em Serranpolis do Iguau (AH); Bom Retiro, em Terra Roxa (AF); Bonsucesso, em Diamante D Oeste (AF) e em Serranpolis do Iguau (AF); Boa Vista, em Toledo (AH), em Cu Azul (AF) e em Serranpolis do Iguau (AH-AF). O adjetivo bom/boa no termo especfico do sintagma toponmico revela um sentimento favorvel a essa nova vida iniciada na localidade. Outros animotopnimos expressam a beleza do acidente em questo, como o caso de Boa Vista, j citado, e de Bela Vista nos municpios de Formosa do Oeste (AH), Marechal Candido Rondon (AH), Santa Helena (AH), Tupssi (AF), Foz do Iguau (AH-AF); de Belo em Jesutas (AF), Foz do Iguau (AH); de Bonito/ Bonita, em Diamante DOeste (AH), Marechal Candido Rondon (AF), Foz do Iguau (AF), Missal (AF), Santa Terezinha de Itaipu (AF), So Miguel do Iguau (AF). Denotam a beleza do lugar, ainda topnimos como Formosa do Oeste em So Jos das Palmeiras (AF) e Formosa do Oeste (AH); Por em Marechal Candido Rondon (AF) e em Pato Bragado (AF) e Vista Alta em Missal (AH).Muitos nomes demonstram sentimento de esperana do sujeito-nomeador, como o prprio nome Esperana que nomeia um acidente geogrfico em Diamante DOeste (AF), em Marechal Candido Rondon (AF), em Palotina (AF) e em Toledo (AF); Biap (terra do trabalho) que, pode ser considerado nesse agrupamento, pois os pioneiros ansiavam por um local em que pudessem fixar suas razes e trabalhar para garantir seu sustento. Essa nomeao apareceu em Cu azul (AF). Ainda nesse raciocnio insere-se Mundo Novo, em Jesutas (AH); Eldorado, em Marechal Candido Rondon (AH); Progresso, em Diamante DOeste (AH) e em Santa Helena (AF).Alguns nomes manifestam um sentimento de satisfao como em Abenoado, em Assis Chateaubriand (AF); Alegre, em Entre Rios do Oeste (AF), em Mercedes (AF) e em Matelndia (AH); Alegria, em Medianeira (AH - AF); Vista Alegre, nos municpios de Entre Rios do Oeste (AH), de Toledo (AH), de Foz do Iguau (AH) e de Missal (AH); Felicidade, em Entre Rios do Oeste (AF), em Santa Helena (AF), em So Jos das Palmeiras (AF); Encantado/Encantada, em Assis Chateaubriand (AH-AF), em Guara (AF), em Quatro Pontes (AF) e Paraso nas localidades de Diamante DOeste (AF) e de Palotina (AH). Nessa mesma perspectiva situam-se Alvio, em Assis Chateaubriand (AF) e em Tupssi (AF); Paz (da), em Medianeira (AF); Amor, (do) Assis Chateaubriand (AF); Desejo (do), em Terra Roxa (AF); Rica, em Santa Helena (AH); Solene, em Assis Chateaubriand (AF); Vitria, em Tupssi (AF) e em Medianeira (AH).134Ainda houve o registro, entre os animotopnimos eufricos, de Descoberto, em Assis Chateaubriand (AF) e em Toledo (AH-AF); de Encontro (do), em So Jos das Palmeiras (AF); de Independente, em Marip (AH-AF); de Memria, em Assis Chateaubriand (AF), em Toledo (AF) e em Tupssi (AH-AF); de Pioneira, em Toledo (AH); de Primavera, em Marip (AF), em Palotina (AF), em So Miguel do Iguau (AF); de Real, em Marip (AF), em Nova Santa Rosa (AF) e em Palotina (AF).Seguem agora os animotopnimos disfricos e os respectivos municpios onde foram identificados: Arteira que apareceu em Toledo (AF); Cego, em Diamante DOeste (AF); Confuso, em Santa Helena (AF); Iluso, em Guara (AF); Embargo, em Tupssi (AF); Enganador, em Toledo (AF); Engano, em So Miguel do Iguau (AF); Escondido, em Matelndia (AF); Gritador, em Toledo (AF) e em Tupssi (AF); Mata Pau, em Ramilndia (AF); Perdido, em Ramilndia (AF); Preguia, em Diamante DOeste (AF) e em Vera Cruz do Oeste (AF) e, finalmente, Solteiro, em So Miguel do Iguau (AF). Esses dados demonstram que os animotopnimos eufricos ocorreram apenas na nomeao de acidentes fsicos. A Figura 1 demonstra a produtividade dos animotopnimos em cada municpio da rea investigada.135Figura 1 Carta Toponmica 1: Produtividade de animotopnimos nas microrregies de Toledo e Foz do IguauFonte: Ananias (2013).Nos municpios Iracema do Oeste, Itaipulndia e Ouro Verde do Oeste no foram identificados casos de designativos nomeados como animotopnimos. O Quadro 2 a seguir apresenta a relao dos municpios onde foram identificados animotopnimos e respectivo percentual de ocorrncias em cada localidade. Para tanto foram considerados os mesmos intervalos estatsticos adotadas na Carta Toponmica 1.136Quadro 2 Produtividade dos animotopnimos segundo os municpios das microrregies de Toledo e Foz do Iguau.Percentual de ocorrnciasMunicpios1% a 5% Cu Azul (3,5%)Guara (2,8%)Matelndia (4%)Mercedes (3,7%)Nova Santa Rosa (4,7%)Quatro Pontes (5,5%)Santa Terezinha de Itaipu (3%) So Miguel do Iguau (5,5%) So Pedro do Iguau (3,7%) Terra Roxa (3%)6% a 10% Assis Chateaubriand (8%)Formosa do Oeste (8,5%)Foz do Iguau (7,4%)Jesutas (5,8%)Marechal Candido Rondon (9%)Medianeira (6,5%)Palotina (6%)Pato Bragado (6,6%)Ramilndia (7%)Santa Helena (8,9%)Serranpolis do Iguau (9%)Toledo (9,5%)Vera Cruz do Oeste (6,8%)11% a 20% Diamante D`Oeste (15,9%)Entre Rios do Oeste (13%)Marip (12,5%)Missal (10,8%)So Jos das Palmeiras (12%)Tupssi (17%).Fonte: Ananias (2013)137Pela anlise pode-se perceber a maior incidncia de animotopnimos eufricos na regio pesquisada, o que pode ser justificada pelas circunstncias do prprio povoamento e colonizao da regio: o pioneiro quando aporta em um novo territrio chega imbudo de esperana, de sonhos, de projetos de uma vida melhor Bom Princpio, Bonsucesso, Eldorado, Esperana, Felicidade, Vitria, dentre outros. Todavia, no raras vezes os migrantes deparam-se com desafios, entraves, situaes adversas que os levam a nutrir atitudes pessimistas, sentimento esse que se materializa em animotopnimos disfricos como Confuso, Iluso (da), Engano, Mata Pau, Perdido, Preguia, dentre outros. Importante reiterar que os animotopnimos disfricos catalogados ocorreram apenas na nomeao de acidentes geogrficos de ordem fsica nos municpios de Diamante do Oeste, Guara, Santa Helena, Toledo, Tupssi, Matelndia, Ramilndia, So Miguel do Iguau e Vera Cruz do Oeste. Consideraes finaisConsiderando que o topnimo incorpora elementos motivacionais e imprime ao nome ndices do momento vivenciado pela comunidade, os estudos toponmicos podem evidenciar estreita ligao com a histria local, medida que o trabalho do toponimista consiste tambm na interpretao da relao existente entre os momentos histricos vividos pela comunidade e os dados coletados, o que permite o resgate de aspectos relativos ao prprio perfil ideolgico desse povo.Os pioneiros externizaram em suas nomeaes sentimentos que, em sua maioria, demonstraram aspectos positivos. Assim os animotopnimos eufricos computaram 86%, enquanto os animotopnimos disfricos 14% de produtividade. Pode-se concluir dos dados apresentados que havia certa expectativa dos primeiros habitantes frente s possibilidades de sucessos na nova terra.Em sntese, a pesquisa discutiu a influncia da histria social no lxico e a importncia das pesquisas toponmicas. E confirmou a estreita relao entre a escolha do nome de lugar e condicionantes histrico-geogrficos, em especial os relacionados aos processos de povoamento, j que os migrantes tendem a perpetuar nos designativos de lugares suas expectativas frente ao novo espao escolhido para construrem uma nova fase de suas vidas.REFERNCIASANANIAS, A. C. C. dos S. Um caminhar pela toponmia das microrregies de Toledo e Foz do Iguau. 2013. 247f. Dissertao (Mestrado em Estudos da Linguagem) Centro de Letras e Cincias Humanas, Universidade Estadual de Londrina, Londrina, 2013.BUSSE, S. Um estudo geossociolingstico da fala do Oeste do Paran. 2010. 248f. Tese (Doutorado em Estudos da Linguagem) Centro de Letras e Cincias Humanas, Universidade Estadual de Londrina, Londrina, 2010.COLODEL, J. A. Cinco sculos de Histria. In: SILVA, G. H. da; BUHES, R.; PERIS, A. F. (Org.). Mesorregio Oeste Paranaense: diagnstico e perspectivas. Cascavel: Edinuoeste, 2002. Disponvel em: . Acesso em: 20 jun. 2012.DEITOS, N. J. 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Dissertao (Mestrado em Estudos da Linguagem) Centro de Letras e Cincias Humanas, Universidade Estadual de Londrina, Londrina, 2006.139ITALIANOS EM BELO HORIZONTE: UM ESTUDO ANTROPONMICOZuleide Ferreira FILGUEIRASIntroduo O presente artigo tem como pretenso apresentar os resultados ainda que parciais de uma investigao sobre os nomes prprios de pessoas de origem italiana que viveram ou nasceram na cidade de Belo Horizonte (MG), no final do Sculo XIX e primeiras dcadas do Sculo XX.A pesquisa, vinculada ao Programa de Ps-Graduao em Estudos Lingusticos da Faculdade de Letras da UFMG, orientada pela Professora Doutora Maria Cndida Trindade Costa de Seabra, tem como proposta dar continuidade ao estudo toponmico desenvolvido na dissertao de mestrado, defendida em 2011, intitulada como A presena italiana em nomes de ruas de Belo Horizonte: passado e presente.Durante a realizao dessa pesquisa de mestrado, que arrolou 183 (cento e oitenta e trs) nomes de logradouros pblicos, da capital mineira, denominados por antropnimos italianos, ficou constatado que muitos italianos e descendentes, com ativa participao na histria de Belo Horizonte, no tiveram seus nomes perpetuados na toponmia urbana da cidade.Entretanto, a lembrana dessas pessoas continuava viva na memria de suas famlias e registrada em documentos antigos, muitos sob a tutela de seus parentes e outros tantos arquivados em museus e arquivos pblicos da cidade, alm dos que se encontravam anotados no livro de registro do mais antigo cemitrio do municpio.Considerando essa lacuna, a atual pesquisa tem como pretenso trazer luz centenas de nomes prprios de pessoas de origem italiana, que viveram ou nasceram em Belo Horizonte em suas primeiras dcadas de existncia, por meio de uma rigorosa pesquisa em arquivos histricos, peridicos antigos, acervos particulares, documentos de familiares e, sobretudo, no Livro de Registro de Sepultamento do Cemitrio do Bonfim.Com os dados conseguidos, alm do tratamento lingustico que buscar averiguar se houve mudana no registro desses nomes, pretende-se elaborar um repertrio biogrfico que, ao contar a histria pessoal de cada personalidade arrolada, resgatar elementos significativos de um passado pouco conhecido, e praticamente sem registros oficiais, que definiram a Belo Horizonte que conhecemos hoje.A construo de Belo Horizonte Cidade planejada para ser capital do Estado de Minas Gerais, Belo Horizonte foi construda no perodo constitucional de 1894 a 1897. Nessa poca, final do Sculo XIX, recm-sado da escravido, o Brasil no possua preparo de mo de obra especializada e, em 1895, prevendo que seria insuficiente o nmero de trabalhadores para o perodo das construes, o engenheiro Francisco de Paula Bicalho, que acabara de assumir o posto de novo chefe da Comisso Construtora, procurou o servio de imigrao.Nesse perodo, em que era bastante comum o apelo mo de obra estrangeira, buscando viabilizar a imigrao, o governo elaborou uma srie de medidas para atrair os estrangeiros, utilizando-se, dentre outros recursos, de propagandas que veiculavam uma imagem do pas como uma espcie de Terra Prometida.Tais propagandas surtiram o efeito esperado, principalmente na Itlia, pas que, nessa poca, era predominantemente agrcola e com limitadas oportunidades de trabalho. Fugindo da guerra e da fome, acreditando nas promessas do governo brasileiro e idealizando um futuro prspero na Amrica, muitos italianos vieram para o Brasil e grande parte teve como destino o Estado de Minas Gerais.Assim, procedendo de vrias regies da Itlia e habilitados em funes diversificadas, os italianos que vieram construir Belo Horizonte trouxeram conhecimentos tcnicos especialmente nos ramos da construo civil e alimentao permanecendo na cidade mesmo aps a sua inaugurao, em 12 de dezembro de 1897.140Nessa terra mineira, constituram famlia e investiram em negcios, tanto na indstria quanto no comrcio. Construram empresas, inventaram formas de sociabilidade, fizeram escolhas, promoveram trocas e acrescentaram, s suas experincias anteriores, valores culturais novos que, somados aos que traziam na bagagem, resultaram na constituio de um novo sujeito belo-horizontino.Hoje, a cidade de Belo Horizonte surge marcada pela presena deste sujeito-estrangeiro-italiano, no se limitando apenas aos nomes das ruas, pois ele tambm pode ser visto nos nomes de indstrias, de estabelecimentos comerciais, de edifcios residenciais, de equipamentos culturais, etc. Suas marcas esto registradas, inclusive, na culinria, na msica, no cinema e na arquitetura do municpio.Mas, a despeito de to relevante contribuio, tanto na construo quanto no desenvolvimento da cidade, passados quase 120 (cento e vinte) anos da inaugurao de Belo Horizonte, poucos so os nomes italianos lembrados, ficando a maior parte esquecida, seja por falta de registro ou pela dificuldade na recuperao dos dados.Tal esquecimento, em grande medida, deve-se ao fato de apesar de se ter notcias da fundao de uma ou duas hospedarias de imigrantes na capital, logo no incio da sua construo no se conhecer, atualmente, o paradeiro dos documentos que identificavam os italianos que deram entrada nessas hospedarias.Entretanto, durante as pesquisas que efetuamos para desenvolver nosso estudo que resultou na dissertao de mestrado, intitulada A presena italiana em nomes de ruas em Belo Horizonte: passado e presente, defendida em 2011, encontramos outras fontes de informao que nos fizeram conhecer centenas de nomes de italianos que viveram na capital mineira, desde o final do Sculo XIX.Assim, em inmeros registros histricos jornais, legislaes e cartas em relatos de descendentes que ainda vivem na cidade e no Livro de Registro de Sepultamento do Cemitrio do Bonfim, encontramos 3.000 (trs mil) nomes prprios de origem italiana que se referem a pessoas que viveram, trabalharam, constituram famlia e faleceram em Belo Horizonte, tanto na poca de sua construo, final do sculo XIX, quanto durante o sculo XX. Tal constatao nos motivou a propor esta pesquisa, qual seja a de desenvolver um estudo antroponmico de cunho lingustico-cultural.O carter social e cultural do antropnimoDesde tempos remotos, a linguagem humana vista como fenmeno social: os homens criam e utilizam palavras para expressar e denominar tudo que est em seu entorno e que lhes desperta interesses.A questo da nomeao, isto , da conexo entre palavras e coisas um tema que vem sendo debatido h tempos, como bem argumenta Lyons (1979, p. 429):Os filsofos gregos do tempo de Scrates, e, em seguida, Plato, propuseram a questo nos termos em que ela geralmente se prope at hoje. Para eles a relao semntica que liga as palavras s coisas a de denominar; e a questo que da decorre a de saber se os nomes dados s coisas eram de origem natural ou convencional [...]