IANNI, Otavio - Teorias da Globalizao

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    13-Jun-2015

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Octavio IanniDO AUTORO colapso do populismo no Brasil, Rio de Janeiro, Civilizao Brasileira, 1993. Ditadura e agricultura, Rio de Janeiro, Civilizao Brasileira, 1992. A ditadura do grande capital, Rio de Janeiro, Civilizao Brasileira, 1992. Ensaios de sociologia da cultura, Rio de Janeiro, Civilizao Brasileira, 1993. Estado e planejamento econmico no Brasil, Rio de Janeiro, Civilizao Brasileira, 1992. Formao do Estado Populista na Amrica Latina, Rio de Janeiro, Civilizao Brasileira, 1993. Imperialismo na Amrica Latina, Rio de Janeiro, Civilizao Brasileira, 1993. Revoluo e cultura, Rio de Janeiro, Civilizao Brasileira, 1992. A sociedade global, Rio de Janeiro, Civilizao Brasileira, 1998.Teorias da globalizao9EdioCIVILIZAO BRASILEIRARio de Janeiro 2001COPYRIGHT CAPA Octvio Ianni, 1995Evelyn GrumachPROJETO GRFICOEvelyn Grumach e Joo de Souza LeitePREPARAO DE ORIGINAISEdson Agostinho de SouzaEDITORAO ELETRNICAArt Line PARA ANTONIO ANA CATARINA CLARA FRANCISCO, ANUNCIANDOCIP-BRASIL. CATALOGAO NA FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJU7 9 jt e(Ianni, Octvio, 1926Teorias da globalizao / Octvio Ianni. - 9" ed. - Rio de Janeiro: Civilizao Brasileira, 2001. 228p Inclui bibliografia ISBN 85-200-0397-4 1. Civilizao moderna - Sculo XX. 2. Relaes econmicas internacionais. 3. Globalizao. 4. Sociologia. I. Ttulo. CDD 303.4 CDU 316.42O SCULOXXI98-1834Todos os direitos reservados. Proibida a reproduo, armazenamento ou transmisso de partes deste livro, atravs de quaisquer meios, sem a prvia autorizao por escrito. Direitos desta edio adquiridos pela BCD Unio de Editoras S.A. Av. Rio Branco, 99 / 20 andar, 20040-040, Rio de Janeiro, RJ, Brasil Telefone (21) 263-2082, Fax / Vendas (21) 263-4606 PEDIDOS PELO REEMBOLSO POSTAL Caixa Postal 23.052, Rio de Janeiro, RJ, 20922-970 Impresso no Brasil 2001SumrioPREFCIO W C1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. 10.Metforas da Globalizao 11 As Economias-Mundo 27 A Internacionalizao do Capital 53 A Interdependncia das Naes 73 A Ocidentalizao do Mundo 9 5 A Aldeia Global 117 A Racionalizao do Mundo 143 A Dialtica da Globalizao 169 Modernidade-Mundo 203 Sociologia da Globalizao 235BIBLIOGRAFIA 257viiPrefcioA globalizao est presente na realidade e n o pensamento, desafiand o grande n m e r o de pessoas em t o d o o m u n d o . A despeito das vivncias e opinies de uns e o u t r o s , a maioria reconhece que esse p r o blema est presente na forma pela qual se desenha o n o v o m a p a d o m u n d o , n a realidade e n o imaginrio. J so muitas as teorias e m p e n h a d a s em esclarecer as condies e os significados da globalizao. Umas so u m t a n t o tmidas, a o passo que o u t r a s , bastante audaciosas; algumas vezes desconhecemsc m u t u a m e n t e , noutras, influenciam-se. M a s todas abrem perspectivas para o esclarecimento das configuraes e movimentos da sociedade global. Vale a pena mapear as principais teorias da globalizao. Permitem esclarecer n o s as condies sob as quais se forma a sociedade global, m a s t a m b m os desafios que se criam para as sociedades nacionais. O s horizontes que se descortinam com a globalizao, em termos de integrao e fragmentao, p o d e m abrir novas perspectivas p a r a a interpretao d o presente, a releitura d o passado e a imaginao d o futuro. O s problemas da globalizao naturalmente implicam u m dilogo mltiplo, c o m autores e interlocutores, em diferentes enfoques histricos e tericos. Em larga medida, esse dilogo est registrado neste livro, nas referncias e citaes. Alguns temas foram apresentados em debates, geralmente em ambientes universitrios. E alguns captulos publicaram-se em verses preliminares: "Metforas d a Globalizao", Idias, a n o I, n. 1,ixT E O R I A S DAGLOBALIZAOU n i c a m p , C a m p i n a s , 1994; " A Ocidentalizao d o M u n d o " , s o b o ttulo " A M o d e r n i z a o d o M u n d o " , Margem, n. 3 , P U C , So P a u l o , 1 9 9 4 ; "A Aldeia Global", sob o ttulo "Globalizao e Cult u r a " , O Estado de S. Paulo, 30 de o u t u b r o de 1994; "Sociologia d a Globalizao", sob o ttulo "Globalizao: N o v o Paradigma das Cincias Sociais", Estudos avanados, n. 2 1 , USP, So Paulo, 1 9 9 4 . F o r a m esses m o m e n t o s importantes de dilogo mltiplo, polifnico, que me permitiram aprimorar tal reflexo e sua n a r r a o .CAPTULO 1Metforas da globalizaoOCTAV]XA descoberta de que a terra se t o r n o u m u n d o , de que o globo n o mais apenas u m a figura astronmica, e sim o territrio n o qual t o d o s encontram-se relacionados e atrelados, diferenciados e antagnicos essa descoberta surpreende, e n c a n t a e atemoriza. Trata-se de u m a ruptura drstica nos m o d o s de ser, sentir, agir, pensar e fabular. U m evento heurstico de amplas propores, a b a l a n d o n o s as convices, mas t a m b m as vises d o m u n d o . Ocorre que o globo n o mais exclusivamente u m conglomerado de naes, sociedades nacionais, Estados-naes, em suas relaes de interdependncia, dependncia, colonialismo, imperialismo, bilateralismo, multilateralismo. Ao mesmo t e m p o , o centro d o m u n d o n o mais voltado s a o indivduo, t o m a d o singular e coletivamente c o m o povo, classe, g r u p o , minoria, maioria, opinio pblica. Ainda q u e a nao e o indivduo continuem a ser muito reais, inquestionveis e presentes t o d o o tempo, em t o d o lugar, p o v o a n d o a reflexo e a imaginao, ainda assim j n o so "hegemnicos". Foram subsumidos, real o u f o r m a l m e n t e , pela sociedade global, pelas configuraes e movimentos da globalizao. A Terra mundializou-se de tal maneira que o globo deixou de ser uma figura astronmica para adquirir mais plenamente sua significao histrica.13T E O R I A S DA G L O B A L I Z A OM E T F O R A S DA G L O B A L I Z A OD a nascem a surpresa, o encantamento e o susto. D a a impresso de que se r o m p e r a m m o d o s de ser, sentir, agir, pensar e fabular. Algo parecido c o m as drsticas rupturas epistemolgicas representadas pela descoberta de que a Terra n o mais o centro d o universo conforme Coprnico, de que o h o m e m n o mais filho de Deus seg u n d o Darwin, de que o indivduo um labirinto p o v o a d o de inconsciente de acordo com F r e u d . claro que a descoberta que o pensam e n t o cientfico est realizando sobre a sociedade global n o declnio d o sculo X X n o apresenta as mesmas caractersticas dessas o u t r a s descobertas m e n c i o n a d a s . M e s m o p o r q u e so diversas e antigas as instituies e indicaes mais ou m e n o s notveis de g l o b a l i z a o . Desde que o capitalismo desenvolveu-se na Europa, apresentou sempre conotaes internacionais, multinacionais, transnacionais e m u n diais, desenvolvidas n o interior da acumulao originria d o mercantilismo, d o colonialismo, d o imperialismo, da dependncia e da interdependncia. E isso est evidente nos pensamentos de A d a m Smith, David R i c a r d o , H e r b e r t Spencer, Karl M a r x , M a x Weber e muitos o u t r o s . M a s inegvel que a descoberta de que o g l o b o t e r r e s t r e , c o m o j disse, n o mais apenas uma figura astronmica, e sim histrica, abala m o d o s de ser, pensar, fabular.1gentes e idias, interrogaes e respostas, explicaes e intuies, inirrpretaes e previses, nostalgias e utopias. O problema da globalizao, em suas implicaes empricas e m e todolgicas, ou histricas e tericas, pode ser colocado de m o d o inovador, propriamente heurstico, se aceitamos refletir sobre a l g u m a s metforas produzidas precisamente pela reflexo e imaginao desaliadas pela globalizao. N a poca da globalizao, o m u n d o c o m e ou a ser taquigrafado c o m o "aldeia global", "fbrica g l o b a l " , "terr a p t r i a " , " n a v e espacial", " n o v a Babel" e o u t r a s expresses. So metforas razoavelmente originais, suscitando significados e implicaes. Povoam textos cientficos, filosficos e artsticos. Chama a ateno nesses textos a profuso de metforas utilizadas para descrever as transformaes deste final de sculo: "primeira revoluo mundial" (Alexander King), "terceira onda" (AlvinToffler), "sociedade informtica" (Adam Schaff), "sociedade ambica" (Kenichi Ohmae), "aldeia global" (McLuhan). Fala-se da passagem de uma economia de high volume para outra de high value (Robert Reich), e da existncia de um universo habitado por "objetos mveis" (Jacques Attali) deslocando-se incessantemente de um lugar a outro do planeta. Por que esta recorrncia no uso de metforas? Elas revelam uma realidade emergente ainda fugidia ao horizonte das cincias sociais.2Nesse clima, a reflexo e a imaginao n o s c a m i n h a m de p a r em p a r c o m o multiplicam metforas, imagens, figuras, p a r b o l a s e alegorias, destinadas a dar conta d o que est acontecendo, das realidades n o codificadas, das surpresas inimaginadas. As metforas parecem florescer q u a n d o os m o d o s de ser, agir, pensar e fabular mais o u m e n o s s e d i m e n t a d o s sentem-se a b a l a d o s . claro q u e falar em metfora pode envolver n o s imagens e figuras, signos e smbolos, m a s t a m b m p a r b o l a s e alegorias. So mltiplas as possibilidades abertas a o imaginrio cientfico, filosfico e artstico, q u a n d o se descortinam os horizontes da globalizao d o m u n d o , envolvendo coisas,H metforas, bem c o m o expresses descritivas e interpretativas fundamentadas, que circulam combinadamente pela bibliografia sobre a globalizao: " e c o n o m i a - m u n d o " , " s i s t e m a - m u n d o " , "shopping center global", "Disneylndia global", "nova viso internacional d o t r a b a l h o " , " m o e d a global", "cidade global", "capitalismo g l o b a l " , " m u n d o sem fronteiras", " t e c n o c o s m o " , "planeta T e r r a " , "desterrit o r i a l i z a o " , " m i n i a t u r i z a o " , "hegemonia g l o b a l " , "fim da geo-Sigmund Freud, Obras completas, 3 tomos, traduo de Luis LopezBallesteros y de Torres, Editorial Biblioteca Nueva, Madri, 1981, tomo III, cap. CI: "Una Dificultad del Psicoanlisis".12Renato Ortiz, Mundializao e cultura, Editora Brasiliense, So Paulo, 1994, p. 14.15/VT E O R I A S DA G L O B A L I Z A O METFORAS DA G L O B A L I Z A O \ .ACSS,V\/( Biblioteca j= 'grafia", "fim da histria" e outras mais. Em parte, cada u m a dessas e o u t r a s formulaes a b r e problemas especficos t a m b m relevantes. Suscitam ngulos diversos de anlise, priorizando aspectos sociais, econmicos, polticos, geogrficos, histricos, geopolticos, demogrficos, culturais, religiosos, lingsticos etc. M a s possvel reconhecer que vrios desses aspectos so contemplados por metforas c o m o " a l deia global", "fbrica global", "cidade global", "nave espacial", " n o va babel", entre outras. So emblemticas, formuladas precisamente n o clima mental aberto pela globalizao. Dizem respeito s distintas possibilidades de prosseguimento de conquistas e dilemas da modernidade. Contemplam as controvrsias sobre modernidade e ps-modernidade, revelando c o m o principalmente a partir dos horizontes d a modernidade que se pode imaginar as possibilidades e os impasses da ps-modernidade n o novo m a p a do m u n d o . "Aldeia global" sugere que, afinal, formou-se a comunidade m u n dial, concretizada com as realizaes e as possibilidades de comunicao, informao e fabulao abertas pela eletrnica. Sugere que esto em curso a harmonizao e a homogeneizao progressivas. Baseia-se na convico de que a organizao, o funcionamento e a m u d a n a da vida social, em sentido amplo, compreendendo evidentemente a globalizao, so ocasionados pela tcnica e, neste caso, pela eletrnica. Em pouco tempo, as provncias, naes e regies, bem c o m o culturas e civilizaes, so atravessadas e articuladas pelos sistemas de inform a o , comunicao e fabulao agilizados pela eletrnica. N a aldeia global, alm das mercadorias convencionais, sob form a s a n t i g a s e a t u a i s , e m p a c o t a m - s e e v e n d e m - s e as i n f o r m a e s . Estas so fabricadas c o m o mercadorias e comercializadas em escala mundial. As informaes, os entretenimentos e as idias so produzidos, comercializados e consumidos c o m o mercadorias. Hoje passamos da produo de artigos empacotados para o empacotamento de informaes. Antigamente invadamos os mercados estrangeiros com mercadorias. Hoje invadimos culturas inteiras compacotes de informaes, entretenimentos e ideias. Em vista^Ua-iss^ tantaneidade dos novos meios de imagem e de som, at o jornal lento.3A metfora torna-se mais autntica e viva q u a n d o se reconhece que ela praticamente prescinde da palavra, t o r n a n d o a imagem p r e d o minante, c o m o forma de c o m u n i c a o , informao e fabulao. A eletrnica propicia no s a fabricao de imagens, d o m u n d o c o m o um caleidoscpio de imagens, m a s t a m b m permite jogar c o m as palavras c o m o imagens. A m q u i n a impressora substituda pelo aparelho de televiso e outras tecnologias eletrnicas, tais c o m o ddd, telefone celular, fax, c o m p u t a d o r , rede de computadores, t o d o s atravessando fronteiras, sempre on Une everywhere worldwide ali time.N o prximo sculo, a Terra ter a sua conscincia coletiva suspensa sobre a face do planeta, em uma densa sinfonia eletrnica, na qual todas as naes se ainda existirem como entidades separadas vivero em uma teia de sinestesia espontnea, adquirindo penosamente a conscincia dos triunfos e mutilaes de uns e outros. Depois desse conhecimento, desculpam-se. J que a era eletrnica total e abrangente, a guerra atmica na aldeia global no pode ser limitada.4Nesse sentido que a aldeia global envolve a idia de c o m u n i d a de m u n d i a l , m u n d o sem fronteiras, shopping lndia universal. center global, Disney-3 Marshall McLuhan, "A Imagem, o Som e a Fria", Bernard Rosenberg e David Manning White (organizadores), Cultura de massa, traduo de Octvio Mendes Cajado, Editora Cultrix, So Paulo, 1973, pp. 563-570; citao das pp. 564-565. 4 Marshall McLuhan e Bruce R. Powers, The Global Village, Oxford University Press, Nova York, 1989, p. 95.17T E O R I A S DA G L O B A L I Z A OM E T F O R A S DA G L O B A L I Z A OEm todos os lugares, tudo cada vez mais se parece com tudo o mais, medida que a estrutura de preferncias do mundo pressionada para um ponto comum homogeneizado.5"Fbrica g l o b a l " sugere u m a transformao quantitativa e qualitativa d o capitalismo alm de todas as fronteiras, subsumindo formal o u realmente t o d a s as outras formas de organizao social e tcnica d o t r a b a l h o , d a p r o d u o e r e p r o d u o ampliada d o capital. T o d a economia nacional, seja qual for, torna-se provncia da economia global. O m o d o capitalista de p r o d u o entra em u m a poca p r o p r i a m e n t e global, e n o apenas internacional o u multinacional. Assim, o m e r c a d o , as foras produtivas, a nova diviso internacional d o t r a b a l h o , a r e p r o d u o a m p l i a d a d o c a p i t a l desenvolvem-se em escala m u n d i a l . U m a globalizao que, progressiva e c o n t r a d i t o r i a m e n t e , subsume real ou formalmente outras e diversas formas de organizao das foras produtivas, envolvendo a p r o d u o material e espiritual. J " evidente que os pases em desenvolvimento esto agora oferecendo espaos para a lucrativa manufatura de produtos industriais destinados ao mercado mundial, em escala crescente".6adquirida em pouco tempo... Terceiro, o desenvolvimento das tcnicas de transporte e comunicaes cria a possibilidade, em muitos casos, da produo completa ou parcial de mercadorias em qualquer lugar do mundo; uma possibilidade no mais influenciada por fatores tcnicos, organizacionais ou de custos.7A fbrica global instala-se alm de t o d a e qualquer fronteira, articulando capital, tecnologia, fora de trabalho, diviso d o trabalho social e outras foras produtivas. Acompanhada pela publicidade, a mdia impressa e eletrnica, a indstria cultural, misturadas em jornais, revistas, livros, programas de rdio, emisses de televiso, videoclipe, fax, redes de computadores e outros meios de comunicao, informao e fabulao, dissolve fronteiras, agiliza os mercados, generaliza o consumismo. Provoca a desterritorializao e a reterritorializao das coisas, gentes e idias. Promove o redimensionamento de espaos e tempos. Logo se v que a fbrica global tanto metfora c o m o realidade. Aos poucos, sua dimenso real impe-se a o emblema, potica. O que se impe, c o m fora avassaladora, a realidade da fbrica da sociedade global, altamente determinada pelas exigncias da reproduo ampliada d o capital. N o mbito da globalizao, revelam-se s vezes transparentes e inexorveis os processos de concentrao e centralizao d o capital, articulando empresas e mercados, foras produtivas e centros decisrios, alianas estratgicas e planejamentos de corporaes, tecendo provncias, naes e continentes, ilhas e arquiplagos, mares e oceanos. " N a v e espacial" sugere a viagem e a travessia, o lugar e a durao, o conhecido e o incgnito, o destinado e o transviado, a aventu ra e a desventura. A magia da nave espacial vem junto com o destino desconhecido. O deslumbramento da travessia traz consigo a tenso d o que p o d e ser impossvel. O s habitantes d a nave p o d e m ser levadosIsto se deve a vrios fatores, entre os quais destacam-se os seguintes: Primeiro, um reservatrio de mo-de-obra praticamente inesgotvel tornou-se disponvel nos pases em desenvolvimento nos ltimos sculos... Segundo, a diviso e subdiviso d o processo produtivo esto agora to avanadas que a maioria destas operaes fragmentadas pode ser realizada com um mnimo de qualificao profissionalTheodore Levitt, A imaginao de marketing, traduo de Auriphebo Berrance Simes, Editora Atlas, So Paulo, 1991, p. 43. Folker Frobel, Jurgen Heinrichs e Otto Kreye, The New International Division of Labour (Structural Unemployment in Industrialised Countries and Industrialization in Developing Countries), traduo de Pete Burgess, Cambridge University Press, Cambridge, 1980, p. 13.657 Folker Frobel, Jurgen Heinrichs e Otto Kreye, The Netv International Division of Labour, citado, p. 13. Consultar tambm: Joseph Grunwald e Kenneth Flamm, The Global Factory, The Brookings Institution, Washington, 1985.819T E O R I A S DA G L O B A L I Z A OM E T F O R A S DA G L O B A L I Z A Oa u m a sucesso de perplexidades, reconhecendo a impossibilidade de desvendar o devir. Organizar uma entidade que abarca o planeta no uma empresa insignificante... Propor uma assemblia que representasse todos os homens seria como fixar o nmero exato dos arqutipos platnicos, enigma que tem ocupado durante sculos a perplexidade dos pensadores.8A metfora da nave espacial pode muito bem ser o emblema de c o m o a modernidade se desenvolve n o sculo X X , prenunciando o X X I . Leva consigo a dimenso pessimista embutida n a utopia-nostalgia escondida na modernidade. Pode ser o p r o d u t o mais acabado, p o r enq u a n t o , da razo iluminista. Depois de seus desenvolvimentos mais n o tveis, atravs dos sculos XIX e X X , a razo iluminista parece ter alcanado seu m o m e n t o negativo extremo: nega-se de m o d o radical, niilista, anulando toda e qualquer utopia-nostalgia. E isto atinge o p a r o xismo na dissoluo d o indivduo como sujeito da razo e da histria. A crise da razo se manifesta na crise do indivduo, por meio da qual se desenvolveu. A iluso acalentada pela filosofia tradicional sobre o indivduo e sobre a razo a iluso da sua eternidade est se dissipando. O indivduo outrora concebia a razo como um instrumento do eu, exclusivamente. Hoje, ele experimenta o reverso dessa autodeificao. A mquina expeliu o maquinista; est correndo cegamente pelo espao. N o momento da consumao, a razo tornou-se irracional e embrutecida. O tema deste t e m p o a autopreservao, embora no exista mais um eu a ser preservado.9A est u m a c o n o t a o surpreendente da m o d e r n i d a d e , n a poca tia globalizao: o declnio d o indivduo. Ele p r p r i o , singular e coletivamente, p r o d u z e reproduz as condies materiais e espirituais d a sua subordinao e eventual dissoluo. A mesma fbrica da sociedade global, em que se insere e que ajuda a criar e recriar c o n t i n u a m e n te, torna-se o cenrio em que desaparece. Ocorre que a tecnificao das relaes sociais, em todos os nveis, universaliza-se. N a mesma p r o p o r o em que se d o desenvolvimento extensivo e intensivo d o capitalismo n o m u n d o , generaliza-se a racionalidade formal e real inerente