. No curso do desenvolvimento da gramtica tradicional, tornou-se hbito distinguir entre o significado da palavra e a coisa ou as coisas por ela denominada.Nas palavras de Biderman (1998, p. 88), a atividade de nomear especfica da espcie humana justamente porque, ao observar o ambiente sua volta, o homem necessita identificar cada um dos elementos percebidos e transmitir, aos seus semelhantes, ideias e conceitos acerca dos mesmos. Atribuir um nome, portanto, reconhecer a existncia de algo, significa adicion-lo em um universo cognitivo, no conjunto das coisas de conhecimento e de domnio, pois aquilo que se denomina algo que est na esfera de interesse do prprio denominador.Sendo assim, um nome no apenas uma designao, ele expressa um atributo com o qual o objeto denominado passa a ser identificado, um valor atribudo que pode, inclusive, modificar a ideia que se faz do mesmo.Segundo Biderman (1998, p. 90), na dimenso individual, o lxico conceptualizado como um conjunto de representaes, isto , de objetos mentais que se consubstanciam nas palavras que esse indivduo domina e das quais ele se serve.141Considerando tal argumentao, pode-se pensar que o lxico de uma lngua se constitui em uma forma de registro do conhecimento universal, j que, ao atribuir nomes aos referentes, o ser humano, simultaneamente, os classifica. Ora, se o lxico de uma lngua registra uma infinidade de conhecimentos, tem-se, por conseguinte, que a sua anlise, diacrnica ou sincrnica, pode revelar como o homem percebe ou percebia a sua realidade, desvendando o seu ambiente fsico e apresentando os fatores histricos, sociais e culturais que norteiam ou norteavam as suas atividades.Isso costuma ocorrer porque, como esclarece Sapir (1961, p. 57): O lxico completo de uma lngua pode ser considerado, na verdade, como um complexo inventrio de todas as ideias, interesses e ocupaes que aambarcam a ateno de uma comunidade.Buscando simplificar a relao de sentido e representao entre coisas e palavra, Foucault (1999, p. 136) distingue nomes prprios de nomes comuns, ao colocar queA palavra designa, o que quer dizer que, em sua natureza, nome. Nome prprio, pois que aponta para tal representao e mais nenhuma. Assim que, em face da uniformidade do verbo que nunca mais que o enunciado universal da atribuio os nomes pululam e ao infinito. Deveria haver tantos nomes quantas coisas a nomear. Mas ento cada nome seria to fortemente vinculado nica representao que ele designa, que no se poderia sequer formular a menor atribuio; e a linguagem recairia abaixo de si mesma: Se tivs-semos por substantivos somente nomes prprios, seria preciso multiplic-los ao infinito. Mais do que nomear coisas e objetos, o homem atribui nomes s pessoas e aos lugares. A esse estudo, de cunho lexical, d-se o nome de Onomstica. Onomstica cabe o estudo das origens e alteraes (no sentido e na forma) dos nomes prprios, se dividindo em duas disciplinas distintas, porm complementares: a Antroponmia que trata dos nomes prprios das pessoas; e a Toponmia que trata dos nomes prprios de lugares.O filsofo portugus, Leite de Vasconcelos (1931, p. 3), define Antroponmia como o [...] estudo dos nomes individuais, com o dos sobrenomes e apelidos [...].Os antropnimos antropo (homem) + onoma (nome) so assim chamados por se referirem, exclusivamente, aos nomes prprios de pessoas. Assim como os topnimos, os antropnimos tm a faculdade de preservar a memria cultural de um povo, pois, segundo Dick (1992, p. 112), eles se situam entre os elementos mais arcaizantes de uma lngua.[...] no h, realmente, ao que se saiba, discordncia entre os tericos onomsticos quanto funo que desempenham as duas disciplinas como elementos conservadores do que se pode denominar de memria de um ncleo social, isto porque topnimos e antro-pnimos se inscrevem como os elementos mais arcaizantes de uma lngua, desde que conservadores de antigos estgios denominativos.Dick (1990, p. 178) ainda chama a ateno para o carter social e cultural da Onomstica, ou dos estudos Toponmicos e Antroponmicos, quando sentencia que[...] enquanto os topnimos definem e precisam os contornos de qualquer paisagem ter-restre, os antropnimos se referem, com exclusividade, distino dos indivduos entre si, no conjunto dos agrupamentos sociais, ao mesmo tempo que permitem e possibilitam aos ncleos assim constitudos a aquisio de uma personalidade vivenciada atravs da nominao de seus membros.Esse carter sociocultural destacado tambm por Amaral (2010, p. 76) que compreende o antropnimo como o item lexical que utilizado pelo usurio da lngua para referir-se a um indivduo do mundo real ou fictcio (neste caso, com traos humanos).Podemos dizer que os nomes prprios possuem caractersticas semnticas distintas dos nomes comuns, uma delas que apontam deiticamente para seu possuidor, sem informar nenhum significado especfico.Outros estudos como o de Lozano Ramrez (1999) nos lembram que o nome prprio costuma ter grande 142relevncia para a histria poltica, cultural, das instituies e das mentalidades. Ao nascer, atribudo a cada ser humano um nome e sobrenome por meio dos quais ele ser identificado ao longo de sua vida, pois as pessoas precisam comunicar-se com ele e referir-se a ele em suas interaes.Lyons (1979, p. 178) mais um dos tericos que evidencia que os nomes prprios possuem a funo referencial e vocativa. A funo referencial ocorre quando outras pessoas fazem meno a algum e a vocativa quando o nome usado para chamar um indivduo.Dessa forma, o ato de nomear pode ser entendido como a associao de um indivduo a um antropnimo escolhido, no aleatoriamente, mas diretamente ligado funo de fixar uma referncia, uma ancestralidade, uma origem geogrfica, pois, como afirma Dick (1998, p. 218), O nome doado e conhecido coloca o receptor no centro de convergncias positivas e negativas, ou de vetores de foras que definiro personalidades e comportamentos, condutas e estilos de vida, tornando nome e indivduo uma s entidade.Transmitido de gerao a gerao, o nome prprio de pessoa muito mais que um mero identificador ou rtulo, antes um vasto campo de estudo que permite, inclusive, sob o aspecto diacrnico, compreender as sociedades que o geraram, e as que o utilizam, sob uma viso sincrnica.Antroponmia italiana e memria cultural de Belo HorizonteConsiderando a ampla possibilidade de estudos que tm como ponto de partida o nome prprio de pessoa, a nossa pesquisa busca analisar quais foram os legados deixados pelos italianos na capital do Estado de Minas Gerais, procurando identificar o que Belo Horizonte conservou dos imigrantes italianos que vieram constru-la no final do Sculo XIX e dos que chegaram cidade nas primeiras dcadas do Sculo XX. um estudo que se inscreve na memria lingustica-cultural da sociedade belo-horizontina.Nosso estudo de cunho cultural porque busca a memria, uma vez que pretende analisar a histria que h por trs de cada nome italiano arrolado na pesquisa, apresentando o que essas individualidades imprimiram, com seus nomes, na histria da cidade de Belo Horizonte.Partindo-se do pensamento de Heidegger1, citado por Cotrim (1999, p. 17), de que a lngua o solo comum da cultura de um povo, pode-se compreender a linguagem como um reservatrio onde se acumulam a maior parte das experincias do homem. Sendo assim, no h como desconsiderar a sociedade e sua cultura nos estudos de sua linguagem, pois, como Duranti (2000, p. 27) enfatiza, a linguagem uma prtica cultural, no se manifestando apenas naquilo que se ouve contar, encontrando-se tambm nas relaes interpessoais que permitiram tais relatos.Como prtica compartilhada por diferentes agrupamentos humanos, a linguagem pode tambm ser entendida como um instrumento de transmisso e perpetuao das culturas locais, j que ela permite ordenar os dados observados no ambiente, por meio dos conceitos, classificaes, designaes e significados.Seabra (2004, p. 24), comentando o pensamento de Duranti (2000), considera que o estudo da lngua, inserido no universo cultural, se situa no amplo campo da antropologia, cincia que examina a linguagem considerando a transmisso e a reproduo da cultura, alm da sua relao com outras formas de organizao social.Sendo a linguagem, sob a perspectiva da Antropologia Lingustica, uma manifestao cultural, ela difunde o modo de vida e a ideologia de seu povo, deixando vista quais so as formas de pensar e observar o mundo em tempos e espaos distintos.Para Langacker (1972, p. 24), por exemplo, lngua e cultura esto estreitamente entrelaadas, e a adoo de uma nova lngua , frequente e, geralmente, acompanhada da adoo de uma nova cultura e vice-versa.Na mesma direo, Sapir (1961, p. 44), um dos mais conhecidos investigadores da histria da Antropologia Lingustica, ao analisar os fatores sociais, passou a compreend-los como as vrias foras da sociedade que modelam a vida e o pensamento de cada indivduo. Adicionalmente, refletindo sobre o papel do ambiente em relao cultura, o referido autor apresentou a seguinte argumentao:1 Martin Heidegger (Mekirch, 26 de Setembro de 1889 Friburgo, 26 de Maio de 1976) foi um filsofo alemo.143As foras sociais, que assim transformam as influncias puramente ambientais, podem, por sua vez, serem consideradas como de carter ambiental, no sentido de que cada in-divduo se acha colocado em meio a um conjunto de fatores sociais, a eles reagindo [...] Essas foras sociais tradicionais esto sujeitas, por sua vez, a mudanas ambientais, entre outras, fato que pe em relevo a complexidade do problema das origens e desenvolvi-mento de uma cultura.Sapir reconhecia os fatores socioculturais e os via refletidos na linguagem, compreendendo que cada lngua, assim como o seu povo, tinha uma viso particularizada do mundo, expressando, ao seu prprio modo, a realidade observada. Enfim, Sapir percebia que cada lngua assinalava contornos distintos na construo de sua imagem do mundo.Partilhando dessa mesma opinio, o antroplogo linguista Duranti (2000) esclarece que, para que seja possvel a compreenso do papel da lngua na vida das pessoas, necessrio ir alm do estudo de sua gramtica, sendo preciso entrar no mundo da ao social, pois l que as palavras so relacionadas s atividades culturais.De acordo com Duranti (2000, p. 23, traduo nossa)[...] a antropologia lingustica deve ser entendida como uma parte do amplo campo da antropologia, no porque seja um tipo de lingustica que se pratique nas reas da antropo-logia, mas porque examina a linguagem atravs do prisma dos interesses antropolgicos, entre os quais esto: a transmisso e reproduo da cultura, a relao entre os sistemas culturais e outras formas de organizao social, e o papel das condies materiais de existncia na compreenso que os indivduos tm do mundo.2Hymes (1964) tambm atribui relevncia ao contexto sociocultural como constitutivo da realidade lingustica. Sua teoria pautada no pressuposto da lingustica constituda socialmente, o que implica uma relao entre cultura e linguagem, no que diz respeito utilizao da forma lingustica motivada pelo uso social. Debruando-se sobre esse tema, Meillet (1948, p. 16), anterior a Hymes e Duranti, j considerava a lngua como um fato social e, por isso mesmo, acreditava que a linguagem no existia fora dos indivduos que a falavam. Nesse sentido, segundo ele, a sociedade atuava diretamente sobre a lngua, que se via sujeita ao dos diferentes fatores que sustentavam a organizao social. Sendo assim, a lngua tornava-se susceptvel a mudana e adaptaes, conforme as transformaes sociais.Diante de todas as consideraes arroladas anteriormente, percebe-se que a lngua no simplesmente um cdigo produtor de sentido, ela tambm social, uma corrente de significados que compartilhada por uma coletividade. Dessa maneira, as relaes sociais, que integram as pessoas, modelam as prticas comunicativas e, portanto, influenciam a linguagem.Dando continuidade s reflexes sobre o tema lngua, cultura e sociedade, com especial enfoque sobre o assunto antroponmia, relembramos a afirmao de Dick (1992, p. 112), de que o antropnimo exerce a funo de memria de um ncleo social. Assim sendo, pretendemos, em nossa pesquisa, resgatar a histria da capital mineira por meio da anlise da histria dos imigrantes italianos, considerando a tenuidade da linha que separa memria individual de memria coletiva.De acordo com Thompson (1992, p. 28), a memria coletiva no constituda pela realidade pronta e acabada, pois, nos relatos de memria, manifestam-se sentidos, atribuem-se valores pessoais, acrescentam-se pontos de vista, percepes individuais, etc., fazendo com que a memria coletiva seja construda no contato das experincias pessoais vivenciadas em grupo.Na verdade, a memria individual e a social encontram-se interligadas e so interdependentes, pois cada sujeito est includo em um contexto, onde vive em comunidade e estabelece inter-relaes com os seus pares, assim 2 Hay que entender la antropologa lingstica como una parte del amplio campo de la antropologa, no porque sea un tipo de lingstica que se practique en los departamentos de antropologa, sino porque examina el lenguaje atravs del prisma de los intereses antropolgicos, ente los cuales estn: la transmisin reproduccin de la cultura, la relacin entre los sistemas culturales y otras formas de organizacin social, y el papel de las condiciones materiales de existencia en la comprensin que los individuos tienen del mundo.144consolidando suas lembranas. O conjunto das memrias individuais, compartilhando experincias e significados, constri a memria coletiva.Sobre o tema, Nora (1995, p. 8) registra que a memria est em permanente evoluo, aberta dialtica da lembrana e do esquecimento, inconsciente de suas deformaes. Este autor compreende a memria como uma construo heterognea, arquitetada por meio da reciclagem de recordaes, muitas vezes vagas e gerais.Considerando essa reflexo de Nora, a histria oficial de uma cidade pode ser vista apenas como mais uma das releituras do passado, mas no a nica e nem sempre a mais prxima da realidade, j que uma de suas finalidades tentar resgatar elementos, representar momentos que j no existem mais.Portanto, a reconstruo do passado uma tarefa muito desafiadora, pois, embora se tenham a memria individual, a memria coletiva e os registros histricos, a ningum possvel reviver o passado tal e qual ele foi, de fato, em sua poca. Sobre tal dificuldade, Bosi (1994, p. 59) acrescenta que s resta ao pesquisador reconstruir, no que lhe for possvel, a fisionomia dos acontecimentos, considerando que nesse esforo exerce um papel condicionante todo o conjunto de noes presentes que, involuntariamente, nos obriga a avaliar (logo, a alterar) o contedo das memrias..A referida autora estabelece ainda uma profunda ligao entre memria e linguagem, pois, segundo ela,[...] o instrumento decisivamente socializador da memria a linguagem. Ela reduz, unifica e aproxima, no mesmo espao histrico e cultural, a imagem do sonho, a imagem lembrada e as imagens da viglia atual. Os dados coletivos que a lngua sempre traz em si entram at mesmo no sonho (situao-limite da pureza individual). De resto, as imagens do sonho no so, embora paream, criaes puramente individuais. So representaes, ou smbolos, sugeridos pelas situaes vividas em grupo pelo sonhador: cuidados, dese-jos tenses... (BOSI, 1994, p. 56).Ponderando sobre