a o m o d o de operao d o m e r c a d o , da empresa, d o aparelho estatal, d o capital, d a administrao das coisas, de gentes e idias, t u d o isso codificado nos princpios d o direito. Juntam-se a o direito e a contabilidade, a lgica formal e a calculabilidade, a racionalidade e a produtividade, de tal maneira que em t o d o s os grupos sociais e instituies, em todas as aes e relaes sociais, tendem a predominar os fins e os valores constitudos n o m b i t o d o mercado, d a sociedade vista c o m o u m vasto e c o m p l e x o espao de trocas. Esse o reino da racionalidade instrumental, em que t a m b m o indivduo se revela adjetivo, subalterno. A razo universal supostamente absoluta rebaixou-se mera racionalidade funcional, a servio do processo de valorizao do dinheiro, que no tem sujeito, at a atual capitulao incondicional das chamadas "cincias do esprito". O universalismo abstrato da razo ocidental revelou-se como mero reflexo da abstrao real objetiva d o dinheiro.108 Jorge Luis Borges, El libro de arena, Alianza Editorial, Madri, 1981, pp. 26-27; citao de "El Congreso". Max Horkheimer, Eclipse da razo, traduo de Sebastio Uchoa Leite, Editorial Labor do Brasil, Rio de Janeiro, 1976, p. 139. Consultar tambm: Theodor W. Adorno e Max Horkheimer, Dialtica do esclarecimento (Fragmentos Filosficos), traduo de Guido Antonio de Almeida, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1985.9N a metfora da nave espacial esconde-se a da "torre de Babel". A nave pode ser bablica. U m espao catico, t o bablico que os indivduos singular e coletivamente tm dificuldade para compreender que se acham extraviados, em declnio, ameaados ou sujeitos dissoluo.Robert Kurz, O colapso da modernizao, traduo de Karen Elsabe Barbosa, Editora Paz e Terra, So Paulo, 1992, p. 239.1 020T E O R I A S DA G L O B A L I Z A OM E T F O R A S DA G L O B A L I Z A ON o incio tudo estava numa ordem razovel na construo da Torre dej Babel; talvez a ordem fosse at excessiva, pensava-se demais em sinalizaes, intrpretes, alojamentos de trabalhadores e vias de comunicao, como se frente houvesse sculos de livres possibilidades de trabalho. (...) O essencial do empreendimento todo a idia de construir uma torre que alcance o cu. Ao lado dela tudo o mais secundrio. Uma vez apreendida na sua grandeza, essa idia no pode mais desaparecer; enquanto existirem homens, existir tambm o forte desejo de construir a torre at o fim. (...) Cada nacionalidade queria ter o alojamento mais bonito; resultaram da disputas que evoluram at lutas sangrentas. Essas lutas no cessaram mais. (...) As pessoas porm no ocupavam o tempo apenas com batalhas; nos intervalos embelezava-se a cidade, o que entretanto provocava nova inveja e novas lutas. (...) A isso se acrescentou que j a segunda ou terceira gerao reconheceu o sem sentido da construo da torre do cu, mas j estavam todos muito ligados entre si para abandonarem a cidade.11ingls o emprstimo lingstico. O ingls se impe a todas as lnguas com as quais entra em c o n t a t o .12De repente, nessa nave espacial, uma espcie de babel-teatromndi, instala-se u m pathos surpreendente e fascinante. Arrasta uns e outros n u m a travessia sem fim, c o m destino incerto, arriscada a seguir pelo infinito. Algo inexorvel e assustador parece ter resultado d o empenho d o indivduo, singular e coletivo, para emancipar-se. A razo parece incapaz de redimir, depois de tanta promessa. Mais que isso, o castigo se revela maior que o pecado. A utopia da emancipao individual e coletiva, nacional e mundial, parece estar sendo p u n i d a c o m a globalizao tecnocrtica, instrumental, mercantil, consumista. A mesma razo que realiza o desencantamento d o m u n d o , de m o d o a emancip-lo, aliena mais ou menos inexoravelmente t o d o o m u n d o . Vistas assim, c o m o emblemas da globalizao, as metforas desvendam traos fundamentais das configuraes e movimentos da sociedade global. So faces de u m objeto caleidoscpico, d e l i n e a n d o fisionomias e m o v i m e n t o s d o real, e m b l e m a s d a sociedade global desafiando a reflexo e a imaginao. A metfora est sempre n o pensamento cientfico. N o apenas u m artifcio potico, mas u m a forma de surpreender o impondervel, fugaz, recndito o u essencial, escondido na opacidade do real. A metfora combina reflexo e imaginao. Desvenda o real de forma potica, mgica. Ainda que n o revele t u d o , e isto pode ser impossvel, sempre revela algo fundamental. Apreende uma conotao insuspeitad a , u m segredo, o essencial, a a u r a . T a n t o assim que ajuda a c o m preender e explicar, a o mesmo t e m p o que capta o que h de d r a m t i c o e pico n a realidade, desafiando a reflexo e a imaginao. Em cert o s casos, a metfora desvenda o pathos escondido nos movimentos d a histria.A Babel escondida n o emblema da nave espacial p o d e revelar aind a mais nitidamente o que h de trgico n o m o d o pelo qual se d a g l o b a l i z a o . N e s t a a l t u r a d a h i s t r i a , p a r a d o x a l m e n t e , t o d o s se entendem. H at mesmo uma lngua c o m u m , universal, que permite u m mnimo de comunicao entre t o d o s . A despeito das diversidades civilizatrias, culturais, religiosas, lingsticas, histricas, filosficas, cientficas, artsticas e outras, o ingls tem sido a d o t a d o c o m o a vulgata d a globalizao. N o s q u a t r o cantos d o m u n d o , esse idioma est n o mercado e na mercadoria, na imprensa e na eletrnica, n a prtica e n o pensamento, na nostalgia e na utopia. o idioma d o m e r c a d o universal, d o intelectual cosmopolita, da epistemologia escondida n o c o m p u t a d o r , d o Prometeu eletrnico. O ingls tem sido promovido com sucesso e tem sido avidamente adotado no mercado lingstico global. Um sintoma d o impacto d o Franz Kafka, " O Braso da Cidade", traduo de Modesto Carone, Folha de S. Paulo, So Paulo, 3 de janeiro de 1993, p. 5 do caderno "Mais".1 1Robert Phillipson, Linguistic Imperialism, Oxford University Press, Oxford, 1992, p. 7. Consultar tambm: Claude Truchot, L'anglais dans le monde contemporain, Le Robert, Paris, 1990.1 2T E O R I A S DA G L O B A L I Z A OM E T F O R A S DA G L O B A L I Z A OTalvez se possa dizer q u e as metforas produzidas nos horizontes d a globalizao e n t r a m em dilogo u m a s c o m as outras, mltiplas, plurais, polifnicas. U m a desafia e enriquece a outra, conferindo n o vos significados a todas. t a m b m assim que a sociedade global adquire fisionomia e significados. Desde u m a realidade complexa, p r o blemtica e catica, desencantam-se o s sentidos, desvendam-se as transparncias. D e metfora em metfora chega-se fantasia, que ajuda a reencarnar o m u n d o , produzindo a utopia. Alm d o q u e tem de p r p r i o , intrnseco, significado e significante, a utopia reencanta o real problemtico, difcil, catico. M a s a utopia n o nem transcrio nem nega o imediatas d o real problemtico. Exorciza o catico pela sublimao. Sublimao d o que j se acha sublimado na cultura, n o imaginrio, polifonia das metforas que p o v o a m as aflies e as iluses de uns e outros. Esse o horizonte e m q u e se formam e conformam as utopias florescendo n o mbito da sociedade global, de m o d o a compreend-la e exorciz-la. Podem ser cibernticas, sistmicas, eletrnicas, pragmticas, prosaicas o u tecnocrticas. T a m b m p o d e m ser romnticas, nostlgicas, desencantadas, niilistas ou iluministas. Faz t e m p o q u e a reflexo e a imaginao sentem-se desafiadas para taquigrafar o que poderia ser a globalizao d o m u n d o . Essa u m a busca antiga, iniciada h muito t e m p o , c o n t i n u a n d o n o presente, seguindo pelo futuro. N o termina nunca. So muitas as expresses que d e n o t a m essa busca permanente, reiterada e obsessiva, em diferentes pocas, em distintos lugares, em diversas linguagens: civilizados e brbaros, nativos e estrangeiros, Babel e h u m a n i d a d e , paganismo e cristandade, Ocidente e O r i e n t e , capitalismo e socialismo, ocidentalizao d o m u n d o , Primeiro, S e g u n d o , Terceiro e Q u a r t o M u n d o s , n o r t e e sul, m u n d o sem fronteiras, capitalismo m u n d i a l , socialismo mundial, terraptria, planeta T e r r a , ecossistema planetrio, fim d a geografia, fim d a histria. So emblemas de alegorias de t o d o o m u n d o . Assinalam ideais, h o r i z o n t e s , possibilidades, iluses, u t o p i a s , nostalgias. E x p r e s s a minquietaes sobre o presente e iluses sobre o futuro, compreendendo muitas vezes o passado. A utopia pode ser a imaginao d o futuro, assim c o m o a nostalgia pode ser a imaginao d o passado. Em t o d o s os casos est em causa o protesto diante d o presente, o u o estranhamento em face d a realidade. Em geral, a utopia e a nostalgia florescem nas pocas em que se acentuam os ritmos das transformaes sociais, q u a n d o se multiplicam os desencontros entre as mais diversas esferas da vida scio-cultural, bem c o m o das condies econmicas e polticas. So pocas em que os desencontros entre o contemporneo e o n o - c o n t e m p o r n e o acentuam-se, aprofundam-se. Esse o contexto em que a reflexo e a imaginao jogam-se na construo de utopias e nostalgias. M a s umas e outras n o se apagam de um m o m e n t o para o u t r o . Ao contrrio, permanecem n o imaginrio. Transformam-se em p o n tos de referncia, marcas n o m a p a histrico e geogrfico d o m u n d o . Inclusive p o d e m recriar-se c o m novos elementos engendrados pelas configuraes e movimentos da sociedade global. Esse o horizonte em que as mais diversas utopias e nostalgias constituem-se c o m o u m a rede de articulaes que tecem a histria e a geografia d o m a p a d o m u n d o . "Atlntida" n o u m lugar na geografia nem um m o m e n t o da histria, mas u m a alegoria da imaginao. Ela se m a n t m escondida na rede de utopias e nostalgias que p o v o a m o m u n d o . M u d o u de n o m e , adquiriu outras conotaes, transfigurouse. M a s continua um emblema excepcional d o pensamento e da fabulao. "Babel" t a m b m n o um lugar na geografia nem um m o m e n to d a histria. Flutua pelo tempo e o espao, a o acaso de imaginao de uns e o u t r o s , p o v o a n d o as inquietaes de muitos. Diante dos desencontros que atravessam o t e m p o e o espao, q u a n d o se acentuam as n o - c o n t e m p o r a n e i d a d e s , q u a n d o de repente t u d o se precipita, a b a l a n d o q u a d r o s d e referncia, t r a n s f o r m a n d o as bases sociais e imaginrias de nosso t e m p o , dissolvendo vises d o m u n d o , nessa poca at m e s m o a alegoria bablica permite a iluso de um mnimo de articulao.2425CAPITULO2As economias-mundoA histria moderna e contempornea pode ser vista c o m o u m a histria de sistemas coloniais, sistemas imperialistas, geoeconomias e geopolticas. Cenrio da formao e expanso dos mercados, da industrializao, da urbanizao e da ocidentalizao, envolvendo naes e nacionalidades, culturas e civilizaes. Algumas das naes mais p o derosas, em cada poca, articulam colnias, protetorados ou territrios em conformidade com suas estratgias, geoeconomias e geopolticas. As guerras e revolues povoam largamente essa histria, revelando articulaes e tenses que emergem e desdobram o jogo das foras sociais " i n t e r n a s " e " e x t e r n a s " nas metrpoles, nas colnias, nos p r o t e t o r a d o s , nos t e r r i t r i o s , nos e n t r e p o s t o s , nos enclaves e n a s naes dependentes. claro que a histria moderna e contempornea est pontilhada de pases, sociedades nacionais, Estados-naes, mais ou menos desenvolvidos, articulados, institucionalizados. Ao longo da histria, conforme ocorre depois da Segunda Guerra Mundial, a maioria dos povos de t o d o s os continentes, ilhas e arquiplagos est filiada a Estados nacionais independentes. E esta tem sido uma constante nas cincias sociais: a histria moderna e contempornea tem sido vista c o m o29T E O R I A S DA G L O B A L I Z A OAS E C O N O M I A SMUNDOu m a histria de sociedades n a c i o n a i s , o u E s t a d o s - n a e s . M u i t o s cientistas sociais dedicaram-se e continuam a dedicar-se s relaes internacionais, diplomticas, colonialistas, imperialistas e s descolonizaes, s dependncias e interdependncias. M a s n o p e n s a m e n t o d a maioria tende a predominar o emblema d o Estado-nao. O s p r o blemas com os quais se preocupam, aos quais dedicam pesquisas, interpretaes e debates, relacionam-se principalmente c o m a formao, organizao, ascenso, ruptura ou declnio d o Estado-nao, sob seus diversos aspectos. Cada vez mais, n o entanto, o que preocupa muitos pesquisadores n o sculo X X , em particular depois da Segunda Guerra M u n d i a l , o conhecimento das realidades internacionais emergentes, ou realidades propriamente mundiais. Sem deixar de continuar a contemplar a socied a d e nacional, em suas mais diversas configuraes, m u i t o s e m p e nham-se em desvendar as relaes, os processos e as estruturas que transcendem o Estado-nao, desde os subalternos aos d o m i n a n t e s . Empenham-se em desvendar os nexos polticos, econmicos, geoeconmicos, geopolticos, culturais, religiosos, lingsticos, tnicos, raciais e todos os que articulam e tensionam as sociedades nacionais, em mbito internacional, regional, multinacional, transnacional ou mundial. A idia de " e c o n o m i a s - m u n d o " emerge nesse horizonte, diante dos desafios das atividades, produes e transaes que ocorrem t a n t o entre as naes c o m o p o r sobre elas, e alm dessas, mas sempre envolvendo-as em configuraes mais abrangentes. Q u a n d o o pesquisador combina o olhar d o historiador c o m o d o gegrafo, logo revelamse configuraes e movimentos da realidade social que transcendem o feudo, a provncia e a nao, assim c o m o transcendem a ilha, o arquiplago e o continente, atravessando mares e oceanos. O conceito de " e c o n o m i a - m u n d o " est presente em estudos de Braudel e Wallerstein, precisamente p e s q u i s a d o r e s q u e c o m b i n a m muito bem o olhar d o historiador com o d o gegrafo. verdade que Wallerstein prefere a noo de " s i s t e m a - m u n d o " , a o passo que Braudel a de " e c o n o m i a - m u n d o " , mas a m b o s m a p e i a m a geografia e a his-a c o m base na primazia d o econmico, na idia de q u e a histria ie constitui em u m c o n j u n t o , ou sucesso, de sistemas e c o n m i c o s mundiais. Mundiais n o sentido de que transcendem a localidade e a provncia, o feudo e a cidade, a nao e a nacionalidade, criando e rem a n d o fronteiras, assim c o m o fragmentando-as ou dissolvendo-as. Eles lem as configuraes da histria e da geografia c o m o u m a sucesso, ou coleo, de economias-mundo. Descrevem atenta e minuciosamente os fatos, as atividades, os intercmbios, os mercados, as p r o dues, as inovaes, as tecnificaes, as diversidades, as desigualdades, as tenses e os conflitos. A p a n h a m a ascenso e o declnio das economias-mundo. M o s t r a m como Veneza, H o l a n d a , Inglaterra, Trana, Alemanha, Estados Unidos, J a p o e os demais pases o u cidades, cada u m a seu t e m p o e lugar, polarizam configuraes e movimentos mundiais. Permitem reler o mercantilismo, o colonialismo, o imperialismo, o bloco econmico, a geoeconomia e a geopoltica em termos de economias-mundo. Reescrevem a histria d o capitalismo, c o m o n o caso de Wallerstein, ou a histria universal, c o m o n o d e Braudel, em conformidade com a idia de economia-mundo. Vale a pena precisar u m pouco os conceitos, nas palavras de seus autores. Logo se evidenciam as originalidades de cada u m , bem c o m o as recorrncias recprocas. Vejamos inicialmente o conceito de " e c o n o m i a - m u n d o " d e acord o c o m Braudel: Por economia mundial entende-se a economia do mundo globalmente considerado, " o mercado de t o d o o universo", como j dizia Sismondi. Por economia-mundo, termo que forjei a partir d o alemo Weltwirtschaft, entendo a economia de uma poro do nosso planeta somente, desde que forme um todo econmico. Escrevi, j h muito tempo, que o Mediterrneo no sculo XVI era, por si s, uma (...) economia-mundo, ou como tambm se poderia dizer, em alemo (...) "um mundo em si e para si". Uma economia-mundo pode definir-se como tripla realidade:30:-. iT E O R I A S DA G L O B A L I Z A OASECONOMIAS-MUNDO Ocupa um determinado espao geogrfico; tem portanto limites, que a explicam, e que variam, embora bastante devagar. De tempos a tempos, com longos intervalos, h mesmo inevitavelmente rupturas. Foi o que aconteceu a seguir aos Descobrimentos do final do sculo XV. E foi o que aconteceu em 1689, quando a Rssia, por merc de Pedro, o Grande, se abriu economia europia. Imaginemos uma franca, total e definitiva abertura das economias da China e da U.R.S.S., hoje (1985): dar-se-ia, ento, uma ruptura dos limites d o espao ocidental, tal como atualmente existe. Uma economia-mundo submete-se a um plo, a um centro, representado por uma cidade dominante, outrora um Estado-cidade, hoje uma grande capital, uma grande capital econmica, entenda-se (nos Estados Unidos, por exemplo, Nova York e no Washington). Alis, podem coexistir, e at de forma prolongada, dois centros numa mesma economia-mundo: Roma e Alexandria, no tempo de Augusto, e de Antnio e Clepatra, Veneza e Gnova, no tempo da guerra pela posse de Chioggia (1378-1381), Londres e Amsterd, no sculo XVIII, antes da eliminao definitiva da Holanda. que um dos centros acaba sempre por ser eliminado. Em 1929, o centro do mundo passou assim, hesitante mas inequivocamente, de Londres para Nova York. Todas as economias-mundo se dividem em zonas sucessivas. H o corao, isto , a zona que se estende em torno do centro: as Provncias Unidas nem todas, porm, quando, no sculo XVII, Amsterd domina o mundo; a Inglaterra (no toda), quando Londres, a partir de 1780, suplantou definitivamente Amsterd. Depois, vm as zonas intermdias volta do eixo central e, finalmente, surgem as margens vastssimas que, na diviso do trabalho que caracteriza uma economia-mundo, mais do que participantes so subordinadas e dependentes. Nestas zonas perifricas, a vida dos homens faz lembrar freqentemente o Purgatrio ou o Inferno. E isso explica-se simplesmente pela sua situao geogrfica.1Cabe agora refletir sobre o conceito de " s i s t e m a - m u n d o " , a p a r r das expresses de Wallerstein: Um sistema mundial um sistema social, um sistema que possui limites, estrutura, grupos, membros, regras de legitimao e coerncia. Sua vida resulta das foras conflitantes que o mantm unido por tenso e o desagregam, na medida em que cada um dos grupos busca sempre reorganiz-lo em seu benefcio. Tem as caractersticas de um organismo, na medida em que tem um tempo de vida durante o qual suas caractersticas mudam em alguns dos seus aspectos, e permanecem estveis em outros. Suas estruturas podem definir-se como fortes ou dbeis em momentos diferentes, em termos da lgica interna de seu funcionamento. (...) At o momento s tm existido duas variedades de tais sistemas mundiais: imprios-mundo, nos quais existe um nico sistema poltico sobre a maior parte da rea, por mais atenuado que possa estar o seu controle efetivo; e aqueles sistemas nos quais tal sistema poltico nico no existe sobre toda ou virtualmente toda a sua extenso. Por convenincia, e falta de melhoi termo, utilizamos o termo "economias-mundo" para definir estes ltimos. (...) A peculiaridade d o sistema mundial moderno que uma economia-mundo tenha sobrevivido por quinhentos anos e que ainda no tenha chegado a transformar-se em um imprio-mundo, peculiaridade que o segredo da sua fortaleza. Esta peculiaridade o aspecto poltico da forma de organizao econmica chamada capitalismo. O capitalismo tem sido capaz de florescer precisamente porque a economia-mundo continha dentro dos seus limites no um, mas mltiplos sistemas polticos.2Fernand Braudel, A dinmica do capitalismo, traduo de Carlos da Veiga Ferreira, 2'. edio, Editorial Teorema, Lisboa, 1986, pp. 85-87. A primeira edio do original em francs de 1985. Consultar tambm:1Fernand Braudel, O Mediterrneo e o mundo mediterrneo na poca de Felipe II, 2 vols., Martins Fontes Editora, Lisboa, 1984; sem indicao do tradutor. A primeira edio do original em francs de 1966. Fernand Braudel, Civilisation matrielle, conomie et capitalisme, XVe-XVIIIe Sicles, 3 vols., Librairie Armand Colin, Paris, 1979. Immanuel Wallerstein, El moderno sistema mundial (La agricultura capitalista y los origines de la economia-mundo europea en el siglo XVI), traduo de Antonio Resines, Siglo Veintiuno Editores, Mxico, 1979.23233jT E O R I A S DA G L O B A L I Z A OASECONOMIAS-MUNDO claro que o pensamento de Braudel e Wallerstein distinguem-se s o b vrios aspectos, t a n t o n o que se refere a o universo emprico como n o relativo a o enfoque terico. Braudel p r o p e uma espcie de teoria geral geo-histrica, contemplando as mais diversas configuraes de economias-mundo. E est influenciado pelo funcionalismo originrio de Durheim e desenvolvido por Simiand e outros, c o m b i n a n d o hist ria, sociologia, geografia, antropologia e outras disciplinas. Ao passo que Wallerstein debrua-se sobre o capitalismo m o d e r n o , a p o i a n d o se em recursos metodolgicos muitas vezes semelhantes aos d o estruturalismo marxista. As anlises de Braudel so principalmente historiogrficas e geogrficas. C o n t e m p l a m os acontecimentos, macro e micro, locais, provinciais, nacionais, regionais e internacionais, tendo em conta as dinmicas e diversidades de espaos e tempos. A noo de "longa dura o " bem expressiva das preocupaes e descobertas de Braudel. A longa durao algo que se apreende nas temporalidades e cartografias articuladas nas tendncias seculares. A histria tradicional, atenta ao tempo breve, ao indivduo, ao evento, habituou-nos h muito tempo a sua narrativa precipitada, dramtica, de flego curto. A nova histria econmica e social pe no primeiro plano de sua pesquisa a oscilao cclica e assenta sobre sua durao: prendeu-se miragem, tambm realidade das subidas e descidas cclicas dos preos. Hoje, h assim, ao lado do relato (ou do "recitativo" tradicional), um recitativo da conjuntura que pe em questo o passado por largas fatias: dez, vinte ou cinqenta anos.Bem alm desse segundo recitativo, situa-se uma histria de respirao mais contida ainda, e, desta vez, de amplitude secular: a histria de longa, e mesmo, de longussima durao. (...) Alm dos ciclos e interciclos, h o que os economistas chamam, sem estud-la, sempre, a tendncia secular. Mas ela ainda interessa apenas a raros economistas e suas consideraes sobre as crises estruturais, no tendo sofrido a prova das verificaes histricas, se apresentam como esboos ou hipteses, apenas enterrados no passado recente, at 1929, quando muito at o ano de 1870. Entretanto, oferecem til introduo histria de longa durao. So uma primeira chave. A segunda, bem mais til, a palavra estrutura. Boa ou m, ela domina os problemas da longa durao. Por estrutura, os observadores do social entendem uma organizao, uma coerncia, relaes bastante fixas entre realidades e massas sociais. Para ns, historiadores, uma estrutura , sem dvida, articulao, arquitetura, porm mais ainda, uma realidade que o tempo utiliza mal e veicula mui longamente. Certas estruturas, por viverem muito tempo, tornam-se elementos estveis de uma infinidade de geraes: atravancam a histria, incomodam-na, portanto, comandam-lhe o escoamento. Outras esto mais prontas a se esfacelar. M a s todas so, ao mesmo tempo, sustentculos e obstculos. Obstculos, assinalam-se como limites (envolventes, n o sentido matemtico) dos quais o homem e suas experincias n o p o d e m libertar-se. Pensai na dificuldade em quebrar certos quadros geogrficos, certas realidades biolgicas, certos limites da produtividade, at mesmo estas ou aquelas coeres espirituais: os quadros mentais tambm so prises de longa durao.3pp. 489-491. Consultar tambm: Immanuel Wallerstein, El moderno sistema mundial (II. El mercantilismo y la consolidacin de la economiamundo europea 1600-1750), traduo de Pilar Lpez Maez, Siglo Veintiuno Editores, Mxico, 1984; Imannuel Wallerstein, The Modern World-System III (The Second Era of Great Expansion of The Capitalist World-Economy, 1730-1840s), Academic Press, Nova York, 1989.Fernand Braudel, Escritos sobre a Histria, traduo de J. Guineburg e Tereza Cristina Silveira da Mota, Editora Perspectiva, So Paulo, 1978, pp. 44 e 49-50; citaes do ensaio "Histria e Cincias Sociais: a Longa Durao", pp. 41-78.3T E O R I A S DA G L O B A L I Z A OASECONOMIAS-MUNDOA o passo que Wallerstein focaliza prioritariamente a a n a t o m i a e a dinmica das realidades econmicas e polticas d o capitalismo m o d e r n o , que denomina de capitalismo histrico. So realidades vistas em m b i t o nacional e internacional, compreendendo colonialismos, imperialismos, dependncias, interdependncias, hegemonias, tenses e conflitos. Esse o contexto das guerras e revolues, destacando-se em especial os movimentos anti-sistmicos. Vejamos, pois, a dinmica d a economia-mundo, conforme escrevia Wallerstein em 1 9 8 3 : O capitalismo histrico funcionava numa economia-mundo, mas no num Estado-mundo. M u i t o pelo contrrio. C o m o vimos, as presses estruturais militaram contra qualquer edificao de um Estado-mundo. Neste sistema, sublinhamos o papel decisivo dos mltiplos Estados estruturas polticas as mais poderosas e, a o mesmo tempo, como poder limitado. Por isso, a reestruturao de determinado Estado representava, para a fora de trabalho, o caminho mais promissor para melhorar sua posio e, ao mesmo tempo, um caminho de valor limitado. Devemos comear com o que entendemos por movimentos anti-sistmicos. A expresso implica algum impulso coletivo de uma natureza mais que momentnea. De fato, claro que ocorreram protestos ou levantes um tanto espontneos da fora de t r a b a l h o , em todos os sistemas histricos conhecidos. Serviam como vlvulas de escape para uma raiva contida; ou, por vezes, um pouco mais eficazmente, como mecanismos que colocavam limites mnimos aos processos de explorao. Mas, falando genericamente, a rebelio como tcnica s funcionava s margens da autoridade central, e principalmente quando as burocracias centrais estavam em fase de desintegrao. (...) Q u a n d o as duas variantes de movimentos anti-sistema se difundiram (os movimentos trabalhistassocialistas, a partir de poucos Estados fortes para todos os outros, e os movimentos nacionalistas, de poucas zonas perifricas para todo o resto), a diferena entre os dois tipos de movimento tornou-se cada vez mais indistinta. Os movimentos trabalhistas-socialistas descobriram que os temas nacionalistas eram decisivos para seus esforos demobilizao e para seu exerccio do poder no Estado. (...) Uma das foras dos movimentos anti-sistema era o fato de que chegaram a o poder em grande nmero de Estados. Isso alterou as polticas vigentes n o sistema mundial. M a s essa fora foi tambm uma fraqueza, visto que os chamados regimes ps-revolucionrios continuavam a funcionar como se fosse para a diviso social do trabalho d o capitalismo histrico. Operavam a, a contragosto, sob as presses inflexveis da direo para a acumulao interminvel d o capital.4Note-se que para Wallerstein a " e c o n o m i a - m u n d o " est organizada c o m base n o que ele prprio denomina "capitalismo histrico", 0 que M a r x havia d e n o m i n a d o simplesmente "capitalismo" o u " m o do capitalista de p r o d u o " e Weber d e n o m i n a r a "capitalismo m o d e r n o " . A sua originalidade est em reconhecer que o capitalismo expandiu-se c o n t i n u a m e n t e pelas mais diversas e distantes p a r t e s d o m u n d o , o que desafia o pensamento cientfico n o sculo X X , particularmente nas cincias sociais. Ainda que n e m sempre contemple as interpretaes que haviam sido desenvolvidas p o r M a r x e Weber, n o que a c o m p a n h a d o por Braudel, oferece sugestes importantes p a r a a anlise das caractersticas d o capitalismo c o m o e c o n o m i a - m u n d o : N a histria moderna, as reais fronteiras dominantes da economiamundo capitalista expandiram-se intensamente desde as suas origens no sculo XVI, de tal maneira que hoje elas cobrem toda a Terra. (...) Uma economia-mundo constituda por uma rede de processos produtivos interligados, que podemos denominar "cadeias de mercadorias", de tal forma que, para qualquer processo de produo na cadeia, h certo nmero de vnculos para adiante e para trs, dos quais o processo em causa e as pessoas nele envolvidas dependem. (...)4Immanuel Wallerstein, O capitalismo histrico, traduo de Denise Bottmann, Editora Brasiliense, So Paulo, 1985, pp. 55-56, 60 e 60-61. Note-se que a primeira edio em ingls data de 1983.3637T E O R I A S DA G L O B A L I Z A OASECONOMIAS-MUNDONesta cadeia de mercadorias, articulada por laos que se cruzam, ptoduo est baseada no princpio da maximizao da acumulai d o capital.5centro de outra economia-mundo regional, no s no contraponto Japo-Rssia, mas t a m b m interferindo no jogo de interesses de outras economias-mundo regionais j presentes na sia, como a norte-americana e a europia. Naturalmente essas economias-mundo regionais encontram-se em diferentes estgios de organizao e dinamizao; inclusive interpenetrando-se s vezes amplamente. O Japo tem investimentos em outras regies, assim como na Europa e nos Estados Unidos. N a s ltimas dcadas do sculo XX, os contornos das economias-mundo regionais esto mais ou menos esboados, mas no parecem consolidados.6 bvio q u e a economia-mundo capitalista est permeada de eco n o m i a s - m u n d o menores ou regionais, organizadas em moldes colo niais, imperialistas, geoeconmicos e geopolticos. Ao longo d a hist ria d a economia-mundo capitalista houve e continua a haver a aseen so e queda de grandes potncias, c o m o centros dominantes de e c o n o m i a s - m u n d o regionais. Desde o sculo XVI, sucedem-se economias-mundo de maior ou me n o r envergadura e d u r a o , centradas em t o r n o de Portugal Espanha, Holanda, Frana, Alemanha, Rssia (em algumas dcadas d o sculo XX tambm Unio Sovitica), Inglaterra, Japo, Estado! Unidos. Alis, nas ltimas dcadas do sculo XX j se prenunciam outros arranjos de economias-mundo regionais, no mbito da economia-mundo capitalista de alcance global. Nesta poca j se esboam economias-mundo regionais polarizadas pelas seguintes organizaes ou naes: Unio Europia, com alguma influncia n o leste europeu e ampla ascendncia sobre a frica; Estados Unidos, com ampla influncia em todas as Amricas, do Canad ao Chile, naturalmente compreendendo o Caribe; Japo, com ampla influncia nos pases asiticos d o Pacfico, compreendendo tambm a Indonsia e a Austrlia; a Rssia, polarizando a Comunidade de Estados Independentes (CEI), ainda muito mobilizados na transio de economias nacionais com planejamento econmico centralizado para economias nacionais de mercado aberto. provvel que a China se torne oEssa impresso revela-se ainda mais acentuada devido a o fato de que desde o trmino da guerra fria, q u a n d o se desagrega a economiam u n d o socialista, o m u n d o c o m o um t o d o deixou de estar rigidamente polarizado entre bloco sovitico ou comunista, p o r um l a d o , e bloco norte-americano ou capitalista, por o u t r o . T o d o esse cenrio, u m pouco real e um pouco imaginrio, obviamente t a m b m u m cenrio de confluencias e tenses, acomodaes e contradies. So processos que j se esboam em alguns recantos desse n o v o e surpreendente m a p a d o m u n d o em formao desde o trmino da guerra fria; um m a p a d o m u n d o em que se esto d e s e n h a n d o vrias economias-mundo regionais n o mbito de uma economia-mund o capitalista global. M a s a e c o n o m i a - m u n d o capitalista, seja de alcance regional, seja de alcance global, continua a articular-se com base n o Estado-nao. Ainda que reconhea a importncia das corporaes transnacionais, Wallerstein reafirma a importncia do Estado-nao soberano, mesm o q u e essa s o b e r a n i a seja l i m i t a d a pela i n t e r d e p e n d n c i a d o sImmanuel Wallerstein, The Politics of the World-Economy (The States, the Movements and the Civilizations), Cambridge University Press, Cambridge, 1988, pp. 2-3; citao do cap. 1: "World Networks and the Politics of the World-Economy".56Jacques Attali, Milnio, traduo de R. M. Bassols, Seix Barrai, Barcelona, 1991; Lester Thurow, Head to Head (The Coming Economic Battle Among Japan, Europe and America), William Morrow and Company, Nova York, 1992.3839T E O R I A S DAGLOBALIZAOASECONOMAS-MUNDOEstados nacionais e pela preeminncia de um Estado mais forte sobre o u t r o s . Cabe reconhecer, diz ele, que a superestrutura da economia-mundo capitalista um sistema de Estados interdependentes, sistema esse no qual as estruturas polticas denominadas "Estados soberanos" so legitimadas e delimitadas. Longe de significar total autonomia decisria, o termo "soberania" na realidade implica uma autonomia formal, combinada com limitaes reais desta autonomia, o que implementado simultaneamente pelas regras explcitas e implcitas do sistema de Estados interdependentes e pelo poder de outros Estados do sistema. Nenhum Estado no sistema, nem mesmo o mais poderoso em dado momento, totalmente autnomo, mas obviamente alguns desfrutam de maior autonomia que outros.7un me* abalados em suas prerrogativas, t a n t o que se limitam drasticap, o u simplesmente a n u l a m , as possibilidades de projetos de capii .le m o nacional e socialismo nacional. Acontece que o capitalismo, t ni|u.iiito m o d o de p r o d u o e processo civilizatrio, cria e recria o l itiulo nao, assim c o m o o princpio da soberania que define a sua . IH ia. Ainda que esta entidade, isto , o Estado-nao s o b e r a n o , | H i nianea, o u mesmo se recrie, est m u d a n d o de figura, n o m b i t o . I r . < onfiguraes e movimentos da sociedade global. Alis, n o p o r li uso que se multiplicam os estudos e os debates acerca d o Estadoii i.,.i, e n q u a n t o processo histrico e inveno, u m a realidade persisi. nu r problemtica; e que se encontra em crise n o fim d o sculo X X , Quando se d a globalizao d o capitalismo.8Wallerstein utiliza c o m mais freqncia o conceito de "sistemaniundo", em geral implcito t a m b m nas expresses "sistema m u n dial", " e c o n o m i a - m u n d o " , "capitalismo histrico" e outras. Alguns .Ir M U S seguidores, o u mesmo crticos, referem-se a o " p a r a d i g m a " de Wallerstein c o m o u m a construo baseada n o conceito de sistemainmido. Ocorre que s vezes ele utiliza t a m b m o conceito de "economia m u n d o " em termos semelhantes aos de Braudel. H m e s m o m o mentos de suas reflexes em que os dois conceitos revelam-se interlambiveis. Esto fundamentalmente apoiados na anlise de relaes, processos e estruturas econmicos. Mais u m a vez relembram as reflexes de Braudel. Isto n o significa que t a n t o um c o m o o o u t r o a u t o r deixem de contemplar aspectos sociais, polticos e culturais. Ao conn.irio, esses aspectos d a s " e c o n o m i a s - m u n d o " , o u "sistemas-mund o " , nas palavras de Wallerstein, so amide levados em conta. Em suas linhas gerais, n o e n t a n t o , as reflexes de Wallerstein e Braudel priorizam os aspectos econmicos, em mbito geogrfico e histrico.Cabe reconhecer, n o entanto, que a soberania d o Estado-nao n o est sendo simplesmente limitada, m a s abalada pela base. Q u a n d o se leva s ltimas conseqncias " o princpio da maximizao da acumulao d o capital", isto se traduz em desenvolvimento intensivo e extensivo das foras produtivas e das relaes de p r o d u o , em escala mundial. Desenvolvem-se relaes, processos e estruturas de domin a o poltica e apropriao econmica em m b i t o global, atravess an d o territrios e fronteiras, naes e nacionalidades. T a n t o assim que as organizaes multilaterais passam a exercer as funes de estruturas mundiais de poder, ao lado das estruturas mundiais de p o d e r constitudas pelas corporaes transnacionais. claro que n o se apagam o princpio da soberania nem o Estado-nao, mas so radical-Immanuel Wallerstein, The Politics of the World-Economy, citado, p. 14; citao do cap. 2: "Patterns and Prospectives of the Capitalist WorldEconomy". Consultar tambm: Immanuel Wallerstein, The Capitalist World-Economy, Cambridge University Press, Cambridge, 1991, esp. parte I: "The Inequalities of Core and Periphery".78 Joseph A. Camilleri e Jim Falk, The End of Sovereignty f (The Politics of a Shrinking and Fragmenting World), Edward Elgar Publishing, Hants, Inglaterra, 1992; Bernardo Kliksberg, Cmo transformar al Estado? (Ms All de Mitos y Dogmas), Fondo de Cultura Econmica, Mxico, 1993.41T E O R I A S DA G L O B A L I Z A OAS E C O N O M I A SMUNDOCabe acrescentar, n o que se refere noo de "sistema", o u "sis t e m a m u n d i a l " , que j se acha incorporada a teoria sistmica das rela es internacionais e da sociedade mundial. A "teoria sistmica" d m u n d o , ou a viso sistmica das relaes internacionais, d o transna cionalismo ou da mundializao, corresponde a u m a a b o r d a g e m fun cionalista de base ciberntica, na qual sobressaem atores individuai^ coletivos ou institucionais, compreendendo opes e decises racioj nais c o m relao a fins, objetivos o u valores definidos e m t e r m o pragmticos, relacionados definio de posies, conquista d e van tagens ou afirmao de hegemonias. Trata-se de um enfoque prioritaj riamente sincrnico, compreendendo o cenrio internacional ou munu dial em termos de agentes concebidos c o m o atores em u m t o d o sist mico. Assim, u m a conceituao distinta daquela presente nas noe de " s i s t e m a - m u n d o " ou " e c o n o m i a - m u n d o " c o m as quais trabalh Wallerstein. Por isso, p o d e ser conveniente priorizar o conceito d " e c o n o m i a - m u n d o " , q u a n d o se focaliza as contribuies desse autor. Inclusive p o d e ser c o n v e n i e n t e r e s s a l t a r a s c o n v e r g n c i a s e n t r Wallerstein e Braudel, distinguindo-os d a a b o r d a g e m sistmica, n q u a l e s t o presentes e so f u n d a m e n t a i s c o n c e i t o s o r i g i n r i o s d a ciberntica.9i ni.ules e multipolaridades, ciclos, pocas e tendncias seculares das ptonomias-mundo. A articulao principalmente econmica d o cont r i t o de e c o n o m i a - m u n d o est presente inclusive e m b o a p a r t e d o s comentadores, seguidores e crticos de Wallerstein e Braudel. As economias nacionais tm-se tornado crescentemente interdependentes, e os correlatos processos de produo, troca e circulao a d q u i r i r a m alcance global. M u i t a s indstrias de t i p o t r a b a l h o intensivas tm sido realocadas em regies com estruturas de custos de t r a b a l h o relativamente baixas. Embora as novas tecnologias enfatizem a disponibilidade de fora de trabalho altamente qualificada, elas favorecem os desenvolvimentos recentes da capacidade produtiva em pases industrialmente avanados. Esta reestruturao das atividades econmicas beneficia-se de dois fatores atuando conjugadamente: a rpida mudana tecnolgica e a crescente integrao financeira internacional. A conseqente diviso internacional do trabalho pode beneficiar-se das variaes regionais da infraestrutura tecnolgica, condies de mercado, relaes industriais e clima poltico para realizar a produo global integrada e as estratgias de marketing. A corporao transnacional o mais conspcuo, mas no o nico, agente significativo nesse processo. C o m o Immanuel Wallerstein e outros observaram, o que estamos testemun h a n d o o u t r o estgio n o desenvolvimento de um " s i s t e m a m u n d o " , cuja caracterstica principal o escopo transnacional d o capital. (...) Para Wallerstein, a "economia-mundo" agora universal, no sentido de que todos os Estados nacionais esto, em diferentes graus, integrados em sua estrutura central. (...) Uma caracte-Alm d o mais, as contribuies de Wallerstein e Braudel conferem importncia especial economia poltica d a mundializao. Distinguem, de m o d o particularmente atento, as peculiaridades e complexidades das tecnologias, formas de organizao da p r o d u o , intercmbios entre organizaes econmicas nacionais e internacionais, pola-Klaus Knorr e Sidney Verba (editores), The International System (Theoretical Essays), Princeton University Press, Princeton, 1961; Robert O. Keohane e Joseph S. Nye, Power and Interdependence, second edition, Harper Collins Publishers, Nova York, 1989; George Modelski, Long Cycles in World Politics, University of Washington Press, Seattle e Londres, 1987; Karl Deutsch, Anlise das relaes internacionais, traduo de Maria R. Ramos da Silva, Editora Universidade de Braslia, Braslia, 1982.9rstica importante do sistema unificado de Wallerstein o padro de estratificao global, que divide a economia mundial em reas centrais (beneficirias da acumulao de capital) e reas perifricas (em constante desvantagem pelo processo de intercmbio desigual). O sistema de Estados nacionais, que institucionaliza e legitima a diviso centro-periferia, t a m b m concretiza, p o r meio de u m a4243T E O R I A S DA G L O B A L I Z A OASECONOMIAS-MUNDOintricada rede