os ltimos tpicos aqui discutidos, reforamos a nossa tese de que a memria sociocultural de Belo Horizonte pode tambm ser apreendida por meio dos nomes prprios das pessoas que viveram nessa cidade, sobretudo pelos que deixaram as suas marcas como construtores, entre eles, os imigrantes italianos.A memria da cidade, construda no espao e no tempo, um conjunto de fragmentos de lembranas que foram se edificando, umas sobre as outras, arquivando os acontecimentos passados. Bairros, praas, ruas, edificaes, monumentos e, principalmente, os nomes de seus habitantes, documentam a sua memria. Formulao do problemaDurante a realizao da nossa pesquisa de mestrado, deparamo-nos com 2 (dois) problemas que deixamos para equacionar nos estudos que pretendamos desenvolver, posteriormente, em nossa pesquisa de doutorado, a saber:1) A no comprovao oficial da origem italiana de 279 antropotopnimos [vide as justificativas em Filgueiras (2011, p. 78)], e2) A identificao de inmeros nomes, comprovadamente de origem italiana, que no puderam ser relacionados na pesquisa de mestrado por no estarem representados na toponmia urbana da cidade de Belo Horizonte.O primeiro problema consistiu em no encontrarmos aps exaustivas buscas nos documentos da Cmara Municipal de Belo Horizonte, do Instituto Estadual do Patrimnio Histrico e Artstico de Minas Gerais (IEPHA/MG), dos arquivos pblicos, museus e bibliotecas da cidade informaes oficiais que comprovassem a origem italiana desses 279 (duzentos e setenta e nove) antropotopnimos. Adicionalmente, naquele momento, no havia tempo hbil para uma pesquisa mais profunda como encontrar os descendentes das pessoas em questo, marcar entrevistas e realiz-las, colhendo dados e certides que comprovassem a sua origem italiana. O segundo problema se deu por termos nos deparado, durante as buscas relatadas no pargrafo anterior, com inmeros outros nomes de pessoas que tinham comprovao oficial da origem italiana, mas que no foram homenageadas com nomes de logradouros na capital mineira e, como a pesquisa de mestrado foi exclusivamente toponmica, tivemos que retir-los do nosso corpus.145Em abril de 2011, aps a defesa de nossa dissertao de mestrado, contabilizando os dados que foram excludos do corpus da pesquisa, constatamos que tnhamos mais de 1.800 (um mil e oitocentos) nomes e que grande parte tinha biografia identificada.Levando em conta o expressivo volume e inquestionvel riqueza dos dados sem falar do nosso desejo, j expresso, de analis-los em uma pesquisa de doutorado resolvemos, por meio de uma leitura preliminar, levantar algumas questes que poderiam nortear o nosso atual estudo:1) Ser que esses 1.800 (um mil e oitocentos) nomes italianos sofreram adaptaes nas grafias de seus prenomes, ou dos sobrenomes, ao entrarem em contato com o portugus do Brasil?2) Se ocorreram adaptaes, quais os fatores que influenciaram? 3) Qual seria o ndice de reteno, variao e mudana no registro desses nomes?4) Como se estabeleceu a relao aportuguesamento versus lngua de origem?5) De quais regies da Itlia eles vieram?6) O que ficou registrado sobre suas vidas?7) Considerando o volume e valor informativo dos dados biogrficos j relacionados, como trat-los e disponibiliz-los ao pblico, seguindo os moldes da Lexicografia? JustificativaPartindo das questes arroladas no tpico anterior, nossa proposta foi desenvolver um estudo lingustico descritivo de antropnimos italianos que atuaram na construo e primeiras dcadas do desenvolvimento de Belo Horizonte, tendo como principais justificativas o ineditismo, ou seja, a inexistncia de trabalhos acadmicos que analisaram esse banco de dados e a sua importncia no processo de resgate da memria histrica e cultural da capital mineira, no que se refere participao dos imigrantes italianos.As fontes de informao que utilizamos foram quase todas primrias: documentos histricos, depoimentos de descendentes, anotaes manuscritas de Raul Tassini3 e do Livro de Registro de Sepultamento do Cemitrio do Bonfim4.Sobre isso, Ramos e Bastos (2010, p. 88) esclarecem que No caso da pesquisa antroponmica, a natureza diferenciada dos dados impe fontes primrias tambm diferenciadas, mas igualmente oficiais: a documentao de cartrios de registro civil ou de arquivos paroquianos de batistrios.Acreditamos que o material coletado, atualmente 3.000 (trs mil) antropnimos, posteriormente organizado em um banco de dados, servir de subsdio para futuras pesquisas, a respeito da cidade de Belo Horizonte, nas diversas reas da Lingustica. Como produto do nosso estudo, pretendemos, tambm, realizar um dicionrio onomstico.Pressupostos metodolgicosA metodologia utilizada se baseou nos pressupostos da Antropologia Lingustica, da Onomstica, da Lexicologia e Lexicografia. Inicialmente, realizamos uma reviso bibliogrfica dos estudos onomasiolgicos, sobretudo dos trabalhos desenvolvidos por pesquisadores que so referncia na rea, tais como: Amaral (2004, 2005, 2008), Baldinger (1966), Dauzat (1946, 1951), Dick (1990, 1992, 1996, 1997, 1998), Leite de Vasconcelos (1928), Seabra (2006) e outros mais.3 Raul Tassini nasceu em Belo Horizonte, em 1909, onde faleceu em 1992. Filho do imigrante italiano Ernesto Tassini, Raul era desenhista, ilustrador, poeta e muselogo. Registrou manualmente cenas do cotidiano e interpretou aspectos significativos da arquitetura de Belo Horizonte em pequenos cartes e recortes de papel. Sua coleo pessoal, fonte riqussima de informaes sobre a capital mineira, est sob a tutela do Museu Histrico Ablio Barreto.4 O Livro de Registro de Sepultamento do Cemitrio do Bonfim, hoje considerado obra rara e histrica, foi, no passado, o principal instrumento de controle dos sepultados no Cemitrio do Bonfim. A publicao composta por 18 (dezoito) volumes, todos manuscritos, contendo informaes sobre os enterrados, incluindo a sua nacionalidade.146Em relao ao binmio lngua-cultura, nossa base de referncia foram as obras de Bosi (1994), Duranti (2000), Hymes (1964) e Sapir (1921/1971).Quanto composio do repertrio biogrfico, nos apoiamos na bibliografia de linguistas que se dedicam teoria lexicogrfica, como Andrade (1998), Biderman (1993), Krieger (2006), Esquivel (2001), Ettinger (1982), Pascual (2008), etc.Para o levantamento do corpus utilizamos os dados j compilados em nossa dissertao de mestrado e os catalogados por meio de pesquisa em documentos histricos e em entrevistas com descendentes.A pesquisa em documentos histricos foi realizada na biblioteca do Museu Histrico Ablio Barreto, no Arquivo Pblico da Cidade de Belo Horizonte e no Instituto Estadual do Patrimnio Histrico e Artstico de Minas Gerais (IEPHA/MG).No Museu Histrico Ablio Barreto, alm do acervo da biblioteca, consultamos a Coleo Raul Tassini, cujo titular foi pesquisador da histria e da arqueologia de Belo Horizonte. Raul Tassini catalogou 515 (quinhentos e quinze) nomes de famlias italianas que viveram, e ainda vivem, em Belo Horizonte, reunindo, alm de informaes manuscritas sobre elas, recortes de jornais que abordavam o cotidiano dessas famlias na capital. No Arquivo Pblico da Cidade de Belo Horizonte, a nossa ateno se voltou para o Livro de Registro de Sepultamento do Cemitrio do Bonfim. A importncia dessa publicao para a nossa pesquisa se deve ao fato de o Cemitrio do Bonfim ser o primeiro e mais tradicional de Belo Horizonte e da sua histria se confundir com a da prpria cidade. Nele esto enterrados os primeiros moradores da cidade, dentre os quais centenas de italianos.Para a presente pesquisa, consultamos o volume 1 do Livro de Registro de Sepultamento do Cemitrio do Bonfim, que contempla os anos de 1898 a 1912, copiando os nomes e outros dados dos sepultados de nacionalidade italiana.Esse trabalho levou um tempo significativo de dedicao, pois a obra, por ser histrica e considerada rara, no pode ser xerocopiada e nem emprestada. Sendo assim, tivemos de visitar a sala de consultas do Arquivo Pblico da cidade de Belo Horizonte tantas vezes quantas foram necessrias para copiar, um a um, os nomes italianos includos no volume 1.Como a publicao totalmente manuscrita, outro fator, que tornou o trabalho de cpia mais demorado, foi a compreenso da caligrafia das pessoas que registraram os nomes no livro, j que cada uma tem um estilo prprio de grafar as letras do alfabeto.Em relao ao Instituto Estadual do Patrimnio Histrico e Artstico de Minas Gerais (IEPHA/MG), analisamos a publicao Dicionrio de Construtores e Artistas de Belo Horizonte, identificando e selecionando os de origem italiana.Sobre as entrevistas com os descendentes, entramos em contato com as famlias, marcando dia e horrio, e gravamos os depoimentos sobre os seus ascendentes italianos. Na ocasio da visita, verificamos, quando a famlia possua, documentos e fotografias e levamos uma carta de autorizao, que foi assinada pelo depoente, autorizando a transcrio e utilizao dos dados em nossa tese de doutorado.Aps compilarmos todos os antropnimos, nas fontes arroladas anteriormente, organizamos os nomes pela ordem alfabtica do ltimo sobrenome, mantendo a grafia exatamente como encontrada na fonte, para, posteriormente, submet-los anlise lingustica, partindo do modelo terico-metodolgico da Sociolingustica Variacionista.Essa etapa, ainda em fase de desenvolvimento, que pretende verificar a questo da variao e mudana lingustica, assim como os casos de reteno, se apoiar nas teorias da Sociolingustica, dentre as quais destacamos Bynon (1977), Labov (1972, 1982, 1994), Milroy (1992) e Tarallo (2007).Seguindo os moldes atuais da Lexicografia, pretendemos apresentar, como produto final de nossa pesquisa, um repertrio biogrfico dos italianos que construram e ajudaram a desenvolver Belo Horizonte, constando os seus dados, as principais contribuies no municpio e, quando disponveis, as suas fotografias.147REFERNCIAS AMARAL, E. 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Destaca-se a importncia do sistema hidrovirio nesse processo, pois partindo, ento, da Ilha de So Lus localizada entre a baa de So Marcos, para onde convergem os rios Mearim, Pindar e Graja, e a baa de So Jos, para onde se dirigem os rios Itapecuru e Munim , o colonizador fez do rio seu caminho. Eram, pois, os cursos dgua sua principal via de acesso e de penetrao ao interior do territrio, sua via de comunicao e de sobrevivncia. So eles, hoje, que nos proporcionam informaes valiosas sobre a regio, pondo em evidncia questes relativas a seu povoamento, sua histria, economia, cultura, toponmia. Quanto deciso de fazer um recorte concernente origem dos topnimos, limitando o trabalho queles de origem indgena, convm ressaltar que o Maranho, como parte integrante do territrio pertencente, no sculo XVIII, ao Estado Colonial do Maranho, possua uma populao indgena formada por cerca de 30 povos, aproximadamente 250.000 indivduos, sendo assim um dos centros brasileiros de maior densidade de falares indgenas, pertencentes a dois troncos lingusticos Macro-J e Tupi-Guarani ou Macro-Tupi (cf. ELIA, 1979). Atualmente, o Maranho conta com uma populao autodeclarada indgena de 37.272 indivduos (IBGE, 2010). Dentre aqueles que se declaram indgenas, h os que se reconhecem pertencentes a um povo indgena, distribudos entre os povos Guaj/Aw-Guaj, Guajajara/Tenetehra, Kaapor/Urubu-Kaapor e Temb/Tenetehra, pertencentes ao tronco lingustico Tupi-Guarani, e Gavio/Pukobi do Maranho, Canela/Timbira, Krikati/Timbira, pertencentes ao tronco Macro-J. (INSTITUTO SCIO-AMBIENTAL COMBONIANO NORDESTE, 2004).Considerando essa realidade histrica, tnica e lingustico-cultural do Maranho, a presena significativa do ndio no territrio maranhense deixou marcas incontestes no lxico toponmico do Estado, razo pela qual se torna importante investigar essas marcas. O estudo segue os princpios tericos e metodolgicos da Onomstica, mais particularmente da Toponmia, e objetivou descrever a hidronmia e a hidrotoponmia maranhense de origem indgena, registrando o percurso onomstico desses topnimos, com vista ao resgate histrico de suas denominaes.A frente de povoamento LitorneaEstudos acerca do processo de ocupao do espao maranhense, dentre eles o de Trovo (2008), mencionam que o processo de ocupao do territrio maranhense se deu por meio de dois movimentos/duas frentes de expanso: a frente litornea, que tem como ponto de partida a Ilha de So Lus e que se distribui em seis direes rumo ao interior, utilizando o mar e o grande conjunto de rios caudalosos e perenes que compem a hidrografia maranhense, e a frente pastoril, cuja via de penetrao o mdio vale do rio Parnaba.152Figura 1 Frentes de expanso do MaranhoFonte: Trovo (2008, p. 13)Vale ressaltar, ainda, que o processo de ocupao pelos franceses, em 1612, da ilha de Upaon-au (upaon = ilha + au = grande), conhecida atualmente como ilha de So Lus, deu-se por meio das guas do Oceano Atlntico, assim como a expulso deles pelos portugueses em 1615, que catequizaram e domesticaram os ndios que ali se encontravam. Os portugueses sentiram a necessidade de explorar ainda mais as terras maranhenses, porm, para realizar essa explorao, as guas eram o nico meio de que dispunham.Com isso, contando com a ajuda dos ndios e partindo da ilha de So Lus, a frente litornea, segundo Trovo (2008), utilizou o mar e os rios, descrevendo diferentes percursos: duas ramificaes se deram ao longo do litoral por via martima e fluvial; outra seguiu pelo litoral e pela costa oriental, [...] alm de ter sido planejada para o desenvolvimento da pecuria e explorao de salinas tinha tambm como finalidade a comunicao com Cear e Pernambuco.(p. 14); outra seguiu montante do rio Itapecuru, sendo [...] a mais importante a ponto de tornar o referido rio a principal via de penetrao em direo ao interior do Estado.(p. 15); o rio Mearim, mais uma via da frente de ocupao do litoral, possibilitou o surgimento s suas margens de engenhos e fazendas, o que lhe rendeu o ttulo, segundo Cabral (1992 apud TROVO 2008, p. 16), de Prncipe Soberano de Todos os Rios da Capitania do Maranho; o rio Pindar, diferentemente da ramificao do rio Itapecuru, que foi considerada importante, deixou um saldo negativo: em 1616, o capito Bento Maciel Parente, auxiliado pelos jesutas, deu incio a uma guerra mortfera contra os ndios Guajajaras que habitavam a regio; o rio Munim, por sua vez, tambm possibilitou mais uma via de ocupao, principalmente por sua [...] proximidade com o Piau [...], assim como [por garantir] a segurana do transporte do ouro que, oriundo das reas de minerao, utilizava esse caminho hdrico para alcanar So Lus (p. 16-17).153Podemos dizer, tendo como base registros histricos, que a rea conhecida como frente litornea era povoada por povos indgenas, pois, quando da chegada da expedio liderada por Daniel de La Touche, Senhor de La Ravardire, em 1612, Existia ento, na ilha do Maranho, 23 aldeias de Tupinambs, nicos abitantes della. (MARANHO, 1946, p. 23). As aldeias maiores contavam com 500 a 600 ndios enquanto que as pequenas podiam ter de 200 a 300. O padre Abbville calculou, para essa poca, o nmero de 10 mil a 12 mil tupinamb, uma densidade demogrfica de 5 indivduos por quilometro quadrado. (GOMES, 2002 apud SILVA, 2010, p. 1134). essa poca a Ilha j era densamente habitada por tupinambs. Tinham vindo da costa leste, principalmente, por causa da ameaadora presena dos portugueses (Abbville, 1945:65), mas tambm por causa de sua busca pela Terra sem Mal (Metraux, 1979). A essa altura os franceses j mantinham um relacionamento de trocas comerciais havia mais de trinta anos com os tupinamb, especialmente com os da Ilha e da Serra do Ibiapaba, no Cear. Entre os produtos que comercializavam estava o pau brasil, a tatajuba, o taba-co e outros produtos por facas, machados, enxadas, tesouras, espelhos, panos, chapus, contas de vidro entre outros produtos baratos. (ABBVILLE, 1945 apud SILVA, 2010, p. 1134).Tendo em vista que na Ilha havia essa populao de Tupinamb, registra-se que:Fora da Ilha de So Lus, a oeste, em Tapuitapera havia de 15 a 20 aldeias tupinamb com uma populao dita superior da Ilha (ABBVILLE, 1945, p. 148). Mais a oeste, na Baa de Cum, havia outro grupo de tupinamb com um nmero equivalente de al-deias. Dessa rea at o Caet, na desembocadura do Rio Gurupi, havia mais de 20 a 24 aldeias tupinamb, fazendo um total de 40 a 50 mil ndios tupinamb vivendo ao longo da costa maranhense e paraense a partir da Ilha de So Lus. A sudeste, e para o interior, na altura dos cursos mdios dos Rios Itapecuru e Mearim, havia outra concentrao de aldeias tupinamb inimigas dos tupinamb da Ilha. A leste, ao longo da costa, viviam os Teremembs e mais umas 3 dezenas de povos especficos chamados de tapuias pelos Tupinamb. (GOMES, 2002 apud SILVA, 2010, p. 1136).Assim, selecionamos para este estudo a frente de povoamento litornea por sua grande quantidade de cursos dgua e grande quantidade de ndios donos das terras circunvizinhas.MetodologiaPrimeiramente delimitamos, por meio de mapas, a rea que foi pesquisada, tendo em vista nosso interesse nas reas de concentrao indgena maranhense, mais especificamente as localidades que se encontram na frente litornea. Vale destacar aqui a reproduo do mapa de Joo Teixeira Albernaz, elaborado em torno de 1613, um dos primeiros mapas do Maranho. 154Mapa 1 MaranhoFonte: http://objdigital.bn.br/acervo_digital/div_cartografia/cart555828.pdf Para coleta dos dados de nosso estudo, consultamos trs obras: duas traduzidas do francs Histria da misso dos padres capuchinhos na ilha do Maranho e terras circunvizinhas1, escrita pelo padre Claude DAbbville, e Viagem ao norte do Brasil: Feita nos anos de 1613 e 16142, do padre Yves Dvreux e uma escrita em portugus, A Poranduba maranhense, do Frei Francisco de Nossa Senhora dos Prazeres Maranho.Vale ressaltar a importncia das obras, pois temos relatos dos acontecimentos dos sculos passados que contribuem para os estudos da linguagem.Dentre elas, ainda chamamos ateno para a Poranduba maranhense que oferece aos estudiosos da lngua portuguesa, e em particular aos trabalhos que tm como foco o portugus falado no Maranho, um excelente conjunto de informaes sobre a lngua usada quela poca especificamente sobre o lxico relativo aos abitantes do Maranho, seos costumes e lingoa (captulo 29), s plantas (captulo 30), aos quadrupedes e outros animaes (captulo 31), s aves e insectos volteis (captulo 32) e aos peixes e anfbios dos rios e lagos (captulo 33).Em sntese, a Poranduba maranhense representa, assim, uma fonte de informaes para estudos de natureza lingustica, tanto em uma perspectiva sincrnica como diacrnica, que ajudam a melhor perceber o processo de variao e mudana pelo qual passa o portugus brasileiro, e em particular o falar maranhense.No que diz respeito s lnguas indgenas, as informaes contidas nas obras ratificam o lugar ocupado pelo Maranho como um dos centros brasileiros de maior densidade de falares indgenas, como evidenciado anteriormente.O lxico indgenaO enfoque do lxico de qualquer cultura exige que se aclare como se concebe esse elemento no mbito da lngua. Seguindo essa orientao, convm observar as consideraes que faz Biderman (2001) sobre o tema em questo. Segundo a autora,1 Traduo da obra Historie de la mission des pres capucins en lisle de Marignon et terres circonvoisines.2 Traduo da obra Voyage dans le nord du Bresil fait durant les annes 1613 e 1614 par le pre Yves dvreux.155O lxico de uma lngua natural constitui uma forma de registrar o conhecimento do uni-verso. Ao dar nomes aos seres e objetos, o homem os classifica simultaneamente. Assim, a nomeao da realidade pode ser considerada como etapa primeira no percurso cientfico do esprito humano de conhecimento do universo. Ao reunir os objetos em grupos, iden-tificando semelhanas e, inversamente, discriminando os traos distintivos que individu-alizam esses seres e objetos em entidades diferentes, o homem foi estruturando o mundo que o cerca, rotulando essas entidades discriminadas. (BIDERMAN, 2001, p. 13).As consideraes de Biderman (2001) encontram ressonncia na ideia de Dietrich e Noll (2010, p. 90-91) que, ao estudarem a influncia da lngua braslica no lxico do portugus falado no Brasil, assim explicam essa influncia:A motivao dos falantes do portugus para adotarem termos das lnguas braslicas, da lngua geral paulista, da lngua geral amaznica ou do nheengatu dada pela necessidade de denominarem objetos e realidades desconhecidas na tradio portuguesa, mas tpicas da natureza e da vida no Brasil. Assim natural que a grande maioria dos termos de ori-gem tupi pertena linguagem setorial da fauna, flora, natureza e cozinha. Geralmente so nomes, poucas vezes adjetivos ou verbos. Rodrigues (1986, p. 21) destaca a importncia dessa herana lingustica, dando exemplos de dados estatsticos referentes ao lxico Tupi(namb). Segundo o autor,Uma das conseqncias da prolongada convivncia do Tupinamb com o Portugus foi a incorporao a este ltimo de considervel nmero de palavras daquele. Numa amostra de pouco mais de mil nomes brasileiros populares de aves, um tero, cerca de 350 nomes, so oriundos do Tupinamb. Numa outra rea de fauna, em que a interao entre portu-gueses e ndios deve ter sido mais intensa, pois uns e outros eram grandes pescadores, a participao do vocabulrio do Tupinamb ainda maior: numa amostra de 550 nomes populares de peixes, quase metade (225 ou 46%) veio da lngua indgena. notvel a quantidade de lugares com nomes de origem Tupinamb, quase sem alterao de pronn-cia, muitos deles dados pelos luso-brasileiros dos sculos passados a localidades onde nunca viveram ndios Tupinamb. evidente a contribuio das lnguas indgenas. Vale ressaltar que, provavelmente, vrios topnimos considerados Tupinamb foram introduzidos no portugus por luso-brasileiros.Como visto anteriormente, significativo o nmero de vocbulos oriundos do Tupi(namb) presentes no portugus brasileiro. Segundo Ilari e Basso (2006, p. 68), S no Dicionrio histrico das palavras de origem tupi, de Antnio Geraldo Cunha, que especificamente dedicado aos termos de origem tupi, registram-se cerca de trs mil vozes..Tendo em vista que uma parte considervel do lxico relativo fauna, flora e s cozinhas regionais brasileiras tem sua origem no Tupi(namb), notvel a contribuio desse lxico no que diz respeito toponmia, em especial aos hidrnimos, que se referiam aos elementos que, antes de serem o acesso de vrias frentes de povoamento do homem branco, eram os locais de onde os ndios tiravam sua sobrevivncia.Resultados Fizemos a anlise dos dados seguindo o modelo das taxionomias toponmicas propostas por Dick (1990a). A autora sugere 27 taxes para classificao dos topnimos, divididos em dois grupos, os de Natureza Fsica e os de Natureza Antropocultural.Por meio da anlise dos dados, percebemos a forte presena de taxionomias de Natureza Fsica. Dentre elas, segundo Dick, destacam-se: Hidrotopnimos topnimos que contm o elemento gua ou as designaes de natureza hidrogrfica;156 Geomorfotopnimo topnimos referentes s formas geogrficas; Fitotopnimos topnimos que tm origem na flora; Ergotopnimo topnimos de natureza cultural.O estudo evidenciou ainda que, no mbito do percurso realizado pelos exploradores das terras, no houve modificaes em relao aos nomes dos rios pesquisados, prevalecendo assim o lxico de origem indgena. Quadro 1 Hidrnimos recolhidos nas obras consultadasTopnimo Rio PindarTaxionomia ErgotopnimoNotas Lingusticas De pid-ar anzol demorado, anzol de espera, anzol com isca que se deixa por longo tempo na gua. (TIBIRIA, 1985, p. 96)Pinar de pind, anzol, e r, diverso, diferente. (DABBEVILLE, 2008, p. 184, 325) (Notas do tradutor)Topnimo Rio MaiobaTaxionomia Fitotopnimo Notas Lingusticas MAYOE rivire et village; nom de certaines FEUILLES DARBRES QUI SONT fort longues & larges Maobe e Mayobe em Y.dEvreux; mas, conforme a explicao do texto, deve ser Taioba. (Caladium), composto de taya, como em Taiapouan, e oba, folha. (DABBEVILLE, 2008, p. 109) (Notas do tradutor)Topnimo Rio Munim Taxionomia GeomorfotopnimoNotas Lingustica Monim, Enrugar, encrespar, escolher. (BORDONI , s/d, p. 399)Mounin RIVIRE Munim, segundo Sampaio, corruptela de m-ni o que enrugado ou encrespado, o ondeado. [...] (DABBEVILLE, 2008, p. 184) (Notas do tradutor)Topnimo Rio Maracu Taxionomia Hidrotopnimo Notas LingusticasAlt. de mbar-cu, par-cu, lngua de mar, pequeno pntano formado prximo s praias, pela invaso das guas do mar. (TIBIRIA, 1985, p. 83)MARACOU rivire MARACU, sem explicao plausvel; Martius (Glossaria) pretende que seja a contrao de Ymira-urucu. (DABBEVILLE, 2008, p. 184)Topnimo Rio MearimTaxionomia ErgotopnimoNotas Lingusticas De mbiar-y, rio da caa. (TIBIRIA, 1985, p. 86)Topnimo Rio Cum Taxionomia FitotopnimoNotas LingusticasNome de uma planta da Amaznia, tambm chamada de sorva. (TIBIRIA, 1985, p. 45)Fuligem ou fava. Nomes de diversas plantas lactecentes do Brasil [...]. (LOPES, 1947, p. 98) 157Topnimo Rio ItapecuruTaxionomia Litotopnimo Notas LingusticasDo nheegatu itape-curu lage enrugada, ondulada. (TIBIRIA, 1985, p. 66)Taboucourou rivire Itapicuru, na topnmia atual. Nas crnicas e mapas se escreve variamente: Tapicuru, Tapucuru, Itapocuru, Itapicuru, etc. [...] pode derivar de itap, pedra chata, laje, e curu, cascalho, seixo, esprimindo seixos de laje [...]. (DABBEVILLE, 2008, p. 180) (Notas do tradutor)Topnimo Rio Bacanga Taxionomia Fitotopnimo Notas Lingusticas De yb-canga, fruto seco, baga, coquinho; Theodoro Sampaio traduziu por cabeceira das frutas por desconhecer os trabalhos de Lemos Barbosa, que nos legou valioso vocabulrio de tupi antigo. (TIBIRIA, 1985, p. 26) Ib + cang, canga (fruto + galho ou cabea)[...]. (LOPES, 1947, p. 28) ConclusoCom este recorte dos hidrnimos de origem indgena, mostramos que o lxico das lnguas indgenas contribuiu bastante para o conhecimento histrico-cultural maranhense, em especial no que diz respeito toponmia. Frisamos, assim, a importncia de estudos mais aprofundados sobre a toponmia e o lxico indgena no Maranho.REFERNCIAS BIDERMAN, M. T. C. As cincias do lxico. In: OLIVEIRA, A. M. P. P.; ISQUERDO, A. N. (Org.). As cincias do lxico: lexicologia, lexicografia, terminologia. 2. ed. Campo Grande: Editora da UFMS, 2001. p. 13-22.BORDONI, O. A Lngua Tupi na geografia do Brasil. 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So Lus: IMESC, 2008.159ENTRE CAMINHOS DA TERRA E CAMINHOS DAS GUAS: ESTUDO DE CASO HIDRONMIA DO RIO DAS VELHAS/MGLetcia Rodrigues Guimares MENDESIntroduoO presente trabalho tem como objetivo apresentar um recorte do estudo dos hidrnimos das localidades que compreendem o Alto e Mdio Rio das Velhas, regio que guarda profundos laos com a ocupao e fixao do desbravador bandeirante em territrio mineiro.Muitos estudos relacionados Onomstica, principalmente os que remetem toponmia e antroponmia, vm sendo realizados nos ltimos anos. Direcionados terra, ao homem, aos acidentes fsicos ou humanos, tm tomado vulto cada vez maior. Essa rea de pesquisa, ao mesmo tempo vasta e intrigante, leva o homem a conhecer mais sobre si mesmo e sobre o ambiente que o cerca, pois esse um campo de estudos que envolve, indissoluvelmente, lngua, histria e sociedade.Pelo fato de considerar o estudo da lngua aliado ao estudo da cultura, os campos de trabalhos referentes ao nomear abrem-nos um leque de possibilidades de pesquisa, e a essas esto relacionados os nomes dos acidentes fsicos de determinadas regies. Ao contrrio do que pode parecer a princpio, a nomeao desses acidentes encerra relaes profundas entre o nomeador e o nomeado. H diversos tipos de acidentes fsicos, e a se inserem os relacionados gua e nomeao de outros acidentes derivados desse campo; trata-se da hidronmia.O caminho das guasO caminho das guas foi um caminho de direcionamento. Mapas, mesmo os mais antigos, davam nfase aos acidentes fsicos, como morros e serras, e tambm a rios e diversos cursos dgua. Dentre tantos nomes, teriam os mais antigos se mantido, ou foram substitudos por outros? A que taxe toponmica corresponde a maioria dos nomes encontrados e qual a relao desses nomes com a cultura e a sociedade das Minas setecentistas, oitocentistas e mesmo com a sociedade de hoje? Eis algumas das questes a que procuraremos responder.Para os povos que primeiro adentraram os sertes mineiros, a gua e o caminho por elas indicado eram a rota das riquezas. Rios, nascentes, crregos e demais cursos dgua eram constantemente usados como referncia para indicar o caminho certo, ou o rumo a ser tomado. Nesse caminhar e desbravar, os nomes indgenas dos rios e demais cursos eram conhecidos, mas muitas vezes trocados por nomes relacionados passagem do homem branco pelos locais. Antes da chegada do homem branco, j existia outro nome, institudo, usado e conhecido pelos indgenas. Com o estabelecimento das relaes entre o homem branco e o gentio, alguns dos nomes de lugar foram traduzidos para a lngua do caraba, e, assim, eram utilizados, concomitantemente, nomes indgenas e no indgenas. Porm, no possvel precisar, devido ausncia de registros, o momento das transies dos nomes quando de sua passagem para a lngua do desbravador. o caso do Rio das Velhas, durante tempos conhecido como Uaimi e cuja traduo significa exatamente Rio das Velhas.Rio das Velhas: caminhos do ontem, caminhos de hojeA Bacia hidrogrfica do Rio das Velhas, alvo geral de nosso estudo, relaciona-se Bacia do Rio So Francisco, o qual desgua no Oceano Atlntico. Constitui-se como uma das principais bacias hdricas do estado de Minas Gerais. Na poca dos bandeirantes, depois de esgotada a explorao do ouro, esse rio continuou ainda a valer-se para os homens por muito tempo: seja para gui-los por novos caminhos, seja para escoar para municpios diversos produtos de uma regio, seja para o sustento com a imensa variedade de peixes encontrados nessas guas. Pelo Rio das 160Velhas navegaram expedies, ora com objetivo exploratrio, como as dos bandeirantes, ora com objetivo cientfico, como a de Bourton, em sua Viagem de canoa