de relaes legais, diplomticas e militares, a distribuio d o poder n o c e n t r o .10comentaristas, seguidores ou crticos, conferem especial a t e n o s > ondies n o s econmicas c o m o tambm sociais, polticas, d e m o r a icas, geogrficas, culturais e outras, em mbitos local e nacional. I >isiinguem e valorizam as diversidades e as hierarquias das formas nodais de organizao d o t r a b a l h o e da p r o d u o . Reconhecem as dimenses sociais, polticas e culturais, alm das econmicas, na p r o duo e reproduo das condies de vida na cidade e n o c a m p o , compreendendo a cultura material e espiritual, a realidade e o imaginrio. N o limite, Braudel est fascinado pelo lugar que a Frana p o d e ocupar n o m u n d o . Em t o d a a sua longa viagem pela geografia e histi i.i mundiais, procura o lugar e o destino da Frana. Passa pelos desalios representados pela cidades e naes dominantes, centrais, metropolitanas ou plos de economias-mundo: Veneza, Amsterd, Inglaitrra, Alemanha, Estados Unidos e outras. Reconhece o m o m e n t o e a importncia de c a d a u m a , c o m o centro de e c o n o m i a - m u n d o . M a s continua a procurar o lugar e o destino da Frana nessa viagem sem hm: "Eu o digo de uma vez p o r todas: a m o a Frana ~om a mesma paixo, exigente e complicada, de Jules M i c h e l e t " .12Para alguns, dentre os quais destaca-se Wallerstein, "hegemonia envolve u m a situao em que os p r o d u t o s de d a d o Estado nacional so produzidos t o eficientemente que se t o r n a m largamente c o m p e titivos at mesmo em outros Estados centrais, o que significa que esse d a d o Estado nacional ser o principal beneficirio d o cada vez mais livre m e r c a d o m u n d i a l " .11Note-se, n o e n t a n t o , que o conceito de " e c o n o m i a - m u n d o " , o u e c o n o m i a m u n d i a l , sistema m u n d i a l , sistema econmico m u n d i a l e capitalismo histrico, conforme inspiram as pesquisas e as interpretaes de Wallerstein e Braudel, est sempre relacionado c o m o emblem a Estado-nao. Ainda que seja evidente o e m p e n h o em desvendar as realidades geogrficas, histricas e econmicas d a mundializao, o Estado-nao aparece t o d o o t e m p o , c o m o agente, realidade, p a r metro ou iluso. Esses autores acham-se, t o d o o t e m p o , c o m p r o m e t i dos c o m a idia de sociedade nacional, ou Estado-nao, c o m o emblem a d a realidade e d o pensamento, ou d a geografia, da histria e d a teoria. claro que reconhecem que a sociedade nacional n o capaz de conter as foras d a economia, poltica, geografia, g e o e c o n o m i a , geopoltica, histria, demografia, cultura, m e r c a d o , negcios etc. Reconhecem que as fronteiras so contnua ou periodicamente rompidas, refeitas, ultrapassadas ou dissolvidas. Sabem que a n a o u m fato histrico e geogrfico, um processo que se cria e recria continuamente. M a s priorizam o p o n t o de vista nacional, o emblema Estadon a o , c o m o universo emprico e terico. T a n t o assim que Braudel e Wallerstein, bem c o m o muitos de seusN o limite, Wallerstein est empenhado em esclarecer o segredo da primazia dos Estados Unidos da Amrica d o N o r t e n o m u n d o capitalista, conforme ela se manifesta a o longo d o sculo X X , particularmente desde a Segunda Guerra Mundial. Est rebuscando pretritos, antecedentes ou razes de sistemas imperialistas. Q u e r esclarecer o vaivm das grandes potncias, c o m o metrpoles de sistemas ou econ o m i a s - m u n d o . D e b r u a - s e s o b r e o tecido e c o n m i c o , p o l t i c o , demogrfico, militar, tecnolgico, cultural e ideolgico que fundamenta a primazia deste ou daquele sistema ou economia-mundo. Deus, parece, abenoou os Estados Unidos trs vezes: no presente, noJoseph A. Camilleri e Jim Falk, The End of Sovereignty? (The Politics of a Shrinking and Fragmenting World), Edward Elgar Publishing Limited, Hants, Inglaterra, 1992, pp. 77-78. Joseph A. Camilleri e Jim Falk, The End of Sovereignty?, citado, p. 89.1 11 0passado e no futuro. Digo que assim parece porque os caminhos de Fernand Braudel, L'identit de la France, 3 vols., Arthaud-Flammarion, Paris, 1986, vol. I, p. 9.1 24445T E O R I A S DA G L O B A L I Z A OASECONOMIAS-MUNDODeus so misteriosos, e no pretendo estar seguro de entend-los. As! bnos de que falo so estas: no presente, prosperidade; no passado liberdade; no futuro, igualdade. (...) O problema que essas bno tm seu preo. (...) E nem sempre bvio que aqueles que recebem asj bnos tm sido os que pagam o seu preo. (...) A Amrica sempre; se acreditou excepcional. E eu aderi a essa crena ao concentrar-nr nas trs bnos divinas. Entretanto, no s a Amrica no excep cional, mas a excepcionalidade americana no excepcional. N somos o nico pas na histria moderna cujos pensadores tm procu rado provar que o seu pas historicamente nico, diferente da m a sJcientemente dos regimes polticos e das culturas nacionais. Reconhecem que elas criam novos desafios a governos, a grupos sociais, a classes sociais, a coletividades, a povos, a naes e a nacionalidades, impregnando seus movimentos sociais, partidos polticos, correntes de opinio pblica e meios de comunicao. Inclusive reconhecem q u e as novas caractersticas d o capitalismo mundial, c o m o economias-mundo ou sistemas-mundo, suscitam problemas tericos novos ainda n o equacionados, a g u a r d a n d o conceitos e interpretaes. D e i x a m t r a n s parecer que as noes de soberania nacional, projeto nacional, imperialismo e dependncia, entre outras, n o d o conta d o que vai pelo mundo. M a s t a n t o Samir Amin c o m o Andr G u n d e r Frank c o n t i n u a m interpretando as configuraes e os movimentos da sociedade global a partir da perspectiva d o Estado-nao. O seu pensamento continua a inspirar-se pela tese de q u e , n o limite, p o d e m realizar-se p r o j e t o s nacionais, movimentos de liberao nacional ou anti-sistmicos, d e modo a realizar-se a emancipao p o p u l a r .14sa dos outros pases no mundo. J encontrei franceses excepcionalistas, assim como russos. H hindus e japoneses, italianos e portugueses, judeus e gregos, ingleses e hngaros excepcionalistas. O excep-| cionalismo chins e egpcio uma verdadeira marca do carter nacic^ nal. E o excepcionalismo polons compete com qualquer outro. O excepcionalismo o tutano dos ossos de praticamente todas as civilizaes que o nosso mundo tem p r o d u z i d o .13N o se trata de negar os fatos que expressam as realidades locais, Ainda que formuladas em linguagens diversas das a d o t a d a s porj Braudel e Wallerstein, inclusive p o r q u e utilizam-se mais a m p l a m e n t e de noes provenientes d o m a r x i s m o , Samir Amin e Andr G u n d e r Frank t a m b m p o d e m situar-se na mesma corrente. Esto e x a m i n a n d o as caractersticas das economias-mundo, c o m p r e e n d e n d o sistemas geopolticos, imperialismos, dependncias, trocas desiguais, lutas p o r liberao nacional, revolues socialistas. As contribuies desses autores so fundamentais para o m a p e a m e n t o das novas caractersticas d a economia e poltica mundiais. Reconhecem que as transnacionais desenvolvem-se alm das fronteiras geogrficas e polticas, indepen1 Samir Amin, Giovanni Arrighi, Andr Gunder Frank, Immanuel Wallerstein, Le grand tumulte? (Les Mouvements Sociaux dans l'conomieMonde), ditions La Dcouverte, Paris, 1991; Samir Amin, La Dconnexion (Pour Sortir du Systme Mondial), ditions La Dcouverte, Paris, 1986; Samir Amin, L'Empire du Chaos, ditions L'Harmattan, Paris, 1991; Andre Gunder Frank, Crisis: In the World Economy, Heinemann Educational Books, Londres, 1980; Andre Gunder Frank, Critique and Anti-Critique (Essays on Dependence and Reformism), The MacMillan Press, Londres, 1984.4nacionais, regionais ou multinacionais, envolvendo continentes, ilhas e arquiplagos. O nosso sculo p o d e ser visto c o m o u m imenso m u r a l de lutas populares, guerras entre naes, revolues nacionais e revolues sociais. E t u d o isso continua vigente e fundamental n o fim deste sculo X X , n o limiar d o XXI. O dilema consiste em constatar se est ou n o havendo u m a ruptura histrica em grandes propores, emImmanuel Wallerstein, "America and the World: Today, Yesterday and Tomorrow", Theory and Society, n. 21,1992, pp. 1 e 27. Tambm: Immanuel Wallerstein, "The USA in Today's World", Contemporary Marxism, n. 4, San Francisco, 1982.1 34647T E O R I A S DA G L O B A L I Z A OASECONOMIAS-MUNDO m b i t o global, assinalando o declnio d o Estado-nao e a emergncia de novos e poderosos centros mundiais de poder, soberania e hegemonia. Nesta hiptese, o Estado-nao continua vigente, mas c o m significados diversos dos que teve por longo t e m p o n o pensamento liberal e n o p e n s a m e n t o d e a l g u m a s c o r r e n t e s m a r x i s t a s , sem e s q u e c e r sociais-democratas, neoliberais, fascistas e nazistas. O c o r r e que a e c o n o m i a - m u n d o , o u sistema-mundo, e m t o d a a sua complexidade n o s econmica, m a s t a m b m social, poltica e cultural, sempre transcende t u d o o que local, nacional e regional. Repercute p o r t o d o s os cantos, perto e longe. O s colonialismos e imperialismos e s p a n h o l , p o r t u g u s , holands, belga, francs, a l e m o , russo, japons, ingls e norte-americano sempre constituram e dest r u r a m fronteiras, soberanias e hegemonias, compreendendo tribos, cls, naes e nacionalidades. So muitos os que reconhecem que os Estados nacionais asiticos, africanos e latino-americanos foram desen h a d o s , em sua quase totalidade, pelos colonialismos e imperialismos europeus, segundo os modelos geo-histrico e terico, ou ideolgico, configurado n o Estado-nao que se formou e p r e d o m i n o u n a Europa.15vii c intensivo d o capitalismo, compreendendo as foras produtivas, I n - . (orno o capital, a tecnologia, a fora de trabalho e a diviso d o trabalho social, sempre envolvendo as instituies, os padres scioi iiliurais e os ideais relativos racionalizao, produtividade, lucrativiil.ulc, quantidade. Sob vrios aspectos, as interpretaes de Braudel e Wallerstein contribuem decisivamente para o conhecimento das configuraes e movimentos da sociedade global em formao n o final d o sculo X X . verdade que seus escritos, bem c o m o os de seus seguidores, freqentemente priorizam os sistemas coloniais e os sistemas imperialistas, distinguindo as grandes potncias, em suas relaes c o m as colnias e os pases dependentes. Descrevem o c o n t r a p o n t o centro-periferia, o u desenvolvimento-subdesenvolvimento. Focalizam a constituio, os desenvolvimentos e as crises dos centros hegemnicos, m o s t r a n d o como esses processos afetam n o s as metrpoles mas o conjunto dos povos colonizados e dependentes. Assinalam o jogo das relaes que associam, tensionam e conflitam metrpoles emergentes e d o m i n a n tes, envolvendo suas colnias e dependncias. Ficam mais ou menos ntidas as linhas mestras d a emergncia, transformao e crise dos sistemas polarizados pelos pases metropolitanos, tais c o m o Portugal, Espanha, H o l a n d a , Frana, Alemanha, Blgica, Itlia, Rssia, J a p o , Inglaterra e Estados Unidos. Algumas das linhas mestras da histria dos grandes descobrimentos martimos, continuando pelo mercantilismo, colonialismo, imperialismo, transnacionalismo e globalismo revelam-se mais ou menos claras, articuladas e dinmicas. Nesse sentido que as interpretaes de Braudel e Wallerstein, juntamente c o m as de seus seguidores, contribuem decisivamente para o conhecimento das configuraes e movimentos da sociedade global. C o m Wallerstein e Braudel estamos n o mbito da geo-histria. As realidades locais, provinciais, nacionais, regionais e mundiais so vistas c o m o simultaneamente espaciais e temporais. Envolvem relaes, processos e estruturas sociais, econmicos, polticos e culturais, m a s sempre focalizados em sua dinmica geo-histrica. O s movimentos deO emblema Estado-nao sempre teve as caractersticas simultneas e contraditrias de realidade geo-histrica e fico. N a poca da globalizao, e provavelmente de forma m u i t o m a r c a n t e , t o r n a - s e mais fico. Tal emblema est atravessado p o r relaes, processos e estruturas altamente determinados pela dinmica dos m e r c a d o s , d a desterritorializao das coisas, gentes e idias, e n q u a n t o a r e p r o d u o ampliada d o capital se globaliza, devido a o desenvolvimento extensi-u Hugh Seton-Watson, Nations & States, Methuen, Londres, 1977; Dawa Norbu, Culture and the Politics of Third World Nationalism, Routledge, Londres, 1992; Eric R. Wolf, Europe and the People Without History, University of California Press, Berkeley, 1982; Peter Worsley, The Third World, The University of Chicago Press, Chicago, 1964; Roland Oliver, A experincia africana, traduo de Renato Aguiar, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1994.4849T E O R I A S DA G L O B A L I Z A OASECONOMIAS-MUNDOp o p u l a e s , m e r c a d o r i a s , tcnicas p r o d u t i v a s , instituies, p a d r e scio-culturais e idias, bem c o m o os c o n t r a p o n t o s c i d a d e - c a m p o a g r i c u l t u r a - i n d u s t r i a , m e t r p o l e - c o l n i a , centro-periferia, Leste Oeste, Norte-Sul, Ocidente-Oriente, local-global, passado-presente esses e outros c o n t r a p o n t o s sempre so descritos e interpretados e t e r m o s geo-histricos. n o m b i t o da geo-histria que se inserem os fatos da geoecono mia, d a geopoltica, d o ciclo econmico de longa durao, dos movi m e n t o s seculares. So fatos que se desdobram uns nos o u t r o s , concre tizando-se em realidades locais, provinciais, nacionais, regionais mundiais, envolvendo continentes, ilhas e arquiplagos, p r o d u z i n d o configuraes e movimentos das economias-mundo, sempre em moldes geo-histricos. Em boa medida, a dinmica das economias-mundo tem uma d suas razes nas diversidades e desigualdades com as quais se constitui essa totalidade geo-histrica, implicando sempre o social, o poltico e o cultural, alm d o econmico. C o m o em toda configurao social, em sentido lato, o t o d o geo-histrico inerente e c o n o m i a - m u n d o u m t o d o em movimento, heterogneo, integrado, tenso e antagnico. sempre problemtico, atravessado pelos movimentos de integrao e fragmentao. Suas partes, c o m p r e e n d e n d o naes e nacionalidades, grupos e classes sociais, movimentos sociais e partidos polticos, conjugam-se de m o d o desigual, articulado e tenso, no m b i t o do tod o . Simultaneamente, esse t o d o confere outros e novos significados e m o v i m e n t o s s partes. Anulam-se e multiplicam-se os espaos e osi tempos, j que se trata de uma totalidade heterognea, contraditria, viva, em movimento. Em sntese, n a p r p r i a d i n m i c a d a s e c o n o m i a s - m u n d o q u e emergem e se desenvolvem os processos que configuram os ciclos geohistricos de longa, mdia e curta duraes. O mesmo jogo das foras produtivas, a mesma dinmica das lutas pelos mercados, o m e s m o e m p e n h o de inovar tecnologias e mercadorias, esses processos que se desenvolvem c o n t i n u a m e, periodicamente n o bojo das economias-mundo, t u d o isso constitui o fundamento d a dinmica progressiva e errtica que se t o r n a m nos ciclos de longa d u r a o , assinalando o nascimento, a t r a n s f o r m a o , o declnio e a sucesso d a s e c o n o m i a s mundo. medida que se d e s d o b r a m os significados geo-histricos d a teoria das economias-mundo, em suas implicaes empricas e m e t o d o l gicas, logo se evidenciam as continuidades e as rupturas entre o nacional e o mundial, o p r x i m o e o r e m o t o , o passado e o presente, o espao e o t e m p o . c o m o se o horizonte aberto pela globalizao e m curso n o final d o sculo X X abrisse possibilidades novas e desconhecidas sobre as formaes sociais passadas, prximas e distantes, recentes e remotas. Uns buscam continuidades e rupturas, outros descontinuidades e multiplicidades, n o curso da geo-histria, d o c o n t r a p o n t o espao-tempo. c o m o se muito d o que passado adquirisse n o v o sentido, ao m e s m o t e m p o q u e o u t r o t a n t o d o q u e t a m b m parece p a s s a d o tomasse significado de presente. Realidades e significados q u e p a r e ciam irrelevantes, secundrios, esquecidos o u escondidos, reaparecem sob nova luz. E t u d o isso p o r q u e a ruptura geo-histrica que desvenda a globalizao d o m u n d o , n o final deste sculo, prenunciando configuraes e movimentos d o sculo XXI, revela-se n o s u m evento heurstico, mas u m a ruptura epistemolgica.5051.AI-ITUL0 3A internacionalizao do capitalDesde que o capitalismo r e t o m o u sua expanso pelo m u n d o , em seguida Segunda Grande Guerra M u n d i a l , muitos comearam a reconhecer que o m u n d o estava se t o r n a n d o o cenrio de um vasto processo de internacionalizao d o capital. Algo jamais visto anteriormente em escala semelhante, p o r sua intensidade e generalidade. O capital perdia parcialmente sua caracterstica nacional, tais c o m o a inglesa, n o r t e - a m e r i c a n a , a l e m , j a p o n e s a , francesa ou o u t r a , e adquiria u m a c o n o t a o internacional. Ao mesmo tempo que comeavam a p r e d o m i n a r os movimentos e as formas de reproduo do capital em escala internacional, este capital alterava as condies dos movimentos e das formas de reproduo d o capital em mbito nacional. Aos poucos, as formas singulares e particulares do capital, mbitos nacional e setorial, subordinaram-se s formas d o capital em geral, c o n f o r m e seus m o v i m e n t o s e suas formas de r e p r o d u o em m b i t o internacional. Verificava-se uma metamorfose qualitativa e no apenas quantitativa, de tal maneira que o capital adquiria novas condies e possibilidades de r e p r o d u o . Seu espao ampliava-se alm das fronteiras nacionais, t a n t o das naes dominantes c o m o das s u b o r d i n a d a s , conferindo-lhe c o n o t a o internacional, ou propria-55T E O R I A S DA G L O B A L I Z A OA INTERNACIONALIZAODO C A P I T A Lmente mundial. Essa internacionalizao se t o r n a r mais intensa e generalizada, ou propriamente mundial, c o m o fim d a Guerra Fria, a desagregao d o bloco sovitico e as m u d a n a s de polticas econmicas nas naes de regimes socialistas. A partir desse m o m e n t o as econ o m i a s das naes d o ex-mundo socialista transformam-se em fronteiras de negcios, inverses, associaes de capitais, transferncias de tecnologias e outras operaes, expressando a intensificao e a generalizao dos movimentos e das formas de reproduo d o capital em escala mundial. O q u e parecia ser u m a espcie de virtualidade d o capitalismo, c o m o m o d o de p r o d u o mundial, tornou-se cada vez mais u m a realidade d o sculo X X ; e adquiriu ainda maior vigncia e abrangncia depois da Segunda Guerra M u n d i a l . Sob certos aspectos, a G u e r r a Fria, nos anos 1946-89, foi uma poca de desenvolvimento intensivo e extensivo d o capitalismo pelo m u n d o . C o m a nova diviso internacional d o trabalho, a flexibilizao dos processos produtivos e outras manifestaes d o capitalismo em escala mundial, as empresas, c o r p o raes e conglomerados transnacionais adquirem preeminncia sobre as economias nacionais. Elas se constituem nos agentes e p r o d u t o s d a internacionalizao d o capital. T a n t o assim que as transnacionais redesenham o m a p a d o m u n d o , em termos geoeconmicos e geopolticos muitas vezes bem diferentes daqueles que haviam sido desenhados pelos mais fortes Estados nacionais. O que j vinha se esboando n o p a s s a d o , c o m a emergncia d o s m o n o p l i o s , trustes e c a r t i s , intensifica-se e generaliza-se com as transnacionais que passam a pred o m i n a r desde o fim d a Segunda G u e r r a M u n d i a l ; inicialmente sombra da Guerra Fria e, em seguida, s o m b r a na "nova o r d e m econmica m u n d i a l " . Ainda q u e c o m freqncia haja coincidncias, convergncias e convenincias recprocas entre governos nacionais e empresas, c o r p o raes ou c o n g l o m e r a d o s , n o q u e se refere a a s s u n t o s n a c i o n a i s , regionais e mundiais, inegvel que as transnacionais libertaram-se progressivamente de algumas das injunes ou limitaes inerentesaos Fstados nacionais. A geoeconomia e a geopoltica das transnacionais nem s e m p r e c o i n c i d e m c o m as d o s E s t a d o s n a c i o n a i s . A l i s , . i instantemente se dissociam, ou mesmo colidem. So c o m u n s os inciilrntes em q u e se constatam as progressivas limitaes d o princpio d e lobcrania em que classicamente se fundava o Estado-nao. E m escala cada vez mais acentuada, em mbito mundial, a " g r a n d e e m p r e s a " parece transformar naes das mais diversas categorias em " p e q u e n a nao".1N a base d a internacionalizao d o capital esto a f o r m a o , o desenvolvimento e a diversificao d o que se p o d e d e n o m i n a r "fbrii a g l o b a l " . O m u n d o transformou-se n a prtica em u m a imensa e loinplexa fbrica, que se desenvolve conjugadamente c o m o q u e se pode d e n o m i n a r "shopping center global". Intensificou-se e generalizou-se o processo de disperso geogrfica da p r o d u o , ou das foras piodutivas, compreendendo o capital, a tecnologia, a fora de t r a b a lho, a diviso d o trabalho social, o planejamento e o mercado. A nova diviso internacional d o trabalho e da p r o d u o , envolvendo o fordisino, o neofordismo, o toyotismo, a flexibilizao e a terceirizao, tudo isso amplamente agilizado e generalizado com base nas tcnicas eletrnicas, essa nova diviso internacional d o trabalho concretiza a nlobalizao d o capitalismo, em termos geogrficos e histricos. A fbrica global pode ser simultaneamente realidade e metfora. Kxpressa n o s a reproduo ampliada d o capital em escala global,i Franois Perroux, "Grande Firme et Petite Nation", conomies et socits, tomo II, n 9, Librairie Droz, Genebra, 1968, pp. 1847-1867; Raymond Vernon, Tempestade sobre as multinacionais, traduo de Waltensir Dutra, Zahar Editores, Rio de Janeiro, 1980; Richard J. Barnet e Ronald Muller, Poder global (A Fora Incontrolvel das Multinacionais), traduo de Ruy Jungmann, Distribuidora Record, Rio de Janeiro, s/d (edio original em ingls realizada em 1974); Charles-Albert Michalet, O capitalismo mundial, traduo de Salvador Machado Cordaro, Editora Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1984; United Nations, Transnational Corporations in World Development, Nova York, 1978.5657T E O R I A S DA G L O B A L I Z A OA INTERNACIONALIZAODO C A P I T A Lc o m p r e e n d e n d o a generalizao das foras produtivas, m a s express t a m b m a globalizao das relaes de p r o d u o . Globalizam-se a instituies, os princpios jurdicos-polticos, os padres scio-cult rais e os ideais que constituem as condies e os p r o d u t o s civilizad rios d o capitalismo. Esse o contexto em que se d a metamorfose d "industrializao substitutiva de importaes" para a "industrializa o orientada para a e x p o r t a o " , da mesma forma que se d a deses tatizao, a desregulao, a privatizao, a abertura de mercados e monitorizao das polticas econmicas nacionais pelas tecnocracia d o F u n d o M o n e t r i o Internacional e d o Banco M u n d i a l , entre o u t r a organizaes multilaterais e transnacionais.2J possvel reconhecer que o significado d o Estado-nao t e m sido alterado drasticamente, q u a n d o e x a m i n a d o luz d a globalizao do c a p i t a l i s m o intensificada desde o t r m i n o d a S e g u n d a G u e r r a Mundial e acelerada com o fim da Guerra Fria. Algumas das caractersticas "clssicas" d o Estado-nao parecem modificadas, ou radicalmente transformadas. As condies e as possibilidades de soberania, projeto nacional, emancipao nacional, reforma institucional, liberalizao das polticas e c o n m i c a s ou revoluo social, e n t r e o u t r a s mudanas mais ou menos substantivas em m b i t o nacional, p a s s a m a estar determinadas p o r exigncias de instituies, organizaes e corporaes multilaterais, transnacionais ou propriamente mundiais, q u e pairam acima das naes. A m o e d a nacional torna-se reflexa d a m o e da mundial, abstrata e ubqua, universal e efetiva. O s fatores d a p r o duo, o u as foras produtivas, tais c o m o o capital, a tecnologia, a fora de trabalho e a diviso d o trabalho social, entre o u t r a s , passam a ser organizadas e dinamizadas em escala bem mais acentuada q u e antes, pela sua reproduo em mbito mundial. T a m b m o aparelho estatal, p o r t o d a s as suas agncias, sempre simultaneamente polticas e econmicas, alm de administrativas, levado a reorganizar-se ou " m o d e r n i z a r - s e " segundo as exigncias d o funcionamento m u n d i a l dos mercados, dos fluxos dos fatores da p r o d u o , das alianas estratgicas entre c o r p o r a e s . D a a internacionalizao d a s diretrizes relativas desestatizao, desregulamentao, privatizao, a b e r t u r a de fronteiras, criao de zonas francas.3 claro que o capitalismo continua a ter bases nacionais, m a s es tas j n o so determinantes. A dinmica d o capital, sob t o d a s as sua formas, r o m p e ou ultrapassa fronteiras geogrficas, regimes polticos culturas e civilizaes. Est em curso u m n o v o surto de mundializa d o capitalismo c o m o m o d o de p r o d u o , em que se destacam a din mica e a versatilidade d o capital c o m o fora produtiva. E n t e n d e n d o se que o capital u m signo d o capitalismo, o emblema dos g r u p o s classes dominantes em escalas nacional, regional e mundial. Isto , o capital de que se fala aqui u m a categoria social complexa, baseada na p r o d u o de mercadoria e lucro, ou mais-valia, o que supe t o d o o t e m p o a compra de fora de trabalho; e sempre envolvendo institui-] es, padres scio-culturis de vrios tipos, em especial os jurdicopolticos que constituem as relaes de p r o d u o .U m teste particularmente importante da forma pela qual se d a internacionalizao d o capital est evidente na contnua e agressiva peneFolker Frobel, Jrgen Heinrichs e Otto Kreye, The New International Division of Labor (Structural Unemployment in Industrialized Countries! and Industrialisation in Developing Countries), traduo de Pete Burgess, Cambridge University Press, Cambridge, 1980; Joseph Grunwald e Kenneth Flamm, The Global Factory (Foreign Assembly in International Trade), The Brookings Institution, Washington, 1985; Robert B. Reich, The Work of Nations, Alfred A. Knopf, Nova York, 1991; Alain Lipietz, Le capital et son espace, La Dcouverte/Maspero, Paris, 1983.2trao que esse capital realiza em cada u m a e em todas as economias3 Joseph A. Camilleri e Jim Falk, The End of Sovereignty? (The Politics of a Shrinking and Fragmenting World), Edward Elgar Publishing, Hants, Inglaterra, 1992; Bernardo Kliksberg, Cmo transformar al Estado? (Ms All de Mitos y Dogmas), Fondo de Cultura Econmica, Mxico, 1993.59T E O R I A S DA G L O B A L I Z A OA INTERNACIONALIZAODOCAPITALsocialistas. Desde as mais diferentes tcnicas de bloqueio econmico, poltico e cultural at as mais diferentes propostas de intercmbio econmico, sob todas as formas o capital pouco a pouco se torna um elem e n t o presente e essencial organizao e dinmica de cada u m a e de t o d a s as economias socialistas. M e s m o antes d a Guerra Fria, essas m o d a l i d a d e s de a o j e r a m efetivas. D u r a n t e a Segunda G u e r r a Mundial foram acionados vrios meios de intercmbio. A aliana de fato e de direito entre os Estados Unidos e a Unio Sovitica na luta contra o nazi-fascismo alemo, italiano e japons beneficiou muitssim o as foras produtivas organizadas c o m base nos capitalismos norteamericano e ingls. Aps a Segunda Guerra Mundial, a Guerra Fria revelou-se u m a imensa e complexa operao de diplomacia total, n o s contra-revolucionria, mas de dinamizao e generalizao das atividades produtivas, principalmente na Europa e n o Pacfico, destacando-se os tigres asiticos e o J a p o , p o r u m l a d o , e a U n i o Europia e a Alemanha Federal, por outro. Cabe relembrar que u m a parte importante d o desenvolvimento industrial ocorrido em pases d o "Terceiro M u n d o " realiza-se sombra da Guerra Fria, com apoio mais ou menos ostensivo de governos dos pases d o "Primeiro M u n d o " , d o Banco Mundial e do Fundo Monetrio Internacional. Q u a n d o termina a Guerra Fria, inclusive c o m o decorrncia d o m o d o pelo qual o capitalism o estava bloqueando e penetrando o m u n d o socialista, o "Segundo M u n d o " , so outros espaos que se abrem. Sob vrios aspectos, como se o m u n d o todo se tornasse o cenrio das foras produtivas acionadas e generalizadas pelas corporaes transnacionais, conjugadas com ou apoiadas pelos governos dos pases capitalistas dominantes. Vale a pena examinar algumas particularidades d o vasto e longo processo atravs d o qual o capital se t o r n a cada vez mais presente e essencial n o m u n d o socialista, constituindo-se em u m elemento decisivo em sua transformao. A rigor, a metamorfose das economias centralmente planejadas em economias de m e r c a d o aberto comeou muito antes d o fim da Guerra Fria. Em 1 9 7 7 colocavam-se c o m clareza as perspectivas e as vantagens que se a b r i a m a o capital.As relaes econmicas Leste-Oeste esto intimamente ligadas ao es(|iiema poltico geral existente entre os Estados Unidos e a Unio Sovitica. Nesse esquema, as consideraes polticas e militares sobrecarregam as consideraes econmicas e comerciais na poltica dos Estados Unidos com relao Unio Sovitica e, em menor grau, no i|ue se refere a sua poltica relativa s outras economias socialistas. Entretanto, as transaes econmicas e comerciais entre os Estados Unidos e os pases socialistas so um fator que influencia a atmosfera poltica. E h muito que ganhar de um relacionamento poltico razoavelmente estvel, em que os pases socialistas participem mais abertamente no conjunto do sistema internacional. (...) Em um mundo de crescente interdependncia econmica, cientfica e tecnolgica as trocas e o comrcio esto crescendo e c o n t i n u a r o a crescer.4As c o r p o r a e s transnacionais, c o m freqncia a p o i a d a s pelas agncias governamentais dos pases capitalistas dominantes, e t a m bm beneficiadas pelas diretrizes de organizaes multilaterais, tais como o F u n d o M o n e t r i o Internacional e o Banco M u n d i a l , criaram os mais diversos e prementes desafios para as economias socialistas. Alm de oferecerem negcios, possibilidades de comrcio e intercmbio de tecnologias, t a m b m ofereceram mercados, possibilidades de exportao das economias socialistas para as capitalistas. Aos p o u cos, as economias centralmente planificadas viram-se estimuladas e desafiadas pelas oportunidades de mercado oferecidas. Aos poucos, a industrializao substitutiva de importaes, que predominou em pases socialistas, foi acoplada e subordinada industrializao orientada para a exportao. O que j estava ocorrendo de maneira incipien-4Lawrence C. McQuade (editor), East-West Trade (Managing Encounter and Accomodation), Westview Press, Boulder, Colorado, 1977, pp. 3 e 5. Editado para "The Atlantic Council Committee on East-West Trade".6061T E O R I A S DA G L O B A L I Z A OA INTERNACIONALIZAODOCAPITALte em u m ou o u t r o pas paulatinamente tornou-se u m processo cont n u o , crescente e avassalador. O verdadeiro dnamo do crescimento na China hoje o setor indusi trial criado pelo investimento estrangeiro, que se concentra no Sul d China, principalmente em Guangdong... O sucesso de Guangdon tem sido impulsionado pelas exportaes, que tm crescido cerca d 3 0 % nos anos recentes. (...) Entretanto, como o fluxo exportador d China torna-se mais e mais dependente do investimento estrangeiro* compreendendo o controle da tecnologia, dos fundos de investimen to e da qualidade, a burocracia estatal est paulatinamente perdend o controle da economia.5iiplicam e dispersam as zonas francas, multiplicam-se e dispersam-se tis unidades e organizaes produtivas. Est em curso u m a nova divid o internacional d o t r a b a l h o e d a p r o d u o , envolvendo a complementao o u superao dos procedimentos d o fordismo, das linhas ile montagens de p r o d u t o s homogneos. Ao lado d o fordismo e stacknovismo, bem c o m o d o s e n s i n a m e n t o s d o t a y l o r i s m o e fayolismo, ilesenvolve-se o toyotismo, a organizao d o processo de trabalho e produo em termos de flexibilizao, terceirizao ou subcontratao, t u d o isso amplamente agilizado pela a u t o m a o , pela robotizar o ; pela microeletrnica e pela informtica. Assim se generaliza o capitalismo, t r a n s f o r m a n d o o m u n d o em algo que parece uma fbrica global. Acontece que o capital adquiriu novas conotaes, na medida em que se desenraiza, movendo-se por t o d o s os cantos d o m u n d o .A rigor, a intensa e generalizada internacionalizao d o capita ocorre n o m b i t o da intensa e generalizada internacionalizao d processo p r o d u t i v o . O s "milagres e c o n m i c o s " que se sucedem a longo da Guerra Fria e depois dela so t a m b m m o m e n t o s mais o menos notveis dessa internacionalizao. Isto significa que as corporaes j n o se concentram nem se sediam apenas nos pases d o m i nantes, metropolitanos ou ditos centrais. As unidades e organizaes produtivas, envolvendo inovaes tecnolgicas, zonas de influncia, adequaes culturais e outras exigncias da p r o d u o , distribuio, troca e c o n s u m o das mercadorias que atendem necessidades reais ou imaginrias, passam a desenvolver-se nos mais diversos pases, distribuindo-se por continentes, ilhas e arquiplagos. Assim c o m o se mul-A internacionalizao do capital, como relao social, estende o processo de trabalho escala mundial e fragmenta o trabalho social no mais apenas em mbitos local, regional e nacional, mas no m u n d o como um todo. Os diversos componentes do computador afluem dos mais diversos recantos do globo, de Taiwan, Coria d o Sul, Estados Unidos, Frana, Gr-Bretanha, Amrica Latina, frica, segundo uma diviso do trabalho levada ao extremo, na qual a fragmentao o dado geral. O mesmo ocorre na indstria automobilstica.6A rigor, a internacionalizao d o capital significa simultaneamente a internacionalizao d o processo produtivo. E bvio que essa in5 Richard Smith, "The Chinese Road to Capitalism", New Left Review, n. 199, Londres, 1993, pp. 55-99; citaes das pp. 90-92. Consultar tambm: A. Koves, "Integration into World Economy and Direction of Economic Development in Hungary", Acta Oeconomica, vol. 20, n? 1-2, 1978, pp. 107-126; Andrs Koves "Socialist Economy and the World-Economy", Review, vol. V, n9 1, 1981, pp. 113-133; David Wen-Wei Chang, China Under Deng Xiaoping, MacMillan, Londres, 1991; The Economist, A Billion Consumers (A Survey of Asia), Londres, 30 de outubro de 1993. ternacionalizao d o capital produtivo envolve no s a idia d a fbrica global e d o shopping center global, mas tambm a da internacionalizao da questo social.6 Christian Palloix, Les firmes multinationales et le procs d'internationalisation, Franois Maspero, Paris, 1973, p. 163.63es S,Biblioteca T E O R I A S DA G L O B A L I Z A O A INTERNACIONALIZAO DO C A P I T A LHoje, a internacionalizao tem-se difundido no somente pelos cir-i cuitos do capital mercadoria e do capital dinheiro, mas alcanou oi seu estgio final, a internacionalizao do capital produtivo. Isto tem! sido habitualmente denominado internacionalizao da produoJ (...) N o desenvolvimento histrico da internacionalizao do capital, o Estado-nao ter de considerar, com crescente seriedade, a sua realidade externa, na medida em que certas partes do Estado umas mais do que outras tero de submeter-se situao internacional. (...) A internacionalizao de certas partes do Estado plenamente visvel. (...) A luta de classes conduzida pelo capital ocorre por todo o mundo, e o proletariado no pode mais ignorar este fato. Nesta luta de classes em nvel mundial (...) o capital tem a iniciativa. (...) necessrio introduzir a luta de classe do proletariado na anlise do: processo de internacionalizao.7 ;lido que as classes sociais, p o r seus movimentos sociais, p a r t i d o s polticos e correntes de opinio p o d e m t r a n s b o r d a r as naes e reHics, manifestando-se em m b i t o cada vez mais a m p l o . O q u e j verdade p a r a grupos e classes dominantes, que se c o m u n i c a m e artii ulam cada vez mais em escala mundial, p o d e tornar-se t a m b m realidade p a r a os g r u p o s e as classes s u b a l t e r n a s , a despeito de suas diversidades internas e de sua disperso p o r t o d o s os r e c a n t o s d o mapa d o m u n d o . Desde que se intensificou a globalizao d o capitalismo, c o m a nova diviso internacional d o t r a b a l h o e a disperso territorial das atividades industriais, t u d o isso dinamizado pelas tcnicas d a eletrnica, comeou-se a falar em fim da geografia. A acelerao e generalizao das relaes, processos e estruturas capitalistas atravessando territrios e fronteiras, c u l t u r a s e civilizaes, logo deu o r i g e m metfora d o fim da geografia. claro que a internacionalizao d o capital, compreendida com o i n t e r n a c i o n a l i z a o d o processo p r o d u t i v o o u d a r e p r o d u o a m p l i a d a d o capital, envolve a internacionalizao das classes sociais, em suas relaes, reciprocidades e antagonismos. C o m o o c o r re em toda formao social capitalista, t a m b m na global desenvolve-se a q u e s t o social. Q u a n d o se mundializa o capital p r o d u t i v o , mundializam-se as foras produtivas e as relaes de p r o d u o . Esse o c o n t e x t o em que se d a mundializao das classes sociais, c o m preendendo suas diversidades internas, suas distribuies pelos mais diversos e distantes lugares, suas mltiplas e distintas caractersticas culturais, tnicas, raciais, lingsticas, religiosas e outras. Nesse senChristian Palloix, "The Self-Expansion of Capital on a World Scale", The Review of Radical Political Economies, vol. 9, n. 2, Nova York, 1977, pp. 11,13 e 16. Consultar tambm: Christian Palloix, Les firmes multinationales et le procs d'internationalisation, citado; Samir Amin, L'accumulation l'chelle mondiale, ditions Anthropos e Ifan, Paris e Dakar, 1970; Octavio Ianni, Imperialismo na Amrica Latina, 2'. edio, Editora Civilizao Brasileira, Rio de Janeiro, 1988.7O fim da geografia, como um conceito aplicado s relaes financeiras internacionais, diz respeito a um Estado de desenvolvimento econmico em que a localizao geogrfica no importa mais em matria de finanas, ou importa muito menos d o que anteriormente. Neste Estado, os reguladores do mercado financeiro no mais controlam seus territrios; isto , os reguladores no se aplicam apenas a determinados espaos geogrficos, tais como o Estado-nao ou outros territrios tpicos definidos juridicamente.8N a poca dos m e r c a d o s mundiais de capitais, q u a n d o as mais diversas formas de capital passam a movimentar-se de m o d o cada vez mais acelerado e generalizado, nessa poca reduzem-se os controles nacionais. M a i s d o que isso, os governos nacionais, suas agncias e8 Richard O'Brien, Global Financial Integration: The End of Geography, Council on Foreign Relations Press, Nova York, 1992, p. 1.64T E O R I A S DA G L O B A L I Z A OA INTERNACIONALIZAODO C A P I T A Lorganizaes que tradicionalmente administram e orientam os movi m e n t o s d o capital, todas as instncias ditas nacionais vem reduzida suas capacidades de controlar os movimentos d o capital. Acontece que as corporaes transnacionais, incluindo-se natu ralmente as organizaes bancrias, movimentam seus recursos, de senvolvem suas alianas estratgicas, agilizam suas redes e seus circui tos informticos e realizam suas aplicaes de m o d o independente o m e s m o c o m total desconhecimento dos governos nacionais. E aind que os governos nacionais, por si e p o r suas agncias, t o m e m conhe c i m e n t o d o s m o v i m e n t o s t r a n s n a c i o n a i s d e capitais, a i n d a nesse casos pouco ou n a d a p o d e m fazer. As transnacionais organizam-se dispersam-se pelo m u n d o segundo planejamentos prprios, geoeco nomias independentes, avaliaes econmicas, polticas, sociais e c u l | turais que muitas vezes contemplam muito pouco as fronteiras nacio nais ou os coloridos dos regimes polticos nacionais.da, descobriram que o resultado, ou os custos econmicos potenciais de tais reforos, logo excederam os benefcios.9Esse o contexto em que o capital se t o r n a u b q u o , em u m a escala jamais alcanada anteriormente. Em instantes, ele se move pelos mais diversos e distantes lugares d o planeta, atravessando fronteiras e regimes polticos, assim c o m o mares e oceanos. Est em marcha u m p r o cesso de desterritorializao cujas implicaes prticas e tericas apenas comeam a ser analisadas. Na verdade, o dinheiro no viaja de um pas para outro no sentido fsico, as transferncias so eletrnicas, ou seja, realizadas no mesmo segundo que se toma a deciso por um investimento. N o h transferncia fsica de dlares. (...) Realiza-se uma simples operao de dbito e crdito