de Sabar ao Oceano Atlntico, e hoje, expedies com objetivos ambientais, como a do Projeto Manuelzo, desenvolvido em parceria com a UFMG e cujo propsito possibilitar, at o ano de 2010, que nos seja possvel novamente navegar, nadar e pescar nas guas do Velhas.A lngua como reflexo da sociedadeA linguagem, por seu valor e relevncia para o homem e a sociedade, sempre foi alvo de inmeros estudos. Abordagens atuais enfocam a lngua como algo intimamente relacionado cultura, s formas que o indivduo possui de enxergar, habitar e interpretar o mundo e o ambiente em que est inserido.Duranti (2000, p. 27, traduo nossa) ressalta que a possibilidade de fazer descries culturais [...] depende da medida em que determinado tipo de linguagem permita a seus falantes articular em um sistema o que fazem com as palavras na vida cotidiana1. O estudo das linguagens dentro das diferentes culturas permite-nos, portanto, estudar o homem como ser mutante e como modificador do ambiente em que vive. No um ser nico e pr-definido, mas sim moldado por fatores os mais diversos, como crenas, religio, ambiente, entre outros. Isso ocorre pelo fato de que cada indivduo, inserido em sua realidade cultural, utiliza palavras que reproduzem diferentes e particulares maneiras de refletir sobre o mundo e sobre a existncia humana. Labov (1968) defende a ideia de que necessrio compreender que a lngua um conjunto estruturado de normas sociais. Em outras palavras, poderamos dizer que a linguagem possui uma funo social.A palavra a primeira manifestao de uma linguagem articulada e com significado lgico, ou seja, uma entidade psicolingstica primordial, a primeira que faz dar sentido ao discurso humano. Ela fonte geradora de lgica, de ideias, de enunciados. Em nossa pesquisa, pudemos verificar a fora geradora de significados e sentidos representados nos nomes dos cursos dgua presentes em nosso corpus. Essa fora se produz atravs da ocupao humana, da cultura, da relao do homem com o ambiente que o cerca.Defendemos em nossa abordagem que impossvel considerar o estudo de uma sociedade sem considerar sua cultura. Diversos autores, como Duranti (2000), assinalam que o estudo da linguagem um recurso da cultura e, ainda, que a linguagem , sobretudo, uma prtica cultural. A cultura de uma sociedade no se manifesta apenas nas histrias que ouvimos contar uma ou outra vez. Tambm se encontra nos intercmbios que fazem possveis aqueles relatos, nas formas de organizao que permitem incluir uns e segregar outros2 (DURANTI, 2000, p. 27, traduo nossa). Estudos lexicais contemporneos Os estudos contemporneos tendem a seguir a concepo de lxico a partir do entrelaamento entre lngua, sociedade e cultura, conforme j assinalamos. Essa viso tomou maior amplitude com o desenvolvimento dos estudos da Antropologia Lingustica. O lxico o saber partilhado, faz parte do acervo vocabular de determinado grupo e representa sua viso de mundo.A Onomstica parte integrante do campo de estudos da Lexicologia, ou seja, do estudo das palavras. Onomstica, por definio, o estudo dos nomes prprios. Dentro da esfera Onomstica, esto dois outros campos de estudos: a Toponmia e a Antroponmia. A primeira a cincia que estuda os nomes de lugares, cidades e localidades diversas, bem como a origem e evoluo desses nomes; a segunda, os nomes de pessoas, por meio dos nomes prprios individuais: prenomes ou apelidos de famlia.1 La possibilidad de hacer descripciones culturales [...] depende de la medida em que un lenguaje determinado permita a sus hablantes articular en un sistema lo que hacen con las palabras en la vida corriente.2 [...] no solo se manifiesta en las historias que omos contar una y otra vez. Tambin se encuentra en los intercambios que hacen posible dichos relatos, em las formas de organizacin que permiten participar a unos y segregar a otros.161No presente trabalho, voltaremos nossa ateno Toponmia por ser esta a que abrange, mais especificamente, os objetivos de nosso estudo.Os estudos toponmicos constituem-se como bastante complexos. No tarefa fcil para o pesquisador investigar fatos relacionados aos nomes de lugares, pois esse tipo de pesquisa demanda diversas atividades, como observar a histria da transformao dos nomes, sua evoluo fontica, mudanas gramaticais, influncia das migraes, nomes impulsionados pela mitologia ou folclore, entre outros.Estudar o signo toponmico estudar uma diversa gama de fatores comunicacionais. O topnimo , muitas vezes, chamado de testemunho histrico, conforme afirma Dick (1990b, p.22): [...] a toponmia situa-se como a crnica de um povo, gravando o presente para o conhe-cimento das geraes futuras, o topnimo o instrumento dessa projeo temporal. [...] Torna-se, pois, a reminiscncia de um passado talvez esquecido, no fra a sua presena dinmica.A nomeao, seja de lugares ou, como em nosso caso, de acidentes fsicos, exige do nomeador a relao conhecimento x lugar nomeado, e, em muitos casos, o nome refletir, como j dissemos, caractersticas culturais, sociais, religiosas, entre outras, presentes na vida dos indivduos de determinada comunidade/regio, traos relacionados a seu mundo, e a determinados campos conceituais que, para ele, sejam capazes de representar a coexistncia entre a realidade e o objeto alvo de sua ateno. Essa relao pode ser considerada de suma importncia, seja numa perspectiva atual de determinada nomeao, ou no. Dick (1990a, p.30) observa:Ora, o homem, em sua qualidade de membro de um agrupamento, representa, por fora da introjeo de costumes e de hbitos generalizados, seno integralmente, pelo menos uma parcela significativa do pensamento coletivo. a resultante de uma modelagem constantemente burilada pelo prprio dinamismo das paralelas lnguo-sociolgicas em que se movimenta. Suas idias e manifestaes de esprito, suas atitudes e condutas conscientizadas, ou no, diante de situaes concretas reguladas pela necessidade huma-na de sobrevivncia e seu prprio existir, enfim, tornam-no a personalidade histrica a-temporal e a-espacial, por excelncia.A motivao toponmica constitui-se sobre duas vertentes: primeiro, na intencionalidade do denominador, isto , a eleio de um nome por circunstncias vrias, de ordem objetiva ou subjetiva, e segundo, sob o aspecto semntico da denominao, ou seja, no prprio significado, mais ou menos revelador. Seja sob quaisquer modalidades de motivao, teremos a envolvidos aspectos diacrnicos e sincrnicos, e, para o estudo da toponmia, seria vlida uma taxionomia criada para nomes de lugares. Dessa maneira, o signo lingstico, sob a funo toponmica, aproxima-se do real e torna clara a natureza semntica de seu significado.Estudos toponmicos no BrasilOs estudos toponmicos brasileiros receberam forte influncia das diretrizes traadas por Dauzat (1926). Desenvolveram-se consideravelmente a partir de Drumond3 (1965) e, posteriormente, Dick (1990). Antes, a ateno estava voltada para os estudos indgenas de origem tupi. A partir dos trabalhos de Dick, a cincia toponmica difundiu-se por nosso pas, e hoje temos diversas outras pesquisas feitas nessa rea que favoreceram enormemente os estudos da linguagem.Atualmente, h bastantes projetos sendo desenvolvidos por diferentes universidades brasileiras, que tm privilegiado, sobretudo, a elaborao de Atlas Toponmicos. Destacamos, no estado de Minas Gerais, o projeto de Atlas ao qual est vinculada nossa pesquisa: o ATEMIG, Atlas Toponmico do Estado de Minas Gerais, sob a coordenao da Professora Doutora Maria Cndida Trindade Costa de Seabra, na Faculdade de Letras da UFMG. Esse projeto variante 3 Carlos Drumond (FFLCH USP).162regional do ATB, Atlas Toponmico do Brasil, por sua vez coordenado pela Professora Doutora Maria Vicentina de Paula do Amaral Dick, na Faculdade de Filosofia, Letras e Cincias Humanas da Universidade de So Paulo.O ATEMIG, iniciado em 2005, j apresenta resultados parciais bastante significativos no que se refere ao estudo do territrio de Minas Gerais: as taxionomias predominantes em cada regio realmente refletem hbitos, traos culturais e de ocupao territorial, entre outros, nos lugares os quais o forasteiro conquistou como sendo de propriedade dele. Nossa pesquisa, por sua vez, nos levar a constatar se, no caso dos hidrnimos, os resultados se aproximam ou no dos topnimos na rea por ns delimitada, pertencente ao territrio mineiro.A relevncia de um estudo na Regio do Rio das VelhasAo observar a ocupao do territrio mineiro, bem como os caminhos e mapas seguidos pelos sertanistas, no nos restam dvidas da importncia dos cursos dgua para o direcionamento, o acesso e a sobrevivncia das comitivas em suas incurses.Os primeiros mapas destacam, alm de pontos de partida, nomes de picos e serras, o nome dos rios pelos quais se devia seguir, subir ou descer. Sem os rios, no era possvel seguir caminho, e por eles, garantia-se a pesca, a gua potvel, a caa e, muitas vezes, a navegao.Aps muitas andanas, os rios adquiriram valor maior para os bandeirantes, pois eram em suas aluvies encontrados traos da presena de preciosos metais, como o ouro. Nas margens do Rio das Velhas e de seus afluentes, instalaram-se os primeiros povoados da regio. Na rea rural, estabeleceram-se diversas fazendas, voltadas criao de gado, porm, ao sul, quase no limite com a comarca de Ouro Preto, predominou a atividade mineradora. Foi, durante muitos anos, a comarca mais densamente povoada, e as atividades e investimentos econmicos aconteciam, principalmente, na regio de Sabar e seu entorno. Muitas cidades passaram a ter grande importncia, como Ouro Preto, Sabar, Contagem, Caet, entre outras; determinadas regies, como os distritos de Quinta do Sumidouro e Fidalgo, centro dos acontecimentos relacionados aos primrdios da histria mineira, pertencem hoje a cidades maiores.Fazem parte da regio da Bacia do Rio das Velhas, at o seu limite com o Rio So Francisco, 51 municpios. Interessou-nos pesquisar 19 deles, integrantes da regio de estudos abarcada na presente pesquisa, e ordenados a seguir em ordem alfabtica: Belo Horizonte, Caet, Confins, Contagem, Esmeraldas, Itabirito, Lagoa Santa, Nova Lima, Nova Unio, Ouro Preto, Pedro Leopoldo, Raposos, Ribeiro das Neves, Rio Acima, Sabar, Santa Luzia, So Jos da Lapa, Taquarau de Minas e Vespasiano.O estudo da regio que abarca o Alto Rio das Velhas faz-se relevante, como j foi mencionado, pelo fato de essa regio ser importante como caminho utilizado pelos bandeirantes para a descoberta de ouro e outros metais preciosos, bem como o fato de o caminho das guas abrir tantos outros caminhos por terra e formar postos de parada onde, mais tarde, vieram a ser fundadas inmeras cidades mineiras.Nossa tese a de que atravs da toponmia, pela conservao de nomes de cursos dgua, temos registrados traos tnicos, lingusticos e culturais dos primeiros habitantes dessas regies. Em nosso estudo, temos como foco o nome dos rios e cursos dgua em geral. Nossa pesquisa foi desenvolvida sob as perspectivas sincrnica e diacrnica. Nosso corpus composto de mapas da regio mineira e da regio da Bacia do Rio das Velhas, feitos nos sculos XVIII, XIX e XX. Por esse motivo, os nomes encontrados nos mapas foram submetidos catalogao e anlise de sua grafia, estrutura morfolgica, origem e taxionomia. Por meio dos mapas, foi possvel verificarmos mudanas nos topnimos, propriamente ditos, ou em sua grafia, a freqncia com que cada nome foi registrado ao longo dos sculos, as taxionomias predominantes, entre outros dados.Em nosso trabalho optamos por fazer um levantamento bibliogrfico e buscar, em mapas antigos e contemporneos, dados que pudessem ilustrar, enriquecer e contribuir para o esclarecimento de questes que se levantaram.Os nomes dos cursos dgua em sua forma contempornea, analisados em nossa pesquisa, provm da catalogao dos dados coletados em mapas do estado de Minas Gerais, realizados e aprovados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatstica) nas dcadas de 1970, 1980 e 1990.163Apresentao dos resultadosDo montante total dos hidrnimos, foi feita a separao e quantificao de sua origem, taxionomia, qual o tipo de acidente a que pertencem e a estrutura morfolgica de cada um; esses foram os itens utilizados para a realizao de uma estatstica geral. Segue a anlise, subdividida em tpicos.A natureza dos hidrnimos subdivide-se em fsica e antropocultural. Em nosso corpus, tivemos, dentro do total de 820 ocorrncias, 420 hidrnimos de natureza fsica, 390 de natureza antropocultural e 10 no encontrados ou no classificados. J no que diz respeito classificao taxionmica, os dados de nossa pesquisa revelaram que os fitotopnimos alcanaram maior nmero de registros na regio estudada: 136. O fato de termos, na regio da Bacia do Rio das Velhas, a predominncia de fitotopnimos, mostra-nos o valor que a natureza representa para os habitantes dessa localidade. Voltando ao princpio adotado por ns, de que a lngua o reflexo da sociedade, em nossos dados temos uma ampla representao que vem confirmar esse fato.O homem desbravador, o bandeirante, o boiadeiro, aqueles que primeiro possuram os desertes mineiros, encontravam na natureza, ao mesmo tempo, mortal e agreste, o meio para sobreviver. A natureza, a muitos, parecia sombria, mas no a ponto de fazer os expedicionrios retrocederem. Os que conheciam a fundo o significado de uma empreitada ao serto, com o passar do tempo, cuidaram para que no lhes faltasse mantimento, pois diversas expedies foram malogradas devido falta de vveres. A natureza presente no territrio brasileiro, entretanto, muito poderia oferecer, tanto por sua abundncia, por meio de frutas ou caa, quanto de outros recursos indispensveis, meios de sobrevivncia aos desbravadores. A sobrevivncia dos incursionistas e a garantia de condies de vida favorveis dependiam, e muito, do conhecimento que detinham e do uso que faziam da natureza. Abboras eram alimento, bem como tambm o fruto das bananeiras. Angicos eram abundantes devido grande presena de cursos dgua e audes em todas as partes. A arnica era usada para tratar ferimentos; bambus, utilizados para diversos fins, como a confeco de cercas, aps o estabelecimento de reas de ocupao devidamente demarcadas, onde era possvel se plantar um batatal de bom tamanho. Da brana era retirada a madeira, utilizada para construo e cuja resina era aproveitada como alimento. O cip era utilizado para amarraes; da embira era possvel a produo de cordas e estopa. A utilidade dos recursos naturais foi e ainda hoje marcada por meio de topnimos e hidrnimos.Em segundo lugar, no que concerne Taxionomia dos dados de nossa pesquisa, aparecem os antropotopnimos, com 125 ocorrncias. Os antropotopnimos, como observamos, tambm se fizeram bastante presentes em nosso corpus. Detectamos diversos apelidos de famlia, prenomes, alcunhas, que nomeiam os cursos dgua abrangidos por nossa pesquisa. Nota-se que so nomes que se cristalizaram e se mantiveram ao longo dos anos, mesmo que o porqu das denominaes no seja mais conhecido. Segundo Seabra (2004), quando o nome