eletronicamente. O fluxo internacional de capitais tambm se processa da mesma forma. Nessa imensa massa de recursos, confunde-se dinheiro com origem legal e aquele que se ganhouNos primeiros anos do perodo ps-Segunda Guerra Mundial, o governos apoiaram-se em controles dos movimentos de curto praz. dos capitais, com um propsito fundamental: prover as suas economias d o mximo de viabilidade de autonomia econmica, sem o sacrifcio da interdependncia econmica. (...) Entre os fins dos anos 1970 e os comeos dos anos 1990, um amplo movimento, indepen dentemente dos controles do capital, tornou-se evidente atravs do] mundo industrial. O rpido crescimento lquido de fundos interna-! cionais e a crescente globalizao da produo provocaram esse processo. Os mercados estrangeiros erodiram as barreiras financeiras nacionais, ao mesmo tempo que mobilizaram crescentes recursos para empresas multinacionais engajadas no processo de globalizao dos seus empreendimentos produtivos. Desse modo, elas aumentaram sua capacidade para desenvolver estratgias de evaso e remessa. Assim, os governos primeiro constataram que os controles tinham de ser reforados continuamente para serem de utilidade e, em segui!por atividades ilegais.10Esse o cenrio da economia poltica d o narcotrfico. D a d a s as condies n o s tcnicas mas t a m b m econmicas sob as quais so abertos mercados, agilizados os circuitos financeiros e fortalecidos os centros decisrios das corporaes transnacionais e das redes bancrias, a lavagem de qualquer tipo de dinheiro torna-se relativamente fcil. O desenvolvimento dos circuitos bancrios informatizados e d o sistema de transferncias eletrnicas contribui para acelerar o movimen9John B. Goodmann e Louis W. Pauly, "The Obsolescence of Capital Controls? Economic Management in an Age of Global Markets", World Politics, vol. 46, n. 1, Princeton, 1993, pp. 50-82; citao da p. 79. if Nilton Horita, "Dinheiro Roda o Mundo Atrs de Investimentos", O Estado de S. Paulo, 25 de setembro de 1994, p. B12.6667T E O R I A S DA G L O B A L I Z A OA INTERNACIONALIZAODO C A P I T A Lt o dos capitais tanto quanto limpar e reciclar o dinheiro sujo. Esta evoluo parece favorecer uma integrao maior da economia ilci" nas atividades dos grandes bancos comerciais internacionais.11ndo, h uma dominncia financeira na dinmica econmica. Ento, neste contexto, compreenda-se que as mudanas nas finanas tm constitudo uma dinmica internacionalizada, calcada numa verdadeira macroestrutura financeira, de mbito transnacional... (...) A dominncia financeira a financeirizao expresso geral das formas contemporneas de definir, gerir e realizar riqueza no capitalismo. Por dominncia financeira apreende-se, inclusive conceitualmente, o fato de que todas as corporaes mesmo as tipicamente industriais, como as do complexo metalmecnico e eletroeletrnico tm em suas aplicaes financeiras, de lucros retidos ou de caixa, um elemento central d o processo de acumulao global de riqueza.12Q u a n d o se d a internacionalizao propriamente dita d o capital, este descola-se das naes, dos subsistemas econmicos nacionaisj Ainda que guarde alguns traos importantes de sua origem ou enrai-l z a m e n t o nacional, adquire significados que transcendem as fronteiras] desta ou daquela nao. So vrias as m o e d a s nacionais negociadas em t o d o s os quadrantes, independentemente de sua filiao origin-l ria. claro que o iene japons, o m a r c o alemo, a libra esterlina inglesa e o dlar norte-americano, entre outras moedas, continuam a pre-i servar relaes bsicas c o m os subsistemas econmicos nacionais em que se formaram e continuam a ter vigncia. M a s isto n o impede q u essas mesmas m o e d a s a d q u i r a m significados novos, s vezes f u n d aJA rigor, o capital financeiro parece adquirir mais fora d o que em qualquer poca anterior, q u a n d o ainda se encontrava enraizado em centros decisrios nacionais, mais ou menos subordinados a o Estadoniio. Alm d a mundializao acelerada e generalizada das foras produtivas, dos processos econmicos, da nova diviso internacional do t r a b a l h o , formam-se redes e circuitos informatizados, p o r meio tios quais as transnacionais e os bancos movem o capital por todos os i cntros d o m u n d o . O locus do poder econmico e poltico deslocou-se, devido ascenso d o capital financeiro. Tem sido dito, em especial por radicais, que o lugar do poder na sociedade capitalista estava nos escritrios centrais de umas poucas centenas de corporaes multinacionais gigantes. Embora no haja dvida acerca do papel destas entidades na alocao de recursos e outras atividades correlatas, penso que se deve acrescentar uma considerao que merece ser enfatizada. O s ocupantes desses escritrios centrais so eles prprios, em crescentementais, devido a sua circulao internacional. N o m b i t o d o mercad o mundial, em que circulam o capital, a tecnologia e a fora de trab a l h o , em formas c a d a vez mais rpidas e generalizadas, desenvolvem-se significados novos dessas foras produtivas, alm d o que significam em m b i t o nacional. A rigor, o processo de internacionalizao d o capital , simulta n e a m e n t e , u m processo de formao d o c a p i t a l g l o b a l , e n t e n d i d o c o m o u m a forma nova e desenvolvida d o capital em geral. A o lado dos capitais singulares e particulares, compreendidos c o m o nacionais e setoriais, formas d o capital em geral, subsumindo queles e confe-. rindo-lhes novos significados. importante compreender que, mais que nunca, no capitalismo contemporneo as finanas ditam o ritmo da economia (...) e, neste sen-Alain Labrousse e Alain Wallon (direo), La plante des drogues (organisations criminelles, guerres et blanchiment), Editions du Seuil, Paris, 1993, pp. 199-200.1 1Jos Carlos de Souza Braga, "A Financeirizao da Riqueza", Economia e sociedade, n. 2, Instituto de Economia da Unicamp, Campinas, 1993, pp. 25-57; citao da p. 26.1 26869T E O R I A S DA G L O B A L I Z A OMETFORAS DA GLOBALIZAOmedida, constrangidos e controlados pelo capital financeiro opera d o por meio de redes globais do mercado financeiro. Em outras pa' vras, o poder real no est totalmente nos escritrios das corpor es, mas nos mercados financeiros. O que vlido para diretores corporaes tambm vlido para os que controlam o poder poli co (nacional). Cada vez mais, eles tambm so controlados pel mercados financeiros, no que podem e no que no podem fazer.*3continuam presentes e vlidos, desenvolvem-se as relaes, os procesNOS e as estruturas que constituem a organizao e a dinmica d o capital em escala mundial. Assim se subvertem noes, conceitos, categorias o u interpretaes. O q u e parecia evidente e c o n s o l i d a d o p o d e parecer duvidoso, inacabado o u superado. De forma errtica o u sistemtica, o pensamento cientfico est sendo provocado pelos desafios da globalizao d o capital.N a p o c a d a g l o b a l i z a o d o c a p i t a l i s m o , o c a p i t a l e m ger a d q u i r e maior universalidade. N o s subsume as mais diversas fo m a s de capital singular e particular, o u nacional e setorial, c o m o t o r n a p a r m e t r o universal das atividades e relaes desenvolvidas p indivduos e povos, p o r empresas e conglomerados nacionais e t r a n a c i o n a i s , p o r g o v e r n o s nacionais e organizaes multilaterais, capital em geral, cada vez mais n o s internacional mas propriame te global, passa a ser u m p a r m e t r o decisivo n o m o d o pelo qual es m e s m o capital se p r o d u z e reproduz, em m b i t o nacional, region setorial e mundial. O s horizontes histricos e tericos abertos pela internacionali o d o capital, compreendendo u m a forma desenvolvida d a repro o ampliada deste capital, logo pem em causa as noes de econ mia nacional, de desenvolvimento econmico nacional, de coloniali m o , de imperialismo, de dependncia, de bilateralismo, de multilat ralismo etc. Essas noes continuam de alguma ou muita validad permitindo descrever e interpretar realidades particulares em diferen tes partes d o m u n d o . Expressam relaes, processos e estruturas mui t o presentes e evidentes nas condies de vida dos indivduos, dos gru pos, das classes, das tribos, dos cls, dos povos, das naes e naciona lidades. M a s p o r dentro e p o r sobre a economia nacional, o imperia lismo e o multilateralismo, alm de outras realidades e conceitos q u Paul M. Sweezy, "The Triumph of Financial Capital", Monthl Review, vol. 46, n 2, Nova York, 1994, pp. 1-11; citao das pp. 9-10'1 37071CAPTULO 4A interdependncia das naesA interpretao sistmica das relaes internacionais j est bastante desenvolvida em e s t u d o s e c o n t r o v r s i a s sobre a p r o b l e m t i c a d a mundializao. A teoria sistmica parece oferecer q u a d r o s de referncia consistentes, de m o d o a taquigrafar aspectos importantes d a organizao e dinmica da sociedade mundial. Estas anlises sistmicas comeam p o r reconhecer que, aos sistemas nacionais, t o m a d o s u m a um, e aos regionais, c o m b i n a n d o duas ou mais naes, superpe-se o sistema mundial. O sistema mundial, em curso de formao e t r a n s formao desde o final da Segunda Guerra M u n d i a l e francamente dinamizado depois d o trmino da Guerra Fria em 1 9 8 9 , contempla economia e poltica, blocos econmicos e geopolticos, soberanias e hegemonias. Reconhece que o sistema-mundo tende a predominar, estabelecendo poderosas injunes a uns e outros, naes e nacionalidades, corporaes e organizaes, atores e elites. Confere a o sistema mundial vigncia e consistncia, j que estaria institucionalizado em agncias mais ou menos ativas, c o m o a Organizao das Naes Unidas ( O N U ) , o F u n d o M o n e t r i o Internacional (FMI), o Banco M u n dial (BIRD) e muitas outras. Alm disso, a noo de sistema mundial contempla a presena e a vigncia das empresas, corporaes e conglomerados transnacionais. Nesse contexto, os meios de comunicaoT E O R I A S DA G L O B A L I Z A OA I N T E R D E P E N D N C I A DASNAESrevelam-se particularmente eficazes para desenhar e tecer o imaginrio d e t o d o o m u n d o . A mdia impressa e eletrnica, cada vez mais acoplada em redes multimdia universais, constituem a realidade e a iluso da aldeia global. A rigor, a sociedade m u n d i a l p o d e ser vista c o m o u m sistema social c o m p l e x o , n o m b i t o d o qual encontram-se o u t r o s sistemas mais o u menos simples e complexos, t a n t o a u t n o m o s e relativamente a u t n o m o s c o m o s u b o r d i n a d o s , ou subsistemas. N o m b i t o d a sociedade mundial, logo se destacam o sistema econmico e o poltic o , m a s t a m b m o u t r o s p o d e m tornar-se relevantes, em t e r m o s da organizao e dinmica d a mundializao. T o m a d o c o m o um sistema de alta complexidade, a sociedade mundial pode ser vista c o m o u m p r o d u t o d a diferenciao crescente decorrente da evoluo dos sistem a s que a antecedem e c o m p e m . Surge uma histria mundial concatenada. (...) Em todos os lugares eletricidade vale como eletricidade, dinheiro como dinheiro, homem como homem com as excees que sinalizam um estado patolgico, atrasado e ameaado. Em todos esses planos pode-se registrar um rpido crescimento de coerncias em escala mundial. (...) Na medida em que esferas funcionais como a religio, a economia, a educao, a pesquisa, a poltica, as relaes ntimas, o turismo do lazer, a comunicao de massas, se desdobram automaticamente, elas rompem as limitaes de territrio social s quais todas esto inicialmente sujeitas. (...) A constituio da sociedade mundial conseqncia d o princpio da diferenciao social formulando mais precisamente: a conseqncia da estabilizao eficaz desse princpio de diferenciao. Frente a esse processo, o desenvolvimento cientfico-econmico-tcnico e a positivao do direito no so fatores autnomos, mas tornaram-se possveis pela mudana estrutural. Essa tese est relacionada concluso geral da teoria de sistemas...1A teoria sistmica privilegia a funcionalidade sincrnica, a articularo eficaz e produtiva das partes sincronizadas e hierrquicas d o lodo sistmico ciberntico. o ambiente d a escolha racional, d a s o p es mediatizadas por linguagens estabelecidas com base em sistemas ile signos cada vez mais baseados nas tcnicas da eletrnica. Permite desenvolver todos sincronizados em t o d o s mais amplos e abrangentes, desde o homo economicus, politicus, sociologicus, ciberneticus at a economia mundial, sempre no mbito d a racionalidade pragmtica de iii ores. Sim, os sistemas se compem d e atores simples e complexos, desde indivduos e grupos a instituies e organizaes, compartilhando conjuntos de valores, comunicando-se com base em determinadas linguagens, a t u a n d o hedonisticamente e acomodando-se bem o u mal S regras institucionalizadas n o m e r c a d o . Privilegia a estabilidade, normalidade, harmonia, equilbrio, funcionalidade, eficcia, p r o d u t i vidade, o r d e m , evoluo. Transfere p a r a a realidade social, micro e macro, nacional e mundial, o princpio epistemolgico que funda a t Iberntica: entropia, homeostase, input, output, feedback etc. A sociedade s pode ser compreendida atravs de um estudo das mensagens e das facilidades de comunicao de que disponha; e de que, no futuro desenvolvimento dessas mensagens e facilidades de comunicao, as mensagens entre o homem e as mquinas, entre as mquinas e o homem, e entre a mquina e a mquina esto destinadas a desempenhar papel cada vez mais importante. (...) O funcionamento fsico do indivduo e o de algumas mquinas de comunicao mais recentes so exatamente paralelos no esforo anlogo de dominar a entropia atravs da realimentao. (...) O sistema nervoso e a mquina automtica so, pois, fundamentalmente semelhantes no constiturem, ambos, aparelhos que tomam decises com base em decises feitas no passado. (...) Somos escravos de nosso aperfeioamento tcnico. (...) Modificamos to radicalmente nosso meio ambiente que devemos agora modificar-nos a ns mesmos para poder viver nesse novo meio ambiente.2 2Niklas Luhmann, Sociologia do Direito, 2 vols., traduo de Gustavo Bayer, Edies Tempo Brasileiro, Rio de Janeiro, 1985, vol. II, pp. 154-156.1Norbert Wiener, Ciberntica e sociedade (O Uso Humano de Seres Humanos), traduo de Jos Paulo Paes, Editora Cultrix, So Paulo, 1968, pp. 16, 26, 34 e 46.7677T E O R I A S DA G L O B A L I Z A OA I N T E R D E P E N D N C I A DASNAESO s p a r m e t r o s lgicos estabelecidos pela teoria sistmica, ca vez mais influenciada pela ciberntica, aparecem em forma crescen nas reflexes sobre a organizao e a dinmica da sociedade mundia Trata-se de u m m o d o de taquigrafar aspectos da realidade, permiti d o construir modelos e estratgias, ou sistemas decisrios. O sistema poltico global compreende um conjunto especfico de r laes concernentes a uma escala de determinados problemas envo vidos na consecuo, ou busca organizada, de atuao coletiva e nvel global. Envolve a administrao de uma rede de relaes centr da nas articulaes entre a unidade lder e os que buscam ou luta por liderana. (...) As unidades que estruturam a interao de polt ca global so as potncias mundiais. Estas estabelecem as condi ' da ordem no sistema global. Elas so as capazes e dispostas a ag Organizam e mantm coalizes e esto presentes em todas as parte! do mundo, habitualmente mobilizando foras de alcance global. Sua, aes e reaes definem o estado da poltica em nvel global. (...) sistema mundial uma orientao para que se possa visualizar os ranjos sociais mundiais em termos de totalidade. Permite pesquisa as relaes entre as interaes de alcance mundial e os arranjo sociais em nveis regional, nacional e local.! 3Violncia e t o r t u r a . T a m b m p o d e m adquirir relevncia regional o u iiiinulial atores de tipo nacional, podendo entrar ativa ou passivamente no jogo das pendncias regionais e mundiais. Uns e outros sintetizariam muito do que so as relaes, controvrsias, solues e impasses . M I entes n o mbito da mundializao. Mas, n o sistema mundial assim concebido, os Estados nacionais p n t i n u a m a desempenhar os papis de atores privilegiados, ainda que freqentemente desafiados pelas corporaes, empresas o u conglomerlos. Polarizam muitas das relaes, reivindicaes, negociaes, aslociaes, tenses e integraes que articulam o sistema mundial. D a i tese da interdependncia das naes. M u i t o d o que ocorre e p o d e ocorrer n o mbito da globalizao sintetiza-se em noes produzidas no jogo das relaes entre pases: diplomacia, aliana, pacto, paz, blo60, bilateralismo, multilateralismo, integrao regional, clusula de nao mais favorecida, bloqueio, espionagem, dumping, desestabilizao de governos, beligerncia, guerra, invaso, ocupao, terrorismo de Estado. T o d a s essas e outras noes dizem respeito interdependncia das naes. Alis, interdependncia u m a idia m u i t o c o mum em anlises e fantasias produzidas acerca de configuraes e movimentos da sociedade global. A interdependncia das naes focaliza principalmente as relaes exteriores, diplomticas, internacionais. Envolve Estados passionais t o m a d o s c o m o soberanos, formalmente iguais em sua soberania, a despeito de suas diversidades, desigualdades e hierarquias. E diz respeito a bilateralismos, multilateralismos e nacionalismos, a c o m o d a n do ideais de soberania e realidades geoeconmicas e geopolticas regionais e mundiais. Apia-se sempre n o emblema, ou paradigma, d a sociedade nacional, d o Estado-nao, reconhecendo que este est sendo desafiado pelas relaes internacionais, pelo jogo das alianas o u disputas entre os blocos geoeconmicos ou geopolticos, pelas exigncias da soberania e as lutas pela hegemonia. Essa interdependncia, j bastante teorizada, diz respeito s vantagens e responsabilidades de naes dominantes, ou superpotncias, bem c o m o das naes dependentes, subordinadas ou alinhadas. M a s tambm h fundamentaesN a base da idia de que a sociedade mundial pode ser vista como um sistema coloca-se a tese de que o m u n d o se constitui de um siste m a de atores, ou um cenrio n o qual movimentam-se e predomina atores. So de todos os tipos: Estados nacionais, empresas transnacio nais, organizaes bilaterais e multilaterais, narcotrfico, terrorismoJ G r u p o dos 7, O N U , FMI, BIRD, F A O , O I T , AIEA e muitos outros] compreendendo naturalmente tambm as organizaes no-governan mentais (ONGs) dedicadas a problemas ambientais, defesa de popula^ es nativas, proteo de direitos h u m a n o s , denncias de prticas d eGeorge Modelski, Long Cycles in World Politics, University o Washington Press, Seattle, 1987, pp. 7-8, 9 e 20.3T E O R I A S DAGLOBALIZAOA INTERDEPENDNCIADASNAESe alegaes em que se estabelecem as responsabilidades da O N U , d F M I e praticamente a maioria das agncias, organizaes e corpora es que povoam o cenrio mundial. T a m b m a Unio Europia, a Co-* munidade dos Estados Independentes (CEI), o T r a t a d o de Livre Comrcio da Amrica d o N o r t e (NAFTA), o M e r c a d o Sul-AmericanQ ( M E R C O S U L ) , a A s s o c i a o d a s N a e s d o Sudoeste Asitico (ASEAN) e a Cooperao Econmica d a sia e d o Pacfico (APEC), entre outras frmulas de integrao regional, organizam-se e funcion a m com base em u m a definio sistmica de interdependncia. N o conjunto, os estudos inspirados na tese da interdependncia das naes p r o c u r a m reconhecer aspectos mais o u m e n o s novos e notveis da mundializao, mas sempre fundados n o emblema da sociedade nacional, o u melhor, d o Estado-nao, n o suposto de que a essncia desse Estado a soberania; uma soberania que est sendo franca e drasticamente redefinida n o jogo das relaes, processos e estruturas que constituem a sociedade global. Sim, a tese da interdependncia das naes bem u m a elaborao sistmica de c o m o se desenvolve a problemtica mundial. Diz respeit o a um cenrio em que a maior parte d o s problemas aparece nas razes, estratgias, tticas e atividades de atores principais e secundrios, todos jogando c o m as possibilidades d a escolha racional.relaes. N a d a garante que a relao que designamos de "interdependncia" ser caracterizada como de mtuo benefcio.4A idia de sistema mundial reconhece as novas realidades d a glohli/ao, m a s persiste na tese das relaes internacionais, o q u e reafirma a continuidade, vigncia o u preeminncia d o Estado-nao. Reconhece as disparidades entre os Estados nacionais, q u a n t o capacidiulc de a t u a o n o cenrio mundial, em termos polticos, e c o n m i cos, militares, geopolticos, culturais e tantos o u t r o s . Procura fundaIIK-mar algumas caractersticas da sociedade global, n o que se refere a itlies internacionais, geopolticas e geoeconmicas, bem c o m o formao e dinmica de regionalismos. Ajuda a m a p e a r relaes, procesION e estruturas especficas d a mundializao. Inclusive funda-se n a Idia de que o m u n d o , isto , a coletividade das naes, em t o d a s as luas diversidades e desigualdades, pode ser visto c o m o u m a totalidade, um t o d o c o n t e m p l a n d o partes o u atores interdependentes. M a s tende a ver o m u n d o c o m o u m t o d o que se volta p a r a a interdependncia negociada, administrada, pacfica. Supe a paz entre as naes dominantes e subordinadas, o u centrais e perifricas, c o m o tendncia cessaria, predominante o u ideal realizvel.5Em algumas formulaes, a tese de que o m u n d o p o d e ser visto i onio u m sistema implica certa dose de idealizao. H algo de utpico na maneira pela qual algumas formulaes sobre a interdependncia sistmica supem a integrao, o equilbrio o u a h a r m o n i a entre l l t a d o s nacionais, corporaes, estruturas mundiais de d o m i n a o e a p r o p r i a o , elites, classes, g r u p o s e o u t r o s " a t o r e s " presentes n oInterdependncia, definida em poucas palavras, significa mtua dependncia. Na poltica mundial, interdependncia diz respeito a situaes caracterizadas pelos efeitos recprocos entre naes ou entre atores em diferentes naes. Estes efeitos com freqncia resultam de transaes internacionais: fluxos de dinheiro, mercadorias, pessoas e mensagens atravs das fronteiras. Essas transaes intensificaram-se dramaticamente desde a Segunda Guerra Mundial.4(...)iAs relaes de interdependncia sempre envolvem custos, j que a interdependncia restringe a autonomia; mas impossvel especificar de antemo se os benefcios de uma relao iro exceder os custos. Isto depender da categoria dos atores, tanto quanto da natureza dasRobert O. Keohane e Joseph S. Nye, Power and Interdependence, 2* edio, HarperCollins Publishers, 1989, pp. 8,9 e 10. 