encerra alguma relao com a histria, ele se mantm ao longo dos anos, mas, se a denominao estiver ligada a nomes de antigos sertanistas, pessoas pouco conhecidas e/ou que no se mantiveram na regio, a noo de sentido do nome se torna apagada e possvel que seja at substitudo por outro.Foi notvel tambm a presena dos hidrotopnimos, que ocupam o terceiro lugar em nossos resultados, com 92 ocorrncias. A gua ocupa alto valor no que diz respeito subsistncia e implantao de vilas, lugarejos e cidades em determinados locais. Os geomorfotopnimos aparecem em quarta colocao nos resultados, com 59 ocorrncias, e logo na sequncia, com 54 ocorrncias cada um, vm os sociotopnimos e animotopnimos.A presena de nomes ligados a caractersticas dos terrenos, como o relevo, depresses e elevaes, por meio de geomorfotopnimos, relaciona-se claramente ao processo de ocupao e estabelecimento do homem no territrio mineiro: sabemos que os bandeirantes guiavam-se por rios, alegravam-se ao avistar determinada Serra; um Morro Redondo, Morro Preto ou Morro Vermelho indicava-lhes a certeza do caminho. Atravessar crregos em forma de Funil, batizar a um belo campo de Campo Alegre, passar por Vargens, descobrir e explorar uma Mina, perder-se pelo Cafundo do territrio eram situaes cotidianas.164A presena dos sociotopnimos na nomeao do ambiente destaca-se pelo estabelecimento de profisses, como Boiadeiros, que, conforme os registros histricos, tambm foram pioneiros na ocupao de Minas; outros nomes, como Cumbe, Boticrio, Curral, Fazenda, Engenho, Quilombo, Rancho, Soca, Sangrador, mostram-nos retalhos da vida e do cotidiano das pessoas das pocas consideradas em nossa pesquisa. O mesmo se pode dizer sobre os zootopnimos, que nos afirmam a opulncia da natureza com a qual era necessrio saber lidar, ou dela tirar proveito: Cobras, Macacos, Quatis, Leito, entre outros.Os litotopnimos correspondem a um total de 49 ocorrncias em nosso corpus. Eles se relacionam tanto a minerais que representavam a riqueza, como Ouro, Prata e Cristais, mas tambm a minerais que representavam os caminhos, os ambientes e as construes, como Areias, Barro, Cascalheira, Lapa, Lajes.Hagiotopnimos e ergotopnimos apareceram na mesma proporo, ou seja, em nmero de 32 ocorrncias, o que, curiosamente, pe, segundo nossos dados, em p de igualdade, pelo menos no que se refere nomeao de rios e cursos dgua, alguns bens materiais, como Moinho, Piles e Andaime e os santos e santas catlicos, como Santa Ana, Santa Lcia, Santa Paula, So Jos, etc. Ao contrrio do que se poderia esperar desse territrio, por ser um territrio mineiro, em que a religiosidade sempre parece ser bastante expressiva, nos dados de nosso corpus ela no se fez presente de forma predominante. As demais taxionomias, como hierotopnimos, dimensiotopnimos axiotopnimos e cromotopnimos receberam nmero menor que 20 ocorrncias. Poliotopnimos, numerotopnimos, cardinotopnimos e astrotopnimos receberam um total menor ou igual a 1 ocorrncia.Consideraes finaisDurante essa jornada pelos estudos da hidronmia do Rio das Velhas, foi-nos possvel conhecer mais sobre a histria de Minas e constatar, o quanto, ainda hoje, somos influenciados por fatos que ocorreram h sculos. O passado dialoga com o presente, e sabemos, a lngua e a cultura influenciam em muito nosso comportamento, nossos hbitos, nossa maneira de habitar nosso espao e enxergar o que nos cerca. Finalizamos, assim, o presente estudo, valendo-nos da afirmao que se encontra em Seabra (2004, p. 384): a Toponmia tem um compromisso com a lngua como voz, ferramenta e fundamento da experincia humana, transmitindo informaes e refletindo a histria dos povos.REFERNCIASDAUZAT, A. Les noms de lieux. Paris: Delagrave, 1926.DICK, M. V. de P. do A. A Motivao Toponmica e a Realidade Brasileira. So Paulo: Governo do Estado de So Paulo/Edies Arquivo do Estado, 1990a.______. Toponmia e Antroponmia no Brasil. Coletnea de Estudos. 2. ed. So Paulo: FFLCH/USP, 1990b.DRUMOND, C. Contribuio do bororo toponmia braslica. So Paulo: Editora USP, 1965.DURANTI, A. Antropologia Linguistica. Madrid: Cambridge University Press, 2000.LABOV, W. The Reflexion of Social Processes in Linguistic Structures. In: FISHMAN, J. (Ed.). Readings in the Sociology of Language. The Hague: Mounton, 1968. p. 240-251.SEABRA, M. C. T. C. A formao e a fixao da Lngua Portuguesa em Minas Gerais: a toponmia da Regio do Carmo. 2004. 399f. Tese (Doutorado em Estudos Lingusticos) Faculdade de Letras, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2004.165ONOMSTICA COMERCIAL: O USO DA LNGUA INGLESA NA FORMAO DE NOMES DE ESTABELECIMENTOS COMERCIAIS NO PORTUGUS BRASILEIRONatlia Cristine PRADOIntroduoO lxico das lnguas est em constante atualizao e isso ocorre atravs de palavras criadas com elementos de sua prpria lngua ou atravs de emprstimos de outras lnguas (ALVES, 1990). O emprstimo de palavras de outros idiomas para o Portugus Brasileiro (doravante PB) um fenmeno antigo. Como lembra Trask (2004), o lxico do PB foi acumulando ao longo dos anos palavras de lnguas de povos que, juntamente com os portugueses, participaram da formao da populao do pas: os indgenas, os escravos africanos e os imigrantes europeus (TRASK, 2004, p. 219). De acordo com Paiva (1991, p. 109), assim como importamos mercadorias de outros pases, palavras estrangeiras tambm tero ampla acolhida no mercado lingustico brasileiro. No entanto, esse assunto vem ganhando destaque no meio acadmico, na mdia e at mesmo na poltica1 em razo da crescida quantidade de palavras emprestadas do ingls: os chamados anglicismos.A influncia do Ingls Norte-Americano (doravante IA) no portugus e em outras lnguas no atual contexto histrico , para alguns autores, uma das consequncias do contnuo processo de globalizao que visto, comumente, como resultado do poderio econmico, poltico, militar e cultural que os EUA adquiriram aps a Segunda Guerra Mundial e, mais notadamente, com a queda do muro de Berlim em 1989 (RAJAGOPALAN, 2005). No entanto, o conceito de globalizao bastante complexo e, como lembra Guilln (2001, p. 235, traduo nossa), Um dos tpicos mais contestados nas cincias sociais2. Embora alguns estudiosos situem a origem deste fenmeno na atualidade, h quem acredite que a sua histria comeou antes da era das descobertas e viagens ao chamado novo mundo pelos europeus.Assim, muitas pessoas, querendo associar a superioridade dos produtos importados (principalmente os made in USA) ao seu prprio negcio, usam para nomear um novo estabelecimento comercial ou um novo produto uma palavra emprestada de outra lngua, normalmente, da lngua inglesa. Desta forma, existem nomes comerciais no Brasil que so palavras estrangeiras. Como lembram Garcez e Zilles (2004, p. 22-23):O apelo da mquina capitalista globalizante forte demais para que a mdia da informa-o, do entretenimento e, principalmente, da publicidade possa ou queira deixar de ex-plorar as associaes semiticas entre a lngua inglesa e o enorme repositrio de recursos simblicos, econmicos e sociais por ela mediados. Portanto, em virtude deste cenrio lingustico e cultural no Brasil, pretendemos, neste estudo, observar a formao de nomes comerciais com elementos do ingls em PB observando como os emprstimos se comportam lingustica e culturalmente nessa variedade do portugus.1 No podemos deixar de nos referir aqui ao Projeto de lei n. 1676 de 1999 do ento deputado Aldo Rebelo. Este Projeto dispunha sobre a proteo, a defesa e o uso da Lngua Portuguesa e visava proibio do uso de palavras estrangeiras, sobretudo os anglicismos, no PB. Na poca, o assunto gerou grande revolta na comunidade lingustica, que se manifestou contrria ao Projeto (FARACO, 2004; FIORIN, 2004; GARCEZ, ZILLES, 2004; MASSINI-CAGLIARI, 2004a, 2004b; ZILLES, 2004). Posteriormente, este Projeto foi reformulado e aprovado pelo Senado em uma nova verso que foi proposta pelo senador Amir Lando, em 28 de maio de 2003.2 [] one of the most contested topics in the social sciences.166A onomstica e os estudos dos nomes comerciaisDe acordo com Gurios (19--), de modo geral, o estudo dos nomes prprios faz parte da disciplina chamada Onomstica ou Onomatologia. O autor comenta o trabalho Antroponmia Portuguesa (VASCONCELOS, 1928), notando que Vasconcelos divide os nomes prprios em trs tipos principais (Toponmia estudo dos nomes de lugares ou geogrficos; Antroponmia estudo dos nomes prprios de pessoa; Panteonmia estudo de nomes prprios variados, como de animais, navios, seres sobrenaturais e ttulos de livros), alm de comentar outros tipos de nomes (Astronmia estudo dos nomes de astros; Teonmia estudo de nomes de deuses; entre outros), mas observa que, nesta obra de Vasconcelos (1928), no h preocupao com o estudo dos nomes prprios de artigos comerciais ou produtos das indstrias. Para Gurios (19--, p. 180), no deve ser desconsiderado esse novo campo que oferece multiformes interesses, e, em derradeira anlise, manifestao espiritual, e, portanto, digna de estudo. De acordo com ele, como consequncia do grande progresso material em todos os setores industriais, os nomes surgem diariamente no mercado, no s em tamanha variedade, mas tambm em quantidade tal, que possibilita at uma sistemtica. De acordo com Bechara (2009, p. 55), existem disciplinas lexicolgicas que esto preocupadas com a origem das palavras. O autor cita a etimologia (estudo da origem das palavras) e a onomstica (estudo dos nomes prprios). Embora seja um campo vasto, o autor divide a onomstica em antroponmia (estudo da histria dos nomes de pessoa) e toponmia (histria dos nomes de lugares), mas no menciona o estudo dos nomes comerciais. Monteiro (2002, p. 205, grifo nosso) cita a mesma diviso feita por Bechara (2009), mas afirma que outros grupos de nomes prprios merecem ser lembrados: os nomes de animais (zonimos), de astros (astrnimos), de seres sobrenaturais (tenimos), de marcas ou produtos industrializados (oninimos), de firmas comerciais, de instituies etc. Para Monteiro (2002, p. 205), o comportamento morfolgico dos nomes prprios semelhante aos nomes comuns, mas afirma que dado o carter individualizante que os define, no deveriam flexionar-se em nmero. Se admitem flexo, assumem a natureza dos nomes comuns. Desse modo, do ponto de vista do autor, Joo e Brasil so nomes prprios, mas joes e brasis3 deveriam ser considerados comuns. Com relao aos nomes prprios comerciais, alm dos nomes que designam apenas um estabelecimento comercial, existem alguns exemplos bastante conhecidos de nomes comerciais que esto no plural como Lojas Americanas, Pernambucanas e Casas Bahia entretanto, nesses casos, os nomes designam uma rede de lojas, por isso o plural se justifica como nome prprio. O pesquisador argumenta que as gramticas costumam omitir os processos de formao dos nomes prprios, sem qualquer tipo de justificativa. Ele lembra que existem bons estudos sobre toponmia, mas que acabam mais voltados para os aspectos etimolgicos. J com relao aos outros nomes prprios, exceto os antropnimos e oninimos, o autor supe que o interesse pela pesquisa seja muito reduzido. Nesta pesquisa, interessa-nos particularmente, no campo dos estudos onomsticos, o estudo da onomstica comercial, pois nosso estudo observa nomes de estabelecimentos comerciais, isto , os nomes das casas comerciais que chegam ao pblico.4 Para Gurios (19--, p. 180), o primeiro problema que se estabelece ao estudar nomes comerciais a designao tcnica do nome dos produtos industriais e sua consequente disciplina; assim, o autor estabelece o nome tcnico oninimo (derivado do grego nion - que significa artigo comercial) para nomes de artigos comerciais e onionmia para a disciplina que estuda esses nomes. Outros termos usados pelo autor so: onomstica industrial ou onionomstica (por influncia do termo toponomstica, que significa o mesmo que toponmia). 3 Esse tipo de uso pode ocorrer em frases como O Brasil um pas de mltiplas culturas: h vrios brasis dentro do Brasil. (exemplo nosso).4 Esse tipo de nome comercial ao qual nos referimos aqui o nome que serve para a divulgao da empresa e seus produtos, e se ope Razo Social, Firma ou Nome Empresarial, que o nome utilizado perante os rgos pblicos de registro das pessoas jurdicas. Esse nome conhecido popularmente como Nome Fantasia ou Nome de Fachada, mas chamado, no campo jurdico, de Ttulo de Estabelecimento. Segundo Bortoli (2006, p. 90), o ttulo de estabelecimento o nome de fachada, um termo publicitrio com a finalidade de dar conhecimento da empresa junto ao pblico e clientes. De acordo com o autor, o ttulo de estabelecimento direito intelectual, amparado contra o uso indevido, sem necessidade de qualquer registro e possui proteo supletiva contra a concorrncia desleal atravs de diversas leis. Alm disso, no plano prtico, de se destacar a possibilidade de registrar o ttulo do estabelecimento como uma marca, caso diferente do nome comercial, para dar-lhe proteo. O autor cita como exemplo o ttulo de estabelecimento Fbrica de Brinquedos Asteroide, cujo nome empresarial (firma) Jos Asteroide & Cia. Ltda. e vende brinquedos da marca Brinquedos Asteroide.167Embora o autor esteja observando em seu trabalho apenas nomes de artigos comerciais (como Kibon, marca de sorvete, e Singer, marca de mquina de costurar roupas), nomes de estabelecimentos comerciais, por serem parte do lxico voltado para atividades do comrcio, tambm podem ser considerados como pertencentes ao campo de estudo da onionmia. Neste trabalho, como estamos observando especificamente nomes de casas comerciais, preferimos adotar a designao onomstica comercial ou onionmia para nos referirmos disciplina. Em seu trabalho, observamos que o autor usa o termo oninimo para se referir especificamente aos nomes de artigos comerciais, ou seja, s marcas de produtos; entretanto, os nomes das marcas tambm podem designar estabelecimentos comerciais e vice-versa (como, por exemplo, a loja chamada Louis Vuitton, que vende bolsas da marca de mesmo nome), por isso o termo oninimo tambm se aplica aos nomes de estabelecimentos comercias. Todavia, como neste trabalho estamos observando especificamente os nomes de fachada de estabelecimentos comerciais, optamos por usar termos mais transparentes como nomes comerciais, nomes prprios comerciais ou ainda nomes de estabelecimentos comerciais, para nos referirmos aos nomes coletados em nossos corpora.Procedimentos metodolgicos e anlise de dadosEm primeiro lugar, preocupamo-nos com a coleta dos dados que viro a ser descritos e analisados neste estudo, por isso, a coleta dos dados do PB foi cuidadosamente realizada a partir do site Guia Mais5, que contm a informao comercial dos 26 estados do Brasil e do Distrito Federal. A partir desse site possvel pesquisar nomes de estabelecimentos comerciais existentes no pas inteiro, porm, optamos por fazer um recorte e realizar a pesquisa apenas no interior de So Paulo. Alm disso, as empresas esto separadas por categorias, o que agilizou a busca, separao, categorizao e a quantificao dos dados. Foi consultado um total de 7271 estabelecimentos cadastrados no interior de So Paulo sendo que 862 deles tm algum elemento da lngua inglesa como vemos na Tabela 1, abaixo.Tabela 1 Total dos nomes comerciais com elementos do ingls no PB separados por tipo de categoria comercialTotal dos nomes com elementos do ingls no PBCategoriasn de nomes coletados% dos nomes coletadosAcademias Desportivas 84 10%Automveis Peas e Servios 67 8%Cabeleireiros e Institutos de Beleza 20724%Informtica 85 10%Hotis e Motis 64 7%Lavanderias 26 3%Mveis 34 4%Padarias e Confeitarias 17 2%Restaurantes e Bares 104 12%Roupas 174 20%Total 862 100%Fonte: 5 .http://www.guiamais.com.brhttp://www.guiamais.com.br168Consideramos nomes com elementos do ingls qualquer denominao comercial que fosse totalmente em ingls, como no caso da academia Lofty Sport, ou que misturasse elementos ingleses com palavras do portugus, como Aplausos Studios Hair. Como pode-se ver atravs da Tabela 1, consultamos nomes comerciais em dez setores do comrcio: Academias Desportivas, Automveis Peas e Servios, Cabeleireiros e Institutos de Beleza, Informtica Equipamentos e Assistncia, Hotis e Motis, Lavanderias, Mveis, Padarias e confeitarias, Restaurantes e Bares e, por fim, Roupas. A maior parte desses nomes comerciais ligada, respectivamente, ao setor de Cabeleireiros e Institutos de Beleza (24% dos nomes comerciais o que corresponde a 207 nomes); de Roupas (20% dos nomes comerciais o que corresponde a 174 nomes) e, finalmente, de Restaurantes e Bares (12% dos nomes comerciais o que corresponde a 104 nomes comerciais). Os demais setores tambm contriburam com nomes em ingls, como vemos na mesma tabela. No Quadro 1, abaixo, encontram-se alguns exemplos de nomes comerciais coletados na pesquisa.Quadro 1 - Exemplos de nomes comerciais coletadosLavanderias Mveis Padarias e ConfeitariasRestaurantes e BaresRoupasClean Plus Big Lar Mveis Big Mix Restaurante China In BoxAngels ModasLavwhite LimpadoraMveis Wolf Padaria Shopping Boalins Food Cherry ModasWork Lavanderia IndustrialVia Arts Panificadora Mister CookHighlander Mister JovemFonte: Alm desses, quantificamos tambm um total de 145 nomes comerciais com grafia estilizada (termo usado por Neves, 1971). De acordo com Neves (1971, p. 105), muitos neologismos comerciais baseiam-se quase que exclusivamente numa maneira bizarra, extravagante, de escrever a palavra. Nesta pesquisa, essa definio ser usada para classificar nomes comerciais que fogem grafia da lngua portuguesa, mas tambm no so ingleses, como, por exemplo, Mymo Modas e Officina da Malha (falaremos melhor desses casos adiante). Mesmo tendo encontrado um bom nmero de nomes comerciais com elementos do ingls e tambm com grafia estilizada, constatamos que 6264 nomes, num total de 7271 estabelecimentos consultados, so formados, sobretudo, por palavras do portugus6, como podemos ver no Grfico 1 e na Tabela 2:6 A categoria Outros nomes inclui todos os nomes que no so alvo desta pesquisa, isto , nomes formados por palavras do portugus e formados com elementos de outras lnguas. Como nesta pesquisa sero enfocados apenas os nomes comerciais com elementos da lngua inglesa, no foi feita a quantificao dos nomes comerciais com elementos de outras lnguas estrangeiras, entretanto, como pudemos observar ao longo da coleta de dados, estes nomes apareciam raramente, sendo mais comum o aparecimento de nomes comerciais formados somente com palavras do portugus.http://www.guiamais.com.br169Grfico 1 Porcentagem do total dos nomes comerciais pesquisados em PB separados por tipos de elementos lingusticosFonte: Tabela 2 Total dos nomes comerciais coletados no PB separados por elementos lingusticosCategoriasNomes com grafia estilizadaNomes com elementos do inglsOutros nomesTotal dos estabelecimentos cadastradosAcademias Desportivas 11 84 211 306Automveis Peas e Servios 9 67 611 687Cabeleireiros e Institutos de Beleza 33 207 1115 1355Informtica Equipamentos e Assistncia 4 85 215 304Hotis e Motis 2 64 386 452Lavanderias 12 26 164 202Mveis 8 34 614 656Padarias e Confeitarias 8 17 882 907Restaurantes e Bares 19 104 926 1049Roupas 37 174 1142 1353Total 143 862 6266 7271Fonte: Como observamos, tanto o Grfico 1 quanto a Tabela 2 mostram que apenas uma parcela pequena dos dados trazem elementos da lngua inglesa 12% do total dos nomes consultados e uma parcela ainda menor apenas 2% dos nomes consultados so formados por grafia estilizada. Desse modo podemos concluir que a maioria dos nomes comerciais do interior de So Paulo 86% dos nomes comerciais consultados formada principalmente pela lngua portuguesa. Para dar incio s anlises dos nomes comerciais, primeiramente fizemos uma separao dos nomes comerciais e de seus subttulos. Por exemplo: encontrvamos no site o nome comercial Art studio adesivos e etiquetas e fazamos a separao do nome comercial propriamente dito art studio e de seu subttulo adesivos e etiquetas. Na Tabela 3, vemos que no nosso corpus existem poucos nomes comerciais com subttulos, ou seja, apenas 80 nomes o que corresponde a 9% dos nomes comerciais do nosso corpus do PB.http://www.guiamais.com.br170Tabela 3 Total dos nomes comerciais com subttuloCategoriasNomes com subttulo em PBAcademias Desportivas 3Automveis Peas e Servios 14Cabeleireiros e Institutos de Beleza 26Informtica Equipamentos e Assistncia 10Hotis e Motis 2Lavanderias 4Mveis 7Padarias e Confeitarias 1Restaurantes e Bares 6Roupas 7Total 80Fonte: Nesse momento, nomes comerciais que continham elementos do ingls apenas no subttulo foram retirados do corpus (como o caso do nome lcool Iris Panquecas e Drinks, cujo nome lcool Iris e o subttulo Panquecas e Drinks), pois nos interessam apenas nomes comerciais que tenham elementos do ingls no seu nome, j que os subttulos no sero considerados na anlise. Em alguns casos, o subttulo est separado pela pontuao (como no nome Athletic Way Equipamentos para Ginstica) o que torna mais fcil a separao. Em outros casos, o que nome e o que subttulo no est to evidente, o que gerou dificuldades de separao (como no exemplo Brush Beleza e Esttica, em que ficamos em dvida sobre a parte Beleza e Esttica ser subttulo, mas acabamos considerando tudo como ttulo).A partir dessa separao, fizemos uma anlise baseando-nos na ordem das palavras que compem os nomes comerciais. Sabemos que compostos tipicamente portugueses seguem a ordem determinado-determinante (SANDMANN, 1997). Compostos em que o determinante aparece antes do determinado esto sofrendo influncia, sobretudo, do ingls no caso do meio comercial e dos nomes comerciais que estamos pesquisando isso se torna mais evidente, j que eles contm elementos da lngua inglesa. Dessa forma, observamos a ordem das palavras nos nomes de acordo com o seguinte esquema:http://www.guiamais.com.br171No caso de nomes com estrutura morfossinttica do ingls, o ncleo pode ser tanto uma palavra da lngua portuguesa quanto da lngua inglesa, desde que seja no final do nome comercial. Por exemplo, Clip Academia um nome de estrutura morfossinttica inglesa com o ncleo em portugus e Sports Gym um nome de estrutura morfossinttica do ingls com ncleo em ingls. Para nomes com estrutura morfossinttica do portugus, tambm observamos se o ncleo em portugus ou ingls e se est no incio do nome comercial, como, por exemplo, Academia All Rackets Sports (com ncleo inicial em portugus) e Show de Beleza (com ncleo inicial em ingls). Alguns casos apresentaram dvidas de classificao. Por exemplo, o nome comercial Banana Broadway (categoria de Academias Desportivas) poderia ser considerado como nome de ncleo inicial em portugus (banana do tipo Broadway) ou como nome de ncleo final em ingls (existem outros nomes comerciais que usam a combinao banana + ncleo, por exemplo, Banana Boat nome comercial bastante conhecido, mas que no est nos nossos corpora). Alm disso, banana pode ser uma palavra do portugus ou do ingls. Acabamos optando pela segunda opo de anlise e classificando esse nome como sendo de estrutura morfossinttica do ingls. Podemos observar, abaixo, alguns exemplos de nomes comerciais de ncleo inicial e de ncleo final. (01) Nomes de ncleo inicial no PBa) Vila Trainingb) Auto Mecnica Hot Pointc) Clnica de beleza New Look(02)Nomes de ncleo final no PBd) Water Centere) Brasil Carf) Charms cabeleireirosComo podemos ver na Tabela 4, a maioria dos nomes comerciais com elementos do ingls que coletamos no PB de estrutura morfossinttica do ingls (com ncleo final).172Tabela 4 Total dos nomes comerciais com elementos do ingls no PB separados por estrutura morfossintticaCategoriasNomes com estrutura morfossinttica do portugusNomes com estrutura morfossinttica do ingls Academias Desportivasn % n %53 20% 31 5%Automveis - Peas e Servios 17 7% 50 8%Cabeleireiros e Institutos de Beleza 66 26% 141 23%Informtica Equipamentos e Assistncia 12 5% 73 12%Hotis e Motis 24 9% 40 7%Lavanderias 7 3% 19 3%Mveis 13 5% 21 4%Padarias e Confeitarias 5 2% 12 2%Restaurantes e Bares 29 11% 75 12%Roupas 32 12% 142 24%Total 258 100% 604 100%Fonte: Elaborao prpriaComo vemos na Tabela 4, apenas 258 nomes comerciais com elementos do ingls no PB so de estrutura morfossinttica do portugus, enquanto a maioria dos nomes, 604 nomes comerciais (o que equivale a 70% dos nomes comerciais com elementos do ingls no PB), de estrutura morfossinttica do ingls. A maior parte dos nomes com estrutura morfossinttica portuguesa no PB est nos setores de Cabeleireiros e Institutos de Beleza (66 nomes, o que corresponde a 26% dos nomes de estrutura morfossinttica do portugus), Academias Desportivas (53 nomes, o que corresponde a 20% dos nomes de estrutura morfossinttica do portugus), Roupas (32 nomes, o que corresponde a 12% dos nomes com estrutura morfossinttica do portugus) e Restaurantes e Bares (29 nomes, o que corresponde a 11% dos nomes de estrutura morfossinttica do portugus). O restante dos setores do comrcio tambm foi produtivo em nomes comerciais com estrutura morfossinttica do portugus, porm em menor porcentagem.J com relao aos nomes comerciais com estrutura morfossinttica do ingls, vemos na Tabela 4 que a maioria dos nomes com essa estrutura est distribuda nos seguintes setores do comrcio: Roupas (142 nomes, o que corresponde a 24% nomes comerciais de estrutura morfossinttica do ingls), Cabeleireiros e Institutos de beleza (141 nomes comerciais, o que corresponde a 23% dos nomes de estrutura morfossinttica do ingls), Restaurantes e Bares (75 nomes comerciais, o que corresponde a 12% dos nomes de estrutura morfossinttica do ingls) e Informtica Equipamentos e Assistncia (73 nomes, o que tambm corresponde a aproximadamente 12% dos nomes com estrutura morfossinttica do ingls). O restante dos setores do comrcio foi produtivo em nomes comerciais com estrutura morfossinttica do ingls em menor porcentagem. Como notamos a partir da coleta dos dados, alm de nomes comerciais que apresentam elementos do ingls tambm existem, em menor nmero, nomes comerciais com escritas estilizadas, isto , nomes que fogem ao sistema ortogrfico do portugus, mas cujos elementos no so apenas ingleses, como o caso dos nomes comerciais Autocenter Skino e Toks & Retoks Esttica. Como dissemos anteriormente e podemos ver pela Tabela 5, abaixo, encontramos 145 nomes com grafia estilizada.173Tabela 5 Total dos nomes com grafia estilizadaCategorias Nomes com grafia estilizada no PBAcademias Desportivas 11Automveis - Peas e Servios 9Cabeleireiros e Institutos de Beleza 33Informtica Equipamentos e Assistncia 4Hotis e Motis 2Lavanderias 12Mveis 8Padarias e Confeitarias 10Restaurantes e Bares 19Roupas 37Total 145Fonte: Elaborao prpriaNos casos dos trs nomes que citamos acima, pode-se perceber que a pronncia permanece a mesma de uma escrita convencional do portugus (Esquino, Toques e Retoques e Que bom). A maioria dos nomes com escrita estilizada tenta trazer algum elemento diferente para a escrita, muitas vezes numa tentativa de imitar a ortografia da lngua inglesa no caso de Skino h a sequncia sk, que no tpica da ortografia portuguesa, assim como palavras com slabas terminadas em k na escrita, casos de Tok e Retok. Roberto Pompeu de Toledo chama a ateno para o fato de que, comparados ao Brasil, poucos pases, fora os de lngua inglesa, tero tantas lojas, produtos, servios ou eventos batizados em ingls alegando que comprar na Baccos, em So Paulo, ou bebericar no Leos Pub, no Rio, no teria o mesmo efeito se o nome desses estabelecimentos no ostentasse aquele penduricalho, delicado como joia, civilizado como o frio (TOLEDO, 2007). De acordo com o articulista o emprego do s Brasil afora muito peculiar, e quem sair cata das vrias formas em que encontrado terminar com uma rica coleo (TOLEDO, 2007). A opinio de Toledo (2007) representa a observao de um falante comum da lngua portuguesa, ou seja, uma observao casual e informal, no se tratando, assim, de uma pesquisa cientfica, mas, como nomes com s costumam chamar a ateno nas ruas, nossa expectativa tambm era a de encontrar muitos nomes com esse elemento. No entanto, ao procurar nomes comerciais com s tpico do caso genitivo da lngua inglesa observamos que o uso desse elemento no to comum quanto imaginvamos. Como apresentamos na Tabela 6, abaixo, em nosso corpus h apenas 108 nomes comerciais com s no PB e somente 20 nomes com s e escrita estilizada.174Tabela 6 Total de nomes com s no PBCategoriasNomes com s e elementos do ingls no PB Nomes com s e escrita estilizada no PB Academias Desportivasn % n %3 3% 3 15%Automveis Peas e Servios 3 3% 0 0%Cabeleireiros e Institutos de Beleza 45 41% 9 45%Informtica Equipamentos e Assistncia 3 3% 1 5%Hotis e Motis 2 2% 0 0%Lavanderias 0 0% 0 0%Mveis 4 3% 1 5%Padarias e Confeitarias 4 4% 0 0%Restaurantes e Bares 28 26% 2 10%Roupas 16 15% 4 20%Total 108 100% 20 100%Fonte: Elaborao prpriaNotamos, a partir da Tabela 6 que a maioria das ocorrncias do s nos nomes comerciais com elementos do ingls apareceu na categoria de Cabeleireiros e Institutos de Beleza (41% dos nomes), seguida pela categoria de Restaurantes e Bares (o que corresponde a 26% dos nomes) e pela de Roupas (15% dos nomes comerciais). Nos nomes com grafia estilizada, as maiores ocorrncias de s foram, respectivamente, nas categorias de Cabeleireiros e Institutos de Beleza (45% dos nomes), Roupas (correspondendo a 20% dos nomes) e Academia Desportivas (15% dos nomes). Desse modo, vemos que o uso do s na formao de nomes comerciais em nosso corpus mostrou-se mais baixo que o esperado. Consideraes finaisA pesquisa realizada neste estudo observa a formao de nomes comerciais com elementos do ingls em contexto de PB, no interior de So Paulo. Sabemos que os estrangeirismos provocam dualidades: so estimados por uns e detestados por outros. No entanto, indiscutvel que as palavras de origem estrangeira so uma importante fonte de neologismos e contribuem para a renovao da lngua portuguesa e de outros idiomas.Com relao penetrao da lngua inglesa no Brasil e no mundo, Paiva (1991, p. 45) nota que ainda h uma varivel que no pode ser ignorada: a presena hegemnica dos Estados Unidos no mundo. O terceiro mundo no est mais sendo dominado essencialmente pela fora armada, mas pela lngua, matria prima do imperialismo cultural causado pela dependncia econmica (PAIVA, 1991, p. 45)7. Assim, no podemos deixar de considerar que a lngua inglesa acaba sendo associada tambm a uma sociedade de prestigio, poder e consumo que os E.U.A. representam; afinal, a lngua, como observa Paiva (1991, p. 102), 7 Embora essa pesquisa tenha sido feita na ltima dcada do sculo passado e o cenrio poltico e econmico atual seja um pouco diferente, essas observaes da autora ainda se encontram atuais na medida em que vemos muitos estabelecimentos comerciais associando seus produtos aos signos de lngua inglesa e a tudo que ela simboliza. 