5 Raymond Aron, Paz e guerra entre as naes, traduo de Srgio Bath, Editora Universidade de Braslia, Braslia, 1986; Karl Deutsch, Anlise das relaes internacionais, traduo de Maria R. Ramos da Silva, Editora Universidade de Braslia, Braslia, 1982; Norberto Bobbio, A era dos direitos, traduo de Carlos Nelson Coutinho, Editora Campus, Rio de Janeiro, 1992.8081T E O R I A S DA G L O B A L I Z A OA I N T E R D E P E N D N C I A DASNAEScenrio local, nacional, regional e mundial. Uma utopia idealizando] f o r m a o social presente e f u n d a m e n t a n d o diretrizes destinadas M aprimor-la. Assim, a comunidade mundial aparece como um "sistema", p e l a qual queremos significar uma coleo de partes interdependenteH antes do que um grupo de entidades bastante independentes, c o m a era o caso no passado. Como conseqncia, o distrbio d o estadfl normal das coisas em qualquer parte do mundo logo repercute pofl todo o mundo, conforme muitos eventos recentes claramente demonstram. (...) O mundo no pode mais ser visto como uma colel io de (...) naes e um conjunto de blocos econmicos e polticos. Em ni lugar disso, o mundo deve ser visto como um conjunto de naes I e regies formando um sistema mundial, por meio de arranjos de inter- dependncias. (...) O sistema mundial emergente requer uma persB pectiva holstica no que se refere ao futuro desenvolvimento mundialB tudo parece depender de tudo, devido trama das interdependncia! entre as partes e o t o d o .6do sistema m u n d i a l . Ainda que reconheam a fora das empresas, corI ii aes e conglomerados transnacionais, c o m p r e e n d e n d o inclusive a iniplitude dos espaos que o c u p a m ou invadem, ainda assim os atores situados na perspectiva da teoria sistmica c o n t i n u a m a privilegiar II stado-nao. Este continua a ser o principal emblema, o u m e s m o p.u.idigma, da interpretao sistmica d a mundializao. Um sistema internacional um padro de relaes entre unidades bsicas da poltica mundial, caracterizado pelo escopo dos objetivos almejados por aquelas unidades e as diretrizes desenvolvidas por elas, assim como pelos meios utilizados de modo a realizar aqueles objetivos e implementar aquelas diretrizes. Este padro amplamente determinado pela estrutura d o mundo, a natureza das foras que operam atravs ou dentro das maiores unidades, bem c o m o pela capacidade, nvel de fora e poltica cultural dessas unidades. (...) Tal definio corresponde s definies aceitas de sistemas polticos nacionais, que tambm so caracterizados pelo escopo dos objetivos polticos (o Estado restrito versus o Estado totalitrio, o Estado do bem-estar social versus o Estado da livre empresa) e pelos mtodos de organizao do poder (relaes constitucionais entre os ramos d o governo, tipos de sistemas partidrios).7E n q u a n t o teoria da sociedade, t o m a d a c o m o u m sistema a m p l o e c o m o u m conjunto de subsistemas, a teoria sistmica d o m u n d o , era boa medida, u m a transposio da teoria sistmica d o Estado-nao] M u i t o d o que j se elaborou acerca da organizao e dinmica d o Es-^ t a d o nacional tem sido transposto para a anlise d o sistema mundialj claro que os autores situados nessa perspectiva terica empenham^ se em reconhecer as originalidades e complexidades da realidade so-^ ciai mundial. Reconhecem que os problemas e dilemas da organizao] e dinmica da mundializao nascem neste m b i t o , precisamente devido s originalidades e complexidades d a sociedade mundial. M a s c o n t i n u a m a privilegiar o Estado-nao c o m o o a t o r p o r excelncia] claro q u e os estudos realizados n a tica d a teoria sistmica esto dedicados a esclarecer problemas tais c o m o os seguintes: interdependncia e dependncia, alianas e blocos, bilateralismo e multilateralismo, integrao nacional e integrao regional, geoeconomia e geopoltica, narcotrfico e terrorismo, guerra e revoluo, a r m a m e n tismo e pacifismo, ambientalismo e poluio, soberania e hegemonia. Esses e o u t r o s so problemas emergentes e recorrentes n o m b i t o dasMihajlo Mesarovic e Eduard Pestel, Mankind at the Turning Point (The! Second Report to the Club of Rome), E.P. Dutton e Reader's Digest Press, Nova York, 1974, pp. 18-21.67 Stanley Hoffinann, "International Systems and International Law", publicado por Klaus Knorr e Sidney Verba (editores), The International System (Theoretical Essays), Princeton University Press, Princeton, 1967, p. 207. A citao compreende tambm o texto da nota n 4.8283T E O R I A S DA G L O B A L I Z A OA I N T E R D E P E N D N C I A DASNAEScenrio local, nacional, regional e mundial. Uma utopia idealizando f o r m a o social presente e f u n d a m e n t a n d o diretrizes destinadas aprimor-la. Assim, a comunidade mundial aparece como um "sistema", pei qual queremos significar uma coleo de partes interdependentes antes do que um grupo de entidades bastante independentes, com? era o caso no passado. Como conseqncia, o distrbio do estad normal das coisas em qualquer parte do mundo logo repercute po t o d o o m u n d o , conforme muitos eventos recentes claramente de monstram. (...) O mundo no pode mais ser visto como uma cole de (...) naes e um conjunto de blocos econmicos e polticos. E lugar disso, o mundo deve ser visto como um conjunto de naes regies formando um sistema mundial, por meio de arranjos de inter dependncias. (...) O sistema mundial emergente requer uma pers pectiva holstica no que se refere ao futuro desenvolvimento mundial tudo parece depender de tudo, devido trama das interdependncia entre as partes e o t o d o .6do sistema mundial. Ainda que reconheam a fora das empresas, corporaes e conglomerados transnacionais, compreendendo inclusive a iimplitude dos espaos que o c u p a m ou invadem, ainda assim os atoi cs situados na perspectiva da teoria sistmica continuam a privilegiar 0 Estado-nao. Este continua a ser o principal emblema, o u mesmo paradigma, da interpretao sistmica da mundializao. Um sistema internacional um padro de relaes entre unidades bsicas da poltica mundial, caracterizado pelo escopo dos objetivos almejados por aquelas unidades e as diretrizes desenvolvidas por elas, assim como pelos meios utilizados de modo a realizar aqueles objetivos e implementar aquelas diretrizes. Este padro amplamente determinado pela estrutura do mundo, a natureza das foras que o p e r a m atravs ou dentro das maiores unidades, bem como pela capacidade, nvel de fora e poltica cultural dessas unidades. (...) Tal definio corresponde s definies aceitas de sistemas polticos nacionais, que tambm so caracterizados pelo escopo dos objetivos polticos (o Estado restrito versus o Estado totalitrio, o Estado do bem-estar social versus o Estado da livre empresa) e pelos mtodos de organizao do poder (relaes constitucionais entre os ramos do governo, tipos de sistemas partidrios).7E n q u a n t o teoria da sociedade, t o m a d a c o m o um sistema a m p l o c o m o u m conjunto de subsistemas, a teoria sistmica d o m u n d o , e boa medida, u m a transposio da teoria sistmica d o Estado-nao; M u i t o d o que j se elaborou acerca da organizao e dinmica d o Es t a d o nacional tem sido transposto p a r a a anlise d o sistema mundial claro que os autores situados nessa perspectiva terica e m p e n h a m se em reconhecer as originalidades e complexidades da realidade so ciai mundial. Reconhecem que os problemas e dilemas da organiza e dinmica da mundializao nascem neste m b i t o , precisamente de vido s originalidades e complexidades d a sociedade m u n d i a l . M a | continuam a privilegiar o Estado-nao c o m o o ator p o r excelncia]6 claro que os estudos realizados na tica da teoria sistmica esto dedicados a esclarecer problemas tais c o m o os seguintes: interdependncia e dependncia, alianas e blocos, bilateralismo e multilateralismo, integrao nacional e integrao regional, g e o e c o n o m i a e geopoltica, narcotrfico e terrorismo, guerra e revoluo, a r m a m e n tismo e pacifismo, ambientalismo e poluio, soberania e hegemonia. Esses e outros so problemas emergentes e recorrentes n o m b i t o das7Mihajlo Mesarovic e Eduard Pestel, Mankind at the Turning Point (Th Second Report to the Club of Rome), E.P. Dutton e Reader's Diges Press, Nova York, 1974, pp. 18-21.Stanley Hoffinann, "International Systems and International Law", publicado por Klaus Knorr e Sidney Verba (editores), The International System (Theoretical Essays), Princeton University Press, Princeton, 1967, p. 207. A citao compreende tambm o texto da nota n. 4.82T E O R I A S DA G L O B A L I Z A OA I N T E R D E P E N D N C I A DAS1NAESrelaes internacionais, sempre envolvendo Estados nacionais, mas t a m b m sempre ultrapassando seus limites. Da o empenho evidente nos estudos sistmicos pelo esclarecimento d o significado e importncia das organizaes regionais e mundiais de t o d o tipo, desde a O N U e o FMI at a Organizao Internacional d o T r a b a l h o (OIT) e a Agn-! cia Internacional de Energia Atmica (AIEA), entre muitas outras. Cabe reiterar, n o entanto, que em boa parte das anlises sistmicas sobre a sociedade mundial, t o m a d a n o seu t o d o ou em seus sub-! sistemas, persiste a prioridade conferida a o Estado-nao. Ainda que o u t r o s atores revelem-se p o d e r o s o s , impositivos e a b r a n g e n t e s , em! m b i t o nacional, regional e mundial, o Estado-nao permanece com o o p a r m e t r o principal, c o m o o ator por excelncia n o jogo das re-' laes, decises e implementaes em curso na sociedade mundial. A funo reguladora das instituies internacionais, exercendo presso sobre os Estados, quando se trata da colaborao e competio entre eles, no esgota evidentemente toda a histria. O critrio da sua utilidade para os Estados sugere que, em sentido mais amplo, as organizaes internacionais devem ser concebidas como agncias de servios. Podem ser consideradas como canais por meio dos quais os Estados prestam-se servios mutuamente; ou como corpos burocrticos criados e mantidos pelos Estados para prover de servios os seus membros. (...) Os Estados mais desenvolvidos apiam-se nos servios internacionais para facilitar a conduta da sua diplomacia e d o seu comrcio internacional; e os menos desenvolvidos esperam das agncias internacionais mobilizao da assistncia sem a qual no poderiam sobreviver. As organizaes internacionais so elementos suplementares do sistema mundial, designados a fazer pelos Estados algumas das coisas que estes no podem realizar por si mesmos.8 claro q u e os atores so diversos e desiguais quanto a sua fora, .na posio estratgica, sua amplitude de a t u a o , seu monoplio d e tcniicas de poder. O G r u p o das 7 naes dominantes, compreendendo os Estados Unidos, J a p o , Alemanha, Inglaterra, Frana, Itlia e Canad, inegavelmente dispe de meios e m o d o s para influenciar direi rizes n o s de Estados dependentes, perifricos, do sul ou d o Tericiro M u n d o , c o m o t a m b m as organizaes bi e multilaterais, c o m preendendo a O N U , o FMI, a O I T , a AIEA, entre outras. Esse o m b i t o em que se colocam alguns problemas d a maior relevncia, s vezes novos e ainda n o interpretados. Um deles diz respeito a o princpio da soberania d o Estado-nao. claro que a soberania d o Estado-nao perifrico ou d o sul em geral muito limitada, quando n o simplesmente nula. Se provvel q u e alguns destes Estados nacionais alcanaram a soberania em momentos passados, muito mais provvel que eles pouco ou nada desfrutam de soberania na poca da globalizao d o m u n d o . A dinmica das relaes, processos e estruturas que constituem a globalizao reduzem ou anulam os espaos de soberania, inclusive para naes desenvolvidas, dominantes, centrais, d o norte ou d o Primeiro M u n d o . A despeito das p r e r r o gativas que preservam e inclusive procuram ampliar, inegvel que a soberania d o Estado-nao um princpio carente de nova jurisprudncia, e d e o u t r o estatuto jurdico-poltico. A incapacidade dos Estados nacionais para responder a um meio global problemtico resultar na delegao de tarefas e recursos aos fruns e s agncias internacionais e supranacionais, o que no significa que essa tendncia ser uniforme ou que necessariamente produzir na prtica impulsos democrticos. Essa expanso institucional, mesmo quando diretamente instigada e orientada por Estados nacionais (isto , por governos atuando em nome de Estados), provavelmente produzir um intrincado padro de cooperao e competio que impor ulteriores limitaes liberdade de ao dos Estados. Q u a n t o maior a necessidade de coordenao poltica, mais difcil ser para os governos seguirem sozinhos, e maior a tendncia das ins-Inis L. Claude Jr., States and the Global System (Politics, Law and Organization), MacMillan Press, Londres, 1988, p. 129. Consultar tambm: Robert Gilpin, La economia poltica de las relaciones internacionales, traduo de Cristina Pina, Grupo Editor Latinoamericano, Buenos Aires, 1990.884TEORIASDAGLOBALIZAOA INTERDEPENDNCIADASNAEStituies internacionais de estabelecerem limitaes adicionais J opes prticas disponveis "soberania" dos Estados. (...) O crescimento quantitativo e qualitativo de atores subnacionais, internacionais e transnacionais (...) necessariamente leva a uma contnua p e n e i trao atravs das fronteiras dos Estados. (...) O Estado no pode obstar ou reverter as condies materiais que definem o sistema mundial emergente: a revoluo tecnolgica na comunicao e transpor-V te, a mobilidade transnacional do capital, as dimenses globais e oi impacto da destruio ambiental.9capaz de proteger a economia poltica internacional da incurso de adversrios hostis. Isto essencial, porque os temas econmicos, se so suficientemente cruciais para os valores nacionais bsicos, p o dem converter-se tambm em temas de segurana militar. (...) N o obstante, no necessrio que o poder hegemnico exera dominao militar mundial. (...) As condies militares necessrias para a economia hegemnica so satisfeitas se o pas economicamente preponderante tem suficiente capacidade militar para impedir incurses de outros, que lhe impediriam acesso s principais reas de sua atividade econmica.10N o m b i t o d o sistema mundial, coloca-se tambm o problema da hegemonia, isto , d o Estado-nao mais forte e influente, m o n o p o l i l z a n d o tcnicas de poder e oferecendo ou i m p o n d o diretrizes a o s ou-1 tros. M a i s uma vez, a perspectiva sistmica privilegia o E s t a d o - n a o l t a n t o o que predomina c o m o o que se subordina. Nessa p e r s p e c t i v a i as relaes, os processos e as estruturas caractersticas da g l o b a l i z a o ! em geral dissolvem-se nas interpretaes relativas s relaes internai cionais desenvolvidas pelas diplomacias nacionais. A teoria da estabilidade hegemnica, tal como se aplica economiai a poltica internacional, define a hegemonia como preponderncia de recursos materiais. So especialmente importantes quatro grupos de recursos. Os poderes hegemnicos devem ter controle das matrias-8 primas, controle das fontes de capital, controle de mercados e Note-se que as noes de soberania e hegemonia revelam-se n o s problemticas m a s centrais, nas anlises sistmicas. G r a n d e parte dessas anlises dedica-se a codificar as condies e as possibilidades de soberania e hegemonia. So temas da maior relevncia n u m a poca e m que o m u n d o se t o r n a u m cenrio de muitas naes, em geral polarizadas p o r algumas mais fortes. Em d a d a poca, o m u n d o p o d e estar polarizado em t o r n o dos Estados Unidos e da Unio Sovitica, a o passo que em o u t r a polariza-se em t o r n o dos Estados Unidos, Jap o e Alemanha, o u E u r o p a Ocidental. M a s a Rssia polariza algumas naes d o ex-bloco sovitico. E a China poder tornar-se o u t r o plo o p o r t u n a m e n t e . E h naes, c o m o a frica d o Sul, ndia, M xico, Brasil e outras que desfrutam de posies especiais em sistemas geoeconmicos e geopolticos. Cabe observar, ainda, que dentre as naes-satlites so muitas as extremamente problemticas, p o r seus dilemas sociais, econmicos, polticos e culturais. Algumas n o possuem propriamente fisionomias de naes, j que esto atravessadas Joseph A. Camilleri e Jim Falk, The End of Sovereignty? (The Poltica of a Shrinking and Fragmenting World), Edward Elgar Publishing,] Hants, Inglaterra, 1992, pp. 252 e 253. Consultar tambm: Karl W. Deu-J tsch, Las naciones en crisis, traduo de Eduardo L. Surez, Fondo del Cultura Econmica, Mxico, 1981; Antonio Cassese, / Diritti Umani ne\ Mondo Contemporneo, Editori Laterza, Roma-Bari, 1988; Oscarj Schachter, International Law in Theory and Practice, Martinus Nijhoffl Publishers, Dordrecht-Boston-Londres, 1991.9vanta-1gens competitivas na produo de bens de valor elevado. (...) Um Estado hegemnico deve possuir suficiente poder militar, para serlp o r drsticas divises internas, envolvendo provincianismos, localismos, etnicismos, racismos o u fundamentalismos. Absorvem-se em lutas internas e empenham-se em adquirir o estatuto de naes. So a t o -io Robert O. Keohane, Despus de la hegemonia (Cooperacin y Discordia en La Poltica Econmica Mundial), traduo de Mirta Rosenberg, Grupo Editor Latinoamericano, Buenos Aires, 1988, pp. 50 e 59.8687T E O R I A S DA G L O B A L I Z A OA I N T E R D E P E N D N C I A DASNAESres problemticos em subsistemas regionais. Note-se, n o entanto, que esse m a p a d o m u n d o contempla tambm mltiplas corporaes privadas e organizaes governamentais de mbito bi e multilateral, c o m o atores mais ou menos fortes no jogo das lutas que se sintetizam, em ltima instncia, nas noes de soberania e hegemonia. Em boa medida, as anlises sistmicas conferem a esse jogo de atores n o cenrio mundial a responsabilidade pela organizao e dinmica d o sistema mundial, c o m o um t o d o e em seus subsistemas. Ainda que sua postura metodolgica seja sempre isenta, neutra ou equidistante, n o que se refere s relaes entre as partes e o t o d o , ou n o jogo das relaes entre os atores participantes d o sistema, a teoria sistmica envolve geralmente as noes de evoluo e modernizao d o capitalismo. De m o d o implcito, ou a b e r t a m e n t e , a maioria das interpretaes da realidade em termos da organizao e dinmica dos sistemas e subsistemas nacionais e mundiais contempla o suposto de que a organizao e dinmica prevalecentes tendem a pautar-se pelas sociedades modernas mais desenvolvidas, dominantes, centrais ou hegemnicas. H um evidente ocidentalismo, juntamente com o capitalismo, q u a n d o as interpretaes esclarecem o m o d o pelo qual as partes, as unidades, os segmentos ou os atores menos desenvolvidos, isto , arcaicos, perifricos ou marginais so contemplados na organizao e dinmica da sociedade