175[...] um bem social, mas a hierarquia produzida pela diviso de classes reproduzida nos fenmenos lingusticos. Podemos citar, por exemplo, a variao lingustica, que di-vide os falantes em cultos e incultos, prestigiados e desprestigiados. Valores sociais so agregados s vrias formas de expresso lingustica, fazendo com que as formas de pres-tgio sempre coincidam com as usadas pelas classes sociais privilegiadas.Dessa forma, como nota a autora, muitas vezes as expresses e palavras de lngua inglesa chegam s massas atravs da elite econmica, que simboliza o melhor, o sofisticado. Lembra a pesquisadora que a imprensa escrita e falada, ao privilegiar os emprstimos, nem sempre necessrios, da lngua inglesa, abona a pretensa superioridade daquele idioma. (PAIVA, 1991, p. 116). Portanto, diante desse contexto, no meio comercial, o ingls acaba sendo visto como uma forma interessante de valorizao do produto que est sendo vendido, isto , os comerciantes acham mais chique um salo de beleza chamado Angels Hair do que, simplesmente, Cabelo de Anjo talvez numa tentativa de associar aquele estabelecimento a um pblico-alvo formado por pessoas de maior poder aquisitivo. Como observamos em nossa coleta de dados, os nomes comerciais com elementos do ingls foram produtivos em PB, mas notamos que a maior parte dos nomes comerciais (86%) formada, em sua maioria, pela lngua portuguesa, o que nos permite afirmar que os processos de formao de palavras e vernculos so as formas mais usadas na criao de novos nomes comerciais no interior de So Paulo. Esse nmero de palavras com elementos do ingls se equilibra com a porcentagem de palavras estrangeiras encontradas na Base de Neologismos do Portugus Contemporneo do Brasil no estudo de Alves et al. (2004, p. 6). De acordo com os autores, foram observadas mais de 9300 unidades lexicais neolgicas sendo que apenas 17% (cerca de 1500 neologismos) so estrangeirismos, em sua maioria de origem inglesa. Embora os nomes com grafia estilizada no sejam to frequentes em nosso corpus, eles foram produtivos. importante observar que, mesmo sendo livre para ousar no nome, grande parte dos comerciantes adota uma postura conservadora no sentido de preferir usar a ortografia oficial da lngua portuguesa no momento de registrar o nome do seu estabelecimento comercial. Por isso, nomes como Autocenter Skino e Ki-Bom no so to comuns quanto espervamos, mas so um exemplo de como a ortografia do ingls pode inspirar os donos de estabelecimentos comerciais no momento da criao do nome do seu negcio.Outra observao interessante se refere ao uso do s em nomes comerciais. Contrariando nossas expectativas, nossa coleo de palavras com s pequena: as palavras com s correspondem a apenas 13% dos nomes comerciais com elementos do ingls em PB e 15% dos nomes com grafia estilizada em PB. Portanto, podemos dizer que o uso do s no lxico comercial do PB no interior de So Paulo raro. Podemos concluir que o uso do ingls no meio comercial menos frequente do que o esperado. Embora Neves (1971, p. 105) afirme que muitos neologismos comerciais baseiam-se quase que exclusivamente numa maneira bizarra, extravagante, de escrever a palavra, de acordo com nossos dados, os comerciantes que ousam no nome do seu estabelecimento comercial ainda so minoria. No podemos deixar de notar, porm, que, ao andar pelas ruas, temos a impresso de que h um maior nmero de nomes comerciais com elementos do ingls, s e grafia estilizada devido ao fato de esses nomes se destacarem em meio a tantos outros por serem diferentes e inusitados. 176REFERNCIASALVES, I. Neologismo: Criao Lexical. So Paulo: tica, 1990.BECHARA, E. Moderna Gramtica Portuguesa. 37. ed. Rio de Janeiro: Lucerna, 2009.BORTOLI, E. de. Nome Empresarial. In. Publicatio UEPG Cincias Humanas, Lingustica, Letras e Artes. v. 14. n. 2. Ponta Grossa: Universidade Estadual de Ponta Grossa, 2006. p. 83-91. Disponvel em: . 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So Paulo: Contexto, 2004.177SOBRE OS AUTORES E ORGANIZADORESANNA CAROLINA CHIEROTTI DOS SANTOS ANANIAS Graduada em Letras Vernculas e Clssicas, Especialista em Lngua Portuguesa e Mestre em Estudos da Linguagem pela Universidade Estadual de Londrina. Atua principalmente nas reas de Lexicologia e Toponmia Doutoranda em Estudos da Linguagem, UEL Universidade Estadual de Londrina. Centro de Letras e Cincias Humanas. Londrina PR Brasil. 86057-970 annachierotti@yahoo.com.brCONCEIO DE MARIA DE ARAUJO RAMOS Coordenadora do Atlas Lingustico do Maranho. Coordenadora Regional do Atlas Lingustico do Brasil para o Mara-nho, Professora Associada de Lngua Portuguesa e de Lingustica, UFMA Universidade Federal do Maranho. So Lus MA Brasil. 65050-805 conciufma@gmail.comCLOTILDE DE ALMEIDA AZEVEDO MURAKAWA Destaca-se na rea de Cincias do Lxico, em especial Lexicografia e Lexicologia. Coordenou o projeto Dicionrio Histrico do Portugus do Brasil sculos XVI, XVII e XVIII (CNPq, 2013). Publicou artigos em peridicos nacionais e internacionais sobre Lexicografia e Metalexicografia da Lngua Portuguesa, autora da obra Antnio de Morais Silva: lexicgrafo da lngua portuguesa (Cultura Acadmica, 2007), docente permanente do Programa de Ps-graduao em Lingustica e Lngua Portuguesa, UNESP Universidade Estadual Paulista. Faculdade de Cincias e Letras Departa-mento de Lingustica. Araraquara SP Brasil. 14800-901 clotildeaazm@gmail.comCRISTINA MARTINS FARGETTI Formada pela UNICAMP, lder do Grupo LINBRA. Tem se dedicado elaborao de um dicionrio geral para a lngua Juruna (Tronco Tupi), estabelecendo uma relao entre lngua e cultura, o que leva a um dilogo com diversas reas de saber. Atua no Programa de Ps-Graduao em Lingustica e Lngua Portuguesa orientando trabalhos de descrio/documentao, nas reas de Fonologia, Morfossintaxe e Estudos do Lxico, UNESP Universidade Estadual Paulista. Faculdade de Cincias e Letras. Departamento de Lingustica. Araraquara SP Brasil. 14800-901 cmfarget@gmail.comEDSON LEMOS PEREIRA Possui graduao em Letras com Habilitao em Lngua Portuguesa e Lngua Francesa e suas respectivas Literaturas pela UFMA. Atualmente auxiliar de pesquisa do projeto Atlas Lingustico do Maranho ALiMA, atuando princi-palmente nos seguintes temas: Sociolingustica, Toponmia, Domingos Vieira Filho e portugus falado no maranho, UFMA Universidade Federal do Maranho. Centro de Cincias Humanas Departamento de Letras. So Lus MA Brasil. 65050-805 edsonlp20@hotmail.comILANA CATHARINE DOS SANTOS SEREJO Aluna de graduao em Letras, Portugus e Ingls com suas respectivas literaturas, da Universidade Federal do Mara-nho UFMA. Atua na rea da Lingustica e, atualmente, participa do Projeto Tesouro Patrimonial do Lxico Galego e Portugus e do Projeto Atlas Lingustico do Maranho ALiMA, UFMA Universidade Federal do Maranho. Atlas Lingustico do Maranho ALiMA. So Lus MA Brasil. 65050-805 ilana.serejo@hotmail.com178IVANILDE DA SILVA Graduada em Letras/Portugus pela Universidade Regional de Blumenau. Mestra em Lingustica pela Universidade Federal de Santa Catarina. Doutoranda em Filologia e Lngua Portuguesa, bolsista CAPES com estgio de aperfeioa-mento docente PAE (Projeto de Aperfeioamento de Ensino), USP Universidade de So Paulo. Faculdade de Filoso-fia, Letras e Cincias Humanas. So Paulo SP Brasil. 05508-900 ivabsilva2003@yahoo.com.brJOO NUNES AVELAR FILHO Professor titular da Faculdade de Letras da Universidade Estadual de Gois (UEG), atuando no ensino e pesquisa lin-gusticas. Participa ativamente do Grupo de Lingustica Ecossistmica da Universidade de Braslia (UnB) e do Ncleo de Estudos da Lngua e Imaginrio (NELIM) na Universidade Federal de Gois, UEG Universidade Estadual de Gois. Formosa Goinia GO Brasil. 75200-000 javelar3@hotmail.comLETCIA RODRIGUES GUIMARES MENDES Mestra em Lingustica Histrica e graduada em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais. Faz parte do Gru-MEL Grupo Mineiro de Estudos do Lxico. Atualmente professora na Fundao Pedro Leopoldo. FPL Fundao Pedro Leopoldo. Pedro Leopoldo MG Brasil. 33600-000. leticia.guimaraes@fpl.edu.brMRCIA SIPAVICIUS SEIDE Professora do curso de Letras da UNIOESTE, campus Marechal Cndido Rondon e professora do Programa de Ps Graduao em Letras PPGL, UNIOESTE Universidade Estadual do Oeste do Paran. Centro de Educao, Comu-nicao e Artes. Cascavel PR Brasil. 85819-110 marciaseda4@hotmail.comMARIA DA CONCEIO REIS TEIXEIRA Doutora em Letras, desenvolve pesquisas com peridicos raros resgatando e editando textos. Estuda o lxico represen-tativo do serto baiano em textos literrios. Professora Plena, UNEB Universidade do Estado da Bahia Departamen-to de Cincias Humanas I. Salvador BA Brasil. 41610-090 conceicaoreis@terra.com.brMARIA HELENA DE PAULA Docente do Programa de Ps-graduao Stricto Sensu Mestrado em Estudos da Linguagem. Tem interesse em estudos de lxico e cultura, a partir de fontes orais ou manuscritas seculares, com enfoque regional. Pesquisadora da Unidade Acadmica Especial de Letras e Lingustica e Coordenadora de Pesquisa e Ps-graduao, UFG Universidade Federal de Gois Regional Catalo. Goinia GO Brasil. 74690-900 mhp.ufgcatalao@gmail.comMARIA SILVANA MILITO DE ALENCAR Pesquisadora do Projeto Atlas Lingustico do Brasil ALiB Projeto de abrangncia nacional. Doutora em Lingusti-ca. Professora, UFC Universidade Federal do Cear Departamento de Letras Vernculas. Fortaleza CE Brasil. 60020-181 msmilitao@gmail.comMAYARA APARECIDA RIBEIRO DE ALMEIDA Graduada em Licenciatura em Letras, com habilitao em Portugus e Ingls pela Universidade Federal de Gois (2015) Regional Catalo. Mestranda em Estudos da Linguagem pela mesma instituio. Desenvolve pesquisa na rea de Lingustica e Filologia, com nfase em Lexicologia, UFG Universidade Federal de Gois. Unidade Acadmica Especial de Letras e Lingustica. Catalo GO Brasil. 75704-020 may_aparecida20@hotmail.com179NATLIA CRISTINE PRADO Doutora em Lingustica e Lngua Portuguesa pela Universidade Estadual Paulista Cmpus de Araraquara, com pero-do sanduche na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, UNESP Universidade Estadual Paulista. Faculdade de Cincias e Letras de Araraquara Departamento de Lingustica. Araraquara SP Brasil. 14800-901 natalia_cris-tine_prado@yahoo.com.brODAIR LUIZ NADINDoutor e Mestre em Lingustica e Lngua Portuguesa pela Universidade Estadual Paulista de Araraquara. Graduado em Letras Portugus/Espanhol e respectivas Literaturas pela Universidade Estadual de Londrina. Realizou estgio de doutoramento no Institut Universitari de Lingustica Aplicada da Universitat Pompeu Fabra/Barcelona e estgio de Ps--doutoramento em Letras na Universidade Federal do Rio Grande do Sul/Universidade de Salamanca. Tem experincia na rea de Lingustica, atuando nos temas: Ensino de Espanhol como Lngua Estrangeira e Estudos do Lxico: Lexi-cologia/Lexicografia e Terminologia/Terminografia. Professor Assistente Doutor UNESP Universidade Estadual Paulista. Faculdade de Cincias e Letras. Departamento de Lingustica. Araraquara SP Brasil. 14800-901 odair-nadin@fclar.unesp.brPATRCIA HELENA FRAI Aluna do Programa de Ps Graduao em Letras e bolsista CAPES/CNPQ, UNIOESTE Universidade Estadual do Oeste do Paran Programa de Ps-Graduao em Letras. Cascavel PR Brasil. 85819-110 patriciafrai@hotmail.comRAPHAEL BESSA FERREIRA Tem experincia na rea de Letras, com nfase em Estudos Literrios (Teoria da Literatura e Estilstica). Mestre em Li-teratura Brasileira (CES/JF). Doutorando em Filologia e Lngua Portuguesa (USP). Professor da Ctedra de Literatura, UEPA Universidade do Estado do Par. Centro de Cincias Sociais e Educao Departamento de Lngua e Litera-tura. Belm PA Brasil. 66113-010 ru-98@hotmail.comRAYNE MESQUITA DE REZENDE Membro do GEPHPOR Grupo de Estudos e Pesquisas em Histria do Portugus, atuando especificamente na rea de Metalexicografia com enfoque regional e pesquisa sob as perspectivas tericas da Dialetologia e Sociolingustica. Dis-cente do Programa de Ps-graduao Stricto Sensu Mestrado em Estudos da Linguagem, UFG Universidade Federal de Gois. Unidade Acadmica Especial de Letras e Lingustica Catalo GO Brasil. 75704-020 raynemesquita@hotmail.comRENATA CAZARINI DE FREITAS Bacharel em Latim pela USP. Especialista em Estudos Clssicos pela UnB. pesquisadora de teatro antigo e da roma-nizao na Britnia e na Ibria. Aluna do Programa de Ps-graduao em Letras Clssicas, USP Universidade de So Paulo Faculdade de Filosofia, Letras e Cincias Humanas So Paulo SP Brasil. 05508-900 renatacdef@gmail.comTATIANA MARTINS MENDES Atua na rea da Lexicologia, Lexicografia, Terminologia e Toponmia com pesquisa que envolve lngua, cultura e socie-dade no Vale do Jequitinhonha. Colaboradora do Dicionrio do dialeto rural no Vale do Jequitinhonha Minas Gerais. Professora (bolsista CAPES) de Portugus Lngua Adicional da UFMG/DRI, Doutoranda em Lingustica Terica e Descritiva pelo Programa de Ps-Graduao (PosLin) da FALE, UFMG Universidade Federal de Minas Gerais. Fa-culdade de Letras Belo Horizonte MG Brasil. 31270-901 tatiana.pro@hotmail.com180THECIANA SILVA SILVEIRA Desenvolve pesquisas em Lingustica, atuando, principalmente, nas seguintes reas: Sociolingustica, Lexicologia (Tabu lingustico) e Terminologia (Cultura do babau), UFMA Universidade Federal do Maranho. Centro de Cin-cias Humanas Departamento de Letras. So Lus MA Brasil. 65050-805 thecianasilveira@gmail.comZULEIDE FERREIRA FILGUEIRAS Pesquisadora da antroponmia de origem italiana na cidade de Belo Horizonte, realizando um acurado estudo de campo, em fontes primrias, com objetivo de resgatar nomes de imigrantes italianos e de seus descendentes, desde a poca da construo da Capital de Minas Gerais, no final do Sculo XIX, UFMG Universidade Federal de Minas Gerais. Fa-culdade de Letras Programa de Ps-Graduao em Estudos Lingusticos. Belo Horizonte MG Brasil. 31270-901 zuleide.filgueiras@gmail.comAPOIO:Programa de Ps-Graduao em Lingustica e Lngua PortuguesaDepartamento de Lingustica GPEL Grupo de Pesquisa Estudos do Lxico: descrio e ensino LINBRA Grupo de Pesquisa de Lnguas Indgenas Brasileirash.7nj3z38bkip0_GoBack_GoBackbookmark45_GoBack_GoBack_GoBack_GoBack_GoBack_GoBack