m u n d i a l . A p r p r i a n o o de hegemonia, conforme tem sido definida nas anlises sistmicas, supe que o hegemnico no s centraliza e dirige, mas t a m b m orienta, impe ou implementa diretrizes destinadas a tornar os tradicionais em modernos. A expanso das organizaes transnacionais e a simultnea multiplicao de governos nacionais so, ambas, em certo sentido, respostas s tendncias de modernizao social, econmica e tecnolgica que esto varrendo o mundo. Os novos desenvolvimentos da economia, tecnologia e administrao tornaram possvel que organizaes funcionais especficas tais como a corporao ou o servio militar operassem em mbito global. (...) Transnacionalismo o modo norte-americano de expanso. Significa "liberdade de ao" antes d o que"poder de controle". A expanso dos Estados Unidos tem sido uma expanso pluralstica, na qual uma variedade de organizaes, governamentais e no-governamentais, procura realizar os objetivos importantes para eles no territrio de outras sociedades. (...) A penetrao norte-americana em outras sociedades era geralmente justificada (...) na base da superioridade tecnolgica e econmica, o que deu a grupos norte-americanos o direito presumido e at mesmo o dever de realizar certas funes especializadas em outras sociedades, n Nesta altura da narrao, logo se revelam algumas confluencias significativas. A teoria sistmica d o m u n d o compreende t a m b m as noes de ocidentalismo e capitalismo. So os padres, os ideais e as instituies d o capitalismo e ocidentalismo, ou vice-versa, que c o m a n dam a organizao e dinmica da mundializao. E mundializao tambm e sempre modernizao, mas modernizao nos moldes d o capitalismo ocidental. A teoria sistmica d o m u n d o envolve t a n t o as noes de ocidentalismo e c a p i t a l i s m o c o m o as de m o d e r n i z a o e e v o l u o , c o m preendendo integrao e diferenciao; n o que se refere a formas de vida e trabalho ou organizao e dinmica de sistemas e subsistemas, em m b i t o local, nacional, regional e mundial. Envolve o suposto de que o sistema social mundial o u tende a configurar-se c o m o u m t o d o articulado c o m base n o princpio da causao funcional, em que os atores so levados a comunicarem-se entre si e a agir em termos de escolha racional. U m a totalidade problemtica, mas tendente integrao. Supe que a dinmica das partes mais ou menos ativas, desenvolvidas ou predominantes, pode difundir-se pelas partes menos ativas, subdesenvolvidas ou subalternas. Sob certos aspectos, possvel dizer que a teoria d a m o d e r n i z a o m u n d i a l a d q u i r e m a i s consistnciaSamuel P. Huntington, "Transnational Organizations in World Politics", World Politics, vol. XXV, n 3,1973, pp. 344 e 345-6. Consultar tambm: Everett E. Hagen, On the Theory of Social Change (How Economic Growth Begins), The Dorsey Press, Homewood, Illinois, 1962.1 18889TEORIASDA G L O B A L I Z A OA I N T E R D E P E N D N C I A DASNAESq u a n d o se complementa, o u sofistica, com a teoria sistmica d o mundo. Podem ser t o m a d a s c o m o as duas faces da mesma m o e d a , isto , da mesma forma de refletir sobre a constituio e dinmica da realidade social, em mbito local, nacional, regional e mundial; nos mol-j des d o capitalismo, muitas vezes apresentado c o m o ocidentalismo ouj modernismo. Talvez se possa dizer q u e a teoria sistmica apresenta u m a verso mais elaborada da teoria d a modernizao, j que naquela e s c o n d e m ! se alguns dos valores, ou p a d r e s , ideais e instituies, que se mostram muito mais explcitos d o que nesta. O sistema social pode mudar as suas estruturas somente pela evoluo. Evoluo pressupe reproduo auto-referenciada, e muda as condies estruturais de reproduo pelos diversos mecanismos dei diferenciao, tais como variao, seleo e estabilizao. Alimenta desvios da reproduo normal. Tais desvios so em geral acidentais, mas, no caso dos sistemas sociais, podem ser intencionalmente produzidos. A evoluo, no entanto, opera sem um objetivo e sem previ- so. Pode produzir sistemas de mais alta complexidade. A longo prazo, pode transformar eventos improvveis em provveis; e algum observador pode ver isto como "progresso" (se o seu prprio sistema de referncia persuadi-lo disso). Somente a teoria da evoluo pode j explicar a transformao estrutural da segmentao estratificao e ! da estratificao diferenciao funcional; o que levou sociedade mundial de h o j e .12d o s " . N a realidade, so principalmente as "elites" dominantes (envolvendo indivduos, grupos, classes, organizaes governamentais, organizaes bi e multilaterais, corporaes nacionais e transnacionais) alguns dos principais " a t o r e s " que concretamente agem de m o d o a produzir, orientar e dinamizar "desvios" destinados a provocar m u dana ou evoluo. Uma parte volumosa d a p r o d u o de economistas, socilogos, cientistas polticos, gegrafos, demgrafos e demais cientistas sociais est inspirada, aberta ou implicitamente, p o r "objetivos" ou "previses" destinados a produzir crescimento, desenvolvim e n t o , industrializao, u r b a n i z a o , secularizao, i n d i v i d u a o , racionalizao, modernizao, evoluo, progresso. N o se t r a t a d e duvidar da iseno ou inocncia da teoria sistmica, mas sim de reconhecer que ela tem inspirado objetivos e previses destinados ocidentalizao d o m u n d o , nos moldes d o capitalismo. Dentre as caractersticas mais significativas da cultura ocidental, no contexto d o sistema social internacional, destaca-se: O desenvolvimento de quadros de referncia normativos e institucionalizados de organizao da sociedade secular desenvolvida; a o passo que a maioria das culturas no ocidentais mais importantes tem deixado maior espao para o "tradicionalismo", o que se evidencia nas economias predominantemente camponesas, pela posio social especial das aristocracias hereditrias, pelo relativamente baixo ou mesmo ausente nvel de educao de todos, menos uma pequena elite etc. Sejam quais forem as mais profundas bases culturais do predomnio dos valores ocidentais (e para mim esto em ltima instncia enraizados em orientaes religiosas), a conseqncia primeira de seu presente significado est na imensa nfase na importncia de dois nveis preliminares da operativa organizao das modernas sociedades, isto , da "modernizao" efetiva da estrutura poltica da sociedade e da economia. N o caso da poltica, o impulso no sentido d o desenvolvimento de um "Estado moderno" est, acima de tudo, na efetiva organizao de carter burocrtico, o que significa a eliminao ou drstica reduo da influncia dos grupos "tradicionais" deNote-se que "desvios" destinados a provocar m u d a n a social, ou m e s m o evoluo sistmica, p o d e m ser " i n t e n c i o n a l m e n t e produzi-lNiklas Lukmann, "The World Society as a Social System", Internatioi nal Journal of General Systems, vol. 8, 1982, pp. 131-138; citao dad pp. 133-134. Consultar tambm: Niklas Luhmann, Sociedad y sistemas la ambicin de la teoria, traduo de Santiago Lpez Petit e Dorothea Schmitz, Ediciones Paids Ibrica, Barcelona, 1990.1 290T E O R I A S DA G L O B A L I Z A OA I N T E R D E P E N D N C I A DASNAESpoder. (...) O outro contexto importante a modernizao da economia, que tem significado, mais ou menos, uma prioridade industrializao, como ns a entendemos, com o seu uso da organizao burocrtica, de uma gil e tecnicamente treinada fora de trabalho, extenso das transaes monetrias e da organizao d o mercado, alm de vrias outras caractersticas d o g n e r o .13Sob vrios aspectos, as interpretaes sistmicas d o m u n d o constituem-se em ingredientes n o s ativos, mas fundamentais, d o m o d o polo qual est ocorrendo a globalizao. Constituem u m vasto e c o m plexo tecido de interpretaes, orientando as atividades e os iderios de muitos atores e elites presentes e atuantes nos mais diversos lugares. Ajudam a taquigrafar e codificar, organizar e dinamizar, ou desenhar e cristalizar o mapa d o m u n d o , em conformidade c o m a perspectiva e os interesses daqueles que p r e d o m i n a m n o jogo das foras presentes e atuantes nas configuraes e nos movimentos d a sociedade global.C a b e observar, ainda, que as interpretaes sistmicas d o m u n d o , c o m o u m t o d o e em seus mltiplos subsistemas, so provavelmente as mais comuns entre as utilizadas praticamente pelos " a t o r e s " o u pelas "elites" dominantes, t a n t o em sociedades nacionais c o m o na sociedade mundial. Elas respondem, de m o d o sinttico e tcnico, s vrias exigncias desses atores ou elites. Permitem taquigrafar as complexidades e contradies das mais diferentes formaes sociais, de m o d o a eleger fatores, atributos, indicadores ou variveis, principais e secundrios, q u a n d o se t r a t a d e p r o v o c a r o u induzir " d e s v i o s " e " p r e v i s e s " . Podem ser tomadas c o m o elaboraes mais o u menos sofisticadas d a razo subjetiva, instrumental ou tcnica, construindo esquemas, modelos, estratgias ou jogos, p o r meio dos quais formulam-se diagnsticos e prognsticos, planos e projetos, diretrizes e implementaes. A capacidade de sobrevivncia dos sistemas sociais humanos depende, em grande medida, da sua capacidade de adaptar-se realidade mutvel. (...) J que as modas de pensamento e crenas (...) so mutveis, os sistemas sociais so constantemente ameaados desde dentro. (...) O s sistemas sociais so ameaados tambm d o exterior, pois que outros sistemas ameaam mud-lo ou destru-lo. (...) Os sistemas esto sempre sujeitos a presses do exterior e d o interior e devem permanecer sempre alerta, se querem preservar a prpria sobrevivncia a longo p r a z o .14Talcott Parsons, Politics and Social Structure, The Free Press, Nova York, 1969, pp. 305-306. Citao extrada do cap. 12: "Order and Community in the International Social System", pp. 292-310. Ervin Laszlo, La Visione Sistmica del Mondo, traduo de Davide Cova, Grupo Editoriale Insieme, Recco, Itlia, 1991, pp. 92-93.1 41 392CAPTULO 5A ocidentalizao do mundo(Desde que a civilizao ocidental passou a predominar nos q u a t r o cantos d o m u n d o , a idia de modernizao passou a ser o emblema d o desenvolvimento, crescimento, evoluo ou progresso. As mais diversas formas de sociedade, compreendendo tribos e naes, culturas e civilizaes, p a s s a r a m a ser influenciadas o u desafiadas pelos p a d r e s e valores scio-culturais caractersticos da ocidentalidade, principalmente sob suas formas europia e norte-americana. As noes de m e t r p o le e colnia, imprio e imperialismo, interdependncia e dependncia, entre outras, expressam tambm o vaivm d o processo histrico-social de ocidentalizao ou m o d e r n i z a o d o m u n d o . As noes de pas desenvolvido e subdesenvolvido, industrial e agrrio, central e perifrico, d o Primeiro, Segundo e Terceiro M u n d o s , d o n o r t e e d o sul o u moderno e arcaico, essas e as demais noes que p o v o a m e continuam a povoar o imaginrio mundial n o sculo X X , j nos primrdios d o XXI, trazem consigo a idia de modernizao do m u n d o . As noes de revoluo de expectativas, dualidades estruturais, t r o c a s desiguais, deteriorizao das relaes de intercmbio, terceiro-mundismo, nasserismo, maosmo, castrismo, populismo, socialismo, c o m u n i s m o , reforma e revoluo, entre muitas outras, tambm trazem consigo esta mesma idia de modernizao, em nveis nacionais, regionais e mundiais.97T E O R I A S DA G L O B A L I Z A OA O C I D E N T A L I Z A O DOMUNDOA p r p r i a a t u a o d a Organizao das N a e s Unidas ( O N U ) , pon suas diversas organizaes filiadas, n o que se refere economia, poltica, c u l t u r a , educao e o u t r a s esferas d a vida social, tem sido uma' a t u a o destinada a apoiar, incentivar, orientar ou induzir modernH zao, nos moldes d o ocidentalismo. D o mesmo m o d o as empresasj corporaes e conglomerados transnacionais operam de m o d o a incen-j tivar e induzir a modernizao das atividades e mentalidades. claro que a mdia impressa e eletrnica, organizada em redes internacionaisJ transnacionais ou planetrias, exerce papis decisivos na formulao, difuso, a l t e r a o e legitimao de p a d r e s , valores e instituies! m o d e r n o s , modernizados, modernizveis e modernizantes. A modernizao d o m u n d o implica a difuso e sedimentao dos p a d r e s e valores scio-culturais predominantes n a Europa Ocidental e nos Estados Unidos. Esto em causa os princpios da liberdade e igualdade de proprietrios articulados n o c o n t r a t o juridicamente esta-j belecido. Esto em causa os processos de urbanizao, de industriali-j z a o , de mercantilizao, de secularizao e de individuao. N o m b i t o d o ocidentalismo, p r e d o m i n a m n o s a individuao, mas< t a m b m e principalmente o individualismo. E m distintas gradaes,! tendem a predominar as figuras d o homo economicus e d o homo poli\ ticus, subsumindo as mais diversas formas e possibilidades da vida social. O individualismo possessivo, relativo propriedade, apropria-j o e a o mercado, expressa boa parte d o tipo de personalidade que! tende a p r e d o m i n a r n a sociedade m o d e r n a , modernizada, moderni-j zante ou modernizvel. " A concepo de m u n d o m o d e r n o , prevale-.' cente nas sociedades avanadas d a E u r o p a Ocidental e nas sociedades! de fala inglesa, g a n h o u a dianteira na formao de instituies inter nacionais e na transformao d o m u n d o , em resultado da generalizad a a d o o dos seus valores e instituies."1A tese d a modernizao d o m u n d o sempre leva consigo a tese de sua ocidentalizao, compreendendo principalmente os p a d r e s , valores e instituies predominantes na E u r o p a Ocidental e nos Estados Unidos. u m a traduo da idia de que o capitalismo u m processo civilizatrio n o s "superior", mas t a m b m mais ou menos inexorvel. Tende a desenvolver-se pelos q u a t r o cantos d o m u n d o , generalizando padres, valores e instituies ocidentais. claro que sempre se acomoda o u combina com os padres, valores e instituies c o m as quais se defronta nas mais diferentes tribos, sociedades, naes, nacionalidades, culturas e civilizaes. Pode conviver mais o u m e n o s tensa ou pacificamente com outras formas de organizao d a vida e trabalho; mas em geral p r e d o m i n a n d o . A teoria d a modernizao est na base de muitos estudos, debates, prognsticos, prticas e ideais relativos mundializao. T e m p o r suposto fundamental que t u d o que social se moderniza o u tende a modernizar-se, nos moldes d o ocidentalismo, a despeito dos impasses, ambigidades, dualidades ou retrocessos. Modernizar pode ser secularizar, individualizar, urbanizar, industrializar, mercantilizar, racionalizar. Implica o suposto de que o que j ocorreu e continua a ocorrer n a Inglaterra, Alemanha, Frana, Estados Unidos, C a n a d , J a p o e em o u t r a s naes, naturalmente em diferentes gradaes, certamente estar o c o r r e n d o em t o d a s as d e m a i s n a e s d a E u r o p a , sia, Oceania, frica, Amrica Latina e Caribe. O mesmo capitalismo que se consolida e desenvolve nos pases centrais, d o norte, metropolitanos ou dominantes tende a espalhar-se pelo m u n d o , impregnando as sociedades coloniais, subdesenvolvidas, agrrias, dependentes, perifricas, d o sul, d o Terceiro M u n d o . Sem esquecer que n o iderio da teoria da modernizao esto presentes a democracia, os direitos de cidadania; a institucionalizao das foras sociais em conformidade c o m padres jurdico-polticos de negociao e acomodao; o estabelecimento das condies e limites das mudanas sociais; as garantias con-C E . Black, The Dynamics of Modernization (A Study in Comparative) History), Harper & Row Publishers, Nova York, 1966, p. 139. Consul-) tar tambm: Serge Latouche, L'occidentalisation du monde, La Dcou-j verte, Paris, 1989; Jean Chesneaux, Modernit-monde, La Dcouverte, Pa-j1ris, 1989; Samir Amin, L'eurocentrisme (Critique d'une Idologie), Anthropos, Paris, 1988.S899T E O R I A S DA G L O B A L I Z A OA O C I D E N T A L I Z A O DOMUNDOtra as idias revolucionrias traduzidas em prticas; a precedncia da liberdade econmica em face da poltica; a primazia da c i d a d a n i a poltica em face da social e cultural . Pode-se dizer que a teoria da modernizao tem por base tambm o p r i n c p i o d a " m o invisvel", i m a g i n a d o pela p r i m e i r a vez p o r A d a m Smith. N a medida em que se desenvolve a diviso d o trabalho social em escala nacional, regional, internacional e global, promovese a difuso dos fatores produtivos, das capacidades produtivas, dos p r o d u t o s produzidos e d o bem-estar geral. N o limite, a m o invisvel p o d e garantir a felicidade geral de uns e outros, em t o d o o m u n d o , em conformidade com os princpios d o mercado, d o iderio d o liberalism o e n e o l i b e r a l i s m o : e c o n o m i a e l i b e r d a d e ; liberdade e c o n m i c a c o m o condio de liberdade poltica; liberdade e igualdade de p r o prietrios garantidos pelo contrato codificado n o direito.2 3O neoliberalismo dos tempos da globalizao d o capitalismo ret o m a e desenvolve os princpios que se haviam formulado e p o s t o em prtica c o m o liberalismo ou a doutrina da m o invisvel, a partir do sculo XVIII. M a s o que distingue o neoliberalismo p o d e ser o fato de que ele diz respeito vigncia e generalizao das foras d o mercado capitalista em m b i t o global. verdade que alguns de seus plos d o minantes e centros decisrios localizam-se nos Estados nacionais mais fortes. Em escala crescente, n o entanto, formam-se plos dominantes e centros decisrios localizados em empresas, corporaes e conglomerados transnacionais. A nascem diretrizes relativas desestatiza o , desregulao, privatizao, liberalizao e regionalizao. Sodiretrizes que principalmente o F u n d o M o n e t r i o Internacional (FMI) e o Banco M u n d i a l (BIRD) encarregam-se de codificar, divulgar, implementar e administrar. E n q u a n t o o liberalismo baseava-se n o princpio d a soberania nacional, ou a o menos tomava-o como p a r m e t r o , o neoliberalismo passa p o r cima dele, deslocando as possibilidades de soberania p a r a as organizaes, corporaes e outras entidades d e mbito global. So "elites" de vrios tipos que organizam e dinamizam as instituies multilaterais e as corporaes transnacionais, alm de o u t r a s entidades de alcance mundial. F o r m a m tecnoestruturas a r m a d a s d e recursos cientficos e tecnolgicos, em condies de produzir informaes, anlises, diagnsticos, prognsticos, diretrizes e prticas relativos a diferentes problemas e desafios, em escala mundial. evidente que a modernizao d o m u n d o , em geral na esteira da globalizao d o capitalismo, confere tarefas fundamentais aos quadros ou elites intelectuais. i4David C. McClelland, The Achieving Society, Irvington Publishers, Nova York, 1976; C.B. Macpherson, The Political Theory of Possessive Individualism, Oxford University Press, Oxford, 1990; T.H. Marshall, Cidadania, classe social e status, traduo de Meton Porto Gadelha, Zahar Editores, Rio de Janeiro, 1967, esp. cap. Ill: "Cidadania e Classe Social". John Eatwell, Murray Milgate e Peter Newman (editores), The Invisible Hand, The MacMillan Press, Londres, 1989; Milton Friedman, Capitalismo e liberdade, traduo de Luciana Carli, Abril Cultural, So Paulo, 1984.32Sim, a teoria da modernizao confere um papel especial s elites modernizantes e deliberantes. Podem ser elites intelectuais, empresariais, militares, religiosas e outras, vistas em separado e em conjunto. Seriam os grupos que inovam, mobilizam, organizam, dirigem, explicam e pem em prtica. O povo, as massas, os grupos e classes sociais so induzidos a realizar as diretrizes estabelecidas pelas elites modernizantes e deliberantes. Da a necessidade de alfabetizar, profissionalizar, urbanizar, secularizar, modificar instituies e criar novas, reverter expectativas e o u t r a s diretrizes, de m o d o a viabilizar a execuo e d i n a m i z a o d o s objetivos e meios de m o d e r n i z a o , m o d e r n o s , modernizantes. H algo de schumpeteriano na teoria da modernizao4John K. Galbraith, The New Industrial State, Hamish Hamilton, Londres, 1967, especialmente o cap. VI; Richard N. Gardner e Max F. Milikan (editores), The Global Partnership (International Agencies and Economic Development), Frederick A. Praeger Publishers, Nova York, 1968; Alvin W. Gouldner, El futuro de los intelectuales y el ascenso de la nueva clase, traduo de Nstor Miguez, Alianza Editorial, Madri, 1985.100101TEORIASDAGLOBALIZAOA OCIDENTALIZAODOMUNDOd o m u n d o c a m i n h a n d o na esteira da globalizao d o capitalismo. "